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	<title>Arquivos José Anchieta de Setúbal &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos José Anchieta de Setúbal &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Transportes &#8211; A lancha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 20:02:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[José Anchieta de Setúbal]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Lanchas para Paul, Vila Velha. Acervo Edward Athaíde. De Paul à capital e vice-versa a Companhia Central Brasileira de Força Elétrica mantinha em funcionamento, em horários sincronizados com os dos bondes, uma lancha das duas que possuía para o transporte de passageiros na travessia da baía de Vitória. Eram bem cuidadas e seus assentos interiores [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-3iHZBY9_M3A/WIJwE9zDZYI/AAAAAAAALSw/dcxoDNdbOU8FB8sGc_zxkYuPv3CmbBEcACLcB/s1600/lanchas%2BVila%2BVelha.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Lanchas para Paul, Vila Velha. Acervo Edward Athaíde." border="0" height="385" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/lanchas2BVila2BVelha.jpg" class="wp-image-5790" title="Lanchas para Paul, Vila Velha. Acervo Edward Athaíde." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Lanchas para Paul, Vila Velha. Acervo Edward Athaíde.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
De Paul à capital e vice-versa a Companhia Central Brasileira de Força Elétrica mantinha em funcionamento, em horários sincronizados com os dos bondes, uma lancha das duas que possuía para o transporte de passageiros na travessia da baía de Vitória. Eram bem cuidadas e seus assentos interiores — no meio da lancha e nas laterais — eram bancos de frisos estreitos de madeira, guardando entre si pequenos espaços, e muito limpos e envernizados.</p>
<p>Uma das lanchas, a Santa Cecília, tinha capacidade para oitenta passageiros e mais quatro tripulantes. Com o mesmo número de tripulantes, a Elizabeth transportava, na sua lotação máxima, cento e dez passageiros.</p>
<p>Essas lanchas contavam com quatro tripulantes devidamente uniformizados: dois marinheiros encarregados da limpeza e da amarração e desamarração na chegada e saída do cais de atracação, além de terem, por certo, outras tarefas secundárias; um motorista e um mestre-piloto.</p>
<p>Todos desempenhavam os seus respectivos misteres com o maior profissionalismo e trato urbano. Apesar de modestamente vestidos, eram impecáveis, apresentando-se com os uniformes limpos e em ordem. O motorista, quando em atividade, não largava um generoso chumaço de estopa com que, de instante em instante, alisava os canos de metal amarelo que compunham as tampas de proteção do motor, dando o mesmo trato às alavancas de marcha e aceleração.</p>
<p>O mestre-piloto, no seu posto e com uniforme de brim azul claro, paletó fechado até a gola, quepe azul e branco na parte de pano e pala preta, dava as ordens de partida e de parada da lancha ao motorista por meio de sinais que eram transmitidos da frente de comando, seguro no timão, olhos fixos à frente e ao mar. Esses sinais eram dados através de uma cordinha estendida até um sinete que ficava sobre a cabeça do motorista. Pelas puxadas o mestre-piloto determinava o que o motorista devia fazer. De acordo com o que tinham convencionado entre si, os batimentos do sinete, se curtos ou longos, repetidos quantas vezes fossem, indicavam a hora da partida, das marchas a serem passadas, se fortes ou de velocidade, se para frente ou de ré, até o desligamento do motor, com a lancha atracada. Nada se fazia sem a ordem do mestre, mesmo porque na baía de Vitória navegavam embarcações dos mais variados tipo, porte e calado, tais como navios — cargueiros, de passageiros, de guerra —, veleiros, rebocadores, lanchas, barcos pesqueiros, canoas, botes de transporte às dezenas, chatas, barcaças, caíques, barcos esportivos etc. Era interessante ver o trabalho sincronizado dessa tripulação, principalmente quando a baía estava congestionada com essas embarcações, exigindo perícia nas manobras.</p>
<p>
<b>A última lancha da noite</b></p>
<p>O usuário que estivesse em Vitória e precisasse pegar o último bonde da noite em Paul arriscava-se a não consegui-lo se perdesse a lancha em direção àquele ponto. Quando isso acontecia ele ficava em Vitória em casa de parentes ou amigos, ou em pensões e hotéis, ou ainda socorria-se dos bancos das praças, perambulava pelas ruas ou, se mais atirado e descompromissado, circulava pelas casas de tolerância da cidade até amanhecer o dia. Táxi, nem pensar, pois, além de caro, a maioria dos retardatários não era afeita a esse tipo de condução, a não ser por motivos muito sérios.</p>
<p>O noctívago, inconformado com a partida da lancha e sem poder alcançá-la, corria para o cais dos botes, junto ao cais das lanchas, e contratava uma daquelas embarcações a remo para a travessia, sujeitando-se a atrasos por uma série de dificuldades, como a maré que, na sua vazante ou enchente, apresentava maior ou menor correnteza, a disposição do catraieiro e a força de suas remadas. Já na metade do percurso da baía se sabia da possibilidade ou não de apanhar o último bonde da noite. Se ele fosse avistado parado e iluminado era hora de começar a gritar, fazendo-se isso a pleno pulmões: &#8220;Espera! Espera!&#8221; No silêncio da noite, a baía tomada pela escuridão, a presença do bote só era identificada pela lanterna a querosene acesa na popa da embarcação e pelo &#8220;chuá&#8221; das remadas vigorosas e compassadas do catraieiro. Esses gritos não só eram ouvidos pelo fiscal que autorizava ou não a partida do bonde, como também pelos passageiros sonolentos, a grande maioria acomodada em seus lugares. Dependendo do fiscal e do apelo desses passageiros, o noctívago saltava esbaforido, alcançando a condução com gestos e voz de agradecimento pela espera.</p>
<p>Desses retardatários muitos eram reincidentes e quando acontecia de seus apelos não serem correspondidos tinham de voltar para Vitória no mesmo bote, agora sem aquela correria e pagando a passagem em dobro. A outra alternativa seria saltar no cais de Paul e seguir a pé pelos trilhos do bonde até chegar ao destino. Os percalços a enfrentar seriam apenas a escuridão da noite e os pequenos acidentes, como pisar em buracos do percurso ou dar topadas nos dormentes de sustentação dos trilhos. Fora isso, nada de violência, pois ninguém agredia ninguém.</p>
<p>Às vezes, durante a caminhada, um encontro era bem-vindo. As pessoas eram identificadas apenas pela voz, pois a escuridão era grande. Devidamente apresentados, identificando-se ou não, a caminhada prosseguia já se sabendo para onde cada um iria. Se o encontro acontecia em sentido contrário, trocavam-se cumprimentos.</p>
<p>O trajeto de Paul a Vila Velha, até a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, contava apenas seis quilômetros. Fazendo ou não todo o percurso, o sacrifício da andança tornava-se compensador, uma vez que era melhor que esperar pelo primeiro bonde até o amanhecer do dia, sem ter dormido, e arranjar uma boa desculpa, nem sempre convincente, para o atraso.</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução parcial autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p></blockquote>
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		<title>Transportes &#8211; O bonde</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[José Anchieta de Setúbal]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Bonde na Prainha, Vila Velha. anos 1940. Vila Velha primitiva dispunha, além de seu núcleo central, de três aglomerados urbanos importantes na sua formação, sendo eles Aribiri, Paul e Argolas. Aribiri e Paul surgiram em decorrência da inauguração da linha de bondes, em 1910, enquanto Argolas, das estações de trem da Leopoldina e da Vitória [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-nlS8RBvN-_8/WIJsOYDC2PI/AAAAAAAALSk/xChEpfpURW0pVnsqh26seymC3H21AqhiQCLcB/s1600/bonde.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Bonde na Prainha, Vila Velha. anos 1940." border="0" height="436" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/bonde.jpg" class="wp-image-5805" title="Bonde na Prainha, Vila Velha. anos 1940." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Bonde na Prainha, Vila Velha. anos 1940.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Vila Velha primitiva dispunha, além de seu núcleo central, de três aglomerados urbanos importantes na sua formação, sendo eles Aribiri, Paul e Argolas. Aribiri e Paul surgiram em decorrência da inauguração da linha de bondes, em 1910, enquanto Argolas, das estações de trem da Leopoldina e da Vitória a Minas.</p>
<p>Aribiri localizava-se mais ou menos no meio da linha de bondes e Paul no fim, às margens da baía de Vitória. O outro extremo da linha ficava em Piratininga, na entrada para o Batalhão do 3º BC, antes 50º BC e hoje Batalhão Tibúrcio. Este ponto era parada obrigatória e ensejava o desembarque e embarque de pracinhas e oficiais, que entravam no Batalhão para as suas obrigações militares ou dele saíam. Dificilmente uma pessoa à paisana, sem assunto a tratar naquela paragem, tomava o bonde para no mesmo retornar no percurso de volta. Geralmente ela o aguardava na pracinha da Matriz — Igreja Nossa Senhora do Rosário —, próximo ao famoso e conhecido bar Ponto Chic. Ao lado desse estabelecimento comercial ficava a casa paroquial onde, além do pároco da cidade, hospedavam-se autoridades católicas, principalmente em dias festivos da Santa Sé.</p>
<p>O bonde proveniente de Paul fazia a sua última parada para apanhar ou deixar passageiros no ponto que antecedia Piratininga, nas proximidades do bar Ponto Chic, seguindo daí, sem mais parar, até Piratininga. Coincidindo com o horário da saída dos militares do 3º BC, a condução era aguardada com ansiedade, transportando-os até outros pontos de Vila Velha, ou mesmo até Paul, final da linha, de onde seguiam com destino a Vitória. Chegado o bonde, os passageiros acotovelavam-se por um lugar sentado. Aqueles que não conseguiam esse conforto apinhavam-se pelos estribos, pendurados em seus balaústres, mas uma coisa era certa: soldado raso, cabo ou sargento estavam impedidos de se assentar nos três primeiros bancos, que somente podiam ser ocupados pela oficialidade e permaneciam vazios caso nenhum oficial estivesse presente por ocasião do embarque, uma das exigências da rígida disciplina militar. Aqueles que desobedecessem a essa ordem ficavam sujeitos a penalidades como advertência, recolhimento ao quartel e outras mais severas. Os passageiros comuns ocupavam os lugares que melhor lhes aprouvessem.</p>
<p>Bastante interessante era o final da linha, em Paul. O bonde deixava os passageiros pelo lado esquerdo, com o estribo sobre o beiral de uma casa comercial, sem tocá-lo e, pelo lado direito o estribo, nas mesmas condições do primeiro, sobre calçada a céu aberto, com uma mureta de proteção ao cais de bote abaixo, sustentada por pilares de cimento armado traspassados por dois canos galvanizados. Tanto de um lado como de outro os passageiros que saltavam do bonde tinham acesso livre ao abrigo da estação das lanchas, fosse para tomar a lancha de imediato, fosse para aguardá-la, se ainda não estivesse atracada.</p>
<p>A casa comercial que mencionamos anteriormente abrigava um modesto bar onde podiam fazer pequenos lanches aqueles que aguardavam a chegada do bonde ou das barcas. O fato é que todos os fregueses desse pequeno estabelecimento comercial eram passageiros do sistema.</p>
<p>* * *</p>
<p>As manobras para engate e desengate do reboque ao bonde eram demoradas. Até concluí-las o motorneiro usava quatro vezes a cabine de comando. Só então partia em sua rota imutável. Essa operação um tanto quanto demorada dava-se apenas em dois lugares: em Paul e no centro Vila Velha, atrás da Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Essas manobras aconteciam quando o bonde conduzia o reboque e o deixava nos lugares mencionados anteriormente para ganhar os seus trilhos principais em demanda dos respectivos pontos extremos: Paul e Piratininga.</p>
<p>Nós, como estudantes do Ginásio Espírito Santo — como era conhecido o Colégio Estadual do mesmo nome —, tomávamos o bonde das onze horas para com folga chegar ao educandário, cuja entrada para as salas de aula se dava ao meio-dia. E como fazíamos? Já devidamente paramentados com o absurdo uniforme exigido, ficávamos na espreita e na escuta aguardando o bonde, cuja chegada era denunciada pelo ranger dos trilhos na curva fechada da confluência da avenida Jerônimo Monteiro com a rua Luciano das Neves.</p>
<p>A sua passagem ficava evidenciada no sentido Piratininga pelo cantar em alto e bom som de suas rodas de aço em atrito apertado com os trilhos. Em assim ouvindo, nesse exato momento encontrávamo-nos a mais de um quilômetro de distância. Morávamos num sítio à margem e um pouco para dentro da estrada que naquele tempo ligava Vila Velha à Barra do Jucu, hoje avenida Professora Francelina Carneiro Setúbal, nome de nossa saudosa e querida mãe, na região chamada de Apicum do Poço, agora denominada genericamente como bairro Itapoã, onde atualmente se encontra um posto de gasolina com o mesmo nome.</p>
<p>A esse sinal das rodas em atrito com os trilhos, de pasta escolar ora na mão, ora embaixo do braço, corríamos esbaforido para alcançar o famoso bonde da estudantada, que passava às onze horas, num ponto que antecedia o da ruidosa curva. Na verdade nunca o perdíamos, pois a manobra de soltar e engatar o reboque proporcionava-nos o tempo necessário para alcançá-lo.</p>
<p>* * *</p>
<p>Para falar dos bondes temos que falar também de sua tripulação, que era composta de motorneiro, condutor, fiscal e fiscal geral. Essas categorias distinguiam-se umas das outras pelas indumentárias. Embora todos trajassem uniformes cáqui e quepes do mesmo tecido, havia uma leve distinção, quase imperceptível para os desavisados, entre as categorias. No quepe, de base marrom, estava a maior diferença no que se referia à fiscalização. Se nessa base houvesse uma só listra fina e branca, tratava-se de um fiscal iniciante; se duas, de um fiscal graduado; se três, de um fiscal geral.</p>
<p>O motorneiro tinha a função e a responsabilidade de acionar o motor do bonde e conduzi-lo. E o condutor? Seria ele um outro motorneiro menos graduado? O nome dava a idéia de quem conduzia alguma coisa para lhe dar movimento, entretanto tratava-se apenas do cobrador de passagens.</p>
