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	<title>Arquivos Levy Rocha &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Levy Rocha &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Batismo que ficou</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Dec 2004 17:53:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cachoeiro de Itapemirim]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A referência, talvez a mais antiga, ao nome Itapemirim (do tupi: ita — pedra; pé — caminho; mirim — pequeno, ou: itapé — laje; mirim — pequena), encontramo-la na carta de confirmação dos limites das Capitanias do Espírito Santo e São Tomé, posteriormente Paraíba do Sul, datada de 12 de março de 1543. Como perdurassem [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
A referência, talvez a mais antiga, ao nome Itapemirim (do tupi: ita — pedra; pé — caminho; mirim — pequeno, ou: itapé — laje; mirim — pequena), encontramo-la na carta de confirmação dos limites das Capitanias do Espírito Santo e São Tomé, posteriormente Paraíba do Sul, datada de 12 de março de 1543.</p>
<p>Como perdurassem dúvidas sobre o local exato dos Baixos dos Pargos, que deviam servir de limite às terras dos dois donatários, Vasco Fernandes Coutinho e Pedro de Góis, estes resolveram, em boa harmonia, como bons amigos que eram, mudar o nome do rio que os índios chamavam Tapemery, para Santa Catarina, e convencionaram que esse rio ficaria como limite das duas Capitanias.</p>
<p>O nome Santa Catarina era uma homenagem à esposa do Rei D. João III, de Portugal, mas não durou nem vinte anos. Em 1559, prevalecia a toponímia tupi. Nesse ano, escrevia um jesuíta, do Espírito Santo: “… estando ainda os da vila [Vitória] dentro da nau, e eles [os franceses] fora, deram à vela e foram-se a Tapimiri, que está abaixo, como fica dito, algumas vinte léguas, para ali carregarem de Brasil”. Foi nessa oportunidade que os homens do Donatário resolveram travar uma escaramuça com os franceses; seguiram-se-lhes as pegadas, e o destemido Maracajaguaçu, valente cacique emigrado com a sua tribo da Guanabara, adiantou-se-lhes, indo aprisionar uns vinte homens que já estavam em terra, duas chalupas, “uma ferraria e muito resgate e roupas, de maneira que quase todos os negros vinham vestidos”.</p>
<p>Noutra carta, escrita no Colégio de Vitória e datada do mesmo ano, informando sobre desavenças e contrariedades havidas entre os padres e Maracajaguaçu, o jesuíta Antônio de Sá escreveu: “… disse [o índio] que se o padre Brás Lourenço se fosse para a Bahia ele se iria para Tapemiri”.</p>
<p>Documento da mesma época faz referência à povoação de Santa Catarina das Mós, que o filho e herdeiro de Pero de Góis levantou ao sul do rio, mas que não vingou, sendo arrasada pelos ferozes goitacás. Situava-se, segundo notícia das “Cartas de Vilhena”, datadas de 1802, à latitude de 21 graus, 20 minutos e 18 segundos, conforme observações dos matemáticos régios: P. P. Diogo Soares e Domingos Cappacci, feitas em 1730 e 1731. Quando Francisco Gil de Araújo tomou posse da Capitania do Espírito Santo, ver-se-iam, ainda, naquele local, alguns vestígios de igreja e casas que ali houve.</p>
<p>Em 1556, o viajante francês, Jean de Léry, colheu estas impressões, reproduzidas no seu pitoresco e informativo relato: <i>Viagem à Terra do Brasil</i>: “… costeando sempre a terra, passamos pelo lugar denominado Tapemiry, onde se encontram pequenas ilhas na entrada da terra firme e que me pareceram habitadas por selvagens aliados dos franceses”.</p>
<p>A ilhota Taputera (do tupi: pedra fora d’água), que bifurca o desaguadouro do rio, e a Ilha dos Ovos, um pouco à frente, são muito pequenas para serem habitadas. É mais provável que Léry estivesse fazendo confusão com a Ilha dos Franceses, no mesmo roteiro, entre Itaoca e Itapemirim.</p>
<p>Gabriel Soares de Souza, português e senhor de engenho, na Bahia, escreveu, em 1587, no seu <i>Tratado Descritivo do Brasil</i>, de cujo apógrafo castelhano preferi: “…De Larevite hasta Pamerim, hay 4 o cinco leguas corriendo la Costa Noroeste Sudeste, la qual está em 20 grados e ¾. De Tapamarim a Manage…”</p>
<p>Curiosa, a transformação do nome do rio, em trecho tão curto de descrição: exemplifica que os antigos não se preocupavam muito com a grafia dos nomes próprios…</p>
<p>Saltemos ao século dezessete: No mapa geral, colorido como os demais, do <i>Livro da Rezão</i>, datado de 1612, cujo original, relíquia do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tive a emoção de manusear, vê-se bem assinalado o rio Tapemery.</p>
<p>Outro cimélio: Reys-boeck (holandês), acervo da Biblioteca Nacional, impresso em Amsterdão, em 1624, registra no mapa do Brasil que estampa: Tampomeni.</p>
<p>João Teixeira, cosmógrafo do Rei, no desenho que fez do Mapa de Todo o Estado do Brasil, em Lisboa, no ano de 1627, escreveu: Itapemeri.</p>
<p>Alberto Lamego, um campista grande desentocador de documentos raros, que vieram aclarar muitos pontos obscuros da nossa História, inseriu na sua alentada obra: A Terra Goitacá, um mapa, datado de 1630, no qual consta idêntica grafia: Itapemiri.</p>
<p>Uma grafia italianada encontramos no mapa do Brasil, inserto na <i>Istoria delle Guerre Del Regno Del Brasile</i>, pelo carmelita Giovanni Giuseppe di Santo Tereza, editado em 1698: Tapemerini.</p>
<p>Um desbravador das vertentes do rio, Pedro Bueno Cacunda, escrevia, do Arraial de Santana, em 1734: “… Desta aldeia [Reritiba] para o sul, fica hum rio chamado Itapemery: a sua barra he de areias, mal entram canoas e lanchas e com perigo. Ahi fiz o primeiro assento e por elle acima as primeiras entradas. Abre este rio as serras e tem boa passagem”.</p>
<p>A <i>Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro</i> publicou as observações que o Desembargador Luís Tomás de Navarro constatou, em 1808, das quais ressalto: “… De Piúma continuei, e depois de andar 4 léguas, cheguei ao rio Itapemirim, que está ao norte da povoação deste mesmo nome. A sua passagem pertence à Câmara de Vila de Guaraparim; acima dito rio está a povoação chamada Caxanga, que também se chama de Itapemirim; esta povoação se deve erigir em vila por ter já muitos moradores, e ficar em grande distância da Vila de Guaraparim”.</p>
<p>Na História do Brasil, em 12 pequenos volumes (hoje muito rara), editada em Lisboa, no ano de 1823, escreveu o seu autor, Pedro José de Figueiredo: rio Itapamerim.</p>
<p>Saltando com “bota de sete léguas”, através quatrocentos anos, desde o Primeiro Donatário da Capitania do Espírito Santo até os nossos tataravós, vemos que, salvo uma frustrada tentativa de mudança, o batismo indígena perdurou: rio Itapemirim.</p>
<p>Se tal exemplo, frutificado em diversos acidentes geográficos da costa capixaba, prevalecesse como norma, de grandes confusões se poupariam os que se ocupam da História.</p>
<p>[In <i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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		<title>Crônicas de Cachoeiro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Dec 2004 17:42:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cachoeiro de Itapemirim]]></category>
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		<category><![CDATA[Levy Rocha]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>APRESENTAÇÃO Levy Rocha tem prestado relevantes serviços à cultura do seu Estado. Quando da Primeira Exposição do Livro Capixaba, realizada em maio de 1957, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, tive na sua cooperação e na de Aloísio Martins Ataíde a razão principal do êxito alcançado. Já nessa época, o ilustre espírito-santense vinha trabalhando, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
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<a href="https://4.bp.blogspot.com/-_jBgoUyELNk/WOFJ8Kc8FYI/AAAAAAAAMUA/kD0cErf7HwU24OxYGKlrq2j7MJw8dNYCACEw/s1600/Cr%25C3%25B4nicas%2Bde%2BCachoeiro.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img fetchpriority="high" decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2004/12/Cr25C325B4nicas2Bde2BCachoeiro.jpg" class="wp-image-8026" width="258" /></a></div>
<p><b>APRESENTAÇÃO</b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
Levy Rocha tem prestado relevantes serviços à cultura do seu Estado. Quando da Primeira Exposição do Livro Capixaba, realizada em maio de 1957, na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, tive na sua cooperação e na de Aloísio Martins Ataíde a razão principal do êxito alcançado.</p>
