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	<title>Arquivos Contos &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<title>Arquivos Contos &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Mina Rakastan Sinua (contos), volume 1</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 20 Mar 2017 17:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Série Estação Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nota do site Estação Capixaba O livro de contos Mina Rakastan Sinua, de Reinaldo Santos Neves, editado pela CÂNDIDA e site ESTAÇÃO CAPIXABA, foi publicado em 2016 com patrocínio da LEI RUBEM BRAGA e apoio cultural da SPASSU TECNOLOGIA. O projeto apresentado, tendo como proponente Eurico Scaramussa, previa, à guisa de contrapartida, além da doação [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-image"><figure class="alignleft is-resized"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-PkTYmJ4cVz4/WNALN1rqxCI/AAAAAAAAMNg/R0yWM1sDVE4kMmqJyJgKFZV-UBo2L7WAQCLcB/s1600/Capa-2.jpg"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/03/Capa-2.jpg" alt="" class="wp-image-5228" width="812" height="552"/></a></figure></div>



<p class="wp-block-paragraph"><b>Nota do site Estação Capixaba</b></p>



<p class="wp-block-paragraph">O livro de contos <i>Mina Rakastan Sinua</i>, de Reinaldo Santos Neves, editado pela CÂNDIDA e site ESTAÇÃO CAPIXABA, foi publicado em 2016 com patrocínio da LEI RUBEM BRAGA e apoio cultural da SPASSU TECNOLOGIA. O projeto apresentado, tendo como proponente Eurico Scaramussa, previa, à guisa de contrapartida, além da doação de exemplares ao patrocinador e à empresa apoiadora, dois outros itens: (a) realização de um debate público, o que aconteceu, sob a forma de mesa-redonda, no auditório do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, em Vitória, no dia 22 de fevereiro de 2017, tendo, além do autor, participado da mesa Gilbert Chaudanne, Sérgio Blank e o editor Alfredo Andrade; e (b) publicação online, para leitura gratuita, de quatro dos nove contos do livro, aqui cumprida. Os quatro contos foram selecionados pelo próprio autor.</p>



<p class="wp-block-paragraph"><b><a href="https://drive.google.com/file/d/1cruagHVdYHAsidTfaq4YtrMDL2fR7CcK/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Orelhas</a></b></p>



<p class="wp-block-paragraph"><b><a href="https://drive.google.com/file/d/1X4_WYbv6MioKIbF4dqI5vA5iackWFekU/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Introdução</a></b><br><b><br></b><br><b><a href="https://drive.google.com/file/d/19xntgbw2zq961fhadU2tbpnZhZLyPey5/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Sumário</a></b><br><b><br></b><br><b>Contos</b></p>



<p class="wp-block-paragraph"><a href="https://drive.google.com/file/d/1yZN5LcHZOTGDPOYv7yFxi7iiL-5bLMV7/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Nascido em 4 de julho</a><br><a href="https://drive.google.com/file/d/1FjnGTmzvT26jhTiIfKavvwexfgC6Fr_G/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Homens de letras</a><br><a href="https://drive.google.com/file/d/1vC7M9lgwjd7DkmqUaJlPBQ3Xa4lOHGyT/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Inverno em Volna</a><br><a href="https://drive.google.com/file/d/1CJWNM_8gtY3P1V2uEa524veV1CHUkl8z/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">A corveta em chamas</a><br><a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Literatura/RSN/Mina%20Rakastan%20Sinua/P%C3%A1ginas%20finais.pdf" target="_blank" rel="noopener"><br></a><br><b><a href="https://drive.google.com/file/d/177ZwUAnfJw7MHINB_G__C-G2JRCxu7nD/view?usp=sharing" target="_blank" rel="noopener">Páginas finais</a></b></p>



<p class="wp-block-paragraph">[In SANTOS NEVES, Reinaldo. Mina Rakastan Sinua &#8211; contos. Vitória: Cândida / Estação Capixaba, 2016.]</p>



<figure class="wp-block-image"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-qXFIUP_S1iI/WNFKeCkdYaI/AAAAAAAAMNw/d9763zATCQcHtJ7rx-THzWlB1RR2MmgYwCLcB/s1600/Marcas.jpg"><img decoding="async" width="640" height="115" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/03/Marcas.jpg" alt="" class="wp-image-5229"/></a></figure>



<p class="wp-block-paragraph">&#8212;&#8212;&#8212;<br><b><span style="color: #660000;">© 2016&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br>&#8212;&#8212;&#8212;</p>



<blockquote class="wp-block-quote tr_bq is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow"><p><b>Reinaldo Santos Neves</b>&nbsp;é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>Contos do livro No escuro, armados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 18:38:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Marcos Tavares]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>CONVERSÃO DO ANJO No ar, aroma de De Luxe, como de quem recém-saído do banho. À meia-luz, exigência: — Primeiro as meias, devagarinho. Não há pressa. Antes, jurando inocência, que &#8220;não era disso&#8221;; depois, despiu os pudores e, pouco a pouco, as partes mais ínfimas. Carinhos mil no pescoço. — Coço mais, meu anjo? Descendo, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
CONVERSÃO DO ANJO</p>
<p>No ar, aroma de De Luxe, como de quem recém-saído do banho.</p>
<p>À meia-luz, exigência:</p>
<p>— Primeiro as meias, devagarinho. Não há pressa.</p>
<p>Antes, jurando inocência, que &#8220;não era disso&#8221;; depois, despiu os pudores e, pouco a pouco, as partes mais ínfimas.</p>
<p>Carinhos mil no pescoço.</p>
<p>— Coço mais, meu anjo?</p>
<p>Descendo, meticuloso, aos pés.</p>
<p>— Coço mais, meu anjo?</p>
<p>De novo, no pescoço. E ao pé do ouvido:</p>
<p>— Coço mais, meu anjo?</p>
<p>Olhou, tímida, e fez &#8220;não&#8221; com a cabeça.</p>
<p>— De quem é isso, hem?</p>
<p>Mão apalpando o seio esquerdo.</p>
<p>— Seu coração bate.</p>
<p>Corridinha à porta do quarto. Preocupação rápida em vedar orifício da fechadura.</p>
<p>— Ninguém mais. Pronto.</p>
<p>Risinho meio cúmplice, a mão aliciante, posta no fogo. Em teia de aranha, bem na mosca.</p>
<p>— Olha que isto não é público&#8230; — reclame em falso tom pudico. E a fuga, para o meio dos lençóis.</p>
<p>Testa reluzente de suor.</p>
<p>— Dá cá o pé, minha lourinha.</p>
<p>O animal ainda não doméstico.</p>
<p>— Lúcia, vem, Lúcia.</p>
<p>Voz em tom mais ameno.</p>
<p>— Dá um beijinho no papai aqui.</p>
<p>O olhar estudantil e desatento.</p>
<p>— Dá, meu bichinho de pelúcia.</p>
<p>Alucinado quase, ao pé da cama. Arfando, o salto em preparo.</p>
<p>Armadilhando a presa. Ao alcance agora.</p>
<p>Lance único, Lúcia imposta em pêlo, sob domínio. Carnudo o corpo, despido.</p>
<p>— Eta, Lúcia boa!</p>
<p>Trêmulas, em luvas de pelica, mãos descrevendo a anatomia. Perito no assunto. Cioso de tudo.</p>
<p>Punha Lúcia quadrúpede. Selvagina nunca vista.</p>
<p>— Minha nossa!</p>
<p>A ladainha de sempre.</p>
<p>— Santa Virgem!</p>
<p>— Quê???</p>
<p>— Nada, nada. Olha o tubarão.</p>
<p>Rindo, às gargalhadas, semilouca.</p>
<p>— Sua barba&#8230;</p>
<p>Lucinha já de pé, soluçando, já ré arrependida.</p>
<p>— Ora, ora!</p>
<p>Luciferino brilho nos olhos, lúcido então.</p>
<p>— Vem, bonequinha de louça.</p>
<p>Promessa de nada fazer e outras juras.</p>
<p>— Prometo.</p>
<p>Deitado, citando trechos poéticos. De memória, ou inventados.</p>
<p>— Ó menina dos meus olhos, nina-me, nina-me&#8230;</p>
<p>Lúcia bebendo do vinho. &#8220;In vino veritas&#8221;.</p>
<p>As ondas indo e vindo.</p>
<p>— E teu perfil é de estátua grega.</p>
<p>Lucinha embriagada com o álcool das palavras.</p>
<p>— Diz mais.</p>
<p>A cabeça nas nuvens, navegando.</p>
<p>Ele singrando as enseadas dela.</p>
<p>Salva do afagamento, respiração boca a boca.</p>
<p>Línguas funcionando, a traduzir anseios.</p>
<p>— Bela Babel&#8230; — exclame entre confusão de línguas.</p>
<p>Subindo, ambos, o alto da torre. Subindo, aos céus.</p>
<p>Ela toda mordidinha. Espora em potra selvagem, pondo ele.</p>
<p>— Malvado.</p>
<p>Só, domava-a, corcel fogoso.</p>
<p>Logo morria de regozijo.</p>
<p>— Ai, minha gostosa — em fogo, ressuscitando do inferno.</p>
<p>— Meu paraíso.</p>
<p>— Meu demônio.</p>
<p>Ela, toda gozosa, ainda.</p>
<p>— Lucinha do coração.</p>
<p>— Lucinha de minha vida.</p>
<p>Ai, sempre acesa a chama.</p>
<p>Lucinha disto. Lucinha daquilo.</p>
<p>Lucinha cá.</p>
<p>[p. 26-8]</p>
<p>* * * * *</p>
<p>DE CODIFICAÇÕES</p>
<p>&#8220;Deixai simplesmente que a vossa palavra Sim signifique sim, e o vosso Não, não, pois tudo o que for além disso é do iníquo.&#8221; Mateus, V, 37.</p>
<p>— Alô?&#8230; É da residência do lingüista? Alô?&#8230;</p>
<p>— Sim! O senhor reparou quando disse alô? Um alô é não mais do que o meu sim inicial. Ele jamais constata alguma coisa; ele responde, chama, compromete. Preocupa-se em testar contato, ou interessa-se no prolongamento da comunicação, ou impede que seja interrompida. Não há nele objetivos informativos. Ele tem uma função centrada no canal, que, neste caso, são os fios telefônicos. Em lingüística, diz-se que ele tem uma função fática. Vide Jakobson.</p>
<p>— Obrigado, professor. O senhor é mesmo um gênio. Mas nós gostaríamos&#8230;</p>
<p>— Outra coisa. Esse nós, que o senhor disse, ou é plural majestático ou o senhor incluirá na frase, evidentemente, um aposto, que me esclarecerá esse nós.</p>
<p>— É que nós, jornalistas, enquanto&#8230;</p>
<p>— Eu não disse? Disse.</p>
<p>— Exato. Eu queria saber do senhor&#8230;</p>
<p>— Você queria, e não quer mais? Queria é imperfeito. O senhor queria. E continua querendo, no presente? Ou não quer mais? Percebeu a alteração do sentido temporal?</p>
<p>— Percebi, professor&#8230;</p>
<p>— Mas eu, idem, percebi o espírito de sua frase. O seu queria, na verdade, é o imperfeito de cortesia, de que assim nos fala Spitzer: a transformação de uma ação presente em uma ação passada retira o que ela pode ter de brusco. O senhor, o falante, por respeito a minha pessoa, o interlocutor, quis amenizar o tom impositivo que há no verbo querer, quando no presente do indicativo. Correto?</p>
<p>— Muito correto, professor. O senhor é mesmo um grande. Mas o senhor poderia escrever um artigo sobre linguagem para a nossa revista?</p>
<p>— Você me indaga se sou capaz, coisa duvidosa, ou seu eu aceitaria escrever um ensaio? Nesta segunda hipótese, seria um pedido ou um convite. Uma eficiente interpretação vai depender da entonação, da nossa relação nas duas extremidades da linha, de muitos outros dados, de um contexto, situacional, que não é imediatamente lingüístico. O senhor mesmo, que já foi meu aluno em faculdade, estudou comigo sobre esse assunto. Ficou claro?</p>
<p>— Sim, professor, Claro.</p>
<p>— Dito isso, na primeira hipótese (você é capaz de&#8230;), a indagação remete-nos a uma resposta que alguns estudiosos diriam confirmativa. Meu sim equivaleria a: sou capaz. Assim, eu pretenderia dizer o que é, definir, descrever, constatar. Entendido?</p>
<p>— Entendido, professor. É muito interessante. Mas&#8230;</p>
<p>— Mas se a pergunta equivalesse ou tivesse o efeito de um convite, meu sim não constataria nada, ele faria alguma coisa, ele me comprometeria. Minha promessa provocaria um acontecimento que não tinha nenhuma chance de aparecer, assim como não teria nenhum sentido, antes de meu sim. Este, sim, não tem mais valor confirmativo; é, essencialmente, performativo, no sentido de: eu afirmo, eu digo que, eu acredito que, eu penso que sou&#8230;</p>
<p>— Como o senhor mesmo disse, um sim em si mesmo equivale a um alô, porque jamais constata coisa alguma. É vazio de significado, embora contenha significante. Um sim confirmativo.</p>
<p>— Alô! Muito cuidado com a terminologia. A distinção entre o confirmativo e o performativo continua sendo resumida, desobrando-se em refinamentos que não cessam de agudizar sua dificuldade. Quando o senhor afirma que o sim é vazio de significado, embora contendo significante, pode (sic) estar afirmando uma falácia. Essa assertiva, lato sensu, é enganosa. Ora, sabe-se que é arbitrário o laço unificador do significado ao significante. E entende-se por signo ao total resultante da associação desses dois elementos. Então, concluo, apud Lévy-Strauss, que o signo lingüístico é arbitrário a priori, mas que deixa de sê-lo a posteriori. O senhor sabia?</p>
