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	<title>Arquivos Prosa &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Prosa &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Crime no Radium Hotel, romance policial</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 18:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Renato Pacheco]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Duas Palavras Este livro, à moda de Ellery Queen, é fruto de antiga e fraternal associação criativa entre Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco. Realiza, a quatro mãos, o primeiro romance policial &#8220;capixaba&#8221; do século XXI, e talvez o primeiro romance policial &#8220;capixaba&#8221; de todos os tempos, se não levarmos em conta o livro [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><b>Duas Palavras</b></p>
<p>
Este livro, à moda de Ellery Queen, é fruto de antiga e fraternal associação criativa entre Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco. Realiza, a quatro mãos, o primeiro romance policial &#8220;capixaba&#8221; do século XXI, e talvez o primeiro romance policial &#8220;capixaba&#8221; de todos os tempos, se não levarmos em conta o livro de Azambuja Suzano, do século XIX.</p>
<p>O Dr. Silva Pontes foi inspirado no famoso e humanitário Dr. Silva Melo (1886-1973), tragicamente morto por seu mordomo e descobridor das maravilhas curativas de Guarapari. O padre Manezinho é o padre Manoel do Nascimento, cuja vida é descrita em A Centopéia, de Jayme Santos Neves (Vitória, edição do autor, 1989, p. 81 a 85).</p>
<p>As demais personagens são misturas de pessoas que viveram, à época, em Guarapari ou moraram na imaginação dos autores.</p>
<p>
<b>1. Um corpo no jardim</b></p>
<p>
Os cães de rua, invadindo o amplo jardim do Radium Hotel, à beira da praia da Areia Preta, é que, com seus latidos, deram o alarme. Já lambiam e mordiscavam um cadáver desnudo.</p>
<p>Dona Maria Silveira, a cozinheira-chefe, e suas duas auxiliares, vieram correndo para ver que tanto barulho era aquele.</p>
<p>Encontraram o cadáver de uma hóspede, Dona Marinalva Cunha, em decúbito dorsal, sobre uma moita de azaléias. Dona Maria gritou:</p>
<p>&#8220;Socorro, socorro!&#8221;</p>
<p>As auxiliares, Pretinha e Jorete, correram para o interior do hotel, em busca de ajuda. Logo uma pequena multidão de hóspedes, empregados e curiosos se formou em torno do corpo.</p>
<p>O gerente, Delduque Bonfim, telefonou para a delegacia e, peremptório, disse: — Afastem-se. Não mexam em nada.</p>
<p>Num jipe velho, o delegado leigo Manoel Lyra chegou e dispersou os curiosos. Soube que era hóspede do hotel o famoso Dr. Silva Pontes e logo o convidou para presidir a autópsia.</p>
<p>O médico, descobridor das areias radioativas, se desculpou com sua próxima viagem para o Rio e eximiu-se da função. — Então — disse o delegado — como faço sempre, vou chamar o sacristão e o padre Manezinho para peritos&#8230; — E se justificou: — O sacristão fez até o 3° ano de medicina&#8230;</p>
<p>Silva Pontes, embora tenha se desobrigado do encargo, observou detidamente o local em que o corpo caíra, o possível ponto de queda na varanda do segundo andar do hotel, e, com surpresa, ao virar-se o corpo, verificou tratar-se de uma quase paralítica, sempre em cadeira de rodas, vítima de avançado reumatismo.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>2. O Radium Hotel</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Não se pode dizer que o prédio do Radium Hotel é bonito. Grande, isto ele é, um sobradão em forma de V, com mais de dois mil metros quadrados de jardim externo.</p>
<p>Sua construção fora planejada por um amazonense que estudara em Vitória, Adalberto Ferreira do Vale, presidente da Previdência Capitalização. Na falta de recursos ele vendera o prédio ao Governo do Estado, que o concluiu, aproveitando a planta previamente desenhada.</p>
<p>O hotel competia com os outros dois hotéis da localidade: o Vernistas e o Guará, menores e não tão bem localizados.</p>
<p>O Dr. Silva Pontes soubera na Suíça das virtudes radioativas das praias de Guarapari e resolvera visitar a pacata localidade de pescadores, 60 km ao sul de Vitória, famosa pelo discurso do vereador Quinca Nunes que dissera que Guarapari &#8220;era país formoso e hereditário, onde se respira o ar por conseqüência, tendo de um lado o oceano marital e, do outro, o oceano matagal&#8230;&#8221;</p>
<p>E também porque seu cemitério, para ser inaugurado, logo abaixo da secular Matriz, e olhando para o mar, precisou pedir um defunto emprestado à vizinha cidade de Benevente, onde morrera, em 1597, o padre Anchieta.</p>
<p>Silva Pontes pegou seu Ford 29 e enfrentando a falta de estradas saiu do Rio e foi a Muriaé, em Minas Gerais, ao norte, desceu para leste, em São Miguel do Veado, Cachoeiro de Itapemirim, e três dias depois e dois pneus trocados, chegou à paradisíaca cidade, então com cerca de 400 moradores, a maioria pescadores. Examinou detidamente as condições de salubridade, as virtudes radioativas da monazita e ilmenita, abundantes nas praias da cidade, e voltando ao Rio, passou a receitar para seus doentes de reumatismo que viessem enterrar-se nas areias de Guarapari.</p>
<p>Os resultados foram miraculosos, e com a propaganda boca a boca, em pouco tempo um fluxo de &#8220;visitantes&#8221; se dirigia, todos os anos, à bela região praiana, em busca de melhoras para seus males ou simplesmente pelo prazer de gozar de clima tão agradável, mesmo nos meses mais quentes.</p>
<p>Quando o Radium Hotel foi inaugurado, o Governo do Estado destinou uma suíte permanente ao grande divulgador da cidade.</p>
<p>
<b>3. Um laudo duvidoso</b></p>
<p>
O sacristão Honorato chegou com o padre Manoel, mas logo se viu que, embora o primeiro conhecesse mais anatomia, era o padre quem dirigia o espetáculo.</p>
