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	<title>Arquivos Chapot Presvot 272 &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Chapot Presvot 272 &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Tempo de perinho ou a arte da sobrevivência</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 18:14:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Chapot Presvot 272]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pedro, o escrivão, entrou pela porta lateral da Delegacia da Praia do Canto com a mão cheia de perinho. Nos galhos mais baixos do perinheiro, localizado em frente à janela da sala do delegado, abastecera-se como nos tempos de menino. Sentada à sua espera, a jovem levantou-se e perguntou: &#8220;Você é o escrivão?&#8221; Pedro cuspiu [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Pedro, o escrivão, entrou pela porta lateral da Delegacia da Praia do Canto com a mão cheia de perinho. Nos galhos mais baixos do perinheiro, localizado em frente à janela da sala do delegado, abastecera-se como nos tempos de menino.</p>
<p>Sentada à sua espera, a jovem levantou-se e perguntou: &#8220;Você é o escrivão?&#8221;</p>
<p>Pedro cuspiu na mão vazia o caroço de um dos perinhos que acabara de comer e respondeu afirmativamente.</p>
<p>&#8220;O Dr. Digital mandou que eu o procurasse.&#8221;</p>
<p>&#8220;Venha para a minha sala,&#8221; disse Pedro. &#8220;Aceita um perinho?&#8221;</p>
<p>A moça recusou, e Pedro colocou as frutas dentro de um copo de plástico sobre a mesa. &#8220;Um instantinho que vou lavar as mãos.&#8221;</p>
<p>Quando retornou, concluiu o exame da pássara pousada em sua sala. Além de morena esbelta, tinha olhos vivos e testa altiva. Nada em sua fisionomia denotava embaraço ou timidez. Os braços, que se projetavam da blusa justa e sem mangas, eram longos e roliços, combinando com as pernas, à mostra, sob a saia curta.</p>
<p>&#8220;Sou todo ouvidos,&#8221; ofereceu-se o escrivão com simpatia.</p>
<p>&#8220;Eu vim dar uma queixa contra a Farpráticas.&#8221;</p>
<p>&#8220;O que é isso?&#8221; perguntou Pedro.</p>
<p>&#8220;É a Faculdade de Artes Práticas de Curta Duração.&#8221;</p>
<p>&#8220;Onde fica esta faculdade?&#8221;</p>
<p>&#8220;No Morro do Romão, pertinho da minha casa,&#8221; respondeu a jovem.</p>
<p>&#8220;E você é&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Sou Letícia, formada pela faculdade.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim, Letícia, e a Farpráticas pertence a quem?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ao pastor Zezinho e ao Waltinho Gomes, o dono da Lanternagem Automotiva, do Morro do Romão.&#8221;</p>
<p>&#8220;Tudo no Romão?&#8221;</p>
<p>&#8220;É. A faculdade funciona em cima da Lanternagem. No hall de entrada tem os retratos dos dois fundadores, com terno e gravata. Eles são donos e patronos, ao mesmo tempo.&#8221;</p>
<p>&#8220;E qual a razão da sua queixa?&#8221;</p>
<p>&#8220;É que até agora não consegui o meu diploma de conclusão de curso. Estou tentando há mais de seis meses, e nada. Começo a desconfiar que fui vítima de uma enganação.&#8221;</p>
<p>&#8220;Em que curso você se formou?&#8221;</p>
<p>&#8220;No de paneleira.&#8221;</p>
<p>&#8220;Paneleira?!&#8221;</p>
<p>&#8220;É um dos mais procurados da faculdade.&#8221;</p>
<p>&#8220;Quantos se formaram na sua turma?&#8221;</p>
<p>&#8220;Somos em quinze.&#8221;</p>
<p>&#8220;Quinze paneleiras?&#8221;</p>
<p>&#8220;Na verdade somos quatorze. O décimo quinto é o Maurinho.&#8221;</p>
<p>&#8220;Já vi que é um boiola&#8230;&#8221;, insinuou Pedro, esperando a confirmação de Letícia.</p>
<p>&#8220;Mas é uma excelente criatura e um paneleiro de mão cheia.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eles são sempre grandes profissionais.&#8221;</p>
