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	<title>Arquivos Fernando Achiamé &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Fernando Achiamé &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Memória estatística da província do Espírito Santo escrita no ano de 1828</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 11 Nov 2016 18:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Inácio Acióli de Vasconcelos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória estatística]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vitória, 1860. Foto de Jean Victor Frond. Autor: Inácio Acióli de Vasconcelos Edição de Texto, Estudo e Notas: Fernando Achiamé Les meprises d&#8217;un impartial excitent une discussion d&#8217;où sortira la lumière de la vérité PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO 1. Limites A província do Espírito Santo, compreendida entre os rios Itabapoana e São Mateus nas latitudes [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/">Memória estatística da província do Espírito Santo escrita no ano de 1828</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;">
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<p></p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-Ks7KUsPuDJo/WCYSm5oujKI/AAAAAAAAKkQ/JO97m0rY54Y0Y2vwOFAyamMFqAy-GNgEgCLcB/s1600/Viagem%2B%25C3%25A0%2BProv%25C3%25ADncia%2Bdo%2BEsp%25C3%25ADrito%2BSanto%2B%25E2%2580%2593%2Bimigra%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Be%2Bcoloniza%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Bsu%25C3%25AD%25C3%25A7a%2B1860%252C%2BVit%25C3%25B3ria%252C%2BFoto%2Bde%2BJean%2BVictor%2BFrond..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Vitória, 1860. Foto de Jean Victor Frond." border="0" height="420" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/11/memoria-estatistica-da-provincia-do-1734396593.jpg" class="wp-image-5287" title="Vitória, 1860. Foto de Jean Victor Frond." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Vitória, 1860. Foto de Jean Victor Frond.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<div style="text-align: center;">
</div>
<p>
Autor: Inácio Acióli de Vasconcelos</div>
<div style="text-align: right;">
Edição de Texto, Estudo e Notas: Fernando Achiamé</div>
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Les meprises d&#8217;un impartial excitent une</div>
<div style="text-align: right;">
discussion d&#8217;où sortira la lumière de la vérité</div>
<p>PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO</p>
<p>
<b>1. Limites</b></p>
<p>A província do Espírito Santo, compreendida entre os rios Itabapoana e São Mateus nas latitudes austrais 21° 23&#8242; e 18° 45&#8242;, contém, com pouca diferença, cinqüenta <span id="MEPE_RP1V">léguas</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP1" title="Antiga unidade brasileira de medida itinerária, equivalente a 3.000 braças, ou seja, 6.600m."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> de costa de mar, que a limita pelo leste; é separada da província de Minas Gerais por uma linha de norte a sul entre os rios Guandu e Manhuaçu, uns dos que engrandecem o rio Doce. A primeira divisão e demarcação da província principiou na ponta austral do rio Mucuri até Santa Catarina das Mós, meia légua ao sul do rio Itabapoana, compreensão da carta de doação do Senhor D. João III a Vasco Fernandes Coutinho em 1525 pelos seus serviços feitos na Índia. Foi possuída pelos seus descendentes até que o Senhor D. João V a comprou a Cosme de Moura Rolim por escritura de 6 de abril de 1718, a quem pertenceu por sentença da <span id="MEPE_RP2V">Relação</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP2" title="Antiga denominação comum aos tribunais de justiça de segunda instância."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> da Bahia pelo falecimento do donatário Manuel Garcia Pimentel.</p>
<p>Por auto, celebrado em 8 de outubro de 1800, de acordo entre os governadores de Minas e desta província se regulou os limites dela pelo rio Doce e pela dita linha de norte a sul que passa pelo sertão entre ambas as províncias, o que foi aprovado por carta régia de 4 de dezembro de 1816; ignora-se, porém, a longitude desta dita linha.</p>
<p>Por portaria de 10 de abril de 1823 da Secretaria dos Negócios do Império ficou pertencendo São Mateus a esta província até a decisão da Assembléia, estando desligada [da província da Bahia] pela dita carta régia.</p>
<p><b>2. Atmosfera</b></p>
<p>A sua atmosfera podia passar por saudável se não aparecessem na primavera e outono febres de diferentes <span id="MEPE_RP3V">caracteres</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP3" title="Qualidades."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> , cuja causa se pode atribuir aos muitos lagos, ao alimento salgado, e às matas vizinhas que contornam as povoações, o que em parte se podia corrigir com esgoto daqueles e decote destas. O máximo de calor e frio nos quatro anos mais próximos não tem excedido a 88° e 63° do termômetro de Fahrenheit na cidade da Vitória, capital da província. Os ventos dominantes desde março até setembro são sul, sueste e su-sueste, e desde setembro até março são norte, nordeste e leste com algumas variações para outros quadrantes, sendo os mais prejudiciais em toda a costa [os ventos] sueste, leste e su-sueste chamados <span id="MEPE_RP4V">travessia</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP4" title="Vento que sopra em direção normal à costa, ou em direção normal ao rumo seguido pela embarcação."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> pelos marítimos, sendo os do mar úmidos e frios e os outros pelo contrário. As marés têm o seu máximo e mínimo nos meses de março e agosto, e a sua elevação seis para sete palmos. As geadas e neblinas são raríssimas, e de mui poucas horas, e só aparecem nas vizinhanças das montanhas com os ventos sul e leste nos meses de junho e julho. A seis para sete anos a esta parte rara é a trovoada, tendo sido, aliás, mui freqüentes. As chuvas quase têm faltado nos anos desde 1820 até 1826, o que fez tornar em pastagens o que antes eram terrenos impraticáveis, e secou regatos, aliás, em outros tempos perenes; ignoram-se as causas, sendo certo ser uma delas as contínuas derribadas de matos virgens, deixando os montes escalvados<span id="MEPE_RP5V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP5" title="Faltos de vegetação; áridos, estéreis, calvos, descalvados."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> Os tempos das chuvas eram desde setembro até dezembro, mas em 1827 parece ter passado de outubro para janeiro.</p>
<p><b>3. Aspecto do país</b></p>
<p>É montanhoso, desigual, alto, cortado de rios, o terreno em geral é argiloso e areento sobre pedra <span id="MEPE_RP6V">quartzosa</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP6" title="Relativa ao quartzo, ou que tem a natureza dele."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> e micácea<span id="MEPE_RP7V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP7" title="Que contém mica ou é da natureza dela."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> oca e cascalho; [os solos são] úmidos e leves enquanto novos, mas compactos e secos depois de trabalhados e estragados pelos fogos, do qual método se não afastam. A grossura média da terra vegetal é quatro palmos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>4. Serras e montes</b></p>
<p>A costa toda da província é acompanhada por uma cordilheira de montanhas, de que como espinha dorsal fazem de vértebras todas as mais, havendo, contudo, isoladas como a serra do Mestre Álvaro, utilíssima aos navegantes por ter a propriedade de apresentar por todos os lados o mesmo aspecto, o monte Moreno, a Penha e outros muitos. Esta cordilheira se aproxima mais a Guarapari que a outro ponto da costa, e dela distará talvez oito léguas. Não consta que curioso algum investigasse a altura de algum deles, à exceção do da Penha que está acima do nível do mar 100 varas<span id="MEPE_RP8V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP8" title="Antiga unidade de medida de comprimento, equivalente a cinco palmos, ou seja, 1,10m."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> São raras as montanhas descobertas, suposto que todas em geral são riquíssimas de pedras, e talvez bem preciosas, como a serra das Esmeraldas, de que ninguém do <span id="MEPE_RP9V">país</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP9" title="Região, terra, território."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> dá notícia, mas que de fato existem. As que são cobertas e ainda incultas possuem excelentes madeiras de construção.</p>
<p><b>5. Fontes</b></p>
<p>A pouca cultura da província por pessoas de instrução tem, sem dúvida, obstado ao conhecimento das fontes e da natureza de suas águas. De maneira que apenas consta por tradição que em uma fazenda denominada Santana, pouco mais de légua distante da Cidade<span id="MEPE_RP10V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP10" title="Quando o autor escreve a palavra Cidade com inicial maiúscula refere-se a Vitória, única localidade espírito-santense possuidora deste atributo na época em que o texto foi produzido, o que recomenda manter esta grafia."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> há um pequeno regato de águas férreas, tais asseveradas pelo ex-governador, o ilustríssimo Antônio Pires da Silva Pontes, sendo comuns as de que se servem os habitantes. A cidade da Vitória contém três: a da Capixaba, a Fonte Grande e a da Lapa, pequenos regatos que vertem entre morros contíguos, aproveitados por canos que rematam em chafarizes, mas tão pobres em tempo seco que têm chegado os moradores a mandá-las buscar em canoas no rio Marinho, quarto de légua distante da Cidade. Os mais habitantes das vilas e povoações ou se servem dos rios e regatos contíguos ou de fontes denominadas cacimbas. As águas da cidade passam por boas, não obstante principiarem ao terceiro dia de guardadas a alterarem-se, adquirindo um gosto <span id="MEPE_RP11V">aluminoso</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP11" title="Que contém alúmen."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> ou nitroso.</p>
<p><b>6. Rios</b></p>
<p>A província é toda cortada de rios, em geral piscosos em abundância, tendo as suas vertentes pelos sertões de Minas e desaguando ao mar, onde tomam os nomes seguintes principiando da parte do sul.</p>
<p>Itapaboana – vindo da serra do Pico ou dos Guarulhos perto de Muriaé, é na sua barra de três a nove <span id="MEPE_RP12V">palmos</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP12" title="Antiga unidade de medida de comprimento, equivalente a oito polegadas , ou seja, 22cm."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a> no máximo baixa-mar e preamar; seu fundo e margens areentas e variáveis e de largura na barra de 24 braças<span id="MEPE_RP13V">;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP13" title="Antiga unidade de medida de comprimento equivalente a dez palmos, ou seja, 2,2m. [ 14 ] Grande pilar ou suporte."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> para cima tem mais largura e fundo, e corre de oeste a leste.</p>
<p>Itapemirim – formado dos rios do Castelo e Muqui, é na sua barra de 4 a 11 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar; seu fundo e margem esquerda de areia e a direita de pedra, de largura na barra de seis a sete braças, tem para cima mais largura e fundo.</p>
<p>Piúma – formado pelo Piúma propriamente e rio Iconha; é na sua barra de natureza do Itabapoana, é célebre pelas ilhas que tem fora da barra, que abrigam com todos os ventos todos os navios de porte; as suas matas contêm excelentes madeiras de construção e sem moradores, e por isso próprias para uma colônia.</p>
<p>Benevente – é na sua barra de 5 a 10 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar; sua margem direita de pedra, a esquerda de areia dura e seu fundo de lama e areia solta, a sua largura dezoito braças; corre de oeste a leste e é formado dos rios Três Barras, Pongal e Quatinga.</p>
<p>Guarapari – é na sua barra de 34 a 40 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar; margem de pedras e fundo de areia, de largura de trinta e cinco braças, corre de nordeste a sudoeste.</p>
<p>Perocão – de 3 a 9 palmos na sua barra no seu máximo baixa-mar e preamar, de largura de quatro braças, fundo e margem de areia, quinhentas braças acima tem uma ponte de madeira sobre <span id="MEPE_RP14V">pegões</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP14" title="Grandes pilares de alvenaria."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> de pedra e cal.</p>
<p>Jucu – tem a sua barra de 3 a 10 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar, de largura de quatro braças, fundo e margens de pedra, e cinqüenta braças acima tem muito maior largura e fundo; sempre tem tido ponte de madeira, mas atualmente está desconsertada.</p>
<p>Espírito <span id="MEPE_RP15V">Santo</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP15" title="Atual baía de Vitória."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a> – braço de mar, é um <span id="MEPE_RP16V">dardanelo</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP16" title="Estreito."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> até a cidade da Vitória distante uma légua da sua barra, que tem de fundo 17 a 24 palmos no seu baixa-mar e preamar; recebe as águas do rio Santa Maria que é formado dos rios Mangaraí, Caioaba, Curubixá Mirim e Açu, São Miguel, Tauá e Jaculû, e as águas do Cariacica, e um braço do rio Jucu que é formado dos rios Tanque, Santo Agostinho, Pimentas, Manducongo e Araçatiba.</p>
<p>Rio da Passagem – braço de mar com ponte de pegões de pedra e cal e madeira sobreposta, de largura de vinte braças que com o rio Espírito Santo forma a ilha onde está a capital da província.</p>
<p>Jacaraípe – pequeno rio cuja barra se seca todas as vezes que há falta d&#8217;águas, ou ventos do mar que a entulhem d&#8217;areias, mas navegável para o sertão por espaço de cinco léguas.</p>
<p>Nova Almeida – recebe o rio Sauanha, é de 10 a 16 palmos de fundo na sua barra no máximo baixa-mar e preamar, margem e fundo d&#8217;areia, de largura de 25 braças, corre de sudoeste a nordeste, acima tem mais largura e fundo.</p>
<p>Aldeia Velha – de largura de 90 braças, de 10 a 16 palmos de fundo na sua barra no máximo baixa-mar e preamar, fundo e margem de areia, e corre de oeste a leste, e é formado do Piraquê-açu e Piraquê-mirim, da esquerda e margem direita.</p>
<p>Riacho – formado do pequeno rio Comboios e das lagoas seguidas e continuadas do Campo do Riacho, de Aguiar e de Anadia, tem a sua barra de 3 a 8 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar, margens e fundo de areias e pedras, de largura de quatro braças, corre de oeste a leste.</p>
<p>Rio Doce – de largura de um quarto de légua pouco mais ou menos na sua barra, e de 16 a 20 palmos no seu máximo baixa-mar e preamar, de muita velocidade, de margens de areia e fundo de areia e lama, cheio de baixios e ilhas acima da barra, corre de oeste a leste, recebendo da parte direita as águas dos rios Preto, Anadia, Santa Joana, rio d&#8217;Alva, e da parte esquerda dos rios Juparanã, Juparanã-mirim, Pancas, Santo Antônio, São João e Mutum, ficando todos do Porto de Souza para baixo, [local situado a] vinte léguas da barra e daí para cima recebe as águas de outros rios como Manhuaçu, Guandu no território desta província, o ribeirão do Carmo, etc. da província de Minas.</p>
<p>Barra Seca – pequeno rio que nasce no rio Mariricu, um dos que deságuam em São Mateus, e da mesma natureza do Jacaraípe respeito à barra.</p>
<p>São Mateus – formado do rio Mariricu, que vem da lagoa Juparanã, e dos rios Itaúnas, São Domingos e Santana, sendo o primeiro da parte direita; tem na sua barra 6 a 12 palmos d&#8217;água no máximo baixa-mar e preamar, margens e fundo de areia, e mudável o seu canal de largura de seis braças; a largura do rio é de 25 braças, e corre do oeste a leste.</p>
<p>Cada um destes rios, nos quais nada tem a arte feito em benefício seu, serão talvez formados por muitos outros, cujo número, situação e nomes se ignoram, bem como os seus produtos pouco ou nada explorados até esta época.</p>
<p><b>7. Portos e enseadas</b></p>
<p>Todos os rios acima oferecem portos de desembarque mais ou menos consideráveis em razão do fundo das suas barras, havendo nalgumas delas enseadas, bem como a enseada de Itapemirim cheia de baixios e pedras; de Piúma excelente abrigo para todas as embarcações e com todos os ventos; a de Benevente de pouco fundo; a de Guarapari não abrigada, mas de bom fundo para entrar a barra, excetuando de noite, pelo que se verá no número oito; a de Perocão <span id="MEPE_RP17V">inabrigável</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP17" title="Que não oferece abrigo para embarcações."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a> pelas pedras ocultas e baixios; a de Nova Almeida de baixios e pouco fundo; a de Aldeia Velha de bom fundo, mas de pedras e baixios; a do rio Doce, de nome Concha, boa para fundear toda a qualidade de barcos, mas com bonança ou nordeste; a de São Mateus de bom fundo, onde se espera para entrar ventos ou enchentes<span id="MEPE_RP18V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP18" title="Fase da maré entre a baixa-mar e a preamar seguinte."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a></p>
<p>Há além destas as seguintes enseadas: a de Itabapoana, três léguas ao norte da barra deste rio, espaçosa, mas de baixios e pedras, podendo fundear quaisquer barcos na distância de duas léguas da praia; a de Ubu, duas léguas ao norte de Benevente, insignificante e de pouco fundo; a de Meaípe duas léguas ao sul de Guarapari, mas de pouco fundo e inabrigável com vento sul; a de Una duas léguas ao norte de Guarapari e a da Ponta da Fruta quatro léguas; a da Costa meia légua ao sul do Espírito Santo; a de Piraém uma légua ao norte do Espírito Santo; a de Carapebus duas léguas; a de Jacaraípe cinco; a de Capuba seis léguas ao norte do Espírito Santo; a de Flecheiras uma légua ao norte de Nova Almeida — são todas insignificantes por cheias de baixios e pedras. Em geral, todas as enseadas acima se não podem demandar sem risco, sem <span id="MEPE_RP19V">prático</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP19" title="Homem que conhece minuciosamente os acidentes hidrográficos de áreas restritas, e que com esses conhecimentos conduz embarcação através dessas áreas.
"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a> delas.</p>
<div style="text-align: center;">
<b><span style="font-size: 80%;">Tábua das Latitudes e Longitudes dos Lugares mais Notáveis da Costa da&nbsp;</span></b></div>
<div style="text-align: center;">
<b><span style="font-size: 80%;">Província do&nbsp;</span></b><b><span style="font-size: 80%;">Espírito Santo referidas ao Meridiano da Capital do Império do Brasil</span></b></div>
<p></p>
<div align="center">
<table border="1" cellpadding="5" cellspacing="0" style="width: 80%;">
<tbody>
<tr>
<td align="center" width="50%"><b><span style="font-size: 80%;">Lugares</span></b></td>
<td align="center" width="25%"><b><span style="font-size: 80%;">Latitude Sul</span></b></td>
<td align="center" width="25%"><b><span style="font-size: 80%;">Longitude a Leste</span></b></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Campos</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">21° 35&#8242; 40&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 26&#8242; 55&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Riacho Guaxindiba</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">21° 35&#8242; 00&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Santa Catarina das Mós</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">21° 24&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Itabapoana</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">21° 23&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra do Siri</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">21° 13&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Itapemirim</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">21° 10&#8242; 30&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 31&#8242; 45&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Ilha do Francês</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">21° 07&#8242; 30&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 31&#8242; 45&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Piúma</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">21° 00&#8242; 00&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Benevente</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">20° 56&#8243; 00&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 35&#8242; 25&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Guarapari</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">20° 45&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 39&#8242; 25&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Perocão</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">20° 50&#8242; 00&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 39&#8242; 55&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Ponta da Fruta</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">20° 28&#8242; 00&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 43&#8242; 55&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra do Espírito Santo</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">20° 10&#8242; 00&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 42&#8242; 25&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Colégio da Cidade da Vitória</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">20° 17&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 42&#8242; 25&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Ponta do Tagano</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">19° 52&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 44&#8242; 25&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Almeida</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">19° 49&#8242; 30&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 41&#8242; 45&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra de Aldeia Velha</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">19° 43&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 42&#8242; 05&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Rio Doce</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">19° 30&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 40&#8242; 45&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">Barra Seca</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">19° 09&#8242; 30&#8243;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 40&#8242; 45&#8243;</span></td>
</tr>
<tr>
<td align="left" width="50%"><span style="font-size: 80%;">São Mateus</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">18° 45&#8242;</span></td>
<td align="center" width="25%"><span style="font-size: 80%;">2° 40&#8242; 45&#8243;</span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p><b><br /></b><br />
<b>8. Ilhas</b></p>
<p>Em Itapemirim há duas ilhas fora da barra, uma denominada dos Ovos fronteira a ela, e outra denominada Escalvada ao norte dela. Três léguas ao norte do rio Itabapoana, meia légua distante da praia, há a ilha das Andorinhas, pequena, mas agricultada pelo destacamento das Barreiras, que está defronte aquartelado. Neste lugar constantemente aparecia gentio e fazia estrago nos passageiros, o que se corrigiu com este destacamento, do qual saem dois soldados armados a encontrar com quem avistam, tanto de uma parte como de outra, e o acompanham até ficar livre de perigo.</p>
<p>Piúma tem duas ilhas defronte da barra, e a ilha do Francês ao sul dela. Esta ilha continha um poço natural e de mui boa água, e foi mandada atulhar em 1827 pelo Comandante de Itapemirim por se terem dela servido os piratas que infestaram a costa este ano. Guarapari tem a Rasa, Escalvada, outra à terra dela de nome Raposa, e duas pedras alagadas que se descobrem com a maré ao nordeste da Escalvada denominadas Feiticeiras, por causa das quais se não pode à noite demandar este porto. Perocão, ao norte, tem três ilhas e muitas pedras descobertas. Jucu tem uma ilha a leste da barra e entre esta e a barra do Espírito Santo existem as seguintes: Tanguetá, Itatiaia, Pitauã, Jorge Fernandes e Pacotes. O Espírito Santo tem as ilhas do Boi e dos Frades e pelo rio acima se encontram várias; a dos Frades é agricultada. Nova Almeida tem quatro ilhas defronte da barra; a que está à terra se denomina Raposa e as outras mais ao mar, Três Irmãos. Todas estas ilhas são <span id="MEPE_RP20V">inabitadas</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP20" title="Desabitadas."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a> e de pouca consideração pela sua grandeza e produtos, sendo a maior parte de pedras e não produzindo mais que pequenas matas, cardos e musgos.</p>
<p><b>9. Lagos e pântanos</b></p>
<p>Sendo os lugares <span id="MEPE_RP21V">cultos</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP21" title="Cultivados, habitados."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a> da província a costa do mar, de que talvez se não tenham apartado os moradores três léguas, e pelas margens do rio acima quando muito em alguns lugares dez léguas, só se conhecem os lagos que nestes sítios estão, e são os seguintes. Lagoa Salgada ao sul de Itabapoana, junto ao mesmo rio. Morobá, duas léguas ao norte de Itabapoana, junto ao mar. Tabua, meia légua ao norte de Morobá. Tiririca, meia légua ao norte de Tabua. Cocolocage, quarto de légua ao norte de Tiririca. Campinho, quarto de légua distante da Cocolocage ao norte. Siri, quarto de légua distante do Campinho ao norte. Lagoa d&#8217;Anta, perto de meia légua do Siri para o norte. Lagoa Funda, quarto de légua distante da antecedente da parte do norte. Piabanha, meia légua ao norte de Itapemirim. Iriri, meia légua ao norte de Piúma. Maimbá, duas léguas ao norte de Benevente. Abaí, meia légua ao norte de Maimbá. Lagoa de Meaípe, quarto de légua ao norte de Abaí. Graçaí, meia légua ao norte de Meaípe. Lagoa do Campo do Riacho, quatro léguas ao norte de Aldeia Velha, e duas distante do mar; esta se comunica com a lagoa de Aguiar, meia légua para o oeste. Juparanã, sete léguas distante do mar e uma do rio Doce da parte do norte é a mais célebre pela sua grandeza, que tem pelo menos uma légua e meia de diâmetro. Juparanã-mirim, distante desta três léguas [para o lado contrário] do mar e contígua ao rio Doce. Lagoa de Aviz, meia légua ao norte do rio Doce, e oito distante da barra. Lagoa dos Patos, na mesma margem e para o mar distante da antecedente um quarto de légua. Juparanã da Praia, contígua ao mar e duas léguas ao norte do rio Doce.</p>
<p>Todos estes lagos abundam de peixe e nunca secam; é bem provável que pelo interior não haja poucos, os quais inda são desconhecidos, sendo todos acima de água comum, à exceção de Juparanã, que se diz conter muito antimônio.</p>
<p>Não há pântanos memoráveis mais que algumas pequenas margens destas lagoas; há porém alguns lugares paludosos em terrenos tão balofos que qualquer corpo, entrando neles de súbito, quase desaparece; tais são as vertentes do rio Mariricu e rio Preto, e a margem do <span id="MEPE_RP22V">meio-dia</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP22" title="O ponto cardeal Sul."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a> da lagoa Juparanã. Em geral, há imensos brejos pelas margens dos rios e lagoas e entre montes, que produzem juncos, tabuas, lírios e tiriricas, em algumas das margens, dos quais se fazem belas plantações de arroz. Nas margens do mar tais brejos estão cheios de mangues de diferentes qualidades.</p>
