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	<title>Arquivos Luiz Flores Alves &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<title>Arquivos Luiz Flores Alves &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Capítulo IX – O perdigueiro e as perdizes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 20:01:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Certa vez, o meu primo Paulo Maia, funcionário de A Gazeta, que redigia a coluna &#8220;Caça e pesca&#8221;, por falta de assuntos relativos a caça, pediu-me que escrevesse alguns tópicos sobre perdigueiros, visto que eu criava cães dessa raça, devidamente registrado no Kennel Club. Pelo fato de o Pointer inglês ser o primeiro introduzido no [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Certa vez, o meu primo Paulo Maia, funcionário de A Gazeta, que redigia a coluna &#8220;Caça e pesca&#8221;, por falta de assuntos relativos a caça, pediu-me que escrevesse alguns tópicos sobre perdigueiros, visto que eu criava cães dessa raça, devidamente registrado no Kennel Club. Pelo fato de o Pointer inglês ser o primeiro introduzido no Brasil, passou a ser chamado de perdigueiro e as outras raças, também destinadas à caça de perdiz, ficaram no desconhecimento.</p>
<p>Comecei os artigos, que ao todo somaram dezenove, afirmando que perdigueiro é todo cão que caça perdiz. Então enumerei uns nove tipos: Setters, Weimaraner, Vizsla, Springer Spaniel, Kurzhar etc.</p>
<p>O perdigueiro ou Pointer (da expressão inglesa &#8220;aponta&#8221;), surgiu no Brasil em Juiz de Fora, Minas Gerais — então denominada a Manchester mineira —, por iniciativa do Dr. João Penido, o fundador da primeira usina hidroelétrica da América do Sul. Ele era também caçador de perdizes e na França, em uma exposição de cães, adquiriu dois casais de Pointers ingleses. O transporte era problemático na época, sendo eles trazidos num vaso de guerra comandado por um seu irmão almirante.</p>
<p>A perdiz é comum no nordeste e no Rio Grande do Sul. Em ambas as regiões estão vinculadas às codornas. No Rio Grande do Sul a perdiz é chamada de perdigão e a codorna de perdiz.</p>
<p>A floresta da Mata Atlântica impediu o seu deslocamento para nosso Estado, porém, com a destruição impiedosa da floresta, a perdiz encontrou caminho livre. As primeiras perdizes surgiram em Montanha, povoando as mangas de gado bovino.</p>
<p>Ela pesa, em média, 800 gramas, no entanto, já matei um exemplar recorde com 1,450 quilos de peso.</p>
<p>Sua carne é mais tenra e saborosa que a do macuco, que tem cor ligeiramente acinzentada e mais fibrosa, e pode pesar 1,8 quilos no Espírito Santo e 2,5 quilos no Mato Grosso, onde é denominada azulona.</p>
<p>A perdiz, com grande habilidade devido à sua especial plumagem trigueira, confunde-se com o capim. Fica praticamente invisível aos olhos do cachorro e do caçador. No entanto, quando se trata de um bom perdigueiro é fácil localizá-la pelo faro. Nesse momento ela alça vôo e é abatida no tiro. Esse vôo não ultrapassa um quilômetro e se repete três vezes apenas. Os caboclos, sabendo disso, põem os cães vira-latas em cima e, na terceira pousada, ela é capturada. Isso se deve à sua baixa vascularização sanguínea, ao contrário da marreca, que tem a capacidade de voar grande distância graças a uma melhor vascularização.</p>
<p>Em Montanha havia muitas perdizes que de lá se deslocaram para o sul, chegando a transpor o rio Doce, por razões que até hoje ignoro&#8230;</p>
<p>A sua velocidade de deslocamento é expressiva, chegando, após alguns anos, ao município de Itapemirim, onde se juntou à codorna.</p>
<p>Usineiros fluminenses, para praticar tiro ao vôo, importaram do Rio Grande do Sul alguns casais de codornas, que soltaram na planície de Campos.</p>
<p>Seu deslocamento, ao contrário, é lento, pois, depois de vários de vários anos, atingiram apenas o município de Itapemirim. No nordeste e no Rio Grande do Sul as duas aves habitam a mesma região. No Espírito Santo houve uma grande separação: codornas no sul e perdizes no norte. Porém as perdizes, que ocuparam quase todo o território capixaba, não demoraram muito a se misturarem às codornas no município de Itapemirim.</p>
<p>O cão perdigueiro, com seu faro aguçado, aponta o local onde a ave se esconde, sem vê-la. Nesta etapa o caçador dá o sinal para levantá-la e segue-se o tiro. O Pointer inglês não tem a aptidão de buscar a caça atingida, sendo necessário outro cão auxiliar para buscá-la, o retriever. Os alemães, hábeis na genética canina, por medida de economia produziram um cão com as duas faculdades: a de apontar e a de buscar. É o Kurzhar, ou Pointer alemão.</p>
<p>Os remanescentes dos Pointers ingleses trazidos pelo Dr. Penido continuam no mesmo canil, em Juiz de Fora, sob a supervisão do sobrinho, o médico Dr. Luiz Villaça, na fazenda Cachoeirinha.</p>
<p>Os Pointers ingleses são brancos com manchas fígado, pretas ou de outras cores. O Kurzhar, ou Pointer alemão, ao contrário, tem uma pelagem uniforme e constante ruão de tons claros e fígado. A extraordinária e inesquecível cadela Carlota tinha essa coloração.</p>
<p>Na caçada o Pointer inglês é cordato, aceitando ser preso a uma corrente ou condicionado em cercado. Já o Kurzhar caça caminhando mais lentamente, e por isso diz-se que é &#8220;bom para caçador mais idoso&#8221;. O Pointer caça correndo muito, mas essas disparadas não prejudicam a sua amarração.</p>
<p>O Dicionário da língua portuguesa, de Aurélio Buarque de Holanda, assim classifica a perdiz (do grego pedíx): ave tinamiforme, da família dos tinamídeos (Rynchotus rufescens), distribuída pelo cerrado e caatingas de todo o Brasil. Tem coloração avermelhada, com matizes amarelados e ferrugíneos, penas dorsais listradas de preto. Essa plumagem possibilita à ave camuflar-se no capim com grande perfeição.</p>
<p>Já o macuco, segundo o mesmo Dicionário (do tupi ma kuku): designação comum às aves tinamiformes, da família dos tinamídeos, gênero Tinamus Lath., com cauda pequena escondida pelas penas da cobertura. Vive exclusivamente nas matas virgens. Pesa, como dissemos, no Espírito Santo, 1,8 quilos, enquanto que nas matas do Mato Grosso e outros estados do Brasil pode atingir 2,450 quilos. É vulgarmente denominado de azulona, devido à coloração das penas. No Espírito Santo é de cor cinza, puxado para o marrom. Grosseiramente poderíamos compará-lo a uma galinha d&#8217;Angola.</p>
