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	<title>Arquivos Domingos Caldas Barbosa &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Domingos Caldas Barbosa &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Poema Mariano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 12:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Convento da Penha]]></category>
		<category><![CDATA[Domingos Caldas Barbosa]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar Gama Filho]]></category>
		<category><![CDATA[Poema Mariano]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Oscar Gama Filho Abre a fase pré-romântica o Poema mariano, de Domingos de Caldas (sic), que, sem fugir à regra, ao longo de 126 estrofes em oitava rima, faz a apologia de Nossa Senhora da Penha, de seu convento e de seus milagres. A primeira edição, de que nenhum exemplar chegou até nós, foi impressa [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;">
Oscar Gama Filho</div>
<p>Abre a fase pré-romântica o <i>Poema mariano</i>, de Domingos de Caldas (sic), que, sem fugir à regra, ao longo de 126 estrofes em oitava rima, faz a apologia de Nossa Senhora da Penha, de seu convento e de seus milagres. A primeira edição, de que nenhum exemplar chegou até nós, foi impressa na tipografia Capitaniense, em 1854, e transcrita, na íntegra, em As maravilhas da Penha, de J. J. Gomes da Silva Neto, em 1888. Junto com o poema se reproduziu também uma carta do primitivo editor, o padre Inácio Félix de Alvarenga Sales, informando que o texto original, escrito em 1770 por &#8220;Domingos de Caldas, natural da cidade da Bahia&#8221; (sic), infelizmente teve de ser retocado: &#8220;pude conseguir um caderno tão mal escrito, que apesar dos esforços que fiz para corrigi-lo, conheço ainda terá defeitos (&#8230;)&#8221;<span id="POMA_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP1" title="Inácio Félix de Alvarenga Sales, apud J. J. Gomes da Silva Neto, op. cit. As maravilhas da Penha, pp. 184-5."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> Tradicionalmente o autor do poema tem sido identificado pela crítica como sendo o padre Domingos Caldas Barbosa, (&#8230;)&#8221;<span id="POMA_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP2" title="Domingos Caldas Barbosa (Rio de Janeiro, 1738 ou 1740 — Lisboa, 1800) adquiriu fama em Lisboa como poeta, repentista, violeiro, cantor e compositor de modinhas e lundus. Presidiu, sob o pseudônimo de Lereno Selinuntino, as reuniões da Nova Arcádia no salão literário do conde de Pombeiro, de quem era protegido. Foi capelão da Casa de Suplicação. Seus poemas mais significativos se encontram em Viola de Lereno, publicada em Lisboa, em 1798."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> presidente da Nova Arcádia, que, aliás, era consagrada a Nossa Senhora. O estilo, por certo, não se adequa à simplicidade, à harmonia, à ingenuidade, à tranquilidade e ao bucolismo defendidos pelo arcadismo. Não foi mero acaso a escolha da oitava rima, forma empregada em composições que, à semelhança do Poema mariano, tratam de tema elevado com pompa, estardalhaço e grandiosidade. Mas, por outro lado, suas descrições da terra capixaba, poetizando fatos verdadeiros, registrados pela história — os acidentes naturais, os combates entre holandeses e portugueses, a fé popular nos milagres do convento da Penha —, o aproximam do pré-romantismo, cuja proposta estética tem diversos pontos de contacto com a obra de Caldas Barbosa. Waltensir Dutra situa Lereno &#8220;na linha de transição entre o Arcadismo e o Pré-Romantismo<span id="POMA_RP3V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP3" title="Waltensir Dutra, 'O arcadismo na poesia lírica, épica e satírica', em: — A literatura no Brasil, op. cit., p. 240."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> e Antônio Soares Amora surpreende um &#8220;modernismo&#8221; ou &#8220;pré-romantismo&#8221; em sua &#8220;poesia folclórica&#8221;<span id="POMA_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP4" title="Antônio Soares Amora, 'A literatura do Setecentos', em: — A literatura no Brasil, ibid., p. 220."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> O encantamento com a paisagem brasileira está presente nas estrofes LXXXIII e LXXXIV do <i>Poema mariano</i>:</p>
<p>LXXXIII</p>
<p>Apenas entra a Virgem, quando os ares<br />
As nuvens vomitando sobre a terra,<br />
Parece com dilúvio, que nos mares<br />
Quer a água vingar do fogo a guerra.<br />
Os verdes papagaios nos pomares,<br />
Os barbados, bugios, pela serra,<br />
E nos charcos as rãs cheias de glória,<br />
Estão cantando os vivas da vitória.</p>
<p>LXXXIV</p>
<p>A sequiosa terra a chuva bebe;<br />
Em uma raridade a gente espanta;<br />
Porque de cada pingo, que recebe,<br />
Um pequeno sapinho se alevanta.<br />
Também ao longe um fumo se percebe,<br />
Que sutilmente aos ares se adianta,<br />
Qual tição apagado de água fria,<br />
Que agora fuma só, se antes ardia<span id="POMA_RP5V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP5" title="Domingos de Caldas, apud J. J. Gomes da Silva Neto, op. cit., p. 209. Afonso Cláudio deturpa a estrofe LXXXIII na p. 48 da sua História da literatura espírito-santense (op. cit.)."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a></p>
<p>Os primeiros versos reforçam a hipótese de que a obra é de autoria de Caldas Barbosa. De fato, neles o poeta comunica que está abandonando os motivos arcádicos que usou no passado — &#8220;(&#8230;) cantando amores / Muitas vezes ao som das doces canas&#8221;, &#8220;vida dos pastores&#8221;, &#8220;beleza das serranas&#8221; — porque não condizem com quem já não deseja &#8220;cantar glórias mundanas&#8221;:</p>
<p>I</p>
<p>Eu sou aquele que cantando amores<br />
Muitas vezes ao som das doces canas<br />
Lisonjeei a vida dos pastores, —<br />
Exaltei a beleza das serranas:<br />
Porém hoje depondo os seus louvores,<br />
Já não quero cantar glórias mundanas,<br />
Que são sombras da luz, do ar assento,<br />
Formosuras de flor, torres de vento<span id="POMA_RP6V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP6" title="Ibid., p. 185."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a></p>
<p>Esse desapego às ortodoxias e aos dogmas estéticos, essa capacidade de mudar, essa tendência a moldar a forma ao conteúdo estão presentes em Lereno, um árcade sui generis — surpreendente pela sua inovadora brasilidade — que parece não ter hesitado em sacrificar a forma de vários de seus poemas para ajustá-los a uma boa melodia.</p>
<p>Certamente há muito que investigar ainda. Não devemos nos esquecer, porém, que Alvarenga Sales &#8220;corrigiu&#8221; o poema antes de publicá-lo, em 1854. A prudência nos adverte, portanto, de que devemos colocar em dúvida a constelação de elementos que o compõem. Transformados em detetives, suspeitamos tanto da data de redação — 1770? — quanto do corpo do trabalho em si, que talvez seja uma versão absolutamente infiel do original &#8220;mal escrito&#8221; de Sales. Mas, com tão poucas chances de descobrir o criminoso, o melhor é nos contentarmos com a posse do que realmente importa: a reprodução, na íntegra, da edição de 1854, que preservou — apesar das &#8220;correções&#8221; — um texto fundamental para as fases pré-romântica e romântica da literatura capixaba. A sua boa repercussão pode ser aquilatada pela afirmativa de José Marcelino Pereira de Vasconcelos, que diz ser possuidor de uma segunda variante do <i>Poema mariano</i> — chamado de Penha por ele —, retocada por José Gonçalves Fraga e dotada de &#8220;diferenças notáveis&#8221; em relação ao livro de Sales, &#8220;que aí corre cheio de grosseiros erros, impresso na tipografia Capitaniense (&#8230;)&#8221;<span id="POMA_RP7V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP7" title="J. M. P. Vasconcelos, op. cit. [Jardim poético, Vitória, tipografia de Pedro Antônio d'Azeredo, 1856], pp. 172-3."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a></p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="POMA_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Inácio Félix de Alvarenga Sales, apud J. J. Gomes da Silva Neto, op. cit.&nbsp;<i>As maravilhas da Penha</i>, pp. 184-5.</div>
<div id="POMA_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Domingos Caldas Barbosa (Rio de Janeiro, 1738 ou 1740 — Lisboa, 1800) adquiriu fama em Lisboa como poeta, repentista, violeiro, cantor e compositor de modinhas e lundus. Presidiu, sob o pseudônimo de Lereno Selinuntino, as reuniões da Nova Arcádia no salão literário do conde de Pombeiro, de quem era protegido. Foi capelão da Casa de Suplicação. Seus poemas mais significativos se encontram em Viola de Lereno, publicada em Lisboa, em 1798.</div>
<div id="POMA_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Waltensir Dutra, &#8216;O arcadismo na poesia lírica, épica e satírica&#8217;, em: — <i>A literatura no Brasil</i>, op. cit., p. 240.</div>
<div id="POMA_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Antônio Soares Amora, &#8216;A literatura do Setecentos&#8217;, em: — <i>A literatura no Brasil</i>, ibid., p. 220.</div>
<div id="POMA_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Domingos de Caldas, apud J. J. Gomes da Silva Neto, op. cit., p. 209. Afonso Cláudio deturpa a estrofe LXXXIII na p. 48 da sua <i>História da literatura espírito-santense</i> (op. cit.).</div>
<div id="POMA_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Ibid., p. 185.</div>
<div id="POMA_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#POMA_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;J. M. P. Vasconcelos, op. cit. [<i>Jardim poético</i>, Vitória, tipografia de Pedro Antônio d&#8217;Azeredo, 1856], pp. 172-3.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Razão do Brasil em uma sociopsicanálise da literatura capixaba</i>, de Oscar Gama Filho, Fundação Ceciliano Abel de Almeida/José Olympio Editora, Vitória/Rio de Janeiro, 1991, p. 54-7. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<div>
</div>
<div>
</div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 Oscar Gama Filho</span></b>&nbsp;&#8211; Textos e imagens aqui apresentados no site têm direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Oscar Gama Filho&nbsp;</b>é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/oscar-gama-filho-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
</div>
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		<title>História da literatura espírito-santense: Domingos Caldas Barbosa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 12:16:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Afonso Claudio]]></category>
		<category><![CDATA[Domingos Caldas Barbosa]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poema Mariano]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A primeira composição poética sobre assunto local, foi escrita em 1770, pelo vate baiano, padre Domingos de Caldas. É o poema, que por ele próprio teve o batismo de — Poema Mariano — narrativa em verso rimado, dos milagres da Senhora da Penha, que se venera no cenóbio a que me referi em outro lugar [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;">
</div>
<p>A primeira composição poética sobre assunto local, foi escrita em 1770, pelo vate baiano, padre Domingos de Caldas. É o poema, que por ele próprio teve o batismo de — <i>Poema Mariano</i> — narrativa em verso rimado, dos milagres da Senhora da Penha, que se venera no cenóbio a que me referi em outro lugar deste livro. Esse poema sacro, foi corrigido e publicado, pela vez primeira, em 1854, pelo notável latinista e pregador espírito-santense, padre Inácio Félix de Alvarenga Sales, devidamente autorizado pelo bispo Conde de Irajá, segundo afirma o cronista Gomes Neto, em seu trabalho — <i>As Maravilhas da Penha</i>, 184<span id="HLES_RP1V">.</span><a a="" ainda="" algu="" alheio.="" alves="" ano="" antes="" ap="" aptid="" arguiram="" assunto="" auxiliar="" bahia="" baiano="" bispo="" caldas="" capital="" certo="" cio="" com="" cometer="" como="" completo="" compor="" compreensivos="" concurso="" conhecer="" consultado="" da="" dado="" de="" declara="" defeitos="" dera="" descoberto="" detalhes="" deveria="" dificuldade="" dizer="" do="" dos="" e="" em="" emendar="" entretanto="" erros="" escolha="" eu="" exce="" exigiu="" fama="" fazer="" fosse="" fraga="" gon="" grosseiros="" hist="" href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP1" imprensa="" impress="" lha="" lhe="" limagem="" literato="" local="" m="" milagres="" mim="" molde="" muitos="" n="" na="" narra="" ncia="" o="" obra="" ora="" ordem="" os="" outro="" outros="" padre="" para="" parece="" patr="" pela="" pelo="" pequenos="" perfei="" poder="" poderia="" podia="" poema="" pondo="" por="" post-mortem="" prefer="" profano.="" propusera.="" que="" realizado="" recairia="" retocador="" ria="" rito="" s="" sabem="" sacerdote="" sacros="" sair-se="" sales="" se="" sei="" sem="" sen="" ser="" seu="" seus="" sobre="" suficiente="" tempo="" tendo="" tinha="" title="Pereira de Vasconcelos, no Jardim Poético, 172-173, declara possuir uma cópia do aludido poema, retocado e emendado por José Gonçalves Fraga, que o escoimou de grosseiros erros e pela qual podem ser verificadas as diferenças da obra emendada por Gonçalves Fraga, em cotejo com a que foi estampada por Alvarenga Sales. O citado cronista atribui somente ao padre Sales, a iniciativa na publicação. Não sei se efetivamente o trabalho de Domingos de Caldas, recebeu polimento de qualquer das duas doutas limas, como em caso idêntico se exprimiu Bocage; inclino-me à opinião de Gomes Neto, porquanto, a declaração feita por Alvarenga Sales ao bispo, no ofício em que solicitava a revisão do escrito do padre baiano, exclui qualquer dúvida. Ele adverte ter feito as correções que pôde e que apesar disso, ainda o escrito teria " trabalho="" um="" uma="" v.excia.="" vasconcelos="" versos="" viveu="" vivido=""><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></p>
<p>Não tive dados seguros que me permitissem verificar, se o autor do <i>Poema Mariano</i> habitou por algum tempo o Espírito Santo, tão pouco a data em que daí saiu, com as impressões que transportou em versos; no século em que viveu, a Bahia possuía as sociedades dos Esquecidos e dos Renascidos, de onde saíram nomes ilustres.</p>
<p>Já então as coisas pátrias despertavam interesse afetuoso e sincero a homens como frei Itaparica, Rocha Pita e Antônio José, poetas e narradores dos mais estimados.</p>
<p>Não se deve, portanto, deixar de ler com simpatia o poema narrativo de Domingos de Caldas e tratá-lo com mais benevolência do que severidade.</p>
<p>Uma circunstância, além de diversas outras, detêm a crítica no julgamento do pregador e poeta baiano: Caldas viveu na obscuridade. Não conheço nem um livro de cronista pátrio que o contemple entre os poetas do tempo; de seus escritos, pelo menos o <i>Poema Mariano</i>, permaneceu em cadernos mal copiados de 1770 a 1854, isto é, por oitenta e quatro anos, sem ter a publicidade da imprensa.</p>
<p>Contivesse ou não defeitos, o que é verdade é que não logra estima por tempo tão considerável, produção que não se recomende por algum título.</p>
<p>A de Caldas teve-os e não é muito que inicialmente o confesse, já porque a inveja o destacasse para plano inferior sem razão conhecida, já porque se não fosse a sua cooperação, muito mais demorado seria o alvorecer literário na terra espírito-santense, a despeito de certas veleidades nativistas que pretendem insinuar o contrário<span id="HLES_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP2" title="Afonso Cláudio refere-se ao fato de que tanto Pereira de Vasconcelos como Basílio Daemon mencionaram 'como precursor do movimento literário local' o poeta Gonçalo Soares da França, nascido no Espírito Santo em 1632. Já está mais do que provado que esse poeta não era natural desta capitania, cf."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>Por tais motivos é que o padre Domingos de Caldas, não sendo natural da Capitania, figura neste estudo entre os que algo fizeram pela causa das letras nacionais.</p>
<p>O poema contém cento e vinte e seis cantos ou estrofes e todo ele é feito em oitavas rimadas.</p>
<p>A par da preocupação que domina o autor — a celebração mística das prodigiosas virtudes da Senhora da Penha — há nos seus versos, ora descrições pintorescas apreciáveis pela correção, ora trechos agradáveis pelas emoções que reproduzem, ora certo humanismo benfazejo que contrasta com a afetação tão usual na poética do tempo.</p>
<p>Sem dúvida que na maior parte dos cantos, o vate afasta-se do seu capital desígnio, para pintar a natureza que o deslumbra com paisagens surpreendentes. Será uma falha do seu talento ou uma recomendação da sua maneira de colorir?</p>
<p>O leitor melhor poderá dizê-lo sem constrangimento, depois que ler o poema.</p>
<p>A sua primeira feição pode ser apreciada por alguns dos espécimes a seguir.</p>
<p>Vejamos as descrições das vilas do Espírito Santo e Vitória<span id="HLES_RP3V">:</span><a 1992="" 23-7.="" 2="" capixaba.="" cl="" de="" do="" erros="" esta="" href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP3" in="" julho="" n.="" nota="" o="" os="" p.="" site="" ssico="" title="Oscar Gama Filho demonstrou que Afonso Cláudio, ao transcrever algumas estrofes do poema na História da literatura espírito-santense, alterou o texto em alguns pontos. Cf. " voc=""><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a></p>
<p>&#8220;À costa ocidental americana,<br />
