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	<title>Arquivos Pedro Nunes &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Pedro Nunes &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>O necrologista e outros escritos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Nov 2015 16:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[João Bonino Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Jotabê Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>João Bonino, ou Jotabê Moreira, ou Bonino, conheci-o inicialmente de referência. Nunca sabemos se simpatizamos com uma pessoa que conhecemos de referência. Não temos obrigações com as pessoas referidas, afinal das contas. Mas, como ia dizendo, insistia em dar-me dele notícias meu amigo Jorge Augusto Mattos, ex-discípulo dos tempos de Banco do Brasil. Mais tarde, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
João Bonino, ou Jotabê Moreira, ou Bonino, conheci-o inicialmente de referência. Nunca sabemos se simpatizamos com uma pessoa que conhecemos de referência. Não temos obrigações com as pessoas referidas, afinal das contas. Mas, como ia dizendo, insistia em dar-me dele notícias meu amigo Jorge Augusto Mattos, ex-discípulo dos tempos de Banco do Brasil. Mais tarde, era o outro Jorge, o Jorge L, da Logos (L não é de Logos, nem de livraria, e nem que a vaca ladre — sim, porque se vaca pode tossir, pode muito bem ladrar, sim senhor — direi que L é esse): “— Seu Bonino esteve aqui, saiu com os braços sobraçando — pra usar uma imagem dostoievskiana, vou colocar na frase do Jorge L uma palavra que ele não pronunciou — uma pilha de livros.” Eu, distraído, devolvia ao Jorge L: “— Ó, Jorge, quero lá eu saber quantos livros compram seu clientes. Me vê aqui esse livro do Graciliano, que estou sem nada pra ler em casa.”</p>
<p>Mas como aos dias melhor é que andem, andaram. Fui encontrar um dia à Távola — com letra maiúscula, que aquilo é um reino — João Bonino Moreira mais Serginho Lennon Bichara, Wilson Lugon, o grande alérgico, José Neves e Francisco Grijó. Depois é que vieram se chegando o Tião Lyrio e a turma encabeçada pelo Luiz Guilherme: Reinaldo Santos Neves mais o Renato Pacheco e o Ivan Borgo, que se sentavam em mesa contígua. E a esse emérito senhor, tão referido, reconheci valer quanto pesava. Leitor voraz, serial cat-killer, amante de Céline e Beethoven e grande contador de contos verbais. Isso: contos verbais magistrais. Eu, naturalmente, comecei a pensar por que o Bonino não colocava aquelas histórias no papel. E, pensando agora no fato de que eu não acho solução para a questão nem nunca vou achar, que o Bonino a escondia atrás do sorriso de modéstia, vou terminar com uma nota breve esta notícia biográfica para começar logo a falar um pouco do livro, este livro que acabei de ler e que o leitor destas garatujas tem nas mãos.</p>
<p>Bonino tem umas coisas engraçadas. Entre tantas, que guardarei para situação mais propícia, conto uma. Certa feita, perguntei-lhe, num restaurante fechado lotado dos bravos soldados da liga antitabagistas, quando ele acendeu, impávido e colosso, um Kent: “— Você vai fumar aqui dentro?” Ele, devolvendo-me um olhar calmo, o cigarro pendendo da boca: “— Claro. Qual o problema? Você acha que alguém faria uma reclamação a um velho com pinta de nazista como eu? Se alguém se atrever a fazer isso, eu pergunto a ele: ‘algum problema, meu chapa?’, com um tom hitleriano que sei fazer muito bem e dou o caso por encerrado.” Diante de tanta convicção, e embalado por uma necessidade de desafiar os incomodados infundida pelo Mestre Bonino, como é, às vezes, chamado sem antífrase, restou-me acender também o meu cigarrinho.</p>
<p>Creio que deva colocar na nota biográfica que esse sujeito de coração imenso escondido atrás da camisa delicadamente passada por dona Yonêda, sua esposa, nas manhãs de sábado antes do horário da Logos, é mais cordial do que pode parecer. Acho que encerro bem as notas iniciais — calma, leitor, a apresentação não demora a ser concluída, o “iniciais” é força de expressão — dizendo que já não me preocupam as razões que levaram o Jotabê Moreira a dilatar o tempo de suas primeiras publicações, afinal, se não me falha a memória, além de textos esparsos publicados aqui e ali ou enviados às redações de jornais de todo o País ou às editoras sem respeito com os consumidores dos livros que publicam, também de todo o País, em formas de cartas que ninguém gostaria de receber, este é seu terceiro livro. Sem falar em material que se perdeu em incêndio. A ele, pois, com notas sobre as quais, pelo que disse acima, pode recair a acusação de excessivamente afetivas.</p>
<p>Garanto-lhes: afetivas, sim, nunca injustas, nem com o João Bonino nem com o leitor. Este verá, sem muita dificuldade, que estamos diante de um escritor que possui uma inacreditável capacidade de, mesmo com suas piadas mais escancaradas, parecer estar falando sério sobre situações risíveis. É só dar uma conferida nos dois livros anteriores a este, depois de lê-lo, é claro.</p>
<p>Contos, crônicas, casos, alguns deles quase reportagens não fosse a nota irônica — o Bonino que me perdoe a expressão — quase sacana que perpassa todos os escritos deste livro. (Se o leitor quer ter uma rápida amostra do humor de seu autor, largue depressa esta apresentação, vá correndo ao conto “Os tico-ticos” e leia atentamente o monólogo final do burro de carga.)</p>
<p>Nas páginas de alguns desses trabalhos vem, no original, com letra bem desenhada, a expressão “Baseado em fato/personagem real”. Preocupação esclarecedora desnecessária. O sentimento e o comportamento humano escavados pelo autor dão-nos uma clara panorâmica do mundo real. Alguns desses caracteres são vistos todos os dias andando pelas ruas. O abutre do primeiro conto, por exemplo, um animado e corpulento senhor de olhos azuis que estava no trem que se envolveria em grave acidente daí a algumas horas após largar a Estação Barão de Mauá, no Rio de Janeiro, e que “propunha jogos, adivinhações, contava piadas”, enriquecido graças à pilhagem dos mortos, da canalhice oculta transformado em herói, é caráter fácil de se encontrar no nosso tempo.</p>
<p>Mas João Bonino dá-nos mostra de um humor às vezes bastante negro. É o que acontece nos contos kafkianos “E eu?” e “O juramento fatal”. Sem falar na memória da infância, da II Guerra — uma de suas obsessões — e da crônica de algumas personagens bem conhecidas da cidade.</p>
<p>Li o livro de João Bonino Moreira, para construir esta apresentação, com a impressão de estar ouvindo seus casos contados nas manhãs sabatinas. E se falei tanto do homem para falar pouco da obra, vai aqui um pouco de incompetência na análise desta e outro tanto de respeito ao leitor que se dispuser a ler esta apresentação sem ir logo ao que interessa, ou seja, aos contos deste livro.</p>
<p>Só para terminar, tenho defendido comigo mesmo, sem pregá-lo a ninguém, que o autor e sua obra estão irremediavelmente atados. O que um escritor põe no papel é sua experiência, sua observação, seu modo de ver o mundo ou coisa que viveu. É assim que compõe a história de seu tempo, uma das funções da boa Literatura. Lembra-me aqui uma outra frase proferida pelo amigo Bonino numa dessas manhãs na Logos, ao pé de uma fumegante xícara de café: “— O segredo da minha vida foi ter levado muito pouca coisa a sério.” Convenhamos, para não melindrar o amigo, que sim. Mas o leitor verá, facilmente, que atrás dos contos “nada sérios” que compõem este livro está um homem que observa seu tempo, disseca-o e, o que é melhor, ri-se dele.</p>
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Vitória, setembro de 1998</div>
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<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.</div>
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<b>Pedro José Nunes</b>, escritor,&nbsp;nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-jose-nunes-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</div>
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		<title>Entrevista de Pedro J. Nunes à Revista Você: “Universo povoado de Aninhanhas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 17 Nov 2001 14:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adilson Vilaça]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Revista Você]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pedro José Nunes, capixaba de São José do Calçado, é a grande novidade literária que o Espírito Santo lançou na presente década. A escritura de Pedro é um delírio que enreda a ação no fio do insólito. “Nada do que digo aqui é, pois, da esfera das certezas”, confessa o narrador de Vilarejo. A novela [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Pedro José Nunes, capixaba de São José do Calçado, é a grande novidade literária que o Espírito Santo lançou na presente década. A escritura de Pedro é um delírio que enreda a ação no fio do insólito. “Nada do que digo aqui é, pois, da esfera das certezas”, confessa o narrador de <i>Vilarejo</i>. A novela <i>Vilarejo </i>teve sua primeira publicação encartada no quarto número da revista <i>Você</i>. A segunda edição, que nasceria engordada pela companhia de quatro contos — O porco, A questão, O relógio e A divisória —, veio na Coleção Cultura-Ufes, da Secretaria de Produção e Divulgação Cultural — SPDC, e deu formato definitivo ao livro. Com esse traçado, <i>Vilarejo </i>foi adotado pela Ufes para o vestibular de 1996.</p>
<p>Antes de <i>Vilarejo</i>, Pedro esteve na coletânea Jovens contos eróticos, da Brasiliense; esteve no projeto Palavras da cidade, da Prefeitura de Vitória; publicou na revista <i>Contexto</i>, do Departamento de Línguas e Letras da Ufes; e, entre outras façanhas, assombrou com a publicação de <i>Aninhanha</i>, em 1991, também pela coleção da SPDC. De sua passagem no conselho editorial do projeto Escritos de Vitória, publicação da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, que já alcança a décima versão, Pedro guardou o hábito de reunir escritores. Aliou o hábito à lasciva experiência na Brasiliense e deu vez ao vício: um livro de contos eróticos reunindo o talento capixaba.</p>
<p>De seu universo povoado de aninhanhas, da confraria que teceu a libido de seu vício, de seu novo romance, de seus espelhos, da polêmica acerca do parceiro de <i>Vilarejo </i>— o outro livro adotado para o vestibular/Ufes é acusado de plágio —, disso e de um tanto mais é que nos vai falar Pedro Nunes, dublê de autor-revelação e servidor estadual na Polícia Civil.</p>
<p>A conversa foi marcada para o dia 24 de julho, dia do escritor, “por obra e graça do acaso, esse ancião operário do destino” — do conto O porco. Só atinamos para a data quando Pedro telefonou pedindo adiamento. As atribulações na Academia de Polícia, onde leciona, tinham algemado seu dia. Sua agenda concedeu-lhe habeas-corpus para o dia seguinte. E, como Pedro demonstra a seguir, todo dia é dia do bom escritor e da boa prosa.</p>
<div style="text-align: right;">
Adilson Vilaça</div>
<p>
<b>Você — É importante ter um livro adotado para o vestibular?</b></p>
<p>Pedro — É importante enquanto divulgação. Sem dúvida é uma ocasião que faz circular o nome do autor e de sua obra. Entretanto, considero de maior validade a adoção do livro nas escolas de primeiro e segundo graus. O livro, transformado em questão de prova do vestibular, é estudado muito parcialmente, limitando-se, por vezes, a pequenos trechos ou ao estudo da trama e de alguns personagens. A maioria dos alunos que vão para essas provas não lê nada ou lê apenas o resumo da obra. Aliás, o resumo é um crime contra a formação do estudante e um crime contra os direitos autorais. Nas escolas de primeiro e segundo graus é feito um trabalho mais sério, que exige tempo, fornecendo um saldo positivo, gratificante para o autor. No próprio contato entre autor e estudantes, quando feito, há mais sedução de ambas as partes.</p>
<p><b>Você — Agora que você está no mercado compulsório, um bom número de estudantes, apesar do famigerado resumo, lerá <i>Vilarejo </i>preparando-se para provas. Tirante isso, você considera o capixaba um bom leitor?</b></p>
<p>Pedro — O fenômeno da crescente onda de instalação de livrarias em Vitória é um bom sinal. Se os livreiros estão investindo em novas lojas, é evidente que o fazem porque acreditam no crescimento do mercado, no aumento do número de leitores. Por outro lado, a qualidade dos livros que figuram na lista dos mais vendidos é, no mínimo, duvidosa. Mas, afinal, há um consolo: leitura puxa leitura. As livrarias estão com boa freqüência de público, o momento é alentador para o mercado editorial. Os livros capixabas estão sendo bem recebidos e essa aceitação tende a crescer. A série Escritos de Vitória é muito procurada.</p>
<p><b>Você — Por que <i>Vilarejo </i>teve mais sucesso do que <i>Aninhanha</i>?</b></p>
<p>Pedro — <i>Aninhanha </i>é um livro mais novo do que dois contos de <i>Vilarejo</i>. Mas <i>Aninhanha </i>reflete uma procura muito grande de se chegar a uma linguagem que unificasse narrador e personagem. Uma linguagem que transmitisse ao leitor o universo peculiar da personagem. Nessa busca, houve um ponto de efetiva sintonia: a linguagem incorporou o narrador. Daí as experimentações morfológicas, a subversão sintática, o aproveitamento de vícios. Entre os acadêmicos foi excelente a receptividade a <i>Aninhanha</i>, muitos o consideram superior ao <i>Vilarejo</i>. Mas <i>Aninhanha</i>, reconheço, tem essa dificuldade expressa na linguagem. A parte inicial chega a ser meio chata, mas o tom de suspense que impera no restante do livro supera essa dificuldade presente no início. Bem, <i>Vilarejo </i>veio logo depois. A primeira versão teria linguagem muito próxima da linguagem de <i>Aninhanha</i>. Mas eu reescrevi o livro, simplificando-o nesse aspecto. <i>Vilarejo</i>, de início, iria ser um conto sem movimento. Mas a história começou a mandar em mim, tomou outro destino. Creio que foi meu primeiro caso de inspiração. A história, como você sabe, é uma homenagem que presto ao meu avô paterno. E o que atrai nela é a identidade que tem com a história vivida das pessoas, a história não contada de nossas crônicas familiares, de nossas aldeias. Circulando pelo Espírito Santo, falando de literatura, ouvi pessoas se manifestarem quanto à identidade do vilarejo comparando-o a Ecoporanga, Dores do Rio Preto e São José do Calçado, este com mais evidência. Assim, <i>Vilarejo </i>se destacaria mais pela readequação da linguagem e por proporcionar esse encontro, essa identidade manifesta com outras pequenas cidades, com seus habitantes e seus acontecimentos.</p>
<p><b>Você — A escritora e professora de literatura Deny Gomes estabeleceu comparações entre a trama de <i>Vilarejo </i>e o julgamento de Cristo (ver Os medonhos insucessos de <i>Vilarejo </i>e outras histórias, da professora Deny Gomes). A adaptação, ou melhor, adequação, foi inteiramente consciente? Você já obteve essa resposta à obra em outras análises?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — A <i>Bíblia </i>é um livro que eu leio insistentemente. Tenho a minha <i>Bíblia </i>desde os 15 anos de idade e já fiz duas leituras completas de seus textos. Não procuro nela outra coisa que não seja sua beleza como obra. Encanta-me mais o Velho Testamento: a metáfora do Gênesis, a fúria do profeta Isaías, os salmos, a coragem de Jó. No livro <i>Aninhanha </i>ocorre uma proximidade intencional com os textos evangélicos, com a trama evangélica. Mas no Vilarejo não há intencionalidade. Mas é inegável a semelhança com o julgamento de Cristo. Há uma pessoa realmente sacrificada, seu ressurgimento, a culpa coletiva.</p>
<p><b>Você — Em outras ocasiões, você já trabalhou recriações?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Não tenha dúvida. Aponto <i>Aninhanha </i>como o caso mais flagrante.</p>
<p><b>Você — O que você acha do recurso da intertextualidade?</b></p>
