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	<title>Arquivos Miguel Marvilla &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Miguel Marvilla &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Reinaldo Santos Neves: Sonetos da Despaixão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 17:53:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Fez frio em Vitória mês de junho. Só que dia 21, data da abertura oficial da temporada de inverno, deixou de fazer frio e fez calor. Ou seja: até isso pode acontecer em Vitória: o inverno começar de mãos dadas com o verão (para desgosto de amantes da friagem, como eu e os irmãos Ivan [&#8230;]</p>
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Fez frio em Vitória mês de junho. Só que dia 21, data da abertura oficial da temporada de inverno, deixou de fazer frio e fez calor. Ou seja: até isso pode acontecer em Vitória: o inverno começar de mãos dadas com o verão (para desgosto de amantes da friagem, como eu e os irmãos Ivan e Ivantir Borgo).</p>
<p>Detalhes climatológicos à parte, este morno inverno trouxe consigo nada menos que quatro livros de poesia da melhor qualidade.</p>
<p>Um. Gilbert Chaudanne promoveu a reedição — ilustrada por ele mesmo, <i>comme il faut</i> — dos <i>Cânticos noturnos</i>, de Audífax de Amorim, poeta que inaugurou, de sola, com pé direito, e <i>quae sera tamen</i>, a poesia modernista em terras do Espírito Santo.</p>
<p>Dois. Valdo Motta trouxe de São Paulo, onde foi editado com o selo requintado da Unicamp, seu livro <i>Bundo</i> e outros poemas, que representa mais uma fase da trajetória desse poeta por excelência em sua busca de um graal altamente personalizado.</p>
<p>Três. Sérgio Blank lançou o seu Vírgula. Mesmo sem folha de rosto (engolida por engano durante o processo de montagem na gráfica, além de outras barbaridades, para justíssima indignação de Joca Simonetti, responsável pelo primoroso projeto gráfico), o livro contém dezesseis poemas que consolidam o nome de Blank na vanguarda avançada (com perdão da redundância) da nossa poesia.</p>
<p>E agora — quatro — é Miguel Marvilla que põe na roda os seus <i>Sonetos da despaixão</i>.</p>
<p>Miguel vem cheio de nove horas, como é o seu estilo. Pra começar, inventou uma editora virtual — Flor &amp; Cultura — com marca (criada por Mara Perpétua) que parece um enxerto de flor e de pé e me remete, num piscar d’olhos, ao pôster do filme <i>Meu pé esquerdo</i> e isso é, eu digo, acreditem, um elogio.</p>
<p>Além disso, Miguel continua achando que o poema só por si não é o bastante. Daí a sua mania de adereçá-lo com tudo quanto é ornamento, na forma de epígrafes, dedicatórias e datas de fabricação — penduricalhos que, a meu ver, só poluem o entorno — com perdão da má (má só? — péssima!) palavra — do poema. Entre as epígrafes, aliás, merece registro aquela assinada por um certo Deus, isso mesmo, é assim que está lá, sem sobrenome (a menos que Deus seja sobrenome; nesse caso falta o nome de batismo), autor que não encontrei em nenhuma história da literatura mundial que consultei.</p>
<p>Falando sério, ou quase, o que Miguel Marvilla faz nesse livro é mostrar com quantos versos se faz um soneto. Longe, muito longe, de chover no molhado, como milhares de sonetistas de ontem e de sempre, que fazem sonetos com catorze versos, Miguel faz diferente: faz sonetos com catorze versos. Ora, direis: não é a mesma coisa? É e não é. Acaso Jorge Luis Borges não já demonstrou, como queria demonstrar, que é possível produzir um <i>Dom Quixote</i> totalmente novo e inovado reescrevendo palavra por palavra a obra-prima de Cervantes? Pois então. É por aí. Verso de soneto de Miguel Marvilla não tem a mesma tessitura, o mesmo quilate, a mesma gramatura, o mesmo peso atômico que o verso do comum dos sonetistas. São catorze? São. Mas seu valor intrínseco se estima filatelicamente: tão filatelicamente como se estima, deixa ver um exemplo — como se estima um olho-de-boi.</p>
<p>Ademais, enquanto uma legião de poetas está aí escrevendo em vernáculo, Miguel Marvilla, ao contrário, escreve em vernáculo. Ora, direis, outra vez: não é a mesma coisa? Claro que não. Para usar da expressão mais simples, direi que o vernáculo daqueles poetas é o mesmo do tabelião: só permite uma leitura e olhe lá. No caso de Miguel, o seu vernáculo confere ao poema o poder caleidoscópico de admitir um porrilhão de leituras diferentes e sobretudo — repito: sobretudo — contraditórias. Cada verso se derrame, para parafrasear achado do próprio poeta em questão, num abismo de sinônimos.</p>
<p>Outra diferença fundamental entre o poeta, digamos, menor e um poeta como Miguel tem a ver com a temática de um e de outro. Aquele trata do ser humano e dos meandros de sua mente e de sua alma, tendo como um dos assuntos preferenciais, naturalmente, o amor. Já um poeta como Miguel trata do ser humano e dos meandros de sua mente e de sua alma, tendo como um dos assuntos preferenciais, naturalmente, o amor.</p>
<p>Terceira vez, ora, direis: não é a mesmissíssima temática? É e não é. A reação do poeta menor diante, por exemplo, do amor é pavloviana: vêm-lhe à mente todos os lugares-comuns — conceituais, imagéticos, vocabulares — que fazem parte do inconsciente poético coletivo e é com esses lugares mais que comuns, sem nenhum tratamento de choque, que ele vai compor o seu poema. Já um poeta como Miguel, diante, por exemplo, do amor, vê uma colcha de mistérios. Parte, então, em seus poemas, para mostrar que nenhum desses mistérios se presta à vulgaridade do esclarecimento. Esclarecer mistérios é tarefa da ciência; à poesia cabe, sim, desdobrá-los em mais mistérios.</p>
<p>Para encerrar. Miguel Marvilla é poeta que trabalha com o indizível. Ousa, em seus poemas, não só dizer o indizível mas, assim que o tenha dito, desdizê-lo categoricamente. E, nesse diz-que-desdiz, produz poemas como estes que aqui estão.</p>
<p>
[In Revista <i>Você</i> nº 41, de agosto de 1996, seção Escrivaninha. Os poemas reproduzidos na revista são os de nº III, IV e X.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b>&nbsp;é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>Andréia Delmaschio: Enfim, o precipício</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 17:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Andréia Delmaschio]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O poeta não morreu: foi ao Inferno e voltou. (Frejat — Dulce Quental) “Todas as noites o jovem pescador lançava a rede ao mar. Quando soprava o vento de terra, não apanhava nada, ou muito pouco; quando o vento soprava para a praia, os peixes subiam das profundezas e caíam na rede. Ele os vendia [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p></p>
<div style="text-align: right;">
O poeta não morreu: foi ao Inferno e voltou.</div>
<div style="text-align: right;">
(<i>Frejat</i> — Dulce Quental)</div>
<p>“Todas as noites o jovem pescador lançava a rede ao mar. Quando soprava o vento de terra, não apanhava nada, ou muito pouco; quando o vento soprava para a praia, os peixes subiam das profundezas e caíam na rede. Ele os vendia a bom preço no mercado”. Assim se inicia “O pescador e sua alma”, conto de Oscar Wilde em que um rapaz se apaixona por uma sereia e, para tornar-se imortal — condição para poder se unir a ela — dispensa sua alma, recortando com uma faca, na areia da praia, a própria sombra, símbolo da ligação com o mundo dos vivos. A mesma simbologia aparece na<i> Divina Comédia</i>, quando Dante percebe que Virgílio não possui sombra, entendendo-o, a partir de então, como pertencente a uma outra realidade, aquela de após-vida.</p>
<p>A lembrança desses dois textos me surge em meio à leitura de <i>Dédalo</i>, livro do poeta capixaba Miguel Marvilla, onde também se encontra um sujeito que busca, e cuja aventura existencial se perfaz entre a vida e a morte, na experiência da ausência, da perda, do nada. Os poemas que aparecerão adiante, retirados de “Personae” — primeira parte do livro —, vão do verso livre ao soneto e são repletos de símbolos e imagens, trazendo por vezes os hipérbatos e a cuidada rima; por outras o mito, as quadras e o coloquial, numa prova da versatilidade desse autor no manejo de temas e formas.</p>
