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	<title>Arquivos Deny Gomes &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Deny Gomes &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Deny Gomes &#8211; Repertório Literário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 15:14:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Deny Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[Deny Pacheco Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>BIOBIBLIOGRAFIA VITRINE DE TEXTOS Poema do livro O desejo aprisionado Poemas do livro Promessas do tempo Nova versão dos poemas publicados no II Varal de Poesia da Estação Primeira de Manguinhos – 1999 FORTUNA CRÍTICA &#160;ALMADA, Roberto. “Do livre arbítrio feminino (também conhecido como non-sense).” Vitória: Rede Gazeta de Comunicações, jornal A Gazeta, Caderno Dois, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://4.bp.blogspot.com/-2lnOdBoZ7fM/Vqze1HKZ1vI/AAAAAAAAAm0/53ukSZ48Xsc/s1600/Foto.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img fetchpriority="high" decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/11/Foto-2.jpg" class="wp-image-6844" width="280" /></a></div>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">BIOBIBLIOGRAFIA</a></b></p>
<p><b><br />
VITRINE DE TEXTOS</b></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-do-livro-o-desejo-aprisionado/" target="_blank" rel="noopener">Poema do livro <i>O desejo aprisionado</i></a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-viajante-ao-me-lancar-na-vida-sem/" target="_blank" rel="noopener">Poemas do livro <i>Promessas do tempo</i></a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/nova-versao-dos-poemas-publicados-no-ii/" target="_blank" rel="noopener">Nova versão dos poemas publicados no <i>II Varal de Poesia da Estação Primeira de Manguinhos</i> – 1999</a></p>
<div>
</div>
<p><b><br />
FORTUNA CRÍTICA</b></p>
<p>&nbsp;ALMADA, Roberto. “Do livre arbítrio feminino (também conhecido como non-sense).” Vitória: Rede Gazeta de Comunicações, jornal <i>A Gazeta</i>, Caderno Dois, set. 1988, p. 4.</p>
<p>NOBRE, Valberto. “O desejo aprisionado”. Vitória: Jornal <i>A Tribuna</i>, JS Especial, set. 1988, p.3.</p>
<p>RIBEIRO, Francisco Aurélio. Deny Gomes e Adélia Prado: o ser mulher”. In:___. <i>Estudos críticos de literatura capixaba</i>. Vitória: s/ed., 1990, p.p. 31-34.</p>
<p>ALMADA, Roberto. ‘Presente de aniversário”. Vitória: Rede Gazeta de Comunicações, jornal <i>A Gazeta</i>, Caderno Dois, out. 1990, p. 4.</p>
<p>SILVA, Nilzett. “A marca feminina em <i>O desejo aprisionado</i>”. Vitória: Revista <i>Você</i>, (3): 26, 1994 p.p. 19-21.</p>
<p>ALMEIDA, Amylton de. “O pacto com a vida”. Prefácio a: GOMES, Deny. <i>Promessas do tempo</i>. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1994.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2000&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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		<item>
		<title>Nova versão dos poemas publicados no II Varal de Poesia da Estação Primeira de Manguinhos – 1999</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/nova-versao-dos-poemas-publicados-no-ii/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 15:09:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Deny Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[Deny Pacheco Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A TECELÃ Tentei fugir desta sina, andei saindo da linha, rodando feito pião no giro desta ciranda, desta louca sarabanda, que, quando a vida desanda, não tem barca nem fieira, não tem unha, não tem mão pra aparar a ponteira. Venceu o tempo. O teu nome já dado por esquecido, impõe de novo o compasso, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A TECELÃ</p>
<p>Tentei fugir desta sina,<br />
andei saindo da linha,<br />
rodando feito pião<br />
no giro desta ciranda,<br />
desta louca sarabanda,<br />
que, quando a vida desanda,<br />
não tem barca nem fieira,<br />
não tem unha, não tem mão<br />
pra aparar a ponteira.</p>
<p>Venceu o tempo. O teu nome<br />
já dado por esquecido,<br />
impõe de novo o compasso,<br />
ordena ritmo e som,<br />
onipresente consome<br />
a vastidão do espaço.</p>
<p>Abro os ouvidos,<br />
alargo o coração<br />
e retomo a canção<br />
há muito interrompida.</p>
<p>(Forte, que forte é a tua voz na poesia!)</p>
<p>Ando a exercer outra vez o meu poder,<br />
limitado poder que é apenas este:<br />
lidar com as palavras<br />
e nelas refazer<br />
caminhos, gestos, atos,<br />
resíduos de um tecido esgarçado<br />
bordado na memória.</p>
<p>
AVESSO/DIREITO</p>
<p>O que antes eu era virou pedra,<br />
virou gelo talvez,<br />
que é pedra dura e mole,<br />
derretida.</p>
<p>Na minha pedra d´ água ninguém bate,<br />
não bate e ela não fura.<br />
Escorre embaixo da porta,<br />
meio sal, meio sorvete,<br />
meu passado me lambuza,<br />
gruda em mim, tira o sossego<br />
e me deixa desse jeito<br />
assim como estou: confusa.</p>
<p>Sou a que não tem chão, desensofrida.<br />
Nem sei mais o que quero. Isto me impele<br />
a zanzar no sem rumo, aturdida:<br />
por dentro o espanto, e o medo à flor da pele.</p>
<p>
<span style="font-size: normal;">[Nova versão dos poemas publicados no <i>II Varal de Poesia da Estação Primeira de Manguinhos – 1999</i>]</span></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Deny Gomes</b>&nbsp;nasceu&nbsp;em São Luís-MA, em 1938, e desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal. Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Autora de diversas obras literárias e de crítica literária.<br />
(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<item>
		<title>Poemas do livro Promessas do Tempo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-viajante-ao-me-lancar-na-vida-sem/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 15:07:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Deny Pacheco Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O VIAJANTE Ao me lançar na vida sem temor, levava uma bagagem de alegria. Fiz projetos, esquemas e tracei justo percurso de navegador. O mapa do tesouro, muito raro revelava a exata direção. Os pontos do quadrante garantiam o rumo firme, o destino claro Quebraram-se lunetas e sextantes, se embaralharam linhas e roteiros. Os quartos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>O VIAJANTE</p>
<p>Ao me lançar na vida sem temor,<br />
levava uma bagagem de alegria.<br />
Fiz projetos, esquemas e tracei<br />
justo percurso de navegador.</p>
<p>O mapa do tesouro, muito raro<br />
revelava a exata direção.<br />
Os pontos do quadrante garantiam<br />
o rumo firme, o destino claro</p>
<p>Quebraram-se lunetas e sextantes,<br />
se embaralharam linhas e roteiros.<br />
Os quartos de vigia, num instante,</p>
<p>já são anos de busca delirante.<br />
A navilouca ao léu, sem paradeiro<br />
bóia na escuridão, expectante.</p>
<p>
MIGRAÇÃO</p>
<p>Hoje subi a escada lentamente<br />
e ainda mais devagar abri a porta.<br />
Sem memória ou raiz,<br />
num espanto sem medida,<br />
percorri minha casa como estranha.</p>
<p>Estes meus territórios devastados!</p>
<p>Volto sobre meus passos<br />
e bato em retirada.<br />
Fecho definitivamente a porta<br />
que dá para o passado<br />
e jogo fora a chave.</p>
<p>Perdão e esperança me sustentam.<br />
O mundo me espera.</p>
<p>
<span style="font-size: normal;">[Poemas extraídos do livro <i>Promessas do tempo</i>. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1994.]</span></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 </span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Deny Gomes</b> nasceu&nbsp;em São Luís-MA, em 1938, e desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal. Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Autora de diversas obras literárias e de crítica literária.<br />
(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>Poema do livro O Desejo Aprisionado</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/poema-do-livro-o-desejo-aprisionado/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 15:01:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>SONETO “Porque me descobriste no abandono” [*] e eu não te encontrei na hora certa, te espero na vigília e no sono, deixando minha porta sempre aberta. Porque tu me achaste e és meu dono, diante de ti eu sou altar e oferta. É escasso o tempo. Perto vem o outono, quando o sonho se [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>SONETO</p>
<p>“Porque me descobriste no abandono” [*]<br />
e eu não te encontrei na hora certa,<br />
te espero na vigília e no sono,<br />
deixando minha porta sempre aberta.</p>
<p>Porque tu me achaste e és meu dono,<br />
diante de ti eu sou altar e oferta.<br />
É escasso o tempo. Perto vem o outono,<br />
quando o sonho se acaba e o amor deserta.</p>
<p>Mas, se neste momento que vivemos,<br />
encontramos em nós o tudo e o nada,<br />
se, junto com a audácia, medo temos</p>
<p>e não fugimos da sorte lançada:<br />
não pensemos na morte nem na vida,<br />
que uma é certa e a outra está perdida.</p>
<p>
<span style="font-size: normal;">[ * ] Mote retirado da canção SONETO, de Chico Buarque de Holanda.</span></p>
<p>[Poema extraído do livro <i>O desejo aprisionado</i>. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1988. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Deny Gomes</b>&nbsp;nasceu&nbsp;em São Luís-MA, em 1938, e desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal. Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Autora de diversas obras literárias e de crítica literária.<br />
(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-do-livro-o-desejo-aprisionado/">Poema do livro O Desejo Aprisionado</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<item>