<p>&#8220;Você tem preconceito contra eles?&#8221;</p>
<p>&#8220;Em absoluto. No caso do Maurinho, acho até que ele está na profissão certa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não entendi,&#8221; disse Letícia.</p>
<p>&#8220;Você sabia que paneleiro em Portugal é sinônimo de boiola?&#8221;</p>
<p>&#8220;Nunca soube disso.&#8221;</p>
<p>&#8220;Mas é. Agora me diga, Letícia, que outros cursos a faculdade oferece?&#8221;</p>
<p>&#8220;São muitos, todos práticos. Tem o de Iniciação ao Tarô; o de Formação de Orador Evangélico; o de Artesanato de Vassoura de Piaçava&#8230; Não me lembro da relação completa, mas já criaram até o Curso de Preparação de Candidato a Big Brother.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sempre de curta duração?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sempre. Duram seis meses. No início, é dada a parte teórica; depois, a prática. Pelo menos no de paneleiras foi assim.&#8221;</p>
<p>&#8220;E quem dá esses cursos?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ih, rapaz, professor é o que não falta! No de paneleiras, a parte de campo foi dada por uma ex-professora de Arquitetura da Ufes e a de iniciação teórica, por uma doutora em pedagogia, também aposentada pela Ufes.&#8221;</p>
<p>&#8220;Mas uma pedagoga dando aula de panela de barro?&#8221;</p>
<p>&#8220;Você talvez não saiba, mas essas pedagogas entendem de tudo. Eu não tenho do que reclamar das professoras. Minha birra é com a Farpráticas, que está prendendo meu diploma. Meu e o das minhas colegas. O Maurinho está tão aborrecido que disse que vai acabar tendo um filho. Ele, coitado, está cheio de idéias. Nós vamos abrir juntos uma micro-empresa para fabricar panelas e queremos pendurar os diplomas na parede. Maurinho diz que é o único meio de encarar o selo de qualidade das paneleiras de Goiabeiras.&#8221;</p>
<p>&#8220;Você acha que este negócio vai dar certo?&#8221;, indagou Pedro, olhando Letícia por cima dos óculos de lentes claras e redondas.</p>
<p>&#8220;Por que não? Já procuramos o Sebrae para nos orientar sobre o funcionamento de uma micro e estamos pensando em levantar um empréstimo no Bandes. Vou até lhe confessar uma coisa, porque sei que você não é nosso concorrente: o Maurinho está fazendo testes para fabricar panelas brancas em vez de pretas.&#8221; &#8220;Panelas brancas?!&#8221;</p>
<p>&#8220;Ele diz que serão panelas de barro ecológicas, porque não vamos usar o tanino do mangue na impermeabilização.&#8221;</p>
<p>&#8220;E torno, vocês vão usar?&#8221; indagou Pedro, que já havia lido uma pesquisa do professor Renato Pacheco sobre as paneleiras.</p>
<p>&#8220;Este é que é o problema. O bom seria que não precisássemos. Mas não vai dar. Por isso pensamos no empréstimo.&#8221;</p>
<p>&#8220;E por que não vai dar?&#8221;</p>
<p>&#8220;Porque o Maurinho, apesar de ótimo paneleiro, já disse que entra no negócio mas não mete a mão no barro. Ele sente gastura com aquela massa pegajosa grudando nos seus dedos.&#8221;</p>
<p>&#8220;E você, também sente gastura?&#8221; sondou Pedro com um travesso sorriso de través. &#8220;Meu caso é diferente. Eu sou alérgica ao barro e sou obrigada a usar luva de borracha para fazer as panelas. Tanto que minha graduação pela Farpráticas foi como paneleira júnior, em vez de sênior.&#8221;</p>
<p>&#8220;Quer dizer que a Farpráticas forma paneleira júnior e paneleira sênior?&#8221; espantou-se o escrivão.</p>
<p>&#8220;Isso mesmo. A paneleira júnior é a que emprega o torno para dar forma às panelas e a sênior a que usa apenas as mãos, o método tradicional. A Farpráticas valoriza a tradição. Maurinho, por exemplo, é paneleiro sênior.</p>
<p>&#8220;Tudo isso no Romão?&#8221;</p>