<p>Fizemos boas caçadas em Montanha, em companhia de Plínio Marchini, Roberto Ruschi e Zeca, funcionário da Prefeitura.</p>
<p>Possuía um cão Pointer inglês, comprado na Praia do Canto, de nome Sherlok, de Carlos Cola ou de seu filho Antônio Rogério, branco com manchas fígado, que, ainda muito jovem, com dois anos apenas, amarrava divinamente. Muitas perdizes foram caçadas, tendo inicialmente estreado, com muito sucesso, nas codornas do município de Presidente Kennedy.</p>
<p>Em Nova Venécia caçamos também perdizes em companhia do saudoso amigo Marconi e Wilson Venturin.</p>
<p>Em São Gabriel da Palha caçamos na fazenda do Dr. Ramon Oliveira, administrada pelo seu sobrinho, Dr. Fernando Rua, e outros médicos. O cão utilizado era o famoso Argus, cruzamento de Pointer inglês com Kurzhar, que me acompanhou por quase doze anos, mestre tanto na amarração como no retrieve.</p>
<p>Cacei só, em companhia apenas do perdigueiro, em Jacupemba, Pinheiro, fazenda de Carlos Guilherme Lima e em outros lugares.</p>
<p>É ainda uma crença generalizada entre os caçadores que o perdigueiro deve ser pequeno e de cor escura para não espantar a perdiz. Grande ilusão, pois os olhos aguçados das aves distinguem com facilidade o movimento do cão. Os caçadores de brejo sabem disso, pois qualquer movimento, mesmo com roupa camuflada, será facilmente identificado pelas marrecas, que batem em retirada. A perdiz, com as suas penas tigrinas de amarelo, marrom e preto, permanece tranquila em seu sítio. A vista do caçador e do cão não conseguem facilmente localizá-la. Isso só ocorrerá — a localização — através do faro apurado do perdigueiro. Mesmo que o cão fosse pintado de verde o resultado não seria satisfatório, pois ao se movimentar seria facilmente observado.</p>
<p>Moral da história: o cão, se possível, tem que ser branco ou de cor clara para evitar a incidência dos raios solares que prejudicam o seu desempenho. Em segundo lugar, em vez de pequeno o perdigueiro deve ter grande porte, pois na caçada de perdiz, principalmente com o Pointer inglês que tem o hábito de caçar em disparada afastando-se às vezes do caçador, será mais fácil localizá-lo em campo de vegetação alta.</p>
<p>[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
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		<title>Capítulo VIII – Um presente para D. Ruth</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 19:59:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Eu ouvia contar, quando jovem, uma certa história bastante pitoresca e de sabor folclórico, que teria acontecido com meu pai. Muito tempo depois, morando em Copacabana, o velho, num dos raros papos cordiais, relatou, ele próprio, a versão oficial da história. Era véspera do aniversário de D. Ruth, mulher de Átila Vivacqua. Estava o pessoal [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Eu ouvia contar, quando jovem, uma certa história bastante pitoresca e de sabor folclórico, que teria acontecido com meu pai. Muito tempo depois, morando em Copacabana, o velho, num dos raros papos cordiais, relatou, ele próprio, a versão oficial da história.</p>
<p>Era véspera do aniversário de D. Ruth, mulher de Átila Vivacqua. Estava o pessoal reunido em sua casa, quando alguém anunciou que a caçada do dia seguinte seria em homenagem a D. Ruth, devendo redundar num régio presente para ela: um macuco. A caçada se realizaria no Can Can, antiga denominação de uma região, naquela época ainda coberta pela floresta, próxima de onde fica a atual usina Paineiras.</p>
<p>Muito amável como sempre, D. Ruth quis fazer uma distinção a meu pai. Por simples amizade ou por julgá-lo o menos apto da turma de caçadores devido à sua acentuada miopia, declarou:</p>
<p>— Dessa turma eu confio mais no Seu Chico para me trazer o macuco&#8230;</p>
<p>Isso causou grande ciumada nos demais. A caçada realizou-se no dia seguinte, um domingo de vento sul. Nessas condições o macuco não pia, refugiando-se num canto qualquer da mata, onde fica como que hibernando, sem se movimentar.</p>
<p>Papai era um excelente piador. Era amigo do velho Maurílio Coelho, o fabricante de pios, proprietário da tradicional fábrica da Ilha da Luz, em Cachoeiro de Itapemirim, conhecida em todo o mundo. O velho Maurílio costumava procurar meu pai para ouvir-lhe a opinião sobre novos pios que criava em sua fábrica.</p>
<p>Só que naquele domingo, escondido na choça, meu pai piou bastante e compassadamente, mas o macuco não respondeu. Ao sair do esconderijo, deu com um rapaz conduzindo um macuco morto. Papai perguntou:</p>
<p>— Matou no pio? Pois ninguém poderia superá-lo nessa técnica.</p>
<p>— Não, respondeu o jovem. — Encontrei na picada e, quando ele ameaçou voar, atirei nele&#8230;</p>
<p>— Quer vender? Perguntou meu pai. O rapaz concordou e fixou o preço em cinco mil réis. O velho disse que não trazia dinheiro para o mato, mas pagaria em vez de cinco, dez mil réis. Que o rapaz fosse na sua loja, Alves &amp; Cia., no dia seguinte, para receber o dinheiro.</p>
<p>— Eu sei onde fica, disse o rapaz, pois sou freguês da loja, onde compro munição. Estava vestido com uma roupa surrada, maltrapilha, própria para caçada. Era empregado da oficina do Sinoto, fabricante de peças torneadas.</p>
<p>No dia seguinte, segunda-feira, os amigos de Átila Vivacqua, inclusive Aristides Campos que seria governador do Estado, se reuniram no bar do Madureira para tomar uns aperitivos antes do celebrado almoço de aniversário de D. Ruth. Estavam curtindo a maior decepção, pois ninguém matara um único macuco e tinham de ouvir, irritados, a narrativa do Chico Alves:</p>
<p>— Piei, piei bastante, e o macuco não respondeu. De repente vi que ele se aproximava da choça, aí não perdi tempo: fulminei-o com um tiro certeiro&#8230;</p>
<p>Ele contava e repetia a narrativa com tal freqüência, sem ao menos tropicar, que até parecia a versão verdadeira da história&#8230;</p>