<p>Pedro — Nós estamos vivendo uma época de reciclagem, de apoio nas experiências de nossas leituras. Mas precisamos fazer isso respeitando as referências, sem aviltar, sem copiar. É perigoso na intertextualidade deixar que o texto de outro mande no seu. Você deve manter sua necessidade de criação. Inspiro-me, com certeza, em leituras que faço. Mais uma vez cito o livro <i>Aninhanha</i>: olhei muito no espelho <i>Hora da estrela</i>, de Clarice Lispector, quando o escrevia. Dessa leitura, inclusive, tirei a epígrafe de <i>Aninhanha</i>: “Se essa história não existe, passará a existir.” E o mais que acompanha essa frase.</p>
<p><b>Você — O outro livro adotado para o vestibular da Ufes — <i>O mofo no pão</i>, de Neida Lúcia Moraes — é acusado de plágio. Você leu os artigos de Deny Gomes e a defesa da autora? O que acha do caso?</b></p>
<p>Pedro — A Deny me falou do fato antes de publicar o artigo: “Espantosas semelhanças entre os textos…” Em momento algum, mesmo em conversa informal, falou de plágio. Mas o que eu pude interpretar, lendo seu artigo na revista, é que Deny constatou várias semelhanças que apontam para o plágio. Depois, no segundo artigo, viriam novas semelhanças, ainda com Carlo Ginzburg — <i>O queijo e os vermes</i> — e outras com Umberto Eco — <i>O nome da rosa</i>. Acho que a autora nem tinha como se defender. Infelizmente. Por isso os argumentos de sua defesa foram tão fracos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Apesar disso, você acha que a literatura produzida no Espírito Santo está em fase de amadurecimento?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Nós temos escritores maduros no meio de um batalhão que escreve por escrever. Há um bom número de escritores produzindo literatura no Espírito Santo buscando esse amadurecimento. A lista de tais autores não é nova, não tenho visto coisas alentadoras. Mas alguns já estão prontos. E o amadurecimento está acontecendo, embora num círculo muito restrito. Quero citar um conselho do professor Francisco Aurélio, que disse que o autor de um livro de poemas, um livro de estréia, deveria esperar dez anos antes de publicar esse livro. A pressa em publicar pode atrapalhar o talento que está no limiar da revelação. Só o tempo produz a maturidade da obra.</p>
<p><b>Você — O que está faltando para o escritor capixaba deslanchar no mercador nacional?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Ressentimentos da falta de uma editora profissional. Temos escritores tão bons quanto em qualquer parte do país. Escritores que trabalham seriamente e que estão no mesmo nível de autores que fazem sucesso nacional. Falta isso ser descoberto. Tentamos fazer a reedição do <i>Vilarejo </i>com uma editora de fora, com a participação da SPDC. Tivemos a resposta de que o livro talvez não atingisse a faixa de público que eles estão atingindo. Ficou nisso. O que nos leva à certeza de que precisamos de uma editora que faça um trabalho comercial, pois tal trabalho faria a literatura produzida no Espírito Santo ser conhecida no país inteiro. A exemplo do que hoje acontece no Rio Grande do Sul.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Que iniciativa local melhor tem contribuído para popularizar o autor capixaba, isto é, apresentá-lo ao público potencial do Espírito Santo?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Há casos isolados, como o projeto Escritor na Cidade, desenvolvido através de uma ação conjunta da Biblioteca Nacional com a Biblioteca Estadual. Esse projeto leva o autor a peregrinar pelo Estado, divulgando seu trabalho e conversando com estudantes e leitores locais sobre literatura e produção literária. Quando publicamos <i>Vilarejo</i>, eu, o Reinaldo — Reinaldo Santos Neves — e o Joca — João Carlos Simonetti Jr. — saímos em viagem por várias cidades, falando da revista <i>Você </i>e da literatura produzida no Espírito Santo. Esse périplo me ajudou a dissipar uma ideia equivocada que eu tinha do pessoal que escreve. Descobri que o escritor sério, honesto na sua atividade, é extremamente solidário com outro escritor que também trabalha com seriedade. Fala do trabalho do outro por onde passa, mesmo não tendo com ele maior afinidade que seja essa de tentar produzir literatura de qualidade. Já os livreiros capixabas continuam não dando atenção aos livros aqui editados. O espaço nobre das estantes nunca é frequentado pelos autores locais. Um projeto que não poderia ser esquecido é o Escritos de Vitória, da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Mas o sucesso do projeto não está na qualidade dos textos, mas nos temas tratados. De boa qualidade literária tivemos o primeiro e o sétimo. Mas é bom que o projeto continue. Fui do primeiro conselho editorial e, depois, quando saí, publiquei uma crônica no nono número da série, que tinha como tema as igrejas de Vitória. Antes do Escritos, havia o Palavras da Cidade, também muito bom. Deste participei com o conto A ratazana e o ocaso. No meu caso, muito me ajudaram os concursos. Num, da editora Brasiliense, tive o conto Sereia selecionado para o livro Jovens contos eróticos; aliás, quero ressalvar que considero o texto selecionado bastante fraco diante do que eu produziria depois. Mas o concurso me ajudou muito. Noutro, aqui do Estado, em 1987, tive o conto <i>Aninhanha</i>, ainda com o título Maria Trinta Cruzes, agraciado com uma menção honrosa. Os concurso sempre promovem o autor. (Por que abrimos esses parênteses? Para explicar que foi o escritor Carlos Nejar quem sugeriu a Pedro a mudança do título para <i>Aninhanha</i>. Como é sabido, ele acatou a sugestão. Explicado e fechado). E uma iniciativa que me deixou agradavelmente surpreso foi o projeto Nossolivro, encabeçado pelo jornal <i>A Gazeta</i>. O jornal de maior circulação do Estado levando a seus leitores bons escritores capixabas. Mas critico a imprensa local por achar que ela não promove adequadamente o debate acerca da produção literária do Espírito Santo. Bem ou mal, ela deveria falar mais de nossos autores.</p>
<p><b>Você — Que papel, afinal, cumpre a Lei Rubem Braga?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — A Lei Rubem Braga exerce o papel de publicar autores que de outra maneira não conseguiriam publicar. Isso pela própria realidade do nosso mercado editorial. É bom? É ruim? Não sei. Sou relator da Lei Rubem Braga. Recentemente recebi um texto para análise que era por demais imaturo. O que não quer dizer que todos os textos enviados para a Lei sejam da mesma qualidade. Há livros muito bons publicados. Como há livros muito ruins.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Por que você nunca enviou textos para a Lei Rubem Braga? Você é um fora-da-lei?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Não mandei. Sou, nesses termos, um fora-da-lei. Escrevo pouco, no ritmo de São José do Calçado, bem lentamente. Nem tudo que eu escrevo aproveita. Tenho obsessão em melhorar, em reescrever. Reescrevi <i>Aninhanha </i>umas dez vezes; uma, inteiramente. Não tenho um texto para mandar para a Lei Rubem Braga. Tivesse, mandaria. Há algum tempo, penso em escrever um livro de poemas, de sonetos eróticos, amorosos. Como já pensei em produzir um livro de sextinas sacras usando idéias retiradas do Livro de Jó. Escrevi dois destes poemas; a exigência da forma torna difícil a realização dos textos. Se tivesse um desses livros prontos, mandaria para a Lei Rubem Braga. Por quê? Porque meu terreno é a prosa, a boa história. Um livro de sonetos poderia não ser bem aceito por quem edita no Espírito Santo e por quem compra o autor capixaba. Sextinas, então… Aí entra a validade da Lei: ela não convive com a preocupação de comercializar, podendo amparar um livro bem realizado. Para finalizar, se não procurei a Lei Rubem Braga antes é por não ter disponível um material decente para oferecer.</p>
<p><b>Você — Bem, vamos falar de foras-da-lei. Luís Trevisan, editor da seção Victor Hugo, de <i>A Gazeta</i>, anunciou que você reuniu sete contistas capixabas numa tentativa de erotizar a literatura local. Fale dessa reunião.</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Há livros publicados por iniciativa oficial que têm mais erotismo do que qualquer conto do livro de contos eróticos que planejamos. A idéia de fazer esse livro surgiu num sábado em que eu folheava o livro da Brasiliense (Jovens contos eróticos, de que o autor participou). A ideia, enfim, era fazer um livro que juntasse os escritores que se reúnem aos sábados na Logos. O tema poderia ser mistério, terror ou, como ficou, erotismo. Falei primeiramente com o Reinaldo e com o Luiz Guilherme Santos Neves. Reinaldo ficou reticente, como esperado. Mas o entusiasmo do Luiz Guilherme foi surpreendente. Depois, noticiei ao Renato Pacheco, ao Francisco Grijó e ao Tião Lyrio. Todos eles autores que freqüentam essas reuniões aos sábados. Convidamos você (Adilson Vilaça) e Bernadette Lyra. Tentamos colocar um conto do José Carlos Oliveira, mas houve problemas quanto à cessão dos direitos com seus herdeiros. Bernadette não topou. Adilson Vilaça — aponta com o dedo e o olhar — topou. O livro está pronto, e ficou com o título <i>Mulheres — diversa caligrafia</i>. O tema erotismo poderia ser outro, terror ou mistério, como já falei.</p>
<p><b>Você — Como mentor e organizador dessa reunião, além de escrever uma das tentativas e de ser obrigado a ler, ainda no pecado de cada original, as outras seis desistências, você é o maior conhecedor dos segredos desse quase livro. Que personagens dessa coletânea você convidaria para fazer ou desfazer uma aninhanhazinha?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Veja só (ri muito), é uma sinuca de bico. Gosto muito da safadeza da Albertina, de sua disposição para a safadeza. Safadeza no sentido do jogo da sedução e sua conseqüência. Sendo minha criatura, tenho muita intimidade com a personagem Albertina. Mas os textos que compõem o livro têm uma carga de erotismo bastante contida. É bem verdade que há personagens que materializadas seriam deliciosas tentações.</p>
<p><b>Você — Onde você encontrou apoio para a publicação? Quando será o lançamento?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — A Secretaria de Cultura e Turismo de Vitória se interessou, comprometendo-se a participar com algum apoio. Estamos aguardando o desenrolar do processo. O projeto é interessante para os autores, para a literatura produzida no Espírito Santo, para a Secretaria, que teria a chance de participar de um projeto que reúne vários de nossos melhores ficcionistas. Não tão eróticos assim, mas, sem dúvida, uma confraria de primeira linha.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Pedro, rogando o perdão de Eros pelo nosso delicioso fracasso em <i>Mulheres — diversa caligrafia</i>, vamos falar de seu próximo livro. Qual é o gênero, o título, o tema, o universo… Conte tudo, com direito a esconder muito mais.</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Quando estávamos indo para São José do Calçado, eu mais o Reinaldo e o Joca, foi inevitável que eu começasse a relembrar minha infância. As paradas, as taças de vinho bebidas. Tudo estava muito evocativo. Num dos dias daqueles que lá permanecemos, o Joca queria tomar vinho refrescado na água, recriando uma cena de <i>O sol também de levanta</i>, de Hemingway. Estávamos os três e minha irmã Josana, a mais nova de minhas irmãs, numa cachoeira. E eu relembrando minhas histórias. Não sei se foi o Joca ou o Reinaldo, ou os dois, o vinho apagou a certeza, me perguntou por que eu não fazia um livro sobre a minha infância. Guardei a resposta, não levei a pergunta muito a sério. Bem, recentemente me vi compelido pela necessidade de escrever um livro. Tinha empacado num livro de terror, que não engrenava. Como escrever é ofício de desocupado, lembrei-me da proposta. Botei no papel algumas lembranças e veio o livro. Tornou-se o livro da infância de quem tem 30 anos e viveu no interior, sem televisão e outras parafernálias da modernidade. Houve crise, briguei com velhos fantasmas, interrompi o livro por três meses. O projeto inicial do <i>Menino </i>era de 100 laudas e acabou em 200. É um romance com capítulos bem independentes e que tem como tema principal o primeiro amor da infância.</p>
<p><b>Você — Fellini, após se exasperar com a insistência de um entrevistador — a imprensa é néscia, culpada dos fatos, quando não, maldosa e leviana — disse que é autobiográfico até mesmo quando fala de um peixe. O que tem o <i>Menino </i>de autobiográfico?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — É um romance inteiramente autobiográfico. Conta a minha vida até os 11 anos de idade, quando entrei no ginásio. Fala de meus amigos, de ambientes da minha infância, de meus familiares, de São José do Calçado. O levantamento do tempo, de segredos caros, de coisas que não estavam resolvidas mas apenas guardadas, que voltaram e não me fizeram bem, todas essas questões tornaram o livro muito penoso. Acho que é meu melhor livro. Não por ser o último. Menino foi reescrito quatro vezes. É a maturidade que posso oferecer. Menino tem muito de autobiográfico, mas assemelha-se à infância coletiva vivida no interior.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Numa reportagem do jornal <i>A Tribuna</i>, abordando a relação filosofia/literatura, você se confessou um autor que sofre ao escrever. Como você explica essa autoflagelação com tão boa fatura estética?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Há dois tipos de sofrimento. O primeiro está bem descrito num biografia de Dostoievski, uma biografia que acho mais interessante do que tudo que ele escreveu. Um jovem autor levou um original para Dostoievski avaliar. Ele teria perguntado ao autor: “Há sofrimento nisso?” Ao receber uma negativa do jovem, Dostoievski teria dito: “Então reescreva. Para escrever bem é preciso sofrer, sofrer e sofrer.” O segundo tipo de sofrimento é a angústia da busca do texto perfeito. E, por mais que busque, sei que não vou conseguir. A reescritura constante é o sofrimento que permeia tudo que escrevo. Acima disso, há o prazer de escrever, o êxtase de criar no papel. Até achar o fio condutor de uma história eu padeço. Há uma lógica interna que eu não domino por antecipação. Talvez por isso produza tão pouco. Ou melhor, assuma tão pouco o que escrevo. Há textos meus inteiros, finalizados, que eu não publicaria.</p>
<p><b>Você — Ainda neste tema, ou seja, continuando a pescar o mesmo peixe de Fellini, que influência o passado de escrivão de polícia tem na sua produção literária? Você já se aventurou no enredo policial?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Não. Mas a vivência já me deu matéria. <i>Aninhanha </i>tem dois fatos policiais que são a inspiração do livro. Uma mulher que deu à luz e enterrou o recém-nascido. Eu tomei o depoimento dessa mulher, uma moradora lá do morro do Macaco, aquele morro que desabaria durante as chuvas de 1985, provocando uma terrível tragédia. O outro é o caso de uma senhora da Praia do Canto que acha uma criança num terreno baldio e a acolhe, disposta a criá-la. Também o conto O relógio tem origem num fato policial. Não há como não passar a experiência do dia a dia.</p>
<p><b>Você — Perdoe-me a insistência, e, por favor, acalme qualquer possível exasperação felliniana. Para encerrar o inquérito policial: o escritor Rubem Fonseca foi recentemente descoberto, pela <i>Folha de São Paulo</i>, na pele de um ex-agente de polícia. E, na obra de Rubem Fonseca, muita vez, tintim por tintim, aflora seu passado de investigador criminal. Você renuncia à exploração desse filão? Por quê?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — O Grijó já me aconselhou a seguir por essa via, indicando que eu tenho um material fantástico nas mãos. Mas nunca fiz nada a jeito do típico romance policial. Nem quero fazer. Talvez seja a forma de manter uma saudável distância entre o que escrevo e o meu trabalho.</p>