Que do antártico pólo é mais vizinha<br />
E o nome Brasil sustenta ufana,<br />
Não o de Santa Cruz que dantes tinha,<br />
Entre o tupi infiel, gente inumana;<br />
Estão sessenta graus ao sul da linha,<br />
Duas vilas chamadas com vanglória<br />
Uma Espírito Santo, outra — Vitória.</p>
<p>Estende o mar um braço pela terra<br />
Que porto faz à tal Capitania;<br />
E com grossas veias nele encerra,<br />
Grandes ilhas de tosca pedraria;<br />
Desce o rio Jucu de rica serra<br />
E outro com o santo nome de Maria,<br />
Que eivado dos mais insanos ritos<br />
Vem ao mar expurgar-se dos delitos.</p>
<p>Uma légua comprida está distante,<br />
A vila da Vitória celebrada,<br />
Da outra que se vê menos possante<br />
Ficar junto da barra edificada;<br />
Duas penhas de altura exorbitante<br />
Uma coberta e outra descalvada,<br />
A entrada defendendo, atemorizam<br />
Quantas quilhas no mar altivas pisam.&#8221;</p>
<p>Rememorando a trasladação da imagem da Penha, da vila onde é ainda hoje venerada, para a da Vitória, por ocasião das calamidades das secas, Caldas exprimiu-se assim:</p>
<p>&#8220;Chega a Senhora à terra e recebida<br />
Em rico pálio de ouro marchetado<br />
Da turba acompanhada é conduzida,<br />
À Santa Casa de Francisco amado;<br />
Inda não bem ao templo é recolhida,<br />
Já todo o céu de nuvens carregado,<br />
Encobrindo de sol a formosura,<br />
Transforma o claro dia em noite escura.</p>
<p>Apenas entra a Virgem quand&#8217;os ares<br />
As nuvens vomitando sobre a terra,<br />
Parece com dilúvio que nos mares,<br />
Quer a água vingar do fogo a guerra;<br />
Os verdes papagaios aos milhares,<br />
Os animais trepadores pela serras,<br />
E os próprios réptis cheios de glória,<br />
Cantam hinos a Deus pela vitória!</p>
<p>Os secos algodões reverdecendo,<br />
Os queimados legumes se inundando,<br />
No campo a murcha relva renascendo,<br />
No bosque as mortas árvores brotando;<br />
Na fonte os animais juntos bebendo,<br />
No rio os brutos todos se banhando;<br />
São mudos oradores desta Penha,<br />
Padroeira que a Deus por nós se empenha.&#8221;</p>
<p>O flagelo das secas é pintado nesta síntese sóbria:</p>
<p>&#8220;O fogo material de Febo ardente,<br />
Que da tórrida zona incende a esfera,<br />
Mais que da Líbia adusta e Arábia quente,<br />
Neste país seus raios reverbera.<br />
O excessivo calor abrasa a gente;<br />
Acende o campo, o gado desespera,<br />
E parece que quer este elemento,<br />
Fazer no alheio espaço o próprio assento.</p>
<p>Desce do monte ao mar o feroz bruto,<br />
Que antes morrer na praia determina<br />
À Berecíntia mãe. Esconde o fruto,<br />
Falta o pão, morre a flor, seca a campina,<br />
Tudo é dor, confusão, miséria e luto.<br />
Vendo tão perto a última ruína,<br />
Todos são Prometeus no sentimento,<br />
Pois de Tântalo têm igual tormento.<span id="HLES_RP4V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP4" title="Ao contrário do que se tem asseverado, o fenômeno das secas no Espírito Santo, há tido reproduções. Além da de 1769 a que alude o autor d'As Maravilhas da Penha, 123, outras apareceram no findo e no presente séculos. Parece, pois, que a destruição das matas e a densidade da população, agravam, mas não são a causa produtora do mal. Não há negar que em 1700, muito menos densa devera ser a população e muito pouco extenso o aproveitamento das matas; entretanto, a seca desse período foi maior que a dos subsequentes anos de 1800 e 1900, notando-se que as mais consideráveis contribuições imigrantistas europeias e nacionais que recebemos, datam de 40 anos atrás somente. Quero acreditar que no caso contribuem outros elementos para o resultado das secas, que não são de desprezar, tais como: a estrutura geológica da região, o contraste entre a extensão enorme do seu litoral e a estreiteza do seu sertão, do que resulta maior absorção de clorureto em detrimento da vida dos seres orgânicos; a predominância de certos ventos que interceptam as monções benfazejas; em suma, toda uma série de circunstâncias que nos fazem o clima semelhante ao da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Fenômenos complexos não podem ser explicados por fatos isolados; tal me parece ser a situação do que ligeiramente abordo sem pretensões de o haver elucidado."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a></p>
<p>A feição lírica do estro do poeta, trai-se logo no primeiro canto:</p>
<p>&#8220;Eu sou aquele que cantando amores,<br />
Muitas vezes ao som de brandas canas,<br />
Lisonjeei a vida dos pastores,<br />
Exaltei a beleza das serranas;<br />
Porém, hoje depondo os seus louvores,<br />
Já não quero cantar glórias mundanas,<br />
Que são sombras de luz, do ar assento,<br />
Formosuras de flor, torres de vento.&#8221;</p>
<p>Não devo alongar as transcrições.</p>
<p>O autor do — <i>Poema Mariano</i> — teve suas notas pessoais, suas belezas de forma e também não poucos defeitos.</p>
<p>O Poema, foi como já disse impresso no Espírito Santo, pela primeira vez em 1854, imperfeito ou mutilado como as cópias permitiram; teve segunda e melhor edição na Imprensa Nacional (Rio), em 1888, aparecendo incorporado no livro de Gomes Neto, em outro lugar apontado.</p>
<p>São ignoradas as datas do nascimento e passamento do padre Domingos de Caldas.</p>
<p>Entretanto, por mais obscura que seja a sua individualidade literária, mister é que se lhe faça esta justiça póstuma: ter sido no Espírito Santo, o iniciador do classicismo na poesia e haver despertado com o seu esforço tendências, que, sem esse estímulo, ficariam estioladas<span id="HLES_RP5V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP5" title="A naturalidade do padre Domingos de Caldas, atribuída por Alvarenga Sales à Bahia, reputo duvidosa ante informações ministradas pelo valoroso autor da Hist. da Lit. Brasileira [Sílvio Romero], muito mais explícitas e categóricas. Domingos de Caldas, parece que é o mesmo padre Domingos Caldas Barbosa, nascido no Rio de Janeiro em 1740, discípulo dos jesuítas, que, por suas qualidades de repentista e por motejos aos portugueses, foi desterrado para a Colônia do Sacramento, onde permaneceu até 1762, como soldado recrutado. Era filho de pai português e de mãe africana. Mais tarde retirou-se por qualquer motivo para Portugal; aí fez novos estudos e recebeu ordens sacras, salientando-se desde então nos prélios poéticos da época, principalmente nos travados no seio da Arcádia, de que veio a fazer parte, com o batismo de Lereno. Em Lisboa foi capelão da Casa da Suplicação. Contemporâneo de Filinto Elísio e Bocage, por várias vezes satirizou-os fortemente. Bocage entre muitos outros, tem um verso que lembra o ódio que votava ao poeta brasileiro. É assim a quadrinha: 'Dizem que o Caldas Barbosa / Em Bocage aferra o dente. / Ora é forte admiração / Ver um cão mordendo a gente.' Caldas Barbosa, diz S. Romero, era um talento aberto às boas impressões, uma alma simples, pouco apta às vilezas da sociedade em que viveu. Morreu a 9 de novembro de 1800; seus versos foram publicados sob o título — Viola de Lereno, coleção das suas cantigas oferecidas aos seus amigos, edição de Lisboa, 1825; cit. Hist. da Lit., 261-263, I. Como quer que seja, não encontro sobre a individualidade do autor do Poema Mariano, indicações mais amplas, em nem um dos escritores e cronistas do século XVIII que compulsei. A identidade que ora se discute apenas tem contra si um argumento que não é de fácil resposta: se Caldas Barbosa seguiu para a Europa depois de 1762, como podia compor o Poema que é de 1770, época de sua residência em Lisboa?"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a></p>
<p>O depoimento de [Sacramento] Blake nada adianta; transcrevendo-o<span id="HLES_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP6" title="O verbete de Sacramento Blake sobre Domingos de Caldas Barbosa encontra-se transcrito na 'Nota biobibliográfica'. Nota do site Estação Capixaba."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> apenas desejo salientar que o poeta, a partir de sua permanência em Portugal, esqueceu por completo as impressões que levara do seu país de origem e é fora de dúvida que, distanciado dele como se achou, não podia compor o <i>Poema Mariano</i> com as particularidades descritivas que se lhe notam, uma vez que de Lisboa não tornou mais à sua Pátria. Assim, pois, se para ali seguira em 1762, permanecendo no reino lusitano até 1800, como poderia ter composto o famoso poema que indica a sua presença na Capitania de Coutinho em 1770?</p>
<p>[In&nbsp;<i>História da literatura espírito-santense</i>, de Afonso Cláudio, Porto, 1912, p. 42-52.]</p>
<p>____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="HLES_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Pereira de Vasconcelos, no <i>Jardim Poético</i>, 172-173, declara possuir uma cópia do aludido poema, retocado e emendado por José Gonçalves Fraga, que o escoimou de grosseiros erros e pela qual podem ser verificadas as diferenças da obra emendada por Gonçalves Fraga, em cotejo com a que foi estampada por Alvarenga Sales. O citado cronista atribui somente ao padre Sales, a iniciativa na publicação. Não sei se efetivamente o trabalho de Domingos de Caldas, recebeu polimento de qualquer das duas doutas limas, como em caso idêntico se exprimiu Bocage; inclino-me à opinião de Gomes Neto, porquanto, a declaração feita por Alvarenga Sales ao bispo, no ofício em que solicitava a revisão do escrito do padre baiano, exclui qualquer dúvida. Ele adverte ter feito as correções que pôde e que apesar disso, ainda o escrito teria &#8220;outros muitos defeitos que só um literato completo como V.Excia. (o bispo) poderá emendar&#8221;. Ora, parece que se alguém deveria ser consultado para dizer do mérito do trabalho de um padre, sobre assunto de milagres, certo a escolha recairia sobre outro sacerdote de preferência a profano. Caldas, pelo tempo em que viveu na Bahia e pela fama de seus versos sacros, com exceção de pequenos detalhes da narração, compreensivos da história local, que não podia conhecer, tinha aptidão suficiente para compor o poema, sem cometer os erros grosseiros que post-mortem lhe arguiram e sem a limagem auxiliar dos que não sabem fazer obra senão pelo molde alheio. Dado, entretanto, que Gonçalves Fraga fosse o retocador, tendo vivido ainda um ano na Capital, após a impressão do poema realizado por ordem do bispo, por que não exigiu do padre Sales, seu patrício, uma declaração pela imprensa, pondo a descoberto o concurso que dera à perfeição da obra do padre baiano? Eu não sei como poderia Vasconcelos sair-se da dificuldade, se antes de mim alguém lha propusera.</div>
<div id="HLES_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Afonso Cláudio refere-se ao fato de que tanto Pereira de Vasconcelos como Basílio Daemon mencionaram &#8220;como precursor do movimento literário local&#8221; o poeta Gonçalo Soares da França, nascido no Espírito Santo em 1632. Já está mais do que provado que esse poeta não era natural desta capitania, cf.</div>
<div id="HLES_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Oscar Gama Filho demonstrou que Afonso Cláudio, ao transcrever algumas estrofes do poema na <i>História da literatura espírito-santense</i>, alterou o texto em alguns pontos. Cf. &#8220;Os erros do clássico&#8221;, in <i>Você</i> n. 2, julho de 1992, p. 23-7. Nota do site Estação Capixaba.</div>
<div id="HLES_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Ao contrário do que se tem asseverado, o fenômeno das secas no Espírito Santo, há tido reproduções. Além da de 1769 a que alude o autor d&#8217;<i>As Maravilhas da Penha</i>, 123, outras apareceram no findo e no presente séculos. Parece, pois, que a destruição das matas e a densidade da população, agravam, mas não são a causa produtora do mal. Não há negar que em 1700, muito menos densa devera ser a população e muito pouco extenso o aproveitamento das matas; entretanto, a seca desse período foi maior que a dos subsequentes anos de 1800 e 1900, notando-se que as mais consideráveis contribuições imigrantistas europeias e nacionais que recebemos, datam de 40 anos atrás somente. Quero acreditar que no caso contribuem outros elementos para o resultado das secas, que não são de desprezar, tais como: a estrutura geológica da região, o contraste entre a extensão enorme do seu litoral e a estreiteza do seu sertão, do que resulta maior absorção de clorureto em detrimento da vida dos seres orgânicos; a predominância de certos ventos que interceptam as monções benfazejas; em suma, toda uma série de circunstâncias que nos fazem o clima semelhante ao da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Fenômenos complexos não podem ser explicados por fatos isolados; tal me parece ser a situação do que ligeiramente abordo sem pretensões de o haver elucidado.</div>
<div id="HLES_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;A naturalidade do padre Domingos de Caldas, atribuída por Alvarenga Sales à Bahia, reputo duvidosa ante informações ministradas pelo valoroso autor da <i>Hist. da Lit. Brasileira</i> [Sílvio Romero], muito mais explícitas e categóricas. Domingos de Caldas, parece que é o mesmo padre Domingos Caldas Barbosa, nascido no Rio de Janeiro em 1740, discípulo dos jesuítas, que, por suas qualidades de repentista e por motejos aos portugueses, foi desterrado para a Colônia do Sacramento, onde permaneceu até 1762, como soldado recrutado. Era filho de pai português e de mãe africana. Mais tarde retirou-se por qualquer motivo para Portugal; aí fez novos estudos e recebeu ordens sacras, salientando-se desde então nos prélios poéticos da época, principalmente nos travados no seio da Arcádia, de que veio a fazer parte, com o batismo de Lereno. Em Lisboa foi capelão da Casa da Suplicação. Contemporâneo de Filinto Elísio e Bocage, por várias vezes satirizou-os fortemente. Bocage entre muitos outros, tem um verso que lembra o ódio que votava ao poeta brasileiro. É assim a quadrinha: &#8220;Dizem que o Caldas Barbosa / Em Bocage aferra o dente. / Ora é forte admiração / Ver um cão mordendo a gente.&#8221; Caldas Barbosa, diz S. Romero, era um talento aberto às boas impressões, uma alma simples, pouco apta às vilezas da sociedade em que viveu. Morreu a 9 de novembro de 1800; seus versos foram publicados sob o título — Viola de Lereno, coleção das suas cantigas oferecidas aos seus amigos, edição de Lisboa, 1825; cit. <i>Hist. da Lit.</i>, 261-263, I. Como quer que seja, não encontro sobre a individualidade do autor do <i>Poema Mariano</i>, indicações mais amplas, em nem um dos escritores e cronistas do século XVIII que compulsei. A identidade que ora se discute apenas tem contra si um argumento que não é de fácil resposta: se Caldas Barbosa seguiu para a Europa depois de 1762, como podia compor o <i>Poema</i> que é de 1770, época de sua residência em Lisboa?</div>
<div id="HLES_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/#HLES_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;O verbete de Sacramento Blake sobre Domingos de Caldas Barbosa encontra-se transcrito na &#8220;Nota biobibliográfica&#8221;. Nota do site Estação Capixaba.</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 </span></b>A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b>&nbsp;representa desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Afonso Cláudio</b>, autor da&nbsp;<i>História da literatura espírito-santense</i>, de onde foi tirado este texto, participou ativamente do movimento republicano e, quando da Proclamação da República, foi escolhido primeiro governador do estado do Espírito Santo, exercendo o cargo somente até 1890. Foi membro fundador da Academia Espírito-santense de Letras tendo ocupado a primeira cadeira, que tem como patrono Marcelino Duarte.Em 1891 foi nomeado desembargador do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo, exercendo a presidência nos anos de 1892 e 1918. Em homenagem a ele, a um dos municípios capixabas foi dado seu nome. Foi também professor da Faculdade de Direito de Niterói (atual UFF).</p></blockquote>
</div>
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		<item>
		<title>Domingos Caldas Barbosa &#8211; Repertório literário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 15:33:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>NOTÍCIA BIO-BIBLIOGRÁFICA VITRINE DE TEXTOS Poema mariano Transcrito do livro&#160;As Maravilhas da Penha ou Lendas e História da Santa e do Virtuoso Frei Pedro de Palácios, do Major J. J. Gomes da Silva Neto, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1888, p. 184-221. Foi atualizada a ortografia e feito um mínimo de alterações ditadas pela lógica [&#8230;]</p>
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</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://3.bp.blogspot.com/-3F4YZwB6BTI/VqzmdFF6j-I/AAAAAAAAAnE/xQkPaHc5WAI/s1600/domingos-c-barbosa_rev_0.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img fetchpriority="high" decoding="async" border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/11/domingos-c-barbosa_rev_0.jpg" class="wp-image-6836" width="640" /></a></div>
<p>
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-domingos/" target="_blank" rel="noopener">NOTÍCIA BIO-BIBLIOGRÁFICA</a></b><br />
<b><br />
VITRINE DE TEXTOS</b></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/" target="_blank" rel="noopener"><b>Poema mariano</b></a><br />