<p>O fiscal permanecia quase todo o tempo na parte traseira do bonde, geralmente de pé, observando tudo. Autorizava a partida do veículo e também a parada, quando não o fazia o passageiro. Acompanhava e fiscalizava as cobranças efetuadas pelo condutor que, por sua vez, registrava-as num relógio fixo, preto e grande, localizado no interior do bonde, no alto e ao fundo, à vista dos passageiros. Ficavam estes passageiros de frente ou de costas para ele, dependendo da posição do motor que impulsionava o bonde, que dispunha de dois, um em cada extremidade, revezados sempre nos percursos de ida ou de volta.</p>
<p>O tilintar de cada passagem registrada era estridente, acionada por uma corda fina de couro embutida no relógio ao alcance dos seus operadores. Se o condutor deixava de fazer o registro das passagens a contento do fiscal este, com a sua autoridade inquestionável, depois de contar movimentava o relógio até atingir o número de passageiros por ele verificado na viagem.</p>
<p>O fiscal geral era o fiscal dos fiscais. Vagava de um bonde para outro, sem hora determinada, examinando os boletins de ocorrência e apondo o seu visto. Fazia e desfazia escalas de serviço. Era o todo poderoso do transporte de bondes.</p>
<p>O condutor procedia às cobranças sob quaisquer condições de tempo. Fizesse sol, chuva ou frio, locomovia-se de banco em banco, por fora, pelos estribos do bonde, agarrando-se aos balaústres, ágil e sem dificuldades, isso quando não havia passageiros nas laterais. Em havendo, o que era comum nos horários de pique, o condutor tornava-se um malabarista. Roçava de modo inconveniente e encurvado sobre os passageiros que, por instinto, viravam-se de frente à sua passagem forçada.</p>
<p>O trabalho do condutor exigia no correr do dia um esforço físico incomum. Atestavam essa afirmativa as mãos calejadas que ostentava. Esses calos estendiam-se até os pulsos porque as mãos fechadas, que seguravam as moedas, dobravam-se para que os punhos sustentassem na pegada dos balaústres o seu corpo. Eram calos consolidados. Só o condutor os tinha. A responsabilidade da arrecadação da grana era toda sua. No seu mister atuava com muita agilidade e vivacidade para que nenhum passageiro furtivo escapasse da cobrança. Por conveniência da profissão, na hora do troco e da cobrança da passagem sustentava as pesadas moedas em circulação — os réis — empalmadas junto aos dedos. Desse jeito, ao mover as articulações, movia também as moedas umas contra as outras num retinir que, ao estender a mão, soava aos ouvidos do passageiro como um gesto de cobrança. Além das moedas que portava, era comum ver, dobradas e enlaçadas em seu dedo médio, cédulas de papel de valor maior, só recolhidas ao bolso depois de passado o troco aos passageiros de quem as tinha recebido. Os ponguistas também propiciavam ao condutor uma luta inglória, pois nunca conseguia cobrar-lhes a passagem. Eles tomavam o bonde longe do condutor para saltar um pouco mais adiante, burlando a sua ação.</p>
<p>* * *</p>
<p>Mulher não viajava nos estribos do bonde. Se o veículo estivesse lotado e não houvesse lugar para ela sentar, quase sempre alguém se levantava, comportamento muito próprio da época. Caso isso não acontecesse, viajava em pé, entre os bancos.</p>
<p>A passagem do bonde custava, por pessoa, quatrocentos réis. A metade do percurso até Aribiri, em ambos os sentidos, custava duzentos réis. No reboque, considerada condução de segunda classe, pagava-se metade desses valores. Os estudantes gozavam, nas passagens, de um desconto de cinqüenta por cento controlado pela Companhia Central Brasileira de Força Elétrica com fornecimento de carteiras de passes destinadas a durar exatamente o período escolar de um mês. Para que esses passes fossem renovados, mensalmente o educandário dava o visto nas carteiras prestes a expirar, comprovando que os seus portadores realmente eram estudantes em atividade escolar.</p>
<p>Tripulantes e passageiros, pelos encontros constantes no vaivém das viagens, acabavam se familiarizando uns com os outros. Da nossa parte gravamos os nomes e as imagens de alguns desses profissionais. Como condutores: João de Jaburuna, Maurício, Floriano — apelidado de Beija-Flor — e João Cabeção. Como motorneiro lembramos Alarico, residente em Aribiri e conhecido por ser um nordestino muito falante e também pelas suas meias-paradas dos bondes, favorecendo o embarque e desembarque de passageiros fora do ponto. O seu Hermínio, um fiscal sempre atencioso para com a clientela, retinha o veículo sob a sua responsabilidade se alguém mais distante necessitasse pegá-lo.</p>
<p>Se uns são lembrados pelos seus favores, outros marcaram ponto em sentido contrário. Nesse rol incluímos a figura pouco simpática, pelo menos para nós quando estudante, de um fiscal cujo nome não nos ocorre. Sabemos que tinha uma das vistas vazada e por isso, pejorativamente, era conhecido como Galo Cego. Entretanto, ninguém ousava chamá-lo pelo apelido, muito mais por respeito que por medo.</p>
<p>* * *</p>
<p>Segundo Milton Caldeira, ao conseguirem as autoridades militares a extensão da linha de bondes até o 50º BC, alguns anos após a instalação dessa praça de guerra em Piratininga, em 1917, essas mesmas linhas adentravam os seus domínios, terminando à frente dos alojamentos. A verdade é que os bondes não se limitaram, no começo do seu trajeto, a Piratininga, como nas últimas e incontáveis viagens que iam até a sua guarita. As suas linhas teriam sido retiradas de dentro dessa unidade de guerra, acredita-se, por uma questão de estratégia e de segurança. Com certeza os comandos daquele batalhão, por dedução própria ou determinação da região militar a que estavam subordinados, tomariam tal decisão.</p>
<p>A partir de então os bondes se limitaram a chegar até à guarita do Batalhão, como inicialmente se fazia. Hoje, com a vigilância mais rígida, antes de se chegar àquele portal de entrada, passa-se por uma primeira guarita localizada bem próximo à gruta de Frei Pedro Palácios, ao lado da entrada da ladeira de pedras do Convento da Penha.</p>
<p>* * *</p>
<p>O bonde era um transporte soberano. O seu rastro, os trilhos, eram respeitados. Nenhum outro veículo se opunha ao seu trajeto porque andava na linha, que às vezes ocupava uma ou as duas margens das calçadas, quando não o fazia pelo centro de ruas e avenidas. Não dividia espaço com os outros veículos, não porque não o quisesse, mas o seu sistema é que ditava tais limitações. Como andar na linha era o seu lema e os concorrentes, em grande profusão, não necessitavam fazê-lo, rodando livremente por qualquer lugar e em qualquer sentido, aos poucos foi sendo empurrado para os seus abrigos até que não mais circulou.</p>
<p>Ponto final: Paul</p>
<p>Comércio</p>
<p>O ponto final de bonde, em Paul, por ser um local de espera para embarque e desembarque, ensejava ali e em suas adjacências a existência de um pequeno comércio. Além do barzinho que já mencionamos, havia cerca de meia dúzia de barraquinhas toscas de madeira e cobertas de zinco e vendedores ambulantes, que também tiravam proveito do local. Ali compravam-se bananas, laranjas e outras frutas.</p>
<p>A cana caiana era vendida de um modo muito engenhoso. Depois de descascada e cortada, suas rodelas eram espetadas na própria casca da cana. Essa casca era preparada em tiras largas e cuidadosamente aberta em várias lascas sem que a sua base fosse atingida. Da base, que servia para segurar, se abriam cinco tiras com as pontas afiadas onde se espetavam as rodelas descascadas da cana, formando com essa disposição uma espécie de buquê. Ao invés de flores, as saborosas rodelas, macias e doces que nem açúcar.</p>
<p>A estudantada, na espera do bonde, vindo de bote ou de barca até Paul, era grande consumidora desse produto, como também das laranjas Bahia, pêra e seleta.</p>
<p>Foi nessa época, na década de 40, que surgiu a máquina de descascar laranja. Com ela os laranjeiros aumentaram consideravelmente a venda dessas frutas. Com essa máquina descascavam laranjas com presteza e uniformidade, tirando fitas finas e deixando-as sem nenhum ferimento nos seus gomos, produzindo um bagaço inteiriço depois de chupadas. Com esse bagaço a meninada desocupada ou mesmo os ambulantes que mantinham ali o seu ponto faziam embaixadas, controlando-o com um dos pés descalços, disputando quem mais vezes nele batia sem deixar cair no chão, como se fora uma bola.</p>
<p>Nesse comércio ambulante uma guloseima muito festejada eram as cocadas vendidas em tabuleiros. A nossa preferida tinha o sabor de laranja, um paladar de que até hoje não encontramos igual. O amendoim torrado, o bolo de aipim, o cuscuz, tudo fazia do ponto de espera um meio para satisfazer o nosso apetite voraz de criança, de adolescente mesmo, e estimular o gasto das nossas parcas economias em tostões. Até os passes escolares, nesse mercado da comilança, viravam moeda.</p>
<p>Telefonia</p>
<p>Os atrasos de bondes ou lanchas permitiam que os seus usuários testemunhassem, nesse tempo, como funcionava a telefonia entre Vila Velha e Vitória, haja vista que ao lado do bar, em Paul, funcionava a estação de recebimento e transmissão das chamadas telefônicas entre as duas cidades.</p>
<p>As telefonistas, ao atender e completar ligações pedidas ou recebidas, o faziam em voz alta e a conversação era ouvida por quem estivesse na pequena plataforma aguardando o bonde. O timbre das suas vozes ditava a boa ou má qualidade das chamadas. Se elas falavam alto e repetiam a recepção ou a retransmissão, isso significava que havia irregularidades numa das pontas dessa linha ou mesmo nas duas, quiçá em todo o sistema, o que não raro acontecia.</p>
<p>Telefonar de Vila Velha para Vitória era como fazer uma ligação interurbana, não comparável às de hoje, mas àquelas em que as ligações nem sempre se completavam ou acabavam não acontecendo. Em certas ocasiões seria preferível mandar um recado a falar de Vila Velha para Vitória e vice-versa por causa da demora. Segundo os entendidos, toda essa complicação era causada pela sobrecarga das linhas, ocupadas pelos usuários, embora o número de aparelhos nas duas cidades fosse pouco mais de duas centenas.</p>
<p>Em Vitória ficava a central, que polarizava todas as chamadas. Vila Velha e Paul eram subestações. Além do aparelho, a telefonista era peça chave desse sistema. Com um fone colado ao ouvido, o aparelho transmissor fixo à sua frente, uma manivela para acionamento e fios de conexão, estava preparada essa operadora para entrar em atividade.</p>
<p>Para comunicar-se com Vitória o usuário, do seu telefone residencial ou comercial, acionava o posto telefônico de Vila Velha, estabelecendo com a funcionária de plantão mais ou menos o seguinte diálogo:</p>
<p>— Telefonista, por favor, quero uma ligação para Vitória.</p>
<p>— Um momento, — era a resposta da telefonista, que em seguida acionava a manivela junto ao aparelho retransmissor conectado à subestação de Paul, dizendo:</p>
<p>— Paul, telefonista de Vila Velha chamando.</p>
<p>— Estou ouvindo, fala Vila Velha.</p>
<p>Não sendo a resposta compreensível, a telefonista instada voltava a se manifestar:</p>
<p>— Vila Velha, Paul falando! Fale mais alto, não estou ouvindo. O bonde acaba de chegar. O barulho do pessoal descendo e o motor do bonde ligado não me deixam ouvir direito. Favor repetir.</p>
<p>Caprichando na voz, Vila Velha respondia:</p>
<p>— Paul, quero uma ligação para Vitória, para o telefone 85 (poderia ser um outro qualquer).</p>
<p>E tome manivela.</p>
<p>— Entendido, Vila Velha! Aguarde um momento, por favor, vou chamar a central.</p>
<p>— Vitória central, Vitória central, Paul chamando! Por favor, Vila Velha quer falar com Vitória.</p>
<p>— O número do telefone, por favor!</p>
<p>— 85, central!</p>
<p>E a resposta vinha de lá, a toque de manivela:</p>
<p>— Paul, aguarde. Vou verificar se a linha está disponível.</p>
<p>— Entendido, central.</p>
<p>E Paul aguardava o retorno. Se fosse favorável, Vitória voltava ao circuito dizendo:</p>
<p>— Paul, central chamando! Central chamando, Paul!</p>
<p>— Pode falar, Central.</p>
<p>— Linha 85 à sua disposição! Linha 85 à sua disposição!</p>
<p>— Obrigada, central.</p>
<p>E a telefonista entrava em contato com o telefone 85, dizendo:</p>
<p>— Aguarde um momento, por favor. Vou passar a sua ligação para Vila Velha.</p>
<p>Conectando Vila Velha, acionando a manivela, falava:</p>
<p>— Vila Velha, Paul chamando! Alô, Vila Velha, Paul chamando! Linha 85 disponível.</p>
<p>— Obrigada, Paul!</p>
<p>Mas se a linha estivesse ocupada, tudo voltaria a se repetir e tome tempo de espera.</p>
<p>Com a linha aberta para Vitória, a telefonista de Vila Velha mais que depressa transferia a ligação:</p>
<p>— Alô, minha senhora ou meu senhor, a sua chamada para o telefone 85 foi completada. Favor falar.</p>
<p>Se a telefonista já houvesse identificado o dono ou a dona do telefone ou a sua voz, não dizia senhor ou senhora. Declinava o nome do cliente, o que era muito comum. A fala dele ou dela, sendo familiar, tornava fácil a identificação. Se o assunto interessava à telefonista, no correr da conversa ela metia o bedelho arriscando um palpite entre os interlocutores, fosse chamada ou não a fazê-lo.</p>
<p>Rechaçada ou dispensada da participação, ninguém poderia impedi-la de continuar ouvindo o diálogo estabelecido, a menos que por livre e espontânea vontade tirasse o fone do ouvido. Por isso as telefonistas eram consideradas como as pessoas mais bem informadas da praça e, embora apresentassem ares de discrição, novidade era com elas mesmas. Pelo visto, a conversação múltipla que hoje é usada também usavam-na as nossas telefonistas do passado, como precursoras que bisbilhotavam a vida alheia.</p>
<p>Ambiente e tipos humanos</p>
<p>O meandro desse espaço estava delimitado pelos cais das barcas e dos botes, de frente para a baía de Vitória; pelo lado leste, com o sopé do morro do Atalaia terminando em uma pedreira, com um dos lados em declive de fácil acesso onde se assentava a meninada durante a espera do bonde. Enquanto isso conversavam, comiam ou bebiam alguma coisa. Pelo lado oeste ficava a fábrica de laminados de madeira Brasil-Holanda e, pelo sul, o espaço aberto em que se assentava a linha de bondes. Em toda essa área pululavam pessoas e animais domésticos conhecidos pelo comportamento e presença constantes.</p>