<p>Finalmente foram para casa de Átila, tomando assento à mesa. Atendendo à solicitação de D. Ruth, que não tinha ouvido ainda, meu pai contou mais uma vez a famosa narrativa.</p>
<p>Enquanto isso, o rapaz do Sinoto foi à loja procurar meu pai, e o Francisco Costa, funcionário da loja, disse que ele não voltaria tão cedo, porém, se realmente precisava falar com ele, que fosse à casa do Sr. Átila.</p>
<p>Lá chegando, o rapaz foi conduzido por D. Geralda, empregada da casa, até uma janela que dava para a sala de jantar. Dali o rapaz anunciou seu propósito de falar em particular com meu pai. A sala era muito espaçosa e havia uma grande distância entre ambos. O jovem caçador estava agora bem vestido, o que impediu que meu pai o reconhecesse. O rapaz insistiu que só podia falar em particular. Papai pensou que se tratasse de parente de algum preso (a cadeia ficava em frente à loja), que viesse, em nome deste, pedir dinheiro ou roupa para comparecer ao julgamento.</p>
<p>Além de muito míope, papai tinha os olhos embaçados pelo Old Parr, o que, por outro lado, estimulava seus impulsos menos prudentes. Com as pernas dormentes pelos aperitivos que tomara, não tinha, tampouco, disposição para caminhar até a janela onde estava o moço. Por isso, declarou enfático:</p>
<p>— Meu filho, não tenho particular com ninguém, pode falar daí mesmo&#8230;</p>
<p>O rapaz tornou a repetir:</p>
<p>— O assunto é confidencial&#8230;</p>
<p>O velho declarou:</p>
<p>— Pois fale, e já&#8230;</p>
<p>Aí, titubeando, o jovem balbuciou:</p>
<p>— Vim receber o dinheiro do macuco que vendi ao senhor.</p>
<p>Os amigos, deprimidos que estavam, partiram imediatamente para a desforra, através de uma vibrante gozação&#8230; Papai, terminando a história, confessou-me:</p>
<p>— Meu filho, eu só queria que se abrisse um buraco no chão para me enterrar dentro&#8230;</p>
<p>[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-viii-um-presente-para-d-ruth/">Capítulo VIII – Um presente para D. Ruth</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Capítulo VII – A perdida</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 19:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O grande caboclo Dário, sogro do Guducha, ficou famoso entre os demais, a ponto de merecer do Enrico Ruschi o apelido de Capitão do Mato. Andava com grande desembaraço pela Mata Atlântica, que era na verdade uma floresta sem vegetação rasteira. Cheguei a imaginar que seria possível, com um pouco de exagero, como nas florestas [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>O grande caboclo Dário, sogro do Guducha, ficou famoso entre os demais, a ponto de merecer do Enrico Ruschi o apelido de Capitão do Mato. Andava com grande desembaraço pela Mata Atlântica, que era na verdade uma floresta sem vegetação rasteira. Cheguei a imaginar que seria possível, com um pouco de exagero, como nas florestas européias, até cavalgar sobre a sua superfície&#8230; Isso porém constituía um perigo para quem se atrevesse a penetrá-la, pois, não havendo galhos para cortar na caminhada, não se faria a picada que facilitaria o retorno com segurança. O Dário não usava facão mas caminhava quebrando, aqui e acolá, apenas um galho dos arbustos.</p>
<p>Uma vez o Ruschi cedeu-me o Dário para ser meu guia nas matas ricas de macucos do córrego Itaúnas. Caminhando pelo meio da mata, avistou, com seus olhos de gato, um casal de macucos numa clareira e pediu com insistência a minha espingarda para matá-los. Nesse momento ventava muito, e um galho imenso partiu-se, atingindo o chão com grande estrondo. Nem por isso os macucos voaram; apenas se abaixaram e continuaram a caminhada. Entreguei a arma ao Dário, que atirou e os macucos voaram. Atirou, como dizem, do lado da saúde&#8230;</p>
<p>Mais tarde fizemos uma choça ao pé de uma árvore. Depois de alguns piados, um macuco respondeu; porém, não se aproximava da choça. Percebemos, então, que isso seria impossível, pois ele estava do outro lado do córrego. Estava indócil, no cio, e se mostrava a descoberto na outra margem, e só faltava voar para o nosso lado, mas o riacho era um grande obstáculo. Seu Dário mais uma vez solicitou a espingarda para atirar. Recusei, dizendo-lhe que eu mesmo atiraria, apesar da grande distância. Com o tiro, o macuco largou muita pena no vôo. Dada a dificuldade de atravessar o córrego, não fomos procurá-lo.</p>
<p>Depois de uma longa caminhada, se não fosse a absoluta confiança que tinha no Dário eu diria que estávamos perdidos, devido ao estado de espírito dele, e a uma certa incerteza que demonstrava. De repente exclamei: &#8220;Veja, um outro caçador andou por estas matas incultas e atirou também num macuco!&#8221; Seu Dário sorriu e apontou para nossa choça do outro lado do riacho. Ele tinha perdido o rumo e fez uma grande curva, vindo parar no mesmo lugar, só que na outra margem do córrego&#8230;</p>
<p>Era comum os caçadores chegarem em torno do meio-dia. Nós, porém, chegamos muito depois, lá por volta de uma hora. Tio Bernardo, nosso coordenador, muito sem cerimônia, como sempre, brigou com o Dário pela preocupação que tinha causado, parecendo até que nos tivéssemos perdido&#8230; Seu Dário calou-se, pois era um caboclo muito educado&#8230;</p>
<p>
[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
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		<title>Capítulo VI – Uma caçada relâmpago</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 19:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Flores Alves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Num fim de semana prolongado partimos para uma caçada lá para as bandas de Conceição da Barra. Eu estava na companhia do Dr. Enrico Ruschi e de Pedro Vivacqua, diretores da Cesmag, companhia beneficiadora de café espírito-santense. No caminho cruzamos com Tio Bernardo, que vinha de uma outra caçada. Aproveitei a oportunidade para me apossar [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Num fim de semana prolongado partimos para uma caçada lá para as bandas de Conceição da Barra. Eu estava na companhia do Dr. Enrico Ruschi e de Pedro Vivacqua, diretores da Cesmag, companhia beneficiadora de café espírito-santense.</p>
