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Objetos femininos do “amor cego” em duas visões modernas: Lindalice e Solange Sohl

Solange Sohl existe? É uma só?
Ou é um grupo de vidros combinados? Uma lenda
Medieval que vestes de neurose?
Augusto de Campos (1979, p. 37) 

[…] Lindalice, no fino chamar-se.
João Guimarães Rosa (1967, p. 75)

Esta ensaio trata da retomada de uma modalidade do amor-paixão, o provençal “amar sem ver” (ses vezer), levada a efeito por dois escritores brasileiros: João Guimarães Rosa, no conto “João Porém, o criador de perus” (de Tutaméia), e Augusto de Campos, no poema longo O sol por natural.

Na sua ampla geografia sertaneja, o escritor mineiro criou um personagem com o seu prenome João, para reavivar o velho tema do amor-paixão, mais uma vez de desenlace infeliz, com a aparente originalidade de tratar-se, aqui, do desejo de um moço por uma jovem nunca visível, porque inexistente. Homem real e mulher inventada fazem logo pensar em amor estéril, sem qualquer contato carnal, na narrativa intitulada “João Porém, o criador de perus”.

João Porém conheceu pai e mãe, isto é, o par primeiro que assinala a diferença sexual. De certo modo, a mãe e o pai lhe determinaram o destino ao lhe batizarem de modo antitético, fato relatado no início do conto: “Agora o caso não cabendo em nossa cabeça. O pai teimava que ele não fosse João, nem não. A mãe, sim. Daí o engano e nome, no assento de batismo” (ROSA, 1967, p. 64). João graças à mãe, Porém por equívoco (gerado pela discordância do pai em aceitar esse prenome), o personagem parecerá marcado por tal combinação bizarra dos signos indicadores da sua figura no mundo.

De saída, o seu sobrenome já contém dois dos três fonemas consonantais do nome plural da ave que, com espantoso êxito, ele cria. PoRém, PeRus: a semelhança fônica, de feição paronomástica, é evidente, como se houvesse uma identidade entre o homem e o bípede cuja reprodução excessiva lhe garantia a sobrevivência, desde que herdara dos pais, mortos cedo, um terreno e apenas “um peru pastor e três ou duas suas peruas” (ROSA, 1967, p. 74).[ 1 ]

Em segundo lugar, a adversativa que constitui o sobrenome de João antecipa algo dramático: a adversidade que irá caracterizar o grande acontecimento amoroso da sua vida, o único mencionado no conto. João apaixonou-se por Lindalice; esta, contudo, não existia, ou existia tão-só na imaginação do rapaz, espicaçada por vizinhos invejosos do seu sucesso na avicultura, ansiosos por lhe adquirirem o “pequeno terreno, próprio aos perus vingados gordos” (ROSA, 1967, p. 74).[ 2] Numa cartada inteligente, para embaralhar as emoções do rapaz, tais vizinhos forjaram a figura da jovem dama, mentira com a qual vêm a ter sucesso:

Incutiram-lhe, notícia oral: que, de além-cercanias, em desfechada distância, uma ignorada moça gostava dele. A qual sacudida e vistosa — olhos azuis, liso o cabelo — Lindalice, no fino chamar-se. João Porém ouviu, de sus brusco, firmes vezes; miúdo meditou. Precisava daquilo, para sua saudade sem saber de quê, causa para ternura intacta. Amara-a por fé — diziam, lá eles. Ou o que mais, porque amar não é verbo; é luz lembrada. Se assim com aquela como se o tivessem cerrado noutro ar, espaço, ponto. Sonha-se é rabiscos. Segredou seu nome à memória, acima de mil perus, extremadamente (ROSA, 1967, p. 75).

João Porém e Lindalice: percebe-se que cada integrante deste par amoroso tem o seu específico nome explorado na trama do conto, prática, aliás, habitual na obra de Guimarães Rosa. Já tratamos da semelhança entre os termos Porém e perus, bem como da adversidade presente no sobrenome do rapaz. Também de Lindalice podemos falar. Na aglutinação de Linda e Alice, que singulariza tal onomástico, nota-se o primeiro signo remetendo a uma das qualidades da mulher inventada pelos vizinhos de João: a formosura da moça, “sacudida e vistosa”, de olhos azuis e liso cabelo. O seu prenome é, por conseguinte, motivado, na contextura do conto, portando valor semântico efetivo. (Quanto à etimologia de Alice, que é incerta, um dos sentidos que se propõem para esse nome é “real, verdadeira” ou “sincera”, do grego Alethos (Obata, 1994, p. 23). Aqui, talvez, Rosa tenha igualmente jogado, de maneira antitética, com o nome da imaginária personagem.)

