<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos Jair Santos &#8902; Estação Capixaba</title>
	<atom:link href="https://estacaocapixaba.com.br/category/jair-santos/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://estacaocapixaba.com.br/category/jair-santos/</link>
	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
	<lastBuildDate>Tue, 28 Sep 2021 17:21:40 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	

<image>
	<url>https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2019/01/favEC-150x150.png</url>
	<title>Arquivos Jair Santos &#8902; Estação Capixaba</title>
	<link>https://estacaocapixaba.com.br/category/jair-santos/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>O polêmico morrinho</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Tão logo recebeu o diploma de engenheiro, o jovem Antônio Francisco de Athayde elaborou, em 1894, a primeira planta cadastral de Vila Velha atendendo, provavelmente, a solicitação do administrador da época. Nesse trabalho, cuja cópia está arquivada na Casa da Memória de Vila Velha, o jovem profissional mostrou as principais ruas existentes e projetou novas [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/">O polêmico morrinho</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Tão logo recebeu o diploma de engenheiro, o jovem Antônio Francisco de Athayde elaborou, em 1894, a primeira planta cadastral de Vila Velha atendendo, provavelmente, a solicitação do administrador da época. Nesse trabalho, cuja cópia está arquivada na Casa da Memória de Vila Velha, o jovem profissional mostrou as principais ruas existentes e projetou novas vias que orientassem o futuro crescimento da pacata cidade. Na direção sul, por exemplo, a cidade poderia crescer até a atual rua Sete de Setembro; para oeste, ou na direção do morro Jaburuna, a expansão iria até a atual rua Henrique Laranja. Mas na direção leste, ou sentido Centro-Praia da Costa, parece-nos que cometeu o pecado de projetar o prolongamento da rua Vasco Coutinho, subindo parte da encosta do morro do Convento, desrespeitando os limites de propriedade entre a igreja e a municipalidade, talvez porque toda a área que Dona Luiza Grinalda doou à igreja católica ainda não havia sido demarcada. Basta dizer que, em pleno século XX, a delimitação dos terrenos municipais daqueles da igreja era marcada por uma simples cerca de arame farpado em toda volta do monte. Tanto era assim que a própria rua Luíza Grinalda nas décadas de 1920 e 1930 ainda tinha casas de um lado e mata do morro do outro.</p>
<p>Perdurando por longo tempo essa indefinição, quando Antônio Athayde foi escolhido para prefeito de Vila Velha (período de 1918/1921), andou ele próprio insistindo no erro de autorizar a construção de casas cujos lotes não deveriam pertencer à prefeitura. A partir daí essa prática leviana do bom prefeito encontrou a resistência do guardião do patrimônio do Convento, padre José Lidwin. Por incrível que pareça esta questão de limites entre as terras do patrimônio público municipal e aquelas da igreja deu início à polêmica entre o cuidadoso guardião e o prefeito Antônio Francisco de Athayde, que a imprensa da capital intitulou &#8220;O polêmico morrinho&#8221;. Para que o leitor conheça melhor o fato, transcrevo na íntegra, a carta do padre José ao prefeito de Vila Velha:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Vitória, 20 de setembro de 1920<br />
Excelentíssimo Senhor Prefeito Municipal da Cidade do Espírito Santo<br />
Tenho a honra de acusar o oficio de Vossa Excelência nº 32 de 17 do corrente que respondo. Absolutamente não invadi terrenos municipais, pela simples razão de o Município da Cidade do Espírito Santo não possuir patrimônio<span id="OPMO_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/#OPMO_RP1" title="Ensaio sobre a História e Estatística da Província do Espírito Santo, por José Marcelino Pereira Vasconcellos, p. 196: 'A Câmara Municipal declara não possuir patrimônio...'; Dicionário Histórico Geográfico e Estatístico da Província do Espírito Santo, coordenado pelo Dr. Cezar Augusto Marques p. 75: 'Câmara Municipal - Não tem esta Vila patrimônio...'"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a><br />
Ora é evidente que, se o próprio governo Municipal declarou, por vezes, que não tem patrimônio, eu absolutamente não poderia invadi-lo. É evidente que por minha ordem está em construção uma casa no Morrinho, mas este, por mais de três séculos pertence ao Convento de Nossa Senhora da Penha, como consta da escritura de doação do morro da Penha ao Sumo Pontífice em 1591 por Dona Luísa Grinalda<span id="OPMO_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/#OPMO_RP2" title="Anais do Rio de Janeiro, do Dr. Balthazar da Silva Lisbôa, vol. p. 227-33."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> Não consta que Vasco Fernandes Coutinho fizesse doação do &#8220;Morrinho&#8221; e do &#8220;Ucharia&#8221; ao Município e que esta doação fosse mais tarde confirmada em escritura pública por Dona Luísa Grinalda se realmente esta doação foi feita, como afirma Vossa Excelência, estimaria muito saber onde se acha este documento. Vossa Excelência prestaria relevantíssimo serviço ao Município que dirige se descobrisse esta escritura, mas estou certo, inúteis serão todos os esforços de Vossa Excelência neste sentido, porque esta escritura nunca foi passada.<br />
Diz Vossa Excelência &#8216;É lógico que, se fosse intenção da governadora incluir na doação feita em 1591 do morro da Penha aos frades franciscanos, o dito Morrinho, já conhecido por esse nome, teria sido mencionado na referida doação&#8217;. Perfeitamente. Reza a escritura: &#8216;Para que ao diante não sejam molestados, devassados e como lhes fazem roça ao redor daquele monte (&#8230;) lhes damos todo o chão e terra, desde o pé do dito monte ao cume.&#8217;<br />
Ora, é justamente no Morrinho que o povo fazia roça, onde até hoje existem sinais visíveis de derrubada, ao passo que as outras partes do Morro da Penha conservam-se até hoje em mata virgem.<br />
Demais é evidente que o Morrinho é continuação do Morro da Penha que vem morrendo aos poucos até a rua Luísa Grinalda. Donde conclui-se que, si a governadora da Província do Espírito Santo não tivesse intenção de fazer doação do mencionado Morrinho deveria exclui-lo, o que não fez.<br />
Infelizmente a verdade é esta: Pessoas poucos escrupulosas foram invadindo aos poucos os terrenos de direito à Nossa Senhora da Penha e desta forma apoderando-se de toda a rua Dona Luísa Grinalda, grande parte da rua Pedro Palácios e da área onde está edificado o matadouro municipal. Pessoas antigas que vivem narram que a margem do rio da Costa até o mar pertence também ao Convento de Nossa Senhora da Penha.<br />
Quanto aos documentos que existem no Arquivo da Prefeitura de Vila Velha a que se refere Vossa Excelência, são atas recentes das quais consta que a Municipalidade fez concessões a particulares, mas isto não prova que o Morrinho seja propriedade do Município. É preciso provar que os frades que residem no Convento tinham conhecimento que o Morrinho não lhes pertencia, que permitiam a invasão sem protesto. Pelo contrário, está no domínio público que os frades da Penha cercaram uma área muito maior do que a que eu cerquei e se não impediram a construção da casa, à rua Pedro Palácios, hoje pertencente ao português Luiz Gomes é porque ainda não tinham descoberto escritura feita por Dona Luisa Grinalda em 1591. Depois, tendo Frei João do Amor Divino Costa transferido a sua residência para o Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro ficando abandonado o Convento de Nossa Senhora da Penha por isso, nos últimos anos correu tudo a revelia agora mesmo, apesar da minha vigilância constante, a invasão do Morro da Penha é tão freqüente quanto mais se não houvesse essa vigilância?!<br />
Terminando essas considerações, permita-me Vossa Excelência que diga com toda franqueza que não invadi terrenos pertencentes ao Município de Vila Velha, porque este não possui patrimônio como provei e que também não recebi sem desgosto a surpresa de ser incomodado quando, em propriedade do Convento de Nossa Senhora da Penha procuro fazer benfeitorias cooperando desta forma para o progresso e embelezamento da Cidade do Espírito Santo, em boa hora confiada á direção de Vossa Excelência.<br />
Confinando, pois, no espírito criterioso, reto, justiceiro e progressista de Vossa Excelência espero que, com toda cordialidade, da melhor forma possível e sem atritos resolveremos, amigavelmente, esta divergência e que, para o futuro, não encontrarei mais obstáculos para levar avante os diversos melhoramentos do Convento de Nossa Senhora da Penha e da área que lhe pertence, que tenho em vista, mas pelo contrário, encontrei todo o apoio e auxílio.<br />
Valho-me do ensejo para apresentar a Vossa Excelência os meus protestos de alta estima e distinta consideração.<br />
Deus guarde a Vossa Excelência.<br />
P. José Lidwin</p>
<p>Ao Excelentíssimo Senhor Doutor Antônio Francisco de Athayde<br />
D. D. Prefeito da Cidade do Espírito <span id="OPMO_RP3V">Santo</span><sup><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/#OPMO_RP3" title="Fonte: Mensagem apresentada à Câmara da Cidade do Espirito Santo pelo Prefeito Eng. Antônio Francisco Athayde. Prefeito: 1920/1921. Arquivo Dr Milton Caldeira.">[ 3 ]</a></b></sup></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>_____________________________</p>
<h4>
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTAS</span></h4>
<p></p>
<div id="OPMO_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/#OPMO_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Ensaio sobre a História e Estatística da Província do Espírito Santo, por José Marcelino Pereira Vasconcellos, p. 196: &#8220;A Câmara Municipal declara não possuir patrimônio&#8230;&#8221;; Dicionário Histórico Geográfico e Estatístico da Província do Espírito Santo, coordenado pelo Dr. Cezar Augusto Marques p. 75: &#8220;Câmara Municipal &#8211; Não tem esta Vila patrimônio&#8230;&#8221;</div>
<div id="OPMO_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/#OPMO_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Anais do Rio de Janeiro, do Dr. Balthazar da Silva Lisbôa, vol. p. 227-33.</div>
<div id="OPMO_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/#OPMO_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Fonte: Mensagem apresentada à Câmara da Cidade do Espirito Santo pelo Prefeito Eng. Antônio Francisco Athayde. Prefeito: 1920/1921. Arquivo Dr Milton Caldeira.</div>
<p>[SANTOS, Jair. <i>Falando de Vila Velha</i>.&nbsp;Vila Velha, 2002. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/">O polêmico morrinho</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-polemico-morrinho/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A pesca do siri patola</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:17:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Prainha. Autor: Jair Santos, 2004. Na verdade patola é um apelido dado ao siri. Foi assim chamado pelos antigos homens do litoral capixaba que habitavam nas vilas de pescadores. Podemos dizer que este cognome lhe cai como luva porque patola quer dizer maluco, pateta. Vejamos a explicação. Siri é um crustáceo que vive no fundo [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/">A pesca do siri patola</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-VIfypAG0-9A/WIEDkdQclnI/AAAAAAAALQk/hlkmqH4NQAkdBiZDzGBKwTBWzmR9oYVYQCLcB/s1600/prainha.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Prainha. Autor: Jair Santos, 2004." border="0" height="187" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/prainha.gif" class="wp-image-5863" title="Prainha. Autor: Jair Santos, 2004." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Prainha. Autor: Jair Santos, 2004.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Na verdade patola é um apelido dado ao siri. Foi assim chamado pelos antigos homens do litoral capixaba que habitavam nas vilas de pescadores. Podemos dizer que este cognome lhe cai como luva porque patola quer dizer maluco, pateta. Vejamos a explicação.</p>
<p>Siri é um crustáceo que vive no fundo dos braços de mar, um decápode, isto é, que tem vários pés dos quais o último par, os menores, se constituem nas nadadeiras que lhe possibilitam rapidíssima mudança de direção em todos os sentidos no meio da massa líquida. O primeiro par de membros da frente são dotados de temíveis tenazes que lembram o instrumento, com cabos longos, apropriados para segurar o ferro em brasa a malhar na bigorna. No animal servem para a defesa e para levar, delicadamente, os alimentos à boca, por menores e delicados que sejam. Diante da delicadeza dos movimentos que possibilitam levar o ínfimo alimento à boca e da brusca e terrível garra, mais fortes que aquelas dos caranguejos, o humilde pescador apelidou-o de patola ou pateta.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Narrativa sobre a pesca desse crustáceo</b></p>
<p>— Isabé&#8230; ô Isabé.</p>
<p>Isabel é a mulher de seu Manuel Flores que trabalha de doméstica bem no centro de Vila Velha. Lá de dentro Isabel identificou a voz e foi atender. Sabia que era Adelina, sua colega, que trabalha na casa de dona Olímpia, funcionária da prefeitura, moradora da mesma rua, ali adiante.</p>
<p>Para atender ao chamado, Isabel chegou na janela.</p>
<p>— Ei Adelina, bom dia! Cumu vai?</p>
<p>— Óia Isabé, cumadi Arzira mandô falá pro seu marido qui vai matá duas galinha manhã di manhã. Pra ele vim buscá as tripa, oviu?</p>
<p>Manuel Flores morava em Vila Velha desde 1906, quando ali chegou, muito pequeno, filho de um casal de pescadores do longínquo povoado de Ponta da Fruta. Na vila, trabalhou de tudo enquanto pôde. Vendeu lenha para fogão, peixe, caranguejo, sururu, ostra, fez capina para a prefeitura, vendeu esterco para jardim das casas, consertou goteiras, podou árvores enormes, arranjava barro, areia, fez muita cerca de arame farpado e de ripa, enfim, mexeu com mil coisas. Ficou conhecido de todo mundo do lugar porque era o dia todo ocupado. Pediam de tudo para ele e a todos dizia: &#8220;Sim senhora, pois não. Pra hoje? Podi dexá que eu resorvo&#8221;.</p>
<p>Por ter sido assim, bom de trabalho, construiu sua cazinha ali perto de Itapuã, num lote que comprou, bem baratinho. O homem era danado, sem medir sacrifício construiu casa própria coberta de telhas e com uma varanda na frente. Casa bonitinha e muito melhor que a de muita gente da região. Sim senhor, uma casa que já nasceu com um jambeiro ao lado.</p>