Transcrito do livro&nbsp;<i>As Maravilhas da Penha ou Lendas e História da Santa e do Virtuoso Frei Pedro de Palácios</i>, do Major J. J. Gomes da Silva Neto, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1888, p. 184-221. Foi atualizada a ortografia e feito um mínimo de alterações ditadas pela lógica contextual, para o que contribuiu um cotejo crítico com a edição do Padre Ponciano dos Santos Stenzel, intitulada&nbsp;<i>Poema Mariano sobre a Penha do Espírito Santo</i>, publicada em Vitória, 1934.</p>
<p><b><br />
FORTUNA CRÍTICA</b></p>
<p><span style="font-size: normal; font-weight: normal;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/historia-da-literatura-espirito/" style="font-weight: normal;" target="_blank" rel="noopener">Afonso Cláudio in <i style="font-weight: normal;">História da literatura espírito-santense</i></a></span><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/padre-ponciano-dos-santos-stenzel/" target="_blank" rel="noopener">Ponciano dos Santos Stenzel (padre): prefácio da reedição <i>Poema Mariano sobre a Penha do Espírito Santo</i></a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/" target="_blank" rel="noopener">Poema Mariano in Gama Filho, Oscar,&nbsp;<i>Razão do Brasil em uma sociopsicanálise da literatura capixaba</i></a></p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2000 Estação Capixaba.&nbsp;</span></b><br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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		<item>
		<title>Ponciano dos Santos Stenzel (padre): prefácio da reedição Poema Mariano sobre a Penha do Espírito Santo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/padre-ponciano-dos-santos-stenzel/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 15:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingos Caldas Barbosa]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Ponciano dos Santos (padre)]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Infância literária – alma de berço O alvorecer literário de uma província se assemelha ao despontar da vida humana, embalada pelos suaves sonhos de berço. Assim como o indivíduo e os povos também a literatura, retrato dos mesmos, tem em sua infância o balbuciar desconexo das primeiras palavras e a espontaneidade dos sorrisos do amor [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;">
<h4 style="text-align: left;">
Infância literária – alma de berço</h4>
</div>
<p>
O alvorecer literário de uma província se assemelha ao despontar da vida humana, embalada pelos suaves sonhos de berço. Assim como o indivíduo e os povos também a literatura, retrato dos mesmos, tem em sua infância o balbuciar desconexo das primeiras palavras e a espontaneidade dos sorrisos do amor de mãe.</p>
<p>Não é de se estranhar que aqui no Espírito Santo a primeira manifestação de vida literária nascesse do assunto que então, como hoje, estava na alma do povo, a devoção à Senhora da Penha.</p>
<p>Ao contrário do que aconteceu em outras partes, o início nas letras aqui, com o Poema Mariano, tomou feição definida e cultural, porque o seu autor cursara humanidades com os jesuítas no Rio de Janeiro e, ao depois, fez parte provavelmente da sociedade dos “Esquecidos” ou dos “Renascidos”, tão florescente por aqueles tempos na Bahia.</p>
<p>A alma de berço, pois, não teve aqui início nos versinhos de pé quebrado, nas graciosas rimas populares, nos improvisos dos repentistas, que enquadra a alma popular nas tradições do “folk-lore”, mas começou com um poema, onde se nota perfeitamente o domínio do espírito da renascença com sua exuberância de humanismo próximo à decadência.</p>
<p>Diz Villemain que “a literatura é a expressão da sociedade”. Tal expressão, porém, quer em prosa, quer em verso, sempre reflete a vida privada e pública dos povos, suas tendências e dificuldades, seus [falta uma palavra no original] e superstições, em suma, o sentimento dominante da massa, a alma do século.</p>
<p>Portugal transplantou a crença para o Brasil, o missionário aprofundou-a, o jesuíta deu-lhe uma feição culta, nascendo assim as letras pátrias ao influxo salutar da Companhia de Jesus.</p>
<p>Não é sem fundamento que diz Constâncio Alves em seu Literatura na Bahia que — os jesuítas levavam adiante a sua tarefa de educadores beneméritos, em que cuidaram logo nos primeiros dias de sua chegada ao Brasil e que não há exagero em afirmar que a denominada “Escola Baiana” nasceu à sombra do colégio daqueles padres.</p>
<p>Dependendo a então Capitania do Espírito Santo eclesiasticamente da Bahia, e havendo grande intercâmbio político e cultural entre as duas capitanias limítrofes, não admira que viesse desabrochar em terra capixaba uma primorosa flor literária da escola baiana.</p>
<p>Não se pode afirmar que estes inícios literários se ressentissem de completa carência das leis estéticas que regem o mundo do belo. Se já Aristóteles dizia que a arte é o esplendor da verdade — splendor veritatis, devemos acrescentar que nem todas as verdades são esplendorosas. Há verdades bem duras, bem negras, onde se nota completa ausência de ideal. Assim como o mundo é um contraste de luzes e sombras e a vida um misto de lágrimas e risos, na poesia deve aparecer o bem e o mal, mas este tão somente por efeito de realce.</p>
<p>Assim como o berço tem luzes que o doiram, encantos que o embalam, sonhos que o embriagam, e amor que o acalenta, assim também a infância poética desta Capitania foi embalada pelas crenças populares da Penha, e pelo amor, nimbado de misticismo de enlevos na confiante proteção da soberana Senhora.</p>
<p>A literatura inicial tem, portanto, sua expressão própria, que se não possui uma feição definida, ressumbra, contudo, os sorrisos daquela pureza virginal, daquela frescura de vida, daquele hino saltitante como o regato entre flores, o cosmorama fugitivo que forma o encanto da alma de berço nas letras…</p>
<h4>
Quem o autor do poema</h4>
<p>
Eis uma dúvida, cuja solução pertence ao futuro desvendar. Quem é Domingos Caldas, o autor do nosso poema?… Será o P. Domingos Caldas Barbosa, literato assaz conhecido, ou será algum outro escritor?</p>
<p>Mesmo sobre o lugar de nascimento do próprio P. Domingos Caldas Barbosa pairam dúvidas, dizendo uns que ele nasceu na Bahia, outros que no Rio de Janeiro, outros, enfim, que nasceu no mar quando os pais vinham em viagem para o Rio.</p>
<p>A Enciclopédia Internacional marca a época do nascimento do P. Caldas Barbosa em 1738 e sua morte em 1800. Afirma igualmente Sílvio Romero a morte do P. Caldas em 1800 a 9 de novembro (Hist. da Lit. 263).</p>
<p>Quanto ao lugar, achamos mais provável a opinião que dá o nascimento de Caldas Barbosa no mar. O considerá-lo Sílvio Romero como do Rio de Janeiro e a maior parte de outros biógrafos como da Bahia, é fácil de se explicar. Seus pais moravam na Bahia e por isso o filho, nascido a bordo, era considerado baiano. Chegado ao Rio, é natural que o menino fosse batizado naquela cidade e instruído, nas primeiras letras, no Colégio dos jesuítas, eis porque outros o consideram como do Rio. Parece que mais tarde Domingos Caldas tornou à Bahia.</p>
<p>No seu Dicionário bibliográfico, à página 198, diz Blake: “Domingos Caldas Barbosa, padre, poeta, satírico e repentista, filho de um português e de uma africana, nasceu na Cidade do Rio de Janeiro, segundo informações de parentes seus e do Cônego Januário da Cunha Barbosa, ou a bordo de um navio em viagem para o Rio de Janeiro, onde foi solenemente batizado em 1738, segundo o Visconde de Porto Seguro e outros; ou na Bahia, como diz o autor dos Varões Ilustres [do Brasil] e o P. Inácio Félix de Alvarenga Sales por ‘lho afirmarem pessoas de grande crédito’, e faleceu em Lisboa a 9 de novembro de 1800.”</p>
<p>Todas as aparências me inclinam também a afirmar com Afonso Cláudio que o autor do Poema Mariano é o mesmo do Viola de Lereno.</p>
<p>Uma coisa, porém, me surpreende, e é que um homem, de cujo valor literário se não pode duvidar, como é o autor da História da Literatura Espírito-Santense, afirme, à página 40 de sua obra, que “Antes da chegada do vate baiano, padre Domingos Caldas, à Vitória, ninguém havia iniciado o cultivo das letras”… Todos os biógrafos são unânimes em afirmar que Domingos Caldas Barbosa, sem ser padre ainda, saiu do Rio de Janeiro para servir como militar na Colônia do Sacramento e, sendo esta tomada pelos espanhóis em 1762, ele seguiu para Portugal no mesmo ano. A princípio viveu na casa do regedor José de Vasconcelos e Souza, mais tarde Conde de Pombeiro, que era irmão do Conde de Castel Melhor, vice-rei do Brasil.</p>
<p>Se Domingos Caldas seguiu para Portugal em 1762, recebendo lá as sagradas ordens de presbítero e nunca mais voltou ao Brasil, como é possível que em 1770, época em que foi escrito o poema, se achasse em Vitória do Espírito Santo, como o supõe Afonso Cláudio?…</p>
<p>Eu também acredito que tenha sido o P. Caldas Barbosa o autor do Poema Mariano, dados os fartos conhecimentos históricos, mitológicos e mesmo a precisão dogmática nos assuntos religiosos, que indicam não só ser de um padre, mas de um padre muito culto. A suposição de Afonso Cláudio cria embaraços indissolúveis, pelo que, acho mais óbvio, na falta de outros documentos, admitir-se que algum amigo aqui da Capitania mandasse pedir em Portugal ao P. Caldas um Poema sobre a Virgem da Penha, que naturalmente ele devia muito bem conhecer, pois quando daqui saiu tinha já mais de vinte anos de idade, assim que podia conservar as particularidades a respeito da Penha e mesmo ter conhecimento dos principais acontecimentos.</p>
<p>O mesmo Afonso Cláudio acha-se embaraçado para solucionar esta dificuldade, em outra parte de sua obra, porque supõe que o poema, dadas as particularidades descritivas, fosse escrito por pessoa que devesse estar presente na Capitania porque conhecia muitos pormenores sobre a Penha. Acho, pois, que esta suposição é menos viável do que a outra. O autor do poema não conhecia tantos pormenores da história do Santuário da Penha. Da figura empolgante do abnegado ermitão Pedro de Palácios, ele nem fala. Quantas pessoas há que, muitos anos depois, guardam ainda bem nitidamente na memória tudo o que viram uma só vez na vida. Caldas tendo estado muitas vezes na Penha podia ter bem gravado as particularidades do poema, mesmo em apontamentos, pois era homem de letras que foi até recebido como sócio da Arcádia de Roma e, mais tarde, organizador da nova Arcádia da Academia de Belas Artes em Lisboa.</p>
<p>Graças à devoção ardente de muitas pessoas que colecionam tudo que se refere à Penha, devemos o ter-se conservado o poema em manuscritos pelo espaço de oitenta e quatro anos, pois tendo sido escrito em 1770, só em 1854 é que foi editado pela primeira vez.</p>
<p>Pode muito bem ser que o Poema Mariano fosse até recitado em alguma das popularíssimas festas da Penha pelos anos de 1770 e seguintes. Acho muito provável a hipótese de que algum festeiro da Penha, conhecedor do valor poético de Domingos Caldas, lhe mandasse pedir um poema sobre a Penha.</p>
<p>Seja como for. O certo é que o poema foi composto por Domingos Caldas em 1770, conhecedor das tradições e prodígios da Penha que andavam, por aqueles tempos, na boca de todo mundo…</p>
<h4>
Valor literário do poema</h4>
<p>
O poeta na verdadeira significação da palavra é o maior homem do mundo. Alma que tem eco para todas as ressonâncias da vida, cisne do ideal ele se alcandora às alturas vertiginosas, onde o comum dos homens não chega, não o compreende ou até o chama de imaginação desregrada. O verdadeiro poeta é sempre um gênio, aliás não passará de versejador.</p>
<p>Já dizia Goethe que na poesia deve a mão do gênio ser conduzida pela regra da arte.</p>
<p>O Poema Mariano é realmente uma obra de valor literário e que, apesar de não ser trabalho de fôlego, não obstante encerra em si verdadeiras jóias de fino lavor.</p>
<p>Em cento e vinte e seis estrofes, em oitavas de versos decassílabos rimados, descreve-nos o poeta os principais acontecimentos do histórico e milagroso Santuário de Nossa Senhora da Penha.</p>
<p>O Poema Mariano representa, sem dúvida, o primeiro tentame literário no Espírito Santo. Sobre seu valor diz a pena insuspeita de Afonso Cláudio: “A par da preocupação que domina o autor — a celebração mística das prodigiosas virtudes da Senhora da Penha — há nos seus versos, ora descrições pinturescas apreciáveis pela correção, ora trechos agradáveis pelas emoções que reproduzem, ora certo humanismo benfazejo que contrasta com a afetação tão usual na poética do tempo.”</p>
<p>A disposição artística dos versos, a facilidade de recursos históricos e mitológicos revelam uma pena acostumada ao cultivo das letras.</p>
<p>Para tornar sua leitura de mais fácil compreensão ao povo, achei conveniente dividir o poema conforme a disposição do assunto. Os títulos, portanto, não são do original.</p>
<p>Há uma coisa que foi criticada no Poema Mariano, aliás com razão: é o excesso de mitologia. Idéias do paganismo não deviam ser tão frequentemente aproveitadas como motivos religiosos a um poema genuinamente cristão e religioso…</p>
<p>Este defeito da obra, porém, deve ser atribuído ao espírito dominante na corrente literária do tempo. Como sabemos em 1770, época em que foi escrito o poema, ainda estávamos debaixo do influxo da renascença, com o servilismo aos modelos greco-romanos. O mesmo defeito da época vemos em Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões, onde porém, o mal não sobressai tanto por se tratar de um poema épico e não religioso como o presente.</p>
<p>Esperamos que o Poema Mariano, digno de todo apreço já por tratar de tão elevado assunto, ganhe cada vez maior popularidade, e que, trazendo ao povo capixaba a memória de suas seculares tradições religiosas para com a Santíssima Virgem, cimente, cada vez mais, a união de seus filhos que, em todas as quadras difíceis de sua vida histórica, tiveram a dita de encontrar no alto da Penha uma Mãe protetora a quem podiam volver os olhos súplices e implorar d’Ela amparo neste vale de lágrimas.</p>
<p>
[Prefácio da reedição do poema, com o título <i>Poema Mariano</i> sobre a Penha do Espírito Santo, Vitória, 1934.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 </span></b>A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> representa desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<span style="text-align: right;"><b>Padre Ponciano dos Santos Stenzel</b>, autor deste Prefácio,&nbsp;</span>nasceu em Conceição do Arroio, atualmente Osório (RS), no dia 30 de julho de 1902, cursou o Seminário Provincial do Rio Grande do Sul, em São Leopoldo e, após ordenar-se, foi professor de filosofia do Instituto Rio-Grandense de Letras e fiscal do ensino secundário. Foi um dos sete padres integrantes da Câmara dos Quatrocentos da Ação Integralista Brasileira (AIB), transferindo-se para Vitória, ES, onde iniciou carreira política em 1934, como vereador pela AIB. Exerceu vários cargos: em 1947 foi eleito novamente como vereador às câmaras municipais de Cachoeiro do Itapemirim e de Vitória; em outubro de 1950 foi eleito deputado federal pelo Espírito Santo na legenda da Coligação Democrática formada pelo Partido Social Progressista (PSP), o Partido Republicano (PR), o Partido Rural Trabalhista (PRT) e o Partido de Representação Popular (PRP), assumindo sua cadeira na Câmara em fevereiro do ano seguinte; em 1954 reelegeu-se deputado federal pelo Espírito Santo ainda na legenda da Coligação Democrática, que agora reunia o PRP, o PSP, o PR e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB); em 1958 concorreu a uma vaga no Senado Federal pelo PRP, mas não conseguiu eleger-se e deixou a Câmara dos Deputados em janeiro de 1959, ao final do mandato. A partir de 1962 abandonou a carreira política, dedicando-se ao estudo da psicologia e ao sacerdócio, no subúrbio carioca da Piedade. Faleceu no Rio de Janeiro em 14 de novembro de 1987. Publicou <i>Arte e civismo</i>, <i>Florilégio</i>, Psicologia, Empírica, <i>Pindarassu </i>e <i>A grande luz das palmeiras</i>.</p></blockquote>
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		<title>Poema Mariano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 15:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Domingos Caldas Barbosa]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>ou Narração dos mais espantosos e extraordinários milagres de Nossa Senhora da Penha, venerada na Província do Espírito Santo, e em todas as partes do Brasil, por Domingos de Caldas, natural da Bahia, dado à luz por Inácio Félix de Alvarenga Sales, natural da Província do Espírito Santo, Padre Mestre Jubilado, Arcipreste e Vigário da [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;">
<div style="text-align: center;">
ou</div>
</div>
<div style="text-align: center;">
<div style="text-align: left;">
<b>Narração dos mais espantosos e extraordinários milagres de Nossa Senhora da Penha, venerada na Província do Espírito Santo, e em todas as partes do Brasil, por Domingos de Caldas, natural da Bahia, dado à luz por Inácio Félix de Alvarenga Sales, natural da Província do Espírito Santo, Padre Mestre Jubilado, Arcipreste e Vigário da Vara, etc., etc., 1854</b></div>
<p></p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-LPGfuDLd-kU/V3UhuPzpzeI/AAAAAAAAJ44/8CFGhlpYeWQczG0sAsCEdMQrWMH2Gf2jgCLcB/s1600/convento-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Convento da Penha. Acervo Ufes." border="0" height="228" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/11/convento-2.jpg" class="wp-image-6840" title="Convento da Penha. Acervo Ufes." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Convento da Penha. Acervo Ufes.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p></div>