Para João Porém, como para qualquer ser humano, alguns poucos termos formam um ícone mental completo, um complexo visual, um interpretante visível ao “olhar” do cérebro. Observemos: cabelo liso e íris azul são suficientes para alguém imaginar um rosto; os qualificativos “sacudida” e “vistosa” (e ressalte-se a referência à visão presente no segundo adjetivo) definem a beleza de um corpo feminino, sendo precisamente a vagueza semântica desses dois atributos que possibilitam à imaginação “pintar” a beleza da moça do modo mais fascinante que se desejar. Portanto, a cabeça e o restante do corpo da jovem eram reais no coração apaixonado de João: para ele, havia um objeto real, genuíno, veraz, denominado significativamente Lindalice.

Tão único e concreto era tal objeto para João Porém que, em primeiro lugar, ao forjarem os seus vizinhos a existência de Lindalice, em segundo, ao lhe revelarem que ela inexistia, em terceiro, ao lhe mentirem que ela morrera e, por fim, ao lhe encontrarem, penalizados, uma jovem de carne e osso, “também [de] olhos azuis, lisos cabelos, bonita e esperta, igual à outra, a urdida e consumida” (ROSA, 1967, p. 76), após tudo isso, o perito criador de perus não se interessou pela segunda mulher, um segundo ente ou objeto, agora não mais fictício. Como mais uma das vítimas do amor-paixão, que várias vezes se transforma em amor-morte, João Porém manteve-se fiel à imagem da primeira mulher por quem se apaixonara e que, doravante, acreditava morta: “Vem que viam que ele não a esquecia, viúvo como o vento” (ROSA, 1967, p. 76). Ele a vira tão-só com os olhos da mente, a consumira na imaginação, e outra jovem, outro complexo icônico com existência humana, não lhe interessava, por muito semelhante que fosse à Lindalice. João amou o primeiro ícone, a primeira imagem de um ser fictício que julgou real; não conseguiu, entretanto, gostar do segundo, o de um ser real, que lhe arranjaram, na verdade o ícone de um ícone, por sua semelhança ao ícone de ficção denominado Lindalice.

Encontramo-nos, aqui, num território em que não funciona o lugar-comum “Longe dos olhos, longe do coração”. O afeto de João, entretanto, não é original. Esse afeto assemelha-se ao sentimento de alguns exemplos histórico-literários do amor-paixão, ou seja, mostra-se também icônico em relação a tal sentimento, que implica o amar sem ver, o apaixonar-se por ouvir dizer. Dois trovadores provençais do século XII e um poeta do nosso tempo serão, a partir de agora, trazidos à discussão: Jaufre Rudel, Raimbaut d’Aurenga e Augusto de Campos.

Sabe-se que, junto com algumas das canções medievais, nos chegaram breves narrativas das vidas dos seus autores. Eis dois trechos a respeito da existência dos trovadores em causa. Diz o primeiro deles, em tradução nossa: “Jaufre Rudel de Blaia foi um homem muito nobre, príncipe de Blaia. E se enamorou pela condessa de Trípoli, sem vê-la [ses vezer], pelo grande bem e pela grande cortesia que ele ouviu a seu respeito, dos peregrinos que vinham da Antióquia” (BOUTIÈRE & SCHUTZ, 1973, p. 16). Em versão do próprio Augusto de Campos, afirma-se do segundo trovador: “Raimbaut d’Aurenga […] se enamorou […] da boa condessa de Urgel […]. E Raimbaut, sem a ver [senes vezer leis], pelo grande bem que dela ouvia dizer, se enamorou dela e ela dele. […] Longo tempo cortejou essa condessa, e a amou sem ver e não teve ensejo de vê-la” (CAMPOS, 1987, p. 41).

Ses vezer ou senes vezer: não vendo tais mulheres, cada trovador teve o seu respectivo objeto feminino de paixão. Não importa que, no caso de Jaufre Rudel, se ponha em dúvida a veracidade de tal “amor cego”, contado em pequenas biografias baseadas em canções, em ficções poético-musicais. Interessante é que essa espécie de afeto haja sido formulada em tais bioficções, e que João Guimarães Rosa a atualize criativamente no sertão brasileiro, conhecendo ou não os poetas provençais. Pensamos, hipoteticamente, que o cultíssimo prosador faça algumas referências sutis a tal tradição de amar sem ver, ou por tão-somente ouvir falar.

João Porém é apresentado como “sensato, vesgo, não feio, algo gago, saudoso, semi-surdo” (ROSA, 1967, p. 74: destaque nosso). Em certo momento, ele revela “a indecisão falsa do zarolho” (ROSA, 1967, p. 75). Quando os vizinhos procuram retroceder na sua mentira sobre a existência de Lindalice, ele se comporta da maneira seguinte: “Porém prestou-lhes a metade surda de seus ouvidos […]; e, o que não quer ver, é o melhor lince. Aceitara-a, indestruía-a” (ROSA, 1967, p. 75). Acreditando, todavia, na morte da moça, narrada pelos vizinhos, ele reage de um modo tal que a visão ainda se mostra um dado importante: “- Esta não é a minha vez de viver… — quem sabe. Maior entortou o olhar, sinceramente evasivo, enquanto coléricos perus sacudiam grugulejos” (ROSA, 1967, p. 76). Ao morrer, anos depois, ficará para os vizinhos a lembrança da “força dos olhos caolhos” (ROSA, 1967, p. 76). Nota-se, assim, um excesso de remissões ao olhar do personagem; recorde-se, além disso, que um dos predicados que o impressionaram na amada nunca vista é o azul dos olhos dela. A suspeita de que Rosa recolheu motivos da tradição que apontamos tem, em todas essas passagens, indícios fortes para a sua sustentação.