<p><b>Você — Seu temário e sua linguagem podem ser classificados de regionalistas? Você gosta dessa classificação?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Não me agrada, mas também não me desagrada. Sou indiferente a tais rotulações. O <i>Aninhanha </i>é essencialmente urbano. A linguagem pode ter algumas experimentações morfológicas que confundem o linguajar típico do caipira. Mas o que é a maioria do favelado do Espírito Santo senão um caipira? Onde ele vivia até bem pouco tempo senão no mato? Acho que essa classificação revela que a escolha dessa linguagem foi mal compreendida. É evidente que estou escrevendo sobre o que está à minha volta. E acho que o romance <i>Menino </i>irá estimular ainda mais essa classificação. Contudo, eu não a considero aplicável a toda a minha obra. Acho a classificação imprópria, precipitada, mas não me preocupo com ela.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Os contos A questão e O relógio, junto a dois outros títulos, acompanham a novela <i>Vilarejo</i>, muito se aproximam do texto de Guimarães Rosa. Aliás, confirmando a escritura de Aninhanha. Se perguntado no vestibular se há marcante influência de Guimarães Rosa na sua produção a resposta é um redondo SIM? Fale dessa relação, do quanto ela é verdade ou apenas suspeição.</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Acho que é apenas suspeição. Só conheço do Guimarães Rosa os livros <i>Sagarana e Grande sertão: veredas</i>. Mas um editor carioca que analisou meus textos para possível publicação evidenciou “notáveis influências” de Guimarães Rosa. E usou isto para descartar a edição. Ora, se tem tanta parecença com Guimarães Rosa deveria mais é ser publicado, porque ele é muito bom. Mas não é somente por lançar mão de recursos morfológicos que alguém se assemelharia a Guimarães Rosa. Aliás, eu sou avesso a essa comparação. E também não vamos falar que eu e Guimarães Rosa bebemos da mesma fonte, porque isso é problemático (risos).</p>
<p><b>Você — Depois de <i>Menino</i>, que promete ser seu romance-terapia, Pedro Nunes começará a escrever sem sofrer?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Como <i>Menino </i>não haverá sofrimento igual. Mexer com o íntimo, com a ressurreição do passado, com as velhas cicatrizes, é sempre muito doloroso. Do sofrimento do texto, da obsessão do texto perfeito, todavia, não há como fugir.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — No meio literário capixaba há uma boa meia dúzia de escrevinhadores de São José do Calçado. É a água de lá ou milagre de São José operário?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Calçado tem fama de ser cidade triste; lá as pessoas são introspectivas. A sensibilidade é um dom de Calçado. Por isso a quantidade de pessoas que escrevem, pois lá se aprende a viver e a contar a vida. É também uma das poucas cidades do interior com Academia de Letras. Todos da minha geração liam muito. E onde há interesse pela leitura, há também o interesse pela produção.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — As aninhanhas, os rabudos, as gurileitoas, enfim, a fauna lobisomem que habita seus textos está em extinção? Ou você mantém escondida uma arca repleta de tais consumados casos?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — De maneira nenhuma; essa fauna não corre o risco da extinção. Tenho forte intenção, um incontrolável desejo, de lidar com esse imaginário. Carrego comigo o terror das histórias contadas nos serões, as histórias de assombrações que ouvia lá no sítio da família. Contadas para assustar as crianças, e que ficaram gravadas profundamente. Essas possibilidades horríveis, horrorosas, herança da prosa dos peões da roça, agora estão montadas na minha cabeça. Em <i>Menino </i>contei uma delas. Não se foi Dostoievski ou Tolstoi quem disse que devemos prestar atenção à nossa aldeia. Isso é o que faço. Se é regionalismo ou não, importa menos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Com o <i>Menino </i>no prelo, qual é o próximo caso?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Tenho vontade de escrever um livro para quem está na faixa etária de 14 a 16 anos. Os livros que tenho visto para essa faixa de idade são de péssima qualidade. Numa linguagem que eu reputo como pouco literária. Uma linguagem de informação e debate. Com certeza fugiria disso. Tenho muita empatia com essa faixa etária. Constatei essa sintonia nas minhas andanças pelos colégios para falar de literatura e dos meus livros. Mas os meus livros não são exatamente para esse público. Daí a minha vontade de escrever um livro para esse público, sem abrir mão daquilo que considero qualidade literária. Um livro que os respeite enquanto leitores.</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<div>
</div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Pedro José Nunes</b>, escritor,&nbsp;nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-jose-nunes-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p></blockquote>
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		<title>Aninhanha e Vilarejo e o discurso bíblico</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Marta F. Moreira]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Rita de Cássia V. B. Caldonho]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O texto a seguir, de Marta F. Moreira e Rita de Cássia V. B. Caldonho, professoras em Iriri e Iconha, respectivamente, faz parte da monografia que as autoras apresentaram no curso de pós-graduação Latu-sensu em Literatura Brasileira Contemporânea, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Madre Gertrudes de São José , em Cachoeiro de Itapemirim. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
O texto a seguir, de Marta F. Moreira e Rita de Cássia V. B. Caldonho, professoras em Iriri e Iconha, respectivamente, faz parte da monografia que as autoras apresentaram no curso de pós-graduação <i>Latu-sensu</i> em Literatura Brasileira Contemporânea, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Madre Gertrudes de São José , em Cachoeiro de Itapemirim. A intensa leitura dos dois livros de Pedro J. Nunes, <i>Aninhanha </i>e <i>Vilarejo e outras histórias</i>, ambos editados pela SPDC-UFES, resultou em um levantamento de surpreendentes constatações.O fato não representa apenas um avanço se pensarmos que alunos dos cursos de Letras passam a se interessar pela análise de autores do Estado, mas é significativo ao nos levar à conclusão de que a boa literatura produzida aqui tem atravessado a fronteira da Capital.]</p>
<p>As obras apresentam-se repletas de indícios que nos levam à Bíblia. A enunciação deixa-nos pistas muito visíveis que nos conduzem a esta releitura.</p>
<p>Tanto em <i>Aninhanha </i>quanto em <i>Vilarejo</i>, a parábola da mulher adúltera (João 8:1-11) é utilizada com a finalidade de estabelecer contratos interpretativos de absolvição do narrador (em <i>Aninhanha</i>) e condenação do povo (em <i>Vilarejo</i>) com os enunciatários.</p>
<p>A piedade dos homens. Ainda me lembro quando me bateu em pleno rosto a primeira pedra. (<i>Aninhanha</i>, p. 74)</p>
<p>Sucedendo a primeira pedra várias outras lhe bateram à fronte. (<i>Vilarejo</i>, p. 54).</p>
<p>No entanto, o diálogo com o discurso bíblico ocorre em paródia, já que a intimidação de Jesus na parábola consegue salvar, evitar o apedrejamento, enquanto que nas obras de Nunes ele ocorre de forma concreta ou psicológica.</p>
<p>Quem de vós não tiver pecado seja o primeiro a lhe atirar uma pedra&#8230; a estas palavras eles se foram retirando um por um, acusados pela própria consciência. (João 8:7)</p>
<p>Em <i>Aninhanha </i>encontramos uma passagem em que a personagem Louca Mansa, enquanto narrador-protagonista, se define como uma legião, lembrando o episódio registrado em Marcos 5, intitulado O possesso e os porcos. É como se a personagem se sentisse várias, fragmentada, possuída pelas forças que lhe impunham caminhos. É como se a culpa lhe inculcasse o desejo de sair de si mesma, de se atirar para a morte como os porcos no episódio bíblico.</p>
<p>O Hades. Meu nome seria legião, uma coletivo. A vara toda. (<i>Aninhanha</i>, p. 13)</p>
<p>Perguntou-lhe Jesus: qual é o teu nome? Respondeu-lhe: Legião é o meu nome, porque somos muitos. (Marcos 5:5)</p>
<p>Ainda em Aninhanha, a figura do magricela espetado nas ferpas das palafitas é descrita de forma a associá-la à figura de Cristo crucificado. Essa associação se dá numa visão interna do narrador que se identifica como o magricela, o seu avesso, e entende a sua morte como o fim de um calvário de humilhações.</p>
<p>Me ocorria a lembrança do morto e sua imagem de espetacrucificado. (<i>Aninhanha</i>, p. 51).</p>
<p>Louca Mansa também se compara ao próprio Jesus. O adjetivo mansa sugere cordeiro, designação dada ao Cristo. Ela também é vendida por trinta moedas de prata, traída por Aninhanha, seu judas, que também se enforca de remorso.</p>
<p>Tirou de uma greta as trinta moedas de prata. Olhava-me com insistentes olhares de piedade. (Id., p. 51)</p>
<p>Estendeu para mim as mãos cheias de dracmas&#8230; malditas sem brilho&#8230; rodopiou sobre si e lançou à podridão das águas as moedas lá longe. (Id., p. 72)</p>
<p>Numa árvore alta a corda ordinária suspensa o medonho corpo de Aninhanha&#8230; As mãos abertas, esticadas, a judas terrível. (Id., p. 74)</p>
<p>Na via sacra, a caminho do calvário, Jesus cai três vezes antes de chegar à crucificação final. Na obra, o homem do depósito, com a cumplicidade de Aninhanha, faz três tentativas antes de consumar o estupro. Os números três e trinta aparecem constantemente, confirmando essas ligações intertextuais com o discurso bíblico. O número três é tido pela numerologia como ícone de perfeição. No cristianismo, representa a trindade nas pessoas do pai (Deus), do filho (Jesus) e do Espírito Santo, o que simboliza a união perfeita. Na obra, há também uma referência a este fato, pois Louca Mansa une a sua vida passada, a sua vida presente e a expectativa da travessia fechando o ciclo, concluindo perfeitamente sua narrativa.</p>
<p>Dissolve-me em primeira pessoa abstrata. Eu ela e eu a trindade. (Id., p. 48)</p>
<p>Segundo a Bíblia, em Marcos 14:36, Jesus prevê seu destino e chega num momento de grande angústia a pedir que o cálice do sofrimento lhe fosse afastado.</p>
<p>Aba! Ó Pai! Tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Contudo, não se faça o que eu quero, senão o que tu queres.</p>
<p>Louca Mansa, durante toda a narrativa, pressente o seu destino e tem a sua confirmação com o surgimento do estranho homem que profetiza o desfecho de sua história. Ela também chega a hesitar, pensar em suicídio ou em ceder, mas acaba como Jesus, prosseguindo o destino traçado.</p>
<p>A figura de Pilatos, lavando as mãos diante da condenação de Jesus, excluindo-se da culpa, é também lembrada no diálogo com seu pseudo-interlocutor.</p>
<p>A piedade é o sentimento mais hipócrita que conheço. Os piedosos se lavam as mãos e dormem. (<i>Aninhanha</i>, p. 56)</p>
<p>A própria denominação Maria Trinta Cruzes, dada a Louca Mansa pelo homem misterioso, comparado ao Arcanjo Gabriel, no episódio da Anunciação (Lucas 1:26-36), revela a associação de Louca Mansa com a figura de Maria, mãe de Jesus.</p>
<p>Essa ponte intertextual também ocorre em forma de paródia, pois na história bíblica o anjo traz boas novas sobre o nascimento do Messias e é dada a Maria a chance de escolha, pois ela diz o sim ao que lhe foi revelado. O anjo Gabriel prevê um futuro grandioso para o fruto de seu ventre e para Maria. Na obra <i>Aninhanha </i>essa anunciação realizada pelo homem estranho, em forma de música, perturba a personagem, que não compreende bem sua mensagem e no decorrer da narrativa ela diz não a esse filho, a essa concepção que na obra não se dá por obra do Espírito Santo, mas através da violência de um estupro. O que possibilita a gravidez de Louca Mansa não é um sim resignado. Ao contrário do que acontece no discurso bíblico, o futuro do recém-nascido é a morte ou a condenação a uma vida de amarguras e mágoas como a de sua progenitora.</p>
<p>&#8230;venho imaginando como seriam os rostos de meus naturais pais, aqueles que do coito se disseram sim, porque tudo no mundo começa com um sim. (Id., p. 49)</p>
<p>Maria. Aria. Ria? &#8230; Cruzes? Não em mim o saber das cruzes&#8230; Adormeci de não sair da cabeça o som rachado de viola, o som de viola do louco só, ou anjo, ou Gabriel. (Id., p. 66)</p>
<p>No episódio em que Louca Mansa busca água no poço, a enunciação estabelece uma relação com a parábola da samaritana (João 4:1-42), pois a utilização da palavra cântaro é muito significativa, assim como o fato de estar indo ao poço buscar água, indo ao encontro de seu destino, sem culpas, e ao fato de a obra dar voz à mulher.</p>
<p>A mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àqueles homens: vinde e vede&#8230; não seria ele porventura o Cristo? (João 4:29)</p>
<p>Enchi vagarosamente a lata o pote (ou seria o cântaro, qual a melhor palavra?) e voltei. (<i>Aninhanha</i>, p. 63)</p>
<p>A passagem da obra que narra a morte do filho da Louca Mansa dialoga com a passagem bíblica que narra a morte do Cristo. Ao matar o próprio filho, a personagem anula-se a si mesma, morre existencialmente como humana, lúcida, e profere as mesmas palavras proferidas pelo Cristo.</p>
<p>Em suas mãos entrego o meu. (Id., p. 73)</p>
<p>Em tuas mãos entrego o meu espírito. (Lucas 23:46)</p>
<p>A frase incompleta, na obra, sugere que, ao entregar a vida do filho, entregava também o seu espírito, a sua vontade de viver. Como no relato bíblico, os fenômenos ocorreram revelando a profanação da verdade e as trevas da morte.</p>
<p>O que fazer da existência a existida que de mim tirei? Rompeu-se o véu e escureceu o escurecer necessário. (<i>Aninhanha</i>, p. 73)</p>
<p>Escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio. (Lucas 23:45)</p>
<p>Desta forma, tudo estava consumado segundo os desígnios de Aninhanha.</p>
<p>Consumados casos. (<i>Aninhanha</i>, p. 74)</p>
<p>Tudo está consumado. (João 19:30)</p>
<p>No entanto, como na Bíblia, ocorre uma ressurreição. O Cristo ressuscita após três dias, cumprindo as profecias e Louca Mansa recupera a lucidez no terceiro dia.</p>
<p>Três dias depois da primeira manhã &#8230; entre murmúrios e sussurrados dizeres atravessei as palafitas &#8230; que manhã era aquela? (<i>Aninhanha</i>, p. 73)</p>
<p>Louca Mansa recorda-se de sua atitude e volta à velha laranjeira, mas a cova estava vazia, assim como o túmulo de Jesus.</p>
<p>Encontrei a cova um buraco terrível .. Os urubus ainda esvoaçam na minha memória, os urubus e a cova vazia, vazia. (Id., p. 73)</p>
<p>Fica ao encargo do leitor imaginar o ocorrido: a possível morte do bebê, sufocado sob a terra ou a sua salvação graças a algum passante que estranhou a presença dos urubus e resgatou-lhe a vida. Nessa segunda possibilidade, menos provável, poderíamos imaginar o interlocutor como esse filho abandonado, ouvindo sua própria história muitos anos depois.</p>
<p>A própria vida das mulheres prostituídas também, de certa forma uma alusão às cruzes, ao calvário de cada dia, pois a palavra chagas, designando-lhes as feridas causadas pela vida promíscua, insinua o sofrimento de Cristo, pregado na cruz, de mãos e pés pregados, atados, impotentes.</p>
<p>Acha interessante que eu prossiga? Sejamos francos: a quem poderá interessar a ruminação, a danação dos tempos de uma mulher inútil como eu? (Id., p. 6)</p>
<p>O narrador-protagonista compara-se ao próprio Deus, quando utiliza as mesmas palavras do Gênesis que relatam a criação do mundo, para definir a sua narração, a criação de sua história, reunindo as lembranças.</p>
<p>&#8230; venho juntando peças quebradas, largadas no chão à mercê do recolher no meio do lixo, vim compondo a narrativa e decidi que assim se fizeram todas as coisas. Descanso no sétimo dia. (Id., p. 49)</p>
<p>Tendo Deus terminado no sétimo dia a obra que tinha feito, descansou do seu trabalho. (Gênesis 2:2)</p>
<p>Na obra <i>Vilarejo</i>, além da menção à parábola da mulher adúltera, podemos identificar na figura do rabudo, ou melhor, na imagem que o vilarejo faz dele, a relação com o diabólico, com o anjo mau, demoníaco, contrário a toda verdade sacramentada. Na verdade, ele realmente profana o senso comum, mas, ao contrário de sua aparência, é definido como manso, cordeiro, interiormente. Ele encarna o bem e o mal simultaneamente, assim como o próprio homem, barroco por excelência. Sua aparência exterior encarna o grotesco, o mal, mas seu interior revela a vontade.</p>
