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	<title>Arquivos Neples &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<title>Arquivos Neples &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Depoimento de Luiz Busatto ao Neples</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 19:10:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Busatto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Depois que nasci em Acióli fui transferido para o norte de Colatina, com quatro meses de idade. Meu pai começou vida em Nova Itália, atual Novo Brasil, em 1938. Despertei para o mundo em meio à mata atlântica. Macacos, papagaios, onças, toda raça de bichos e pássaros, todo o rumor da floresta foram meus primeiros [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Depois que nasci em Acióli fui transferido para o norte de Colatina, com quatro meses de idade. Meu pai começou vida em Nova Itália, atual Novo Brasil, em 1938. Despertei para o mundo em meio à mata atlântica. Macacos, papagaios, onças, toda raça de bichos e pássaros, todo o rumor da floresta foram meus primeiros encantos. Com a morte do pai, antes de completar quatro anos, minha mãe retomou a Acióli. Vivia mais com os avós paternos e maternos do que em casa da minha mãe, por motivos óbvios. Eram famílias grandes e abastadas para a época, ao menos pela ótica de criança. Só fui alfabetizado depois dos oito anos pela professora Olga Iolanda Raizer. Era 1945, ano em que terminou a segunda guerra mundial. Em Acióli fiz a primeira e a segunda série primária. Para sobreviver de costura, minha mãe mudou-se para Colatina em 1947. Aí as professoras acharam conveniente que eu repetisse a segunda série no Grupo Escolar Aristides Freire. No dia 1 de janeiro de 1949 entrei para o seminário de Anchieta. Com dois meses de permanência fui premiado e transferido para o Colégio Anchieta de Nova Friburgo pelo meu aproveitamento nos estudos. Tinha só a terceira série primária. Fiquei oito anos interno em Nova Friburgo onde fiz todo o ginásio e o curso clássico. Com dezenove anos entrei para a ordem religiosa da Companhia de Jesus, jesuítas, onde permaneci mais doze anos, sempre estudando.</p>
<p>As lembranças da terra natal são as melhores possíveis. Na infância todas as coisas têm uma outra dimensão. O tempo é enorme, mas as cenas se gravam na memória de tal forma que nunca consegui errar a respeito delas. Primeiro foi a morte do pai, mordido de cobra, no norte de Colatina, depois a vida em Acióli. Nossa casa ficava na frente da estrada de ferro Vitória Minas. O progresso marcava presença com as atividades da Companhia Vale do Rio Doce. A vila regurgitava ao redor da estação e da igreja local. Só corri risco de vida uma vez quando minha mãe me salvou de morrer afogado no rio Pau Gigante. Eu devia ter seis anos. A infância na roça e no interior é uma coisa fascinante. Até hoje me considero superior aos meninos tecnólogos da cidade que precisam estudar ecologia. Gasto, atualmente, grande parte do meu tempo tentando salvar conhecimentos da vida dos primeiros imigrantes italianos, destes colonos que começaram o Brasil do nada. Tenho fundas lembranças de Nova Friburgo, de Itaici (SP), do Rio de Janeiro, de São Leopoldo (RS). Morei em Braga, Portugal, e três anos na Itália.</p>
<p>Meu gosto pela literatura foi despertado no colégio dos jesuítas. Primeiro, era obrigatório o exercício de redação. Depois, aconteciam de ser publicados artigos no jornalzinho ASA, do Colégio Anchieta. Com treze anos aprendi a metrificar. Antes dos dezessete anos saiu publicado um soneto meu no catálogo do colégio cuja primeira quadra dizia:</p>
<p><i>As letras do meu livro são finezas</i><br />
<i>bordadas com capricho de pintura</i><br />
<i>e os olhos vão buscar nas profundezas</i><br />
<i>vaticínios da imagem e da figura</i></p>
<p>Quando estava no primeiro clássico ganhei o primeiro e único concurso literário da minha vida, fazendo uma dissertação sobre o dia da pátria, 7 de setembro. No dia do desfile, o comandante do Sanatório Naval de Nova Friburgo, no palanque, me deu como prêmio a Vida de Jesus de Plínio Salgado. Li e reli o livro muitas vezes e descobri como ficou interessante o autor ter-se colocado no lugar de Jesus Cristo e Getúlio Vargas no lugar de Pilatos. O professor de português sabia incentivar os alunos a escrever e, sobretudo, a ler. Aquilo até que era fácil. O difícil era traduzir Homero do grego, Cícero, Virgílio, Horácio do latim. Lembro-me de um tempo em que com um Quicherat na mão devíamos traduzir uma ode de Horácio por noite.</p>
