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	<title>Arquivos Luís da Câmara Cascudo &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Luís da Câmara Cascudo &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; Prefácio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 20:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
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		<category><![CDATA[Luís da Câmara Cascudo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Luís da Câmara Cascudo, folclorista. PREFÁCIO Qui de terra est, de terra loquitur. Ser Giovanni Fiorentino, Il Pecorone, XIII. O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida era Reitor da Universidade do Espírito Santo quando fui seu hóspede, janeiro de 1955, dando um breve curso de Antropologia Cultural. Alto, magro, sorridente, o gesto lento desenhava no ar [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-wsMcgm3Y0Cs/VsDdV3HSfSI/AAAAAAAABM4/AK3WhzAU7Ms/s1600/Camara_cascudo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Luís da Câmara Cascudo, folclorista." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/Camara_cascudo.jpg" class="wp-image-6605" title="Luís da Câmara Cascudo, folclorista." width="276" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Luís da Câmara Cascudo, folclorista.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h4>
PREFÁCIO</h4>
<p></p>
<div style="text-align: right;">
<span style="font-size: 85%;">Qui de terra est, de terra loquitur.<br />
Ser Giovanni Fiorentino, <i>Il Pecorone</i>, XIII.</span></div>
<p>O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida era Reitor da Universidade do Espírito Santo quando fui seu hóspede, janeiro de 1955, dando um breve curso de Antropologia Cultural.</p>
<p>Alto, magro, sorridente, o gesto lento desenhava no ar os episódios inesquecidos de uma nobre e grande vida de trabalho, dedicação e alegria de servir. Fora na cidade do Natal diretor da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte (Sampaio Corrêa atual), conhecendo e privando com as figuras familiares ao meu coração. Encanto ouvi-lo evocar toda a história de sua profissão, a estada no Rio de Janeiro, estudante pobre, lutando para abrir um breve túnel no granito das dificuldades imprevistas que o separavam da Escola Politécnica onde concluiu, excelentemente, seu curso de engenheiro. Qualquer outro desanimaria ante a montanha que o distanciava dos livros da Politécnica. Ceciliano Abel de Almeida abriu seu caminho como uma verruma, tenaz, teimoso, acima do desânimo. E não há criatura mais tranqüila, serena, com seu sorriso melancólico e a doçura das invocações do passado, tão presente para ele. Deus sabe como estudou, subindo o curso sem desfalecimento, degrau a degrau, quando tantos deparam fácil, rápido, cômodo elevador guindante e confortável para a elevação fulminante.</p>
<p>Engenheiro, continuou a luta procurando em que aplicar quanto aprendera. Foi servir na Central do Brasil, gratuitamente, para fazer-se necessário na constatação do seu esforço diário e útil. Ficou como &#8220;engenheiro praticante&#8221; no Engenho de Dentro, encarregado do Depósito. O diretor era o grande Osório de Almeida. Admirava Ceciliano, mas não podia encaminhá-lo para os cargos remunerados na construção do prolongamento da Estrada. Não o mandou para Cordisburgo porque as vagas eram preenchidas segundo recomendações do Presidente e do Ministro, catucados pelos políticos indispensáveis. Ceciliano ia fazendo a vagarosa aprendizagem do sacrifício, capitalizando decepções que não tinham a força de anoitecer-lhe no coração o entusiasmo pela sua profissão.</p>