<p>“A minha alma, partida”, poema que abre essa primeira parte, anuncia já um duplo: um eu naufraga “n’um mar de pensamentos” enquanto vê afastar-se sua alma “por uma alameda de sombras inclementes”. Ele é ameaçado por uma cisão que, não obstante, parece saber impossível: a “alma” que segue envereda também pelo caminho das lembranças — “inventadas” embora — que é o destino do próprio sujeito, além de que inicia o texto uma sugestão de feminino — “a minha alma, partida“, parte que ameaça se conjugar, no último verso, com “um homem ido” (grifos meus), formando uma unidade — ainda que temporária — que é, supostamente, o tesouro; melhor se diz: o ouro em pó reluzente em busca do qual o sujeito segue e, ao mesmo tempo, o cerne da obra e o que permite a ela acontecer.</p>
<p>Assim como o sujeito é duplicado, o poema “Eu me fiz ao léu” é todo fragmentado em dísticos. Ele dispensa um tradicional componente externo da personalidade — o chapéu —, mais a simbólica sombra referida anteriormente, para mergulhar à procura da própria criação (apropriadamente dúbia): “Eu me fiz ao léu,/ sem sombra ou chapéu”. Há nesse poema, entre parênteses, uns versos que lembram aqueles populares, de que as crianças gostam: “a gente é fraco/ cai no buraco/ o buraco é fundo/ acabou-se o mundo”. Os versos de Marvilla entoam: “(Mar é muito grande:/ some a gente antes/ que se diga ‘amém,/ Jesus’)”. É patente o medo de uma possível aproximação do mar — as plagas do inconsciente? A opção, ao contrário, é pelo rio, “ravina ou coxia”, estes não representando perigo, pela sua rasidão — razãoconsciente?</p>
<p>Outros elementos ainda permeiam o texto como referências à parcela inconsciente: “o escuro”, as “florestas”, “recados ou pistas”, “lembranças”, são todos caminhos obscuros que ameaçam com a possibilidade de um encontro inusitado. Curioso é que, no que parece ser a fuga do próprio inconsciente, o sujeito termina entregue a um turbilhão que também o guia, fazendo-o seguir… inconscientemente, jamais abandonando a aventura em que se lança. Embora “só tomando o rumo do que não é escuro”, escolhendo, aparentemente, “o esperado”, “o certo”, ainda assim o sujeito estará agindo como que impulsionado por uma força incontrolável. Fugindo do inconsciente, no receio de flagrar-se, é exatamente por ele que é guiado. Ao final, ele se reconhece “de volta ao princípio,/ fechando este círculo,/ um desconhecido/ para o próprio umbigo”, mas que, de qualquer forma, cumpriu um ciclo, se fez, ainda que “ao léu”, ou seja, pelo caminho da fragmentação.</p>
<p>O verso que intitula o poema “Tudo era por minha causa” reproduz um reclame infantil — “Tudo é por minha causa!” — geralmente carregado de um sentimento de culpa e de revolta. O verso abre as três primeiras estrofes, repetindo-se com a mesma insistência com que a expressão costuma surgir na fala cotidiana. É como se, no início de cada estrofe, o sujeito fosse momentaneamente tomado do espírito da criança que fora um dia, travestindo-se juntamente o próprio discurso, que já no segundo verso de cada estrofe volta a representar a fala adulta e culta. Há, no fim da terceira estrofe, uma quebra temporal e sensorial: “Era pra ser assim a vida inteira. / Mas eu vim em direção a este outro futuro”. O tempo, a memória, a transformação desses elementos em matéria para o próprio fazer artístico podem bem representar o cerne deste poema e desta parte do livro. Juntamente com a descoberta da expressão poética, a descoberta do eu. O sujeito se liberta de um possível futuro e encaminha-se a um outro: “Eu fugi em direção a mim, destino”. Ainda que intuitiva ou inconscientemente, caminha ao seu próprio encontro através da poesia, trazendo para isso apenas as lembranças, que afinal constroem a ele e à obra: “Mas eu vim…/ um casaco apertado que mal me cobria os cotovelos”, no reconhecimento das marcas deixadas pelas perdas, pela ausência, pelo “não-sido”: “E deixarei saber de novo/ que a minha primeira namorada/ não era um porquinho-da-índia/ e se chamava Beatriz,/ mas que meu primeiro beijo/ eu até hoje não sei”.</p>
<p>Do mesmo modo como o sujeito do poema vai se construindo a partir de presenças e ausências, unem-se o desejo e a culpa; passado, presente e futuro: “não tenho culpa de ser culpado por estar aqui”; “agora, amanhã, levanto-me”. O texto é repleto de contradições, e delas é feito o sujeito. Mesmo sua auto-afirmação: “eu<br />
eu<br />
eu<br />
eu<br />
a duas letras de Deus”</p>
<p>se dá graças a uma negação: “que eu seria o não-sido”, “com não-malas, não-heranças/ não-cartas de apresentação” e, curiosamente, a linha que traça em direção à divindade é descendente. Paradoxalmente, o sujeito desce em direção a Deus, por meio da experiência negativa, da ausência, da inexistência, da morte…</p>
<p>Novamente se dá a experiência da negação e da impossibilidade do total controle, que é também a experiência da morte: “… acharam que eu voltaria à tona satisfeito/ com meu cadáver fartamente irreconhecível/ este cadáver que nem escolhi”. A morte forma uma antítese à experiência do corriqueiro, infantil e cotidiano anteriormente expresso. Os advérbios que se ligam à ideia de podridão e morte exprimem também abundância: “meu cadáver fartamente irreconhecível/ sobejamente podre” (grifos meus). Pela força que têm essas últimas imagens, aquele que ressurge é muito mais o resultado da danação, da morte e da negação — experiência verdadeiramente positiva na sua negatividade —, que daquele cotidiano expresso anteriormente pelas imagens feitas do vazio típico daquilo que flui, como “uns pedaços de sombra”, “a imensidão das horas”, “um tempo de estar escondido em lacunas”. A experiência negativa é densa e mais significativa para a construção do ser que a corriqueira leveza.</p>
<p>O mesmo tempo — implacável mensageiro diário da destruição — surge mais adiante como “O cupim” que “mergulha em meu livro de Fernando Pessoa/ até o fundo de mim”. A ligação com a poesia — e o pensar — daquele autor se mostra íntima a ponto de o substantivo situar-se dubiamente entre dois possessivos: “meu livro de Fernando Pessoa” (grifos meus), formalizando a relação autor-leitor em torno da obra. O tempo-cupim que atravessa aquela obra (de Pessoa) e aquele autor encontra-se, no presente, com a sensibilidade do leitor-sujeito do poema de Marvilla, que dá início à nova relação, agora como autor. Nesse poema realiza-se uma inusitada reversão de sentidos, porque anuncia-se que tudo aquilo que o tempo destrói, paradoxalmente, não tem fim, repetindo-se em outro exemplar: “O cupim,/ em sua fome,/ destrói/ a celulose e o homem,/ a cola, o corante,/ o amante,/ e não tem fim”. A enumeração realizada ali induz a englobar todos esses elementos — tão diversos entre si —, juntamente com o tempo, como sujeitos da negação final. Apenas ele — o sujeito do poema — e Pessoa, têm fim, porque só a persona é irrepetível, una — o nome do poeta português reforçando essa relação. Através da imagem do cupim, “que não decifra, mas devora”, perverte-se o senso comum e o tempo agora doa imortalidade ao vulgar, ao serial, destruindo, redundantemente, a única coisa que por si mesma não se poderá reproduzir, a que jamais terá réplica.</p>
<p>O sujeito segue seu caminho por entre consciência e inconsciência, passado e presente, vida e morte, sem a intenção de solucionar qualquer dos pares de oposição, trazendo-os, ao contrário, conjuntamente para a formação de uma persona complexa. Como um Dédalo que, envolto num labiríntico cotidiano massacrante, busca “um adorno que seja para os (seus) dias” através do voo poético — “o mais leve movimento” —, ameaçado, embora, com o único futuro certo — a morte —, e por esse mesmo destino sendo tentado ao investimento na construção de si: “quando os silêncios de onde nunca estive/… / me dizem o verbo morrer/ … / arranca lascas/ da estrutura que me protege e embala”. A certeza do fim impõe uma realização qualquer, a necessidade de salvar aquele momento dando-lhe uma significação: “Abro claros no turvo e caudaloso esquecimento (…). Este instante é aqui”. É na observação do detalhe e no contraste entre opostos que inicia sua busca: “desvendo em meio à neblina um pormenor/ Cristal e ônix…”. A partir de então, esse Dédalo meio Ícaro ascende “olhando (seus) sapatos pendura<br />
dos”.</p>