<p>Com bem pouco trabalho se podiam tornar estes terrenos excelentes para as lavouras e criação, o que se não faz ou por indolência, ou pela abundância de terras.</p>
<p><b>10. Planícies baldios e matas</b></p>
<p>Bem como as montanhas, possui também a província muitas planícies, sendo em geral as margens dos rios tão próprias para a agricultura como para a criação, mas as mais notáveis pela sua extensão são as seguintes. A Muribeca, de nove léguas de costa de mar e seis de largo mais ou menos, pertencente à fazenda do mesmo nome junto ao rio Itabapoana. Campo da vila do Espírito Santo<span id="MEPE_RP23V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP23" title="Atual município de Vila Velha."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a> baldio de duas léguas de extensão em comprimento e uma de largura, de que se servem os moradores vizinhos para a criação. Carapina, distrito da Cidade, tem um baldio de três léguas de extensão e uma de largura, de que se servem os moradores contíguos para criação. Desde o rio Doce até São Mateus há um baldio de vinte léguas, de imenso gado montado<span id="MEPE_RP24V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP24" title="Com muitos animais a esmo?"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a> nenhuma parte dele é empregada em cultura nem criação; o Marquês de Baependi aqui possui uma sesmaria de três léguas que as houve por compra. O Campo do Riacho possui um baldio de duas léguas em quadra, de que se servem os índios tanto para plantações como criação.</p>
<p>À exceção do que está descrito, quase tudo o mais são matas virgens, e riquíssimas em madeiras de toda a qualidade e de outros mil produtos incógnitos até esta época, e só habitadas por feras e selvagens. [Como] muitos anos de esforço por hábeis naturalistas não seriam suficientes para a completa descrição dos produtos vegetais, referirei das madeiras indígenas as mais triviais, e geralmente conhecidas no país. Madeiras de construção da ribeira: sucupira, maraçanatiba, grapiapunha, jataí-peba, caubi, pequi, guaiti, sapucaia-mirim, guanandi-carvalho, sobro, peroba, amarelo, tapinhoã, canela, araribá, angelim, cerejeira, sapucaia-açu e camará. Madeiras de construção de edifícios civis: inhuíba de rego, <span id="MEPE_RP25V">dito</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP25" title="Mencionado, referido."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a> pimenta, dito cheirosa, dito funcho, dito canela, dito tapinhoã, cedro, guaticica, guarabu-roxo, dito mirim, imbiriba, ubatinga, caingá, bicuíba, paraju, maçaranduba, arariba, caixeta, jequitibá, ouri, taicica-roxa, ubapeba, pequiá de duas qualidades, ipê, paratudo, ingá, óleo, cubixá, aderno, faia, guaraná, pimentinha, brasil, tatagiba, vinhático, roxinho, jacarandás de diferentes qualidades, jiriquitim, louro, guarabu-açu semelhante ao sebastião-arruda, [mas que] em lugar de vermelho tem as ondas sobre-escuras.<br />
<b><br /></b><br />
<b>11. Sesmarias</b></p>
<p>O governo, por carta régia de 17 de janeiro de 1814, é autorizado para conceder <span id="MEPE_RP26V">sesmarias</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP26" title="Lote de terra inculto ou abandonado, que os reis de Portugal cediam a sesmeiros que se dispusessem a cultivá-lo."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a> e, com efeito, as tem concedido [em número de] cento e setenta e quatro, sendo cada uma de meia légua <span id="MEPE_RP27V">quadrada</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP27" title="Légua de sesmaria – antiga unidade de medida de superfície agrária, equivalente a um quadrado de 3.000 braças de lado, ou seja, 4.356ha."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a> (excetuando algumas) das quais a maior parte não está nem cultivada, nem confirmada<span id="MEPE_RP28V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP28" title="Os sesmeiros só recebiam do governo a confirmação de suas terras após ocupá-las e cultivá-las."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a> pertencendo todas a súditos brasileiros.</p>
<p>No rio Doce e margens de Juparanã estão concedidas oitenta e duas, das quais apenas são cultivadas duas, e nenhuma confirmada. Em Monsarás há duas não confirmadas. Em Aldeia Velha, compreendendo a povoação do Riacho e Nova Almeida, há uma toda cultivada de doze léguas [de comprimento] e seis de fundo pelo sertão, concedida a 6 de novembro de 1610 pelo donatário Manuel Garcia Pimentel aos índios destas aldeias, confirmada pelo alvará de 2 de janeiro de 1759; há dentro desta uma de meia légua concedida pelo governo em razão de não estar por eles cultivada, a qual inda não está nem cultivada, nem confirmada. Na freguesia da Serra há sete cultivadas, mas uma só confirmada. No termo da Cidade há quatorze cultivadas, mas só quatro confirmadas.</p>
<p>Na povoação de Viana, à esquerda do rio Santo Agostinho, há cinqüenta [sesmarias] de 112 braças de testada e 500 de fundo cada uma concedida pelo governo em 1812 aos colonos vindos das ilhas dos Açores por ordem da polícia de 17 de novembro daquele ano, as quais são cultivadas e confirmadas; há mais seis não confirmadas, porém cultivadas, pertencentes aos descendentes dos mesmos.</p>
<p>Em Guarapari há uma só cultivada, mas não confirmada. Em <span id="MEPE_RP29V">Benevente</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP29" title="Atual município de Anchieta."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a> há dez cultivadas, e destas só duas confirmadas. Em Itapemirim há seis cultivadas, e destas só três confirmadas. Na Estrada de Minas há uma só, de quarto de légua, cultivada e não confirmada.</p>
<p>O cumprimento exato das leis relativas a sesmarias talvez pusesse a maior parte delas em mãos de quem as trabalhasse e cultivasse.</p>
<p>Há na província porções de território denominados indivisos<span id="MEPE_RP30V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP30" title="Não dividido; que pertence cumulativamente a vários indivíduos."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a> isto é, terrenos em que muitos têm posse sem saberem o quantum nem o ubi<span id="MEPE_RP31V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP31" title="Sem saberem o tamanho e a localização exata."><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a> mas as porções lavradas deles lhes pertencem particularmente, e só as perdem passando 10 anos sem as cultivar. Desta sorte cada um dos possuidores procura lavrar muitas terras para lhes chamar suas, e com elas crescendo a ambição, e não podendo cultivar tantas, se tornam capoeiras; outro as roça com o mesmo intento — eis a origem das demandas em que se despedaçam, puxando cada um todas as pontas, que lhe <span id="MEPE_RP32V">subministra</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP32" title="Fornece, ministra."><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a> a sua ambição e a <span id="MEPE_RP33V">chicana</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP33" title="Sutileza capciosa, em questões judiciais."><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a> ordinária. O meio de evitar tais pleitos era demarcar e dividir o indiviso na proporção do que cada um tem nele. Esta divisão não pode ser feita por juízes leigos, e só o poderia ser sendo geômetra, e por isso seria bom haver para este fim um juízo privativo, para que tais divisões se fizessem de modo que cada um tivesse igual parte nas vantagens, inconvenientes e desigualdade das terras, e no bem ou mal que produzem, sendo preciso que em terras variáveis e sujeitas a inundações as porções desiguais em quantidade difiram em qualidade: uma braça de terra, por exemplo, que produz 100 por 1 equivale a duas que produzam 50 por 1. Por tal juízo se devem fazer as medições, e não se confiar em simples <span id="MEPE_RP34V">pilotos</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP34" title="Agrimensores, medidores de terras."><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a> e infiéis bússolas e cordas<span id="MEPE_RP35V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP35" title="Antiga unidade de medida de comprimento equivalente a 15 palmos, ou seja, 3,3m. Por extensão, instrumento de medição que tinha esta medida ou múltiplos dela."><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a> Seria também muito bom que ninguém chamasse sua certa porção de terras sem ter a planta delas, registrada no mesmo juízo onde se notariam as vendas e compras; e da reunião destas cópias se formaria exata e insensivelmente a topografia do país. Para se fazer alguma idéia basta dizer que o indiviso que pertence a vários, <span id="MEPE_RP36V">fuão</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP36" title="Forma sincopada de fulano."><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a> tem 1$000 <span id="MEPE_RP37V">réis</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP37" title="O sistema monetário da época pode ser assim exemplificado: 1 real, 10 réis, 100 réis (ou um tostão), 1$000 (mil-réis), 100$000 (cem mil réis), 1:000$000 (um conto de réis)."><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a> e fuão tem 16$000 réis, e outro tem igual, maior ou menor parte, e com igual direito; ignora-se se em outras províncias do Império acontece o mesmo. Os indivisos mais notáveis são os seguintes: Campo Grande de 4 léguas quadradas com pouca diferença, Carapina e Laranjeiras 3 quadradas, Costa da Praia 2 léguas quadradas, Curipé e Mulundu duas quadradas, e quase todo o terreno da ilha da Vitória que contém ¾ de légua quadrada.</p>
<p>Além das terras ditas há as fazendas do Conde de Vila Nova de São José junto ao rio de Guarapari de 4 léguas de costa de mar; a Muribeca de 9 léguas de costa de mar e 8 de fundo; a fazenda dos Falcões denominada Araçatiba, de 2 léguas quadradas à margem do Jucu e a fazenda Jacaruaba de 2 e ½ léguas de comprimento e 2 de largura, que foram dos extintos jesuítas, e provavelmente concedidas pelos donatários, como sempre o fizeram, dando, aforando e vendendo como lhes convinha qualquer parte do território e marinhas.</p>
<p>As câmaras se arrogaram o direito de conceder foros sem princípio ou motivo, mas este procedimento foi mandado obstar pelo governo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>12. Agricultura</b></p>
<p>É a agricultura em que se emprega a mor parte dos habitantes da província, onde com preferência se cultiva a cana-de-açúcar, mandioca, algodão, milho, café, feijão e arroz; o único meio de preparar as terras para este fim é roçar, derribar, queimar, depois de secas suficientemente, e plantar.</p>
<p>Preferem-se as terras baixas e alagadiças para arroz, e matos virgens para mandioca, porque nestes são mais volumosas as raízes e se conservam mais tempo incorruptíveis quando a falta de tempo não lhes permite colher no próprio, além de que em matos virgens se faz até três plantações sem incômodo das formigas, que em terra velha não deixa vicejar a planta; quanto para as mais plantações todo o terreno é bom, com pouca diferença.</p>
<p>O valor das terras é mui variável e dependente do seu estado, da sua posição e do seu benefício, podendo-se computar em 500$000 réis uma sesmaria de meia légua quadrada. As primeiras plantações se fazem de março até abril, e as segundas de setembro até outubro, não esquecendo a lua nova que muitos querem que influa nelas. A sua colheita se faz sem a menor arte.</p>
<p>Os transportes se fazem em carros com bois, em cargas com animais cavalares e a maior parte se transporta em canoas símplices<span id="MEPE_RP38V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP38" title="Simples."><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a></p>
<p>Os instrumentos de que se servem para as plantações são enxadas, foices, facões e machados.</p>
<p>Os agrícolas pouco ou nada se empregam em plantas alimentárias; sem embargo fazem alguns mais curiosos suas plantações de abóboras, alfaces, batatas, couves, ervilhas, favas, mostardas, inhames, repolhos, pepinos, melões, melancias, ananases, mandubis<span id="MEPE_RP39V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP39" title="Amendoins."><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a> gergelins, bananeiras de árvores frutíferas, laranjeiras, limeiras, limoeiros, cidreiras e figueiras, mangueiras, jaqueiras, romeiras, tamarindos, coqueiros de diferentes qualidades, sendo espontâneas as goiabeiras e cajueiros, agriões, beldroegas, bredos, serralhas e erva-moura.</p>
<p>Acham-se também muitas plantas medicinais como artemísia, alecrim, arruda, malvas, avenca, babosa, alfazema, mechoacão ou batata-de-purga, boas-noites, salsaparrilha, cardo-santo, cocleária, mastruço, chicória, dormideira, endro, saião, feto-macho, grama, erva-de-bicho ou cataia, erva-capitão, lírio-de-florença, quina, labaça-aguda, língua-de-vaca, orjevão, parietária, sabugueiro, salsa-da-praia, tanchagem, trevo-azedo, balsameira, almecegueira, fedegoso, pau-de-óleo, pariparoba ou capeba, poaia, joanésia, copaibeira, bicuíba, pinhão-purgante, jandiroba-oleoso, fumo-bravo ou saçoaiá ou erva-colégio, mentrasto, maririçó, cordão-de-frade, bucha-dos-paulistas; especiarias como a alfavaca, alhos, manjeronas, baunilha, salsa, cebolas, coentro, erva-doce, gengibre, hortelã, pimentas de todas as qualidades, pau-cravo, cuja casca tem o próprio aroma de cravo-da-índia.</p>
<p>Também se acham em algumas hortas as flores boninas, bem-me-queres, malmequeres, saudades, cravos, cravelins, cravos-de-defunto, esporas, jasmins, girassol, melindres, perpétuas, rosas cheirosas e da índia, suspiros, angélica, sensitivas, açucenas e alecrim.</p>
<p>Também se acham tinturarias como açafrão e casca de arariba que produzem escarlate com pedra-ume; urucum e a casca de aroeira, que produzem vermelho; tatagiba que produz amarelo; guaraúna, cujo cozimento é preto; pacoba que produz roxo; pau-brasil e casca do ingá que produzem vermelho; casca de sapucaia-mirim que faz roxo, e com lama faz preto; fruta do pau-ferro que é talvez a verdadeira noz-de-galha; o anil, que já aqui se fabricou muito e se desusou este ramo de comércio porque houve anos em que as folhas foram todas estragadas por nova espécie de insetos, que talvez agora não apareçam; um arbusto no Porto de Souza cuja maceração das folhas produz lindíssimo roxo, não se lhe sabe o nome e nem se descreve por falta de tempo, e não se achar com prontidão que se deseja.</p>
<p>Também se encontram plantas venenosas como o tingui, tipi, oficial-de-sala, esponja, aqui chamada <span id="MEPE_RP40V">coronha-triste</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP40" title="Existe dicionarizada a palavra coroa-crísti."><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a> e outras muitas.</p>
<p>As de fiação são as seguintes: algodão, tucum, gravatá e piteira. O tempo de florescência é em setembro e da maturação, abril e maio. Viveiros de plantas unicamente se faz para café, que desta província não é o melhor, e de fumo, que também se cultiva no país, sendo tão pouco que é gênero que inda se importa. São nocivas às plantações a paca, o caititu, a cotia, os porcos-do-mato, os guaxinins, a maitaca, a nandaia, o papa-juá, que comem as espigas de milho e algodão antes de sazonado<span id="MEPE_RP41V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP41" title="Pronto para se colher (fruto); maduro, amadurecido."><sup><b>[ 41 ]</b></sup></a> o grumará e a rola que arrancam o grão do milho e do arroz quando começa a nascer, o papa-arroz que o come desde que começa a granizar<span id="MEPE_RP42V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP42" title="Dar forma de grãos a."><sup><b>[ 42 ]</b></sup></a> as lagartas de diferentes cores, a formiga, que é imensa, o grilo, o tortulho, que debaixo da terra se transforma em inseto e come a raiz das plantas, o gorgulho, de nome provisório, de figura de um percevejo preto que se cria no feijão e o arrasa, e finalmente a broca que fura todo o pau. Ora, estes inimigos, o sistema de queimar as terras depois de escalvadas, a nenhuma arte de adubá-las faz que seja módico o rendimento da lavoura que já seria nulo se não houvesse ainda muitas matas a derribar e queimar, isto é, para estragá-las.</p>
<p>Não há estabelecimento algum de agricultura e coudelaria<span id="MEPE_RP43V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP43" title="Haras – campo ou fazenda de criação de cavalos de corrida; caudelaria."><sup><b>[ 43 ]</b></sup></a></p>
<p>O milho produz 50 por um <span id="MEPE_RP44V">alqueire</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP44" title="Antiga unidade de medida de capacidade para secos, equivalente a quatro quartas, ou seja, 36,27 litros."><sup><b>[ 44 ]</b></sup></a> e custa em termo médio 440. O arroz 100 por um alqueire que custa a 320. O feijão 40 por um alqueire que custa 1$200, e o algodão 25 por uma <span id="MEPE_RP45V">arroba</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP45" title="Antiga unidade de medida de peso, equivalente a 32 arráteis, ou seja, 14,7kg, aproximadamente."><sup><b>[ 45 ]</b></sup></a> que custa 960 réis. O arroz se planta com palmo e meio de intervalo, o feijão com três palmos, o milho com cinco e o algodão com seis; donde se vê que há desvantagem em plantar algodão, mas é compensada porque quando se planta o milho ou feijão, se planta o algodão, e este fica quando algum daqueles se colhe. A braça quadrada dá nove covas de mandioca; dezesseis covas dão um alqueire. Um carro de cana caiana plantada dá vinte e cinco carros; cada carro de cana dá duas arrobas de açúcar. Um carro de milho descascado dá vinte alqueires. O feijão, arroz e milho dão de três meses; o algodão e mandioca de ano, e a cana de ano e meio.</p>
<p>Tal ou qual particular tem em sua casa dois ou três cortiços<span id="MEPE_RP46V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP46" title="Caixas cilíndricas, de cortiça, nas quais as abelhas se criam e fabricam o mel e a cera; colméias.
"><sup><b>[ 46 ]</b></sup></a> talvez só por ter. Pela Tabela da Exportação ao fim se vê que os gêneros produzidos excedem às necessidades do país.<br />
<b><br /></b><br />
<b>13. Animais</b></p>
<p>Uma parte dos lavradores se emprega também na criação do gado de diferentes espécies, de maneira que há na província, com pouca diferença, oito mil cabeças de gado vacum, dos quais se mata semanalmente nos açougues 10. Nenhuns são empregados na lavoura, mas do gênero masculino, que serão três mil e quinhentos, se empregaram mil e quinhentos em fábricas de açúcar e algumas conduções em carros. O seu alimento ordinário é o capim, que nasce naturalmente nos baldios ou em prados artificiais, nos quais se têm sem separação alguma, nem de sexo, nem de idade. O preço médio de um boi é 14$000 réis e o seu peso oito arrobas; o preço de uma vaca é 12$000 e seu peso seis arrobas. As suas moléstias são a bicheira, procedente de qualquer arranhadura, onde as moscas depositam os seus ovos, donde saem as <span id="MEPE_RP47V">varejas</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP47" title="Designação vulgar dos ovos da mosca-varejeira, antes de atingirem a fase de larva."><sup><b>[ 47 ]</b></sup></a> que, estimulando e correndo as carnes, chegam a aumentar a chaga, emagrecer e matar o animal — a sua cura ordinária é o mercúrio doce que as mata; a papeira, que é uma inflamação na mandíbula inferior que cresce e faz emagrecer o gado até morrer — a sua cura é queimar com ferro em brasa e curar a chaga resultante com algum dessecante, ou folha, ou casca adstringente como a de aroeira ou outra qualquer; o carbúnculo, que faz inchar o gado e morrer ficando com as unhas abertas — ignora-se remédio para este mal; a falta de pastos faz também que o gado sôfrego não escolha pasto e assim come com ele ervas venenosas que o matam. O gado cavalar em ambos os sexos monta a 1.060, sendo do gênero feminino 430, e o preço médio destes é a 20$000 réis e daqueles 32$000; as suas espécies são guinilhas<span id="MEPE_RP48V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP48" title="Cavalos de andadura pesada, ou que andam pouco."><sup><b>[ 48 ]</b></sup></a> mestiços e sendeiros<span id="MEPE_RP49V">;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP49" title="Diz-se de, ou os cavalos de carga, robustos, mas de corpulência escassa."><sup><b>[ 49 ]</b></sup></a> o seu sustento é igual ao do gado vacum, nenhum é empregado em fábricas, tais e quais se empregam em cargas, e tal ou qual é ferrado e de estrebaria.</p>
<p>O gado muar em ambos os sexos não excede a 100, o seu preço médio 32$000 réis, metade se emprega em fábricas e metade em transportes. O gado caprino há 200 de ambas as espécies, nenhum se mata nos açougues e o seu preço é 1$280 [réis]. Gado ovelhum há dois mil, nenhum vai ao açougue e o seu preço é 1$000 réis. Porcos há 800, é raro o que vem ao açougue, seu preço 8$000 réis e a <span id="MEPE_RP50V">libra</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP50" title="Unidade de medida de massa, igual a 0,45359237kg, utilizada no sistema inglês de pesos e medidas."><sup><b>[ 50 ]</b></sup></a> a 60 réis.</p>
<p>As galinhas de ambos os sexos custam a 480 réis e há 4.000 cabeças, e poucas as chamadas da índia. Patos custam a 320 e há 1.000. Perus custam a 880 réis e há 200. Marrecos custam a 320 e há 1.000. Capões custam a 560 e há 100. Frangos custam a 120 e há 6.000. Pombos custam a 120 e há 300.</p>
<p>Há na província muitos animais de caça, sendo os mais triviais macacos de diferentes espécies, raposas, onças, quatis, lontras, ouriços, lebres, coelhos, veados, porcos-do-mato, tamanduás, preguiças, antas, tatus, cotias; araras, papagaios, garças, mergulhões, pombas; tartarugas, cágados, lagartos. Também há muitos [animais] de pesca como são a arraia, peixe-prego, lixa, tubarão, cação, moréia, peixe-rei, peixe-espada, pescadas, galos, gudião, sarda, cavala, carapiá, salmonete, cabrinha, cornuda, tainhas, sardinhas. Insetos: besouros de diferentes qualidades, carochas, baratas, gafanhotos, grilos, louva-a-deus, percevejos, borboletas de todas as qualidades, traças, vespas de diferentes qualidades, abelhas, formigas, moscas, mosquitos, piolhos, pulgas, escorpião, lagostas, camarões. Vermes: minhocas, sanguessugas, lesmas, polvos, estrelas-do-mar e ouriço-do-mar, berbigão, mexilhão, búzios, caracóis, conchas, esponjas. Répteis: sapos, rãs, cobras de diferentes qualidades. Além dos acima mencionados existem muitos cuja zoologia ocuparia muitos anos e, talvez, muitos volumes.</p>
<p><b>14. Minas e pedreiras</b></p>
<p>Ao ex-capitão-mor desta província João de Velásquez Molina em 1693 foi anunciada a existência de ouro nas margens do rio Doce, junto ao córrego do Ouro Preto, e lhe foram apresentadas três oitavas dele que, recebendo a câmara, mandou fazer duas memórias<span id="MEPE_RP51V">:</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP51" title="Anéis comemorativos."><sup><b>[ 51 ]</b></sup></a> uma para o capitão-mor e outra para o anunciante Antônio Dias Arzão, natural de Taubaté, homem empreendedor, que se <span id="MEPE_RP52V">recolhia</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP52" title="Que voltava para casa."><sup><b>[ 52 ]</b></sup></a> desse sítio com cinqüenta homens de sua comitiva; nesta ocasião se lhes prestaram o que lhes era necessário para nova entrada dos sertões. Esta foi a primeira descoberta de ouro nesta província.</p>
<p>Pedro Bueno Cacunda descobriu as Minas do Castelo em 1732 às margens do rio Itapemirim, doze léguas da barra, e participando ao capitão-mor desta vila, este lhe mandou ali estabelecer um arraial, nomeando provedor, tesoureiro e escrivão para melhor arrecadação dos direitos, e como trabalhavam sem arte alguma, dificultando-se a extração deste metal, e sendo incomodados do gentio, se foram retirando, de sorte que atualmente nenhum morador tem. É de fato ter recebido a extinta Provedoria em 1738 cento e vinte e uma oitavas. Consta que chegaram a ter cinco povoações, cuja maior parte formaram a vila de Itapemirim.</p>
<p>Em 1614 Marcos de Azeredo Coutinho foi encarregado por Sua Majestade (que então governava Portugal) com promessas de mercês de descobrir as Minas das Esmeraldas de que lhe tinha pessoalmente mostrado as amostras; e em 1644 ordenou Sua Majestade Fidelíssima a Francisco do Souto Maior auxiliasse o descobrimento e <span id="MEPE_RP53V">entabulamento</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP53" title="Início de exploração."><sup><b>[ 53 ]</b></sup></a> das ditas minas, de cuja existência estava informado, podendo levar os dois filhos de Marcos de Azeredo, os padres Inácio de Siqueira e Francisco de Moraes, e os índios que precisassem com licença dos padres; ignora-se porém o resultado de tais comissões, e só se sabe que o dito Marcos faleceu em 1618. São estas as únicas notícias que há de minas na província, sendo certo haver muitos e muitos lugares mais ou menos ricos de ouro, especialmente nas vertentes dos rios que deságuam no Jucu, no Juparanã, nas cabeceiras de Itapemirim, nas vertentes de Santa Maria, rio Castelo, etc. e ouro muito, e muito puro.</p>
<p>Não consta de minas de ferro, pois alguma pedra que contém algum óxido é em tão pequena quantidade, que não faz supor existência deste metal; nem tão pouco consta de outro algum mineral. É muito provável haverem muitos produtos, e talvez abundantes, o que se não tem explorado, sendo muito triviais cristais de rocha, com algumas variedades como ametistas.</p>
<p><b>15. Curiosidades naturais</b></p>
<p>No rio Doce foi achada uma figura petrificada de homem com mãos na cintura por João Felipe de Almeida Calmon, ignora-se a sua perfeição, e o gênero de pedra, e se existe.</p>
<p>Em 1815 foi achado um hipopótamo da grandeza de um cavalo, e com cauda de sete varas no rio da vila nova de Almeida, encalhado com a vazante.</p>
<p>Em muitos lugares da província há grutas, que não têm aqui lugar por nada conterem de notável nem pela sua regularidade e forma, nem pela matéria de que são formadas, servindo até aqui de asilo de alguns escravos fugidos, bem como a conhecida no morro da Lapa denominada de Pai Inácio. Quantos destes objetos terão sido desprezados pela ignorância!</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<div id="MEPE_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Antiga unidade brasileira de medida itinerária, equivalente a 3.000 braças, ou seja, 6.600m.</div>
<div id="MEPE_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Antiga denominação comum aos tribunais de justiça de segunda instância.</div>
<div id="MEPE_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Qualidades.</div>
<div id="MEPE_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Vento que sopra em direção normal à costa, ou em direção normal ao rumo seguido pela embarcação.</div>
<div id="MEPE_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Faltos de vegetação; áridos, estéreis, calvos, descalvados.</div>
<div id="MEPE_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Relativa ao quartzo, ou que tem a natureza dele.</div>
<div id="MEPE_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Que contém mica ou é da natureza dela.</div>
<div id="MEPE_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;Antiga unidade de medida de comprimento, equivalente a cinco palmos, ou seja, 1,10m.</div>
<div id="MEPE_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Região, terra, território.</div>