<p>Tenho saudades dos tempos em que ganhei um livro do Reco-Reco, Bolão e Azeitona como prêmio de melhor da turma em 1947 em Colatina. Isto ainda no primário. Os padres impunham um regime muito mais severo que o militar, no Colégio Anchieta, mas a partir de 1954 as coisas se abrandaram com uma liberalização e maior abertura. Íamos ao cinema da cidade, participávamos dos jogos escolares. Havia teatro. No final de 1955 escrevi a peça teatral Estilicão, uma espécie de praça da alegria, como despedida da turma que se formava. Todo mundo riu muito sem saber que o autor nunca fez graça em público. Só foram saber depois da peça consumada. Durante este tempo participava como desenhista e paginador da revista mimeografada Fulgens Corona cujos exemplares ainda guardo. Formei-me no clássico em 1956, um ano muito significativo por ser quarto centenário da morte de Santo Inácio de Loiola, fundador da Companhia de Jesus, início da construção de Brasília, lançamento de duas monumentais obras de Guimarães Rosa, data histórica do início do movimento da poesia concreta. Fiz o convite de formatura de nossa turma e elenquei os nomes dos formandos todos e tudo em letras minúsculas como mandava o gosto da época. A censura veio de cima com ares de bom senso. Em resposta trocamos as letras minúsculas por góticas. Naquela época não havia televisão e por este motivo se lia muito. A primeira vez que vi televisão foi em 1955 no Rio de Janeiro. Através das antologias entrei em contato com os autores chamados “clássicos”. Enriquecia-se o vocabulário com a explicação das palavras difíceis no final do trecho escolhido. Os padres impunham o tempo de vinte minutos para se decorar um soneto e depois recitá-lo na aula. Quem recitava por último tinha sorte porque tinha mais tempo e aproveitava-se dos colegas, dos seus tropeços, dos brancos da memória, das trapalhadas. Nunca mais me esqueci do ritmo, da cadência métrica dos parnasianos e de todos os mais autores da última flor do Lácio inculta e bela! Fui um apaixonado pela obra Nova Floresta de Manoel Bernardes e pelos Sermões de Antônio Vieira. Rui Barbosa era café pequeno com seu vocabulário “erúdito”, conforme pronúncia do inspetor oficial de ensino público e que nós gozamos até hoje. Euclides da Cunha foi digno de um grande certame público e encenação teatral. Guardo até hoje um exemplar do “Discurso no Colégio Anchieta” de Rui Barbosa, um monumento de oratória. É dele o famoso trecho antológico: a pátria é a família amplificada. Não sigo os parâmetros destes autores mas devo a todos eles o que só se aprende sozinho, lendo; devo a eles um legado e um patrimônio que não troco pelo saber tecnológico atual, pelos autores atuais. Talvez eu já esteja me iniciando na esclerose, mas não troco. Os clássicos são autores do sempre!</p>
<p>Há um fato marcante entre muitos na minha atividade poética. No dia 18 de outubro de 1956 eu devia dizer qualquer coisa em público na hora da janta, o refeitório lotado. Devia não, era obrigado a dizer. Retirei do bolso um poema e li. Fiquei assustado com o estrondo das palmas. Eu não era de ser aplaudido, mas parece que naquele poema eu resumia uma aspiração grupal. Disto me certifiquei mais tarde. Minha fama de poeta público nasceu naquele dia e naquela hora. No final do ano, eu e um colega coletamos nossos poemas e fizemos um caderno. O caderno começou a correr de mão em mão e a ser disputado. Foi subindo até o diretor e depois até o reitor do Colégio Anchieta. Nunca mais o vimos, mas nossos poemas estavam salvos individualmente. Supomos que a obra-prima adolescente tenha galgado os arquivos secretos da ordem religiosa na pessoa do superior máximo. Se isto não foi verdade, pelo menos em 1962, depois de formado em Letras Clássicas, fui estudar Teoria Literária em Braga, Portugal, com o padre e professor João Mendes, de quem me orgulho até hoje. Sua obra em diversos volumes circula no Brasil e Portugal pela Editora Verbo. Mas alguém pode estar curioso em saber qual foi o poema daquele dia. Era assim:</p>
<h3 style="text-align: center;">
Teus dias:</h3>
<div style="text-align: center;">
</div>
<div style="text-align: center;">
Teus dias de vida em teu rol da existência</div>
