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	<title>Arquivos João Bonino Moreira &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<title>Arquivos João Bonino Moreira &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>João Bonino Moreira &#8211; Repertório literário</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Repertório literário]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>NOTÍCIA BIO-BIBLIOGRÁFICA VITRINE DE TEXTOS A rainha que piava, do livro A rainha que piava e outros contos Onde está Silvinha?, do livro A rainha que piava e outros contos Férias escolares: 1937 e 1944, do livro O necrologista e outros escritos E eu?, do livro O necrologista e outros escritos DEPOIMENTOS Depoimento de João [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-joao/" target="_blank" rel="noopener">NOTÍCIA BIO-BIBLIOGRÁFICA</a></b></p>
<div>
</div>
<p><b><br />
VITRINE DE TEXTOS</b><br />
<b><br /></b><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-rainha-que-piava-do-livro-rainha-que/" target="_blank" rel="noopener">A rainha que piava</a>, do livro <i>A rainha que piava e outros contos</i><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/onde-esta-silvinha-do-livro-rainha-que/" target="_blank" rel="noopener">Onde está Silvinha?</a>, do livro <i>A rainha que piava e outros contos</i><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ferias-escolares-1937-e-1944-do-livro-o/" target="_blank" rel="noopener">Férias escolares: 1937 e 1944</a>, do livro <i>O necrologista e outros escritos</i><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/e-eu-do-livro-o-necrologista-e-outros/" target="_blank" rel="noopener">E eu?</a>, do livro <i>O necrologista e outros escritos</i><br />
<i><br /></i><br />
</p>
<ul>
</ul>
<p><b>DEPOIMENTOS</b><br />
<b><br /></b><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/depoimento-de-joao-bonino-moreira-ao/" target="_blank" rel="noopener">Depoimento de João Bonino Moreira ao Neples</a></p>
<ul>
</ul>
<p><b>FORTUNA CRÍTICA</b><br />
<b><br /></b><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ivan-borgo-rainha-que-piava-e-outros/" target="_blank" rel="noopener">Ivan Borgo: <i>A rainha que piava e outros contos</i></a>&nbsp;[1997]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-j-nunes-o-necrologista-e-outros/" target="_blank" rel="noopener">Pedro J. Nunes: <i>O necrologista e outros escritos</i></a>&nbsp;[1998]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-rainha-que-piava/" target="_blank" rel="noopener">Reinaldo Santos Neves: A rainha que piava</a>&nbsp;[Introdução ao conto “A rainha que piava”, de João Bonino Moreira, publicado na seção Escrivaninha da revista <i>Você </i>n° 55, de março de 1998.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2000&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<ul>
</ul>
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		<title>Introdução ao conto &#8220;A rainha que piava&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Revista Você]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Assim como domingo, dizem, é dia de pescaria, sábado é dia de livraria. Isso, pelo menos, para o grupo de amigos que se reúne todo sábado na Livraria Logos da Praia do Suá, a partir de por volta de dez horas da manhã. Somos nem sei quantos. Tem a velha guarda, tem a nova guarda, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Assim como domingo, dizem, é dia de pescaria, sábado é dia de livraria. Isso, pelo menos, para o grupo de amigos que se reúne todo sábado na Livraria Logos da Praia do Suá, a partir de por volta de dez horas da manhã.</p>
<p>Somos nem sei quantos. Tem a velha guarda, tem a nova guarda, tem a média guarda: ou seja, gente de todas as idades e para todos os gostos. Somos – reconheço – barulhentos; já houve freguês que reclamasse (como se estivesse em sua própria casa), mas até agora ninguém atirou sobre nós nenhum pé de sapato velho, como se faz, ou se fazia, para calar a miação de um gato.</p>
<p>Falar em gato me leva, por uma associação que só Freud explica, a falar em João Bonino Moreira. A origem dessa confraria tavolar já se perdeu nas brumas da História, mas alguma coisa me diz que aí tem dedo de Bonino: creio não estar errado se disser que é ele a célula mater que deu à luz a nossa confraria, não sei como nem quando (essa questão ainda será tema de tese de doutoramento em 2035, ano em que a grande escassez de temas de teses de doutoramento justificará a existência de um próspero mercado negro dessa mercadoria). Porque houve uma época (meus amigos hão de se chocar, mas não estou mentindo nem delirando) em que essa confraria ainda estava por se formar ou, em outras e mais cruas palavras, ainda nem existia. Lembro-me vagamente de ter visto a figura de João Bonino algumas vezes, nessa época proto-histórica, quando era ele toda a confraria: lembro-me como pisava com impaciência os frisos da loja, novinhos em folha, fumando com impaciência mais cigarros ainda um atrás do outro do que fuma hoje. Bonino não sabia, mas essa era a impaciência da espera: ele já estava esperando por nós.</p>
<p>Com mais paciência esperava ele condução, um belo sábado deste mês de março (belo aí é mero eufemismo, porque estava um puto calor), no ponto de ônibus da avenida República. Foi ali que dei com nosso querido sócio fundador. O primeiro ônibus que parou foi um ônibus do bairro Bairro República. Assim, no meu pobre entender, se fôssemos dali até o ponto final, teríamos ido da República à República, o que, na velha lógica do absurdo, seria o mesmo que não sair do lugar (como também não saiu o Brasil, na República, durante muito tempo).</p>
<p>No trajeto para a Praia do Suá, bateu-me a brilhante idéia e pedi autorização a Bonino, e ele deu, para publicar um texto dele na Escrivaninha. Assim, veja o leitor que numa simples viagem num dos ônibus da linha 123 pode estar o embrião de acontecimento historicamente tão crucial como este: o que você vai ler na seção Escrivaninha desta revista (revista que, como já disse alhures, não pode ser vendida separadamente).</p>
<p>Mas com que então, dirá o leitor, esse João Bonino, além de ser fundador de confrarias, ainda se mete a gato-mestre e escreve as suas literaturas? Sim. Bonino é um caso ímpar na nossa literatura home-made. Primeiro, porque só se arvorou a publicar na alta maturidade, que é o que, convenhamos, muitos de nós devíamos ter feito também. Segundo, porque mesmo depois de uma vida pródiga de grandes peripécias e experiências, de vastas leituras sobre tudo sob o sol e de profundas reflexões a respeito de tudo que fez, que viu e que leu, Bonino escreve modicamente. Escreve somente aquilo que tem mais prazer em escrever: aquilo que é fruto de uma escolha pessoal muito pessoal: mais pessoal que a de Borges, famoso por dar ao adjetivo respeitáveis conotações.</p>
<p>Mas acabo estendendo-me mais do que devo. O conto de Bonino que escolhi para a Escrivaninha me agrada por vários motivos. Em primeiro lugar, porque é muito engraçado. Em segundo lugar, porque tem subentendidos políticos que juntam no mesmo saco de ironia farinhas políticas aparentemente tão diferentes como uma prefeitura do Espírito Santo e um palácio da Grã-Bretanha. Em terceiro lugar, porque nunca, creio eu, tinha ocorrido a ninguém trazer para a literatura os famosos pios de caça fabricados em Cachoeiro de Itapemirim, coisa autenticamente nossa, que não existe em parte do mundo alguma. Em quarto, porque Bonino usa os pios como ponto de partida para a criação de uma verdadeira fábula, e quando digo fábula não estou usando o termo na solene concepção em que é usado em teoria literária, nem na de Faulkner em A Fable, mas antes, por exemplo, na de Stevenson em The Bottle Imp. Para provar o que digo, basta-me uma pergunta retórica: o conto de Bonino a que remete? E outra resposta não tenho, para tirar de imediato do chapéu, a não ser: remete à fábula do flautista de Hamelin. A associação se apóia num fio tênue, mas bastante forte, espero, para sustentar classificação que não hesito em dar ao conto.</p>
<p>Mas agora já está mais que na hora de me calar antes que o leitor, impaciente por ler o conto, atire sobre mim um pé de sapato velho. Só direi mais que o conto faz parte do livro A rainha que piava e outros contos, lançado em dezembro de 1997 por ocasião daquele que foi o maior lançamento da história literária do Estado, quando o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo desovou de uma só vez vinte e cinco títulos diferentes, no evento que ficou conhecido, por sugestão inspirada de Luiz Guilherme, como “dezembrada”.</p>
<p>Direi ainda, por fim, que esse ilustre teresense de Santa Teresa João Bonino Moreira é também autor do estranho e maravilhoso fragmento de romance, O presidente nu, de 1996, texto concebido e realizado à la Borges, sem que Bonino tenha jamais gostado de ler Borges.</p>
<p><span style="font-size: x-small;">[O conto “A rainha que piava”, de João Bonino Moreira, foi publicado na seção Escrivaninha da revista Você n° 55, de março de 1998, com a introdução aqui apresentada.]</span></p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves </b>é escritor com vários livros publicados e responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo.</p></blockquote>
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		<title>O necrologista e outros escritos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
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		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>João Bonino, ou Jotabê Moreira, ou Bonino, conheci-o inicialmente de referência. Nunca sabemos se simpatizamos com uma pessoa que conhecemos de referência. Não temos obrigações com as pessoas referidas, afinal das contas. Mas, como ia dizendo, insistia em dar-me dele notícias meu amigo Jorge Augusto Mattos, ex-discípulo dos tempos de Banco do Brasil. Mais tarde, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
João Bonino, ou Jotabê Moreira, ou Bonino, conheci-o inicialmente de referência. Nunca sabemos se simpatizamos com uma pessoa que conhecemos de referência. Não temos obrigações com as pessoas referidas, afinal das contas. Mas, como ia dizendo, insistia em dar-me dele notícias meu amigo Jorge Augusto Mattos, ex-discípulo dos tempos de Banco do Brasil. Mais tarde, era o outro Jorge, o Jorge L, da Logos (L não é de Logos, nem de livraria, e nem que a vaca ladre — sim, porque se vaca pode tossir, pode muito bem ladrar, sim senhor — direi que L é esse): “— Seu Bonino esteve aqui, saiu com os braços sobraçando — pra usar uma imagem dostoievskiana, vou colocar na frase do Jorge L uma palavra que ele não pronunciou — uma pilha de livros.” Eu, distraído, devolvia ao Jorge L: “— Ó, Jorge, quero lá eu saber quantos livros compram seu clientes. Me vê aqui esse livro do Graciliano, que estou sem nada pra ler em casa.”</p>
