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	<title>Arquivos Maria Amélia Dalvi &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<title>Arquivos Maria Amélia Dalvi &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>50 tons de azul em Safira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Dec 2015 16:29:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Amélia Dalvi]]></category>
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		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Reler Safira, livro infantil de Sérgio Blank &#8211; com ilustrações de Mara Perpétua -, tem o gosto e o gesto de uma redescoberta: da literatura infantil feita no Espírito Santo, do lavor imprescindível de seu autor. Na tese de doutorado defendida por Ivana Esteves, em 2015, junto à Universidade Federal do Espírito Santo, há um [&#8230;]</p>
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<p>
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Reler <i>Safira</i>, livro infantil de Sérgio Blank &#8211; com ilustrações de Mara Perpétua -, tem o gosto e o gesto de uma redescoberta: da literatura infantil feita no Espírito Santo, do lavor imprescindível de seu autor.<br />
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Na tese de doutorado defendida por Ivana Esteves, em 2015, junto à Universidade Federal do Espírito Santo, há um delineamento do modus operandi da literatura para crianças em terras capixabas. A autora demonstra que, independentemente da natureza do financiamento destinado à publicação de seus livros (seja público, por meio de editais; misto, por meio de leis de incentivo; ou privado, por negociação direta dos detentores de direitos em escolas e empresas), os escritores de obras infantis, no contexto estudado, são aqueles que preponderantemente atuam na divulgação e distribuição dessa produção, muitas vezes desdobrando-se como contadores de histórias, oficineiros e gestores culturais e, na ausência de um sistema literário plenamente constituído, transmutando-se em agentes comerciais. Outro modo de funcionamento da dinâmica literária infantil detectado por Esteves (2015) em seu estudo é a relação interessada entre escola e literatura, com a produção sob encomenda de obras que atendam à demanda pedagógica por textos ficcionais com propósitos educativos, nem sempre estão a serviço da complexificação da visão de mundo dos sujeitos e da problematização dos valores sociais instituídos. Mas, na contramão da dinâmica mais recorrente no Estado, não é por nenhuma dessas vias que <i>Safira </i>chegou à 5ª edição.<br />
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Blank atuou, historicamente, em oficinas literárias com internos de hospitais psiquiátricos e unidades profissionais, no entanto, não foi por essa via – o trabalho como oficineiro – que chegou às mãos dos leitores pequenos e às escolas. Também atuou como gestor cultural, por exemplo, quando foi editor das obras literárias contempladas por aquela que talvez seja a mais importante política cultural no Espírito Santo (os editais da Secretaria de Cultura do Estado) –&nbsp;e nunca se locupletou desse lugar em favor de <i>Safira</i>. Tem sido um formador de leitores por meio de rodas de leitura, junto à Biblioteca Pública do Estado, mas também aí não se explica o sucesso de seu livro; já que, de Blank, podemos dizer mais ou menos o que Mário de Andrade disse do amigo Carlos Drummond de Andrade, nas primeiras décadas do século passado: contrariam-se, ali, com ferocidade, uma inteligência aguda, uma sensibilidade afiada e uma timidez inaferrável. E eu acrescentaria ao insólito mosaico um quase ceticismo em relação à própria obra.</p>
<p>Isso porque, desde a publicação de <i>Vírgula </i>em 1996, tivemos de esperar mais de quinze anos para ver o nome de Blank em nova capa. A reedição de sua obra completa &#8211; até o momento – está sendo realizada, em dois volumes, pela editora Cousa: <i>Os dias ímpares</i>, lançado em 2011, que reúne seus cinco livros anteriores; e a novela infantil sob lupa. Sobre o volume de poemas, o poeta declarou algumas reservas críticas, mas, aparentemente desprendido da vaidade narcísica, optou por manter integralmente o originalmente publicado, como um gesto de respeito à própria história à história das obras. Já a novela infantil, em fase de acabamento, será lançada no próximo dia 15.<br />
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Um dos mais importantes poetas de sua geração no contexto literário do Espírito Santo, Blank sempre desafiou os leitores. Se nos intrigam em <i>Estilo de Ser Assim, Tampouco</i>, <i>Pus</i>, <i>Um,</i>, <i>A Tabela Periódica</i> e <i>Vírgula </i>a ironia, os cortes inesperados, as aproximações insólitas, as imagens originais, o ritmo irregular e contundentemente marcado &#8211; também não encontraremos&nbsp; na obra infantil um autor ameno e edulcorado. Não mesmo. <i>Safira </i>não é só um bom livro para crianças: talvez esteja entre os melhores já escritos e publicados no Espírito Santo – e aí a chave, quem sabe, para sua boa acolhida de público e crítica, desde a primeira edição, em 1991.<br />