<p>Atraídos pelos bagaços de cana e de laranja, cascas de banana e restos de outras frutas ou verduras, cabras e bodes desciam o morro do Atalaia para ali se alimentarem. Dentre esses animais, um se destacava pelo seu porte, apresentando cor preta luzidia com um ligeiro queimado, chifres proeminentes e grande cavanhaque no mesmo tom da sua pelugem. Tratava-se do famoso bode Cheiroso. Apesar do aspecto de poucos amigos, tornara-se amistoso, deixando-se mesmo tocar quando lhe era oferecido algum alimento.</p>
<p>Quanto aos elementos humanos, perambulava nesse delimitado espaço um que era muito notado, sendo considerado especial e olhado com respeito dada a sua fragilidade e desempenho na busca pela sobrevivência. Ele era pedinte e ao mesmo tempo trabalhador. Tratava-se de um menino franzino, branco, cabelo curto espinhado, quase raspado, com ligeira atrofia numa das pernas e no braço esquerdo, o que não lhe permitia estendê-lo por completo. Sua boca, quase sempre entreaberta, mostrava os lábios molhados, principalmente quando falava. Sua voz era pausada e as palavras pronunciadas muitas vezes de maneira incompleta, mas assim mesmo ele se comunicava, fazendo-se entender. Pelos defeitos físicos descritos, o seu andar era normalmente lento e claudicante, com um ligeiro puxar de perna. Tinha, quando o conhecemos, uns dez anos de idade, aparentando, no entanto, menos, e, apesar de seus olhos não o denunciarem, era um excepcional voluntarioso.</p>
<p>Desconhecíamos, como as demais pessoas que por ali circulavam, o seu nome, mas todos o tratávamos por Piúca. O seu modo de vestir era sempre o mesmo: trajava um macacão de algodão ou brim, listrado, inteiriço, de mangas e calças curtas, com bolsos dispostos na frente e atrás. A abertura era na frente, com botões até a altura da cintura. Essa indumentária deixava-o livre dentro dela, permitindo-lhe movimentar-se com facilidade. Durante anos o vimos naquela paragem e, às vezes, perambulando pelo lado de fora dos armazéns do cais do porto de Vitória. Nunca o encontramos vestindo outro tipo de roupa. Ele aparentava uma felicidade própria, pois andava livre sem que ninguém lhe seguisse os passos ou ordenasse faça ou não faça isso. Não se queixava. Todos entendiam e respeitavam o seu modo de vida.</p>
<p>Piúca dirigia-se às pessoas somente para pedir, e seu pedido era um só: estendendo a mão, principalmente aos passageiros que saltavam do bonde ou se encontravam à espera.</p>
<p>— Me dá um tutão pra comprá um pão!</p>
<p>E assim ia juntando os trocados e comprando o seu pão de cada dia.</p>
<p>Quando estava mais inspirado, ao dirigir-se a uma senhora para fazer o seu costumeiro peditório, dizia tranqüilamente:</p>
<p>— Mamãe, me dá um tutão pra comprá um pão!</p>
<p>Algumas dessas pessoas se compadeciam e davam o trocado solicitado. Outras, pelo contrário, o espantavam, dizendo:</p>
<p>— Vê lá se eu tenho idade para ter um filho desse tamanho?</p>
<p>Ou então:</p>
<p>— Cruz, credo ! Os meus filhos estão em casa. Saia daqui menino.</p>
<p>Havia senhoras que, dependendo do estado de espírito, se emocionavam com o pedido do Piúca, quando ele as chamava de mãe. Certa feita uma bela moça, abraçada ao seu namorado ou noivo, enlevada por aquele momento romântico e de ternura que só quem vivenciou ou vivencia sabe entender, ficou sensibilizada e envaidecida quando o menino Piúca a ela se dirigiu chamando-a de mãe e fazendo o mesmo pedido de sempre. Ali por perto rondava o bode Cheiroso, comendo as migalhas do chão ou que lhe eram oferecidas por alguém. A jovem mulher, apanhada de surpresa ao ser chamada de mamãe, voltou sua atenção para o pedinte e, grudada mais do que nunca ao seu par, toda melosa, exclamou:</p>
<p>— Veja, bem, que gracinha este menino me chamando de mamãe. Não é cativante o comportamento de uma criança como ele?</p>
<p>— Claro, — retrucou o parceiro, participando com sua amada da tirada do pedinte. Encorajada com a aquiescência, a moça resolveu fazer uma pergunta ao Piúca, na certeza de que a resposta que ia ouvir recairia na pessoa do seu amado:</p>
<p>— Meu filho, vou lhe dar o seu tostão, mas você vai me responder uma coisa: se eu sou a sua mãe, quem é o seu pai?</p>
<p>E Piúca, sem se fazer de rogado, apontou para o bode Cheir-oso e foi categórico na resposta, apesar de sua fala mole e arrastada:</p>
<p>— É o bode ali, mamãe!</p>
<p>E foi saindo de fininho com a boca entreaberta, um sorriso maroto e os lábios molhados de saliva, sem esperar nem pelo tostão prometido nem pela resposta decepcionante que lhe deveria dar a sua mãe postiça.</p>
<p>Dissemos que Piúca, além de pedinte, era um menino trabalhador. O seu trabalho consistia em catar grãos de café nos armazéns do porto de Vitória, caídos dos caminhões durante as cargas e descargas. Piúca se colocava perto deles e ali, abaixadinho, passava horas e horas juntando de grão em grão o café que escapava entre as linhas do tecido das sacas por sobre a cabeça dos estivadores, ou quando as sacas eram empilhadas umas sobre as outras. Outros grãos também escapavam da agulha do conferente, à porta de entrada dos armazéns, na conferência do produto e na verificação de sua mostra. De um em um, pacientemente, Piúca ia recolhendo os grãos de café e colocando-os em saquinhos de pano que levava para isso. Ao fim dessa cansativa tarefa, quase diária, apresentava os grãos a um freguês certo. Diz o ditado que &#8220;de grão em grão a galinha enche o papo.&#8221; Piúca, de grão em grão, sem que se apercebesse, no correr dos anos, deve ter juntado dezenas e mais dezenas de sacas de café. Segundo algumas pessoas que o acompanhavam mais de perto, foi com os recursos amealhados em seu trabalho que seus familiares adquiriram uma casa na qual se abrigaram e ao Piúca.</p>
<p>Essas foram as últimas notícias que tivemos dele. Nas ruas, nunca mais o vimos. Não sabemos se isso aconteceu pelo agravamento do seu estado de saúde ou porque estava escrito nas estrelas!</p>
<p>Macarroni! Macarroni! Macarroni!</p>
<p>Foram muitos os acontecimentos relacionados com os bondes. Uns alegres e pitorescos, outros tristes e marcantes. Vamos contar um dos casos pitorescos.</p>
<p>Os estudantes que pegavam o bonde das onze horas em Vila Velha preferiam, na sua grande maioria, ocupar o reboque por causa da passagem mais barata e também por ser menos elitizado, permitindo à meninada maior descontração para, em algazarra, brincar entre si. Ali eram trocados apelidos, corria-se nos estribos do reboque passando de balaústre em balaústre, saltava-se e pegava-se a condução em movimento. As travessuras se repetiam e se alternavam uma após outra. No reboque das onze horas fazia-se uma festa, já que na sua lotação predominavam os estudantes.</p>
<p>Essa brincadeira e essa liberdade se disseminaram de tal modo que por causa de uma delas experimentamos severa reprimenda da direção do Ginásio Espírito Santo, onde estudávamos, mais precisamente no salão nobre desse educandário. Antes que essa penalidade acontecesse, o chefe de disciplina, Tenente Josias, da Polícia Militar, determinou que um dos inspetores de classe fosse às salas de aula para convocar um a um os estudantes moradores de Vila Velha que tomavam o bonde antes do ponto Ataíde, conduzindo-os sem maiores explicações àquela sala de reuniões.</p>
<p>Compreendemos que, fosse lá por que fosse, a convocação dos estudantes estava atrelada a determinado trecho da linha de bonde em que eles o tomavam. Havia uma exclusão cujo motivo ignorávamos. Depois de acomodados nas cadeiras do salão nobre, apresentou-se o chefe de disciplina, para lá de sisudo e sério, no alto do seu um metro e sessenta mais ou menos, comunicando-nos que acabara de receber uma queixa registrada contra os estudantes de Vila Velha, referente a um determinado trecho da linha, formulada por um estudante do Colégio Americano conhecido como Barrinhos. Ele alegava que o sossego da sua família, especialmente do seu avô, estava sendo perturbado. Dissera que os estudantes, passageiros do reboque, ao passarem em frente à casa desse senhor — justamente na hora do almoço — deixavam-no atordoado em meio à gritaria dirigida a ele.</p>
<p>O local em que isso ocorria chamava-se ponto Cavalieri, e era o segundo após a estação de Aribiri. Antes de alcançá-lo, passava-se por um estreito corte de pedras, tão junto ao bonde que um passageiro desavisado que viajasse no estribo seguro ao balaústre levava um tremendo susto na impressão de que o paredão alcançaria suas costas. Esse corte, com mais de cem metros de extensão, de pedras irregulares, rasgado a ferro e a fogo, era um lugar sombrio de onde uma água escorria e gotejava permanentemente por entre as suas fendas ou ranhuras. Ambas as laterais, de altura duas vezes superior à do bonde, compostas de rochedos irregulares e úmidos, com a penetração, nas suas aberturas, de húmus envolvido com terra, permitiam que ali brotassem capins e outros vegetais que eram cortados pelos conservadores da linha de ferro, que, quando disso cuidavam, advertiam passageiros e a própria condução do iminente perigo de atingi-los.</p>
<p>Na saída desse corte de pedras deparava-se com um ponto de bonde e a casa dos Cavalieri. Constituía-se, na verdade, de duas casas tipo chalé, geminadas. Ambas as casas faziam frente para o ponto de bonde e uma delas, a do lado esquerdo, ostentava uma espécie de varanda embutida, de onde se viam instaladas no interior uma grande mesa, cadeiras, armário e guarda-louças, indicativos de uma sala de refeições, como na verdade era. Esse ambiente era especialmente devassado pelos bondes e não muito para quem passava a pé.</p>
<p>Coincidentemente, quando o bonde por ali passava, beirando as onze e meia, a família Cavalieri estava almoçando, e com ela o chefe do clã, um senhor de cabelos brancos rebaixados e vasto bigode também branco. Devia ser um desses muitos italianos que imigraram para o Brasil.</p>
<p>Um dia, no horário do almoço, o bonde repleto de estudantes, a família estava fazendo sua refeição junto a outros comensais e mais o velho Cavalieri. Sentado de frente para o reboque, ele saboreava uma suculenta macarronada. Comia e ao mesmo tempo abria um largo sorriso para os passageiros do bonde enquanto introduzia na boca generosas garfadas. Durante algum tempo os estudantes ficaram calados e impressionados com a sua avidez e apetite enquanto comia a macarronada, deixando-a pender pelos cantos da boca antes de encaminhá-la ao seu destino final com a ajuda do garfo.</p>
<p>A partida do bonde, no entanto, quebrou a mudez da moçada. Enquanto estavam parados ninguém se manifestara, mas aos primeiros movimentos das rodas sobre os trilhos assanharam-se os estudantes. Um deles deu um primeiro grito e os demais fizeram coro em alto e bom som, dirigido ao velho Cavalieri: Macarroni! Macarroni! Macarroni! O bonde sumia na curva, mas ainda ecoavam os repetidos gritos dos estudantes.</p>
<p>Na primeira vez o Cavalieri recebera a manifestação um tanto quanto surpreso, mas nos dias seguintes o coro se repetia estivesse o bonachão do Cavalieri comendo ou não a sua macarronada. Em lá estando o italiano, como sempre acontecia no horário de almoço, os colegiais esperavam a partida do bonde para começar a gritar. E era o mesmo refrão: Macarroni! Macarroni! Macarroni!</p>
<p>O pobre homem vinha até quase a porta de saída da sala de refeições, olhando a rua, gesticulando e bradando alguma coisa inaudível e abafada pelos gritos insistentes da garotada em euforia: Macarroni! Macarroni! Macarroni!</p>
<p>De fato, a brincadeira desrespeitosa não poderia durar mais tempo. Dever-se-ia estabelecer uma trégua para que se desse sossego ao saudável italiano. Nem trégua, mas um tratado de paz amistoso e incondicional a favor da parte prejudicada. Isso dependia de nós estudantes em não provocá-lo. Seu parente, o estudante Barrinhos, agiu muito bem ao levar o fato ao conhecimento da direção do Ginásio Espírito Santo e cremos que se procedeu da mesma forma com alunos de outros estabelecimentos de ensino de Vitória que andavam no visado reboque das onze horas, partícipes dessas provocações. Só assim o sossego voltaria a reinar à mesa de refeições dos Cavalieri.</p>
<p>O fato é que o chefe de disciplina, Tenente Josias, no salão nobre, não podendo punir discriminadamente a todos os indisciplinados que envergavam o uniforme do Ginásio durante a ocorrência por não identificá-los, já que o denunciante inteligentemente não os apontara, resolveu, no lugar da punição, aplicar uma severa advertência, sendo explícito: &#8220;Hoje ninguém será punido, mas se uma só queixa relacionada ao caso chegar novamente ao meu conhecimento, estejam certos de que todos vocês aqui presentes, com os seus respectivos nomes anotados, serão exemplarmente punidos com a suspensão das aulas por três dias.&#8221; E arrematou: &#8220;E as conseqüências serão imprevisíveis se reincidirem nessa injustificável provocação.&#8221;</p>
<p>Valeu. Sabíamos que tinha autoridade para assim proceder. Foi como água fria na fervura. O silêncio no ponto de bonde do Cavalieri na hora do almoço, durante a passagem do reboque das onze horas saído de Vila Velha, voltou a imperar. Até o próprio ofendido mostrava não acreditar no que os seus sentidos através dos olhos e ouvidos lhe transmitiam. Voltara a comer sorridente a sua macarronada. Encarava os estudantes do reboque com aquele mesmo sorriso que ostentava antes de ser molestado no seu sossego. Sem mais perturbações, às vezes chegava à mureta da sala de refeições e, sorridente, acenava para a meninada estudantil como se estivesse celebrando a paz e esta, se redimindo do malfeito, retribuía-lhe o mesmo gesto, com largos sorrisos que, por certo, enchiam de alegria o coração do velho e simpático italiano!</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução parcial autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>Primórdios do futebol</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[José Anchieta de Setúbal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Olímpico Esporte Clube, Vila Velha, ES, 1947. Revista Sport Ilustrado. O primeiro clube esportivo de futebol formado em Vila Velha foi fundado por volta de 1916 e recebeu o nome de &#8220;Campos Salles Football Club&#8221;. O futebol, esporte nascido na Inglaterra, chegou ao Brasil e logo se espalhou por todo o país, mantendo-se aqui, por [&#8230;]</p>
