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	<title>Arquivos José Augusto Carvalho &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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		<title>Resenha de O barco ébrio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 17:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[José Augusto Carvalho]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar Gama Filho]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Traduzir um poema de uma língua para outra é ainda tarefa mais difícil (a linguagem do poema é tremendamente metafórica), que exige do tradutor uma co-autoria que não pode ser manifestada, uma co-autoria em que o co-autor, para agigantar-se, se autodestrói necessariamente, para deixar em toda a sua transparência a autoria primitiva e alheia, pagando [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Traduzir um poema de uma língua para outra é ainda tarefa mais difícil (a linguagem do poema é tremendamente metafórica), que exige do tradutor uma co-autoria que não pode ser manifestada, uma co-autoria em que o co-autor, para agigantar-se, se autodestrói necessariamente, para deixar em toda a sua transparência a autoria primitiva e alheia, pagando o preço de apagar-se, num processo de identificação suicida e, ao mesmo tempo, revivificadora.</p>
<p>Esse foi, exatamente, o trabalho de Oscar Gama Filho em sua tradução do difícil, belo e eterno poema &#8220;Le bateau ivre&#8221;, publicada este ano, recentemente, pela Fundação Ceciliano Abel de Almeida, com o título Eu conheci Rimbaud &amp; Sete poemas para armar um possível Rimbaud: um trabalho de recriação de um texto na destruição do próprio co-autor enquanto tradutor, mas na sua ressurreição como autor-poeta. Um suicídio de Fênix que renasce das cinzas de plumagem nova, mas com a mesma essência do original recomposto. Se a tradução foi o auto-aniquilamento em benefício da Arte, os poemas finais, do próprio Oscar Gama Filho, são a sua ressurreição.</p>
<p>[&#8230;] A língua é forma e não substância — dizia Saussure, ou os seus discípulos o disseram por ele. Mas Oscar Gama Filho sobrepujou esse obstáculo sem teorizar: vivenciou intensamente o ofício e a arte de tradutor, num livro que pode ser considerado uma obra de consulta obrigatória para qualquer tradutor, uma lição de identificação do tradutor com o autor traduzido, uma simbiose que faz ciência ao aprofundar-se na ficção.</p>
<p>O processo é lento e gradual. Inicialmente, a afirmação: &#8220;Rimbaud sou soou eu&#8221; (p.11), e o emprego distinto da 1ª e 3ª pessoas (&#8220;De tanto ouvi-lo, já o ouço em mim&#8221;, ib.). Depois a mistura que gera a simbiose: &#8220;Mas quem fui Rimbaud?&#8221; (ib.), e a identificação se completa na biografia que é uma confissão em 1ª pessoa. Desvenda-se assim ao leitor o segredo de uma psicografia sem mediunidade, num processo de fusão do tradutor no autor. Oscar não apenas se identifica com Rimbaud: estuda-lhe a alma, assume-lhe a identidade, com seus vícios, sua inteligência, seu espírito aventureiro, e sua genialidade. E só então, desarmado de sua própria personalidade, autodestruído para ceder lugar à voz de Rimbaud em língua portuguesa, é que ele passa ao fantástico poema &#8220;O barco bêbado&#8221;.</p>
<p>A tradução é científica, mas, paradoxalmente, ficcional. Científica, na medida em que o tradutor procurou entender o poema desde as suas origens, fontes e polifonias, e mergulhar em profundidade na essência do autor; ficcional, na medida em que os recursos estilísticos do autor foram respeitados pela criatividade artística e pelo bilinguismo do tradutor. [&#8230;] O leitor terá a satisfação de descobrir (já que o poema está integralmente reproduzido em francês, no livro) não apenas uma genial e trabalhosa transposição de uma língua para outra, mas o segredo maravilhoso da própria arte da tradução.</p>
<p>Mas há ainda outro detalhe: se o tradutor Oscar Gama começa por anular-se ao identificar-se totalmente com Rimbaud; se continua a anular-se mergulhando fundo no poema, em sua gênese e meandros; se se autodestrói como autor-tradutor, ele consegue realizar a tarefa insólita de renascer na integridade de si mesmo, ao encerrar o livro com poemas de sua própria autoria, Rimbaud-renascido na plumagem de um Oscar Gama que nunca deixou de ser o próprio Oscar Gama, em momento algum, apesar de tudo: o ficcionista, o cientista, o autor, o tradutor, o poeta visionário e o homem de pés no chão. Embora partindo do trabalho de Augusto Meyer, publicado há 34 anos, Oscar Gama sobrepujou o mestre. Foi além. E convenceu!</p>
<p>Se a Fundação Ceciliano Abel de Almeida pudesse fazer uma distribuição dessa tradução, Oscar Gama, com seu trabalho, se tornaria um nome nacionalmente conhecido. E seu livro teria não só de figurar obrigatoriamente na bibliografia de qualquer ensaio sobre Rimbaud, mas também — e sobretudo — de constar como obra de consulta obrigatória para qualquer tradutor.</p>
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[In Um tradutor não Traidor. Minas Gerais, Belo Horizonte, 6/1/1990. Suplemento Literário, p. 1.]</p>
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<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><br /></b><br />
<b>José Augusto Carvalho </b>é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um <i>Pequeno Manual de Pontuação em Português</i> e de uma <i>Gramática Superior da Língua Portuguesa</i>.</p>
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