		<title>Deny Gomes &#8211; Biobibliografia</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 14:56:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Biobibliografia]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[Deny Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[Deny Pacheco Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nascida Deny Pacheco Gomes, em São Luís-MA, em 1938, desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal. Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Consideraria justa sua aposentadoria, não fossem as atuais circunstâncias [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/">Deny Gomes &#8211; Biobibliografia</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://2.bp.blogspot.com/-2lnOdBoZ7fM/Vqze1HKZ1vI/AAAAAAAAAm4/C2TWyAbBfLk/s1600/Foto.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="320" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/11/Foto-3.jpg" class="wp-image-6849" width="224" /></a></div>
<p>
Nascida Deny Pacheco Gomes, em São Luís-MA, em 1938, desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal.</p>
<p>Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Consideraria justa sua aposentadoria, não fossem as atuais circunstâncias salariais.</p>
<p>Acredita que sua vocação para a literatura foi intensamente motivada pelo exemplo de seu pai, Josaphat dos Santos Gomes, professor, advogado e poeta inédito. Já o senso prático para as coisas da vida, deu-lhe a mãe, Jacy Pacheco Gomes, mulher forte e corajosa que, como a mãe de Adélia Prado, “achava o estudo a coisa mais fina do mundo”.</p>
<p>Tem duas filhas, Luciana, arquiteta e mãe de Fernando, e Adriana, jornalista, mãe de Marina e Luísa.</p>
<p>Em 1978, fez, no MAM do Rio de Janeiro, um Laboratório de Criação Literária coordenado por Geir Campos e Antonio Torres, entre outros escritores, e, no ano seguinte, coordenou , juntamente com a Profa. Maria da Graça Aziz Cretton, um curso semelhante na Faculdade de Letras da UFRJ. Os excelentes resultados dessa atividade realizada no curso de graduação serviram de motivação para a continuidade do trabalho em sua universidade de origem.</p>
<p>Voltando a Vitória, implantou na Ufes, em 1981, a Oficina Literária, atividade de extensão que, várias vezes, funcionou em espaços fora da universidade.</p>
<p>Desde essa época teve oportunidade de trabalhar com pessoas que consideram a Literatura uma prática essencial na existência humana. Muitos dos participantes da Oficina já publicaram poemas, contos, crônicas e romances, confirmando o talento anunciado nos cursos. Outros ingressaram profissionalmente na comunidade acadêmica, onde são professores, pesquisadores, críticos literários. O estímulo e a parceria com escritores iniciantes (ou até mais experientes), na Oficina Literária, ampliam a dimensão de seu trabalho como educadora e profissional da Literatura.</p>
<p>Além da Oficina Literária, que continua a proporcionar-lhe a alegria do encontro com novos escritores, valoriza, como pessoa e cidadã, em particular o Prêmio Luís de Camões, conferido “por sua inteligência e aplicação aos estudos”, na disciplina Literatura Portuguesa, ministrada pelo Prof. Guilherme Santos Neves, em 1958, na antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Ufes; a Medalha de Honra, outorgada pela Ufes, em 1987, pelos relevantes serviços prestados à instituição; a Ordem do Mérito Maria Ortiz e o Título de Cidadão Espírito-santense, concedidos pela Assembléia Legislativa do Espírito Santo, em 1996 e 1998, respectivamente.</p>
<p>Considera importante e valiosa a experiência como Secretária Municipal de Cultura e Esporte da Prefeitura de Vitória, no período 1989/1990.</p>
<p>Orgulha-se, muito especialmente, de haver participado da organização da carreata de repúdio ao governo Fernando Collor de Melo, uma das primeiras manifestações populares de grande porte no desencadeamento do processo político brasileiro que culminou com o impeachment do presidente da República.</p>
<p>
<b>PUBLICAÇÕES</b></p>
<p><b>Poesia:</b></p>
<p><i>Aimberê</i>. (Co-autoria). Rio de Janeiro: s/ed.,1979.<br />
<i>Traços do ofício: textos de Oficina Literária</i>. (Co-autoria).Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1983.<br />
<i>No meio do caminho tem um poeta</i>. (Co-autoria). Vitória: UFES, 1987.<br />
<i>O desejo aprisionado</i>. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1988.<br />
<i>Promessas do tempo</i>. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1994.<br />
<i>Daqui mesmo: 34 poetas</i>. Vitória: Rede Gazeta de Comunicações. Suplemento especial do jornal A Gazeta, 1995.<br />
<i>Revelação do olhar feminino</i>. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, 1998.<br />
<i>I Varal de Poesia da Estação 1ª de Manguinhos</i>. (Co-autoria). Manguinhos (ES): Vagão Espaço Arte, 1998.<br />
<i>II Varal de Poesia da Estação 1ª de Manguinhos</i>. (Co-autoria). Manguinhos (ES): Vagão Espaço Arte, 1999.</p>
<p><b>Crônicas:</b></p>
<p>“Alegrias e desventuras do turismo em grupo.” Vitória: Rede Gazeta de Comunicações, jornal&nbsp;<i>A Gazeta</i>, Caderno Dois, p. 5, ago. 1992.<br />
“Dia de lavar roupa em Tóquio.” Ibidem, p. 6, ago. 1992.<br />
“Por que Cingapura?” Ibid., p. 5, ago. 1992.<br />
“Pechinchando em Bangkok.” Ibid., p. 5, ago. 1992.<br />
“Um pouco depois do tufão.” Ibid., p. 6, set. 1992.<br />
“Sem gravidez em Pequim.” Ibid., p. 7, set. 1992.<br />
“A velha escola.”&nbsp;<i>Escritos de Vitória</i>. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, nº 3, 1994.<br />
“De feira, poeta e musa.”&nbsp;<i>Escritos de Vitória</i>. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, nº 15, 1997.</p>
<p><b>Crítica Literária:</b></p>
<p>“Presença de Camões na Literatura de Cordel”. Revista de <i>Cultura</i> da Ufes. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1980.</p>
<p>“Oficina Literária: tempo e espaço para a criação.” <i>Anais</i> do I Congresso Internacional de Letras da UFRJ. Rio de Janeiro: UFRJ/Faculdade de Letras, 1989.</p>
<p>“Sueli sob o signo da ambigüidade”. Cadernos de <i>Cultura</i>, nº 2. Vitória SPDC/Ufes, 1993.</p>
<p>“Com a palavra, a mulher”. Revista <i>Você</i>. Vitória: SPDC/Ufes, (3): 26, 1994.</p>
<p>“O mofo no pão e o queijo e os vermes: uma série de estranhas coincidências.” Revista <i>Você</i>. Vitória: SPDC/Ufes, (4):31, 1995.</p>
<p>“O mofo no pão, O queijo e os vermes, O nome da rosa: dúvidas e evidências em um complicado processo.” Revista <i>Você</i>. Vitória: SPDC/Ufes, (4): 32, 1995.</p>
<p>“Os medonhos insucessos do Vilarejo e outras histórias.” Revista <i>Você</i>. Vitória: SPDC/Ufes, (4): 33, 1995.</p>
<p>“Amylton de Almeida entre o romance e o cinema.” <i>Signos em Interação</i>. Vitória: Ufes, 1996.</p>
<p>“A dor de não caber no mundo.” <i>A múltipla presença: vida e obra de Amylton de Almeida</i>. Vitória: Prefeitura Municipal, 1996.</p>
<p><i>A múltipla presença: vida e obra de Amylton de Almeida</i>. (Org.). Vitória: Prefeitura Municipal, 1996.</p>
<p><i>De folhas versadas: vida e obra de Roberto Almada</i>. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, 1998.</p>
<p><i>Júbilo e agonia: vida e obra de Amylton de Almeida</i>. Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, 1999.</p>
<p><b>Teatro:</b></p>
<p><i>Negritude</i>. Roteiro em co-autoria com Vera Viana. Espetáculo apresentado em Vitória e no Festival de Teatro Amador de Brasília,1988.</p>
<p><i>Mostra de poesia capixaba</i>. Roteiro e direção. Espetáculo apresentado no Centro de Artes da Ufes,1983.</p>
<p><i>No meio do caminho tem um poeta</i>. Roteiro e direção. Espetáculo encenado no Centro de Artes da Ufes e no Teatro Carlos Gomes, em Vitória, 1987.</p>
<p><i>Vozes da ilha</i>. Roteiro. Espetáculo comemorativo aos 50 anos da Revolução Cubana, apresentado no Teatro Carlos Gomes, em Vitória, 1989.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
Clique no link para conhecer o <b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">Repertório Literário</a></b> da autora.</div>
<p></p>
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		<title>Estudo crítico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Mar 2001 15:17:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Deny Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[Deny Pacheco Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Roberto Almada]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>AMADOS Para Vilma e Roberto Almada O amor e sua presença eterna, indestrutível ante o tempo e a morte&#8230; As legiões do vento o perpassam e só de leve agitam sua pele de translúcida seda resistente. Amor é para sempre e desafia o tecido esgarçado da aparência. Amor — eterna essência — que se expressa [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div align="right">
<table style="font-size: 80%; width: 35%;">
<tbody>
<tr>
<td>AMADOS</p>
<p>Para Vilma e Roberto Almada</p>
<p>O amor e sua presença eterna,<br />
indestrutível ante o tempo e a morte&#8230;<br />
As legiões do vento o perpassam<br />
e só de leve agitam sua pele<br />
de translúcida seda resistente.<br />
Amor é para sempre<br />
e desafia<br />
o tecido esgarçado da aparência.<br />
Amor — eterna essência —<br />
que se expressa<br />
na certeza sem fim da poesia.<br />
[Deny Gomes,&nbsp;<i>Promessas do tempo</i>]</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
<b><br /></b><br />
<b>Poesia &amp; prosa no país d&#8217;almada</b></p>
<p>
Quando publicou seu primeiro livro de poemas — <i>O país d&#8217;El Rey &amp; A casa imaginária</i> —, em 1986, Roberto Almada já era relativamente conhecido pelos leitores capixabas porque havia participado das duas coletâneas <i>Poetas do Espírito Santo</i>, em 1973 e 1974, esta última organizada por Elmo Elton. Ambas as publicações tiveram muita repercussão por significarem a valorização da poesia feita por capixabas ou poetas radicados no estado.</p>
<p>O conjunto dos poemas contido nessas antologias funciona como referência básica para o estudo crítico da poesia de Almada, devido às importantes marcas do universo poético que se ampliará a partir desse microcosmo inicial.</p>
<p>A diversidade linguística e temática delineia a proposta de realização textual, que não exclui a preocupação com os fatos históricos e sociais, mas os subordina à transfiguração épico-lírica necessária aos intentos estéticos e literários do autor. As opções do discurso verbal anunciam o poeta criativo, mestre no seu ofício, cujas vertentes variam do popular e despojado ao erudito e sofisticado, com momentos, variantes e revelações que tornam o conjunto da obra almadina um dos mais significativos para a literatura capixaba.</p>
<p>
<b>O poeta no contexto de uma época e de um lugar</b></p>
<p>