<p>Logo depois, em 1926, casou com uma mocinha de nome Isabel, que hoje trabalha como doméstica no centro da vila, perto da ponte Nova. Professora Alzira é uma boa patroa e Isabel uma ótima ajudante, por isto, em 1930, a primeira filha de Isabel foi batizada pela professora. A partir daí as duas passaram a usar o tratamento carinhoso de &#8220;comadre&#8221;. Comadre pra lá, comadre pra cá, e assim Isabel foi ficando conhecida como &#8220;comadre&#8221;. A toda pessoa que chegava na em sua casa, a professora a apresentava assim: &#8220;Esta é a comadre&#8221;. Olha comadre, aproveita e traga um cafezinho, viu?</p>
<p>Com o passar dos anos o seu Manuel Flores já andava meio cansado, coisa da idade. O danado tem boa saúde, mas não está aguentando serviço pesado. Por isso tem se dedicado mais à pesca de camarão e siri. Vez por outra cata caranguejo, não mais que meio saco, só para atender alguns velhos fregueses. E tem sido muito bom, porque arranja tudo ali no rio da Costa, sem precisar andar para lugar muito distante. Resolve tudo quase no centro de Vila Velha. E assim vai vivendo até quando Nossa Senhora da Penha permitir. É verdade, sim senhor! Veja como tudo se arranja direitinho pro lado dele. Amanhã, pela manhã, a professora Alzira dar-lhe-á a melhor isca que existe para pescar siri: tripas, cabeça e pés de galinha. Ele sabe que se jogar isca de galinha no rio, ali na ponte Nova, todo siri que estiver lá atrás do morro Batalha, virá correndo. Aqueles da proximidade, nem se fala! Por essa razão sabe que amanhã será dia de encher a lata. E nem vai molhar os pés porque, até doze horas, a maré estará acabando de encher. Assim, só vai poder pescar de <span id="APSP_RP1V">jereré</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#APSP_RP1" title="A Ponte Nova ficava na atual avenida Champagnat, bem na frente da atual loja Mac Donalds. O povo a apelidou de Ponte Nova porque havia, no cruzamento das ruas XV de Novembro com América do Sul, a ruína da Ponte Velha, que tinha como piso, dois pares de vigas de madeira sobre 3 grandes pilares de apoio, usada na travessia a pé. Nada mais que um atalho para quem queria ir do centro da vila para a Praia da Costa. É bom lembrar que não circulava nenhum automóvel nas ruas de Vila Velha."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> de cima da ponte Nova<span id="APSP_RP2V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#APSP_RP2" title="Jereré é termo mais usado em Vila Velha."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> na parte da tarde.</p>
<p>Todo mundo sabe que é improdutiva a pesca do siri quando a maré está cheia, porque ele sempre gostou de freqüentar as águas rasas dos mangais. Na vazante da maré fica sendo o primeiro a comer as novidades que a água vem arrastando na descida, restos de lixo orgânico ou bicho morto, principalmente. Todos dizem que o siri é o urubu do rio ou do mar. Adora comer porcaria, podre então, nem se fala!</p>
<p>Imaginemos que Manuel Flores esteja pescando sentado na beira da ponte.</p>
<p>Esta pesca consiste em colocar o jereré com a isca em repouso no fundo do rio. Feito isto o pescador aguarda com paciência a chegada do comilão, o siri. Através da linha que sustenta na mão o pescador pode perceber quando o crustáceo está puxando ou comendo a comida. Assim sendo, é só começar, lentamente, a subida do jereré ou jererê.</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-QGIs3rED9xI/WIEEZaTxgvI/AAAAAAAALQw/KtJwunF-z8UqDJ-tt1L8NFRHdlb3y4KJQCLcB/s1600/jerere.gif" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Jererê. Autor: Jair Santos, 2004." border="0" height="258" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/jerere.gif" class="wp-image-5864" title="Jererê. Autor: Jair Santos, 2004." width="320" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Jererê. Autor: Jair Santos, 2004.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<div>
</div>
<div>
Esse jereré consta de um pedaço de rede preso a um aro feito de arame grosso e torcido em círculo de 50 centímetros de diâmetro, aproximadamente. Nesse aro estarão atados dois pedaços de arame mais fino, que se cruzam no centro onde será amarrada a isca. Ainda no mesmo aro serão atados três pedaços de fio que fazem o &#8220;cabresto&#8221;, em forma de pirâmide triangular, preso à linha que pende da mão do pescador, ou da vara caso o pescador esteja sobre uma pedra. Veja o desenho ilustrativo.</div>
<div>
</div>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-yn96bOWCQmA/WIEErjFbczI/AAAAAAAALQ0/4wqbPcXj9mkXDH4JTiJ3s2jYPbROVVFeACLcB/s1600/pesca_jerere.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Pesca com jererê. Autor: Jair Santos, 2004." border="0" height="300" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/pesca_jerere.jpg" class="wp-image-5865" title="Pesca com jererê. Autor: Jair Santos, 2004." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Pesca com jererê. Autor: Jair Santos, 2004.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<div>
</div>
<p><b>Narrativa da pesca do siri com o uso do puçá</b></p>
<p>O puçá é semelhante ao jereré. O apetrecho de pesca é quase o mesmo só que agora, o seu Manuel Flores estará em pé, na beira do rio. Vejamos:</p>
<p>O puçá dispensa o cabresto feito com três pedaços de fio, e o aro de arame grosso termina em um cabo para que possa ser usado diretamente com a mão. O seu uso exige outro equipamento que consta de uma pequena vara que será fincada na margem ou no fundo do rio. O pescador poderá usar quantas varas quiser. À cada vara será atada a linha com a isca na extremidade oposta.</p>
<p>Observação: Na extremidade da linha, junto com a isca, poderá ser amarrado um pequeno peso (pode ser de chumbo, ou até mesmo uma pedra), caso haja correnteza.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-ZEhDd7On0z4/WIENhE9h_mI/AAAAAAAALRE/E3tTvG--8q4qixsT8hKxNl5Qw9gGyX8YgCLcB/s1600/puca.gif" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="239" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/puca.gif" class="wp-image-5866" width="320" /></a></div>
<p>Nesta modalidade, mais que na anterior, é primordial o silêncio. É importante também que todo movimento do pescador seja feito em câmara lenta, porque o siri, sem dúvida, de lá do fundo do rio enxerga melhor o pescador do que o pescador ao siri.</p>
<p>Observadas estas questões, a vara será fincada de modo a ficar com a ponta superior fora da água. A pescaria consiste no seguinte:</p>
<p>a) Ficar observando qual a linha que está esticada ou mexendo, sinais de siri na isca.<br />
b) Com passos lentos o pescador, de puçá numa das mãos, vai, vagarosamente, até a linha na cabeça da vara.<br />
c) Lentamente começa puxar a isca para perto de si. Pelo tato, sentirá que o siri resistirá, não deixando que a boa comida lhe escape.<br />
d) Estando ele bem perto, deve ser iniciado o movimento vertical, puxando a isca com o siri para cima, de modo a tirá-lo do fundo. O siri, por ser extremamente guloso, virá junto. Ao mesmo tempo que o pescador puxa a isca, com a outra mão, também cuidadosamente, faz descer o puçá. Observe que a primeira mão está puxando a isca para cima e a segunda mão está descendo com o puçá.<br />
e) Quando a isca com o siri comilão estiverem na altura aproximada do joelho ou da coxa, o puçá deverá estar chegando, lentamente, por baixo do siri. É evidente que o crustáceo está observando tudo e poderia ir dando o fora, não fosse a fome voraz que, neste momento, o faz correr risco de vida. Os mais espertos fogem, mas toda pescaria é um jogo de paciência. Lança-se novamente a isca e, bastam alguns minutos para iniciar a segunda tentativa. Uma coisa é certa, com a carniça adequada, o que ele mais quer é comer tudo. Então, a cada escapada, repete-se o procedimento. Quando o puçá estiver bem próximo, convém dar uma paradinha para que ele coma tranqüilo e perca o medo. Esta &#8220;paradinha&#8221; poderá ser repetida até que ele se acostume.<br />
f) A etapa final consiste no movimento de subida do puçá, o mais rápido que for possível, de modo a arrastar para cima a isca com o siri junto. Para que este movimento seja eficiente, é importante que o cabo do puçá esteja fortemente atado ao aro e o seu punho seja anatomicamente bom, isto é, esteja muito bem ajustado à mão do pescador.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-0BEDrwijXPQ/WIEOGotsFKI/AAAAAAAALRM/PHenNy_WVlwbtmZb8555x-Btcpk5Y0q-wCLcB/s1600/pesca_puca.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Pesca com puçá. Autor: Jair Santos, 2004." border="0" height="292" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/pesca_puca.jpg" class="wp-image-5867" title="Pesca com puçá. Autor: Jair Santos, 2004." width="400" /></a></div>
<p>
<b>Outra modalidade não muito apropriada</b></p>
<p>Lembramos que é possível pescar siri com rede de arrasto ou arrastão, mas na verdade esse equipamento é mais apropriado para a pesca do camarão. Por ser ela de malha estreita e por arrastar no fundo do rio, certamente pegará tudo por onde passar como, por exemplo, algas, muitos peixes pequenos, folhas, lixo e um ou outro siri. Esta modalidade deve ser evitada porque é de conseqüência predatória, principalmente para os peixes e siris pequenos.</p>
<p>
<b>Como transportar o siri pescado</b></p>
<p>1º) <i>Em cestas de mão</i> – Neste caso todos os siris pescados deverão se &#8220;empatados&#8221;. Não sabemos quem inventou este termo, mas podemos explicar. Empatar um siri, consiste em enfiar a ponta da unha de uma das suas pernas na junta de cada puã ou tenaz. Este procedimento o imobiliza completamente. Feito isto resta arrumá-lo na cesta, de ventre para cima.</p>
<p>2º) <i>Em lata de 20 litros</i> – Por se constituir num recipiente fundo, de onde jamais fugirá, não será preciso &#8220;empatá-los&#8221;. Entretanto, para que fique quietinho no fundo da lata, recomenda-se cobri-los com pontas de ramos das árvores do mangue. Este procedimento pode ser adotado também na cata de caranguejos. Todavia, os catadores mais dedicados ao caranguejo, na sua maioria, preferem transportá-los em sacos de estopa que deverá ter a boca torcida de modo a apertar ligeiramente os crustáceos dentro do saco.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTAS</span></h4>
<p></p>
<div id="APSP_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#APSP_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;A Ponte Nova ficava na atual avenida Champagnat, bem na frente da atual loja Mac Donalds. O povo a apelidou de Ponte Nova porque havia, no cruzamento das ruas XV de Novembro com América do Sul, a ruína da Ponte Velha, que tinha como piso, dois pares de vigas de madeira sobre 3 grandes pilares de apoio, usada na travessia a pé. Nada mais que um atalho para quem queria ir do centro da vila para a Praia da Costa. É bom lembrar que não circulava nenhum automóvel nas ruas de Vila Velha.</div>
<div id="APSP_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#APSP_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Jereré é termo mais usado em Vila Velha.</div>
<p>[SANTOS, Jair. Falando de Vila Velha.&nbsp;Vila Velha, 2002. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p>
<div>
</div>
</blockquote>
<p></p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/">A pesca do siri patola</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Frei Pedro Palácios</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/frei-pedro-palacios/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/frei-pedro-palacios/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 13:52:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Irmão leigo da Ordem Franciscana, arquiteto e primeiro construtor da monumental obra do Convento da Penha desde quando aqui chegou em 1558. Trata-se de uma obra que remonta do tempo de Vasco Fernandes Coutinho (filho) que se transformou em símbolo do nosso Estado. Enquanto viveu em Vila Velha, Pedro Palácios catequizou nativos evangelizou colonos, escravos [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/frei-pedro-palacios/">Frei Pedro Palácios</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Irmão leigo da Ordem Franciscana, arquiteto e primeiro construtor da monumental obra do Convento da Penha desde quando aqui chegou em 1558. Trata-se de uma obra que remonta do tempo de Vasco Fernandes Coutinho (filho) que se transformou em símbolo do nosso Estado. Enquanto viveu em Vila Velha, Pedro Palácios catequizou nativos evangelizou colonos, escravos e índios, orou em cada entardecer em frente à gruta na qual dormia e costumava tomar alimentos preparados nas casas dos colonos. É importante dizer que a inesperada vinda desse devotado filho de São Francisco de Assis foi a melhor coisa que poderia acontecer em Vila Velha porque teve inicio a partir do momento que Vasco Fernandes Coutinho (pai) transferiu a sede da Província para a ilha de Santo Antônio, hoje Vitória. Para a pequenina vila sua chegada foi como a vinda de um candeeiro que iluminou o caminho daqueles que permaneceram na vila primitiva. Todos se juntaram ao bondoso frade na fé e no trabalho não permitindo que Vila Velha desaparecesse. Sua luz se transformou em vida radiante para todos por mais de 300 anos.</p>
<p>
[SANTOS, Jair.&nbsp;<i>Falando de Vila Velha</i>.&nbsp;Vila Velha, 2002. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/frei-pedro-palacios/">Frei Pedro Palácios</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/frei-pedro-palacios/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Vasco Fernandes Coutinho: o primeiro donatário do Espírito Santo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/vasco-fernandes-coutinho-o-primeiro/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/vasco-fernandes-coutinho-o-primeiro/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 13:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Vasco Fernandes Coutinho (pai) veio como fidalgo da Corte Portuguesa. Era ele um herói lusitano, senhor dos mares e bravo soldado do Rei nas conquistas da África e da Ásia, pelo que recebeu título de fidalguia com direito a brasão, tensa, casa em Alenquer (Portugal) e merecedor de uma das 15 capitanias hereditárias nas terras [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/vasco-fernandes-coutinho-o-primeiro/">Vasco Fernandes Coutinho: o primeiro donatário do Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Vasco Fernandes Coutinho (pai) veio como fidalgo da Corte Portuguesa. Era ele um herói lusitano, senhor dos mares e bravo soldado do Rei nas conquistas da África e da Ásia, pelo que recebeu título de fidalguia com direito a brasão, tensa, casa em Alenquer (Portugal) e merecedor de uma das 15 capitanias hereditárias nas terras do Brasil. A décima primeira foi a que lhe deu o Rei D. João III através do Foral assinado em 1534. Vasco Coutinho além de herói revelou-se competente navegador quando saiu de Lisboa com cerca de sessenta homens a bordo de sua caravela, atravessou o grande oceano e aqui chegou sem ter formado frota. Poucos anos depois, praticamente só, com a mesma nau voltou ao reino em busca de ajuda ou a procura de um sócio disposto a compartilhar do projeto de conquista do solo da América.</p>