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</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/--bKRefOryW0/WIJqexiu0UI/AAAAAAAALSY/ourE6xrtXm8MEYarS8E9PJZfaCrp-eW9gCLcB/s1600/10-Olimpico-EC-Vila-Velha-ES.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Olímpico Esporte Clube, Vila Velha, ES, 1947. Revista Sport Ilustrado." border="0" height="194" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/10-Olimpico-EC-Vila-Velha-ES.jpg" class="wp-image-5832" title="Olímpico Esporte Clube, Vila Velha, ES, 1947. Revista Sport Ilustrado." width="320" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Olímpico Esporte Clube, Vila Velha, ES, 1947. Revista Sport Ilustrado.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p></p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<p>O primeiro clube esportivo de futebol formado em Vila Velha foi fundado por volta de 1916 e recebeu o nome de &#8220;Campos Salles Football Club&#8221;. O futebol, esporte nascido na Inglaterra, chegou ao Brasil e logo se espalhou por todo o país, mantendo-se aqui, por bastante tempo, as suas denominações inglesas.</p>
<p>Vila Velha não poderia ficar a reboque de Vitória sem ter pelo menos um time desse esporte. O pontapé inicial teria que ser dado. Fez-se então uma reunião com alguns aficionados, dentre eles Durval Araújo (Dongo), Aureliano Falcão Filho e Carlos Queiroz. Depois de tudo arranjado, foram convidados os companheiros que com aqueles vinham treinando em campo aberto e traves improvisadas. A partir de um consenso estabeleceu-se o nome da agremiação, homenageando-se o terceiro presidente da República do Brasil. Restava ainda escolher e demarcar o campo. Perto da residência de Durval Araújo, localizada no bairro Olaria, onde hoje funciona o Hospital Maternidade Dr. Antônio Bezerra de Faria, havia um local propício que precisaria ser preparado com antecedência. Primeiramente seriam arrancados alguns tocos que afloravam à terra e aplainadas pequenas saliências. Arrancado o capim existente outro o substituiria, sendo este obtido num pasto ao lado para que o transplante fosse bem sucedido. Concluída essa primeira etapa, as traves foram levantadas e demarcadas as quatro linhas do campo conforme as regras do jogo.</p>
<p>A inauguração aconteceu com festa, dela participando um dos clubes de Vitória, na certeza de que iria infligir uma fragorosa derrota ao time estreante. A vontade de fazer bonito na primeira partida encheu de brio os jogadores do Campos Salles. A defesa por parte dos <i>backs </i>deixou muito a desejar no início do jogo, obrigando o <i>goalkeeper</i> Aureliano a fazer defesas importantes para delírio dos entusiasmados torcedores. Mesmo assim, no começo do segundo tempo o placar registrava 2&#215;0 para os visitantes. Reiniciada a peleja, o <i>center-forward </i>Carino brigava como um leão na área do adversário, sendo alimentado nas investidas pelo ponta-esquerda Alberto Queiroz e o meia-esquerda Carlinhos Queiroz. Sendo um jogador forte e impetuoso, Carino não demorou a marcar o primeiro gol do seu time. Antes que o juiz apitasse o final da partida, com aplausos do público presente, Carino marcava o segundo e último gol.</p>
<p>Não venceu o Campos Salles, mas para um clube estreante o resultado estava pra lá de bom. Só o fato de não tomar a goleada prometida fora um grande feito. Desse primeiro jogo não conseguimos identificar a escalação completa do team de Vila Velha.</p>
<p>Assim foi o Campos Salles. Sabemos, com certeza, da sua existência e das pessoas interessadas em sua fundação, da localização de sua quadra esportiva, do nome de alguns jogadores e alguns de seu feitos, mas não conseguimos identificar ainda três dos componentes desse brioso time. Quem sabe alguém, mais tarde, tomando conhecimento desse nosso esforço e pesquisando, não identificará o team completo? Estaremos torcendo.</p>
<p>Os nomes dos ex-integrantes do Campos Salles de que dispomos são os seguintes:</p>
<p>a)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span><i>backs ou zagueiros </i>– o direito, Clovis Ramires, e o esquerdo, Dorval Almeida;<br />
b)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>linha média – Durval Araújo (Dongo) seria o <i>half </i>direito ou lateral direito; o <i>half </i>esquerdo ou lateral esquerdo é desconhecido para nós; e o <i>center half </i>ou centro médio, José Loureiro (Tamandaré);<br />
c)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>linha de frente – tivemos conhecimento de Carino Duarte de Freitas como <i>center-forward</i> ou centro-avante; de Alberto Carlos Queiroz (Bebé) como ponta-esquerda; e de Carlinhos Queiroz na meia-esquerda;<br />
d)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span><i>goalkeeper</i> – Aureliano Falcão.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
As partidas eram disputadas com equipes de Vitória e o acontecimento virava festa. As denominações das posições dos jogadores ainda se mantinham no inglês, a não ser as da linha de frente, que logo foram traduzidas para pontas esquerda e direita e meia esquerda e direita. A de <i>center-forward</i> só bem mais tarde passou para a de centro-avante. A linha média, constituída de <i>half </i>esquerdo e direito e <i>center-half</i>, o centro médio ou laterais esquerdo e direito avançados. A linha média hoje se confunde com os armadores e a linha de frente com um ou dois atacantes e, às vezes, até três. A zaga, de <i>backs </i>esquerdo e direito, um deles se jogar mais recuado é chamado de líbero. E o <i>goalkeeper </i>de goleiro.</p>
<p>Quanto às regras, permaneciam as denominações antigas: <i>corner</i>, escanteio; <i>offside</i>, impedimento; lateral, lateral mesmo; <i>penalty</i>, penalidade máxima; <i>hand</i>, mão; <i>foul</i>, falta; <i>goal</i>, gol, etc.</p>
<p>A vida do Campos Salles teve duração efêmera, mas a equipe deixou suas marcas jogando contra os grandes plantéis da capital. Em certa ocasião, numa disputa com o Vitória F. C., campeão da capital, como se diz na gíria, botou terra nas suas comemorações, ao lograr vencê-lo nos seus próprios domínios. Foi um feito e tanto. Segundo nos contou Milton Caldeira, o poeta Mário Ferreira Queiroz, irmão de Carlos Queiroz, ficou tão entusiasmado que idealizou uma trovinha que passaria a ser cantada pelos torcedores canelas-verde. Era assim: &#8220;Campos Salles, Campos Salles, / É um team de memória / [esqueceu o 3° verso] / Deu fumaça no Vitória&#8221;. Fumaça era gíria da época equivalente a surra, lavagem etc.</p>
<p>O troféu conquistado pelo Campos Salles era sui generis em se tratando de esporte e de uma partida de <i>football</i>, podendo antes destinar-se a uma exposição canina, servindo de prêmio ao mais bem colocado, principalmente se fosse uma cadela. Quem nos relata isso é Milton Caldeira: &#8220;Eu me lembro de ter visto, quando criança, na casa de Dario Araújo, na rua do Torrão, um troféu ganho pelo Campos Salles: uma cadelinha amamentando dois filhotes, em bronze ou imitação.&#8221; Isso nos leva a crer que Dario Araújo tivesse sido presidente do clube ou participado da sua diretoria.</p>
<p>O Campos Salles também revelou <i>cracks</i>. Carino Duarte de Freitas foi para o Vitória F. C., atuando como um dos seus mais importantes jogadores, goleador na posição de <i>center-forward</i>.</p>
<p>Mais tarde apareceram outros clubes de futebol. Um deles, sobre o qual pouco sabemos, era o Botafogo F. C., cujo campo de futebol tinha entrada pela rua Luciano das Neves, na Toca. O Vasco Coutinho F. C. atuou com a mesma formação entre os anos de 1931 e 1934. Quatro de seus integrantes ainda se encontram vivos: Milton Caldeira, Floriano Santos, Ernesto Vereza e Elmar Duarte. O plantel desse clube tinha os seguintes jogadores: Juca e mais tarde Odilon Amaral, goleiros; Ernesto Vereza, zagueiro direito; Elmar Duarte (Titiu), zagueiro esquerdo; Floriano Santos, Milton Caldeira e Moacyr Lofêgo, linha média; João Carneiro, Lindolphinho, Horácio, Joaquim e Rubens Rezende (Bacalhau), atacantes.</p>
<p>Reis Novaes, já falecido, destacou a atuação de dois desses jogadores: do centro-médio Milton Caldeira e do centro-avante Horácio de Inhoá. Segundo ele, Milton Caldeira dominava e passava a bola como um verdadeiro maestro, armando e alimentando jogadas. Do segundo jogador, Horácio de Inhoá, nos falou o próprio Milton Caldeira, que o apontou como um dos melhores centro-avantes que viu jogar. Rápido e de jogadas imprevisíveis, Horácio deixava a defesa e o goleiro adversários em polvorosa e quando menos se esperava a bola ia para o fundo da rede, ou, melhor dizendo, para o fundo do terreno, onde estavam assentadas as traves.</p>
<p>Antes ou depois do Vasco Coutinho muitos outros times despontaram em Vila Velha, como o Santos, o Leopoldina, o América de Aribiri, o Vila-velhense, mais tarde o Social, o Atlético, o Olímpico, o Ideal, o Tupi e tantos outros mais novos ou, quem sabe, mais velhos do que estes.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>A bola</b></p>
<p>O instrumento mais importante para a realização de uma partida de futebol, por certo, é a bola de couro. No começo do século XX, por mais esmerada que fosse a sua fabricação, ela não tinha uma forma perfeitamente redonda, apresentando inevitavelmente deformidades, como proeminências ou calosidades. Por uma abertura permanente era introduzida a câmara de ar, e pelo seu formato, quando vazia, assemelhava-se a uma grande carambola de quatro gomos. Para enchê-la, no seu prolongamento havia embutida e colada uma mangueira fina, de uns cinco centímetros de comprimento. Com a câmara de ar introduzida na bola e a mangueirinha voltada para fora, enchia-se esse recipiente elástico até que este se expandisse suficientemente. Com a bola assim cheia, dobrava-se rapidamente ao meio a pequena mangueira, amarrando-a fortemente para que não escapasse nenhum ar. A mangueira ereta pela metade e para cima era depois empurrada para dentro da bola com os dedos.</p>
<p>A pelota, como também era chamada, carecia de cuidados em seu acabamento e, antes mesmo de se introduzir a câmara de ar, prendia-se, por um pequeno nó na ponta, uma tira fina de couro que, enfiada numa agulha grossa e própria, costurava ambas as bordas da abertura, passando por todos os furos dos dois lados até chegar ao último. À medida que a agulha ia costurando, percorrendo os buracos afora, o encarregado dessa tarefa procurava unir o mais que pudesse as duas laterais, para que a forma final se aproximasse ao máximo da ideal, ou seja, o mais redonda quanto possível.</p>
<p>Essa bola de futebol dos nossos antepassados era também conhecida como bola de costura. Quando o chute atingia a parte irregular da costura ou a calosidade formada pela mangueirinha, causava grande dor, principalmente se forte e dado de mal jeito. O goleiro, nas suas defesas, se ressentia por demais, dependendo da violência do chute e da posição em que agarrava a bola.</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução parcial autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>O Carnaval</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:06:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[José Anchieta de Setúbal]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O &#8220;Zé Pereira&#8221; Precedendo o Carnaval, semanas antes, puxados por animadas bandinhas, os &#8220;Zé Pereira&#8221; percorriam à noite as ruas da cidade acompanhados por pessoas fantasiadas de &#8220;sujo&#8221;, em sua maioria homens, pois as mulheres geralmente iam por fora dos cordões ou ficavam à janela, assistindo à passagem. De quando em vez ecoavam os gritos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><b><br /></b><br />
<b>O &#8220;Zé Pereira&#8221;</b></p>
<p>Precedendo o Carnaval, semanas antes, puxados por animadas bandinhas, os &#8220;Zé Pereira&#8221; percorriam à noite as ruas da cidade acompanhados por pessoas fantasiadas de &#8220;sujo&#8221;, em sua maioria homens, pois as mulheres geralmente iam por fora dos cordões ou ficavam à janela, assistindo à passagem. De quando em vez ecoavam os gritos dos participantes em coro: &#8220;Zé Pereira!&#8221; E os tambores retumbavam forte: buum, buum, buum!!! &#8220;Zé Pereira!&#8221; Buum, buum, buum, bum, bum!!! Volta e meia se repetiam o grito e a batida dos tambores, isso sempre ao término das cantorias das marchinhas carnavalescas da época. Algumas pessoas se apresentavam com alegorias e carros alegóricos, juntando-se a esses blocos. O mais bem trabalhado dos carros alegóricos de que se tem notícia foi o do festeiro, hoje se diria carnavalesco, Lúcio Bacelar, que moldou uma bela, colorida e grande sereia que desfilou em patamar sobre rodas num desses &#8220;Zé Pereira&#8221;. A sua segunda e última aparição dessa alegoria deu-se dias depois, num domingo, durante o famoso banho a fantasia. As fantasias, de papel crepom colorido, tingiam a água cristalina do mar da praia da Sereia.</p>
<p>
<b>Os corsos</b></p>
<p>Levantamos uma pontinha do que seria o Carnaval em Vila Velha quando nos reportamos aos &#8220;Zé Pereira&#8221; e à ornamentação dos clubes dos Democráticos e Fenianos, feita em sigilo. O banho de mar a fantasia na praia da Sereia contava com a presença da alegoria da sereia em carro alegórico. Mas a animação do Carnaval ia além dos limites de Vila Velha, alcançando Vitória. Os clubes dos quais já falamos, com os seus foliões devidamente fantasiados, não se continham nos salões de festa à noite. Formavam blocos como o dos &#8220;Renegados&#8221;, do clube dos Democráticos, e, ao cair da tarde, subindo em carros enfeitados, tanto de carroceria como automóveis de passeio, dirigiam-se a Vitória um atrás do outro e lá ficavam circulando pelas ruas e em redor das praças, cantando animadamente, gesticulando em movimentos ritmados, de acordo com as marchinhas escolhidas, enquanto jogavam sobre a assistência confetes e serpentinas, não faltando os esguichos da gostosa, cheirosa e inofensiva lança-perfumes. A esse gesto de alegria e de cumprimento o povo, embaixo nas calçadas, à passagem do corso retribuía jogando confetes, atirando serpentinas e espargindo jatos de lança-perfumes. Essa reciprocidade animava e agitava o Carnaval de rua em Vitória.</p>
<p>Era um trança-trança para cá e para lá, voltas por ali, contornos da praça acolá, seguindo sempre um carro atrás de outro. A esse movimento chamava-se corso. Nos tríduos de Momo era comum dizer-se: &#8220;Amanhã vamos fazer um corso em Vitória.&#8221;</p>