<p>No caminho cruzamos com Tio Bernardo, que vinha de uma outra caçada. Aproveitei a oportunidade para me apossar do Florisbelo, excelente caboclo como guia no mato. Na verdade, ele não passava de um índio civilizado.</p>
<p>Acampamos na casa do Seu Dário, que era sempre o auxiliar do Ruschi. Pedro Vivacqua contratou outro rapaz, e o Florisbelo ficou comigo.</p>
<p>Florisbelo tinha — como o Guducha — a mania de piar constantemente durante a caminhada, e não consegui impedi-lo, pois ele trabalhava conosco numa empreitada em Barbados e tomara bastante intimidade comigo&#8230;</p>
<p>De repente o macuco piou encostado, muito próximo, e Florisbelo mandou que eu ficasse junto a uma árvore enquanto ele se afastaria. Foi uma decisão muito contra a minha vontade mas, dadas as circunstâncias, cedi. Dei apenas um piado, e logo comecei a ouvir um tropel que mais parecia de um animal de grande porte correndo no colchão de folhas secas. O barulho foi se tornando mais intenso e, de repente, um casal de macucos despontou rente por baixo do cano da minha espingarda. Assustados e trêmulos, baixaram o peito no chão e viraram a cabeça para visualizar melhor aquela imagem inédita para eles, e em seguida alçaram vôo, levantando uma grande nuvem de poeira e folhas secas. Atônito, disparei o tiro, sem pontaria, sem, naturalmente, atingir o alvo&#8230; À guisa de &#8220;moral da história&#8221;, percebe-se a conveniência do caçador fazer uma choça e não cometer a imprudência de ficar a descoberto ao pé de uma árvore — atitude, no máximo, mais condizente com o aspecto esportivo da caçada.</p>
<p>Coisa mais fácil para Florisbelo, como bom caboclo, era descobrir macuco empoleirado. Certa vez, fato curioso, descobriu uma fêmea e seu filhote empoleirados juntos no mesmo galho. Espantei-me muito com a façanha da pequena ave, que conseguiu alcançar aquele galho, distante, aproximadamente, cinco metros do chão&#8230;</p>
<p>No segundo dia, à tarde, Pedro Vivacqua ficou meio de pileque, o que irritou o Ruschi. Sorvia goles de vinho Carpano, italiano, bebida predileta do Ruschi, e pilheriava, usando a garrafa à guisa de corneta para chamar os cachorros&#8230;</p>
<p>Depois disso, Pedro entrou no mato com certo esforço. Encostou-se à árvore onde fizeram a choça e dormiu. O macuco chegou após alguns piados e o caboclo acordou o Pedro, que entregou a arma ao guia, mandando-lhe que atirasse. Isso era muito comum no Pedro, que também levava uma espingarda para o caboclo e o autorizava a matar a caça. E não fazia segredo de que o caboclo é que a tinha matado. Era uma pessoa sui generis nesse aspecto&#8230;</p>
<p>Nessa caçada usamos três espingardas Sauer: duas de três anéis, modelo de luxo, e a minha, modelo simples da mesma marca. O Ruschi adquirira a dele do Dr. Aurino Quintaes, advogado da Estrada de Ferro Vitória a Minas. O presidente da empresa, Pedro Nolasco, viajou à Alemanha e o Aurino encomendou duas espingardas, uma calibre 20 para o mato e uma 12 para o brejo. Pedro Nolasco trouxe as armas com o nome do Aurino gravado em letras de ouro, e apresentou-lhe uma conta avantajada. Para contornar a situação, o Aurino vendeu a 20 para o Ruschi. A 12 acabou se tornando propriedade do Pacheco de Queiroz, diretor de A Gazeta e, por sugestão minha, meu primo Paulo Maia, também funcionário do referido jornal, adquiriu a arma.</p>
<p>Nessa rápida excursão matamos nove macucos, mas não foi possível prepará-los adequadamente, como de costume, cozinhá-los e mergulhá-los na lata de banha. Ao contrário, foi preciso improvisar tudo; os macucos foram salgados e transportados num caixote de querosene. Foi, sem dúvida, a macucada mais humilhada que já vi. Nenhum de nós quis levar para casa a preciosa carga, que acabou entregue na varanda da casa do Tio Bernardo, à rua Barão de Monjardim, 142, em Vitória.</p>
<p>
[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
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<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
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		<title>Capítulo V – Caçando com Valter</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 19:54:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Luiz Flores Alves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em sua primeira caçada de macuco, Valter estava em companhia de meu pai, Dr. Ruschi, Neguinho, Tio Antônio, Miguel Frota e Tio Bernardo, além de mim. Acampamos na propriedade de Pasto Novo. Por insistência minha, Tio Bernardo, coordenador da expedição, concordou em levar meu amigo, jovem como eu, para essa caçada de quinze dias. Valter [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Em sua primeira caçada de macuco, Valter estava em companhia de meu pai, Dr. Ruschi, Neguinho, Tio Antônio, Miguel Frota e Tio Bernardo, além de mim. Acampamos na propriedade de Pasto Novo. Por insistência minha, Tio Bernardo, coordenador da expedição, concordou em levar meu amigo, jovem como eu, para essa caçada de quinze dias.</p>
<p>Valter possuía uma espingarda de um cano, calibre 28. Tio Bernardo, pela manhã, escondido numa choça, tentara inutilmente matar um macuco que nem sequer piou&#8230; Pois deixou o Valter justamente nessa choça, dizendo que ali era um ótimo lugar e que os macucos piavam bastante. O neófito não só acreditou como ficou entusiasmado. Ficou ali, sozinho, e Tio Bernardo avisou-lhe que na volta o apanharia.</p>
<p>Ao regressar, eis que o rapaz sai da choça sorridente, afirmando que os macucos estavam realmente doidos para morrer. E exibe o bonito casal de macucos que caçara. Tio Bernardo, egoísta como a maioria dos caçadores, afirmou, indignado: &#8220;Esse filho da puta matou meu casal de macucos que na parte da manhã nem sequer piou&#8230;&#8221; Caçada tem dessas coisas.</p>
<p>Valter tomou gosto pelo esporte e, posteriormente, comprou do Dr. Schwab uma espingarda de dois canos, calibre 20, da marca Galant. É hoje um caçador emérito, chegando a fabricar pios especiais de macuco.</p>
<p>Certa vez, com companheiros de Colatina, foi caçar próximo à reserva florestal de Sooretama. Levaram a figura indispensável que é o cozinheiro.</p>