<p>De posse do Manual do Delegado, de autoria do desembargador Eurípides Queiroz do Valle, que o Governo distribuíra a todos os municípios, o padre lavrou o auto de corpo de delito, e concluiu, sem tergiversar:</p>
<p>&#8220;Foi suicídio.&#8221;</p>
<p>Observava-o uma figura altiva de pincenê, costeletas bem aparadas, botinas, e cabelos visivelmente pintados de roxo.</p>
<p>O delegado Lyra olhou para o médico carioca, mas este se manteve discreto, sem nada comentar. Como não fora apresentado aos peritos leigos, relutava em pronunciar-se sobre o laudo. Porém sentia que algo estava errado. Chamou o delegado, em particular, e expôs-lhe suas dúvidas:</p>
<p>&#8220;Esta mulher foi morta por asfixia. Eu a examinei em vida e com as juntas tomadas pela artrite ela não conseguiria este feito miraculoso de lançar-se tão longe no jardim.&#8221;</p>
<p>O delegado chamou o padre e o sacristão e lhes comunicou as objeções do médico. Padre Manezinho, apresentado à sumidade, subiu nas tamancas:</p>
<p>&#8220;Embora se lhe negue o repouso em solo sagrado, o veredicto é mais compatível com o interesse social&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Mas não com a verdade&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Ora, nem Cristo quis responder o que era verdade. Está em São João, 18:38, a conferir.&#8221;</p>
<p>O delegado conciliador:</p>
<p>&#8220;Façamos um trato. Fica suicídio por uns dias, e eu investigo. Aí então se mantém ou não o laudo.&#8221;</p>
<p>O escrivão, que fora investigar o quarto da morta, em companhia do soldado Ananias, trouxe à baila dois fatos surpreendentes: 1) Uma carta do irmão dela, de São Mateus, informando que, em vista da baixa do café, ele não poderia mais mantê-la naquele hotel de luxo; 2) quinze mil cruzeiros, em notas, importância muito alta para quem ia suicidar-se, que estavam no pequeno cofre que o hotel mantinha em todos os aposentos.</p>
<p>A carta, pensou o médico, justificaria o suicídio; o dinheiro seria, talvez, o móvel do homicídio.</p>
<p>&#8220;Sei não, neste pau tem formiga&#8230;&#8221;</p>
<p>
<b>4. Pequena biografia da falecida</b></p>
<p>
Afinal, quem era Dona Marinalva Cunha que, com tanta pompa, ocupava a suíte presidencial do Radium Hotel desde o dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da cidade?</p>
<p>Era uma simples professora primária em São Mateus, norte do Estado. Acometida de um reumatismo crônico, foi aposentada, com proventos proporcionais. Inválida, com inflamação na articulação do joelho, usava uma velha cadeira de rodas e, por recomendação do farmacêutico Silvares, que lhe receitava salicilato de sódio, banhos de luz e uma estada em Guarapari, veio com recursos que lhe foram fornecidos pelo irmão, rico proprietário da Fazenda da Cachoeira, às margens do Cricaré. (Nisso havia uma ponta de remorso fraternal, pois, quando do inventário do velho Leandro Cunha, conhecido como Lelé, o irmão fraudara a herança de Marinalva, então menor e sob sua tutela).</p>
<p>A moça fez espetaculares melhoras enterrando-se nas areias pretas e já dava até uns passinhos. No cassino clandestino do Hotel jogava sempre alto. Ouvido pelo delegado, José Wilson, o jovem gerente da tolerada casa de jogo, disse que não podia precisar, mas era bem possível que os 15 mil encontrados no cofrezinho do apartamento fossem lucros do jogo.</p>
<p>O irmão veio imediatamente de São Mateus, num avião teco-teco fretado, e tomou todas as providências para remover o corpo para sua cidade e, desde logo, requereu, como único herdeiro, a devolução do dinheiro que, incontestavelmente, pertencia à falecida.</p>
<p>
<b>5. Sobre o Padre Manezinho</b></p>
<p>
Silva Pontes fora a Vitória almoçar com seu velho amigo, o pneumologista Dr. Jayme Santos Neves. À sobremesa, tomando um licor na varanda do apartamento do colega, de onde se descortinava bela vista do Parque Moscoso, falou-lhe da estranheza que lhe causara um padre legista leigo.</p>
<p>&#8220;Pois olha, Pontes, eu sou grande amigo do Padre Manezinho. Ele foi capelão do Exército no 3º RI da Praia Vermelha, ao tempo da Intentona Comunista de 1935. Lá ele atendia tanto aos militares quanto aos presos políticos. Fez-se amigo destes e levou, escondidas na batina, cartas para seus familiares. Certa feita, num arroubo de alegria, saudou-os, erguendo o braço esquerdo com o punho fechado. O guarda o revistou e ele também foi preso por causa das muitas cartas e pequenas encomendas. A pedido do Cardeal Leme foi solto e removido para a remota paróquia da Serra do Espírito Santo.&#8221;</p>
<p>&#8220;E como ele foi parar no país calmoso e hereditário?&#8221;</p>
<p>&#8220;No dia de São Benedito, algumas velhas beatas entraram na sacristia e encontraram o santo pintado de branco. No inquérito que se abriu, o padre disse que estava restaurando a imagem, mas as devotas consideraram aquilo o supremo acinte. Donde o bispo Dom Luiz, que não quer confusão, o removeu para Guarapari, onde ele reza missa só para os pescadores locais, acrescidos de uns poucos veranistas, nesta época de calor. A propósito, determinado dia, segundo contam, o padre notou que não havia mais ninguém na missa. Perguntou ao sacristão e ele disse que dera xeréu nas redes, que seriam fatalmente destruídas se não fossem retiradas logo. O padre suspendeu a celebração e disse afobado: &#8216;E o que você está fazendo que não vai puxar a nossa rede?&#8217;.&#8221;</p>
<p>&#8220;Homem assaz curioso&#8221;, foi o comentário do cientista. &#8220;Vou procurar conhecê-lo melhor&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Dê-lhe minhas lembranças&#8221;, pediu Jayme.</p>
<p>
<b>6. A cozinheira faz importante revelação</b></p>
<p>
É fácil de compreender que a morte de Dona Marinalva Cunha causou forte comoção na cidadezinha praiana. Suicídio? Homicídio? As opiniões se dividiam.</p>
<p>No amplo salão de almoço do Radium Hotel, Silva Pontes palitava os dentes, hábito que adquiriu desde que colocara um incômodo &#8220;root&#8221; na boca. A cozinheira do hotel foi-se chegando e lhe perguntou se gostava da moqueca de badejo&#8230;</p>