<p>Desses corsos, um marcou época. Quem nos contou isso foi o nosso amigo Walter Aguiar, filho do inesquecível festeiro Miguelzinho Aguiar. Segundo ele, o clube dos Democráticos, com muito esmero, preparou um carro alegórico para marcar época no corso que se faria a Vitória como costume. Fizeram uma alegoria mais alta e mais atraente do que as dos anos anteriores. Com certeza a sua passagem por Vitória, apoteótica e arrebatadora, levantando o público em aplausos, marcaria época. Seria inolvidável. Só restava aos foliões chegar à passarela da glória. Vibrante e com muita alegria, o caminhão do Augusto Italiano, assim enfeitado, começou a percorrer a rua Luciano das Neves, ganhando a velha estrada de rodagem para Vitória, a única existente unindo o continente à ilha. De súbito, em Cobi, em frente ao viaduto da Estrada de Ferro da Leopoldina, o motorista breca o carro. Caminhão e alegoria não conseguiriam passar simultaneamente. O momento foi frustrante, e de alegres os nossos brincalhões passaram a tristes e de tristes a decepcionados. O idealizador da bela alegoria não levara em conta as medidas do viaduto, e para prosseguirem o jeito seria mexer na alegoria. Desmontaram-na e ela não foi mais a mesma. Quando chegaram a Vitória receberam os aplausos do público pelo animado bloco, sem que se tomasse conhecimento dos restos mortais da alegoria que se pretendia bela. Bela e arrebatadora!</p>
<p>
<b>Nos clubes</b></p>
<p>À noite, com o corso de volta a Vila Velha, o Carnaval continuaria nos salões dos clubes ornamentados nas respectivas cores. O interior desses salões estava cheio de serpentina e muito papel crepom que, em múltiplas formações sob o teto, desciam pelas paredes sem alcançar a altura mediana. Viam-se cartazes em profusão com desenhos alusivos ao Carnaval, como palhaços, arlequins, colombinas, máscaras coloridas, entre outros motivos, afixados nas paredes. Não faltavam as bolas de sopro coloridas e bem dispostas pelo salão, em especial nos Democráticos, com o festeiro Miguelzinho Aguiar. Tudo pronto. O assoalho do salão estava limpo, com parafina de vela raspada e espalhada em toda a sua extensão, suprindo-se assim a falta de cera, dando brilho e diminuindo o levantamento de poeira, no arrastar, levantar e bater os calçados dos foliões em movimento. Os próprios pés dos foliões encarregavam-se de espalhar a parafina com os seus movimentos mais inusitados de pulos e requebros e no arrastar das danças sobre o assoalho.</p>
<p>Tudo pronto, os bailes de Carnaval duravam três dias, indo até altas horas da madrugada. Os salões enchiam-se de serpentinas e confetes coloridos. A lança-perfume, em jatos direcionados reciprocamente em damas e cavalheiros, aromatizava o ambiente. Quando uma dama retribuía mais de uma vez ao jato de lança-perfume, entendia-se que ela estava aceitando a corte, e assim uniam-se animados pares que, de mãos dadas com outros, formavam correntes que depois se transformavam em rodas e giravam de um lado para outro com folguedos e cantorias. Essas rodas eram desfeitas e refeitas várias vezes e a noite toda era cheia dessa animação alegre e de muita cantoria. E viva o Carnaval!</p>
<p>Orquestras e carnavalescos ficavam em atividade até altas horas da madrugada, estendendo-se às vezes até as cinco da manhã. Quando havia uma só orquestra esta fazia a cada hora um intervalo de quinze minutos para descanso dos músicos. Como não havia microfone, o som dos instrumentos dependia da força de quem os tocava. Para os músicos o melhor dia era a terça-feira, pois nesse dia o baile terminava, impreterivelmente, à meia-noite. Em respeito à Quarta-feira de Cinzas, à meia-noite todos deixavam o salão e se recolhiam às suas casas, onde tiravam uma pestana para, às seis horas, mesmo com ressaca, se apresentarem na igreja, onde recebiam, na testa, após os rituais da missa, a cruz de cinzas.</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução parcial autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p></blockquote>
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		<title>O teatro</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:59:00 +0000</pubDate>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Tudo parece indicar que a rua Vinte e Três de Maio foi o maior centro de diversão de Vila Velha antiga. A poucos passos do cinema Cici, funcionando na mesma época, havia um modesto teatro onde se apresentavam artistas de Vila Velha e Vitória e, mais raramente, de alguns grandes centros. Encenavam-se comédias e dramas, muitos dos quais, pela sua universalidade, ainda são exibidos hoje em grandes ou pequenas casas de espetáculo. Chamava-se Grêmio Dramático e Familiar Tália. Duas coisas, nesse nome, nos chamaram a atenção. A primeira foi a denominação familiar, que fizeram questão de acrescentar ao nome do grêmio, deixando implícita a existência de outras casas de espetáculo com artistas mais libertinos, mais soltos, e que não tinham uma relação mais profunda com a família. O respeito familiar estava acima de qualquer coisa, não perdoando a sociedade a quem fugia a esse padrão. A segunda se refere ao nome Tália, que na mitologia grega é atribuído à musa protetora e animadora da comédia. Ainda a respeito de nomes de teatros, achamos que em tempos pretéritos, com poucos talentos nacionais agregados à arte, os da mitologia grega foram os mais apropriados. Em Vitória houve um teatro e cinema muito famoso e bem frequentado que atraía companhias bem mais representativas do mundo artístico do país e do exterior. Seu nome era Melpômene, inspirado na musa que animava e protegia a tragédia.[ 1 ]</p>
<p>
_____________________________</p>
<h4>
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTA</span></h4>
<p>
[ 1 ] Ironicamente a tragédia com o Melpômene ocorreu literalmente, a par de outras dramatizadas nos seus palcos e em ensaios de bastidores. Um incêndio, não se sabe se criminoso ou ocasional, destruiu-o parcialmente, obrigando-o a encerrar suas atividades. O desaparecimento dessa importante casa de diversões de Vitória, principalmente para os aficionados, foi muito sentido. Embora tivesse mais de um andar, era toda construída de pinho de Riga, portanto de fácil combustão. Em 1925 ele foi demolido e as colunas de ferro que sustentavam os seus galpões e galerias, segundo lemos no livro Vitória — trajetória de uma cidade (Carol Abreu, Janes De Biase Martins e João Gualberto M. Vasconcellos) foram aproveitadas na obra do Teatro Carlos Gomes, que iria desempenhar a mesma função.</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução parcial autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p></blockquote>
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		<title>Os primeiros cinemas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:58:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Cine Dom Marcos, inaugurado na década de 1940, na Avenida Luciano das Neves, no Centro de Vila Velha. O cinema não surgiu da noite para o dia. Houve diversos antecessores. O mais conhecido deles foi a lanterna mágica, um aparelho ótico inventado no começo do século XIX e que foi sendo aperfeiçoado. Tratava-se de um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-f03_bYyjTm0/WIJdd_hQfbI/AAAAAAAALSE/ZyksTfdPZPoaohS2qxjQZQQD6RZn5sqAgCLcB/s1600/cine%2Bdom%2Bmarcos.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Cine Dom Marcos, inaugurado na década de 1940, na Avenida Luciano das Neves, no Centro de Vila Velha." border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/cine2Bdom2Bmarcos.jpg" class="wp-image-5887" title="Cine Dom Marcos, inaugurado na década de 1940, na Avenida Luciano das Neves, no Centro de Vila Velha." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Cine Dom Marcos, inaugurado na década de 1940, na Avenida Luciano das Neves, no Centro de Vila Velha.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
O cinema não surgiu da noite para o dia. Houve diversos antecessores. O mais conhecido deles foi a lanterna mágica, um aparelho ótico inventado no começo do século XIX e que foi sendo aperfeiçoado. Tratava-se de um aparelho com o qual se projetavam sobre um lençol ou parede, em grande dimensão, imagens de objetos pequenos pintados em vidro ou outro suporte transparente. Depois da lanterna mágica vieram o cinematógrafo e outros aparelhos de projeção. No final do século XIX, dois franceses, os irmãos Lumière, desenvolveram, a partir das experiências anteriores, um aparelho que projetava imagens com movimento.</p>
<p>Os primeiros filmes, de curta duração, eram de caráter documentário, e mostravam a entrada de um trem na estação ou a saída de operários de uma fábrica. Não demorou muito para que os filmes passassem a contar histórias, sobretudo nos primeiros anos do século XX, com o francês Meliès. Assim atingiu-se o grande público e foram surgindo os grandes nomes como Chaplin e Griffith nos Estados Unidos.</p>
<p>Mas a banda sonora das películas seria inventada somente mais tarde. Até 1927 os filmes não eram falados, sendo as exibições geralmente acompanhadas de piano e violino. Com o advento do som, o cinema granjeou uma popularidade ainda maior, apesar da resistência dos artistas ligados à forma de expressão do cinema mudo.<br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<b>O &#8220;Cici&#8221;</b></p>
<p>Vila Velha teve o seu cinema mudo. Ele se localizava à rua Vinte e Três de Maio, próximo à antiga casa de comércio de secos molhados do finado Radagásio Lyra, onde muito mais tarde seria instalada uma pensão. Esse cinema, chamado Cici, era propriedade de Durval Santos, popularmente conhecido como Tinininho. Como todo cinema mudo que se prezava, ele tinha também o seu fundo musical ao vivo, só que, em vez do piano e do violino tradicionais, estavam presentes o violão e o cavaquinho tocados pelo casal Tanego Piratininga de Barros e Maria José Barros, respectivamente, que acompanhavam as cenas do filme. Mais tarde juntou-se à dupla Waldemar Bourguignon, que na época teria uns quatorze anos e era carinhosamente chamado de Waldemar Cambota, pelo seu andar de pernas arqueadas. Aí a dupla transformou-se em trio, passando Maria José a tocar bandolim. Apesar de novo, Waldemar já tocava como gente grande. Quando adulto, poucas execuções no cavaquinho ou violão, no Brasil, igualaram-se às dele. Se as superassem, a diferença estaria nas firulas próprias de cada um. Pena que os grandes centros não o tenham descoberto, pois seria, sem sombra de dúvida, como músico, uma celebridade nacional.</p>
<p>Os músicos, assim constituídos, tinham que estar ativos e observar atentamente os movimentos dos protagonistas dos filmes, adequando as linhas melódicas às situações e cenários que os envolviam. Isso era comum no período entre os anos de 1920 e 1927.</p>
<p>Em 1928 surgiu o cinema falado. Os artistas músicos que faziam o acompanhamento das cenas protestaram, mas o que fazer? O cinema falado viera para ficar.</p>
<p>No começo, o salão do cinema Cici não dispunha de cadeiras. Os espectadores tinham que levá-las de casa. Em dias de apresentação de filmes era comum verem-se famílias inteiras com os seus filhos meninos na porta do cinema e cadeiras à cabeça. As crianças, na frente, diziam a senha ao transpor a porta: &#8220;Quem vem atrás paga.&#8221; Atrás estavam os seus familiares ou alguém que se dispunha a pagar-lhes a entrada. Lá dentro os adultos se sentavam nas cadeiras, enquanto os transportadores ficavam em pé pelos cantos, encostados nas paredes ou mesmo sentados no chão. Os filmes eram divididos em partes denominadas atos. Quando terminava o primeiro, aparecia na tela a legenda: &#8220;Fim do 1º ato&#8221;. Da mesma forma para o segundo, o terceiro e assim sucessivamente, até o último ato. Os filmes podiam ter de um a sete atos e ao final de cada um deles acendiam-se as luzes para inserção de um novo rolo no aparelho projetor. Enquanto isso os músicos paravam de tocar, retomando suas atividades assim que se apagavam as luzes e recomeçava a projeção.</p>
<p>As sessões de cinema do Cici eram anunciadas pelas ruas de Vila Velha várias vezes num só dia, levando-se em consideração o seu aglomerado urbano de pouca extensão. Os anunciantes ou pregoeiros circulavam com tabuletas de madeira penduradas às costas do tamanho de uma meia porta em que se fixavam cartazes com cenas e título do filme. À tardinha, dois garotos, um de cada lado, levavam a tabuleta pelas ruas e iam gritando: &#8220;É hoje no Cici, belíssimo drama em 5 (ou 7) atos, O Conde de Monte Cristo. Cascudo.&#8221; E concluíam: &#8220;Para conforto, não deixem de levar suas cadeiras! Criança só paga a metade.&#8221; O pagamento desses pregoeiros consistia na entrada grátis ao cinema, e para serem identificados exibiam à porta um dos braços marcados com uma cruz em tinta própria.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>O cinema do seu Raimundo</b></p>
<p>O primeiro cinema sonorizado instalado em Vila Velha como casa de espetáculo era conhecido como o cinema do seu Raimundo por não se ter dado a ele uma denominação própria. No entanto, há quem diga que ele se chamava Cine Continental, mas com esse nome conhecemos o de Antônio Saliba, à rua Cabo Aylson Simões, na praça Duque de Caxias. O cinema do seu Raimundo situava-se exatamente onde hoje se localiza a Primeira Igreja Batista de Vila Velha, cuja estrutura — toda ou quase toda — foi aproveitada do cinema. No seu interior, bem nos fundos, no lugar em que estavam instalados a tela e o palco, havia uma mureta separando as plateias da primeira classe e da segunda. Esse espaço da frente, que atendia à segunda classe, dispunha de longos bancos mochos de madeira colocados sobre chão de terra batida. A parte destinada à primeira classe, localizada bem acima dos demais espectadores, era também bastante espaçosa para a população de então. O chão era de cimento e os bancos de madeira tinham encosto, como os utilizados nas igrejas. Esses bancos, ociosos em grande parte pela falta de espectadores, foram sendo vendidos pouco a pouco pelo seu Raimundo às instituições religiosas, deixando um grande espaço vazio nos fundos do cinema. Muitos garotos iam para esse espaço e ali, nos intervalos dos atos, quando as luzes se acendiam, andavam de bicicleta sem que ninguém os incomodasse.</p>
<p>A entrada para a geral dava-se pela lateral direita do cinema, bem nos fundos, sem comunicação com a platéia da primeira classe que, sentada nos bancos de encosto, não tomava conhecimento dos ocupantes da segunda. Por uma questão de foro íntimo, as pessoas que frequentavam a geral faziam questão de não serem identificadas, e para isso passavam abaixadinhas, protegidas pela mureta de pouco mais de metro e meio. Lá dentro, depois de sentadas, nem as cabeças eram visíveis e, sabendo disso, no conforto dos seus bancos, ninguém na primeira classe se preocupava em sair de onde estava para identificá-las. E sempre funcionou assim.</p>