<p>Já nessa época, o ilustre espírito-santense vinha trabalhando, com carinho, nas pesquisas do seu interessante livro Viagem de Pedro II ao Espírito Santo, cuja primeira edição se acha praticamente esgotada.</p>
<p>Colaborando em quase todos jornais da sua terra e, ultimamente, no Jornal do Comércio, do Rio, Levy jamais se esqueceu de mandar as suas crônicas para o Correio do Sul, jornal onde iniciou a vida literária.</p>
<p>Foi, aliás, nas páginas do modesto órgão da imprensa capixaba, criado por Armando Braga e mantido pelo desvelo e perseverança de Hélio Ramos, que Newton e Rubem Braga exercitaram o estro do seu talento.</p>
<p>Levy Rocha, apesar dos seus inúmeros afazeres, vezes por outra, após consultar manuscritos, comprar obras raras sobre coisas e homens do Espírito Santo, manusear alfarrábios e examinar cimélios, em buscas incessantes nas bibliotecas públicas e particulares, mandava, ao seu inesquecível bissemanário, uma crônica sobre Cachoeiro e sua gente, onde o assunto, vazado com simplicidade, trazia o sinete do julgamento definitivo, tal a segurança dos fatos narrados ou dos conceitos emitidos.</p>
<p>Assim é que, nas investigações em torno das origens do toponímico Cachoeiro de Itapemirim, ele apresenta valioso estudo sobre a etimologia da palavra Cachoeiro e registra nada menos de doze grafias diferentes na evolução morfológica do vocábulo Itapemirim.</p>
<p>Reunindo, agora, todos esses trabalhos, até então esparsos, Levy Rocha, animado com o sucesso alcançado com a publicação do seu primeiro livro, lança mais este: Crônicas de Cachoeiro.</p>
<p>Percorrer as suas páginas, principalmente para os que, por laços afetivos, se acham direta ou indiretamente ligados a Cachoeiro, é assistir ao desenrolar, nesse calidoscópio de gratas recordações, de cenários e acontecimentos inesquecíveis.</p>
<p>É, realmente, agradável, darmos um pulo ao passado da “Prisioneira Feliz”, guiados pela mão desse novo cicerone da sua história, para com ele participarmos da mesma unção com que revive a luta épica dos antigos pioneiros que fincaram os pés nas barrancas do Itapemirim.</p>
<p>Para os que gostam de preciosidades literárias, a reprodução da primeira crônica de Rubem Braga, em O Itapemirim, é uma revelação das mais felizes, pela importância do achado.</p>
<p>Há, ainda, em “Newton Braga e Ribeiro Couto” e “Duas Cartas de Newton Braga”, evocações interessantes sobre os sempre lembrados autores de Cidade do Interior e Cabocla.</p>
<p>Levy Rocha reuniu em Crônicas de Cachoeiro, além dos trabalhos citados, mais os seguintes: “Batismo que ficou”, “O Nome da Cidade”, “O Quartel da Barca”, “Primórdios de Cachoeiro”, “Um Antigo Morador de Cachoeiro”, “O Primeiro Jornal de Cachoeiro”, “Virgílio Vidigal”, “Os Barões do Itapemirim”, “A Capela do Moreira”, “A Ponte Municipal”, “Navegação a Vapor do Itapemirim”, “Vieira da Cunha”, “A Estrada de Ferro Caravelas”, “Festa das Canoas”, “O Muqui de Antigamente”, “Remanescentes Neolíticos do Índio” e “Imprensa Quebra-Peito”.</p>
<p>Com capa e ilustrações de Rachel Braga e Sylvio Redinger, Crônicas de Cachoeiro é, na realidade, a história mais completa, até hoje escrita, sobre a “Princesa do Sul” capixaba.</p>
<div style="text-align: right;">
Rio, 31 de maio de 1966.</div>
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HÉLIO ATHAYDE</div>
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<b>SUMÁRIO</b></div>
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<b><br /></b></div>
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<b><br /></b></div>
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<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener">Alguns flashes de Levy Rocha: Biobibliografia</a>&nbsp;(por Anna Bernardes Rocha)</div>
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<b>As Crônicas:</b></div>
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<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/batismo-que-ficou/" target="_blank" rel="noopener">Batismo que ficou</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/o-nome-da-cidade/" target="_blank" rel="noopener">O nome da cidade</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/o-quartel-da-barca/" target="_blank" rel="noopener">O quartel da barca</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/primordios-de-cachoeiro/" target="_blank" rel="noopener">Primórdios de Cachoeiro</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/um-antigo-morador-de-caxoeiro/" target="_blank" rel="noopener">Um antigo morador de &#8220;Caxoeiro&#8221;</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/o-primeiro-jornal-de-cachoeiro/" target="_blank" rel="noopener">O primeiro jornal de Cachoeiro</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/virgilio-vidigal/" target="_blank" rel="noopener">Virgílio Vidigal</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/os-baroes-do-itapemirim/" target="_blank" rel="noopener">Os barões do Itapemirim</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/a-capela-do-moreira/" target="_blank" rel="noopener">A capela do Moreira</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/a-ponte-municipal/" target="_blank" rel="noopener">A ponte municipal</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/navegacao-vapor-no-itapemirim/" target="_blank" rel="noopener">Navegação a vapor, no Itapemirim</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/vieira-da-cunha/" target="_blank" rel="noopener">Vieira da Cunha</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/a-estrada-de-ferro-caravelas/" target="_blank" rel="noopener">A Estrada de Ferro Caravelas</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/a-primeira-cronica-de-rubem-braga/" target="_blank" rel="noopener">A primeira crônica de Rubem Braga</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/newton-braga-e-ribeiro-couto/" target="_blank" rel="noopener">Newton Braga e Ribeiro Couto</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/duas-cartas-de-newton-braga/" target="_blank" rel="noopener">Duas cartas de Newton Braga</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/o-muqui-de-antigamente/" target="_blank" rel="noopener">O Muqui de antigamente</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/remanescentes-neoliticos-do-indio/" target="_blank" rel="noopener">Remanescentes neolíticos do índio</a><br />
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/imprensa-quebra-peito/" target="_blank" rel="noopener">Imprensa &#8220;Quebra-peito&#8221;</a></p>
<p>
[Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b> nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
<p></p>
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			</item>
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		<title>Imprensa &#8220;Quebra-peito&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Apr 2004 19:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cachoeiro de Itapemirim]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Levy Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É fácil estirar o corpo numa poltrona macia e fazer a crítica das modestas publicações do interior, observando os semanários provincianos, assinalando suas deficiências de impressão, resultantes de um mau aparelhamento técnico. Antes da incondicional preferência pelas publicações das metrópoles e do desprezo ostensivo aos esforços dos locais, conviria que se meditasse sobre as dificuldades [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
É fácil estirar o corpo numa poltrona macia e fazer a crítica das modestas publicações do interior, observando os semanários provincianos, assinalando suas deficiências de impressão, resultantes de um mau aparelhamento técnico.</p>
<p>Antes da incondicional preferência pelas publicações das metrópoles e do desprezo ostensivo aos esforços dos locais, conviria que se meditasse sobre as dificuldades que esses heróis anônimos enfrentam na imprensa &#8220;quebra-peito&#8221;.</p>
<p>A falta de prelos é tamanha, no interior, que nos ocorre a certeza: se o que imprimiu o primeiro jornal do Maranhão e livros de Gonçalves Dias não estivesse recolhido a um Museu, ele poderia ser encontrado ainda hoje, funcionando em algum cafundó-de-Judas, ou, quem sabe, talvez mesmo em Cachoeiro&#8230;</p>
<p>Pasmo de admiração e respeito ao lembrar cenas vívidas do trabalho nos bastidores das oficinas.</p>