<div id="MEPE_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Quando o autor escreve a palavra Cidade com inicial maiúscula refere-se a Vitória, única localidade espírito-santense possuidora deste atributo na época em que o texto foi produzido, o que recomenda manter esta grafia.</div>
<div id="MEPE_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Que contém alúmen.</div>
<div id="MEPE_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;Antiga unidade de medida de comprimento, equivalente a oito polegadas , ou seja, 22cm.</div>
<div id="MEPE_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Antiga unidade de medida de comprimento equivalente a dez palmos, ou seja, 2,2m.</div>
<div id="MEPE_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;Grandes pilares de alvenaria.</div>
<div id="MEPE_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;Atual baía de Vitória.</div>
<div id="MEPE_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;Estreito.</div>
<div id="MEPE_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Que não oferece abrigo para embarcações.</div>
<div id="MEPE_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;Fase da maré entre a baixa-mar e a preamar seguinte.</div>
<div id="MEPE_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Homem que conhece minuciosamente os acidentes hidrográficos de áreas restritas, e que com esses conhecimentos conduz embarcação através dessas áreas.</div>
<div id="MEPE_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&amp;nbspDesabitadas.</div>
<div id="MEPE_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;Cultivados, habitados.</div>
<div id="MEPE_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;O ponto cardeal Sul.</div>
<div id="MEPE_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;Atual município de Vila Velha.</div>
<div id="MEPE_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;Com muitos animais a esmo?</div>
<div id="MEPE_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;Mencionado, referido.</div>
<div id="MEPE_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;Lote de terra inculto ou abandonado, que os reis de Portugal cediam a sesmeiros que se dispusessem a cultivá-lo.</div>
<div id="MEPE_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Légua de sesmaria – antiga unidade de medida de superfície agrária, equivalente a um quadrado de 3.000 braças de lado, ou seja, 4.356ha.</div>
<div id="MEPE_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;Os sesmeiros só recebiam do governo a confirmação de suas terras após ocupá-las e cultivá-las.</div>
<div id="MEPE_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;Atual município de Anchieta.</div>
<div id="MEPE_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;Não dividido; que pertence cumulativamente a vários indivíduos.</div>
<div id="MEPE_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP31V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a>&nbsp;Sem saberem o tamanho e a localização exata.</div>
<div id="MEPE_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP32V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a>&nbsp;Fornece, ministra.</div>
<div id="MEPE_RP33">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP33V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a>&nbsp;Sutileza capciosa, em questões judiciais.</div>
<div id="MEPE_RP34">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP34V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a>&nbsp;Agrimensores, medidores de terras.</div>
<div id="MEPE_RP35">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP35V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a>&nbsp;Antiga unidade de medida de comprimento equivalente a 15 palmos, ou seja, 3,3m. Por extensão, instrumento de medição que tinha esta medida ou múltiplos dela.</div>
<div id="MEPE_RP36">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP36V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a>&nbsp;Forma sincopada de fulano.</div>
<div id="MEPE_RP37">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP37V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a>&nbsp;O sistema monetário da época pode ser assim exemplificado: 1 real, 10 réis, 100 réis (ou um tostão), 1$000 (mil-réis), 100$000 (cem mil réis), 1:000$000 (um conto de réis).</div>
<div id="MEPE_RP38">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP38V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a>&nbsp;Simples.</div>
<div id="MEPE_RP39">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP39V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a>&nbsp;Amendoins.</div>
<div id="MEPE_RP40">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP40V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a>&nbsp;Existe dicionarizada a palavra coroa-crísti.</div>
<div id="MEPE_RP41">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP41V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 41 ]</b></sup></a>&nbsp;Pronto para se colher (fruto); maduro, amadurecido.</div>
<div id="MEPE_RP42">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP42V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 42 ]</b></sup></a>&nbsp;Dar forma de grãos a.</div>
<div id="MEPE_RP43">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP43V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 43 ]</b></sup></a>&nbsp;Haras – campo ou fazenda de criação de cavalos de corrida; caudelaria.</div>
<div id="MEPE_RP44">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP44V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 44 ]</b></sup></a>&nbsp;Antiga unidade de medida de capacidade para secos, equivalente a quatro quartas, ou seja, 36,27 litros.</div>
<div id="MEPE_RP45">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP45V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 45 ]</b></sup></a>&nbsp;Antiga unidade de medida de peso, equivalente a 32 arráteis, ou seja, 14,7kg, aproximadamente.</div>
<div id="MEPE_RP46">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP46V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 46 ]</b></sup></a>&nbsp;Caixas cilíndricas, de cortiça, nas quais as abelhas se criam e fabricam o mel e a cera; colméias.</div>
<div id="MEPE_RP47">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP47V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 47 ]</b></sup></a>&nbsp;Designação vulgar dos ovos da mosca-varejeira, antes de atingirem a fase de larva.</div>
<div id="MEPE_RP48">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP48V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 48 ]</b></sup></a>&nbsp;Cavalos de andadura pesada, ou que andam pouco.</div>
<div id="MEPE_RP49">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP49V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 49 ]</b></sup></a>&nbsp;Diz-se de, ou os cavalos de carga, robustos, mas de corpulência escassa.</div>
<div id="MEPE_RP50">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP50V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 50 ]</b></sup></a>&nbsp;Unidade de medida de massa, igual a 0,45359237kg, utilizada no sistema inglês de pesos e medidas.</div>
<div id="MEPE_RP51">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP51V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 51 ]</b></sup></a>&nbsp;Anéis comemorativos.</div>
<div id="MEPE_RP52">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP52V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 52 ]</b></sup></a>&nbsp;Que voltava para casa.</div>
<div id="MEPE_RP53">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/#MEPE_RP53V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 53 ]</b></sup></a>&nbsp;Início de exploração.</div>
<p>[Reprodução autorizada por Fernando Achiamé.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1978&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Inácio Acióli de Vasconcelos </b>foi o primeiro presidente da província do Espírito Santo e governou de 1824 a 1829, período em que a província atravessava grande dificuldade econômica e decadência geral das instituições. A partir de 1858, como primeiro tenente, foi comandante do navio de guerra&nbsp;<i>Ibicuí</i>, da Marinha do Brasil.</p></blockquote>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-estatistica-da-provincia-do/">Memória estatística da província do Espírito Santo escrita no ano de 1828</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Memórias do passado: A Vitória através de meio século</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Oct 2016 19:19:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Antunes de Siqueira (Pe.)]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Autor: Padre Francisco Antunes de Siqueira&#160; Edição de texto, estudo e notas: Fernando Achiamé &#160; Introdução O culpado pela elaboração deste trabalho é Reinaldo Santos Neves. Há mais de dez anos me entregou uma transcrição de artigos publicados de forma anônima no jornal A Província do Espírito Santo em 1885. Pediu que fizesse um breve [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-7vg5h6921t8/V_fmrW5RtAI/AAAAAAAAKZg/WItEM0cAF5QeU21P5Y9xuSyDtvNVLcPyQCLcB/s1600/capa.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/10/capa.jpg" class="wp-image-5292" width="424" /></a></div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: right;">
Autor: Padre Francisco Antunes de Siqueira&nbsp;</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: right;">
Edição de texto, estudo e notas: Fernando Achiamé &nbsp;</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<h3 style="clear: both;">
<b>Introdução</b></h3>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
O culpado pela elaboração deste trabalho é Reinaldo Santos Neves. Há mais de dez anos me entregou uma transcrição de artigos publicados de forma anônima no jornal <i>A Província do Espírito Santo</i> em 1885. Pediu que fizesse um breve estudo sobre eles, adiantando que faltavam algumas partes que não pudera obter. O estudo e a transcrição seriam publicados pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida, em cuja editora Reinaldo trabalhava na época. Fui logo lendo a transcrição. Achei a obra muito interessante e interessado fiquei em localizar as partes faltantes (cinco artigos ao todo) e preencher as poucas lacunas da transcrição. E, é claro, descobrir o autor do escrito.</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
Os artigos que faltavam (de números 14, 15, 16, 24 e 26) foram facilmente obtidos, bem como preencheram-se as lacunas da transcrição, no acervo de microfilmes do Arquivo Público Estadual que por essa época já tinha microfilmado (em conjunto com a Biblioteca Nacional) os jornais mais antigos da nossa terra. Aproveitei para corrigir alguns trechos incorretos da transcrição. Já estava completamente tomado pela obra e comecei a conversar com ela procurando resposta para minha pergunta fundamental: “Quem te escreveu?” Não demorei muito a descobrir o autor da façanha entre os escritores capixabas do século passado. Acredito mesmo que o padre Francisco Antunes de Siqueira (filho) queria encobrir-se, <i>ma non troppo</i>. Levantei passagens significativas da vida do ilustre capixaba em jornais da época e em livros de história espírito-santense. Cotejei a obra em causa com outra do mesmo autor para comprovar a atribuição, esbocei as partes da presente crítica e… larguei o trabalho de lado, embora pensando nele de vez em quando.</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
Tencionava pesquisar no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro os processos de habilitação de <i>genere e vita et moribus</i>, já que a figura em causa era padre secular. Aliás cheguei a ter em mãos os referidos processos em 1995 em rápida estada naquela cidade, fiquei de voltar no dia seguinte para fazer uma transcrição das suas peças principais, mas encontrei o arquivo fechado, helas. Este negócio de a gente querer sempre fazer um trabalho muito perfeito e completo resulta em que não se faz trabalho algum. Usava a consulta aos citados documentos como uma desculpa para ir adiando a elaboração desta crítica de atribuição.</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
Ano passado tive oportunidade de consultar os referidos processos e perante mim mesmo a desculpa não mais existia. Também ano passado, num lançamento literário, o Reinaldo, após mais de dez anos de cobrança (com a média de duas tentativas anuais para me arrancar o trabalho), lança o repto: “Termine o estudo sobre o texto do padre. Você é um homem ou um pé de alface?” E isto na presença de outras pessoas. Uma conhecida até brincou: “Mais de dez anos? Reinaldo, você é muito paciente!” Gosto de alface, mas não a ponto de querer ser um pé de.</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
Assim, aqui vai o que foi possível fazer. Pela demora e pelos eventuais erros o culpado sou eu, exclusivamente.</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: right;">
Fernando Achiamé.</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
<b>&nbsp;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</b></div>
<h3 style="clear: both;">
&nbsp;Sumário</h3>
<div class="separator" style="clear: both;">
&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/publicacao-do-folhetim/" target="_blank" rel="noopener">Publicação do folhetim</a></div>
<div class="separator" style="clear: both;">
&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/contexto-historico-da-producao-da-obra/" target="_blank" rel="noopener">Contexto histórico da produção da obra</a></div>
<div class="separator" style="clear: both;">
&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/" target="_blank" rel="noopener">Crítica de atribuição</a></div>
<div class="separator" style="clear: both;">
&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/" target="_blank" rel="noopener">Biografia do autor</a></div>
<div class="separator" style="clear: both;">
&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/" target="_blank" rel="noopener">Importância da obra</a></div>
<div class="separator" style="clear: both;">
&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/explicacao/" target="_blank" rel="noopener">Explicação</a></div>
<div class="separator" style="clear: both;">
&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/anexo-1_1/" target="_blank" rel="noopener">Anexo 1</a></div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
&nbsp;<b>Artigos</b></div>
<div class="separator" style="clear: both;">
<b><br /></b></div>
<div align="left">
<table border="0" style="width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td align="left" valign="middle"><span style="color: black; font-family: inherit; font-size: 90%;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/1/">Artigo 1 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/2/">Artigo 2 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/3/">Artigo 3 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/4/">Artigo 4 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/5/">Artigo 5 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/6/">Artigo 6 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/7/">Artigo 7 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/8/">Artigo 8 </a><br />
</span></td>
<td align="left" valign="middle"><span style="color: black; font-family: inherit; font-size: 90%;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-9/">Artigo 9 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/bugiarias-1-da-antiguidade-eram-essas/">Artigo 10 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-11/">Artigo 11 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-12/">Artigo 12 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-13/">Artigo 13 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pe/">Artigo 14 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-15/">Artigo 15 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-15_1/">Artigo 16 </a></span></td>
<td align="left" valign="middle"><span style="color: black; font-family: inherit; font-size: 90%;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-17/">Artigo 17 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-xviii/">Artigo 18 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-19/">Artigo 19 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-20/">Artigo 20 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-21/">Artigo 21 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-22/">Artigo 22 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-22_1/">Artigo 23 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-24/">Artigo 24 </a><br />
</span></td>
<td align="left" valign="middle"><span style="color: black; font-family: inherit; font-size: 90%;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-25/">Artigo 25 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-26/">Artigo 26 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-27/">Artigo 27 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-28/">Artigo 28 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-29/">Artigo 29 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-30/">Artigo 30 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-31/">Artigo 31 </a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/artigo-31_1/">Artigo 32 </a></span></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1999&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Pe. Francisco Antunes de Siqueira</b> nasceu em 1832, em Vitória, ES, e faleceu na mesma cidade, em 1897. Autor de: <i>A Província do Espírito Santo (Poemeto)</i>, <i>Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense</i>, &nbsp;<i>Memórias do passado: A Vitória através de meio século</i>. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando (Antônio de Moraes) Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both;">
</div>
<p></p>
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		<title>Biografia do Pe. Francisco Antunes de Siqueira</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Antunes de Siqueira (Pe.)]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Para estes apontamentos biográficos utilizei-me largamente do artigo de Amâncio Pinto Pereira[ 12 ] publicado no jornal Comércio do Espírito Santo poucos dias depois do falecimento do sacerdote, e escrito por um amigo seu, conhecedor de sua vida e obra. Afonso Cláudio[ 13 ] também se serviu muito desse artigo. Com base no processo de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Para estes apontamentos biográficos utilizei-me largamente do artigo de Amâncio Pinto <span id="BIOG_RP12V">Pereira</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP12" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a> publicado no jornal <i>Comércio do Espírito Santo </i>poucos dias depois do falecimento do sacerdote, e escrito por um amigo seu, conhecedor de sua vida e obra. Afonso <span id="BIOG_RP13V">Cláudio</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP13" title="CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 214."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> também se serviu muito desse artigo.</p>
<p>Com base no processo de habilitação de <i>vita et moribus</i> pude confirmar que o padre Francisco Antunes de Sequeira (essa era a grafia original do seu sobrenome, atualizada para Siqueira por reformas ortográficas mais recentes) nasceu em Vitória a 3 de fevereiro de 1832. No requerimento em que solicita sua habilitação de <i>vita et moribus</i> aparece ele como filho natural de Maria Luíza do Rosário e mais adiante comprova-se seu batismo em 10 de março de 1832 na matriz de Nossa Senhora da Vitória celebrado pelo vigário Manoel Alves de Souza (por sinal o documento é transcrito por seu pai, que se assina como “o coadjutor padre Francisco Antunes de Siqueira”), constando como padrinhos o vigário Domingos Leal e D. Ana Maria da Penha de Jesus. Em documentos desse processo constata-se também que sua mãe “vive de costurar” e que seus avós maternos, Francisco Gomes Rodrigues e Vitória Maria da Conceição, eram oriundos de Cabo Frio, onde ele “vivia da pescaria do alto mar”<span id="BIOG_RP14V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP14" title="ARQUIVO DA CÚRIA METROPOLITANA, Rio de Janeiro. Processos de genere e vita et moribus em nome de Francisco Antunes de Sequeira."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a></p>
<p>Em artigo (de uma série publicada com o título de “Padre Antunes de Siqueira”) Antônio Tinoco informa ter lido as dedicatórias impressas na obra <i>A Província do Espírito Santo</i> <i>(Poemeto)</i> do padre Antunes localizada na Biblioteca Nacional nos seguintes termos: “À memória de meu pai, Cônego Arcipreste Francisco A. de Siqueira, — Uma lágrima da mais pungente saudade. A minha prezada mãe D. Maria Luíza do Rosário, — Tributo de veneração e <span id="BIOG_RP15V">respeito</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP15" title="TINOCO, Antônio. Padre Antunes de Siqueira. A Gazeta, Vitória, 26 jan. 1951."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a></p>
<p><b>Primeiros estudos</b></p>
<p>A infância e adolescência do padre Antunes estão relativamente bem descritas no decorrer da obra ora estudada, e é interessante o depoimento do padre sobre as brincadeiras e costumes da época de sua infância, um testemunho vivo e de primeira mão. Através destes escritos sabemos que ele tinha duas irmãs, conforme nos diz na seguinte passagem no final do artigo número 25:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>[…] zás, lá derramava eu a tinta pelo papel, inutilizando duas e mais folhas escritas… Que frenesi! Batia o pé, arrancava os cabelos, praguejava a mim mesmo: Aí está! O que e lá isso? perguntava minha boa mãe. Acudiam logo duas denunciantes, duas irmãs, dizendo: o nhonhô borrou a escrita! Toma lá… bem feito… oh! oh!</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O jornal <i>O Estado do Espírito Santo</i> de 3 e 4 de dezembro de 1897, impresso em Vitória, estampa convite para a missa de sétimo dia por alma do padre Antunes de Siqueira assinado por Antônio da Silva Pádua e Adelaide Antunes de Siqueira Pádua, sendo moradores em Viana e que se identificam como cunhado e irmã do falecido.</p>
<p>Podemos avaliar até em que local de Vitória Antunes de Siqueira habitava na juventude, “ali junto da ponte do Reguinho, que dá passagem para a rua da Várzea” (nas imediações das atuais ruas Graciano Neves e Sete de Setembro) pela descrição que no artigo 3 o autor das <i>Memórias do passado</i> faz de uns vizinhos seus que de noite, comendo caranguejos e falando alto, não o deixavam dormir.</p>
<p>Sobre os primeiros estudos do jovem Francisco Antunes de Siqueira nos dá notícia Amâncio Pereira em seu artigo acima referido:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>A primeira aula que frequentou e para a qual entrou a 7 de janeiro de 1839 foi a do finado major Inácio dos Santos Pinto. Criada uma 2a cadeira em 1842 e nela provida o professor Manoel Ferreira das Neves que iniciou o seu ensinamento com o Método Valdetaro — passou o nosso biografado a frequentar esta cadeira, na qual fez rápidos progressos, preparando-se nas matérias do ensino primário no fim do ano de 1845. Com este professor estudou ele a língua francesa no ano seguinte, frequentando ao mesmo tempo a aula de latim do padre mestre Inácio Félix de Alvarenga Sales. Aprovado em ambos os preparatórios em exame público, realizado no Palácio do Governo, quando presidente o Dr. Luís Pedreira do Couto Ferraz (Visconde do Bom Retiro), isto em 1848 […]<span id="BIOG_RP16V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP16" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O autor das <i>Memórias do passado</i> nos artigos 16 e 17 descreve o mestre major Inácio dos Santos Pinto, o seu método de ensino, como participava das aulas e o que nelas aprendeu. </p>
<p><b>Vida no seminário</b></p>
<p>O ano de 1849 marca a ida do estudante Antunes, já então com dezessete anos, para o Rio de Janeiro a fim de ingressar no Seminário de São José. Recebe a primeira tonsura e os quatro graus de ordens menores no dia 12 de setembro de 1849. Seu pai não só lhe deu o mesmo nome como lhe destinou a mesma carreira eclesiástica, meio seguro de ascensão social, na época. Neste sentido são significativas as seguintes palavras de Maria Stella de Novaes referindo-se a outro padre mas que, em linhas gerais, se podem aplicar à vida do padre Antunes:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Vivia-se no tempo em que devia o mestre de latim alfabetizar os rapazes; dar- lhes a instrução primária, ler, escrever e contar. Ordenado sacerdote, Marcelino Duarte estaria no início do ministério do Altar; mas, possuidor já de uma série de sonetos, nos quais clamava dolorosamente sua desdita: — a vocação forçada, como ocorreu a muitos outros jovens espírito-santenses. Tudo porque o mestre de latim decidia a vocação dos alunos e, de par a essa aula, dava-lhes conhecimentos de filosofia, retórica, história e outras disciplinas, “moldadas na aprendizagem que tinha, por sua vez, feito no Seminário”. De fato, era uma norma do tempo: — moço inteligente, ansioso de ilustração, devia ser padre. Tinha o destino traçado: — o Seminário. Assim, para o Espírito Santo o Seminário São José, na Corte, era a tábua-de-salvação. Os ricos iam para Coimbra<span id="BIOG_RP17V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP17" title="NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 122-3. Na mesma obra à p. 171 a autora, noticiando o nascimento do padre Antunes, registra: 'Seguiu o destino de tantos jovens espírito-santenses, conforme escrevemos noutro capítulo.'"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Para complementar o panorama sobre as questões envolvendo as atividades de trabalho e de estudo e a situação social dos padres espírito-santenses do século XIX, convém citar estas palavras de Oscar Gama Filho:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Aliás, as vidas intelectual — arte, direito, política, jornalismo e outras atividades afins — e sacerdotal constituíam, no século passado, duas das poucas formas de ascensão social de que os indivíduos podiam se valer. Alguns se dedicavam a ambas ao mesmo tempo, entre esses, João Clímaco, Marcelino Pinto Ribeiro Duarte, Francisco Antunes de Siqueira, Fraga Loureiro, Eurípedes Pedrinha e Inácio Félix de Alvarenga Sales, todos simultaneamente padres, escritores e políticos<span id="BIOG_RP18V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP18" title="GAMA FILHO, Oscar. Razão do Brasil: em uma sociopsicanálise da literatura capixaba. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 44-5."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
No seminário o jovem Antunes se distingue nas diversas disciplinas e, nos processos de habilitação antes referidos, podem ser conferidas suas notas e os atestados que os professores deram como requisito para sua formação sacerdotal, como este: “Entrou para o Seminário de São José em março de 1849 e nele concluiu os estudos preparatórios em que já vinha adiantado, começou os teológicos que também concluiu no fim deste ano letivo, tendo sempre merecido aprovações honrosas. E pelo que pertence aos seus costumes deu sempre provas de boa morigeração”<span id="BIOG_RP19V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP19" title="Documento datado do Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1851, e assinado por Manoel Joaquim da Silveira, constante dos processos de genere e vita et moribus antes citados."><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a></p>
<p>Recusa em 1851 um convite para secretário interino do bispado do Maranhão “à instância de sua veneranda mãe”<span id="BIOG_RP20V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP20" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a> que já tinha perdido o seu “companheiro”, por sinal.</p>