<p>Para se saber da lotação do cinema bastava acompanhar a exultação e intensidade da gritaria que nele reinava durante determinado filme, compartilhada por todo o público indistintamente. Era impossível avaliar essa lotação pela saída dos frequentadores, pois os da segunda classe deixavam seus bancos sorrateiramente quando o filme estava prestes a terminar e ficavam à frente do cinema a observar e a se misturar aos que saíam da primeira classe, quando não se escafediam rumo a suas casas.</p>
<p>O preço da entrada da geral era metade do da primeira classe. O estudante uniformizado, de primeira ou de segunda classe, pagava metade do ingresso. Por causa disso era comum ver, à porta do cinema, pessoas trajando uniformes estudantis que certamente não lhes pertenciam, pois ou eram muito apertados ou muito folgados.</p>
<p>Outro dispositivo do cinema do seu Raimundo era uma campainha elétrica ligada na frente e na fachada do prédio. Ela era acionada três vezes: a primeira, quinze minutos antes do início da sessão, a segunda, dez minutos antes, e a terceira, para anunciar o início da sessão. Quando ao longe o toque da campainha não era perceptível, o jeito era correr para apanhar o início da sessão.</p>
<p>A grande atração da meninada nas matinês de domingo eram os seriados de aventura, com Tom Mix montado no seu cavalo branco e Flash Gordon na sua nave interplanetária. A intenção do cinema era dar a impressão de que a nave espacial desenvolvia uma velocidade espetacular, entretanto os gases desprendidos dos seus motores mais se assemelhavam aos rolos de fumaça saídos de chaminés de uma fábrica ou a baforadas sucessivas de um cachimbo. Mas nem por isso deixávamos de ficar ansiosos aguardando o domingo seguinte, para o deslinde do suspense em que parara o seriado.</p>
<p>O seu Raimundo, de vez em quando, principalmente na projeção dos filmes seriados de cowboy, acabava se desentendendo com o operador das máquinas cinematográficas. É que esse funcionário assumia outros compromissos em horários que coincidiam com o término das sessões e, não querendo chegar atrasado ao seu encontro, apelava. Ele acelerava a rolagem do filme e as imagens passavam a ter movimentos anormais. Quando isso acontecia seu Raimundo corria até a cabine de projeção e gritava para o seu operador:</p>
<p>— Jefredo, Jefredo! Mais devagar, Jefredo! Assim não dá. Os cavalos já não andam mais, correm! Os que correm, voam! Devagar, Jefredo! Pelo amor de Deus, Jefredo!</p>
<p>E Jofredo Novaes, o saudoso Jofredo, esquecia o seu compromisso amoroso e passava a obedecer às ordens do patrão, de quem muito precisava. Mas, quando o dono do cinema não estava presente e Jofredo tinha lá os seus compromissos, as imagens eram aceleradas, faltando pouco para saltarem da tela, sob a gritaria dos inconformados espectadores.</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução parcial autorizada pelo autor.]</p>
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<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<p><b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p>
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		<title>Vida Escolar</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:12:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Grupo Escolar Vasco Coutinho. Foto Paes. Anos 1930. Para falar da Vila Velha de algumas décadas atrás, devemos começar com um rápido esboço da nossa educação escolar primária. Ela se deu no Grupo Escolar Vasco Coutinho, poucos anos depois de sua inauguração, quando só existia o bloco fronteiriço situado à rua Luciano das Neves. Entramos [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-nlwl91X6Acw/WIJPGG0q_oI/AAAAAAAALR0/HTPFwhirtpYXqp1ar7CdJiJRTvi-eAJKACLcB/s1600/Escola%2BVasco%2BFernandes%2BCoutinho.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Grupo Escolar Vasco Coutinho. Foto Paes. Anos 1930." border="0" height="212" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Escola2BVasco2BFernandes2BCoutinho.jpg" class="wp-image-6362" title="Grupo Escolar Vasco Coutinho. Foto Paes. Anos 1930." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Grupo Escolar Vasco Coutinho. Foto Paes. Anos 1930.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Para falar da Vila Velha de algumas décadas atrás, devemos começar com um rápido esboço da nossa educação escolar primária.</p>
<p>Ela se deu no Grupo Escolar Vasco Coutinho, poucos anos depois de sua inauguração, quando só existia o bloco fronteiriço situado à rua Luciano das Neves.</p>
<p>Entramos na primeira sala de aula no dia 4 de fevereiro de l935, com sete anos de idade, no primeiro ano A. Deste ano A passava-se para o B e só depois alcançava-se o segundo ano primário. O primeiro dia de aula ficou marcado porque nossa professora, chamada Lídia, escreveu essa data no quadro negro, com letras bem talhadas e definidas, para que a copiássemos, fosse lá do jeito que fosse. Compreendemos mais tarde que essa tarefa inaugural seria um teste de aptidão coletiva dado pela excelente educadora para avaliação dos alunos que a ela caberia alfabetizar. Foi o nosso primeiro esforço, inaudito, experimentado como estudante. Da nossa parte a tarefa foi cumprida, só que em letras escarrapachadas, com que ocupamos uma página inteira do caderno. Isso ficou indelével na nossa cabeça — 4 de fevereiro de l935.</p>
<p>No que se refere às acomodações, apesar de sabermos que algumas escolas não ofereciam nenhum conforto, as acomodações do aluno, em geral, eram de qualidade superior às de hoje. As carteiras eram feitas de madeira maciça — o compensado ainda não existia —, polida e bem envernizada.</p>
<p>No Grupo Escolar Vasco Coutinho cada carteira acomodava confortavelmente dois alunos. Essas carteiras eram compostas de duas partes distintas: do assento, na frente, e do tampo, que servia de mesa e depósito para cadernos e livros dos alunos que se sentavam na carteira de trás, e que era localizado na parte posterior do móvel. Assim sucessivamente formavam-se as filas de carteiras, com o detalhe de que a primeira carteira da fila tinha somente o banco onde alguém poderia sentar-se sem, no entanto, dispor de mesa para escrever, enquanto a última carteira da fila tinha apoio para a escrita e depósito para guardar livros e cadernos, mas faltava-lhe o banco.</p>
<p>Na parte superior do tampo, de fora a fora, localizavam-se duas valetas dispostas uma sobre a outra, destinadas a acomodar lápis e caneta a bico-de-pena, ambos de uso obrigatório. Ainda na mesma superfície, em cada uma das metades, centralizado e no alto, havia um buraco vazado e redondo para receber um tinteiro com tampa, fazendo face à superfície desse móvel. Esse tinteiro era constantemente abastecido pelo servente do educandário, para que não faltasse tinta para a escrita.</p>
<p>Posteriormente as carteiras de lugares duplos foram substituídas pelas individuais mantendo a mesma disposição, exceto pelo assento, que era constituído de um banquinho com encosto de madeira, sustentado por um pé de ferro cilíndrico, esparramado na sua base para a necessária sustentação e equilíbrio. As carteiras foram se transformando, sendo suprimidos vários de seus detalhes até chegarem às de hoje, individuais e individuais geminadas, simultaneamente com assento e suporte para anotações.</p>
<p>As canetas-tinteiros ainda não deviam existir, e assim que criadas seu uso foi restrito. O mesmo aconteceu com a esferográfica. Logo no seu lançamento não era permitido usá-las para assinar documentos, caso em que esses documentos eram considerados inválidos. Com o tempo essas assinaturas passaram a ser aceitas, o que restringiu o uso da caneta-tinteiro a ocasiões solenes em que eram assinados atos notórios. Hoje essas canetas são vistas ainda em alguns consultórios médicos, gabinetes de executivos e escritórios dados a essa prática.</p>
<p>Naqueles tempos, não existindo nem uma nem outra, utilizava-se a famosa pena de metal. Mais ainda a de aço, com uma ranhura da metade para baixo do bojo do seu corpo, por onde escorria a tinta, molhada no tinteiro. O tinteiro devia receber quantidade suficiente de tinta e o usuário, ao mergulhar a pena para recolhê-la, não podia deixar que a caneta alcançasse a base do seu recipiente. Essa pena molhada, com a quantidade adequada de tinta em sua concha, permitia escrever duas ou três linhas antes de se retornar ao tinteiro. De qualquer forma, até concluir a escrita pretendida, o reabastecimento dessa pena era repetido com bastante freqüência.</p>
<p>A escrita à tinta não era uma tarefa fácil, pois, além de manejar a caneta, o usuário tinha também que calcar a pena sobre o papel. Isso requeria um aprendizado prolongado: na escrita a pena devia ser aplicada sobre o papel com leveza e controle para que a ranhura existente na sua extremidade não se abrisse além do necessário, caso contrário a tinta escorreria, acumulando em excesso na escrita, dando origem a borrões.</p>
<p>Para evitar esses borrões usava-se um papel chamado mata-borrão, que absorvia a tinta excedente, favorecendo também a secagem de todo o trabalho. Isso era importante, pois qualquer pequeno deslize de uma das mãos sobre o texto ou outro qualquer acidente poderia acontecer e manchá-lo. Por essa razão era o mata-borrão considerado material escolar e obrigatoriamente o aluno deveria portá-lo, usando-o por ocasião dos treinos com a caneta a bico-de-pena e, indispensavelmente, nas provas escritas. Ao término das provas, não raro, encontravam-se estudantes dos anos primários menos adiantados com as suas mãos e uniformes manchados de tinta, manchas que chegavam a alcançar os seus rostos ao coçá-los.</p>
<p>As penas de metal descritas antes, que em boa parte do século XX e anteriores desempenharam um papel preponderante no aperfeiçoamento e melhor agilização da escrita, tiveram, além de tantas destinações, uma outra muito importante e curiosa, ao nosso ver, como instrumento de ajuda ao combate da varíola. A mesma pena de aço adquirida em caixinhas de papelão ou vendidas no varejo era usada pelo pessoal da Saúde Pública como material cirúrgico na aplicação da vacina contra a insidiosa moléstia.</p>
<p>Dessas penas molhadas no tinteiro, há uma inesquecível: a de ouro empunhada pela Princesa Isabel ao promulgar a lei de Abolição da Escravatura no Brasil, no dia 13 de Maio de l888. Este ato memorável, por ter sido assinado com uma pena de ouro, ganhou a denominação de Lei Áurea. A Princesa Isabel era filha do Imperador D. Pedro II e da Imperatriz Teresa Cristina e foi herdeira presuntiva do trono. Contam que teria sido ignorada não fosse o destino lhe colocar nas mãos, por três vezes, as diretrizes do poder administrativo do Estado na ausência do seu pai, governando com os Gabinetes Rio Branco, de 1871 a 1872; Caxias, de 1876 a 1877; Cotegipe e João Alfredo, de 1877 a 1888. Nessas ocasiões a Princesa desempenhou relevante papel na alta magistratura imperial. Inúmeros acontecimentos se efetivaram durante o exercício dessa tríplice regência em favor das necessidades da estrutura do organismo governamental e da coletividade humana. Devem-se ao gênio empreendedor da grande princesa, dentre outros, os decretos de naturalização de estrangeiros no país, o primeiro recenseamento do Império, o desenvolvimento da ferrovia, a solução das intermináveis questões de limites territoriais e o restabelecimento das relações comerciais com os governos vizinhos. A lei de 1861, que libertava os nascituros de escravos, ficou conhecida como Lei do Ventre Livre etc. Foram muitas penadas importantes apostas em documentos pela Princesa Isabel, mas a que lhe valeu maior consagração na história do Brasil foi a Lei Áurea e por esse ato de abnegação e justiça recebeu o título de &#8220;A Redentora&#8221;, outorgando-lhe o papa Leão XII a rara honraria da Rosa de Ouro.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Antes dos grupos escolares funcionavam as escolas e escolas isoladas mistas. Estas últimas, com apenas uma professora e alunos de ambos os sexos, simultaneamente lecionavam para alunos do primeiro ao quarto ano primário. Mesmo depois da implantação dos grupos escolares essas escolas continuariam atuando no interior do Estado em distritos e vilas, bem como na periferia urbana das cidades. Por sua natureza eclética e também por abrigar em sua maioria alunos cujos pais tinham baixo poder aquisitivo, não se exigia o uso de uniformes. Os alunos compareciam com suas roupas modestas, calçando sapatos ou tamancos ou mesmo descalços.</p>
<p>O Grupo Escolar Vasco Coutinho foi o primeiro inaugurado no Município. Depois dele vieram outros, como o Ofélia Escobar, em Aribiri, o Graciano Neves, em Paul, entre outros. Alunos de grupos escolares ou escolas terminavam o primário no quarto ano. O quinto chamava-se curso de admissão ao ginásio e era um mini-vestibular que representava um grande obstáculo para os estudantes locais que desejavam prosseguir nos estudos, já que Vila Velha não oferecia esse curso. Quem dispunha de recursos ia para Vitória depois de concluir o curso primário.</p>
<p>Os pais que tinham melhores condições financeiras matriculavam os filhos num dos cursos de admissão, público ou particular, existentes na capital. O curso público existente na época era o do Ginásio Espírito Santo, enquanto os Ginásios Americano e São Vicente de Paula o ofereciam como particulares. Mesmo quem estava matriculado no curso público arcava com grandes despesas, pois, além do material necessário — como livros didáticos e uniformes mais caros —, tinha também as passagens do bonde e da barca ou do bote para a travessia da baía. Por causa disso muitos alunos estudiosos e preparados não conseguiam prosseguir nos estudos.</p>
<p>Além das dificuldades de natureza econômica existiam outras com as quais os estudantes do curso de admissão ao ginásio se defrontavam: o bom desempenho em matérias como matemática, português, geografia, história, educação moral e cívica, canto e educação física não era passaporte suficiente para o ingresso no primeiro ano ginasial. Não. Eles teriam que se submeter no final do ano à prova escrita e oral de todas as matérias, e as de matemática e português eram eliminatórias. Quem não alcançasse em qualquer das duas a nota mínima cinqüenta ficava reprovado. As de geografia e história do Brasil tinham menor peso e vinham em seguida para quem havia passado no primeiro teste e não impediam que se chegasse às provas orais. A somatória das matérias de per si e com os respectivos pesos deveria atingir a média geral mínima de cinqüenta pontos. Metade dos estudantes ou mais não alcançava essa média e, uma vez reprovados, muitos abandonavam os estudos. Os mais persistentes repetiam o curso para alcançar o ginásio no ano seguinte.</p>