<p>Invoco a figura de Eugênio Lima, catando e escolhendo tipos grandes de madeira, para títulos e cabeçalhos dos jornaizinhos que ele gostava de fundar. Escrevia, compunha, imprimia, agenciava anúncios, e ficava no bar Belas Artes, fiscalizando, de longe, os meninos a apregoarem a venda do jornal.</p>
<p>Penso no Trófanes Ramos, gerente de <i>A Cruzada</i> e chefe das oficinas, arrancando o paletó, na hora do aperto, pegando no componidor e ajudando o Sagrilo, que cochilava, deixando dúvidas se era devido ao cansaço da noite emendada com o dia ou se por causa da garrafa de cachaça vazia, debaixo da Marinoni.</p>
<p>Vejo o Hermílio Rocha, de velha tarimba, a consertar as plaquetes com a pinça, traído pela miopia e falta de luz do porão das oficinas, vermelho e envergonhado por provocar um pastel, como se fora inábil aprendiz.</p>
<p>Lembro-me das canseiras do Solimar e Herauto de Oliveira, nas oficinas do <i>Asilo</i>, a catar tipos, trabalho para eles sempre maior do que o de encontrar as chaves de ouro dos seus alexandrinos.</p>
<p>Imagino o Pery Vieira, malabarista na confecção da <i>Revista de Cachoeiro</i>, ou de <i>O Cachoeiro</i>, jornal do Dr. Elimário, imprimindo duas vezes a mesma página, devido ao pequeno tamanho da rama da impressora.</p>
<p>Como me enchia de admiração o trabalho quotidiano de Hélio Ramos, ajuntando e espalhando letra por letra, imprimindo sozinho, duas vezes por semana, o <i>Correio do Sul</i>, anos a fio, sem esmorecimentos. Newton Braga, redatoriando o jornal, nas edições especiais da enchente do Itapemirim ou da vitória do Estrela F. C., sabia caprichar nas manchetes que o maestro Hélio era forçado a contrariar: — Esse título, Doutor, não pode ser: acabaram-se os AA&#8230;</p>
<p>E a nobreza dos Semprini, sacrificando o interesse da papelaria, atrasando os impressos comerciais de blocos e faturas, para mobilizar os empregados na impressão dos jornaizinhos estudantis.</p>
<p>Eurípedes Silva, fleumático e filósofo, caprichoso no trabalho, mas difícil de se entusiasmar. Se, então, os piaus ou piabanhas davam sinal de presença, no rio, ele podia estar com excesso de serviço, mas apanhava o anzol, metia-se na canoa e ia-se plantar nos remansos ou no meio do Itapemirim, caniço tenso, atenção concentrada na pescaria, tempo esquecido.</p>
<p>— Eurípedes! — gritava-lhe da margem um freguês — é trabalho urgente!</p>
<p>Enquanto o peixe mordesse o queijo ou a banana do anzol, não adiantava chamar.</p>
<p>Mas, se o serviço era algum jornalzinho crítico ou estudantil, trabalho entremeado de anedotas e pequenas brincadeiras, os peixes ficavam esquecidos; ele metia mãos à obra, com entusiasmo, e fazia prodígios como mestre do ofício.</p>
<p>Recordo-me de um livro que imprimimos, de Pérsio Morais: <i>Águas Passadas</i>&#8230; Duas páginas de cada vez, devido ao tamanho almaço da rama da impressora. Com a escassez de tipos, não era possível compor além de três páginas&#8230; E o livro saiu bonito.</p>
<p>Essas dificuldades são comuns aos jornais do interior: os &#8220;pasquins&#8221; dos &#8220;poetas de água doce&#8221;, frutos de puro ideal, forjas do jornalismo brasileiro.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
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&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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		<title>Remanescentes neolíticos do índio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Apr 2004 19:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cachoeiro de Itapemirim]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Na constante disputa em que viviam as tribos indígenas, dos parques de caça e pesca, a orla marítima era sempre mais ambicionada. Nela, eles encontravam abundância de peixes e mariscos, além do sal, imprescindível à alimentação. Havia, ainda, a atração do intercâmbio com o branco, que trazia os instrumentos de ferro tão precisados: facas e [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Na constante disputa em que viviam as tribos indígenas, dos parques de caça e pesca, a orla marítima era sempre mais ambicionada. Nela, eles encontravam abundância de peixes e mariscos, além do sal, imprescindível à alimentação.</p>
<p>Havia, ainda, a atração do intercâmbio com o branco, que trazia os instrumentos de ferro tão precisados: facas e machados.</p>
<p>É fácil compreender o quanto se revezavam nessa supremacia de domínio.</p>
<p>A terra capixaba, que no tempo de Cabral tinha índio como formiga, recebeu, na extensão da sua costa azul, o batismo tupi: Itabapoana; Siri; Marataízes; Itapemirim; Itaoca; Piúma; Iriri; Ubu: Guarapari: Meaípe; Muquiçaba; Suá; Piraém; Jacareípe&#8230; Em toda essa região, bem palmilhada, foram muitos os sambaquis ou ostreiras, deixados como marcos das diversas tribos itinerantes: tupinambás, tupiniquins, goitacás, botocudos, puris&#8230; Os fabricantes de cal, que vieram depois, se incumbiram de consumir esses &#8220;livros abertos&#8221;, para os pesquisadores.</p>
<p>Os cemitérios indígenas, onde outrora era relativamente fácil escavar uma urna funerária, tornaram-se extremamente raros. As grutas e cavernas vêm sendo transfiguradas pelos visitantes curiosos, que destroem ou carregam os elementos de maior interesse do arqueologista. Só mesmo algum fator ocasional e adverso, como a emanação de gás carbônico, consegue preservar parte de uma importante gruta como a do Limoeiro, no Castelo.</p>
<p>Por tais razões, seria providencial o costume dos aborígenes de reduzirem a cacos os potes, cabaços e utensílios que possuíam, ao abandonarem as suas aldeias. Desses fragmentos de cerâmica com ornatos, encontraram-se diversos, na Sapucaia, região norte do Espírito Santo, junto a machados de pedra e um amuleto de minério de ferro, material classificado como de origem tupi. Notou-se a curiosidade num dos machados de jaspe branco, rocha não encontradiça no Estado, o que vem demonstrar o nomadismo das tribos.</p>
<p>O historiador Antônio Marins registrou, no ano de 1882, o achado numa pequena gruta, ao pé da pedra Itabira, de ossadas e utensílios indígenas. Ajuntou que em 1906 ele endereçou a uma pessoa, no Rio, um machado de pedra negra, com os característicos de autêntico sílex da época neolítica. Não forneceu nenhum outro elemento elucidativo. Mas acentuou outra informação: a da remessa, no citado ano de 82, para figurar na Exposição Antropológica da Corte, de dois machados de pedra (vulgo pedra de raio), encontrados em terras da Cachoeira do Rio Novo.</p>
<p>Recordo-me de um achado, em 1940, na fazenda Santa Rosa, próxima ao município de Cachoeiro de Itapemirim, numa pedra a 500 metros de altura, em uma gruta formando imenso salão escavado na rocha, sobre o abismo, medindo 50m de frente, por 20m de profundidade e 30m de altura: ossos de oito pessoas, seis adultos e duas crianças; uma rede de fibra de tucum; uma pele de onça jaguatirica, provável agasalho; e alguns metros de corda de tucum, de uso presumível para acesso àquele local.</p>
<p>Os índios amarraram, em &#8220;nó de porco&#8221;, ao osso rádio do antebraço duma das crianças, a mais velha, de seis a oito anos, prováveis, uma pequena corda de tucum.</p>
<p>As mulheres botocudas costumavam carregar os filhos atados aos seus pescoços, para melhor os segurarem nas freqüentes correrias pelo mato. Tudo faz crer que aqueles índios se deixaram consumir, ali na gruta, por alguma doença epidêmica, associada à fome e à inanição.</p>
<p>De procedências diferentes, guardo comigo três espécimes de machados de pedra indígenas, pouco elucidativos ao estudo, pelas vagas informações que os acompanham. Um, de pedra clara, bastante polido, salvo na parte superior, oposta ao bisel do corte, mede sete cm de comprimento por três e meio e quatro e meio cm de largura; tido como procedente de São Mateus. Pelo seu reduzido tamanho, deve ter sido encastoado em algum cabo de madeira resistente e dura. como a brejaúba ou o ipê, preferidas para a confecção dos arcos, lanças e tacapes, e usada como machadinha para arrancar o cobiçado mel das abelhas silvestres.</p>
<p>O outro machado, procedente de Bananal, próximo à cidade de Cachoeiro, menos liso, tem o formato de um dente incisivo humano e a dimensão de 14 cm de comprimento por 3 cm de largura, na extremidade superior; 7 cm no terço inferior, onde começa a cava do corte, formado em meia lua. Seu tamanho permite supor que o cabo lhe fosse amarrado ao meio com alguma embira resistente. Quero crer que teria sido de uso dos puris, com mais propriedade, como o primeiro, para arrancar abelheiras mombuca, tuiúba, ou urucu, no oco de alguma oiticica ou tamburi; para cortar algum palmito, ou mesmo quebrar cocos de iri, sapucaia, ou pindoba.</p>