<p>Antunes de Siqueira entra para a irmandade de São Pedro em 22 de junho de 1853 (neste ano é morador do Colégio de São Pedro de Alcântara), recebe a ordem de subdiácono em 10 de julho de 1853, e a 24 do mesmo mês é ordenado diácono.</p>
<p>Como seminarista “pregou pela primeira vez na capelinha de Nossa Senhora da Conceição em Niterói, com aplauso do grande orador cônego Barbosa França, pelo que s. ex. rvdm. lhe concedeu provisão, sem tempo, para pregar em toda a diocese<span id="BIOG_RP21V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP21" title="Ibidem."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a> &nbsp;e ainda como seminarista pronunciou brilhantes sermões em diversas igrejas do Rio de Janeiro e na capela imperial.</p>
<p>Em setembro de 1854, é dada uma apólice da dívida pública de juro anual de 5% no valor de seiscentos mil réis para estabelecer o patrimônio do futuro sacerdote, ordenado em 5 de novembro de 1854<span id="BIOG_RP22V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP22" title="Informações obtidas nos processos de genere e vita et moribus antes referenciados."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a> &nbsp;Amâncio Pereira registra que o padre Antunes cantou sua “primeira missa a 21 deste mesmo mês e ano na capela de Santa Efigênia situada à rua da Alfândega no Rio de Janeiro”<span id="BIOG_RP23V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP23" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a> </p>
<p><b>Padre secular</b></p>
<p>Principia sua carreira de padre secular como pároco da freguesia de Carapina em 20 de janeiro de 1855, onde também foi professor efetivo, deixando a mesma freguesia em 8 de novembro de 1856. Em Carapina houve um incidente com o padre, relatado de forma enviesada nos processos existentes no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro e referido pelo próprio padre em seu <i>Poemeto</i>, conforme citação de Afonso Cláudio<span id="BIOG_RP24V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP24" title="CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 224."><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a></p>
<p>A presença do padre Antunes no Espírito Santo em 1855 coincide com sua participação na festa da Penha, relato constante no artigo 22 das <i>Memórias do passado</i>, onde o autor faz um auto-elogio.</p>
<p>Tomou posse em 16 de fevereiro de 1857 como pároco de Santa Cruz, então sede de município espírito-santense. Logo principia a cobrar do governo provincial verbas para construção de nova matriz e para aquisição de objetos imprescindíveis ao culto religioso. Em ofício de 14 de abril de 1857 ao vice- presidente da província, Antunes de Siqueira afirma:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Depois de haver consultado, o que bem me recomendou V. Exa., a opinião das pessoas mais sensatas desta freguesia acerca do local em que se tem de erigir a nova igreja matriz, deliberei dar princípio à obra, que tanto urge o estado ruinoso da velha; […] e sendo assim a pequena quantia, que me foi dada não satisfaz as despesas da obra, que por ora limita-se ao frontispício, feito com proporções para a nova matriz […]<span id="BIOG_RP25V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP25" title="ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO. Vitória. Série Accioly, livro 311."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Por meio de outro ofício enviado de Santa Cruz ao Dr. Carlos de Cerqueira Pinto, vice-presidente da província, o padre Antunes presta os seguintes esclarecimentos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>[…] em abril de 1857 lancei a pedra fundamental de uma nova matriz com regulares proporções sob plano e regras de arquitetura de forma gótica, empregando o escasso produto de 200$000, colhido pelo povo, e mais algumas consignações do cofre provincial, conseguida assim a conclusão de um vistoso frontispício e o levantamento até a altura de 12 palmos das paredes no quadrado da capela-mor. […] Desde 1860 sem mais auxílios […] suspenderam-se os trabalhos, estragando-se a obra hoje exposta à inconstância do tempo<span id="BIOG_RP26V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP26" title="Ibidem."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Levy Rocha assinala em <i>Viajantes Estrangeiros no Espírito Santo</i> as seguintes observações, referindo-se à igreja da vila de Santa Cruz: “Aquele templo vinha sendo construído pelo vigário Francisco Antunes de Siqueira, filho do lugar [sic], que morava no alto dum monte, à esquerda da estrada. As obras foram começadas a 9 de maio de 1857 e, decorridos cinco meses, já se achava pronto o frontispício, no estilo gótico-romano<span id="BIOG_RP27V">.&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP27" title="ROCHA, Levy. Viajantes Estrangeiros no Espírito Santo. Brasília: Ebrasa, 1971. p. 94. O autor não menciona no texto a fonte de onde teria extraído estas observações. Deve-se assinalar o equívoco cometido pelo criterioso historiador referindo-se a Santa Cruz como o local de nascimento do padre Antunes, equívoco que se repetiu na nota 14 à página 33 da obra Viagem à Província do Espírito Santo de Auguste-François Biard."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a></p>
<p>No final de 1858 padre Antunes conhece na localidade em que é vigário o pintor e viajante francês Auguste-François Biard, que dele registra as seguintes impressões:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Travei então conhecimento com o padre, um jovem sem preconceito, que não recuava diante de uma garrafa de porto ou de aguardente, nem diante de muitas outras coisas. Mas como, após alguns dias, ele tivesse declarado aos que não davam nada por mim que eu parecia ter alguns conhecimentos a respeito de diversos assuntos, embora francês, restringirei a isso as minhas observações. Esse padre me emprestou um fuzil e, munidos de pólvora e chumbo, partimos um dia bem cedinho numa caçada em que rivalizamos em imperícia<span id="BIOG_RP28V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP28" title="BIARD, Agugust-François. Viagem à província do Espírito Santo. Vitória: Cultural-ES. s/d, p.33."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Em 12 de agosto de 1859 uma carta imperial o declara vigário colado (isto é, estável) em Santa Cruz, tendo tomado posse no cargo a 23 de outubro do mesmo ano.<span id="BIOG_RP29V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP29" title="Informações colhidas nos processos de habilitação de genere e de vita et moribus do padre Antunes pesquisados no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro e no livro 311 da série Accioly existente no Arquivo Público Estadual do Espírito Santo."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a></p>
<p>Sobre a visita de D. Pedro II e comitiva a Vitória, José Teixeira de Oliveira reproduz reportagem publicada no jornal <i>Correio da Vitória</i> de sábado, 28 de janeiro de 1860. Da referida reportagem transcrevo este trecho:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>No colégio [que também abrigava a capela nacional e é o atual palácio Anchieta] SS. MM. sentaram-se debaixo de um rico dossel, e daí assistiram ao Te Deum, mandado cantar pela Câmara Municipal. Orou o vigário de Santa Cruz, padre Francisco Antunes de Siqueira. O discurso foi conciso, brilhante e eloquente. Agradou a todos pela sublimidade de seus pensamentos, elegância e colorido de seu estilo<span id="BIOG_RP30V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP30" title="OLIVEIRA, José Teixeira de. História do Estado do Espírito Santo. 2. ed. ampl. e atual. Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, 1974-75. p. 382."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Acerca desse episódio Amâncio Pereira informa: “Pregou com aplausos diante do Imperador e numeroso auditório quando ele viera em visita à então província em 1860, pelo que mereceu ser agraciado com o hábito de Cristo<span id="BIOG_RP31V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP31" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo. Vitória, 2 dez. 1897, p. 2."><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a> Será? Outros autores consignam que a condecoração foi concedida ao biografado por serviços prestados ao país. Se bem que, na época, pregar perante o imperador poderia ser considerado um serviço prestado ao país. O certo é que D. Pedro registra em seu diário de bolso, conforme nos dá notícia Levy Rocha: “Te Deum na Igreja do Colégio dos Jesuítas; hoje Palácio – lápide da sepultura de Anchieta na Capela-mor perto dos degraus do altar-mor. Sermão sofrível do Vigário de Santa Cruz (Aldeia Velha)<span id="BIOG_RP32V">.&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP32" title="ROCHA, Levy. Viagem de Pedro II ao Espírito Santo. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro. IHGB, 1960. v. 246. Separata. p. 40."><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a></p>
<p>Em Santa Cruz o padre Antunes conheceu Pedro Tabachi, maçom da Loja União e Progresso em Vitória e pioneiro da imigração italiana em nossa terra. Por sinal está relatado no artigo 30 das <i>Memórias do Passado</i> um episódio vivido por ambos. O padre Antunes deixou o vicariato de Santa Cruz em princípios de 1869<span id="BIOG_RP33V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP33" title="ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO. Vitória. Série Accioly – livro n° 311.0 último ofício assinado pelo vigário Francisco Antunes de Siqueira é datado de 24 de fevereiro de 1869."><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a></p>
<p>Serve depois como pároco em Conceição da Barra. A sua presença nessa última localidade pode ser confirmada por meio da correspondência que manteve com o presidente da província. Dessa correspondência devem ser destacados o ofício de 9 de janeiro de 1872 (o primeiro no códice com a assinatura do padre Antunes) remetendo “o mapa dos batizados, casamentos e óbitos havidos durante o ano p. passado nesta paróquia”, (sendo que o mapa anexo está assinado pelo padre como pro-pároco) e o ofício de 29 de fevereiro do mesmo ano comunicando que naquela data “tomou posse e entrou no exercício de vigário encomendado [isto é, suscetível de remoção] da Vila da Barra de São Mateus por provisão da Vigararia-geral do bispado.” Outros ofícios firmados pelo mesmo vigário existem no códice até abril de 1872, somente<span id="BIOG_RP34V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP34" title="ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO. Vitória. Série Accioly – livro n° 187."><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a> Esta passagem do padre Antunes por Conceição da Barra, apesar de curta, é muito significativa para o presente estudo, de vez que comprova a afirmação do autor das <i>Memórias do passado</i>, antes ressaltada, sobre sua presença em janeiro daquele ano na referida localidade assistindo ao alardo.</p>
<p>Por meio de um recurso interposto ao imperador, datado de 14 de novembro de 1876, o padre Antunes nos cientifica que “requereu e foi nomeado em 9 de setembro de 1872 capelão extranumerário da Armada com exercício de professor” na Companhia de Aprendizes Marinheiros em Vila Velha, sendo elogiado pelos superiores. O interessado no recurso também informa que “em novembro de 1873 na efervescência da questão religiosa foi suspenso das ordens e em consequência dessa censura foi dispensado do ofício de capelão”. Declara que foi ao Rio se defender e obteve novamente o exercício das ordens e a restituição do ofício na Companhia por provisão que tinha validade anual e que foi renovada até 1875. No citado recurso o padre Antunes se julga suspenso de ordens sem sentença jurídica e pede que novamente seja provido como capelão por estar atacado de “elefantíase dos árabes” (motivo que o fez deixar o exercício de pároco em pequenas localidades, ficando sem a correspondente remuneração) e por estar privado dos escassos recursos com que se alimenta e à mãe sexagenária, a quem serve de arrimo<span id="BIOG_RP35V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP35" title="ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO. Vitória. Série Accioly – livro n° 199. O recurso é acompanhado de pública-forma de oito atestados favoráveis ao padre Antunes assinados por diversas autoridades que elogiam o seu comportamento e, em alguns deles, o eximem de participação nos acontecimentos antes referidos de 8 de setembro de 1876 envolvendo a irmandade do SS. Sacramento."><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a></p>
<p>Após muitos anos como educador em Vitória, é pároco na matriz do Rosário da Prainha em Vila Velha, onde termina seus dias. </p>
<p><b>Maçonaria e amizades</b></p>
<p><span id="BIOG_RP36V">Afonso Cláudio</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP36" title="CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 226. Cita também “desavenças que teve com o comandante da companhia de aprendizes marinheiros, de que foi capelão, [e] com o capitão do porto."><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a> refere-se de passagem a desavenças do padre Antunes com o bispo D. Pedro Maria de Lacerda, “que o suspendeu por diversas vezes do exercício das ordens sacras”. Mesmo sem aprofundar muito a pesquisa sabe-se hoje que essas discórdias estão relacionadas, entre outros aspectos, com o fato de o padre capixaba ter ligações com a maçonaria, instituição que estava sendo combatida por aquele bispo. A Questão Religiosa, apesar de mais exacerbada no Rio de Janeiro, em Recife e Belém com prisão de bispos e outros incidentes, também teve sua presença, em ponto menor, na província do Espírito Santo.</p>
<p>A fundação da Loja Maçônica União e Progresso em Vitória se dá no mesmo ano de 1872 em que a referida questão está no auge. Compulsando o livro <i>Maçonaria no Espírito Santo</i> de Christiano Woelffel Fraga localiza-se a transcrição de documentos da época e relatos de fatos desagradáveis ocorridos entre seguidores das duas instituições, a Igreja e a Maçonaria. Por exemplo, a proibição dos maçons de servirem como padrinhos de crisma, e a sua represália em não mais ajudarem no custeio dos cultos católicos, destinando as ofertas a obras de caridade.</p>
<p>Mas, para o que interessa na biografia do padre Antunes, existe uma referência na obra acima citada de que na sessão de 24 de setembro de 1876 foi aprovada sua admissão na Loja União e Progresso, a mais antiga até hoje em funcionamento em nosso Estado. Na ocasião o venerável Tito da Silva Machado recomenda completo sigilo a respeito, “visto como sofrendo a nossa instituição encarniçada guerra do jesuitismo, necessariamente este profano proposto, quando iniciado, sofrerá grande perseguição, por ser Padre”. O professor Christiano Woelffel Fraga acrescenta que nos arquivos maçônicos “não consta sua iniciação”<span id="BIOG_RP37V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP37" title="FRAGA, Christiano Woelffel. A Maçonaria no Espírito Santo. Vitória: s.n., 1995. p. 129."><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a> Muitos amigos do padre e de seu pai pertenciam ao quadro da Loja União e Progresso. Dois maçons nela muito atuantes, Cleto Nunes Pereira e José de Melo Carvalho Muniz Freire, são os redatores do jornal <i>A Província do Espírito Santo</i> no qual estão estampados os artigos que compõem as <i>Memórias do passado</i>. Inclusive no início do artigo 24 o autor afirma que “A influência afável, ao estímulo poderoso de um espírito cultivado devo o fazer este quadro mais completo. Tinha-o reduzido muito, desconfiado da sorte que aguarda minhas pobres composições; como porém animam-me o afago e a benevolência do endossante desta letra, penhor de amizade, lá vai mais alguma curiosidade que me sugere a memória.”</p>
<p>Note-se que no final da obra <i>Esboço histórico</i> o padre Francisco Antunes de Siqueira faz rasgados elogios a Muniz Freire. Afons<span id="BIOG_RP38V">o Cláudio</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP38" title="CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 214."><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a> refere-se ao <i>Poemeto </i>do padre Antunes como impresso nas oficinas de <i>A Província do Espírito Santo</i> em 1884. Aliás, no canto inferior direito da primeira página na edição do dia 22 de março de 1885 (que iniciou a publicação do folhetim <i>Memórias do passado</i>) lê-se no anúncio de obras literárias: “A Província do Espírito Santo – poema do padre Antunes de Sequeira – 1 vol. – 2$000”. <br />
<b><br /></b><br />
<b>A família do padre</b></p>
<p>Sobre a família do padre Antunes de Siqueira algumas luzes são lançadas a partir de referências provenientes de fontes diversas.</p>
<p>No artigo do jornalista Antônio Tinoco antes <span id="BIOG_RP39V">referido</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP39" title="TINOCO, Antônio. Padre Antunes de Siqueira. A Gazela, Vitória, 26 jan. 1951."><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a> está registrado também o final da dedicatória impressa do padre Antunes no seu <i>Poemeto</i>: “[…] Às minhas queridas filhas – D. Dalmácia Antunes de Siqueira e D. Petronilha Antunes de Siqueira – Momentos de recreação e da mais viva lembrança.”</p>
<p>Elmo Elton nos oferece uma visão da vida do padre Antunes:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Os padres, em sua quase total maioria, escandalizavam a população pela negligência ou até desprezo com que tratavam os assuntos pertinentes a seu ofício, enquanto o povo, em decorrência disso, deixava de frequentar as igrejas e os sacramentos, comparecendo apenas às festas de cunho mais folclórico que religioso, como o eram as de São Benedito, celebradas tanto aqui como em outras localidades do interior do Estado. Diga-se, de passagem, que alguns sacerdotes, em Vitória, mantinham, às vezes, mais de uma concubina, com as quais pernoitavam diariamente, tendo filhos com elas, não escondendo aos fieis tal situação. O padre Francisco Antunes de Siqueira (1832-1897), que gozava fama de homem culto, teve, por exemplo, mais de uma companheira, viveu, anos seguidos, com uma filha [sic] do poeta Virgílio Vidigal (1866- 1891), com quem teve duas ou três filhas, disso não fazendo o menor segredo, conforme se constata na dedicatória, impressa, que apôs num de seus livros. Sabe-se que, quando da chegada da notícia do fim da Guerra do Paraguai, em Vitória, o povo, eufórico, o procurou, a fim de que ele se manifestasse sobre tão auspicioso acontecimento. Foi encontrado, às primeiras horas do dia, na casa da companheira, tendo, da sacada, ainda de camisolão de dormir, pronunciado um soneto alusivo à vitória dos brasileiros contra os paraguaios, soneto naturalmente adrede preparado, mas que o povo aplaudiu como coisa dita de improviso. Antunes de Sequeira gostava de se passar por poeta repentista, embora não o fosse, já que suas produções poéticas, de fragilíssima inspiração, eram sempre forçadas, de métrica e ritmo imperfeitos, portanto, de pouco ou nenhum valor como peças de arte<span id="BIOG_RP40V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP40" title="ELTON, Elmo. Velhos templos de Vitória &amp; outros temas capixabas. Vitória: Conselho Estadual de Cultura, 1987. p. 89."><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Afonso Cláudio refere-se a uma filha do padre como sendo casada com o poeta Virgílio Vidigal, dando para este poeta os anos de 1866 e 1907 como extremos de sua vida e nos oferece visão diferente daquela acima apresentada sobre a vida e obra do padre Antunes<span id="BIOG_RP41V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP41" title="CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 329 e 232."><sup><b>[ 41 ]</b></sup></a></p>
<p>O padre Antunes confessa publicamente o seu estado de “pecador” em carta estampada, junto com outros documentos, no jornal <i>A Província do Espírito Santo</i> de 30 de março de 1885, poucos dias depois do início da publicação das <i>Memórias do Passado</i>. A boataria é inusitada (sobre o rapto de uma donzela por sacerdote de Vitória) e pode ter sido lançada por inimigos do padre Antunes, (cf. Anexo 1). <br />
<b><br /></b><br />
<b>O abolicionista</b></p>
<p>Maria Stella de Novaes registra a presença em julho de 1884 das “senhoras Dalmácia e Petronilha Antunes de Siqueira” numa quermesse em benefício da Libertadora Domingos Martins, ocasião em que elas ofereceram um adorno de mesa em forma de serpente para ser vendido e o dinheiro apurado a favor da libertação de escravos. O presente vinha acompanhado de uma poesia (lavra do pai?):</p>
<p>O. D. C.</p>
<p>De nossas livres florestas<br />
Volve também a serpente,<br />
Para assistir nossas festas,<br />
De um povo independente.</p>
<p>Ao altar da Pátria amada,<br />
Ela vem se devotar,<br />
Querendo com o seu produto<br />
Os escravos libertar<span id="BIOG_RP42V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP42" title="NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 294. (O. D. C. significa Oferece, Dedica e Consagra, segundo fórmula da época.)."><sup><b>[ 42 ]</b></sup></a></p>
<p>Na Sociedade Abolicionista Domingos Martins o padre Antunes proferiu palestras contra a escravidão. Sobre este assunto Amâncio Pereira informa que “o Dr. Afonso Cláudio ocupou também o cargo de orador da sociedade [Libertadora Domingos Martins] enquanto ela existiu; e, com o Dr. Antônio Ataíde, padre Antunes de Siqueira e outros, no paço da Câmara Municipal da Capital, fez diversas conferências em noites de dias santificados, concorrendo a elas escravos e o que a sociedade tinha de escolhido em artes, ciências e filantropia”<span id="BIOG_RP43V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP43" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Homens e Cousas Espírito-Santenses. Vitória: Artes Gráficas, 1914. Io livro, p. 129."><sup><b>[ 43 ]</b></sup></a></p>
<p>Também são coerentes na vida do padre Antunes suas ideias liberais com sua pregação contra a escravatura, posição enunciada de forma veemente no último artigo das <i>Memórias do Passado</i>. Na sua biografia é famoso e muito referido por historiadores o discurso que proferiu por ocasião do término da escravidão em nosso país. <br />
<b><br /></b><br />
<b>O educador</b></p>
<p>O padre Antunes teve atuação destacada como educador desde os tempos de seminário e em diversas localidades do Espírito Santo, como ressaltam muitos biógrafos e comentaristas de sua obra. Nos apêndices números dois e três do <i>Esboço Histórico</i> ele inclui seu próprio nome como pertencendo aos seguintes estabelecimentos de ensino como professor:</p>
<p>a) de retórica e, depois da reforma, de latim e geografia no Colégio Espírito Santo;<br />
b) de latim e filosofia no Ateneu Provincial (regulamento de 1862);<br />
c) de português nas Escolas Normais Masculina e Feminina;<br />
d) professor público primário em Vitória<span id="BIOG_RP44V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP44" title="SIQUEIRA, Francisco Antunes de. Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense. 2. ed. Vitória: Imprensa Oficial, 1944. p. 137 a 144."><sup><b>[ 44 ]</b></sup></a></p>
<p>Estes registros são complementados e enriquecidos com as informações sobre o mesmo assunto prestadas por Amâncio <span id="BIOG_RP45V">Pereira</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP45" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2."><sup><b>[ 45 ]</b></sup></a> no artigo de jornal antes referido:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Em 1868 abriu um internato e externato nesta capital com o qual prestou um bom serviço à terra de seu nascimento. Em 1870 foi nomeado lente de geografia e história do colégio Espírito Santo. Em 1875 passou a lecionar geografia, história do Brasil e sagrada no colégio N. Sa. da Penha, e em 1877 foi nomeado para reger a cadeira de latim do Ateneu Provincial, cargo que exerceu com assiduidade até a extinção deste instituto pela criação das escolas normais em 1892, sendo o nosso biografado aproveitado na cadeira de português. Cremos que em 1878 ou 1879 organizou em sua casa um curso particular de preparatórios, o qual foi bastante concorrido pela mocidade que frequentava o Ateneu Provincial. Desempenhou as funções de capelão da extinta companhia de aprendizes marinheiros desta cidade e da qual foi também professor primário.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Terezinha Tristão <span id="BIOG_RP46V">Bichara</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP46" title="BICHARA, Terezinha Tristão. História do Poder Legislativo do Espírito Santo 1835-1889. Vitória: Leoprint, 1984. v. 1.1. 1. p. 199."><sup><b>[ 46 ]</b></sup></a> refere-se ao padre Antunes de Siqueira como vigário de Santa Cruz em 1867 e diretor naquela vila da “única escola particular [com 18 alunos] que conseguiu permanecer em funcionamento na Província”. Também registra que “em 1886, o Chefe da Administração Provincial, nomeou uma comissão, formada pelos educadores […] e padre Antunes de Sequeira para criar um novo regulamento de ensino com a pretensão de introduzir no sistema educacional um novo método — o experimental — considerado o mais eficiente por provocar a curiosidade da criança, educar a memória, prender a atenção e exercitar a inteligência<span id="BIOG_RP47V">.&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP47" title="Op. cit. p. 328."><sup><b>[ 47 ]</b></sup></a></p>
<p>A erudição demonstrada pelo padre Antunes era um costume da época, e não devemos julgá-la com as lentes de hoje, sem dar os devidos descontos. Em sendo professor de filosofia, de retórica, de história, de português, tinha que assegurar, reiterar e eventualmente exibir aos conterrâneos e contemporâneos seu cabedal de conhecimentos, citando Horácios e Virgílios. Nesse sentido, o primeiro artigo das <i>Memórias do passado</i> lista temas, depois desenvolvidos no <i>Esboço histórico</i>, como a história dos gregos, romanos, judeus, a história sacra, e outros. </p>
<p><b>As ideias e práticas do padre</b></p>
<p>O padre Antunes foi eleito deputado à Assembleia Legislativa Provincial para o biênio de 1862-63, tendo ocupado o cargo de segundo secretário da mesa daquela Casa de Leis. O seu partido devia ser o conservador (apesar de muitos de seus amigos serem simpatizantes do partido liberal — inclusive os redatores de <i>A Província do Espírito Santo</i>), mas não logramos documentar essa opção partidária. Devia pertencer ao partido conservador porque o padre Antunes, no artigo 13 das<i> Memórias do passado</i>, demonstra de forma apaixonada ser um caramuru, partidário da cor verde, ligado ao convento de São Francisco. Chega a descrever no artigo 12 de forma desfavorável e até sarcástica a festa dos peroás do Rosário. E segundo Adelpho Poli Monjardim “[…] o povo dividiu-se e do campo religioso passou ao político, como não poderia deixar de acontecer […] Em Vitória não houve neutros. Os conservadores apoiaram os Caramurus e os liberais se filiaram aos Peroás, da igreja do Rosário”<span id="BIOG_RP48V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP48" title="MONJARDIM, Adelpho Poli. O Espírito Santa na história, na lenda e no folclore. Vitória, s.n., 1983. p. 97. Nesta obra o ilustre historiador reproduz trechos sobre o mesmo assunto existentes às páginas 116-117 do livro Biografia de Uma Ilha de Luiz Serafim Derenzi. 2 ed. Vitória: PMV, 1995, editado originalmente em 1965."><sup><b>[ 48 ]</b></sup></a> Liberal ou conservador, o padre Antunes (que pode ter variado de agremiação política ou se constituído numa exceção no panorama das facções locais) viveu numa época em que os partidos possuíam pouca consistência ideológica e os políticos não cultivavam a coerência partidária.</p>