<p>— Confesso que não sabia, professor.</p>
<p>— Então fique sabendo que no meu próximo livro esse será um assunto exaustivamente questionado, verbum ad verbum. Apenas uma parte dos signos é absolutamente arbitrária. O signo, enquanto unidade constitutiva da língua, une, não uma coisa ao nome, e sim um conceito a uma imagem acústica. — Alô? O senhor poderia exemplificar no caso do sim que comentávamos?</p>
<p>— Pois não. O senhor repare que, quando digo pois não, eu, na verdade, pretendo e quero e digo sim, eu posso.</p>
<p>— Alô, professor, mas o senhor não disse sim, eu posso. O senhor disse pois não. Há, pelo menos, uma sensível diferença de significante, embora o significado&#8230;</p>
<p>— Pois sim. Eu já explico. O senhor observe que quando eu enuncio pois sim, eu pretendo exprimir algo que manifeste minha indisposição, uma negação, um não.</p>
<p>— Sim, professor, sim. Eu admiro sua agilidade intelectual. Mas naquele caso do sim o senhor ainda não me esclareceu.</p>
<p>— A fim de melhor compreensão didática, convém remontar aos tópicos básicos, rever conceitos fundamentais, citar considerações de outros igualmente estudiosos. Um leigo jamais deveria entrar, ex-abrupto, neste assunto. Mas o senhor já tem um bom embasamento teórico, de tal forma que começo aqui mesmo.</p>
<p>— Alô, mestre? Na verdade, eu prefiro Ter o prazer de ler no seu próximo livro sobre este importante tema. Eu sei que o senhor é muito aprofundado. Agora, eu queria e continuo querendo e quero saber, também para a nossa revista: por que o seu extremo interesse para com a linguagem?</p>
<p>— Se o senhor me pergunta linguagem no sentido estrito de &#8220;faculdade que têm os homens de se intercomunicarem através de signos orais&#8221;, como quer Saussure, eu respondo: &#8220;Je&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..&#8221;, como escreveu Barthes, in Le plaisir du texte, Éditions du Seuil. Mas já traduzo: &#8220;Eu me interesso pela linguagem porque ela me fere ou me seduz&#8221;. Aliás, a linguagem é algo mítico e místico. Os livros sagrados têm muitos exemplos. A Bíblia revela isso. Vide Evangelho de João: &#8220;No princípio era o Verbo.&#8221; Vide torre de Babel. Vide o &#8220;sim, sim&#8221; e o &#8220;não, não&#8221;.</p>
<p>— O senhor me faz lembrar Brecht e suas duas óperas para a escola: &#8220;Aquele que diz sim e aquele que diz não&#8230;&#8221;</p>
<p>— Sim, porém não. Quero dizer: faço lembrar porém não quero. Eu não suportaria e não suporto alguém que faça arte com fins didáticos. Há na comunicação, lato sensu, profundas implicações ideológicas. A linguagem é instrumento sine qua non de manipulação do poder. Daí eu não admitir alguém didatizar (sic) através da arte. A arte é terreno do lúdico.</p>
<p>— Professor, a alienação através da linguagem é um assunto que o senhor deveria, exempli gratia, explorar em seus estudos, e&#8230;</p>
<p>— Não, porém, sim. Que dever tenho eu para com esse assunto? Ninguém, nenhuma autoridade, nenhum poder, ex lege, me obrigará a fazê-lo. Não devo, porém, posso. Sim, eu posso. Eu tenho poder para tal. Eu tenho todo o direito. Meu curriculum vitae é dos maiores. Possuo em várias universidades o título de doutor honoris causa. Alô? O senhor sabia? Alô? O senhor não me ouve bem?</p>
<p>— Alô, não, doutor. Quero dizer: sim, eu sabia. Eu quis dizer: não o ouço mal; eu o ouço bem, sim. A propósito, a sua pronúncia de latim continua sui-generis. Mas o senhor seria capaz de escrever mesmo o ensaio para a nossa revista?</p>
<p>— Já que o senhor entrou no jogo, eu poderia responder: sim, porém não (sim, sou capaz, porém não aceito escrever o ensaio). Ou ainda sim, sim (sim, eu sou capaz e aceito, sim, escrever o ensaio). Ou então não, não (não, não sou capaz, e não aceito escrever o ensaio). Ou por outra: não, porém sim (não, não sou capaz, porém aceito, sim, escrever o ensaio).</p>
<p>— Alô? Enfim, o senhor poderá, ou não, escrever o ensaio para a revista?</p>
<p>— Meu caro ex-aluno, você me força a parecer pedante. Repare que você me pergunta: o senhor poderá, ou não? Se eu puder, a resposta será um sim; caso constrário, um não. Então, basta dizer: O senhor poderá? E qualquer resposta minha, afirmativa ou negativa, eliminará a necessidade da outra opção, tornando-a redundante, portanto alógica. Ainda assim, o problema, in totum, não está concluído. Observe, verbi gratia, na pergunta: o senhor não poderá? Se eu responder não, estaria dizendo não poderei. Porém, se eu responder sim, posso estar dizendo sim, eu não poderei. Repare que, hic et nunc, sim e não se equivalem.</p>
<p>— Brilhante, professor. Mas esse não equivale a um sim, como no exemplo citado?</p>
<p>— Não equivale. Estarei muito ocupado com outro ensaio, sobre o sim e o não. Não creio que possa.</p>
<p>— Compreendo. Permita-me dizer boa noite, sim, professor.</p>
<p>— Pois não, data venia.</p>
<p>[p. 32-7.]</p>
<p>* * * * *</p>
<p>D DE DENTE</p>
<p>Entra mudo e aguarda calado.</p>
<p>Entre dois dedos, um cigarro de ruim marca, aceso, mal disfarça o nervosismo das mãos. Colocá-las sobre as pernas? Deixá-las livres? Ou cruzar os braços?</p>
<p>E as pernas? Cruzá-las? Ou deixá-las à vontade? E se não parecer elegante? Pernas, pra que vos quero?</p>
<p>Minutos de espera e de dúvida, não se resolve.</p>
<p>Um cigarro após o outro é a solução. Ou um pigarro.</p>
<p>A atendente é toda só riso postiço e crava nele os olhos de vampira d&#8217;óculos.</p>
<p>— Agora é sua vez.</p>
<p>Desorientado, exibe, em agradecimento, sorriso amarelo de nicotina.</p>
<p>— Entre.</p>
<p>Entra mudo. Rês dócil caminhando ao abatedouro.</p>
<p>O odontólogo, de entre os dentes d&#8217;ouro, também diz:</p>
<p>— Entre.</p>
<p>E ainda:</p>
<p>— Sente-se.</p>
<p>E ainda:</p>
<p>— Sente-se bem?</p>
<p>Quer estabelecer uma ponte.</p>
<p>O outro faz duvidoso meneio com a cabeça.</p>
<p>— O senhor não fala?</p>
<p>— Sim.</p>
<p>— Fala ou não fala?</p>
<p>— Sim.</p>
<p>— Hum&#8230;</p>
<p>Há uma pausa, longa, de silêncio.</p>
<p>— Abre a boca.</p>
<p>Fecha os olhos. Mas o odontólogo, logo, douto:</p>
<p>— Veremos o que o senhor tem na boca.</p>
<p>Quase diz. Mas não diz. Considera imprudente.</p>
<p>— Qual é o dente?</p>
<p>Aponta com o dedo médio. Poupa o indicador.</p>
<p>— Hum&#8230;</p>
<p>O profissional observa, minucioso.</p>
<p>— Hum&#8230; O molar superior esquerdo.</p>
<p>E toca o local.</p>
<p>— Dói?</p>
<p>Faz sim com a cabeça.</p>
<p>O odontólogo, incisivo:</p>
<p>— Sinto muito, mas é necessário extração.</p>
<p>A raiva canina, o desejo de triturar os dedos dele.</p>
<p>Rápido, o auxiliar passa-lhe à mão os instrumentos. É a eficiência em pessoa.</p>
<p>— Abre mais a boca.</p>
<p>Abre bem os olhos. Quer engolir o mundo. Engole em seco.</p>
<p>— Hum, hum&#8230;</p>
<p>Os dentes em situação precária, a boca quase oca deles. A anestesia, a anestesia&#8230;</p>
<p>— Agora cospe.</p>
<p>Boquiaberto, pratica masoquismo na cadeira odontológica. Ai, em tuas mãos entrego a minha boca.</p>
<p>— Não está doendo nada.</p>
<p>— Hum&#8230;</p>
<p>Uma dor ardente. A extração, a extração&#8230;</p>
<p>— Não dói nada.</p>
<p>— Hum&#8230;</p>
<p>O auxiliar faz ar de riso. O profissional, de siso.</p>
<p>— Agora cospe.</p>
<p>Então, o secular diálogo, desde a invenção da tortura e do sexo, segundo os entendidos de um e de outro.</p>
<p>— Dói?</p>
<p>— Ai.</p>
<p>A sempre retórica pergunta.</p>
<p>Agora cospe.</p>
<p>— Dói?</p>
<p>— Ui.</p>
<p>A milenar resposta.</p>
<p>Agora cospe.</p>
<p>— Dói?</p>
<p>— Ói.</p>
<p>Sobre o armário, irônica dentadura sorri dentes alvos e perfeitos.</p>
<p>— Hum&#8230; Pronto. Extraí o mal pela raiz.</p>
<p>Mostra, vitorioso, o troféu.</p>
<p>— O senhor escove os dentes pelo menos três vezes ao dia. Pela manhã, após o almoço e após o jantar. Assim, evita a cárie e&#8230;</p>
<p>Mas ele já sai, calado, como quando entrou. Porém, com a humilhação de um dente a menos.</p>
<p>— Hum&#8230;</p>
<p>[p. 50-3.]</p>
<p>* * * * *</p>
<p>ÉDEN IDEM</p>
<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;</p>
<p>—&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>—&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..</p>
<p>— Homem, tenho aqui no ventre um filho seu.</p>
<p>— Ora, mulher, então é seu.</p>
<p>— Não, homem, é seu mesmo.</p>
<p>— E de quem é o seu ventre, mulher?</p>
<p>— É meu o ventre, homem.</p>
<p>— Então seu é o filho, mulher.</p>
<p>— Homem, você não crê que este seja seu filho?</p>
<p>— Você disse, mulher.</p>
<p>— Homem, então, é você que é o pai.</p>
<p>— Você diz, mulher. Mas você mesma não sabe quem.</p>
<p>— É você, homem. Juro por Deus.</p>
<p>— Você mente, mulher. Sua língua é serpente.</p>
<p>— Não falo entre dentes, homem: ou digo a verdade ou seu filho será mendigo.</p>
<p>— Há um engano aqui, mulher.</p>
<p>— Você não me engana, homem.</p>
<p>— Não é possível, mulher. Há um engano.</p>
<p>— O médico está certo, homem: há sete meses um filho é possível.</p>
<p>— Mulher, há sete meses eu estava fora.</p>
<p>— Fora de mim, homem. Fora de mim.</p>
<p>— Mulher, eu estava no interior do país.</p>
<p>— E no meu interior uma parte sua, homem.</p>
<p>— Eu não tenho culpa, mulher.</p>
<p>— Seu filho, sim, homem, não tem culpa do pai que tem.</p>
<p>— Nós somos inocentes. Ele é um inocente. Eu, mulher, sou inocente.</p>
<p>— Homem, você se nega a ser o pai de seu filho.</p>
<p>— Mas, mulher, eu não posso ser pai de qualquer um. Há muitos querendo pai. Há muitas mães.</p>
<p>— Homem, seu filho, quando crescer, será um filho sem pai.</p>
<p>— Mulher, você é a mãe. O filho é seu.</p>
<p>— Homem, vocês são todos iguais.</p>
<p>— Mulher, deve ter sido alguém igual a mim.</p>
<p>— Homem, eu estou certa do que digo.</p>
<p>— Eu não estou certo disso, mulher.</p>
<p>— Homem, naquela noite, jantamos juntos num restaurante.</p>
<p>— E depois, mulher?</p>
<p>— Depois, homem, dormimos juntos num dormitório.</p>
<p>— E depois, mulher?</p>
<p>— E, depois, eu fui sua mulher.</p>
<p>— Vocês, mulheres, são todas iguais. Aqui e na China.</p>
<p>— Homem, ser mulher-mãe é um inferno. E você nunca foi à China.</p>
<p>— Mulher, nunca estive lá. Nem aqui, antes.<br />
— E você, naquela noite, disse que eu era diferente de todas as outras. Você disse, homem.</p>
<p>— Mulher, você jura que não mente? Que não perdeu o juízo?</p>
<p>— Homem, juro pela vida de seu filho que há de nascer.</p>
<p>— Isso não é possível, mulher. Deve ser fruto de sua mente.</p>
<p>— De sua semente, homem. De sua semente em mim.</p>
<p>— Oh, minha mulherzinha, você é um demônio de anjo.</p>
<p>— E você é o meu homem. O meu homem.</p>
<p>— E você minha mulherzinha.</p>
<p>— E você o meu homem. O meu homem.</p>
<p>— E você minha mulherzinha. Minha.</p>
<p>— Terminamos, querido. (Desvia do texto o olhar.) Está cansado? Olha para ele.</p>
<p>— Um pouco, querida. (Suspira, e guarda os papéis.) Amanhã ensaiaremos de novo.</p>
<p>[p. 54-6.]</p>
<p>* * * * *</p>
<p>REVISÃO</p>
<p>Sou um homem noturno, de vigília. Não sou vigia: não durmo por insônia. Sempre — ou quase sempre — estou de plantão permanente, isto é, acordado, quando está a dormir todo um hemisfério. Quase não — ou só não — durmo à noite. Troco-a pelo dia, hábito desde há muito adquirido. Nessas horas mortas — não vejo nisso mistério — ou vago pelas ruas, geralmente desertas, ou aproveito e arrisco a escrever rabiscos — ou arabescos — talvez estranhos mesmo a árabes e gregos e troianos. E ao dia — quando durmo — o sono é lento. Talvez enquanto adormeço ainda me atormente o temor da morte: com medo dela convivo, por amor à vida. Teve isso começo na infância: isso, por reserva, sempre o omito, ao psicanalista, quando o consulto. A ânsia do eterno, o mito da imortalidade, explicar-me-ia ele, sintético; e certamente, formularia algumas perguntas, a analisar — impassível — as respostas. Cultivo, porém o ocultismo de mim mesmo, fingida esfinge: decifrar-me ou não — eis a questão.</p>
<p>&amp;</p>
<p>Não conto a ninguém — mas estou a escrever uma obra, hermeticamente fechado em meu quarto de solteiro. Nele, solitário, pelo menos há liberdade e silêncio, sem contar das pulgas. Não me preocupo com os possíveis leitores, leigos, em sua maioria; por enquanto, livro-me deles o quanto posso.</p>
