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Entrevistado: Juraci Tartalha Caliari

Entrevistado: Juracy Tartalha Caliari, apelido Fio
Grupo ao qual pertence: Praia da Costa
Entrevistador: Fernanda de Souza
Data da entrevista: 23/01/2014

Local / data de nascimento: nascido em Colatina, ES, 09/06/1958
Nome do pai: Armando Caleari, carpinteiro, faleceu aos 72 anos
Nome da mãe: Ana Tartalha Caleari, do lar, faleceu aos 69 anos
Casado, três filhos.

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Meu nome é Juracy Tartalha Caleari e meu apelido é Fio. Esse apelido é italiano, e já cheguei aqui com ele. Foram os meus que colocaram. Para mim não tem nenhum significado, é um apelido comum, igual aos outros. Acho que vem de filho. Pegou e ficou.

Moro em Terra Vermelha, Barra do Jucu. Eu nasci em Colatina, ES em 09/06/1958. Meu pai faleceu com 72 anos e minha mãe faleceu com 69 anos de idade.

[Qual o ponto de referência que vocês dão ao grupo de pesca daqui da Praia da Costa?]

O ponto de referência é a colônia de pesca que fica perto da padaria, da sorveteria Pilates e perto do restaurante Atlântica. Usamos também como referência o ponto das castanheiras mais conhecido como dos pescadores.

[Quantos barcos o senhor tem?]

Eu tenho dois barcos, esse aqui e outro que está na água com um companheiro meu. Ele pesca para ele, o barco está emprestado para ele, ele vem e vende o peixinho dele.


[Quais são os nomes dos seus barcos?]

Os nomes dos barcos são Ana Julia e Ana Júlia II, porque é o nome da minha neta. Eu tenho quatro netas. Duas são filhas do meu filho que trabalha aqui e duas da filha mais nova que mora em Cachoeiro. Na minha casa moramos eu, minha esposa, meu filho com a esposa e os dois netos. A outra filha é casada, mora perto da minha casa, mas ainda não tem filhos. Todos os meus três filhos são casados.

[O senhor tem alguns outros colegas pescadores que poderia indicar, que sejam mais velhos, que ainda atuam na pescaria daqui?]

O irmão do Eliomar, o Erivelton. Tem o Galo que pesca aqui, o Ari, que a gente chama de Gaguinho porque ele gagueja, e o Rogério.


[Como foi a sua infância?]

Minha infância foi boa, eu brincava de bola, era fascinado em jogar bola, todo o dia jogava bola.


[O senhor estudou?]

Eu estudei até a 8ª série. Na minha época tinha até o 5º ano, depois do 5º ano era 1ª, 2ª, 3ª, 4ª 5ª, e aí parava. Eu estudei até a 8ª e depois parei.

[O senhor disse que aprendeu a pescar com seu primo, ele ainda é pescador?]

Eu aprendi a pescar com um primo meu que já faleceu. Eu pescava em lagoa, em água doce. Quando eu vim para cá é que eu comecei a pescar com meu primo. Aí eu aprendi mais ou menos com uns doze anos de idade e comecei a pescar.

Mas eu tenho meu serviço na Prefeitura. Eu trabalho à noite e aí dá tempo de ter uma vaga durante o dia para pescar.


[Como foi esse contato com a pesca?]

Foi por aqui mesmo, a gente ficava no meio dos pescadores aqui e ia aprendendo. Quando era mais novo eu morava no Ibes e aí a gente vinha para cá e pescava de cima dos barcos, eu e Erivelton, e foi indo, comecei a pescar.


[Como seus pais reagiram quando o senhor começou a trabalhar com a pesca?]

Só falaram que era perigoso sair de barco para pescar, mas nunca me proibiram e continuei pescando até hoje. Eu e meu primo passamos bastante tempo pescando juntos, mas depois que ele faleceu […] Morreu aqui na Praia da Costa, caiu dentro d’água. Ele tinha problema de epilepsia, caiu na água e não deu para salvá-lo, e morreu. Isso tem uns seis anos.

Às vezes, a gente ia pescar junto e outras não, a gente variava os colegas para ir pescar. Um dia com um, outro dia com outro, não ficávamos todo o tempo junto.

[Como era a pesca antigamente e como está hoje em dia?]

A pesca antigamente era bem melhor, tinha mais condições de peixe, mais quantidade. Agora, nessa época mesmo, […] naquela época uma hora dessas o peixe estava aqui. Hoje, já não tem mais. O pessoal da CST, de Tubarão, vão jogando […] tiram a lama do valão ali e jogam por aqui. Aí tampa as pedras e não tem como, os peixes vão embora. Depois que fizeram o píer de Tubarão acabaram com os peixes daqui, só vai acabando.


[Quais eram os tipo de peixes que se pescavam antes?]

Ah vários tipos de peixes: enchova, robalo, muita espada, muita pescadinha, dava muita sardinha. Agora está acabando tudo.

[E hoje em dia, que tipo de peixe vocês pescam?]

É o que você está vendo aí – uma espada, uma pescadinha. Quando aparece enchova a gente pesca, mas raramente. É muito difícil.


[E qual é a quantidade que se pesca por dia?]

Uma média de 20, 25, 30kg. Antigamente dava bem mais, o dobro. Antigamente a gente pescava aqui, agora tem que ir lá fora, lá em Itapuã, lá em Coqueiral.