<p>&#8220;Pertinho da minha casa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Em cima da Lanternagem Automotiva?&#8221;</p>
<p>&#8220;Com certeza.&#8221;</p>
<p>&#8220;E o barro que vocês vão utilizar é o do vale do Mulembá?&#8221;</p>
<p>&#8220;De lá mesmo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Você acha que a Associação das Paneleiras vai concordar com isso? Pelo que sei, é uma associação atuante. Dobrou até a Cesan quando quis botar no Mulembá uma estação de tratamento de esgoto.&#8221;</p>
<p>&#8220;É atuante mesmo, mas já está tudo resolvido. O Maurinho tem um cola dele que vai conseguir o barro pra nós na base do amor. O que está faltando é o nosso diploma. Por isso vim aqui fazer a minha queixa.&#8221;</p>
<p>O escrivão fez uma pausa na conversa a fim de estudar uma saída para o caso de Letícia. Abriu o maço de cigarros e ofereceu-lhe um.</p>
<p>&#8220;Não tem ali um aviso que não pode fumar neste recinto?&#8221; perguntou a moça, estranhando o oferecimento.</p>
<p>&#8220;Que tem, tem,&#8221; confirmou Pedro, &#8220;mas, como você está vendo, isto aqui é uma delegacia de polícia, onde às vezes pode o que não pode. É assim que o sistema funciona. Nosso delegado, o Digital, aquele que encaminhou você para falar comigo, costuma dizer que as leis e as normas no Brasil têm inexplicações que ninguém explica. Esta proibição aí é uma delas.&#8221;</p>
<p>&#8220;Se é assim, quero um,&#8221; disse Letícia.</p>
<p>Pedro levou a chama do isqueiro até o cigarro levemente preso nos lábios finos e úmidos da jovem. No retorno do gesto, acendeu também o seu. Duas nuvens de fumaça se casaram no ar antes de se dissiparem na sala, sob a aragem que entrava pela janela.</p>
<p>&#8220;Bem, Letícia, você viu que até agora eu não fiz nenhum registro sobre sua queixa. E foi muito bom porque acho melhor você procurar o Procon. Seu caso é mais de consumidora prejudicada do que de polícia. Não que não se possa tentar alguma providência por aqui. Mas eu sei no que vai dar, tendo um pastor metido na história. O nosso delegado é muito chegado a um deputado estadual — o Dr. Ribeirinho — que é crente de carteirinha. Percebeu o que eu estou querendo dizer?&#8221;</p>
<p>&#8220;Com certeza, e fico agradecida pela sua franqueza,&#8221; disse Letícia, apagando o cigarro com força num cinzeiro em forma de panela de barro. &#8220;Mas pelo menos você podia me dar, como compensação, o perinho que me ofereceu antes?&#8221;</p>
<p>&#8220;O perinho, não,&#8221; corrigiu Pedro. &#8220;Todos os perinhos.&#8221;</p>
<p>E deu-lhe de presente o copo com as frutas.</p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<item>
		<title>De crimes e estatísticas ou vice-versa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 18:11:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Chapot Presvot 272]]></category>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O delegado Digital reuniu os escrivães Pedro e Nanico na sua sala, na delegacia da Chapot Presvot, 272, e falou grosso: &#8220;O secretário de Segurança está pedindo com urgência uma estatística dos crimes violentos registrados em nossa delegacia nos últimos quatro anos.&#8221; &#8220;O que ele considera crimes violentos?&#8221; perguntou Pedro. &#8220;Homicídio, latrocínio, estupro, estupro seguido [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O delegado Digital reuniu os escrivães Pedro e Nanico na sua sala, na delegacia da Chapot Presvot, 272, e falou grosso:</p>
<p>&#8220;O secretário de Segurança está pedindo com urgência uma estatística dos crimes violentos registrados em nossa delegacia nos últimos quatro anos.&#8221;</p>
<p>&#8220;O que ele considera crimes violentos?&#8221; perguntou Pedro.</p>
