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Da medicina curativa do passado à medicina preventiva do futuro (30/11/1944)

(Discurso proferido na solenidade do encerramento do Curso de Saúde Pública, a 30 de novembro de 1944)

Senhores Sanitaristas

Se existe uma profissão à qual me sinta eu ligado pelos fraternos laços de profunda afinidade espiritual e para a qual se norteiem sempre os mais secretos eflúvios da minha simpatia, essa profissão, Senhores, é a do Médico. Talvez porque a ela me prendam o trato e a convivência amistosa durante o mais dilatado período da minha existência. Mas seguramente, em verdade, porque as mãos benfazejas que me acolheram ao nascer foram as mesmas que me embalaram no berço e me conduziram na vida, que me guiaram os primeiros passos e me teceram o destino, que me acariciaram na infância e me abençoam até hoje, as mãos piedosas e ternas, complacentes e boas de meu Pai.

Nascido e criado no lar de um médico, pude acompanhar de perto, em toda a minha vida, as grandezas e vicissitudes da Medicina. Formei o meu espírito na escola severa daquele sacerdócio.

Nas fráguas das minhas reminiscências guardo assim, indeléveis, as vivas recordações das noites insones do clínico torturado pelas angústias de um diagnóstico sombrio. Recordo ainda as vigílias aflitas na expectativa constante de um chamado de urgência. Revejo as bruscas partidas, altas horas da noite, espelhando na fisionomia os transes agudos da apreensão e da dúvida, como relembro também o alvoroço do regresso, à luz do dia, trazendo no semblante macerado pela insônia o brilho de um olhar em que resplandecia a satisfação incontida de uma nova vitória. Tenho, perenes, em minha lembrança, todos os instantes de ansiedades e triunfos, de indecisões e coragem, de tristezas e alegrias, de vacilações e audácias, de incertezas e vitórias, de meditação e estudo, de recolhimento e de êxtase, de sacrifícios e de glórias que constituem os episódios constantes de uma existência consagrada, integralmente, à majestade infinita do mais puro e nobre sacerdócio da Medicina.

Por isso, talvez, não me sinto um estranho entre vós. Por isso, com certeza, tão alvissareiramente aceitei o vosso desvanecedor convite, deslembrado das graves responsabilidades que assumia de paraninfar tão ilustrada e distinta plêiade de profissionais.

Sei bem, agora, que o cometimento está acima das minhas forças, que mal poderei aflorar os vossos conhecimentos, e mais dificilmente ainda, conseguirei penetrar os insondáveis arcanos da Ciência Médica.

Deixai, porém, que vos agradeça o gesto de fidalguia e que vos testemunhe, inicialmente, a expressão de toda a minha simpatia à espontaneidade da vossa confortadora homenagem.

Senhores médicos

Falando, há um ano atrás, em solenidade como esta, quando tive a honra de paraninfar ilustre turma de bacharéis da nossa Faculdade, referi-me ao sentido essencialmente dinâmico da evolução do Direito. Relembrando as diversas fases de sua história, recordo-me ter dito que pode ele estacionar, por um interregno de tempo, nas síncopes da civilização, mas evolve sempre nos ressurgimentos históricos, pára ou retarda a sua marcha, mas avança e continua eternamente acompanhando a longa e tortuosa experiência humana sobre a Terra.

Igual conceito se poderia aplicar em relação à Medicina. Longo caminho foi percorrido desde o empirismo da arte médica, cujas origens se perdem nos longes dos primeiros tempos da humanidade, até aos modernos princípios técnicos da Ciência Médica atual.

É fora de dúvida, por exemplo, que Hipócrates já escutava os ruídos do coração e sabe-se até que Harwey os comparava aos estranhos rumores da deglutição equina; mas, à medicina dos sintomas daquela época, guiada apenas pelos frágeis recursos da intuição e das hipóteses, se antepõe hoje, vitoriosa, a clássica medicina dos sinais, orientada pela segurança mecânica das técnicas modernas e racionais.

Ao velho estetoscópio de Laënnec se contrapõem agora os mais aperfeiçoados processos eletrocardiográficos. Em lugar da tímida e tateante percussão de Auenbrugger, que procurava ingenuamente surpreender o diagnóstico precoce de uma lesão pulmonar, admiramos atualmente o vertiginoso sistema brasileiro da Röntgen fotografia de Manuel de Abreu, capaz de descobrir incipientes lesões mínimas através de oportunos inquéritos coletivos operados em grandes massas de população. Os pacientes e demorados métodos analíticos de Pasteur desaparecem quase na distância e cederam passo aos prodígios da microscopia eletrônica, verdadeira janela pela qual se descortinam agora os mistérios infinitos da natureza. E das “balas mágicas” de Ehrlich, em sucessivas e constantes experiências de laboratório, conseguiu-se atingir, por fim, a maravilhosa síntese das vitaminas e sulfas até à palpitante realidade da espetacular e moderníssima penicilina.