<p>Atualmente os caçadores são mais fominhas ou pragmáticos. Os tempos mudaram bastante. Hoje dispensam os caboclos e ficam na mata, devidamente munidos de farnel, até às dezoito horas. São mais objetivos, mais produtivos, já que em nossa época o espírito esportivo se extinguiu.</p>
<p>Nessa caçada na reserva florestal, o cozinheiro ficou na barraca enquanto os outros caçavam. Estava de sandália havaiana e saiu para observar alguma coisa e foi picado por uma cobra surucucu. De posse de uma vara, matou a cobra, o que nada adiantou, é claro, para efeito de antídoto. Isso nos faz lembrar que uma simples botina pode evitar ocorrências desagradáveis.</p>
<p>Quando os companheiros retomaram, o veneno já tinha atingido o ponto máximo. O soro anti-ofídico estava no carro, estacionado a alguma distância, na estrada de rodagem. A solução era levar o cozinheiro até o carro, numa caminhada exaustiva pelo meio da mata. No meio do percurso, dependurado do jirau, o homem balbuciou: &#8220;Estou morrendo, não adianta essa jornada penosa. Vocês fiquem aqui, e me levem ao clarear o dia, já morto.&#8221; O que efetivamente aconteceu.</p>
<p>Nas minhas caçadas de macuco, nunca deixei de levar uma seringa fervida, isolada na caixa por esparadrapo, com as ampolas de soro na capanga. Por sorte nunca vi uma cobra.</p>
<p>Nas minhas caçadas de perdiz costumava caçar só, acompanhado apenas pelo cachorro. Fiquei sabendo, porém, que o soro anti-ofídico perde o efeito com o sol. Então tomei as providências cabíveis. Mais uma vez usando meu espírito inventivo, guardei as ampolas de soro no interior de uma garrafa térmica, por sua vez isolada por um invólucro de isopor, isolando totalmente, assim, a temperatura ambiente.</p>
<p>Cacei muitas vezes em São Gabriel da Palha em companhia de Fernando Rua e outros médicos, que declararam: &#8220;Nós, médicos, não precisamos trazer medicamentos, o Luiz se encarrega de tudo&#8230;&#8221;</p>
<p>Nas caçadas de perdizes, eu costumava ir só, acompanhado apenas pelo cachorro. Uma vez, estando no Rio, fui ao apartamento, no Flamengo, do Dr. Geraldo Albernaz, pai de Marco Aurélio, ex-professor do Centro Tecnológico da Ufes. No bate-papo, ficou sabendo que eu caçava só; então relatou que um seu parente também caçava só, escoteiro, até que um dia escorregou numa laje de pedra e ficou preso pelo pé, tendo morte horrível. Ouvi com atenção o relato, que também me comoveu bastante; porém, continuei caçando só&#8230;</p>
<p>[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
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		<title>Capítulo III – Caçada na fazenda do Miguel</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-cacada-na-fazenda-do-miguel/</link>
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		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 19:51:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Luiz Flores Alves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Alves &#38; Cia. — não a firma que dá título ao livro de Eça de Queiroz — eram duas lojas conjugadas, em Cachoeiro de Itapemirim, que vendiam de tudo, inclusive armas e munições. Ficavam próximas da praça Jerônimo Monteiro, bem em frente à antiga cadeia municipal. Mais de uma vez houve fuga coletiva de presos, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Alves &amp; Cia. — não a firma que dá título ao livro de Eça de Queiroz — eram duas lojas conjugadas, em Cachoeiro de Itapemirim, que vendiam de tudo, inclusive armas e munições. Ficavam próximas da praça Jerônimo Monteiro, bem em frente à antiga cadeia municipal. Mais de uma vez houve fuga coletiva de presos, cuja primeira providência era invadir a loja para se apossarem de carabinas Winchester e respectivas munições.</p>
<p>Duas placas de metal amarelo identificavam as lojas, destacando em letras góticas o nome Alves &amp; Cia. Durante muitos anos lá trabalhou Miguel Frota, que acredito teve ali seu primeiro emprego. Quando meu pai, o proprietário, deixou o comércio e passou a empreitar a construção de estradas, inicialmente de rodagem, depois ferrovias, Miguel o acompanhou.</p>
<p>Sua última empreitada foi a construção da estrada de rodagem ligando São Gabriel da Palha a Valério. Meu Tio Bernardo chefiava o serviço, tendo Miguel como auxiliar.</p>
<p>Terminada a empreitada, Miguel descobriu e comprou, creio que de uma viúva, a preço bem razoável, uma propriedade com alguma mata. Nessa fazenda, além de outras atividades, ele fabricava uma cachaça de boa qualidade.</p>
<p>Num fim de semana, fui à casa de Miguel para uma caçada. Fui na companhia de Plínio Marchini, meu companheiro em diversas caçadas de brejo e, ultimamente, de perdizes.</p>
<p>No dia seguinte à nossa chegada enveredamos pela mata e, logo no arrastão, um macuco espantado estourou e levantou vôo. Plínio era bom atirador, com boa coordenação de reflexos, mas atirou e errou. O impacto psicológico, naquele momento, foi bem diferente do das caçadas de tiro ao vôo, e ele se descontrolou&#8230;</p>
<p>A propriedade do Miguel era vizinha a uma reserva da Vale do Rio Doce, por onde penetramos sem a devida autorização. Com o vôo do macuco ficamos sabendo de sua existência.</p>
<p>Fiz uma choça na catana de uma árvore, lugar jeitoso para armar uma choça. A expressão catana, muito usada pelos caboclos, significa um ângulo formado pelas raízes expostas de uma árvore. Alguns caçadores preferem o gunã, que é uma elevação, uma pirâmide de terra, lembrando um formigueiro abandonado. Daí, apesar do caçador ficar mais exposto, ele tem a vantagem de ter melhor visão.</p>
<p>Os caçadores antigos, preconceituosos, criticavam o uso de uma choça de folhas de palmeira, achando que a massa da folhagem espantaria a ave. Puro engano. Hoje em dia usa-se, com grande eficácia, apenas um pano camuflado como abrigo.</p>
<p>Durante dois dias não tive sucesso. O macuco era velhaco e já fora muito caçado, e associava a choça a perigo. Piei com o devido espaçamento, todos os dias. Chororoquei, pois era mês de setembro, período do cio. O macuco respondia ao pio mas não chegava. Como diziam os caboclos, o bicho era velhaco, sabia ler e escrever&#8230; Depois de dois dias sem que ele chegasse à choça, resolvi partir para a ignorância — tentar matá-lo no poleiro&#8230;</p>