Os textos da antologia de 1973 foram selecionados na I Mostra de Poesia Capixaba, da Fundação Cultural do Espírito Santo. A &#8220;Elegia ao guerreiro&#8221; não nomeia Ernesto Che Guevara, assassinado em Camiri, Bolívia, em 1967, pois o tempo era de repressão e &#8220;el hombre muerto / ya no se puede decirlo&#8221;, explicita Caetano Veloso, que também silencia o nome próprio do guerreiro, em &#8220;Soy loco por ti, América&#8221;. Tal silêncio torna maior a ressonância do impacto causado pela morte daquele que se tornaria um ícone dos movimentos socialistas e libertários dos anos 60. A elegia é composta em dísticos que choram a morte mas, pouco convencionalmente, para a Poética clássica, cantam a esperança (&#8220;Olha que a morte ainda é esperança / olha que é noite em Camiri&#8221;), afirmam a solidariedade e a coragem como valores humanos (Não vês que o pranto é só elegia / se não choras tão só por ti?&#8221; &#8220;Que me venha a cova sem máscara ou medo / que não me fuja a terra aonde eu caí.&#8221;)</p>
<p>Sucedem-se os versos com a rima aguda em i, elevando o tônus emocional do conteúdo, insubmisso à ordem lógica do pensamento e dos fatos; o eu lírico privilegia seus sentimentos e emoções. Não existe o panfletarismo da poesia de protesto característica da época e, sim, a repercussão interior do fato político transmudado pela linguagem que o socializa no poema.</p>
<p>O fim da ditadura e a supressão da censura prévia permitem que Roberto Almada republique o texto em <i>Dissertação sobre o nu</i>, de 1990, com o título &#8220;Elegia a Ché&#8221;, o que vale como celebração dos tempos democráticos agora vividos.</p>
<p>Modificações na pontuação (colocação de vírgulas, retirada de parênteses) e retificação de expressões (onde substitui aonde, no segundo verso do dístico 15, esse em lugar de este, no primeiro verso do dístico 18) revelam o cuidado que Almada sempre teve com seus versos e a permanente busca de uma linguagem com melhor rendimento poético.</p>
<p>A vertente épico-lírica assinalará a poesia de Roberto Almada, produzindo tensões entre a objetividade voltada para a História — do Espírito Santo, do Brasil, do continente americano e do mundo — e a subjetividade, com seu risco de encapsular o poeta no egotismo estéril. A superação dialética de tal dilema se faz com a conscientização de que o homem sozinho não existe na História, ele estará sempre em relação com seus semelhantes e dessemelhantes. Sua memória participa da memória coletiva, seu tempo é necessariamente o fio que o conduz, por entre rupturas, conflitos e pacificações, ao tempo compartilhado com os que viveram no passado, vivem no presente e viverão no futuro. Não há, portanto, absenteísmo ou alienação da vida social na literatura do poeta mineiro que se tornou capixaba. Ela procura o justo equilíbrio que torna o escritor um mediador, dilacerado talvez, nos dramas e comédias individuais e coletivos comunicados artisticamente pela linguagem verbal.</p>
<p>Os poemas &#8220;Procissão de São Benedito&#8221; e &#8220;O cais&#8221; são exemplares de tal feição poética, e, não sem razão, Elmo Elton os escolhe para figurar na coletânea por ele organizada. Em &#8220;O cais&#8221;, é evocada efetivamente a rua Cais de São Francisco, despojada de mar, &#8220;uma ruazinha&#8221; de onde se pode ver a paisagem da chamada Cidade Alta, de Vitória, inclusive &#8220;a torre branca da igreja de Santa Luzia, / tão cansadinha [&#8230;]&#8221;. A evocação adquire um tom de singela e irônica crítica ao costume das autoridades brasileiras de mudar os nomes das ruas (e outros topônimos) para &#8220;homenagear todo mundo&#8221;, ou seja, os &#8220;ilustres&#8221; da terra, os circunstancialmente famosos, em detrimento dos nomes atribuídos pelas antigas populações que, com maior sinceridade ou propriedade, prestavam tributo a seus santos preferidos. A ironia é leve, a homenagem a São Francisco é terna e deve permanecer, &#8220;que ele também merece&#8221;.</p>
<p>Na história da capital do Espírito Santo o poeta escolhe o episódio do conflito entre os negros escravos, devotos de São Benedito, e &#8220;os senhores brancos que dominavam a ilha colonial&#8221; e proibiam a presença dos pretos na procissão do &#8220;santo negro irmão venerado&#8221;. Recriado na esfera da poesia, o acontecimento histórico tem ressaltado o caráter político, social e religioso que o determina, e, numa quase prosa intensificadora da consciência crítica da questão problematizada, são dramatizadas, em expressões coloquiais de um meio diálogo, a revolta e a dor dos devotos oprimidos.</p>
<p>O narrador conta, então, por meio de imagens metonímicas, sugerindo a fragmentação do corpo físico e do social dos escravos, como se fez o resgate do santo, num &#8220;assalto&#8221; à igreja de São Benedito, e a transferência da imagem para a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Os três versos finais, compactos e peremptórios, indicam a instalação da totalidade, com a posse material do objeto cultuado e a afirmação simbólica da fé da raça e sua força rebelde<span id="ESCR_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP1" title="Eram chamados 'peroás' os negros escravos (e alguns brancos livres) devotos de São Benedito que rivalizavam com os 'caramurus', facção de devotos, também composta por negros e brancos. Em 1832, a Diocese de Vitória proibiu a procissão de São Benedito, que saía do convento de São Francisco. Em 1833, 'os peroás', revoltados com a proibição, e a permanência do vínculo dos 'caramurus' ao convento, sequestraram a imagem do santo que estava na igreja de São Francisco, e levaram-na, em cortejo, para a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, situada fora da Cidade Alta, onde se concentravam as demais igrejas de Vitória."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></p>
<p>A questão racial e seus desdobramentos funestos na história do Espírito Santo impulsionam a criação poética de Almada, tornam-se núcleo temático de poemas escritos em diferentes épocas e variadas dicções, na comprovação indiscutível de seu envolvimento nos problemas causados pelo desequilíbrio social e de seu conhecimento de nossa historiografia. Porém, acima de tudo, os textos que abordam a história coletiva revelam o poeta capaz de extrair dos fatos seu sumo essencial e comunicá-los ao leitor com as especificidades da linguagem versificada épico-lírica.</p>
<p>Também os acontecimentos da história pessoal de Roberto Almada transformam-se, com frequência, em matéria de poesia. Na antologia de 1973, &#8220;Neste retrato antigo&#8221; é o marco inicial do caminho que retoma o passado familiar. Os fantasmas da infância — o avô Tonico Leite, o pai militar, participante de revoluções legalistas — retornam ao presente do adulto para se constituir nos &#8220;restos&#8221; do eu lírico. O retrato antigo provoca, impressionisticamente, a lembrança dos ancestrais portugueses e a do avô materno, cuja &#8220;tristeza indolente&#8221; contagia o poeta, impregnando de nostalgia os versos largos e brancos que contam o esplendor e o fracasso do velho Leite Ribeiro, até a morte do &#8220;coitadinho&#8221; num hospício de Barbacena, para onde o levam suas últimas forças.</p>
<p>Outro fio que tece &#8220;os restos de mim&#8221; é a rememoração da farda do pai, morto na primeira infância do poeta. Guardada por tantos anos — tal como a farda paterna — a lembrança de haver assumido simbolicamente o lugar e o destino do pai, &#8220;vestindo escondido aquele estranho uniforme&#8221;, grande demais para o &#8220;menino soldado de uma guerra que nunca teve início nem fim&#8221; e, mesmo assim, ter-se sentido herói, merece cuidadosa leitura. A ambiguidade misteriosa que cercava as memórias e segredos de família gera, a nosso ver, a necessidade de recuperar o tempo remoto da infância, para se conhecer e se aceitar.</p>
<p>As polaridades do poema — riqueza/penúria, paz/guerra, grande/pequeno, oculto/exposto, fracasso/vitória, vida/morte — vincam fundo a história do eu poético que revisita o passado. Um ser humano igual a todos os outros, pois vive entre a plenitude e a carência, mas um ser especial, porque é poeta e transfigura a existência em versos: eis o possível núcleo da compreensão de si mesmo que fundamenta o poema &#8220;Neste retrato antigo&#8221;.</p>
<p>Esse autoconhecimento será essencial para a constituição do projeto humano e estético de Roberto Almada, que, mesmo quando trabalha as vertentes exacerbadamente individualistas da lírica, não perde de vista o sentido da universalidade que deve subjazer a toda experiência artística.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Um livro, um país e uma casa</b></p>
<p>
Querer conhecer-se, saber de que é feito, mostrar-se frágil e forte num país estranho, que pode ser o mundo, a vida, o território das lembranças, uma fazenda absurda e encantada ou tantos outros espaços onde se constrói um homem e um poeta, o vassalo e o EI-Rey, o ser racional e o animal que nele habita: a realização de tal tarefa se impõe a Roberto Alrnada, em <i>O país d&#8217;El Rey &amp; A casa imaginária.</i></p>
<p>A reunião dos livros I e II em que se subdivide o título decorre da unidade existente entre eles e se percebe no fluxo de temas, conceitos, sentimentos e na linguagem culta e popular, depurada de todo o supérfluo, ordenada numa sintaxe adequada para evitar que a carga semântica não se derrame em excesso subjetivo.</p>
<p>Vinte e três poemas apenas numerados constituem <i>O país d&#8217;El Rey</i>. Eles provocam o prazer estético em função, inicialmente (se se pode separar o como se diz daquilo que se diz), da diversidade da elaboração formal:</p>
<p>— na estrofação: quadras ou quartetos, tercetos, sextinas, monósticos e dísticos;</p>
<p>— na metrificação: redondilhas maiores ou heptassílabos (predominantes), versos de uma sílaba, duas, quatro e seis (tomemos, como exemplo, o poema XIV), e ausência de esquema métrico regular (veja-se o poema XX);</p>
<p>— na organização rítmica: presença de cadência regular (1a. estrofe do poema X) ou ruptura rítmica decorrente do <i>enjambement </i>ou encadeamento (2a. estrofe do poema X);</p>