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A obra não nega a inerente natureza formativa presente em toda obra para crianças – conforme já pontuado por estudiosos como Peter Hunt, na Inglaterra, ou Regina Zilberman, no Brasil –, contudo, não dá aos leitores, nem mesmo os pequenos, o trabalho pronto e acabado. Ensina, porque não moraliza – e saímos encantados com Safira porque ela pode ser tão ruim e tão boa quanto qualquer um de nós. É preciso que quem se disponha a ler disponha-se, igualmente, a participar da produção de sentidos que cooperem no processo formativo característico da literatura para crianças.<br />
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O narrador em terceira pessoa, em movimento complementar com as imagens produzidas por Mara Perpétua, já na primeira página, nos apresenta a Caneta Safira, como &#8220;magra e bonita&#8221;; na situação inicial, ficamos sabendo que ela, um dia, rompeu com sua praxe e acordou tarde, restando pensativa e cheia de perguntas. Está dada ao leitor a pista para aquilo que talvez encontre paralelo em toda grande narrativa: quando se faz uma fissura – mesmo que mínima – no ordinário, no habitual, no cotidiano é que se apresenta uma situação que nos obriga à problematização de tudo quanto restava assente, apaziguado, tranquilo.<br />
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Nas páginas seguintes, a narrativa vai espargindo elementos que permitam a identificação do leitor infantil com a protagonista: ela também não sabe escrever, era nova e estava aprendendo e, tal como qualquer criança, ao tentar produzir seus primeiros traços, só encontra a si mesma refletida no espelho. Outro elemento que propicia a provável identificação do leitor infantil com Safira é seu egocentrismo, já que ela se julga superior aos demais e rechaça aqueles que não lhe dão a importância que ela supõe ter. O leitor infantil, se capturar algo das ações da caneta Safira algo daquilo queé próprio do processo de reinvenção de si mesmo (ou seja, a detecção de uma visão ingênua e sua superação, a partir do embate com o Outro), pode ir realizando, no processo de apropriação do texto literário, a dupla natureza da literatura. De um lado, um mergulho na dimensão eminentemente subjetiva, pessoal, individual da existência; de outro, uma opção pela compreensão ampliada do mundo e pela inserção na vida social, via reflexão crítica e via ações de transformação da realidade.<br />
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Quando Safira se dispõe a considerar aqueles que atravessam seu caminho (como fez com o papel, seu amigo), a ser generosa (como foi com a almofada, a quem doa a coroa), a aprender com o outro (como ocorre quando a formiga foge sem explicação) é aí que pode, enfim, crescer. E esse processo de crescimento permite que ela aprenda que pode escolher aqueles a quem quer perto de si – não porque é arrogante e não julga aos demais bons o suficiente, mas porque tem o direito de se preservar (como o faz quando o mosquito sinaliza que quer &#8220;sugar&#8221; o seu &#8220;sangue azul&#8221;).<br />
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No entanto, como qualquer possível leitor, Safira tem seus altos e baixos &#8211; o que torna o livro e a personagem ainda mais &#8220;humanos&#8221;. Pouco adiante, na narrativa, resolve afastar-se de uma flor muito perfumada, porque, numa recaída de arrogância, continua supondo que seu sangue azul é melhor que a qualidade dos demais seres com os quais partilha a existência. E – por pura insegurança – desenha uma borracha, para apagar um gesto terno do lápis. No entanto, mais uma vez, o Outro (no caso, a borracha, que se recusa a participar do plano da caneta azul) ensina à Safira que, às vezes, a única atitude sensata é ficar &#8220;pálida de arrependimento&#8221;, e mudar de atitude.<br />
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Pouco a pouco, a caneta Safira vai aprendendo que as pessoas têm suas fraquezas e diferenças o sangue não é só azul, é também vermelho&#8230;), e que precisamos, sempre, do Outro, que nos signifique, que nos ajude a produzir sentidona existência &#8211; um tinteiro que reponha nossa carga, quando nos sentimos vazios por dentro. Vai aprendendo, também, quando o tinteiro tropeça e mancha tudo de azul, que não adianta a gente cruzar os braços diante do inesperado: o negócio é compreender que o acaso pode ser o pontapé de um céu estrelado.<br />
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Por fim, Safira aprende a lição mais bonita: a única coisa boa de ter sangue azul é poder grafar, em si mesmo, em tudo o que nos embala, enfim, no mundo, as palavras que dão sentido à nossa vida. No caso de Safira, em gesto de rebeldia, o que ela escreve escondido de sua mãe no lençol, para ter sempre consigo, foi a palavra &#8220;amigo&#8221;.<br />
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Todas essas ilações, da parte de quem lê, são um trabalho de mergulho no texto em busca daquilo que, para o leitor, é o sentido possível, já que a construção do texto reitera a marca do insólito, do inesperado e do alegórico que atravessa todo o restante da produção literária do autor. E é desse modo que o livro de Sérgio Blank nos emociona e nos convida ao pensamento – enfim, fazendo aquilo que de melhor um livro para crianças pode fazer: nos tornar mais humanos, no sentidomais azul (e agora sim: mais nobre) que a palavra pode ter.</p>
<p>
[Por Maria Amélia Dalvi in Caderno Pensar &#8211; <i>A Gazeta</i>, 12/12/15]</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2015&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
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