<p>Por volta das cinco e meia, hora do macuco voar para o poleiro, saí da choça para ouvir melhor o rufar das asas quando ele empoleirasse. Certifiquei-me do rumo de seu vôo e caminhei alguns passos na sua direção. Piei, e ele respondeu com três longos piados. Para os caboclos, achar a ave é uma tarefa fácil. Para nós, caçadores, é um desafio. Caminhei na direção do pio e avistei o macuco num galho da árvore, já com o peito apoiado no galho; apoiado nos pés, estaria sujeito a voar. A técnica manda atraí-lo e matá-lo no chão. Então me perdoem os puristas — já matei vários no poleiro&#8230;</p>
<p>Depois de achá-lo, voltei à casa do Miguel e relatei o fato. Foi um entusiasmo geral.</p>
<p>Miguel havia me emprestado uma espingarda Saint-Etienne, presente de meu pai a ele. Era uma arma antiga, calibre 16, vendida por um soldado. Plínio Marchini propôs que eu é que devia atirar no macuco, mas declinei em homenagem a ele; contentava-me com o grande mérito de tê-lo achado no poleiro. Fomos ao local, munidos de lanternas. O macuco estava despreocupado, imaginando-se seguro no seu pouso. Plínio atirou e o macuco rolou pela inclinação do terreno, deixando um rastro de penas.</p>
<p>Plínio era secretário particular — ou coisa parecida — do governador Asdrúbal Soares, também caçador de aves, e resolveu levar o macuco de presente para ele. Asdrúbal, desconfiando das bravatas de Plínio, perguntou quem mais estava naquela caçada. Plínio respondeu: &#8220;O Luiz, filho do Chico Alves.&#8221; Então, sorrindo, respondeu-lhe o Asdrúbal: &#8220;Então já sei quem foi que caçou o macuco&#8230;&#8221;</p>
<p>
[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-cacada-na-fazenda-do-miguel/">Capítulo III – Caçada na fazenda do Miguel</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Capítulo II – Caçada em Três de Agosto</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 19:48:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Luiz Flores Alves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Três de Agosto ficava no que é hoje o município de Montanha, no norte do Espírito Santo — naquela época uma região ainda coberta de mata. Numa pequena aberta se situava a sede da empresa que explorava madeira em convênio com a Secretaria de Agricultura do Estado. Era uma região de muito macuco. Nessa excursão [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Três de Agosto ficava no que é hoje o município de Montanha, no norte do Espírito Santo — naquela época uma região ainda coberta de mata. Numa pequena aberta se situava a sede da empresa que explorava madeira em convênio com a Secretaria de Agricultura do Estado.</p>
<p>Era uma região de muito macuco. Nessa excursão resolvemos nos alojar num trecho da estrada aberta para extração de madeira. Lá estava conosco, pela segunda vez, Virgílio de Melo Franco.</p>
<p>As instalações eram muito precárias: parede de palha e cama feita de tronco de palmito cortado em duas bandas. Devido à presença de Virgílio, porém, surgiram camas de mola &#8220;patente&#8221;, cadeiras, poltronas de vime e demais utensílios visando ao conforto dos caçadores.</p>
<p>À tarde apareceu Artur Donato. Vendo o pessoal refestelado em cadeiras de vime, ele exclamou: &#8220;Isso parece mais um safari africano, é muito conforto para simples caçadores! Ao contrário de armarem acampamento no meio da mata, armam no leito da estrada&#8230;&#8221;</p>
<p>O Guducha, genro de Seu Dário, o capitão-do-mato, foi quem ficou como meu caboclo nessa caçada. Eu era muito jovem, por isso o Guducha tomou-se de ares paternais, supondo que ia acompanhar um caçador inexperiente&#8230; Procurei me impor, não deixando que ele tomasse a liderança.</p>
<p>Guducha possuía um pio de macuco, e se atrevia, apesar das minhas censuras, a piar a todo instante, durante a caminhada. De repente um macuco respondeu encostado à gente, e ele, entusiasmado, disse-me: &#8220;Fica no pé daquela árvore com sua roupa verde, que eu fico mais distante.&#8221; Discordei completamente, dizendo: &#8220;Vamos fazer uma choça.&#8221; Mandei-o cortar as palhas de uma palmeira e arrastar as folhas até o pé de uma árvore. Para evitar o ruído, ele propôs carregar as folhas nos braços, achando que o barulho prejudicaria a caçada. Discordei novamente, mandando que arrastasse a folhagem, pois sabia que o macuco só se espantaria com a voz humana ou se nos visse.</p>
<p>Lembrei de um fato esclarecedor. Certa vez encontrei, em minha caminhada pela mata, dois machadeiros que derrubavam uma imensa peroba, um de cada lado da árvore. Então perguntei se não sabiam de algum macuco que estivesse ali por perto. A resposta me surpreendeu: ali, bem perto da derrubada, um macuco piava várias vezes por dia.</p>
<p>Com a ajuda do Guducha fizemos uma choça espaçosa o bastante para evitar que a ponta da espingarda tocasse nas palhas, abrindo depois algumas &#8220;janelas&#8221; na choça. Então comecei a piar chororão e em seguida a piar macuco, e a resposta não se fez esperar.</p>
<p>A ave apareceu à nossa vista e começou a caminhar na direção do pio. O Guducha então me falou para parar de piar, porque o macuco é bicho muito velhaco e saberia distinguir o pio do caçador. Outra grande besteira&#8230; O fato de parar de piar leva o macuco a perder o rumo e a dar volta à choça do caçador. Continuei piando, compassadamente, até que ele se aproximou, afoito, da boca da minha Sauer 20. Então atirei calmamente no pescoço que, além de ser ponto mortal, evita estragar o corpo com a chumbada.</p>
<p>Em outras ocasiões preferia ficar chororocando com a boca, o que deixava livre o braço, que não precisava ficar segurando o pio. Aí o sucesso era bem melhor, pois, com o braço livre, mantinha a arma bem apoiada, apontando na direção da caça.</p>