<p>Mas como aos dias melhor é que andem, andaram. Fui encontrar um dia à Távola — com letra maiúscula, que aquilo é um reino — João Bonino Moreira mais Serginho Lennon Bichara, Wilson Lugon, o grande alérgico, José Neves e Francisco Grijó. Depois é que vieram se chegando o Tião Lyrio e a turma encabeçada pelo Luiz Guilherme: Reinaldo Santos Neves mais o Renato Pacheco e o Ivan Borgo, que se sentavam em mesa contígua. E a esse emérito senhor, tão referido, reconheci valer quanto pesava. Leitor voraz, serial cat-killer, amante de Céline e Beethoven e grande contador de contos verbais. Isso: contos verbais magistrais. Eu, naturalmente, comecei a pensar por que o Bonino não colocava aquelas histórias no papel. E, pensando agora no fato de que eu não acho solução para a questão nem nunca vou achar, que o Bonino a escondia atrás do sorriso de modéstia, vou terminar com uma nota breve esta notícia biográfica para começar logo a falar um pouco do livro, este livro que acabei de ler e que o leitor destas garatujas tem nas mãos.</p>
<p>Bonino tem umas coisas engraçadas. Entre tantas, que guardarei para situação mais propícia, conto uma. Certa feita, perguntei-lhe, num restaurante fechado lotado dos bravos soldados da liga antitabagistas, quando ele acendeu, impávido e colosso, um Kent: “— Você vai fumar aqui dentro?” Ele, devolvendo-me um olhar calmo, o cigarro pendendo da boca: “— Claro. Qual o problema? Você acha que alguém faria uma reclamação a um velho com pinta de nazista como eu? Se alguém se atrever a fazer isso, eu pergunto a ele: ‘algum problema, meu chapa?’, com um tom hitleriano que sei fazer muito bem e dou o caso por encerrado.” Diante de tanta convicção, e embalado por uma necessidade de desafiar os incomodados infundida pelo Mestre Bonino, como é, às vezes, chamado sem antífrase, restou-me acender também o meu cigarrinho.</p>
<p>Creio que deva colocar na nota biográfica que esse sujeito de coração imenso escondido atrás da camisa delicadamente passada por dona Yonêda, sua esposa, nas manhãs de sábado antes do horário da Logos, é mais cordial do que pode parecer. Acho que encerro bem as notas iniciais — calma, leitor, a apresentação não demora a ser concluída, o “iniciais” é força de expressão — dizendo que já não me preocupam as razões que levaram o Jotabê Moreira a dilatar o tempo de suas primeiras publicações, afinal, se não me falha a memória, além de textos esparsos publicados aqui e ali ou enviados às redações de jornais de todo o País ou às editoras sem respeito com os consumidores dos livros que publicam, também de todo o País, em formas de cartas que ninguém gostaria de receber, este é seu terceiro livro. Sem falar em material que se perdeu em incêndio. A ele, pois, com notas sobre as quais, pelo que disse acima, pode recair a acusação de excessivamente afetivas.</p>
<p>Garanto-lhes: afetivas, sim, nunca injustas, nem com o João Bonino nem com o leitor. Este verá, sem muita dificuldade, que estamos diante de um escritor que possui uma inacreditável capacidade de, mesmo com suas piadas mais escancaradas, parecer estar falando sério sobre situações risíveis. É só dar uma conferida nos dois livros anteriores a este, depois de lê-lo, é claro.</p>
<p>Contos, crônicas, casos, alguns deles quase reportagens não fosse a nota irônica — o Bonino que me perdoe a expressão — quase sacana que perpassa todos os escritos deste livro. (Se o leitor quer ter uma rápida amostra do humor de seu autor, largue depressa esta apresentação, vá correndo ao conto “Os tico-ticos” e leia atentamente o monólogo final do burro de carga.)</p>
<p>Nas páginas de alguns desses trabalhos vem, no original, com letra bem desenhada, a expressão “Baseado em fato/personagem real”. Preocupação esclarecedora desnecessária. O sentimento e o comportamento humano escavados pelo autor dão-nos uma clara panorâmica do mundo real. Alguns desses caracteres são vistos todos os dias andando pelas ruas. O abutre do primeiro conto, por exemplo, um animado e corpulento senhor de olhos azuis que estava no trem que se envolveria em grave acidente daí a algumas horas após largar a Estação Barão de Mauá, no Rio de Janeiro, e que “propunha jogos, adivinhações, contava piadas”, enriquecido graças à pilhagem dos mortos, da canalhice oculta transformado em herói, é caráter fácil de se encontrar no nosso tempo.</p>
<p>Mas João Bonino dá-nos mostra de um humor às vezes bastante negro. É o que acontece nos contos kafkianos “E eu?” e “O juramento fatal”. Sem falar na memória da infância, da II Guerra — uma de suas obsessões — e da crônica de algumas personagens bem conhecidas da cidade.</p>
<p>Li o livro de João Bonino Moreira, para construir esta apresentação, com a impressão de estar ouvindo seus casos contados nas manhãs sabatinas. E se falei tanto do homem para falar pouco da obra, vai aqui um pouco de incompetência na análise desta e outro tanto de respeito ao leitor que se dispuser a ler esta apresentação sem ir logo ao que interessa, ou seja, aos contos deste livro.</p>
<p>Só para terminar, tenho defendido comigo mesmo, sem pregá-lo a ninguém, que o autor e sua obra estão irremediavelmente atados. O que um escritor põe no papel é sua experiência, sua observação, seu modo de ver o mundo ou coisa que viveu. É assim que compõe a história de seu tempo, uma das funções da boa Literatura. Lembra-me aqui uma outra frase proferida pelo amigo Bonino numa dessas manhãs na Logos, ao pé de uma fumegante xícara de café: “— O segredo da minha vida foi ter levado muito pouca coisa a sério.” Convenhamos, para não melindrar o amigo, que sim. Mas o leitor verá, facilmente, que atrás dos contos “nada sérios” que compõem este livro está um homem que observa seu tempo, disseca-o e, o que é melhor, ri-se dele.</p>
<div style="text-align: right;">
Vitória, setembro de 1998</div>
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</div>
<div style="text-align: right;">
</p>
<div style="text-align: start;">
&#8212;&#8212;&#8212;</div>
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<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.</div>
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&#8212;&#8212;&#8212;</div>
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</div>
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</div>
<div style="text-align: start;">
<b>Pedro José Nunes</b>, escritor,&nbsp;nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-jose-nunes-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</div>
<p></div>
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		<title>A rainha que piava e outros contos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Ivan Borgo]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sabatina remete a cobrança da tabuada de multiplicar, da procura de mantissa ausente da tábua de logaritmos e de outras belezas como a regência do verbo apropinquar o que, ressalve-se logo, jamais foi pedido pelo prof. Guilherme Santos Neves. Não era de seu feitio. Mas, para mim, agora, sabatina é algo bem diferente. Contrariando o [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: justify;">
Sabatina remete a cobrança da tabuada de multiplicar, da procura de mantissa ausente da tábua de logaritmos e de outras belezas como a regência do verbo apropinquar o que, ressalve-se logo, jamais foi pedido pelo prof. Guilherme Santos Neves. Não era de seu feitio.</div>
<p>
Mas, para mim, agora, sabatina é algo bem diferente. Contrariando o pessimista radical que dizia que antigamente as coisas eram piores só que, depois, foram piorando, sabatina representa dia de encontro com amigos na Livraria Logos. Entre eles, o João Bonino de quem tenho o privilégio de possuir um autógrafo, desde 1974, aposto num passaporte do tempo em que ele era funcionário da Carteira de Câmbio do Banco do Brasil. Mas a bem da verdade, quem trabalhava no banco era o B. Moreira. Era assim que seus colegas de banco abreviavam o seu nome. Tinham razão. Ao largo dos lançamentos de débito e crédito ou dos cálculos de descontos e redescontos, aparecia outro personagem. Surgia o João Bonino, conhecedor de literatura, expert em jazz e música clássica.</p>
<p>Bonino é um dos principais gourmets de livro em nosso meio, dono de vasta biblioteca rnantida em sua casa onde, num galpão, como hobby, também pratica a marcenaria. Vez por outra, para preocupação de sua mulher, é atingido por um petardo disparado por suas impacientes máquinas. Impacientes talvez porque o Bonino não seja o excelente marceneiro que julga ser. Mas logo me corrijo. Injustiça minha, Aspirante a aprendiz de marcenaria, recebi de Bonino um gabarito para juntos de meia-esquadria. Um artefato corri acabamento de profissional. Registre-se. Mas, calma. Poderia continuar falando muito mais do Bonino, de sua rica personalidade, inclusive com testemunhos de nossos companheiros de sabatina, mas quero agora falar de seu livro de contos. É o que passo a fazer.</p>
<p>Bonino já fez o papel de menino da fábula que, desmentindo os áulicos, descobriu O Presidente Nu (ed. IHGES, 1996). Esclareça-se: um presidente da República Velha. Agora nos oferece esta coletânea de contos e a confirmação de que é escritor feito. Leiam seus contos e descobrirão seu senso de humor, sua técnica apurada que me lembra bastante bons roteiros cinematográficos. Uma linguagem ágil onde a ironia vem às vezes revestida por palavrões retumbantes.</p>
<p>Vou encontrando muito mais coisas nas histórias de Bonino. No “Mistério dos temporões”, a anedota abrange o espírito de aldeia e seu rigoroso círculo delimitado pelo pároco. Em “Aventuras do Schancke e do Tirolês”, uma história engraçada que envolve sério problema como o da inovação no mundo sedimentado do camponês. O caso é que o Schancke fazia manteiga em varas de bambu, um secular processo de fabricação desse produto nas sociedades pré-industriais. Para contornar um problema de escassez de matéria-prima, talvez até pensando numa renda adicional para comprar um chapéu Ramenzoni ou um sapato DNB na casa Broilo (itens do mais requintado luxo na velha montanha), o Schancke resolve mudar seu processo de comercialização e aí, por uma brutal falha de informação, entra numa grande embrulhada. Ao invés de usar o tradicional bambu ele passou a usar “pequenos potes em diversas cores”. Transgrediu uma norma e pagou por isso. Aqui o antigo professor de História Econômica não resiste ao comentário: nas sociedades econômicas de subsistência um desastre mercadológico dessa ordem pode representar não apenas um transtorno. Pode significar a fome. É por este lado que se compreende a resistência à mudança do agricultor. A primeira vítima do Schancke, na história, foi o burrinho mas o fato é que numa sociedade desse tipo e extrapolando a questão, erros similares podem significar um desastre completo pela impossibilidade de recorrência às magnânimas (porém de acesso restrito) fontes de recurso das sociedades modernas.</p>