<p>&#8220;Homicídio, latrocínio, estupro, estupro seguido de morte, seqüestro e seqüestro seguido de morte,&#8221; enumerou Digital, contando nos dedos de unhas esmaltadas as citações que fazia.</p>
<p>&#8220;Meia dúzia de pitbulls,&#8221; classificou Nanico.</p>
<p>&#8220;E pra quando ele quer isso?&#8221; indagou Pedro.</p>
<p>&#8220;Pra ontem,&#8221; respondeu Digital. E esclareceu: &#8220;O governo quer montar uma estatística para mostrar ao grande público que o índice de criminalidade está descaindo na Grande Vitória.&#8221;</p>
<p>&#8220;Quer demonstrar o indemonstrável?&#8221; gozou Nanico.</p>
<p>&#8220;Dispenso seu juízo de valor,&#8221; cortou Digital com rispidez. &#8220;Ordem é ordem, e cumpra-se-a! Amanhã a gente se reúne de novo para analisar os dados. Caiam em campo!&#8221;</p>
<p>Dia seguinte, mesmo horário</p>
<p>&#8220;Então, meninos, o que temos aí?&#8221; perguntou Digital.</p>
<p>&#8220;O levantamento está pronto,&#8221; respondeu Pedro, apresentando algumas tabelas manuscritas.</p>
<p>&#8220;O resultado foi bom?&#8221; indagou Digital.</p>
<p>&#8220;Bom como?&#8221; perguntou Nanico.</p>
<p>&#8220;Bom de b, o, m,&#8221; retrucou o delegado. &#8220;Bom para ser apresentado aos escalões superiores.&#8221;</p>
<p>&#8220;Se você quer saber se os números mostram a diminuição da criminalidade, Digital, a resposta é negativa,&#8221; adiantou Pedro.</p>
<p>&#8220;Mas tem que haver diminuição, meus caros. Será que vocês não capturaram a mensagem que eu passei? Ou será que os dois têm ouvidos poucos? O governo precisa porque precisa mostrar que a criminalidade está baixando como um todo. E não é só para os capixabas, é para o Brasil inteiro e para o mundo internacional! Foi uma recomendação expressa do secretário,&#8221; enfatizou Digital.</p>
<p>&#8220;É, mas o secretário pode botar a viola no saco. Eu e Pedro fizemos vários estudos para ver se amarrávamos o burro à vontade do dono, porque entendemos muito bem o seu recado, mas não deu pé,&#8221; esclareceu Nanico.</p>
<p>&#8220;Todos os crimes violentos cresceram de ano para ano?&#8221; insistiu Digital.</p>
<p>&#8220;Cresceram,&#8221; responderam juntos os dois funcionários.</p>
<p>&#8220;Vocês tentaram dividir os crimes, criando anuances dentro de um mesmo tipo? Por exemplo: seqüestro de adulto e seqüestro de criança, ou seqüestro de menor do sexo feminino e seqüestro de menor do sexo masculino; a mesma coisa para homicídio ou estupro?&#8221;</p>
<p>&#8220;Também fizemos isso, delegado, mas nem assim o perfil da criminalidade baixou,&#8221; informou Pedro.</p>
<p>&#8220;Porra, como é que nós vamos fazer para atender ao secretário?&#8221;</p>
<p>&#8220;Tá difícil, delegado,&#8221; disse Nanico. &#8220;Estatística é estatística.&#8221;</p>
<p>&#8220;Pícolas, Nanico! Estatística é estatística coisa nenhuma. Vou dizer uma coisa que aprendi na minha vida: as perguntas das estatísticas dependem de quem pergunta e as respostas dependem de quem responde. O mais é manipulação!&#8221;</p>
<p>&#8220;Ou má empulhação,&#8221; trocadilhou Nanico.</p>
<p>&#8220;Bem, delegado, já que você e Nanico falaram as palavras mágicas, só vejo uma saída, mas nem sei se vale a pena dizer, de tão primária que é,&#8221; arriscou Pedro.</p>
<p>&#8220;Tudo é válido, para validar o invalidável quando se quer validá-lo,&#8221; pontificou Digital, como se estivesse lapidando um princípio de Física Quântica. &#8220;Portanto, fale! Mostre que o PIB aqui da Delegacia é alto.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não é PIB, delegado, é QI,&#8221; corrigiu Pedro.</p>
<p>&#8220;Qui q-i qui nada. É PIB mesmo. Estou falando do produto interno bruto da Delegacia: eu, você e Nanico. Pensam que eu não manjo de psicologia?&#8221;</p>