<p>A ponte intertextual entre a história do vilarejo e a bíblica começou a se tornar mais evidente quando o povo do vilarejo, para se redimir, condena o rabudo e o entrega como o apedrejador. Esse episódio é narrado quase na mesma seqüência em que é narrada a paixão de Cristo.</p>
<p>O rabudo é delatado por Zé Preá, que, de remorsos, definha e morre, assim como Jesus é delatado por Judas, que também morre através do suicídio.</p>
<p>Consta que ao saber do termo de tudo, não durou senão meses, vindo a falecer num estertor horrível. (<i>Vilarejo</i>, p. 49)</p>
<p>Os doutores da lei, os chefes dos sacerdotes que acusam Jesus são substituídos pelas figuras de Capistrano e Serafim, que, como os primeiros, também torceram a verdade a seu favor, incriminando um inocente, liderando a turba.</p>
<p>&#8230; muito embora seja possível que Zé Preá tivesse falado àqueles ouvidos naquela noite com inconsequente boca, os homens terão certamente transformado aquelas possibilidades em verdades irretocáveis, pois precisavam de uma verdade. (Id., p. 49)</p>
<p>O cortejo que traz o rabudo exposto até a frente do casarão lembra a prisão de Jesus e o seu calvário, sendo insultado e espancado, não reagindo. O próprio rabudo é designado como cordeiro, assim como Jesus. O cordeiro imolado para a redenção dos demais.</p>
<p>Descendo a rua em direção ao casarão vinham os homens, conduzindo um prisioneiro &#8230; homens empunhando varas, homens empurrando o prisioneiro com violência, outros aplicando-lhe vergas, com uma alegria feroz &#8230; O solitário tinha a parte visível do corpo bastante arranhada e com marcas de severas vergastadas&#8230; / Cabisbaixo nada dizia, não esboçava um gesto, um silêncio de monge &#8230; aos quais suportava como todo seu imenso poder de cordeiro. (Id., p. 51, 52, 54)</p>
<p>O Dr. Álvaro Veira, embora por razões diferentes, assume a mesma posição de Pilatos quando afirma em defesa do rabudo:</p>
<p>Esse homem é justo. (Id., p. 52)</p>
<p>E, da mesma forma que Pilatos, não consegue deter a multidão que exige a condenação do rabudo.</p>
<p>Seja crucificado! (Mateus 27:23)</p>
<p>Há de pagar pelas pedras, pelos ossos e pelos que dormem no cemitério&#8230; E para nós ele é culpado e deve morrer para os modos de justificar os nossos mortos&#8230; (<i>Vilarejo</i>, p. 53)</p>
<p>Numa livre interpretação da Bíblia, o criador errou ao criar o homem imperfeito, se, como o afirmado, ele criou à sua imagem e semelhança. As culpas dos homens, então, também se estenderam ao criador e, para salvar a sua criação da destruição era necessário pagar um preço, que seria morte do próprio filho Jesus. Da mesma forma ocorre em <i>Vilarejo</i>. Dr. Álvaro comete crimes, ultrapassa os limites e precisa pagar um preço, que no caso se traduz na morte de seu meio-irmão.</p>
<p>Jesus morre ao cair da tarde, assim como o rabudo. Jesus é enterrado num sepulcro de pedra e o rabudo é soterrado sobre o monte de pedras atiradas pela multidão.</p>
<p>Na Bíblia, antes de chegar o sábado, um homem rico chamado José de Arimatéia pede o corpo de Jesus e o leva para sepultar. Na obra quem se encarrega do sepultamento do rabudo é o negro Alcibíades.</p>
<p>Negro Alcibíades &#8230; não se sabe como, tomou-o entre os braços e, abraçando-o com dificuldade, pôs-se a arrastá-lo em direção à saída do vilarejo. (Id., p. 55)</p>
<p>Como na Bíblia, ocorre a ressurreição após o terceiro dia. Na obra <i>Vilarejo</i>, ela é sugerida através do sorriso inexplicável encontrado no cadáver do velho Alcibíades, que não retorna de sua última missão.</p>
<p>Seja como for, três dias depois encontraram o cadáver do negro Alcibíades num canto da estrada. Alguns atestam ter visto em seus lábios um sorriso inexplicável que nem mesmo o melhor funerário conseguiria extinguir. Enterrou-se lá com aquele sorriso de maus alvitres. Quanto ao rabudo, por assim dizer, alguns dão conta de havê-lo visto contra a lua em medonhas noites. (Id., p. 56)</p>
<p>A obra traz em suas últimas linhas o trecho final de uma oração, um fechamento perfeito para uma história estruturada no discurso bíblico.</p>
<p>Tudo para bem dos homens de boa vontade, e pelos séculos desta terra cravada entre montanhas indiferentes e flores estéreis. (Id., p. 56)</p>
<p>Para analisar o discurso bíblico foi utilizada a Bíblia Sagrada mediana, versão dos Monges de Maredsous pelo Centro Católico, na 66ª edição, editada pela Editora Ave Maria, SP, 1989.</p>
<p>
[Marta F. Moreira e Rita de Cássia V.B. Caldonho: &#8220;<i>Aninhanha</i>&nbsp;e&nbsp;<i>Vilarejo</i>&nbsp;e o discurso bíblico&#8221;.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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		<title>Os medonhos insucessos do Vilarejo e outras histórias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 21:09:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Deny Gomes]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os textos de Pedro J. Nunes — uma novela e quatro contos — reunidos em Vilarejo e outras histórias incluem-se no fluxo da produção verbal artística porque recebem e oferecem contribuições pessoais para o cabedal da Literatura, este misto de convenção tradicional e inovação, esta específica articulação de códigos para representar a realidade, esta concretização [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Os textos de Pedro J. Nunes — uma novela e quatro contos — reunidos em Vilarejo e outras histórias incluem-se no fluxo da produção verbal artística porque recebem e oferecem contribuições pessoais para o cabedal da Literatura, este misto de convenção tradicional e inovação, esta específica articulação de códigos para representar a realidade, esta concretização de novos e diferentes mundos e tempos na linguagem esteticamente trabalhada.</p>
<p>O livro, em sua unidade diversificada, cria mundos insólitos, fantásticos, absurdos, ligados numa forte teia de palavras em que velho e novo, mítico e histórico, universal e regional, sagrado e profano, sério e cômico, bem e mal estão em confronto e, ao mesmo tempo, integrados, provocando no leitor a boa e instigante dúvida que, como o riso, nos distingue dos irracionais. Ao criar esses mundos, o jovem autor capixaba realiza a fusão do discurso do sonho, da loucura, do mito, das narrativas populares produzindo um texto literário simbólico e revelador das profundidades do real que ele faz assomar.</p>
<p>Assim é no vilarejo, situado &#8220;sob a secular vigilância das rochosas montanhas&#8221;, paisagem árida onde os homens tentam afundar na desmemória, a &#8220;largos tragos de etílica felicidade&#8221;, o peso de suas torpezas. Entre eles, um forasteiro, o narrador sem nome querendo chegar &#8220;muito próximo a uma boa verdade sobre os homens e suas necessidades de conduzir a história.&#8221; Procurando vencer a conspiração do silêncio sobre os medonhos insucessos ocorridos no passado, o narrador realiza um cruzamento de códigos literários e culturais, numa estratégia que lhe possibilita romper o &#8220;pacto canalha&#8221; mantido pela gentinha ordinária do lugar e o coloca como analista impiedoso de uma sociedade estupidamente cruel.</p>
<p>O foco narrativo escolhido — em primeira pessoa, com visão parcial dos fatos e intensa subjetivização do relato — recurso técnico que aproxima a novela das narrativas autobiográficas e das estórias de mistério e suspense; o retorno à temporalidade ancestral e a exemplaridade das ações refletidas no tempo atual do enunciado, que instalam o mito no tecido narrativo; a recorrência às fontes orais, ao maravilhoso, a omissão do nome próprio de alguns personagens simbólicos — procedimentos típicos do conto popular; o uso de alegorias e de metonímias como as que povoam o discurso onírico; a atitude de incerteza quanto à veracidade dos fatos, que dá à novela traços das narrativas fantásticas, são alguns dos componentes do processo de produção, constituindo um jogo combinatório estranho e prazeroso.</p>
<p>Movido pelo &#8220;humano desejo de atingir o que além da fronteira de põe&#8221;, o narrador assume a dicção do cronista clássico que conta os medonhos fatos para a edificação das gentes. Entre irônico e filosófico, ele abre espaço para o leitor, tornando-o partícipe de suas descobertas e de suas dúvidas geradas pela falta de &#8220;notícias substanciais&#8221; e levando-o pelos meandros que dão &#8220;acesso ao território da abstração.&#8221;</p>
<p>E o leitor descobre no implícito do discurso literário que, no vilarejo, tudo é uma coisa e o seu avesso, tudo é paradoxo, cada um carrega o seu contrário e, talvez, seja esta a chave do enigma.</p>
<p>O Coronel Veira é o oligarca mandante de crimes, que freqüentemente exercia sua lúbrica rapinagem sobre as desamparadas passantes das estradas do vilarejo, mas é, também, o cagão, o covarde borra-botas que se esconde da estranha mulher que vem postar-se, grávida, frente à &#8220;casa limpa&#8221; dos Veira.</p>
<p>Dona Cininha é a <i>mater familias</i>, piedosa e bem posta, digna e caridosa, mas não deixará de ser um ridículo cadáver encarquilhado, cujos ossos terão de ser quebrados para acomodar-se no elegante esquife encomendado pelo filho, Dr. Álvaro, o Coronelinho.</p>
<p>Este &#8220;doutor de boas letras da Capital&#8221;, legítimo herdeiro dos bens materiais e dos indiscutíveis males morais dos Veira, é tido pela canalha do lugar como dotado de &#8220;modos afrangalhados&#8221; e dado a suspeitas amizades com jovens colonos de suas terras. Ele, porém, se casa e, ainda por cima, mantém uma bela mulata, a quem visita descaradamente, enquanto a esposa &#8220;martelava seu piano&#8221; com &#8220;os dedos demasiadamente pesados e desastrados.&#8221;</p>
<p>A mulher inominada, que chega, grávida e ameaçadora, rastejando como um bicho e se planta &#8220;inamovível feito posta pedra&#8221; em frente à branca casa dos Veira, sem implorar misericórdia, obstinada e &#8220;muito senhora de seus quereres&#8221;, esta personagem é, também, a &#8220;pobre mulher&#8221; que vai parir suas crias nas vastidões da Tronqueira, a terra do cão, onde nasce o rabudo.</p>
<p>Enfim, este ser de exceção, misto de homem e de besta, de horrível aparência mas de coração puro e compassivo, o rabudo é a expressão máxima dos paradoxos do vilarejo. Ele é o louco, o solitário, porém vive em paz com a natureza e com os animais, trabalha e conserva limpa e aquecida sua tapera; é o grande macaco, o Demo, o Próprio, mas é o Cordeiro, o inocente, acusado pelos fariseus que o odeiam por ser capaz de existir por si mesmo, longe das vilanias do vilarejo e a quem imputam a culpa pelo apedrejamento da casa da amante do Dr. Álvaro Veira.</p>
<p>Metáfora bíblica? Alegoria mítica? Visão pessimista do homem e de sua história? Tudo isto e muito mais emerge dos poderes verbais de Pedro J. Nunes, demiurgo do Vilarejo, capaz de conhecer as verdades e as falsidades daquela &#8220;gente ordinária que carrega seus crimes por trás de sorrisos sinistros, olhares dissimulados ou gestos incipientes.&#8221;</p>
<p>No conto O porco a narrativa alcança os níveis do relato fantástico. O mundo infantil, as &#8220;relações familiares&#8221; — tanto entre os humanos quanto entre os animais — fundamentam a estória, e a memória do narrador homodiegético organiza os fatos em um discurso expressivo, sem descambar para a pieguice dos que não dominam bem a criação de personagens infantis e sem resvalar para o simplesmente pitoresco.</p>
<p>Novamente se encontra o tema da zoomorfização e a violência acentua os estranhos comportamentos, todavia não há crítica social nem amargas ironias, como na novela que abre o livro.</p>
<p>O segundo conto, A questão, aborda o drama de consciência do narrador assediado por um desconhecido que lhe propõe o duplo assassinato de seus próprios irmãos. Cheio de ressonâncias rosianas — desde a atitude narrativa ao uso de arcaísmos e regionalismos, além das reflexões filosóficas pessoais sobre o eterno conflito entre o bem e o mal —, o conto mantém o clima de incerteza e de suspense, gerado pela modéstia fingida e suposta ignorância do narrador que se dirige a um interlocutor silencioso. Mistério e violência, fetichismo e fatalismo dão ao texto o fascínio da visão das profundezas do trágico destino da frágil humanidade.</p>
<p>A loucura, a ambição, o crime constituem os elementos temáticos essenciais de O relógio. Focalizado na terceira pessoa onisciente, o conto tem menos enigmas que os demais da coletânea. A curta duração da ação exige condensação e rapidez do ritmo narrativo, com elipses e poucos diálogos, impedindo o maior detalhamento da interioridade dos personagens.</p>
<p>A cena final, acentuada pelas violentas imagens do mundo íntimo do louco, tem seu realismo pesado amenizado pela surpresa que encerra o desfecho.</p>
<p>Se, em A questão, Pedro J. Nunes homenageia Guimarães Rosa, especialmente o de Grande Sertão: Veredas, A divisória, o último conto, insere-se na tradição machadiana, fazendo-o no diálogo intertextual — e não cópia — pela presença do defunto autor, pela citação dos mistérios que existem entre o céu e a terra, muitos mais &#8220;do que pode imaginar a nossa vã filosofia&#8221; (referência shakesperiana que abre o conto A cartomante), bem como pelo interesse do narrador pelos inusitados acontecimentos nos quais se envolvem misteriosas figuras femininas e o tom de amarga ironia filosofante característicos do maior romancista brasileiro.</p>
<p>A divisória é o único conto urbano do volume e consiste, quase todo, na transcrição de uma carta contando fatos sobrenaturais vividos por um funcionário público que se depara com seu próprio cadáver e sai a espantar as gentes, invadindo uma repartição pública e &#8220;fazendo voar de parede a parede milhares de folhas de papel.&#8221; Tal carta foi enviada ao suposto autor do conto por uma mulher não identificada e ele se lembra de ter lido notícias nos jornais sobre os acontecimentos relatados na carta. O embaralhamento entre o &#8220;real&#8221; e o conteúdo da carta, o delírio de que é tomado o autor da missiva, a passagem da lucidez à loucura, a amargura dos solilóquios em que ele se autoanalisa, a figura do homem desesperado que sabe que &#8220;já não interferia na ordem do mundo&#8221;, a rudeza de certas caracterizações de personagens, a incerteza de Francisco Sá sobre o lado da divisória em que se encontra, fazem do conto — virtuosisticamente trabalhado na fusão de dados do Realismo (Machado, Dostoievski) com os da Literatura Fantástica ou do Realismo Mágico (Murilo Rubião, García Márquez, Cortázar) — a comovente representação de uma atormentada existência humana.</p>
<p>A linguagem de Vilarejo e outras histórias merece, por si só, um cuidadoso e prolongado estudo que este espaço impossibilita. Basta que se atente para sua originalidade, suas sutilezas, para a propriedade e a riqueza vocabular, para os recursos figurados, os coloquialismos, o impressionante processo de adjetivação. Aqui nos limitaremos a destacar ainda os lacônicos comentários dos moradores do vilarejo, as descrições dos cenários compondo o clima de alucinação e loucura (particularmente em Vilarejo, O relógio e A divisória), o ardiloso monólogo do narrador de A questão e os ótimos diálogos que o permeiam como mostras irrefutáveis do talento e do domínio do material expressivo da Literatura na obra de Pedro J. Nunes. Um jovem autor capixaba digno de ser lido por todos os que, como nós, amam e respeitam a Literatura.</p>
<p>[Prefácio da 5a. edição de <i>Vilarejo e outras histórias</i>, o texto acima foi originalmente publicado na revista <i>Você</i>. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Deny Gomes</b>&nbsp;nasceu&nbsp;em São Luís-MA, em 1938, e desde a infância vive no Espírito Santo, em Vitória, cidade que considera como sua terra natal. Licenciada em Letras Neolatinas, pela PUC/RJ (1959), foi professora titular de Teoria da Literatura, na Ufes, por mais de vinte anos. Autora de diversas obras literárias e de crítica literária. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-deny-gomes/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>Entrevista de Pedro J. Nunes ao jornal Cidade Aberta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 21:03:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