<p>A história da “Casa Verde: dois ‘causos’ parecendo contos” será melhor ainda apreciada pelos moradores de Vitória que tenham mais de cinqüenta anos. Não vou adiantar detalhes para não tirar o sabor dessa história familiar que se desenvolve numa desconexão de tempo como nas comédias clássicas. “Onde está Silvinha?” é um conto de mistério passado na orla de Camburi. Aliás, uma qualidade adicional dessas histórias, para nós capixabas, é que elas estão carregadas de cor local. Ações que, por exemplo, se passam em “Santa Teresa, ,julho de 1942, seis da manhã. Um véu leitoso envolve a cidadezinha serrana e a maioria de seus habitantes ainda dorme afundada nos colchões de pena”. Contos que além da qualidade literária contém esses cheiros da terra. Isto é, Bonino se junta a uma saudável tendência de autores capixabas que, isentos de ranços provincianos, falam de nosso Estado e vão ajudando a esboçar o seu rosto na construção de uma tão reclamada identidade. Afinal, já é mais do que tempo de nosso Estado ingressar no mapa político do Brasil. Nossa literatura, a par de sua qualidade estética, pode contribuir para isso.</p>
<p>Leiam Bonino e conheçam um autor capixaba de alta qualidade.</p>
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Vitória, 7 de junho de 1997</div>
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<b><span style="color: #660000;">© 1997&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ivan Anacleto Lorenzoni Borgo</b>&nbsp;é cronista e nasceu em Castelo, ES, em 21 de fevereiro de 1929. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Espírito Santo (Ufes), com especialização em Economia pelo Conselho Nacional de Economia em convênio com o MEC. Foi professor da Ufes de 1961 a 1989 e diretor regional do Senai/ES de 1969 a 1990. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, <a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-ivan-borgo/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Depoimento de João Bonino Moreira ao Neples</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
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		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sou João Bonino Moreira. Nasci em Santa Teresa (ES) em 7 de julho de 1931, e desta data até 1949 residi em Vitória. Aqui fui desasnado e concluí o curso científico no Colégio Estadual. De fins de 1949 até 1968 morei no Rio de Janeiro, quando retornei a Vitória. Já regressei bancário e aqui me [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Sou João Bonino Moreira. Nasci em Santa Teresa (ES) em 7 de julho de 1931, e desta data até 1949 residi em Vitória. Aqui fui desasnado e concluí o curso científico no Colégio Estadual. De fins de 1949 até 1968 morei no Rio de Janeiro, quando retornei a Vitória. Já regressei bancário e aqui me aposentei em 1983. Escrevi dois livros (<i>A rainha que piava </i>e <i>O necrologista</i>, contos) e um romance inacabado (<i>O presidente nu</i>). Outras miudezas me saíram da pena, das quais não tenho lembrança.</p>
<p>Não me considero escritor. Sou, antes, um ex-burocrata; jubilado, resolvi sair do ramerrão da linguagem institucional, iniciando fugaz excursão (ou incursão?) através da literatura e produzi textos ligeiros, principalmente contos e alguma coisa de humor. Prefiro, a propósito, a expressão “pequenas histórias”, melhor classificação para minhas aventuras em letra de forma. Na nobilíssima arte da literatura sou, pois, um bissexto: escrevo quando e se me dá vontade.</p>
<p>Quase todos os meus escritos têm como cenário a cidade de Vitória e como seus protagonistas meus companheiros dos ônibus, dos supermercados, dos bares, das repartições públicas, o povão, se assim posso dizer. Traço mentalmente a trama e a vou desenvolvendo, seguindo na prática uma espécie de roteiro cinematográfico; e, embora pareça estranho, não consigo evitar se encaminhe a história para um desfecho desconcertante. Escrevo, pois, como quem almoça bife com batatas fritas, sem saber da sobremesa. Aventurar-me fora dessa frugal dieta literária atirada aos meus raros leitores certamente os levaria a uma indigestão. Sigo o velho conselho de Apeles: “Ne sutor ultra crepidam.”</p>
<p>Apesar de muito de mim existir nas coisas por mim escritas, prefiro usar sempre a terceira pessoa, embora ache-a a mais difícil opção. A concessão feita ao leitor é a simplicidade do meu texto. Tivesse eu o azar de cair nas garras de um crítico, seria sem dúvida tachado de vulgar.</p>
<p>Sou um ledor compulsivo (quatro a cinco horas por dia) e, à exceção de Bandeira, raramente frequento a poesia. Dos escritores nacionais prefiro Machado, Lima Barreto, Cony e o magnífico memorialista Pedro Nava. Dos estrangeiros gosto muito de Eça, de Vonnegut, de George Orwell, de Anthony Burgess, de Alejo Carpentier, de Philip Roth, de Céline…</p>
<p>Posso, finalmente, afirmar ter passado a escrever por força de obrigação profissional. Logo no início da minha carreira como bancário, fui descoberto pelos mandões como “aquele rapaz com facilidade para redigir”. Tangido assim pelos chefes, inundei a praça com cartas, memorandos, ofícios, comunicados, circulares, pareceres etc. Produzi, dessa forma, dezenas de quilos de fria, anódina e monótona literatura. Eventualmente garatujava alguma crítica de cinema ou de livros, mas tudo eventualmente, sem disciplina nem obrigação, páginas levadas pelo tempo e pelo vento…</p>
<p>Aos iniciantes do nobre ofício de escritor, recomendo, com veemência: leiam, leiam, leiam. E, quando se julgarem escritores de fato, lembrem-se de Flaubert, de Dostoievski, de J.L. Borges, de Hemingway, de Faulkner… Eles também foram escritores!</p>
<p>[Agosto de 2000]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2000&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>João Bonino Moreira</b>&nbsp;nasceu em Santa Teresa (ES) em 1931. Estudou em Vitória e, em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por vinte anos. Ele foi um dos talentos literários revelados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo no auge de seu investimento na publicação de obras de literatura. (Para obter mais informações sobre o autor&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-joao/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>E eu?, do livro O necrologista e outros escritos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>“Ainda assim me encontro, nesta sinistra manhã de 15 de dezembro, quarta-feira, registrando num velho caderno esquecido por algum colegial, estas coisas absurdas que me estão acontecendo.” (Do Caderno de Leonardo Grizzi) Meu nome é (ou era?) Leonardo Grizzi, nasci em Alfredo Chaves em 7 de julho de 1931, filho de Leovegildo e Maria das [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<blockquote class="tr_bq" style="text-align: right;"><p>
<i>“</i>Ainda assim me encontro, nesta sinistra manhã de 15 de dezembro, quarta-feira, registrando num velho caderno esquecido por algum colegial, estas coisas absurdas que me estão acontecendo<i>.” (Do Caderno de Leonardo Grizzi)</i></p></blockquote>
<p>
Meu nome é (ou era?) Leonardo Grizzi, nasci em Alfredo Chaves em 7 de julho de 1931, filho de Leovegildo e Maria das Graças Grizzi. Minha mulher chama-se Albertina Simeone e tenho duas filhas casadas, Gilda, de 37 anos, e Léa, de 34, e um filho solteiro, Léo, de 29. Fui escrevente e depois tabelião do Cartório do Registro de Imóveis desta cidade de Vitória durante 35 anos e hoje estou aposentado.</p>
<p>Em face dos estranhos fatos que têm ocorrido comigo nos três últimos dias, os dados acima fornecidos são os únicos da minha agora confusa vida dos quais tenho alguma certeza. A minha tragédia começou na segunda-feira passada, pela manhã. Tendo necessidade de comentar com um amigo morador da Praia da Costa um seu artigo que saíra no jornal daquele dia, fiz-lhe uma ligação telefônica. Do outro lado da linha informaram: “Instituto de Fisioterapia Corpore Sano, às ordens”. Desliguei, disquei novamente, e de lá veio a resposta: “Supermercado Max, o que deseja?” Efetuei então uma terceira tentativa e perguntei se era do número do aparelho que digitara e recebi mais uma negativa — tratava-se de telefone residencial do bairro de Fradinhos. Desisti. “Deve estar havendo um embaralhamento das linhas”, fiquei pensando.</p>
<p>Preparei-me então para ir ao centro da cidade, ao Banco do Estado, para um saque, pois estava com pouco dinheiro e sozinho em casa, uma vez que a esposa e o filho solteiro haviam viajado ao Rio, em visita às filhas que lá moravam. Tomei, assim, na Avenida Maruípe, o ônibus da linha Jardim Camburi/Rodoviária, mas o coletivo, ao invés de dobrar à direita no trecho em que a Avenida Paulino Müller corta a Avenida Vitória, continuou reto por aquela avenida, curvando para a esquerda quando atingiu a Avenida Beira-Mar, em direção ao Aterro do Suá. Dei sinal para saltar e verifiquei que o carro em que embarcara era o São Cristóvão/Shopping. Apesar da convicção que tinha de ter pegado o veículo certo — não costumo me enganar — aguardei no ponto e embarquei no Praia do Canto/Rodoviária, no sentido do centro. O coletivo seguiu pela Beira-Mar mas, para minha surpresa, começou a fazer o itinerário inverso daquele em que eu embarcara inicialmente, isto é, retomava ao meu bairro.</p>
<p>Aperreado, saltei e verifiquei que realmente era um carro da mesma linha, que fazia o regresso. Mas eu estava seguro de que tomara o Praia do Canto/Rodoviária, não ando assim tão desligado.</p>
<p>Já se aproximava do meio-dia, o calor era intenso e resolvi almoçar ali mesmo em Maruípe. Num modesto mas asseado restaurantezinho da Avenida Tabuazeiro pedi ao garçom Juca, velho conhecido, um filé de peixe com molho de camarão e arroz branco. Quinze minutos depois, lá vem o Juca com a refeição. “Aqui está o filé de alcatra que o senhor pediu, bem passado, batatas fritas feitas na hora e purê de ervilhas, como o senhor gosta”. “Mas, Juca, o pedido não foi esse”, retruquei. “Se quiser, seu Leonardo, posso até voltar com o filé de alcatra. Mas que o senhor pediu não há dúvida, aqui está o registro na notinha que dou sempre ao cozinheiro”. Não adiantava discutir, apesar da segurança que eu tinha de lhe ter solicitado o filé de peixe. Mastiguei de mau humor o bife e a guarnição, paguei e saí. “Vou para casa, vou dormir um pouco, que estou com a cabeça fervendo”.</p>