<p>O voo alçado deve mantê-lo suspenso, no exato meio-termo da significação, sem aproximá-lo demasiado do sol, o que seria, ao mesmo tempo, culminância e destruição — o cumprimento de uma etapa é sempre o seu aniquilamento — e sem arriscar a queda, que se daria “sobre o canyon”. Estão representados ali o trabalho cuidadoso com a palavra e a suspensão em que ela se mantém. “Mas, no enfim, tudo me leva ao precipício“. O verso final condensa, nos vocábulos destacados, pela aproximação sonora, o fim e o princípio, na mostra sutil de que o término surge sempre como anúncio do novo, no movimento infinito da busca.</p>
<p>
[Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Andréia Delmaschio</b>&nbsp;nasceu em Vitória, Espírito Santo, em 20 de abril de 1969. É escritora, professora e pesquisadora. Graduou-se em Letras na Universidade Federal do Espírito Santo (1991), onde realizou também o Mestrado em Estudos Literários (2000), cujas pesquisas resultaram no livro&nbsp;<i>Do palco ao porão: uma leitura de Um copo de cólera, de Raduan Nassar</i>, publicado em 2004 pela editora Annabume (São Paulo).&nbsp;<i>A máquina de escrever (de) Chico Buarque</i>&nbsp;foi sua tese de doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É autora do livro de contos&nbsp;<i>Mortos vivos</i>&nbsp;(2008), em que apresenta seus primeiros escritos (ficcionais) sobre Chico Buarque. Publicou ensaios sobre as obras de Hoffmann, Rosa, Nasar, Noll e Manuel de Barros, entre outros.</p>
<div>
</div>
</blockquote>
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		<title>Oscar Gama Filho: A despaixão de Dédalo</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 17:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Oscar Gama Filho]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em Dédalo e Sonetos da despaixão, ambos da Florecultura Editores, Miguel Marvilla demonstra que ocupa um lugar peculiar e sui generis na poesia nacional: o de terremoto subterrâneo. Passa a representar, portanto, todo o primeiro mundo, ele, primeiro poeta de um continente perdido por nós — o do sentimento técnico-poético quintessencial. Pois como podem terremotos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Em <i>Dédalo </i>e <i>Sonetos da despaixão</i>, ambos da Florecultura Editores, Miguel Marvilla demonstra que ocupa um lugar peculiar e sui generis na poesia nacional: o de terremoto subterrâneo. Passa a representar, portanto, todo o primeiro mundo, ele, primeiro poeta de um continente perdido por nós — o do sentimento técnico-poético quintessencial.</p>
<p>Pois como podem terremotos que se expõem tão aos sentidos da vista, do tato, da audição, do gosto e da fala, fálica, como podem terremotos quintessentes em direção ao sexto sentido; como podem eles não ser percebidos pelo Espírito Santo-Brasil mais insensível à cultura e à poesia que já tivemos o desprazer de conhecer?</p>
<p>Mas quem se expõe se opõe, como ele, um revolucionário permanente que não perdoa nem a si mesmo, pois se dedica o pior de seu cortante sarcasmo e da sua amargura. Porém a esperança é o melhor que se poder ler e é a única leitura possível no inconsciente reprimido de seus versos contra a sua atitude de lutar por estar vivo e não ter nada de melhor ou de mais belo para fazer na realidade, além de poemar-se.</p>
<p>Porque esta missão de visão ele realiza, segundo as normas de Rimbaud, tornando-se vidente porque o poeta se torna vidente pelo completo “desregramento de todos os sentidos”— e não sejamos avaros: leiamos sentidos em todos os sentidos duplos em quarteto.</p>
<p>Da desgraçada despaixão dedálica, a graça, uma angústia silenciosa, discreta e orgulhosa — ainda que extrovertida — se torna verso de uma originalidade ímpar e mais-que-perfeito-genial.</p>
<p>Boa parte do que escreve foi feito por nós — em pensamento de fôrma de letras e de versos, antes de o serem — parceirosamente, em algum lugar em que definimos nossas normas como existente no espaço entre o fim dos limites do universo e o nada. A recíproca é verdadeira. Ali, ouvintes atentos dos Sininhos das poeiras estelares, compusemos as normas mentais que, de tanto não nos alcançarem, tomaram forma em corrida de cores em prol da brancura enegrorcida que as contém.</p>
<p>Ave, Miguel, os que vão morrer te saúdam! Tu és imortal como tua obra. Mas onde estão as neves emocionais das damas de outrora? Bem que eu te disse que era fria!…</p>
<p>As coisas têm uma equação de palavras. Ninguém pensa além da linguagem. Se nós descobrirmos, como Miguel em suas obras, qual é a equação mais impossível de palavras das coisas, nós teremos a palavra perfeita que abre todas as portas, chave-mestra atrás de que está todo poeta — e teremos todas as coisas. Por trás dela, reflexo em decúbito no espelho, a beleza mostra, nos seus versos, a soma que conduz à perfeição.</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><br /></b></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Oscar Gama Filho&nbsp;</b>é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/oscar-gama-filho-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/oscar-gama-filho-despaixao-de-dedalo/">Oscar Gama Filho: A despaixão de Dédalo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Depoimento de Miguel Marvilla: De profundis (Por que não?)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 17:12:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Wilberth Salgueiro]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>É o diabo tentar falar assim, de cara lavada e em corpo 12, sobre o quem fui, quem sou, um sujeito/personagem que não se considera à altura de tal autor, de tal leitor. Mas vamos ahead, quae sera tamen, mais tamen do que quae sera, o que quer o que pode esse cara chamado Bith, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
É o diabo tentar falar assim, de cara lavada e em corpo 12, sobre o quem fui, quem sou, um sujeito/personagem que não se considera à altura de tal autor, de tal leitor. Mas vamos <i>ahead, quae sera tamen</i>, mais <i>tamen </i>do que <i>quae </i>sera, o que quer o que pode esse cara chamado Bith, que organizou esse seminário e me impôs expor-me à língua cúpida de nossas meias dúzias de leitores cada, que esse negócio de literatura nunca mereceu mesmo muita atenção por parte do distinto grande público cá por essas bandas. E ainda bem.</p>
<p>Devo confessar que minhas leituras iniciais já me conduziam ao caminho que agora trilho com razoáveis serenidade e segurança (notaram a concordância, que bonita?). Antes de desaguar, impávido colosso, nos braços de Shakespeare, Bernard Shaw e Joyce (No original! No original! — graças ao Mário); dos românticos ingleses (graças à Aurélia) e de Edward Albee, Arthur Miller e Tennessee Williams (graças ao Carrozzo), pois, antes disso, eu já estava impregnado de Umberto Eco, Fernando Pessoa, Camões, Günter Grass, Machado de Assis, José J. Veiga, Drummond, Gilberto Mendonça Teles (o poeta) e arredores.</p>
<p>Mas meus dois autores favoritos de adolescente, os que me puseram no, ahn, digamos assim, caminho da boa literatura, foram (que Borges, que nada!) Marcial Lafuente (M.L.) Stefania e… sabe que esqueci o nome do outro? Agora, que os livros dele tinham uma heroína formidável, e isso é o que importa, lá isso tinham: Brigitte Montfort, filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Perdi a conta das vezes que me escondi debaixo do lençol, imaginando-me um daqueles espiões russos (eu sempre gostei de ser do mal) que ela seduzia com seu corpo sedento, seus olhos verdes, sua boca molhada… quantas vezes eu quis possuir um segredo atômico qualquer só pra ser perseguido por Brigitte Montfort, com aquelas coxas grossas, que, ao final, terminaria por usar, depois de abusar sexualmente de mim, para quebrar meu pescoço, com uma torção absolutamente precisa. Que época! Foi assim, sob a influência de Brigitte Montfort, aliciadora de minhas fantasias adolescentes, que descobri minha atriz favorita, logo que a censura foi defenestrada (“pela janela”, diria um amigo meu, todo cheio de pleonasmo): Georgina Spelvin. Aos cultores daqueles inteligentíssimos filmes tchecos e franceses, permito-me lembrar que se trata de uma atriz americana, protagonista de O diabo na carne de Mrs. Jones (co-estrelado por John Holmes, eu acho) e — um <i>cult</i>! — Garganta Profunda. Por este último, aliás, tal o grau de realismo que imprimiu ao seu personagem, ela deveria ter ganhado um Oscar (Frances McDormand não ganhou, só por ficar repetindo “yeah!”, em <i>Fargo</i>, com aquela cara da <i>Família Buscapé</i> dos hillbilllies americanos?).</p>