<p>&#8220;Sim, como não? Seu tempero é de primeira água&#8230;&#8221;</p>
<p>A empregada tomou coragem, perante tão elevada figura, e:</p>
<p>&#8220;Pois é, que coisa estranha, a morte de Dona Marinalva. Ainda ontem estava aí jogando buraco com a gente&#8230; E sabe, doutor Silva Pontes, na última tarde que jogamos (à noite ela ia para o cassininho, creio que o sr. já sabe), ela disse uma coisa que não me sai da cabeça.&#8221;</p>
<p>Sem mostrar curiosidade, o médico disse apenas:</p>
<p>&#8220;Sim&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Pois é, Dona Marinalva disse que nem todas as mortes naturais que acontecem aqui em Guarapari são tão naturais como se propala&#8230; Que é que o sr. acha disso?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu não acho nada, minha senhora.&#8221;</p>
<p>E deu início a um pequeno cochilo que parecia não ter fim.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>7. Informações sobre as areias raras</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Daquele pequeno &#8220;cochilo&#8221; que durou mais de uma hora surgiu na cabeça de Silva Pontes uma certeza: a morte do hotel estava relacionada com alguma morte trágica (e possivelmente criminosa) anterior. Decidiu ir conversar com o Padre Manezinho, na fresquinha da tarde.</p>
<p>Saiu pela Areia Preta, a mais famosa entre as trinta praias da vila municipal. Gostava de acompanhar aquele povo crente, enterrado na areia, em busca de cura para seus males reumáticos. Aquilo era invenção dele e ainda ia conseguir que se fizesse um pequeno hospital para estudar, cientificamente, os efeitos da radioatividade sobre o reumatismo.</p>
<p>Num guarda-sol perto da ponta do Siribeira, encontrou seu velho conhecido, o famoso cronista Rubem Braga, copo de uísque à mão.</p>
<p>O cronista o apresentou ao pintor Carybé, sempre silencioso, e disse:</p>
<p>&#8220;Estamos, eu e o Carybé, por contrato com o Governo, fazendo um livro de crônicas e desenhos sobre o Estado. Mas hoje é sábado, e como nos poemas de Vinícius e Ascenso Ferreira, ninguém é de ferro&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Você está bem e não precisa destas areias radioativas.&#8221;</p>
<p>O cronista, meio alegrinho, retrucou:</p>
<p>&#8220;Mas aqui estão as velhas milionárias entrevadas e suas sobrinhas casadouras&#8230; Falando sério, ontem passamos o dia a entrevistar o Boris Ackermann, um judeu danado de sabido (pleonasmo, não?), diretor da Monazita e Ilmenita do Brasil Ltda.&#8221;</p>
<p>Silva Pontes interessou-se logo pelo assunto, pois se relacionava diretamente com suas investigações médicas.</p>
<p>&#8220;Conte-me o que você registrou&#8230;&#8221;</p>
<p>O cronista não se fez de rogado:</p>
<p>&#8220;No fim do século 19 um inglês de nome Arthur Gordon obteve concessão para explorar estas areias desde Porto Seguro, na Bahia, a Marataízes, no sul do Espírito Santo. As areias iam para a Europa como lastro de navio, sem deixar nenhuma vantagem para o país. Depois ele vendeu a concessão a uma empresa francesa, Monazitique e Ilmenite du Brésil. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas passaram a controlar a empresa e Boris Ackermann, então gerente, convenceu Oswaldo Aranha da necessidade de nacionalizar a empresa, criando-se então a firma Mibra, Monazita e Ilmenita do Brasil, sob a presidência do secretário da Fazenda do Estado. É isso aí&#8230; Agora parece que o Boris está às turras com o prefeito&#8230;&#8221;</p>
<p>E concluiu, dando uma golada grande na bebida:</p>
<p>&#8220;Sob o pretexto de, com as areias, fazerem lixas industriais e camisinhas para lampeões, estavam tirando minerais raros — plutônio, urânio — que eventualmente serviram ao projeto Manhattan, que deu origem à bomba atômica&#8230;&#8221;</p>
<p>E deu uma grande gargalhada, chamando a atenção dos poucos veranistas que ainda estavam na praia.</p>
<p>
<b>8. Visita ao Padre Manezinho</b></p>
<p>
Agora, sim, Silva Pontes pôde encaminhar-se para a Casa Paroquial no outro lado da cidade. Na praia do Meio alguns garotos jogavam bola de borracha, que correu em direção ao médico.</p>
<p>&#8220;Chuta, vovô, chuta ela&#8230;&#8221;</p>
<p>Não se fez de rogado. Deu um bico na bolinha, e desajeitado como ele só, a bola subiu, atravessou a rua e foi espatifar uma vidraça do Carneiro da Cunha&#8230;</p>
<p>O dono da casa apareceu na varanda gritando com os meninos e com a bola cortada em pedaços, na mão.</p>
<p>Imediatamente Silva Pontes foi justificar-se perante o velho amigo Heliomar, prontificando-se a pagar o prejuízo.</p>
<p>&#8220;Que é isto, Dr. Silva Pontes. De jeito nenhum&#8230; Foi um infelicitas facti,&#8221; disse, lembrando-se que, embora fiscal federal aposentado, era bacharel em direito como toda gente.</p>
<p>Despediram-se e finalmente desceu a rua principal em busca do padre.</p>
<p>Encontrou-o na sala da frente da colonial Casa Paroquial, fazendo malas com o aproveitamento de caixas de banha. Estava, diligentemente, colocando a fechadura numa mala vermelha.</p>
<p>Recebeu friamente o médico e só se abriu quando descobriu que ambos eram mineiros e de cidades próximas. O médico de Juiz de Fora e o padre de Lima Duarte, ali pertinho. [Renato se esqueceu que Silva Pontes foi dado antes como carioca].</p>
<p>Silva Pontes só não disse que estudara no Granberry, colégio evangélico de inspiração norte-americana.</p>
<p>&#8220;A que devo a sua honrosa visita, doutor?&#8221;</p>
<p>&#8220;Uma dúvida que eu tenho. Queria que o senhor me dissesse quais, na cidade, os casos recentes de mortes acidentais, que o senhor tenha examinado como legista leigo&#8230;&#8221;</p>
<p>O padre colocou o dedo sujo de cola na testa, pensou e disse:</p>
<p>&#8220;Foram poucos&#8230; Na Olaria, um queimado que caiu no forno&#8230; Hum&#8230; Hum&#8230; Um caminhãozinho que caiu da balsa e o motorista morreu afogado&#8230;&#8221;</p>