<p>— na estrutura das rimas: consoantes (concedo/ledo, lembrança/herança, aventuro/procuro, no poema III), toantes (preciso/rio, encantado/estrada, reprirnido/dia, reunido/grito, habito/ferida, no poema IV), graves (todas as anteriormente citadas), agudas (és/pés, chão/verão/exaustão, deter/prazer, tez/ vez, haver/amanhecer, no poema XIX), finais (todas as anteriormente citadas), encadeadas (floresço/cresço, no poema XV; seio/alheio, refaço/passo, no poema XVIII), pobres (tecendo/prendendo, gado/lado, beijo/desejo, no poema XXIII), ricas (peito/feito, nos poemas XVIII e XXII; fiquei/Rey, no poema XXIII).</p>
<p>A riqueza sonora integra e amplia o valor significativo dos versos, indissolúveis que são a forma e o conteúdo literários.</p>
<p>Além da persona lírica, habitam <i>O&nbsp;país d&#8217;El Rey</i> a fantasmagórica figura do velho que cose no &#8220;Umbral de porta e escada&#8221; o &#8220;mesmo beijo/da morte deste desejo&#8221; (poema XIII), e cuja sombra deve ser vista e seguida (poema XIV), a mãe, &#8220;solicitada para companhia, num dos mais belos momentos do livro&#8221;, no dizer de Valdo Motta, na primeira orelha da obra, e a companheira, porque sobre o peito dela, &#8220;vindo a noite o filho é feito./ Finda a morte nesse abraço&#8221; (poema XVIII).</p>
<p>Se a procura orientou a viagem rumo ao autoconhecimento, ela, porém, não basta (&#8220;Que procurar não é bastante&#8221;, poema VI). O eu lírico necessita completar-se (&#8220;Encontrar é que é o bastante./ Seja pois feito esse encontro.&#8221;, poema VIl).</p>
<p>No espaço-tempo recriado na palavra poética, domina, por certo, a persona lírica: híbrido de gente e bicho, de peito &#8220;cativo e livre&#8221;, paradoxal, imperfeito, para quem &#8220;toda noite é tempo&#8221;. Assim, ela considera o passado que lhe &#8220;coube por herança&#8221; como sua única posse (&#8220;Não tendo mais que o passado,/ é nele que me aventuro.&#8221;), sem, todavia, desconsiderar a terra, onde deve se procurar. Sendo a vida uma imposição, cabe a tal ser encontrar a si mesmo, dedicar-se ao cuidado &#8220;deste frágil território&#8221;, que é, enfim, ele mesmo — nascido, morto e ressuscitado.</p>
<p>Conhecido o país, nele deve ser edificada a casa que será habitada. O Livro II — <i>A casa imaginária</i>&nbsp;— tem como linha de força o conceito de construção. Pensando como João Cabral de Melo Neto, autor da epígrafe do Livro II e referência muito forte nos poemas de Almada, o poeta &#8220;atribui [ao] fazer poético a natureza de um ato de construção&#8221;<span id="ESCR_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP2" title="NUNES, Benedito. (1971), p. 41."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>Entre o edifício e o poema instala-se a analogia resultante da função que os define: o edifício é a máquina de habitar (Le Corbusier), o poema é a máquina de comover.</p>
<p>A casa será, então, construída pelo poeta, que se sabe &#8220;um condutor de emoção&#8221;, e vai harmonizar modernidade e tradição, na convivência de dicções de diferentes épocas e origens, sem que perca a identidade própria — ela é a poesia de Roberto Almada.</p>
<p>O poema &#8220;A casa e como ela é&#8221; descreve a casa imaginária em sua visualidade geográfica, colocada numa paisagem onde se misturam elementos de Naturalismo e Modernismo (&#8220;Ali se engastalha / qual mênstruo-cicatriz- / mortalha&#8221;), Classicismo e Romantismo (&#8220;Vê-se-lhe o corte / lateral e a fronte / à morte.&#8221;), Simbolismo e Modernismo (&#8220;Longe um horizonte / pálido espalha // o que é vão e o que é triste. / Ela resiste. / Se obstina. // Amanhece / fenece / (ah vespertina!)&#8221;.)</p>
<p>Alguns dos topói clássicos da literatura ocidental compõem o tecido poético. O <i>locus amoenus</i>, por exemplo, é retomado em &#8220;Segunda edificação da casa&#8221;, &#8220;O mote&#8221; e &#8220;Poema final&#8221;, de CA, tal como o Ubi sunt? vai intensificar a nostalgia de &#8220;O sobrado&#8221; (DN). Esses elementos do Classicismo não estão nos textos apenas para enfeitá-los ou para evidenciar a erudição do autor, também não surgem aleatoriamente no discurso, como se capturados pela intuição privilegiada do poeta. Têm eles uma função a realizar, um efeito a produzir na textura dos versos. Do mesmo modo, o poeta usa a entonação bíblica para inserir a expressão poética na tradição dos textos sagrados, a exemplo de seu conterrâneo Murilo Mendes, em <i>Tempo e eternidade</i>.</p>
<p>Na &#8220;Primeira edificação da casa&#8221; ecoam as parábolas de Cristo: no propósito doutrinário, no emprego da segunda pessoa do plural, na ênfase do poder do amor como garantia de preservação e identificação do que o homem cria.</p>
<p>A formação católica de Roberto Almada, o seminarista, funciona ideologicamente em sua produção poética, porém, mais importante ainda, dá-lhe um instrumental de eficácia inestimável para o exercício da linguagem artística verbal — os recursos da Retórica e da Poética Clássicas.</p>
<p>Podemos tomar, por sua exemplaridade, o texto inicial de <i>A casa imaginária</i>, &#8220;Justificativa para o poema&#8221;. À luz da epígrafe cabralina, a casa não é contemplada &#8220;de fora&#8221;, e, sim, &#8220;por dentro&#8221;, pela percepção das pessoas que a habitam e que com ela se parecem. A semelhança entre o objeto não humano — casas — e os seres humanos ressalta pela combinação do símile com o paradoxo, na primeira estrofe.</p>
<p>Operando sobre o eixo da identidade e o da diferença, as estrofes seguintes desenvolvem o que parece justificar a existência do poema: ele é a casa da poesia, como as pessoas, os seres, também o são. Diríamos que ocorre uma poetização do dito filosófico de Heidegger: a palavra é a casa do ser.</p>
<p>Casa/pessoa/poema guardam &#8220;o que não foi consumido&#8221;, não como aqui dizemos, prosaicamente, mas na essência mágica que os sustém. Fica na memória aquilo que se esquece, no quarto — espaço de possível erotização — ficam &#8220;as coisas de que me farto&#8221;. A elipse, a metonímia, a metáfora conduzem a expressão reflexiva ao ponto máximo de rendimento poético. Forma e conteúdo são indissolúveis.</p>
<p>O que faz a diferença entre a casa e a pessoa — ser envolta por parede ou por pele — perde importância frente ao que as identifica: serem pó, que ao pó retornarão, ambas dissolvidas pelo tempo. A metáfora, que diz a verticalidade vital comum às duas, sugere a horizontalidade final da morte; a anáfora (chame/chame) acentua a semelhança com a ajuda da sonoridade repetida dos fonemas iniciais dos complementos verbais das frases confrontadas (parede/pele) e com a força da rima consoante (envolve/dissolve). Aprisionando seus segredos, as casas personificadas (prosopopéia) são, como as pessoas, prisioneiras do silêncio e do medo. A antítese encerra o jogo, a luta entre o igual e o diferente, o dito e o interdito, culminando a construção do poema, ao mesmo tempo em que fundamenta a seqüência prometida pela obra. Retrabalhando os dados da Poética, inovando, até quando o comparamos ao já pós-moderno, Roberto Almada cria variações surpreendentes, as quais não exibe como demonstração de virtuosismo, porque integra o novo como essencial à literariedade. Essa relação se estabelece nos poemas &#8220;O mote&#8221; e &#8220;Poema final&#8221;, uma renovação do procedimento da glosa de um mote, cujo efeito de estranhamento vale por uma observação metalingüística sobre o discurso poético tradicional e sua atualização. O paralelismo, em &#8220;O mote&#8221;, recurso largamente usado na poesia renascentista e na barroca, é transformado em reiterações ampliadas, no &#8220;Poema final&#8217;. Ambos os textos são compostos por imagens de refinada plasticidade. Reinaldo Santos Neves, romancista e poeta capixaba, ressalta o talento do autor de <i>A casa imaginária</i> quando pergunta, na apresentação de <i>Daqui mesmo: 34 poetas</i>: &#8220;Quem teve, como ele, o dom de, com versos curtos e límpidos e linguagem lacônica, condensar profundas reflexões humanísticas e alinhar imagens surpreendentes pela força plástica?<span id="ESCR_RP3V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP3" title="NEVES, Reinaldo Santos. (1995), p. 5."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a></p>
<p>O leitor que atuar como co-autor da obra literária e a receber na multiplicidade de seus significados, conforme preconiza a Estética da Recepção, poderá ler &#8220;Roteiro para um poema&#8221; como um divisor de águas na seqüência dos vinte e três poemas de CI. Compreendendo a casa em termos metafóricos e sentindo complementado o processo da edificação — completude provisória, é claro — tal leitor encontrará no &#8220;Roteiro&#8230;&#8221; os passos a serem seguidos (ou que foram seguidos pelo poeta) para construir a casa.</p>
<p>Torna-se quase impossível não nos reportarmos à intertextualidade com &#8220;Procura da poesia&#8221;, de Carlos Drummond de Andrade, apesar de termos ouvido de Roberto Almada algumas queixas quanto à &#8220;idolatria&#8221; ao poeta de Itabira.</p>
<p>Podemos até ousar a hipótese de que &#8220;Roteiro para um poema&#8221; evoca e nega a orientação drummondiana, mais &#8220;técnica&#8221; ou &#8220;didática&#8221;, se confrontada ao lirismo sirnultaneamente elegíaco e vibrante de Almada.</p>
<p>Uma acurada observação faz Geraldo da Costa Matos a propósito de um provável erro de impressão no primeiro verso da última estrofe do poema em análise. Compulsando os originais do poeta, na pesquisa que ora desenvolve, o autor de <i>A poesia A(I)mada</i> encontrou o citado verso escrito: &#8220;Até que a aviste&#8221;, o que, parece-nos, é mais conforme ao desenvolvimento da caminhada rumo à casa imaginária.</p>
<p>Os poemas que se seguem ao &#8220;Roteiro&#8230;&#8221; constituem-se como detalhamento da existência-em-poesia, da estada no universo da criação poética, na complexa e variada gama de elementos que o integram. Dentre estes, destacam-se a árvore, &#8220;metáfora perfeita do homem contemporâneo [&#8230;] condenado à existência fragmentada, isolada [&#8230;], o homem como uma colcha de conflitos que não se resolvem senão pela re-ligação com sua essência e alteridade&#8221;, segundo a palavra de Valdo Motta, agora na segunda orelha do livro, e a Amada, vinda do lugar do sonho, &#8220;imaginária e mulher&#8221;, visão romântica e simbólica. Por si mesma edificada, em voz e silêncio ela erige o erotismo e seus dilemas como valor iniludível na vida humana, o poder maior que a morte.</p>