<p>Quis o destino escolhe-lo como viga mestra da complicada estratégia de colonização do Brasil pois, coube a ele trazer para os ermos do Novo Mundo cerca de sessenta homens em degredo para que aqui ajudassem na colonização do solo e morressem de morte natural. Esses eram na maioria vagabundos, ladrões e marginais que perambulavam nas ruas de Lisboa, entre os quais Dom João III incluiu dois nobres; Dom Jorge de Menezes e Dom Simão Castelo Branco.</p>
<p>Situação semelhante à de Vasco Coutinho sofreu Pero de Góis quando veio em 1549 com o Primeiro Governador Geral Thomé de Souza. Ao assumir seu lote localizado no norte fluminense viu-se numa planície totalmente ocupada pelas tribos Goitacás, citada depois como região de Campos dos Goitacás, (hoje cidade Campos), que lhe coube colonizar com um bando de homens, também destinados ao degredo. Vendo-se só e sem recursos suficientes, abdicou de tudo e retirou-se para Lisboa. Afirma Basílio Carvalho Daemon à pagina 83 que sua capitania foi incorporada à Coroa no ano de 1751. Idêntico destino sofreram outros donatários. Entretanto, o mesmo tratamento não foi dado aos Capitães da Bahia, Pernambuco, Rio de janeiro e São Vicente a cujos lotes chegaram seus donatários com o apoio do combalido tesouro português e para onde trouxeram como colonos: artífices, operários, lavradores afeitos ao amanho da terra, sacerdotes, artesãos além do direito de escolher o próprio lote como foi o caso de Martim Afonso de Souza e seu irmão Pero Lopes de Souza.</p>
<p>Esses fatos mostraram os evidentes sinais de fragilidade da Corte no plano de colonização do solo conquistado. Mesmo assim a coragem e o espírito aventureiro de Vasco Coutinho não deixaram que se apagasse a chama da esperança de conquistar a riqueza sonhada. Tanto isso é verdade que a própria história revelou para espanto dos leitores a &#8220;desmedida ambição&#8221; do donatário do Capitania do Espírito Santo por querer, a qualquer custo, &#8220;erguer nesta parte da América um novo império até conquistar independência de Portugal&#8221;. Todavia esse exagero não passou de calúnia contra Vasco Coutinho quando seu desafeto procurou intriga-lo com o Rei. Fosse isso verdadeiro, a própria divisão do Brasil em capitanias hereditárias teria alcançado êxito retumbante e a Coroa teria mostrado ao mundo a força e a eficiência dos Capitães escolhidos, como também não teria sido necessária a nomeação de um só Governador Geral para a colônia brasileira. Na verdade o que se viu em cada feudo foi sofrimento e sacrifício na vida de todos, tanto pela falta de recursos, pelas grandes distâncias entre os povoados, pelas dificuldades para transpor cordilheiras imensas, pelo profundo choque cultural como também pelo possível engano do próprio Rei quando resolveu fazer da colônia local de homizio da escória humana que crescia na periferia da Corte. Podemos dizer que Vasco Coutinho foi um capitão que lutou enquanto pôde, qual atlante que sustentou nos ombros sessenta vilões incapazes, até que um dia emudeceu e sofreu só depois de descobrir que não trouxera braços para o trabalho, muito menos com quem trocar idéias ou conversar. Por isso, em duas oportunidades, lançou-se ao mar e partiu em busca de ajuda ou de quem quisesse compartilhar do seu projeto de colonização. Tudo tentou mas não obtendo êxito, voltou só. Cansado, a idade avançando, a fadiga e a tensão constante curvaram o dorso desse gigante. Na trajetória de sua luta acabou sendo colhido por inesperado acontecimento causado por quem deveria ser o mais digno representante da Igreja Católica no Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha, o prelado cuja debilidade não condizia com o posto de representante do Sumo Pontífice pois era conhecido como homem mau, rancoroso, criou sérios embaraços ao trabalho de catequese adotado pelos jesuítas porque procuravam usar alguns costumes indígenas como a música, os adereços e a dança de modo a obter facilidades de aproximação e compreensão da crença católica do conquistador. Ainda assim, qual avarento incorrigível, preferia continuar aplicando multas aos fiéis em pecado e não a penitência ou conduzia o excomungado para o caminho fácil da reconciliação mediante pagamento em dinheiro além de fomentador de discórdia entre as ovelhas do próprio rebanho, ao ponto de ter tido entre os desafetos o próprio Segundo Governador Geral, Dom Duarte da Costa.</p>
<p>Por infeliz coincidência, estando D. Pero Fernandes Sardinha a serviço do apostolado na capitania de Pernambuco onde, no Domingo, celebrava missa, lá apareceu o Capitão do Espírito Santo, Vasco Coutinho, onde fora em busca de sugestões e ajuda do velho amigo desde as conquistas na África e na Ásia, o donatário Duarte Coelho e, como temente a Deus, não deixou escapar a oportunidade de buscar consolo na santa celebração. Ao ver entrar no templo o donatário do Espírito Santo cansado, alquebrado e visivelmente doente o imperdoável Primaz o apontou como viciado por &#8220;beber fumo&#8221; e por conviver com más companhias. Em razão disso, diante dos presentes excomungou-o e expulsou-o da igreja. O Capitão Vasco abaixou a cabeça e recebeu a ofensa quase morto de vergonha. Sentiu o golpe profundo daquele ato de desumanidade imposto por quem deveria ser generoso em exemplos de paciência e perdão entre os homens. Vasco não balbuciou uma só palavra, a surpresa da ofensa em público o feriu com golpe mortal qual lança que atinge o coração do guerreiro, reuniu as forças que ainda lhe restavam, levantou-se e se retirou. Encerrou-se na sua propriedade, a Fazenda da Costa em Vila Velha, onde sofreu até seus últimos dias.</p>
<p>Diante de fato como este o historiador atento tem dificuldade de imaginar o tamanho do castigo que o Bispo Fernandes Sardinha aplicaria aos Incas, povo da elevada cultura pré-colombiana que cultivava o tabaco entre as plantações de milho e feijão.</p>
<p>No primeiro livro da História do Brasil tudo isso foi narrado pelo autor Frei Vicente do Salvador empregando palavras de efeito com objetivo de impressionar os leitores, historiadores e comentaristas da época e, pelo visto, conseguiu atingir seu objetivo pois que, suas citações exageradas são repetidas ainda hoje.</p>
<p>Podemos dizer que o quotidiano de Vasco Fernandes Coutinho no solo do Espírito Santo constituiu-se numa das maiores epopeias vividas no tempo do Brasil colonial. O episódio da sua excomunhão constituiu-se em absurdo de tal proporção que nos leva a acreditar ter sido feita a justiça divina quando o Bispo foi salvo de um naufrágio para ser devorado pelos caetés em junho de 1565. Vasco Coutinho faleceu pouco antes, em 1561, privado de tudo que pretendeu realizar ou seja, construir uma capitania cuja grandeza ajudasse mostrar ao mundo a força do seu pequenino Portugal.</p>
<p>Por fim, pode nosso imaginário nos revelar o quanto trabalhou e amargou esse pobre Capitão entre a ralé que o Rei de Portugal um dia despejou na sua caravela.</p>
<p>A tradição de Vila Velha guarda numa pequenina rua o nome do primeiro donatário como uma débil reverência ao primeiro grande homem do Estado do Espírito Santo. Podemos dizer que o povo capixaba é guardião de uma dívida de justiça por não cultuar seu vulto de herói. Por que não homenageá-lo erguendo a mais bonita estátua na principal praça da capital do nosso estado? Especialmente a cidade de Vila Velha, que tendo sido o berço da nossa colonização foi também a cidade que adotou como sua e onde residiu até o último dia de sua vida.</p>
<p>
[SANTOS, Jair.&nbsp;<i>Falando de Vila Velha</i>.&nbsp;Vila Velha, 2002. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/vasco-fernandes-coutinho-o-primeiro/">Vasco Fernandes Coutinho: o primeiro donatário do Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/vasco-fernandes-coutinho-o-primeiro/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A extinta ilha da Forca na enseada da Prainha</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/a-extinta-ilha-da-forca-na-enseada-da/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/a-extinta-ilha-da-forca-na-enseada-da/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 13:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Tratava-se de uma elevação rochosa baixa com rara vegetação situada na frente da praia de Inhoá e da pedra do Cruzeiro. A importância dessa ilha no cenário histórico de Vila Velha está no fato de que, quando Vasco Fernandes Coutinho iniciou o assentamento do primeiro povoado, o fez seguindo o padrão usado pelos conquistadores do [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-extinta-ilha-da-forca-na-enseada-da/">A extinta ilha da Forca na enseada da Prainha</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Tratava-se de uma elevação rochosa baixa com rara vegetação situada na frente da praia de Inhoá e da pedra do Cruzeiro. A importância dessa ilha no cenário histórico de Vila Velha está no fato de que, quando Vasco Fernandes Coutinho iniciou o assentamento do primeiro povoado, o fez seguindo o padrão usado pelos conquistadores do seu tempo. Esse modelo consistia na edificação de três componentes básicos: a igreja, para atender ao compromisso da fé católica do povo português e do seu Rei com o Vaticano, seria desde logo o primeiro abrigo dos catequistas enviados por Deus. Num dos lados do templo deveria estar a Casa da Administração, onde era instalado o órgão encarregado das relações da capitania com a corte e, do outro lado, a Casa da Justiça ou Cadeia, com pelourinho, responsável pela obediência ao cumprimento das regras e dos direitos de todos. Mas em Vila Velha parece que, por falta de braços para o trabalho ou devido à presença do índio vingativo e perigoso, tenha Vasco instalado provisoriamente o pelourinho nessa pequena ilha existente na baia da Prainha. Ali ergueu a forca para executar os bugres mais violentos e rebeldes; daí a razão do nome.</p>
<p>De J.J. Gomes da Silva Neto [1888: 104] colhemos o relato seguinte:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>&#8230;Houve antigamente no Rio de Janeiro uma praga de alcoviteiras mulheres de mantilhas, pela gente devota chamadas beatas, e pelos rapazes alcunhadas baratas as quais eram vistas em todos os atos religiosos! E até execuções criminais que então se faziam na Prainha. Como eram admitidas em todas as casas de família, e desta franqueza resultou a perdição de muitas moças solteiras e casadas! Também existiu ali um assassino de profissão e por antonomásia — beato do Carmo —, o qual vivia constantemente na igreja dos Carmelitas, quase sempre em estação, de braços abertos, beijando o chão etc&#8230;</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Se em algum tempo essa ilha guardou segredo de crimes cometidos por fanáticos que vinham da igreja dos Carmelitas ou de qualquer outro lugar para fazerem justiça em nome de Deus ou da Igreja, ai está o depoimento narrado por Gomes Neto, mas, para os vila-velhenses do início do século XX, o local não passava de uma bela ilha que enfeitava o aprazível sítio histórico além de uma escola natural dos meninos que se iniciavam na arte da pesca.</p>
<p>O professor EurÍpedes Queiroz do Valle [1971: 185] diz que ela é assim denominada por ter sido nela que os primeiros colonizadores puniram os criminosos e condenados à morte e, de outro comentarista, consta o holocausto do português Robério Dias por ter se rebelado diante dos compatriotas como sendo o homem que apontava aos nativos quais eram os colonos que os brutalizavam por não se sujeitarem ao trabalho e também àqueles que violentavam e maltratavam as jovens índias.</p>
<p>
[SANTOS, Jair.&nbsp;<i>Falando de Vila Velha</i>.&nbsp;Vila Velha, 2002. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-extinta-ilha-da-forca-na-enseada-da/">A extinta ilha da Forca na enseada da Prainha</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/a-extinta-ilha-da-forca-na-enseada-da/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O maná do céu e a praga de Alcelina — relato sobre a pesca da manjuba no Pontal de Itapuã nos anos 40.</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 13:07:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Comentário Jair Santos vivenciou durante a sua adolescência — isso nos anos 40 — a rotina dos pescadores do Pontal de Itapuã, em Vila Velha, e é com base nessa vivência que ele faz o relato que se segue, com personagens reais, alguns deles ainda vivos, resultando numa importante contribuição para a memória do município. [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/">O maná do céu e a praga de Alcelina — relato sobre a pesca da manjuba no Pontal de Itapuã nos anos 40.</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b>Comentário</b></p>
<p>Jair Santos vivenciou durante a sua adolescência — isso nos anos 40 — a rotina dos pescadores do Pontal de Itapuã, em Vila Velha, e é com base nessa vivência que ele faz o relato que se segue, com personagens reais, alguns deles ainda vivos, resultando numa importante contribuição para a memória do município. Na reprodução das falas foram mantidas as palavras e orações originais, a pedido do autor.</p>
<p>No horizonte o alvor diáfano de mais um lindo dia. A faina dos homens de rede começa antes do arrebol. É muito bonito o alvorecer no litoral capixaba. ltaparica, Praia da Costa, Pontal de ltapoã, Barra do Jucu, Ponta da Fruta&#8230; Na alegria de viver, a certeza da harmonia do homem com a natureza engalanada. Tudo está perfeito e o otimismo marca o semblante dos que vêm chegando. O céu vai ficando cada vez mais azul. É tempo <span id="PRAG_RP20V">de </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP20" title="Épocas ou ventos favoráveis à navegação. Oportunidade.">monções</a>, a brisa sopra forte vindo do nordeste<span id="PRAG_RP39V">. </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP39" title="Ventania constante na mesma direção. Vento forte, contínuo e sem rajadas. Referência idêntica à água dura, acima citada.">Vento duro</a>&#8230; é <span id="PRAG_RP35V">o </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP35" title="O vento norte.">setentrião</a> da saúde — marca característica do clima no nosso litoral. Na estação quente o litoral do Espírito Santo é diariamente visitado por sucessivos cardumes de manjuba. É tempo de peixe farto e muito conhecido de todas as vilas e povoados de pescadores.</p>