Antes de o escritor mineiro localizar o seu personagem no sertão, porém, em pleno Estado de São Paulo, Augusto de Campos, evidenciando a consciência dos seus predecessores medievais, assumiu a persona de um amante ses vezer, na composição extensa O sol por natural, de 1950-51, dirigida a uma misteriosa Solange Sohl que ele jamais vira, sequer em fotografia, autora, por seu lado, do poema “Natureza morta”, datado de 1948.

Comovido com o poema assinado por Solange Sohl, que lera em jornal, Augusto de Campos escreveu O sol por natural, sem saber que o onomástico feminino era um pseudônimo de Patrícia Galvão, ou Pagu, não uma condessa, mas uma combativa comunista que fora companheira de Oswald de Andrade nos final dos anos vinte. Ao menos em mais dois textos poéticos, Augusto de Campos mencionaria Solange Sohl, sem conhecer, ainda, a sua autêntica identidade: em Ad augustum per angusta, de 1950-51, e em Poetamenos, de 53. Num certo espaço de anos, na virada da década de quarenta para a de cinqüenta, a “espectral” Solange Sohl assombrou os pensamentos de um escritor, como, a seu modo, Lindalice dominaria os desejos de João Porém. A tudo isto se junte o fato de que, em 1982, Augusto de Campos publicaria o volume Pagu: vida-obra, dedicado à escritora, já sabedor, desde 63, que ela se achava por trás do pseudônimo cujos versos o motivaram.

Pseudônimo, nome de uma poetisa fantasmática, Solange Sohl também nunca existiu, pois não era, de fato, Patrícia Galvão o objeto visado por Augusto de Campos, enquanto compunha, impelido por “Natureza morta”. Diga-se a propósito que tal título se presta a definir Solange Sohl, o onomástico de uma autora fictícia, idealizada por Pagu: uma “natureza morta”, um ser de papel, uma pseudo-assinatura, criada num dos inúmeros processos de mistificação literária de que se tem ciência. Dando seguimento ao afeto dos seus predecessores provençais, Augusto de Campos até mesmo epigrafou O sol por natural com a expressão ses vezer. Aqui, pode-se dizer, o amor, sincero ou não, foi deveras cego, isto é, vislumbrado somente com os olhos da imaginação.

T. W. Adorno afirmou que mesmo os nomes próprios implicam certa referência ao universal (ADORNO, 1995, p. 181). Universal é, via de regra, a metáfora cósmica, a hipérbole de que nos servimos para designar alguma obra humana que não fica circunscrita ao seu meio mais imediato de origem. A aparente originalidade do sentimento de João Porém pela inexistente Lindalice remete-nos, portanto, ao universo mais amplo da cultura dita ocidental, cultura em que permanece o amor cortês, ainda que transplantado, aqui, para uma situação burguesa de existência no campo ou na grande cidade, como permanece algo do ideal de cavalaria e, evidentemente, do amor-paixão em Grande sertão: veredas.

Referências bibliográficas

ADORNO, Theodor W. Palavras e sinais: modelos críticos 2. Trad. Maria Helena Ruschel. Petrópolis: Vozes, 1995.

BOUTIÈRE, Jean & SCHUTZ, A. H. Biographies des troubadours. Paris: A.G. Nizet, 1973.

CAMPOS, Augusto de. Mais provençais. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

___. Pagu: vida-obra. São Paulo: Brasiliense, 1982. Solange Sohl, p. 167-179.

___. Viva vaia (poesia 1949-1979). São Paulo: Duas Cidades, 1979. O sol por natural, p. 31-39.

OBATA, Regina. O livro dos nomes. 13. ed. São Paulo: Nobel, 1994.

ROSA, João Guimarães. Tutaméia (Terceiras estórias). Rio de Janeiro: José Olympio, 1967.

[ 1 ] Note-se o típico ludismo verbal de Rosa, no breve trecho citado: “peru pastor” é sintagma moldado sobre o preexistente cão pastor, e podemos perguntar-nos quantos prosadores convencionais ousariam a saturação de rimas em “dUAS sUAS perUAS”, que, inclusive, ocasiona a inversão da ordem numérica habitual: “três ou duas” (e não, mais banalmente, “duas ou três”).

[ 2 ] De novo, o ludismo lingüístico: “perus vinGADOS GORDOS”.


[publicado originalmente no site em fevereiro de 2004]

Lino Machado é poeta e professor universitário. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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