<div style="text-align: center;">
são muitíssimas folhas</div>
<div style="text-align: center;">
a cair continuamente, bailando no ar;</div>
<div style="text-align: center;">
deixando um encanto vazio como o espocar</div>
<div style="text-align: center;">
de umas bolhas…</div>
<div style="text-align: center;">
</div>
<div style="text-align: center;">
Da juventude até o envelhecer,</div>
<div style="text-align: center;">
teus dias de vida em teus anos cansados,</div>
<div style="text-align: center;">
é o relógio que tem seus ponteiros pausados,</div>
<div style="text-align: center;">
marcando umas horas a mais</div>
<div style="text-align: center;">
de viver…</div>
<div style="text-align: center;">
</div>
<div style="text-align: center;">
Mas teus dias na terra é tua glória escondida.</div>
<div style="text-align: center;">
Quando vives, teu ser é uma igreja, uma ermida,</div>
<div style="text-align: center;">
abrigando teu próprio Criador.</div>
<div style="text-align: center;">
</div>
<div style="text-align: center;">
Pois enquanto viveres teus dias</div>
<div style="text-align: center;">
acalentando nobres ideais,</div>
<div style="text-align: center;">
verás que hás de ficar na humanidade</div>
<div style="text-align: center;">
com verticalidade altíssima de catedrais,</div>
<div style="text-align: center;">
hás de deixar no mundo um impressão profunda</div>
<div style="text-align: center;">
de quem só quis a Deus e nada mais!</div>
<p>
A escolha de gênero literário diz respeito e muito à personalidade do escritor, basta ver os autores de textos teatrais. O gênero poético é um dos mais difíceis, embora seja um dos mais praticados pelos escritores iniciantes. Muitos já disseram que escrever poemas é um sintoma do primeiro amor e da primeira dor de cotovelo. Pessoalmente é um gênero de grande liberdade de temas. Cada poema tem um tema, ou melhor, um “motivo”, termo emprestado da música. Hoje em dia se escreve poema sobre qualquer tema, sobre qualquer motivo. Sendo professor de teoria da literatura durante muitos anos já parei para pensar a respeito da função da minha obra. Cada um inventa funções para a literatura, uns para denunciar as mazelas sociais, outros para transformar a sociedade, outros para declarar amor à humanidade, outros pensam que através da obra não morrerão nunca, etc. Escrevo como uma pulsão e necessidade de dizer, em primeiro lugar, a mim mesmo, o que sinto e penso. Dou mais importância ao escritor e à obra do que ao leitor, mas sabendo que nada se escreve sem que haja um desejo subjacente de ser lido. Minha obra é um espaço de liberdade: digo tudo o que quero e como quero dizer. Acho importante a autocrítica. Daí o ter eu publicado tão pouco. Procuro questões do momento, da minha época, aspectos que não vejo salientados e de que gostaria. Mas em poesia a minha obra é um fracasso, não fosse certo conhecimento do ofício de poesia.</p>
<p>Escrevo sempre e de forma muito irregular. Não gosto de método e não me imponho ordem a não ser quando se trata de organizar o livro. Arte literária não se improvisa. Às vezes escrevo um poema irretocável, outras vezes escrevo e reescrevo até por mais de vinte anos, como já me aconteceu. Tenho a impressão de que em épocas de angústia minha produção é regular, em épocas de felicidade não escrevo nem sinto necessidade disto.</p>
<p>Minha relação com a língua portuguesa é profissional, é meu instrumento de trabalho. Estudo-a diariamente e acho que ainda não a aprendi suficientemente. Qualquer língua é um monumento histórico secular diante da vida pequena de um homem, esse verme do cosmo. Acredito no sucesso histórico da língua portuguesa, da mesma forma que acredito no Brasil e na sua crescente influência entre as demais nações. O português é uma língua em expansão e não destinada ao desaparecimento, como tantas. Acho fundamental o conhecimento de outras línguas como uma necessidade vital.</p>
<p>Não faço concessões ao leitor em meus textos, a não ser em tê-lo, diante de mim, como um ser digno de respeito, de não perder o tempo de leitura, de não se sentir pior após a leitura. Não gosto de best-seller nem de ser um. Nunca li nenhum destes que encabeçam as listas e estou convencido de que não perdi nada. Não acredito na quantidade. Acho uma empulhação das livrarias a lista dos mais vendidos, dando a entender que são os melhores. Comerciar a qualidade artística é uma coisa muito delicada. Gostaria de ganhar dinheiro com livro mas, no Brasil, eu tenho vergonha. Quem ganha às nossas custas são as editoras e livrarias e o povo é inculto por fatalidade política.</p>