<p>Finalmente, agosto de 1905, aceita um lugar de engenheiro na Companhia Vitória a Minas, lugar para explorar, locar e construir na mata margeante do Rio Doce, onde há árvores contemporâneas do Gênesis, e vagavam os descendentes dos Aimorés, bravios, desconfiados, famintos. Ceciliano aceitou e veio para sua terra ganhar 600$000 mensais sem direito a diárias, e devendo pagar sua montada e as despesas do rancho. Era assim há meio século, e Ceciliano aceitou, como um rapaz novo, sadio, borbulhante de esperança aceita ir para o fim do Rio Negro missionar Tucanos e Tarianas merencórios.</p>
<p>E &#8220;Os trilhos venceram as selvas&#8221; do Rio Doce. É uma frase que sacode a curiosidade leitora na taquicardia da emoção. Mas é a história dos engenheiros ferroviários, os pioneiros das matas, nomes que desconhecemos, e sem eles o Brasil continuaria hemiplégico, com áreas mortas de produção, membros ignorados para o movimento coletivo da vida nacional. Ceciliano Abel de Almeida é um destes valorizadores reais do Brasil orgânico. Ajudou a criar uma artéria condutora de sangue indispensável para a distribuição vital em toda a organização de uma zona antes povoada de assombrações, rondada pelas lendas do pavor.</p>
<p>Há neste imenso edifício nacional muita cariátide que não sustenta a si própria, Atlas de mentira, fingindo esforço desmedido no equilíbrio de pesos que ficam noutros ombros, anônimos e discretos. O autor deste livro é uma base verídica de sustentação. Uma coluna firme e sólida, plantada na terra da coragem, garantindo estabilidade, duração e segurança às paredes imóveis e à cúpula dominadora. Uma fábula moderna (Trilussa?) lembra que o mecanismo de relógio, dezenas e dezenas de peças delicadas, sensíveis, eficientes, trabalham dentro da caixa de metal, desconhecidas e desprezadas, para que os ponteiros girem e ganhem olhares, gabos e citações de pontualidade. Ceciliano Abel de Almeida é uma dessas peças de precisão, trabalhando para que o relógio ande certo e os ponteiros ilustres recebam as glórias da consagração coletiva.</p>
<p>As toneladas de ferro do maciço mineiro do Itabira despejam-se no porto de Vitória graças a uma ferrovia que Ceciliano ajudou a tornar viva e forte. Ajudou-a dando sangue, vencendo floresta, rio, febres, desconforto, solidão.</p>
<p>A Companhia atravessava regímen de indigência e exigia, com os pedidos oficiais, auxílios admiráveis, cuja justificativa estava no espírito e na vocação dos colaboradores. Depois de uma tarefa esgotante, digna de todos os prêmios, o engenheiro é convidado a locar, espontaneamente, no trecho sinistro onde o paludismo dizima as turmas e marcará a colocação de cada dormente futuro com o túmulo de um trabalhador. Não haverá teste mais emocional que a dedicação desses operários humildes das estradas de ferro, pagos com cinco meses de atraso, entregando aos barracões os vencimentos, arrastando miséria num disfarce estridente de bom humor, furando mata e engolindo mosquitos ao som dos &#8220;desafios&#8221;, das toadas de excitamento, das doces modinhas de amor. Quando se ouve o &#8220;ai Mariquinha, vai&#8221; de possível sugestão sensual e maliciosa, verifica-se que a cantiga apenas ritmava a deslocação e remoção de grandes blocos de pedras, pesando toneladas&#8230;</p>
<p>Vereis que Ceciliano Abel de Almeida fixa, neste livro, muita History rara para a documentação psicológica, e muita story para o conhecimento da natureza humana que o cercava, humana e animal, toda a paisagem dos homens e das cousas, haloada de ternura, compreensão e enternecimento.</p>
<p>Não quis salvar seu nome apenas, arrancando-o ao dilúvio olvidador, mas encheu o livro com o Rio Doce, fauna e flora, homens de todos os feitios, grandes e pequeninos fatos, todos ensopados de saudades, vivos no espantoso verso telúrico do curiboca Ubaldo Costa Porto, no novo estilo surpreendente das &#8220;rodas ponteadas&#8221;:</p>
<p>Adeus, pancadão da soidade!</p>
<p>E imperturbável na sua bondade, desculpa e esmaece os traços fortes acusativos daqueles que, como o cavalo de Chiquinha:</p>