<p>
Ilmo. e Revmo. Sr. Bispo Conde e Capelão-mor.</p>
<p>Com a publicidade do presente “Poema Mariano”, assim intitulado pelo seu autor Domingos de Caldas, natural da cidade de Bahia, segundo me afirmam pessoas de grande crédito, nada mais desejo do que fazer brilhar o estro de um brasileiro, que no ano de 1770 empreendeu tão árdua e louvável tarefa.</p>
<p>Depois de algumas diligências pude conseguir um caderno tão mal escrito, que apesar dos esforços que fiz para corrigi-lo, conheço ainda terá defeitos, que só um literato completo, como V. Ex., poderá emendar. Se realizarem-se estas esperanças, que ansiosamente nutro, terei a fortuna de ver cada vez mais engrandecidos os louvores da Virgem Santíssima da Penha, elogiado o seu autor, e felizmente recompensadas as fadigas de quem se confessa</p>
<p>de V. Ex. Revma. o mais humilde e reverente súdito</p>
<p>Padre Inácio Félix de Alvarenga Sales.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
* * * * *</div>
<h3>
<br />POEMA MARIANO</h3>
<p>
<b>Argumento</b></p>
<p>A milagrosa Penha se descreve,<br />
E os elementos todos conjurados;<br />
A mais brilhante luz, mais branca neve,<br />
Vai visitar os seus advogados.<br />
O holandês à vila não se atreve,<br />
Foge, rouba os tesouros consagrados:<br />
No dia, em que esta Aurora se festeja,<br />
Grandes prodígios faz na sua igreja.</p>
<p>I</p>
<p>Eu sou aquele que cantando amores<br />
Muitas vezes ao som das doces <span id="DCPM_RP1V">canas</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP1" title="Flautas de bambu."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a><br />
Lisonjeei a vida dos pastores,<br />
Exaltei a beleza das serranas;<br />
Porém hoje depondo os seus louvores,<br />
Já não quero cantar glórias mundanas,<br />
Que são sombras da luz, do ar assento,<br />
Formosuras de flor, torres de vento.</p>
<p>II</p>
<p>Cante Homero de Aquiles as vitórias,<br />
E Virgílio de Augusto o grande império,<br />
Ovídio fabulize vãs histórias,<br />
E repreenda Horácio o vitupério,<br />
Que eu cantarei mais ínclitas memórias,<br />
Maravilha maior, maior mistério,<br />
Se pode engrandecer em metro puro<br />
Outro mais claro sol meu estro escuro.</p>
<p>III</p>
<p>Vós, soberana estrela matutina,<br />
Que sois musa melhor, mais bela fonte,<br />
Que os angélicos coros predomina,<br />
Que as plantas rega do sagrado monte,<br />
Dai-me na humana voz graça divina,<br />
P’ra que o vosso poder de modo conte<br />
Que se acredite em tão distinta norma,<br />
Igual vossa matéria à minha forma.</p>
<p>IV</p>
<p>Não repareis no vil deste instrumento,<br />
Atendei só às veras de um desejo;<br />
Pois que também do ouro o luzimento<br />
Nas entranhas da terra oculto vejo;<br />
Não vos consagro, não, do entendimento<br />
Os dotes, que tenho, antes com pejo<br />
Só vos dedico em tal simplicidade<br />
Afeto, devoção, glória, e vontade.</p>
<p>V</p>
<p>E se nisto não sou tão veemente,<br />
Quanto merecem vossas excelências,<br />
Da vossa pura graça a grossa enchente<br />
Cubra o campo das minhas indigências,<br />
P’ra que cheio de amor, e zelo ardente,<br />
Tanto publique as vossas preeminências<span id="DCPM_RP2V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP2" title="O padre Ponciano Stenzel preferiu ler “proeminências” em sua edição do poema, publicada em 1934."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a><br />
Que possa conceber pelo meu canto<br />
Glória ao céu, gosto à terra, ao inferno espanto.</p>
<p>VI</p>
<p>À costa ocidental americana,<br />
Que do antártico pólo é mais vizinha,<br />
E o nome <span id="DCPM_RP3V">Brasil</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP3" title="Stenzel preferiu 'E o nome de Brasil', certamente por questões rítmicas, no que tem razão."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> sustenta ufana,<br />
Não o de Santa Cruz, que dantes tinha<br />
Entre o Tupi infiel, gente inumana,<br />
Estão sessenta graus ao sul da linha<br />
Duas vilas chamadas com vanglória,<br />
Uma Espírito Santo, outra Vitória.</p>
<p>VII</p>
<p>Estende o mar um braço pela terra,<br />
Que porto faz à tal capitania,<br />
E como grossas veias nele encerra<br />
Grandes ilhas de tosca pedraria;<br />
<span id="DCPM_RP4V">Desde</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP4" title="Quem sabe a leitura original teria sido 'Desce' e não 'Desde'?"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> o rio — Jucu da rica serra,<br />
E outro com o santo nome de Maria<span id="DCPM_RP5V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP5" title="Rio Santa Maria."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a><br />
Que expiado dos mais insanos ritos,<br />
Vem correndo a pagar os seus delitos.</p>
<p>VIII</p>
<p>Uma comprida légua está distante<br />
A vila da Vitória<span id="DCPM_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP6" title="Aqui, como também na estrofe XLVI, Stenzel preferiu 'de Vitória', sem o artigo tradicionalmente empregado no século XIX e anteriores."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> celebrada,<br />
Da outra, que se vê menos possante<br />
Ficar junto da barra edificada;<br />
Duas penhas de altura exorbitante,<br />
Uma coberta, e outra <span id="DCPM_RP7V">descalvada</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP7" title="Os morros da Penha e do Penedo, na baía de Vitória."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a><br />
A entrada defendendo atemorizam<br />
Quantas quilhas no mar soberbas pisam.</p>
<p>IX</p>
<p>Se os bárbaros <span id="DCPM_RP8V">Tifeus</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP8" title="Tifeu foi um dos gigantes que escalaram o céu. O poeta estende o seu nome, metonimicamente, a todo o grupo."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> inda viveram,<br />
E ao seu fingido <span id="DCPM_RP9V">Jove</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP9" title="Júpiter."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> guerrearam,<br />
Nem tão vastas idéias empreenderam,<br />
Nem tão compridos montes abalaram;<br />
Se em um destes penhascos se puseram,<br />
Por certo de improviso ao céu chegaram<br />
Sem precisar de guerra em tanta lida<br />
Do Pólion, Etna, Ossa, Olimpo e Ida<span id="DCPM_RP10V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP10" title="Montes celebrados na mitologia."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a></p>
<p>X</p>
<p>Quantos hoje Tifeus mais fementidos,<br />
Contra o vivo <span id="DCPM_RP11V">Tonante</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP11" title="Sobrenome de Júpiter."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> sublevados,<br />
Só por subir a penha endurecidos<br />
Conseguem ser por Deuses numerados<span id="DCPM_RP12V">!</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP12" title="'Conseguem ser por Deus remunerados!' na edição de 1934."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a><br />
E não do Etna em forjas consumidos,<br />
Porém do Olimpo em glória colocados,<br />
Transformam-se em Mercúrios de eloqüência,<br />
Para eterno louvor da Onipotência.</p>
<p>XI</p>
<p>Nesta, que digo, penha descoberta<br />
Majestoso edifício se oferece,<br />
Que pela imensa altura à vista incerta<br />
Guarnecido castelo se parece;<br />
Mas neste mesmo engano a vista acerta,<br />
Porque, como direi, e é bem confesse,<br />
Do inimigo defende em qualquer guerra<br />
A fé, a devoção, o rei da terra.</p>
<p>XII</p>
<p>Essa torre de Faro esclarecida<span id="DCPM_RP13V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP13" title="Listam-se nesta estrofe as sete maravilhas do mundo antigo."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a><br />
Esse de Éfeso templo, assombro humano,<br />
O colosso da Ilha a Grécia unida,<br />
O famoso Obelisco de Trajano,<br />
A máquina do Egito engrandecida,<br />
O palácio de Ciro soberano,<br />
E o mausoléu de tanta arquitetura,<br />
São confusos borrões desta pintura.</p>
<p>XIII</p>
<p>A escarpada penha não consente,<br />
Que por ela se dê nenhum só passo;<br />
Porque o temor da queda prominente<br />
Ao toque mais sutil põe embaraço.<br />
Só por uma ladeira sobe a gente,<br />
Que igual à devoção faz o cansaço;<br />
Talvez porque se entenda, que a virtude<br />
Dano do corpo é, d’alma saúde.</p>
<p>XIV</p>
<p>No meio desta pois em largo assento<br />
Há casas de romeiros bem compostas,<br />
Tendo em duas capelas aposento<br />
São Francisco, e Jesus com a Cruz às costas<span id="DCPM_RP14V">;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP14" title="Referência às duas capelas primitivamente edificadas no chamado campinho, ou planura, do morro da Penha, uma de São Francisco, levantada por Pedro Palácios, outra do Bom Jesus."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a><br />
Subindo mais da mesma ao firmamento,<br />
Várias cruzes por ela estão dispostas,<br />
P’ra que os passos fiéis, que ali não cessam,<br />
Nelas pelos de Cristo se ofereçam.</p>
<p>XV</p>
<p>Por compridas escadas vai-se ao cume:<br />
Um templo tem findado na eminência<br />
Daquele imaculado e sacro lume,<br />
Esposa, Filha, e Mãe da Onipotência;<br />
Sem que jamais a vista por costume<br />
Se farte em ver, que tal magnificência<br />
Sem alicerce algum esteja altiva<br />
No empinado penhasco, e rocha viva.</p>
<p>XVI</p>
<p>No alpendre por colunas sustentado<br />
Uma rica portada se conserva,<br />
E logo dentro em coro levantado,<br />
Que para orar a Deus só se reserva;<br />
Aqui mesmo o Senhor crucificado<br />
De qualquer pecador a vista observa;<br />
Pois sendo imagem só para lembrança<br />
É puro original, não semelhança.</p>
<p>XVII</p>
<p>Um púlpito com dous colaterais<br />
Altares de belíssima escultura,<br />
Na forma, e na matéria ambos iguais,<br />
São próprio cedro em si, mármore em figura,<br />
Parece que chegar não pode a mais<br />
O primor d’arte, a força da pintura;<br />
Pois tanto à pura vista a idéia engana,<br />
Que nem o mesmo tato desengana.</p>
<p>XVIII</p>
<p>Da porta da verdade pura e santa<br />
A seu autor a vista humana goza<br />
No <span id="DCPM_RP15V">paço</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP15" title="Stenzel leu 'passo', que não parece ser o caso, tanto mais que Gomes Neto diferencia, no texto do poema, 'paço' e 'passo'."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a> de — Ecce Homo —, e junto espanta<br />
De Benedito a efígie primorosa;<br />
Da outra em uma imagem sacrossanta<br />
Duas mães<span id="DCPM_RP16V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP16" title="Referência à Virgem Maria e a Santa Ana."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> uma filha, avó, e esposa,<br />
Na qual, contendo igual delicadeza,<br />
Quis a arte poder mais que a natureza.</p>
<p>XIX</p>
<p>O espaçoso teto representa<br />
O campo de Amaltéia<span id="DCPM_RP17V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP17" title="Em Gomes Neto está 'Amalchéa', equívoco que Stenzel reproduziu, com a seguinte nota: ''Recorri a todas as enciclopédias, dicionários gregos e latinos e só encontrei em Saraiva uma citação de Plínio: ‘Oceano Amálquio’ parte do mar Báltico. Acho que o poeta quer designar por ‘campo de Amalquéia’ um campo florido. Amaltéia é a cabra que deu leite a Júpiter, de que um dos chifres transformou-se no corno da abundância.''"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a> o ser de Flora<span id="DCPM_RP18V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP18" title="Deusa das flores e da primavera."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a><br />
A primavera está do templo exempta<span id="DCPM_RP19V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP19" title="Isenta."><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a><br />
Eterna vida e cor nas flores mora;<br />
Levantado relevo a vista aumenta,<br />
Primoroso lavor a luz namora,<br />
Esquecendo-se aqui dos operantes<br />
Fídias, Apeles, Zêuxis, e Timantes<span id="DCPM_RP20V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP20" title="Célebres artistas da antigüidade."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a></p>
<p>XX</p>
<p>Do arco para dentro igual respeito<br />
A abóbada requer da mór-capela,<br />
Onde mais por milagre existe o efeito<br />
Do zimbório, que os ventos atropela;<br />
O altar-mor de pedra é todo feito<br />
Branca, vermelha, azul e amarela,<br />
Tendo da mesma espécie iguais alunas<br />
Figuras, festões, tarjas e colunas.</p>
<p>XXI</p>
<p>Em nítidos degraus d’ouro lavrados<br />
Se vê de um vasto trono o luzimento,<br />
Em que nos dias mais qualificados<br />
Em custódia se expõe o Sacramento.<br />
Em pirâmide igual de ambos os lados<br />
Estão Francisco, Antônio igual portento,<br />
Que protótipos são da santidade,<br />
Pobreza, obediência e castidade.</p>
<p>XXII</p>
<p>Bem no centro do altar em nicho nobre<span id="DCPM_RP21V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP21" title="Na versão de 1934, 'nicho pobre', um dos poucos erros graves dessa edição."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a><br />
Guarnecido de flores e cortinas,<br />
A soberana Virgem se descobre<br />
Mais bela, que as estrelas diamantinas,<br />
Um transparente véu não bem a cobre;<br />
Pois nunca ocultas são luzes divinas,<br />
Tendo nas pias mãos o filho puro,<br />
Sol que o dia rompeu do céu escuro.</p>
<p>XXIII</p>
<p>Mas ah! Onde vou eu indigno humano?<br />
Oh cega musa, oh louca fantasia!<br />
Como se atreve um rústico profano<br />
A descrever a imagem de Maria!?<br />
Se ainda para um Augusto um <span id="DCPM_RP22V">Mantuano</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP22" title="O poeta Virgílio, natural de Mântua."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a><br />
Uma língua de ferro apetecia,<br />
Que musa, idéia e voz pede a Senhora<br />
Se quanto esconde o céu na terra mora?</p>
<p>XXIV</p>
<p>Eu bem conheço enfim, que em vão prossigo,<br />
Que o mesmo mundo em línguas transformado<br />
Pouco havia dizer mais, do que eu digo;<br />
Faria o canto sim mais concertado;<br />
Mas pode a devoção tanto comigo,<br />
Que me faz empreender mui confiado<br />
O maior impossível do universo,<br />
Para em metro dizer, cantar em verso.</p>
<p>XXV</p>
<p>Vós, rainha de excelsa majestade,<br />
Da terra auxiliatriz, do céu regente,<br />
Que sois lince melhor duma vontade,<br />
Do humano coração mestra ciente,<br />
Bem conheceis, que em mim não há vaidade;<br />
Um desejo eficaz tenho somente<br />
De que sem recompensa e sem vanglória<br />
Aumente a minha pena a vossa glória.</p>
<p>XXVI</p>
<p>Em três palmos e meio de estatura<br />
Representa a Senhora um vulto inteiro,<br />
Seu mistério dos ditos se procura,<br />
Três pessoas, e um só Deus verdadeiro.<br />
A sua soberana formosura<br />
Do pecador liberta o cativeiro,<br />
E faz que o coração do duro peito<br />
Pelos olhos com dor saia desfeito.</p>
<p>XXVII</p>
<p>Ricos vestidos de brocado e tela<br />
São ornamento seu sempre diário,<br />
Tendo no peito, e colo a aurora bela,<br />
De ouro uma cadeia e um rosário.<br />
Cento e vinte <span id="DCPM_RP23V">fuzis</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP23" title="Elos de metal."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a> se contam nela,<br />
Rematados de um rico relicário;<br />
Nele se vê que o peso a tanto monta,<br />
Que inda é mais um mistério a não ter conta.</p>
<p>XXVIII</p>
<p>Coberto o lindo peito de diamantes,<br />
De filigrana d’ouro guarnecidos,<br />
Matizado de pedras mui brilhantes,<br />
Salpicado de aljôfares subidos,<br />
Chegam à sacra fronte rutilantes;<br />
E ainda encobre alguns dos mais luzidos<br />
A coroa, que d’ouro às libras pesa,<br />
Sendo maior a obra, que a riqueza.</p>
<p>XXIX</p>
<p>Tem mais de peças mil sobresselentes<br />
De não menor grandeza e qualidade,<br />
Que de vários países, várias gentes<br />
Lhe dão com devoção, gosto e vontade.<br />
Por muitas dão-se até dobras correntes;<br />
Porém nunca parece a quantidade,<br />
Parecendo se oculta a algum patolo<span id="DCPM_RP24V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP24" title="O mesmo que 'patola', pessoa tola, simplória."><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a><br />
Que de tudo faz ser metal de Apolo<span id="DCPM_RP25V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP25" title="Segundo Stenzel, o ouro, pois que Apolo é o deus do sol."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a></p>
<p>XXX</p>
<p>Porém a sacra Virgem lhe compensa<br />
Com benefícios tão avantajados,<br />
Que quanto mais se empenha a recomensa,<br />
Mais ficam seus devotos obrigados:<br />
Da peste, fome, guerra e toda a ofensa<br />
Ela continuamente os põe livrados,<br />
Tirando o arbítrio ao tempo, à <span id="DCPM_RP26V">parca</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP26" title="Às três parcas cabia fiar a teia da vida dos homens."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a> o ofício<br />
O raio a Délio<span id="DCPM_RP27V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP27" title="Apolo, cognominado Délio por ter nascido na ilha de Delos."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a> a Marte o exercício.</p>
<p>XXXI</p>
<p>O contíguo convento franciscano<br />
Tem três sobrados de elevada altura,<br />
Em que para o exercício soberano<br />
Dos sagrados varões mora a candura.<br />