<p>&#8220;Deixando a psicologia de lado, delegado, o que eu pensei, e nem havia falado ainda pro Nanico, foi reduzir a comparação da criminalidade de quatro para dois anos e jogar os dados do ano bissexto do período contra os do ano seguinte. Como este teve um dia a menos, consegue-se uma pequena baixa no índice dos crimes entre esses dois anos,&#8221; cantou Pedro a pedra da batida.</p>
<p>&#8220;E dessa maneira há caída no índice dos crimes violentos?&#8221; indagou Digital interessado.</p>
<p>&#8220;Ainda assim a queda foi apenas em relação a seqüestro e a estupro seguidos de morte,&#8221; observou Pedro.</p>
<p>&#8220;Mas já é alguma coisa,&#8221; conformou-se Digital.</p>
<p>&#8220;E qual foi a redução percentual?&#8221; quis saber Nanico.</p>
<p>&#8220;Nos crimes de seqüestro seguido de morte foi de 0,002%, e nos de estupro, de 0,001%&#8221;, respondeu Pedro, consultando os cálculos que fizera em folha à parte.</p>
<p>&#8220;Você acha que assim resolve o problema, delegado?&#8221; perguntou Nanico.</p>
<p>&#8220;Se é o que se pode dar, é o que se vai dar. A gente cumpre a nossa parte e o secretário que ponha a equipe da Promoção Publicitária do governo para trabalhar esses números a favor da política oficial.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eles podem dizer que trabalharam os dados por amostragem,&#8221; lembrou Pedro.</p>
<p>Digital concordou, dizendo: &#8220;Embora desta saara eu não entenda patafina, sua idéia é genial, Pedro. Até porque a turma da publicidade sabe como transformar santo do pau de coco em santo do pau oco. O que não falta a eles é presença de espírito.&#8221;</p>
<p>&#8220;Podemos então fechar o quadro?&#8221; inquiriu Nanico.</p>
<p>&#8220;Fechem, fechem o mais depressa possível que eu quero enviar essas estatísticas ainda hoje para o secretário. E quando terminarem vamos tomar uma cerveja em comemoração, no bar do Bigode.&#8221;</p>
<p>&#8220;Você paga, Digital?&#8221; cutucou Pedro a proverbial sovinice do delegado.</p>
<p>&#8220;Vamos disputar na porrinha,&#8221; safou-se Digital, dando uma risada. &#8220;Pensam que vocês me pegam, seus babacas? Eu tenho o raciocínio velódromo.&#8221;</p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>Dostoiévski ou entre a mãe e a filha</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/dostoievski-ou-entre-mae-e-filha/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 18:06:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Chapot Presvot 272]]></category>
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		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A jovem de blusa amarela e calça jeans parou meio intimidada diante do número 272 da rua Chapot Presvot. Quando tomou coragem, empurrou o portãozinho desconjuntado que dava acesso ao jardim da casa onde funcionava a 1ª Delegacia de Polícia da Praia do Canto, e entrou. Uma calçada estreita, de cacos de cerâmica, vermelhos e [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A jovem de blusa amarela e calça jeans parou meio intimidada diante do número 272 da rua Chapot Presvot.</p>
<p>Quando tomou coragem, empurrou o portãozinho desconjuntado que dava acesso ao jardim da casa onde funcionava a 1ª Delegacia de Polícia da Praia do Canto, e entrou. Uma calçada estreita, de cacos de cerâmica, vermelhos e pretos, conduzia até a varanda em arco, destacada do corpo do antigo imóvel residencial.</p>
<p>Sentado na mureta da varanda, de costas para a rua, um homem curtia um cigarro, projetando languidamente espirais de fumaça para o alto.</p>
<p>&#8220;Bom dia,&#8221; disse ela. &#8220;Eu queria falar com o delegado.&#8221;</p>
<p>O homem do cigarro olhou-a de cima em baixo, e fez seu diagnóstico mental: &#8220;Mulher da classe média baixa, jovem e bonita &#8211; um bom pedaço.&#8221;</p>
<p>&#8220;O delegado está ocupado, atendendo ao deputado Ribeirinho. É assunto particular?&#8221;</p>