<p>Cheguei em minha residência, liguei o ar refrigerado do quarto e deitei-me. Dormi até às 16:30 horas, acordei mais tranqüilo, tomei um banho e enquanto fazia hora para o lanche peguei a revista Veja, que o mensageiro trouxera pela manhã. Logo pela capa vi que não era a Veja e sim Caras, revista com a qual antipatizo desde o seu lançamento e que por isso mesmo não poderia nunca tê-la comprado ou encomendado, nem por engano. E não tinha dúvida de que, pela manhã, recebera do motociclista a revista Veja e lembrei-me até que a capa estampava uma montagem glosando o Presidente FHC. Ainda me recordo que o rapaz da entrega dissera, com humor: “O Presidente é um cara de pau, não tem jeito, não é, seu Leonardo?” Controlando-me para não expandir minha raiva, sentei-me na varanda, fiquei admirando o entardecer e às 19:30 horas comi umas torradas, um pouco de gelatina, bebi chá preto gelado e fui assistir na TV o noticiário das 20 horas. Liguei para o canal 4 e o que me apareceu foi a imagem do 6, onde uma repórter entrevistava professores de um cursinho vestibular. Premi novamente o botãozinho para o canal 4 e o que vi foi um programa de adolescentes no canal 2. Nova tentativa e o diabólico aparelho mostrou o canal 10, com uma retrospectiva dos gols da Copa de 70. Não insisti mais. Tomei novo banho e resolvi deitar-me. Afinal, nada dava certo, que mais tinha a fazer naquele aziago dia? Engoli, por precaução, um comprimido para dormir, que me auxiliaria no sono. Que sono, que nada, fiquei foi muito aceso, excitadíssimo. Aí então verifiquei que não tomara o comprimido do sonífero mas sim uma dessas pastilhas inibidoras do apetite, usadas por minha mulher para emagrecimento, que tiram completamente a vontade de dormir. “Mais uma”, pensei. Rolei a noite inteira na solitária cama e só consegui conciliar o sono por duas horas, das nove às onze.</p>
<p>Mas tinha que ir ao centro, ao Banco, como havia programado na véspera. Tive sorte. Aproveitei a carona do vizinho, que me deixou na Praça Oito. Entrei no Banestes, informei ao caixa o valor do saque pretendido e digitei a senha. “Desculpe, meu senhor, mas a sua senha não confere”, informou o bancário. Operei novamente o aparelhinho e outra vez ouvi a mesma advertência do rapaz. “Assim não dá, quero falar com o gerente”. A esse funcionário identifiquei-me, forneci o número da senha que habitualmente usava e contei-lhe do insucesso junto ao caixa; encabulado, recebi a desconcertante informação de que minha senha nunca tinha sido a digitada. “O senhor naturalmente está fazendo confusão com outro número ou mesmo deu-lhe um branco e esqueceu completamente o número de sua senha, acontece”, ponderou o amável homem. Resolvido o impasse — eu não estava em condições para argumentar — saí do Banco meio desesperado e fui até a banca de jornais comprar o Diário, quando deparei com o Alcebíades, que vinha em sentido contrário, meu velho amigo de 40 anos e ex-colega da Faculdade de Direito, hoje desembargador. “Há quase um mês que não o vejo, Alcebíades amigo, como vai e como vão os seus?” Não houve aquele peculiar sorriso, por parte do Alcebíades, característico do encontro de velhos companheiros. “Desculpe-me, deve haver um engano, não o conheço, nunca o vi”. “Mas Alcebíades, sou eu, o Leonardo… “Creio que o senhor se enganou, perdão, deixe-me passar, tenho pressa”, e arrancou assustado rumo à escadaria Maria Ortiz. Fiquei perplexo e não me atrevi a falar com mais ninguém.</p>
<p>Meio zonzo, tomei um táxi na Costa Pereira e instruí o motorista para rumar para Camburi. Talvez olhando a imensidão do mar, respirando o ar iodado, as coisas se aclarassem. Mas o taxista, ao contrário do que eu lhe ordenara, tomou a direção do Aeroporto. “Atenção, meu prezado, eu pedi que me levasse a Camburi”, alertei-o. “O senhor falou Aeroporto”, respondeu firme o chofer, para minha estupefação. “Tudo bem”, acalmei-o. “Mas vamos para Camburi, deixe-me em frente ao Hotel Porto do Sol”. Ali, em frente à praia, ainda tentei cumprimentar meia dúzia de pessoas conhecidas que transitavam pelo calçadão, mas repetiu-se o mesmo que acontecera com o Alcebíades na Praça Oito: nenhuma delas demonstrava me reconhecer e algumas mesmo denotaram perturbação ante o meu amistoso comportamento. Sentei-me num banco de pedra e permaneci até ao entardecer. Peguei um táxi (quase soletrei o endereço) e felizmente fui deixado corretamente em casa. Bebi bastante leite, comi uma fatia de queijo com goiabada e fui para a cama. Esta noite consegui dormir.</p>
<p>No dia seguinte minha saída de casa coincidiu outra vez com a do vizinho, ganhei nova carona e fui deixado novamente na Praça Oito. Comi um pastel e tomei um café numa lanchonete e pedi à garçonete um maço de cigarros “Cônsul”. “Que marca é essa?”, estranhou a moça. “Tá brincando, moço, esse cigarro não se fabrica há mais de 30 anos”, explicou o dono da Casa. Completamente embaraçado, fiquei com outra marca disponível. Na banca de jornais pedi O Diário. “O Diário de Minas só chega à tarde”, responderam-me. “Não é o Diário de Minas que desejo, é o Diário daqui mesmo”, repliquei. “Ô cara, esse jornal já saiu de circulação há mais de 15 anos”, trovejou um negrão lá de dentro da banca. “É, a desgraçada da confusão voltou a pleno vapor”, pensei, espumando de raiva.</p>
<p>Desci então a Jerônimo Monteiro, dobrei na Avenida República e resolvi entrar no Parque Moscoso. Lá, na tranqüilidade de um banco à sombra, ouvindo o cantar dos pássaros, poderia refletir melhor. Já acomodado num acolhedor banco, afastado da parte mais movimentada do jardim, cochilei e dormi. E sonhei. Sonhei que estava em uma cidade bem menor que Vitória, à margem de um rio, que era atravessado por uma comprida e antiga ponte ferroviária. E, satisfeito, seguia pela rua principal, alegre mesmo, cumprimentado por todos. Mas não demorou muito o sonho e acordei. Acordei e puxei o maço para um novo cigarro. Minha carteira de identidade, que estava junto, caiu no chão. Ao apanhá-la, verifiquei horrorizado que, embora a fotografia e o RG fossem os mesmos, os demais dados não conferiam. Agora eu era Adalberto de Medeiros Rosa, nascido em São José do Rio Preto (SP) em 26 de setembro de 1932. Desesperei, chorei dramaticamente. Eu não era mais eu. Então quem era? Pensei até em me matar. Pior, a Polícia encontraria o cadáver de um tal de Adalberto de Medeiros Rosa, paulista, de 65 anos. E eu, Leonardo Grizzi?</p>
<p>[Transcrito do livro <i>O necrologista e outros escritos</i>, IHGES, 1998.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1998&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia <b>autorização expressa</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>João Bonino Moreira</b> nasceu em Santa Teresa (ES) em 1931. Estudou em Vitória e, em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por vinte anos. Ele foi um dos talentos literários revelados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo no auge de seu investimento na publicação de obras de literatura. (Para obter mais informações sobre o autor <a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-joao/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<item>
		<title>Férias escolares: 1937 e 1944, do livro O necrologista e outros escritos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:36:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Férias escolares em Santa Teresa, no casarão de meus avós na rua Jerônimo Vervloet. Julho de 1937. Vindo de Vitória, “cidade grande”, e no entender da minha avó Maria local impróprio para se criar saudavelmente uma criança, dois ou três dias após a minha chegada aplicava-me a boa senhora um clister, para lavar a tubulação. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Férias escolares em Santa Teresa, no casarão de meus avós na rua Jerônimo Vervloet. Julho de 1937.</p>
<p>Vindo de Vitória, “cidade grande”, e no entender da minha avó Maria local impróprio para se criar saudavelmente uma criança, dois ou três dias após a minha chegada aplicava-me a boa senhora um clister, para lavar a tubulação. Depois vinha, durante um mês, uma alimentação forte às horas certas, muita massa, legumes e frutas e Emulsão de Scott. Eu e meus primos corríamos e brincávamos o dia todo. O horário do almoço e do jantar era controlado pelo sino da Matriz; refeições a que todos os parentes compareciam e nós, meninos, netos e netas, mãos rigorosamente lavadas e bem caladinhos, compenetradamente quietos ficávamos ante a figura grande, respeitável, careca e bigoduda do meu avô Paolo (lembrava muito o Barão do Rio Branco) que presidia a comprida mesa. Ouvíamos a voz grossa do avô, ora em italiano ora em português e nós, miúdos, comíamos sem reclamações tudo o que era colocado em nossos pratos, que criança não tinha direito a muita escolha. Meu avô tinha o costume, antes da refeição, e à guisa de sopa, de tomar uma tigela de caldo de feijão preto, que lhe deixava manchas negras no alvo bigodão, objeto de discretos e cautelosos risos de nossa parte. Não me lembro de ter visto aquele italiano do Piemonte, em qualquer ocasião, a beber vinho ou comer polenta. A comida era preparada na cozinha enorme, guarnecida de um imenso fogão de ferro abastecido a lenha. Nas paredes da cozinha, em três lados, estavam colocados armários com portas de vidro, que guardavam toda a parafernália culinária da época: moinho de café torrado e de pimenta do reino, de farinha de rosca, formas de ágata e de alumínio de todos os feitios e tamanhos, vidros com condimentos usados no cardápio italiano e uma bela máquina de fazer toda a espécie de macarrões, de procedência peninsular. A um canto da sala de jantar, entre um elegante aparador e o armário das louças e talheres, exibia-se em sua brancura um frigorífico marca “Electrolux”, tocado a querosene, que conservava sempre aceso um foguinho azul na sua parte inferior, sinal de que estava em pleno funcionamento. Minha avó, mulher sem riso mas boníssima, controlava tudo com mão militar, molho enorme de chaves à cintura, vestido de tecido grosso e escuro até os tornozelos. Lembro-me bem de que estava sempre em desvantajosa luta contra as formigas. Em um armário alto eram guardados, também na cozinha, bolos, doces, biscoitos, pães, tortas e massas. Os quatro pés do armário eram colocados dentro de latas de goiabada, que continham uma mistura de água e querosene para, como nos fossos dos antigos castelos, evitar a incursão de predadores, no caso as terríveis formigas. Mas esses tenazes insetos atacavam por outra frente: caminhavam de ponta-cabeça no teto e, quando se achavam sobre o armário, deixavam-se cair, como os infantes alemães fariam quatro anos mais tarde, na II Guerra Mundial, desembarcando de planadores sobre o forte Eben-Emael e surpreendendo os belgas que bebiam vinho no interior da fortaleza. Nunca soube como escapavam as ladronas formigas depois de se banquetearem. Em seguida ao jantar o sino da igreja nos convocava e lá íamos nós, as crianças, relutantes, em romaria, acompanhadas de duas criadas e portando sacos de amendoim torrado, à “reza”. Depois da “reza”, às 21 horas, já em casa, café com leite, chocolate, bolo, biscoitos e um pulo para o convidativo colchão de penas, previamente aquecido por compridas botijas cor de laranja, de genebra holandesa, contendo água fervente, que eram distribuídas pelas camas. Passávamos, como disse, a semana toda brincando, correndo, pulando e, depois do lanche (o almoço era às 11 e o jantar às 17 horas), que sucedia à “reza” e antes do mergulho no colchão de penas, ouvíamos um pouquinho de rádio, quando a estática permitia, o que não era freqüente. Domingo à tarde íamos ao “campo” ver o futebol. Este “campo” situava-se onde hoje está o jardim de Santa Teresa (o mais bonito do Estado) e servia como arquibancadas o material das obras do Grupo Escolar Pessanha Póvoa, então em construção. Posteriormente o “campo” foi transferido para uma várzea à margem da estradinha para Vitória e lá chegávamos atravessando uma pinguela sobre o rio Timbuí. Íamos aplaudir os craques do Teresense F.C., que saíam de casa já uniformizados e enchuteirados diretos para o gramado, um verdadeiro desfile de ases pela cidade. Íamos torcer pelo nosso saudoso tio Fortunato Bonino, beque dos bons e muito viril, com suas longas e brancas canelas cobertas de pêlos dourados, despachando os atacantes do time “inimigo”.</p>