<p>Eu era um caçador jovem, sem preconceitos nem velhas manias. Possuía uma pistola Colt de tiro ao alvo e atirava razoavelmente bem. O problema era a escuridão, mas, com meu espírito inventivo, contornei o problema retirando — com o devido respeito — da parte de trás da imagem fosforescente de uma santa a massa que fixaria, com cola, na alça de mira da arma&#8230; Passei a matar chororão com certa facilidade. Não atirei no macuco porque achava a munição insuficiente. Mais tarde, fiquei sabendo, em Águia Branca, que nosso encarregado na construção da estrada de rodagem caçava macuco com a munição do seu rifle 22. Uma das razões de usar a pistola era julgar que o tiro faria pouco alarde; estava enganado. O estampido, partindo da catana da choça, ecoava com grande repercussão; então, era comum os caboclos, nas outras choças distantes, comentarem: &#8220;Lá está Seu Luizinho matando chororão&#8230;&#8221;</p>
<p>
[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-cacada-em-tres-de-agosto/">Capítulo II – Caçada em Três de Agosto</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Capítulo I – Pasto Novo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 19:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Flores Alves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os irmãos Alves — Chico e Bernardo —, mais por iniciativa deste último, requereram, no início da década de 40, uma área de mata próximo a Linhares, que passaria a chamar-se Fazenda Pasto Novo. Possuía apenas uma pequena área desmatada pela natureza, chamada de nativo pelos caboclos, bem no interior da densa Mata Atlântica. Os [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Os irmãos Alves — Chico e Bernardo —, mais por iniciativa deste último, requereram, no início da década de 40, uma área de mata próximo a Linhares, que passaria a chamar-se Fazenda Pasto Novo.</p>
<p>Possuía apenas uma pequena área desmatada pela natureza, chamada de nativo pelos caboclos, bem no interior da densa Mata Atlântica. Os seus proprietários não pretendiam fazer nenhuma exploração agrícola mas sim utilizá-la, inicialmente, para caçadas de macuco.</p>
<p>Pasto Novo — o nome é conservado até hoje, nos mapas modernos, com a mesma localização — fica próximo da reserva biológica de Sooretama, entre Rio Bananal e Jaguaré, cortada pelo riacho Cupido.</p>
<p>Foi lá que, muito jovem, fiz minha primeira caçada de macuco.</p>
<p>Tio Bernardo confiou-me a um caboclo e disse-lhe que me levasse a um macuco que empoleirava perto do rancho. Chegando ao local ao escurecer, o caboclo me mostrou um bonito macuco em seu poleiro, um galho que atravessava por cima da picada. O bicho estava tranqüilo, considerando-se, naquele pouso, a salvo dos predadores. Então atirei e me apossei do famoso pássaro que, embora abatido de maneira muito covarde, foi meu primeiro motivo de orgulho como caçador.</p>
<p>Fiquei sabendo, posteriormente, com base em observações, que o macuco escolhe para poleiro pequenas abertas na mata — resultado de galhos partidos —, beira de aceiro, beira de estrada, picadas, enfim lugares que lhe possibilitem espaço para voar quando perseguido por bicho selvagem ou humano&#8230;</p>
<p>Muitos caçadores se embrenham no interior das matas à procura do macuco, deixando para trás, na beira da estrada ou do aceiro, o cobiçado pássaro. Pensam, equivocadamente, que esses locais de muito trânsito afugentariam o pássaro. Pura besteira&#8230;</p>
<p>Na mata do Pasto Novo, como era de esperar, havia muita onça. Quando chovia, a água apagava os rastros velhos, aparecendo então novos rastros, tão grandes que nosso punho fechado não bastava para cobri-los&#8230; Logicamente, isso intimidava bastante os caçadores, sobretudo os mais medrosos.</p>
<p>Cacei muitas vezes nessas e em outras matas, devidamente silencioso e camuflado dentro da choça, e nunca vi uma onça sequer. Elas têm vida noturna, como também suas presas — pacas, veados, etc. — e saem de preferência em noites escuras, sem a luz da lua.</p>
<p>João Copisque era o sitiante que tomava conta da propriedade. A mulher dele certa vez afirmou que viu, durante o dia, apavorada, uma onça próximo do barraco, sem ter sido porém molestada pela fera.</p>
<p>Nessa aberta deparei, certa vez, com um enorme touro baio, perdido naquela longínqua região. Por azar, ele partiu, resoluto, em minha direção e, não tendo onde me abrigar, fui obrigado a atirar nele, na cabeça. Era uma manhã de muita cerração e muita umidade, e o tiro levantou uma pequena nuvem d&#8217;água, que o fez recuar.</p>
<p>Com o falecimento do meu pai, propus comprar a parte do meu tio, mas ele não concordou. Fiquei sabendo, mais tarde, que a região fora parcialmente invadida.</p>
<p>
[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
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		<title>Caçadas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 19:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Flores Alves]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Cena de caçada em pintura rupestre. SUMÁRIO Capítulo I&#160; – Pasto Novo Capítulo II – Caçada em Três de Agosto Capítulo III – Caçada na fazenda do Miguel Capítulo IV – Caçada em Boa Esperança Capítulo V – Caçando com Valter Capítulo VI&#160;– Uma caçada relâmpago Capítulo VII – A perdida Capítulo VIII – Um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-RSAnlTn6jjA/WH_FJ5iRgTI/AAAAAAAALOI/prSLJI-mLZMndleCNYxYeODN3M2ZIhHXgCLcB/s1600/196-rupesd1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Cena de caçada em pintura rupestre." border="0" height="480" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2001/01/196-rupesd1.jpg" class="wp-image-8219" title="Cena de caçada em pintura rupestre." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Cena de caçada em pintura rupestre.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>SUMÁRIO</p>