<p>Ao sacrifício da locomoção de bonde, de barca ou de bote de Vila Velha à Capital juntava-se o uso de uniforme, que era de caráter obrigatório. Adaptar-se a ele era um verdadeiro suplício. Mesmo sob medida, feito por alfaiates ou costureiras — nem sempre afeitos ao corte —, o estudante sentia-se como numa camisa de força, quando arrochado, ou metido numa roupa de palhaço, quando folgado, o que pelo menos lhe deixava os movimentos livres. No entanto havia também aqueles que conseguiam um uniforme bem talhado feito por profissionais competentes. De qualquer modo, o uniforme escolar representava um incômodo.</p>
<p>O uniforme do Ginásio do Espírito Santo, assim como o dos outros colégios, não fugia muito ao padrão: compreendia a calça comprida e a túnica cáqui, camisa azul, gravata preta, quepe e botinas conhecidas como riúnas. Sobre a túnica usava-se um cinturão preto e largo. Em tempos mais antigos, além do cinturão usava-se ainda um talabar, peça de couro que, saindo na parte da frente do referido cinturão, prendia-se ao mesmo depois de passar sobre o ombro direito até alcançá-lo, do outro lado, pelas costas. Ainda que com todos esses inconvenientes, o estudante jamais poderia andar pelo estabelecimento de ensino ou pela rua com suas peças fora do lugar. Quando visto por uma autoridade escolar com o uniforme em desalinho era obrigado a recompor-se sob ameaça de suspensão em caso de reincidência.</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução parcial autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<p><b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p>
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		<title>A avenida Champagnat e a enchente de 1960</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Apr 2002 16:54:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A estrada construída no sentido Vila Velha-Praia da Costa e que dava seguimento à ponte Nova era conhecida como avenida Jerônimo Monteiro, hoje Champagnat, e por muito tempo guardou o seu leito primitivo com o terreno em que foi assentada, inclusive com uma subida antes de se chegar à Rebentação. Essa subida seria hoje sob [&#8230;]</p>
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A estrada construída no sentido Vila Velha-Praia da Costa e que dava seguimento à ponte Nova era conhecida como avenida Jerônimo Monteiro, hoje Champagnat, e por muito tempo guardou o seu leito primitivo com o terreno em que foi assentada, inclusive com uma subida antes de se chegar à Rebentação. Essa subida seria hoje sob a Terceira Ponte.</p>
<p>O que veio a descaracterizar a referida estrada? Em março de 1960 Vila Velha sofreu uma das maiores enchentes da sua história, dentre as incontáveis que se registravam anualmente, com o transbordamento das águas do rio Jucu. Mais famosa do que essa só a enchente centenária, ocorrida no ano de 1935.[ 3 ] No entanto a enchente de 1960 se destacou em relação à anterior porque as regiões afetadas com a subida das águas estavam mais povoadas, o que exigiu das autoridades imediatas providências para socorro dos flagelados.</p>
<p>O Grupo Escolar Vasco Coutinho suspendeu as atividades para alojar as vítimas da enchente. O prefeito da época, Tuffy Nader, decretou estado de calamidade pública, tomando as medidas cabíveis para o caso em socorro à população. O povo mobilizou-se fornecendo colchões, agasalhos, alimentos etc. O Comando do 3º BC colocou homens e viaturas à disposição para ajudar nos salvamentos, responsabilizando-se também pelo fornecimento de refeições diárias aos desabrigados alojados no Grupo Escolar.</p>
<p>Vila Velha, por assim dizer, ficou embaixo d&#8217;água. Numa visão panorâmica do alto do Convento da Penha, descortinava-se — do sopé do morro do Convento até à beira das partes altas do loteamento da Praia da Costa, abrindo em leque no sentido sul — um só lago a perder de vista na imensidão das suas planícies, interrompido por algumas elevações e pela faixa do litoral. Era muita água e nela se podia mesmo navegar com embarcações de pequeno porte.</p>
<p>O furor das águas tornara caudaloso o rio da Costa, principalmente sob a ponte Nova. O vão sob a ponte, cada vez mais pressionado por redemoinhos que forçavam passagem para o outro lado, tornou-se impotente, sendo arrancado da sua base em meio a formidável estrondo. Com a queda da ponte Nova virou-se mais uma página da história de Vila Velha, cujos moradores perderam importante via de comunicação com a Praia da Costa. Alguma providência urgente deveria ser tomada para restabelecer, mesmo que provisoriamente, tão importante elo de ligação.</p>
<p>Para isso a Prefeitura contou com a participação sempre solícita do saudoso companheiro de Rotary e ex-governador do nosso distrito, Roberto Viana Rodriguez. Engenheiro civil e diretor do DNOS — Departamento Nacional de Obras e Saneamento — que executava uma obra no canal cortando o rio da Costa para, encurtando-lhe o percurso, facilitar o escoamento das águas até o mar, engendrou este homem público uma ponte sustentada por cabos de aço, colocando-a no lugar da que fora destruída, até que se estabelecesse uma passagem definitiva.</p>
<p>Outras providências foram adotadas para que tal desastre não se repetisse. No rio Jucu foram realizadas obras para contenção de suas águas, como a construção de dique de terra batida no local sujeito a transbordamentos, uma espécie de estrada que as águas desse rio, mesmo durante as enxurradas mais fortes, não ousariam transpor.</p>
<p>Essa importantíssima obra exige constantes monitoramentos e cuidados, pois se uma chuva forte e intermitente forçasse o rompimento do dique certamente centenas de milhares de pessoas ficariam desabrigadas ou isoladas em suas moradias. Seria o maior flagelo por que passariam Vila Velha e o Estado do Espírito Santo.</p>
<p>Passado o furor da enchente e desfeitas as medidas paliativas de acesso à Praia da Costa, no vão da ponte ruída foram colocados manilhões e sobre eles um aterro. Mais tarde essa cobertura se estenderia, mais ou menos em nível com a estrada, até a Rebentação, fazendo desaparecer a ladeira que antecedia a chegada à Praia da Costa. O resultado desse aterro perdurará para sempre, haja vista que todas as ruas transversais à avenida Champagnat são desniveladas em relação a ela.</p>
<p>
______________________________</p>
<p>NOTAS</p>
<p>[ 3 ] As águas foram de tal intensidade que chegaram bem perto do Grupo Escolar Vasco Coutinho, pela rua Luciano das Neves. Canoas e pequenas embarcações aportaram nessas imediações. Deram a essa enchente o nome de &#8220;centenária&#8221; por ter ocorrido por ocasião do IV Centenário da Colonização do Solo Espírito-santense.</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p>
<div>
</div>
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		<title>Algumas localidades</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Apr 2002 16:44:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Vila Velha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Toca A Toca, localizada na rua Luciano das Neves, quando ganhou este nome estava restrita ao trecho que ia da rua Sete de Setembro até o final, onde moravam os Bernardes. Ela confundia-se com uma estrada de barro, um pouco à esquerda, que ia para a Barra do Jucu, e que hoje é denominada avenida [&#8230;]</p>
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<b>Toca</b></p>
<p>
A Toca, localizada na rua Luciano das Neves, quando ganhou este nome estava restrita ao trecho que ia da rua Sete de Setembro até o final, onde moravam os Bernardes. Ela confundia-se com uma estrada de barro, um pouco à esquerda, que ia para a Barra do Jucu, e que hoje é denominada avenida Professora Francelina Carneiro Setúbal. Daí para a frente, considerando-se a linha reta da rua em referência, existia apenas um caminho aberto no meio de uma capoeira e logo mais adiante uma lagoa com fundo arenoso e águas rasas. Transposta a lagoa de pouca largura, prosseguia-se pelo mesmo caminho que dava origem a outras trilhas. A esse local denominava-se Cruz do Campo, que mais tarde, depois de densamente povoado, se tornaria conhecido como bairro de Divino Espírito Santo.</p>
<p>A área na qual se situava a Toca, na rua Luciano das Neves, não chegava a dispor de dez casas. Quem lá morava era considerado um aventureiro e pessoa de espírito desbravador. A energia elétrica mal chegava à metade da sua extensão e a iluminação pública não existia. Esses novos moradores tinham, geralmente, parentes que residiam no centro de Vila Velha, nas imediações das linhas de bonde.</p>
<p>Na cidade, pouco populosa, quase todos se conheciam, e quando não, sabiam pelo menos da existência uns dos outros. Para citar apenas um exemplo, lembramos um cidadão morador da Toca chamado Francisco Ferreira Coelho. O terreno em que ele construiu sua casa era considerado grande, tanto de frente quanto de fundos. Lá ele possuía algumas vaquinhas de leite, um pequeno aviário e alguns animais domésticos, um pomar e uma horta. O Chico Coelho, como era popularmente conhecido, tinha as suas raízes mais fortes fincadas no centro da cidade. Destacava-se dentre seus parentes o Desembargador Ferreira Coelho, morador de confortável casarão no alinhamento — como quase todas as casas da época — da rua Luciano das Neves.[ 2 ]</p>
<p>Bem relacionado na cidade, Chico Coelho recebia muitas visitas em seus domínios, tanto de parentes e amigos como de pessoas desconhecidas. Dessas idas e vindas à casa do Chico Coelho surgiu o nome &#8220;Toca&#8221;. Bastou que, num determinado dia perdido no tempo, alguém que se dirigia à sua casa para lhe fazer a costumeira visita se encontrasse com outra pessoa e estabelecesse com ela um diálogo mais ou menos assim:</p>
<p>— E aí, há alguns dias que não o vejo. Tudo bem com você?</p>
<p>— Tudo bem, obrigado. E você, como está?</p>
<p>— Tudo em ordem. Só quero saber para onde você vai com tanta pressa.</p>
<p>— Estou indo à Toca, — respondeu o outro, mais enigmático do que preciso.</p>
<p>— Toca?</p>
<p>— Sim, à Toca.</p>
<p>— Que lugar é este? Moro há tantos anos aqui e ainda não o conheço e nem sei onde fica.</p>
<p>O outro, gostando do rumo da prosa, continuou mais misterioso ainda e saiu-se com esta:</p>
<p>— Por acaso você sabe em que lugar se recolhe o coelho?</p>
<p>— Claro que sei. Vive e se esconde numa toca.</p>
<p>— Então estamos entendidos, amigo. Vou à casa do nosso amigo comum, o Chico Coelho. Se ele é Coelho, mora na Toca.</p>
<p>Os dois amigos, trocado o diálogo, deram boas risadas. A conversa tomou conta da cidade, correndo de boca em boca, e o nome Toca pegou.</p>
<p>A princípio era empregado para identificar a propriedade de Chico Coelho, para mais tarde servir de referência àquela área da rua Luciano das Neves. Depois a Toca passou a ser freqüentada por outras pessoas que não se dirigiam apenas à casa de Chico Coelho, que foi totalmente esquecido, mormente nos dias atuais.</p>
<p>Depois de tanto tempo com essa denominação inquestionável e sem batismo formal, o nome Toca caiu quase em completo esquecimento, sendo a localidade apenas conhecida como rua Luciano das Neves com os seus respectivos números, um local ou uma rua como outra qualquer.</p>
<p>O mesmo povo que generosamente homenageou um dos seus primeiros moradores, mutável através das gerações, preferiu, por certo, adotar o nome da rua com os seus números e casas comerciais a lembrar que ali existiu um bairro de maior abrangência identificado como Toca.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Apicum do Poço</b></p>
<p>
Quando nos reportamos aos bondes falamos em Apicum do Poço pela primeira vez e em outra oportunidade, discorrendo sobre o rio da Costa, dissemos que a sua nascente começava no poço do Apicum. Comentamos também que a localidade de Apicum do Poço perdeu a sua identidade quando absorveu o nome Itapoã, pela proximidade com esse bairro.</p>
<p>Entretanto, quem possui imóveis naquela região, lendo a escritura de propriedade registrada no Cartório de Registro Geral de Imóveis, encontrará a denominação de Apicum do Poço.</p>
<p>Apicum quer dizer brejo de água salgada formado à beira mar, vereda arenosa entre banhados e alagadiços. O poço do Apicum era um meio termo desta caracterização. Ao invés de um brejo, tratava-se de um poço de águas escuras, porém transparentes nas margens, e que só perdiam essa transparência à medida que se distanciava para partes mais fundas. O grosso das suas águas surgia e brotava da imensa vegetação aquática das proximidades, daí a coloração escura, mas mesmo com essa tonalidade não era imprópria para banho.</p>
<p>Quando em Apicum do Poço moramos, juntamente com a pouca meninada da vizinhança fizemos desse ponto um dos locais prediletos da nossa recreação, com as nadadas, os caldos aplicados e recebidos e as diversas brincadeiras tramadas, mergulhos e mais mergulhos, até ficarmos de olhos vermelhos. Brincávamos de boto-tainha, sendo os perseguidos as tainhas e o perseguidor o boto, e só deixava de sê-lo no momento em que conseguia agarrar um dos participantes. Aí a tainha virava boto, de perseguida virava perseguidor, e recomeçava tudo de novo. Para melhor identificar botos e tainhas, antes ou após os mergulhos de perseguição e de escape, gritavam: &#8220;Boto!&#8221; E, em coro, os perseguidos respondiam: &#8220;Tainha!&#8221; Daí o nome da brincadeira de boto-tainha. A escolha do boto da primeira rodada era determinada em sorteio, a menos que se apresentasse algum voluntário. Conseguido o primeiro, os seguintes surgiam uns após os outros. Bastava que uma das tainhas virasse presa, assumindo de imediato a condição de boto.</p>
<p>Esse lugar aprazível em que moramos por quase três décadas e onde nasceram os nossos dois irmãos mais moços — César e Olga — de um total de sete, merece da nossa parte uma referência muito especial. Não porque ali crescemos, mas pelos vários amigos e companheiros que ali fizeram parada, visitando-nos e participando das estrepolias. Dentre estes há um amigo, o Ari Queiroz da Silva, que foi nosso colega no Ginásio do Espírito Santo. Quando nos encontramos a conversa, vira-e-mexe, descamba para esse assunto. Ari, homem culto e de caráter ilibado, exerceu no governo do Espírito Santo alto cargo efetivo, no qual se aposentou, além de outros em comissão. Mesmo aposentado foi secretário de Estado e procurador geral, na Procuradoria do Estado. Atualmente, depois de um hiato em governos passados, voltou a assumir o mesmo cargo de procurador geral a convite do governador José Ignácio.</p>