<p>Na pensão, onde estou hospedado, já até houve comentários acerca de meus hábitos noturnos: alguém, sempre à escuta, já deve ter ouvido o ruído de minha máquina de escrever. Pensam eles que sou um desses poetas sentimentais, que dedicam a vida a poemas à amada ausente, ou um fracassado escritor que sobrevive às custas de mísero prêmio ganho em concurso literário de júri medíocre, ou ainda sobrevivente de direito autoral num país onde pouco se lê. A fim de evitar dedução desses maníacos especulativos, decidi manuscrever os meus fragmentos.</p>
<p>A dona da pensão, uma senhora gorda e prestativa, aos curiosos vive a explicar que sou um senhor sujeito muito inteligente e culto, apesar de meu jeito estranho, oculto. Também nunca lhe atrasei o pagamento do aluguel. E não sou um homem de senhas. Não sei, porém, o que os outros pensam de mim, pois apesar da pouca distância, inquilinos que somos, nunca nos cumprimentamos: limitamo-nos a nos medir, com olhares desconfiados, de soslaio.</p>
<p>Por falar em leitores, suspeito dos tais que dizem ter livro de cabeceira — acredito mesmo que, à falta de travesseiro, durmam com o crânio sobre o livro, no leito, sem nunca sequer ter lido ou folheado uma página dele. Há muitas histórias de leitores assim. Conheço-as através de relato dos próprios.</p>
<p>Suspeito — também — dos que dizem estar a escrever um livro. Tais assuntos causam-me mal estar: no máximo, é pura ficção ou o livro não é bom — em termos conteudísticos — ou está o autor acima de quaisquer suspeitas. E se é ele realmente um escrevedor, cabe-lhe, na sociedade, o papel de escrever, claro. Sem imposições. Há a liberdade da pena e — censurável — a pena da liberdade.</p>
<p>Mas escrever é um trabalho penoso — admito-o — e os escrevedores homens plenos de pretextos, e, por isso, não faço — em minha obra — um prefácio fácil, a pretexto de ser lido. Lido com palavras como o faz o lavrador com sua lavra: em intensa lida. E se meu texto é sólido ou se liquido com a tradicional escritura, isto é outro tema — ou tira-teima — a ser estudado pelos que dispõem de tempo de sobra.</p>
<p>E minha temática é outra, boa ou má.</p>
<p>Ora, a literatura é o ardil de alguns eleitos para o deleite de uma elite leitora, e a poesia uma arte minoritária: de minoria para minoria.</p>
<p>E se minha obra prima pela rima, poeta não o sou: não ouso o pó das bibliotecas — obra de doidos e doídos.</p>
<p>Talvez o seja, sim, um poemador; mas um igual: nem maior nem menor, mas médio, crê — de mediana estatura.</p>
<p>Possuo olheiras bem visíveis e as retinas cansadas da rotina de revisar o que escrevo, quando, de instante em instante, em qualquer lugar, comum ou não, me assaltam à mente palavras novas ou frases de efeito, amante que sou das letras, a despeito de alguns lapsos lingüísticos. A mim me falta uma estante e, nela, um atualizado dicionário. Os erros, corrijo-os a lápis. E, quando me deito, assaltam-me logo o leito e iniciamos o diálogo. Com elas converso boa prosa. E elas, às vezes belas, me atacam — boa presa — e novamente e novamente e novamente. Um turbilhão de palavras, frases, idéias. Excitado, levanto num salto, rápido, a fim de papel e tinta. Conseguidos, enfim, às vezes sem tempo sequer para registro. Na memória uma turbação. Um jugo de palavras. Falo-as desconexas. E logo o dia.</p>
<p>Cedo, menino ainda, via, com meus olhos então míopes, a profissão de jornalista, entre enumerável lista. A idéia ia penetrando-me. Meu pai, repórter policial que fora, nunca concordara. &#8220;Só nessa sua cabeça cabe essa idiota idéia.&#8221; Policiava-me os atos. Um dia, melhor, uma noite, alta madrugada, acordara, e, entrando em meu quarto, flagrara-me rabiscando uns papéis. A pena do delito fora um sermão realista e cru, como só meu pai sabia fazê-lo — melhor que vigário —, embora nunca tivesse lido nem conhecido os autores clássicos. Quase rasguei, desiludido, todas as românticas meninices. Preferiria três surras àquelas palavras cortantes quais lâminas.</p>
<p>Em seus planos de pai, homem reto, calculava-me engenheiro de construção civil. Aos amigos descrevia a minha vocação para o desenho — equívoco logo desculpável quando, em queda no andar térreo do prédio da vizinhança, fraturara eu o braço direito, então meu melhor amigo aos momentos solitários, porque, com ele, múltiplas alternativas de prazer obtinha, principalmente a masturbação.</p>
<p>A essa época, ainda éramos fartos e poucos.</p>
<p>Depois, falto de recursos, não pude, no entanto, cursar faculdade, tal a nossa dificuldade financeira, família pobre e de numerosa prole.</p>
<p>Abandonados os estudos e tudo mais, inclusive os escritos primários, fui ser aprendiz de tipógrafo, em gráfica de subúrbio; onde, por detrás de uma infinidade de letras e números, descobriu-me um poeta, com livro a ser ali impresso. À primeira impressão, em simples troca d&#8217;olhos, simpatizamo-nos mutuamente. Tinha ele certa dificuldade respiratória, mas, mesmo assim, recitou-me, ritmadamente, diversos poemas seus: achei-os perfeitos, com espontaneidade — não o disse no momento — mas cheios de vazio existencial. Elogiei — com efusão — apenas uma elegia, lindamente triste, intitulada &#8220;Sofrimento&#8221;. Ele próprio pareceu-me vazio de corpo: era um jovem alto e muito e muito magro. Usava óculos de grossos aros, que, sobressaindo-se mais que o rosto, lhe emprestavam ares de profundo intelectual. Vi nisso um bom artifício para ocultar olheiras. Mas nunca havia conhecido um poeta em carne e osso. De resto, só nas antologias e compêndios escolares. Talvez ele o fosse a fim de dar vazão a um certo desejo reprimido, pensei comigo.</p>
<p>Já versado no ofício de imprimir, encarregaram-me da composição do livro do poeta, a pedido do autor. Feita a obra, nenhum erro tipográfico! Emocionado, chegando mesmo às lágrimas, agradecera-me muitíssimo. O primeiro exemplar, ganhei-o, com dedicatória, tremida a letra.</p>
<p>Dedicado no serviço, firmava-me dia a dia. Ao dono da gráfica já imprimia confiança, e o convite para ascensão de posto viera em seguida. Mas o salário não sofrera o esperado reajuste. Então, fui vitimado duas vezes, injustamente: por discutir firmemente com o patrão um aumento salarial, fora demitido por justa causa, conforme reiterara seu advogado, citando-me — seguro — alguns artigos da lei trabalhista. Não recebi indenização alguma: era a lei. E eu leigamente ilegal.</p>
<p>Meu pai — em talvez castelos de sonhos — tinha ainda o vão desejo de me ver engenheiro de edificações. A essa altura, eu ainda não sofria da coluna. O seu sonho era-me um pesadelo, por eu lhe causar desilusão.</p>
<p>O referido poeta tornara-se famoso e nunca mais nos vimos. Às páginas e revistas literárias, cúmplice de seu sucesso, acompanhava sua carreira. Travara com um crítico uma tão acirrada polêmica que levou este à morte, de ataque cardíaco, em plena sessão da Academia de Letras, repleta de Imortais.</p>
<p>Depois conheci um contista; mau contista — sim — mas muito bondoso, com ajuda de quem contei para ingressar no Jornalismo, como revisor, em jornal de grande tiragem. A princípio, visava a Redação, porém, excluído por não possuir diploma do Curso.</p>
<p>&amp;</p>
<p>Evito escrever, mas, para mim é vital; talvez eu me tenha tornado escravo do que escrevo, por estar em fase de desemprego ou assim me atenha por não Ter uma outra lacuna onde empregar minhas parcas frases, ou ambas, simultaneamente; assim, creio, extravaso minha criatividade, após ser também despedido — por problema de coluna — do jornal onde atuava como revisor.</p>
<p>Sinto ainda muitas dores — e mais acentuadamente quando me sento.</p>
<p>Era um funcionário exemplar. Cumpria a rigor o meu papel. Revisava letra por letra, palavra por palavra, não descuidava de um acento sequer. Causava boa impressão a todos os jornalistas. Havia um que me cumprimentava com um só leve sorriso, social. Era, enfim, bem visado até pelo crítico de cinema — tido por todos como intratável, fazedor de cenas histéricas ao constatar um mínimo lapso, ou corte, em seu artigo semanal. Nunca recebera deles, às horas de folga, frase alguma de queixa. Disso me orgulho. Eu é que me queixava de dores na coluna. Houve um que, com maestria e humor, registrara, em crônica, o meu mal, que se agravava dia a dia.</p>
<p>&amp;</p>
<p>Um dia, o diretor do diário, de sobrenome Farias, um sujeito de voz e gestos escandalosos, tipo manchete policial, intimou-me, em bilhete mal escrito, a comparecer à sua sala.</p>
<p>— Sente-se, por favor — a voz ativa, ditatorial.</p>
<p>E, entre um argumento e outro, sempre direto, por detr5ás de sua cadeira giratória, alegou ser ilegal a minha permanência no quadro de funcionários, devido a meu estado doentio.</p>
<p>E, devidamente ou não, decretou demissão imediata.</p>
<p>— Sinto muito — quis ele dar um tom de afeto; saiu, melhor, soou falso, afeito que estava às palavras fatais.</p>
<p>Senti muito mais. A partir daí, vi dividida minha vida em duas partes: em dívidas e dúvidas. Aceitei o fato com o meu jeito orgulhoso e calado de ser, dócil, rês posta ao golpe fatal. Era isso em mim — a notícia circulou depois — que o fazia me detestar, censurando-me caluniosamente, apesar de nunca termos trocado palavra, em tempo algum. Nem mesmo em pêsames, quando, no hospital, doente, falecera minha querida mãe.</p>
<p>Pesa-me na consciência o não saber ser violento. Na verdade, àquela hora — confesso-o agora, tarde — tive contade de explodir qual uma bomba, e lançar para fora todas as inúmeras letras, palavras, frases e idéias, que tenho acumulado ao longo de uma vida de covarde. Tão intensa era minha fúria interna que tive medo de mim. Tivesse um punhal à mão, faria, sem pena, bons furos no corpo gordo daquele porco podre e miserável até que se lhe esvaísse, entre as vísceras expostas, todo o sangue tipo A de arrogante.</p>
<p>Grande náusea sentiria em rever o cadáver. Boa matéria para a página policial, apenas.</p>
<p>&amp;</p>
<p>Ultimamente, muito tenho refletido sobre mim mesmo, principalmente quando me olho direito, diante do espelho, e começo a descobrir rugas, precoces, em meu rosto de ainda jovem de idade. Do que era eu fisicamente, há pouco tempo atrás, resta — entre minhas poucas posses — apenas esta fotografia, posado de frente, para fins de documento.</p>
<p>Também constato calvície precoce — falhas de cabelos na cabeça. Depois daquelas horríveis coceiras, careço deles. Quanto às rugas, uso um creme facial para disfarçá-las. Sei que isso é fácil, superfácil, superficial, num mundo de aparências e rotulações. &#8220;Não fique a ver rugas: use SUPERFICIAL&#8221;, diz irritante anúncio, na televisão.</p>
<p>Reviso uma outra fotografia minha, aos dez anos, já amarelada, um tímido sorriso ao canto dos lábios, um menino de trato e retrato, sem marcas de espécie alguma. A infância revista, qual em filme colorido, em reprise.</p>
<p>Sofro, também — sem remédio —, a dor dos outros seres, que sofrem anônima ou publicamente. Mas, a minha, a ninguém revelo — a ninguém mesmo — nem no escuro.</p>
<p>Do mundo, a visão que tenho é a dos meus olhos, tristes e cansados.</p>
<p>Só comigo converso, meu melhor amigo, e, aos reveses, pior inimigo. Não consigo outros: a não ser palavras. Sinto até pena de mim — é como se estivesse condenado, em ilha deserta, por um crime nunca cometido. Sim. Sem fama nem família, no exílio. Infâmia!</p>
<p>Outras noites saio pelas ruas a andar a esmo — feito um louco à procura de si mesmo, ou em busca de um suposto alguém que ele próprio desconheça — ou entro em profundo estado depressivo e me refugio nos mais ermos lugares da cidade, a feliz cidade que a um bêbado poeta encantou, onde, em mesmas mesas de bares noturnos, pares de olhos, meses e meses, espreitam outros, na esperança de serem vistos.</p>
<p>Ora em dúvida, se sonho ou realidade, ponho-me a pensar em possível cura. Entretanto, de tanto pensar, beiro a loucura.</p>
<p>Dar uns dois tiros no ouvido — esta a minha vontade, se possuísse um revólver, mas temo ficar surdo antes e assim não ouvir o eco dos disparos, certeza de ato consumado, e — talvez o pior — nem o que seria o meu último grito, já há muito preso na garganta.</p>