<p>Se muito nos alongamos na leitura de <i>O país d&#8217;El Rey &amp; A casa imaginária</i>, isto se deve à importância do livro de estréia de Roberto Almada para o conjunto da obra e por sua rica complexidade e beleza.</p>
<p>
<b>Nudez: revelação da vida e da morte</b><br />
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O segundo livro de Roberto Almada instiga o leitor a partir do próprio título: o que seria uma dissertação em verso? Como se fará a fusão de um tipo de composição eminentemente prosaica e a forma versificada na abordagem do erotismo sugerido no título? De que potencialidades se valerá o poeta para concretizar a superação desse desacordo?</p>
<p>Na entrevista concedida a Luiz Tadeu Teixeira, em <i>A Gazeta</i>, de 23 de fevereiro de 1992, Almada afirma que <i>Dissertação sobre o nu</i> é um livro amplo e variado, ao que podemos acrescentar: e, por conta disso, oferece não só uma original reunião de tratamentos de temas diversificados, mas também a confirmação das qualidades vistas nos textos que o precederam e a conquista de novos territórios estético-literários.</p>
<p>Em seu discurso de posse na Academia Espírito-santense de Letras, em 1996, Ester Abreu Vieira de Oliveira, que sucedeu a Almada na cadeira no 27, aponta a tensão fundamental de DN: o conflito entre o impulso da vida e o impulso da morte, com a a vitória de Tanatos sobre Eros.</p>
<p>Na orelha do mesmo livro, também esboçamos uma visada crítica sobre esse conflito essencial da existência humana, quando dizemos: &#8220;Do outro lado do amor erótico e em oposição ao esplendor da nudez está a morte, rígida e implacável, exigindo cobrir-se o corpo com mortalha e terra, ocultamento final da força criativa da vida. [&#8230;]. O eterno combate entre Eros e Tanatos se trava neste livro de Roberto Almada no campo da emoção poética e se expressa numa linguagem onde ressoam vozes de outros que se ocuparam do mesmo grande tema ancestral.&#8221;</p>
<p>O poema-título nos diz que o nu, objeto da dissertação, são os nus: o da face, que a roupa não oculta; o das nádegas, ocasionalmente exposto pelo contratempo de um vento mal soprado, esse &#8220;nu interior&#8221;, a despertar o impudico desejo do sátiro; o nu do ritual amoroso, não cômico, mas dramático, na mescla desordenada dos corpos desfeitos na batalha erótica, e o nu da fome, inominado no vazio da mesa, do prato e da boca. A linguagem dos quartetos, desnuda de pompa e didatismo, é consubstancial à originalidade do tema e inclui o leitor — &#8220;É o nu de nossas faces [&#8230;]&#8221; na menção aos que não ocultam sob as vestes adjetivas a substantividade da nudez canhestra, esquisita, de sua verdade sob a aparência.</p>
<p>Desvelar, desnudar, descobrir as múltiplas dimensões do homem e de sua existência: consiste nisto uma das funções da poesia. Em DN, esta função se cumpre por meio de &#8220;séries temáticas estendendo-se de poema a poema&#8221;, procedimento composicional apontado por Benedito Nunes no estudo da obra de João Cabral de Melo Neto por nós referido anteriormente.</p>
<p>Os mistérios familiares, sentidos como origem primeira dos traumas existenciais nos poemas publicados nas antologias de 1973 e 1974, reaparecem na republicação em livro, acrescidos de &#8220;O sobrado&#8221;, &#8220;Elogio barroco à lembrança de Sinhá Leite Ribeiro&#8221; e &#8220;Sala antiga&#8221;.</p>
<p>A série temática da História do Espírito Santo — &#8220;Procissão de São Benedito&#8221;, &#8220;Balada dos negros em Pendi-Yuca&#8221; e &#8220;Réquiem para a Matriz de São José em Queimado&#8221; — dá aos fatos históricos interpretação pessoal e valoração ideológica, numa estratégia de texto com propósitos diversos daqueles da História oficial. Ficcionalizados poeticamente, os eventos reais deixam de ter a frieza do registro histórico, principalmente a dos compêndios escolares, para serem contados em linguagem afetiva, recriadora da história dos oprimidos, com a qual a Literatura cria vínculos novos e iluminadores.</p>
<p>O &#8220;Réquiem&#8230;&#8221; traz o lamento do poeta pela má sorte dos negros rebelados devido à traição que lhes fez o frei Gregório de Bene, obrigando-os a trabalhar na construção da Matriz de São José, em Queimado, município da Serra, ES, em troca de uma alforria que jamais lhes poderia dar. Reza o poema o réquiem em memória dos negros batidos pela derrota da rebelião, em 1848, enquanto lamenta, na superfície textual, a destruição da Matriz pelo tempo, que pagou na mesma moeda tanto o bem quanto o mal.</p>
<p>A &#8220;Balada dos negros em Pendi-Yuca&#8221; amplia a transfiguração poética dos fatos históricos, ao relatar a fuga desordenada dos escravos rebeldes perseguidos pelos brancos. Debandando das margens do regato Pendi-Yuca, nas terras do distrito de Queimado, correm na noite de trevas e presságios, buscam um porto seguro, onde estejam a salvo das negras tenazes da morte.</p>
<p>Intensifica-se a posição libertária do poeta. Ele acentua a crueldade dos perseguidores, comandados pelo alferes Varela, &#8220;com suas lanças de fogo&#8221;. Os fugitivos têm &#8220;À frente o negro Elisário [sic] / com suas pernas de alce.&#8221; Os dísticos da balada popular contam a história fantástica da debandada, intercalados pelos refrães, também setessílabos, que marcam o compasso da derrota inexorável dos escravos ludibriados: &#8220;Vão os negros, vão-se em fuga / nos campos de Pendi-Yuca&#8221; e &#8220;Nos campos de Pendi-Yuca / vão-se os negros, vão-se em fuga.&#8221;</p>
<p>A &#8220;Procissão de São Benedito&#8221; é explícita na colocação do problema secular da desigualdade social decorrente da opressão sobre uma etnia, política e economicamente desfavorecida. Aqui, o cenário é urbano — a Vitória colonial do século XIX —, repetem-se, intensificados, os conflitos sociais envoltos pela exploração da religiosidade dos negros, reitera-se a capacidade de luta que os sustenta. A luta que travam pela imagem do padroeiro da raça não se dissocia do combate pela liberdade, e a vitória que conseguem é material e simbólica. A importância e a beleza do triunfo é garantida pela permanência, &#8220;para sempre&#8221;, da imagem do santo na igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Em outra série temática reúnem-se os poemas vinculados à cultura espanhola, particularmente à literatura que ela produz. Só mais tarde surgirá a paisagem de Maiorca como tema exponencial da morte da Amada. &#8220;Suave elegia a Juan Ramón Jiménez&#8221; é uma homenagem ao grande lírico de Espanha, plácida e comovente, contendo o apelo para ser levado por Jiménez para o mundo de paz, aonde o levaram suas asas de anjo poético.</p>
<p>Já em &#8220;O vinho e o sangue&#8221;, Almada invoca <i>la sangre</i> como paradigma da <i>hispanidad</i>. E alude aos poetas mártires e é de Lorca que ele fala e de quem cita versos de &#8220;Muerte de Antoñito, el Camborio&#8221; —, com seu sangue derramado na terra espanhola pela causa da democracia. O poema invoca, também, D. Luís de Góngora, na enumeração abundante de elementos heterogêneos e no barroquismo da violenta ruptura sintática do hipérbato, da elipse e da zeugma, estranha e hermética na estrofe final do poema.</p>
<p>Murilo Mendes, no livro <i>Tempo espanhol</i>, capta esse &#8220;quadro amplo e conflituoso de uma civilização em sua estrutura de tensões sucessivas, que se ajustam, porém, numa estreita comunidade&#8221; de aspereza, rigor, lucidez, densidade, monumentalidade [e] tragicidade épica&#8221;, conforme analisa Laís Corrêa de Araújo<span id="ESCR_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP4" title="ARAÚJO, Laís Corrêa de. (1972), p. 74."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a></p>
<p>A influência de Espanha ocorre, ainda, via João Cabral, na antilira de poemas como, por exemplo, &#8220;A equilibrista nua&#8221;, intertextualmente ligada aos &#8220;Estudos para uma bailadora andaluza&#8221;, do livro <i>Quaderna</i>.</p>
<p>O erotismo, problematizado crescentemente pela relação com a impiedade do tempo e a inevitabilidade da morte, determina a última série temática de que nos ocuparemos. Dos numerosos textos eróticos, preferimos destacar &#8220;Poema erótico&#8221;, &#8220;O dedo&#8221;, &#8220;Boca rubra e silenciosa&#8221;, &#8220;A cavalgada&#8221;, &#8220;Os frutos da carne&#8221; e &#8220;Retrato da Amada&#8221;. Em sua maioria, alucinantes e arrebatados, esses poemas podem ser intensamente sensuais e sexuais — &#8220;Todos os sentidos estão despertos no poeta. [&#8230;] Ele é o possuidor do erotismo&#8221;, observa Ester A. Vieira de Oliveira, no discurso aqui citado —, ou podem ser elaborados na contenção da paixão, sublimada na pureza do amor, da ternura, da saudade. Sempre presente neles, a Amada. Presente como &#8220;corpo ardente por onde a mão do eu lírico desliza&#8221;, ainda conforme a acadêmica e poeta Ester Vieira, presente como lembrança, orficamente resgatada à morte pelo poder da poesia.</p>
<p>No combate entre Eros e Tanatos, a poesia funciona como a via de superação da derrota da energia vital, torna-se o lugar da pacificação. Por meio dela, o poeta reencontra a Amada e, em seus &#8220;braços de seda; de seda não, de sonho&#8221;, retorna à origem de toda a bem-aventurança.</p>
<p>Em contraste com livro anterior, <i>Elegia de Maiorca</i> é caracterizado pela centralização numa única ordenação estrófica — o dístico — e pela exclusividade do tema — a morte da mulher amada. São características da elegia, o poema da lamentação de uma perda, da exposição dos sentimentos provocados por uma irreparável carência, e que se realiza, com frequência, em estrofes de dois versos, cuja métrica e cujo ritmo contribuem para aumentar a sugestão de dor e tristeza.</p>
<p>Assevera Fausto Cunha, no prefácio aos <i>Melhores poemas</i> de Mario Quintana, que &#8220;as elegias [&#8230;] só resistem quando um pouco mais do que o talento as legitima&#8221;<span id="ESCR_RP5V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP5" title="CUNHA, Fausto. (1983), p. 14."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a></p>