<p>E depois de algum tempo:</p>
<p>&#8220;O caso mais comentado foi a morte do milionário Laurindo Pitani, um homem muito herege e o mais rico da cidade. Levou, na protuberância occipital externa, uma pancada da vela bujarrona do barco dele, com conseqüente fratura do crânio e comoção cerebral&#8230; Foi encontrado morto no barco Andaluzia.&#8221;</p>
<p>&#8220;Bingo. É esse aí&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;É esse aí, o quê?&#8221;</p>
<p>Silva Pontes fez-se de misterioso, mas adiantou:</p>
<p>&#8220;Eu acho que esta morte tem ligação com a da professora Cunha&#8230;&#8221;</p>
<p>O padre abriu os olhos incrédulo.</p>
<p>&#8220;Estais brincando?&#8221;</p>
<p>&#8220;É o que veremos&#8230;&#8221;</p>
<p>Uma bela afro-brasileira, jovem baixinha e gordota, chegou à porta e disse:</p>
<p>&#8220;Senhor padre, o almoço está servido&#8230;&#8221;</p>
<p>O padre convidou o médico para acompanhá-lo no repasto de peixe frito, mas este, polidamente, recusou:</p>
<p>&#8220;Então o senhor fica intimado para a sexta-feira que vem. A Maria vai fazer torta capixaba, ouviu falar?&#8221;</p>
<p>E, à guisa de despedida, disse:</p>
<p>&#8220;A Maria eu não posso apresentar ao senhor como minha esposa porque a Santa Igreja Católica não deixa, mas não posso dizer que é minha empregada porque ela dorme comigo&#8230;&#8221;</p>
<p>Ante o espanto do médico saiu arrastando as alpercatas em direção à sala, deixando Silva Pontes sozinho no salão. Ele resolveu, por isto, sair de fininho, à francesa como se diz&#8230;</p>
<p>
<b>9. Levantamento urgente</b></p>
<p>
Como o fórum era próximo, Silva Pontes passou por lá. O escrivão Lyra (irmão do delegado), devia-lhe favores no tratamento gratuito da esposa e fez-lhe muita festa.</p>
<p>&#8220;A que devo a honra de sua visita?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu queria um favor seu&#8230; Preciso dar uma olhada no inventário do senhor Laurindo Pitani.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ora, está aqui em cima da mesa, para levar para o juiz&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes olhou a petição e as declarações iniciais, e se surpreendeu com um pedido, do final de novembro, cinco dias depois da morte do milionário, para levantamento de vinte mil cruzeiros, para despesas urgentes, inclusive da reforma da casa de moradia&#8230; O pedido fora imediatamente atendido.</p>
<p>Mais uma vez em seu cochilo no salão do Radium Hotel o médico pensou:</p>
<p>&#8220;Nesse mato há coisa&#8230; Está me cheirando a chantagem&#8230; Só não sei por quê, mas vou descobrir.&#8221;</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>10. Intermezzo musical e amoroso</b></p>
<p>
Silva Pontes não gostava de barulho, sofria com seus efeitos e dizia:</p>
<p>&#8220;Quem não sente considera frescura&#8230;&#8221;</p>
<p>Mas aquela noite todos os hóspedes do hotel, uns vinte mais ou menos, estavam convidados para uma serenata de Sílvio Caldas.</p>
<p>O caboclinho querido, como era chamado, viera, em outubro, cantar no hotel. Sob o patrocínio do Heitor Latorraca, arrendatário do Cassino (clandestino e tolerado pela polícia e pela Justiça), gostara da cidade e dois meses depois ainda se deixava ficar, comendo, bebendo e cantando. Dizia que já lançara suas músicas de Carnaval, e voltaria para o Rio depois do tríduo momesco.</p>
<p>Pois naquela noite de segunda-feira, Silva Pontes se viu sentado na pedra do Trampolim, entre a praia das Virtudes e a das Castanheiras, ouvindo Sílvio Caldas, dedilhando seu violão e cantando velhos sucessos sentimentais, &#8220;sertaneja se eu pudesse, se papai do Céu me desse um cantinho pra morar&#8230;&#8221;</p>
<p>Além dos veranistas, o povo da cidade também se fez presente e o recital ao ar livre (e gratuito) se prolongou até de madrugada.</p>
<p>Finalmente o cantor se despediu do público cantando &#8220;Aquarela do Brasil&#8221;.</p>
<p>Na volta, o grupinho do hotel se compactou, mas Silva Pontes, mais lento, ficou um pouco para trás. Dona Débora Almeida, uma linda senhora vitoriense, cujo marido comerciante na Capital só vinha nos finais de semana, distanciou-se dos demais e disse:</p>
<p>&#8220;Vou fazer companhia ao grande médico&#8230;&#8221;</p>
<p>Com muita familiaridade deu-lhe o braço e, com surpresa para Silva Pontes, cravou-lhe as unhas afiadas no pulso, o que era uma notória manifestação histérica.</p>
<p>Diante disso, quando chegaram ao hotel, Silva Pontes em vez de entrar no seu apartamento, sem uma palavra sequer, entrou nos aposentos da moça, para experimentar do mel que aquela abelhinha produzia. Excelente mel, de flores de laranjeira, capaz de acalmar qualquer varão.</p>
<p>No domingo, Débora Almeida, com seu maiô vermelho de duas peças, estava muito feliz na praia, com seu marido e amigos. Contava o sucesso da serenata com o grande Sílvio Caldas. Só não relatou o epílogo.</p>
<p>
<b>11. Suspeita rechaçada</b></p>
<p>
Silva Pontes foi procurar o delegado Manoel Lyra.</p>
<p>&#8220;Amigo, estou convencido que a morte de Dona Marinalva Cunha está ligada, por qualquer laço que ainda não descobri, com a do senhor Laurindo Pitani..&#8221;</p>
<p>&#8220;O quê? O senhor me desculpe, doutor, eu o respeito muito, mas o senhor anda lendo muito romance policial&#8230; O homem ia pescar&#8230; Ainda estava escuro&#8230; O mastro bateu-lhe na cabeça&#8230; Morte acidental. A mulherzinha está sem melhora no seu artritismo. Pula da varanda do hotel. Que tem (com perdão da má palavra) o cu com as calças?&#8221;</p>
<p>&#8220;O senhor se esquece dos quinze mil cruzeiros no cofre&#8230; É dinheiro pra chuchu, dá para comprar cinco fusquinhas&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Este dinheiro ela ganhou no jogo&#8230; Está mais que provado&#8230;&#8221;</p>
<p>O médico lançou seu último trunfo:</p>