<p>Revolver mágoas — eis o que resulta pensar profundo.</p>
<p>&#8220;Carregamos o peso de nossos corpos, e sua existência&#8221; — rápido, anoto em caderno próprio de frases e poemas, advindos aos instantes de meditação.</p>
<p>Gravei bem o que disse o doutor, após o exame ortopédico: &#8220;Grave! Escoliose. Espondilite. É necessário um bom tratamento para andar correto.&#8221;</p>
<p>Ando torto. Ando morto. Desisti de viver. Dei prazo à vida. Evito tratamento médico, o horror das intermináveis filas, todos a se queixar e a gemer de dores, como se fosse o mundo enorme hospital e os médicos espécie de messias, prontos a realizar milagres de cura. Comovem-me a vozes doridas.</p>
<p>Dependesse de mim, decretaria agora o Apocalipse, e morreria em lugar incomum: em poltrona de teatro, a ouvir de preferência Beethoven, como o ouvem os eruditos: em profundo silêncio. Comovo-me com o barulho de sua música: a mim me soa suave quais finos dedos de pianista, a correr, ágeis, pelas teclas de marfim, em piano de cauda.</p>
<p>Deitado, a olhar para cima, entre as quatro paredes do quarto, arquiteto um suicídio sui-generis, que seria manchete em todos os jornais do país. E do mundo. Receio apenas erro de revisão.</p>
<p>Suicida, não o serei por causa anônima. Antes deixarei em carta explicativa, fechada e escondida, a chave do enigma.</p>
<p>A fim de não revolver pensamentos negativos, resolvo ligar o vídeo e ter a ilusão de ver — finalmente — algum final feliz de algo, na telenovela que hoje finda: em evidente alusão ao meu caso, um homem com idéias suicidas termina casado com mulher compreensiva e simpática. Um belo casal, opino mentalmente, a contragosto.</p>
<p>Amanhã uma nova novela.</p>
<p>Desligo.</p>
<p>[p. 94-103.]</p>
<p>* * * * *</p>
<p>AUTO-RETRATO</p>
<p>Ele se retrata alto como se o fosse. Além de si, fora do seu eu. Além desse cosmo. Alto como Deus Altíssimo, fora do céu. Alto como Deus de sapato de salto alto que não deu certo no pé. Grande à beça. Dos dois pés até à cabeça. Do tamanho da fé do fanático. Enfim, ele se pinta com a tinta que não existe. Triste: ainda acho que ele é ancho e baixo.</p>
<p>[p. 73.]</p>
<p>* * * * *</p>
<p>AO AMIGO ALFRED</p>
<p>Se o cobrador bate à tua porta, às primeiras horas da manhã, a cobrar a promissória já há seis meses vencida, com protesto no cartório (e com juros de mora, correção monetária, e despesas extras); se um ofício da justiça te intima (e igualmente intimida) a depoimento no processo acusatório de homicídio, cuja vítima foi teu avô; se tens de enfrentar olhares indiscretos de vizinhos suspeitosos (porém nunca suspeitos) só por seres único herdeiro da fortuna do finado, que só se foi aos oitenta e cinco devidamente apenas à ingestão de forte dose de cianureto habilmente colocada, por alguém da casa, em sua aguardente predileta (conforme atesta o legista, no seu laudo cadavérico); se tens ainda de enfrentar as indagações, maliciosamente manipuladas, do excelentíssimo senhor promotor público da Primeira Vara Criminal; e ainda as manchetes dos diários locais, com informações distorcidas; se tens de fazer longos e cansativos repetidos esclarecimentos que nada esclarecem às mentes ocas dos senhores jurados, todos igualmente loucos por te ver atrás das grades; se esses pequenos inconvenientes do dia-a-dia ocorrem a ti, meu caro Alfred, não fiques triste: eles só vêm encher de mais razão essa vida vazia que levas, aliás, que todos levamos. Se ainda puderes, sai à rua, e repara os bares noturnos: estão cada vez mais cheios de homens vadios e vazios. Quase todos — ou todos — têm uma esposa infiel, ou um caso de amor impossível, e afogam suas mágoas num bom trago de vinho. Noite a noite eles se consomem, em desesperadora angústia. Uns até desejam a morte. A conversa é sempre a mesma: a de sempre. Então, Alfred, temos sérias razões para concluir que és o último dos privilegiados, um sujeito mesmo de sorte; por acaso, amigo Alfred, quando recebes tua polpuda herança?</p>
<p>[p. 81-2.]</p>
<p>[In&nbsp;<i>No escuro, armados</i>, de Marcos Tavares, Anima/Fundação Ceciliano Abel de Almeida-Ufes, Rio de Janeiro/Vitória, 1987]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 Marcos Tavares</span></b>&nbsp;&#8211; Todos os direitos reservados ao autor. A reprodução sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais, desrespeito à propriedade dos acervos e aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p><b>Marcos Tavares</b>, poeta, contista e cronista, nasceu em Vitória, 1957, radicou-se em Dores do Rio Preto. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/marcos-tavares-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p>
<div>
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<p></p>
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		<title>Benvinda</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 15:52:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
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		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Havia dois trens que passavam por Beleléu, sem contar o que transportava gado e café. Dos que faziam parada, quase sempre para desembarcar alguém, porque ninguém queria deixar Beleléu e todos que partiam acabavam voltando, o das 4:15 da tarde era britanicamente pontual, e também o que ficava mais tempo: exatos 5 minutos, uma vez [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Havia dois trens que passavam por Beleléu, sem contar o que transportava gado e café. Dos que faziam parada, quase sempre para desembarcar alguém, porque ninguém queria deixar Beleléu e todos que partiam acabavam voltando, o das 4:15 da tarde era britanicamente pontual, e também o que ficava mais tempo: exatos 5 minutos, uma vez que tinha de estar em Santa Cecília às 6:45. O outro passava sempre por volta das 8 da noite, mas era como certos amores: &#8220;hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será&#8221;.</p>
<p>Piero Negri, todos os sábados, durante 4 anos, 3 meses e 18 dias, esperava a noiva chegar pelo trem das 4:15. E ela chegava sempre, como o destino, exata e sua. Faziam o que fazem todos os apaixonados: descobriam segredos do universo, admiravam-se com o mundo, criavam desejos um para o outro, e, mesmo quando nada de novo havia, havia o silêncio em que tudo cabia.</p>
<p>Uma tarde —o velho Klaus havia acabado de não-ver com sua cegueira congênita a parábola perfeita que um urubu solitário descreveu no ar, aproveitando uma corrente de ar ascendente—, uma tarde, quando o trem chegou, em vez da namorada —esta se chamava Benvinda, e, além de Benvinda, era Perpétua—, o Negri recebeu foi um envelope tarjado em verde e amarelo e, dentro dele, uma carta, mais dolorosa que comprida, dizendo que ela, aquela que sempre fora bem-vinda, não viria mais: nunca mais tardes de sábados e domingos, nunca mais beijos, nunca mais corpo, nunca mais futuro. Tudo em volta era passado.</p>
<p>Klaus também não percebeu o <i>looping </i>seguinte do urubu, mas, em meio ao partir cansado do trem, ouviu perfeitamente a explosão da primeira lágrima de Piero no cimento rústico, feito se fosse o primeiro tiro que lhe tirara o filho único, Friedrich, na guerra. Não falou nada. Apenas olhou, como se enxergasse —e não?—, para o vazio em que se tornara Piero e compreendeu tudo. Não falou nada, porque sabia do que se tratava, sem que precisassem lhe dizer. Porque durante anos se acostumara ao ressoar dos quatro passos em allegro e agora o que ouvia era o ruído de uma alma excessivamente destroçada, sendo arrastada, à força, para a rua.</p>
<p>Klaus Möller sabia o que era o vazio e a solidão. Só não podia era imaginar que Piero Negri, em meio ao seu desespero particular, fosse em casa, pegasse a velha bicicleta com farol queimado e pedalasse, no escuro, em menos de 3 horas, todos os 88 quilômetros que o separavam da amada, só para ouvir dela que era irremediável, que já não lhe bastavam os pequenos mundos em Beleléu, que havia outros grandes mundos que ela precisava pra que conhecer.</p>
<p>Mas Piero insistiu e, nas 9 semanas seguintes, todas as tardes, pedalou a bicicleta sem farol ida e volta, percorrendo um total de 11.088 quilômetros, para ouvir sempre o mesmo não. Na segunda-feira da décima semana, porém, adoeceu e não pôde ir, mas, então, uma outra carta da amada já estava a caminho. Dizia apenas: &#8220;Amar de verdade é um risco. Talvez valha a pena corrê-lo. Estarei aí no próximo sábado, no trem de sempre, às 4:15. Se eu não estiver nele, me esqueça. Não me procure mais, que meu mundo será outro destino. Beijos infinitos. Benvinda&#8221;.</p>
<p>Nenhuma outra notícia ou fórmula mágica poderia curar um doente mais rapidamente do que estas poucas, ainda que ambíguas, palavras. Piero apegou-se à forma tradicional de despedida entre eles (&#8220;beijos infinitos&#8221;) e nem foi necessário o chá de limão bravo com mel e folhas de eucalipto que lhe receitaram, para que a pneumonia desaparecesse por completo. Na quarta-feira, ele voltou ao trabalho e até pensou em fazer a oferta que sempre quis fazer a Klaus pela casa em que o cego não mais entrara desde a morte da mulher: trocar um bocado de suas terras pela casa e fazer dela um lugar cheio de crianças benvindas.</p>
<p>O tempo se arrastava e nada parecia conseguir apressá-lo. Na quarta à noite, Piero fez a oferta a Klaus. Na quinta pela manhã, ela foi recusada. O cego não podia se desfazer da casa exatamente porque, por estar vazia de lembranças, era onde as lembranças poderiam sempre se aninhar. Na sexta-feira, Piero já tinha prontas todas as palavras que trocaria com a amada e, no sábado, sentiu vontade de adiantar todos os relógios do mundo para chegar logo às 4:15. Saltava as lacunas do tempo que não passava, procurando coisas para fazer (mas todas as coisas pareciam já estar feitas) e tentando dormir, mas era tanto não-passar que todo dormir parecia excessivo.</p>
<p>Às 4 horas, Clara Bravim apareceu na estação com a irmã, como costumavam fazer há vários anos, trazendo para Klaus o lanche da tarde, cobertas (que Beleléu tem temperaturas de Saara à noite) e travesseiros limpos. Ele agradeceu com aqueles olhinhos vidrados, seguindo os movimentos delas com o olfato e a audição, e ficou esperando, talvez mais que o próprio Piero, ouvir o apito do 4:15.</p>
<p>E o apito coincidiu, como de hábito, com o toque do sino da igreja. Quando o trem parou na estação, dessa vez havia uma pequena multidão a esperá-lo, torcendo por Piero Negri —a notícia se espalhara.</p>
<p>Mas ninguém desceu do trem e, às 4:17, o maquinista deu a partida, deixando para trás, sem saber, um coração incontavelmente perdido. Aos poucos, as pessoas foram se aproximando de Piero, consolando-o sem dizer palavra, mas só Klaus, pelo ritmo das lágrimas no cimento e pelo pulsar, audível apenas aos que não enxergam, de sua carótida, sabia que a decisão dele já havia sido tomada e era irremovível.</p>
<p>Foi assim que, às 8:49 daquela noite, quando uma lua aracnídea se pendurava no céu com sua teia de luz leitosa unicamente por conta de seu desejo de presenciar as tragédias humanas (as paixões que não se resolvem com poesia ficam à espreita do drama), foi assim que Piero Negri, com a carta da amada no bolso da camisa nova, foi assim que Piero deitou a cabeça no trilho do trem, como tantas vezes fizera no colo de Benvinda, foi assim que dele só restou da sétima vértebra cervical para baixo. O maquinista, no escuro, acostumado a atropelar coelhos, gambás e pacas, nem se deu ao trabalho de verificar o que era dessa vez. Duzentos metros adiante, parou na estação de Beleléu, como já se sabe que raramente fazia, e do trem saltou uma única passageira. Klaus se assustou ao reconhecer os passos e perguntou baixinho, em corpo 9, temendo a resposta que já conhecia de antemão:</p>
<p>— Benvinda?</p>
<p>— Sou eu, Klaus —ela respondeu.</p>
<p>O silêncio circundou os dois, como uma multidão enfurecida. Então, ele continuou:</p>
<p>— Por que não veio no 4:15?</p>
<p>— Eu me atrasei. E Piero?</p>