<p>O seu depoimento nos é muito valioso, pois retrata esse lugar com fidelidade e independência, sem quaisquer interesses, a não ser o da amizade, considerando-o bonito e bucólico. Apontava para nós dizendo:</p>
<p>— Lugar bonito era aquele em que Zé morava!</p>
<p>E descrevia-o:</p>
<p>— A região tinha um nome sugestivo: Cruz do Campo. Era lá que estava delimitado, no Apicum do Poço, o sítio da sua família. Impressionava-me o verdejante pasto, em capim Pernambuco. Brotavam nele, em grande extensão, milhares de florzinhas amarelas compondo a paisagem como se fora um imenso tapete florido, no apertar dos olhos. Um pouco mais distante da porteira de entrada desse sítio via-se uma casa de telhado com duas águas, avarandada nas laterais e ostentando à sua frente um vistoso pinheiro de Natal, a prumo com suas copas e hastes bem definidas, crescendo e se estreitando para o alto, até findar o seu último pedúnculo, em broto tenro preparando-se para despachar novos galhos.</p>
<p>E prossegue:</p>
<p>— E a vista do pomar! Um pequeno córrego tortuoso e marulhante, se observado não de tão longe, escorria entre as ramagens que se debruçavam sobre as suas águas. A sombra amiga de algumas árvores nativas. Saltavam aos olhos dois pés de sete-cachos frondosos para a espécie. De seus cachos brotavam, na primavera, infinitas pétalas brancas com um ligeiro rajado róseo na base. Era flor de uma só pétala! Bastante requisitada pelas abelhas que, na disputa de seu néctar, faziam-se ouvir no zumbido da faina, nervosas, no pouso de flor em flor. Na predominância da cor, o chão ficava alvo delas. E como se não bastasse, exalavam um perfume ativo e inebriante, sentido a distância.</p>
<p>E conclui:</p>
<p>— Era um presente da natureza admirá-las no seu porte, na cobertura alvacenta das flores, em contraste com a folhagem muito verde, vendo-se o chão coberto delas e no olfato sentir o gosto do seu perfume! Compondo, finalmente, o sossego campestre, como pano de fundo, ao longe avistavam-se os decantados morros do Moreno e do Convento da Penha, altivos e serenos.</p>
<p>
<b>O cair da tarde</b></p>
<p>
A passarada agitada recolhia-se nas copas das árvores, mais nas das mangueiras do que nas outras. As sabiás pardas em bandos e em maior número, com estridentes pios que mais pareciam miados de gato, disputavam, num bater de asas frenético, um lugar para se abrigarem em meio às folhagens.</p>
<p>Bem alto, riscando o céu, ora descendo, ora subindo, as berrumeiras faziam ruidosas revoadas, num vaivém, para, em dado momento, se decidirem pelo local para o seu recolhimento. Quando o faziam, de ponta-cabeça e num vôo em delta que terminava num razante espetacular seguido do seu sibilar cortante, pousavam no campo do seu pernoite. No lusco-fusco da noite, com vôos repetitivos em ziguezagues ou círculos, os bacuraus quase tocavam suas asas no chão.</p>
<p>Ainda menino e com o nosso irmão mais moço, César, o maior parceiro de parte das nossas peraltices de criança, descíamos da varanda de casa para aproximarmo-nos dessas aves noturnas que passavam rente aos nossos corpos, como se nos instigassem a persegui-las ou caçá-las. Era o que fazíamos usando uma vara flexível de bambu. A bem delas e nosso também, nunca conseguimos abatê-las. Mas era divertido vê-las, em manobras rápidas, desviar-se das vergastadas sucessivas aplicadas contra elas.</p>
<p>A noite em queda aos poucos virava breu. As estrelas no céu cintilavam aos milhares às nossas vistas, mas embaixo a escuridão tornava-se assustadora. Não mais temerosa porque orientávamo-nos pelos lampiões e lanternas a querosene, cujas luzes bruxuleantes, dentro da casa, vazavam pelas pequenas vidraças de portas e janelas.</p>
<p>Apesar de ser noite, ainda não havia chegado a hora de nos recolhermos à casa. As nossas estrepolias continuavam. Faltava a caça aos vaga-lumes nas suas trajetórias luminosas, num acende-e-apaga que cortava a escuridão. O propósito era apanhá-los vivos e para fazê-lo acompanhávamos o seu percurso iluminado. Um bater de mão, quando estávamos com sorte, atirava-os ao chão. Recolhê-los não era difícil. Denunciavam-se no escuro pelos dois olhinhos iluminados, que brilhavam como se fossem dois minúsculos faróis de carro semi-apagados.</p>
<p>De outra espécie, os pirilampos tinham a sua fluorescência na cauda. Também se denunciavam caminhando no chão quando derrubados. Os vaga-lumes eram recolhidos numa caixa de fósforos vazia. Assim, no quarto escuro, na hora de dormir, vê-los vagueando iluminados era a nossa última distração antes de pegarmos no sono.</p>
<p>Mas antes disso, ao retornar à casa sentávamo-nos à mesa, em volta de um lampião aceso, junto com a família que conversava distraidamente sobre os acontecimentos do dia, fazia planos e contava histórias. Para encerrar, minha mamãe, com papai atento, fazia as orações da noite tiradas do seu velho catecismo. Embora sérios e contritos, a nós e outros irmãos mais novos isso dava ensejo a risos por sermos muito crianças, principalmente quando em certa altura se pedia a Deus proteção para os moribundos. Nós fazíamos uma imediata associação à bunda, embora o momento fosse impróprio para risos e mamãe já houvesse pacientemente explicado o sentido do vocábulo moribundo. E a história se repetia sempre, pois não conseguíamos controlar o riso, que escapava entre os nossos dentes cerrados. Nosso pai, sério, a tudo presenciava sem nos repreender, deixando a cargo da mamãe fazê-lo, o que nem sempre acontecia. Findas as orações, era chegada a hora do recolhimento aos nossos quartos, e a noite terminava como esperado: pedíamos bênçãos e éramos abençoados, desejando-nos bem lá do fundo dos seus corações uma boa noite!</p>
<p>
<b>Sítio do Batalha</b></p>
<p>
Detivemo-nos, por bom tempo, falando sobre o morro do Batalha quando dissemos que o rio da Costa, pelo lado sul, lambia-lhe os beirais do lajedo e, a oeste, encostava-se novamente às suas faldas.</p>
<p>Falta, no entanto, falar desse importante lugar dando ênfase à sua paisagem e à sua pradaria como adequadas ao lazer de tempos pretéritos. Comecemos pela sua localização. A entrada ficava à margem da avenida Jerônimo Monteiro demandando à praia da Costa, hoje avenida Champagnat, e era frontal à rua Luíza Grinalda. Toda essa testada era guarnecida por uma cerca de arame farpado, sustentada por mourões de camará, a intervalo um do outro não inferior a metro e meio.</p>
<p>Adentrava-se o sítio por uma grande porteira rústica de madeira de lei, com tábuas falquejadas, suportando-a no seu vaivém, um volumoso e forte batente de madeira também de lei, esquadrejado. Durante o dia, porteira e batente ficavam envolvidos, à guisa de tranca, por uma grossa argola de arame liso facilmente removível. À noite, além da argola de arame liso, corrente e cadeado deixavam a cancela à mercê dos moradores do sítio. Junto ao batente, uma passagem angulosa para pedestres, livre a qualquer hora do dia e da noite. Ultrapassada a porteira, logo à frente e à esquerda, dois frondosos cajueiros, lado a lado, se tocavam. Muita sombra para os dias de sol e deliciosos cajus amarelos na temporada.</p>
<p>Caminhando-se um pouco mais, ia-se ao encontro, no meio do campo, de uma casa de duas águas coberta de zinco, não muito grande, ostentando na sua fachada duas largas janelas que se abriam para fora em bandas. A entrada era feita por portas laterais a leste e ao fundo, onde estava instalada a cozinha. Para ventilação e iluminação dos quartos e da sala mais duas ou três janelas ocupavam as laterais, além das existentes na fachada. Eis a casa de seu Reparato, como a conhecemos.</p>
<p>Nos fundos da casa e mais além havia um curral com cocheiras para forragem ou outra alimentação apropriada ao gado de leite. O chiqueiro da bezerrada era apartado. Um pouco mais distante erguia-se uma granja.</p>
<p>O gado, além de alimentar-se com a ração, apascentava-se no correr do dia na pastagem ali existente que era muito bem cuidada. As ervas daninhas que nela medravam eram arrancadas à mão, pela raiz, para que não voltassem a crescer. Era essa relva, fora da estação de estio, de um verde muito vivo e limpo a ocupar os lugares planos e a subir morro acima. Aqui e acolá, em espaços irregulares, havia árvores, frutíferas ou não. As primeiras, além dos frutos que ofereciam, serviam com as demais de proteção ao gado, abrigando-o do sol ardente e proporcionando-lhe descanso em sua ruminação. Sem dúvida o sítio do Batalha, por tudo isso e muito mais, era um local aprazível e fazia o deleite de quem o frequentava.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Chiquinho da Batalha</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
O primeiro morador de que se tem notícia e proprietário desse lugar pitoresco chamava-se Francisco Batalha, apelidado Chiquinho da Batalha.</p>
<p>Vinha a ser, trazendo-o para mais perto dos nossos dias, avô do saudoso Antônio Pinto Rodrigues, intelectual e um dos fundadores da Academia de Letras Humberto de Campos, nascida do Centro Cultural Humberto de Campos.</p>
<p>Chiquinho da Batalha, no seu tempo, conforme pesquisamos, fora um homem muito curioso. Tinha ares de cientista e inventor, apesar de se ter conhecimento da tentativa de só um invento de sua parte. Era um homem enigmático que queria trazer ao mundo algo novo, espetacular e com isso, quem sabe, ganhar fama, amealhar recursos e ainda ver o seu nome incluído no rol dos inventores notáveis do fim do século XIX. Alimentava a ideia fixa de trazer a lume o &#8220;moto contínuo&#8221;. Poderia ser uma máquina ou um aparelho que, uma vez acionado, sem interferência humana, por moto próprio, funcionasse indefinidamente. Essa geringonça não deveria servir para locomoção, por certo seria de giro mesmo.</p>
<p>Conta-se que Chiquinho, por essa descoberta, desestabilizou-se. Vendeu bens móveis e semoventes, trabalhando dia e noite sem conseguir dar forma à sua idéia. Seu trabalho nunca foi visto e ninguém sabia de sua concepção, porquanto era executado no mais absoluto sigilo. Dizem alguns que ele poderia ter experimentado algum arremedo de sucesso, mas o fato é que o nosso inventor despediu-se deste mundo para outro melhor sem nem sequer deixar um protótipo, mesmo inacabado, para os olhos curiosos do povo. Imagina-se que ele mesmo, com suas economias comprometidas e sem recursos para tocar o projeto, ou os seus herdeiros, por julgarem-no inexeqüível, o tenha destruído.</p>
<p>
<b>Lazer</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
O sítio do Batalha, pela sua localização e mais variadas alternativas de lazer, foi eleito ponto favorito dos jovens de Vila Velha nas décadas de 30 e 40. Com dois pedaços de pau fincados de um lado e do outro do terreno e quatro linhas imaginárias traçadas, fazia-se um campo de futebol onde jogavam os camisados contra os descamisados. O tempo de jogo era o que menos se contava e o número de gols estabelecia a troca de lado do campo e o fim da partida. Dependendo do dia da semana, o cair da noite determinava o fim da peleja.</p>
<p>O morro com a sua relva macia e uniforme permitia a nós meninos deslizar de cima a baixo sobre tábuas preparadas ou sobre sapatas abauladas e flexíveis recolhidas no chão e provenientes das palmeiras imperiais da Prainha de Vila Velha. Nem todos os que desciam chegavam incólumes ao sopé do morro. Muitos ficavam pelo caminho, caindo ao perderem o equilíbrio. Os mais ousados, não satisfeitos, metiam-se dentro de pneus e vinham até o pé da elevação, quando não caíam antes de concluir o percurso. No fim da descida todos ficavam tontos e cambaleantes.</p>
<p>O sítio do Batalha, além da entrada principal, dispunha de muitas outras feitas por vizinhos, cujos quintais faziam frente para a rua Antônio Ataíde. Com tanta liberalidade há de se convir que se tratava de um recanto acolhedor e democrático.</p>
<p>___________________</p>
<p>NOTAS</p>
<p>
[ 2 ] Essa casa, resistindo ao tempo, depois da metade do século XX foi negociada pelos herdeiros com uma irmandade religiosa que a transformou num educandário de ensino. Num primeiro momento, a congregação religiosa o denominou de Colégio Nossa Senhora da Penha, sendo a sua primeira diretora a caridosa Irmã Feliciana Garcia. Esse estabelecimento de ensino ganhou notoriedade e cresceu. Tinha necessidade de se expandir. Espaço físico não lhe faltava. A mansão adquirida dava-lhe meios para tanto com o seu terreno ocupando todo um quarteirão. O novo prédio foi erigido. A sua denominação mudou de Colégio Nossa Senhora da Penha para a de Colégio São José, já que um outro mais antigo, o dos Irmãos Maristas, usava aquele nome.</p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta,&nbsp;<i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>José Anchieta de Setúbal</b>&nbsp;nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p>
<div>
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</blockquote>
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		<title>Ecos de Vila Velha</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Jan 2002 14:08:00 +0000</pubDate>
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<b>SUMÁRIO</b></p>
<p>
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<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/os-primeiros-cinemas/" target="_blank" rel="noopener">Os primeiros cinemas</a></p>
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<p><b>Transportes</b></p>
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<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; <a href="https://estacaocapixaba.com.br/transportes-lancha/" target="_blank" rel="noopener">A lancha</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/algumas-localidades/" target="_blank" rel="noopener"><b>Algumas localidades</b></a><br />
<b><br /></b><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-avenida-champagnat-e-enchente-de-1960/" target="_blank" rel="noopener"><b>A avenida Champagnat e a enchente de 1960</b></a></p>
<p>
[In SETÚBAL, José Anchieta, <i>Ecos de Vila Velha</i>, Vila Velha-ES: PMVV, 2001. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>José Anchieta de Setúbal</b> nasceu em Vila Velha-ES e se formou em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo. Ex-prefeito e ex-vereador por Vila Velha, foi procurador substituto do Estado, sub-chefe da Casa Civil, coordenador da Defensoria Pública e secretário da Justiça. Foi membro do Conselho de Sentenças da Comarca da Capital e sócio-fundador do Rotary Club de Vila Velha.</p></blockquote>
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