<p>O terceiro espécime, granito preto, procedente do norte do Estado, mede vinte cm de comprimento e o original primitivo mediria vinte e cinco, não fosse a ignorância de um caboclo, o qual perdeu a aposta de que o material, tido como pedra de corisco, ou meteorito, era inquebrável. A conformação dessa pedra admite tratar-se de uma cunha, semelhante às usadas pelos tiradores de madeira.</p>
<p>A melhor notícia dos machados de pedra polida descobertos no solo capixaba parece-nos a fornecida por Afonso Cláudio, em 1918. Machados e punções, ou cunhas de pedra, de tamanhos fora do comum, alguns medindo dois palmos craveiros de comprimento por cinco polegadas de largura, encontrados perto de Vitória, no rio Meaípe. Tais artefatos, de uso atribuído aos goitacás, que se destinavam à coleção do Museu Nacional, teriam caído nas mãos do tupinólogo Simões da Silva, enriquecendo o seu museu particular. Com a sua morte, e dispersão das peças do dito museu, seria difícil determinar o paradeiro dos artefatos.</p>
<p>O mais superficial exame dum machado de pedra permite-nos aquilatar o insano trabalho de paciência dos índios, no polimento obtido com a fricção contra outra pedra, geralmente uma laje em cuja superfície formavam extensos sulcos, procurando afiar, com o auxílio de areia, o gume desses objetos cortantes. Dessas ranhuras ou polidores neolíticos, riscos fusiformes mais ou menos paralelos, há presença no morro do Mosteiro, em Cabo Frio. Criou-se, em torno delas, uma lenda: seriam as marcas das chicotadas de Jesus ao encontrar-se, no local, com Satanás.</p>
<p>Também em Inhanguetá (pedra do Diabo), arredores de Vitória, há marcas na laje, que poderiam ser afiadores neolíticos; ranhuras em extensão longitudinal e, nitidamente gravadas, marcas como as deixadas por um pé comum e outro, fora de proporções. Essas depressões ou &#8220;couvetes&#8221; eram usadas para polir os lados dos utensílios. Junto às pegadas, alguém se deu ao trabalho de talhar uma cruz. Também em torno dessas marcas criou-se uma lenda. Segundo a crendice do povo, a marca maior seria a do pé de Lúcifer e a menor corresponderia à pegada de Santo Antônio.</p>
<p>A lenda diz que aquele sítio pertencera a um homem rico e avarento. Como uma terrível praga assolasse a região, o Demônio se comprometeu a extingui-la, recebendo, em troca, o filho único do homem desalmado. No cumprimento do pacto, firmado através de um sonho, o fazendeiro levou o rapaz ao local da pedra, lá deixando-o, sob algum pretexto, na escuridão da meia-noite. Eis senão quando apareceu a visão terrífica de Satanás; porém o moço, que era devoto de Santo Antônio, com ele se apegou, e teve pernas para correr. A lenda explica que a cruz foi riscada, na pedra, como exorcismo, pelo taumaturgo, e que as marcas longitudinais foram deixadas pelos açoites da cauda em fogo do Diabo&#8230;</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
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&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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		<title>O Muqui de antigamente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Apr 2004 19:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cachoeiro de Itapemirim]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Barão de Itapemirim, diretor geral dos índios aldeados na Província do Espírito Santo, informava, em 1859, que &#8220;na altura das cabeceiras do rio Muqui existem duas hordas de índios Puris que apenas de tempo em tempo aparecem em alguma fazenda&#8221;. Devem ter-se entendido bem com esses índios os coronéis João Pedro Vieira Machado, dono [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
O Barão de Itapemirim, diretor geral dos índios aldeados na Província do Espírito Santo, informava, em 1859, que &#8220;na altura das cabeceiras do rio Muqui existem duas hordas de índios Puris que apenas de tempo em tempo aparecem em alguma fazenda&#8221;. Devem ter-se entendido bem com esses índios os coronéis João Pedro Vieira Machado, dono das fazendas Entre-Morros e São Francisco e João Jacinto da Silva, da fa- zenda Boa Esperança, cujas propriedades abrangiam todas as terras do antigo arraial do Lagarto.</p>
<p>No ano dos três oito (1888), os dois Joões, abastados fazendeiros, devotos do santo homônimo, destinaram duas quartas de terras na Boa Esperança para patrimônio da igreja. Todavia, só após o transcurso de sete anos foi iniciada a construção de uma capela.</p>
<p>Em dezembro de 1897, os moradores do arraial encaminharam um ofício ao presidente do Estado, contendo 72 assinaturas, encabeçadas pelos fazendeiros João Pedro Vieira Machado, Silvino Luiz da Fraga e Antônio Francisco Moreira, pedindo a desanexação do subdistrito de S. João do Muqui e seus arredores (o distrito era S. Gabriel do Muqui) do município de Cachoeiro de Itapemirim, e juntavam, como pedia a lei, um documento comprovando que aquele centro lavoureiro, com mais de cem almas, dava uma renda anual superior a cinco contos de réis.</p>
<p>Decorridos dez anos, o florescente arraial, composto já dumas cem casas, cobria área de meio quilômetro. Mais da metade da população, calculada em quinhentos habitantes, era composta pela colônia síria. Na rua principal (Vieira Machado), que ligava o povoado à estação da Estrada de Ferro Leopoldina (inaugurada em 1902), localizavam-se as principais casas do comércio. Havia um hotel, propriedade de Eudóxio Caiado ou José Ramos. E mais: um bilhar; a farmácia de Altino Dias Rosa; um gabinete dentário, de João Longo; um médico, o Dr. Aurélio Soares de Araújo: um fígaro, o Maneco Barbeiro; dois sapateiros: José Cúrcio e Júlio Barreto; além de uma marcenaria, uma selaria e três padarias. A iluminação pública era a querosene e o português Viana (narigudo) cuidava, com desvelo, de acender, todas as tardes, os lampiões, apagando-os pela madrugada.</p>
<p>O pequeno templo católico, devotado a São João Batista, estava terminado. E havia uma cadeia, assobradada, de má construção.</p>
<p>A primeira professora pública, D. Alzira Almeida Ramos (mãe do Dr. Macário Ramos Júdice), ocupava-se, na sua escola, em ensinar o B com A ou a tabuada cantada.</p>
<p>O povo se animava nas reuniões familiares. Nas casas em que havia piano, qualquer pretexto servia para a promoção de um arrasta-pé. Nas fazendas faziam-se bailes a harmônica, ou orquestra de cordas, que duravam a noite inteira.</p>
<p>Animada mesmo, foi, sempre, a festa do padroeiro. Vinham cavaleiros de Campos e zonas mais distantes do Estado do Rio, que engrossavam a cavalhada, exibida na parte da tarde. Os festeiros cuidavam de um programa completo: alvorada com a banda de música e salva de 21 tiros; missa cantada; batizados; leilão de prendas; cavalhada; procissão; ladainha e os fogos de artifício, com foguetões de lágrimas e o indefectível quadro do padroeiro, fosforescendo&#8230; Na arte pirotécnica, haveriam de se destacar, por muitos anos os irmãos Pavani.</p>
<p>A festa de 1908 teve o programa abrilhantado por um aeronauta, o capitão Magalhães Costa, que apareceu a se exibir em ascensão no balão Granada.</p>
<p>O ano de 1912 foi bem marcante para o progresso da comunidade. A 16 de janeiro, instalou-se a Coletoria Estadual, sob a responsabilidade do chefe de secção da Diretoria de Finanças do Estado, major Eduardo Nascimento. A 1º. de novembro, os três interventores nomeados em caráter provisório, pelo coronel Marcondes, presidente do Estado, para regerem os destinos do município, criado em virtude da lei de 22 de outubro, comunicavam a instalação do mesmo. No dia 15 daquele mês, realizaram-se as eleições para os cargos de governadores municipais e juízes distritais. A 23 de maio de 1914, a Câmara se reunia para dar posse aos eleitos nos cargos de presidente e vice-presidente e ao primeiro prefeito eleito, tenente Emílio Coelho da Rocha, que, havia dois anos, vinha ocupando os cargos de subdelegado e delegado de polícia. Em documento do mesmo ano, no qual o prefeito prestava esclarecimentos ao presidente Marcondes, vê-se que existia o Sindicato União Agrícola, no município. Noutro ofício, ele solidarizava-se com o presidente do Estado nos protestos contra a sentença do Tribunal Arbitral, que retirou grande parte do território capixaba, na questão de limites com Minas.</p>