<p>Lá fora, no sobe e desce das ondas, os pescadores da enseada <span id="PRAG_RP10V">lançam </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP10" title="Anzóis atados numa mesma linha de pesca.">garatéias</a> desde o escuro da madrugada que findou. O silêncio é quebrado pelo incessante marulhar sobre o baixio distante e pelos pios das gaivotas e das andorinhas do mar.</p>
<p>Foto: Jair Santos, 1942.<br />
Nos barracões, homens fortes, de pele acobreada e luzente, dão começo à faina diária. Em aparente desorganização, retiram a canoa e a rede que devem ficar expostas ao sol, ao vento e também para abrir um pouco de espaço no interior da choça. Essas cabanas são abrigos necessários para a guarda de todos os apetrechos de cada grupo que se dedica à pesca de rede e são construídas na parte mais alta da linha da praia.</p>
<p>A conversa vai ficando animada à medida que a turma vem chegando. Todos falam ao mesmo tempo no meio de cantorias e risos. O ambiente é sempre alegre. Dá gosto de se ver. O fogareiro de pedras é aceso com fogo em gravetos para o café e, como coisa certa, lá vem vindo o Russo, moleque sarará, que vende os <span id="PRAG_RP22V">deliciosos </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP22" title="Ou muxá: bolo feito de milho triturado (canjiquinha) e cozido com água e sal para ser comido puro ou com café.">muchás</a> e os bolinhos de arroz da dona lná.</p>
<p>De pé, na boca <span id="PRAG_RP6V">da </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP6" title="Choupana, cabana, rancho.">choça</a>, assuntando o mar e apurando o movimento, Cabantonho, homem de mando, muito importante, o chefe, dono do barraco, proprietário do barco e da rede, é o amigo e companheiro que garante o trabalho de todos. Experiente<span id="PRAG_RP40V">, </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP40" title="Muito velho, antigo, respeitável pela idade.">vetusto</a>, dá sinal de sabedoria forjada <span id="PRAG_RP9V">no </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP9" title="Ato de fazer repetidamente, segundo linguagem do homem local.">fazimento</a> diário, quando prenuncia em tom grave: <span id="PRAG_RP1V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP1" title="Forma popular de referir-se à corrente marítima contínua numa mesma direção.">As água corre dura</a> pro norte.&#8221; Todos ouvem e recebem as palavras de bom alvitre. Nelas o mestre anuncia que o tempo está firme e o mar bom pra peixe.</p>
<p>Dali da porta <span id="PRAG_RP38V">do </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP38" title="Choça, cabana, refúgio.">tugúrio</a>, como <span id="PRAG_RP17V">bom </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP17" title="Aquele que é entendido em caçada ou em pescaria.">mariscador</a>, fica espiando o mar. Conversa com um, conversa com outro&#8230;, depois chama dois dos seus homens e manda puxar o barco mais para perto do batente das ondas, porque viu <span id="PRAG_RP16V">que </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP16" title="Repontou, deixou o delineamento ou marca do ponto máximo ou mínimo das marés.">a maré riscou</a> e vai começar a descer. E fica ali na frente do barracão, de atalaia, bem paciente, olhando para a imensidão daquele <span id="PRAG_RP33V">mundo </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP33" title="Salgado. Diz-se especialmente do mar.">salso</a>. Enquanto isso, outro homem de muita importância cumpre as obrigações de quem sabe a hora. É Maglória cuidando da arrumação da rede no fundo do barco. Coisa muito simples para ele, porque a canoa não é grande e é de pouca<span id="PRAG_RP23V"> </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP23" title="Conjunto de mastros, vergas, âncoras, remos etc. de uma embarcação pequena.">palamenta</a>. Primeiro, bem por baixo, arruma a corda da última ponta da rede e que será levada para a praia depois de completado o cerco ao cardume. Em seguida vem o calão, depois a rede de malha larga. Sempre tareando. No meio da arrumação, o saco, espécie de alvitana ou rede de malha fina (a parte mais resistente e mais importante do conjunto), tareando direitinho pro barco <span id="PRAG_RP7V">poder </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP7" title="Linguagem local referindo-se ao barco que desliza facilmente sobre o mar.">correr liso</a> sobre as ondas na hora do ataque. E assim arruma a outra metade, mantendo sempre a chumbada de um lado e as bóias do outro. Por fim separa os remos da proa e da popa.</p>
<p>O sol já vai alto. Cabantonho, lá de cima, continua na espreita, olhando o mar. Os ajudantes por ali, uns conversando, outros pitando&#8230;</p>
<p>De repente, o mestre aguça os olhos, cofia o cavanhaque ralo. Mão direita faz aba na testa e resmunga em tom gutural: &#8220;Tá lá, e esse é bonito! Deixa vê pra donde ele vai.&#8221;</p>
<p>É coisa que só ele distingue <span id="PRAG_RP12V">nessa </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP12" title="Grande distância, longitude.">lonjura</a>, e mais, saber que rumo o cardume pode tomar! Mas deixa que ele conhece o &#8220;bicho&#8221; de longe.</p>
<p>&#8220;Maglória, ei&#8230; Maglória, olha o cardume, vem vindo na direção das ilhas ltatiaia.&#8221; Maglória, forte que só um zebu, amigo de todos e sempre risonho, mariscador tão bom como o chefe e muito dunga nas coisas do mar, arruma o cuité, estica-se pro alto e olha aguçado na direção do arquipélago; alarga o sorriso de confirmação e exclama: &#8220;É vem manjuba&#8230;&#8221;</p>
<p>A partir daí a notícia corre feito relâmpago. Parece explodir em festa toda a orla praiana. Inicia-se uma <span id="PRAG_RP18V">estranha </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP18" title="Desordem, tumulto.">mazorca</a>, seguida de grande vozerio. Faz lembrar um <span id="PRAG_RP5V">daqueles </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP5" title="Reunião de pessoas, em geral negros, para a prática de feitiçarias, Candomblé.">canjerês</a> que se vê lá pras bandas de Nova Almeida e Praia Grande, no litoral norte.</p>
<p>A manjuba é um peixe muito parecido com a sardinha e de carne igualmente saborosa. Vive em cardumes de superfície e o tamanho máximo de cada peixe atinge pouco mais de um palmo quando adulta, e aparece nos meses de dezembro a março. Para os habitantes das vilas e povoados do litoral espírito-santense é como um maná que cai do céu, porque torna farto o prato das famílias pobres, especialmente quando preparada em fritura ligeiramente queimada de modo a torrar os espinhos pequenos.</p>
<p>Cabantonho explica pro Maglória, seu amigo e discípulo, o seguinte: &#8220;Pra peixe de cardume não existe maré arta nem maré baxa e, quando vem vindo que nem esse, depressa desse jeito, correndo dum lado pro outro e às veis se partindo em dois pra torná a se juntá lá na frente, é certo que tem peixe grande comendo por trás. E esse é que é dos bão. Assim chega logo a hora da gente ir pra cima dele. Cadê Jonsé, cadê Curuba? Chama Fiinho mais Cirilino. Tá quais na hora.&#8221;</p>
<p>No barracão adiante, seu Carlinho, homem também de mando, está lá com todas as providências arrumadas e pronto para lançar a canoa ao mar, caso o cardume venha no seu rumo. A turma dele está espiando há um tempão.</p>
<p>&#8220;É de costume a gente vê o cardume dá uma guinada de rumo, quando se aproxima da praia ou quando alguma coisa espanta ele. Muitas veis isso aconteceu. Ali mesmo, adonde que ele tá, se virá um pouquinho pro sul vem batê direitinho na nossa rede&#8221;, fala seu Carlinhos. &#8220;Mas se virá <span id="PRAG_RP36V">um </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP36" title="Tico, um pedacinho de qualquer coisa.">tiquinho</a> pro lado norte e passá pu fora da ilha Pituã, num vorta nunca mais. Vai corrê a Praia da Costa todinha e caí na rede de Demá Guelelê, lá na Sereia&#8221;.</p>
<p>O sol subiu um bocado. Já são quase nove horas e o cardume continua vindo no seu rumo. Cabantonho está feliz. Olha para o companheiro Maglória e&#8230;</p>
<p>&#8220;Vamo?&#8221;</p>
<p>&#8220;S&#8217;imbora&#8221;, é a resposta.</p>
<p>A canoa é lançada ao mar, de proa para as ondas, que hoje são pequenas, e o primeiro cabo da rede já fica em terra por conta de Cirilino e Curuba.</p>
<p>Curuba ganhou esse apelido desde quando apareceu aqui na rede todo empipocado de coceira e era um magricela malcomido e malnascido, mas um rapaz bom e trabalhador. Hoje ninguém se lembra do seu nome. Já o Cirilino é filho daqui mesmo, de pai e mãe conhecidos de todos. Ele é um negão do <span id="PRAG_RP15V">tipo </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP15" title="Enorme, muito grande.">mangangá</a>, sempre bem mandado. Só que demora muito pra começar a se mexer, por isso cada ordem ou pedido já vem acompanhado de esporro e pontapé.</p>
<p>Só um nadinha de água entrou na canoa, porque uma onda pequena, sem vergonha, bateu atravessada a bombordo. Agora com remadas curtas e lentas, o barco é afastado do ponto de quebração das ondas. Maglória, de pé na proa, espia e rema com calma, enquanto aguarda a aproximação da mancha escura que marca o cardume. Pelo seu cálculo, o &#8220;bicho&#8221; ainda está um pouco além do comprimento da corda que puxa a rede. &#8220;É melhor deixá juntá mais um tico.&#8221; O coração acelera a batida, fica que só uma múmia, respira fundo, apronta o remo lentamente, porque &#8220;o bicho tá quais colocando a cabeça no laço.&#8221; Tem que ser preciso. É hora de decidir. Assunta bem e já pode ver que o tamanho do cerco vai dar na medida da corda que segura o primeiro calão. E pensa: &#8220;É coisa que só pode sobrá, fartar nunca.&#8221; Como um felino à espreita da presa, mantém a calma. Silêncio absoluto.</p>
<p>Cabantonho coloca lentamente a embarcação na posição de ataque. Seus olhos esbarram nos olhos do proeiro. É agora, tudo pronto!</p>
<p>Na praia a expectativa é geral. Todos aguardam o sinal do chefe, sentado na popa. De repente, Cabantonho cerra o punho, risca os olhos no proeiro de pé, ergue o braço e faz como quem dá um soco no vento que ecoa como um grito de atacar.</p>
<p>Agora os dois remam em ritmo forte, constante. O único barulho é o da proa, abrindo o mar em dois, por detrás do cardume, mas ligeiramente afastado.</p>
<p>Cabantonho, remando e de governo na grande curva de cerco ao cardume, vai fechando à medida que avança<span id="PRAG_RP11V">. </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP11" title="Pá que os índios usam para manobrar barcos. Remo que serve de leme.">Jacumã</a> perfeito.</p>
<p>Em terra, Cirilino e Curuba mantém a ponta da corda sem pressão pro barco avançar ligeiro. Puxar mesmo, só quando o proeiro entregar a corda do segundo calão pro Fiinho e Jonsé, lá do outro lado.</p>
<p>Está tudo indo bem. O cardume parece pressentir o perigo. A mancha escura pára. O barco corre liso, silencioso como pode, deita o primeiro calão no mar. Daí para frente segue lançando a rede à medida que a canoa avança. Cabantonho rema sozinho. Rema e governa. A canoa não pode diminuir a marcha, não pode sair do rumo, não pode adernar. Há como um dueto de força e sabedoria entre os dois homens, em perfeita harmonia com o mar, com o barco e o cardume. Coisa <span id="PRAG_RP8V">de </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP8" title="Bom, inteligente, preparado.">cutuba</a> <span id="PRAG_RP2V">para </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP2" title="Nome dado pelos indígenas ao espírito mal, diabo.">anhangá</a> nenhum botar defeito. Coisa de capixaba nascido e criado nesse litoral, que nem guruçá acostumado a arranhar essas praias tão lindas. O cardume se assusta, muda de rumo, quase não anda&#8230;</p>
<p>A praia está apinhada. Tem gente de todo jeito. Todos olham, poucos entendem.</p>
<p>Cabantonho volta a remar dobrado. Remando e governando. Maglória continua lançando a rede. Chega a vez do segundo calão. Após deitá-lo na água, lança toda a corda cuja ponta final está atada ao banco da embarcação. Pega novamente o remo, rápido e em remadas redobradas, na maior velocidade que for possível faz o barco deslizar com a proa na direção da praia. Está fechado o cerco. A corda é desatada do banco e mordida nos dentes para ser entregue a Fiinho e Jonsé que caíram na água para recebê-la.</p>
<p>Fiinho é outro negão espadaúdo, bem encorpado, mas de cabeça pequena e orelhas miudinhas. Fora desse serviço de rede é magarefe no matadouro de seu Rodolpho Valdetaro, lá no pé do morro do convento. Ninguém nunca soube o seu nome, porque pai e mãe sempre o chamaram assim. Já o Jonsé dizem que nunca teve pai nem mãe, porque sempre morou emprestado, desde garotinho, num barraco ali perto do campo do Tupi. O seu nome certo é João José. É um maratimba que veio sozinho lá das bandas de Castelo. Andou se metendo com gente ruim, mas deram uma &#8220;prensa&#8221; nele que num instante melhorou. Ele é bom, porque tudo que precisa ser feito ele está logo fazendo. Sempre assim, conversando e agindo, não precisa mandar.</p>
<p>Os homens das duas pontas iniciam o arrastão mais ou menos por igual e sem pressa. Procuram controlar a puxada da rede que deve ser o mais uniforme possível de ambos os lados. E levam a corda até a parte de cima da praia.</p>
<p>Pesca da manjuba com rede de arrasto. Foto: Jair Santos, déc. 40.<br />
Nessa hora não se consegue adivinhar de onde vem tanta gente para ajudar. Essas praias são desabitadas. Só se vê uma casa lá no meio da Praia da Costa e outras quatro de taipa, de gente muito pobre dentro desses matos, e nada mais! É uma criançada dos infernos que só serve para atrapalhar. E dizem que eles são a riqueza dos pobres. Tá doido!<br />