<p>&#8220;Eu vi no inquérito, anexo ao inventário, que não encontraram a chave da caminhonete do falecido. Tiveram que rebocá-la para a garagem dele e trouxeram um chaveiro da Capital para fazer a chave&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Vamos supor que quando o Laurindo levou a pancada estivesse com as chaves na mão e elas tivessem caído no canal. Que me diz a isto, doutor detetive?&#8221;</p>
<p>O médico não disse nada.</p>
<p>
<b>12. A torta capixaba</b></p>
<p>
Era sexta-feira e, conforme combinado, Silva Pontes saiu do hotel para comer a torta do padre. Passou antes na agência dos Correios, retirou de sua caixa postal A Tribuna da Imprensa, de cinco dias atrás, jornal do Carlos Lacerda de que era assinante, e três cartões atrasados com votos de boas festas, que rasgou e deixou na cesta que estava à porta.</p>
<p>Passou no armazém do Passinho, onde só havia um vinho português Alvarelhão, que comprou para dar de presente ao senhor vigário. Chegando à casa paroquial encontrou o padre, na porta, em animada conversa com três pescadores. Cumprimentou a todos e verificou que o mais falante dos três era também da família Lyra, o José, conhecido como Irmão. Não entendeu bem a história, pois chegou no meio, mas referia-se a um sacristão que roubava rapé do padre, e o substituía por merda de gato seca&#8230;</p>
<p>De repente, eis que desponta para os lados do canal, saindo do prédio da Prefeitura, e acompanhada de um cidadão de terno e que logo se soube que era o Dr. Monteiro, de Vitória, eis que surge uma bela morena toda vestida de preto.</p>
<p>José Lyra logo falou:</p>
<p>&#8220;Tem roupa na corda&#8230;&#8221; o que, no jargão local, significava que não poderia continuar com a conversa enquanto a moça não passasse.</p>
<p>Silva Pontes, curioso, perguntou ao padre:</p>
<p>&#8220;Quem é esta miss Guarapari?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ora, meu caro, é Dona Lili Pitani, viúva daquele falecido milionário cuja morte chamou sua atenção outro dia&#8230;&#8221;</p>
<p>Quando a gente aprende uma palavra nova se surpreende nas horas ou dias seguintes ao vê-la, com freqüência. Assim também ocorre com uma pessoa. Porque, depois que o padre e Silva Pontes entraram, e os pescadores se dispersaram, Silva Pontes começou a jogar conversa fora dizendo que &#8220;é necessário ensinar nosso povo a plantar, a colher, a comer, a pescar e a agir.&#8221;</p>
<p>O padre ficou indiferente às palavras do médico, que prosseguiu:</p>
<p>&#8220;A culinária é arte superior&#8230;&#8221;</p>
<p>E fez um rasgado elogio à mandioca, ao fubá, amendoim, melado e rapadura, e à soja, tão apreciada no Oriente. Foi então que, para mudar de assunto, Silva Pontes perguntou:</p>
<p>&#8220;Padre Manezinho, por que o prefeito Elésio brigou com o Boris Ackermann da Mibra? Falam em contrabando de areia, com sonegação de impostos&#8230;&#8221;</p>
<p>Os olhos do padre brilharam. Levantou-se. Ajeitou a puída batina. Deu dois passos para trás, balançando a bem fornida pança. E soletrou, compassado e solene, uma só palavra: &#8220;BO-CE-TA.&#8221;</p>
<p>Ante o olhar espantado do convidado, esclareceu:</p>
<p>&#8220;Ambos estão arrastando a asa para a viúva do Laurindo, esta mesma que pisou nossas areias ardentes aí da frente, há poucos minutos&#8230;&#8221;</p>
<p>O almoço transcorreu muito bem. Comeram apenas arroz e a famosa torta capixaba. Mas que torta!</p>
<p>&#8220;É comer e chorar por demais,&#8221; disse o médico.</p>
<p>Chamada a dar a receita, a Maria, mulher-cozinheira do padre, se embaralhou todinha. Falou no peixe, no caranguejo desfiado, nas ostras, nos camarões descascados, no palmito, os peixes são moídos e picados, temperados, refogados&#8230;</p>
<p>Silva Pontes, barriga cheia, uma leve sonolência, não prestou muita atenção, mas louvou os dotes culinários da moça.</p>
<p>&#8220;Se for boa de cama como cozinha, o padre está feito&#8230;&#8221;</p>
<p>
<b>13. Tosse providencial</b></p>
<p>
No sábado chegou uma frente fria muito comum em dias muito quentes do verão, aqui chamada de &#8220;vento sul&#8221;.</p>
<p>Silva Pontes, sujeito a gripes e tosses, preveniu-se com um cachecol, que ele chamava à antiga de cachenê, mas de nada adiantou. Começou a tossir, uma tosse seca de cachorro&#8230; Ficou dois dias de molho, sentado numa chaise longue, olhando o mar e a ilha Escalvada com seus castelos de luz e sombra, lá longe.</p>
<p>O enfermeiro do hotel, um empregado todo mesuroso, veio perguntar-lhe se podia ser útil, mas recebeu resposta negativa.</p>
<p>Na segunda, desceu até a farmácia do velho Trajano, única na cidade, em busca de um paliativo, um vinho de Bromil, no dizer de Rubem Braga, &#8220;o amigo do peito&#8221;.</p>
<p>Não deixou de passar nos Correios, onde não havia correspondência, as cartas aqui chegam a passo de cágado, cumprimentou o padre Manezinho que o escorou:</p>
<p>&#8220;Continua suas investigações, doutor-detetive?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, padre, depois daquela torta magnífica, o vento sul me derrubou&#8230;&#8221;</p>
<p>Trajano fez muitas festas ao famoso esculápio. Sua farmácia ocupava uma pequena e velha casa, ao lado da Usina de Beneficiamento da Mibra e na lateral do cais, no canal.</p>
<p>O farmacêutico disse que estava em falta do Bromil, muita gente estava tossindo, com a friagem, mas ainda lhe restaram três frascos de Mastruço Creosotado, do Laboratório Pelotense.</p>
<p>&#8220;O efeito é o mesmo. Tem gente que até prefere este.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ora, Trajano, este você paga seis e recebe uma dúzia, pensa que não sei?&#8221; disse, rindo, o médico, que acabou comprando por dois cruzeiros o remédio indicado pelo seu &#8220;colega&#8221; farmacêutico.</p>
<p>Depois este começou a falar na recente morte do Sr. Aleixo Neto, o homem mais velho da cidade, devia ter cerca de 106 anos.</p>