<p>Klaus então pesou bem as palavras e as atirou no chão, com estardalhaço de cristal se quebrando:</p>
<p>— Ele não se atrasou.</p>
<p>Foi assim que, pelo tom da voz dele, ela compreendeu. Nunca mais Benvinda, nunca mais Piero, nunca mais, nunca mais, insistiu um corvo em algum lugar.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
A beleza, para Klaus, sempre fora algo concreto, palpável. O pôr-do-sol, por exemplo, ele via como o barulho do movimento de algumas flores se fechando, recolhendo seus perfumes, como as mães recolhem suas crianças do sereno, e dos animais noturnos começando sua caminhada em busca de estarem de volta na noite seguinte. Mas desta vez ele não conseguiu identificar em Benvinda nada que lhe desse a mais remota que seja pista do que viria a seguir. Klaus estava, finalmente, cego. O tal corvo ecoava intermitente de algum lugar &#8220;nunca mais&#8221;, &#8220;nunca mais&#8221;.</p>
<p>
[Conto do livro inédito<i> Beleléu e adjacências</i>.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira</b>&nbsp;nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/miguel-marvilla-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p></blockquote>
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		<title>Amigos, amigos ou um flagrante delito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 20:38:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Devia haver uma expressão especial para definir a perplexidade de Pedro quando chegou à delegacia e viu o que viu: sentado no banco imundo da sala de espera, indignamente algemado e em posição de acabrunhamento, estava o seu amigo LG. “O que aconteceu com você, meu amigo?” exclamou Pedro diante de um LG cabisbaixo. “É [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Devia haver uma expressão especial para definir a perplexidade de Pedro quando chegou à delegacia e viu o que viu: sentado no banco imundo da sala de espera, indignamente algemado e em posição de acabrunhamento, estava o seu amigo LG.</p>
<p>“O que aconteceu com você, meu amigo?” exclamou Pedro diante de um LG cabisbaixo.</p>
<p>“É o que você está vendo, amigo Pedro,” disse o amigo LG de Pedro. “Fui preso e vergonhosamente algemado. Minha auto-estima foi a zero.”</p>
<p>“Mas por quê, amigo LG?!”</p>
<p>“Porque eu tive a infeliz ideia, amigo Pedro, de parar aí em frente e tirar uma fotografia da delegacia. Só isso. Quando tirei o olho da máquina (eu ainda uso máquina para tirar fotos), fui abordado por dois policiais que saltaram de uma viatura, que freou quase em cima das minhas sandálias literárias, e fui devidamente encanado. Sem direito nem sequer de puxar minha carteira de identidade e perguntar, segundo a melhor tradição brasileira, sabem com quem estão falando?”</p>
<p>“Eu não acredito!” disse Pedro, constrangidíssimo com o acontecido.</p>
<p>“Pois acredite, amigo Pedro.” E, para dirimir qualquer dúvida de Pedro, o amigo LG ergueu os pulsos onde duas algemas se enroscavam como garras de aço. “Veja a prova do que estou falando&#8230;”</p>
<p>“É uma indignidade o que fizeram com você, amigo LG.”</p>
<p>“Eu também acho,” concordou LG.</p>
<p>“Não deu nem para explicar a esses esbirros que você estava apenas tirando uma foto da delegacia?” perguntou Pedro.</p>
<p>“Deu, amigo Pedro. Eu disse aos esbirros, como você os chamou, que a casa onde fica a delegacia é um exemplar clássico da arquitetura residencial da década 50, o que já é razão de sobra para ser fotografada. Disse também que a fotografia era para eu lhe dar de presente, por você trabalhar na casa fotografada. Mas nem citando seu nome adiantou muita coisa, amigo Pedro. Parece até que piorou. Os dois verdugos acharam que eu estava querendo embromá-los, ou sei lá o quê. Não acreditaram que eu fosse capaz de tirar uma foto de uma casa só porque ela é antiga, para dar de presente a um amigo que é o escrivão da delegacia que funciona nessa mesma casa. ‘Essa história está mal contada’, disse um dos pitbulls e o outro concordou: ‘É, broder, está mal contada, vamos ter que tirar tudo a limpo&#8230;’ E manietaram-me com as algemas que um deles tirou do bolso, trazendo-me aqui para esperar a sua chegada e esclarecer se de fato nós somos amigos ou não.”</p>
<p>“Você disse que foram dois policiais que o prenderam, amigo LG?”</p>
<p>“Foram, amigo Pedro&#8230;”</p>
<p>“E onde eles estão?”</p>
<p>Pedro fez a pergunta virando a cabeça de um lado para o outro, procurando os algozes do amigo.</p>
<p>“Simplesmente saíram,” explicou o algemado.</p>
<p>“Saíram?”</p>
<p>“É que logo depois que eu fui encanado chegou o delegado Digital, de celular grudado na orelha, e convocou os dois policiais para uma diligência urgente. Pelo que pude entender, eles foram socorrer o deputado Ribeirinho, cuja mansão de verão foi assaltada numa das praias de Guarapari. ‘E o elemento que nós algemamos?’ perguntou um dos policiais me indicando com o beiço. ‘Um algemado a mais ou a menos não faz diferença. Deixa mofar em rebanho-maria até a gente voltar..’ respondeu o delegado, sem nem sequer me dirigir o olhar.</p>
<p>“É bem a cara de Digital, com rebanho-maria e tudo,” disse Pedro, balançando a cabeça em sinal de reprovação. “Mas vamos dar um jeito nisso, amigo LG. Vou tirar suas algemas – suas é um modo de dizer, me desculpe – para você sair daqui o mais depressa possível. Depois eu acerto tudo com Digital.”</p>
<p>“Olha, amigo Pedro, eu não quero criar complicação para você,” disse LG preocupado. “Somos amigos de longa data, parceiros de encontros na livraria Logos, temos uma queda em comum pela literatura, você aprecia os meus rabiscos literários, eu aprecio os seus, você é senhor e dono do site Tertúlia Capixaba, eu sou freguês e colaborador do mesmo site, tudo isso é muito importante para que a gente ponha a perder se você tiver problemas com o delegado por causa da minha soltura. Gostou do soltura? Mesmo algemado, posso ficar aqui na sua companhia até o delegado voltar para esclarecermos o mal-entendido.”</p>
<p>“Nada de ficar aqui, amigo LG. Esta delegacia não é lugar para você. Vou soltá-lo agora mesmo,” rebateu Pedro.</p>
<p>E enfronhou-se numa busca frenética, mexe de um lado, mexe do outro, entra numa sala, vai para outra, fala daqui, fala dali, procura e anda, anda e procura. De vez em quando olhava para o amigo LG, dava um risinho amarelo para animá-lo, e voltava à sua busca-rebusca, onde é que está, onde não está, “cadê a porra da chave das algemas,” gritou apoplético.</p>
<p>“O policial deve ter levado com ele, amigo Pedro,” disse LG com o queixo apoiado nas mãos engatadas, trazendo o escrivão de polícia à realidade que ele se negava a aceitar.</p>
<p>“Então vamos resolver o caso de outra forma,” disse Pedro, irritadíssimo. E gritou para a cozinha da delegacia: “Lenilda, ô Lenilda!”</p>
<p>Lá de dentro veio uma mulher magra e baixinha, toda agitada, de cabelo preso atrás da nuca com uma borrachinha de amarrar dinheiro. “O senhor me chamou, seu Pedrinho?”</p>
<p>“Chamei sim. Este aqui é um dos meus melhores amigos,” disse Pedro apresentando o amigo LG, que se levantou educadamente do sórdido banco em que purgava sua detenção e estendeu as mãos algemadas para Lenilda, dizendo “muito prazer”.</p>
<p>“O prazer é meu,” disse ela, apertando as duas mãos que lhe foram estendidas quase num pedido mudo de socorro, sem que Lenilda estranhasse que um amigo tão amigo de Pedro estivesse algemado diante dela, numa demonstração evidente de que naquela delegacia nada era de estranhar e a lei ali se aplicava rigorosamente a todos, sem exceção.</p>
<p>“Lenilda, me traga, por favor, aquela gazua que você guarda na cozinha, para eu soltar o meu amigo,” pediu Pedro.</p>
<p>Um pé lá, outro cá, Lenilda vai, Lenilda vem de gazua enferrujada na mão de unhas pintadas de roxo para entregá-la ao escrivão que depressa enfiou a ponta do instrumento no fecho das algemas que se abriram com um plec que deixou LG de pulsos soltos, a liberdade recuperada, a dignidade restabelecida, o coração reconfortado, que amigo é para essas coisas, amigo Pedro!</p>
<p>“Pronto, amigo LG, o caso está resolvido!” disse Pedro.</p>
<p>LG podia ter dado um abraço no seu libertador, apertado sua mão com veemência antes de se escafeder para todo o sempre da Chapot Presvot, 272, esquecendo para o resto da vida que um dia tinha caído naquela arapuca sórdida. Mas num descuido de inteligência que lhe é peculiar, LG resolveu fazer a pergunta que teimosamente bailava em sua cabeça:</p>
<p>“Cadê minha máquina fotográfica?”</p>
<p>Pedro tomou um susto com a indagação do amigo, já havia se esquecido completamente da máquina fotográfica que fora a causa de todo aquele desagradável contratempo, até porque, para falar a verdade, nem chegara a pensar nela. E entregou-se novamente a um jogo de barata tonta, sem norte nem sul, mexendo de um lado, remexendo do outro, abrindo gavetas, fechando-as com raiva, procura daqui, procura dali, “onde será que estes putos enfiaram a máquina fotográfica?” terminou por esbravejar.</p>
<p>“Deixa pra lá, amigo Pedro,” disse o amigo LG arrependido de ter feito a pergunta que fez. “Depois você vai achar, se não achar não há de ser nada, não era uma máquina cara, nem sequer era uma digital” – e o trocadilho saiu sem querer.</p>
<p>“Não posso nem ouvir falar neste palavrão,” disse um Pedro revoltadíssimo com o desaparecimento da máquina do amigo, pressentindo que o desaparecimento era definitivo, sumira a máquina e sumiram com a máquina as fotos em que a delegacia tinha sido perenizada numa gentileza fotográfica que LG queria lhe prestar, por pura amizade.</p>
<p>“Esquece, amigo Pedro,” voltou a pedir LG.</p>
<p>“Esquecer jamais! Não vou descansar enquanto não lhe devolver a máquina. Fique certo disso, amigo LG!”</p>
<p>“Ficarei certo, amigo Pedro.”</p>
<p>E certo certíssimo de que o amigo Pedro não estava nem um pouco certo em sua apregoada certeza de que iria cumprir a promessa, LG deixou a delegacia da Chapot Presvot, 272. Deixou-a em passadas largas, quase correndo, antes que Digital retornasse de Guarapari com os pitbulls que o escoltaram.</p>
<p></p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</p>
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&#8212;&#8212;&#8212;</div>
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<b><span style="color: #660000;">© 2019&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.</div>
<div style="font-size: medium;">
&#8212;&#8212;&#8212;&nbsp;</div>
</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Operação dragão branco ou boa sorte, Pedro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 20:36:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
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		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Imaginem a seguinte sequência cinematográfica: botas em close chutando a porta de uma casa; porta saltando das dobradiças e caindo com estrondo; passos que avançam pela casa ressoando fortemente; mãos empunhando armas de grosso calibre; invasores com máscaras ninja, puxadas sobre o rosto; gritos de homem acordado de surpresa no meio da noite; uma mulher [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Imaginem a seguinte sequência cinematográfica: botas em close chutando a porta de uma casa; porta saltando das dobradiças e caindo com estrondo; passos que avançam pela casa ressoando fortemente; mãos empunhando armas de grosso calibre; invasores com máscaras ninja, puxadas sobre o rosto; gritos de homem acordado de surpresa no meio da noite; uma mulher na nonagésima idade que começa a passar mal, acometida de um infarto do miocárdio – tudo isso em penumbra de filme “noir” com trilha sonora adequada.</p>
<p>Não foi com esse formato cinematográfico que a notícia saiu na televisão. Sua divulgação, porém, logo replicada nas redes sociais onde hoje rola tudo o que se passa no público e no privado, teve um impacto tão grande quanto teria numa versão de cinema.</p>
<p>Mas Pedro, o escrivão da Chapot Presvot, não soube de nada porque estava em viagem (alguns dias de licença) no Uruguai. “Vou conhecer as livrarias de Montevidéu e, se puder, dou um pulo a Punta del Este”, apregoou botando banca entre os amigos.</p>