<span id="PRAG_RP13V">Nesse </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP13" title="Grupo de pessoas do povo, multidão.">magote</a> entram os banhistas, é claro, eles também gostam dessa coisa diferente de ajudar na pesca de rede. Entre eles, senhores, casais de namorados, alguns janotas, gente de mãos finas muito sem jeito que só quer curtir a novidade para ter o que contar. Aparecem também aqueles que precisam. Ajudam na certeza de que não voltarão de mãos vazias. São as famílias que moram por ali naqueles chavascais e vivem em cima dessa areia quente do cão; gente que, entra ano sai ano, tem garantido o seu &#8220;piraém&#8221; graças à pesca da manjuba. É muito chato, mas aparecem também homens e mulheres que não prestam pra nada, porque só fazem pedir. São aqueles tipos indolentes que só <span id="PRAG_RP14V">andam </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP14" title="Desiludido, embriagado, drogado.">mamados</a>. Dentre eles está sempre presente uma mulher muito conhecida de todos. É Alcelina, filha de um tal Puruca. Dizem que não houve entre aqueles homens um só que não a tivesse levado pro mato. É claro, isso só aconteceu quando ela apareceu ali na praia, novinha, de cabelo liso e comprido até a cintura, bem cabocla, risonha, vestindo uma blusa que mal escondia os seios fartos. Depois que prendeu o primeiro entre as pernas, não perdeu a oportunidade de mostrar a sua personalidade de mulher decidida, muito independente, e não admitia que dois machos fizessem cena de ciúme por sua causa. Todos lembram da &#8220;decisão&#8221; que deu, aos berros, no primeiro machão da praia &#8220;Ei, ei &#8230; mas que negoço é esse? Deixe de sê besta homi. Fica sabendo que eu sou dona do meu nariz e vou pra donde eu quisé, com quem eu quisé. Onti eu fui pro mato com você, acabô&#8230; hoje eu quero ir é com esse aqui, tá ouvindo?&#8221; E assim, no dia seguinte, a sua fama correu de boca em boca nas ruas de Vila Velha inteira. Alguns dias depois todos sabiam que ela era doida por homem e para onde ia, um lote de rapazes saía atrás, feito cadela no cio. Resultado: comeram toda a sua beleza num instante. Hoje é <span id="PRAG_RP21V">uma </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP21" title="Mulher imunda e desmazelada.">mondonga</a> paupérrima que vive da ajuda de todos eles.</p>
<p>&#8220;Cuidado!!! Ei, cuidado aí&#8230;&#8221; Quem grita a pleno pulmão é o Cabantonho de lá da canoa. &#8220;Ô Curuba, pede carma a essa gente aí. A rede num pode sê puxada com tanta força. Assim poca o cabo do calão. Ô Curuba, acerta aí o seu lado, homi de Deus. Fala pro Fiinho &#8230; Mecê num tá vendo que o cardume é grande e tem peso demais no saco da rede? Vê se acerta o arrasto com o outro lado&#8230;&#8221;</p>
<p>Lá do barco Cabantonho grita para acertar o que não está bom. Ele e Maglória ficam por detrás das bóias vigiando o cardume e orquestrando o arrastão. De repente a canoa vem vindo com toda pressa na direção da praia. O proeiro se joga na água, ali perto da quebração das ondas, escora o pé no fundo, empurra o barco de volta e sai nadando na direção de Curuba e Cirilino. Nota-se que está afobado, é claro, e mostra que o cardume está ficando fora do centro da rede e pode <span id="PRAG_RP25V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP25" title="Fugir, sair, ir embora na linguagem do povo local.">pegá rumo</a>&#8221; na malha larga. Aí foge quase tudo&#8230;</p>
<p>&#8220;Puxa o seu pessoá mais pra dentro. Esse cabo tá muito aberto, fecha mais, fecha mais&#8230; Aí, aí tá bão. Curuba, fala pra essa gente que num precisa força. Manda ir subindo com carma.&#8221;</p>
<p>Cabantonho está lá atrás no saco da rede submersa, dum lado pro outro, sem barulho, de olho no cardume e na direção de subida da rede. De lá ele vê que vem chegando o grandão conhecido por Maria Bonita. Na hora H, porque sabe que é homem de precisão. Muito eficiente, porque arruma jeito pra tudo. Dito e feito, de uma olhada, entrou no barracão e já vem descendo com <span id="PRAG_RP28V">três </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP28" title="Cesto, balaio, samburá.">picuás</a> na cabeça. Ele sabe que daqui mais um pouco os homens que cuidam do arrasto vão precisar dos cestos. Maria Bonita é conhecido de longe porque por onde anda leva na cabeça um chapéu de palha de aba enorme. Diz que é o seu &#8220;sombreiro&#8221;. Vive de vender peixe por todo canto de Vila Velha. Só vende peixe fresquinho, apanhado na hora. Aos domingos pega de goleiro no Vasco Coutinho Futebol Clube. Uma vez por ano fecha o gol, mas no resto do tempo, é um frangueiro de dar nojo.</p>
<p>A rede está chegando perto. Dá pra ver a grande mancha escura do cardume, bem no centro, na alvitana, mais ou menos no meio da carreira de bóias. Aumenta a expectativa, cresce o vozerio. No semblante de todos desenha-se um misto de alegria e tensão. Os pescadores estão atentos para a subida correta da rede, porque, agora, os dois lados iniciam o movimento de aproximação. Os puxadores devem continuar subindo e se aproximando. Tudo com calma e atenção redobrada. É a hora mais perigosa, porque o cardume começa ficar apertado entre a rede e o fundo mais raso.</p>
<p>&#8220;Olha só, olha só! A água <span id="PRAG_RP37V">tá </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP37" title="Tremer com freqüência, tiritar.">tremelicando</a> mais que fervura.&#8221; O peixe está acuado e tenta sair mas não sabe como. Quando ocorre fuga por cima o jeito é bater com a pá do remo na água e enxotar para trás. Mas, quando o cardume descobre local de fuga pelo fundo, basta meio minuto. Some tudo, como se atendesse ao comando de uma &#8220;madrinha&#8221;. Aí está tudo perdido, porque não fica umazinha de amostra.</p>
<p>É assim, porque nesse tipo de pescaria a rede é de pequena altura, nunca arrasta no fundo como aquela usada na pesca do camarão. Esta rede só apanha peixe de superfície, como é a manjuba.</p>
<p>Quanto mais perto o cardume, mais escura parece ficar a cor da água. A mancha se acentua no azul escuro, cor do dorso da manjuba. O peixe pula cada vez mais à medida que é apertado no seu espaço. As pontas dos calões já estão aparecendo. É porque a rede está no raso. Fiinho entra na água para arrumar o <span id="PRAG_RP4V">o </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP4" title="Nome dado às varas que sustentam a abertura vertical das redes de pesca. Numa das pontas é colocado um pouco de chumbo para que fique na vertical quando submerso.">calão</a> do seu lado, que está chegando com a cabeça tombada para dentro. Os calões, dos dois lados, terão que subir ali nas ondas com as cabeças tombadas para fora. Só assim a chumbada ficará o mais rente possível do fundo.</p>
<p>&#8220;Olha lá, olha&#8230; já tem manjuba caindo nas ondas&#8221;, exclama alguém. Enquanto isso a malha larga dos dois lados está chegando em cima. Na água, agora só a malha fina, a alvitana cheia de peixe!</p>
<p>&#8220;Nossa Senhora, aí deve ter umas cinco toneladas de peixe&#8221;, exclamou Curuba no seu exagero. Fiinho de um lado e Cirilinho do outro vão pra dentro da rede e procuram, com os pés, manter a chumbada bem rente à areia. Mais tarde Cirilino explicou: &#8220;Mecê sabe, ali onde pocam as ondas o chão nunca é prano e esse é o jeito que a gente dá pra dificurtá a saída das manjubas pelo fundo.&#8221;</p>
<p>Toda aquela gente que assiste o desenrolar da maravilhosa faina está descendo pra ajudar e ver de perto o mais lindo espetáculo da nossa terra. Coisa indescritível. Como a manjuba, ajunta-se o povaréu. Cresce a confusão, porque todos querem participar, outros, apanhar o seu primeiro peixe. Já não é vozerio, mas gritaria, porque as vozes são abafadas pelo estalido contínuo do cardume se batendo. Parte dele aparece fora da água em intenso brilho prateado. É o reflexo do sol sobre o ventral do peixe.</p>
<p>É claro que esse magote atrapalha demais e cada pescador faz o que pode para levar a bom termo a sua tarefa.</p>
<p>Neste ponto o comandante das ações resolve fazer valer a sua autoridade e pede aos estranhos que se afastem para que seus homens possam trabalhar. Imediatamente todos os ajudantes reforçam a ordem do chefe e, cada um do seu modo, pede: &#8220;Afasta aí, afasta aí pu favô, dê licença, dê licença&#8230; Chega prá lá, pode afastá que vai ter peixe pra todo mundo&#8230; &#8221; Sem muito resultado. Agora, cada ajudante mergulha correndo o pacará no meio do cardume e sai com ele cheio de peixe que vai sendo lançado na parte de cima da praia, onde não tenha nada que impeça esse trabalho tão pesado quanto corrido. Antecipar a retirada das manjubas com o uso de cestos é a forma preventiva de aliviar o peso excessivo na alvitana, especialmente quando ela já tem algum tempo de uso. Quase todos ali já viram uma rede <span id="PRAG_RP32V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP32" title="Quebrar, rasgar, estourar, não resistir a um esforço.">pocar</a>&#8220;.</p>
<p>No meio desse mundo de gente estão também alguns amigos dos pescadores que auxiliam como &#8220;fiscais&#8221;, &#8220;entendidos&#8221;, &#8220;mantenedores da ordem&#8221; e demais providências. Dentre eles são vistos João Forrão, seu Manduca Siri, Maria Bonita, Osmar Garoupa e outros. Mas os moleques são sempre os piores. São como busca-pés e não atendem a ninguém e, o pior, são todos filhos de gente dali. Filhos de gente conhecida. Uma coisa é certa: é preferível lidar <span id="PRAG_RP24V">com </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP24" title="Marinheiro pouco experimentado.">patescos</a> que cuidar dessas pestes.</p>
<p>Autor: Jair Santos. Nanquim.<br />
Ali estão também Jason, filho de Chico Leão, Altamir Bonfim, Caticoco, Toninho Cipreste, pescadores das pedras que vieram abastecer os <span id="PRAG_RP19V">seus </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP19" title="Recipiente com água no qual os pescadores conservam por algum tempo os peixes vivos.">mingachos</a>. Eles preferem catar as manjubas de menos de um palmo, porque são as melhores iscas para <span id="PRAG_RP26V">quem </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP26" title="Pescaria parada com vara, linha e anzol, feita da pedra, da praia ou de qualquer lugar fixo.">pesca de caniço</a> nas pedras ou <span id="PRAG_RP27V">de </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP27" title="Pesca feita de barco em movimento, empregando vara, linha e anzol ou só linha e anzol.">currico</a>.</p>
<p>Aliviado o peso no saco da rede, o cardume é finalmente puxado para fora do batente das ondas e contido, na medida do possível, contra a fuga e contra o avanço do pessoal. Neste ponto, o mestre quer maior rapidez no trabalho dos cesteiros. A seu mando, Cirilino sai derramando um balaio cheio logo ali no meio do caminho. É uma saída estratégica para afastar um pouco os curiosos que fecham o caminho, as crianças principalmente. Na hora de distribuir caridade, o dono da rede é sempre generoso no seu cálculo, porque sabe que entre tantos, muitos deles são chefes de família que vivem <span id="PRAG_RP34V">da </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP34" title="Sobra, resto.">senga</a>. Por isso, os mais pobres terão sempre manjuba para comer com feijão. Todos devem estar lembrados que, nas taperas do nosso litoral, é comum encontrar varal apinhado de manjuba salgada secando ao sol. É <span id="PRAG_RP30V">o </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP30" title="Peixe salgado e seco ao sol.">piraém</a> a ser estocado e que será comido nos tempos de manjuba arredia. É quando só os donos de barco têm chance de pescar de anzol na enseada e no alto-mar. Assim portanto, a manjuba se constitui <span id="PRAG_RP31V">na </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP31" title="Ração diária, pensão etc.">pitança</a> dos pescadores mais pobres, aqueles que se iniciam no ofício. A maioria deles nada têm, são serventes que dão tudo de si na temporada da manjuba. O pagamento de cada jornada tanto poderá ser em dinheiro como em peixe. Quanto a isso, há um escambo previamente ajustado, de modo a ser satisfatório para ambas as partes. Fará jus à melhor recompensa aquele que participa no remendo das redes, na fabricação das poitas, na calafetagem e pintura de barcos, nos reparos do barracão e assim por diante.</p>
<p>Desgraçadamente para os mais pobres, de vez em quando aparece o tal intermediário que chega, avalia o cardume ou a quantidade de peixe, soma a carência aparentemente dos homens e diz estendendo o alforje: &#8220;Mestre, dou tanto pelo pescado.&#8221; A aceitação ou não da proposta só o mestre decide. Ninguém dá palpite. Mas deixa, que o mestre também não é nenhum besta. Ele, melhor do que ninguém, já tem de cor a valia de tudo junto. Sabe também que <span id="PRAG_RP3V">o </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP3" title="Aquele que compra do pequeno produtor e revende com lucro.">atravessador</a> jamais perderá porque a compra ruim poderá ser coberta pela venda de custo maior. Só uma coisa todos já sabem: se ficar fechado o &#8220;negócio&#8221;, o comprador não permitirá que se tire um nadinha do pescado. Nem mesmo qualquer ajudante mais direto terá esse direito. Quem quiser, deverá pagar o preço já negociado e, quanto a isso, todos sabem que cada nove manjubas pesa um quilo. É a regra geral no litoral capixaba, e isso é lei. Quando alguém começa fazendo safadeza, querendo trapacear, tem briga. &#8220;Botou dinheiro, muda o clima&#8221;, também é a lei.</p>
<p>Essas coisas de mais miséria para o lado do infeliz que trabalha duro e come mal são resumidas na praga que Alcelina joga pra cima dos malditos compradores, cheios de usura, que aparecem de repente e carregam tudo. &#8220;Miséria maió esses bandido miserávi hão de tê no dia do juízo. Deus num há de dá nem <span id="PRAG_RP29V">uma </span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP29" title="Peixe miúdo, pequeno.">piquira</a> pra matá a fome deles. Esses puto hão de morrê cos dente de fora de tanto rapá a casca do tacho e não tê nadinha pra comê.&#8221;</p>
<p>
_____________________________</p>
<h4>
GLOSSÁRIO</h4>
<div id="PRAG_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP1V" title="Clique aqui para voltar">A água corre dura</a>&nbsp;– Forma popular de referir-se à corrente marítima contínua numa mesma direção.</div>
<div id="PRAG_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP2V" title="Clique aqui para voltar">Anhangá</a>&nbsp;– Nome dado pelos indígenas ao espírito mal, diabo.</div>
<div id="PRAG_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP3V" title="Clique aqui para voltar">Atravessador</a>&nbsp;– Aquele que compra do pequeno produtor e revende com lucro.</div>
<div id="PRAG_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP4V" title="Clique aqui para voltar">Calão</a>&nbsp;– Nome dado às varas que sustentam a abertura vertical das redes de pesca. Numa das pontas é colocado um pouco de chumbo para que fique na vertical quando submerso.</div>
<div id="PRAG_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP5V" title="Clique aqui para voltar">Canjerê</a>&nbsp;– Reunião de pessoas, em geral negros, para a prática de feitiçarias, Candomblé.</div>
<div id="PRAG_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP6V" title="Clique aqui para voltar">Choça</a>&nbsp;– Choupana, cabana, rancho.</div>
<div id="PRAG_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP7V" title="Clique aqui para voltar">Correr liso</a>&nbsp;Linguagem local referindo-se ao barco que desliza facilmente sobre o mar.</div>