<p>Tá bom, voltando à vaca frígida, eu confesso. Minha primeira vez foi aos 6, 7 anos, mas acho que nem a idade me redime de ter lido então <i>As aventuras de Tibicuera</i>. E onde é que entra a tão ansiosamente aguardada parte de “construção” do poeta? Aí é que está. Não entra. Deixo isso aos meus biógrafos, se houverem (o plural foi de propósito, só pra chatear). Tomara que nenhum deles me pegue vivo. Eu sei lá do poeta, mas lembro bem de um professor de Geografia, desse eu me lembro, por duas razões: uma, que me livraria de uma prova final chatíssima, sobre aspectos geológicos sabe Deus de onde, se eu fosse capaz de dizer as capitais de uns tantos países esquisitos que ele escolheria aleatoriamente. Isso era no dia seguinte e, por conta de ter passado a noite em cima de um atlas velho e ensebado, é que sei até hoje que a capital do Laos é Luang Prabang. Pára de ler este parágrafo e pergunta a alguém aí do lado se sabe qual a capital do Laos. Ou do Chade. Duvido. Ninguém mais sabe. E a segunda coisa é que, um dia, o Ozílio Rubim (é o nome do professor), enquanto eu olhava distraído para o meu futuro pela janela da casa dele na avenida Santo Antônio, me joga nos braços um livro e diz: “Lê. Você vai gostar.” Que livro? Nada menos que <i>Cem anos de solidão</i>. Ele jogou uma obra-prima da literatura aos pés dos meus 14 anos. Te devo essa, Ozílio. Este talvez tenha sido o acontecimento mais importante da minha adolescência, exceto, talvez, o fato de ter testemunhado Jorge Reis, goleiro do Rio Branco, bater o recorde (eu prefiro record, mas vá lá que seja recorde) mundial de tempo sem tomar gol: 1.609 minutos invicto.</p>
<p>Pois é. O título (do livro, não do Rio Branco) me fascinou, a primeira frase me fascinou, as ilustrações de Carybé; o realismo fantástico me pegou no colo, me jogou na parede, me chamou de meu amor. Não consegui nunca mais desgrudar um olho desse tamanho de qualquer lugar onde vejo escritas as palavras mágicas Gabriel García Márquez. Se eu tivesse que plagiar um livro… se alguém, um conselho, tiver que plagiar um livro, ou parte de, que seja esse <i>Cem anos de solidão</i>, qualquer coisa menos não vale o esforço, meu bem. E pega mal.</p>
<p>Daí pra frente é mole. Quem se apaixona por García Márquez aos 14 anos não consegue ficar só olhando, impassível, para o Saara de uma folha em branco, tem que mergulhar nas dunas, sentir o sol, a areia nos olhos, na boca, nos dentes, e ficar frustrado com a imensidão intransponível, mais ou menos como o gato do Reinaldo [Santos Neves] que, ao se deparar com as dunas de Itaúnas, pensou que nem se vivesse eternamente conseguiria cagar o suficiente para usar aquele areal todo.</p>
<p>Depois de GGM, por linhas tortas, conheci o Oscar [Gama Filho] (acho tão chiques esses colchetes!). Ele estava experimentando uma linguagem poética meio maluca, mas tremendamente inovadora para o local (Vitória) e a época (fins de 78), baseado em estudos sérios (o Oscar sempre levou a literatura a sério, talvez um pouco a sério demais, em alguns momentos) sobre o <i>stream of consciousness</i> de James Joyce e Virginia Woolf. Enquanto Vitória nos olhava com espanto, sem entender nada (às vezes nem nós mesmos entendíamos, eu acho que), colhíamos um elogiozinho do Drummond aqui, de Jorge Amado ali (mas esse é suspeito), do Gilberto Mendonça Teles adiante, e sentávamos praça com Reinaldo Santos Neves, José Augusto Carvalho, Renato Pacheco, Marcos Tavares e Luiz Busatto no Grupo e na Revista <i>Letra </i>(sem esquecer do Luiz Guilherme Santos Neves, o membro de fora do Grupo).</p>
<p>Assim, como quem não quer nada, fui-me construindo, sem léu nem chapéu, este que excessivamente assim sou, já li isso em algum lugar. Deve ter sido em <i>Dédalo</i>, meu último livro. Ah, sim. Os meus livros.</p>
<p>Comecei plagiando e declamando uns poemas de Kipling no programa policial <i>Ronda da Cidade</i>, apresentado pelo então radialista Gérson Camata, vocês sabem, o marido da deputada Rita Camata (parece que ele também foi eleito pra alguma coisa aí), o qual, por não entender lhufas de literatura, nem desconfiava de que eu roubava aqueles poemas do <i>Tesouro da Juventude</i>, que lia aos borbotões na Biblioteca Pública da PMV, em tardes de nunca mais. Camata não entendia de literatura, mas logo, logo, arrumou um jeitinho de ficar rico, enquanto eu continuo ralando (e tendo dúvidas sobre se sei algo do assunto).</p>
<p>Depois disso, escrevi meus próprios poemas. Três livros vieram em mimeógrafo: <i>De amor à política</i> (o livro, acreditem, é bem melhor que o título), com Oscar Gama Filho;<i> A fuga e o vento</i> e <i>Exercício do corpo</i>, que uma garota uma vez me perguntou se se tratava de um manual de Educação Física. Aí, o Reinaldo, pra meu azar, era editor da FCAA/Ufes e se recusava terminantemente a publicar os amigos mais chegados, com medo de ser acusado de alguma espécie de sacanagem. De modo que precisei de uma menção honrosa em concurso para publicar <i>Os mortos estão no living (contos)</i>. Para publicar os poemas de <i>Lição de Labirinto</i>, então, precisei vencer o concurso.</p>
<p>Então, que o espaço tá ficando curto, escrevi <i>Tanto Amar</i>, um livro com só l4 poemas falando sobre a paixão, meu tema de sempre favorito, que a Vera Viana, na Secretaria de Cultura da PMV, abençoada por Vítor Buaiz, publicou, junto com a CEF. Foi lançado em 91. Naquele ano, conheci uma mulher, ao redor da qual circulei, embevecido, apatetado, os próximos quase 5 anos, até que, em princípios de 96, o bom senso dela prevaleceu pela primeira vez e ela me deixou, o que me obrigou a voltar a escrever – para exorcizar meus fantasmas (pra me “imolar em público”, disse o Adilson Vilaça).</p>
<p>Ela me rendeu, ao menos isso, um livro: <i>Sonetos da despaixão</i>, que inaugurou, em julho, a minha editora, Flor &amp; Cultura, logo seguido, em novembro, por <i>Dédalo</i>. A tal mulher? Dela nada mais sei nem me seja perguntado. Que a neve de Munique lhe seja leve.</p>
<p><i>In </i>a <i>nutshell</i>, isso que era pra ser uma tomada de posição diante da literatura já virou um esboço de autobiografia. Mas literatura pra mim é oração sem sujeito nem objeto. Mal, mal, cabe aí uma interjeição atualmente. Tamos num vale-tudo desgraçado e eu é que vou ficar queimando pestana com isso? Neca de núncaras. Vou é parar de fazer o pé-de-alferes a essa senhora dama inacessível chamada palavra, dar-lhe umas bordoadas pra ela ver quem é que manda, como sugere o Luís Fernando Veríssimo, e pôr-me ao fresco, que eu quero mesmo é ir ver o <i>Hale-Bopp</i> todas as noites, às 18:32, senão, só daqui a 4.000 anos e eu não sei se estarei acordado até lá.</p>
<p>
[In revista <i>Você</i>, nº 45, de maio de 1997. O depoimento faz parte de um conjunto de textos organizado pelo Prof. Wilberth Salgueiro, da Ufes, e intitulado “A poesia-perto e o punctum capixaba”. Reprodução autorizada.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira</b>&nbsp;nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/miguel-marvilla-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
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		<title>Poemas selecionados do livro Dédalo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 17:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>CONDENADOS Eu venho de junto aos deserdados e vou para onde os homens tíbios. Ao redor de mim vão, apartados, os meus sonhos (alegres ou escusos), condenados, inocentes, ao oblívio de flores nascidas sobre os túmulos. EU, VINDO DE UM INSTANTE Eu, vindo de um instante ainda não havido, e vendo as coisas completarem sua [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
CONDENADOS</p>
<p>
Eu venho de junto aos deserdados<br />
e vou para onde os homens tíbios.<br />
Ao redor de mim vão, apartados,<br />
os meus sonhos (alegres ou escusos),<br />
condenados, inocentes, ao oblívio<br />
de flores nascidas sobre os túmulos.</p>
<p>EU, VINDO DE UM INSTANTE</p>
<p>
Eu, vindo de um instante<br />
ainda não havido,<br />
e vendo as coisas completarem sua ausência<br />
e as coisas ausentes como deveriam ter sido<br />
e a vida correndo sem protestar<br />
em seu curso de pedra,<br />
urdindo apenas<br />
silêncio e musgo;<br />
eu, na ânsia de usar meus pensamentos<br />
e, percebendo que Deus já havia desistido<br />
— ou não tinha tempo —<br />