<p>Foi.</p>
<p>Enquanto Pedro ia, Digital, o delegado da Chapot Presvot, fez a asneira que foi descrita em sua roteirização de Tropa de Elite, comandando uma invasão policialesca à casa de um morador do Morro da Assunção, atrás de cocaína.</p>
<p>A operação, que o delegado denominou Dragão Branco, estava autorizada por mandado judicial, só que a tropa foi bater atropeladamente em endereço errado.</p>
<p>A truculência terminou de forma deprimente: a mãe do dono da casa sendo levada às pressas pelos próprios atores da operação (a palavra cai à feição) para ser medicada no Pronto Atendimento do hospital mais próximo. E ali mesmo, enquanto a infartada era socorrida depois de penar dolorosamente por doze horas numa maca encardida, largada no chão do corredor, ali mesmo o dono da casa invadida, que ainda por cima era líder comunitário e mestre de capoeira no morro onde morava, botou a boca no trombone. Assim, a desastrada ação de Digital virou notícia de televisão, com a abertura de um inquérito para apuração dos fatos, o delegado sendo temporariamente afastado das suas funções na Chapot Presvot, 272.</p>
<p>Quando Pedro voltou da viagem é que soube do desastre.</p>
<p>Façamos, porém, um corte oblíquo no texto para informar o estado de espírito com que Pedro voltou. E o termo que o define é beatífico. Esmero-me buscando precisão: Pedro voltou em levitação beatífica. Porque, indo a Montevidéu, descobriu, conforme propalou entre os amigos, que conhecera a urbe utópica, a Pasárgada real onde se tem a mulher desejada com tudo o mais que o Poeta poetizou e não poetizou. Uma cidade limpa e sem mendigos, onde todos trabalham e o trânsito flui pacífico, respeitando os pedestres &#8211; RESPEITANDO OS PEDESTRES, engrandecia Pedro a sua informação com sabor de descoberta platina. Uma cidade onde se pode andar a qualquer hora pelas quinas e esquinas das madrugadas sem risco de assaltos e onde habita um povo educadíssimo. Livrarias? A cada quadra se esbarra numa! A CADA QUADRA, espocava Pedro. Comida? Farta, barata, deliciosa! Maconha? Oficializada para quem se entrega ao vício (que não é o caso de Pedro).</p>
<p>“Já decidi: vou viver em Montevidéu meus últimos anos de vida!”</p>
<p>“Um Shangri-lá no sul da América do Sul?” perguntou Nanico, o outro escrivão da delegacia.</p>
<p>“Um Shangri-ali colado ao nosso Rio Grande, mas tão diferente deste Brasil podre e asqueroso em que estamos chafurdando,” disse Pedro.</p>
<p>Concluído o corte oblíquo, voltemos ao ponto em que estávamos: Pedro tomando conhecimento da burrada de Digital com a operação Dragão Branco. Ao saber do que ocorrera, Pedro soube também que ele &#8211; ninguém mais, ninguém menos do que ele, o recém-viajado e recém-chegado da Pasárgada uruguaia &#8211; fora designado escrivão do inquérito que iria apurar a responsabilidade (ou irresponsabilidade) de Digital na desarvorada operação que comandara.</p>
<p>“Por que eu?” perguntou a Nanico, que lhe deu a notícia salgadérrima.</p>
<p>“Foi dedo do deputado Ribeirinho,” disse Nanico. “O deputado, que protege Digital, acha que com sua larga experiência burocrática na delegacia você pode aliviar a barra do nosso mui querido chefe.”</p>
<p>“Não acredito que você me diga isso, Nanico! Você não sabe que se há um sujeito que gosta das coisas bem certinhas, esse sujeito sou eu?”</p>
<p>“Estou lhe dizendo o que eu acho que o deputado Ribeirinho acha. Azar dele se você é o cara que não mija fora do penico,” disse Nanico.</p>
<p>“Além do mais, meu desejo é que Digital se estrepe pelas trapalhadas que comete com as suas impetuocidades, como ele próprio define seus rompantes,” comentou Pedro.</p>
<p>“Eu sei disso, meu amigo, principalmente agora que a velha esticou as canelas!”</p>
<p>“Que velha?” perguntou Pedro.</p>
<p>“A que sofreu o infarto quando Digital invadiu a casa dela.”</p>
<p>“Então a situação é pior do que eu imaginava, com morte no enredo.”</p>
<p>“Morte e pedido de indenização&#8230;” disse Nanico que soltava as más notícias em picadinho.</p>
<p>“Indenização pela morte da velha?”</p>
<p>“Não, pela porta que Digital pôs abaixo na invasão e pelo mobiliário destroçado na busca da cocaína que não existia”.</p>
<p>“Uma confusão nunca vem sozinha&#8230;”, comentou Pedro.</p>
<p>“É por isso que o deputado Ribeirinho deixou o número do celular pra você ligar pra ele,” falou Nanico, estendendo na direção de Pedro a anotação num pedaço de papel. “Ele chegou a dizer textualmente (não é assim que você gosta de falar?): Diga ao Pedro que ele não vai se arrepender&#8230; &nbsp;E Digital também está procurando por você. Ele está dizendo que, por causa de um vacilo que ele teve, querem fazer dele “bode respiratório” das muitas cagadas que os delegados andam fazendo por aí. Logo ele, um delegado durão pra quem bandido deve ser morto no campo de batalha, pra não entupir cadeia.”</p>
<p>“Vê se me poupa do seu papo furado, Nanico!”, protestou Pedro. “Vê lá se eu vou querer falar com Digital ou ligar pra Ribeirinho. Joga a merda desse número no lixo.”</p>
<p>“Já que você não quer pegar, eu vou botá-lo em cima da sua mesa. Da minha parte, o recado está dado,” disse Nanico, dando sua missão por cumprida.</p>
<p>“Bote onde você quiser,” disse Pedro, “porque eu vou agora mesmo tirar outra licença médica. A minha bursite crônica já começou a se manifestar. Digital e Ribeirinho que arrumem outro escrivão pra amaciar os interesses deles. Acho até que um escrivão é pouco. Tem que ser uma comissão inteira. Eu é que não me prestarei a pantomimas!”</p>
<p>“E se você não conseguir a licença?” perguntou Nanico, se fazendo de sonso.</p>
<p>“Cacete, Nanico! Você está do meu lado ou do lado deles?” revoltou-se Pedro.</p>
<p>“Eu perguntei porque quero que você pense em todas as alternativas pra sair desta enrascada.”</p>
<p>“Pois saiba que, se eu não conseguir a licença, alego motivo de foro íntimo pra não ser o escrivão da comissão”.</p>
<p>“E Digital e Ribeirinho sabem lá o que é foro íntimo? Pra eles foro íntimo deve ser xoxota de mulher”, insistiu Nanico, continuando a cutucar Pedro com vara curta.</p>
<p>“Se ainda assim não der certo, vou indicar seu nome pra me substituir na comissão. Bem que você merece por estar me aporrinhando a paciência,” disse Pedro, retirando-se da delegacia em busca de sua pretendida licença.</p>
<p>Boa sorte é o que devemos desejar a Pedro, num corte oblíquo final para terminar o texto.</p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Sigilo absoluto ou operação contra ferro velho</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 20:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pedro chegou à delegacia assoviando com ar debochado a conhecida toada de capoeira “berimbau abriu a roda, berimbau quebrou o pau”, quando foi interceptado por Lenilda, a faxineira, que lascou a novidade: “Seu Pedrinho, eu descobri uma coisa que até me assusta contar”. “Então não conte”, disse o escrivão. “Mas é forte demais pra não [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Pedro chegou à delegacia assoviando com ar debochado a conhecida toada de capoeira “berimbau abriu a roda, berimbau quebrou o pau”, quando foi interceptado por Lenilda, a faxineira, que lascou a novidade:</p>
<p>“Seu Pedrinho, eu descobri uma coisa que até me assusta contar”.</p>
<p>“Então não conte”, disse o escrivão.</p>
<p>“Mas é forte demais pra não contar e está me agoniando. E só tenho confiança no senhor pra me ouvir e me aliviar.”</p>
<p>“Se é tão importante, desabafe, mulher”, disse o escrivão.</p>
<p>“Mas não espalhe pra ninguém, promete? Se o senhor espalhar, posso perder meu emprego na delegacia.”</p>
<p>A ansiedade de Lenilda era patente e Pedro prometeu. Não seria ele que iria dar com a língua nos dentes cometendo inconfidências que pusessem em risco o emprego da amiga.</p>
<p>“Está prometido. Diga o que você quer dizer, que eu manterei sigilo absoluto.”</p>
<p>“Eu quero não! Eu preciso dizer por que vi com estes olhos que a terra há de comer, seu Pedrinho: o doutor Digital, com aquele tamanhão todo e tão metido a machão, tem medo de taruíra!”</p>
<p>Pedro olhou dentro dos olhos de Lenilda, baixando um pouco a vista porque a cara da faxineira ficava ao rés do queixo do escrivão, deu um risinho de moleque de Ibitirama, e perguntou:</p>
<p>“Você tem certeza do que está dizendo, mulher?”</p>
<p>“Certezíssima, porque ele me chamou pra matar uma taruíra que estava no gabinete &#8211; a tal sala de comando, como ele diz. A lagartixa estava lá no teto, branquelona, de olhinho preto bem vivo, por cima da mesa dele. Quando eu entrei, ele estava espremido no canto da sala, como se fosse num esconderijo. Isso não é ter medo?”</p>
<p>“E você matou a taruíra?” perguntou Pedro, preparando-se para acender um cigarro com um dos seus muitos isqueiros coloridos. O do dia era o azulão, descambando para roxo.</p>
<p>“Minha sorte, ou a sorte dele, é que eu estava com a vassoura na mão, o que não é novidade. Mas aí eu disse: ‘Dr. Delegado, como é que eu vou matar a taruíra? Mesmo esticando o braço não alcanço ela com a vassoura.’ Aí ele berrou, zangado: ‘Então sobe na mesa, pícolas! Sobe logo antes que o troço vá embora. Até parece que ele está ouvindo nossa conversa!”</p>
<p>“Você subiu na mesa para matar o troço? Foi troço que ele disse?” perguntou Pedro, baforando fumaça pela boca.</p>
<p>“Foi sim. Eu ainda perguntei se era mesmo para subir na mesa por causa do ciúme que ele tem dela, onde ninguém põe a mão, que dirá os pés. Aí ele me deu outro esculacho, só que em voz baixa, que eu achei que era pra não espantar a taruíra. Então fiquei descalça, trepei na mesa e matei a bicha com a piaçava da vassoura”.</p>
<p>“Digital se deu por satisfeito?” perguntou Pedro com o risinho safado de quem estava saboreando o acontecido.</p>
<p>“Logo, logo, não, porque a taruíra caiu sobre a mesa e ele falou nas minhas costas: ‘Agora tira esse bicho nojento aí de cima! E limpa com álcool o lugar onde caiu’”.</p>
<p>“E você fez tudo direitinho?”</p>
<p>“Tudo que tinha que ser feito. Quando terminei a limpeza o delegado ainda me avisou que era para não contar nada pra ninguém do que tinha se passado. Foi aí que fiquei agoniada pra contar pro senhor, que é meu amigo de fé. Mas lembre-se da sua promessa!”</p>
<p>“Não se preocupe que eu vou manter sigilo absoluto”, confirmou Pedro o que dissera antes.</p>
<p>Mal o escrivão terminou de falar, Digital gritou do gabinete: “Seu Pedro, dê um pulo até aqui!”</p>
<p>Pedro deu o pulo.</p>
<p>Quando entrou no gabinete nada indicava que há poucos minutos ali tivesse ocorrido o morticínio da taruíra. O delegado estava à vontade, sentado em sua cadeira, com a corrente de ouro balançando no pulso direito, as pernas estiradas sobre a mesa, na pose de sempre. Logo que o escrivão entrou, ele perguntou:</p>
<p>“Me diga uma coisa, seu Pedro. Você já escolheu o nome da operação policial que eu quero fazer para pegar desmanche de carro roubado nos ferros velhos?”</p>
<p>“Ainda não”, disse o escrivão, que havia se esquecido completamente do pedido do delegado.</p>
<p>“Pois eu acho que encontrei um nome apropriado. Gostaria de ouvir a sua opinião.”</p>
<p>E diante da cara de expectativa que Pedro armou, o delegado completou, engrossando a voz: “Operação Taruíra.”</p>
<p>“Por que taruíra?” indagou Pedro dominando o riso.</p>
<p>“Porque Operação Taruíra lembra uma ação silenciosa e rápida, que surge de repente. Quando menos se espera, ela está sobre a cabeça do sujeito.”</p>
<p>“Muito bem pensando, delegado”, aprovou Pedro, disfarçando o tom de zombaria.</p>
<p>“Se você concorda, não precisa perder mais tempo pensando em outro nome”, disse Digital. “Eu sabia que no final das contas eu é que ia ter de batizar a operação. E preste atenção, seu Pedro: não comente com ninguém sobre este assunto!”</p>
<p>“Não se preocupe que vou manter sigilo absoluto”, repetiu Pedro as palavras que dissera duas vezes a Lenilda. E falava a verdade.</p>