<div id="PRAG_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP8V" title="Clique aqui para voltar">Cutuba</a>&nbsp;– Bom, inteligente, preparado.</div>
<div id="PRAG_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP9V" title="Clique aqui para voltar">Fazimento</a>&nbsp;– Ato de fazer repetidamente, segundo linguagem do homem local.</div>
<div id="PRAG_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP10V" title="Clique aqui para voltar">Garatéia</a>&nbsp;– Anzóis atados numa mesma linha de pesca.</div>
<div id="PRAG_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP11V" title="Clique aqui para voltar">Jacumã</a>&nbsp;– Pá que os índios usam para manobrar barcos. Remo que serve de leme.</div>
<div id="PRAG_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP12V" title="Clique aqui para voltar">Lonjura</a>&nbsp;– Grande distância, longitude.</div>
<div id="PRAG_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP13V" title="Clique aqui para voltar">Magote</a>&nbsp;– Grupo de pessoas do povo, multidão.</div>
<div id="PRAG_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP14V" title="Clique aqui para voltar">Mamado</a>&nbsp;– Desiludido, embriagado, drogado.</div>
<div id="PRAG_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP15V" title="Clique aqui para voltar">Mangangá</a>&nbsp;– Enorme, muito grande.</div>
<div id="PRAG_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP16V" title="Clique aqui para voltar">A maré riscou</a>&nbsp;– Repontou, deixou o delineamento ou marca do ponto máximo ou mínimo das marés.</div>
<div id="PRAG_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP17V" title="Clique aqui para voltar">Mariscador</a>&nbsp;– Aquele que é entendido em caçada ou em pescaria.</div>
<div id="PRAG_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP18V" title="Clique aqui para voltar">Mazorca</a>&nbsp;– Desordem, tumulto.</div>
<div id="PRAG_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP19V" title="Clique aqui para voltar">Mingaço</a>&nbsp;– Recipiente com água no qual os pescadores conservam por algum tempo os peixes vivos.</div>
<div id="PRAG_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP20V" title="Clique aqui para voltar">Monções</a>&nbsp;– Épocas ou ventos favoráveis à navegação. Oportunidade.</div>
<div id="PRAG_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP21V" title="Clique aqui para voltar">mondonga</a>&nbsp;– Mulher imunda e desmazelada.</div>
<div id="PRAG_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP22V" title="Clique aqui para voltar">Muchá ou muxá</a>&nbsp;– Bolo feito de milho triturado (canjiquinha) e cozido com água e sal para ser comido puro ou com café.</div>
<div id="PRAG_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP23V" title="Clique aqui para voltar">Palamenta</a>&nbsp;– Conjunto de mastros, vergas, âncoras, remos etc. de uma embarcação pequena.</div>
<div id="PRAG_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP24V" title="Clique aqui para voltar">Patesco</a>&nbsp;– Marinheiro pouco experimentado.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP25V" title="Clique aqui para voltar">Pegar rumo</a>&nbsp;– Fugir, sair, ir embora na linguagem do povo local.</div>
<div id="PRAG_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP26V" title="Clique aqui para voltar">Pesca de caniço</a>&nbsp;– Pescaria parada com vara, linha e anzol, feita da pedra, da praia ou de qualquer lugar fixo.</div>
<div id="PRAG_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP27V" title="Clique aqui para voltar">Pesca de currico</a>&nbsp;– Pesca feita de barco em movimento, empregando vara, linha e anzol ou só linha e anzol.</div>
<div id="PRAG_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP28V" title="Clique aqui para voltar">Picuá</a>&nbsp;– Cesto, balaio, samburá.</div>
<div id="PRAG_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP29V" title="Clique aqui para voltar">Piquira</a>&nbsp;– Peixe miúdo, pequeno.</div>
<div id="PRAG_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP30V" title="Clique aqui para voltar">Piraém</a>&nbsp;– Peixe salgado e seco ao sol.</div>
<div id="PRAG_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP31V" title="Clique aqui para voltar">Pitança</a>&nbsp;– Ração diária, pensão etc.</div>
<div id="PRAG_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP32V" title="Clique aqui para voltar">Pocar</a>&nbsp;– Quebrar, rasgar, estourar, não resistir a um esforço.</div>
<div id="PRAG_RP33">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP33V" title="Clique aqui para voltar">Salso</a>&nbsp;– Salgado. Diz-se especialmente do mar.</div>
<div id="PRAG_RP34">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP34V" title="Clique aqui para voltar">Senga</a>&nbsp;– Sobra, resto.</div>
<div id="PRAG_RP35">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP35V" title="Clique aqui para voltar">Setentrião</a>&nbsp;– O vento norte.</div>
<div id="PRAG_RP36">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP36V" title="Clique aqui para voltar">Tiquinho</a>&nbsp;– Tico, um pedacinho de qualquer coisa.</div>
<div id="PRAG_RP37">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP37V" title="Clique aqui para voltar">Tremelicar</a>&nbsp;– Tremer com freqüência, tiritar.</div>
<div id="PRAG_RP38">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP38V" title="Clique aqui para voltar">Tugúrio</a>&nbsp;– Choça, cabana, refúgio.</div>
<div id="PRAG_RP39">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP39V" title="Clique aqui para voltar">Vento duro</a>&nbsp;– Ventania constante na mesma direção. Vento forte, contínuo e sem rajadas. Referência idêntica à água dura, acima citada.</div>
<div id="PRAG_RP40">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/#PRAG_RP40V" title="Clique aqui para voltar">Vetusto</a>&nbsp;– Muito velho, antigo, respeitável pela idade.</div>
<p>[Pesquisa, texto, desenhos e fotos: Jair Santos. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/">O maná do céu e a praga de Alcelina — relato sobre a pesca da manjuba no Pontal de Itapuã nos anos 40.</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-mana-do-ceu-e-praga-de-alcelina/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Agressão ao patrimônio do convento da Penha</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/agressao-ao-patrimonio-do-convento-da/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/agressao-ao-patrimonio-do-convento-da/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 13:03:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Quando fazia mais uma costumeira visita aos meus velhos pais na nossa querida Vila Velha, pude constatar do que é capaz o homem insensível e zarolho para com as coisas do riquíssimo patrimônio histórico e cultural da nossa terra. Diante do que vi em pleno sítio histórico da Prainha, lancei mão imediata do único meio [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/agressao-ao-patrimonio-do-convento-da/">Agressão ao patrimônio do convento da Penha</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando fazia mais uma costumeira visita aos meus velhos pais na nossa querida Vila Velha, pude constatar do que é capaz o homem insensível e zarolho para com as coisas do riquíssimo patrimônio histórico e cultural da nossa terra.</p>
<p>Diante do que vi em pleno sítio histórico da Prainha, lancei mão imediata do único meio de que dispunha para dar meu grito diante da verdadeira agressão e, contra a qual, não havia ainda a menor reação dos políticos nem da sociedade local. Estávamos no mês de setembro de 1975.</p>
<p>Mais que depressa, usei o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro onde falei assim:</p>
<p>&#8220;Na semana em que o Projeto Aquarius fazia a abertura da grande festa do nosso Exército, na cidade de Vila Velha, no Estado do Espírito Santo, divulgando a cultura pela música, um quadro profundamente entristecedor sensibilizava a todos aqueles que foram assistir tão belo espetáculo. Viram todos que, mais um golpe cruel está sendo dado na verdadeira história do povo capixaba que, ao que parece, está há anos assistindo passivamente a destruição de todo o cenário natural que foi o berço de sua civilização. Ontem, o que era a enseada de Vila Velha, onde aportou o primeiro donatário da capitania e mais tarde outros colonizadores e missões religiosas, está transformado em imenso aterro sem qualquer objetivo técnico ou interesse estético. Nem mesmo a praia de Inhoá e a ilha da Forca que completavam o cenário histórico do primitivo porto, formando um conjunto de grande beleza natural e que contavam episódios de muitas lutas e sacrifícios, escaparam do soterramento. Ali está agora, tão grande quanto triste, tão abandonado quanto inútil, tão cruel quanto inculto, o grandioso sepultamento das tradições de um povo que parece esquecer-se que tem as suas raízes profundamente ligadas ao belo e ao ameno da natureza, à bravura e à altivez do gentio nativo da terra. Se o acontecimento de 24 último foi todo de culminância musical, serviu também para mostrar que a obra predatória dos iconoclastas prossegue impiedosamente.</p>
<p>Agora chegou a vez do morro do Convento, coberto pela sua mata densa virgem e original. Ainda é esta colina que modela no cenário histórico, o santuário da fé cristã de um grande povo. Cedo não o será mais, porque uma obra comum, autorizada pela municipalidade, se inicia bem no sopé, ao lado do portão da ladeira de pedras, construída por índios e escravos. Com a mesma facilidade desta, outras obras virão já, sem dúvida, e com elas, o comprometimento do pouco que resta de toda uma história já destruída. O povo espírito-santense deve orgulhar-se de saber que nesse local, nada deve lhe pertencer porque ali, a própria natureza agasalhou os importantes episódios que são de todos os brasileiros que cultuam o fortalecimento do povo através das grandes lições do seu passado e das suas mais remotas tradições.&#8221;</p>
<p>[Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/agressao-ao-patrimonio-do-convento-da/">Agressão ao patrimônio do convento da Penha</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/agressao-ao-patrimonio-do-convento-da/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O primeiro aterro da Prainha</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-primeiro-aterro-da-prainha/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-primeiro-aterro-da-prainha/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 13:01:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Muito antes do grande sepultamento dos pontos que contavam as mais remotas tradições históricas do nosso estado o &#8220;porto seguro&#8221; da Prainha teve seu primeiro aterro por volta de 1912, quando o governo Jerônimo de Souza Monteiro projetou modernizar o transporte de massa através dos bondes elétricos, cujo êxito era uma realidade nas principais cidades [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-primeiro-aterro-da-prainha/">O primeiro aterro da Prainha</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Muito antes do grande sepultamento dos pontos que contavam as mais remotas tradições históricas do nosso estado o &#8220;porto seguro&#8221; da Prainha teve seu primeiro aterro por volta de 1912, quando o governo Jerônimo de Souza Monteiro projetou modernizar o transporte de massa através dos bondes elétricos, cujo êxito era uma realidade nas principais cidades do mundo.</p>
<p>Primeiramente construiu a linha desde a Praça da Bandeira no coração de Vila Velha até Paul, na margem do porto. Dai para Vitória, a mesma empresa dos bondes oferecia bom serviço das lanchas Elizabeth e Santa Maria.</p>
<p>Pouco tempo depois o moderno serviço de transportes deveria ser estendido desde a Praça da Bandeira até a guarita do antigo Terceiro Batalhão de Caçadores sediado na Praia de Piratininga. Para isso bastava prolongar linha de ferro em cerca de dois quilômetros, serviço que foi logo contratado em benefício dos militares ali aquartelados.</p>
<p>Esse pequeno trecho, deveria percorrer a orla da Prainha, passando pelo portão dos fiéis ao Convento e o trecho final que margearia a Praia das Timbebas, até chegar no alto do monte Ucharia, onde estava a guarita do Exército.</p>
<p>Todavia, no trecho que passava pelo Portão de Acesso dos Fiéis para o Convento surgiu um problema de ordem técnica que consistia na diminuição do raio de curvatura da linha em torno da pedra sobre a qual Frei Pedro Palácios construiu o Oratório que abrigava o painel de Nossa Senhora da Penha.</p>
<p>Segundo o engenheiro responsável pela execução essa era uma questão de fácil solução porque, bastava transferir o pequenino oratório para a pedra ao lado e eliminar com fogo de dinamite aquela que impedia a execução com a curvatura da linha de acordo com a boa técnica. E, estando assim decidido, marcou dia e hora para anunciar aos interessados aquilo que,. por si só, resolvera realizar.</p>
<p>Através da empresa, solicitou a presença dos interessados no local da obra. Eram eles, o guardião do Convento, o Prefeito da cidade e o Comandante do Terceiro Batalhão de Caçadores.</p>
<p>No dia e hora aprazados, o doutor engenheiro expos a questão nos mínimos detalhes e, quando perorava qual prosélito que anuncia nova verdade, o Capelão Padre José Lidwin conhecido como um homem bravo e muito zeloso com as coisas do convento, o interrompeu assim:</p>
<p>— Senhor Doutor Engenheiro, escuta-me por favor.</p>
<p>Tanto as autoridades presentes como o encarregado dos serviços e os operários, todos enfim, volveram suas atenções para aquele sacerdote robusto, de batina negra coberta por guarda-pó banco e tendo na mão esquerda a rédea do seu cavalo que diariamente o conduzia para todos os cantos de Vila Velha, que dizia:</p>
<p>— Desde quando o senhor acha que Nossa Senhora deverá sair do lugar que é dela para que o senhor possa continuar seu trabalho ? Por acaso, o senhor gostaria que eu chegasse na sua casa e entrasse na sua sala com meu cavalo também!?</p>
<p>— Mas reverendo, disse surpreso o engenheiro, eu não quero, de forma alguma, desrespeitar Nossa Senhora, e muito menos invadir o que é dela.</p>
<p>— Pois então, senhor, trate de arranjar outra solução para o seu trabalho sem mexer na pedra onde o Frei Pedro Palácios a colocou. Vou subir para o Convento onde estarei rezando para que o senhor encontre outro jeito e não dinamitem a pedra da Santa. E olhando para os operários, repetiu: Vou rezar muito para que a Santa não fique zangada, nem com ele nem com vocês.</p>