<p>A análise feita pelo poeta Carlos Nejar, apresentando o livro de Roberto Almada de que nos ocupamos agora, ultrapassa a formalidade dos prefácios e mergulha na composição dos poemas com a sensibilidade e o domínio do ofício de quem também é um mestre da palavra poética. Para Nejar, EM é uma sinfonia, é emblemática da produção do poeta que soube acrescentar à elegia mais do que o talento pois aliou emoção e revestimento técnico, criando uma obra universal, apaixonada e dolorosa.</p>
<p>No poema 3, a identificação da natureza com o humano tem a qualidade do feito poético definitivo: as águas, os ventos, os oceanos, as montanhas, tudo compartilha o sofrimento do homem e chora junto com ele a mágoa dos amantes para sempre afastados um do outro.</p>
<p>O poema 4 se inicia com imagens visuais, olfativas e tácteis, favorecendo a passagem do mundo exterior para a interioridade do eu lírico, esvaziado pela partida sem retorno da Amada. O passado se presentifica, os movimentos e a voz da Amada são recapturados na fala poética. O desenlace aparta o olhar da Amada que se vai, e, na ânsia final, se esvai nos braços do poeta.</p>
<p>O ritmo varia, os versos curtos se alternam com os mais longos, criando sonoramente rupturas como as que desagregam a vida.</p>
<p>Algo de teatral existe nessa morte, algo de música e de dança, aos poucos se extinguindo, até a imobilidade e o silêncio absolutos (poema 5).</p>
<p>O tempo inexorável segue alheio ao fluir da imensa dor humana. A cena obsedante retorna, repetida nos versos sem metáforas do poema 9. Severos e concisos, intensificam a tragédia.</p>
<p>Como se houvesse atingido o máximo suportável do sofrimento, o eu lírico torna-se mais plácido e se alimenta de lembranças e da esperança no reencontro, no poema 18, onde o amor pela Amada se torna fraternal e apaziguado.</p>
<p>Situados no tempo — um outubro de manhãs já findas —, os dois últimos poemas (19 e 20) concluem o movimento final da sinfonia. Fecha-se o círculo, cobre-se o quadro, recolhe-se a paleta, esgota-se o espólio do bem-querer.</p>
<p>Nas águas malsãs espalhou-se o sangue rubro da Amada, infeliz coincidência a confirmar a intuição do paradigma da Espanha, na tarde maiorquina.</p>
<p>Clássica e solene, <i>Elegia de Maiorca</i> é o processo da lenta absorção da perda. O que virá depois dela?</p>
<p>O silêncio sobre si mesmo, a fala das coisas.</p>
<p>Segue-se, em 1992, <i>O livro das coisas</i>. Afirmara Nejar, no prefácio a DN: &#8220;Ao mineiro desagrada a grandiloqüência.&#8221; Almada, mineiro e poeta, bem o demonstra, em LC, no discurso sucinto dos vinte e cinco sonetos de sua última obra publicada em vida.</p>
<p>A forma fixa, cultivada por Petrarca e Camões, é objeto de inovações revitalizadoras, libertando metros e ritmos para adequar-se às necessidades expressivas do poeta moderno.</p>
<p>Aplicando-se ao conhecimento do fazer poético, Roberto Almada declara aquilo que, além da simplicidade, agrada ao poeta. São poemas em que ressalta o propósito metalinguístico, a busca do modo de ser da palavra poética, a compreensão do funcionamento da &#8220;máquina de comover&#8221;. O rigor da construção, a clareza e o comedimento dos versos aproximam-nos da antilira cabralina, sem que se torne o lúcido zelo uma obsessão castradora da beleza.</p>
<p>Almada visa a deixar falar as coisas, as figuras das coisas &#8220;que significam outras coisas&#8221;, desvelando a construção da linguagem do poema, segundo a inclinação para a reflexão filosófica e para as considerações sobre o ofício a que se dedica, conforme a epígrafe de Francis Bacon e a dedicatória a Italo Calvino muito esclarecem.</p>
<p>O &#8220;Soneto da finitude&#8221; principia a definição do ideário estético do eu lírico ao revelar o valor dado ao &#8220;bom e breve&#8221;, à permanência do aparentemente finito, mas que aquece e ilumina sem sua provisoriedade. Segue-se a oposição entre a vida (e o ilusório gozo do corpo) e a alma, que, pálida, desfalece. Ecos da metafísica rilkeana soam nesse elogio da finitude, contaminados pela secura severa da objetividade cabralina. Assim é a poesia de Almada: um ambíguo e paradoxal jogo de máscaras, de sobreposições e alternâncias, regido não pela absoluta coerência, mas pelo ir e vir das diferentes possibilidades que o momento oferece para a elaboração da tessitura do verbo artístico.</p>
<p>O &#8220;Soneto da brevidade&#8221; recupera o verso inicial do &#8220;Soneto da finitude&#8221;. Altera, porém, a ordem dos adjetivos definidores do gosto do poeta: &#8220;Agrada ao poeta o que é breve e bom!&#8217; Dizendo ao leitor — Atenção, este é outro poema! —, Almada altera também a estrutura métrica, multiplica os encadeamentos e, com isso, balanceia o ritmo com síncopes inesperadas, faz do verbo um substantivo e elogia o prazer calmo do riso, da boa sombra, do sonho entrevisto, da troca luminosa de olhares &#8220;de quem ama para quem ama&#8221;.</p>
<p>É outro tom, são outros temas, mesmo que não faltem diálogos intra e intertextuais com obras de épocas e situações diferentes. A preocupação com o ser poético, sua linguagem, seus compromissos éticos e estéticos completam ou substituem as inquietações amorosas do livro imediatamente anterior. O aprofundamento no fazer poético é o objetivo a conseguir, até mesmo como exigência do espírito exaurido pela dor.</p>
<p>Unidade e variedade podem ser identificadas como o eixo composicional da seqüência dos poemas: as polaridades — inexatitude (a água) x exatitude (a morte) — norteiam alguns sonetos já a partir do título, mas em outros, como no &#8220;Soneto da sabedoria&#8221;, as oposições internas não são explicitadas no lugar privilegiado do título; o tom vai da moderada crítica ao comportamento das pessoas (&#8220;Soneto do encontro&#8221;) à ponderação judiciosa do ensinamento para a vida (&#8220;Soneto da busca&#8221; e &#8220;Soneto da prudência&#8221;), da fina ironia (&#8220;Soneto da utilidade&#8221;) à reflexão pesarosa sobre a solidão (&#8220;Soneto do abandono&#8221;); o estilo pode ter o despojamento lúcido de João Cabral (&#8220;Soneto da enunciação&#8221;) ou o preciosismo barroco de Murilo (&#8220;Soneto do desejo&#8221;). A figuração das coisas unifica tais variações, sem deixar que se instale o caos no cosmo da poesia.</p>
<p>Se o &#8220;Soneto da leveza&#8221; completa o grupo dos que expressam aquilo que agrada ao poeta, o &#8220;Soneto do agradecimento&#8221; complementa aquele que &#8220;ensina&#8221; a diligência, o valor da liberdade e da fé que alimenta (&#8220;Soneto do ensinamento&#8221;). Iniciados pela mesma estrofe, traçam um metafórico roteiro para a vida por meio de conselhos não impositivos oferecidos ao Outro e a si mesmo. O soneto final fecha a estrofe e <i>O livro das coisas</i> com a resposta ao &#8220;Obrigado&#8221; não formulado, porém mais do que audível em seu ocultamento silencioso. O poeta diz: &#8220;De nada.&#8221;</p>
<p>Cortesmente Roberto Almada se despede, no último verso do último livro seu que viu publicado. Cada leitor, a revitalizar os poemas no ato da leitura, dirá, sonora e comovidamente: Obrigado, poeta.</p>
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<b>Da poesia como doença e cura</b></p>
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Quando o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo publicou, em 1997, a Coleção Almeida Cousin, nela incluiu <i>O doente disfarçado e outros poemas</i>, de Roberto Almada, com preâmbulo, seleção de textos e organização de Geraldo da Costa Matos. Mais do que uma homenagem ao poeta mineiro/capixaba recentemente falecido, o livro consiste numa importante contribuição para o reencontro do público leitor com a poesia almadina.</p>
<p>Difícil se torna a leitura analítica da obra póstuma, principalmente quando ainda não foi submetida ao crivo da edição crítica. Confiamos, todavia, na competência do Prof. Geraldo Matos, autor da pesquisa e seleção dos inéditos (e dos já publicados) poemas de Almada reunidos em DD.</p>
<p>Está dividida em dois livros (ou momentos) a obra editada <i>post-mortem</i>: &#8220;O doente disfarçado&#8221; e &#8220;Outros poemas&#8221;.</p>
<p>O poema &#8220;A casa habita em mim com as suas verdes lembranças&#8221; motivou a inquietação do analista quando deparou com um procedimento inusitado na obra de Roberto Almada: a junção de prosa poética com o texto versificado. Os três parágrafos iniciais têm a feição da crônica lírica, com alusões a Adélia Prado e a uma casa &#8220;de Teixeiras&#8221;, em cuja varanda &#8220;um cactos [sic] solitário prenunciava&#8221;, com um simbólico e lorquiano verde, as penas que viriam.</p>
<p>Gradualmente, a linguagem se move da prosa para o verso, trazendo as verdes lembranças &#8220;imersas em mim como, [sic] algas em oceanos de profundas correntezas&#8221;. Sons de passos peIas aléias e a sonata ao piano vão musicando o mundo recuperado pela memória. Um &#8220;quiosque e sob ele o poço, poro da terra&#8221; favorecem o mergulho na sombra de lembranças e medos que afluíam, no nível do enunciado, e afluem na enunciação do poema.</p>
<p>Tudo o que se perdeu, numerosamente evocado, inclui as casas, o quintal e o &#8220;nunca acabar de verdes floresceres&#8221;, uma flora doméstica e brasileira, nomeada sem cientificidade; apenas a memória afetiva acrescenta uma designação pessoal para as &#8220;margaridinhas que chamávamos paquerretes&#8221;. Envolvidos no cenário verdelírico, os corpos se consomem &#8220;entre lençóis e sombras&#8221;.</p>
<p>&#8220;Domingo de tarde&#8221; é um poema que aparece em duas versões — a segunda nos &#8220;Outros poemas&#8221; —, com mudanças na disposição gráfica dos versos e dois trechos em prosa poética, o segundo dos quais inexistente na primeira versão, contendo, ambos, o procedimento (concretista?) de grafar letras ou sílabas de palavras em sucessão vertical ou &#8220;em degraus&#8221;.</p>
<p>Na primeira versão — o poema 15, de DD —, a narração e a descrição situam o personagem — o menino torcedor do Flamengo — no estádio, assemelhado aos deuses da arena e que exerce, judiciosamente, &#8220;a sua posse&#8221;. Há sonho, gentileza, timidez e determinação nesse menino, sentado &#8220;como um cruzado junto a uma multidão de braços.&#8221;</p>