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		<category><![CDATA[Revista Você]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>São José do Calçado tem tradição na literatura sempre confirmada, em nível estadual ou nacional. Pedro J. Nunes, filho da professora Ana Maria Costa Nunes e do agropecuarista José Benedito Nunes, aos 32 anos é considerado escritor revelação pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, que lhe conferiu um prêmio nessa categoria em 1993. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>São José do Calçado tem tradição na literatura sempre confirmada, em nível estadual ou nacional. Pedro J. Nunes, filho da professora Ana Maria Costa Nunes e do agropecuarista José Benedito Nunes, aos 32 anos é considerado escritor revelação pelo Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, que lhe conferiu um prêmio nessa categoria em 1993. Mérito de Vilarejo e outras histórias, um livro de contos bem recebido nos meios literários e acadêmicos do Estado. Em vias de esgotar-se a sua segunda edição, pensa-se na possibilidade de reeditá-lo para ser matéria do próximo vestibular da UFES. Autor de linguagem própria — o seu grande instrumento de trabalho —, atualmente dedica-se a escrever a autobiografia que deverá receber o título Menino. Uma iniciativa que ele mesmo considera precoce. Mas precocidade é a sua marca. É um jovem autor que produz textos clássicos como os grandes mestres — Machado de Assis, Dostoievski.</p>
<p>Vamos parar por aqui os elogios que muitas vezes o incomodam mais que o agradam, mas que são inevitáveis, porque além de ser uma unanimidade — só para desmentir Nélson Rodrigues, ele é calçadense e um amigo especial. Tanto que foi uma luta separar, em 90 minutos de gravação, nossas conversas da matéria jornalística. Porque ainda muito se vai ouvir falar de Pedro Nunes por este Brasil afora.</p>
<p>Cidade Aberta aproveitou um de seus dias de férias em Calçado e registrou impressões e opiniões de um camarada simples, disciplinado como escritor e como leitor de boas obras às quais dedica, rigorosamente, uma hora todos os dias. Avesso a badalações, numa concessão especial à filha Mariana, de 4 anos, frequenta parques e praças. Assim é Pedro. A propósito: Nunes é um adjetivo e significa ímpar.</p>
<div style="text-align: right;">
Débora Brasil</div>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
***</div>
<p>
CA: Calçado exerce alguma influência na sua obra literária?</p>
<p>PN: Sim, na medida em que tudo que a gente vive e sente influencia o que a gente escreve. Pensando assim, Calçado não poderia deixar de influenciar o que escrevo ou, pelo menos, boa parte do que escrevo.</p>
<p>CA: De que maneira?</p>
<p>PN: Ao descrever uma cidadezinha do interior, por exemplo. Em Vilarejo cheguei ao ponto de tomar emprestada a topografia de Calçado. Em A questão, que é também um conto ambientado no interior, é possível que eu tenha tomado emprestadas algumas trilhas em que andei aí pelos matos em companhia do vovô Pedro. Desta maneira Calçado me influencia. Quanto a sentimentos, eu não me lembro de nenhum que a cidade tenha me causado, talvez sejam sentimentos inconscientes, assim sendo, estão adormecidos, eu não os conheço.</p>
<p>CA: Quanto sentiu seu interesse pela literatura despertado?</p>
<p>PN: Desde sempre. Fui alfabetizado em casa por minha mãe, dona Anna Costa. Quando cheguei à escola já lia e escrevia alguma coisa, inclusive palavrão — minha primeira professora, dona Edith Brasil, descobriu no meu primeiro caderno um palavrão muito bem escrito. Isso dava poder. Na minha infância tive uma hérnia na virilha que me obrigava a ficar em repouso, a usar uma funda que a pressionava e me impedia de brincar como os outros meninos da minha geração. Nesse período, de dois anos, eu pedia livros a meu pai. Lia muito A Ordem (órgão oficial e noticioso da prefeitura de São José do Calçado), revistas e tudo que me batesse às mãos. Aos 14 anos trabalhei numa livraria em Calçado que teve a exata duração de três meses, durante os quais o proprietário não me pagou nem um salário, mas em compensação eu pude ler tudo o que havia lá. Ao fim do nosso contrato sugeri que ele me pagasse em livros e acabei levando para casa uma biblioteca — livros de Júlio Verne, Joaquim Manoel de Macedo, Machado de Assis (que na época eu considerava chato).</p>
<p>CA: Com que idade você começou a escrever?</p>
<p>PN: Com 9, 10 anos eu brincava de escrever livrinhos — eu os compunha e os costurava. Depois, aos 12 anos, a pedido da professora Clotildes, escrevi um diário de férias em que eu relatava até as besteiras que fazia na missa. Passei um período sem escrever, em outro compus poesias, nada de valor. Quando fui para Vitória, aos 19 anos, já havia produzido um romance, escrito aos 18 anos, e que eu considerava a minha obra-prima. Ainda o tenho guardado, mas por pouco tempo. Recentemente queimei uma pasta com os meus textos de infância e adolescência porque eles não tinham outro valor senão o afetivo. É o caso deste romance que, além de tudo, é muito amargo. Não suporto a ideia de ver tais coisas publicadas, vai que a gente desaparece de repente, sabe como é.</p>
<p>CA: Alguém o orientava ou incentiva sua vocação?</p>
<p>PN: Meu tio Sebastião Nunes um dia pegou um texto que redigi aos 14 anos e disse: &#8220;— Vamos publicar isto na &#8216;Ordem'&#8221;. Era um texto bastante católico, sobre os destinos da família, mas nele havia uma interjeição — porra! —, que levou meu tio a pedir a opinião de dona Nádia Rezende. Ela olhou aquilo e falou: &#8220;— Mas é o estilo do menino, Sebastião. Nós não podemos estragar o estilo dele&#8221;. Então meu tio decidiu que o &#8220;porra&#8221; seria publicado como &#8220;pô&#8221;. E publicou o texto. Mas há outra pessoa que me ajudou muito, não no sentido de me mostrar o que ler, mas de me fornecer a máquina de escrever — o professor Carlos Aurich. Ele foi muito importante para mim, éramos amigos e quando soube que ele morreu recentemente fiquei chateadíssimo.</p>
<p>CA: O fato de ser do interior pode dificultar uma carreira literária?</p>
<p>PN: Isto vai parecer um pouco grosso, mas a produção literária do interior, com honrosas exceções — e em Calçado há exceções —, é muito retrógrada. Ela muitas vezes é de um mal parnasianismo, pretensamente parnasiana em suas rimas e argumentos pobres porque as pessoas não se aprofundam no que fazem. Se a pessoa não ler, não sofrer o texto, vai ter dificuldades, sim. Agora, a pessoa do interior, ou não, que se disponha a conhecer o mínimo de literatura, a ler um pouco mais, a ter mais dedicação, vai chegar a um ponto em que poderá ser reconhecida.</p>
<p>CA: Acredita realmente que não exista nenhum preconceito, ou pré-conceito, contra o escritor do interior?</p>
<p>PN: Não. O que existe é o preconceito contra o novato. Você, quando inicia, é considerado um zero à esquerda. Eu segui o caminho dos concursos literários e tive a sorte de vencer um de peso, promovido pela Editora Brasiliense, que na época era uma das três melhores editoras do país. Eles divulgaram meu trabalho, inclusive através de distribuidores, então eu penetrei no campo literário com esse respaldo. E continuei tentando sobretudo aprimorar meus textos. Eu só mostrei um texto meu aos 25 anos e só publiquei meu primeiro livro aos 30, o <i>Aninhanha</i>, que por entraves burocráticos acabou sendo lançado depois de <i>Vilarejo</i>.</p>
<p>CA: Os jovens de Calçado geralmente são forçados a deixar a cidade em busca de oportunidade. Com você aconteceu a mesma coisa?</p>
<p>PN: Em 1980 eu fiz um concurso público e passei. Poderia ter ficado trabalhando aqui, mas eu me desencantei de Calçado com o que aconteceu aqui no Carnaval de 81, assunto sobre o qual não gosto de falar. [N. da R.: Pedro Nunes se refere ao assassinato de seu amigo César Brasil Di Giorgio, de 17 anos.] Calçado se tornou uma cidade violenta, aliás, sempre foi uma cidade violenta. Eu sempre via, em menino, adolescente, adulto morando em Vitória e agora. Toda vez que a gente vem a Calçado fica sabendo de coisas horríveis. As pessoas aqui precisam se amar mais, se respeitar mais, há tanta coisa bonita para se viver em Calçado e isto não está acontecendo. Eu poderia ter ficado aqui, mas não havia mais clima. Acredito que muitos jovens saíram de Calçado pelo mesmo motivo por que eu saí.</p>
<p>CA: Você retornaria hoje?</p>
<p>PN: Não, provavelmente não. Depois de 13 anos em Vitória eu me afeiçoei à cidade. Lá eu tenho amigos, a minha família, uma série de interesses e projetos pessoais e profissionais por desenvolver. Mas eu não deixo de dizer que Calçado para mim é o melhor lugar do mundo. Não falo isto com ironia ou com hipocrisia. Realmente gosto de Calçado. Ainda hoje de manhã, com o sol nascendo, fui caminhar e fiquei reparando as montanhas que cercam a cidade. Minha mãe às vezes observa que chego aqui e já não vou à casa de ninguém, que só quero andar pelo mato. Mas isto é o que Calçado reserva de melhor para mim. Não quero, contudo, que fique parecendo que apenas as matas e as montanhas me interessam em Calçado. Há os meus amigos, pessoas queridas que são parte do meu referencial de vida e a minha família, que é a coisa mais cara que tenho no mundo.</p>
<p>CA: Mas se você pudesse fazer alguma coisa por Calçado, por onde começaria?</p>
<p>PN: Meus empreendimentos são modestos. Não sei se estaria fazendo alguma coisa para Calçado com a minha literatura. Como membro do Conselho Editorial do projeto Escritos de Vitória eu procuro divulgar o trabalho de escritores calçadenses que residem lá, me preocupo em incluí-los nas nossas publicações. Nas palestras que faço pelo Estado, falo sempre de Calçado e no meu próximo livro, <i>Menino</i>, que é sobre as minhas memórias, sobre o que vivi aqui, estarei falando sobre a cidade e divulgando-a. Há algum tempo venho oferecendo, e já não sei a quem mais oferecer, um projeto que se constituiria da realização de palestras com escritores capixabas, que só cobrariam as passagens para vir aqui, porque a hospedagem eu me proponho oferecer. Eu também poderia vir para falar sobre literatura, mas até agora ninguém manifestou interesse nisto. O que posso oferecer a Calçado hoje, e a qualquer tempo, é a minha integridade, a minha boa vontade e a minha disposição em trabalhar.</p>
<p>CA: A impressão que se tem de sua obra publicada é que forma um conjunto. É proposital?</p>
<p>PN: É proposital, sim. Os meus textos invariavelmente são paradigmáticos — eles não se passam em lugar nenhum e podem se passar em qualquer lugar. E isto é intencional, pelo menos no que produzi até agora. Mesmo os planos literários que tenho para o futuro passam por aí, pela ideia de conjunto. Porém a linguagem de <i>Aninhanha </i>é diferente da de <i>Vilarejo</i>, no primeiro foi uma experimentação — eu queria mostrar serviço —, e Vilarejo já tem uma escrita mais simples, com exceção do conto A questão. Estilisticamente, não há composição de conjunto, mas como produção literária há, sim. Tanto que eu queria reunir <i>Aninhanha </i>e <i>Vilarejo </i>num só volume — seriam três histórias rurais e três urbanas —, mas os editores não toparam.</p>
<p>CA: O que você diria para os meninos de Calçado que querem escrever e para os que já escrevem? O que eles podem fazer com os recursos de que dispõem aqui?</p>
<p>PN: Ler é fundamental. Escrever sem ler é impossível, ninguém vai criar mais nada hoje em dia e se criar vai ser muito ruim. A literatura hoje não é senão uma imitação. O sujeito pode ser mais ou menos criativo, mas vai ter de passar pela leitura. E leitura é uma coisa meio complicada porque nem tudo o que se lê é literatura. Paulo Coelho, por exemplo, não foi e nunca será literatura. Assim como Sidney Sheldon e outros nomes que na verdade são firmas que se dedicam à fabricação de <i>best-sellers</i>. Então comecem por coisas nossas mesmo: leiam Iracema, de José de Alencar, leiam Machado de Assis, Graciliano Ramos — autores que ensinam a escrever. E Padre Vieira. Se têm saco e querem escrever, serão capazes de ler Padre Vieira e encontrar prazer nessa leitura — ele é o escritor mais elegante que eu conheço. Isto tudo está aí, ao alcance de todos, na biblioteca pública. Além de ler, devem escrever muito e procurar a companhia de pessoas experientes e se submeterem às críticas, porque elas também ajudam.</p>
<p>CA: E você, preocupa-se com a crítica ou com os críticos?</p>
<p>PN: Não, não me preocupo. O meu livro <i>Aninhanha </i>foi muito bem recebido por algumas pessoas e mal recebido por outras. Eu não me preocupei com nenhuma dessas opiniões porque quando escrevo penso muito em mim.</p>
<p>CA: Se você não vai ter vergonha daquilo.</p>
<p>PN: Se eu não vou ter vergonha daquilo. É um bom parâmetro, algo em que eu ainda não tinha pensado. Eu escrevo e digo: isto aqui vale a pena, isto é bom, este é razoável. Nunca acho que escrevi uma obra-prima, bem, achei aos 18 anos. Mas a gente sente alguma coisa quando o texto é bom. Quando terminei de escrever Vilarejo, eu disse: puxa vida, isto é um texto legal! Foi um conto que me tomou. A minha primeira intenção era prestar uma homenagem ao vovô Pedro Nunes, mas o livro foi andando. E realmente aconteceu. Foi um livro muito bem aceito, tenho ouvido boas coisas sobre Vilarejo nas palestras que tenho feito por todo o Estado. Quanto à crítica, especializada, eu acho que deveria existir, porque ela forma o escritor. Haveria menos porcaria publicada se houvesse mais espaço para os críticos, se houvesse bons críticos como foram Cavalcanti Proença, Afrânio Coutinho. O que há, na maioria das vezes hoje, é a rasgação de seda, o poderio econômico, o lobby das editoras. A crítica não me comove porque ela não existe.</p>
<p>CA: Na sua opinião, para se escrever um bom texto, é necessário mais inspiração ou mais transpiração?</p>
<p>PN: O meu processo de composição é peculiar. As ideias me aparecem da maneira mais engraçada — ou é um sonho, ou um fato que leio nos jornais, ou uma coisa que percebi de repente. Depois disto, fico com aquela ideia na cabeça, até que começo a escrever. Aí, sim, eu faço uma versão a mão — o copião, o esqueleto. Depois passo aquilo para a máquina de escrever e aí é o sofrimento. É um tal troca palavra, tira uma palavra daqui, coloca ali. Eu me preocupo muito com a forma do que escrevo, com a ideia precisa do que estou pensando e não, necessariamente, com o que o leitor quer ou precisa ouvir. Escrever é este sofrimento mesmo, atávico, é sofrer as letras, conhecer as palavras, ser íntimo delas.</p>
<p>CA: Tocar em certas feridas.</p>
<p>PN: Da gente e dos outros. Tocar em feridas é ótimo, é o princípio da ironia. Você toca na ferida de uma pessoa e só ela vai entender, a ironia tem dessas sutilezas, senão é sarcasmo.</p>
<p>CA: E quanto às famosas porcentagens de inspiração e transpiração?</p>
<p>PN: Tem de haver o compromisso com a palavra. Esta questão da transpiração traduziria bem isto. Porque escrever não é só você sentar diante de uma mesa, sob o patrocínio de uma xícara de chocolate quente, se é inverno. Escrever não é esta coisa romântica que algumas pessoas idealizam. Escrever não é elegante, é preciso transpirar.</p>
<p>
[Entrevista de Pedro J. Nunes ao jornal&nbsp;<i>Cidade Aberta</i>, de São José do Calçado, ES.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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		<title>Depoimento de Pedro J. Nunes ao Neples</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 20:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ficha pessoal Nome: Pedro J. Nunes Data de nascimento: 8 de janeiro de 1962 Formação acadêmica: Letras-Português, UFES, 1991 Profissão: Funcionário público estadual Bibliografia Aninhanha, romance, SPDC-UFES, 1992 Vilarejo e outras histórias, novela e contos, SPDC-UFES, 1992 Com outros autores: Palavras da cidade, PMV, 1986 Jovens contos eróticos, Brasiliense, 1987 Mulheres &#8211; diversa caligrafia, Cultural-ES, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