<p>— No dia seguinte o próprio Prefeito viu que todos estavam concentrados na construção de curto arrimo de pedras no canto da Prainha. Esse muro de arrimo teve por finalidade suportar o primeiro aterro naquele ponto onde foi aumentado o raio de curvatura de linha de bondes. Nesta nova solução o mar da Prainha é que foi invadido.</p>
<p>[Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-primeiro-aterro-da-prainha/">O primeiro aterro da Prainha</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-primeiro-aterro-da-prainha/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O morro do Moreno na história do Espírito Santo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-morro-do-moreno-na-historia-do/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-morro-do-moreno-na-historia-do/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 12:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Assim que chegou à sua capitania, Vasco Fernandes Coutinho estabeleceu o colono João Moreno naquele que seria o primeiro posto de observação da província e que, mais tarde, tomou seu nome. João Moreno foi citado no &#8220;Tratado Descritivo do Brasil&#8221;, escrito por Gabriel Soares de Souza, no ano de 1587. João Moreno teve como função [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-morro-do-moreno-na-historia-do/">O morro do Moreno na história do Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Assim que chegou à sua capitania, Vasco Fernandes Coutinho estabeleceu o colono João Moreno naquele que seria o primeiro posto de observação da província e que, mais tarde, tomou seu nome. João Moreno foi citado no &#8220;Tratado Descritivo do Brasil&#8221;, escrito por Gabriel Soares de Souza, no ano de 1587. João Moreno teve como função observar a aproximação de navios corsários comuns na época e deveria ocupar-se também da plantação das sementes que trouxeram de Portugal por ser o local de terra fértil e próximo de um riacho de água doce. Esse pequeno riacho ainda existe, está drenado por tubulações sob aterro e deságua na pequena praia que leva o seu nome, praia do Ribeiro. Pode ser visto junto ao portão secundário da propriedade da família Helal.</p>
<p>Em &#8220;História do Estado do Espírito Santo&#8221;, José Teixeira de Oliveira (p. 109), diz que o donatário estabeleceu sua Fazenda da Costa no lado leste do morro do Moreno e ali morou até o seu falecimento em 1561 e que ali também residiu seu filho herdeiro e sucessor, Vasco Fernandes Coutinho (filho).</p>
<p>Ao atribuir ao Morro do Moreno a importante missão de ser o grande vigilante do nosso litoral podemos dizer que essa missão se reacendeu mais do que nunca, a partir do descobrimento do ouro na região das minas, a partir de 1693. Foi quando Portugal determinou por Regimento que a capitania do Espírito Santo impedisse que súditos seus passassem na direção do sertão e que nenhuma embarcação subisse rio acima, principalmente pelo rio Doce. Eram as primeiras medidas que tinham como objetivo impedir o contrabando de ouro que vinha das terras do atual estado de Minas Gerais.</p>
<p>Em 1929 a área ocupada pela fazenda da Costa situada entre a praia do Ribeiro, a ponta do Tagano, a praia de Santa Luzia, a pedra do Farol, o contraforte do Chavão e a pedra da Sereia e que pertenceu aos primeiros capitães, foi loteada com o nome Vila Maria Grinalda, pela Companhia Brasileira de Engenharia Comércio e Finanças.</p>
<p>Nos primeiros decênios do século XX, em razão do crescente comércio pelo porto da capital, foi implantado no cume do morro do Moreno o sistema semafórico de auxílio à navegação entre a boca da barra e o porto. Sobre isso colhemos em 1995, de João Barcelos<span id="MMHE_RP1V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-morro-do-moreno-na-historia-do/#MMHE_RP1" title="João Barcelos, falecido no ano de 1998, era filho de Clementino Barcelos e dona Neném. Tinha Marina como irmã e a família morou na casa nº. 370 da rua Antônio Athayde, esquina com a Dom Jorge de Menezes. João exerceu com raro brilho a função de vereador na Câmara Municipal de Vila Velha, sua terra natal."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> filho de um dos últimos sinaleiros residentes em Vila Velha o seguinte depoimento:</p>
<p>Ambos, o morro do Moreno em Vila Velha e o maciço do Péla Macaco ou Cais de Minério (ao qual deram o nome de Atalaia), localizado no porto, foram dotados de mastro encimado por uma cruzeta cujas hastes recebiam bandeiras de cores diferentes. Por exemplo, a haste da esquerda voltada para o norte, recebia bandeira vermelha indicando a aproximação de navio no horizonte norte. A haste da direita, voltada para o sul, recebia bandeira azul indicando a vinda de navio procedente do sul e a haste superior de bandeira branca informava navio vindo do alto mar, ou do leste. O posto de observação do Péla Macaco (de onde se pode ver o Moreno a olho nu), repetia o mesmo sinal do Moreno, como uma estação repetidora. A cada sinal dado pelo Moreno representava haver o mínimo de uma hora em viagem de aproximação. Esses sinais terminavam em terra, na Capitania do Porto (órgão da Marinha) e nos trapiches das empresas de navegação que ultimavam os preparativos de embarque e desembarque por meio de alvarengas ou barcaças conduzidas por pequenas lanchas até os navios porque o porto de Vitória ainda não tinha berço de atracação.</p>
<p>Nos postos de observação havia uma cabana para abrigo do sinaleiro, cama de campanha e pequeno fogareiro. O posto do Moreno contava também com luneta de longo alcance, necessária na identificação das embarcações, bandeiras e outras informações úteis como o prosseguimento de viagem sem escala no porto de Vitória e usada também nos dias de mau tempo ou de visibilidade ruim. Só mais tarde pôde a autoridade falar diretamente por telefone com o sinaleiro do Moreno, como ainda com o posto da praticagem instalado na ilha da Baleia. No final da década de 30, este serviço semafórico deixou de existir, quando foi substituído por serviço telegráfico anunciando a nova tecnologia.</p>
<p>Ao cabo desta série de informações podemos dizer que o Moreno consolidou seu importante vínculo com a nossa história desde que foi escolhido pelo primeiro donatário como posto estratégico de observação do grande atalaia do litoral da Província do Espírito Santo.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTAS</span></h4>
<p></p>
<div id="MMHE_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-morro-do-moreno-na-historia-do/#MMHE_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;João Barcelos, falecido no ano de 1998, era filho de Clementino Barcelos e dona Neném. Tinha Marina como irmã e a família morou na casa nº. 370 da rua Antônio Athayde, esquina com a Dom Jorge de Menezes. João exerceu com raro brilho a função de vereador na Câmara Municipal de Vila Velha, sua terra natal.</div>
<p>
[SANTOS, Jair. <i>Falando de Vila Velha.&nbsp;Vila Velha</i>, 2002. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p>
<div>
</div>
</blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-morro-do-moreno-na-historia-do/">O morro do Moreno na história do Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-morro-do-moreno-na-historia-do/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O capixaba e o canela verde</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 12:12:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Era dia de grande festa na cidade. Dia 23 de maio, data histórica da chegada do donatário Vasco Fernandes Coutinho à Capitania do Espírito Santo. Manhã de sol cristalino e, à sombra da alameda de palmeiras imperiais na praça da Bandeira, bem adiante da Igrejinha do Rosário, os moradores de Vila Velha se comprimiam em [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/">O capixaba e o canela verde</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Era dia de grande festa na cidade. Dia 23 de maio, data histórica da chegada do donatário Vasco Fernandes Coutinho à Capitania do Espírito Santo.</p>
<p>Manhã de sol cristalino e, à sombra da alameda de palmeiras imperiais na praça da Bandeira, bem adiante da Igrejinha do Rosário, os moradores de Vila Velha se comprimiam em volta do palanque embandeirado para ouvir os discursos e assistir ao desfile dos militares e colegiais que participavam do ato cívico, com a presença das mais significativas autoridades e, ao final das comemorações, no verdejante cenário do Morro do Convento, transcorria animada conversa entre próceres à sombra das frondosas árvores que formavam pequeno bosque que a imprensa de Vitória apelidou de &#8220;morrinho&#8221;. Ali, em novo cenário era servida uma variedade de guloseimas da terra tais como, muchás, bolinhos de arroz, bolo de milho, tapiocas, café, caldo de cana, água de coco e refrescos de frutas da época; iguarias que estavam expostas sobre rústicas mesas montadas à sombra das árvores seculares. Pequenos grupos de moradores da cidade davam boas vindas aos visitantes com alegria e os convidavam para o repasto.</p>
<p>Por mera curiosidade, um dos forasteiros e seu amigo demonstraram vivo interesse em dialogar com alguém do lugar, desejo esse que os levou a se aproximar do pequeno grupo que estava adiante e&#8230;</p>
<p>— Com licença, rapazes, queiram desculpar-nos. Eu e meu amigo somos jornalistas acompanhantes dos membros da corte e aqui viemos para participar da solenidade que festeja o nascimento desta Província, e estávamos dizendo que ainda não tínhamos visto um lugar tão especial, de natureza francamente sedutora que está contribuindo demais para aumentar a nossa curiosidade, pois pouco sabemos a respeito desta região. Permitam-nos dizer que gostaríamos de conversar um pouco com os senhores que imaginamos serem daqui.</p>
<p>Do pequeno grupo, um jovem se destaca e diz:</p>
<p>— Com grande alegria nos colocamos às suas ordens, senhores.</p>
<p>— Aproxima-se dos visitantes, tira o chapéu e lhes estende a mão.</p>
<p>— Diga-nos, meu jovem, são os senhores naturais daqui?</p>
<p>— Sim, senhor, diz aquele que se destacou. Somos capixabas nascidos nesta vila onde começou o Estado do Espírito Santo<span id="CPCV_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/#CPCV_RP1" title="Contam os mais antigos que o termo capixaba teve origem na ilha de Vitória, mais precisamente onde está hoje a avenida Jerônimo Monteiro na margem do porto que passou a ser chamada de Avenida Capixaba porque foi onde o primeiro donatário fez roçado e preparou longa faixa de terra ribeirinha para plantação de milho margeando o ótimo canal de água doce que ainda verte do morro da Fonte Grande. Portanto, na língua tupi, capixaba quer dizer roça ou terreno preparado para cultivo. Hoje é uma palavra que expressa como sendo os nascidos no estado do Espírito Santo, pois que, culturalmente, todos nós, os espírito-santenses, somos saciados pela mesma fonte que jorra abundantemente na capital."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> Foi justamente ali, na Prainha, que ancorou a caravela Glória de senhor Vasco Fernandes Coutinho, no ano de 1535. Foi aqui, neste pedacinho do Espírito Santo, que nascemos e nos criamos sem nunca sair. Por isso somos capixabas, canelas verdes e bem brasileiros.</p>
<p>— Ora, pois, meus caros jovens, vocês estão dizendo que são capixabas. Mas, antes de chegarmos aqui, disseram-nos que hoje estaríamos visitando a cidade dos canelas verdes! Poderiam explicar-nos a razão desses dois adjetivos?</p>
<p>— Capixaba, explica o primeiro deles, é uma palavra de origem tupi cujo significado é, terra preparada para plantação, sítio, ou roça. É coisa que sempre existiu na nossa província desde a chegada dos portugueses, quando fizeram os primeiros cultivos de subsistência e é assim, até hoje, com as roças de mandioca, de milho, de cana, de bananas etc. E nós, somos descendentes dos primeiros colonizadores que aqui chegaram.</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/lavrador.gif" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="226" height="260" alt="Desenho de Jair Santos, 2004." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/lavrador.gif" class="wp-image-6486" title="Desenho de Jair Santos, 2004." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Desenho de Jair Santos, 2004.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
— Mas nenhum de vocês parece ser de origem latina como eram os primeiros portugueses que para cá vieram com Vasco Fernandes Coutinho!</p>
<p>— Pois olhem, caros amigos, podem os senhores ter certeza que nós, os capixabas somos bem brasileiros, somos latino-americanos porque nós somos descendentes deles e nascemos na América. Isso qualquer um pode ver na cor dos nossos olhos, na lisura dos nossos cabelos e na cor da nossa pele que misturou o branco de lá com o bronzeado das índias daqui.</p>
<p>— De fato, meu jovem, vocês compõem realmente a bonita mistura das raças dos dois continentes mas permitam-me perguntar indaga o segundo visitante, se existe alguma relação entre o que você está dizendo, com a alcunha &#8220;canela verde&#8221;. Por favor, diga-nos algo a respeito.</p>
<p>— O canela verde é o capixaba nascido em Vila Velha particularmente. Este cognome, atribuído aos vila-velhenses, tem origem numa remota história que meu amigo André da Maré Cheia vai contar.</p>
<p>— Pois não, disse André que levantou-se, pousou a pequena faca com que descascava laranja sobre a tosca mesa, pediu licença aos visitantes e, ajeitando a camisa na cintura iniciou pausadamente o seguinte comentário:</p>