<p>Ela pensou se valia a pena continuar ou ir embora. Mas decidiu-se: &#8220;Eu queria dar uma queixa&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Então pode ser comigo mesmo,&#8221; disse o homem, levantando-se, enquanto atirava a guimba do cigarro no canteiro sem grama, diante da varanda. &#8220;Meu nome é Pedro e eu sou o escrivão de polícia.&#8221;</p>
<p>A jovem seguiu o escrivão, passou pela sala de piso de tacos de madeira que formavam desenhos em preto-e-branco e entrou no recinto dos depoimentos.</p>
<p>&#8220;Sente-se e fique à vontade,&#8221; disse o escrivão, preparando a Olivetti para datilografar a queixa. &#8220;Agora me diga seu nome, nacionalidade, estado civil, profissão, número da carteira de identidade, CPF e endereço.&#8221;</p>
<p>Ela tornou a avaliar se não devia ir embora, dando o assunto por encerrado antes que o tivesse começado. Mas ficou.</p>
<p>&#8220;Núbia, meu nome é Núbia e sou casada&#8230;&#8221;</p>
<p>O escrivão a olhou por cima dos óculos de aros redondos e finos, mas não fez nenhum comentário.</p>
<p>&#8220;Núbia de quê?&#8221;</p>
<p>&#8220;Núbia Lima e Silva.&#8221;</p>
<p>&#8220;Lima e Silva?&#8221; A pergunta veio acompanhada de uma nova espiada por sobre as lentes oculares.</p>
<p>&#8220;Por que o senhor estranhou?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não estranhei, apenas liguei seu sobrenome ao do Duque de Caxias. Era seu parente?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu, hein?!&#8230;&#8221; reagiu a jovem com um sorriso curto, mas suficiente para que o escrivão admirasse seus belos e harmoniosos dentes.</p>
<p>Depois de datilografar os dados iniciais do depoimento, ele fez a pergunta essencial, fixando a interrogada: &#8220;Qual é a queixa que a senhora deseja apresentar?&#8221;</p>
<p>&#8220;Bem, é contra o meu marido&#8230;&#8221;, disse ela, mexendo-se na cadeira.</p>
<p>O escrivão dirigiu-lhe outra olhadela inquietante, desta vez um pouco mais demorada, por cima dos óculos. &#8220;O que foi que seu marido fez?&#8221;</p>
<p>&#8220;Bem, ele&#8230; ele quis me forçar, sabe como é?&#8221;</p>
<p>Pedro sabia, ora se sabia, mas queria pormenores, depoimento são pormenores. &#8220;Explique-se melhor, por favor.&#8221;</p>
<p>&#8220;Queria me forçar, ora! Queria ter relação comigo&#8230; daquele jeito. Preciso dar detalhes?&#8221;</p>
<p>&#8220;Que precisa, precisa,&#8221; disse ele, os olhos vivazes, enquanto acendia um cigarro.</p>
<p>&#8220;Olha, eu vou mostrar as marcas,&#8221; disse ela, soltando um botão da blusa e oferecendo a visão dos ombros límpidos, livres dos cabelos longos que suspendeu com a mão, num gesto de toalete. &#8220;Está vendo?&#8221;</p>
<p>Sim, o escrivão via o bem torneado corpo do delito com arranhões e equimoses violáceas.</p>
<p>&#8220;Mas seu marido (o escrivão quase disse esse patife) conseguiu consumar o ato?&#8221;</p>
<p>&#8220;Como?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ele conseguiu o que queria?&#8221;</p>
<p>&#8220;Claro que não. Eu reagi, gritei, bati a porta do nosso quarto e fui dormir na sala. Mas mesmo sendo uma tentativa fracassada é crime, não é?&#8221; perguntou, indecisa.</p>
<p>&#8220;É crime se houver queixa,&#8221; esclareceu o escrivão. &#8220;Nosso delegado, Dr. Digital, costuma dizer que sem queixa não há queixoso e, sem queixoso, não há queixa. É o que ele gloriosamente chama de princípio da queixa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sabe que ele tem razão.&#8221;</p>
<p>&#8220;Razão? O Dr. Digital sempre tem razão&#8230; Mas quando foi essa agressão contra a sua&#8230; natureza?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ontem à noite,&#8221; respondeu Núbia. &#8220;Hoje pela manhã é que decidi vir à Polícia.&#8221;</p>