<p>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-i-pasto-novo/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo I</a>&nbsp;<span style="white-space: pre;"> – </span>Pasto Novo<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-cacada-em-tres-de-agosto/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo II</a> <span style="white-space: pre;"> – </span>Caçada em Três de Agosto<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-cacada-na-fazenda-do-miguel/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo III</a><span style="white-space: pre;"> – </span>Caçada na fazenda do Miguel<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iv-cacada-em-boa-esperanca/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IV</a><span style="white-space: pre;"> – </span>Caçada em Boa Esperança<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-v-cacando-com-valter/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo V</a><span style="white-space: pre;"> – </span>Caçando com Valter<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-vi-uma-cacada-relampago/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VI</a>&nbsp;<span style="white-space: pre;">– </span>Uma caçada relâmpago<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-vii-perdida/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VII</a><span style="white-space: pre;"> – </span>A perdida<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-viii-um-presente-para-d-ruth/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VIII</a><span style="white-space: pre;"> – </span>Um presente para D. Ruth<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ix-o-perdigueiro-e-as-perdizes/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IX</a><span style="white-space: pre;"> – </span>O perdigueiro e as perdizes</p>
<p>
[ALVES, Luiz Flores. <i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 </span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b> nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
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		<title>Capítulo IV – Caçada em Boa Esperança</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iv-cacada-em-boa-esperanca/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jan 2001 11:52:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Flores Alves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nossa turma era muito restrita. Meu pai era o cabeça da turma. Duas vezes por ano ia à caçada de macuco, especialmente no dia 7 de julho, seu aniversário. De todas as expedições faziam parte o secretário Enrico Ruschi, Neguinho, funcionário do porto de Vitória, Colatino, motorista e caçador, e Tio Antônio. O mestre caçador [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Nossa turma era muito restrita. Meu pai era o cabeça da turma. Duas vezes por ano ia à caçada de macuco, especialmente no dia 7 de julho, seu aniversário.</p>
<p>De todas as expedições faziam parte o secretário Enrico Ruschi, Neguinho, funcionário do porto de Vitória, Colatino, motorista e caçador, e Tio Antônio. O mestre caçador que cuidava de tudo era o Tio Bernardo, apelidado de Gato do Mato.</p>
<p>Uma vez saímos para caçar próximo de Montanha, numa região ainda inculta, onde a firma Donato fazia extração de madeira, principalmente de peroba, jacarandá e outras madeiras de lei. Fizemos nosso acampamento no córrego Vinhático, hoje vila, onde havia uma boa reserva de macucos e outras aves. O córrego possuía pouca água, principalmente no mês de outubro, quando secava, e aí faltava água para limpeza tanto dos caçadores como das caças. Isso nos obrigou a partir, escolhendo no caminho, mais ao sul, outra mata para acamparmos.</p>
<p>Para completar a aventura, fizemos o segundo acampamento na região de Soa Esperança, então denominada Boa Lembrança. No meio da exuberante Mata Atlântica havia um pobre morador isolado, numa pequena derrubada junto à estrada.</p>
<p>À tarde partimos para o mato. Lá pelas quatro horas começaram os tiros e o caboclo exclamou: &#8220;Gente, isso aí até parece São João&#8230;&#8221; — estava acostumado ao silêncio profundo do lugar, agora quebrado pelo som dos tiros. Meu Tio Antônio, que ficava no rancho, gracejou: &#8220;Cada pipocar desses é um macuco que morre. Você vai ver quando eles saírem do mato&#8230;&#8221;</p>
<p>De fato, os cinco caçadores chegaram trazendo dez macucos&#8230; Era mês de outubro, como disse, e os macucos estavam no auge do cio, o que simplificava bastante a tarefa pois, morto um deles, o outro chega rápido no pio.</p>
<p>Houve necessidade de cortar uma tábua para fazer uma cama. Não tínhamos, porém, levado ferramenta. Aí eu, atrevidamente, resolvi cortar a tábua com meu canivete vermelho suíço Victorinox. Segundo se dizia, ao ser recrutado, na Suíça, cada jovem recebia um fuzil e um canivete desses, considerado também como equipamento militar&#8230; O corte não foi fácil como o de uma faca cortando manteiga, mas separou as duas metades com facilidade.</p>
<p>Muito mais tarde, nas minhas caçadas de perdizes, andei por aquelas bandas, então já povoadas e elevadas à condição de município. As perdizes que povoavam seus campos tinham vindo da Bahia, pois o grande obstáculo ao seu deslocamento — a mata — já tinha sido impiedosamente derrubada, abrindo livre caminho para os tinamídeos.</p>
<p>Retornei àquelas bandas mas me decepcionei por não encontrar mais a selva exuberante e quase impenetrável, com o seu sabor de mistério e solidão. O que havia em seu lugar era um campo aberto, estendendo-se na distancia até onde nossa vista alcançasse.</p>
<p>Do fundo da memória brotou a advertência que o caboclo Dário fazia para evitar que alguém se perdesse: &#8220;Se se perderem nestas matas, só encontrarão a praia a setenta quilômetros daqui&#8230;&#8221;</p>
<p>
[ALVES, Luiz Flores.&nbsp;<i>Caçadas</i>. Reprodução parcial do livro publicado em Vitória-ES, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e Prefeitura Municipal de Vitória em 1999. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Flores Alves</b>&nbsp;nasceu em Vitória, em 1920, e mudou-se no mesmo ano para Cachoeiro de Itapemirim-ES. Trabalhou na CVRD de 1942 a 1946 como administrador na construção de vários trechos da estrada de ferro. No Rio de Janeiro trabalhou em várias obras públicas e formou-se em Economia. Aposentou-se em 1985 como diretor do Centro Jurídico e Econômico da Universidade Federal do Espírito Santo. Faleceu em Guarapari, ES, no ano de 2003.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iv-cacada-em-boa-esperanca/">Capítulo IV – Caçada em Boa Esperança</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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