<b>Ficha pessoal</b></p>
<p>Nome: Pedro J. Nunes<br />
Data de nascimento: 8 de janeiro de 1962<br />
Formação acadêmica: Letras-Português, UFES, 1991<br />
Profissão: Funcionário público estadual</p>
<p><b>Bibliografia</b></p>
<p><i>Aninhanha</i>, romance, SPDC-UFES, 1992<br />
<i>Vilarejo e outras histórias</i>, novela e contos, SPDC-UFES, 1992</p>
<p>Com outros autores:</p>
<p><i>Palavras da cidade</i>, PMV, 1986<br />
<i>Jovens contos eróticos</i>, Brasiliense, 1987<br />
<i>Mulheres &#8211; diversa caligrafia</i>, Cultural-ES, 1996</p>
<p><b>Breve nota biográfica</b></p>
<p>O J. é de José, avô materno, e Pedro, de Pedro Nunes, avô paterno.</p>
<p><b>Onde nasce uma pessoa?</b> No meu caso, nasci, acidentalmente, em Ibitirama, município de Alegre, ES. Provavelmente fui fabricado também lá, já que nasci onze meses depois do casamento de José Benedito Nunes e Anna Maria Costa Nunes. Nove meses depois me transferiram para São José do Calçado, onde acredito haver realmente nascido. Não guardo desse período de nove meses senão lembranças das estradas lamacentas que ligavam Ibitirama a São José do Calçado — minhas memórias da infância mais profunda são tão recentes que chegam a ser importunas. A infância em São José do Calçado inaugurou uma cidade de ruas nuas e pequeninas águas fétidas — fiapos de esgoto a céu aberto —, paisagem adjacente à casa de meus avós maternos, por sua vez vizinha do Buraco Quente, rua fria que misturava casebres de retirantes rurais e senhoras de abraços venais.</p>
<p>Primogênito de uma prole de cinco irmãos, minha mãe decidiu que eu aprenderia a ler aos seis anos. À custa de muitos beliscões e dissabores, conseguiu o intento. Quando entrei para o Grupo Escolar Manoel Franco, onde fiz as séries iniciais, já conhecia as palavras e estava totalmente seduzido por elas. Meus índices de palavras incluíam palavras sonoras e algumas obscenidades. Odiava algumas palavras, entre elas remorso, violeta e anilina. É desta época minha simpatia pelo palavrão falado e escrito, uma demonstração de vivacidade da língua, de evolução. Uma corruptela deliciosa — fidaputa — frequentava a boca de meu avô materno, Zé do Deco, e logo começou a frequentar a minha. Isso, é claro, causou uma série de pequenos incidentes domésticos e terminou por transformar-me num ser à parte, uma figura aparentemente frágil que ficava rabiscando nomes de ruas e palavras desconhecidas cuja compreensão ia buscar num velho dicionário guardado no fundo da gaveta — era impresso em papel bíblia razoavelmente corrompido.</p>
<p>Uma hérnia na virilha viria aliar-se ao fascínio que as palavras exerciam sobre mim. A doença transformou-me num ser necessitado de cuidados a quem foram oferecidos mimos em excesso, só pra manter uma funda pressionando uma fissura que teimava em não se fechar. Três anos consumiu a doença. Depois disso desapareceu e deu sumiço à funda. Nesse período, quando meu pai ia a Itaperuna adquirir provisões para casa e para o sítio, pedia-lhe livros, e então começaram a surgir brochuras de clássicos adaptados. O primeiro livro de texto integral que li foi <i>Robinson Crusoé</i>, de Defoe. Devia ter doze anos. Daí seguiu-se uma longa lista de autores: Julio Verne, Maria José Dupré, Homero Homem, Ofélia e Narbal Fontes, José de Alencar, Machado de Assis e Joaquim Manoel de Macedo, entre outros. O primeiro livro que tomei de empréstimo a um tio, Sebastião Nunes, uma leitura de obrigação, pois tinha de devolver o livro lido, foi <i>Memórias de um sargento de milícias</i>, de Manuel Antônio de Almeida. A impressão da leitura obrigatória, a que se somaram alguns livros de Machado de Assis, José de Alencar e Camilo Castelo Branco — livros adotados nos estudos secundários — só se desfizeram com uma segunda leitura do livro, já na minha fase adulta.</p>
<p>Trabalhei numa livraria por três meses, em São José do Calçado. Minha primeira profissão. Era o único funcionário, por isso não posso definir-me como gerente ou balconista. Enfim, fazia mal as duas coisas, pois a leitura interrompida pela chegada de algum freguês aborrecia-me bastante e eu o demonstrava. Talvez meu comportamento tenha sido elemento significativo na falência da livraria. Além disso, o proprietário ia mal, tinha umas questões conjugais sérias com a esposa, uma bela moça que devia estar distribuindo olhares, e ele, que não era lá essas coisas, revelava-se bastante ciumento. Um sujeito obeso, babão e sujo não devia agradar a tão melíflua criatura. Seja lá o que tenha acontecido com a vida conjugal dos dois, meus três meses de salário foram pagos com livros. Zeloso de meu crédito, creio haver levado para casa mais exemplares do que suficientes para quitação da dívida, e terminei formando minha primeira biblioteca com uma razoável quantidade de volumes.</p>
<p>Com a livraria fechada, uma possibilidade fascinante surgiu: o reembolso postal. Como eu lia qualquer coisa, inclusive as fotonovelas de minhas tias, descobri o reembolso postal nas páginas das revistas. O primeiro livro que adquiri — guardo-o até hoje — foi <i>Deus existe: eu O encontrei</i>, de André Frossard, secretário do partido comunista francês. Embora o autor não explique razoavelmente como O encontrou, o livro é delicioso. Os convertidos são incômodos, disse Bernanos. A primeira frase do livro me seduz ainda hoje. Mas o autor por que mais me apaixonaria, e que viria até mim também pelo reembolso postal, seria Dostoievski. A voz subterrânea, lida aos quinze anos, abriu um mundo de possibilidades, um mundo furioso, frenético. A essa leitura, prematura, somaram-se as leituras de <i>Crime e castigo</i>, <i>Noites brancas</i>, <i>O duplo</i>, <i>Pobre gente</i> e vários contos da fase inicial de Dostoievski.</p>
<p>Uma conversão que continha vários motivos, inclusive uma enorme inquietação espiritual, levou-me a uma primeira leitura completa da Bíblia, na tradução de João Ferreira de Almeida. Creio haver sido essa primeira leitura da Bíblia, e aí se incluem as que sucederam ao longo dos anos, a mais arrebatada. Li-a inteira por duas vezes, e fiz meia dúzia de leituras do Novo Testamento, isso sem contar o retorno a páginas abertas ao acaso e a uma obsessiva leitura do Livro de Jó.</p>
<p>Em 1981 mudei-me para Vitória, onde estou desde então. Dez anos depois me formaria em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo, tomado de uma certa perplexidade e dono de um diploma com que não sabia o que fazer.</p>
<p>
<b>O escritor e seu ofício</b></p>
<p>Nenhuma matéria senão a fortemente dramática me interessa. A miséria humana, a degradação social, as estranhezas, os caminhos perpendiculares, eis aí minha matéria, trabalhada com um certo prazer risonho: se o que escrevo não possui certa dose de humor negro que talvez só eu entenda, não me serve.</p>
<p>No fim de Séc. XIX, Górki condenou o livro de Dostoievski,&nbsp;<i>Os possessos</i>, afirmando que tal livro era terrivelmente nocivo à Revolução Russa, que germinava. Difícil acreditar em tal possibilidade, tanto mais que Górki devia ser tão lúcido quanto bom escritor — é o mais insuportável dos autores russos. O fato é que por causa dessa e outras questões que ligavam o notável escritor russo a ideias conservadoras, Dostoievski ficou esquecido na Rússia e no resto do mundo até os anos 50.</p>
<p>Sempre me lembro desse fato quando penso em ajeitar à minha produção literária alguma função que a justifique. Por considerar isso matéria coberta de névoa, desisti de arranjar-lhe qualquer função nobre senão o entretenimento de um e outro, principalmente do autor. Uma coisa, no entanto, é inegável: após reler meus textos, todos eles, inclusive os inéditos, foi fácil encontrar ali uma profunda descrença na espécie humana.</p>
<p>Escrevo quando tenho um desfecho dramático. Não sei escrever sem isso. A partir daí, tenho um enorme cuidado com o primeiro capítulo de um romance ou com os parágrafos iniciais de um conto. Depois tudo pode acontecer, já que não há um esboço, notas prévias, nada. As necessidades vão sendo supridas com eventuais pesquisas ou com a busca desesperada de uma ideia que complemente a última. No que escrevo há um incessante processo de memória que busca fatos esquecidos e os acha num canto do tempo de modo a se ajustar perfeitamente ao que vem sendo tramado. Eventualmente ocorre de a ideia de um conto ou novela ir se formando lentamente em minha mente: quando dirijo, quando caminho, quando tomo banho, elas vão se agregando, tomando rumo — às vezes inesperado.</p>
<p><i>Aninhanha</i> nasceu de dois fatos policiais distintos, ocorridos no espaço de dez anos um do outro. O conto O relógio também surgiu a partir de um fato policial. A divisória, a partir de um sonho. <i>O porco</i> veio de um fato ocorrido na infância, na propriedade de meu pai em São José do Calçado. <i>Vilarejo </i>também tem um forte teor de crônica familiar, um vínculo cuja compreensão só o meu processo de criação esclarece a mim mesmo. A questão veio do meu hábito de conversar com as pessoas mais humildes de minhas relações (Enfim, nunca rejeito uma conversa, seja ela de qualquer nível. Ocorre que um pedreiro trabalhava em minha casa e após o almoço parava para ficar olhando pro nada. Era curioso aquilo, mascando um capim e olhando pro nada. Um dia juntei-me a ele num cigarrinho da digestão. E nessa oportunidade ele me ofereceu a matéria-prima do conto, um caso ocorrido com ele num passado de mascate.). Finalmente, a matéria mais cara me surgiu da infância. A professora Deny Gomes certa feita me disse, entre um café e outro, que tinha uma forte suspeita de que minha infância era um poço de forte memória, aonde eu sempre ia beber. Não posso negar. <i>Menino</i> é mostra disso. Minhas memórias nesse livro são tão fortes que ferem.</p>
<p>Essa matéria original, quase sempre real, sofre tamanha transformação durante a escrita que é impossível reconhecê-la. Agregam-se a ela pequenas distorções e percepções e vai se formando um mosaico a caminho de um desfecho já conhecido. Não posso dizer que delineio capítulos, trechos, nada. Não há uma estrutura antecipada. Existe uma ideia central, um fio que somente eu conheço, um lume.</p>
<p>O último processo disso tudo é a linguagem. Há que ajustar-se também ao tipo de narrador, que quase sempre prefiro em primeira pessoa — o que me deixa muito mais à vontade para abusar dos recursos da linguagem. <i>Aninhanha</i> é o exemplo mais evidente dessa busca da linguagem adequada. A primeira versão, merecedora de menção honrosa no concurso literário da FCCAA de 1987, foi escrita em trinta dias. Durante os cinco anos seguintes, passei reescrevendo <i>Aninhanha</i>, palavra por palavra, frase por frase. A lápis, em letra minúscula para render na hora da datilografia. Ainda quando recebi a prova final do livro, fiz inúmeras alterações. Quando <i>Aninhanha </i>saiu em 2ª edição, outras alterações foram feitas.</p>
<p>O narrador de <i>Aninhanha</i>, uma mulher miserável e sem nenhuma cultura, requeria uma linguagem peculiar. A primeira providência foi &#8220;quebrar&#8221; alguns processos sintáticos. A isso agregou-se o valioso auxílio de incipientes rudimentos de semântica e morfologia, passando por aproveitamento de vícios de linguagem e subversão da pontuação, entre outras providências. Acreditava, com isso, caracterizar a rudeza da linguagem de uma narradora que parecia possuir razoáveis recursos linguísticos inexplicavelmente adquiridos. Creio, a julgar pela receptividade que <i>Aninhanha </i>mereceu nos meios acadêmicos, que a experiência deu certo. O mesmo processo, com menor intensidade, seria utilizado para a construção da linguagem do narrador de A questão.</p>
<p>Embora a linguagem do narrador da novela <i>Vilarejo </i>seja infinitamente mais simples do que a de <i>Aninhanha </i>e A questão, algumas providências tiveram também de ser tomadas. Imaginei esse narrador como um senhor de idade avançada, um homem solitário, curioso e lúcido, muito interessado na história da pequena vila onde residia. Um tabelião aposentado talvez componha a melhor imagem que fiz dele, um parnasiano de província, um literato de alcova. Isso fez com que aparecessem no texto alguns arcaísmos e algumas estruturas sintáticas pouco em moda. Interessante é que isso parece ter sido feito de forma tão fiel que quando eu comparecia a eventos literários para falar do livro, principalmente nos cursinhos preparatórios para o vestibular, os professores ou os alunos estranhavam a minha idade. Alguns chegavam mesmo a admirar-se, e manifestavam essa admiração: &#8220;Mas a impressão que tive do autor de <i>Vilarejo </i>é de que se tratava de um velho.&#8221; Os outros contos do livro <i>Vilarejo e outras histórias</i> (O porco, O relógio — o único do livro narrado em terceira pessoa — e A divisória), por não requererem tais providências, têm linguagem de construção bem menos complexa.</p>
<p>Embora essa simplicidade na linguagem se repita no romance <i>Menino</i>, esse livro requereu um cuidado especial. O projeto todo, desde o início, consistia em construir um texto que não permitisse passar a menor sombra de pieguice. O narrador de <i>Menino </i>não é um adulto com saudade da infância, não é nenhum nostálgico. Pelo contrário: adulto, talvez, esse narrador trava uma profunda luta interior com o menino que esperneia dentro de si. E aí aconteceu algo extraordinário, um regalo do acaso: a linguagem do narrador desse livro, embora se caracterize por um razoável conhecimento linguístico, não consegue omitir o fato de que quem está ardendo nas labaredas da trama não é ele, mas o menino que ele foi, com todos os sentimentos típicos de menino.</p>
<p>De qualquer forma, a construção de um livro, para mim, é um longo processo profundamente individualizado. A única experiência acumulada é o manejo das frases e o domínio de um razoável vocabulário ativo. Quanto à estrutura, à linguagem, à escolha do narrador e outras providências, cada livro tem sido uma experiência nova — tanto quanto seja possível sê-lo. Isso não me permitiria afirmar que possuo um &#8220;estilo&#8221;, essa palavra de significado tão vário. Em <i>Aninhanha </i>chego a cometer alguns &#8220;pecados&#8221; contra a qualidade do estilo estabelecida por alguns gramáticos. Abuso de colisões e aliterações, algumas frases possuem construção obscura, dou à escrita um ritmo precipitado, espumento, colérico, tudo imposto pelas necessidades da narradora, para quem sua própria história urge. Embora isso não permita estabelecer um estilo, uma certa uniformidade na escrita, a busca em manter uma linguagem típica para cada tipo de narrador é um processo extremamente excitante, torna todo o processo de escrita muito mais atrativo para mim.</p>
<p>Não escrevo sempre, não possuo essa regularidade. Espanta-me que alguém escreva uma ou duas horas por dia, ou escreva a manhã toda. Escrevo quando tenho necessidade, quando uma ideia ricocheteia contra as fronteiras de minha cabeça. Essas idéias, longe de serem inspiração, são fruto de um intrincado processo imaginativo. Os fatos vão se acumulando e se combinando até formarem o corpo de uma história possível de executar. Se ela me atrai, escrevo. Se não, a ideia é abandonada. Qualquer das duas possibilidades requer um processo dolorido e lento. Se me divorcio de uma ideia, todavia, ela pode voltar a qualquer momento.</p>