<p>Alguns historiadores referem-se ao mesmo padre Antunes como deputado também no período de 1849-50, evidentemente confundindo-o com seu pai (que realmente foi deputado em tal legislatura), pois naqueles anos, além de estudar no Rio de Janeiro, o jovem Antunes só contava com 17 para 18 anos de idade.</p>
<p>No texto das <i>Memórias do passado</i>, o autor faz referência ao seu pioneirismo em propugnar pela educação feminina quando no artigo de número 17 diz: “Não condeno a instrução da mulher, tanto que fui eu o primeiro a levantar minha humilde voz em 1863 para que se criassem cadeiras em todas as vilas da província.” No mesmo ano foi aprovado pela Assembleia Legislativa Provincial do Espírito Santo um projeto instituindo aulas femininas em Santa Cruz, onde o padre e deputado era pároco.</p>
<p>A Lei n.° 3 de 26 de novembro de 1863<span id="BIOG_RP49V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP49" title="BICHARA, Terezinha Tristão. História do Poder Legislativo do Espírito Santo 1835-1889. Vitória: Leoprint, 1984. v. 1.1. 1. p. 197."><sup><b>[ 49 ]</b></sup></a> projeto do deputado Francisco Antunes de Siqueira, determina que a inspeção escolar passe a ser executada pelas câmaras municipais.</p>
<p>Segundo informações registradas pela historiadora Terezinha Tristão Bichara, o padre Antunes propôs um projeto à Assembleia Legislativa Provincial autorizando a venda em hasta pública da casa que, em Cariacica, servia de residência ao vigário, empregando o produto da venda no reparo do relógio público de Vitória; “apesar de aprovada, a lei não foi sancionada, mas a 15 de dezembro de 1863 voltou ao Executivo pois, por unanimidade de votos, não foram aceitas as razões da recusa presidencial”<span id="BIOG_RP50V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP50" title="Op. cit. p. 188."><sup><b>[ 50 ]</b></sup></a></p>
<p>O já muito citado Amâncio Pereira registra que o padre Antunes “exerceu também a advocacia, sendo patrono de alguns clientes perante o tribunal do júri desta comarca”<span id="BIOG_RP51V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP51" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2."><sup><b>[ 51 ]</b></sup></a></p>
<p>As ideias expostas nos escritos do professor de filosofia e padre Antunes indicam que era partidário de correntes filosóficas anteriores ao positivismo, sendo dele simpatizante, provavelmente.</p>
<p>De qualquer sorte, o jornal em que publica seus artigos era francamente positivista. Ivan Lins em sua <i>História do Positivismo no Brasil</i> refere-se a Muniz Freire como “a figura mais eminente do Positivismo capixaba”<span id="BIOG_RP52V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP52" title="LINS, Ivan. História do Positivismo no Brasil. São Paulo: Nacional, 1964. p. 227."><sup><b>[ 52 ]</b></sup></a> Antes afirmou ser “tal o entusiasmo despertado pela atuação de Silva Jardim que ‘A Província do Espírito Santo’, fundado em 1882, e de que eram redatores Muni/. Freire e Cleto Nunes, passou a adotar o calendário positivista, acerca do qual deu uma notícia em seu número de 9 de agosto de 1882<span id="BIOG_RP53V">.&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP53" title="Op. cit. p. 221."><sup><b>[ 53 ]</b></sup></a> De fato, as edições consultadas do referido periódico trazem as datas de acordo com os calendários gregoriano e positivista. Por exemplo, o dia 22 de março de 1885, quando começa a publicação das <i>Memórias do passado</i>, também está registrado como 96 (anos contados a partir da grande crise ou Revolução Francesa), mês de Aristóteles (A filosofia antiga).</p>
<p>O certo é que o padre Antunes tinha livre acesso ao periódico aqui tratado. Para exemplificar mencione-se a série de artigos do padre, agora publicados com o nome do seu autor, que começa a ser estampada no periódico sob o título de<i> A educação do povo</i> dois dias depois (9 de maio de 1885) de se encerrar a publicação das <i>Memórias do Passado</i>. Afonso Cláudio julgou identificar as ideias do autor com base no canto IV do <i>Poemeto</i>: “[…] o padre cantor diz a direção filosófica a que obedece o seu espirito. […] A sua filosofia à Cousin, sente-se bem glosando os motes da imortalidade e da separação da alma do respectivo invólucro<span id="BIOG_RP54V">.&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP54" title="CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 227."><sup><b>[ 54 ]</b></sup></a></p>
<p>Victor Cousin (1792-1867) era um filósofo francês “chefe da escola eclética”. Registre-se que um exemplar de livro dele (o tomo IV das <i>Oeuvres de Victor Cousin</i>, impresso em Bruxelas em 1845 e com o carimbo da Biblioteca Pública Provincial) ainda existe no acervo da Biblioteca Pública Estadual. Cousin “esforçou-se por combinar as ideias de Descartes, da escola escocesa, de Kant, num espiritualismo pouco coerente mas brilhantemente expresso<span id="BIOG_RP55V">.&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP55" title="Grande Enciclopédia Delta Larousse. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1972. v. 5."><sup><b>[ 55 ]</b></sup></a></p>
<p>O padre Antunes cita por duas vezes, às paginas 26 e 57 da 2a edição do <i>Esboço histórico</i>, as ideias de Emílio Castelar (1832-1899), escritor e político espanhol, republicano e o maior orador parlamentar da Espanha na segunda metade do século XIX<span id="BIOG_RP56V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP56" title="Ibidem. v. 4."><sup><b>[ 56 ]</b></sup></a> Vemo-lo citando também Eugène Sue (1808-1857), romancista francês que fez enorme sucesso com romances em folhetim descrevendo o submundo <span id="BIOG_RP57V">parisiense</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP57" title="Ibidem. v. 14."><sup><b>[ 57 ]</b></sup></a> e Cesare Cantu (1804-1895), escritor e historiador italiano, que escreveu de 1838 a 1846 a <i>História Universal</i> em 35 volumes inspirada pelos ideais de um catolicismo liberal e obra muito lida, inclusive no Brasil<span id="BIOG_RP58V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP58" title="Ibidem. v. 5."><sup><b>[ 58 ]</b></sup></a></p>
<p>Um perfil do padre Antunes de Siqueira pode ser elaborado a partir de palavras registradas por diversas pessoas.</p>
<p>Amâncio <span id="BIOG_RP59V">Pereira</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP59" title="PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2."><sup><b>[ 59 ]</b></sup></a> fala com o coração da amizade: “Espírito esclarecido, talentoso e excelente orador sacro. […] Era ilustrado, de um gênio expansivo e possuía invejável memória. Teve amigos que o apreciavam e que jamais olvidarão sua memória!”</p>
<p>Afonso <span id="BIOG_RP60V">Cláudio</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP60" title="CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 223-6."><sup><b>[ 60 ]</b></sup></a> faz uma análise maios para o lado psicológico:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Antunes de Siqueira fazia parte da legião de brincalhões inteligentes que se foram e da qual é hoje o único documento autêntico. […] Regressando a sua terra […] foi então quando começou a experimentar o efeito das amargas desilusões; de um lado o seu temperamento facilmente impressionável e de outro o meio deletério em que tinha de atuar […] mas o padre não tinha a couraça que forra as energias aos lutadores seletos; sua sensibilidade não lhe permitia prolongado dispêndio de forças em repelir ultrajes […] Sitiado pelas paixões, ora iracundo, ora compassivo, volúvel nos atos e nos gestos, distendendo-lhe a veia irônica e o poeta surge como um complemento do folgazão. É de vê-lo tomar à incultura do populacho os dictérios da moda, os ridículos e sarcasmos com que revida as agressões.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O próprio padre se analisa: “Tenho um gênio sôfrego; por isso a pressa faz imperfeito o meu trabalho e, na associação de ideias, corro longas digressões […] Ambição de escrever, desejos de agradar, glória de corresponder à confiança, tudo isso me exalta, a ponto de esquentar-se a cabeça pela ebulição de ideias que, às vezes, chegam a engurgitar o pensamento!” (final do artigo 32 das <i>Memórias do passado</i>).</p>
<p>Hoje podemos falar que sua vida, principalmente intelectual, foi como a fachada em relação ao corpo da igreja de Santa Cruz: maior na aparência do que é na realidade. Mas isso não tira de modo algum o seu valor como pessoa ou artista.</p>
<p>Como provado antes, foi o padre Antunes, na qualidade de pároco local, quem principiou a construção da matriz na vila de Santa Cruz por sua fachada principal e nisto ele acompanhou iniciativas semelhantes daquele período. Diversos fatores contribuíram para a interrupção da obra, que ficou incompleta e, por isso mesmo, constituindo-se em valioso e interessante documento para a história e a arte.</p>
<p>Também o padre Antunes se formou visando muito a aparência, a eloquência, a erudição. Tendo-se dispersado nos caminhos da vida não pôde erigir em toda sua plenitude e acabamento o edifício de sua personalidade. E esse ente intelectual restou com uma grande e imponente fachada, mas sem toda a substância correspondente por detrás. De qualquer forma, até estes contrastes bizarros são válidos e esclarecedores, tanto na vida de uma pessoa, quanto na existência de um edifício.</p>
<p>O padre Francisco Antunes de Siqueira morreu “vitimado por uma congestão cerebral<span id="BIOG_RP61V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP61" title="Estado do Espírito Santo, Vitória, 30 nov. 1897. p."><sup><b>[ 61 ]</b></sup></a> às 8 horas da noite do dia 29 de novembro de 1897 em Vila Velha, onde era pároco, cargo de que tinha solicitado exoneração dois dias antes. O enterro do seu corpo deu-se no dia seguinte na então matriz de Vila Velha, atual igreja do Rosário na Prainha, com “presença de muitas autoridades e numeroso povo”<span id="BIOG_RP62V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP62" title="Ibidem. 1o dez. 1897."><sup><b>[ 62 ]</b></sup></a> falando na ocasião o bispo d. João <span id="BIOG_RP63V">Néry</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP63" title="PEREIRA. Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. Comércio do Espírito Santo, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2. Na relação que Amâncio Pereira faz das obras impressas do padre Antunes está a 'Alocução Congratulatória ao exmo. sr. bispo diocesano d. João Batista Corrêa Néry, em homenagem a sua visita pastoral à cidade do Espírito Santo [atual Vila Velha] no dia 21 de novembro de 1897'."><sup><b>[ 63 ]</b></sup></a> e “a talentosa aluna da Escola Normal, d. Alice Corrêa<span id="BIOG_RP64V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP64" title="Ibidem."><sup><b>[ 64 ]</b></sup></a></p>
<p>É patrono da cadeira n° 16 da Academia Espírito-santense de Letras.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="BIOG_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira.<i> Comércio do Espírito Santo</i>, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2.</div>
<div id="BIOG_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;CLÁUDIO, Afonso. <i>História da Literatura Espírito-santense</i>. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 214.</div>
<div id="BIOG_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;ARQUIVO DA CÚRIA METROPOLITANA, Rio de Janeiro. Processos de <i>genere e vita et moribus</i> em nome de Francisco Antunes de Sequeira.</div>
<div id="BIOG_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;TINOCO, Antônio. Padre Antunes de Siqueira. <i>A Gazeta</i>, Vitória, 26 jan. 1951.</div>
<div id="BIOG_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. <i>Comércio do Espírito Santo</i>, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2.</div>
<div id="BIOG_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;NOVAES, Maria Stella de. <i>História do Espírito Santo</i>. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 122-3. Na mesma obra à p. 171 a autora, noticiando o nascimento do padre Antunes, registra: “Seguiu o destino de tantos jovens espírito-santenses, conforme escrevemos noutro capítulo.”</div>
<div id="BIOG_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;GAMA FILHO, Oscar. <i>Razão do Brasil: em uma sociopsicanálise da literatura capixaba</i>. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 44-5.</div>
<div id="BIOG_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Documento datado do Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1851, e assinado por Manoel Joaquim da Silveira, constante dos processos de <i>genere e vita et moribus</i> antes citados.</div>
<div id="BIOG_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. <i>Comércio do Espírito Santo</i>, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2.</div>
<div id="BIOG_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;Ibidem.</div>
<div id="BIOG_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;Informações obtidas nos processos de <i>genere e vita et moribus</i> antes referenciados.</div>
<div id="BIOG_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. <i>Comércio do Espírito Santo</i>, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2.</div>
<div id="BIOG_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;CLÁUDIO, Afonso. <i>História da Literatura Espírito-santense</i>. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 224.</div>
<div id="BIOG_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO. Vitória. Série Accioly, livro 311.</div>
<div id="BIOG_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;Ibidem.</div>
<div id="BIOG_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;ROCHA, Levy. <i>Viajantes Estrangeiros no Espírito Santo</i>. Brasília: EBRASA, 1971. p. 94. O autor não menciona no texto a fonte de onde teria extraído estas observações. Deve-se assinalar o equívoco cometido pelo criterioso historiador referindo-se a Santa Cruz como o local de nascimento do padre Antunes, equívoco que se repetiu na nota 14 à página 33 da obra <i>Viagem à Província do Espírito Santo</i> de Auguste-François Biard.</div>
<div id="BIOG_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;BIARD, Agugust-François. <i>Viagem à província do Espírito Santo</i>. Vitória: Cultural-ES. s/d, p.33.</div>
<div id="BIOG_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;Informações colhidas nos processos de habilitação de <i>genere e de vita et moribus</i> do padre Antunes pesquisados no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro e no livro 311 da série Accioly existente no Arquivo Público Estadual do Espírito Santo.</div>
<div id="BIOG_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;OLIVEIRA, José Teixeira de. <i>História do Estado do Espírito Santo</i>. 2. ed. ampl. e atual. Vitória: Fundação Cultural do Espírito Santo, 1974-75. p. 382.</div>
<div id="BIOG_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP31V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. <i>Comércio do Espírito Santo</i>. Vitória, 2 dez. 1897, p. 2.</div>
<div id="BIOG_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP32V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a>&nbsp;ROCHA, Levy. Viagem de Pedro II ao Espírito Santo. <i>Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro</i>. Rio de Janeiro. IHGB, 1960. v. 246. Separata. p. 40.</div>
<div id="BIOG_RP33">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP33V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a>&nbsp;ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO. Vitória. Série Accioly – livro n° 311.0 último ofício assinado pelo vigário Francisco Antunes de Siqueira é datado de 24 de fevereiro de 1869.</div>
<div id="BIOG_RP34">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP34V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a>&nbsp;ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO. Vitória. Série Accioly – livro n° 187.</div>
<div id="BIOG_RP35">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP35V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a>&nbsp;ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL DO ESPÍRITO SANTO. Vitória. Série Accioly – livro n° 199. O recurso é acompanhado de pública-forma de oito atestados favoráveis ao padre Antunes assinados por diversas autoridades que elogiam o seu comportamento e, em alguns deles, o eximem de participação nos acontecimentos antes referidos de 8 de setembro de 1876 envolvendo a irmandade do SS. Sacramento.</div>
<div id="BIOG_RP36">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP36V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a>&nbsp;CLÁUDIO, Afonso. <i>História da Literatura Espírito-santense</i>. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 226. Cita também “desavenças que teve com o comandante da companhia de aprendizes marinheiros, de que foi capelão, [e] com o capitão do porto.”</div>
<div id="BIOG_RP37">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP37V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a>&nbsp;FRAGA, Christiano Woelffel. <i>A Maçonaria no Espírito Santo</i>. Vitória: s.n., 1995. p. 129.</div>
<div id="BIOG_RP38">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP38V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a>&nbsp;CLÁUDIO, Afonso. <i>História da Literatura Espírito-santense</i>. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 214.</div>
<div id="BIOG_RP39">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP39V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a>&nbsp;TINOCO, Antônio. Padre Antunes de Siqueira. <i>A Gazeta</i>, Vitória, 26 jan. 1951.</div>
<div id="BIOG_RP40">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP40V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a>&nbsp;ELTON, Elmo. <i>Velhos templos de Vitória &amp; outros temas capixabas</i>. Vitória: Conselho Estadual de Cultura, 1987. p. 89.</div>
<div id="BIOG_RP41">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP41V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 41 ]</b></sup></a>&nbsp;CLÁUDIO, Afonso. <i>História da Literatura Espírito-santense</i>. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 329 e 232.</div>
<div id="BIOG_RP42">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP42V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 42 ]</b></sup></a>&nbsp;NOVAES, Maria Stella de. <i>História do Espírito Santo</i>. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 294. (O. D. C. significa Oferece, Dedica e Consagra, segundo fórmula da época.).</div>
<div id="BIOG_RP43">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP43V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 43 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. <i>Homens e Cousas Espírito-Santenses</i>. Vitória: Artes Gráficas, 1914. 1o. livro, p. 129.</div>
<div id="BIOG_RP44">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP44V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 44 ]</b></sup></a>&nbsp;SIQUEIRA, Francisco Antunes de. <i>Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense</i>. 2. ed. Vitória: Imprensa Oficial, 1944. p. 137 a 144.</div>
<div id="BIOG_RP45">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP45V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 45 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. <i>Comércio do Espírito Santo</i>, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2.</div>
<div id="BIOG_RP46">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP46V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 46 ]</b></sup></a>&nbsp;BICHARA, Terezinha Tristão. <i>História do Poder Legislativo do Espírito Santo &#8211; 1835-1889</i>. Vitória: Leoprint, 1984. v. 1.1. 1. p. 199.</div>
<div id="BIOG_RP47">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP47V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 47 ]</b></sup></a>&nbsp;Op. cit. p. 328.</div>
<div id="BIOG_RP48">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP48V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 48 ]</b></sup></a>&nbsp;MONJARDIM, Adelpho Poli. <i>O Espírito Santa na história, na lenda e no folclore</i>. Vitória, s.n., 1983. p. 97. Nesta obra o ilustre historiador reproduz trechos sobre o mesmo assunto existentes às páginas 116-117 do livro <i>Biografia de Uma Ilha</i> de Luiz Serafim Derenzi. 2 ed. Vitória: PMV, 1995, editado originalmente em 1965.</div>
<div id="BIOG_RP49">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP49V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 49 ]</b></sup></a>&nbsp;BICHARA, Terezinha Tristão. <i>História do Poder Legislativo do Espírito Santo &#8211; 1835-1889</i>. Vitória: Leoprint, 1984. v. 1.1. 1. p. 197.</div>
<div id="BIOG_RP50">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP50V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 50 ]</b></sup></a>&nbsp;Op. cit. p. 188.</div>
<div id="BIOG_RP51">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP51V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 51 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. <i>Comércio do Espírito Santo</i>, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2.</div>
<div id="BIOG_RP52">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP52V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 52 ]</b></sup></a>&nbsp;LINS, Ivan. <i>História do Positivismo no Brasil</i>. São Paulo: Nacional, 1964. p. 227.</div>
<div id="BIOG_RP53">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP53V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 53 ]</b></sup></a>&nbsp;Op. cit. p. 221.</div>
<div id="BIOG_RP54">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP54V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 54 ]</b></sup></a>&nbsp;CLÁUDIO, Afonso. <i>História da Literatura Espírito-santense</i>. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 227.</div>
<div id="BIOG_RP55">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP55V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 55 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Grande Enciclopédia Delta Larousse</i>. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1972. v. 5.</div>
<div id="BIOG_RP56">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP56V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 56 ]</b></sup></a>&nbsp;Ibidem. v. 4.</div>
<div id="BIOG_RP57">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP57V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 57 ]</b></sup></a>&nbsp;Ibidem. v. 14.</div>
<div id="BIOG_RP58">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP58V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 58 ]</b></sup></a>&nbsp;Ibidem. v. 5.</div>
<div id="BIOG_RP59">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP59V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 59 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. <i>Comércio do Espírito Santo</i>, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2.</div>
<div id="BIOG_RP60">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP60V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 60 ]</b></sup></a>&nbsp;CLÁUDIO, Afonso. <i>História da Literatura Espírito-santense</i>. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 223-6.</div>
<div id="BIOG_RP61">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP61V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 61 ]</b></sup></a>&nbsp;Estado do Espírito Santo, Vitória, 30 nov. 1897. p.</div>
<div id="BIOG_RP62">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP62V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 62 ]</b></sup></a>&nbsp;Ibidem. 1o dez. 1897.</div>
<div id="BIOG_RP63">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP63V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 63 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA. Amâncio Pinto. Antunes de Siqueira. <i>Comércio do Espírito Santo</i>, Vitória, 2 dez. 1897, p. 2. Na relação que Amâncio Pereira faz das obras impressas do padre Antunes está a “Alocução Congratulatória ao exmo. sr. bispo diocesano d. João Batista Corrêa Néry, em homenagem a sua visita pastoral à cidade do Espírito Santo [atual Vila Velha] no dia 21 de novembro de 1897″.</div>
<div id="BIOG_RP64">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/biografia-do-autor/#BIOG_RP64V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 64 ]</b></sup></a>&nbsp;Ibidem.</div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1999&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Anexo 1</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Antunes de Siqueira (Pe.)]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Documento estampado à página 8 do jornal A Província do Espírito Santo de 30 de março de 1885: Às autoridades civis e eclesiásticas de meu país. Declaro sob a fé, e palavra de sacerdote, que em minha vida, pública e particular, nunca tentei contra a honra das famílias, nem lesei a fortuna do meu próximo. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Documento estampado à página 8 do jornal <i>A Província do Espírito Santo</i> de 30 de março de 1885:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Às autoridades civis e eclesiásticas de meu país.</p>
<p>Declaro sob a fé, e palavra de sacerdote, que em minha vida, pública e particular, nunca tentei contra a honra das famílias, nem lesei a fortuna do meu próximo. Apelo para o testemunho de todas as pessoas, inda mesmo desafetas, com quem tenho tratado, e para os paroquianos de Carapina, Santa Cruz e Barra de São Mateus, onde exerci o parocato, além dos habitantes desta cidade. Provoco a quem se julgar ofendido que me denuncie, para receber o justo castigo, em desafronta da moral, da sociedade, e do pudor da família.<br />
No mais delicado exercício de minhas penosas funções de sacerdote, embora pecador, pela fragilidade humana, nunca aliciei, nem solicitei pessoa alguma “ad inhonesta”.</p>
<p>Vitória, 30 de março de 1885.<br />
&nbsp;Padre Francisco Antunes de Siqueira.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Na mesma página do jornal estão publicados, mais adiante, dois outros documentos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Ilmo. Sr. Redator d’A Folha da Vitória &#8211; Aparecendo em seu jornal de ontem uma denúncia do rapto de uma donzela, feito por um sacerdote que existe entre nós; peço-lhe queira sob sua palavra de honra declarar se é com o abaixo assinado que se pode entender; permitindo-me fazer de sua resposta o uso que me convier. De V. S. at. v.or. &#8211; padre Manoel Rodrigues Bermude de Oliveira &#8211; Vitória, 30 de março de 1885.</p>
<p>Ilmo. Sr. &#8211; O fato criminoso, que o boato tem dado corpo, e posto em atividade o delegado de polícia deste termo, não tem por ora autor conhecido; entretanto não tenho escrúpulo em julgar V. Rev. fora de tão infamante reputação. Brevemente chegará o público ao conhecimento da verdade, e Deus queira que não passe semelhante boato de uma invenção torpe. Pode S. Rev. fazer desta resposta o uso que lhe convier. De V. rev. at. V. or. &#8211; Aristides B. de B. Freire.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
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			</item>