<p>Guimarães Rosa desprezou a crítica literária. Eu também, sobretudo esta crítica de concursos literários. Toda crítica literária aliada ao poder e ao dinheiro é, no fundo, venal, vendida. Dinheiro e poder tolhem a liberdade de expressão. As ditaduras totalitárias e teocráticas fazem isto. Por outro lado, a literatura precisa de gente que estude e explique aos estudantes e ao povo em geral o que ela é. Nesta crítica literária eu acredito. Agora é um fato que as grandes literaturas atingiram um ápice em épocas de prosperidade social. Todos os gêneros literários existentes e os que venham a existir têm futuro. A literatura caminha hoje para uma integração com outros sistemas sígnicos, para uma semiótica, sem perder jamais sua autonomia e identidade.</p>
<p>Não acredito numa literatura capixaba, isto é, provinciana. Acredito na literatura brasileira. Aprendi há muito tempo a distinguir a extensão dos adjetivos. Toda arte é ela mesma sem adjetivos. Aceito os adjetivos na literatura para expressar pontos de vista pessoais e até íntimos do cidadão. Faça um adjetivo com o meu ou o seu nome próprio e verá que coisa horrível! Ultimamente se tem escrito muito no Espírito Santo mas não o mesmo que nos países civilizados e assim considerados. Pior do que nós estão os povos indígenas e uma infinidade de nações inexpressivas.</p>
<p>Devo dizer aos iniciantes que não sigam o meu exemplo, nem as minhas idéias. Não sou profeta de nada, nem muito menos guru. Como professor tento formar opiniões na cabeça dos alunos mas me acho um verdadeiro Don Quixote, falso e arcaico. Cada um tem seu tempo e sua oportunidade. Um escritor só existe se escrever e publicar. O resto é conseqüência. As novas gerações estão perdendo muitos bons costumes e adquirindo outros. Entre os bons costumes a adquirir gostaria que estivesse o de se expressar por escrito e não como os macacos, só por gestos e uns terríveis sons guturais típicos dos conjuntos de rock. Quem ler muito pode não acabar sendo um bom escritor mas pelo menos contribuirá para que a raça dos escritores não se extinga e acabe. Ler é uma aventura do espírito, é um lugar do sonho e das utopias. Um dia me encostei no parapeito de uma janela, no terceiro andar do Colégio Anchieta, e li, de pé, todo o livro O avô, de Nuno de Montemor. Confesso que não sei o que disse o livro nem sei mais nada sobre o autor. Só me lembro do momento. Era jovem e feliz.</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b> nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana.</p></blockquote>
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		<title>Depoimento de João Bonino Moreira ao Neples</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Neples]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Sou João Bonino Moreira. Nasci em Santa Teresa (ES) em 7 de julho de 1931, e desta data até 1949 residi em Vitória. Aqui fui desasnado e concluí o curso científico no Colégio Estadual. De fins de 1949 até 1968 morei no Rio de Janeiro, quando retornei a Vitória. Já regressei bancário e aqui me [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Sou João Bonino Moreira. Nasci em Santa Teresa (ES) em 7 de julho de 1931, e desta data até 1949 residi em Vitória. Aqui fui desasnado e concluí o curso científico no Colégio Estadual. De fins de 1949 até 1968 morei no Rio de Janeiro, quando retornei a Vitória. Já regressei bancário e aqui me aposentei em 1983. Escrevi dois livros (<i>A rainha que piava </i>e <i>O necrologista</i>, contos) e um romance inacabado (<i>O presidente nu</i>). Outras miudezas me saíram da pena, das quais não tenho lembrança.</p>
<p>Não me considero escritor. Sou, antes, um ex-burocrata; jubilado, resolvi sair do ramerrão da linguagem institucional, iniciando fugaz excursão (ou incursão?) através da literatura e produzi textos ligeiros, principalmente contos e alguma coisa de humor. Prefiro, a propósito, a expressão “pequenas histórias”, melhor classificação para minhas aventuras em letra de forma. Na nobilíssima arte da literatura sou, pois, um bissexto: escrevo quando e se me dá vontade.</p>