<p>Santa Teresa, na época, produzia muito café e estabelecidos na praça havia meia dúzia de compradores do grão, entre eles meu avô, que dispunha de grande armazém e de dois caminhões para transportar o fruto para Vitória para os depósitos do D.N.C. (Departamento Nacional do Café) na volta de Caratoíra ou em Itaquari, em Cariacica. Os veículos eram um velho “Saurer”, alemão, cinza claro, volante na horizontal, apito de ar comprimido, transmissão ainda na base de correntes e pneus sólidos, de borracha, sem câmara de ar. O cansado caminhão estrebuchava, tremia, silvava e fumaçava mas dava o recado e levava para Vitória entre 45 e 50 sacas de 60 kg. Seu chauffeur titular era o Ettore Anechini, vermelhão e de mãos enormes. Tinha ele como ajudante o eficiente “Gatinho” (nunca lhe soube o nome), um dos dois ou três negros que havia em Santa Teresa, grande bebedor de pinga — quando empilecado dormia sob o vetusto caminhão — e arisco extrema esquerda do Teresense. O segundo caminhão era um “Chevrolet Tigre”, cabine de madeira e cortinas de oleado, que ficavam enroladas ao nível do teto e eram esticadas quando chovia. O valente caminhãozinho também carregava 50 sacas. A viagem demorava de 5 a 6 horas. Já o ônibus da linha Santa Teresa/Vitória/Santa Teresa era parecido com uma gaiola. Os bancos, com uma fina camada de acolchoamento nos incômodos assentos e encostos, admitiam quatro ou cinco pessoas, apertadas, sem corredor no meio. As laterais eram abertas e os passageiros que viajavam nas extremidades dos bancos tinham que estar atentos para não serem cuspidos da geringonça. A bagagem ficava amarrada em uma grade sobre o teto. Esse velho ônibus, no percurso Santa Leopoldina/Santa Teresa “chorava” o tempo todo, pois usava sempre as marchas fortes na íngreme subida. Mas levava e trazia o pessoal de e para a capital.</p>
<p>Os anos foram passando e eu me surpreendo agora nas férias de verão do ano de 1944/45. A cidade progredira um pouco, a calvície do meu avô já estava completa e vovó continuava aquela santa mulher. Com a guerra praticamente ganha na Europa e, no Pacífico, com os japoneses revelando sinais de que iam pelo mesmo caminho, os americanos nesse tempo já tinham bastante adiantado o seu programa de reconversão das fábricas de armas e veículos militares para a produção de bens civis. Enquanto nós, brasileiros, iniciávamos a discussão sobre se ficava ou não o Getúlio na Presidência, nossos vizinhos lá de cima pensavam na sua freguesia do após guerra e em capitalizar mais dinheiro ainda com o fim do conflito, não bastasse a fábula que tinham ganho durante o período crucial da luta, vendendo armas, munições e alimentos aos outros brigões. Começaram então a chegar os novos caminhões, com as inovações testadas nos campos de batalha e agora preparados para carregar 100 sacas de café. Cabines de aço, vidros de correr nas portas, bancos com suaves molas, apareceram os belos International KB7, de cor única — verde garrafa, os elegantes Mack, com a figura de um buldogue em aço escovado na ponta do radiador, metais cromados, e os potentíssimos Super White Power, cinza-azulados, com tutano para transportar 120/150 sacas. E os Fords, Fargos e Chevrolets da vida, também novinhos, para quem não podia adquirir uma daquelas maravilhas da mecânica yankee. Os carros eram carregados nos armazéns em Santa Teresa à tardinha e enfileiravam-se na rua Jerônimo Vervloet para, bem cedo no dia seguinte, rumarem para Vitória. Os motores, mesmo sendo o que de melhor havia na época e de estarmos no verão, custavam a pegar em virtude da friagem e da umidade da madrugada. Lateralmente às carrocerias lotadas eram colocadas, entre a sua parte inferior e o piso da rua, na direção das rodas traseiras, ripas de paraju, de 10 x 10 cm por 1,20 m de altura, que passavam a sustentar todo o peso da carga, para não forçar os feixes de mola, caríssimos. Era necessário ser hábil motorista para encaixar e equilibrar corretamente as ripas. Mas teresense sempre foi bom de volante. De madrugada, com o roncar dos motores que esquentavam e com a queda das ripas sobre os paralelepípedos quando se moviam os carros, era impossível dormir. Isso e mais as conversas e gargalhadas dos motoristas e ajudantes, entre os quais corria sempre, de boca em boca, uma garrafa da pura. E lá iam aqueles heróis, trafegando sobre o estreito e irregular leito da estrada, subindo e descendo ladeiras, parando para dar de beber aos caminhões, ou para colocar as correntes sobre os pneus quando chovia e tudo virava um barreiro. Os ônibus, por essa época, já tinham carroceria de lata e eram fechados nas laterais, como os de hoje. Causava-me admiração a atividade desenvolvida pelo ajudante/cobrador. Além de cobrar as passagens conforme o trecho percorrido pelo passageiro, receber e entregar os malotes do correio e agüentar o mau humor daquele que guiava, recebia dos que não viajavam o mais variado rol de encomendas como “compre no Copolillo o Correio da Manhã e o Diário de Notícias“, “passe no seu Antônio da Libanesa e apanhe dois metros deste fustão”, “vá até o Manuel Evaristo Pessoa e arranje uma broca de aço de 3/4″, “veja se tem Mirtonyl-Quinino na Farmácia Santa Teresinha”, “compre no seu Bichara, perto do Banco do Brasil, três metros de fita igual a esta, 12 botões como este e um carretel de linha Corrente n° 2 desta cor” e por aí vai. O rapaz, incansável, providenciava tudo e à noite, em Santa Teresa, já o estavam esperando os encomendadores. Davam-lhe sempre “um trocado para a cerveja”.</p>
<p>O fútingue em Santa Teresa era nos sábados à noite na rua Cel. Avancini. Os rapazes de maiores posses, engravatados, entupiam-se de cerveja e de francês e italiano (fernet com cinzano) no bar do Pasolini, que na minha terra, infelizmente, só era macho quem bebia — e a cidade só tinha machos! Ao cinema, também de propriedade do Pasolini, cada qual levava a sua cadeira e se deleitava com as performances de Gary Cooper, Ginger Rogers, Ingrid Bergman, Joan Crawford etc. Depois da sessão, quando se recolhiam as pessoas convencionalmente chamadas de sérias e responsáveis, a cachaçada nos bares se prolongava, de portas fechadas, até 1 ou 2 da matina.</p>
<p>Começávamos a semana com os mesmos folguedos de sempre, inclusive longos passeios nas excelentes bicicletas “Bianchi” e pequenas caçadas com umas também ótimas espingardas “La Porte”, que já haviam servido de lazer a meus tios e tias, agora deixadas para nosso uso. Depois do jantar ouvíamos rádio, que tinha a ele acoplados dois poderosos alto-falantes para compensar a surdez do avô. Eram quase que exclusivamente notícias da guerra, os aliados na Europa empurrando os alemães para o coração do seu país e os americanos no Pacífico reconquistando as ilhas ocupadas pelo Japão desde 1941. O Correio da Manhã, do qual era assinante meu avô, estampava na 1ª página um clichê com o mapa da Europa Central, que se repetia diariamente, mostrando a evolução do avanço dos aliados a oeste e a leste, em tinta preta, emagrecendo a perdedora Alemanha. A Itália já se passara para o lado dos “bons” e havia cessado aqui o clima de constrangimento de quando pertencia ao “Eixo”, e formava ainda ao lado dos alemães e dos japas. Alguns italianos e 1 ou 2 alemães de maior importância estavam exilados em Santa Teresa porque o governo brasileiro achava que, em Vitória, eles representavam perigo para o País, esquecido de que esses “súditos do Eixo”, como eram chamados, possuíam filhos brasileiros e aqui tinham construído suas vidas. A burrice (ou a cegueira) dos nossos dirigentes não percebia, ou não queria perceber, que, no Brasil, convivíamos com o Estado Novo, regime semelhante àquele que combatíamos na Europa. Tão Brasil…</p>
<p>Mas já revelávamos um tédio das férias, mais saudades dos pais do que das aulas, evidentemente.</p>
<p>Acabadas as folgas, retornávamos a Vitória para o Colégio Estadual, para as sessões de cinema do Politeama, Carlos Gomes e Glória, para a praia e o Governador Bley e passeio aos sábados o domingos na Costa Pereira. Mas isso já é outra história.</p>
<p>[Transcrito do livro <i>O necrologista e outros escritos</i>, IHGES, 1998.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1998&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>João Bonino Moreira</b>&nbsp;nasceu em Santa Teresa (ES) em 1931. Estudou em Vitória e, em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por vinte anos. Ele foi um dos talentos literários revelados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo no auge de seu investimento na publicação de obras de literatura. (Para obter mais informações sobre o autor&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-joao/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Onde está Silvinha?, do livro A rainha que piava e outros contos</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:34:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O casal Fontella — Alberto (Beto) e Silvia — recebeu para jantar e drinques naquela quinta-feira dia 12 de agosto. O amplo apartamento que habitavam, de frente para a praia de Camburi, estava todo iluminado e encantou M. Louis Ferdinand Destouches, um elegante negro haitiano, convidado de honra da noite. M. Destouches viera a Vitória [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O casal Fontella — Alberto (Beto) e Silvia — recebeu para jantar e drinques naquela quinta-feira dia 12 de agosto. O amplo apartamento que habitavam, de frente para a praia de Camburi, estava todo iluminado e encantou M. Louis Ferdinand Destouches, um elegante negro haitiano, convidado de honra da noite. M. Destouches viera a Vitória em viagem de negócios e, em nome de um consórcio belga instalado em seu país, fechara contrato de fornecimento de latas de alumínio para cerveja com a Sociedade Industrial de Embalagens S.A., recentemente instalada em Vitória sob a direção do anfitrião. Viajaria de regresso para o Haiti no sábado, dia 14, deslocando-se de Vitória para o Rio na sexta, no primeiro avião da ponte aérea.</p>