<p>A 23 de maio de 1915, eram reeleitos, respectivamente, Dr. Geraldo Viana, presidente da Câmara e o tenente Luiz Siano, vice-presidente. A arrecadação do município, no ano anterior, atingira a 21 contos e quebrados e as despesas andaram pela mesma casa dos 21. O dispêndio com o funcionalismo não chegava a quatro contos e quinhentos e os subsídios ao prefeito estavam fixados em seiscentos mil réis. Entre os melhoramentos realizados e os em projeto, eram de notar: conclusão do edifício da Câmara; instalação elétrica a vapor, cujo dínamo tinha potência de 87 ampères. Na praça Coronel Geraldo Viana, fora construído um coreto. Cuidara-se do serviço de abastecimento d&#8217;água, por meio dum empréstimo de trinta contos. Em frente à igreja matriz, o prefeito mandara construir, em forma de cogumelo, artístico chafariz, iluminado com lâmpadas multicores, e os operários não pouparam cimento na liga, tão bem argamassada que, anos depois, precisaram de usar da dinamite para destruírem aquela obra ornamental.</p>
<p>Eu poderia apresentar alguns detalhes pitorescos e interessantes sobre a personalidade do primeiro prefeito de Muqui, que tinha diploma de tenente da Guarda Nacional e usava respeitáveis bigodes, enrolados em forma de chifre de carneiro. Falaria do seu matrimônio com D. Vicência, filha da italiana Isabel Curcio, denodada trabalhadora na construção do belo templo que a cidade possui e do primeiro sapateiro, .José Curcio. Podia até fazer uma referência à casa onde morou o tenente prefeito, que foi justamente onde a cegonha lhe deixou o presente de um menino, no ano de 1916, mas a modéstia me aconselha ficar por aqui mesmo&#8230;</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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		<title>Duas cartas de Newton Braga</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Apr 2004 19:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cachoeiro de Itapemirim]]></category>
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		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Positivamente, o Braguinha (conforme o apelidavam na intimidade) não era um assíduo epistológrafo. Não que ele encontrasse dificuldades em redigir. Escrevia como falava, primando pela espontaneidade. Nas laudas de papel de jornal, o mesmo papel preferido quando fazia jornalismo ou literatura, sua pena corria solta, letra miudinha, uniforme, sem emendas, no estilo leve e singelo, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Positivamente, o Braguinha (conforme o apelidavam na intimidade) não era um assíduo epistológrafo. Não que ele encontrasse dificuldades em redigir. Escrevia como falava, primando pela espontaneidade. Nas laudas de papel de jornal, o mesmo papel preferido quando fazia jornalismo ou literatura, sua pena corria solta, letra miudinha, uniforme, sem emendas, no estilo leve e singelo, onde os termos rebuscados ou de efeito jamais apareciam. As poucas cartas que me endereçou e eu conservaria com o mesmo interesse e desvelo com que guardo os seus livros editados, e muitos dos seus originais manuscritos, para surpresa minha, estão reduzidas a duas, escritas há nove anos atrás.</p>
<p>A primeira, datada de 12 de julho, começa assim: &#8220;Vamos ver se limpo o cartaz: você escreve, visita, manda e traz livros e presentes — e nada de resposta deste galo velho. Você me conhece o bastante para saber que a preguiça não invalida o apreço em que o tenho.&#8221;</p>
<p>Após dar notícias da festa querida: &#8220;Tivemos um grande Dia de Cachoeiro, com mais gente ainda que nos anos anteriores&#8221;, e de falar da nossa família, conta um pouco de si: &#8220;Vamos ao velho: em fase de abstinência, mexendo com seu noticiário radiofônico e tomando coragem para extração total dos dentes. &#8220;Rabiscando pouco: umas notas para o <i>Diário de Notícias</i>, nada mais. Um pouco dessa matéria está para sair — com ilustrações de Carybé — sob o título Cidade do Interior, nos Cadernos de Cultura do Ministério da Educação, mas não sei quando.&#8221; Sairia três anos depois, isto é, em 1959, numa tiragem que rapidamente se esgotou. Embora a distribuição fosse gratuita, trabalho só de subir os elevadores do Ministério e apanhar os exemplares, ele autografou um número reduzido de livros, mais destinados a amigos, e assim a edição praticamente não chegou a Cachoeiro. Ele conta, num epigrama, que quando cogitou da &#8220;miúda e encabulada promoçãozinha de praxe&#8221;, uma funcionária do Ministério o informou, pelo telefone, de que o livro estava esgotado.</p>
<p>A segunda carta que guardo de Newton Braga, mais extensa, enchendo duas laudas, ele a datou de 30 de setembro de 56. Aproveitou uma tarde de domingo, em hora mais sossegada, para o afazer de dirigir a Rádio Cachoeiro. Mostra o entusiasmo pelo dinamismo da mulher: &#8220;Isabel sempre se fazendo quatro ou cinco. Está dirigindo o Jardim de Infância, com apetite mas pouca probabilidade de continuar, pelos choques contínuos e diz-que-diz que envenenam o trabalho. Nos intervalos ensaia a peça infantil <i>Pluft, o fantasminha</i>, que moças e rapazes (Edson inclusive) representarão agora em começo de outubro. Ela é quem dirige, faz cartazes, cenários e roupas. E sem cozinheira, há 6 ou 7 dias. Maratona italiana, como vê.&#8221; Referindo-se à sua pessoa, informa o &#8220;estrago&#8221; que o boticão de uma dentista lhe causara: &#8220;O velho, absolutamente desdentado, ainda aguarda confecção das duas dentaduras. E ainda por cima totalmente abstêmio, por decisão médica.&#8221;</p>
<p>Apreciando a minha mania pelas velharias capixabas, observa: &#8220;Iniciativa boa, a sua, de buscar cousas de nossa história: é bem pouco o que há sobre o assunto, como você está vendo.&#8221;</p>
<p>E comentando o meu achado: um álbum de fotografias, Indicador Ilustrado do Espírito Santo, publicado por Carlos Reis, em 1912, edição retida pelo governo estadual, em virtude dos absurdos do texto, que não diminuem o valor iconográfico do álbum, ele observa: &#8220;Duvido um pouco da eficiência (no sentido de número) da exposição de retratos no Dia de Cachoeiro: é festa de rua, com instantes mínimos para essas cousas de observação.&#8221;</p>
<p>Eu levantara a suposição da autoria de Mário Imperial, de uma quadra manuscrita sobre uma foto da rua Capitão Deslandes, em página do referido álbum, existente na Biblioteca Municipal de Petrópolis. Frente à casa de F. Simão Kfuri, olhando o cartaz que anunciava a estréia de uma companhia teatral — &#8220;Amanhã&#8221;: O Crime da Rua Carioca, um burro parecia interessado no espetáculo&#8230; A cena inspirou ao poeta que assim se expressou:</p>
<p>Tal o progresso da terra,<br />
tal a sede de saber,<br />
que o próprio burro não erra,<br />
mostrando que sabe ler&#8230;</p>
<p>A tal quadrinha — esclareceu Newton Braga — &#8220;é de fato de Mário Imperial, que usou, na ocasião, o pseudônimo de MIMPER. O Elimário tem um postal autografado pelo pai.&#8221;</p>
<p>Nessa mesma carta, Newton, que sempre considerei meu professor de jornalismo, lembrou uma tarefa de envergadura, que está ainda por fazer, e transmitiu experiência na redação. &#8220;Que acha você de tentar uma história do Espírito Santo simples e fácil, para adoção em 4º. primário e 1º. de ginásio? Pense nisso, que haveria talvez possibilidade de adoção estadual ou, pelo menos, recomendação de financiamento de 1ª. edição. Eu lhe sugeriria, no caso de tentar, de você jogar a data de um fato estadual, sempre com relação com um nacional ou da história universal: assim: enquanto Napoleão era deportado para Santa Helena, etc. Facilitar a caracterização da data, sempre difícil para o estudante ou leitor.&#8221;</p>
<p>No final da carta, ele fala das suas leituras — denominador que em nossas palestras nos conduzia a longos bate-papos que somente sofriam interrupções maiores quando um parceiro de conversa chegava com assuntos de futebol: &#8220;Não tenho lido livro nenhum apresentável ultimamente, fora de O velho e o mar. Tenho é consumido um mundo de revistas de toda espécie&#8221;.</p>
<p>E termina: &#8220;Escreva, Levy amigo — que sou leitor dos melhores — e até respondo, afinal.&#8221;</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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		<title>Newton Braga e Ribeiro Couto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Apr 2004 19:39:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O passamento de Ribeiro Couto, em Paris, três anos atrás, avivou-me a lembrança de outro poeta, da mesma escola penumbrista, o nosso Newton Braga. Sei que eles foram amigos de muito tempo. Quando Ribeiro Couto estreava no romance, em fins de 1931, já as suas poesias de Jardim das Conferências e os seus contos de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