<p>Quase todos os meus escritos têm como cenário a cidade de Vitória e como seus protagonistas meus companheiros dos ônibus, dos supermercados, dos bares, das repartições públicas, o povão, se assim posso dizer. Traço mentalmente a trama e a vou desenvolvendo, seguindo na prática uma espécie de roteiro cinematográfico; e, embora pareça estranho, não consigo evitar se encaminhe a história para um desfecho desconcertante. Escrevo, pois, como quem almoça bife com batatas fritas, sem saber da sobremesa. Aventurar-me fora dessa frugal dieta literária atirada aos meus raros leitores certamente os levaria a uma indigestão. Sigo o velho conselho de Apeles: “Ne sutor ultra crepidam.”</p>
<p>Apesar de muito de mim existir nas coisas por mim escritas, prefiro usar sempre a terceira pessoa, embora ache-a a mais difícil opção. A concessão feita ao leitor é a simplicidade do meu texto. Tivesse eu o azar de cair nas garras de um crítico, seria sem dúvida tachado de vulgar.</p>
<p>Sou um ledor compulsivo (quatro a cinco horas por dia) e, à exceção de Bandeira, raramente frequento a poesia. Dos escritores nacionais prefiro Machado, Lima Barreto, Cony e o magnífico memorialista Pedro Nava. Dos estrangeiros gosto muito de Eça, de Vonnegut, de George Orwell, de Anthony Burgess, de Alejo Carpentier, de Philip Roth, de Céline…</p>
<p>Posso, finalmente, afirmar ter passado a escrever por força de obrigação profissional. Logo no início da minha carreira como bancário, fui descoberto pelos mandões como “aquele rapaz com facilidade para redigir”. Tangido assim pelos chefes, inundei a praça com cartas, memorandos, ofícios, comunicados, circulares, pareceres etc. Produzi, dessa forma, dezenas de quilos de fria, anódina e monótona literatura. Eventualmente garatujava alguma crítica de cinema ou de livros, mas tudo eventualmente, sem disciplina nem obrigação, páginas levadas pelo tempo e pelo vento…</p>
<p>Aos iniciantes do nobre ofício de escritor, recomendo, com veemência: leiam, leiam, leiam. E, quando se julgarem escritores de fato, lembrem-se de Flaubert, de Dostoievski, de J.L. Borges, de Hemingway, de Faulkner… Eles também foram escritores!</p>
<p>[Agosto de 2000]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2000&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>João Bonino Moreira</b>&nbsp;nasceu em Santa Teresa (ES) em 1931. Estudou em Vitória e, em 1949, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceu por vinte anos. Ele foi um dos talentos literários revelados pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo no auge de seu investimento na publicação de obras de literatura. (Para obter mais informações sobre o autor&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-joao/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Depoimento de Gilbert Chaudanne ao Neples</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2015 18:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Neples]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>UNIVERSO PESSOAL E INÍCIO DE CARREIRA 1. Descreva sua infância e vida escolar Nasci e me criei em Besançon (França) — na região chamada Franco-Condado, cidade de pensadores e escritores (Victor Hugo, Proudhon, Fourier) — Besançon é antiquíssima, já existia no império romano (Vesutio). Meu bairro era o bairro popular tipo Vila Rubim, com imigrantes [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>
UNIVERSO PESSOAL E INÍCIO DE CARREIRA</h3>
<p></p>
<h4>
1. Descreva sua infância e vida escolar</h4>
<p>Nasci e me criei em Besançon (França) — na região chamada Franco-Condado, cidade de pensadores e escritores (Victor Hugo, Proudhon, Fourier) — Besançon é antiquíssima, já existia no império romano (Vesutio). Meu bairro era o bairro popular tipo Vila Rubim, com imigrantes (italianos, espanhóis, portugueses, árabes), muitos botequins e uma prostituição moderada. O bairro é medieval, barroco, renascentista e há até as antigas arenas do circo romano onde eu ia jogar futebol. Há também, onipresentes, as fortificações de Vauban (séc. XVII) que marcam o bairro com seu espírito de geometria estrelada. Bairro labirinto com os atalhos debaixo das casas como túneis quase esotéricos, tem o nome regional de “Trage”.</p>
<p>Meu prédio é uma antiga sinagoga e sempre achei que o corredor de entrada tinha algo “oriental”; o bairro era dedicado a Baco-Dioniso; ainda tem a praça “Bacchus” com um chafariz que infelizmente só verte água. — Uma das ruas que cerca meu prédio se chama de “Rue de Vignier”, essa última palavra certamente vindo de “vigne”, porque até o século passado [XIX] eram cultivadas muitas vinhas nesse bairro e em Besançon em geral.</p>