de se ocupar do meu destino:</p>
<p>eu disse, meio a esmo,<br />
meio pra quebrar o gelo,<br />
meio pra criar um vínculo<br />
comigo:</p>
<p>“eu também vou. Pra onde mesmo?”</p>
<p>HERANÇA PORTUGUESA</p>
<p>
Minha alma está povoada<br />
com uma herança portuguesa,<br />
estruturada em secretas<br />
perspectivas de nada<br />
roubadas a algum poeta.</p>
<p>Não fosse tanto tão pouco,<br />
minha alma, estando apensa<br />
aos recônditos e às penas<br />
de alguém que já fosse outros,<br />
deixa-me a sós neste corpo.</p>
<p>Deixa-me com mim mesmo,<br />
minha alma que aqui cresceu:<br />
tudo nela era projeto<br />
de olhares, timbres, desejos,<br />
de um que jamais fui eu.</p>
<p>DÉDALO: ASA OU SOL</p>
<p>
Quando busco o mais leve movimento na sombra,<br />
um adorno que seja para os meus dias<br />
cortados em fatias<br />
pegajosas de limites e bile;</p>
<p>quando os silêncios de onde nunca estive<br />
(ou estive e não me lembro)<br />
e o sangue de quem amei<br />
(ou jamais amei e não me lembro)<br />
me dizem o verbo morrer<br />
e o lamento, então, das mulheres —<br />
finalmente sossegadas em seus homens cotidianos —<br />
arranca lascas<br />
da estrutura que me protege e embala;</p>
<p>quando tudo reclama sentido<br />
(um bater de desejos,<br />
uma palavra esquecida com displicência<br />
sobre a pia do banheiro<br />
ou entre os bibelôs de cristal e ônix),<br />
desvendo em meio à neblina um pormenor,<br />
abro claros no turvo e caudaloso esquecimento<br />
que vigora no âmbito de mim.</p>
<p>Este instante é aqui.</p>
<p>Então, não mais que depressa, colho um vínculo<br />
qualquer com a névoa ao meu redor e fico ilhado<br />
no ar, olhando meus sapatos pendura<br />
dos<br />
— eu dentro ainda — na margem do abismo.</p>
<p>Assim estou, em um onde que não sei,<br />
atado, em frágil teia,<br />
ao voo sobre o canyon,<br />
uma parte em querendo a asa<br />
e outra buscando o sol.</p>
<p>A qual dos meus destinos dou ouvidos?<br />
A qual dou por vencido?<br />
A qual me rendo?</p>
<p>Livrar-me de um quem sou, por um momento,<br />
pode apagar o risco<br />
da vingança de mim contra mim mesmo.</p>
<p>Mas, no enfim, tudo me leva ao precipício.</p>
<p>ÍCARO: A QUEDA EM MIM</p>
<p>
Era tanto voar, tanta amplidão,<br />
soltando-se das asas distraídas;<br />
era tanto azul em pensamentos<br />
de alcançarmos o céu, que nos perdemos.</p>
<p>Fosse lá o que fosse o firmamento<br />
ultra-humano que se abria sobre o sermos<br />
os dois partes então de uma mesma<br />
ideia — e seja lá com que vontades</p>
<p>nos movêssemos nos altos deste mar,<br />
terminamos, ao fim, capturados<br />
pelos deuses de baixo, pois havendo</p>
<p>mais forte do que nós, filho, esta imensa<br />
tua queda do sol, meus sonhos foram<br />
ao cemitério marinho com teu corpo.</p>
<p>DO PONTO MAIS DISTANTE NA FLORESTA</p>
<div style="text-align: right;">
para Cláudia Bravim</div>
<p>
Do ponto mais distante na floresta<br />
de asas e desejos que freqüentas<br />
à hora em que te despes, meio a esmo,<br />
aproveitando as brumas de um soneto;</p>
<p>dos rastos nos escombros de poemas<br />
erigidos às portas do teu nome<br />
à substância sombra, que te acolhe<br />
num tempo sem saída e te represa,</p>
<p>o meu amor está nos arredores,<br />
nas coisas que te servem de moldura —<br />
e a elas me condeno: amar, insone,</p>
<p>ao largo do teu corpo, que transmuda<br />
o tudo quanto vejo em tua imagem,<br />
daqui até o futuro é o que me cabe.</p>
<p>QUEM VÊ DO AMOR</p>
<p>
Quem vê do amor só a mítica textura<br />
e deixa aos deuses serem responsáveis<br />
por da boca bobagens obscuras<br />
alçarem vôo rumo a um céu de salves<br />
e queridas, rainhas, aves, aves;</p>
<p>quem pensa no amor como num rio<br />
em que toda gente, à bolina,<br />
há de trafegar, reta e segura,<br />
como num quintal as estações<br />
e a certeza das frutas que virão;</p>
<p>conhece apenas dele poucas quadras,<br />
pois amor, além disso, é um inferno,<br />
arrabaldes sem fim de areia e sol,<br />
galerias de dunas intrincadas,<br />
aonde vai-se com só a própria sombra<br />
e o resto na entrada se abandona.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Dédalo.&nbsp;</i>1996; segunda edição, 2001. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira</b>&nbsp;nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/miguel-marvilla-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p></blockquote>
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		<title>Poemas selecionados do livro Sonetos da despaixão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 16:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>II O coração contempla, indiferente, os rastos de alguns sonhos no papel, os pensamentos líquidos da gente, que a alma, distraída, esquece ao léu. Os dias de lembrar mal terminaram e, agora que esquecer já começou, com seu ritmo cheio de fantasmas (e isso há de ser assim todas as noites), o coração, calando, não [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
II</p>
<p>
O coração contempla, indiferente,<br />
os rastos de alguns sonhos no papel,<br />
os pensamentos líquidos da gente,<br />
que a alma, distraída, esquece ao léu.</p>
<p>Os dias de lembrar mal terminaram<br />
e, agora que esquecer já começou,<br />
com seu ritmo cheio de fantasmas<br />
(e isso há de ser assim todas as noites),</p>
<p>o coração, calando, não consente<br />
que as vagas de lembranças interditem<br />
as margens de nossa alma não escritas.</p>
<p>É que ele teme verdadeiramente<br />
o abismo sem sinônimos que existe<br />
por trás de cada pena revivida.</p>
<p>IV</p>
<p>
Os fantasmas se queimam, como queimam<br />
uns lembrarmos de partir sem deixar pistas.<br />
Mas começa a meia-noite e estar aqui<br />
não é um pouco sinal de desistir?</p>
<p>Quem passou pela rua nesta hora,<br />
fosse homem, bicho, árvore ou poeira,<br />
teve medo de entrar, ficou de fora,<br />
deu no pé, passou ao largo, e a verdadeira</p>
<p>essência do que houve, ignorada,<br />
isenta de versões desencontradas,<br />
foi ficando como está, recém-havida:</p>
<p>um olhar, que foge ao frio e se aproxima<br />
do braseiro da memória, não consegue<br />
se livrar, e permanece, permanece.</p>
<p>IX</p>
<div style="text-align: right;">
<i>Gloria victis.</i></div>
<p>
Nem sombra mais de antigas fantasias,<br />
nem fogos de artifício em teus umbrais;<br />
apenas no silêncio se apagando<br />
teu rosto exato, teus risos imortais.</p>
<p>Por isso é que, talvez, já desfrutados<br />
o tempo hábil e a conjectura rara,<br />
eu teça agora um ritmo de escombros:<br />
é para que te sirva de mortalha.</p>
<p>Dos sonhos de viagens oceânicas,<br />
do louco imaginar-me em tua alma,<br />
nem réstia mais de gosto — tudo engano:</p>
<p>além da pele era o deserto,<br />
além desse deserto era tão o nada,<br />
que apenas com calar-me eu te disperso.</p>
<p>XIII</p>
<p>
Das vertentes douradas do teu canto,<br />
a lâmina da voz umedecida<br />
não voltasse ao ponto de partida,<br />
e ficasse no ar com seus arranjos.</p>
<p>Chovesse, e logo se desmancharia<br />
a pronúncia das vogais e dos teus erres<br />
em silêncios propagados através<br />
deste outono sem paz e sem medidas.</p>
<p>Onde mais germinassem, sustenidos,<br />
teus solfejos, trinados e suspiros<br />
e o que mais revelasse do fracasso</p>
<p>das palavras esta solidão: tão fácil<br />
era estares sumida na sintaxe<br />
do teu canto vazio, que me afasto.</p>
<p>
[In &nbsp;<i>Sonetos da despaixão.&nbsp;</i>1996. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira</b>&nbsp;nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/miguel-marvilla-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
<div>
</div>
<div>
</div>
</blockquote>
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		<item>
		<title>Poemas selecionados do livro Tanto amar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 16:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O OUTRO HOMEM DA MULHER QUE AMO “Eu você ele somos um.” Mária Santos Neves. O outro homem da mulher que amo, há nele as minhas marcas que são dela e sempre encontro indícios dele quando ela se despe e se abre e posso tê-la. No corpo dela, o gotejar freqüente de nós, formando sulcos, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
O OUTRO HOMEM DA MULHER QUE AMO</p>