A máquina não sente o menor dano,<br />
E com razão parece eterna dura;<br />
Pois do calvo <span id="DCPM_RP28V">Saturno</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP28" title="Saturno, ou Cronos, pai de Júpiter, era às vezes representado como um velho armado de foice, para significar que o tempo destrói tudo."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a> o grande império<br />
Não tem poder algum no assento etéreo.</p>
<p>XXXII</p>
<p>Vendo que tanto peso já tal penha<br />
Não pode ter nos ombros sustentada,<br />
E ofendido de ver que a mesma tenha<br />
A inviolável luz mais bem guardada,<br />
No maior terremoto mais se empenha<br />
Para a pôr destruída, e derribada:<br />
Mais tirano a reinar em vão procura<br />
O cenóbio vital da Virgem pura.</p>
<p>XXXIII</p>
<p>Inda em sessenta e <span id="DCPM_RP29V">nove</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP29" title="Em 1769, padecendo a capitania grande seca, a imagem da Virgem foi trasladada de seu convento ao convento de São Francisco em Vitória. Talvez esteja no milagre da chuva, atribuído à Virgem, o evento imediato que levou Domingos Caldas a escrever o poema, tradicionalmente datado de 1770."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a> o sol girava<br />
Visitando o Leão<span id="DCPM_RP30V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP30" title="Signo do mês de agosto."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a> que atroz rugia,<br />
Tendo no Augusto mês, que começava,<br />
Uma só vez mostrado a luz do dia:<br />
<span id="DCPM_RP31V">Morfeu</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP31" title="Deus do sono."><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a> os doces laços apertava;<br />
O mar, o vento, o céu adormecia,<br />
Quando a terra com grito assaz ingente<br />
Desperta os animais, acorda a gente.</p>
<p>XXXIV</p>
<p>Principia o tremor no monte e vale;<br />
Aumenta a confusão da morte o susto;<br />
Pedra e tronco não há, que não se abale,<br />
Sendo o dano maior no mais robusto:<br />
Agora só o assombro é bem que fale,<br />
E se emudeça a voz no espanto justo,<br />
Vendo ficar cessando o infausto indício,<br />
Constante a pedra, imóvel o edifício.</p>
<p>XXXV</p>
<p>Também soberbo <span id="DCPM_RP32V">Eolo</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP32" title="Éolo, deus dos ventos. Foi mantida a grafia 'Eolo' do original, nas três vezes em que o nome aparece, por necessidades rítmicas e rímicas."><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a> ou de invejoso,<br />
Ou irado, por ver contrário culto,<br />
Combatendo este monte portentoso,<br />
Não faz no longo mar tão grande insulto.<br />
Treme o sagrado templo temeroso,<br />
E a não o defender mistério oculto,<br />
Com fúria tão cruel, tão fero arrojo,<br />
Fora a pedra maior menor despojo.</p>
<p>XXXVI</p>
<p>Netuno indignado as nuvens farta<br />
Para lograr seus bárbaros intentos;<br />
As quais, passando logo à esfera quarta,<br />
Formam no ar escuro pavimento.<br />
Das mesmas para o mar água se aparta<br />
Por baixo dos mais firmes fundamentos,<br />
Sem que as constantes bases prevariquem,<br />
Antes na inundação mais fortes fiquem.</p>
<p>XXXVII</p>
<p>Tonante com rigor fero e tirano,<br />
No sacro cume da elevada penha<br />
Arroja os artifícios de Vulcano<span id="DCPM_RP33V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP33" title="Deus do fogo e do metal, ferreiro do Olimpo."><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a><br />
Dos quais o estrondo a fúria desempenha;<br />
Isto é certa pensão de qualquer ano,<br />
Sem que perigo algum a igreja tenha,<br />
E somente se vê na gente insana<br />
O natural temor da vida humana.</p>
<p>XXXVIII</p>
<p>Muitos com raro assombro têm passado<br />
Por entre a Virgem mãe, e o seu Menino;<br />
Outros têm não sem dano procurado<br />
Ao Senhor — Ecce Homo —, autor divino:<br />
Olha, triste mortal, quão descuidado<br />
Continuas teu louco desatino,<br />
Sem ver, que, quando a si Deus se condena,<br />
Mostra de tua culpa a sua pena.</p>
<p>XXXIX</p>
<p>Vê que nem sua mãe já se reserva,<br />
A qual do nosso dano ressentida,<br />
No raio que a conhece, e que a preserva,<br />
Golpe não encontrou, e está ferida:<br />
Por seus rogos repara, atento observa,<br />
Que a Onipotência quis ser ofendida,<br />
Mostrando no infalível do castigo<br />
Custar nosso perdão o seu perigo.</p>
<p>XL</p>
<p>Confunde-te pois, cego entendimento,<br />
Faze desse prazer pesar amargo;<br />
Porque essa horrenda voz do firmamento<br />
Procura despertar o teu letargo:<br />
Agradece o milagre a tal portento;<br />
Que à sentença final põe tanto embargo,<br />
Por não sentires um e outro inferno<br />
Do raio, temporal, o fogo eterno.</p>
<p>XLI</p>
<p>Também a mesma <span id="DCPM_RP34V">Circe</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP34" title="Célebre feiticeira, uma das principais personagens da Odisséia de Homero. Seduzido por ela, Ulisses passou longo tempo em sua companhia."><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a> encantadora<br />
Por Ulisses contrária aos portugueses,<br />
Do seu sossego aqui perturbadora,<br />
Infecciona o ar algumas vezes:<br />
Peita a Pomona<span id="DCPM_RP35V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP35" title="Deusa dos pomares. No original está 'Pamona', evidente erro tipográfico."><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a> <span id="DCPM_RP36V">Ceres</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP36" title="Deusa da agricultura."><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a> e mais Flora,<br />
Para a gente ofender, matar as reses,<br />
Sem que possa no mal da idéia ignoto<br />
<span id="DCPM_RP37V">Esculápio</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP37" title="Deus da medicina."><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a> vencer a horrenda Cloto<span id="DCPM_RP38V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP38" title="Uma das três parcas."><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a></p>
<p>XLII</p>
<p>O fogo material de <span id="DCPM_RP39V">Febo</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP39" title="Apolo, ou o sol."><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a> ardente,<br />
Que da tórrida zona incende a esfera,<br />
Mais que da Líbia adusta, e Arábia quente,<br />
Neste país seus raios reverbera.<br />
O excessivo calor abrasa a gente;<br />
Acende o campo, o gado desespera,<br />
E parece que quer este elemento<br />
Fazer no alheio espaço o próprio assento.</p>
<p>XLIII</p>
<p>Desce do monte ao mar o feroz bruto,<br />
Que antes morrer nas praias determina,<br />
A Berecíntia <span id="DCPM_RP40V">mãe</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP40" title="Trata-se de Cibele, mulher de Saturno e mãe dos deuses, também tida como alegoria que representa a terra, a natureza. Tinha um templo sobre o monte Berecinto, na Frígia, daí o cognome."><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a> esconde o fruto;<br />
Falta o pão, morre a flor, seca a campina;<br />
Tudo é dor, confusão, pobreza, e luto,<br />
Vendo tão perto a última ruína,<br />
Todos são <span id="DCPM_RP41V">Prometeus</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP41" title="Prometeu é o personagem mitológico que roubou o fogo dos céus e o transmitiu aos homens."><sup><b>[ 41 ]</b></sup></a> no sentimento;<br />
Pois de <span id="DCPM_RP42V">Tântalo</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP42" title="Tântalo foi condenado ao suplício da fome e da sede."><sup><b>[ 42 ]</b></sup></a> têm o vil tormento.</p>
<p>XLIV</p>
<p>Vê-se o faminto monstro furibundo,<br />
Que tem mais de cem bocas sempre abertas,<br />
Tendo na cútis fraca, e o corpo imundo,<br />
Ossos, nervos e veias descobertas;<br />
Os olhos das caveiras no profundo<br />
Parecem do sertão covas desertas,<br />
Nas secas faces as medonhas caras<br />
Mais que de pomos, são de gosto avaras.</p>
<p>XLV</p>
<p>Observa-se porém ao pé do monte<br />
Atlântico do céu mais refulgente<br />
Estar viçosa a flor, corrente a fonte,<br />
Firme a saúde, a dita permanente;<br />
Sem que faça calor, <span id="DCPM_RP43V">qual</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP43" title="'Que o dia afronte' é a leitura de Stenzel, que realmente soa melhor no verso."><sup><b>[ 43 ]</b></sup></a> o dia afronte;<br />
Sem que a peste infeliz oprima a gente;<br />
Porque dela lhe dá contra o seguro<br />
Deste sacro Sião cipreste puro<span id="DCPM_RP44V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP44" title="'Cipreste de Sião', segundo Stenzel, 'significa a Virgem da Penha, pois Sião é o monte sobre o qual estava edificada a cidade de Jerusalém'."><sup><b>[ 44 ]</b></sup></a></p>
<p>XLVI</p>
<p>Motivo por que a vila da Vitória,<br />
À do Espírito Santo roga e pede,<br />
Que por um dia só quer ter a glória<br />
Do imaculado bem, que ao mal impede.<br />
Depois que a petição se faz notória,<br />
Por um despacho a dita se concede,<br />
Escrituras, fiança, e todo o excesso<br />
Por um tesouro tal, qual não tem preço.</p>
<p>XLVII</p>
<p>Entram as grandes quilhas na contenda<br />
De qual merece ser a conducente,<br />
E precisa o juiz, sem que as ofenda,<br />
Ser menos justiceiro que prudente.<br />
Qual por levá-la dá toda a fazenda;<br />
Qual se empenha rogando a toda gente;<br />
Pois a que chega a ter tão feliz sorte,<br />
Despreza a vida, o vento, o mar, e a morte.</p>
<p>XLVIII</p>
<p>Ricamente se apresta a vencedora,<br />
Coberta de damascos importantes,<br />
Fingindo mil festões da bela Flora,<br />
De luzentes cristais, jóias brilhantes,<br />
Figuras, invenções, se vêem por fora,<br />
E por cima bandeiras tremulantes,<br />
Trazendo de <span id="DCPM_RP45V">Anfião</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP45" title="Criador da música, na mitologia."><sup><b>[ 45 ]</b></sup></a> doce harmonia,<br />
E de Marte a esforçada artilheria.</p>
<p>XLIX</p>
<p>Não é menor nas mais a diligência,<br />
Sendo igualmente a pompa procurada,<br />
E havendo devota competência<br />
De qual se encontrará mais bem ornada.<br />
A idéia desempenha a veemência;<br />
Fica a mente com a vista arrebatada,<br />
Sem fartar-se apesar de que <span id="DCPM_RP46V">Argos</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP46" title="Personagem mitológico que tinha cem olhos: quando a metade dormia, a outra metade velava."><sup><b>[ 46 ]</b></sup></a> seja;<br />
Porque quanto mais vê, mais ver deseja.</p>
<p>L</p>
<p>Qual bordada de seda se apresenta;<br />
Qual linda primavera se afigura;<br />
Uma <span id="DCPM_RP47V">sombrio</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP47" title="No original, 'um a sombrio', evidente erro tipográfico que Stenzel, no entanto, reproduz."><sup><b>[ 47 ]</b></sup></a> bosque representa;<br />
Outra se forma em grave arquitetura;<br />
Esta só com um castelo se contenta;<br />
Aquela esgota as tintas da pintura;<br />
Admirando o leão da novidade,<br />
Menos a multidão, que a claridade.</p>
<p>LI</p>
<p>Vistes o longo rasto das formigas<br />
Pelo espaçoso chão multiplicado,<br />
Que por serem das chamas inimigas,<br />
Desertam do lugar delas tomado;<br />
E buscam, porque são do doce amigas,<br />
Do grande engenho o mel açucarado,<br />
Tornando carregadas e contentes<br />
A buscar da pousada as cinzas quentes?</p>
<p>LII</p>
<p>Assim as proas vêm aves nadantes<br />
Fazendo pelo mar rua vistosa,<br />
Que fugindo dos raios rutilantes,<br />
Buscam da penha a fábrica engenhosa.<br />
Dali com devoção levam amantes<br />
A ambrosia mais deliciosa,<br />
E com ela contente já navegam<br />
Aos sítios naturais, que ainda fumegam.</p>
<p>LIII</p>
<p>Porém logo toda esta comitiva,<br />
Em movente cidade se transforma,<br />
Disputando na vista, e glória altiva<br />
A pompa de Paris, de Roma a forma;<br />
Palácios de soberba perspectiva,<br />
Obeliscos também da mesma norma;<br />
Torres, pontes, jardins com fausto tanto,<br />
Pasmo da idéia são, da vista espanto.</p>
<p>LIV</p>
<p>Eis que de entre os fiéis habitadores<br />
A pálida tristeza se desterra,<br />
E nos seus aposentos nadadores<br />
A formosa alegria só se encerra.<br />
Já com vozes, com vivas, e clamores<br />
Retumbam de prazer o mar, e a terra,<br />
Causando horror, e susto aos elementos<br />
De bronze o eco ao som dos instrumentos.</p>
<p>LV</p>
<p>As filhas de Nereu<span id="DCPM_RP48V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP48" title="As nereidas, ou ninfas do mar."><sup><b>[ 48 ]</b></sup></a> formosas damas,<br />
Meios corpos mostrando umedecidos,<br />
E as caudas, que têm duras escamas,<br />
No líquido cristal tendo escondidas,<br />
Sentem da ardente raiva as vivas chamas;<br />
Porque outras <span id="DCPM_RP49V">vozes</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP49" title="O original tem 'outras vezes'; Stenzel corrigiu."><sup><b>[ 49 ]</b></sup></a> são no mar ouvidas,<br />
E entram a cantar ao desafio,<br />
Para depois vingar na presa o brio.</p>
<p>LVI</p>
<p>As úmidas gargantas apuradas<br />
Também os doces ecos vão formando,<br />
Que as águas de prazer ficam paradas,<br />
Os peixes de alegria andam saltando:<br />
E como já das musas desprezadas,<br />
Vencidas dos Orfeus<span id="DCPM_RP50V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP50" title="Orfeu foi o mais célebre músico da mitologia."><sup><b>[ 50 ]</b></sup></a> que estão cantando,<br />
Arrojam-se às profundas do Oceano,<br />
Levando na vergonha o desengano.</p>
<p>LVII</p>
<p>Ao rouco som de grossa artilheria<br />
O argentado nume aparece,<br />
E com toda a espumante companhia<br />
A vista sobre as ondas se oferece<br />
A fronte carregada, e luzidia,<br />
Medonha trovoada só parece;<br />
Cada olho um funil, a boca um forno,<br />
Um madeiro o nariz, o queixo um corno.</p>
<p>LVIII</p>
<p>De um triunfante carro de espadanas<br />
Puxado por dous monstros animados,<br />
Em trono vem de lisas barbatanas,<br />
Guarnecido de brutos escumados,<br />
Por timbre das empresas desumanas,<br />
Traz soberbos navios destroçados,<br />
Em que os tristes naufrágios representa,<br />
Dos quais seu grande reino se sustenta.</p>
<p>LIX</p>
<p>Ao seu lado <span id="DCPM_RP51V">Anfitrite</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP51" title="Deusa do mar e mulher de Netuno."><sup><b>[ 51 ]</b></sup></a> majestosa,<br />
De nítidos cristais toda adornada,<br />
Vestida da melhor seda limosa,<br />
De claros pingos d’água bem toucada;<br />
<span id="DCPM_RP52V">Afogador</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP52" title="Colar, gargantilha."><sup><b>[ 52 ]</b></sup></a> de fino aljôfar goza, Jóia também de pérolas formada,<br />
Trono de tartaruga, e d’água plumas,<br />
Assento de coral, coxim de espumas.</p>
<p>LX</p>
<p>Vênus de uma ostra marchetada<br />
Seu trono faz no opaco pavimento,<br />
Tendo na concha a ostra inda pegada,<br />
Reluzente espaldar, brilhante assento.<br />
As faces, boca, e cor mais engraçada<br />
Desafiam da aurora o luzimento;<br />
As tranças d’ouro, os olhos cintilantes<br />
São correntes de amor, prisões amantes.</p>
<p>LXI</p>
<p>Tétis, Dóris, Nereu<span id="DCPM_RP53V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP53" title="A família marinha está toda presente: Tétis é a esposa do deus Oceano, mãe de Dóris e de Nereu que, embora irmãos, geraram as nereidas."><sup><b>[ 53 ]</b></sup></a> as ninfas todas,<br />
E os deuses do reino cristalino<br />
Em conchas desiguais de várias modas,<br />
Acompanham também o rei marino.<br />
Dos ossos de baleia as grandes rodas<br />
As águas rompem com rumor ferino,<br />
Deixando atrás os fossos circulares,<br />
Em que à roda se vão reunindo os mares.</p>
<p>LXII</p>
<p>Assim chega-se à frente da sumaca<br />
Do espumante congresso o deus horrendo,<br />
E ferrando o tridente à proa atraca,<br />
Seu contínuo mover parar fazendo.<br />
Salta<span id="DCPM_RP54V"></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP54" title="Stenzel leu 'solta'."><sup><b>[ 54 ]</b></sup></a> logo da fauce a voz opaca<br />
Com tão soberbo eco, e som tremendo,<br />
Que o ar enche de horror, e até parece,<br />
Que a mesma firme penha se estremece.</p>
<p>LXIII</p>
<p>E tu, lhe diz, quem és, que assim se atreve<br />
O sossego alterar do meu império?<br />
Como tão longo ardor em corpo breve<br />
De meu poder assusta o magistério?<br />
Ignoras o respeito, que se deve<br />
Das minhas águas ao maior mistério?<br />
Queres que já converta os desvarios<br />
Desses quentes metais em monstros frios?</p>
<p>LXIV</p>
<p>Vê de Ítaca o mesmo autor potente<span id="DCPM_RP55V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP55" title="Referência a Ulisses, príncipe da ilha de Ítaca. Toda a estrofe se refere a aventuras de Ulisses e seus companheiros, inclusive ao conhecido episódio de seu encontro com o ciclope Polifemo."><sup><b>[ 55 ]</b></sup></a><br />
E mais seus companheiros esforçados,<br />
Que por não respeitarem meu tridente<br />
Foram de minhas ondas soçobrados,<br />
Dos quais no mesmo arquivo transparente<br />
Inda tenho os despojos encerrados;<br />
E eles foram parar sem vela e remo<br />
Ao tirano poder de Polifemo.</p>
<p>LXV</p>
<p>Já tenho compaixão do grande estrago,<br />
Que faço nos ousados portugueses;<br />
Da minha habitação no sítio vago<br />
Já não cabem seus ínclitos arneses.<br />