<p>Tenho, é inegável, profunda atração pela linguagem bíblica. Apropriei-me disso quando escrevi <i>Aninhanha </i>e <i>Vilarejo</i>, em cujos textos isso se manifestou de forma mais evidente, e reconheço que há sempre referências bíblicas em quase tudo que escrevo. Os escritores que mais admiro são Dostoievski, Machado de Assis e Graciliano Ramos. Em Dostoievski o que mais me chama a atenção é a manifestação mais profunda de suas experiências humanas, terrivelmente pessoais, em seus livros, em suas personagens e seus caminhos perpendiculares. O notável escritor russo é ele mesmo em toda a sua obra, em todas as suas personagens. Isso, embora se torne mais evidente nos livros <i>Recordação da casa dos mortos</i>, <i>O jogador</i> e <i>Os irmãos Karamazovi</i>, pode ser constatado em tudo que escreveu. As atitudes de suas personagens não são previsíveis. Um leitor atento de Dostoievski jamais poderá se acomodar a caminhos fáceis. Tudo é possível. Isso é tão excitante que molha as mãos. Dostoievski é um escritor que não rouba apenas o tempo de seus leitores, mas embrenha-lhe na alma. Machado de Assis é, sem dúvida alguma, nosso maior e mais impiedoso analista social. Não há como lê-lo sem rir da espécie humana. Nisso, precisamente, está sua força. Quanto a Graciliano Ramos, cujos livros releio à exaustão, lá está também o provinciano rindo de sua aldeia. Mas o que mais me atrai neste extraordinário escritor é sua prosa contida, seus processos sintáticos, sua precisão psicológica.</p>
<p>Negar a influência dos textos bíblicos e da escrita desses autores aí citados em tudo que escrevi seria infrutífero. Há no conto A divisória uma profunda influência, uma relação quase de paráfrase, com a novela O duplo, de Dostoievski. Aproveito-me, ainda, em sua escrita, de fortes referências machadianas.</p>
<p>Costumo dizer que escreverei pouco. Na verdade, a leitura me atrai muito mais. Creio que poderia encerrar este trecho com a afirmação de que, no meu caso, meus livros, os que escrevi, estou escrevendo ou escreverei, são subproduto da leitura.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>O leitor e a literatura</b></p>
<p>Preocupo-me razoavelmente com meu leitor. Fosse eu um escritor de solilóquios, melhor me seria nunca haver publicado um só dos meus livros. No entanto, é bom deixar claro, mesmo porque há de se considerar tudo o que disse anteriormente, mantenho fidelidade quase absoluta à estrutura de meus livros.</p>
<p>Qualquer dos meus leitores não se escandalizará se ouvir minha afirmação de que eu sou, em síntese, um contador de histórias. Não escrevi um livro que privilegiasse meros exercícios literários em desfavor de uma boa história. É bom que se diga que contar uma boa história é a parte mais importante de meu processo de produção. Isso, talvez, me permita uma certa liberdade quando estou produzindo, porque atrás de uma linguagem cuja elaboração pode a princípio assustar há fatos atraentes enquanto enredo acontecendo.</p>
<p>Meus livros têm sido bem aceitos. <i>Aninhanha </i>virou objeto de análise nos cursos de Letras, especialização e até mestrado em Literatura. <i>Vilarejo </i>foi lido por jovens de 16 anos, pouco mais, pouco menos, que manifestaram certo prazer em havê-lo lido. A crítica literária, embora incipiente, a crítica literária disponível, melhor que se diga, manifestou-se positivamente quanto a meus livros.</p>
<p>O que se lamenta é vermos que existem sobre a Literatura algumas nuvens negras. O hábito da leitura já não faz parte da vida das pessoas que vivem numa época urgente como a em que vivemos. O futuro dos livros, da poesia, do teatro, da música tradicional, das manifestações artísticas e da cultura mais específica de uma comunidade se confundem no vendaval de mediocridade do nosso tempo. Tudo é muito fátuo. Nosso tempo é um carrossel enfurecido. Algumas manifestações artísticas parecem ser conduzidas pela resistência dos últimos soldados. Felizmente.</p>
<p>Na última década, a literatura produzida em Vitória foi para o interior. Saímos por aí por além eu mais o Reinaldo Santos Neves e o Joca Simonetti &#8220;mascateando&#8221; (a palavra é do Reinaldo) a revista <i>Você</i>. Por conta disso, <i>Vilarejo</i>, a edição verdinha, encartada na revista, foi totalmente esgotada em menos de um mês. Antes disso, bem antes, talvez, ouvíamos notícia de que a poeta Deny Gomes ia lançar seu livro no interior do Estado. Havia também o projeto Escritor na cidade, que a Biblioteca Pública Estadual promoveu em convênio com a Biblioteca Nacional e que levou vários escritores residentes em Vitória para falar de seus livros pelo interior. O interessante nisso tudo é que a solidariedade entre os autores capixabas se revelou muito maior do que poderia supor nossa vã filosofia. Todos nos falávamos muito bem uns dos outros, desde que merecêssemos, é claro.</p>
<p>Mais não digo. Ou melhor, digo. Creio que há grandes escritores no Espírito Santo produzindo ao lado de escritores incipientes. Há grandes promessas entre os novos, há talentos que germinam, mas há quem deveria ter desistido há algum tempo. Apesar dessa fatura irregular, há, todavia, lugar para todos. Importante é que se produza. Talvez a mais importante função do escritor seja a de registrar as impressões que sua época lhe causou. E nisso estamos todos envolvidos. O processo de seleção, de qualquer forma, é impiedoso: está por conta daquele a quem mais interessa o livro, o leitor.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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		<title>Poemas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 20:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>DAS PÁGINAS DE SAL Sextina Senhor, não sou digno que o poema adentres. São folhas de outono e dor os meus olhos no anúncio de Tua luz. O cárcere, a escuridão, a imagem Gasta é tudo que me resta, o meu cântico Tem apenas o pulsar do mistério. O hálito da alcova, este mistério forjado [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
DAS PÁGINAS DE SAL</p>
<p><i>Sextina</i><br />
<i><br /></i><br />
<br />
Senhor, não sou digno que o poema<br />
adentres. São folhas de outono e dor<br />
os meus olhos no anúncio de Tua luz.<br />
O cárcere, a escuridão, a imagem<br />
Gasta é tudo que me resta, o meu cântico<br />
Tem apenas o pulsar do mistério.</p>
<p>O hálito da alcova, este mistério<br />
forjado em janeiros, este poema<br />
em fúria, tudo decompõe um cântico<br />
em sombras e reticente uma dor<br />
improvável. Posta na areia a imagem<br />
gasta, a página vagará em luz.</p>
<p>É mesmo possível, Senhor, que a luz<br />
seduza a noite e do pó o mistério<br />
se levante e desfaça de Tua imagem<br />
o susto. As sombras, o meu poema<br />
desesperado fará luzir, dor<br />
e retina ressoarão num cântico</p>
<p>primávero e de flor em flor o cântico<br />
de Teus anjos encherá de boz luz,<br />
forjada a vigília e contas, a dor<br />
do cárcere. Clarefeito mistério,<br />
Tua presença tornará o poema<br />
um vale fértil, e feliz a imagem</p>
<p>Do meu rosto no Teu. Senhor, imagem<br />
una seremos na derme do cântico.<br />
Lavro nas cinzas do verbo o poema<br />
possível, o verbo se fará luz,<br />
retiro da inquietude algum mistério<br />
e desfaço, verônica, esta dor</p>
<p>de existir. Tuas mãos na apócrifa dor<br />
é bom fermento, ágata, é imagem<br />
de cheiro suave. Desfeito o mistério,<br />
os janeiros desintegram num cântico<br />
as palavras vãs. Decomposto em luz,<br />
recebe em fel, em ferro, meu poema.</p>
<p>Dilui no poema a sublime dor,<br />
ausente da luz, a pálida imagem<br />
galgará no cântico o seu mistério.</p>
<p>DAS PÁGINAS DE CINZA</p>
<p>
<i>Sonetos</i><br />
<i><br /></i><br />
<br />
I</p>
<p>No canto mais escuro da floresta<br />
os deuses se assentam. Uma troca<br />
cúmplice de olhares frios congrega<br />
a vara: tem início a metagoge.</p>
<p>Até nós chegam as vozes gélidas<br />
em sons destroçados, negros, ferozes:<br />
nada entendemos, é tudo mistério<br />
e dor. Ninguém nos terá a resposta.</p>
<p>Uns em desespero, outros em cinza<br />
volatilizam, aqueles no peito<br />
esmurram a culpa. Eu, pobre de mim,</p>
<p>tartamudeio: — Não, e, já afeito<br />
à reticência dos pétreos porcins,<br />
me estremeço canalha, rarefeito.</p>
<p>II</p>
<p>Levanta da terra um cheiro de fumo<br />
— os homens agonizam casuísticos —,<br />
eu me recolho ao poço mais profundo<br />
da terra, só, fumarento, sísmico.</p>
<p>Louca se vai no vendaval, espuma<br />
do tempo — baba de cães hemofílicos! —,<br />
a imunda Nação, essa mui rotunda<br />
herdeira do caos: não haja indigno</p>
<p>deus que justifique a nossa dor sóbria<br />
nem imponha sobre nós paz de anjos,<br />
essa paz resignada e hipócrita.</p>
<p>Minha dor não é senão uma branca<br />
raiva, babenta, de quem, só, os próprios<br />
nós espumeja, louco, sacripanta.</p>
<p>[Poemas publicados na revista <i>Contexto</i>, do Departamento de Línguas e Letras da Ufes, 1992.]</p>
<div style="text-align: center;">
*****</div>
<p>
SONETOS</p>
<p>
I</p>
<p>A boca toma da noite uma sombra<br />
lunar, desdenha de mim, boquiaberta<br />
fúria. Ainda há pouco, em tarde zonza,<br />
o lençol azul: braços, bocas, pernas,</p>
<p>o corpo feito de grutas, de montes,<br />
de inesperados abismos. Janelas<br />
misteriosas, os olhos de bronze<br />
embalam os quereres e a quimera</p>
<p>usurpa-me a matemática dor<br />
de existir. Junto na palma da mão,<br />
em tom de dúvida, feixes de cor</p>
<p>e me desfaço, desmontado em branco<br />
e preto. Dócil e saciado potro<br />
ganho, na trégua, a errante manhã.</p>
<p>II</p>
<p>Dorme: enquanto eu me desfaço em fúria<br />
os desvãos de mim tropeçam no éter<br />
do setembro insone. Não é o cúmulo<br />
que, entregue aos sonhos, este severo</p>
<p>vulcão assim a olhe, de faminta<br />
retina? A manhã me espera em dó<br />
menor — que as vísceras não desmintam<br />
a loba. Não me refaço do pó</p>
<p>olhando daqui seus misteriosos<br />
cálices: o vinho ganha a noção<br />
do ácido. O cavalo em mim a postos</p>
<p>parte a trote noite adentro. São<br />
as evoluções de vagas magnólias<br />
a mais cruel certeza do porão.</p>
<p>III</p>
<p>O meu corpo é ausente do seu corpo,<br />
meu amor: a noite apenas começa<br />
e não é senão o anúncio da dor,<br />
essa dor do furioso cio, etérea</p>
<p>dor. A noite não engana do amor<br />
a fúria mal contornada, a eterna<br />
angústia dos que debruçam famélicos<br />
sobre o éter o desejo e o vapor</p>
<p>da nave que flutuou em azuis.<br />
Da sorvência das horas vãs palavras<br />
nada podem. É tudo furta-luz.</p>
<p>O amor prescinde de lavrar a pá<br />
o perfeito verbo: tudo conclui<br />
que o amor é um vento apaziguado.</p>
<p>[Poemas publicados na revista&nbsp;<i>Você</i>, da Universidade Federal do Espírito Santo. Para quem leu a retrospectiva do ano literário de 1993 (<i>Você&nbsp;</i>nº 19), já não é surpresa que Pedro J. Nunes, o autor da novela&nbsp;<i>Vilarejo</i>, também de vez em quando se mete a poeta: naquela matéria se elogiou muito a sextina que Pedro publicou na revista&nbsp;<i>Contexto</i>. Para mostrar que Pedro poeta não é monopólio da&nbsp;<i>Contexto</i>, estamos publicando três sonetos seus, com ricas imagens insólitas e uma surpresa na esquina de cada frase, e que provam que Pedro gosta mesmo é de formas fixas. Velhos? Brincadeira. Estes sonetos são das coisas mais pra frente que se têm visto ultimamente na poesia da província.]</p>
<div>
</div>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<div>
</div>
<p>
<b>Pedro José Nunes</b>, escritor,&nbsp;nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-jose-nunes-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
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		<title>Sereia</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/sereia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 20:19:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A minha prima tem um diário cor-de-rosa, enfeitado de florzinhas. Eu sei porque a ouvi dizendo à outra prima. E lá devem existir muitos segredos, porque elas cochichavam e riam. Eu vou até a janela que dá no seu quarto. Está aberta. Será que ela vai gritar se eu olhar lá dentro? Resolvo, me aproximo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
A minha prima tem um diário cor-de-rosa, enfeitado de florzinhas. Eu sei porque a ouvi dizendo à outra prima. E lá devem existir muitos segredos, porque elas cochichavam e riam. Eu vou até a janela que dá no seu quarto. Está aberta. Será que ela vai gritar se eu olhar lá dentro? Resolvo, me aproximo da janela e não vejo ninguém. Seria até bom se ela estivesse nuazinha, deitadinha de bruços na cama, a bundinha arrebitadinha de cabelinhos pardos&#8230; Pulo a janela e começo a bisbilhotar e numa das gavetas, debaixo das roupas, bem escondido acho o diário! Abro-o afoito e onde batem os olhos já vou lendo &#8220;quando o Paulinho me põe as mãos debaixo da saia e me afaga, ai, eu não sei o que fazer, ele pede eu digo não, só um pouquinho eu digo não, ai, que vontade de dizer sim, a vista escura de tanta vontade&#8221;. Assusto-me com minha prima entrando quarto adentro, no princípio assustada, depois correndo em minha direção, nervosa.</p>
<p>— Dá isso aqui, Edu! Se você não der eu grito!</p>
<p>— Grite, grite que eu dou o diário pra titia! Você quer que ela saiba dos seus sarrinhos com seu namorado, hein?</p>
<p>Ela cora de vergonha, mas eu sei bem que vergonha, eu sei que já a vi, louco de desejo, se esfregando no banheiro.</p>
<p>— Depois que eu ler, resolvo o que fazer&#8230;</p>
<p>— Ah, não, Edu&#8230; Eu&#8230;</p>
<p>Ai meu coração!</p>
<p>— O que é que você&#8230;? — balbucio.</p>
<p>— Dá isso, dá&#8230;</p>
<p>— Só se você me der um beijo bem molhado&#8230;</p>
<p>— Só um beijo? — a voz macia de gata.</p>
<p>— Só estamos nós aqui&#8230; Feche a porta&#8230; A gente bem que podia&#8230;</p>
<p>Ela vem se aproximando de mim, de repente pula, só que eu já pulei a janela e me embrenhei no pomar. Agora tenho um trunfo pra usar contra ela. De hoje não passa. A mim pouco importa que eu seja bem mais novo que ela, moça já feita. Deve ter os peitinhos durinhos, gostosos de lamber&#8230; Ponho-me a ler o diário e nossa! Como minha prima é safadinha. &#8220;Hoje Paulinho pediu insistentemente que eu botasse a mão, como eu não me decidisse, ele abriu a calça e ficou esfregando aquilo em mim, duro&#8230; Ai, eu não quero, mas é tão bom, ou melhor, quero, já não sei até quando vou aguentar.&#8221; Mais à frente &#8220;Hoje aconteceu uma coisa que eu não devia escrever, mas é que me agrada tanto escrever essas coisas. Eu sei do perigo de mamãe pegar isso e descobrir tudo, mas é que é tão gostoso ficar lembrando&#8230; Quando é que eu vou ter coragem de deixar? Hoje eu e Paulinho estávamos debaixo das árvores, estava escuro, ele pediu que eu virasse de costas para ele, aí me levantou a saia e ficou esfregando a mão, que foi tirando devagarinho a minha calcinha, deixando-me seminua e zonza. Depois eu senti aquela carne dura fazendo cosquinhas nas nádegas, deixando na minha pele um molhadinho bom&#8221;.</p>
<p>Neste ponto eu sinto alguém agarrar-me fortemente pelos ombros e dou um pulo, diário na mão. É minha prima, tem cara de choro.</p>
<p>— Dá o diário, Edu&#8230; Isso não lhe interessa&#8230; — pede com a voz quase chorando.</p>
<p>— Eu não — digo, com um nó na garganta. — Estou até gostando&#8230;</p>
<p>Eu me lembro dela passando o sabonete na bundinha quando tomava banho, eu atrás da porta. Ela gostava de enfiá-lo entre as nádegas&#8230; Ai, priminha, que vontade de alisá-la também&#8230;</p>
<p>— Eu dou, mas com uma condição&#8230;</p>
<p>— Qual? Qual?</p>
<p>— Se você deixar um pouquinho&#8230; — digo hesitante. — Ninguém vai ver, e além disso, é uma vez só&#8230;</p>
<p>— Não&#8230;</p>
<p>— Então eu mostro pra titia e pros meninos&#8230;</p>
<p>— Não&#8230;</p>
<p>— Deixa, vai&#8230;</p>
<p>— Não&#8230;</p>
<p>— Ah, priminha&#8230;</p>
<p>— Ah, está bem, eu deixo&#8230;</p>
<p>— Então tira a calcinha&#8230;</p>
<p>— Você me promete que vai dar o diário&#8230;</p>
<p>— Pro&#8230; prometo&#8230;</p>
<p>Ela se deitou no chão, puxou a saia, ai, o resto não conto&#8230;</p>
<div style="text-align: center;">
*******</div>
<p>
[O conto &#8220;Sereia&#8221; foi publicado na antologia da Editora Brasiliense <i>Jovens contos eróticos</i>, em 1987. O concurso literário que deu origem ao livro contou com quase 2000 escritores inscritos em todo o país. Destes, vinte foram selecionados para participar da antologia, entre eles Pedro Nunes. Embora o autor reconheça a baixa qualidade do texto, escrito em uma manhã em suas pobres duas versões, o rascunho e o texto definitivo, ele o projetou como virtual escritor. Com esse maior e talvez único mérito, aqui vai para matar a curiosidade de um e de outro que se aventure no desejo de conhecê-lo.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