<p>A evolução das imagens tem a ver com a linguagem cinematográfica, com planos gerais, closes e, alargando mais o horizonte interpretativo, até um travelling lateral, acompanhado pela trilha sonora dos tambores que fazem pulsar, em síncope, os músculos do menino.</p>
<p>Os &#8220;onze anjos de sonho&#8221; adentram o gramado e são heróis míticos, exaltando o entusiasmo dos torcedores, como se expressa o narrador, em bela combinação de metáfora e metonímia: &#8220;Agora explode o estádio e se multiplica o ímpeto.&#8221; Transforma-se o cenário em local da cerimônia ritual da saudação ao público e o poeta repete a expressão &#8220;É um louvor a Deus&#8221;, ligando, pode-se dizer religiosamente, o campo, os &#8220;ídolos / de pé ante o seu povo&#8221;, o menino, o estandarte vermelho e negro, o grito flamengo &#8220;orgulho da / multidão em êxtase&#8221;.</p>
<p>Repete-se, como fecho, o conjunto de versos de tonalidade lírica que falam da emoção compartilhada pelas raças irmanadas na suavidade do beijo no estandarte rubro-negro, o negro humanizado, com a pele desenhada pela &#8220;doçura dessa bênção, e desse tormento&#8221;.</p>
<p>Raras vezes a poesia de Roberto Almada alcançou tão alto grau de encantamento como nesse poema, que alia o atual ao ancestral, o individual ao coletivo, a paixão pelo esporte e o amor paternal.</p>
<p>&#8220;Infância mineira I&#8221; e &#8220;Infância mineira II&#8221; retomam o filão da saga familiar, cruzando intratextualmente falas de outros poemas de Roberto Almada, transmudando as lembranças dolorosas em íntimos diálogos com parentes e santos — a tia magrinha, cujo nome se perdeu na desmemória, e o São Francisco &#8220;da ruazinha onde nasci e / não me criei&#8221;.</p>
<p>Os versos livres e brancos, &#8220;desarrumados&#8221; em estrofes nada clássicas, confirmam a versatilidade do poeta no trânsito das formas e temáticas que percorre. Voltado para dentro de si e aberto para o mundo exterior que nele se reflete, o portador da voz lírica exclama, recorda, interroga. Ele se exime da culpa por aquilo que esqueceu e das brincadeiras infantis não gozadas. O tempo é o responsável, diz o texto. Não há como não desculpar seu autor.</p>
<p>Com o &#8220;Soneto II&#8221;, Roberto retoma a mais cultuada forma fixa da poesia anterior ao Modernismo e até hoje prestigiada por seu harmonioso sistema estrófico, que possibilita a apresentação, o desenvolvimento e a conclusão do assunto do poema.</p>
<p>As dificuldades da leitura de uma obra póstuma aqui se colocam com maior evidência. Teria sido desatenção do autor usar a inicial minúscula no começo do segundo verso do primeiro quarteto, quando o verso anterior termina por ponto, ou ocorreu erro de impressão? Mais difícil fica a resposta quando se observa a repetição do problema no segundo quarteto. Agrava-se a preocupação do analista ao encontrar a inicial maiúscula no segundo verso do primeiro terceto, no qual o primeiro verso termina sem sinal de pontuação. Volta a minúscula no começo do terceiro verso do primeiro terceto, violentando a pontuação interrogativa no final do verso anterior.</p>
<p>Esses problemas podem comprometer a integridade do poema, não porque seja inaceitável a ruptura das normas da gramática (il va sans dire), e, sim, porque talvez traiam o propósito expressivo de Almada.</p>
<p>Fica em suspenso o total prazer estético diante desses senões. Pode-se pensar se outros não teriam acontecido na transcrição dos versos que não realizam a medida do decassílabo — o metro predominante no texto —, o que resultaria na quebra do ritmo sustentado pelo metro.</p>
<p>Apesar disso, há que reconhecer a beleza do tema tratado no &#8220;Soneto II&#8221; — o amor como essência individualizadora do ser — e esperar a conclusão da pesquisa dos inéditos, trabalho que muito poderá garantir a forma autêntica destes e de outros textos não publicados do autor de O doente disfarçado e outros poemas.</p>
<p>&#8220;A compaixão segundo Pânfilo Sasso&#8221;, o primeiro dos &#8220;Outros poemas&#8221;, vale como exercício técnico de disseminação de confrontos entre seres animais e naturais, resolvendo-se com a submissão de um deles ao antagonista. Diverso, porém, é o resultado do confronto entre o eu lírico e o &#8220;coração vazio de toda a doçura.&#8221;</p>
<p>Incapaz de, &#8220;com o tempo&#8221;, levar-lhe a compaixão, isto é, destituí-lo do orgulho e da crueldade, o poeta afirma, no dístico final, onde recolhe os elementos disseminados, que tal coração supera a selvageria dos animais e a dureza das pedras.</p>
<p>Para concluir esta leitura dos poemas de Almada aqui reunidos, escolhemos &#8220;O tempo&#8221;, texto extremamente original pela estruturação poemática, no qual a sonoridade modula a carga semântica produzindo efeitos incomuns.</p>
<p>O tempo é animizado, um &#8220;feroz tirano&#8221; que inflige ao poeta &#8220;todo desengano&#8221;. A paráfrase em prosa do poema lhe reduz, em muito, a qualidade estética. Apenas a leitura expressiva, em voz alta, revela a totalidade da perfeição do jogo de sons e significados que o constitui.</p>
<p>Menos importa o conceito de tempo que a ressonância dele na interioridade lírica. As rimas emparelhadas no fim dos versos da primeira estrofe traduzem a complexidade da relação desigual — tal como é a extensão dos versos. A construção sintática do verso &#8220;Do que vale me atormente?&#8221; causa maior estranheza em razão da proximidade com o simples padrão sonoro da rima consoante e a regularidade sintática dos versos que completam a segunda estrofe.</p>
<p>Uma consideração generalizante sobre o tempo — &#8220;é qualquer desvario&#8221; — faz outra vez contrastar a normalidade da ordenação sintática com a imprevisibilidade semântica do predicativo do sujeito. A função lúdica cumprida pela sonora troca de risos — desvario, rio-me, ri-se — contrasta, por fim, com a gravidade da função cognitiva da linguagem. O desprezo do tempo para com a fala poética filtra-se por entre as malhas do rico ambíguo jogo verbal do último verso.</p>
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<b>Referências bibliográficas</b></p>
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ALMADA, Roberto. O país d&#8217;El Rey &amp; A casa imaginária. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida/UFES, 1986.</p>
<p>___.Dissertação sobre o nu. Vitória: Prosa e Verso Ed., 1990.</p>
<p>___.Elegia de Maiorca. São Paulo: Massao Ohno Ed., 1991.</p>
<p>___.O livro das coisas. São Paulo: Massao Ohno Ed., 1992.</p>
<p>___.O doente disfarçado e outros poemas. Vitória: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, 1997.</p>
<p>ARAÚJO, Laís Corrêa de. Murilo Mendes. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1972.</p>
<p>CAMPOS, Geir. Pequeno dicionário de arte poética. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1978.</p>
<p>MATOS, Geraldo da Costa. A poesia a(l)mada. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1997.</p>
<p>MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. 4. ed São Paulo: Cultrix, 1985.</p>
<p>NUNES, Benedito. João Cabral de Melo Neto. Petrópolis: Vozes, 1971.</p>
<p>OLIVEIRA, Ester Abreu Vieira de. Discurso de posse. Discurso proferido na Academia Espírito-santense de Letras, Vitória, 30 de maio de 1996.</p>
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<h4>
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTAS</span></h4>
<p></p>
<div id="ESCR_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Eram chamados &#8220;peroás&#8221; os negros escravos (e alguns brancos livres) devotos de São Benedito que rivalizavam com os &#8220;caramurus&#8221;, facção de devotos, também composta por negros e brancos. Em 1832, a Diocese de Vitória proibiu a procissão de São Benedito, que saía do convento de São Francisco. Em 1833, &#8220;os peroás&#8221;, revoltados com a proibição, e a permanência do vínculo dos &#8220;caramurus&#8221; ao convento, sequestraram a imagem do santo que estava na igreja de São Francisco, e levaram-na, em cortejo, para a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, situada fora da Cidade Alta, onde se concentravam as demais igrejas de Vitória.</div>
<div id="ESCR_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;NUNES, Benedito. (1971), p. 41.</div>
<div id="ESCR_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;NEVES, Reinaldo Santos. (1995), p. 5.</div>
<div id="ESCR_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;ARAÚJO, Laís Corrêa de. (1972), p. 74.</div>
<div id="ESCR_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico/#ESCR_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;CUNHA, Fausto. (1983), p. 14.</div>
<p>[In <i>De folhas versadas Roberto Almada: vida e obra</i>, Vitória: Secretaria Municipal de Cultura, Prefeitura Municipal de Vitória, 1998, p. 21-40. Não foram transcritas as partes do estudo referentes à obra de Roberto Almada como cronista, contista e crítico literário.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Deny Gomes</b>&nbsp;nasceu&nbsp;em São Luís-MA, em 1938, e desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal. Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Autora de diversas obras literárias e de crítica literária.<br />
(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/estudo-critico//www.estacaocapixaba.com.br/2015/11/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>Os medonhos insucessos do Vilarejo e outras histórias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 21:09:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Deny Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os textos de Pedro J. Nunes — uma novela e quatro contos — reunidos em Vilarejo e outras histórias incluem-se no fluxo da produção verbal artística porque recebem e oferecem contribuições pessoais para o cabedal da Literatura, este misto de convenção tradicional e inovação, esta específica articulação de códigos para representar a realidade, esta concretização [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Os textos de Pedro J. Nunes — uma novela e quatro contos — reunidos em Vilarejo e outras histórias incluem-se no fluxo da produção verbal artística porque recebem e oferecem contribuições pessoais para o cabedal da Literatura, este misto de convenção tradicional e inovação, esta específica articulação de códigos para representar a realidade, esta concretização de novos e diferentes mundos e tempos na linguagem esteticamente trabalhada.</p>