E tu, sem ponderar tanto pressago,<br />
Vendo sem conta o mal, sem conta as vezes,<br />
Queres no rouco som, que o bronze atira,<br />
Incitar-me o furor, mover a ira?</p>
<p>LXVI</p>
<p>Disse; e logo com <span id="DCPM_RP56V">golpe</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP56" title="O original tem 'golpes', que fere a métrica. Stenzel corrigiu."><sup><b>[ 56 ]</b></sup></a> assaz severo<br />
Os parelhados monstros sacudindo,<br />
Qual valente Sansão, qual ímpio Nero,<br />
Tudo quer de uma vez ir consumindo;<br />
Mas da proa o leão soberbo e fero,<br />
Com rugido feroz a boca abrindo,<br />
Já depois da ruína estar disposta,<br />
O naufrágio <span id="DCPM_RP57V">detém</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP57" title="'Detêm', no original, erro de concordância que Stenzel reproduz."><sup><b>[ 57 ]</b></sup></a> nesta resposta.</p>
<p>LXVII</p>
<p>Não hás de, não, vencer, cruel Netuno,<br />
Por ser este baixel forte, e guerreiro,<br />
Em que com grandes forças me reúno<br />
Da Esposa de outro Jove verdadeiro.<br />
Se tu és de Plutão soberbo aluno,<br />
Eu de Vênus melhor sou companheiro.<br />
Quem impede, e demora esta desgraça<br />
É outra fonte santa, e mar de graça.</p>
<p>LXVIII</p>
<p>Esta mesma sumaca representa<br />
(Se é justa tão distinta semelhança)<br />
Aquela nau do mar de culpa exempta,<br />
Onde sempre há maré, sempre há bonança,<br />
Na qual o pecador sem mais tormenta,<br />
Atravessando o Cabo da Esperança,<br />
Ao porto salva as praias do Oriente,<br />
Donde se adora o sol mais refulgente.</p>
<p>LXIX</p>
<p>O Leão de Judá eu represento<br />
Da raiz de Davi planta diversa,<br />
Que alcançou glorioso vencimento<br />
Do <span id="DCPM_RP58V">Cérbero</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP58" title="Cão de três cabeças encarregado de guardar as portas do inferno mitológico."><sup><b>[ 58 ]</b></sup></a> infiel, cobra perversa.<br />
Lê neste escudo, que nas mãos <span id="DCPM_RP59V">sustento</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP59" title="'Sustenta', no original. A rima não deixa dúvidas de que se trata de um erro, que Stenzel corrigiu."><sup><b>[ 59 ]</b></sup></a><br />
Ao teu cego furor empresa adversa,<br />
E verás no rigor desta porfia<br />
Quantas penas te dá — Ave Maria!</p>
<p>LXX</p>
<p>Inda o nome não é bem proferido,<br />
Quando toda cruel turba nadante,<br />
Pelas águas fazendo atroz ruído,<br />
Mergulhada se vê no mesmo instante.<br />
Qual de noite no céu lume incendido<br />
Se figura uma estrela assaz brilhante,<br />
E quando mais constante nos parece,<br />
Correndo pelo ar desaparece.</p>
<p>LXXI</p>
<p>Enfim os falsos deuses do mar fundo<br />
Levam a confusão por desengano,<br />
E ainda temerosos no profundo<br />
Se escondem junto ao reino de Sumano<span id="DCPM_RP60V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP60" title="Sobrenome de Plutão, deus dos infernos."><sup><b>[ 60 ]</b></sup></a><br />
<span id="DCPM_RP61V">Enterrados</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP61" title="'Enterrado', no original. Stenzel viu a concordância com 'os falsos deuses', lição que parece mais lógica."><sup><b>[ 61 ]</b></sup></a> na areia, e lodo imundo,<br />
Fogem de ouvir o nome soberano,<br />
<span id="DCPM_RP62V">Inda</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP62" title="'Ainda', no original. Stenzel corrigiu para 'inda' por melhor conveniência métrica."><sup><b>[ 62 ]</b></sup></a> não satisfeitos de escondidos<br />
Metem rolhas de limo nos ouvidos.</p>
<p>LXXII</p>
<p>A gente admirada em terra salta<br />
Entoando com glória não pequena<br />
Os louvores da Virgem em voz alta;<br />
Pois tantas tempestades lhe serena:<br />
E quando de Maria a glória exalta<br />
Também confessa humilde a sua pena;<br />
Porque sem contrição tão manifesta<br />
Não vale a devoção, a fé não presta.</p>
<p>LXXIII</p>
<p>A escabrosa penha vai subindo<br />
Descalça, de joelhos, e de bruços,<br />
E por toda a ladeira estão se ouvindo<br />
Menos a voz, que o eco dos soluços.<br />
As águas, que dos olhos vêm saindo,<br />
Causam nas ventas úmidos defluxos,<br />
E parece que têm já convertidos<br />
Os corações em forma de gemidos.</p>
<p>LXXIV</p>
<p>Chegando finalmente ao santo erário,<br />
Em que o maior tesouro se venera,<br />
Com incendido amor, afeto vário,<br />
Impaciente já a dita espera.<br />
Aqui deter a musa é necessário,<br />
Enquanto em breve espaço se pondera<br />
O como se transforma com Maria<br />
A pena em glória, o pranto em alegria.</p>
<p>LXXV</p>
<p>Nos braços de um varão religioso<br />
Da mesma santa ordem dos menores<br />
Vai o sagrado nume portentoso<br />
Mostrando claramente resplendores.<br />
Em alas o congresso numeroso<br />
Repete vários hinos e louvores,<br />
A cuja voz responde o bronze forte,<br />
Causando à vida horror, espanto à morte.</p>
<p>LXXVI</p>
<p>Assim torna-se a cidade nadadora<br />
Incendida Cartago e Tróia ardente;<br />
E já vendo embarcada a bela aurora<br />
A Vitória procura ter patente.<br />
De Vila Velha a gente aflita chora<br />
Desta santa partida descontente,<br />
Não podendo julgar-se na verdade,<br />
Se é mais ativa a glória, se a saudade.</p>
<p>LXXVII</p>
<p>A capitânia toma a dianteira,<br />
E se observa nas ondas prateadas,<br />
Que os peixes vão seguindo a sua esteira,<br />
Que as aves pelas vergas vão sentadas.<br />
As mais da mesma sorte que a primeira<br />
Dos contínuos prodígios admiradas,<br />
Em companhia vão deste portento,<br />
Tão cheias de prazer, como de vento.</p>
<p>LXXVIII</p>
<p>Antes que à vila as proas apareçam,<br />
A vinda certificam os clamores;<br />
E atroando os ouvidos já começam<br />
Sinos, trombetas, tiros, e tambores.<br />
Para o comprido cais logo se apressam<br />
Juízes, escrivães, vereadores,<br />
Bandeiras e pendões, cruzes e guias<span id="DCPM_RP63V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP63" title="A vírgula não consta do original."><sup><b>[ 63 ]</b></sup></a><br />
Ordens, religiões, e confrarias.</p>
<p>LXXIX</p>
<p>O batalhão em forma está disposto,<br />
A tropa auxiliar também formada,<br />
A turba universal com geral gosto,<br />
Em tão vasto terreno está coalhada.<br />
Curvado o velho vem no duro encosto,<br />
O tenro filho em braços da criada,<br />
Ou por si, ou por outro carregado,<br />
O cego, o surdo, o manco, o aleijado.</p>
<p>LXXX</p>
<p>O lavrador as canas desampara,<br />
O pastor já no campo não reclina,<br />
Pela vila o rebanho já despreza<br />
Esquecido da selva, e da campina.<br />
A anta, o bugio, o tigre, a cobra avara<br />
Vêm do bosque adorar a luz divina;<br />
E inda o mesmo gentio sem fé <span id="DCPM_RP64V">certa</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP64" title="'Sem a fé certa', na leitura de Stenzel."><sup><b>[ 64 ]</b></sup></a><br />
Com a vista parada, a boca aberta.</p>
<p>LXXXI</p>
<p>Das columbrinas peças carregadas<br />
Em fogo se desfaz a fortaleza<span id="DCPM_RP65V">:</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP65" title="Provável referência ao forte São João, na baía de Vitória."><sup><b>[ 65 ]</b></sup></a><br />
As casas sobre o cais bem preparadas<br />
Mostram na mesma pompa a sutileza.<br />
Nas ruas para o passo destinadas<br />
Se admira com arte igual riqueza,<br />
Observando-se aqui com maior soma<br />
Grandezas de Paris, faustos de Roma.</p>
<p>LXXXII</p>
<p>Chega a Senhora à terra, e recebida<br />
Em rico pálio de ouro traspassado,<br />
Da turba acompanhada é <span id="DCPM_RP66V">conduzida</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP66" title="Esta é a leitura de Stenzel, que parece mais lógica que a do original, 'acompanhada e conduzida'."><sup><b>[ 66 ]</b></sup></a><br />
À Santa casa de Francisco amado<span id="DCPM_RP67V">;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP67" title="Convento de São Francisco, na cidade alta, em Vitória."><sup><b>[ 67 ]</b></sup></a><br />
Inda não bem no templo é recolhida,<br />
Já todo o céu de nuvens carregado,<br />
Encobrindo do sol a formosura,<br />
Transforma o claro dia em noite escura.</p>
<p>LXXXIII</p>
<p>Apenas entra a Virgem, quando os ares<br />
As nuvens vomitando sobre a terra,<br />
Parece com dilúvio, que nos mares<br />
Quer a água vingar do fogo a guerra.<br />
Os verdes papagaios nos pomares,<br />
Os barbados bugios, pela serra<span id="DCPM_RP68V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP68" title="Esta é a leitura de Stenzel, embora a do original, 'Os barbados, bugios, pela serra,' também faça sentido, já que 'barbados' e 'bugios' são substantivos que designam o mesmo tipo de símio."><sup><b>[ 68 ]</b></sup></a><br />
E nos charcos as rãs cheias de glória,<br />
Estão cantando os vivas da vitória.</p>
<p>LXXXIV</p>
<p>A sequiosa terra a chuva bebe;<br />
Em uma raridade a gente espanta;<br />
Porque de cada pingo, que recebe,<br />
Um pequeno sapinho se alevanta.<br />
Também ao longe um fumo se percebe,<br />
Que sutilmente aos ares se adianta,<br />
Qual tição apagado de água fria,<br />
Que agora fuma só, se antes ardia.</p>
<p>LXXXV</p>
<p>Os secos algodões reverdecendo,<br />
Os queimados legumes se inundando,<br />
No campo a murcha relva renascendo,<br />
No bosque as mortas árvores brotando,<br />
Na fonte os animais juntos bebendo,<br />
No rio os brutos todos se lavando,<br />
São mudos oradores desta Penha,<br />
Padroeira, que a Deus por nós se empenha.</p>
<p>LXXXVI</p>
<p>O mesmo efeito faz na horrenda peste,<br />
Defendendo qualquer do ar impuro;<br />
Porque, sendo também porta celeste,<br />
Por ela todo o mal vive seguro.<br />
Se de lua se calça e sol se veste,<br />
E das estrelas tem resplendor puro,<br />
Que muito é seja um astro tão perfeito,<br />
Sendo causa da luz, da graça efeito.</p>
<p>LXXXVII</p>
<p>Depois de seu devoto novenário,<br />
Em que as graças se dão do benefício,<br />
Sempre sendo atual no povo vário<br />
Do canto a voz, do culto o exercício,<br />
Tornando-se a aprestar o necessário<br />
Inda com maior pompa, e desperdício<br />
Da Penha se conduz a maravilha,<br />
Essa mais pura luz, que eterna brilha.</p>
<p>LXXXVIII</p>
<p>Nesta ausência cruel da soberana<br />
Chega a pena da glória precursora,<br />
Sendo aquela pensão da vida humana,<br />
Que por um olho ri, por outro chora,<br />
Ao mar arroja a gente a dor tirana,<br />
Que intenta em vão seguir a bela aurora;<br />
Pois todo aquele amor, que não é pouco,<br />
Além de cego ser também é louco.</p>
<p>LXXXIX</p>
<p>Chega até onde o passo a onda impede,<br />
E já precisa astúcia contrafeita;<br />
Triste para as moradas retrocede<br />
Com a fartura em parte satisfeita,<br />
Quando mastiga o pão, e farta a sede,<br />
De sua autora a graça inda respeita,<br />
Celebrando com júbilo dobrado<br />
Neste presente bem o mal passado.</p>
<p>XC</p>
<p>Porém o deus das ondas que vencido<br />
Foi <span id="DCPM_RP69V">de</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP69" title="'Do fero leão', na leitura de Stenzel, talvez mais plausível."><sup><b>[ 69 ]</b></sup></a> fero leão da proa ardente,<br />
Inda do seu agravo ressentido,<br />
Lhe prepara outro mal mais veemente;<br />
E vendo o seu poder enfraquecido,<br />
Maior esforço busca onipotente,<br />
Com que deste lugar americano<br />
Destrua a devoção, fomente o dano.</p>
<p>XCI</p>
<p>Vai do negro Plutão ao reino escuro,<br />
E já do rei soberbo na presença<br />
Com espantosa voz, com eco duro,<br />
Desta sorte lhe fala sem detença:<br />
Sabe, querido irmão, que em ti procuro<br />
O desagravo de uma grande ofensa;<br />
Pois vejo o meu tridente enfraquecido,<br />
Que ontem foi vencedor, e hoje vencido.</p>
<p>XCII</p>
<p>Profanados meus úmidos altares<br />
Na parte ocidental do novo mundo;<br />
Com acesos metais queimam-se os mares<br />
Em louvor de outro deus forte e jucundo,<br />
Se tu com teu poder me não vingares<br />
Me envergonho, me abismo, e me confundo,<br />
De que uns cegos mortais, tristes humanos,<br />
Causem terror aos deuses soberanos.</p>
<p>XCIII</p>
<p>Isto disse chorando de raivoso,<br />
E os limosos cabelos arrancando,<br />
Foi aos pés do rei ímpio, e rigoroso<br />
A coroa e tridente arremessando,<br />
Cuja vista o concurso numeroso<br />
Dos infernais ministros admirando,<br />
Esquecidos do próprio ministério,<br />
Dão às almas alívio, e refrigério.</p>
<p>XCIV</p>
<p>Plutão depois de um pouco estar parado<br />
Desta sorte responde ao nume aflito:<br />
Eu sei que desse Deus tão venerado<br />
É tão grande o poder, como infinito;<br />
Sei também, nesse clima, que adorado<br />
É com glória infiel<span id="DCPM_RP70V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP70" title="Stenzel leu 'glória fiel', o que harmoniza com 'santo rito', embora sejam palavras de Plutão, inimigo da religião cristã."><sup><b>[ 70 ]</b></sup></a> com santo rito<br />
Dos Lusos, que até ali — com sacro indulto<br />
Dos naturais me tem tirado o culto.</p>
<p>XCV</p>
<p>Porém, consola o céu os desumanos,<br />
Torna contente aos reinos cristalinos,<br />
Que para réus vingar de tantos danos<br />
Bastam só nossos bárbaros calvinos,<br />
Os Assírios, Ingleses<span id="DCPM_RP71V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP71" title="No original, 'Ingleses, e Mauritanos,' o que quebra o esquema métrico. Stenzel corrigiu, eliminando a conjunção."><sup><b>[ 71 ]</b></sup></a> Mauritanos,<br />
Numídios, Luteranos, e Rabinos:<br />
Temos para tão poucos inimigos<br />
Imensos parciais, muitos amigos.</p>
<p>XCVI</p>
<p>Com ingente valor, com golpe fero<br />
Eu deles sou vencido muitas vezes,<br />
E cada vez com mais furor espero<br />
Tirar a fé dos cultos portugueses.<br />
Em teu e meu favor agora quero<br />
Contra eles mover os holandeses,<br />
E que os hão de vencer eu te <span id="DCPM_RP72V">seguro</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP72" title="Apócope de 'asseguro', forma preferida por Stenzel."><sup><b>[ 72 ]</b></sup></a><br />
Com Megera<span id="DCPM_RP73V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP73" title="Uma das três Fúrias, encarregadas de flagelar no inferno mitológico os que tinham procedido mal durante a vida."><sup><b>[ 73 ]</b></sup></a> Caronte<span id="DCPM_RP74V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP74" title="O barqueiro encarregado de transportar os mortos ao inferno mitológico."><sup><b>[ 74 ]</b></sup></a> e Palinuro<span id="DCPM_RP75V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP75" title="Piloto da nau de Enéias."><sup><b>[ 75 ]</b></sup></a></p>
<p>XCVII</p>
<p>Prostrar-se agradecido o nume intenta;<br />
Porém o irmão nos braços o levanta;<br />
Este no ardente seio se aposenta,<br />
Aquele ao mar salgado se adianta.<br />
O congresso, que as almas atormenta,<br />
De breu e enxofre faz fumaça tanta,<br />
Que ali se vêem os tristes condenados<br />
Primeiro que incendidos afogados.</p>
<p>XCVIII</p>
<p>Já o reino <span id="DCPM_RP76V">leteu</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP76" title="O inferno mitológico, banhado pelo rio Letes."><sup><b>[ 76 ]</b></sup></a> na escura barca<br />
Sulcar o rei ousado determina:<br />
Do preciso se apresta, e nela embarca<br />
Qualquer que para a empresa se destina.<br />
Também não quer ficar horrenda parca,<br />
Que já faz na ambição certa ruína,<br />
E nela vem causando horror eterno<br />
O vil barqueiro do medonho averno<span id="DCPM_RP77V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP77" title="O inferno."><sup><b>[ 77 ]</b></sup></a></p>
<p>XCIX</p>
<p>Apenas de Netuno as águas pisam,<br />
Quando muito contente lhe aparece,<br />
E enquanto céu, e ondas só divisam,<br />
Nunca do longo mar desaparece;<br />
Do melhor mantimento não precisam,<br />
Porque <span id="DCPM_RP78V">Glauco</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP78" title="Pescador mitológico, metamorfoseado em tritão, e reverenciado como uma das divindades chamadas 'litorais'."><sup><b>[ 78 ]</b></sup></a> o bom peixe lhe oferece;<br />
E em pouco tempo Eolo furibundo<br />
No país holandês lhe faz dar fundo.</p>
<p>C</p>
<p>Busca Megera a praia, e certifica,<br />
Que do negro Plutão traz embaixada.<br />
O sucesso do deus nadante explica.<br />
E para o socorrer implora a armada.<br />
A nação infiel nada replica,<br />
E embarcando a tropa exercitada,<br />
Com cego horror, com louco desvario<br />
Quer que na prontidão se veja o brio.</p>
<p>CI</p>
<p>Nos braços já Netuno as mãos aperta,<br />
E por sinal das suas alegrias<br />
Amante e liberal lhe faz oferta<br />
Dos brilhantes cristais das ondas frias.<br />
Já fazendo da empresa a glória certa<br />
As sereias lhe cantam sinfonias,<br />
E fazendo no mar várias mudanças,<br />
As filhas de Nereu lhe formam danças.</p>
<p>CII</p>
<p>Caronte do velame tem cuidado;<br />
Palinuro do leme se apodera;<br />
Cloto quer destruir o luso estado;<br />
Incita cruel ódio só Megera.<br />
Chegam da altura ao porto desejado,<br />
E não achando a terra, que se espera,<br />
Dizem que o bem já não lhes corresponde;<br />
Que, se o mar o não tem, o céu o esconde.</p>
<p>CIII</p>
<p>Misteriosa névoa se oferece<br />
À vista tão cerrada, e tão escura,<br />
Que inda nas mesmas naus não aparece<br />
De popa a proa a gente insana e dura.<br />
Começa a confusão, o susto cresce;<br />
Porque quando o piloto entrar procura,<br />
Temem os deuses maus pelo seu vício<br />
Dobrado mal, segundo precipício.</p>
<p>CIV</p>