<p></p>
<div style="text-align: right;">
“Eu você ele somos um.”</div>
<div style="text-align: right;">
Mária Santos Neves.</div>
<p>
O outro homem da mulher que amo,<br />
há nele as minhas marcas que são dela<br />
e sempre encontro indícios dele quando<br />
ela se despe e se abre e posso tê-la.<br />
No corpo dela, o gotejar freqüente<br />
de nós, formando sulcos, vias, trilhas,<br />
dentro da noite em que ela se oferece,<br />
não deixa que nos sobre alternativa:<br />
eu sigo os mapas dele, acrescentando<br />
ao já sabido as minhas descobertas,<br />
e ele me segue na mulher que amamos.<br />
Pois tanta variante há no caminho<br />
que — ou dois ou nada — um de nós apenas<br />
não vai sobreviver nela sozinho.</p>
<p>ROMANCE CONFESSO</p>
<div style="text-align: right;">
Para Luciane F.</div>
<p>
(Fechado entre parênteses, confesso<br />
o meu romance, o meu romance aberto<br />
e incesto: no abismo de mim pra migo,<br />
sou todo nós — plúribo e uno em grau superlativo.<br />
Sou persona, pensamento, gesto e verbo.<br />
E Deus que não intente em seus desígnios<br />
forjar-se à minha imagem e semelhança,<br />
pois meu romance, este sou eu, confesso,<br />
entreouvidovisto, parentético,<br />
farto de enigmas, termos intrigantes,<br />
me vindo à tona, fruto de um invento<br />
de ti pra tigo — ad perpetuam rei memoriam.)</p>
<p>E AGORA EM DESCONCERTO ME PERGUNTO</p>
<p>
E agora em desconcerto me pergunto<br />
Onde estou. Vou ver quem sou, volto mais mudo.<br />
Ao silêncio, então, me exponho e, novamente<br />
sucumbido à solidão, calmo, entredentes,<br />
vejo a luz que interrompia as persianas,<br />
ouço a música dos corpos que eu tocava,<br />
lembro os gestos de uma busca alucinada<br />
do prazer que se antevia neles. Tantas,<br />
tantas vezes, porém, encontrei Lias<br />
disfarçadas entre as formas de Adrianas,<br />
cada qual plantada em sua própria ilha,<br />
que, por último, eu assim que me esqueci<br />
de encontrar-me e, a cada instante que passava,<br />
fiquei nelas — eu assim que me perdi.</p>
<p>TEUS OLHOS, COMBINANDO COM A CAMISA</p>
<p></p>
<div style="text-align: right;">
Para Edivania</div>
<p>
Teus olhos, combinando com a camisa,<br />
são réstias, na verdade, de um intento<br />
em tons de luz — molduras de um enigma<br />
que te resume e, assim, te muitifica.<br />
Ao longo da tua pele arrepiada,<br />
a chuva que te cerca é a mais ativa<br />
das formas de defesa que, encantada,<br />
correste a procurar contra a investida<br />
dos anjos, que aos homens (e é notória<br />
a tua parceria com a libido)<br />
não podes te furtar, por proibido.<br />
É então que, encurralada nas esquinas<br />
da tarde irreparável da memória,<br />
nós te alcançamos — mas ficas longe ainda.</p>
<p>
[In <i>Tanto amar.&nbsp;</i>1991. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira</b>&nbsp;nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/miguel-marvilla-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
<div>
</div>
</blockquote>
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		<title>Poemas selecionados do livro Lição de labirinto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 16:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O REMANESCENTE Encontrar a mesma casa no mesmo ângulo do silêncio, sem adágios ou quês de mosca, chama-se surpresa. Achar a mesma varanda esquecida de verbos incrustada na mesma pose de véspera de natal, chama-se surpresa. Deparar com o mesmo crime, sujo do mesmo sangue, pendurado na mesma cadeira, no mesmo canto da sala, após [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
O REMANESCENTE</p>
<p>
Encontrar a mesma casa<br />
no mesmo ângulo do silêncio,<br />
sem adágios ou quês de mosca,<br />
chama-se surpresa.</p>
<p>Achar a mesma varanda<br />
esquecida de verbos<br />
incrustada na mesma pose<br />
de véspera de natal,<br />
chama-se surpresa.</p>
<p>Deparar com o mesmo crime,<br />
sujo do mesmo sangue,<br />
pendurado na mesma cadeira,<br />
no mesmo canto da sala,<br />
após tanto tempo sem memória,<br />
chama-se surpresa.</p>
<p>E a mesma atmosfera<br />
de funções sombrias<br />
passeando o ambiente dos quartos,<br />
após tanto tempo sem visitas,<br />
chama-se surpresa.</p>
<p>Preparei-me para esta lembrança:<br />
limpei os pés,<br />
lavei as mãos,<br />
engomei a melhor camisa<br />
e evitei vincos desproporcionais nas calças.<br />
Mas, ainda assim,<br />
encontrar a mesma porta aberta<br />
e os mesmos detalhes em teu corpo e amor,<br />
após tanto tempo sem minúcias,<br />
chama-se pavor.</p>
<p>SÔNIA, FOTOGRAFIA AOS 15 ANOS</p>
<p>
Onde o olhar que foge?<br />
Onde?</p>
<p>Puxa a perna,<br />
esconde a pele.<br />
Repete o ritual de célula<br />
que não mostra, mas sugere.</p>
<p>Mas: como tanto?</p>
<p>E: seio proposto<br />
(mais que isso, predisposto)<br />
a nascer,<br />
mergulhado ainda na tenra carne do peito,<br />
alvura ártica do tórax;<br />
nave sem timoneiro,<br />
rumo indefinido,<br />
tudo está propício ao teu erotismo,<br />
ao teu prazer primeiro.</p>
<p>Rasgo esta pele clara<br />
sobre teu púbis fotográfico<br />
e, zoom,<br />
daqui a pouco serás lua,<br />
perpétua<br />
capa de neon do mundo.<br />
(Tomar sal de frutas<br />
para o acaso da lucidez.)</p>
<p>Mas rasgo esta memória<br />
que te protege,<br />
bravo, breve<br />
— em slow motion —<br />
Em troca: sorvete<br />
de cerejas.</p>
<p>Silêncio.<br />
Calma.<br />
A objetiva nos contempla<br />
com seu olhar eletrônico,<br />
ciclope tecnológico,<br />
instante único de eternidade.</p>
<p>(Puxa a perna,<br />
disfarça o corpo<br />
em algo pouco<br />
conhecido,<br />
escapa à luz e à gravidade:</p>
<p>nem tudo está perdido,<br />
nem tudo será tarde.)</p>
<p>LIÇÃO DE LABIRINTO</p>
<p></p>
<div style="text-align: right;">
Para Nilza Maria</div>
<p>Um segredo, como nódoa, no teu olho<br />
indormido e, em não ter medo, intransitivo;<br />
um silêncio, tão em ti completamente,<br />
alugado ao teu prazer e aos teus motivos;</p>
<p>movimento: teus cabelos envolvidos<br />
em que saibas de onde há vento ou girassóis;<br />
algo estranho; uma alma breve, repetida<br />
repetida<br />
entre as tantas que conjugam teus lençóis:</p>
<p>é assim — um instante tão antigo —<br />
que me cobras algum crime mal lembrado.<br />
E, ainda que me lance ao teu alcance</p>
<p>com perícia em fugir ao teu abraço,<br />
fecho o laço que me prende. Então, aprendo<br />
uma nova lição de labirinto.</p>
<p>CANÇÃO DO HOMEM</p>
<p>
1. O homem desabitado</p>
<p>Há um homem apartado<br />
de todos os seus sentimentos,<br />
do qual se extraiu o gel<br />
e onde só restou o aço;</p>
<p>há um homem sem lágrimas,<br />
seco,<br />
rude,<br />
áspero,<br />
prosperando pelas ruas;</p>
<p>há um homem do qual podaram as asas,<br />
para quem o infinito já não é possível;</p>
<p>há um homem desabitado,<br />
inóspito,<br />
sem cor,<br />
acordado no auge do abismo.</p>
<p>2. Re-conhecimento</p>
<p>Uma cobra, e não um braço,<br />
se desenrola de mim.<br />
E tudo que ainda faço<br />
termina por ter, assim,<br />
o frio sabor do asco.</p>
<p>3. Teu homem</p>
<p>Eis que ressurge o homem,<br />
apinhado de vergonhas,<br />
prenhe de clareza,<br />
à procura de ti.</p>
<p>Eis aqui o teu homem insone,<br />
carne cedendo ao mais leve toque,<br />
pele que se escama à menor brisa.</p>
<p>Ei-lo aqui e já se (ex) vai.<br />
Foste parca para acomodá-lo.<br />
És fraca para detê-lo, e tarde.</p>
<p>Eis, então, o teu homem que fenece.<br />
Tudo em ti lhe foi negado.</p>
<p>Mas, em verdade, é o teu homem,<br />
meio matéria,<br />
aparentemente imutável,<br />
este no sempre do espelho.</p>
<p>4. Reflexão</p>
<p>E isso a que chamam espelho<br />
— a julgar as aparências —<br />
será só a superfície<br />
sem entre do refletido?</p>
<p>O CUPIM</p>
<p>
O cupim<br />
mergulha em meu livro de Fernando Pessoa<br />
até o fundo de mim.</p>
<p>Corrói folha por folha<br />
e a emoção — esta capa usada<br />
que me ficou de sobra.</p>
<p>Trabalha concentrado em seu túnel de papel<br />
— labirinto de palavras<br />
que não decifra, mas devora.</p>
<p>Corrói os English Poems<br />
e nunca termina<br />
sua corrosão térmita.<br />
Em Epithalamium, cada letra,<br />
indecente,<br />
lhe serve de teta,<br />
noivo recente.)</p>
<p>O cupim, em sua fome,<br />
destrói<br />