Em tudo uma constante evolução, um infatigável labor de séculos, uma sedimentação gigantesca de vontades, um perpassar continuado de sacrifícios e renúncias, e uma cristalização progressiva de cintilações geniais.

Enquanto, porém, assim avançava a Medicina, dentro dos domínios da própria ciência, a humanidade torturada marchava, lentamente, por ínvios caminhos, pelejando pelo seu progresso e lutando pelo seu direito.

E, no cadinho do tempo, se acumularam também novas conquistas sociais, às quais se subordina igualmente a ciência médica, sofrendo o influxo das tendências generalizadas em cada época. “Não há equilíbrio social sem saúde”, pontifica R. Sand, e vemos, então, a medicina do indivíduo transmudar-se, aos poucos, na medicina da coletividade, na profilaxia das grandes massas, de mãos dadas com a própria Sociologia.

Dia a dia se observa que a medicina preventiva vai abrindo o seu caminho e substitui, cada vez mais, a simples medicina curativa de outrora. É a medicina da saúde, de que nos fala Delore, porque “a moléstia é tão facilmente evitável, às vezes, que importa, sobretudo, conhecer as leis da saúde e respeitá-las”.

Essa a medicina nova, a medicina preventiva do futuro, a medicina social, enfim. Dela falando, em rigorosa análise, doutrinou, um dia, o grande mestre Clementino Fraga: “Tratando com a vida, se é respeitável o intento da medicina, que cura, mais benemérito de apreço é o trabalho da medicina que previne: uma se dirige à saúde individual, ao passo que a outra corta o caminho aos males coletivos, fazendo obra de solidariedade humana, incomparavelmente mais eficiente na amplitude piedosa dos seus desígnios.”

É para essa missão tão nobre e altruística, tão consoladora e tão humana, que vos preparastes, Senhores médicos, neste rápido Curso de Sanitaristas.

Sei que poderei confiar plenamente na vossa consciência profissional, que exercitareis escrupulosamente a vossa privilegiada missão, que testemunharei, com ufania, os resultados preciosos das vossas atividades e que sabereis bem pesar as graves responsabilidades dos vossos deveres.

Haveis de estar lembrados que, ao esboçar os primeiros lineamentos do meu programa de governo já madrugara, em meu espírito, o desejo sincero de cooperar convosco proporcionando maior amplitude de ação às medidas profiláticas de saúde pública. Na trilogia administrativa que elegera então – Saneamento, Produção, Transportes – colocara, em primeiro plano, os vigilantes cuidados da medicina sanitária.

Desde então, e só no setor de saúde, eu já vos posso testemunhar, em largos traços, uma série de providências adotadas pelo meu governo, comprovando a instante preocupação minha por esse importante problema:

a) instalação, no Espírito Santo, dos primeiros serviços do Departamento Nacional de Obras e Saneamento a cuja frente se encontra o insigne engenheiro Dr. Hildebrando de Araújo Góis, glória legítima da engenharia brasileira;
b) início dos serviços de saneamento no vale do rio São Mateus;
c) acordo com o “SESP” para a construção e funcionamento do Centro de Saúde de Colatina, bem como para o provimento de água e instalação de esgotos naquela cidade como em outras localidades às margens do rio Doce;
d) obras definitivas de saneamento do vale do Itabapoana;
e) início da construção do Centro de Saúde de Vitória mercê de vultoso auxílio alcançado do governo federal;
f) criação e funcionamento do Serviço de Psicopatas e sua instalação no modernizado edifício da Ilha da Pólvora;
g) cessão de verba suficiente à edificação e instalação de toda a nossa rede de unidades distritais e postos de higiene do interior;
h) difusão de novos postos sanitários e criação dos de Afonso Cláudio, São Francisco, Muqui, Serra, Guaçuí, Santa Leopoldina e Guarapari, afora os criados em colaboração com o Serviço de Malária em Linhares, Itapemirim, Iconha, Jabaeté, Torres, Mimoso do Sul, Nova Almeida, Aracruz, Guarapari e Anchieta;
i) ampliação do quadro de técnicos, sobretudo das enfermeiras visitadoras e sensível melhoria do padrão de vencimentos de todos os funcionários;
j) regulamentação, dentro de modernizadas bases, do importante setor de Estatística Vital e Sanitária;
1) reorganização em novos moldes, dotando-o de vencimentos compatíveis com a dignidade de suas elevadas funções, do novo quadro de Sanitaristas do Estado ao qual, pelo vosso brilhante curso, vindes de conquistar indisfarçável direito;
m) edificação do novo pavilhão de isolamento prestes a ser inaugurado;
n) e, finalmente, a instituição deste primeiro curso estadual de Sanitaristas, conquista magnífica que devemos todos ao elevado espírito de compreensão e boa vontade do grande e operoso diretor geral do Departamento Nacional de Saúde Pública, Dr. João de Barros Barreto, orientador supremo da patriótica campanha de Saneamento do Brasil.