<p>O <span id="DCPM_RP79V">vencido</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP79" title="Com inicial maiúscula, 'Vencido', no original, certamente erro tipográfico."><sup><b>[ 79 ]</b></sup></a> Netuno exasperado,<br />
De furor escumando, inchado em ira,<br />
A cabeça batendo em um costado,<br />
Contra os mesmos amigos se conspira;<br />
Porém depois já menos perturbado,<br />
Com um medonho ai triste respira,<br />
E suspirando aflito a voz exala,<br />
Com que o fero pesar por ele fala.</p>
<p>CV</p>
<p>Oh tu meu nobre irmão, pai da desgraça,<br />
É possível que em tão penoso assédio<br />
Esta tirana dor, que por mim passa,<br />
Não possa cura achar, nem ter remédio,<br />
Que sempre se confunda, e se desfaça<br />
Meu soberbo furor, meu feroz tédio?<br />
E há de o meu valor, minha presença<br />
Sofrer a minha injúria, e vossa ofensa?</p>
<p>CVI</p>
<p>Mais quisera dizer, se de um ruído<br />
O estrondoso horror, que o ar feria,<br />
Lhe não pusera embargos ao sentido<br />
Das queixas, que formava, e que dizia.<br />
Um carro vê de chamas incendido,<br />
Que o mesmo ardente inferno parecia,<br />
E não se engana, pois do dito horrendo<br />
Ouve a funesta voz ao som tremendo.</p>
<p>CVII</p>
<p>Aqui me tens, Netuno, é cousa fera,<br />
Que só força, e não mente em ti se veja,<br />
Pois não sabes prever, que nesta era<br />
Mais uma astúcia, que o valor peleja?<br />
Queres ver como o bem se recupera<br />
Do perdido país, que se deseja?<br />
Acende as velas com meu fogo impuro,<br />
E verás como vês em tanto escuro.</p>
<p>CVIII</p>
<p>Disse; e logo de chamas veementes<br />
Toda a armada acendeu em breve instante,<br />
Fazendo a vista crer, que as naus ardentes<br />
Pretende abrasar o pego undante.<br />
O ar com fogos tão resplandecentes<br />
Jamais do que por Febo está brilhante;<br />
O mar aceso, a terra iluminada<br />
Dá caminho ao furor, concede a entrada.</p>
<p>CIX</p>
<p>À vista do edifício suntuoso<br />
A nação infiel medrosa fica;<br />
Mas de soberba o monstro rigoroso<br />
Que castelo não é lhe certifica.<br />
Rompendo as quilhas vem o mar undoso;<br />
Já cada um no seu lugar se aplica;<br />
Afiando se vê Cloto a tesoura;<br />
Nos ímpios corações Megera estoura.</p>
<p>CX</p>
<p>O espanto natural bem represente<br />
Do mais fero valor sombra ofuscada;<br />
De um a outro lugar conduz a gente<br />
De susto não pequeno traspassada.<br />
E já onde o pavor tréguas consente<br />
Com tanta pressa mal fortificada.<br />
Mais confia vencer o herege insano<br />
Por divino favor, que esforço humano.</p>
<p>CXI</p>
<p>Aqui chega a nefanda companhia;<br />
E o vermelho estandarte levantando,<br />
Campos, bosques, e montes desafia,<br />
Bombas, peças, e balas disparando.<br />
Anda o negro Plutão nesta porfia<br />
Os reforçados bronzes atirando;<br />
E girando se vê por toda a parte<br />
A <span id="DCPM_RP80V">Belona</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP80" title="Deusa da guerra, irmã de Marte."><sup><b>[ 80 ]</b></sup></a> cruel, o feroz Marte.</p>
<p>CXII</p>
<p>Porém, essa pequena cidadela,<br />
Que milagrosa praça se afigura,<br />
Com pouca força as naus muito atropela<br />
Mediante o favor da Virgem pura.<br />
Teme o fero holandês chegando a ela<br />
No mesmo arrojo achar a sepultura,<br />
E das fúrias cruéis deixando a ira,<br />
Infiel, e medroso se retira.</p>
<p>CXIII</p>
<p>Netuno contra ele se enfurece,<br />
Querendo assim vingar a sua injúria;<br />
Já com gesto cruel nele aparece<br />
De Tisífone o rigor, de Aleto a fúria<span id="DCPM_RP81V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP81" title="Tisífone e Aleto compõem, com Megera, o trio das Fúrias."><sup><b>[ 81 ]</b></sup></a><br />
Como desenganado do interesse,<br />
Sua pompa mudar quer em penúria,<br />
Condição, que com muitos se coaduna,<br />
Que amigos são do tempo da fortuna.</p>
<p>CXIV</p>
<p>Já dos numes cruéis desamparado<br />
Não há quem dos insultos o defenda,<br />
E da terra inimiga precisado,<br />
A busca por auxílio da contenda.<br />
Só da cega ambição acompanhado<br />
Se vale da sagrada, e rica tenda<br />
Da mais forte Judite<span id="DCPM_RP82V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP82" title="Segundo Stenzel, 'significa a Virgem Santíssima da qual a Judite do antigo testamento é apenas uma figura simbólica'."><sup><b>[ 82 ]</b></sup></a> bela senhora,<br />
Do rei dos reis fiel mantenedora.</p>
<p>CXV</p>
<p>Confuso o povo, atento, e admirado<br />
De ver tantos prodígios singulares;<br />
Crendo milagre feito, e bem obrado,<br />
Multiplica os incensos nos altares.<br />
Não podendo o prazer estar encerrado<br />
Passa do peito à voz, da voz aos ares,<br />
E por nobre brasão, e santa glória<br />
A vila toma o nome de Vitória<span id="DCPM_RP83V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP83" title="Equívoco histórico do poeta. A vila de Vitória recebeu esse nome devido a uma vitória dos portugueses sobre os indígenas ocorrida em 1551."><sup><b>[ 83 ]</b></sup></a></p>
<p>CXVI</p>
<p>Mas o holandês sacrílego, e desumano,<br />
Com duro peito, e ânimo ferino,<br />
Rouba as prendas do templo soberano,<br />
E da Senhora o erário diamantino;<br />
E a tanto chega o seu rigor insano,<br />
Que lhe rouba também o deus Menino.<br />
Só não pôde por mais que a força empenha<br />
Movê-la do altar da sacra Penha.</p>
<p>CXVII</p>
<p>Já carregado assim do melhor velo<br />
Se embarca sem o mínimo intervalo.<br />
Netuno cessa logo de ofendê-lo;<br />
E nem jamais se atreve a procurá-lo.<br />
Com favorável vento, e tempo belo,<br />
Nunca encontrou no mar melhor regalo,<br />
Mostrando Deus, que deve um ofendido<br />
Fazer bem té ao mal agradecido.</p>
<p>CXVIII</p>
<p>Oferece o menino onipotente<br />
A cidade de <span id="DCPM_RP84V">Olinda</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP84" title="Cite-se aqui nota de Stenzel: 'Consta dos cronistas que no ano de 1640 pela primeira vez tentaram os holandeses contra a Penha e carregaram muitas jóias e também o Menino Jesus. Não se sabe, porém, ao certo se o Menino Jesus que foi roubado é o que se encontra na cidade de Olinda como supõe o poeta, pois que desde 1551 o Padre Manoel Nóbrega instituiu na mesma cidade a devoção do Menino Jesus.'"><sup><b>[ 84 ]</b></sup></a> majestosa,<br />
Nome não sem mistério competente<br />
Ao encarnado botão da pura rosa.<br />
Ali é festejado anualmente<br />
Com fiel devoção, pompa lustrosa,<br />
No mesmo dia, em que da sua planta,<br />
A Penha nos louvores se quebranta.</p>
<p>CXIX</p>
<p>É este um dedicado à clara lua<br />
Depois do outro sol, que <span id="DCPM_RP85V">Abe</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP85" title="Não foi possível identificar o termo, talvez erro tipográfico."><sup><b>[ 85 ]</b></sup></a> se chama,<br />
No qual quase compete à glória sua,<br />
A pura devoção, que amor inflama.<br />
A gente principal, plebe comua<br />
Pela espaçosa penha se derrama,<br />
E onde ela permite algum assento,<br />
Faz soberbo casal, nobre aposento.</p>
<p>CXX</p>
<p>De noite não faz falta o claro Apolo,<br />
Porque mais que de estrelas guarnecida<br />
Toda a esfera se vê, e todo o pólo,<br />
Multiplicada a luz, chama incendida.<br />
As fogueiras não pode o rijo Eolo<br />
Apagar quando a chama mais crescida<br />
Faz crer que todo o monte é certamente<br />
Vesúvio material, ou Etna ardente.</p>
<p>CXXI</p>
<p>De dia já das aves a alvorada<br />
Acompanham sonoros instrumentos,<br />
E ouvindo as flores voz tão concertada<br />
Formam, dançando, alegres movimentos.<br />
Há discreto sermão, missa cantada;<br />
Admiram-se os ricos ornamentos.<br />
Por milagre na igreja se acomoda<br />
A grande multidão da gente toda.</p>
<p>CXXII</p>
<p>Universal banquete se oferece<br />
Sem se escolher sujeito nem estado:<br />
Quanto mais se consome, então mais cresce<br />
Sempre com cópia igual multiplicado.<br />
No vário, e no primor a fama cesse<br />
Do Assírio, com pompa celebrada;<br />
Pois quanto em meses seis aquele teve,<br />
Tudo neste se vê em tempo breve.</p>
<p>CXXIII</p>
<p>Os de saúde assaz destituídos,<br />
Os surdos, indigentes, tristes cegos,<br />
Os que por vários casos vêm perdidos<br />
Pedir-lhe os bens, as honras, os empregos,<br />
Neste dia inda são mais atendidos,<br />
E recuperam logo os seus sossegos,<br />
Que é timbre natural dos soberanos<br />
Aumentar as mercês, quando faz anos.</p>
<p>CXXIV</p>
<p>Se tudo quanto faz esta Senhora<br />
A todo este Brasil, que tanto ampara,<br />
Com delicada pena, e voz canora<br />
Eu agora escrevera, ou publicara,<br />
Inda que outro Tifeu gigante fora;<br />
E nelas só meus dias ocupara,<br />
Com bocas cinqüenta eu não dizia,<br />
Nem com um cento de mãos tudo escrevia.</p>
<p>CXXV</p>
<p>Se enfim desta melhor ave sem pena,<br />
Que é de Deus criadora, e criatura,<br />
Não pode humana voz, rouca camena<span id="DCPM_RP86V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP86" title="Nome dado às musas."><sup><b>[ 86 ]</b></sup></a><br />
Os mistérios cantar com mais doçura.<br />
Basta o que tem narrado a rude avena<br />
Para se distinguir sua luz pura,<br />
Porque, quando não há quadro bastante,<br />
Pinta-se um dedo só, vê-se um gigante.</p>
<p>CXXVI</p>
<p>E vós, qualquer que sois dela devoto,<br />
Todos que a venerais com mais cuidado,<br />
Nunca vos esqueçais do sacro voto,<br />
Lembrai-vos de pedir com santo agrado.<br />
Vereis, como é vencida a horrenda Cloto,<br />
Vereis, como libertos do pecado,<br />
Com júbilo, e com glória vos convida<br />
Da vida temporal a eterna vida.<span id="DCPM_RP87V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP87" title="A leitura de Stenzel é: 'Da vida temporal à eterna vida.'"><sup><b>[ 87 ]</b></sup></a></p>
<p>
[Transcrito do livro <i>As Maravilhas da Penha ou Lendas e História da Santa e do Virtuoso Frei Pedro de Palácios</i>, do Major J. J. Gomes da Silva Neto, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1888, p. 184-221. Foi atualizada a ortografia e feito um mínimo de alterações ditadas pela lógica contextual, para o que contribuiu um cotejo crítico com a edição do Padre Ponciano dos Santos Stenzel, intitulada <i>Poema Mariano sobre a Penha do Espírito Santo</i>, publicada em Vitória, 1934.]</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="DCPM_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Flautas de bambu.</div>
<div id="DCPM_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;O padre Ponciano Stenzel preferiu ler “proeminências” em sua edição do poema, publicada em 1934.</div>
<div id="DCPM_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Stenzel preferiu “E o nome de Brasil”, certamente por questões rítmicas, no que tem razão.</div>
<div id="DCPM_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Quem sabe a leitura original teria sido “Desce” e não “Desde”?</div>
<div id="DCPM_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Rio Santa Maria.</div>
<div id="DCPM_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Aqui, como também na estrofe XLVI, Stenzel preferiu “de Vitória”, sem o artigo tradicionalmente empregado no século XIX e anteriores.</div>
<div id="DCPM_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Os morros da Penha e do Penedo, na baía de Vitória.</div>
<div id="DCPM_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;Tifeu foi um dos gigantes que escalaram o céu. O poeta estende o seu nome, metonimicamente, a todo o grupo.</div>
<div id="DCPM_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Júpiter.</div>
<div id="DCPM_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Montes celebrados na mitologia.</div>
<div id="DCPM_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Sobrenome de Júpiter.</div>
<div id="DCPM_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;“Conseguem ser por Deus remunerados!” na edição de 1934.</div>
<div id="DCPM_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Listam-se nesta estrofe as sete maravilhas do mundo antigo.</div>
<div id="DCPM_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;Referência às duas capelas primitivamente edificadas no chamado campinho, ou planura, do morro da Penha, uma de São Francisco, levantada por Pedro Palácios, outra do Bom Jesus.</div>
<div id="DCPM_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;Stenzel leu “passo”, que não parece ser o caso, tanto mais que Gomes Neto diferencia, no texto do poema, “paço” e “passo”.</div>
<div id="DCPM_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;Referência à Virgem Maria e a Santa Ana.</div>
<div id="DCPM_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Em Gomes Neto está “Amalchéa”, equívoco que Stenzel reproduziu, com a seguinte nota: “Recorri a todas as enciclopédias, dicionários gregos e latinos e só encontrei em Saraiva uma citação de Plínio: ‘Oceano Amálquio’ parte do mar Báltico. Acho que o poeta quer designar por ‘campo de Amalquéia’ um campo florido. Amaltéia é a cabra que deu leite a Júpiter, de que um dos chifres transformou-se no corno da abundância.</div>
<div id="DCPM_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;Deusa das flores e da primavera.</div>
<div id="DCPM_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Isenta.</div>
<div id="DCPM_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;Célebres artistas da antigüidade.</div>
<div id="DCPM_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;Na versão de 1934, “nicho pobre”, um dos poucos erros graves dessa edição.</div>
<div id="DCPM_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;O poeta Virgílio, natural de Mântua.</div>
<div id="DCPM_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;Elos de metal.</div>
<div id="DCPM_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;O mesmo que “patola”, pessoa tola, simplória.</div>
<div id="DCPM_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;Segundo Stenzel, o ouro, pois que Apolo é o deus do sol.</div>
<div id="DCPM_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;Às três parcas cabia fiar a teia da vida dos homens.</div>
<div id="DCPM_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Apolo, cognominado Délio por ter nascido na ilha de Delos.</div>
<div id="DCPM_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;Saturno, ou Cronos, pai de Júpiter, era às vezes representado como um velho armado de foice, para significar que o tempo destrói tudo.</div>
<div id="DCPM_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;Em 1769, padecendo a capitania grande seca, a imagem da Virgem foi trasladada de seu convento ao convento de São Francisco em Vitória. Talvez esteja no milagre da chuva, atribuído à Virgem, o evento imediato que levou Domingos Caldas a escrever o poema, tradicionalmente datado de 1770.</div>
<div id="DCPM_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;Signo do mês de agosto.</div>
<div id="DCPM_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP31V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a>&nbsp;Deus do sono.</div>
<div id="DCPM_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP32V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a>&nbsp;Éolo, deus dos ventos. Foi mantida a grafia “Eolo” do original, nas três vezes em que o nome aparece, por necessidades rítmicas e rímicas.</div>
<div id="DCPM_RP33">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP33V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a>&nbsp;Deus do fogo e do metal, ferreiro do Olimpo.</div>
<div id="DCPM_RP34">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP34V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a>&nbsp;Célebre feiticeira, uma das principais personagens da Odisséia de Homero. Seduzido por ela, Ulisses passou longo tempo em sua companhia.</div>
<div id="DCPM_RP35">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP35V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a>&nbsp;Deusa dos pomares. No original está “Pamona”, evidente erro tipográfico.</div>
<div id="DCPM_RP36">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP36V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a>&nbsp;Deusa da agricultura.</div>
<div id="DCPM_RP37">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP37V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a>&nbsp;Deus da medicina.</div>
<div id="DCPM_RP38">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP38V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a>&nbsp;Uma das três parcas.</div>
<div id="DCPM_RP39">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP39V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a>&nbsp;Apolo, ou o sol.</div>
<div id="DCPM_RP40">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP40V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se de Cibele, mulher de Saturno e mãe dos deuses, também tida como alegoria que representa a terra, a natureza. Tinha um templo sobre o monte Berecinto, na Frígia, daí o cognome.</div>
<div id="DCPM_RP41">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP41V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 41 ]</b></sup></a>&nbsp;Prometeu é o personagem mitológico que roubou o fogo dos céus e o transmitiu aos homens.</div>
<div id="DCPM_RP42">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP42V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 42 ]</b></sup></a>&nbsp;Tântalo foi condenado ao suplício da fome e da sede.</div>