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[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Se eu fosse Pedro ou desastrado engano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 20:32:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desastrado engano foi o que cometi com Pedro, o escrivão da Chapot Presvot, 272. E cometi por um lapsus memoriae ou por qualquer outra gritante falha psicológica que talvez nem Freud e Jung expliquem. Equívocos da velhice? Quem sabe lá? Mas será que Pedro há de entender dessa forma, e por assim entender retornar às [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Desastrado engano foi o que cometi com Pedro, o escrivão da Chapot Presvot, 272. E cometi por um <i>lapsus memoriae</i> ou por qualquer outra gritante falha psicológica que talvez nem Freud e Jung expliquem.</p>
<p>Equívocos da velhice?</p>
<p>Quem sabe lá?</p>
<p>Mas será que Pedro há de entender dessa forma, e por assim entender retornar às boas com o autor que narra o que vos narra? Mais do que retornar às boas com o narrador, retornar de espírito desarmado e leve às funções de escrivão a que sempre se aplicou com exemplar seriedade na delegacia de polícia da Chapot Presvot, 272?</p>
<p>Não tenho respostas para essas perguntas, mas apelo à musa da Literatura para que, ao fim e ao cabo, tudo se ajeite, restabelecendo-se a harmonia que não deve faltar nunca entre um autor e o seu personagem principal, no interesse do texto.</p>
<p>E por que se deu o terrível mal-entendido?</p>
<p>Tudo porque, num impulso de sinceridade que me bateu na consciência, vindo não sei de que cafundós da alma, eu resolvi revelar a Pedro que o delegado Digital, o boçalíssimo manda-chuva da delegacia da Chapot Presvot onde Pedro trabalhava, era fã de Paulinho da Viola, tanto quanto o próprio Pedro. Uma igualdade de admiração artística que repugnou a Pedro, o qual, não se conformando com ela, exigiu de mim, num ultimato de queima roupa, que a suprimisse do texto que eu havia escrito.</p>
<p>Sucede, para mal dos meus pecados, que ao fazer a revelação que fiz &#8211; e eis aí o meu lapso de memória – confundi miseravelmente alhos com bugalhos tomando dois Paulinhos por um só: o da Viola, “que faz com a viola o que ninguém faz”, repetindo palavras de Pedro; e Paulinho do Berimbau, que Digital considera o maior mestre-capoeira do Brasil e de quem diz que “perereca o berimbau como ninguém”.</p>
<p>E para que ninguém pense que estou inventando uma desculpa esfarrapada para me safar da enrascada em que eu me meti por uma distração da memória, informo aos que quiserem conferir no Google que Paulinho do Berimbau é nativo do vilarejo de Nossa Senhora do Desamparo, no sul da Bahia, onde desde menino se dedicou a tocar o instrumento que veio a consagrá-lo nacionalmente. Aduzo ainda que sua composição mais famosa começa com os versos “berimbau abriu a roda, berimbau quebrou o pau”.</p>
<p>Foi, portanto, a minha desastrada confusão entre os dois Paulinhos, que reciprocamente tocam e pererecam instrumentos tão diferentes um do outro, que deu no que deu: o estremecimento da ligação de Pedro comigo, ou seja, do personagem com o autor, ocasionando sua reação (muito compreensível, aliás) de abandonar as funções de escrivão da Chapot Presvot.</p>
<p>Da minha parte, não posso negar que no lugar de Pedro eu fizesse o mesmo. Mas também, no lugar de Pedro, se me fosse dada a explicação que agora estou dando, eu me concederia um tempo de reflexão ao som de “Foi um rio que passou em minha vida”, dedilhado por Paulinho da Viola, enquanto saboreasse uma tapioca de coco com leite condensado (como é do gosto de Pedro), para rever a decisão tomada e retornar, de coração abrandado, ao batente da Chapot Presvot, como profetizou o poeta e amigo Fernando Achiamé.</p>
<p>O que quero dizer, em súmula, é que, se eu fosse Pedro, aceitaria as explicações do autor da Chapot Presvot, 272, que valeriam como um pedido de desculpas, e reassumiria, já no próximo texto, a função de escrivão da delegacia, fazendo-o como se nada tivesse acontecido no quartel de Abrantes. E ainda seria capaz de retornar cantando alegremente: “berimbau abriu a roda, berimbau quebrou o pau”.</p>
<p>É o que eu faria, se eu fosse Pedro.</p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Digo ou não digo, digo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 20:29:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
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		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Digo ou não digo, pegou-me a dúvida. Autor do texto, eu poderia deixar para Lenilda o encargo de dar a má notícia a Pedro, o escrivão da delegacia. Mas não seria justo com Lenilda. Podia deixar então para Nanico, o outro amanuense da delegacia. Mas também não seria justo com Nanico. Uma terceira alternativa era [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Digo ou não digo, pegou-me a dúvida.</p>
<p>Autor do texto, eu poderia deixar para Lenilda o encargo de dar a má notícia a Pedro, o escrivão da delegacia. Mas não seria justo com Lenilda.</p>
<p>Podia deixar então para Nanico, o outro amanuense da delegacia. Mas também não seria justo com Nanico.</p>
<p>Uma terceira alternativa era o próprio Digital, o delegado rei da boçalidade, dizer a Pedro o que a verdade pedia que a Pedro fosse dito. Mas neste caso eu estaria condenando Pedro a um sofrimento dobrado, o que me constrangia fazer.</p>
<p>Decidi então que seria eu, e mais ninguém, o portador da má notícia para o meu personagem predileto da Chapot Presvot, 272.</p>
<p>Só que não o fiz no seu território de trabalho, temendo uma reação que o abatesse mais ainda, como eu pressentia que o abateria se ele soubesse do que devia saber nas proximidades do delegado Digital, seu maior desafeto na vida. Elegi então um campo neutro.</p>
<p>E que campo mais suíço poderia haver senão o da Livraria Logos, onde aos sábados costumo juntar-me a Pedro numa távola de amigos em que o papo roda solto, na ronda de assuntos cirandinhas?</p>
<p>Que fosse na Logos, sem dúvida. Mas haveria de ser numa conversa à parte, em tertúlia reservada. Por isso, aproveitei o momento em que Pedro, como fazia sempre que ia pitar um cigarrinho, convidou-me para acompanhá-lo até a entrada da livraria, no pequeno hall escancarado ao vento onde, contra a minha vontade, ele es-tragava a saúde fumando seu maldito cigarrinho de fio a pavio, enquanto conversávamos à toa.</p>
<p>Foi nessas circunstâncias que lhe disse o que tinha a lhe dizer, num ataque sem rodeios:</p>
<p>“Sabe que Digital é fã de Paulinho da Viola?”</p>
<p>Pedro estava se esvaziando de uma tragada cinematográfica quando recebeu a paulada. Tragada cinematográfica é aquela em que, nos filmes noirs da década de 40, a fumaça expelida num jato longo se espirala branquinha para o alto como se não fosse acabar nunca.</p>
<p>Uma tragada estragada por mim ao provocar em Pedro um engasgo terrível em que o meu amigo desfraldou ao vento os nacos de fumo que restavam nos seus pobres brônquios, enquanto de seus olhos jorravam lágrimas que rolavam pela face.</p>
<p>Aquela não era a reação que eu esperava que Pedro tivesse &#8211; era muito pior do que a pior reação que dele eu esperava.</p>
<p>Pedro amava Paulinho da Viola e, violeiro que também era nas horas vagas, sabia o quanto Paulinho era um virtuose do instrumento, a ponto de ter cunhado uma frase que definia a máxima admiração que sentia pelo artista: “Paulinho da Viola, nunca ninguém fez o que ele faz com a viola!”.</p>
<p>Ao lhe dizer que Digital também era fã do artista, eu estava estabelecendo um elo comum entre o escrivão e o delegado boçal, um nervo de identificação entre ambos, o que para Pedro valia como um escárnio inaceitável.</p>
<p>“Não vou aceitar nunca esse tipo de igualdade com Digital”, disse ele, de feições ainda contorcidas, depois que conseguiu se recuperar parcialmente do engasgado engasgo que quase o engasgou para sempre de uma morte engasgada.</p>
<p>O pior é que eu ainda não lhe dissera tudo. Da mesma forma como Pedro cunhara a sua frase de elogio à arte de Paulinho da Viola, Digital também criara a dele, que eu não podia deixar de contar ao meu amigo, no transe de franqueza que me acometera. Mas foi preciso tomar coragem para dizer o que lhe disse:</p>
<p>“Sabe que Digital tem até uma frase parecida com a sua, para elogiar seu violeiro preferido? Ele costuma dizer que ‘ninguém perereca a viola como Paulinho da Viola’!”</p>
<p>“Você disse pe-re-re-ca?”, indagou um Pedro rubro de cólera.</p>
<p>“Eu não. Digital foi quem disse. Eu estou apenas repetindo para você, como seu amigo.”</p>
<p>“Perereca é o que Digital tem na cabeça!”, explodiu Pedro.</p>
<p>E visivelmente irritado exigiu de mim, do meu poder de autoria sobre o texto, que mudasse tudo que estava escrito sobre a admiração do delegado por Paulinho da Viola.</p>
<p>“Não posso”, respondi com a voz quase sumida.</p>
<p>“Não pode por quê?” estremeceu Pedro na minha frente.</p>
<p>“Porque a verdade é que Digital aprecia Paulinho da Viola. Aprecia desde criancinha, quando o pai dele tocava viola em Burarema.”</p>
<p>“O pai dele era tocador de viola?” bufou Pedro.</p>
<p>“Tocador obcecado”, confirmei. “Ele amava um dedilhado, só que não acredito que tocasse tão bem quanto você.”</p>
<p>“Pule suas lisonjas! O que eu exijo é que você delete do seu texto esta malsinada admiração que você atribuiu a Digital pelo grande Paulinho da Viola. Ou você faz isso ou&#8230;”</p>
<p>“ou?”</p>
<p>“&#8230;ou quem sai do texto sou eu! Saio aqui mesmo, na porta da Logos. Nem vou me despedir da turma que está lá dentro. Passo um email para cada um deles explicando a minha atitude e a minha revolta. Tenho certeza que hão de me dar razão e você é quem vai ficar mal na foto.”</p>
<p>Tentei convencer Pedro, por todos os meios a meu alcance, de que existem certas inevitabilidades que o destino ficcional impõe aos personagens de um texto literário e que escapam ao controle dos autores.</p>
<p>“Você sabe disso!” bradei peremptório, num compartilhamento de experiência autoral de um escritor para outro, sendo Pedro o outro. “Digital apreciar a arte de Paulinho da Viola é uma dessas inevitabilidades insanáveis, meu amigo. Conforme-se com este fato porque antes de você, eu próprio tive que me conformar a contragosto”, justifiquei-me.</p>
<p>“Se é assim que você pensa, então fique com Digital e a admiração dele por Paulinho da Viola. Eu estou pulando fora e saindo para sempre da delegacia da Chapot Presvot”, esbravejou um Pedro inconformado.</p>
<p>E sem que eu pudesse dizer espera aí, pensa melhor, foi-se em seu passo lento e silencioso, deixando-me no desamparo de quem perdia um amigo e um personagem insubstituível.</p>
<p>“O que vou fazer agora com a delegacia da Chapot Presvot, sem o seu principal escrivão?”, perguntei de mim para mim ao retornar para a mesa das cirandas onde se encontravam, em animados debate-papos, os seus circundantes tavoleiros.</p>
<p>Ao chegar lá, ainda tive de aguentar a pergunta de Achiamé:</p>
<p>“Cadê Pedro?”</p>
<p>“Foi-se&#8230;”, respondi secamente.</p>
<p>“Não me diga que vocês brigaram&#8230;”</p>
<p>“Brigamos”, respondi mais seco ainda.</p>
<p>“Brigaram para sempre?” insistiu o insistente.</p>
<p>“Faço votos que seja até o próximo texto da delegacia”, respondi não muito convencido do que dizia.</p>
<p>“Não se preocupe”, animou-me Achiamé. “Daqui a pouco ele telefona fazendo as pazes. Eu conheço Pedro.”</p>
<p>“Sei não&#8230;” resmunguei.</p>
<p>“Olha, se ele não telefonar, passe na delegacia na segunda-feira de manhã que ele deverá estar lá, agarrado no batente&#8230;”</p>
<p>“Embora eu deteste entrar naquele ambiente sórdido, em se tratando de Pedro vou fazer o sacrifício e seguir o seu conselho. Quem sabe se você está certo?”, respondi eu.</p>
<p>“Vai mesmo. Amigo é para essas considerações”, concluiu Achiamé, torcendo por mim e por Pedro.</p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Lixão do medo ou salve-me do aperto, seu Pedrinho</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/lixao-do-medo-ou-salve-me-do-aperto-seu/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 20:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“PeloamordeDeusprecisoconversarcomosenhorseuPedrinho!” “Calma, mulher! Do jeito corrido como você falou até parece que foi em romeno. Você sabe romeno?” “É porque estou apavorada, seu Pedrinho.” “Então desapavore e diga o que está acontecendo.” Lenilda puxou o escrivão em direção ao cajueiro da delegacia. Era ali que Pedro costumava se recolher para fugir à lufa-lufa das tomadas [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>“PeloamordeDeusprecisoconversarcomosenhorseuPedrinho!”</p>