<p>Os Fontella, ele com 37 anos e Silvia com 30, não tinham filhos e viviam em ótimo relacionamento, desfrutando de todos os prazeres que a folgada renda de um executivo de primeiro escalão pode proporcionar — apartamento duplex com vista para o mar, dois carros importados, sítio em Santa Teresa e, ano sim, ano não, viagem de recreio à Europa. Beto, logo depois que fora desligado a pedido da Escola Militar de Agulhas Negras, fizera, na Universidade Federal do Espírito Santo, o curso de administração de empresas, e Silvia, apesar de não lecionar, possuía licenciatura plena em literatura hispano-americana.</p>
<p>Namoravam-se desde antes da saída de Alberto para a Escola Militar e estavam casados há oito anos. Tinham um traço em comum — foram namorados únicos.</p>
<p>Perto da meia noite, quando praticamente todos os convidados haviam se retirado, Destouches também se preparava para sair e, como perfeito cavalheiro, homenageou Silvia com um presente um tanto exótico: uma perfeita miniatura de urna funerária em ébano, no interior da qual repousava, sobre veludo escarlate, um afiadíssimo cortador de livros, todo de prata. Explicou aos anfitriões que se tratava de artesanato produzido em uma aldeia nas montanhas do Haiti. E despediu-se educadamente, no seu característico patoá.</p>
<p>Depois de arrumar e limpar o que foi possível naquele fim de noite, o casal, bastante cansado, recolheu-se ao leito cerca de uma da manhã. Alberto tinha compromissos na fábrica às nove horas do dia seguinte e Silvia planejara, na mesma manhã, apanhar no trabalho suas duas únicas irmãs, Selene e Silvana, para, juntas, irem almoçar em casa do pai, Sr. Gervásio Alcântara, em Jucutuquara. Aproveitariam o almoço para um bom papo com a mãe, a simpática e sorridente gorducha D. Siloé. Era plano das meninas fazerem um pouco de companhia à mãe porque Seu Gervásio, funcionário aposentado da Secretaria da Receita Federal, estava agitadíssimo naqueles dias com a realização do III Encontro Nacional dos Criadores de Curiós Cantadores, que reunia em Vitória os melhores espécimes do país. O aposentado concorreria com seu curió Céline a um dos prêmios oferecidos. Os Alcântaras, apesar de o velho ser maranhense, comportavam-se como autêntica família capixaba, por influência do gênio sempre alegre porém impositor de D. Siloé, nascida e criada em Jucutuquara. E também pelos 35 anos que o velho residia no Espírito Santo. Transformadas hoje em três belas mulheres, as três “Ss”, como as chamava D. Cotinha, vizinha e amiga há trinta anos, pertenciam ao que se convencionou chamar de classe média e todas — orgulho do velho Gervásio — passaram pela Universidade: Selene, funcionária concursada do T.R.T., era formada em direito e casada com Pedro Nunes, escritor (festejado autor de Aldeia) e funcionário público, e Silvana, psicóloga e professora adjunta da UFES, tinha como marido o engenheiro Sérgio Bichara, viciado em Mozart e nos Beatles. Pelo menos dois domingos por mês reuniam-se maridos, filhas, genros e netos para um churrasco (este sempre preparado pelo Sr. Gervásio), uma moqueca de badejo ou uma piramidal macarronada com galinha ao molho pardo, especialidades de D. Siloé. Era, sem dúvida, um círculo familiar entrosado, respeitável, sem problemas e bem-humorado.</p>
<p>Às 7:30 horas de sexta-feira, 13, o despertador tirou Alberto do sono. Virou-se, resmungou, mas levantou. A mulher, estranhamente aos seus hábitos, também já havia se levantado. A forma perfeita de seu harmonioso corpo ainda moldava os lençóis e a colcha. O marido calçou os chinelos e foi, estremunhado, até a ampla copa. Chamou Silvia e, não obtendo resposta, voltou ao quarto, à suíte, onde, conforme já verificara, não se encontrava a esposa. Daí dirigiu-se até o living e à sala de jantar, e não a viu. Também nos outros dois quartos, um transformado em sala para computador e outro para hóspedes, não topou com Silvia. Por desencargo de consciência foi à área de serviço e dependências da criada, que dormia fora, com o mesmo resultado. Só pode ter saído, pensou. Mas sair àquela hora para quê, se o jornal era entregue na porta, o pão trazido pela empregada quando chegava e não era hábito de Silvinha ir à praia àquela hora — pelo menos sem avisá-lo — acrescendo que o dia amanhecera com vento sul e carregado E mais: houvesse Silvinha saído e as duas correntinhas e o trinco da porta principal não estariam fechados por dentro, como estavam. Pela porta de serviço também não poderia ter saído, uma vez que esta somente se abria com acionamento de um dispositivo eletrônico a ela ligado e operado do quarto de casal quando aí soavam de uma cigarra os quatro toques convencionados com Capitu, a empregada. Alberto estranhou tudo isso mas não se preocupou. Engoliu um suco de melão gelado e queimou a boca com uma xícara de café solúvel. Acendeu um Kent king-size, fez a barba, tomou uma ducha quente e vestiu-se, escolhendo com cuidado a roupa: terno cinza escuro feito sob medida no De Carli, sapatos pretos do Motta (do Rio) e meias de seda da mesma cor, camisa branca e gravata de seda pura com listras vermelhas e azul marinho.</p>
<p>Outra xícara de café, outro cigarro e consultou relógio: 8:10. Ainda tinha tempo para localizar a mulher. Afundou numa poltrona no living, ainda cheio de lembranças da recepção da noite anterior, e pôs-se a refletir: se Silvinha tivesse saído, as portas do apartamento não poderiam estar fechadas por dentro. Pelas janelas e varandas nem pensar, pois moravam no oitavo andar. Mas, para sua própria tranqüilidade, foi à varanda envidraçada da sala de estar, à do quarto e às janelas. Olhou para baixo, para a rua, já com intenso tráfego, e também para a área interna do edifício. Nada de anormal. Tudo como habitualmente. Telefonou então para as cunhadas e também para a sogra. Não, Silvinha ainda não passara por lá, embora tivessem encontro marcado, mas somente para depois das 11:30. Cabeleireiro ou manicure a esta hora era impossível. O mesmo com relação aos shoppings e consulta a médicos ou dentista. Espera, deixe-me conferir os sapatos. Sabia que a mulher possuía, entre calçados sociais, sandálias e tênis, dezenove pares. Mas, na sapateira, deparou com os 38 pés, alinhados como soldados. De chinelos, vaidosa como era, Silvinha jamais sairia. Essa eu perdi, comentou para si mesmo. E começou a irritar-se. Não se aventurou a verificar o guarda-roupa, pois não sabia quantas peças a moça tinha. Espera aí, e correu ao quarto de dormir: lá estavam, na mesa de cabeceira, o relógio Vacheron que lhe dera meses atrás como presente pelo trigésimo aniversário e o par de brincos de pérolas. Sobre a penteadeira repousava a bolsa de couro, que abriu com certo nervosismo: tudo intacto, talões de cheques, caneta, óculos escuros, cartões de crédito, agenda, algum dinheiro, telefone celular, chaves do carro, etc. Tudo isso fê-lo reforçar a opinião de que a mulher não saíra, ainda mais que as portas, insistiu, estavam trancadas por dentro. Mas como, meu Deus, não saíra, se uma nova e minuciosa pesquisa revelou ser ele, no momento, a única pessoa presente no apartamento? Nova olhada pelas varandas e janelas e nada: só serviu para constatar que tudo estava nos eixos. Cabeça de bagre, nem me lembrei, e ligou o telefone interno para a portaria do edifício. “Não, não, Dr. Alberto, peguei o turno das cinco da manhã, eu e o Altamiro da segurança, e as únicas pessoas que saíram foram aquele velho aposentado do Banco do Brasil, do 601, às seis, para andar no calçadão, e mais ou menos às 6:15 o piloto da Rio-Sul, um que todas as segundas e quintas dorme no 301, no apartamento de D. Myrian, a viúva do senador Terêncio, o senhor sabe do caso. Tenho certeza, sim, Dr. Alberto, nem pela portaria principal nem pelo portão de serviço ou da garagem vi D. Silvia sair. Um minutinho e já volto.” Voltou esbaforido e informou: “Tanto o Mondeo do senhor quanto o Daiwoo de D. Silvia estão na garagem, Dr. Alberto.”</p>
<p>“Porra, assim não dá,” gritou Alberto. “Não saiu mas também não está aqui, não pulou pela janela e nem está com os parentes.” E, no meio do desespero, gritou duas ou três vezes o nome da mulher, que ecoou na solidão do apartamento. Pediu desculpas à empregada, que no entretempo chegara, e avisou-a de que não jantariam em casa.</p>
<p>Ligou novamente para a residência do sogro e explicou a D. Siloé, detalhadamente, o que estava ocorrendo. A boa senhora bramiu para o Sr. Gervásio, “Anda, homem, te mexe, a Silvinha foi raptada ou então brigou com o Beto, sei lá, fala com ele.” O velho, fone na mão, perguntou ao genro, meio cabreiro, “Vocês brigaram? Já exigiram resgate?” “Que briga, que resgate nada, Sr. Alcântara,” como o chamava quando estava nervoso, “o senhor está no mundo da lua? Tudo bem, não há sinais de violência, Silvinha simplesmente não está aqui, sumiu, as portas estão trancadas por dentro e ainda por cima ninguém a viu sair e não há indícios de anormalidades na vizinhança do edifício, estou aqui sem saber o que fazer, feito um idiota, sozinho, preparado para ir para o trabalho.” E desligou com raiva.</p>
<p>Bom, o jeito é aguardar os acontecimentos. No decorrer do dia tudo, certamente, se esclarecerá. Mandou o manobreiro tirar o carro da garagem e acelerou para a fábrica, no Civit. De lá — e de péssimo humor, diga-se — telefonou várias vezes para casa e não obteve resposta, ou melhor, a empregada dizia sempre que Silvinha não estava. Ao meio-dia, antes do almoço com os auxiliares mais graduados numa churrascaria próxima à empresa, mais uma vez ligou para a casa do sogro, onde este e D. Siloé, em companhia de Silvana e Selene, almoçavam trombudos, silenciosos e intrigados com o misterioso desaparecimento de Silvinha. Nenhuma notícia dela. Às dezoito horas, depois de um pesado dia de trabalho, com telefonemas para o Rio e São Paulo, contratos, faxes para lá e para cá, briga com os xiitas do sindicato dos metalúrgicos, voltou para casa. O Mondeo deslizava macio e silencioso pela pista, todo fechado, ar condicionado ligado, e Alberto ouvia pelo toca-cd trechos do baléSylvia, de Delibes. Influenciado pela delicadeza da música, pelo menos naquele momento estava calmo e antegozava a hora de chegar em casa, encontraria a esposa e até ririam do “sumiço”. Colocaria uma roupa esporte e, com a adorável Silvinha, iriam tranqüilamente jantar na cantina do Ettore um espaguetinho acompanhado por uma garrafa de um certo Amarone, abalizada indicação do seu antigo professor na UFES, Ivan Borgo. Após a cantina, veriam um filme no VC, em casa, ele com planos de uma ardorosa noite de amor com Silvinha, morto de saudades que estava dela e acreditando piamente na reciprocidade desse sentimento.</p>