<div id="DCPM_RP43">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP43V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 43 ]</b></sup></a>&nbsp;“Que o dia afronte” é a leitura de Stenzel, que realmente soa melhor no verso.</div>
<div id="DCPM_RP44">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP44V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 44 ]</b></sup></a>&nbsp;“Cipreste de Sião”, segundo Stenzel, “significa a Virgem da Penha, pois Sião é o monte sobre o qual estava edificada a cidade de Jerusalém”.</div>
<div id="DCPM_RP45">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP45V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 45 ]</b></sup></a>&nbsp;Criador da música, na mitologia.</div>
<div id="DCPM_RP46">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP46V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 46 ]</b></sup></a>&nbsp;Personagem mitológico que tinha cem olhos: quando a metade dormia, a outra metade velava.</div>
<div id="DCPM_RP47">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP47V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 47 ]</b></sup></a>&nbsp;No original, “um a sombrio”, evidente erro tipográfico que Stenzel, no entanto, reproduz.</div>
<div id="DCPM_RP48">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP48V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 48 ]</b></sup></a>&nbsp;As nereidas, ou ninfas do mar.</div>
<div id="DCPM_RP49">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP49V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 49 ]</b></sup></a>&nbsp;O original tem “outras vezes”; Stenzel corrigiu.</div>
<div id="DCPM_RP50">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP50V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 50 ]</b></sup></a>&nbsp;Orfeu foi o mais célebre músico da mitologia.</div>
<div id="DCPM_RP51">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP51V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 51 ]</b></sup></a>&nbsp;Deusa do mar e mulher de Netuno.</div>
<div id="DCPM_RP52">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP52V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 52 ]</b></sup></a>&nbsp;Colar, gargantilha.</div>
<div id="DCPM_RP53">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP53V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 53 ]</b></sup></a>&nbsp;A família marinha está toda presente: Tétis é a esposa do deus Oceano, mãe de Dóris e de Nereu que, embora irmãos, geraram as nereidas.</div>
<div id="DCPM_RP54">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP54V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 54 ]</b></sup></a>&nbsp;Stenzel leu “solta”.</div>
<div id="DCPM_RP55">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP55V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 55 ]</b></sup></a>&nbsp;Referência a Ulisses, príncipe da ilha de Ítaca. Toda a estrofe se refere a aventuras de Ulisses e seus companheiros, inclusive ao conhecido episódio de seu encontro com o ciclope Polifemo.</div>
<div id="DCPM_RP56">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP56V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 56 ]</b></sup></a>&nbsp;O original tem “golpes”, que fere a métrica. Stenzel corrigiu.</div>
<div id="DCPM_RP57">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP57V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 57 ]</b></sup></a>&nbsp;“Detêm”, no original, erro de concordância que Stenzel reproduz.</div>
<div id="DCPM_RP58">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP58V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 58 ]</b></sup></a>&nbsp;Cão de três cabeças encarregado de guardar as portas do inferno mitológico.</div>
<div id="DCPM_RP59">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP59V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 59 ]</b></sup></a>&nbsp;“Sustenta”, no original. A rima não deixa dúvidas de que se trata de um erro, que Stenzel corrigiu.</div>
<div id="DCPM_RP60">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP60V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 60 ]</b></sup></a>&nbsp;Sobrenome de Plutão, deus dos infernos.</div>
<div id="DCPM_RP61">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP61V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 61 ]</b></sup></a>&nbsp;“Enterrado”, no original. Stenzel viu a concordância com “os falsos deuses”, lição que parece mais lógica.</div>
<div id="DCPM_RP62">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP62V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 62 ]</b></sup></a>&nbsp;“Ainda”, no original. Stenzel corrigiu para “inda” por melhor conveniência métrica.</div>
<div id="DCPM_RP63">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP63V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 63 ]</b></sup></a>&nbsp;A vírgula não consta do original.</div>
<div id="DCPM_RP64">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP64V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 64 ]</b></sup></a>&nbsp;“Sem a fé certa”, na leitura de Stenzel.</div>
<div id="DCPM_RP65">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP65V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 65 ]</b></sup></a>&nbsp;Provável referência ao forte São João, na baía de Vitória.</div>
<div id="DCPM_RP66">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP66V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 66 ]</b></sup></a>&nbsp;Esta é a leitura de Stenzel, que parece mais lógica que a do original, “acompanhada e conduzida”.</div>
<div id="DCPM_RP67">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP67V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 67 ]</b></sup></a>&nbsp;Convento de São Francisco, na cidade alta, em Vitória.</div>
<div id="DCPM_RP68">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP68V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 68 ]</b></sup></a>&nbsp;Esta é a leitura de Stenzel, embora a do original, “Os barbados, bugios, pela serra,” também faça sentido, já que “barbados” e “bugios” são substantivos que designam o mesmo tipo de símio.</div>
<div id="DCPM_RP69">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP69V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 69 ]</b></sup></a>&nbsp;“Do fero leão”, na leitura de Stenzel, talvez mais plausível.</div>
<div id="DCPM_RP70">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP70V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 70 ]</b></sup></a>&nbsp;Stenzel leu “glória fiel”, o que harmoniza com “santo rito”, embora sejam palavras de Plutão, inimigo da religião cristã.</div>
<div id="DCPM_RP71">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP71V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 71 ]</b></sup></a>&nbsp;No original, “Ingleses, e Mauritanos,” o que quebra o esquema métrico. Stenzel corrigiu, eliminando a conjunção.</div>
<div id="DCPM_RP72">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP72V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 72 ]</b></sup></a>&nbsp;Apócope de “asseguro”, forma preferida por Stenzel.</div>
<div id="DCPM_RP73">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP73V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 73 ]</b></sup></a>&nbsp;Uma das três Fúrias, encarregadas de flagelar no inferno mitológico os que tinham procedido mal durante a vida.</div>
<div id="DCPM_RP74">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP74V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 74 ]</b></sup></a>&nbsp;O barqueiro encarregado de transportar os mortos ao inferno mitológico.</div>
<div id="DCPM_RP75">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP75V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 75 ]</b></sup></a>&nbsp;Piloto da nau de Enéias.</div>
<div id="DCPM_RP76">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP76V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 76 ]</b></sup></a>&nbsp;O inferno mitológico, banhado pelo rio Letes.</div>
<div id="DCPM_RP77">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP77V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 77 ]</b></sup></a>&nbsp;O inferno.</div>
<div id="DCPM_RP78">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP78V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 78 ]</b></sup></a>&nbsp;Pescador mitológico, metamorfoseado em tritão, e reverenciado como uma das divindades chamadas “litorais”.</div>
<div id="DCPM_RP79">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP79V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 79 ]</b></sup></a>&nbsp;Com inicial maiúscula, “Vencido”, no original, certamente erro tipográfico.</div>
<div id="DCPM_RP80">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP80V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 80 ]</b></sup></a>&nbsp;Deusa da guerra, irmã de Marte.</div>
<div id="DCPM_RP81">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP81V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 81 ]</b></sup></a>&nbsp;Tisífone e Aleto compõem, com Megera, o trio das Fúrias.</div>
<div id="DCPM_RP82">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP82V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 82 ]</b></sup></a>&nbsp;Segundo Stenzel, “significa a Virgem Santíssima da qual a Judite do antigo testamento é apenas uma figura simbólica”.</div>
<div id="DCPM_RP83">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP83V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 83 ]</b></sup></a>&nbsp;Equívoco histórico do poeta. A vila de Vitória recebeu esse nome devido a uma vitória dos portugueses sobre os indígenas ocorrida em 1551.</div>
<div id="DCPM_RP84">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP84V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 84 ]</b></sup></a>&nbsp;Cite-se aqui nota de Stenzel: “Consta dos cronistas que no ano de 1640 pela primeira vez tentaram os holandeses contra a Penha e carregaram muitas jóias e também o Menino Jesus. Não se sabe, porém, ao certo se o Menino Jesus que foi roubado é o que se encontra na cidade de Olinda como supõe o poeta, pois que desde 1551 o Padre Manoel Nóbrega instituiu na mesma cidade a devoção do Menino Jesus.”</div>
<div id="DCPM_RP85">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP85V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 85 ]</b></sup></a>&nbsp;Não foi possível identificar o termo, talvez erro tipográfico.</div>
<div id="DCPM_RP86">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP86V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 86 ]</b></sup></a>&nbsp;Nome dado às musas.</div>
<div id="DCPM_RP87">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-mariano/#DCPM_RP87V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 87 ]</b></sup></a>&nbsp;A leitura de Stenzel é: “Da vida temporal à eterna vida.”</div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Domingos Caldas Barbosa</b>, autor do <i>Poema</i>, Filho de um português e de uma africana, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, segundo informam parentes seus e o cônego J. da Cunha Barbosa, ou a bordo de um navio em viagem para o Rio de Janeiro, onde foi solenemente batizado em 1738. O padre Caldas Barbosa foi da Arcádia de Roma com o nome de Lereno Selinuntino; fundador e presidente da academia de belas-artes de Lisboa, mais tarde denominada Nova arcádia; poeta e notabilíssimo repentista. (Para obter mais informações sobre o autor neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-domingos/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Domingos Caldas Barbosa &#8211; Biobibliografia</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Nov 2015 15:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Biobibliografia]]></category>
		<category><![CDATA[Domingos Caldas Barbosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há que considerar com cautela o padre Domingos Caldas Barbosa como autor do Poema mariano (ver, na Fortuna Crítica, o artigo de Oscar Gama Filho a respeito da controvérsia em torno da autoria do Poema). Se o Domingos Caldas a quem é tradicionalmente atribuída a autoria desse poema é o mesmo padre Domingos Caldas Barbosa, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-GAQ4hnRRhxY/V3Q67hFW_mI/AAAAAAAAJ4w/pjydfMZrqOMPyj5LMJ7pNjBuFlTRhOsqACKgB/s1600/O_Beneficiado._Domingos_Caldas_Barboza_%2528Lereno_Selinuntino%2529._Fallecido_em_1800.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="320" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/11/O_Beneficiado._Domingos_Caldas_Barboza_2528Lereno_Selinuntino2529._Fallecido_em_1800.jpg" class="wp-image-6842" width="290" /></a></div>
<p>Há que considerar com cautela o padre Domingos Caldas Barbosa como autor do <i>Poema mariano</i> (ver, na Fortuna Crítica, o artigo de Oscar Gama Filho a respeito da controvérsia em torno da autoria do <i>Poema</i>). Se o Domingos Caldas a quem é tradicionalmente atribuída a autoria desse poema é o mesmo padre Domingos Caldas Barbosa, poeta arcádico, eis as informações biográficas a ele relativas constantes no <i>Dicionário Bibliográfico Brasileiro</i>, de Sacramento Blake:</p>
<p>“Filho de um português e de uma africana, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, segundo informam parentes seus e o cônego J. da Cunha Barbosa, ou a bordo de um navio em viagem para o Rio de Janeiro, onde foi solenemente batizado em 1738, segundo o Visconde de Porto-Seguro e outros; ou na Bahia, como diz o autor dos Varões Ilustres do Brasil e o padre Inácio Félix de Alvarenga Sales por ‘lhe afirmarem pessoas de grande crédito’, e faleceu em Lisboa a 9 de novembro de 1800. Estudava no colégio dos jesuítas daquela cidade, primando entre os primeiros por sua bela inteligência; mas, de gênio excessivamente satírico, a ninguém poupando como o célebre Gregório de Matos, criou por isso poderosos inimigos que alcançaram do Conde de Bobadela ser ele preso, alistado no exército e enviado para a colônia do Sacramento, onde militou até ser tomada a praça pelos espanhóis em 1762. De volta então do Rio de Janeiro, obtendo sua baixa, foi para Portugal e, merecendo por suas maneiras sempre afáveis e atraentes a amizade e proteção do doutor José de Vasconcelos e Souza, regedor das justiças e mais tarde Conde de Pombeiro e Marquês de Belas, obteve deste, não só os meios de continuar seus estudos até ser presbítero secular, mas também um benefício e um lugar na casa da suplicação. Nem se limitaram a isso os favores do Conde; apresentou-o e relacionou-o com toda a nobreza; deu-lhe cama e mesa, quer nos seus aposentos de Bemposta, onde com sua esposa o tratava como pessoa da família, quer no palácio de seu irmão, o Marquês de Castelo-Melhor. No palácio de tão leal e desinteressado amigo morava e faleceu Caldas Barbosa, que foi sempre grato a tão generoso benfeitor. Esta posição lisonjeira, porém, atraíra-lhe a inveja e as iras de Bocage, antes disso seu amigo e cuja vida é por demais conhecida, e do célebre cantor dos burros, mais tarde seu elogiador, José Agostinho de Macedo, o ‘frade renegado que era completamente incapaz de qualquer sentimento nobre’ como disse Pinheiro Chagas, e que foi declarado ‘incorrigível, mandando-se-lhe cuspir no hábito em presença da comunidade’ por sentença do definitório provincial dos eremitas calçados de Santo Agostinho — de cuja ordem era a vergonha, o opróbrio — datada de 4 de fevereiro de 1792, impressa no <i>Constitucional </i>número do mesmo ano, e reproduzida no Dicionário de Inocêncio da Silva, tomo 7o, pag. 239. E esses dous homens o cobriam de insultos e apodos, prevalecendo-se para isto até da cor parda do conspícuo brasileiro, de quem entretanto com merecidos elogios se ocuparam vultos os mais elevados por sua ilustração e probidade. O padre Caldas Barbosa foi da Arcádia de Roma com o nome de Lereno Selinuntino; fundador e presidente da academia de belas-artes de Lisboa, mais tarde denominada Nova arcádia; poeta e notabilíssimo repentista.” [Sacramento Blake, <i>Dicionário Bibliográfico Brasileiro</i>, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1893, reeditado em fac-simile em 1970 pelo Conselho Federal de Cultura, 2o. volume, p. 198-203.]</p>
<p>Sacramento Blake relaciona dentre as obras de Domingos Caldas Barbosa o “<i>Poema mariano ou narração dos mais espantosos e extraordinários milagres de N. Senhora da Penha, venerada na província do Espírito Santo e em todas as partes do Brasil</i>, por Domingos Caldas, natural da Bahia, dada à luz por Inácio Félix de Alvarenga Sales, padre-mestre jubilado, etc. Vitória, 1854 — Teve segunda edição no livro <i>As maravilhas da Penha ou lendas e histórias da Santa e do virtuoso frei Pedro de Palácios</i>&nbsp;pelo major J. J. Gomes da Silva Neto, de pags. 184 a 221. Compõe-se de 76 oitavas [na verdade 126] em verso heróico e foi escrito em 1770.”</p>
<p>A obra mais conhecida de Domingos Caldas Barbosa é <i>A viola de Lereno</i>, uma coleção de suas cantigas. Segundo Sacramento Blake, o primeiro tomo foi editado em Lisboa em 1798, com segunda edição em 1806, também em Lisboa, terceira em 1813, na Bahia, e quarta de novo em Lisboa em 1819. O segundo tomo foi publicado em Lisboa em 1826.</p>
<p>O <i>Poema mariano</i> teve outra edição em 1934, prefaciada e anotada pelo padre Ponciano dos Santos Stenzel, com o título <i>Poema mariano</i> sobre a Penha do Espírito Santo.</p>
<p></p>
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Clique no link para conhecer o&nbsp;<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">Repertório Literário</a></b>&nbsp;do autor.</div>
<p></p>
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