<p>— Era comum os antigos habitantes do litoral brasileiro viverem da pesca e da caça. Os canelas verdes, como todos os colonizadores que se estabeleceram no litoral, tinham no mar a principal fonte de comida ficando a caça como alternativa alimentar. A caça era exercida na busca dos animais de pequeno porte como pacas, preás, tatus, lagartos e aves em geral. Para persegui-los nas matas litorâneas tinham que enfrentar marimbondos, abelhas, cobras, aranhas, formigas, mosquitos, besouros e, acima de tudo, grande variedade de espinhos. Para varar essa restinga fechada e perigosa, o homem foi obrigado a lançar mão de alguns meios de defesa que se tornaram comuns no seu dia-a-dia, tais como, levar um facão na cintura que servia para abrir a picada, uma vara resistente para bater o chão, quando o trecho da jornada era formado por capim, vegetação rasteira ou charco. Contra os espinhos dos arbustos protegiam-se usando um amarrado de folhas espessas ou pequenos feixes de ramagens nas pernas, além de um calçado qualquer. Por causa dessa proteção nas pernas, foram alcunhados de &#8220;canelas verdes&#8221;. Mas, essas folhas ou ramagens, usadas nas pernas, vêm de uma tradição indígena que os nossos avós, os primeiros mestiços, adotaram também<span id="CPCV_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/#CPCV_RP2" title="Esse apelido, só deve ser entendido por aqueles que foram buscá-lo na origem do homem genuinamente brasileiro, ou seja, no nascimento do primeiro mameluco, que foi o resultado do cruzamento do colonizador europeu com a índia nativa da América. Esses primeiros ancestrais eram de cultura metade européia, metade indígena, daí terem usado costumes aprendidos na tribo da mãe que o amamentou e o integrou à vida tribal. Fato esse que se tornou comum ao longo do litoral brasileiro; só não sabemos porque tal cognome ficou fixado no capixaba nascido em Vila Velha. Dai a razão dessa narrativa revelar com tintas nítidas os verdadeiros hábitos dos primeiros mestiços nascidos aqui Esses mamelucos eram de feições suaves, não tinham nariz chato, nem olhos puxados como dos índios eram inteligentes, ao ponto de se tornarem peça chave do Padre José de Anchieta no trabalho de aproximação e de conquistas do aborígene cada vez mais distante do litoral. Na Província do Espírito Santo, este trabalho trouxe tanto índio para desenvolvimento da região sul do estado que, em pouco tempo Anchieta fundou com eles outros núcleos como os de Nova Almeida, Guaraparí e Benevente. Até aqui falamos do homem mestiço e suas principais características físicas. Como e qual seria o perfil da moça ou da mulher canela verde? Verdadeiramente semelhante aos homens; de fisionomia suave, de cabelos lisos ou ligeiramente ondulados e de hábitos idênticos ao da própria mãe tais como amamentar e cuidar dos rebentos, ensinar-lhes as atividades comuns a todas as mulheres da tribo dentre elas colher, debulhar e ralar o milho e a mandioca, preparar a farinha, cuidar do amanho da terra e demais atividades próximas da taba enquanto aos homens competia a fabricação de armas e utensílios, além das atividades da caça, da cata, da pesca, da defesa da tribo etc."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/canela_verde.gif" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="215" height="312" alt="Desenho de Jair Santos, 2004." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/canela_verde.gif" class="wp-image-6487" title="Desenho de Jair Santos, 2004." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Desenho de Jair Santos, 2004.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
— Devo dizer, interrompe o amigo, que já ouvi outras histórias, tentando justificar esta alcunha, mas, sinceramente, sem o sentido lógico desta que acabamos de ouvir do André.</p>
<p>— Neste ponto houve uma pausa e breve troca de olhares, quando um dos visitantes sugeriu que a conversa prosseguisse com todos sentados. E tomaram por assento as raízes expostas de um majestoso ipê. Voltando-se para o primeiro canela-verde que preferiu continuar de pé, o cavalheiro da corte solicitou-lhe que contasse alguma coisa relacionada com o cotidiano de um cidadão desta linda e pequenina vila, no que foi prontamente atendido<span id="CPCV_RP3V">.</span><a a="" alegres="" ao="" assim="" assis="" atleta="" canela="" capixabas="" carinho="" certeza="" cio="" colonial.="" como="" da="" de="" demais.="" descend="" descendentes="" destaca="" destaque="" dia.="" dia="" diferente="" do="" e="" eleva="" engrandecimento="" entre="" envaidecer-se="" era="" eram="" es="" estudioso="" fecundos="" fez="" filhos="" foram="" francisco="" gente="" gra="" href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/#CPCV_RP3" in="" laurel="" mas="" medalha="" mo="" na="" nas="" ncia="" no="" nosso="" nutriam="" o="" obscuridade="" odo="" os="" ou="" pai="" pareciam="" pelo="" pendurado="" per="" pesco="" plenos="" pobreza="" pois="" primeiros="" qual="" que="" ra="" rapaz="" realiza="" receber="" recebida="" s="" sangue="" se="" simplicidade="" suportou="" t="" tanto="" title="Por tradição, ou melhor, desde quando o primeiro donatário transferiu a sede da capitania para a ilha de Santo Antônio (Vitória), Vila Velha continuou sendo uma pequena cidade onde quase todos os homens eram proletários ou de profissão indefinida, uma espécie de serviçal pronto para fazer de tudo um pouco. A vida dessas pessoas era desfrutada no seio de uma sociedade onde todos se conheciam; ou melhor, onde grande parte dela tinha grau de parentesco próximo porque foram gestados na cultura indígena que admitia o casamento entre os membros do mesmo grupo ou da mesma tribo. E mais, foi um povo que herdou a fé católica de parentes remotos que se acostumaram a confiar nos poderes infinitos de Nossa Senhora como mãe de Deus e de todos os homens. Estava no centro de sua crença, assim como de todos os capixabas, a fé inabalável na Mãe de Deus-Pai que os consolava nas dificuldades e os livrava de tudo que era ruim. Nossa Senhora era o bálsamo de suas vidas e onde buscavam a solução para os seus problemas, e, para orgulho de todos, ela desceu do céu e veio morar bem perto, na igrejinha do Rosário e no Convento da Penha. Na cultura dessa sociedade de pessoas simples, a alcunha " todos.="" todos="" tr="" trazer="" tudo="" tulo="" um="" uma="" vencedor="" vencedora="" verde=""><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a></p>
<p>— Permitam-me que fale de mim mesmo. Eu sou canela-verde, sou pescador desde menino, disse. O meu trabalho é o anzol, o remo e a rede. Olhem a minha mão que é um calo só, porque eu trabalho desde que o sol nasce até a hora que se esconde. Mas não é só isso não senhores. Os nossos ancestrais foram os primeiros canelas verdes que, desde 1558, ajudaram na construção do Convento de Nossa Senhora da Penha, lá no alto do outeiro, onde trabalharam muito com as pedras. Foi um serviço muito pesado, demorado e bastante difícil, porque todas as pedras foram levadas, uma por uma, para o alto da rocha íngreme. Uma fantástica realização dos dedicados seguidores de São Francisco de Assis, que nela perpetuaram suas vidas de penitência e de amor aos irmãos. Esta maravilha, que contemplamos hoje, foi começada por frei Pedro Palácios e tantos outros dedicados cenobitas que colocaram pedra sobre pedra na edificação dessa portentosa obra que se transformou em símbolo do nosso estado. Foi serviço de muitos anos que começou desde o tempo do segundo donatário, Vasco Fernandes Coutinho (filho), no século XVI. Até hoje é muito grande a devoção do povo por Nossa Senhora. Foi ela que me batizou e, por isso, eu sou forte e protegido por Ela que vive me guardando de tudo que é ruim. De nada eu tenho medo. Posso até sair por esse mar aberto sem fim e buscar o peixe onde ele estiver; e nunca volto sem ele. E mais, nós somos conhecidos também como os melhores atalaias do litoral do Brasil porque herdamos esse serviço de proteger nosso povo que vive lá dentro, na ilha de Vitória, nossa capital, a cidade mais linda que ajudamos a construir.</p>
<p>O amistoso bate-papo foi interrompido por grande alarido, acompanhado de palmas e vivas, que anunciavam o final do desfile dos colegiais ali na Praça da Bandeira, onde o Prefeito entregava a Chave da Cidade ao Representante do Imperador. Com esse gesto o Prefeito dava por encerrada a primeira parte da solenidade. Em seguida o Presidente da Câmara ofereceria um ágape aos distintos representantes da Corte devendo todos os presentes serem encaminhados para o Morrinho, que um dia os locais chamaram de &#8220;Bosque&#8221;, onde todos se juntariam aos jornalistas e convidados para participarem do repasto à base de comidas regionais regada com refrescos de frutas da época, à sombra das frondosas árvores e sob o frescor do vento nordeste que ali sopra diariamente.</p>
<p>Ao final do &#8220;comes e bebes&#8221; o sol poente começava esconder-se por trás da Pedra dos Olhos, muito pra lá de Maruípe, anunciando o encerramento das comemorações da cidade, desta vez de forma toda especial porque era o ano de 1823, quando, no dia 04 de fevereiro, por Decreto Imperial, D. Pedro I, elevara Vila Velha à categoria de cidade.</p>
<p>Era o momento das despedidas e os apertos de mão iam sendo acompanhados de palavras de agradecimento a todos os capixabas e de decididos elogios aos encantos da terra e à simpática acolhidas dos canelas verdes. Nesse instante, uma nuvem de tristeza parecia turvar o brilho do rápido convívio. Esse sentimento ficou evidente entre os locais, quando o sorriso franco lhes caiu da face e os emudeceu após o instante em que os visitantes acenaram pela derradeira vez ao embarcarem na lancha que os esperava no cais das Timbebas, na Angra da Prainha, para a viagem de retorno à capital.</p>
<p>Foi assim na vila primitiva que regrediu e se transformou em aldeia de pescadores, criadores e agricultores cujos frutos do esforço são vistos através de obras como a igrejinha do Rosário e o Convento da Penha. São construções que vararam séculos porque nas suas paredes a argamassa foi molhada com o suor dos habitantes da vila insipiente e cuja população se multiplicou na endogamia para que o povoado não desaparecesse. E assim viveu até alcançar o alvorecer do século XX para que, hoje, pudéssemos testemunhar o milagre dessa multiplicação herdada desde a cultura tribal dos seus ancestrais. Isso justifica porque, em pleno século XX, ainda encontramos remanescentes desses costumes entre os moradores mais antigos da Barra do Jucu e da Ponta da Fruta.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/indio.gif" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" width="233" height="287" border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/indio.gif" class="wp-image-6488" /></a></div>
<p>
_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<div id="CPCV_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/#CPCV_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Contam os mais antigos que o termo capixaba teve origem na ilha de Vitória, mais precisamente onde está hoje a avenida Jerônimo Monteiro na margem do porto que passou a ser chamada de Avenida Capixaba porque foi onde o primeiro donatário fez roçado e preparou longa faixa de terra ribeirinha para plantação de milho margeando o ótimo canal de água doce que ainda verte do morro da Fonte Grande. Portanto, na língua tupi, capixaba quer dizer roça ou terreno preparado para cultivo. Hoje é uma palavra que expressa como sendo os nascidos no estado do Espírito Santo, pois que, culturalmente, todos nós, os espírito-santenses, somos saciados pela mesma fonte que jorra abundantemente na capital.</div>
<div id="CPCV_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/#CPCV_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Esse apelido, só deve ser entendido por aqueles que foram buscá-lo na origem do homem genuinamente brasileiro, ou seja, no nascimento do primeiro mameluco, que foi o resultado do cruzamento do colonizador europeu com a índia nativa da América. Esses primeiros ancestrais eram de cultura metade européia, metade indígena, daí terem usado costumes aprendidos na tribo da mãe que o amamentou e o integrou à vida tribal. Fato esse que se tornou comum ao longo do litoral brasileiro; só não sabemos porque tal cognome ficou fixado no capixaba nascido em Vila Velha. Dai a razão dessa narrativa revelar com tintas nítidas os verdadeiros hábitos dos primeiros mestiços nascidos aqui Esses mamelucos eram de feições suaves, não tinham nariz chato, nem olhos puxados como dos índios eram inteligentes, ao ponto de se tornarem peça chave do Padre José de Anchieta no trabalho de aproximação e de conquistas do aborígene cada vez mais distante do litoral. Na Província do Espírito Santo, este trabalho trouxe tanto índio para desenvolvimento da região sul do estado que, em pouco tempo Anchieta fundou com eles outros núcleos como os de Nova Almeida, Guaraparí e Benevente. Até aqui falamos do homem mestiço e suas principais características físicas. Como e qual seria o perfil da moça ou da mulher canela verde? Verdadeiramente semelhante aos homens; de fisionomia suave, de cabelos lisos ou ligeiramente ondulados e de hábitos idênticos ao da própria mãe tais como amamentar e cuidar dos rebentos, ensinar-lhes as atividades comuns a todas as mulheres da tribo dentre elas colher, debulhar e ralar o milho e a mandioca, preparar a farinha, cuidar do amanho da terra e demais atividades próximas da taba enquanto aos homens competia a fabricação de armas e utensílios, além das atividades da caça, da cata, da pesca, da defesa da tribo etc.</div>
<div id="CPCV_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/#CPCV_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Por tradição, ou melhor, desde quando o primeiro donatário transferiu a sede da capitania para a ilha de Santo Antônio (Vitória), Vila Velha continuou sendo uma pequena cidade onde quase todos os homens eram proletários ou de profissão indefinida, uma espécie de serviçal pronto para fazer de tudo um pouco. A vida dessas pessoas era desfrutada no seio de uma sociedade onde todos se conheciam; ou melhor, onde grande parte dela tinha grau de parentesco próximo porque foram gestados na cultura indígena que admitia o casamento entre os membros do mesmo grupo ou da mesma tribo. E mais, foi um povo que herdou a fé católica de parentes remotos que se acostumaram a confiar nos poderes infinitos de Nossa Senhora como mãe de Deus e de todos os homens. Estava no centro de sua crença, assim como de todos os capixabas, a fé inabalável na Mãe de Deus-Pai que os consolava nas dificuldades e os livrava de tudo que era ruim. Nossa Senhora era o bálsamo de suas vidas e onde buscavam a solução para os seus problemas, e, para orgulho de todos, ela desceu do céu e veio morar bem perto, na igrejinha do Rosário e no Convento da Penha. Na cultura dessa sociedade de pessoas simples, a alcunha &#8220;canela verde&#8221; era recebida como um carinho ou título de destaque, pois nutriam a certeza de trazer no sangue a descendência de gente diferente que tanto fez pelo engrandecimento de tudo e de todos. Qual Francisco de Assis, eram todos filhos da pobreza e da simplicidade, mas plenos da graça do Pai que os fez alegres e fecundos nas realizações do dia a dia. Tanto o rapaz como a moça pareciam envaidecer-se qual atleta, que trás pendurado no pescoço a medalha de vencedor ou vencedora, ou como o estudioso que se destaca ao receber o laurel que o eleva entre os demais. Assim foram os primeiros capixabas, descendentes de uma raça que tudo suportou e tudo fez na obscuridade do início do nosso período colonial.</div>
<p>[Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/">O capixaba e o canela verde</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-capixaba-e-o-canela-verde/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