<p>Mas que decepção quando deparou com o apartamento desconcertadamente vazio, sem vida, triste como o deixara pela manhã. Aí finalmente Alberto perdeu o que lhe restava de calma e controle. Em prantos, telefonou para o sogro, passaria por lá para apanhá-lo e para uma conversa séria sobre o caso. Deixou algumas recomendações na portaria do edifício e rumou para Jucutuquara, onde Seu Gervásio já o esperava. A sogra, assustadíssima e chorosa, quis que ele fizesse um lanche, mas Alberto não tinha fome, tinha sim um começo de desespero. Apanharam o concunhado Pedro Nunes em Bento Ferreira e decidiram, os três, tomar a providência mais recomendada pelas circunstâncias: registro oficial da ocorrência — o que foi feito na Superintendência de Polícia Civil na Reta da Penha. O delegado Bertholdo Witter, o “professor”, de plantão e coincidentemente o mais competente policial do Estado nos casos de pessoas desaparecidas ou seqüestradas, quando notou a posição social dos queixosos e a importância econômica de Alberto, acionou o “esquema especial” adredemente montado para as ocorrências da espécie e designou logo o investigador Humberto “Rolo Compressor” para acompanhar o caso. Após preencherem formulários e mais formulários e depois de uma hora de respostas a irritantes e minuciosas perguntas dos policiais, algumas feitas com a sutileza de um rinoceronte enfurecido e outras dignas do raciocínio de um dromedário, dirigiram-se os três e mais os dois “tiras” ao apartamento de Alberto, na orla de Camburi. Ali, o delegado e o investigador fizeram novas anotações, vasculharam todo o imóvel e se retiraram, levando duas ou três fotografias de Silvinha. O sogro e os dois genros, sem nada para fazer, devoraram num bar ali perto sanduíches de queijo e presunto, empurraram tudo com uma cerveja morna e se recolheram aos seus lares. Alberto recusou o oferecimento de Pedro para ficar em sua companhia. Já eram dez da noite.</p>
<p>Na manhã seguinte, sábado, Beto viu com desespero as manchetes de A Gazeta e A Tribuna. O primeiro matutino, sóbrio, registrava: “Esposa de industrial desaparece misteriosamente”, e na seção policial relatava a notícia dentro dos padrões do jornal. Já A Tribuna, em caixa alta, primeira página, bradava: “Socialite desaparece de cena: Seqüestro ou Fuga Amorosa?”, especulando nas páginas centrais sobre as duas hipóteses e informando estar todo o pessoal da Especializada mobilizado para solucionar o caso. Ambos os diários publicaram fotos de Silvinha na primeira página, em cores. O sacana do delegado Witter está se promovendo às custas do meu sofrimento, ruminou Alberto, desmotivado até mesmo para um cafezinho. Passou o sábado e o domingo melancólico e ensimesmado, em companhia dos sogros, cunhadas e concunhados. O almoço de domingo parecia até um velório, comentou a gorda D. Siloé. Mas o apoio dos parentes e mais a solidariedade de alguns amigos sinceros reconfortaram-no um pouco e deram-lhe ânimo para enfrentar a semana. Segunda pela manhã, andando às tontas pelo imenso apartamento vazio e topando a todo momento com o olhar atarantado de Capitu, a empregada, Alberto percorreu os jornais. Esses, se nada acrescentavam ao que já havia sido noticiado, mantinham o caso aceso, que isso vende bastante e também porque os focas estagiários do curso de comunicação, que de bobos nada têm, sentiram que aquilo era assunto para cultivar e render bastante, em vista da notoriedade do casal envolvido. Alberto então efetuou uma ligação para Ribeirão Preto, para a matriz da firma. Explicou aos diretores que, em vista dos recentes acontecimentos, os quais relatou minuciosamente, não tinha condições psicológicas para — pelo menos no momento — dirigir a importante filial de Vitória; considerava-se licenciado por duas semanas, esclarecendo que passaria o comando da sucursal a seu imediato, o engenheiro R. Pacheco. Praticamente afastada a hipótese de seqüestro pela ausência dos elementos que rotineiramente caracterizam tal crime, Alberto lucubrou intrincados raciocínios sobre o já dramático desaparecimento, os quais esbarravam sempre na impossibilidade de Silvinha ter deixado o apartamento, uma vez que todas as portas estavam rigorosamente fechadas por dentro. Esse detalhe, que não lhe saía do pensamento, pouca atenção despertara nos policiais, que o julgaram mirabolante: estavam mais preocupados com a hipótese de seqüestro, que, isto sim, é que dá ibope. E, na ociosa solidão do apartamento sem vida, Alberto começou a esquadrinhar todo o imóvel. Revolveu todos os pertences da esposa, roupas, calçados, livros, cosméticos, meias, peças íntimas, discos, jóias, bijuterias, cofre. Abriu todos os armários, caixas, bolsas. Pelo visto não faltava nada, estava tudo aparentemente em ordem. Até uma gaveta um tanto disfarçada no comprido móvel de laca que ocupava toda uma parede do living e que servia de pequena biblioteca, bar, estante para bibelôs e para a coleção de porquinhos de louça, que era a paixão de Silvinha, foi aberta. Lá estavam o seu Smith &amp; Wesson 38, caixa de balas, alguns cinzeiros de cristal ainda não usados, maços de cigarro, isqueiro de mesa e, jogada num canto, a invulgar miniatura de urna funerária de ébano, que continha o cortador de papéis de prata, brinde de M. Destouches a Silvinha na noite da recepção. Na noite anterior à manhã em que ela desaparecera. Desistiu por fim da pesquisa. Tomou um Valium 10 e dormiu, fatigado, triste, com dor de cabeça.</p>
<p>Acordou tarde na terça. Água mineral gelada, café solúvel quente e cigarro. Barba por fazer, não faria, porra. Estava de ressaca do sonífero e malissimamente humorado quando, ao passar os olhos pelo obituário do jornal, lembrou-se do caixãozinho de defunto com a adaga dentro — presente dado à mulher pelo crioulo que falava um francês engrolado. Levantou-se, puxou a discreta gaveta, apanhou a urna e abriu-a. Teve então o maior choque de sua vida: no interior do estojo, no lugar em que deveria estar o cortador de papel de prata, jazia uma bonequinha de pano, com o cortador muito menor que o original a atravessar-lhe o peito, à altura do coração, de onde escorria um filete de sangue já seco. Mas o incrível, assombroso, era que a bonequinha representava uma cópia fidelíssima de Silvinha, com o mesmo corpo, as mesmíssimas feições e até a mesma meia camisola que usava na madrugada em que desapareceu. Um cadaverzinho perfeito, aterrador e agourento, real até no detalhe do sangue escorrendo do ferimento do peito. Alberto afundou na poltrona, apavorado, com o estojo nas mãos, congelado pelo terror que lhe causara o macabro achado. Depois de alguns minutos de indecisão, levantou-se, fechou a urna e trancou-a no cofre do quarto. O que fazer, agora que ao já intrincado caso juntava-se mais o elemento fantástico e perturbador da urna? Resolveu, melhor pensando, que não contaria a ninguém sobre o sinistro presente. Depois veria o que fazer. E esse depois chegou três dias após quando, desesperado com a ineficiência da polícia, que já lhe levara um cheque “para auxiliar na gasolina e no lanche dos investigadores,” consultou o médico Dr. Windsor Tristão, sem revelar-lhe o segredo da urna, se era possível verificar, através de teste de DNA, se um fio de cabelo e uma gota de sangue seco poderiam ser cotejados para apurar se se tratava de material pertencente à mesma pessoa. Frente à categórica afirmativa do estudioso facultativo, não foi difícil para Alberto colher em uma das escovas da penteadeira uns fios de cabelo da mulher. A gota de sangue seco obteve-a cortando um pedacinho de pano junto ao peito da aterradora boneca, no local onde penetrara a minúscula adaga. Reunidos esses elementos, remeteu-os incontinenti para o Laboratório de Engenharia Genética do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Enquanto aguardava o resultado do exame, num suspense à altura de Hitchcock, outras teorias absurdas ocorriam-lhe ou eram geradas pelos cérebros férteis dos parentes mais próximos que, mesmo sem saberem da existência do pequeno esquife, já tinham apelado para a macumba. Seu sogro, coitado, começou por sentir dores no fígado e, depois de informado de que fígado não dói, transferiu o sofrimento para a próstata; nem um sexto lugar obtido no III Encontro Nacional dos Criadores de Curiós Cantadores conseguiu animar o velho. D. Siloé, emburrada, apelava para Santo Antônio, do qual era incondicional devota, fazia responsos e consumia uma bateria de missas na igrejinha de Jucutuquara.</p>
<p>O resultado do exame solicitado veio mais rápido do que Alberto esperava, processado por uma máquina recentemente importada da Inglaterra, maravilha da engenharia médica. Salgada mesmo foi a conta apresentada. Tremiam-lhe as mãos ao empolgar o envelope com o logotipo do Hospital. Foi remetido em caráter urgentíssimo, conforme pedira, e entregue em casa. Sem mesmo saber o motivo de seu estranho comportamento, o rapaz verificou se as portas e as janelas do apartamento estavam trancados e cortou lentamente a borda do envelope, dele retirando a folha de papel com o resultado do teste, assinado pelo Dr. Michel D. Tallowsky, chefe do Laboratório de Engenharia Genética do nosocômio e titular da matéria no Departamento de Ciências Biológicas da USP. Dizia o estarrecedor laudo: “Tendo em vista o resultado dos testes de DNA promovidos por este Laboratório, informamos que os materiais enviados para exame (fios de cabelo humano e trapo de tecido de algodão com resíduo de sangue também humano) comprovam categoricamente tratar-se de amostras retiradas da mesma pessoa. Esclarecemos ainda, que, considerando a apreensão de V. Sa. revelada no telefonema que nos deu em 26 do corrente, ratificada pela carta que acompanhou o material remetido, tomamos a liberdade de efetuar novo teste, que apresentou definitivamente o mesmo resultado do exame inicial. Comunicamos que tal confirmação onerou em 40% o custo original do trabalho e aguardamos remessa bancária do valor de R$ 2.100,00.” Alberto desesperou, chorou, engoliu meio litro de Ballantine’s mas não comentou com ninguém que enviara o material para verificação nem o pavoroso resultado.</p>
<p>No dia seguinte, cabeça mais fria, decidiu: vou ao Haiti, vou localizar esse negro filho da puta e ele tem que me contar a verdade nem que eu seja obrigado a matá-lo. Foi ao Centro da Praia e numa agência de turismo adquiriu passagens de ida e volta Rio/Lima/Caracas/Miami/Port-au- Prince. Preparou mala com roupa leve para quatro ou cinco dias e juntou a ela a urna com a bonequinha e o resultado dos exames de DNA. Aos sogros, cunhadas, concunhados e amigos avisou que faria viagem de quatro ou cinco dias ao exterior, em recreio, para arejar a cabeça, e a negócios também, para se reintegrar na rotina do trabalho. E, no dia 2 de setembro, às nove horas da manhã, embarcou no Aeroporto do Galeão num 737-400 da Transcontinental para a planejada viagem, com chegada prevista na capital haitiana para as dezoito horas do mesmo dia.</p>