<p>Minha infância foi assim ninada por este doce labirinto, de uma certa maneira “haut en couleur” e cosmopolita. Eu me deslocava no meio de várias culturas (árabe, latina, francesa) sem problema, sendo aceito por todos como criança fácil de conviver.</p>
<p>O contraponto era uma casinha, perto de Besançon, que meus pais tinham numa colina. Lá os jogos continuavam = uma guerra de meninos nos murgers (amontoados de pedras retiradas do solo para cultivar a vinha). Esses murgers continham antigas casas talvez gaulesas e com meu irmão nós tentamos resgatá-las brincando de arqueólogos. Construíamos também “camps”, espécie de casinhas de pedras e folhagem. Tinha um lugar chamado “Bout du monde”, fim do mundo — e eu imaginava uma parede imensa debaixo dos meus pés (como as muralhas de Vauban) — e além nada: o azul do céu em cima, em frente, em baixo. Tudo isso era talvez meu imaginário.</p>
<p>Mas havia a escola. E eu era o aluno modelo, sempre no primeiro ou segundo lugar, muito disciplinado, e a disciplina na França não é mole não. No liceu (até 18 anos) continuei meu caminho glorioso (4 vezes prêmio de excelência em 7 anos) — disciplinado e apaixonado pelas ciências e matemáticas, mas praticando a pintura e o desenho desde os 13 anos de idade e a escrita a partir dos 17. — Uma infância feliz, onírica — sim — uma adolescência desesperada: o surgimento da consciência e a ausência de um apoio adulto — apesar de uma admiração generosa para certos professores.</p>
<p>Aos 12-13 anos eu tinha o que eu chamava de “crises filosóficas”. De repente o mundo cotidiano parecia se abrir, como uma fenda, e me colocava em contato com uma espécie de outro mundo sem que esse fosse um mundo sobrenatural. Era algo como Sartre o descreveu na Nausée. E os adultos viam isto como anormalidade — o que me magoava muito e me levou à revolta.</p>
<p>A universidade foi traumática porque eu estava perdido num rebanho imenso, enquanto no liceu eram turmas pequenas onde tinha um certo aconchego e uma certa crueldade também. Minha revolta foi crescendo, passou por 68 e foi na direção da Índia. Abandonei os estudos e viajei. Fim das escolas —</p>
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2. Que lembranças guarda da sua cidade natal e ou das outras cidades onde viveu?</h4>
<p>Acho que já respondi à primeira parte da pergunta.</p>
<p>As cidades onde eu vivi: Marselha, Berlim, Vientiane (Laos), Natal, São Luís, Teresina, Lisboa.</p>
<p>Berlim me marcou bastante: em 1971, era a época do Muro da Vergonha e a situação ilhada de Berlim ocidental, essa situação excepcional me agradava justamente porque era excepcional. — Berlim também simbolizava a capital das Brumas metafísicas e germano-nórdicas em oposição ao sul mediterrâneo luminoso. — Cor: cinza e azul da Prússia.</p>
<p>Vientiane: na época da guerra do Vietnam, com suas polícias múltiplas, o Rei, o Triângulo de Ouro ao alcance da mão. A queda da monarquia e uma cidade-jardim, doce, estendida ao lado do Rio Mekong. — Cor verde e mel.</p>
<p>Lisboa: capital da Europa para mim / — um filme de Alain Tanner: “La ville blanche” (a cidade branca) retrata bem Lisboa. Talvez essa presença do labirinto (como o do meu bairro) e sempre fui mais atraído pelos povos do sul da Europa ou da Ásia, América latina, e África que pelos germanos-nórdicos anglo-saxônicos. (Austrália e América do Norte não me interessam): Cor azul e branco.</p>
<p>Natal: uma cidade que era uma etapa da minha busca da cidade absoluta e absolutamente aconchegante. Cor: azul.</p>
<p>São Luís: magnífico poema sujo. Cor marrom e creme.</p>
<p>Teresina: uma aparente ausência de elegância, comparando com São Luís e Natal — porém convivendo mais uma presença de quintal, um rosto escondido. Cor: Teresina é chamada cidade verde, mas para mim ela é bege.</p>
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3. Como começou sua atividade literária? Recebeu orientação ou incentivo de professores ou ainda de outras pessoas?</h4>
<p>Comecei a escrever aos 17 anos, no verão, depois de ter lido Assim falava Zaratustra. Nunca mostrei para ninguém até minha primeira publicação em 1973, oito anos depois.</p>