O passamento de Ribeiro Couto, em Paris, três anos atrás, avivou-me a lembrança de outro poeta, da mesma escola penumbrista, o nosso Newton Braga.</p>
<p>Sei que eles foram amigos de muito tempo. Quando Ribeiro Couto estreava no romance, em fins de 1931, já as suas poesias de Jardim das Conferências e os seus contos de O Crime do Estudante Batista haviam conquistado a admiração do poeta e jornalista de Cachoeiro que, não refreando o entusiasmo, escrevia, em outubro daquele ano, na revista <i>Vida Capichaba</i>: &#8220;&#8230;Quero falar, hoje, de uma alegria, uma alegria pura, sã, perfeita, dessas alegrias que enchem de sol um dia de chuva e dão um ar de carnaval à sexta-feira santa: Recebi uma carta de Ribeiro Couto, uma carta muito íntima, muito amiga, muito sincera.&#8221; E, adiante: &#8220;&#8230;Ele me escreve de Paris: &#8216;O alto conceito em que você me tem não podia ser mais lisonjeiro para mim, vindo de um homem novo, de vinte anos; e um homem do Espírito Santo, a mais brasileira das regiões do nosso país, porque é ponto de encontro do espírito de ação do sul e do sentimento poético do norte. A terra completa por excelência, aquela que marcou profundamente o meu Sistema de Confiança no Brasil&#8217;.&#8221;</p>
<p>Palavras de tanto elogio e exortação exacerbariam o bairrismo do provinciano que assim intitulou a sua crônica: &#8220;Cabotinismo&#8221;.</p>
<p>E prossegue a transcrição da missiva: &#8220;Quando recebi a sua carta, tinha trazido de Marselha um romance escrito em outubro de 1930. Chamava-se <i>Cabocla </i>e é, em duas palavras, o elogio do mato nacional. Por instinto, coloquei a ação no Espírito Santo. O lugarejo de roça em que se passa o livro é um lugarejo qualquer do Centro, Minas, São Paulo, Estado do Rio ou Espírito Santo. No entanto, escolhi o Espírito Santo sem nunca ter morado aí. Apenas por ter passado uma curta temporada. E eu vinha de morar seis anos em São Paulo, Estado do Rio e Minas. Não é também um fenômeno de afinidade?&#8221;</p>
<p>A notícia era demais alvissareira para todo capixaba, já bastante vangloriado com a escolha que o acadêmico maranhense Graça Aranha fizera, do cenário espírito-santense de Santa Teresa, para o seu romance <i>Canaã</i>.</p>
<p>Releio a quinta edição de <i>Cabocla </i>e através das notas que Ribeiro Couto deixou, explicativas para as edições anteriores, destaco alguns trechos. No verão de 1937, escrevera ele, de Haia: &#8220;<i>Cabocla </i>foi um desabafo da saudade e, talvez, da angústia.&#8221; E, ainda: &#8220;&#8230;Da invenção do romance nasceram equívocos. Por exemplo, seria um episódio pessoal? O perigo de escrever histórias! Sempre é tempo para dizer que não tive outro intuito senão o de contar uns estados de alma que experimentei no contato quotidiano da vida do interior, entre 1922 e 1928. Não fiz o retrato de ninguém; não transpus nenhuma &#8216;real realidade&#8217; para o plano da ficção. Desde os anos de adolescência que eu trazia dentro de mim, reflexo das primeiras viagens pela serra acima, essa &#8216;moça da estaçãozinha pobre&#8217;.&#8221;</p>
<p>Fora a saudade — procura deixar bem claro — das formas, cores e cheiro do sertão brasileiro, a fonte de inspiração do livro.</p>
<p>Nossa curiosidade perdura, em identificar a &#8220;Vila da Mata, no Estado do Espírito Santo (uma rua muito comprida, com casas baixas, um largo no meio com sobrados e uma igreja)&#8221;, bem como a fazenda do Córrego Fundo, na estação do Pau d&#8217;Alho, próximos de Vitória, onde Jerônimo, principal personagem do romance, fez a sua estada de cura dos pulmões avariados, e se deixou prisioneiro de Cupido&#8230;</p>
<p>A carta de Ribeiro Couto que tantas alegrias causara ao poeta cachoeirense terminava com evocações, com pequenas lembranças caleidoscópicas: Petrópolis; São Bento do Sapucaí; Pouso Alto; Santos; a &#8220;estaçãozinha de Guiomar, na serra, a caminho de Vitória&#8221;. Foi pena que o missivista não deixasse identificado o lugar do cenário que escolheu, em nosso Estado, para o seu romance. Em plagas longínquas, o poeta curtia saudades amargas: &#8220;Acho muito importante o fator <i>petite patrie</i>. A terra, sem dúvida, marca a nossa alma. Não me incomodo com o Amazonas, mas me comovo à simples evocação de Minas (Pouso Alto) ou de São Paulo (São Bento do Sapucaí) ou Espírito Santo (Cachoeiro do Itapiiiiiiiiimiiiirim — era assim que uma moça do Espírito Santo pronunciava, prolongando aqueles <i>ii </i>como se, adoravelmente, perdesse o fôlego).&#8221;</p>
<p>Quão compreensível e justa a alegria provinciana do cachoeirense. Ainda mais que o poeta e missivista estava sendo sincero, pois disso deu provas, ao incluir no seu livro Um homem na multidão a poesia &#8220;Cachoeiro de Itapemirim&#8221;:</p>
<p>Cachoeiro! passei por ti uma tarde<br />
e nos meus olhos ficou o teu rio cortado de pontes,<br />
as tuas casas velhas amontoadas pelas colinas<br />
e os arrabaldes a perderem-se pelo verde dos campos.</p>
<p>Nos meus olhos ficou também a tua estação<br />
onde moças risonhas conversavam com viajantes<br />
no meio de bagagens<br />
aproveitando sonhadoramente a parada breve do trem.</p>
<p>Ó doce, ó ingênua Cachoeiro de Itapemirim<br />
que perturbas, com o rumor dos teus bailes casadoiros,<br />
a paz dos campos e o murmúrio das águas&#8230;</p>
<p>
A afinidade nos sentimentos que entrelaçou a amizade dos dois poetas, igualmente sutis, haveria de acompanhá-los para sempre.</p>
<p>Em Newton Braga também perdurou, indelével, a marca da terra. Nem a premência, quase ao fim da vida, que o fez mudar a residência para o Rio de Janeiro, empanaria a fascinação da sua Cachoeiro. Os Casos e Epigramas com que frequentou o suplemento literário do Diário de Notícias, granjeando a consagração de fino cronista, plenos de autenticidade, eram instantâneos do seu &#8220;pequeno mundo&#8221;. Lembro-me do ar encabulado, pouco convincente, com que ele procurava despistar, quando se lhe perguntava, em conversa, se um determinado &#8220;caso&#8221; não teria ocorrido com fulano, ou se algum epigrama, por vezes de fina mordacidade crítica, não se poderia atribuir a determinada pessoas com quem ele convivera. As suas filigranas escolhidas, por fim, com exagerada parcimônia, para comporem um livro, representam verdadeiros flagrantes de qualquer parte de nosso país, bem expressos e definidos no título: Cidade do Interior.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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		<title>A primeira crônica de Rubem Braga</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Apr 2004 19:37:00 +0000</pubDate>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Caiu-me às mãos o número doze do jornalzinho <i>O Itapemirim</i>, órgão oficial do Grêmio Domingos Martins, do Colégio Pedro Palácios, dezembro de 1926, com importante achado: a colaboração do terceiro-anista ginasial Rubem Braga: &#8220;A Lágrima&#8221;. Essa crônica é considerada como a primeira estampada em letra de fôrma, do intelectual capixaba. Ocupa metade superior da segunda coluna, na folha de rosto do jornalzinho estudantil. O redator, por medida de cautela, estranhando provavelmente a precocidade do seu colega, teria acrescentado as aspas, nas quais a colaboração está fechada. Não pretendo alongar comentário, com a intenção de mostrar uma precocidade. O estudante era meio malandro. Mesmo em português, conforme os resultados finais dos exames efetuados perante as juntas examinadoras nomeadas pelo Departamento Nacional de Ensino, publicadas noutra parte do mesmo jornalzinho, fora aprovado com as notas seis e cinco, havendo alcançado sete em francês e, por um claro significativo, deixando de figurar o seu nome ao lado dos seis colegas aprovados, parece que ficou, em álgebra, para a segunda época. O insucesso não seria motivo inspirador da &#8220;pérola de amargura&#8221;, &#8220;própria essência do sofrimento&#8221;, &#8220;gota de água ardente&#8221;. Abaixo da famosa crônica, o diretor do Colégio, Prof. Aristeu Portugal Neves, publicou a carta que dirigiu ao embaixador da Itália junto ao nosso governo. Vale a pena transcrever o início da mesma: &#8220;No momento em que a alma italiana vibrando de comovedora emoção genuflexa perante o altar da Pátria de Dante agradecia a Deus ter livrado Mussolini do atentado anarquista do tresloucado Anteo Zamponi, a sociedade mais culta desta cidade, reunida no seu principal teatro, ouvia de pé o coral do hino fascista cantado pelos alunos do ginásio Pedro Palácios, filhos da ilustre e laboriosa colônia italiana aqui domiciliada e no meio da mais entusiástica demonstração de alegria.