a celulose e o homem,<br />
a cola, o corante,<br />
o amante,<br />
e não tem fim.</p>
<p>Eu e Pessoa, sim.</p>
<p>ESPARTA</p>
<p>
Não nos precipitemos.<br />
Oh, não nos precipitemos.<br />
Dia virá em que teremos símbolos novos<br />
e caras novas a esbofetear.</p>
<p>Não nos precipitemos à lama que nos espera.<br />
Saibamos ter paciência,<br />
que as horas são justas<br />
e dia haverá para que ressurjamos.</p>
<p>Não nos precipitemos.<br />
Oh, não nos precipitemos,<br />
que a vida é oblíqua<br />
e a surpresa se esconde nas esquinas.</p>
<p>Não nos precipitemos aos ladrões,<br />
nem aos lábios, nem aos sentimentos.</p>
<p>Saibamos aguardar o momento de matar.<br />
Saibamos sorrir exatos,<br />
tirar retratos,<br />
esconder os esconjuros e as pragas<br />
para o instante de derrubar o tabuleiro dos jogos.</p>
<p>Não nos precipitemos às emoções.<br />
Oh, tenhamos calma.<br />
Aguardemos a curvadura do rio<br />
e a instabilidade do timoneiro.</p>
<p>Não nos precipitemos ao amor,<br />
que há os que mentem os olhos.<br />
Nem à solidão,<br />
que o silêncio tem dois motivos.<br />
Nem à guerra,<br />
que ainda somos perecíveis.</p>
<p>Não nos precipitemos.<br />
Oh, não nos precipitemos ao mar<br />
como uma leva de porcos possessos<br />
ou como um bando de crianças em férias.<br />
Tenhamos cuidados com essas<br />
e com suas mães bronzeadas<br />
e paciência para assassiná-las.</p>
<p>(O tempo é profícuo de oportunidades.)</p>
<p>Não nos joguemos aos poços por desencanto.<br />
Abdiquemos, sim, de nossas utopias<br />
em benefício do metro e do quilo,<br />
mas também não nos enforquemos de descarinho,<br />
que o amor tem várias ocasiões<br />
e, debaixo de cada ser, um abismo de desconcertos.</p>
<p>Temos todo o tempo do mundo.<br />
Tiremos, pois, férias de nós.</p>
<p>Escondamo-nos de nossos próprios pensamentos<br />
(oh, como é pesado este ar!)<br />
e aguardemos o instante de extraditá-los.<br />
(Somos largos,<br />
pois bem, somos largos.)</p>
<p>Não nos lamentemos.<br />
Aguardemos a vingança.</p>
<p>Saboreemos o doce fel da morte certa do inimigo.<br />
Reconheçamos seu valor,<br />
mas não nos estreitemos em seus braços,<br />
a não ser para esfaqueá-lo.<br />
Aplaudamos suas vitórias (temporárias),<br />
mas não façamos odes às batalhas perdidas,<br />
a não ser para reavivar a dor de sabê-las perdidas.<br />
Baixemos os olhos quando ele (o inimigo) nos falar,<br />
mas não deitemos olores agradáveis sobre o seu corpo,<br />
a não ser para prepará-lo à sepultura.</p>
<p>Não tenhamos pressa.<br />
Afiemos nossas presas<br />
para lhe despedaçarmos a jugular.</p>
<p>Não.<br />
Não.<br />
Nunca nos suicidemos,<br />
Tampouco nos alistemos nas fileiras contrárias.<br />
Temos de manter nossa honra e nossa bile bem acesas,<br />
mas não nos precipitemos<br />
(oh, não nos precipitemos):<br />
o dia é tão vário de becos e esquivas<br />
que hora virá<br />
em que não mais lamentaremos nossos mortos,<br />
pela lembrança de os havermos vingado.</p>
<p>Mas, oh, não tenhamos pressa.<br />
Acautelemo-nos de nós,<br />
que pensamos rápido e agimos em fotografia.<br />
Busquemos o espaço mais exíguo<br />
para nos escondermos de nós.<br />
Cuidemos de esconder nossos olhos,<br />
pois que é preciso ter certeza de sentir<br />
para agir com precisão.</p>
<p>Conscientizemo-nos de nossas decisões<br />
e abandonemos as fontes de nossos arrependimentos.<br />
Contritemo-nos no que planejamos<br />
e sejamos saudáveis e suaves no matar.</p>
<p>Espreitemos. Por enquanto, espreitemos, apenas.<br />
Teremos nossa parte no grande bolo do universo.<br />
O que nos cabe nos cabe.<br />
O que não nos cabe é inócuo e nocivo<br />
e a hora é farta para uns e outros.</p>
<p>Não nos precipitemos.<br />
Oh, não nos precipitemos nem à gula nem ao jejum.<br />
Teçamos nossas confidências às paredes<br />
ou aos bichos de estimação,<br />
mas, antes, certifiquemo-nos<br />
de que não nos possam trair.</p>
<p>Não nos esqueçamos de nossos óculos<br />
sobre o móvel de cabeceira,<br />
nem larguemos nossas memórias ao acaso dos cupins,<br />
nem cedamos nossos corpos a experimentos.<br />
(Não nos cabe ser cobaias.<br />
São para isso os fracos.)</p>
<p>Levemos conosco nossa sede,<br />
mesmo que nos oceanos.<br />
Entreguemos uns aos outros,<br />
que sofremos do mesmo mal coletivo,<br />
nossas feridas,<br />
mas nossas doenças particulares, que sejam só nossas,<br />
mesmo que não tenhamos como pensá-las.<br />
(Aos que — ainda — sofrem de mal-du-siècle<br />
resta tomar alguma coisa<br />
— uma aspirina ou poesia, tanto faz.)</p>
<p>Arrastemos nosso câncer,<br />
nossa gangrena,<br />
nosso lirismo,<br />
onde tenhamos lugar,<br />
para que não nos corram atrás<br />
como a devolver um objeto perdido.<br />
Evitemos os bailes de colegiais<br />
e as festas de formatura.<br />
Detenhamo-nos apenas em criar<br />
com o que nos levantarmos.<br />
O supérfluo e o cáustico abandonemos,<br />
para que tenhamos a fome certa na hora exata.<br />
(É preciso pesar todas as grandes coisas pormenores.)</p>
<p>Não nos precipitemos.<br />
Sobretudo, é necessário cuidar em que nosso rancor<br />
não nos incrimine antes do tempo.</p>
<p>E, chegando a vez de afirmar, que neguemos.<br />
Mil vezes é preciso negar.<br />
Negar o pão.<br />
Negar a mão.<br />
Negar o não.</p>
<p>É preciso redundarmo-nos em fatos<br />
da nossa pré-história,<br />
desconversar,<br />
desvencilhar,<br />
tossir,<br />
gaguejar,<br />
intimistar,<br />
mutismar,<br />
e, por fim, desprezar a diplomacia e os subornos,<br />
que está chegada a hora de renascer<br />
e temos de estar vivos (para matar).</p>
<p>Mas não nos precipitemos:<br />
é necessário que o golpe seja franco e definido,<br />
porque só devemos portar uma arma.</p>
<p>Não nos precipitemos,<br />
porque não podemos falhar.</p>
<p>Tenhamos na pele nosso cheiro e nossas cores normais<br />
e no corpo nosso sangue habitual,<br />
por mais que queime em nossos pulmões.</p>
<p>Somos aríetes dos novos símbolos,<br />
bandeiras da nova era.<br />
Tenhamos calma:<br />
eis que o inimigo também se acautelou.</p>
<p>Recapitulemos nosso equilíbrio.<br />
Sejamos frios,<br />
inalteráveis,<br />
ermos,<br />
para que não nos esqueçamos<br />
de resumir sua presença<br />
à nossa decadência.</p>
<p>Não nos precipitemos.<br />
Oh, não nos precipitemos.<br />
Não nos precipitemos.<br />
Não nos precipitemos.<br />
Deus está conosco,<br />
conosco,<br />
conosco,<br />
:<br />
matemos!</p>
<p>IDADE</p>
<p>
Esta idade sem razões aparentes,<br />
sem asco e sem acidez,<br />
sem euforias nem tristezas,<br />
com ausência de festa;<br />
esta idade intermediária, de confronto mudo<br />
entre o que sou e o que não pude ser;<br />
este silêncio, que nenhum canhão ou mosca interrompe,<br />
nem mesmo é o silêncio que antecede as catástrofes,<br />
mas apenas o limbo<br />
onde me defronto comigo<br />
— meu inimigo.</p>
<p>Apenas o misterioso pântano que percorro<br />
à caça de mim,<br />
a jângal que me esconde<br />
e resiste às minhas investidas.</p>
<p>Ah,<br />
esta idade absurda, em que não há<br />
poesia — boa ou má —<br />
que brote de mim;<br />
esta idade sem tréguas nem retorno,<br />
com fundo de lodo e corpo de teia,<br />
viscosa e invertebrada,<br />
dela sou prisioneiro.</p>
<p>A mim, que a fiz fruto do meu corpo calcinado;<br />
a mim, que a erigi com barro e suor;<br />
é a mim que ela apresa<br />
com seu manto protetor.</p>
<p>ÚTERO</p>
<p>
E quem passar por aqui<br />
não é de ouro nem nuvem:<br />
é homem — é de vidro.</p>
<p>E quem passar por aqui<br />
é vidro — e por ser de corpo<br />
está sujeito ao abismo.</p>
<p>E quem passar por aqui<br />
não ouse, nem grite: a vida,<br />
então, é toda de vidro.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Lição de labirinto.&nbsp;</i>Fundação Ceciliano Abel de Almeida/Ufes, 1989.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira</b>&nbsp;nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/miguel-marvilla-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
<div>
</div>
</blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/poemas-selecionados-do-livro-licao-de/">Poemas selecionados do livro Lição de labirinto</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Poemas selecionados do livro Exercício do corpo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/poemas-selecionados-do-livro-exercicio/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 16:37:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>AQUELA COISA INTRÍNSECA devolve a minha derme: a noite vive e, pública — vivendo —, ainda fere o largo da memória — via estreita, onde trafego em alma, estranho e inerme. conserva a minha derme: a noite gira e eis que — em girando — a tudo adere: à lâmina que sangra; ao gesto que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
AQUELA COISA INTRÍNSECA</p>
<p>
devolve a minha derme: a noite vive<br />
e, pública — vivendo —, ainda fere<br />
o largo da memória — via estreita,<br />
onde trafego em alma, estranho e inerme.</p>
<p>conserva a minha derme: a noite gira<br />
e eis que — em girando — a tudo adere:<br />
à lâmina que sangra; ao gesto que persiste;<br />
ao que resiste ao aço<br />
— e cede ao gel.</p>
<p>as coisas já são outras. ouve as casas<br />
brilharem no quintal, com voz de cor.<br />
é bom que seja assim — mercê do dia —</p>
<p>reter a nossa vida, que anda solta.<br />
a noite vai voltar, e a fantasia.<br />
devolve a minha derme, ou qualquer outra.</p>
<p>POEMA ALUNADO</p>
<p>
A Nilza “Polenta” Del Pupo</p>
<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; a lua que extra<br />
vasa a noite<br />
sem clara<br />
idade<br />
redunda em nós<br />
feito ferida aberta ao relento<br />
e em seus poros de são jorge<br />
o sangue da luz se dispersa<br />
aos nossos corpos de embriões</p>
<p>(a lua que bóia<br />
em ar de etéreos e estrelas<br />
não possui reticências<br />
mas a solidariedade da pausa<br />
onde se inscrevem nossos olhos)</p>
<p>e no crepom de nossa pele<br />
quando o breu se desgasta<br />
nossas almas de aprendizes<br />
formaram um lago<br />
de suor e êxtase</p>
<p>BUCÓLICA</p>
<p>
as mulheres escancaram as portas<br />
e a lua passa<br />
em ritmo de valsa</p>
<p>as mulheres apagam as casas<br />
e varrem cada<br />
riso para<br />
a varanda</p>
<p>(tenho a imagem velada<br />
de pássaro nu<br />
na<br />
madrugada<br />
sumarenta<br />
de vento<br />
sul)</p>
<p>a noite é uma prostiputa<br />
onde cada grau centígrado<br />
pode ser um motivo novo<br />
para escancarar as pernas</p>
<p>RETRATO</p>
<p>
madrugada descerrando a paisagem<br />
assim teu corpo</p>
<p>tuas coxas claras<br />
feito um bicho<br />
carente de mato</p>
<p>teu lábio e teu olho<br />
crianças mudas<br />
sem abrigo nas horas</p>
<p>assim o teu corpo<br />
líquido<br />
tuas narinas urgentes<br />
e teus peitos indomáveis (:) madrugada<br />
descobrindo a paisagem<br />
de concreto</p>
<p>SIMPLES</p>
<p>
a madrugada se coagulou em nossa pele<br />
e tingiu de brisa nosso suor<br />
então nos comungamos<br />
e num arroubo de lirismo<br />
te roubei um poema de manuel bandeira</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Exercício do corpo.</i>&nbsp;Edição mimeografada, 1981. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira</b>&nbsp;nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/miguel-marvilla-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
<div>
</div>
</blockquote>
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		<title>Poemas selecionados do livro A fuga e o vento</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 16:36:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Miguel Marvilla]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O AFOGADO DO MEU SONHO o meu corpo estampa a alma errada. minha alma certa foi sonhar e deixou no lugar esta afogada. quero que quero ser paisagem na clara bóia da tua retina, mas, habitante constante de uma única miragem, permaneço, inconfundível, palhaço. que o meu corpo também foi sonhar e deixou no meu [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
O AFOGADO DO MEU SONHO</p>
<p>
o meu corpo estampa a alma errada.<br />
minha alma certa foi sonhar<br />
e deixou no lugar<br />
esta afogada.</p>
<p>quero que quero ser paisagem<br />
na clara bóia da tua retina,<br />
mas, habitante<br />
constante<br />
de uma única miragem,<br />
permaneço, inconfundível,<br />
palhaço.</p>
<p>que o meu corpo também foi sonhar<br />
e deixou no meu lugar<br />
este afogado.</p>
<p>FOCO</p>
<p>
alimento<br />
a nitidez<br />
fato a fato<br />
mês a mês<br />
alimento<br />
fato a fato<br />
a whxnitideez<br />
alimento<br />
mês a mês<br />
a ztknyiqtideeszssz<br />
fato a fato<br />
alimento<br />
mês a mês<br />
a ztkfjlmynyivvxqtwiydeeusz<br />
mês a mês<br />
alimento<br />
fato a fato<br />
a<br />
?</p>
<p>SEM DISCUSSÃO</p>
<p>
gosto<br />
desse gosto<br />
de sexo<br />
fixo<br />
em seu vestido</p>
<p>gosto<br />
dessa lembrança<br />
de riso<br />
em seus cabelos</p>
<p>gosto<br />
da sua boca<br />
mastigando<br />
macarrão</p>
<p>e gosto<br />
da sua coluna vertebral</p>
<p>SINTÉTICA<br />
o amor bulindo o peito: refutar.<br />
o poema é seu destino.</p>
<p>(este calarfrio é um som<br />
que se propaga na carne<br />
e o corpo diz: ai!)</p>
<p>NÁUSEA</p>
<p>
enjoa-me a paisagem do quarto<br />
perfeita e inútil dos meus gestos</p>
<p>ozumbidoininterruptodoespanto<br />
e o silêncio das fotografias sem pretérito<br />
contra as molduras de cupins<br />
enjoam-me<br />
enjoam-me<br />
como o claustro<br />
(não ver as tardes escorrendo das coisas)<br />
e a família<br />
— fantasmas da casa</p>
<p>(em cada réstia-hóstia<br />
de nossa memória<br />
um rato naufraga sem tempo<br />
indeciso entre a amnésia e o vômito)</p>
<p>minha vida é composta de ratos</p>
<p>mantenho-a<br />
como se fosse uma facada<br />
— mo<br />
vida<br />
a<br />
bile</p>
<p>CANTO SENIL</p>
<p>
de tanto uso<br />
minhas horas estão gastas<br />
e o que nos prende ao outro<br />
não tarda em apodrecer</p>
<p>o século passou-me sorrateiro<br />
como a luxúria<br />
as conspirações<br />
e as crises de esterilidade</p>
<p>o século cumpriu seu tempo<br />
a tempo de me velar</p>
<p>o século é um velho irratorquível<br />
e de tanto uso<br />
todos os meus sentimentos estão gastos</p>
<p>não tardo a apodrecer</p>
<p>GRAVATA</p>
<p>
dagmar não aperte o meu pescoço<br />
nem despregue os botões da minha calça<br />
nem me perdoe se sou pesado e frouxo<br />
nem coroe com seu pesar o meu fracasso</p>
<p>(se já não posso elucidar os seus mistérios<br />
em que pese elidir-me à sua pele<br />
se meu plasma circundado está de germes<br />
se meu sêmen enfraquecido faz-me estéril<br />
quem sou eu que já não possa ser de vermes<br />
coberto embora guardado em terra santa?<br />
que já não possa ter meu verso pelos cantos<br />
também cansado sem mais poder refazer-se?)</p>
<p>mas dagmar não aperte o meu pescoço<br />
que a vivência que lhe trago é muito longa<br />
e o pouco tempo que me resta a desfiá-la<br />
tome-o então como prêmio ao teu esforço</p>
<p>(que não sejam porém minhas feridas<br />
encharcadas de sua bile multicor<br />
se depois do meu silêncio as horas mortas<br />
forem herança ao seu prazer repartida)</p>
<p>porque agora só me resta caminhar<br />
não me culpe que sou pesado e frouxo<br />
se quiser faça-me ainda um seu escravo<br />
mas não aperte o meu pescoço dagmar</p>
<p>SE FALTAREM POEMAS</p>
<div style="text-align: right;">
A Oscar Gama Filho</div>
<p>Situação de medo e voragem:<br />
estou a calar a lágrima<br />
entre a carne afoita.</p>
<p>Simbólico preço, o do eufemismo<br />
bucólico (causa e pavor):<br />
situação de plaina e geografia.</p>
<p>Refaz-se a peregrinação da palavra.</p>
<p>Divisas estereotipadas, / o caos se move /<br />
a passos de jogral. / Passagem dos calos /<br />
e a rigidez. /</p>
<p>Solução das palavras:<br />
dos calos geográficos<br />
ressurgem gemidos.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>A fuga e o vento, e</i>dição mimeografada, 1980. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Miguel Arcanjo Marvilla de Oliveira</b>&nbsp;nasceu em Marataízes, ES, em 29 de setembro de 1959 e faleceu em Vitória, em 2009. Mudou-se com os pais para Vitória em 1964. Poeta, concluiu em 1996 o curso de graduação em Letras-Inglês na Ufes e cursou o mestrado em História na mesma universidade. Publicou diversos livros. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/miguel-marvilla-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
<div>
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