<p>O livro, em sua unidade diversificada, cria mundos insólitos, fantásticos, absurdos, ligados numa forte teia de palavras em que velho e novo, mítico e histórico, universal e regional, sagrado e profano, sério e cômico, bem e mal estão em confronto e, ao mesmo tempo, integrados, provocando no leitor a boa e instigante dúvida que, como o riso, nos distingue dos irracionais. Ao criar esses mundos, o jovem autor capixaba realiza a fusão do discurso do sonho, da loucura, do mito, das narrativas populares produzindo um texto literário simbólico e revelador das profundidades do real que ele faz assomar.</p>
<p>Assim é no vilarejo, situado &#8220;sob a secular vigilância das rochosas montanhas&#8221;, paisagem árida onde os homens tentam afundar na desmemória, a &#8220;largos tragos de etílica felicidade&#8221;, o peso de suas torpezas. Entre eles, um forasteiro, o narrador sem nome querendo chegar &#8220;muito próximo a uma boa verdade sobre os homens e suas necessidades de conduzir a história.&#8221; Procurando vencer a conspiração do silêncio sobre os medonhos insucessos ocorridos no passado, o narrador realiza um cruzamento de códigos literários e culturais, numa estratégia que lhe possibilita romper o &#8220;pacto canalha&#8221; mantido pela gentinha ordinária do lugar e o coloca como analista impiedoso de uma sociedade estupidamente cruel.</p>
<p>O foco narrativo escolhido — em primeira pessoa, com visão parcial dos fatos e intensa subjetivização do relato — recurso técnico que aproxima a novela das narrativas autobiográficas e das estórias de mistério e suspense; o retorno à temporalidade ancestral e a exemplaridade das ações refletidas no tempo atual do enunciado, que instalam o mito no tecido narrativo; a recorrência às fontes orais, ao maravilhoso, a omissão do nome próprio de alguns personagens simbólicos — procedimentos típicos do conto popular; o uso de alegorias e de metonímias como as que povoam o discurso onírico; a atitude de incerteza quanto à veracidade dos fatos, que dá à novela traços das narrativas fantásticas, são alguns dos componentes do processo de produção, constituindo um jogo combinatório estranho e prazeroso.</p>
<p>Movido pelo &#8220;humano desejo de atingir o que além da fronteira de põe&#8221;, o narrador assume a dicção do cronista clássico que conta os medonhos fatos para a edificação das gentes. Entre irônico e filosófico, ele abre espaço para o leitor, tornando-o partícipe de suas descobertas e de suas dúvidas geradas pela falta de &#8220;notícias substanciais&#8221; e levando-o pelos meandros que dão &#8220;acesso ao território da abstração.&#8221;</p>
<p>E o leitor descobre no implícito do discurso literário que, no vilarejo, tudo é uma coisa e o seu avesso, tudo é paradoxo, cada um carrega o seu contrário e, talvez, seja esta a chave do enigma.</p>
<p>O Coronel Veira é o oligarca mandante de crimes, que freqüentemente exercia sua lúbrica rapinagem sobre as desamparadas passantes das estradas do vilarejo, mas é, também, o cagão, o covarde borra-botas que se esconde da estranha mulher que vem postar-se, grávida, frente à &#8220;casa limpa&#8221; dos Veira.</p>
<p>Dona Cininha é a <i>mater familias</i>, piedosa e bem posta, digna e caridosa, mas não deixará de ser um ridículo cadáver encarquilhado, cujos ossos terão de ser quebrados para acomodar-se no elegante esquife encomendado pelo filho, Dr. Álvaro, o Coronelinho.</p>
<p>Este &#8220;doutor de boas letras da Capital&#8221;, legítimo herdeiro dos bens materiais e dos indiscutíveis males morais dos Veira, é tido pela canalha do lugar como dotado de &#8220;modos afrangalhados&#8221; e dado a suspeitas amizades com jovens colonos de suas terras. Ele, porém, se casa e, ainda por cima, mantém uma bela mulata, a quem visita descaradamente, enquanto a esposa &#8220;martelava seu piano&#8221; com &#8220;os dedos demasiadamente pesados e desastrados.&#8221;</p>
<p>A mulher inominada, que chega, grávida e ameaçadora, rastejando como um bicho e se planta &#8220;inamovível feito posta pedra&#8221; em frente à branca casa dos Veira, sem implorar misericórdia, obstinada e &#8220;muito senhora de seus quereres&#8221;, esta personagem é, também, a &#8220;pobre mulher&#8221; que vai parir suas crias nas vastidões da Tronqueira, a terra do cão, onde nasce o rabudo.</p>
<p>Enfim, este ser de exceção, misto de homem e de besta, de horrível aparência mas de coração puro e compassivo, o rabudo é a expressão máxima dos paradoxos do vilarejo. Ele é o louco, o solitário, porém vive em paz com a natureza e com os animais, trabalha e conserva limpa e aquecida sua tapera; é o grande macaco, o Demo, o Próprio, mas é o Cordeiro, o inocente, acusado pelos fariseus que o odeiam por ser capaz de existir por si mesmo, longe das vilanias do vilarejo e a quem imputam a culpa pelo apedrejamento da casa da amante do Dr. Álvaro Veira.</p>
<p>Metáfora bíblica? Alegoria mítica? Visão pessimista do homem e de sua história? Tudo isto e muito mais emerge dos poderes verbais de Pedro J. Nunes, demiurgo do Vilarejo, capaz de conhecer as verdades e as falsidades daquela &#8220;gente ordinária que carrega seus crimes por trás de sorrisos sinistros, olhares dissimulados ou gestos incipientes.&#8221;</p>
<p>No conto O porco a narrativa alcança os níveis do relato fantástico. O mundo infantil, as &#8220;relações familiares&#8221; — tanto entre os humanos quanto entre os animais — fundamentam a estória, e a memória do narrador homodiegético organiza os fatos em um discurso expressivo, sem descambar para a pieguice dos que não dominam bem a criação de personagens infantis e sem resvalar para o simplesmente pitoresco.</p>
<p>Novamente se encontra o tema da zoomorfização e a violência acentua os estranhos comportamentos, todavia não há crítica social nem amargas ironias, como na novela que abre o livro.</p>
<p>O segundo conto, A questão, aborda o drama de consciência do narrador assediado por um desconhecido que lhe propõe o duplo assassinato de seus próprios irmãos. Cheio de ressonâncias rosianas — desde a atitude narrativa ao uso de arcaísmos e regionalismos, além das reflexões filosóficas pessoais sobre o eterno conflito entre o bem e o mal —, o conto mantém o clima de incerteza e de suspense, gerado pela modéstia fingida e suposta ignorância do narrador que se dirige a um interlocutor silencioso. Mistério e violência, fetichismo e fatalismo dão ao texto o fascínio da visão das profundezas do trágico destino da frágil humanidade.</p>
<p>A loucura, a ambição, o crime constituem os elementos temáticos essenciais de O relógio. Focalizado na terceira pessoa onisciente, o conto tem menos enigmas que os demais da coletânea. A curta duração da ação exige condensação e rapidez do ritmo narrativo, com elipses e poucos diálogos, impedindo o maior detalhamento da interioridade dos personagens.</p>
<p>A cena final, acentuada pelas violentas imagens do mundo íntimo do louco, tem seu realismo pesado amenizado pela surpresa que encerra o desfecho.</p>
<p>Se, em A questão, Pedro J. Nunes homenageia Guimarães Rosa, especialmente o de Grande Sertão: Veredas, A divisória, o último conto, insere-se na tradição machadiana, fazendo-o no diálogo intertextual — e não cópia — pela presença do defunto autor, pela citação dos mistérios que existem entre o céu e a terra, muitos mais &#8220;do que pode imaginar a nossa vã filosofia&#8221; (referência shakesperiana que abre o conto A cartomante), bem como pelo interesse do narrador pelos inusitados acontecimentos nos quais se envolvem misteriosas figuras femininas e o tom de amarga ironia filosofante característicos do maior romancista brasileiro.</p>
<p>A divisória é o único conto urbano do volume e consiste, quase todo, na transcrição de uma carta contando fatos sobrenaturais vividos por um funcionário público que se depara com seu próprio cadáver e sai a espantar as gentes, invadindo uma repartição pública e &#8220;fazendo voar de parede a parede milhares de folhas de papel.&#8221; Tal carta foi enviada ao suposto autor do conto por uma mulher não identificada e ele se lembra de ter lido notícias nos jornais sobre os acontecimentos relatados na carta. O embaralhamento entre o &#8220;real&#8221; e o conteúdo da carta, o delírio de que é tomado o autor da missiva, a passagem da lucidez à loucura, a amargura dos solilóquios em que ele se autoanalisa, a figura do homem desesperado que sabe que &#8220;já não interferia na ordem do mundo&#8221;, a rudeza de certas caracterizações de personagens, a incerteza de Francisco Sá sobre o lado da divisória em que se encontra, fazem do conto — virtuosisticamente trabalhado na fusão de dados do Realismo (Machado, Dostoievski) com os da Literatura Fantástica ou do Realismo Mágico (Murilo Rubião, García Márquez, Cortázar) — a comovente representação de uma atormentada existência humana.</p>
<p>A linguagem de Vilarejo e outras histórias merece, por si só, um cuidadoso e prolongado estudo que este espaço impossibilita. Basta que se atente para sua originalidade, suas sutilezas, para a propriedade e a riqueza vocabular, para os recursos figurados, os coloquialismos, o impressionante processo de adjetivação. Aqui nos limitaremos a destacar ainda os lacônicos comentários dos moradores do vilarejo, as descrições dos cenários compondo o clima de alucinação e loucura (particularmente em Vilarejo, O relógio e A divisória), o ardiloso monólogo do narrador de A questão e os ótimos diálogos que o permeiam como mostras irrefutáveis do talento e do domínio do material expressivo da Literatura na obra de Pedro J. Nunes. Um jovem autor capixaba digno de ser lido por todos os que, como nós, amam e respeitam a Literatura.</p>
<p>[Prefácio da 5a. edição de <i>Vilarejo e outras histórias</i>, o texto acima foi originalmente publicado na revista <i>Você</i>. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Deny Gomes</b>&nbsp;nasceu&nbsp;em São Luís-MA, em 1938, e desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal. Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Autora de diversas obras literárias e de crítica literária. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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