<p>Só que, pelo jornal das 23 horas da TV, os telespectadores ficaram sabendo que um avião 737-400 da Transcontinental (vôo 702), com 67 passageiros e quatro tripulantes a bordo, explodiu no ar quando sobrevoava a ilha Andros, no Caribe, vinte minutos após decolar de Miami rumo a Port-au-Prince, não deixando sobreviventes. A bordo viajava um brasileiro, o Sr. Alberto Fontella, de 37 anos, administrador de empresas.</p>
<p>[Transcrito do livro <i>A rainha que piava e outros contos</i>, IHGES, 1997.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1997&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>João Bonino Moreira</b>&nbsp;nasceu em Santa Teresa (ES) em 1931. Estudou em Vitória e, em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por vinte anos. Ele foi um dos talentos literários revelados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo no auge de seu investimento na publicação de obras de literatura. (Para obter mais informações sobre o autor&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-joao/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>A rainha que piava, do livro A rainha que piava e outros contos</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:32:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O negro sedan Bentley do Consulado Britânico no Rio de Janeiro parou em frente da Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, na rua 25 de Março. Alguns curiosos se aproximaram e houve logo uma chuva de palpites, “Deve ser o Núncio Apostólico”, disse um, “Núncio Apostólico porra nenhuma”, consertou outro, “Serão os gringos que vieram [&#8230;]</p>
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O negro sedan Bentley do Consulado Britânico no Rio de Janeiro parou em frente da Prefeitura Municipal de Cachoeiro de Itapemirim, na rua 25 de Março. Alguns curiosos se aproximaram e houve logo uma chuva de palpites, “Deve ser o Núncio Apostólico”, disse um, “Núncio Apostólico porra nenhuma”, consertou outro, “Serão os gringos que vieram comprar a fábrica de cimento?”, perguntou um terceiro, “É um diplomata inglês, seus trouxas”, consertou um estudante que passava. Acertou: lá estavam, plantadas nos pára-lamas dianteiros do carro, as bandeirinhas de Sua Majestade. No mesmo momento em que o cônsul inglês no Rio de Janeiro, Sir Geoffrey Malcolm, saltou do veículo, o sorridente prefeito, Teodomiro Ferraz, que o aguardava, desceu alguns degraus do velho prédio da municipalidade e estreitou-o em caloroso abraço, numa demonstração um tanto deseducada de intimidade, que não agradou muito ao formal diplomata. Daí, Teodomiro Ferraz conduziu Sir Malcolm ao seu gabinete e, no confortável ar condicionado da sala, fez servir ao cônsul um Ballantine’s de 24 anos, produto da última desova de uma sacoleira do Paraguai. Riram muito, o diplomata do macarrônico inglês do prefeito e este do suadouro que estava levando o outro, apesar do ambiente refrigerado. O “diálogo” durou hora e meia, após o que, meio alegrinhos pelo scotch, dirigiram-se ao restaurante Belas Artes, onde o empresariado local ofereceu ao visitante uma moqueca de camarão da Barra. Moqueca, aliás, que fez com que, na volta para o Rio, o elegante Bentley desse diversas e urgentes paradas ensejando aos caminhoneiros que passavam, entre debochadas gargalhadas, oportunidade para prestarem rebarbativa homenagem à genitora do suarento e diarreico Sir Malcolm. Mas após a fatídica moqueca, como dizíamos, dirigiu-se a comitiva ao Almoxarifado da Prefeitura, do qual retiraram dois ou três caixotes que passaram para o bagageiro do Bentley. Na oportunidade — e o fato foi documentado pelo trêfego repórter do Correio do Sul, Mazinho de Andrade — o diplomata foi encarregado de fazer chegar às mãos de sua Majestade Real, como presente da Princesa do Sul, um estojo contendo 65 dos afamados e excelentes pios de caça, de fabricação local. Dias após, quando sobrou tempo a um gentil terceiro secretário do Consulado, que mais se preocupava com suas relações com os garotos de programas de Ipanema do que com as de seu país com o Brasil, o lindo estojo com os pios foi remetido pela mala diplomática para Londres. Nessa capital, funcionários do Foreign Office endereçaram o volume ao Palácio de Buckingham para ser entregue à real destinatária. Lá, homens de elite do Serviço Secreto Inglês, o famoso M4, após quinze dias de minuciosos exames, chegaram à conclusão de que não se tratava de uma bomba nem de algo de comer que pudesse fazer mal à rainha. Fez-se finalmente a luz e deduziram que era mais um dos cruéis instrumentos usados pela mestiçada dum país do terceiro mundo para massacrar a fauna. Mas presente é presente e os pios foram entregues à legítima dona. O elegante estojo de jacarandá ficou algumas semanas, intocado, sobre um móvel no dormitório real. Até que, certa noite, insone pela irritação que lhe causara uma discussão com Lady Diane, resolveu S.M.R. abrir a misteriosa caixa. Ficou maravilhada com o lindo polimento da madeira de lei com que eram feitos os pios e mais perspicaz que todos os seus experientes agentes do célebre M4 logo descobriu que os pios de caça eram pios de caça mesmo. Manuseou-os, sentiu-lhes o torneamento macio e perfeito e sorriu agradecida pela originalidade da amável oferenda. Fechou o estojo, tomou um Valium e adormeceu. Na noite seguinte assaltou-a novamente a insistente insônia, mas a rainha prometera-se não mais tomar o poderoso soporífero. E enquanto não lhe chegava o sono, tornou a admirar os pios, até que finalmente decidiu experimentá-los. Cada noite soprava em dez deles e ficou encantada, mesmo não tendo a prática que têm os caçadores, com o maravilhoso som que reproduziam. Porém, muito embora o augusto sopro fosse fraco e discreto, não deixou de preocupar a segurança do Palácio, que nos primeiros dias se alvoroçou, pensando tratar-se de algum complô para eliminar a distinta dama. O príncipe Philip, que ocupava aposentos contíguos aos da esposa, depois de alguma lucubração, inferiu que sua ilustre companheira estava testando o novo apito proposto pela International Board para as arbitragens de futebol. E o sétimo dia, melhor dizendo, noite, não foi de descanso para a famosa mulher. Faltavam cinco pios para terminar e a soberana, ao soprar no terceiro, sentiu um “frisson” percorrer-lhe o corpo, um calor na nuca, uma comichão nas partes mais íntimas. O príncipe consorte, no quarto ao lado, também ao ouvir o pio provou da mesma sensação que a real esposa: um súbito rejuvenescer, corno se tivesse trinta anos. Aí, num gesto insólito para o seu disciplinado temperamento, encaminhou-se para a porta que ligava os dois dormitórios e arrombou-a com um forte pontapé, penetrando no aposentos de Elizabeth, coisa que só fazia quando necessitava de um comprimidozinho de magnésia bisurada. E vislumbrou, fremente e maravilhado, no alvo e amplo leito real, a gloriosa esposa que docemente o aguardava. Amou-a homericamente. Era o efeito do pio da fêmea do nosso modesto caipira sabiá despertando em dinastias de mil anos a já adormecida disposição para o amor. Na manhã seguinte o milagroso pio foi separado dos demais e cuidadosamente guardado em secretíssimo cofre pela própria rainha, do qual começou a sair regularmente a cada quinze dias para produzir o mágico som que manifestava em ambos os apetites para o mais antigo dos jogos praticados por um casal.</p>
<p>Anos após, já deputado federal, o ex-prefeito Teodomiro Ferraz foi procurado na Câmara por Lord Christian Wawell, embaixador britânico em Brasília que, seguindo instruções diretas do Palácio de Buckingham, outorgou-lhe medalha por relevantes serviços prestados à Inglaterra, Escócia e País de Gales e ainda a comenda de Cavaleiro da Ordem do Feliz Matrimônio (O.F.M), criada por Eduardo III em julho de 1372. Desde então, o nosso simpático parlamentar não perde oportunidade para, nas ocasiões solenes, exibir no peito tais galardões, embora atribua a concessão deles à sua inativa máquina de fazer respingos, copiada pela cidade de Manchester, e também aos originais trabalhos que, em 1950, quando era aplicado aluno do Liceu Cachoeirense, redigiu sobre a poesia inglesa do século XVII. E só recentemente, graças a exaustivas investigações do historiador e escritor Miguei Depes Tallon, descobriu-se o conteúdo dos três misteriosos caixotes que saíram do Almoxarifado da Prefeitura para a mala do Bentley. Tratava-se de antigos apitos para locomotivas, manufaturados pela Thonicroft Limited, de Glasgow, usados até fins de 1925 nas vetustas máquinas da Leopoldina, gentilmente cedidos ao governo britânico para serem expostos no Real Museu Ferroviário. Como e por que foram parar no depósito da municipalidade ainda não se descobriu. Pesquisa-se, porém. Sobre pios e apitos da terra do Rubem Braga era o que tínhamos para contar.</p>
<p>[Transcrito do livro A rainha que piava e outros contos, IHGES, 1997.]</p>
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		<title>João Bonino Moreira &#8211; Biobibliografia</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:29:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>João Bonino Moreira nasceu em Santa Teresa (ES) em 1931. Estudou em Vitória e, em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde residiu durante vinte anos. Aposentou-se como bancário em 1983. João Bonino é um dos talentos literários revelados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo no auge de seu investimento na publicação [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>João Bonino Moreira nasceu em Santa Teresa (ES) em 1931. Estudou em Vitória e, em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde residiu durante vinte anos. Aposentou-se como bancário em 1983.</p>
<p>João Bonino é um dos talentos literários revelados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo no auge de seu investimento na publicação de obras de literatura. Com o selo do IHGES Bonino publicou os livros O presidente nu (1997), A rainha que piava e outros contos (1997) e O necrologista e outros escritos (1998). Os dois últimos são livros de contos. O primeiro é o único fragmento remanescente de um suposto romance perdido num incêndio. Obra sui-generis, O presidente nu apresenta o que se poderia chamar de ficção editorial, uma vez que, ao fragmento remanescente do romance e às explicações de Bonino sobre a perda dos originais, se somam um prefácio e duas apresentações que teriam sido escritas para a edição integral, escritas por Renato Pacheco, Luiz Guilherme Santos Neves e Miguel Depes Tallon. O presidente nu é um texto lúdico de concepção individual — ou seja, de João Bonino — e execução coletiva, a partir da parceria dos escritores acima referidos.</p>
<div style="text-align: center;">
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