<p>Trabalho só, não peço opinião, somente depois que o texto é publicado. No fundo, não duvido do valor do que escrevo.</p>
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4. Quais foram suas primeiras leituras e primeiras produções literárias?</h4>
<p>Primeiras leituras: Edgar Allan Poe, Nietzsche, Dostoievsky, Conan Doyle, Anatole France.</p>
<p>Primeiras produções literárias: um texto poético-filosófico aos 17 anos lembrando Nietzsche, e depois poemas que podem lembrar Verlaine, Hugo, Mallarmé, apesar denão gostar desses autores e de conhecê-los muito pouco.</p>
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O ESCRITOR E SEU OFÍCIO</h3>
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5. Quais os temas principais abordados em sua obra? Que função predominante atribui à sua literatura?</h4>
<p>Os temas: a revolta (hoje desapareceu), a viagem, o Amor, o espírito do lugar, a história. Acho que a literatura não tem função nenhuma, ela é gratuita e está ali como uma pedra ou uma flor. Ela está e isto basta.</p>
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6. Quando começa a escrever, o enredo já está definido ou se desenvolve e se altera à medida que vai escrevendo? Delineia os capítulos e planeja toda a estrutura antecipadamente?</h4>
<p>Minha maneira de escrever é pulsional: obedece ao meu “inconsciente”, melhor: confio nele e não na minha razão porque essa tem suas razões que não são as da escrita. A obra é sempre epifânica e não é uma construção, um projeto. Às vezes posso ter um projeto mas em geral ele termina sendo traído. Talvez existam outros tipos de temperamentos literários: os machadianos, o escriba, os que relatam e ordenam, o meu temperamento literário é dionisíaco: acredito no delírio. No delírio autêntico.</p>
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7. Até que ponto seus personagens se baseiam em pessoas reais, inclusive em você mesmo? Como você escolhe o nome dos personagens?</h4>
<p>Eu não crio muitos personagens mas quando há alguns acho que como em Proust eles são a síntese de várias pessoas reais porém com algo a mais que faz que o personagem se torne arquétipo. Ex.: Dom Quixote. O meu eu narrador é um outro eu que talvez nem me pertence.</p>
<p>Os nomes dos personagens (quando tem) são escolhidos instintivamente, o nome surge um dia com uma nitidez incontornável.</p>
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8. Do ponto de vista da técnica, quais os escritores que mais admira e de quem sofreu influência?</h4>
<p>Artaud, Lautréamont, Augusto dos Anjos, Audífax de Amorim, Marguerite Duras, Amylton de Almeida, Dostoievsky, Camus, Nietzsche, T. S. Eliot, Auden, Wallace Stevens, Hopkins, Rimbaud, Ferlinghetti, Kerouac, Laforgue, Rabelais, Céline.</p>
<p>Quem me reconciliou com a literatura (que eu odiava apesar de escrever) — foi Artaud e Lautréamont porque seus estilos fogem das artimanhas, do coquetismo, do preciosismo e da ausência de generosidade que esteriliza a literatura francesa.</p>
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9. De que modo descreveria seu estilo?</h4>
<p>Atualmente um estilo neobarroco e às vezes meio cubista, barroco porque não tem medo do chamado mau gosto, das repetições e das cacofonias, cubista porque justapõe frases ou elementos de frases que aparentemente não têm uma relação lógica mas apenas espacial.</p>
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10. Faz uso de intertextos, analogias, referências, citações?</h4>
<p>Sim, às vezes até inconsciente e às vezes eu reutilizo uma frase, o refrão, ou personagem de um outro livro meu.</p>
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11. Faz uso do diálogo interior?</h4>
<p>Sim, mas raramente.</p>
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12. Faz uso da linguagem popular?</h4>
<p>Sim, mas não de uma maneira contínua, ela convive com outros tipos de linguagem como a linguagem erudita, ou línguas estrangeiras.</p>
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13. Sente-se mais à vontade numa narrativa na primeira ou na terceira pessoa?</h4>
<p>Em geral, na primeira, mas eu admiro os escritores que criam um personagem que termina existindo mais que o autor, como Don Juan ou Dom Quixote; Le Grande Meaulnes.</p>
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14. Com que regularidade escreve?</h4>