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		<title>Crítica de atribuição</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Antunes de Siqueira (Pe.)]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Existem evidências no texto ora criticado que levaram a estabelecer, entre os possíveis autores, aquele que foi o verdadeiro criador do trabalho. Neste passo não se pode perder de vista uma frase do próprio padre Antunes: “Todo excesso é vicioso, e até, segundo os lógicos, o muito provar é nada provar…&#8220;[ 5 ] De início, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Existem evidências no texto ora criticado que levaram a estabelecer, entre os possíveis autores, aquele que foi o verdadeiro criador do trabalho. Neste passo não se pode perder de vista uma frase do próprio padre Antunes: “Todo excesso é vicioso, e até, segundo os lógicos, o muito provar é nada provar…<span id="CRAT_RP5V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP5" title="SIQUEIRA, Francisco Antunes de. Esboça Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense. 2. ed. Vitória: Imprensa Oficial, 1944. p. 116."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a></p>
<p>De início, foi eliminada a possibilidade de a obra ter sido elaborada por mais de uma pessoa, já que nela seu autor faz alusões a si mesmo na primeira pessoa do singular, todas dando testemunho de fatos que vivenciou ou dos quais ouviu falar por conhecidos e parentes. Estas são, na realidade, memórias elaboradas por um só indivíduo.</p>
<p>Mas não um indivíduo qualquer. Como diz a supra-mencionada nota jornalística que apresenta as <i>Memórias do Passado</i> elas são “oriundas de uma habilíssima e aplaudida pena”. A primeira evidência sobre a autoria dos artigos se relaciona com a cultura, o grau de instrução, ou seja, com a capacidade que o autor possuía para escrever o texto. No que se refere àquela época, o perfil de um padre intelectual é o que melhor se enquadra como criador de obras como a presente. Ressalta clara em todo o texto uma erudição que, naquele tempo, era própria de sacerdotes, ou seja, um tipo de erudição com citações em latim, referências detalhadas ao culto religioso católico e opiniões que indicam uma nítida formação em seminário. E como se o próprio texto fosse repetindo: “Fui escrito por um padre.” Mas isto é uma pista e, isoladamente, nada significa. Há necessidade de juntar a esta evidência outras que se encaixem entre si, como num <i>puzzle</i>.</p>
<p>Das evidências que me orientaram para estabelecer a autoria do texto, a que logo chamou atenção refere-se à idade do autor, quando no início do artigo 14 ele afirma: “A este período, que abrange o longo espaço de meio século, que marca a minha existência, tão pesada pelas contrariedades da vida e inconstâncias da sorte, que cegamente dá e cegamente tira, como lhe apraz, em seu rápido redemoinho, […]”. E quando declara quase no final do último artigo: “Terminei a tarefa cujo temerário empreendimento, inspirado por um afetuoso patrício, arriscou-me a grande indiscrição! […] Tenho um gênio sôfrego; […] defeito que ainda não pude corrigir, apesar de meio século de vida.”</p>
<p>Assim, o autor afirma e reafirma que tinha cinquenta anos quando da elaboração do texto, tempo que também coincide com o meio século de que trata seu relato. Tais pistas constituíram-se para mim em autêntico fio da meada a ser puxado: estamos frente a um padre erudito, de seus cinquenta anos e vaidoso pelo que tinha escrito, por deixar estas pistas sobre sua idade e, quem sabe, outras mais… Foi necessário confrontá-las com as vidas de padres e escritores do século passado para saber qual delas melhor se coadunaria com a idade citada no texto. O grande achado foi o tempo de vida do autor coincidir, grosso modo, com aquele que na época possuía o padre Francisco Antunes de Siqueira, já que nascido em 1832. Outros prováveis candidatos ou já tinham morrido ou eram muito jovens. A partir desta constatação, as demais evidências buscadas foram contribuindo para solidificar e corroborar minhas convicções sobre a autoria do texto.</p>
<p>Outra evidência relaciona-se com o local de nascimento e de início de vida do autor. Estas referências estão no final do primeiro artigo:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Desde os primeiros anos de minha juventude, distraído por tantos entusiasmos populares, nas horas de meu recreio, a curiosidade, tão própria desse tempo […] me levou com a onda do povo, mas de um modo diverso e com vistas mais elevadas pela instrução que me proporcionavam meus pais e mestres, a presenciar e mais tarde a partilhar, em papéis adequados, das festas que punham em movimento a folgazã população da cidade de Vitória, meu berço natal.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O padre Antunes nasceu em Vitória, e aqui morou toda sua infância e boa parte da adolescência e, depois, na idade adulta, também aqui viveu muito tempo, fato que juntou mais uma peça ao quebra-cabeça acima referido. Bastante significativa é outra evidência relacionada com o fato de o autor se referir a seu apelido de infância como sendo Chiquinho, conforme o texto no início do artigo 26:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Quando não se dava este incidente, então a coisa mudava de face, estava eu em mar de rosas no meu parreiral! Reunido à <i>magna concumitante caterva</i> desempenhava eu meu papel, pois era um bom cabo de guerra. Sem o tal Chiquinho nada se fazia no meu quarteirão, onde era ele o <i>pater conscriptus</i>; pudera não!… Tinha venda, oratório, teatro e sineira com bons sinos representados por alavancas ou pés de cabra, e um grande tacho, que nos cedera o velho Quadros. É isso pouca coisa para meninos?! […] Além daqueles chamarizes, ainda tinha eu um tambor, uma rabeca e foles!</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Ora, Chiquinho no Brasil é apelido de Francisco, em especial de Francisco que tem um pai ou parente próximo com mesmo nome, como forma de fazer a diferenciação nas referências familiares. O autor das Memórias do passado quase sempre se refere ao seu pai como cônego Francisco Antunes de Siqueira, e a si próprio como padre Antunes já que, homônimo do pai, não possuía este título da hierarquia católica.</p>
<p>Ainda uma evidência circunstancial, que corrobora a autoria da obra, está na detalhada descrição, que o autor faz no artigo 28, da doença, morte e enterro (ocorridos em 1850) do cônego Francisco Antunes de Siqueira, em tom de desvelo e cuidado que só cabe a um filho (na ocasião dos fatos jovem seminarista de 18 anos) cultuador da memória de seu pai. Outro elogio ao pai está no artigo 23, quando descreve os ofícios de trevas na quarta e quinta- feira da semana santa (de 1848) como “[…] os mais solenes, imponentes e grandiosos de todos quantos presenciei aqui na capital” e que tiveram o cônego Antunes como celebrante principal.</p>
<p>Existem outros indícios na obra que contribuem, de modo importante, para atribuir sua autoria ao padre Francisco Antunes de Siqueira.</p>
<p>O autor do texto demonstra conhecimento das paróquias (inclusive citando fatos nelas ocorridos) que coincidem com os lugares e datas em que o padre Antunes ali serviu como pároco, no caso, Carapina (a descrição feita nos artigos 28 e 29 da epidemia de cólera-morbo que grassou naquele lugar em 1856), Santa Cruz (descrição no artigo 31 de episódio vivido com o índio Luís Ludovico) e Barra de São Mateus (atual Conceição da Barra, onde presenciou em 1872 a festa do alardo narrada no artigo 19<span id="CRAT_RP6V">)</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP6" title="Alguns biógrafos falam em São Mateus, mas podem ter confundido com Barra de São Mateus, antigo nome de Conceição da Barra. De qualquer forma, baseei-me na carta do padre Antunes constante no Anexo 1 e em documentos do Arquivo Público Estadual do Espírito Santo."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a></p>
<p>Outro indício significativo é a grande identificação do autor do trabalho com manifestações teatrais e peças de dramaturgia, expressa em diversas passagens das Memórias do passado, o que também confere com a biografia do padre Antunes<span id="CRAT_RP7V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP7" title="É sempre referida pelos biógrafos como de autoria do padre Antunes a farsa D. Minhoca, considerada uma das primeiras da sua espécie elaborada por autor capixaba."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> Oscar Gama Filho, por exemplo, cita como sendo do padre Antunes uma farsa teatral de 1874 denominada As Astúcias de um Seminarista<span id="CRAT_RP8V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP8" title="GAMA FILHO, Oscar. História do Teatro Capixaba: 395 anos. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1981. p. 73."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a></p>
<p>As semelhanças estilísticas e coincidências temáticas de trechos das Memórias do passado com obras comprovadas do padre, em especial o <i>Esboço histórico</i>, servem como mais um argumento fundamental a favor da autoria que atribuo neste estudo.</p>
<p>Referidas semelhanças entre as duas obras são evidentes, seja no uso de expressões em português ou latim, seja no emprego excessivo de parágrafos, entre outros detalhes da criação literária.</p>
<p>De bom grado deixo de lado as semelhanças estilísticas (que em casos mais difíceis poderiam ser um fator decisivo para o estabelecimento de autoria), a fim de ressaltar as coincidências temáticas. Diversos assuntos abordados nas <i>Memórias do passado</i>, publicadas em 1885, são tratados de forma mais resumida em passagens do <i>Esboço histórico</i>, livro editado pela primeira vez oito anos depois, ou seja, em 1893. Tudo leva a crer que, algum tempo após sua publicação, o padre Antunes de Siqueira se utilizou de trechos destes artigos para elaborar a segunda parte do <i>Esboço histórico</i>, com isto desprezando-os, ou não tendo oportunidade de publicá-los em separado. Daí ser compreensível que os biógrafos do padre e escritor não se tenham referido ao folhetim.</p>
<p>Este cotejo entre as duas obras não é exaustivo, servindo somente para exemplificação. Servi-me da segunda edição do <i>Esboço <span id="CRAT_RP9V">Histórico</span></i><a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP9" title="SIQUEIRA, Francisco Antunes de. Esboço histórico dos costumes do povo espírito-santense. 2ª ed. Vitória: Imprensa Oficial, 1944. Passim."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> e acrescento entre parênteses exemplos de expressões semelhantes empregadas nos dois textos.</p>
<p>1) Existe uma descrição da fábula de Perseu e Andrômeda no início do artigo 3 e no artigo 6 das <i>Memórias do Passado</i> (“Aquela cena da intecro e pralaméco”) também presente às páginas 79-80 do Esboço Histórico (“Senhor Sena impracado! Intécro! Paframéco!”).<br />
2) O artigo 19 das <i>Memórias do Passado</i> traz uma exposição da festa do alardo em Conceição da Barra (“e são batizados, aspergindo-os o pároco com água benta”), também existente às páginas 83-5 do Esboço histórico (“e são batizados, aspergindo-os o padre com água benta”).<br />
3) Temas ligados às modas masculina e feminina são abordados no começo do artigo 4 e nos artigos 14 e 15 das <i>Memórias do Passado</i> (“O juiz ordinário […] mandava por oficiais ou meirinhos castigar os crimes de sua alçada! Exprimia bem essa brutal jurisdição trazendo dependurada em uma das pestanas da casaca uma rodinha de cipó de rego”,) e também nas páginas 88 a 92 do <i>Esboço Histórico</i> (“O que achei curioso foi ver o juiz ordinário neste gosto, trazendo por distintivo de sua jurisdição uma rodinha de cipó de rego, presa a uma das pestanas de sua rotunda casaca”).<br />
4) A educação feminina é referenciada no artigo 17 das <i>Memórias do Passado</i> e nas páginas 97 e 98 do <i>Esboço histórico</i>.<br />
5) Referências são feitas à tecelagem em Vitória na página 98 do <i>Esboço Histórico</i> (“Tivemos até um sirgueiro chamado Eustórgio”) e no artigo 18 das <i>Memórias do Passado</i> (“Tivemos até um sirgueiro — o sexagenário Eustórgio”).<br />
6) A procissão das cinzas, com os dizeres em latim que acompanham os andores, é descrita nas páginas 108 a 111 do <i>Esboço Histórico</i> e no artigo 24 das <i>Memórias do Passado</i> e, embora estes dizeres só coincidam num caso ou noutro, pressupomos que isto se deva a uma variação no tempo desta manifestação religiosa.<br />
7) Magos e embusteiros constituem título de tema abordado às páginas 116 a 120 do <i>Esboço Histórico</i> (“Um pobre homem, dado ao vício da embriaguez, arvorou-se em padre e […] começou por batizar, casar e até celebrar, o que fazia deitando aguardente em um copo, o qual cobria com um livrinho de Santa Bárbara, pondo sobre este um ramo de alecrim.”) e também presente no artigo 30 das <i>Memórias do Passado</i> (“…um indivíduo […] arvorou-se em padre e […]. Sentado em uma poltrona, sempre alcoolizado, tendo na frente de um oratório um copo cheio de aguardente, coberto com um livrinho de Santa Bárbara, sobreposto um ramo de alecrim,…”).<br />
8) Outros temas comuns existem, como a festa de São Benedito em Vitória e a rivalidade entre caramurus e peroás.</p>
<p>Assim, estaria caracterizada a existência de um aproveitamento pelo autor, em nova versão ou roupagem, de passagens de obra sua já publicada. E se esta última é anônima, presume-se que o autor comum fique mais à vontade para realizai’ tais resumos e adaptações. O que fica claro também é que nas <i>Memórias do Passado</i> os temas são abordados de forma mais livre, mais desenvolvida, com maior riqueza de detalhes. No <i>Esboço Histórico</i> eles são apresentados de maneira mais contida, mais erudita e resumida. De qualquer maneira é mais do que coincidência a presença, em ambos os trabalhos, de frases e expressões semelhantes, além da temática comum, abordando assuntos particulares, diferentes e mesmo inusitados.</p>
<p>Maria Stella de Novaes faz o seguinte registro que convém consignar aqui:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>A 31 de julho [de 1881], Múcio Scévola Lopes Teixeira foi nomeado Chefe da Secretaria do Governo. Tomou posse a 10 de agosto. Escreveu diversas poesias, que reanimaram a vida literária, na Capital da Província. Publicou, na Vitória, alguns livros de poesias e ‘Memórias do Passado’, no qual declarava: ‘Este livro e a história de minha vida’<span id="CRAT_RP10V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP10" title="NOVAES, Maria Stella de. História do Espírita Santa. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 280."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Apesar de não ter conseguido localizar maiores informações sobre o autor acima referido, acredito que o título de seu livro, que coincide com o mesmo título publicado na seção “Folhetim” de <i>A Província do Espírito Santo</i>, não autoriza que seja a ele atribuída a autoria da obra ora analisada.</p>
<p>O escritor Elmo Elton atribui a autoria da presente obra a Muniz Freire, quando, após contar histórias ligadas à antiga rua da Assembleia, atual rua Muniz Freire, fala sobre a vida e a obra do patrono desse logradouro: “Publicou: <i>A Vitória através de meio século</i>, 1885<span id="CRAT_RP11V">;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP11" title="ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: Instituto Jones dos Santos Neves, 1986. p. 35."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> Não logrei localizar de que fonte foi retirada esta atribuição. Acredito que o equívoco possa advir do fato de o folhetim original ter saído no periódico <i>A Província do Espírito Santo</i> de que Muniz Freire era fundador e redator.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="CRAT_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;SIQUEIRA, Francisco Antunes de. <i>Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense.</i> 2. ed. Vitória: Imprensa Oficial, 1944. p. 116.</div>
<div id="CRAT_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Alguns biógrafos falam em São Mateus, mas podem ter confundido com Barra de São Mateus, antigo nome de Conceição da Barra. De qualquer forma, baseei-me na carta do padre Antunes constante no Anexo 1 e em documentos do Arquivo Público Estadual do Espírito Santo.</div>
<div id="CRAT_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;É sempre referida pelos biógrafos como de autoria do padre Antunes a farsa D. Minhoca, considerada uma das primeiras da sua espécie elaborada por autor capixaba.</div>
<div id="CRAT_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;GAMA FILHO, Oscar. <i>História do Teatro Capixaba: 395 anos</i>. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1981. p. 73.</div>
<div id="CRAT_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;SIQUEIRA, Francisco Antunes de. <i>Esboço histórico dos costumes do povo espírito-santense.</i> 2ª ed. Vitória: Imprensa Oficial, 1944. Passim.</div>
<div id="CRAT_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;NOVAES, Maria Stella de. <i>História do Espírito Santa</i>. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 280.</div>
<div id="CRAT_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/critica-de-atribuicao/#CRAT_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;ELTON, Elmo. <i>Logradouros antigos de Vitória.</i> Vitória: Instituto Jones dos Santos Neves, 1986. p. 35.</p>
</div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1999&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Contexto histórico da produção da obra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:38:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Antunes de Siqueira (Pe.)]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A sociedade provincial espírito-santense era herdeira direta do antigo sistema colonial da época mercantilista, sistema que se baseava num tripé: a dominação da metrópole sobre a colônia, o “exclusivo” comercial, e o escravismo colonial. Aquela sociedade possuía grandes contradições, sendo a maior delas a sobrevivência do escravismo após o fim do período colonial, em tudo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A sociedade provincial espírito-santense era herdeira direta do antigo sistema colonial da época mercantilista, sistema que se baseava num tripé: a dominação da metrópole sobre a colônia, o “exclusivo” comercial, e o escravismo colonial. Aquela sociedade possuía grandes contradições, sendo a maior delas a sobrevivência do escravismo após o fim do período colonial, em tudo limitando as relações sociais. O povo não era cidadão, mas súdito, e a maior parcela da população nem isso era.</p>
<p>Economia pré-industrial, dependente de mercados externos, que se limitava a exportar cada vez mais café e cada vez menos açúcar. Também produzia artigos de sustentação como algodão, milho, farinha de mandioca, cachaça, amendoim, pescado, feijão e outros para seu próprio consumo, com alguma sobra a ser vendida fora do território espírito-santense.</p>
<p>Pequena e pobre província que iniciou sua existência ainda restrita às matas desconhecidas e inexploradas do interior e aos povoados e vilas do litoral.</p>
<p>O porto de Vitória em meados do século passado começa a ter certo movimento com a entrada de imigrantes e a exportação de café, mas, a rigor, nem porto existia, os navios fundeando ao largo da baía e sendo carregados e descarregados por alvarengas ou batelões. O mar e os rios, verdadeiras estradas líquidas, ajudavam na comunicação com os povoados ribeirinhos do litoral e do interior. Poucas estradas e todas péssimas, sendo mais trilhas para tropas. Ferrovias só em sonhos e projetos.</p>
<p>Em tudo o atraso a que fomos condenados pela pujança do ouro das Gerais que, durante longos anos, nos destinou a ser reserva natural de defesa, com matas, onças e índios. Matas com proibição de serem penetradas, já que “onde há muitos caminhos, há muitos descaminhos”. Descontar tal atraso ainda iria demorar muito e, em certo sentido, os resultados de tal estagnação ainda não foram superados inteiramente.</p>
<p>E em meio a essa situação vivia a pequena cidade <i>da </i>Vitória (modo de falar que antigamente os moradores usavam para se referir a sua cidade e que cheguei a ouvir sendo empregado por dona Stelinha de Novaes, talvez influenciada pelos textos antigos que lia) com uma grande quantidade de festas religiosas, a Igreja comandando toda a vida das pessoas, do acordar ao adormecer (por exemplo na hora do <i>angelus</i>), do berço ao túmulo.</p>
<p>Em tal contexto social pontificava a figura, para nós hoje estranha, do padroado. Essa ligação da Igreja com o Estado resultava em que os padres fossem também servidores públicos. Na pressuposição de que todos os habitantes de Vitória eram católicos (e, oficialmente, de fato o eram), deveriam ser batizados, casados na igreja e terem seus corpos encomendados, ações que correspondiam, respectivamente, aos atuais registros civis de nascimento, casamento e óbito. Os corpos eram enterrados nas igrejas ou em cemitérios anexos, sendo os mais famosos o do convento de São Francisco (verdadeiro cemitério da cidade) e o da igreja do Rosário. Cemitério público afastado do centro de Vitória só vai existir nos começos do século XX, no bairro de Santo Antônio.</p>
<p>A infraestrutura urbana pouco diferia daquela herdada do período colonial. Nada de água encanada nem, portanto, de esgoto. Os chafarizes atendiam precariamente às necessidades de água. Os dejetos dos penicos eram esvaziados em tigres (denominação certamente relacionada com o seu fedor, como na expressão bafo de onça) e o conteúdo dos barris era atirado na maré vazante. Na iluminação pública empregavam-se os óleos de baga (semente de mamona), de peixe (como também se chamava o óleo de baleia) e depois o gás e o querosene. Presume-se que as noites de lua cheia, com tempo bom, é que iluminavam de fato os logradouros. Vitória era uma cidade ainda com casario colonial, com ruas e ladeiras calçadas a pé-de-moleque; enfim, uma Ouro Preto à beira-mar plantada.</p>
<p>Mas apesar das diferenças sociais, das doenças e da pobreza o povo brincava. Vejam no texto do padre Antunes as descrições da marujada, das festas e procissões, onde os ricos, remediados e pobres desfilavam suas vaidades e diferenças, uns e outros irmanados até certo ponto na igualdade da alegria. Mas até certo ponto. O que para nós hoje é simbólico e resquício de outras épocas, revelava-se antigamente como muito significativo e objeto de grandes controvérsias. O seguinte relato, extraído da obra de Elmo Elton, nos esclarece a respeito:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Quando da realização de uma dessas procissões, isto e a 8 de setembro de 1876, surgiu uma desavença entre o vigário Mieceslau Ferreira Lopes Wanzeler e o povo, já que o padre queria fossem a naveta e o turíbulo conduzidos por um seu escravo. A Irmandade do Santíssimo Sacramento, constituída das pessoas mais gradas da cidade, protestou contra tal deferência, sob a alegação de que escravo não podia acompanhar aquela procissão, e, caso o vigário insistisse em mantê-lo ali, o andor da padroeira não sairia da igreja. A Irmandade de São Benedito, diante disso, retirou-se do templo, enquanto a da Boa Morte faz coro aos protestos dos irmãos do SS. Sacramento, todos revoltados com a atitude “impensada” do vigário, visto que o mesmo, repetiam eles, não sabia distinguir brancos de pretos, tratando-os, arbitrariamente, em pé de igualdade. O vigário, contudo, não se deu por vencido, e, deixando a custódia que trazia nas mãos, sob o pálio, declara, em rápidas e contundentes palavras, que, a partir daquele momento, estava alforriado o escravo sendo que, em decorrência dessa declaração, pôde o mesmo acompanhar o préstito, assim como o queria o padre, ainda que muito a contragosto dos demais acompanhantes<span id="CHPO_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/contexto-historico-da-producao-da-obra/#CHPO_RP2" title="ELTON, Elmo. Velhos templos de Vitória &amp; outros temas capixabas. Vitória: Conselho Estadual de Cultura, 1987. p. 24-5."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A História guardou o nome desse ex-escravo: Antônio Wanzeler, também chamado de Antônio da Catedral e Antônio Sacristão.</p>
<p>As irmandades em Vitória, como de resto em muitos outros lugares do Brasil colonial e imperial, representavam uma proteção para as pessoas, tanto na vida como na morte. A sociedade desse tempo era muito estratificada em estamentos de negros (livres e escravos — na verdade os primeiros sem-terra seguridade social, os irmãos ajudavam os doentes, velhos, órfãos e viúvas, além de garantir enterro cristão e as rezas e missas de obrigação para seus componentes defuntos e familiares. No que se relaciona a ritos e costumes da vida, a festas e congraçamentos, tão próprios da condição humana, eram em grande parte proporcionados pelas irmandades e realizados sob sua direta supervisão. Tais instituições exerciam um papel de controle social e de reprodução das condições, iníquas para nós, em que se conformava toda a sociedade de então. Sem contar os reconhecimentos de <i>status </i>social, pelos indivíduos pertencerem a esta ou aquela irmandade e nelas ocuparem cargos, honoríficos ou não.</p>
<p>Era comum nessa época padres terem filhos. Citem-se os exemplos do padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte, filho do padre Manoel Pinto Ribeiro como registrado por Maria Stella de Novaes<span id="CHPO_RP3V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/contexto-historico-da-producao-da-obra/#CHPO_RP3" title="NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 122."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> e do padre Francisco Antunes de Siqueira, filho do cônego do mesmo nome. No dizer do escritor Oscar Gama Filho “[…] Antunes de Siqueira foi professor de latim, político, padre, filho de padre e pai — era sua filha a esposa do poeta Virgílio Vidigal […]”<span id="CHPO_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/contexto-historico-da-producao-da-obra/#CHPO_RP4" title="GAMA FILHO, Oscar. Razão do Brasil: em uma sociopsicanálise da literatura capixaba. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 89."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> Inclusive as crenças e brincadeiras de que “mulher de padre vira mula sem cabeça”, ou de que “o último a chegar é mulher de padre” não passam de sobrevivências de urna condenação social. Acredito mesmo que a Igreja Católica fazia vista grossa para esses fatos, já que o importante era manter a centralização do edifício eclesiástico e essas “famílias de padre” que ficavam no limbo da legalidade não podiam contestar a abrangência da obra sagrada no plano material e terreno.</p>
<p>Mas na Vitória dos anos 80 do século passado, que aparentava tranquilidade, garantia de continuidade das diferenças sociais e estabilidade institucional, transformações estavam sendo gestadas. O povo já não aceitava mais a escravidão. A mão-de-obra estrangeira estava aumentando sua presença na sociedade vitoriense. As instituições públicas e privadas procuravam se modernizar, mesmo que tal modernização não implicasse grandes rupturas, como ocorre no episódio da proclamação da República.</p>
<p>Em certo sentido pode-se dizer que estas <i>Memórias do passado</i> retratavam uma realidade que já não mais existia, ou que se estava transformando. Daí a oportunidade, enxergada pelos positivistas de <i>A Província</i>, de veicular “usos e costumes da geração que nos precedeu”, com certa ponta de saudosismo, mas também mostrando aos contemporâneos como as práticas do povo já se tinham alterado e poderiam alterar-se ainda mais.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="CHPO_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/contexto-historico-da-producao-da-obra/#CHPO_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;ELTON, Elmo. <i>Velhos templos de Vitória &amp; outros temas capixabas</i>. Vitória: Conselho Estadual de Cultura, 1987. p. 24-5.</div>