[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]

Não, tenho a Prefeitura, sou efetivo. Lá eu trabalho como vigia há 28 anos, uma noite sim outra não.


[Como o senhor concilia seu trabalho com a pesca?]

Quando saio do trabalho vou em casa, faço café, tomo e venho para cá. Venho para a praia quase todos os dias.


[Como é sua rotina de pescador?]

Quando eu estou trabalhando eu acordo às 4h, às 5h deixo o serviço. Meu horário de largar o serviço é às 6h, mas eu largo uma hora antes justamente para vir para cá. Aqui sai uma fonte de renda pouca, mas sai. O dia que eu não vou trabalhar, por exemplo, amanhã, eu venho mais cedo. Acordo às 4h e venho para cá. Pego o carro (ônibus) às 4:30h e chego aqui às 5:20h, mais ou menos. Todos os dias eu venho de ônibus. Chego em casa faço o cafezinho e venho para cá.

[Qual a primeira coisa que tem que fazer quando chega aqui na praia?]

Quando chego aqui desço a embarcação, coloco tudo dentro e saio para pescar. Dia de domingo eu não venho para a praia pescar é o dia que eu descanso. Se estiver chovendo muito eu não saio para pescar. A não ser se pegar chuva lá (no mar).

[Tem alguma variação dos meses do ano em que vocês pegam mais ou menos peixes?]

Tem. A época da enchova é setembro, a gente pega três, quatro peças de enchovas grandes, coloca aqui e vende, mas tem época que a gente vai lá e não pega.

Em janeiro é pescadinha, espada, alguma pescada que sai maior, porque o peixe está sumindo.

[Como é a sua pesca?]

Eu não pesco com rede. Eu pesco só de linha, de anzol. Aqui a pesca é artesanal.

[Como é a preparação da linha e do anzol?]

Na preparação você usa um arco, faz um aparadinho com dois anzóis, coloca a linha, joga a linha com a isca, o peixe belisca e você puxa. Cada linha tem dois anzóis. A gente joga duas linhas cada uma, uma de um lado e outra de outro. No barco vamos ele (o rapaz que tem problema de audição que é colega daqui) e eu. O barco é meu, a gente divide o peixe que vende aí, sem problema nenhum.

[Onde o senhor compra os materiais de pesca?]

Eu compro em casa de pesca.

[O que o senhor usa como isca?]

Como isca eu uso tainha, que eu compro aqui mesmo na praia. Quando a gente acha para comprar aqui, a gente compra aqui mesmo. Quando não acha para comprar aqui, a gente vai a Vila Rubim, em Santo Antônio ou em outro lugar. Tem que encontrar isca para poder pescar, senão não pesca.


[Quais são os tipos de anzol?]

Tem vários tipos de anzol: tem o anzol 8, 9, 10, vai variando. Aquele tipo de anzol que for melhor a gente coloca.


[Com que tipo de anzol o senhor costuma pescar?]

Costumo pescar sempre com o de 10. A numeração de linha varia de 70, 80, 90, 100. Isso varia conforme o peixe. Se for espada, a gente coloca uma linha mais grossa para poder puxar o peixe melhor. Se for pescadinha a linha é mais fina.

[Como sabe se o peixe fisgou?]

Ele puxa a linha. Tira o peixe e joga na caixa e joga a linha de novo com a isca. O dilema é esse!


[Qual a quantidade que o senhor pesca?]

A quantidade varia. Às vezes pega 10, 20, 30, 5, 2kg.

[Quanto tempo o senhor fica no mar?]

Saio daqui às 5:30h e às 6h estou lá. De 6h até às 10h, quatro cinco horas de pescaria.

[Tem peixes que são mais fáceis de pegar no anzol?]

Por exemplo, a pescada é grande 4, 5kg, quando ela puxa lá em baixo, ela já puxa querendo tomar a linha, carregar a linha. A gente tem que descarregar a linha, aí ela cansa e a gente joga para dentro do barco. A espada não, ela puxa, a gente puxa para cima e joga para dentro. A pescadinha é mais fácil: ela beliscou, puxa e joga para dentro, pronto.

[Tem algum peixe que não se pega com o anzol, ou é mais difícil?]

No mar todos os peixes se pegam com anzol. O que tem mais dificuldade para pescar é a pescada. Ela só carrega um pouquinho, e aí a gente dá um descarrego de linha, depois puxa de volta, pronto.


[Há quanto tempo o senhor pesca nesse ponto da Praia da Costa?]

Há uns 20 anos ou mais. Teve um a época que eu pesquei na Barra, mas foi pouco tempo, um ano mais ou menos, depois vim para cá e estou aqui até hoje.


[Qual a lembrança que o senhor tem desses pontos de pesca?]

As histórias de pescadores, de pesca. A gente conta a história da gente.


[Mudou muito?]

Mudou muito. Antigamente essas bancas não eram assim. Era tudo de madeira, esquisito. Agora é de alvenaria, inclusive o prefeito Max Filho já tentou vir aqui derrubar as mesas, mas não conseguiu. O próprio morador vem aqui, vem comprar um peixinho fresco, são eles (os moradores) que não deixaram derrubar.


[Quanto tempo o senhor acha que vai continuar pescando?]

Ah, até a minha morte! Isso aqui e um vício que você não larga de jeito nenhum, então é até a morte mesmo.

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