<p>&#8220;Fez de muito bem. Se todas as mulheres fizessem como a senhora, o mundo não seria tão dostoievsquiano.&#8221;</p>
<p>Notando o espanto no rosto da jovem, o escrivão procurou justificar-se: &#8220;É uma expressão tirada do nome de Dostoiévski, um romancista russo, da minha predileção.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu sei quem ele é,&#8221; disse Núbia, devolvendo o espanto para o escrivão.</p>
<p>&#8220;Sabe? Você (o você escapou-lhe sem querer) lê Dostoiévski?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu não. Mas minha mãe lê.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sua mãe lê?&#8221;</p>
<p>&#8220;Lê e é apaixonada por ele. Ela diz que aprendeu a gostar de Dostoiévski com um professor de português&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Onde sua mãe estudou?&#8221; perguntou o escrivão, sem esconder seu interesse.</p>
<p>&#8220;Na Academia Bil Vicente.&#8221;</p>
<p>&#8220;Bil, não! Gil, Gil Vicente. Pois olha, minha filha: quem dava aula de português nessa academia era eu. E sempre falava de Dostoiévski, que eu considero um dos maiores romancistas mundiais!&#8221;</p>
<p>&#8220;Que coincidência incrível!&#8221; encantou-se a depoente.</p>
<p>&#8220;Realmente, uma bruta coincidência. E a propósito, como é o nome de sua mãe?&#8221;</p>
<p>&#8220;Nubiana. Por isso é que eu me chamo Núbia. Lembra-se dela?&#8221;</p>
<p>O escrivão não se lembrava e se recriminava por não se lembrar já que, provavelmente, muito provavelmente, tal filha, tal mãe.</p>
<p>&#8220;Ela se parece comigo. Aliás, eu me pareço com ela&#8230;&#8221; corrigiu-se Núbia, rindo envaidecida da semelhança filial, os dentes finos e marmóreos.</p>
<p>Mas nem por aquela indicação ele conseguia se lembrar da antiga aluna.</p>
<p>&#8220;Bem, vamos voltar ao nosso depoimento&#8230; A senhora dizia que&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Olha, seu escrivão, a referência que o senhor fez ao Dostoiévski me deixou indecisa. Acho que vou conversar primeiro com minha mãe, ouvir a opinião dela sobre este assunto, talvez até ler um pouquinho de Dostoiévski. Se for o caso, volto para continuar a queixa. O que o senhor acha desta decisão?&#8221;</p>
<p>&#8220;A prudência é uma virtude. Aliás, uma queixa é um negócio muito sério, teremos de ouvir o seu marido, sabe como é, essas coisas começam numa acusação e viram monstro, acabam afetando a vida das pessoas&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Então eu vou parar por aqui&#8221;.</p>
<p>Ela levantou-se e estendeu a mão ao escrivão, para a despedida. Ainda com a mão retida na dele, repetiu a questão que a intrigava: &#8220;Mas que é crime é, o que ele quis fazer comigo, não é?&#8221;</p>
<p>&#8220;Olha, se você voltar para dar queixa eu vou lhe mostrar onde se enquadra seu caso no Código Penal, está bem?&#8221;</p>
<p>&#8220;Está.&#8221;</p>
<p>O escrivão acompanhou a jovem até a varanda. Quando ela já ia saindo, ele falou: &#8220;Diga a sua mãe que se ela quiser conversar sobre Dostoiévski com o seu ex-professor, não precisa nem vir aqui. Basta me telefonar. No catálogo tem o número da delegacia.&#8221;</p>
<p>&#8220;Pode estar certo de que vou dar o recado,&#8221; respondeu Núbia, com um adeusinho de dois dedos.</p>
<p>O escrivão voltou a se sentar na mureta da varanda, as pernas magras esticadas sobre o piso de cerâmica vermelha descorada. Tirou um cigarro da carteira enfiada numa capa de couro para ocultar a publicidade anticancerígena, acendeu-o, e começou a fumegar em êxtase de paxá.</p>
<p>&#8220;Nubiana! Um nome desses e não consigo me lembrar dela&#8230;&#8221;</p>
<p></p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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