<p>&#8220;Imagine o senhor que ele mora aí na frente e demorou muito a morrer. Passava noites insones, arquejando com falta de ar&#8230; Eu não tenho oxigênio, mas fazia-lhe massagens nos peitos&#8230; Uma noite, dois ou três meses atrás, digo com precisão, dia da padroeira Nossa Senhora da Conceição, tenho certeza pois havia festa em frente à Prefeitura, do boi Jaraguá, e a zoada só fazia enervar o moribundo. De madrugada, pela janela, ao longe, eu vi chegar a caminhonete do Laurindo Pitani e um vulto saiu carregando outro como se estivesse bêbado&#8230;Depois o doente chamou meus cuidados e só vi um homem sair correndo, canal acima, deixando a caminhonete lá&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes arregalou os olhos:</p>
<p>&#8220;E você não contou isto ao delegado?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu aqui, doutor, sou da oposição. Eu sigo o PTB, do Dr. Getúlio Vargas. O governo é da UDN e nós não nos damos.&#8221;</p>
<p>Silva Pontes sentiu que sua investigação tomaria, agora, novo rumo.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>14. Um tiro à luz do dia</b></p>
<p>
Procurou o delegado e relatou sua nova e sensacional descoberta. Manoel Lyra disse-lhe, aborrecido:</p>
<p>&#8220;Ah, doutor, isto já está enchendo o saco. O que o senhor quer que eu faça?&#8221;</p>
<p>&#8220;Que descubra quem era o vulto na madrugada&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Pode deixar, doutor. Agora mesmo vou determinar ao investigador Pepê as diligências necessárias.&#8221;</p>
<p>O médico saiu da delegacia incrédulo e resolveu ele mesmo encetar investigação paralela. Sua hipótese de que havia algo de podre na morte do milionário, e que resultara na conseqüente morte da professora, estava cada vez mais forte.</p>
<p>Passou, como sempre fazia, pelo bequinho que, saindo da rua Principal, dava nos Correios. Um farfalhar de folhas de um grande cajueiro chamou-lhe a atenção. Virou-se rapidamente e recebeu, no braço, o impacto de uma bala.</p>
<p>O tiro passou de raspão e a observação que fez da minúscula bala mostrou que era de uma garrucha de pequeno calibre. Entendeu que, embora o disparo fosse para ele, era apenas uma advertência porque estava revolvendo defuntos já enterrados. Resolveu nem comunicar o fato ao delegado.</p>
<p>No hotel, fez um ligeiro curativo e sentou-se na varanda, a tirar seu famoso cochilo meditativo, onde tudo se esclarecia.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>15. A identidade do sr. X</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
À noite, no jantar, foi conversar com Dona Maria Silveira, a cozinheira sabe-tudo que já lhe dera importante dica a respeito da falecida Marinalva Cunha.</p>
<p>&#8220;Dona Maria, quem costumava dirigir a caminhonete F-16 do senhor Laurindo Pitani?&#8221;</p>
<p>&#8220;Todo mundo, doutor&#8230; Seu Pitani era o mais mão aberta da cidade. Era só pedir-lhe as chaves para levar doentes ou transportar manjubas.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim, mas não tinha alguns mais chegados?&#8221;</p>
<p>&#8220;Só os companheiros de pôquer, três fazendeirões do sul do Estado e o enfermeiro aqui do hotel, que o povo dizia que era o fatoto do milionário&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes deu-se por satisfeito. Excluiu os companheiros do pôquer que haviam voltado para passar o Natal em casa, e fixou-se no enfermeiro, um belo índio misturado com libanês, cheio de salamaleques.</p>
<p>Chamou-o e pediu que removesse o curativo no braço ferido.</p>
<p>&#8220;Virge, doutor, que foi isso?&#8221;</p>
<p>As mãos do rapaz tremiam.</p>
<p>&#8220;Uma bala perdida que quase me atingiu.&#8221;</p>
<p>Feito o curativo, o médico procurou, de novo, o delegado.</p>
<p>&#8220;Seu Manoel, quem matou a professora e provavelmente o milionário foi o Militão Jorge, enfermeiro do hotel.&#8221;</p>
<p>&#8220;Doutor, parece até idéia fixa, obsessão&#8230; O que o senhor quer que eu faça?&#8221;</p>
<p>&#8220;Que o intime à delegacia e me permita fazer-lhe as perguntas.&#8221;</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>16. Uma dupla confissão</b></p>
<p>
Militão Jorge era daqueles que diziam que nunca haviam ido a uma delegacia, nem como testemunha. Criado na beira da praia, trabalhou quando adolescente na farmácia do Trajano e, quando o Radium Hotel foi inaugurado, foi contratado como enfermeiro, quase uma sinecura que se limitava a levar os hóspedes, pela manhã, para enterrá-los na areia preta e trazê-los na hora do almoço.</p>
<p>Morando perto da mansão do Laurindo Pitani, nas horas vagas fazia de um tudo para o milionário.</p>
<p>Entrou na sala do delegado branco como cera. Espantou-se de encontrar ali o famoso Dr. Silva Pontes, assessorando o delegado Lyra.</p>
<p>E foi o Dr. Pontes quem formalmente lhe perguntou:</p>
<p>&#8220;Sr. Militão, onde o senhor estava na noite do dia 8 de dezembro passado?&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu acho que fui dormir cedo. Havia boi Jaraguá na cidade e eu não gosto de barulho.&#8221;</p>
<p>O médico sentiu uma estranha afinidade com o interrogado, ele também não gostava de barulho, mas prosseguiu austero:</p>
<p>&#8220;Pois duas testemunhas o viram, madrugadinha já, no cais da balsa.&#8221;</p>
<p>&#8220;Mentira pura&#8230;&#8221; (Aí o enfermeiro se enrascou.) &#8220;Não havia ninguém na praça Municipal&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Ora, ora, pois muito que bem, meu manduca&#8230; Você dormia ou estava lá?&#8221;</p>
<p>O rapaz desfez-se de sua versão do sono reparador. O delegado resolveu apoiar integralmente o médico.</p>
<p>&#8220;E tem mais uma coisa, meu velho. Este chaveiro que está no seu bolso era do falecido&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Foi meu patrão que me deu&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Como, se era o chaveiro que ele mais mostrava aos amigos, aqui na cidade? Ele dizia que foi um presente do Boris, quando veio de Nova Iorque. Peça fina, de prata, representando a estátua da liberdade.&#8221;</p>