&#8221; É também publicada a resposta de agradecimento do Embaixador, a &#8220;tutta la popolazione di Itapemirim per la manifestazione entusiastica di giubilo fatta&#8221;. Imagino os dissabores da vida desse pedagogo que viu, anos depois, alunos do seu colégio publicarem outro jornalzinho, <i>A Flama</i>, quase anarquista; que assistiu à cidade repelir heroicamente a visita do chefe nacional do integralismo e que teve notícia da vitória das tropas da Democracia, de cujo contingente brasileiro fazia parte o cronista de &#8220;A Lágrima&#8221;, como correspondente de guerra na Itália. Mas, justiça se faça ao grande educador, de saudosa memória (toda uma vida em holocausto ao ensino); se alguma convicção política ele pôde despertar nos seus ex-alunos, a mais patenteada em público foi bem diversa da que conservou através das suas vicissitudes. O maior atestado dessa afirmativa é Rubem Braga, o cronista que Cachoeiro de Itapemirim deu ao Brasil.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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		<title>A Estrada de Ferro Caravelas</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Apr 2004 19:31:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>O privilégio para a primeira via férrea projetada, no Espírito Santo, foi requerido em agosto de 1872, mas, os esforços no sentido de se concretizar a ideia da primeira estrada de ferro capixaba começaram a coroar-se de êxito, quando o historiador e jornalista Basílio Carvalho Daemon apresentou, como deputado, à Assembléia Provincial, em 31 de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
O privilégio para a primeira via férrea projetada, no Espírito Santo, foi requerido em agosto de 1872, mas, os esforços no sentido de se concretizar a ideia da primeira estrada de ferro capixaba começaram a coroar-se de êxito, quando o historiador e jornalista Basílio Carvalho Daemon apresentou, como deputado, à Assembléia Provincial, em 31 de outubro daquele ano, o projeto para a construção de uma estrada em Cachoeiro de Itapemirim. Entretanto, quatorze anos haveriam ainda de transcorrer, até que fosse batida a estaca inicial da Estrada de Ferro Caravelas.</p>
<p>A concessão, que no princípio fora dada ao Capitão Henrique Deslandes, foi transferida ao Visconde de S. Salvador de Matosinhos, proprietário do jornal fluminense O País, e presidente da Companhia de Navegação Espírito Santo e Caravelas, a qual mantinha vapores que ligavam o Itapemirim à Corte.</p>
<p>A dita Companhia fretou um vapor para transportar, de Antuérpia, à Barra do Itapemirim, parte do material da Estrada de Ferro. Os primeiros trilhos, bem como as peças da primeira máquina, foram levados, rio acima, até a vila do Cachoeiro, na prancha Tarcília, em fins de outubro de 1886, desembarcando no porto João Marques.</p>
<p>A 8 de dezembro daquele ano, o engenheiro Pedro Scherer iniciou a montagem da locomotiva e o assentamento dos trilhos.</p>
<p>Do local do porto, onde mais tarde se erigiu o prédio do Centro Operário, até a estação do Cachoeiro, onde hoje se ergue o Grupo Escolar Bernardino Monteiro, extensão de 780 metros, através da rua 25 de Março, os trabalhos andaram rápido, durando pouco menos de um mês.</p>
<p>A 6 de janeiro de 1887, dia de São Benedito, ouvia-se o sibilo festivo da Itapemirim, que era, então, inaugurada, e o seu primeiro serviço prestado foi o de conduzir a pedra fundamental do edifício (iniciativa particular) do Grêmio Bibliotecário Cachoeirense e Escolas Primárias de ambos os sexos, presidido pelo Dr. Novaes Melo.</p>
<p>O terreno dessa construção situava-se em frente à casa do Dr. Novaes (antiga casa Gama), e fora doado por um fazendeiro e negociante da vila, o português Manoel José de Araújo Machado. Encarregou-se de dirigir e fiscalizar aquela construção o engenheiro Rodolfo Henrique Batista.</p>
<p>Não só a rua 25 de Março se beneficiava com os aterros e melhoramentos: no mesmo dia seis, era inaugurada a iluminação das ruas de Cachoeiro, às expensas da municipalidade. Vinte e quatro lampiões do sistema belga deviam ser cuidados por um fiscal, com o ordenado estabelecido de doze mil réis mensais.</p>
<p>A. E. Figueiredo e J. Praxedes, empreiteiros da Estrada de Ferro, acolitados pelos seus colegas, Rodolfo Henrique Batista e Hermann Schindler, com mais oito meses de trabalho, davam a estrada em condições de ser inaugurada. Compreendendo 71 quilômetros de extensão, partia ela da vila do Cachoeiro até a estação de entroncamento de Matosinhos (Coutinho), nas Duas Barras, donde seguia um ramal para o Castelo e outro para o Alegre.</p>
<p>A inauguração, que deveria ser festa de muitos convidados, não estivesse o rio Itapemirim tão seco, sofreu ainda outro contratempo, pois fora marcada para o dia 12 de setembro de 1887 e teve de ser adiada para quatro dias depois, em virtude do naufrágio do vapor Imperial Marinheiro, ocorrido na Barra do Rio Doce, uma vez que o vapor Maria Pia, fretado para conduzir a comitiva de Vitória à Barra do Itapemirim, se mobilizou para socorrer os náufragos.</p>
<p>Afinal, no dia 14, o Maria Pia aportava, às nove horas da manhã, na Barra, levando o Presidente da Província, Dr. Antônio Leite Ribeiro de Almeida; seu Chefe de Polícia, Dr. Dídimo Agapito da Veiga Júnior; o Oficial de Gabinete; o Ajudante de Ordens; um Alferes; o representante do jornal O Espírito-Santense, Major Domingos Vicente; o Comendador José F. Ribeiro; o Inspetor de Higiene, Dr. Ernesto Mendo, e outras pessoas de destaque da sociedade vitoriense, dentre elas, alguns deputados provinciais.</p>
<p>Na Barra, o abastado comerciante e empresário do porto, Simão Rodrigues Soares, e outro comerciante da localidade, Custódio Teixeira Maia, ofereceram à comitiva um almoço, onde foram erguidos diversos brindes. Após, os visitantes cavalgaram até a fazenda Ouvidor, pertencente ao Major Joaquim Gomes Pinheiro da Silva, chefe do Partido Conservador da Vila do Itapemirim, em cuja casa pernoitaram.</p>
<p>Prosseguida a caminhada, na manhã do outro dia, às 10 horas chegavam ao porto de embarque João Marques, na vila do Cachoeiro de Itapemirim. Ali, saudou-os festivamente a banda de música Estrela do Norte e começou a festa do povo, com vivas, girândolas de foguetes e muita alegria. Flâmulas, galardetes, arcos, flores, enfeitavam a rua 25 de Março, desde o porto, até o palacete de residência do Juiz Municipal, Dr. Pedro Carvalho de Moraes, casa escolhida para hospedagem do Presidente da Província, e outros.</p>
<p>À noite, o Dr. Ribeiro e comitiva percorreram as ruas da vila, cuja iluminação mais sobressaía na ponte municipal.</p>
<p>No dia seguinte (16), às dez da manhã, o trem inaugural, apinhado de gente, partia da estação do Cachoeiro e fazia o percurso, até Matosinhos, em uma hora e cinco minutos. Retardando a parada por vinte minutos, para dar tempo aos discursos e vivas, partiu, rumo à estação do Alegre. Explicando melhor, a vila do Alegre se distanciava légua e meia do ponto terminal da linha férrea, sito em terras do fazendeiro Vicente Ferreira de Paiva, banhadas pelo córrego Pombal, nome que tomou a estação, mais tarde mudado para Reeve [Rive]. Ali, o velho e rico fazendeiro, seu filho, genro e outros parentes ofereceram um lanche à comitiva.</p>
<p>Pela uma da tarde, a composição ferroviária regressava ao Cachoeiro, onde chegava às quatro e dez minutos. O povo, aglomerado na estação, levantou novos vivas e aclamações, enquanto o Presidente da Província e comitiva seguiam, em cortejo, até o palacete do Dr. Carvalho de Moraes.</p>
<p>Após curto descanso, foram os membros da comitiva participar da inauguração do Mercado Municipal, construído pela Câmara e localizado em frente à casa de comércio do Sr. Bento de Matos. Inaugurou-se, em seguida, o edifício do Grêmio Bibliotecário Cachoeirense, na rua então apelidada de Araújo Machado, em virtude do falecimento desse benemérito da vila, ocorrido no Rio de Janeiro, a 16 de fevereiro daquele ano.</p>