<p>“Calma, mulher! Do jeito corrido como você falou até parece que foi em romeno. Você sabe romeno?”</p>
<p>“É porque estou apavorada, seu Pedrinho.”</p>
<p>“Então desapavore e diga o que está acontecendo.” Lenilda puxou o escrivão em direção ao cajueiro da delegacia. Era ali que Pedro costumava se recolher para fugir à lufa-lufa das tomadas dos depoimentos cansativos, entregando-se a alguns momentos de sossego em meio à fumaça azul-celeste dos cigarros que pitava.</p>
<p>“Pelo seu nervosismo deve ser algo gravíssimo,” disse ele, deixando-se levar pela amiga, visivelmente apavorada.</p>
<p>“Gravíssimo é pouco, seu Pedrinho. O que eu vou lhe contar tem risco de morte.”</p>
<p>“Então quem não quer se arriscar sou eu,” disse o escrivão.</p>
<p>“Mas eu preciso que o senhor me aconselhe, senão eu posso fazer uma besteira e ser ‘apagada’ de uma hora para outra. Pelo amor de Deus, seu Pedrinho, me diga o que fazer!” implorou Lenilda.</p>
<p>Pedro viu que a mulher estava à beira de um triquetrique nervoso e se dispôs a ouvi-la.</p>
<p>“Sente-se aqui no banco de madeira, ao pé do velho cajueiro, e se controle”.</p>
<p>“Não tem ninguém nos espiando?” indagou uma Lenilda que virava a cabeça de um lado para o outro.</p>
<p>“Não se preocupe. Estamos sozinhos neste minifúndio, minha amiga. Conte-me o que aconteceu,” encorajou-a o escrivão.</p>
<p>Sem deixar de vigiar os arredores, Lenilda entreabriu cuidadosamente uma bolsinha de lona que tinha na mão para que o escrivão visse o maço de notas de cem reais que estava lá dentro.</p>
<p>“De onde saiu esse dinheiro, Lenilda?”</p>
<p>“Saiu, seu Pedrinho, da cesta de lixo do gabinete do delegado. Estava tudo lá, de mistura com um monte de jornal rasgado. Tá vendo por que eu estou morrendo de medo? Salve-me do aperto, seu Pedrinho!”</p>
<p>“Por que essa grana veio parar na sua mão?” perguntou o escrivão, que começava a perceber a delicada situação em que se encontrava a faxineira da delegacia.</p>
<p>“Foi logo que o delegado deixou a sala dele, onde ficou trancado depois da batida na boca de fumo do morro do Urubu. Ele me viu e me mandou limpar a sala e queimar todo o lixo da lixeira. ‘Quero tudo queimado bonitinho, dona Lenilda. Preste atenção no que estou dizendo: quero todo este lixo transformado em cinza, ouviu bem?’ E saiu apressadinho pela varanda da delegacia com aquela bolsa de couro fedorenta que ele carrega pendurada no ombro, que ia até bem gordinha&#8230;”</p>
<p>“E aí?” indagou Pedro.</p>
<p>“Aí eu entrei na sala, que era uma bagunça só, com pedaço de jornal espalhado pelo chão, dentro e fora da lixeira. Mas o pior foi quando meti a mão na caixa de lixo para recolher o que tinha ali dentro e achei essas notas de cem reais amarradinhas. Já pensou no susto que eu tomei, seu Pedrinho. Agora não sei o que fazer com o dinheiro e tremo só de pensar de onde ele veio. Por isso quero ouvir o seu conselho, meu amigo, porque estou com um medo danado, pensando em entregar tudo para o Delegado.”</p>
<p>“Nem pense nisso, Lenilda!” quase gritou Pedro, esquecendo-se que a conversa entre ambos era reservada.</p>
<p>“Por que não, seu Pedrinho? Eu não tive culpa nenhuma de achar o dinheiro, nem quero ficar com ele,” disse Lenilda ao ponto das lágrimas.</p>
<p>“Eu sei disso, minha querida, eu sei disso. Mas se você devolver o dinheiro para o delegado, ele, que não percebeu que jogou as notas no lixo porque devia ter muito mais grana embrulhada nos jornais, vai descobrir que você sabe do que não devia saber, e aí, babau: era uma vez a faxineira de nome Lenilda na delegacia da Chapot Presvot,” disse Pedro.</p>
<p>“Meu São Benedito, onde eu fui me meter!” disse uma Lenilda chorosa e pálida. “O senhor não quer ficar com o dinheiro? Eu lhe dou de graça.”</p>
<p>“Esta não é a solução correta, minha amiga. Nem eu nem você vamos entrar numa gelada dessa! Para todos os efeitos você não achou dinheiro nenhum e queimou tudo que tinha de queimar, cumprindo bonitinho as ordens recebidas. É o que vamos fazer imediatamente com as notas que você achou.”</p>
<p>Juntando o gesto às palavras o escrivão tirou o isqueiro do bolso e pôs fogo nas cédulas que saíram se desmanchando pelo chão. Voltando-se para Lenilda, perguntou: “Está satisfeita com o encerramento do caso?”</p>
<p>“Assim, assim,” disse a faxineira entristecida.</p>
<p>“Assim, assim por quê?</p>
<p>“Porque confesso que me deu uma dó muito grande vendo o dinheiro se retorcer no fogo”.</p>
<p>“O que você sentiu, Lenilda, foi a dor da honestidade. Nada que um chazinho de camomila não resolva,” disse Pedro, rindo.</p>
<p>E, sem mais palavras, puxou a faxineira pelo braço para dentro da delegacia.</p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Uma mão lava a outra ou dente por dente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 Jan 2016 20:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pedro chegou à delegacia p da vida, e bota p da vida nisso. Dona Lenilda, que o viu entrar bufando até pelos tornozelos, seguiu-lhe caninamente os bufantes magros. “Que que houve seu Pedrinho?” perguntou ao amigo. “Uma melada nojenta,” respondeu o escrivão. “Melada&#8230; por quê?” “Porque o seu amigo aqui é um idiota sem tamanho. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Pedro chegou à delegacia p da vida, e bota p da vida nisso.</p>
<p>Dona Lenilda, que o viu entrar bufando até pelos tornozelos, seguiu-lhe caninamente os bufantes magros.</p>
<p>“Que que houve seu Pedrinho?” perguntou ao amigo.</p>
<p>“Uma melada nojenta,” respondeu o escrivão.</p>
<p>“Melada&#8230; por quê?”</p>
<p>“Porque o seu amigo aqui é um idiota sem tamanho. Comigo acontecem coisas que contadas ninguém acredita. Veja só. Eu saltei do meu carro com um convite para um lançamento de um livro que ocorreu na semana passada. Então, rasguei o convite em pedacinhos para jogar educadamente na lixeira pendurada no poste aí na frente da delegacia. Só que com os pedaços do convite joguei também a chave do carro.”</p>
<p>“Mas não é razão para o senhor ficar aborrecido, seu Pedrinho. Eu vou lá e tiro pro senhor. Basta enfiar a mão pelo buraco da lixeira e apanhar a chave”, disse Lenilda consolativa.</p>
<p>“Foi o que eu fiz, Lenilda, foi o que eu fiz! Mas para meu azar a chave caiu sobre um bagaço de pizza encharcado de ketchup. Veja como ficaram a minha mão e a chave do carro.” E Pedro estendeu para a faxineira a mão e a chave besuntadas de uma gosma pegajosa e avermelhada. “Não é para ficar p da vida?”</p>
<p>“O senhor tem razão, seu Pedrinho. Ainda mais porque quem jogou a pizza no lixo foi o doutor Digital.”</p>
<p>“DIGITAL?!” exclamou Pedro como se tivesse escorregado num tapete de tomate.</p>
<p>“Pelo menos foi o que ele contou, antes do senhor chegar,” esclareceu Lenilda. “Ele estava comendo um pedaço de pizza, comprado no boteco da esquina, aí desconfiou que não estava boa e jogou na lixeira.”</p>
<p>“Não acredito que isso tenha acontecido comigo!” lamentou-se Pedro, contemplando com asco redobrado a mão emporcalhada.</p>
<p>Antes que a prostração do escrivão se agravasse, Lenilda o conduziu até a cozinha da delegacia onde, samaritana, lavou as chaves do carro e lavou e enxaguou a mão do amigo com sabão de coco e álcool concentrado a 12°.</p>
<p>“Pronto, seu Pedrinho. Pode esquecer o caso. Nem parece que o senhor pegou a gosma que pegou. Sua mão está limpinha como sempre. E sabe que o senhor tem mãos bonitas, com dedos finos e unhas grandes?”</p>
<p>‘É pra te pegar, Lenilda!”, disse o escrivão ameaçando a amiga com as mãos em garra.</p>
<p>“Quem dera, seu Pedrinho, quem dera”, respondeu Lenilda embarcando na galhofa.</p>
<p>“Brincadeira à parte, obrigado, minha amiga, pela lavação e louvação das minhas mãos. Tinha que ser você para resolver as minhas trapalhadas.” E Pedro já estava se preparando para pegar no batente quando Lenilda o deteve.</p>
<p>“Não me leve a mal, seu Pedrinho, mas eu queria lhe fazer um pedido. Será que o senhor me atende antes de começar a trabalhar?”</p>
<p>“Minha querida, um pedido seu é uma ordem, sobretudo depois do favor que você me prestou, lavando a minha mão e a minha alma. Peça o que quiser.”</p>
<p>“Eu queria, seu Pedrinho, que o senhor fizesse um requerimento para eu entregar a um dentista,” disse a faxineira meio encabulada.</p>
<p>“O que você quer requerer?” indagou Pedro surpreso com o pedido.</p>
<p>“Vou requerer pra mim ser uma voluntária no teste das escovas&#8230;” disse Lenilda mais encabulada ainda.</p>
<p>“Que história é esta de teste das escovas?” estranhou o escrivão.</p>
<p>“É o seguinte, seu Pedrinho&#8230; Mas o senhor não vai rir do que eu vou dizer. Eu fiquei sabendo, no posto de saúde do meu bairro, que a faculdade de Odontologia está aceitando voluntárias para um teste de três meses pra ver se as escovas elétricas escovam melhor do que as escovas comuns&#8230; e eu quero entrar no teste,” explicou Lenilda.</p>
<p>“Qual a vantagem de participar do teste?” perguntou Pedro começando a se interessar pelo interesse da faxineira.</p>
<p>“Porque junto com as escovas a gente ganha de graça uma limpeza geral nos dentes.”</p>
<p>“Só isso?”</p>
<p>“Já é muito, seu Pedrinho, pra quem tem dificuldade de cuidar dos dentes no dentista.”</p>
<p>“Até aí deu para eu entender, minha amiga. Mas por que precisa do requerimento?” perguntou o escrivão que ainda não dispunha de todos os dados para aquilatar a profundidade do problema de Lenilda.</p>
<p>“É porque só pode ser voluntária quem tem mais de 60 anos, como eu tenho, mas tem que ter pelo menos doze dentes, e eu só tenho onze&#8230; Então achei que com um requerimento bem escrito, feito pelo senhor, eu podia ter uma chance de entrar no teste&#8230;”</p>
<p>Para disfarçar a vontade de dar uma risada Pedro sacou do maço o primeiro cigarro que lhe veio aos dedos e prontamente o enfiou na boca, o que redundou numa tragada cavernosa. Feito o quê, falou:</p>
<p>“Não seja por isso, Lenilda. Faço o seu requerimento com a maior satisfação. Mas não posso garantir que vai dar certo.”</p>
<p>“Se não der, não tem importância porque eu estou sabendo que no ano que vem a faculdade vai repetir o teste com quem tem pelo menos dez dentes. Aí eu entro nele. Só que eu queria fazer logo agora.”</p>
<p>“Então vamos ao nosso requerimento,” disse Pedro encaminhando-se com Lenilda para a sua sala de trabalho.</p>
<p>“Por falar em nosso requerimento, por que o senhor não aproveita e faz também o teste? Seus dentes estão precisando de uma boa limpeza, de tanto que o senhor fuma&#8230; E banguela como eu o senhor não é&#8230;” disse a faxineira querendo convencer o escrivão a imitá-la.</p>
<p>“Obrigado pela sugestão, minha querida. Mas prefiro ficar no seu requerimento,” frisou Pedro rindo.</p>
<p>“Está bem, seu Pedrinho. Mas tem outra coisa que preciso lhe dizer: eu não quero que o senhor pense que estou trocando o pedido de limpeza dos meus dentes pela limpeza que eu fiz da sua mão,” advertiu Lenilda cheia de dignidade.</p>
<p>“Fique descansada, minha cara, porque eu jamais pensaria uma coisa dessas,” disse Pedro vendo brotar na boca da faxineira um sorriso de felicidade que escancarou seus onze dentes remanescentes aos olhos do escrivão, ou, se preferirem a informação em numeração odontológica, escancarou os dentes 13, 12, 11, 21, 22 e 23, da arcada superior, e os 43, 42, 31, 32 e 33, da arcada debaixo. Que, aliás, aos olhos de Pedro não pareceram necessitados de escovas comuns ou elétricas&#8230; Mas isso ele não disse, só pensou, enquanto começava a digitar no computador:</p>
<p>“Eu, Lenilda do Amaral e Souza, abaixo assinada, tendo tido conhecimento de que&#8230;&#8221;</p>
<div style="font-size: 80%;">
[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/uma-mao-lava-outra-ou-dente-por-dente/">Uma mão lava a outra ou dente por dente</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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