<p>Todo mês, escrevo um ensaio para a revista Você e participo de outras revistas mineiras, piauienses e francesas. Eu posso ter uma periodicidade no tipo ensaio não na poesia ou escrita a caráter poético como A passagem de Marina. — Gosto de escrever cartas: é um bom exercício como a barra para a bailarina.</p>
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15. Reescreve seus textos, cortando, acrescentando, alterando?</h4>
<p>Em geral não. Há o primeiro “jato”, no máximo depois passo a limpo corrigindo apenas detalhes. Mas às vezes escrevo uns dois ou três textos que não me satisfazem, até chegar no que eu gosto. Mas a maioria das vezes é o primeiro “jato”.</p>
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16. Qual é sua relação, como escritor, com a língua portuguesa?</h4>
<p>Sendo de língua francesa minha relação talvez é mais complicada. Tenho a impressão de ser um eterno Cabral lingüístico já que eu nunca termino de redescobrir a língua brasileira. Isto é uma espécie de nova inocência que acho fecunda para a escrita já que há de ter essa relação lúdica com a linguagem para poder escrever.</p>
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O LEITOR E A LITERATURA</h3>
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17. Faz concessões ao leitor nos seus textos?</h4>
<p>Não.</p>
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18. Que acha da função da crítica literária?</h4>
<p>Condená-la é um romantismo adolescente.</p>
<p>Fazer sua apologia é uma mumificação perigosa do saber.</p>
<p>Acredito numa crítica que é ao mesmo tempo pensamento e criação. O tipo é Roland Barthes. Cuidado com a superinterpretação que é o delírio das críticas sociológicas ou psicanalíticas ou ideológicas.</p>
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19. Qual sua opinião sobre o futuro do romance, da poesia, do teatro?</h4>
<p>Para ter futuro teria talvez que ter presente, e a literatura boa é tão pouco lida hoje que não me preocupo com o futuro mas com a situação meio catastrófica que é a de hoje.</p>
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20. Que tem a dizer sobre os autores do Espírito Santo?</h4>
<p>Eu descobri aqui talentos que vão se projetar nacionalmente e internacionalmente: como Amylton de Almeida, Audífax de Amorim, Reinaldo Santos Neves, Renato Pacheco. Ao que me parece há duas tendências, uma escrita erudita ou neoerudita que é a dos autores citados e outra mais descompromissada com o passado como Flavio Sarlo ou Wilson Coêlho (“a palavra criatura”).</p>
<p>É possível estabelecer uma identidade literária capixaba? Escrevi na revista Você um texto sobre a identidade capixaba. [Vide na seção Textos/Identidade da ESTAÇÃO CAPIXABA] É de fato um estudo sobre um possível imaginário capixaba e era destacado um certo “efeito mosaico”, uma fragmentação devido às várias culturas encontradas no estado. Na literatura parece que a fragmentação é apenas literatura erudita-trabalhada / literatura coloquial-espontânea. O tema da Terra Natal (Canaã, romance das imigrações etc.) existe mas não é isto que cria uma identidade no plano da escrita e do espírito do lugar. Neste último caso me parece que o desencanto de Amylton de Almeida, o ceticismo irônico de Reinaldo Santos Neves, uma certa distanciação apurada nos poemas de Renato Pacheco, poderiam ser uma vertente de sensibilidade literária capixaba atual: distanciação. De uma outra maneira, um certo telurismo de José Irmo Gonring, a busca da casa “habitável” aqui e agora de Roberto Almada, o espontaneísmo de Flavio Sarlo, compõem uma outra vertente da aceitação do aqui e agora. Um sim que se opõe à distanciação dos autores citados no primeiro caso.</p>
<p>Acho que a cidade de Vitória (Carmélia M. de Souza, Amylton de Almeida, Reinaldo Santos Neves) tem um papel talvez à parte e que ela não aparece como cidade neotropicalista ou machadiana mas como cidade existencialista.</p>
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21. O que teria a dizer aos escritores iniciantes?</h4>
<p>Escreve.</p>
<p>[1996]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 </span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia <b>autorização expressa</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/depoimento-de-gilbert-chaudanne-ao/">Depoimento de Gilbert Chaudanne ao Neples</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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