<p>O enfermeiro balbuciava:</p>
<p>&#8220;Foi presente do patrão&#8230;&#8221;</p>
<p>O delegado se exaltou:</p>
<p>&#8220;Vou mandar o soldado 500 dar um couro nesse cabra.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, doutor, não, isso não.&#8221;</p>
<p>Todos tinham medo do soldado 500, um afro-brasileiro forte, de quase dois metros, conhecido como matador e estuprador.</p>
<p>&#8220;Então conte o que aconteceu na noite do dia 8 de dezembro do ano findo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Conto. Conto a verdade. Foi assim. Seu Laurindo mandou-me dizer à Dona Lili que ele ia jogar pôquer até de madrugada. Bati, bati, e nada da mulher atender. Depois ela abriu a janela e disse — eu vi que ela estava de camisola: &#8216;Ah, é você, Militão?&#8217; Dei o recado do patrão, quando, para mal dos meus pecados, já ia embora, a mulher disse: &#8216;Entre, Militão, que eu quero que você faça um servicinho na pia da copa&#8230;&#8217; Quase meia noite e um mulherão daquele querendo um serviço na copa? Entrei. Ela nem botou um peignoir por cima da curtíssima camisola. Quando eu me abaixei para ver o vazamento ela deitou em cima de mim&#8230; E foi nessa posição que o patrão nos encontrou&#8230; Ele estava embriagado, mas puxou do revólver&#8230; Como sou mais jovem e mais forte, tomei-lhe a arma, ele caiu e Dona Lili o acertou com um rolo de macarrão. Podes crer, o homem exalou ali seu último suspiro. Aí eu disse: &#8216;Vamos chamar o delegado.&#8217; A Dona Lili disse: &#8216;Nada disso. Você vai na lancha e simula lá um acidente.&#8217; Dito e feito. Peguei o homem pelas pernas, puxei-o para a caminhonete. Era noite de festa, o senhor já disse, e eu tive que dar uma volta imensa pelo morro dos Cascais&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Tudo bem,&#8221; disse o delegado, &#8220;que fez você então?&#8221;</p>
<p>O enfermeiro pediu um copo d&#8217;água.</p>
<p>&#8220;Eu devia dar-lhe um copo de vinagre&#8230;&#8221;</p>
<p>O rapaz continuou:</p>
<p>&#8220;Bati com a cabeça do homem no mastro, no mesmo lugar em que a mulher o feriu&#8230; Deixei-o estatelado no convés. Meu azar, quando saí correndo, foi que esqueci de deixar as chaves com ele&#8230; E o chaveiro eu invejava ele e aí deu na minha telha ficar com ele&#8230; Burrice, não?&#8221;</p>
<p>&#8220;Tudo bem. Isto está esclarecido. Mas o que tem Dona Marinalva Cunha a ver com isto?&#8221;</p>
<p>&#8220;A velha, de sua janela, viu tudo. Escreveu a Dona Lili uma carta anônima exigindo quinze mil cruzeiros sob pena de nos denunciar. Eu fui encarregado de colocar o dinheiro junto ao extintor de incêndio do segundo andar do Radium Hotel. Coloquei, e cumprindo ordens de Dona Lili, escondi-me atrás de uma cortina de gorgorão vermelho. A paralítica lá evém em sua cadeira de rodas, ring-ring-ring. Parece que desconfiou de alguma coisa, passou pelo extintor e continuou até a porta do cassino. Depois voltou e com uma rapidez que eu não a julgava capaz, retirou o embrulhinho de cima da peça e foi para o apartamento dela. Voltei e contei tudo a Dona Lili.&#8221;</p>
<p>&#8220;Você tem que matar esta mulher&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Mas&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Nem fusa, nem fó de ferreiro&#8230;É hoje&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu estava meio abilolado, meio apaixonado. Já fizera muitas massagens na pobre professora. Tinha pena dela e das gorjetas de um cruzeiro que ela me dava. Fui. Pé ante pé, peguei um travesseiro e a sufoquei. Depois, de acordo com a sugestão da patroa, joguei-a ao pátio, semelhando um suicídio, que quase foi aceito&#8230; Isto é tudo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Tudo não,&#8221; lembrou-se o delegado. &#8220;Não foi você que deu um tiro no doutor aqui?&#8221;</p>
<p>&#8220;Foi sim, foi sim, mas por ordem de madame. Ela soube que o médico estava bisbilhotando as mortes e mandou eu dar-lhe um susto&#8230; Usei uma garrucha velha que não mata nem preá&#8230;&#8221;</p>
<p>[Renato esqueceu que o médico não havia contado o incidente ao delegado.]</p>
<p>O delegado se deu por satisfeito e gritou, fazendo valer sua autoridade:</p>
<p>&#8220;Seu cachorro, recolha este safado no pior cubículo da cadeia.&#8221;</p>
<p>[Outra passagem sem sentido. A quem se dirigia o delegado?]</p>
<p>
<b>17. Enfrentando a viúva</b></p>
<p>
&#8220;E agora, doutor? Está satisfeito?&#8221;</p>
<p>&#8220;Agora o senhor tem que acarear o enfermeiro com a viúva.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu? Vou pedir um delegado especial, bacharel em direito. A mulher é rica e está nas graças do prefeito&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Faça como quiser&#8230; Minha missão, considero-a finda satisfatoriamente,&#8221; disse o médico carioca.</p>
<p>O delegado especial veio. Era um advogado recém-formado, cuidadoso com os trajes e perfumes, alfinete de gravata com uma caveirinha, e muito falante. Tinha um grande anel de advogado e fazia questão de ser chamado Doutor Paulo Thomé.</p>
<p>Por motivo ignorado, convidou Silva Pontes para assistir à conversa que teria com a viúva. O médico relutou, mas, ao final, não tinha nada a perder, foi.</p>
<p>A casa senhorial tinha fachada coberta de antigos azulejos portugueses, restos de uma demolição que, segundo informaram, tinha uma finalidade mais protetora do estuque do que estética. Enquanto esperava, ficou a admirar a bela construção, e tentando identificar os santos reproduzidos em grupos selecionados de azulejos.</p>
<p>Foram admitidos no salão.</p>
<p>A viúva estava linda, num vestido decotadíssimo e um colar com uma pequena cruz. Recebeu o delegado, o escrivão e o médico toda sorrisos. Assessorava-a o advogado Dr. Monteiro, famoso chicanista da Capital.</p>
<p>O delegado entrou todo maneiroso no assunto. Tinha um depoimento do sr. Militão Jorge que desejava ler. E perguntou:</p>