<div id="CHPO_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/contexto-historico-da-producao-da-obra/#CHPO_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;NOVAES, Maria Stella de. <i>História do Espírito Santo</i>. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 122.</div>
<div id="CHPO_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/contexto-historico-da-producao-da-obra/#CHPO_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;GAMA FILHO, Oscar. <i>Razão do Brasil: em uma sociopsicanálise da literatura capixaba</i>. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991. p. 89.</div>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1999&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Publicação do folhetim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:05:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Antunes de Siqueira (Pe.)]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No dia 22 de março de 1885, um domingo, o jornal A Província do Espírito Santo publica na seção “Fatos e Boatos — Notícias Locais” a seguinte informação: “Expediente. – Folhetim – Nesta seção de nossa folha encetamos hoje a publicação de um interessante escrito, original duma pena habilíssima e aplaudida. Sob o título ‘Memórias [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-il3E7mPUw54/V_fxxj9RKzI/AAAAAAAAKZw/2yuBukLf5jMkqOwo26eG6krpRUJo8jtGgCLcB/s1600/PhotoScan.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/PhotoScan.jpg" class="wp-image-5975" width="282" /></a></div>
<p>
No dia 22 de março de 1885, um domingo, o jornal <i>A Província do Espírito Santo</i> publica na seção “Fatos e Boatos — Notícias Locais” a seguinte informação: “Expediente. – Folhetim – Nesta seção de nossa folha encetamos hoje a publicação de um interessante escrito, original duma pena habilíssima e aplaudida. Sob o título ‘Memórias do Passado – A Vitória Através de Meio Século’, o autor do curiosíssimo escrito patenteia-nos em descrição pitoresca e por vezes eloquente usos e costumes da geração que nos precedeu, narrando as festas profanas e as de caráter semi-religioso que fizeram as delícias de outras épocas entre nós. Temos convicção de que aos leitores agradará muito o brinde que A Província faz-lhes com a publicação desse folhetim.” É interessante constatar que nessa época os jornais já inventavam brindes para atrair seus leitores. Aliás, o folhetim foi criado para isso mesmo — atrair e manter leitores. No presente caso, o folhetim não tem a pretensão de ser uma obra de ficção <i>tout court</i>. Apesar de certa mistura e dispersão dos temas, e de um vai-e-vem dos assuntos tratados (situação reconhecida pelo próprio autor das <i>Memórias do Passado</i>), eles possuem um certo encadeamento. Sem contar que no final de alguns artigos existe o gancho para que o leitor se interesse pelo que vem depois do termo continua. O folhetim, antes considerado como um gênero de segunda categoria, vem ultimamente sendo reabilitado como imediato precursor do romance oitocentista. Mais adiante, na mesma seção e página, após outras “Notícias Locais”, também está inserida a seguinte nota: “Sermão Quaresmal – O Sr. cônego Meireles, vigário da paróquia, proibiu que o reverendo padre Antunes de Siqueira pregasse na última sexta-feira, como havíamos anunciado, pelo fato de não ter sido consultado anteriormente!?” Este fato ilustra, ao lado de muitos outros da vida do ilustre espírito-santense, o motivo por que ele se utilizou do criptônimo de *** ao publicar o seu trabalho. Se para pregar um sermão quaresmal o padre necessitava de licença do pároco de Vitória (o padre Antunes por diversas vezes foi suspenso do exercício das ordens sacras), devemos avaliar que outros impedimentos e reprimendas poderiam ser evitados se o autor do folhetim, gênero popular na época, se protegesse atrás do anonimato; quando menos para expor com liberdade suas opiniões. E ele as expõe, por exemplo, ao criticar os Irades em geral no começo do artigo 13, ou fazer uma comparação desfavorável ao então vigário de Vitória no artigo 28. De 22 de março a 7 de maio de 1885, uma quinta-feira, foram publicados por <i>A Província do Espírito Santo</i> trinta e dois artigos relatando as impressões do seu autor sobre a vida e as festas, sobretudo religiosas, de Vitória. Segundo nos informa Heráclito Amâncio Pereira, foi o referido periódico “fundado por Cleto Nunes Pereira e Dr. José de Melo Carvalho Muniz Freire, e cujo primeiro número saiu em 15 de março de 1882”.<span id="PDF_RP1V"></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/publicacao-do-folhetim/#PDF_RP1" title="PEREIRA, Heráclito Amâncio. A imprensa no Espírito Santo, Revista de Cultura – Ufes; Antropologia e História, Vitória, Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1(2): p. 74-5, 1º semestre 1979. Edição Especial."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> No subtítulo do jornal, edição de 22 de março de 1885, vê-se estampada a frase: “Diário consagrado aos interesses provinciais, filiado à escola liberal”. Nesse ano a tiragem de <i>A Província</i> era de 1.300 exemplares. Vitória na penúltima década do século passado (época em que os artigos foram publicados, referindo-se a um período anterior de c. 1830 a c. 1880) era uma cidade pequena, de alguns milhares de habitantes. Poucas pessoas na cidade possuíam capacidade e erudição para escrever um folhetim com artigos como esses, repletos de citações em latim e referências que indicavam uma formação humanista. O seu autor, por precaução, quis o anonimato, mas quase todos que liam seus artigos sabiam quem os havia escrito, o que satisfazia a vaidade do padre Antunes. Sem contar que um folhetim anônimo sempre tem o seu charme. Mas seus inimigos nada podiam provar, não tendo meios, assim, de censurar ou prejudicar o padre. Outra causa provável para a escolha do anonimato era a vida do padre, que tudo indica tenha sido conturbada nas suas relações com as autoridades religiosas e civis e com seus paroquianos, como existem indícios sempre referidos de forma indireta em sua biografia.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="PDF_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/publicacao-do-folhetim/#PDF_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;PEREIRA, Heráclito Amâncio. A imprensa no Espírito Santo, <i>Revista de Cultura – Ufes</i>; Antropologia e História, Vitória, Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1(2): p. 74-5, 1º semestre 1979. Edição Especial.</div>
<p>
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 1999&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Qual Espírito Santo?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:32:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(&#8230;), pois o que vive tem sempre razão. J. H. Rodrigues O português não descobriu o Espírito Santo, que ainda não existia com nome e configuração portuguesas, mas conformou este território aos seus desígnios e interesses. A história tem suas ironias. O colonizador, presente neste lugar durante trezentos anos, não comemorava sua chegada, o que [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;">
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-HMqWJgY42TY/WFGoeEn9IYI/AAAAAAAALGo/Kw3JB5_dJiIPCzGyafbyvslruRPuDpC1ACLcB/s1600/capixaba.3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Foto Guilherme Santos Neves, anos 1950." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/capixaba.3.jpg" class="wp-image-6040" title="Foto Guilherme Santos Neves, anos 1950." width="257" /></a></div>
<div style="text-align: center;">
</div>
<p>
(&#8230;), pois o que vive tem sempre razão.</div>
<div style="text-align: right;">
J. H. Rodrigues</div>
<p>
O português não <i>descobriu</i> o Espírito Santo, que ainda não existia com nome e configuração portuguesas, mas conformou este território aos seus desígnios e interesses. A história tem suas ironias. O colonizador, presente neste lugar durante trezentos anos, não comemorava sua chegada, o que hoje se denomina de <i>Colonização do Solo Espírito-santense</i>. A necessidade de se marcar a data (tomada como natalício da terra) vai surgir depois de encerrado o período colonial, quando as elites provinciais, e depois estaduais, buscam formas de se legitimar no poder e controlar a população através de um civismo formal. Tais eventos são incentivados no período dos Estados Unidos do Brasil, em que durante certo tempo os presidentes do nosso estado tomavam posse no dia 23 de maio (não havia coincidência de mandato dos governantes estaduais brasileiros) e os símbolos espírito-santenses foram criados ou restabelecidos — o selo e as armas a partir da primeira década do século XX, o hino e a bandeira atual em 1947. Tivemos mesmo uma época em que muitos prédios do governo estadual eram pintados de rosa (o palácio Anchieta, sobretudo), seguindo disposições regulamentares que elegeram aquela cor, junto com o branco e o azul claro, para integrarem os símbolos estaduais. O que, de resto, pode ser apelidado de <i>heráldica dos meios-tons</i>. </p>
<p>Estes símbolos e datas são meras referências transitórias na história capixaba, e sabemos que nem tudo em seu transcorrer foi cor-de-rosa. Pelo contrário. Já que existem efemérides e comemorações oficiais, devemos sugerir, apesar delas, alguns temas para reflexão tendo como elemento comum a pergunta: qual é, para nós capixabas, o principal sentido de tudo o que foi feito nestas terras, da época dos portugueses aos dias atuais? </p>
<p>Existe uma resposta mais ou menos evidente para os que fazem do estudo da história espírito-santense uma atividade profissional — as grandes decisões que sempre presidiram o destino capixaba foram tomadas para atender aos interesses de grupos e pessoas que vivem longe daqui. Em outras palavras: o Espírito Santo sempre se constituiu numa área periférica, situada em um território dependente — a margem da margem. </p>
<p>Do colonialismo português ao neocolonialismo atual existe uma distância — nem tão grande assim — que separa, por exemplo, a montagem de uma empresa colonial exportadora, iniciada por Vasco Fernandes Coutinho, do funcionamento da Companhia Siderúrgica de Tubarão, empresa neocolonial que deve produzir a custos baixos e vender a preços vis. Se tais empresas representam diferentes momentos históricos, elas têm em comum o fato de que decisões tomadas em longes terras (antes Portugal, agora Japão e Itália) condicionam toda a vida e toda a obra dos capixabas. Porque o mais que aconteceu e acontece é conseqüência destas realidades coloniais e neocoloniais maiores. Toda a economia, toda a sociedade e quase toda a política estão direcionadas para manter e reproduzir esta situação. Então, falar de arte e cultura, ou de estética e moral, de transportes e urbanização, ou de água e luz, de saúde e educação, ou de segurança pública e abastecimento, de justiça e ética, de imprensa e lazer e de outros aspectos de nossa vida fica sem sentido se não colocarmos nossas reflexões fundamentadas no contexto maior antes referido. </p>
<p>A história está sempre sendo escrita e reescrita, o que, além de saudável, é indispensável. Quem cria e recria constantemente a interpretação histórica são as sucessivas gerações descobrindo novos temas, novas abordagens, de acordo com seus interesses e idéias. A história capixaba possui muitos complexos de fatos praticamente virgens de pesquisa e tão variados como a participação das igrejas (em especial a católica) na nossa formação, a inquisição no Espírito Santo, as contribuições culturais trazidas pelos vizinhos baianos, fluminenses e mineiros e muitos outros. Selecionamos alguns assuntos para rápidas considerações. </p>
<p><b>As Populações Autóctones</b></p>
<p>Muito pouco ainda se conhece sobre a existência dos habitantes originais desta região por duas razões — não há interesse em se pesquisar este tema, e os poucos estudos existentes têm divulgação restrita. As populações indígenas aqui encontradas pelo colonizador receberam, em resumo, dois tipos de tratamento — eliminação rápida ou eliminação lenta. Do índio pode-se dizer, neste contexto e sem conotação desrespeitosa, o que se diz de um vegetal (o coqueiro) ou de um animal (o boi) — dele tudo se aproveita. O colonizador aproveitou tudo do índio. Suas terras para moradia e implantação de estabelecimentos econômicos; seu suor para movimentar a economia, construir igrejas, fortalezas, casas, estradas, pontes e cidades; sua comida (a mandioca, os peixes) para sustento; suas mulheres para reprodução; seus conhecimentos para dominar a terra e se apropriar das plantas e animais; sua força numérica para defesa contra os inimigos americanos ou europeus; sua música, sua língua, seus hábitos para melhor neutralizar os próprios nativos; e, enfim, sua morte para desocupar o território e dar exemplo aos demais indígenas. </p>
<p>O genocídio legal e legitimado sobre populações aborígines que o colonizador praticou neste lugar durante muitos anos (as aldeias do Cricaré incendiadas, os índios mortos por doenças ou por outros índios&#8230;) não se deveu a uma tara inata do português para o extermínio. É que ele tinha por objetivo a montagem de uma empresa colonial exportadora e, dentro desta lógica, eliminou ou neutralizou tudo o que a ela se opunha. Porque fatos que hoje condenamos eram prática comum. De forma a tornar mais inteligível nossa história, é importante enxergar com a maior nitidez possível, sem pieguices ou ilusões, este processo histórico em que milhares e milhares de seres humanos foram eliminados por representarem um empecilho à dominação portuguesa. </p>
<p>Os sucessivos governos da Coroa, do Império e da República, e seus representantes locais, sempre tiveram suas políticas em relação ao indígena habitante do território espírito-santense. A título meramente exemplificativo podemos destacar: a existência dos aldeamentos jesuíticos; a declaração de guerra justa aos botocudos do rio Doce feita pelo Príncipe Regente, depois D. João VI; a presença do Aldeamento Imperial Afonsino em terras do atual município de Conceição do Castelo; a organização do Aldeamento de Pancas que ainda existia há poucas décadas atrás; os índios aculturados de Caieira Velha&#8230; </p>
<p>Também estão para ser devidamente estudados os complicados e longos processos que resultaram na destruição gradual das culturas indígenas e na assimilação de seus elementos ao saber comum capixaba. De real, temos a presença no povo espírito-santense de estoques genéticos originados dos índios (basta olhar muitos rostos da nossa população para vislumbrar este legado) e de características culturais respeitantes à comida, à língua, aos comportamentos sociais, às crenças. Tudo isto, e muito mais, que foi bastante reprimido nos índios e em seus descendentes (como foi difícil obrigar o povo a esquecer sua língua materna, sua língua geral!), hoje começa a ser revalorizado. Mas, por favor, não digam que o nome de Ibiraçu, para citar um exemplo, foi dado pelos índios. Os colonos italianos e seus descendentes que ocuparam aquela região, com grande ocorrência de árvores frondosas, denominaram-na de <i>Pau Gigante</i> — nome <i>traduzido</i> para o tupi-guarani, por iniciativa oficial, na última década de quarenta por ter assumido conotações outras. </p>
<p>Os indígenas, ao contrário das populações escravas de origem africana, nem sequer tiveram uma lei áurea. Até hoje seus remanescentes são considerados incapazes civilmente — suas terras e riquezas sendo espoliadas em diversas partes do território nacional e, quando a isto se opõem, continuam a ser destruídos fisicamente. </p>
<p><b>Os Colonizadores Portugueses</b></p>
<p>A contribuição portuguesa predomina no processo de aculturação, que vem acontecendo no território espírito-santense desde o século XVI, pelo simples fato de o colonizador ter sido desta etnia. O domínio português se exerceu sobre nosso território não sem resistência dos indígenas. No início houve a ocupação de estreita faixa litorânea: a fundação das primeiras localidades — futuras vilas e cidades — ocorreu no litoral ou perto dele. E até inícios do século XIX os principais sítios urbanos espírito-santenses resumiam-se a Itapemirim, Benevente (atual Anchieta), Guarapari, Vila Velha, Vitória, Serra, Nova Almeida, Santa Cruz, Linhares e São Mateus, que entre si e com outros locais mantinham contato, sobretudo, através das estradas líquidas (e já prontas) dos rios e do mar. </p>
<p>Sociedade patriarcal, ruralizada, com uma minoria de brancos dominando a grande maioria de índios, negros e miscigenados, e utilizando-se de todos os meios para manter esta situação. Tudo controlado, tudo censurado, tudo proibido autoritariamente. Por exemplo: as pessoas que se deslocavam para fora da capitania, depois província, precisavam de licença expressa, de um passaporte. A elite sempre voltada para o exterior, onde estavam seus interesses, copiava padrões de comportamento vigentes na Europa e nos Estados Unidos. Mesmo no período imperial e no da República Velha, quando o controle político do Brasil era exercido indiretamente por outros países, assistimos à veiculação de idéias que objetivavam adequar melhor a sociedade brasileira ao consumo de produtos estrangeiros. O Espírito Santo exportava açúcar, madeiras, algodão, depois café, e recebia, em geral, baixos pagamentos pelos produtos. E estes poucos recursos eram empregados, em grande parte, na construção de melhor infra-estrutura para atender à própria exportação, ou na importação de quase tudo — da manteiga à vela, das telhas à madeira, da tinta ao papel, do azeite ao vinho, dos tecidos aos equipamentos e ferramentas. Certos membros das elites econômicas, até hoje, querem nos fazer pensar que os produtos importados são melhores que os nacionais, o que nem sempre é verdadeiro. </p>
<p>Neste contexto de dependência econômica, de rígida estratificação social, com os capixabas polarizados entre a grande maioria despossuída e um pequeno grupo de poderosos, como ficava a produção cultural? Cultura na acepção restrita do termo, para designar as artes e o trabalho intelectual. Em região marginal de uma colônia é fácil perceber que as condições para aquela produção não eram as mais propícias. </p>
<p>No campo das idéias predominou a ideologia cristã com diversas variações e modificações. Durante todo o período colonial, que não foi tão uniforme nem tão estático como querem alguns pesquisadores, a repressão portuguesa foi feroz e constante. A publicação de livros e periódicos era proibida e a grande massa da população, mantida ignorante e embrutecida, não tinha acesso à leitura. Os poucos livros que circulavam eram severamente controlados pelas autoridades civis e eclesiásticas. Produziam-se escritos de inspiração religiosa e laudatória elaborados por padres, na maioria dos casos. No entanto, as manifestações artísticas, produtos de seu tempo, sempre estiveram presentes no Espírito Santo. O colonizador, principalmente nas atividades ligadas à religião, utilizou as artes como um importante instrumento de aculturação dos habitantes da capitania. A arquitetura dos templos, os autos freqüentemente representados dentro das igrejas ou em seus adros, as festas religiosas, os cânticos, as pinturas e esculturas retratando motivos sacros — é a arte posta a serviço dos interesses daquela elite dominante. A arte feita pelo povo e produzida fora dos padrões consagrados pelo dominador era considerada inferior e desprezada. </p>
<p>A presença da Igreja, que só com a República se separou do Estado, era permanente e se exercia em todas as regiões e em todos os espaços sociais do universo capixaba. Os sacerdotes, em especial os párocos, com acesso a conhecimentos ignorados pela maioria da população, sabiam o que se passava nas comunidades devido à confissão auricular, aos registros — como o batistério — que eram obrigados a fazer, à influência que possuíam sobre toda a sociedade. Porque os principais acontecimentos na vida dos indivíduos tinham por referência a igreja católica e a assistência espiritual de padres — as pessoas eram batizadas, crismadas, casadas no religioso e, por fim, sepultadas em campo santo. E isto também se constituía em regra geral para as populações do interior, ainda que elas possuíssem acesso irregular aos considerados, na época, benefícios da religião. As práticas e festas religiosas não só alcançavam a vida em seus ciclos anuais. Nas vilas, os sinos das igrejas e capelas comandavam o cotidiano das pessoas — os chamamentos para o culto, os anúncios alegres ou tristes, os toques de ângelus. </p>
<p>Na assistência social e hospitalar tivemos desde cedo no Espírito Santo a presença de uma instituição típica do mundo português — a Santa Casa de Misericórdia, por sinal uma das primeiras fundadas na colônia. A história desta instituição se confunde com a história da própria sociedade capixaba; é um seu retrato. Escravos e senhores, pobres e ricos, comerciantes, artífices, profissionais liberais, grandes e pequenos funcionários, a Igreja, todos envolvidos nas atividades que, a partir de certo momento de predomínio da ideologia cristã, se convencionou chamar caridade (uma espécie de amor). A força presente no lema da instituição, <i>Caritas nunquam excedit</i> — caridade nunca é demais —, se fez presente durante muito tempo nas obras de beneficência empreendidas pelos espírito-santenses. </p>
<p>Como em outros lugares do Brasil, diversos capixabas buscavam pertencer a irmandades (a da Misericórdia era uma delas) para ajuda mútua na vida e na morte — assistir aos irmãos doentes, amparar suas viúvas e órfãos, realizar enterros, celebrar missas, promover rezas. Ações que naqueles tempos possuíam imensa importância coletiva, diferente da dimensão social que assumem hoje em dia. De modo geral, as irmandades e ordens terceiras correspondiam aos estamentos sociais de então — os escravos negros (Rosário, São Benedito), os senhores brancos (São Francisco, Carmo, Santíssimo Sacramento) e, de permeio, os pardos livres (Amparo, Boa Morte e Assunção). </p>
<p>Destaque deve ser dado aos jesuítas, que se autodenominavam <i>soldados de Cristo</i>, e formaram no Espírito Santo, por cerca de dois séculos, um poderoso sistema de governo paralelo. E com diversas propriedades que incluíam, dentre outras, as fazendas de Muribeca (no atual município de Presidente Kennedy), de Araçatiba (em Viana), de São João Batista de Carapina (Serra), e os aldeamentos de Reritiba (Anchieta), Guarapari e Reis Magos (Nova Almeida), tudo comandado pelo colégio de São Tiago em Vitória (no prédio que abriga agora o palácio Anchieta). A divisa destes religiosos, que se organizavam em companhia de inspiração militar, era <i>AMDG, Ad Majorem Dei Gloriam</i> — Para a maior glória de Deus. </p>
<p><b>Os Povos Africanos</b></p>
<p>O antigo sistema colonial da época mercantilista esteve presente em nossa terra por meio dos seus três elementos essenciais — a dominação política da metrópole sobre a colônia, como condição; o exclusivo metropolitano do comércio colonial, como mecanismo; o escravismo e tráfico negreiro, como decorrência. O escravismo, forma predominante de trabalho compulsório no Espírito Santo (e, de resto, em todo o império colonial português), origina-se da exigência de um grau acentuado de concentração de renda (de apropriação de renda) na camada mercantil da metrópole. Para que o intercâmbio do exclusivo pudesse continuar era preciso que a renda se concentrasse. A concentração no limite leva à compulsão no limite, ou seja, a concentração de renda no limite exige que o trabalho seja compulsório no seu limite — a escravidão, onde o trabalhador não possui de seu nem o próprio corpo. </p>
<p>A economia colonial é mercantilista, escravista e de acumulação externa. A produção econômica aparece sempre como desdobramento da circulação de mercadorias, passando de predatória para sistemática e assumindo o caráter especializado para complementar a produção dos países centrais com especiarias, produtos tropicais, metais nobres. A característica primeira da economia colonial é sua especialização, a que se relaciona sua regionalização, daí se seguindo o caráter itinerante da mesma. O setor de produção de subsistência é sempre subordinado ao de exportação. E o ritmo de produção é definido pelas flutuações do mercado central, que determina não só o que se produz, mas com que ritmo. O processo produtivo da economia colonial envolve uma grande concentração de capital fixo (como característica essencial) porque o capital circulante neste processo é fixo. Como conseqüência, o investimento inicial cresce e a produção é dominada pelo setor da circulação. </p>
<p>Todo este economês, no caso do escravo africano, pode ser assim resumido — é o tráfico negreiro que explica a existência da escravidão negra na colônia, e não o contrário. A burguesia mercantil metropolitana não tinha interesse em incentivar a escravidão indígena. A <i>mercadoria</i> representada pelo índio escravizado circulava somente dentro da colônia, sem ganho, ou com rendimento restrito, para os negociantes da metrópole. Por outro lado, os mercadores portugueses (ou seus representantes na colônia brasileira) auferiam altos lucros com o tráfico dos escravos negros e sua venda aos colonos. A introdução dos africanos em nossas terras representou um atendimento aos interesses mercantilistas dos portugueses que, inclusive, apregoavam a superioridade de sua <i>mercadoria</i> dizendo serem os negros mais trabalhadores que os índios <i>preguiçosos</i>, entre outras coisas, por já conhecerem a escravidão na África. Eis uma das origens de preconceitos, que sofrem ainda hoje descendentes de povos índios e negros. </p>
<p>Estudar o escravismo moderno a partir do século XIX é não compreender sua verdadeira gênese. Por esta época ele representava uma sobrevivência modificada de um dos elementos que tinham composto o antigo sistema colonial. Tal escravismo é essencialmente de caráter colonialista e se explicita no contexto do antigo sistema colonial e, quando não está nele inserido, é preciso ver em que novo contexto ele se amarra. </p>
<p>De qualquer maneira, era muito grande o grau de repressão necessário para se manter todo um edifício social com base no escravismo. Aos escravos e descendentes, com suas vidas estritamente vigiadas e controladas, não se permitia o pleno desabrochar de seus quereres e saberes. Intrinsecamente violento caracterizava-se este transplante de milhares e milhares de pessoas de um determinado contexto social e sua inserção nos campos e nas vilas espírito-santenses. </p>
<p>Os africanos tiveram grande parte de sua cultura reprimida e desarticulada; os dominadores, contudo, não lograram destruir totalmente estes povos e suas criações culturais. Apesar de toda repressão, os cativos no território espírito-santense passaram boa parte de suas práticas de vida para os demais capixabas. Fossem eles escravos nas fazendas de Itapemirim ou de São Mateus, alugados para trabalhos urbanos ou escravos de Nossa Senhora da Penha, que o convento os possuía e numerosos. Além dos aspectos mais ou menos típicos e mais ou menos tradicionais, encarados como contribuições importantes do negro para a constituição do povo do Espírito Santo (nos hábitos alimentares, no artesanato, no idioma, nos folguedos), estão para serem conhecidas e valorizadas outras contribuições, igualmente valiosas, dos africanos e seus descendentes para a formação capixaba. Como, para exemplificar, os movimentos organizados de resistência negra à dominação branca, antes e depois da libertação oficial. </p>