<p>uma mão pisa firme,<br />
e a outra não tem firmeza.</p>
<p>O Engenheiro atento ao &#8220;trânsito&#8221;, vigiando o estaqueamento da locação da linha, abrindo a facão a picada, prolongando, na luz do lampião belga, as horas de esforço nos desenhos dos perfis e retificações das cadernetas de campo, tem os olhos para ver e o coração para sentir as pequeninas vozes dos pássaros sem nome e o aroma anônimo das flores sem título.</p>
<p>Sabe que vai chover porque as saracuras cantam e a japira fez o ninho fora do nível da possível inundação. Ou não haverá chuvada porque houve a assombrosa &#8220;Capela de Bugios&#8221;, os macacos barbados reunidos, roncando ao entardecer. Lembra a jaqueira de Cariacica que desviou o traçado da estrada de ferro. O papagaio de Dona Maria. Subindo o Rio Doce que, nas manhãs das primeiras décadas do século XIX obrigava a 23 transbordos, vindo de Minas Gerais, contornando as cachoeiras sonoras, não esquece que Itapocu pareceu tão feio às moças viajantes que o nome foi mudado para Calogi. Não apenas a campanha na mataria densa o arrebata em sonho, mas a invasão irresistível das guaju-guajus, formigas de correição, espavorindo as surucucus, a saparia pulante, todos os animais de terra, empurrados para a fuga pela vanguarda vitoriosa das ferozes Eciton, que se detêm apenas diante de uma barreira de brasas vivas.</p>
<p>Comeu carne de onça suçuarana. Dominou com sua impassível face tranqüila todas as revoltas dos trabalhadores mal pagos, inesgotáveis de amizade e maravilhosos de dedicação, e sabe que as três barras que desgraçam um homem são: barra de saia, barra de ouro e barra de rio&#8230;</p>
<p>Agora, dentro da noite, ouve o noturno curiango na sua perpétua promessa mentirosa: &#8220;amanhã eu vou&#8230;&#8221;</p>
<p>Mais de dois anos de sacrifícios, aquele sacrifício votivo, a obediência jubilosa de que falava Ruskin, fecham o ciclo. Irá exercer outras responsabilidades com igual espírito, amor e esperança iguais para sempre em sua nobre vida modelar.</p>
<p>Aposentado, admite em sua intimidade o leitor para ver como viveu, começando a carreira inalterável, os meses ásperos e lindos no Rio Doce, planejando a ferrovia que traz o ferro de Itabira para o cais de Vitória, das montanhas mineiras para as ondas do mar.</p>
<p>Henri Guillaumet voando do Chile para a Argentina caiu nos Andes, cego por uma tempestade de neve e vento. Recusou-se a morrer e andou cinco dias e quatro noites através da cordilheira, de rojo nas montanhas de gelo, ladeando as cavernas azuis, os lagos imóveis e verdes precipícios. Não era a vida que teimava em defender, mas o elemento útil que representava, o grande piloto insubstituível na Ligne, o cidadão consciente da Terre des Hommes. Quando abraçou Saint-Exupéry pôde apenas balbuciar, convicto da veracidade: &#8220;O que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem, era capaz de fazer!&#8221;</p>
<p>Uma vida como a do Engenheiro e Professor Ceciliano Abel de Almeida dignifica a espécie, a humana no geral e a brasileira no particular. Atravessou setenta anos de batalha com toda ciência das escolas técnicas e toda a pureza da alma luminosa. O exemplo ilumina vários aspectos e é uma alegria sabermo-lo nosso contemporâneo. Ainda possuímos homens assim&#8230;</p>
<p>A sabedoria instintiva das abelhas, das formigas e dos castores, indicada como égide de trabalho associativo, apaga-se tranqüilamente quando vemos o velho engenheiro contar sua história clara e simples, sugestiva e poderosa, com o timbre de uma narrativa doméstica, fiel e natural, como &#8220;só um Homem é capaz de fazer!&#8230;&#8221;</p>
<div style="text-align: right;">
Cidade do Natal, outubro de 1956.</div>
<div style="text-align: right;">
</div>
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</div>
<p></p>
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