Por esta rápida síntese das realizações administrativas de um governo de vinte meses apenas, bem podereis avaliar do nosso cuidado e vigilância aos problemas de saúde, e do alentado propósito dos nossos cometimentos futuros. Sentimos que estamos no bom caminho. Que fazemos obra patriótica para um Brasil melhor de amanhã, porque não pode escapar ao estadista bem avisado a crescente importância da Medicina Social entre os deveres tutelares do Estado.

Desde os primórdios da medicina preventiva que se circunscrevia apenas à tática policial de combate às moléstias infecciosas pelas práticas truculentas de quarentena e das fumigações intensivas, até a técnica das vacinações sistemáticas, houve certamente preciosa evolução. Mas, daí por diante, o acelerado ritmo de sua importância sobrecresceu ainda mais e denunciou-se em toda a sua plenitude. A importância primordial do terreno humano que estava a exigir os atentos cuidados de uma vigilância severa, viu recrescer de súbito o perímetro de atuação da tutela estatal. E ao lado do combate às epidemias ressalta, cada vez mais, nas cogitações sanitárias do Estado Moderno, o cultivo atento do terreno humano desde os gestos iniciais de sua existência intra-uterina até a objetivação ideal de uma velhice tranquila; a cuidadosa preocupação da melhoria das condições ambientes pela conquista de um lar saudável, com todas as possibilidades de bem estar social atribuídas como direito e não como favor, aos nossos semelhantes, pelo vestuário apropriado, pela alimentação racional e abundante e pela constante propaganda de hábitos salutares.

Ao lado dos problemas preventivos, os problemas assistenciais convergem também para o ideal supremo do mundo melhor de amanhã. Se o “fim da vida é a própria vida” procuremos viver uma vida melhor. Lembrai-vos de que na própria e conservadora Grã-Bretanha, pátria do individualismo, já se mobilizam os espíritos para atender, pelo Seguro Social, a coorte imensa de desajustados e aflitos que regressarão, em breve, das trincheiras em que jogaram a vida e mutilaram os corpos por ideal sagrado que não pode e nem deve fenecer jamais: a Democracia. E, embora combatido, o “Plano Beveridge” penetra, aos poucos, em todos os corações que palpitam e em todas as consciências que não deixaram morrer os sublimes apelos da solidariedade humana.

“O ideal seria”, menciona aquele plano, “o de um serviço de saúde que ministrasse completo tratamento preventivo e curativo em todas as especialidades e a todos os cuidados, sem quaisquer exceções, sem limite de remuneração e sem que nenhuma barreira econômica pudesse, em nenhum momento, protelar o recurso a esse tratamento”.

Senhores Sanitaristas

Já um grande professor vosso, o insigne mestre Aloísio de Castro, disse, certa vez, que “as grandes obras humanas são sem dúvida aquelas que se fazem para o porvir. Para o porvir criou a antiguidade clássica as raridades do seu gênio, nas figuras helênicas em que revive a graça da beleza imortal. Do porvir e para o porvir todos vivemos, e a força das nossas ações está toda nas forças de nossas esperanças.

Preparar a saúde da raça futura, melhorar a vida física, desejar a perfeição moral, é sem dúvida, senhores, a obra mesma da sabedoria. Felizes os que a ela trouxerem, na medida das suas forças, uma parte de boa vontade, uma parcela do espírito e do coração”.

Sede, assim, felizes.

[Transcrito do livro Discursos, de Jones dos Santos Neves, Imprensa Nacional, 1945.]

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Jones dos Santos Neves graduou-se em Farmácia no Rio de Janeiro e, de volta a Vitória, casou-se, em 1925, com Alda Hithchings Magalhães, tornando-se sócio da firma G. Roubach & Cia, juntamente com Arnaldo Magalhães, seu sogro, e Gastão Roubach. A convite de interventor João Punaro Bley, em 1938 funda e dirige, juntamente com Mário Aristides Freire, o Banco de Crédito Agrícola (depois Banestes), tendo depois disso seu nome indicado juntamente com o de outros dois, para a sucessão na interventoria. Foi então escolhido por Getúlio Vargas como novo interventor, cargo em que permaneceu de 1943 a 1945. Em 1954 retomou seu trabalho no banco, chegando à presidência, sendo, em 1950, eleito  governador do estado. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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