<p>A libertação veio como simples ato jurídico. É como se a lei assinada pela Princesa Imperial Regente — e tendo como objeto os escravos analfabetos, sem identidade cultural estável, sem perspectivas em sua vida profissional —, os tivesse libertado através de um único artigo: — Virem-se daqui pra frente! As populações negras do Espírito Santo, com raríssimas exceções, não tiveram acesso à posse da terra — bem econômico maior à época. As elites nacionais e locais optaram pela solução imigratória <i>branca</i>, e prepararam sua adoção em doses graduais. Primeiro proibindo o tráfico negreiro. Em seguida mercantilizando a terra para torná-la atrativa para os camponeses europeus sem propriedade. Neste processo <i>libertam</i> os filhos de mulheres escravas (só a partir de certa idade) e os escravos maiores de 65 anos. Escravos e escravas que, naquela época, conseguiam atingir tal idade eram pouquíssimos e não representavam maiores prejuízos para seus donos. Demais, com esta idade, quem os acolheria, para onde iriam, o que fariam, como se manteriam? Situações guardando certa correlação com estas existem no presente. Se a atual população tivesse dignas condições de existência não haveria necessidade de se manter a merenda escolar como única refeição para os estudantes pobres, ou dispensar, do pagamento de passagem de ônibus, os idosos com mais de 65 anos&#8230; </p>
<p><b>Os Imigrantes Europeus</b></p>
<p>A importação deliberada de mão-de-obra européia para o trabalho nas lavouras de nossa província e de nosso estado deveu-se, em primeiro lugar, a uma política de substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre. Vinha ao encontro dos interesses da elite econômica. O escravo, considerado um bem semovente, era capital imobilizado, além de que sua morte ou invalidez representava sempre um prejuízo para seu proprietário. Tinha o escravo que ser alimentado, vestido e tratado quando doente. Aquela política de importar mão-de-obra européia para o Espírito Santo teve o incentivo e a participação constantes da iniciativa oficial. Os imigrantes, em sua maior parte, foram instalados em colônias do governo; muitos deles trabalharam depois, em troca de baixa remuneração, nas fazendas dos nacionais. Aos recém-chegados eram destinadas terras devolutas ou terras particulares desapropriadas. </p>
<p>Diferente do colono europeu no sul do país, que em pequenas propriedades praticava uma agricultura de sustentação (milho, feijão e outros produtos necessários para a subsistência, com sobra para comercializar), e diferente do imigrante assalariado nas grandes fazendas paulistas de café, o trabalhador estrangeiro em terra capixaba produziu o café para o mercado exterior, mas em pequenas propriedades e com mão-de-obra familiar. </p>
<p>Nesta altura deve-se fazer um parêntese para afirmar que a política, sempre reiterada com variações ao longo da história brasileira, de destinar todos os melhores esforços da produção econômica para a exportação ocasiona uma dentre muitas distorções na vida cotidiana dos capixabas — até hoje os nossos produtos <i>tipo exportação</i> são considerados de qualidade superior aos demais. Mesmo descontando os exageros da propaganda, sabemos ser isto verdade — os melhores produtos originados desta terra foram e são destinados ao consumo nos países estrangeiros. </p>
<p>Numa postura errônea, costumamos considerar os imigrantes da mesma maneira que fazemos em relação aos índios ou aos negros — é tudo igual, homogêneo, genérico. Não nos importamos em conhecer os chamados <i>índios</i> com suas características específicas (se de tradição tupi-guarani, aratu ou una), ou os considerados <i>negros</i> (se de origem ioruba, fanti-axanti, eve, nupê, mandinga, hauçá, fulani, angola-congolês, moçambique), ou os denominados <i>alemães</i> (se descendentes de pomeranos, bávaros, hesseanos, austríacos, tiroleses), ou os designados como <i>italianos</i> (se oriundos de calabreses, napolitanos, trentinos, genoveses, paduanos, parmesãos, vênetos). </p>
<p>Ao contrário dos índios que, em muitos casos, só deixaram como documentos de suas vidas os próprios ossos fossilizados, ou dos negros, com suas culturas desprezadas ou sincretizadas à força, os imigrantes europeus não foram obrigados a destruir rápida e violentamente as suas características culturais. No caso, os processos de aculturação foram diferentes. Afinal, eles eram pessoas livres, pequenos proprietários de terra, possuidores de uma cultura que poderia interagir com a nova realidade em melhores condições do que as oferecidas para os índios e os negros. Com isto não queremos desconhecer os indizíveis sofrimentos e privações por que passaram — por meio de um mesmo sistema econômico, que rapidamente se internacionalizava, os imigrantes foram expulsos da Europa e colocados em terras americanas para produzir visando, regra geral, o mercado externo. Não podemos ignorar a Hospedaria da Pedra d&#8217;Água, depois significativamente transformada em penitenciária, e local em que as famílias recém-chegadas observavam a quarentena. Não devemos esquecer os barracões em regiões inóspitas, onde elas eram alojadas provisoriamente, à espera da sua destinação para os lotes coloniais. E não esqueçamos, da mesma forma, os maus-tratos, as injustiças, as perseguições, a fome que muitos dos imigrantes sofreram. </p>
<p>Entretanto, o processo foi diverso do acontecido com os indígenas e os negros, no que se refere à intensidade da desagregação étnica e cultural. Só uma prova — ao contrário de descendentes de outras etnias, muitos pesquisadores de origem alemã e italiana conseguem localizar os nomes, a proveniência e a data da chegada ao Espírito Santo de seus antepassados (bisavós ou tataravós), consultando documentos guardados em arquivos públicos, refazendo sua ascendência em direção às terras européias. E não se diga que tal fato ocorre por ser a imigração uma política governamental mais recente. Existiram outras políticas migratórias contemporâneas a esta em que as autoridades não providenciaram ou preservaram os registros referentes às pessoas. Pode ser citada como exemplo a localização, em diversas regiões espírito-santenses, de retirantes nordestinos provenientes da Grande Seca de 1877. Por estas e outras razões, é que devemos conservar nosso patrimônio cultural, as construções e os documentos (oficiais ou não) mais significativos, para que as futuras gerações possam deles se apropriar corretamente. </p>
<p>Pouco se estuda a arquitetura dos imigrantes (como, de resto, a arquitetura vernácula capixaba) e sua possível contribuição para as construções contemporâneas. Só se valorizam nos descendentes de alemães e italianos os aspectos pitorescos, culinários, folclóricos. Algumas famílias originárias desta corrente imigratória, por terem melhores oportunidades de vida proporcionada por causas várias, rapidamente ascenderam na sociedade espírito-santense. A maioria dos descendentes dos imigrantes, no entanto, continua em condições humildes de existência ou foram constrangidos, por falta de terra e de condições para produzir, a migrar para outras regiões brasileiras. Após a última Guerra Mundial tais pessoas sofrem ainda outras discriminações. São chamados pejorativamente de branquelos, russos, alemães&#8230; A pobreza e o preconceito não têm cor. </p>
<p><b>E Agora?</b></p>
<div style="text-align: right;">
<i>Toda história é escolha</i></div>
<div style="text-align: right;">
L. Febvre</div>
<p>
A história não pode mais ser estudada somente a partir de heróis e acontecimentos excepcionais. De tudo o que se falou do passado capixaba, originou-se uma sociedade que agora vem sendo urbanizada compulsoriamente, o povo em êxodo, tangido do campo pela miséria. A verdadeira violência continua residindo no fato de se manterem as grandes desigualdades sociais. </p>
<p>Destruir um povo é destruir sua cultura. No Espírito Santo, bendito o pluralismo de nossas etnias formadoras, que nos confere flexibilidade de espírito e, por isto mesmo, nos protege contra a intolerância em relação ao bom e ao novo que vem de fora, e nos resguarda (até quando?) do lixo cultural que tentam nos impor! </p>
<p>As decisões fundamentais da história capixaba quase sempre foram tomadas para beneficiar, em primeiro lugar, o não-capixaba. O autoritarismo — marca registrada dos governantes portugueses e brasileiros — só agora começa a ser superado. As elites, sobretudo as econômicas, continuam voltadas para fora do Espírito Santo, onde estão seus interesses de classe. A existência autônoma do nosso Estado é pouco mais do que uma expressão jurídica. A grande corrupção, a maior de todas, é o depauperamento dos capixabas (ricos, remediados e pobres) devido a decisões tomadas por pessoas que vivem longe deste lugar e não possuem conosco nenhum compromisso, a não ser a perpetuação da realidade na qual as riquezas daqui, aqui não permanecem. Na arte, na cultura, na atividade profissional, no lazer, tudo o que é feito em nossa vida cotidiana está submetido a este fato — somos um povo sem plena autonomia. </p>
<p>No entanto, a história nos mostra os caminhos. E agora podemos os capixabas dizer a nós mesmos — que não estamos obrigados a reproduzir indefinidamente este modelo de sociedade; que a felicidade de uns não pode ser atingida em detrimento de outros; que a vida é mutável; que sabemos da riqueza cultural a nós legada pelos nossos antepassados; que as questões negativas (poluição, desigualdade social, miséria, fome, ignorância, doenças) podem e devem ser enfrentadas e que um dia, afinal, não mais haverá o Espírito Santo de hoje, porque neste lugar pessoas felizes coexistirão numa nova realidade, que nós todos ajudamos a construir.</p>
<p>[ACHIAMÉ, Fernando. Qual Espírito Santo?&nbsp;<i>A Tribuna</i>, Vitória — ES, de 01, 14, 15 e 21 de julho de 1987. Texto com algumas modificações feitas pelo autor. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-cSP1d67i2oE/WFGkMm6tN-I/AAAAAAAALGA/IqH0TV1dMekkOLLdaSkGZ4tBB8PvUu7NQCEw/s1600/4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="70" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/4-4.jpg" class="wp-image-6041" width="320" /></a></div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1987&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Explicação</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/explicacao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 15:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Antunes de Siqueira (Pe.)]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A ortografia e a pontuação de Memórias do passado sofreram atualização, bem como alterou-se a disposição de alguns de seus parágrafos. Foram encontrados e corrigidos muitos desacertos de concordância, atribuíveis ao próprio autor ou a erros tipográficos. Acrescentaram-se palavras entre colchetes, objetivando melhor compreensão da obra. Reinaldo Santos Neves e eu compartilhamos a realização destas [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A ortografia e a pontuação de <i>Memórias do passado</i> sofreram atualização, bem como alterou-se a disposição de alguns de seus parágrafos. Foram encontrados e corrigidos muitos desacertos de concordância, atribuíveis ao próprio autor ou a erros tipográficos. Acrescentaram-se palavras entre colchetes, objetivando melhor compreensão da obra. Reinaldo Santos Neves e eu compartilhamos a realização destas atividades.</p>
<p>Certas notas ao texto procuram apresentar informações complementares sobre fatos, pessoas e lugares, quase todos relativos a Vitória, e para elaborá-las consultei diversos livros, já mencionados no “Estudo sobre a Autoria da Obra”. Outras notas buscam esclarecer o significado das palavras de emprego raro hoje em dia. ou utilizadas com acepção diversa da atual. Para tanto, mesmo sem ter êxito completo na empreitada, utilizei bastante o <i>Dicionário Aurélio Eletrônico</i>, versão 2.0, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1996, baseado no <i>Novo Dicionário da Língua Portuguesa</i> de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira e, em menor escala, o <i>Dicionário Histórico das Palavras Portuguesas de Origem Tupi</i> de Antônio Geraldo da Cunha, São Paulo, Melhoramentos, 1982. Reinaldo contribuiu para elucidar o sentido de alguns termos, consultando os velhos dicionários de Cândido de Figueiredo, Domingos Vieira e Laudelino Freire, bem como um <i>Nouveau Larousse Illustré</i> da virada do século.</p>
<p>Não se consignou nota para as palavras dicionarizadas e julgadas de fácil entendimento pelo contexto em que estão empregadas. Mas tudo ocorreu cum grano salis e sem rigor excessivo: algumas palavras não mereciam destaque em notas e o tiveram; outras, talvez, necessitassem uma anotação que não está presente. Determinadas escolhas pressupõem uma carga de subjetividade muito grande.</p>
<p>Vários vocábulos anacrônicos (omnibus, velocípedes) foram mantidos para preservar o sabor de época do texto. A tradução das expressões latinas foi por mim esboçada, mas de fato realizada por Reinaldo Santos Neves e Luiz Busatto.</p>
<p>As notas grafadas com (*) são do próprio autor.</p>
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Fernando Achiamé</div>
<div style="text-align: right;">
</div>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 1999&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Importância da obra</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fernando Achiamé]]></category>
		<category><![CDATA[Francisco Antunes de Siqueira (Pe.)]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na História da Literatura Espírito-santense Afonso Cláudio registra que o padre Antunes de Siqueira deixou impressos os seguintes trabalhos: Poemeto descritivo sobre a província do Espírito Santo, editado em Vitória, no ano de 1884, Tratado sobre a Ortografia e Tratado de Sintaxe Latina, ambos de 1887, Alocução comemorativa da extinção da escravidão no Brasil, de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Na <i>História da Literatura Espírito-santense</i> Afonso Cláudio registra que o padre Antunes de Siqueira deixou impressos os seguintes trabalhos: <i>Poemeto descritivo sobre a província do Espírito Santo</i>, editado em Vitória, no ano de 1884, <i>Tratado sobre a Ortografia</i> e <i>Tratado de Sintaxe Latina</i>, ambos de 1887, <i>Alocução comemorativa da extinção da escravidão no Brasil</i>, de 1888, <i>Alocução dirigida ao Bispo D. João Néry</i>, de 1897. E de se notar que, neste apanhado das obras impressas do padre Antunes, Afonso Cláudio não incluiu o <i>Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense</i>, desde os tempos coloniais até os nossos dias, editado em 1893. Ele menciona outras obras relacionadas no artigo de Amâncio Pereira no <i>Comércio do Espírito Santo</i> de dezembro de 1897 (no qual se baseou), que também registra o Esboço histórico, importante obra do padre e escritor então recém-falecido<span id="IMPO_RP65V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP65" title="CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 214. O autor na mesma obra à página 231 observa: 'As demais produções do padre Antunes, conservam apenas interesse e valor didáticos ou o ocasional que lhes justificou a publicidade', o que parece justificar essa omissão do ilustre escritor capixaba."><sup><b>[ 65 ]</b></sup></a></p>
<p>João Calazans em <i>Notícia Breve sobre o Padre Antunes</i>, publicada junto com a segunda edição do <i>Esboço Histórico</i>, informa que Capistrano de Abreu e Basílio de Magalhães colheram nesse livro “elementos sugestivos”, e que Gilberto Freire cita a obra do padre diversas vezes no seu clássico <i>Casa Grande &amp; Senzala</i>. Nesse último livro as citações são várias e referem-se mais aos métodos de ensino antigo e a alguns costumes populares expostos pelo padre Antunes em seu <i>Esboço Histórico</i>.</p>
<p>Se impressas há mais tempo como obra avulsa as <i>Memórias do Passado</i> teriam sido úteis também para enriquecer trabalhos de uma vasta gama de estudiosos. Mas a historiadora Maria Stella de Novaes, que pesquisava muito nos jornais da Biblioteca Pública Estadual, consultou amplamente estes escritos. As <i>Memórias do Passado</i> subsidiam, pelo menos, três de suas obras. Pode-se citar sua descrição da festa das Onze Mil Virgens<span id="IMPO_RP66V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP66" title="NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 158 a 160."><sup><b>[ 66 ]</b></sup></a> com toda evidência retirada deste trabalho do padre Antunes e que ela consigna em nota como baseada em “crônicas dos jornais antigos e relatos de velhos capixabas”. Num outro texto de Maria Stella de Novaes denominado <i>O Teatro no Espírito Santo</i> a historiadora transcreve, de maneira resumida, passagens sobre a arte dramática em Vitória constantes nas <i>Memórias do Passado</i> mescladas com outras passagens do <i>Esboço Histórico</i> e as atribui ao padre Antunes de Siqueira. O que de certa forma vem robustecer os argumentos antes enumerados quanto à autoria do texto ora analisado, dada a sensibilidade e conhecimento da ilustre pesquisadora capixaba sobre documentos e fatos da história espírito-santense<span id="IMPO_RP67V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP67" title="NOVAES, Maria Stella de. O teatro no Espírito Santo. Douro Litoral, Boletim da Comissão de Etnografia e História, Porto : 1959. Passim. Este trabalho está em parte transcrito na obra do Oscar Gama Filho História do teatro capixaba: 395 anos. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1981. p. 174-7."><sup><b>[ 67 ]</b></sup></a> Na obra <i>Medicina e Remédios no Espírito Santo</i> existem citações de trechos das <i>Memórias do Passado</i>, sem indicação da fonte onde foram colhidos<span id="IMPO_RP68V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP68" title="NOVAES, Maria Stella de. Medicina e remédios no Espírito Santo: história e folclore. 2. ed. Vitória: s.n., 1964. p. 67-8."><sup><b>[ 68 ]</b></sup></a></p>
<p>O escritor Elmo Elton valeu-se da obra antes citada de Maria Stella de Novaes ou consultou as <i>Memórias do Passado</i> para, por exemplo, descrever a pitonisa Vitória Bibi e seu arroz do Sacramento<span id="IMPO_RP69V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP69" title="ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: Instituto Jones dos Santos Neves, 1986. p. 26."><sup><b>[ 69 ]</b></sup></a></p>
<p>Numa comparação geral entre essas duas obras do padre Antunes de Siqueira, as <i>Memórias do Passado</i> e o <i>Esboço Histórico</i>, pode-se concluir que o peso positivo maior pende para a primeira, devido a fatores diversos. As <i>Memórias </i>são mais completas e diretas, entre outras causas, pelo anonimato do seu autor, como já antes asseverado. Embora as obras sejam, em certo sentido, complementares, as <i>Memórias do Passado</i> descrevem com maior minúcia fenômenos do folclore e da história locais e nesse sentido são superiores como documento para a constante elaboração da nossa história. Já no <i>Esboço histórico</i>, a primeira parte e boa porção da segunda são dedicadas a demonstrar a erudição do velho educador: e um raconto de toda a história da humanidade desde Israel, Roma da antiguidade até a existência da capitania e província do Espírito Santo, passando por Licurgo e pela transformação dos seres e as verdades do evangelho… O trecho da segunda parte que principia justamente na descrição da festa das onze mil virgens e vai até o tema sobre cultura musical é, a meu ver, o mais valioso para a historiografia capixaba porque fala dos costumes do povo espírito-santense, tal como conhecidos pelo autor. Este trecho constitui-se numa espécie de resumo das <i>Memórias do passado</i>, bem mais contido e policiado, já que se trata, agora, de um livro erudito, de autor conhecido e fruto de toda uma vida de educador; com tiradas bem moralistas. A última parte do <i>Esboço histórico</i> é relativa à situação estadual quando de sua edição e peca pelas limitações da visão política do autor, além de ser muito encomiástica aos poderosos do momento, mesmo sendo o padre Antunes amigo deles de longa data. O próprio autor das <i>Memórias do passado</i> distingue as informações que presta como de primeira ou de segunda mão sendo, portanto, de uma modernidade surpreendente. Alguns relatos recebidos de forma indireta estão registrados, como nesta passagem no início do artigo 14:</p>
<p>Citação Vou falar dos hábitos, vestuários, costumes, educação e práticas do célebre tempo dos governadores. Farei para reviver essas tintas, já tão apagadas, e, se não copiar fielmente os traços, o leitor releve essa falta, que é aliás perdoável. Depende de grande esforço, pois devo declarar, se não o sabem, que o primeiro presidente que conheci foi José Tomás Nabuco de Araújo […] Já se vê que vou repetir o que ouvi de certa roda, e talvez aproveite… Estava eu então no mundo dos possíveis…”</p>
<p>Já a descrição do alardo na Barra de São Mateus (hoje Conceição da Barra), por exemplo, é mencionada no artigo 19 com base em observação direta do autor: “Em 1872 presenciei na vila de Barra de São Mateus uma cerimônia sacro-profana […]”.</p>
<p>As <i>Memórias do passado</i>, em que retrata de modo vivo o povo capixaba e dá um testemunho fidedigno dos seus usos e costumes, fazem o padre Antunes de Siqueira pioneiro nos estudos de história e folclore espírito- santenses. Conceder-lhe tal pioneirismo não significa ignorar os seus discursos conservadores, laudatórios, apologéticos (não esqueçamos que foi um orador sacro respeitado na época) e os seus preconceitos, já que em algumas ideias e comportamentos ele não conseguiu superar as limitações do seu tempo. E quem consegue?</p>
<p>Sabemos que uma imagem vale mais que mil palavras. Devemos saber também que, se bem formuladas, palavras formam imagens que podem ser potencializadas pela imaginação histórica, componente essencial da recriação dessa ciência social. As palavras contidas nas <i>Memórias do passado</i>, referentes a uma época em que os documentos iconográficos são escassos, valem por mil imagens, ajudando a reconstituir um significativo momento histórico da capital capixaba e a conhecer “os costumes do povo espírito-santense”.</p>
<p>O frescor que emana do texto ora analisado está bem exemplificado quando o seu autor refere-se aos tipos populares da Vitória de sua época, às brincadeiras das crianças, às peças teatrais que então eram representadas, ao lundu e seus “movimentos obscenos”, ao uso do rapé, ao preconceito contra os judeus, à sua participação quando jovem nas comédias, às vestimentas minuciosamente descritas dos vitorienses do século passado. Ou ainda no senso de humor do padre Antunes quando, por exemplo, no final do artigo 18, faz um trocadilho entre cavalhada e cavalada.</p>
<p>Para um pesquisador de história é rara a oportunidade de realizar uma crítica de atribuição, estabelecendo a autoria de uma obra que, no caso desta elaborada pelo padre Antunes de Siqueira, enriquece a historiografia espírito-santense. Se o presente estudo tem algum mérito será o de contribuir para que se ressaltem a importância e a beleza — como documento de vida, arte e história — das <i>Memórias do Passado – A Vitória Através de Meio Século</i>, que agora passam a circular com autoria conhecida e comprovada.</p>
<p>Após tantos anos de ligação com esta obra, entendo a historiadora Maria Stella de Novaes quando escreve que estava fazendo uma pausa no seu texto para chorar<span id="IMPO_RP70V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP70" title="NOVAES, Maria Stella de. Jerônimo Monteiro – Sua Vida e sua Obra. Vitória: Arquivo Público Estadual, 1979. p. 222. Como exemplo, reproduzo o trecho em que a autora trata da chegada à Vitória da notícia sobre a morte de Jerônimo Monteiro ocorrida no Rio de Janeiro em 1935: 'O mensageiro [da Western] e seu consternado séquito vencem duas escadas e batem à porta do apartamento. Cumprem o doloroso encargo, ao passo que, atônito, incrédulo da realidade, o Procurador do dr. Jerônimo Monteiro rompe em soluços!… Todos choram!… A Cidade da Vitória chora!.. Uma pausa!.. Nós choramos!…'"><sup><b>[ 70 ]</b></sup></a> É mais ou menos como diz Drummond<span id="IMPO_RP71V">:</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP71" title="ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. Estampas de Vila Rica, V – Museu da Inconfidência, p. 183."><sup><b>[ 71 ]</b></sup></a> “Toda história é remorso.” Vitória, outono de 1997, nos centenários de morte dos padres José de Anchieta (4º), Antônio Vieira (3º) e Francisco Antunes de Siqueira (1º).</p>
<div style="text-align: right;">
Fernando Antônio de Moraes Achiamé</div>
<div style="text-align: right;">
do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo</div>
<p>
_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="IMPO_RP65">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP65V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 65 ]</b></sup></a>&nbsp;CLÁUDIO, Afonso. História da Literatura Espírito-santense. Porto: Comércio do Porto, 1912. p. 214. O autor na mesma obra à página 231 observa: “As demais produções do padre Antunes, conservam apenas interesse e valor didáticos ou o ocasional que lhes justificou a publicidade”, o que parece justificar essa omissão do ilustre escritor capixaba.</div>
<div id="IMPO_RP66">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP66V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 66 ]</b></sup></a>&nbsp;NOVAES, Maria Stella de. História do Espírito Santo. Vitória: Fundo Editorial do Espírito Santo, s. d., p. 158 a 160.</div>
<div id="IMPO_RP67">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP67V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 67 ]</b></sup></a>&nbsp;NOVAES, Maria Stella de. O teatro no Espírito Santo. Douro Litoral, Boletim da Comissão de Etnografia e História, Porto : 1959. Passim. Este trabalho está em parte transcrito na obra do Oscar Gama Filho História do teatro capixaba: 395 anos. Vitória: Fundação Ceciliano Abel de Almeida, 1981. p. 174-7.</div>
<div id="IMPO_RP68">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP68V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 68 ]</b></sup></a>&nbsp;NOVAES, Maria Stella de. Medicina e remédios no Espírito Santo: história e folclore. 2. ed. Vitória: s.n., 1964. p. 67-8.</div>
<div id="IMPO_RP69">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP69V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 69 ]</b></sup></a>&nbsp;ELTON, Elmo. Logradouros antigos de Vitória. Vitória: Instituto Jones dos Santos Neves, 1986. p. 26.</div>
<div id="IMPO_RP70">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP70V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 70 ]</b></sup></a>&nbsp;NOVAES, Maria Stella de. Jerônimo Monteiro – Sua Vida e sua Obra. Vitória: Arquivo Público Estadual, 1979. p. 222. Como exemplo, reproduzo o trecho em que a autora trata da chegada à Vitória da notícia sobre a morte de Jerônimo Monteiro ocorrida no Rio de Janeiro em 1935: “O mensageiro [da Western] e seu consternado séquito vencem duas escadas e batem à porta do apartamento. Cumprem o doloroso encargo, ao passo que, atônito, incrédulo da realidade, o Procurador do dr. Jerônimo Monteiro rompe em soluços!… Todos choram!… A Cidade da Vitória chora!.. Uma pausa!.. Nós choramos!…”</div>
<div id="IMPO_RP71">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/#IMPO_RP71V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 71 ]</b></sup></a>&nbsp;ANDRADE, Carlos Drummond de. Reunião. 2. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. Estampas de Vila Rica, V – Museu da Inconfidência, p. 183.</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 1999&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-fernando/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
</div>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/importancia-da-obra/">Importância da obra</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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