<p>No outro dia (17), às sete horas da manhã, a composição especial levava os convidados para inaugurarem o ramal do Castelo, onde chegava às onze horas. Naquela localidade, eram recebidos por populares e banda de música do fazendeiro Manoel Fernandes Moura, que desde a véspera os aguardava, na esperança de conduzir, pelo menos o Presidente, até a fazenda do Centro, programa que não se pôde concretizar.</p>
<p>Depois dos discursos e aclamações, números da banda de música e muitos foguetes, o trem regressou a Matosinhos, onde o fazendeiro Geraldo Amorim aguardava a comitiva com um lanche.</p>
<p>Às duas e cinqüenta da tarde, o silvo da locomotiva fazia-se ouvir, de novo, na vila do Cachoeiro.</p>
<p>É fácil imaginar a viva satisfação do povo com aquele melhoramento e progresso. A Estrada de Ferro Caravelas vinha ao encontro das aspirações dos fazendeiros, cuja produção de café não ficaria mais tão dependente das tropas de burros, podendo descer todo o Itapemirim e seguir até a Corte, confiada ao despacho na Companhia de Navegação e Estrada de Ferro Espírito Santo e Caravelas. Alegria, aliás, pouco duradoura, uma vez que os mesmos fazendeiros começaram a se manifestar descontentes com os preços das tarifas da estrada.</p>
<p>Aquela pequena estrada de ferro, bitola estreita, tinha três locomotivas Baldwin, pesando, cada uma, 27 toneladas; contava com: um carro de primeira classe; dois carros mistos; dois carros de segunda classe; dois carros de correio e bagagem; 18 vagões fechados; 6 vagões abertos; um vagão destinado ao transporte de animais; um vagão para explosivos; dois para padeiras e seis de lastro.</p>
<p>Decorridos alguns anos, a linha da Estrada de Ferro Caravelas passou para a propriedade do Lóide Brasileiro e em 1907 ela caiu no domínio da Leopoldina, ocasião em que se achava hipotecada a uma firma de Londres.</p>
<p>O traçado de Cachoeiro a Alegre tornou-se integrante do chamado Sul da Leopoldina: Cachoeiro a Espera Feliz.</p>
<p>A 27 de julho de 1912, era inaugurado o trecho que ligava a antiga estação de Pombal (Reeve) ao Alegre e, a 24 de novembro de 1913, era entregue ao tráfego o ramal entre esta cidade e Espera Feliz.</p>
<p>Quanto aos 21 quilômetros de ligação Coutinho-Castelo, trecho deficitário e obsoleto, não foi sem protestos da população que a Rede Ferroviária Nacional o extinguiu, em 1961.</p>
<p>O prédio da estação terminal, em pleno centro da cidade do Castelo, aguarda um aproveitamento condigno. Ele bem comportaria uma escola de alfabetização noturna, uma biblioteca e um museu.</p>
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[In&nbsp;<i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
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<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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		<title>Vieira da Cunha</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 02 Apr 2004 19:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cachoeiro de Itapemirim]]></category>
		<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Levy Rocha]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No cenáculo literário capixaba, três poetas se confundem com o mesmo sobrenome de Vieira da Cunha. Não me deterei no contemporâneo Dr. Ciro, espírito-santense adotivo, autor de Espera Inútil e poesias várias, que começou como médico e jornalista no Castelo, foi professor, por muito tempo, em Vitória e tendo-se fixado, por último, no Rio de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
No cenáculo literário capixaba, três poetas se confundem com o mesmo sobrenome de Vieira da Cunha.</p>
<p>Não me deterei no contemporâneo Dr. Ciro, espírito-santense adotivo, autor de Espera Inútil e poesias várias, que começou como médico e jornalista no Castelo, foi professor, por muito tempo, em Vitória e tendo-se fixado, por último, no Rio de Janeiro, não desprezou as colunas dos nossos jornais.</p>
<p>Pela ordem cronológica, lembrarei o Dr. Belisário, poeta que escrevia com o pseudônimo de Fídias. Veio ele para o nosso Estado ainda moço e aqui clinicou até a idade de 72 anos, quando faleceu, deixando uma centena de poesias esparsas. Foi poeta de pulso. Na fazenda Prosperidade, município de Cachoeiro, reunia uma plêiade de intelectuais cujos ouvidos fazia vibrar, com os acordes da sua afinada lira, pontificando os poetas cachoeirenses, hoje quase soterrados nos jornais velhos, que a traça e o descaso tomaram a incumbência de fazer desaparecer: João Mota, Mário Imperial e Benjamim Silva.</p>
<p>Na dita fazenda, era feito o panfleto lítero-político Martelo. Tive em minhas mãos um exemplar desse jornal, emprestado para figurar numa exposição, em Vitória. O livreiro Luiz Semprini alentou-me com a promessa do presente de alguns números, bem perdidos no entremeio das suas gavetas de papéis.</p>
<p>Não sei que processo empregava Antônio Belisário Vieira da Cunha (filho do Dr. João Belisário), ao imprimir tal panfleto, todo por ele desenhado. Com gesso, cera ou parafina, o certo é que conseguia exemplares nítidos, nas cores roxa e azul, do papel carbono. As suas charges, assinadas A. Vieira, ou V. da Cunha, evidenciavam um traço seguro e irônico, de caricaturista capaz de brilhar nos centros mais cultos.</p>
<p>O livro do Prof. Domingos Ubaldo, mandado imprimir pelo prefeito Francisco Alves de Ataíde, reproduz uma caricatura que é excelente prova de qualidade: &#8220;o maior coco da Bahia&#8221;. Tão expressiva que Herman Lima a selecionou para figurar na capa do álbum de caricaturas de Rui Barbosa, editado pelo Ministério da Educação. Em página fronteira ao &#8220;coco&#8221; do Rui, o Prof. Domingos publicou o retrato do autor, intercalado no texto de um trecho da introdução de um discurso que ele havia pronunciado no Centro Espírito- santense, em cujas primeiras palavras declarava a sua naturalidade capixaba. Faltava acrescentar que era filho das plagas itabirenses.</p>
<p>Procuro, quase em vão, em nossos livros e revistas, a trajetória do conterrâneo, que foi firmar-se no jornalismo carioca, colaborando no matutino A Nação e movimentando as oficinas tipográficas: Vieira da Cunha &amp; Cia., na rua da Alfândega, 182, onde editou, com Caio de Melo Franco e o desenhista Correia Dias, a revista Apolo, de arte, literatura, crítica e ciências.</p>
<p>Era a continuação do ideal forjado pelo grupo da fazenda Prosperidade, que a 8 de setembro de 1910 imprimiu, em Cachoeiro, o 1º. número de Álbum, revista literária bimensal, &#8220;modelada&#8221;, segundo observação de Atílio Vivacqua, &#8220;no gênero de Les Décadents, cujos exemplares o culto capixaba Bernardo Horta remetia religiosamente da Metrópole&#8221;.</p>
<p>Dir-se-ia que o pujante grupo representativo dos nossos maiores poetas firmara um propósito de não se perpetuar em livros, propósito só quebrado por Benjamim Silva, sob a força e decisão dos amigos, responsáveis pela edição de Escada da Vida.</p>
<p>Quão singular e estranho me parece o destino que me fez chegar às mãos o exemplar desse livro, com a dedicatória: &#8220;A Vieira da Cunha, velho amigo e companheiro de infância, com um abraço do Benjamim.&#8221; Acaso idêntico levou-me a outro livreiro, onde consegui adquirir seis números, creio mesmo que a coleção completa, da revista Álbum, espólio do falecido Vieira da Cunha&#8230;</p>
<p>Pondo à parte o egoísmo, copiei a conferência Terra natal, que João Mota pronunciou na Prefeitura de Cachoeiro, a 7 de setembro de 1910, estampando-a em três números de Álbum, e a fiz publicar na Revista do Instituto Histórico e Geográfico espírito-santense.</p>
<p>Algumas poesias de João Mota, do Dr. Belisário, de Narciso Araújo e, inclusive, o soneto &#8220;Sonhos em revoada&#8221;, uma das primeiras produções de Benjamim Silva, dão a constante da revista, escrita pelos maiores incentivadores das musas cachoeirenses.</p>
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[In&nbsp;<i>Crônicas de Cachoeiro.&nbsp;</i>Rio de Janeiro: Gelsa, 1966. Reprodução autorizada pela família.]</p>
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&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Levy Rocha</b>&nbsp;nasceu em 14 de merco de 1916, em São Felipe, então distrito de São João do Muqui. Graduado em Farmácia, residiu em Cachoeiro de Itapemirim e no Rio de Janeiro, interessando pela história de seu Estado natal. Publicou vários livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/2004/04/alguns-flashes-de-levy-rocha/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>)</p></blockquote>
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