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<p>
<b>Pedro José Nunes</b>, escritor,&nbsp;nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-jose-nunes-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
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		<title>Das aparições</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 20:07:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Havia em São José do Calçado uma tal multidão de figuras curiosas que responderia a todas as necessidades que uma cidade tem de seus loucos, andarilhos, mendigos e tais. Eles surgiam de todas as ruas, de todos os cantos, enrodilhados numa vara. Essas pessoas cravaram-se em minha infância ora com susto e encanto ora com [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;">
</div>
<p>Havia em São José do Calçado uma tal multidão de figuras curiosas que responderia a todas as necessidades que uma cidade tem de seus loucos, andarilhos, mendigos e tais. Eles surgiam de todas as ruas, de todos os cantos, enrodilhados numa vara.</p>
<p>Essas pessoas cravaram-se em minha infância ora com susto e encanto ora com indignação. Umas: familiares, cordeiras, outras: distantes, ferozes. Tais indivíduos cumpriam em ciclos sua aparição.</p>
<p>Ordinários eram o bêbado Genésio, pálido feito um cadáver, vigiado pela aflição das filhas em evitar-lhe o primeiro gole, o Zé Dias, pinguço que trabalhou na olaria de Zé do Deco, meu avô materno, e que morreu engasgado com osso de galinha, o João Dandão e os desmaios cotidianos. O Zé Luzia empurrava a carroça cheia de ossos de boi, dizia que era para as sopas, o Tião Nove-e-meia bebia o sangue das novilhas abatidas no matadouro da rua Nova, aparando debaixo do rombo da jugular as mãos enormes. Havia o Zé de Sá. Corroído por alguma paixão, cantava serenatas às sombras. A voz rouca se espalhava nas ladeiras tomadas pela noite. Zé de Sá, encostado nos umbrais das casas da rua do Pó, rua onde as mulheres eram fáceis, sustentava a bebedeira. Notável era a rapinagem do Badi, farejava a quilômetros um boi eletrocutado por raio ou espedaçado por queda. Aparecia feito de muitos olhos, acariciando as facas.</p>
<p>Embora inofensivas, essas criaturas causavam calafrios misturados a fascinação. Genésio, João Dandão e Zé Dias haviam sido fregueses assíduos de Zé do Deco, que, além da olaria, tinha um botequim na rua do Jaspe. João Dandão gostava de pegar-me em colo quando era uma raspa de menino. Zé do Deco, abandonando precipitadamente o balcão, vinha colocar-se ao lado dele. O sorriso amarelo temia ofender a suscetibilidade do freguês. Explicava-se, muito cheio de dedos, que João Dandão, epiléptico, bem poderia vir a ter um acesso e deixar cair-lhe o neto. João Dandão foi dos mais próximos o mais ofuscado. Não durou muito, amiudadas as crises. Quanto aos demais, capturados todos no fumo dos primeiros anos, não passaram de seres silenciosos que vagavam na inexatidão. Alguns atravessaram-me toda a infância. Zé Dias, Genésio e Zé de Sá também se extinguiram no tempo da meninice. Deste, costumava Zé Benedito, meu pai, dizer:</p>
<p>— Um dia estoura de tanto cantar.</p>
<p>E um dia estourou. Encontraram-no defunto, deitado à porta de uma das reticentes mulheres da rua do Pó. Depois de sua travessia, as noites em São José do Calçado nunca mais seriam as mesmas.</p>
<p>Mas havia as figuras distantes.</p>
<p>Dona Maria era uma sombra semanal. Residia na Usina, gigantesco prédio abandonado à margem do asfalto, na Fazenda Velha. Empreendimento gorado, servia a coito de cães, descanso de ruminantes e abrigo de loucos. Podia ser vista encurvada em longo silêncio, vigiando o fogo tênue. Figura de desolação. Diziam que seu humor variava com a Lua. Ouviam-na, os que ousavam chegar mais perto, em cânticos religiosos lamurientos. Cobria a cabeça com sacos, rodopiava lentamente a expiação dos pecados, jogava terra e cinza no alto da cabeça, e se maldizia, conclamando a si as consolações celestiais.</p>
<p>Em vão tentavam os parentes retirá-la dessa vida. Dona Maria, embora esmolasse um prato de comida em casa de um e outro, recusava os demais favores da hospitalidade e, insistissem com ela, tornava-se feroz e rogava em seu favor as setecentas pragas do inferno.</p>
<p>Quando víamos Dona Maria surgir na cabeceira da Ruy Barbosa, encolhíamos-nos para vê-la passar. Vergada pela autocomiseração, vinha atormentada por seus assuntos espirituais, emprestando aos hinos ouvidos nos ofícios religiosos a voz muito fina e lamurienta. O véu negro sobre a cabeça, Dona Maria repuxava as bordas com as mãos. Trazia sempre consigo um crucifixo. Os lábios bambos distribuíam bênção ou maldição, a depender do humor, a depender da Lua.</p>
<p>Louca pacífica, gostava-nos pedir-lhe a bênção:</p>
<p>— A bênção, Dona Maria.</p>
<p>— Vai-te com a Mãe de Deus, excomungado.</p>
<p>Ou:</p>
<p>— Consumam-te os sete ventos do inferno, sacripanta.</p>
<p>E sem olhar para trás, ao menos para ver o efeito de suas ministrações, Dona Maria era tragada pela Antão Gomes numa desaparição nevoenta, quase encantada.</p>
<p>De ousada mendicância era a Domingas Pau-Dentro, miserável itinerante que residia à sombra das marquises de São José do Calçado e cidades vizinhas. Deitava-se à porta das casas, dava-se a coceiras, demorassem com a esmola ia suspendendo as roupas, com pouco estava nua. Dizem que pegavam-na de peia os loucos da rua, ficavam mansinhos de deitar com ela. Um negro violentou-a numa noite fria. Para mal de seus antigos amores, encantou-se por ele, a ponto de afirmarem havê-los visto em atitudes de amor contra a luz da Lua. Fosse como houvesse sido, a Domingas Pau-Dentro apareceu embarrigada e deu à luz um moleque chorão que atrapalhava a vida das generosas senhoras em cujas portas vinha bater atrás da caridade duvidosa.</p>
<p>Quase não tínhamos interesse na Domingas, exceto quando, negada alguma esmola, arriava todo o pesado corpo na calçada e punha-se em coceiras que redundavam na nudez grotesca. Ajuntávamos-nos na corriola medonha, atiçávamos, fazíamos com ela coro contra a avareza.</p>
<p>Joaquim Peidorreiro vestia-se todos os dias de um surrado terno escuro. Tinha cara de rato, era vesgo e bicudo. Manejava o machado como ninguém. Zé Benedito contratava com ele a racha de lenha lá de casa. Peidorreiro passava o dia inteiro rachando admiráveis troncos. Impressionava-nos que um sujeito tão franzino, de tão insignificantes braços, tivesse tal habilidade com o machado. À tarde, a tulha estava abarrotada, Joaquim recebia sua paga e, sem dizer palavra, retirava-se, o machado atravessado no ombro.</p>
<p>A molecada, vendo-o passar, murmurava:</p>
<p>— Lá vai o Peidorreiro.</p>
<p>— Parece burro frouxo.</p>
<p>— Dentre nós, os mais impiedosos, gritávamos:</p>
<p>— Peidorreiro.</p>
<p>— Burro frouxo.</p>
<p>Ele, em desesperada atitude, tapava com as mãos os ouvidos, apressava os passos, muito encolhido em si.</p>
<p>A chusma não perdoava a aparição do Peidorreiro. A existência do pobre diabo há de ter-se tornado um martírio. E Joaquim Peidorreiro, tão sorrateiramente quanto fez sua aparição, cumpriu seu desaparecimento. Dizem que terá retornado para os cafundós, de onde — segundo consta, ele mesmo dizia — nunca devia ter saído.</p>
<p>Furiosa louca era a Cascuda, Maria Cascuda, que, por ter a pele escamada, era chamada também de Lagartixa. Atirava pedras contra nós, corria as pernas trêmulas em nosso encalço, muito vermelha de sua fúria espumava, prestes a estourar.</p>
<p>Não sabíamos de onde vinha, parecia ter uma parenta no Buraco Quente ou na rua do Jaspe, direção que tomava em suas aparições que davam-se de ordinário à tardinha. O cabelo queimado de sol descia pelo rosto de pele extremamente grossa, toda ela uma figura rude. Vinha em silêncio, como se em outro mundo viesse.</p>
<p>Surgida a Cascuda, escondíamo-nos atrás do muro do ginásio. Enfurecida por nossas provocações, que choviam de todo lado, agredia qualquer pessoa indistintamente. Daí que mexer com a Cascuda era assunto seríssimo. Uma vez provocada, transformava-se numa ameaça que a custo se continha.</p>
<p>Maria Cascuda sentia-se particularmente atingida quando espirrávamos. Não sabíamos por que, mas era só ouvir um espirro e a pobre figura rodopiava sobre si, atordoada, ridícula em sua dança de fúria. Vociferava nomes horríveis, enchia de escândalo os ouvidos dos pacatos moradores daquelas ruas. As conseqüências eram tais que fugíamos desabalados, evitando ser descobertos pela intervenção dos adultos que, penalizados, cometiam a temeridade de deitar remendos em tais situações.</p>
<p>A Maria Cascuda tinha uma lembrança forte em nós. Lembrávamo-nos de uma de suas aparições em particular, dia terrível, dia de fogo e ventos. Ninguém podia prever que nossa pilhéria alcançasse os resultados que alcançou. Nem se acreditava no desenvolvimento da diabrura organizada num repente. Tudo concluiu em decantados olhos, fingimentos e risos dissimulados pelos cantos. A maldade dos que frequentavam a sombra do muro do Ginásio de Calçado desconhecia limites. Desejávamos espalhar o terror, sossegar nossas almas impiedosas. Todo o mal era gozo. Daí que a idéia, surgida num relâmpago e posta em execução sem a prévia consideração de suas terríveis consequências, nem pôde ser acariciada em antegozos.</p>
<p>Jonas, um de meus amigos de infância, lembrava:</p>
<p>— Seu Manequim estava gripado, espirrava feito um cachorro, o nariz vermelho, redondo. Daí que lá em cima, na rua, apareceu a Lagartixa (ou Cascuda). Nem tivemos dúvida.</p>
<p>Vinha a pobre mulher cabisbaixa, há quem diga que rangia os dentes quando a induzimos, com cariciosas admoestações, a adentrar pela porta da Venda do Manequim. O que veio a seguir teve a natureza de uma tempestade.</p>
<p>Não sabíamos muito bem o que aconteceu lá dentro, na segurança do muro do ginásio, mas não foi difícil imaginá-lo, a julgar pelos rumores.</p>
<p>— Seu Manequim, gripado como estava, espirrou mal a Lagartixa entrou na venda — lembrou Henrique, outro amigo de infância.</p>
<p>— E o pobre nem a viu entrando.</p>
<p>— Precisavam ver-lhe a cara de espanto.</p>
<p>Sucedeu dentro do estabelecimento uma tal gritaria que pusemo-nos em estado de alarme. Em seguida, começaram a voar penicos, baldes e bacias que Cascuda, ou Lagartixa, em sua fúria, atirava pela porta. Quando, afinal, surgiram ela e Manequim atracados num duelo canhestro, concluímos que tínhamos ido além do permitido e que era hora de fugir. Seu Manequim, extraordinariamente pálido e aturdido, empurrou a furiosa mulher contra a calçada, fechando a porta apressadamente. Cascuda, uma figura dantesca, segurava nas mãos um penico transformado em aríete.</p>
<p>— Excomungado, filho de um porco — rugia.</p>
<p>Terminou num choro convulso, arriada à porta fechada. Não demorou que as mulheres piedosas aparecessem: traziam água com açúcar, as mães mais exaltadas começavam a gritar pelos filhos impiedosos, nas mãos assobiavam as varas finas.</p>
<p>
[O texto é um dos inúmeros capítulos retirados da versão original do romance <i>Menino</i>, por não se ajustar à estrutura do livro. Foi publicado num dos últimos números da revista <i>Você</i>.]</p>
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<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<b>Pedro José Nunes</b>, escritor,&nbsp;nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-jose-nunes-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p>
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		<title>A ratazana e o ocaso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 09 Mar 2001 20:05:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro José Nunes]]></category>
		<category><![CDATA[Pedro Nunes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Nos jornais daquela manhã o povo leu sobre o morte do autor estampada nos jornais em belas letras negras. O rumor encheu o dia. A alguns, morte tão trágica consternou. Outros sorriram seus oblíquos risos. E houve mesmo quem se sentisse ligeiramente aliviado. * * * &#8220;[&#8230;] O corpo foi encontrado na varanda do apartamento. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Nos jornais daquela manhã o povo leu sobre o morte do autor estampada nos jornais em belas letras negras. O rumor encheu o dia. A alguns, morte tão trágica consternou. Outros sorriram seus oblíquos risos. E houve mesmo quem se sentisse ligeiramente aliviado.</p>
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&#8220;[&#8230;] O corpo foi encontrado na varanda do apartamento. Ao lado do cadáver havia uma caixa de barbitúricos e várias garrafas de cerveja vazias. Como não havia marcas de violência [&#8230;] presume-se que tenha cometido auto-extermínio.&#8221; (O CLARIM)</p>
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O perito criminal observou em suas anotações que o extinto trazia no rosto um riso enigmático.</p>
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Os psicanalistas se reuniram em seu clube fechado e após longa conferência regada a apartes distintos e rostos severos escreveram sua nota meio científica, meio literária, e, protestando pesar, fizeram-na publicar nos jornais ao lado de uma fotografia do defunto.</p>
<p>A notícia, os protestantes a utilizaram em contra-propaganda.</p>
<p>As assembleias do povo se fizeram ao pé dos postes, onde murmuraram-se conjecturas diversas.</p>
<p>O santo clero preferiu não se manifestar. Algumas missas de réquiem se realizaram aqui e ali em intenção da alma do morto. Com o recolhimento dos emolumentos, é claro.</p>
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Após uma dessas cerimônias, um sacristão, vazio o templo, acariciou apressadamente as frias pernas de metal de São Sebastião. Depois de apagar as luzes, adentrou a sacristia.</p>
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&#8220;[&#8230;] natureza panfletária, elegância escassa. A literatura de Fulano, julga ele mesmo, é feita para o povo. Turba ordinária, Fulano pensa que ainda a escandaliza com seus folhetins, ignorando que não o entende o povo, esse organismo incapaz de congregar-se em torno de [&#8230;]&#8221; (Publicado dias antes da morte do autor no caderno b dO CLARIM)</p>
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&#8220;Que mal haveria em aproximar-se do sentimento do povo e acariciá-lo? [&#8230;] não se pode ignorar que [&#8230;] aproximou-se da materialização desse sentimento e o cristalizou definitivamente. [&#8230;] É lamentável que autor desse porte, [&#8230;] tenha cometido o auto-extermínio. Privou o país não só, etc. (Dia seguinte, nO CLARIM)</p>
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De início um gracejo, o riso de alguns encheu a noite que precedeu o sepultamento, transformando-se em medonha gargalhada.</p>
<p>Em um canto obscuro e úmido da cidade, alguém lia: &#8220;é mister que venham escândalos&#8221;.</p>
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Em meio a poucas homenagens, o corpo desceu ao túmulo. Compareceram os poucos parentes e amigos, alguns discípulos, dois ou três leitores e um crítico. Este jogou sobre o esquife três montinhos de terra e saiu abanando as mãos.</p>
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P.S.: Alguns trechos deste espetáculo foram extraídos dos melhores jornais da &#8220;Capital do Absurdo&#8221;(expressão do falecido autor que, segundo o crítico literário dO CLARIM, &#8220;é de literariedade obscura e, se possui ironia, é extremamente grosseira&#8221;).</p>
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[In <i>Palavras da Cidade</i>, volume 2, Prefeitura Municipal de Vitória, 1991. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
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&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<b>Pedro José Nunes</b>, escritor,&nbsp;nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-jose-nunes-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</div>
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