<p>&#8220;A senhora conhece o sr. Militão?&#8221;</p>
<p>&#8220;Claro. Ele trabalhava para meu falecido marido, mas estava brigado com ele por causa de acerto de salário&#8230;&#8221; A mulher ficou impassível durante toda a leitura que o escrivão fez.</p>
<p>Enquanto isto, Silva Pontes a observava discretamente. Que mulheraço! Constava, na cidade, que o Laurindo Pitani, desquitado, sem filhos (a falta de filhos fora a causa da separação), a trouxera de um bordel de Itabuna ou Ilhéus. Ela era odiada pelas senhoras locais, por causa da sua arrogância.</p>
<p>Ao fim e ao cabo, o advogado disse:</p>
<p>&#8220;Não fale nada&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Mas, Dr. Monteiro, eu quero falar. Isto é uma mentira cruel. Eu nunca cheguei nem perto desse filho da puta, arraia miúda, pé de chinelo. Eu sou bem nascida da família Dupin, de Salvador. Esse aí é lá de Meaípe.&#8221;</p>
<p>E virando-se para Silva Pontes, com raiva incontida e chispas faiscando nos olhos:</p>
<p>&#8220;Todos estão dizendo que isto foi insinuado pelo senhor, doutor. Eu nunca lhe fiz mal&#8230; Se o senhor é tão mau médico quanto detetive, seus clientes estão perdidos&#8230;&#8221;</p>
<p>O delegado assumiu o comando da situação:</p>
<p>&#8220;Então a senhora nega todas as acusações?&#8221;</p>
<p>&#8220;Nego. Todas. Todinhas. Perguntem ao acusado o que aconteceu, na verdade, e ele vai esclarecer&#8230;&#8221;</p>
<p>O delegado mandou lavrar o termo de depoimento, e retiraram-se todos em silêncio.</p>
<p>
<b>18. Surpresa!</b></p>
<p>
No dia seguinte a cidade amanheceu cheia de boatos. Aos poucos Silva Pontes ficou sabendo que o Militão Jorge retificara sua confissão!</p>
<p>Pela nova versão ele fora o autor dos dois crimes, que não tinham nada um com o outro.</p>
<p>Na madrugada do dia 8 de dezembro ele ia pescar, em alto mar, com o patrão, que chegou no barco &#8220;Andaluzia&#8221; muito bêbado. Desentenderam-se e entraram em luta. O milionário caiu, bateu com a cabeça na quina do motor da lancha, e morrera. Apavorado, ele deixou o morto lá e saiu correndo, levando, na pressa, as chaves da caminhonete do Pitani.</p>
<p>Meio mês depois ele soube, no Hotel, que Dona Marinalva Cunha tinha ganhado uma bolada na roleta. Como enfermeiro da casa e massagista da professora tinha conhecimento de que ela tinha insônia e dormia sob efeitos de remédios.</p>
<p>De madrugada, entrou no quarto para roubar (&#8220;não todo o dinheiro, eu não faria isso com a pobrezinha&#8221;) um pouco do cofre que ficava no armário do apartamento. Quando abriu a porta fez barulho, a mulher estava acordada, olhou-o com olhos de medo, e o jeito foi silenciá-la com um travesseiro. Jogá-la no jardim foi uma idéia súbita, pois queria (como foi pensado) que parecesse suicídio.</p>
<p>É isto aí.</p>
<p>Falaram também que a casa da mãe do enfermeiro, em Meaípe, que era de tábuas, num passe de mágica, virou de alvenaria e que colocaram no Banco do Brasil, em Vitória, polpuda importância em seu nome, em conta conjunta com o filho, fofocas que permitiram à maioria entender que havia maracutaia no caso.</p>
<p>
<b>19. A denúncia</b></p>
<p>
O inquérito concluído foi para Anchieta, cabeça da comarca, de que Guarapari era termo.</p>
<p>O promotor público, Dr. Geraldo Alves, analisou todas as peças e se convenceu da culpa do enfermeiro e da viúva.</p>
<p>Denunciou ambos, e como mandava a lei, pediu fosse decretada sua prisão preventiva.</p>
<p>Era sexta-feira e o juiz, Dr. José Firme, levou os autos para casa. No sábado, um carro oficial veio requisitar-lhe, da parte do Tribunal, informações urgentes sobre o processo, imediatamente fornecidas com a bela letra do magistrado.</p>
<p>Na segunda-feira, por decisão do relator, desembargador Honestino Guedes, o processo foi trancado no que concerne à acusada Liliane Dupin Pitani, por falta de justa causa.</p>
<p>No devido tempo, Militão Jorge foi condenado pelo júri a 13 anos de reclusão, pena pequena se se levar em conta que havia em pauta dois homicídios qualificados.</p>
<p>20. E agora me vou&#8230;</p>
<p>Silva Pontes deu por encerrado seu veraneio daquele ano. Pediu que a caminhonete do hotel o levasse à Capital, onde tomaria o avião para o Rio.</p>
<p>Passou na Casa Paroquial onde o padre Manezinho o abraçou efusivamente, sob o olhar atônito de D. Maria, que apreciava aquele balancê ridículo do padre baixote e gordo e do médico espigado e magro, como que dançando, sem música.</p>
<p>No cais da balsa [Renato volta ao tempo da balsa, quando anteriormente o texto sugeria que a época do romance fosse posterior à construção da ponte de Guarapari, pois falou até em fusquinhas] já havia três carros na fila. Enquanto esperava, ficou o médico a olhar a usina da Mibra, onde eram separadas, pelo peso, em esteiras rolantes, as diversas areias raras — monazita amarela do sol, ilmenita preta como a noite.</p>
<p>Enfim, atravessaram o estreito canal e começaram a viagem de duas horas, levantando poeira em Muquiçaba, nas Neves, Amarelos.</p>
<p>No Barro Branco um homem de alpercata e boné tipo roceiro pediu carona. O motorista não queria dar, mas Silva Pontes reconheceu no suplicante seu velho amigo, o desembargador Vicente Saavedra, dono de um sítio ali.</p>
<p>&#8220;Perdi o ônibus e tenho que chegar ao Tribunal antes do meio dia&#8230;&#8221;</p>
<p>O motorista queria que o desembargador ocupasse lugar na carroceria, onde havia dois servidores do hotel e um engradado com galinhas, mas Silva Pontes bateu o pé:</p>
<p>&#8220;Não senhor. O homem é importante. A gente aperta na boléia.&#8221;</p>
<p>Em Araçatiba, o radiador do velho carro ferveu e o motorista teve de parar para conseguir água no rio Jucu.</p>
<p>Enquanto esperava em baixo de uma mangueira, o velho magistrado confidenciou:</p>
<p>&#8220;Pois é, eu lhe peço sigilo, mas estou indo para uma sessão secreta muito dolorosa pois vão entrar em pauta denúncias contra um colega, o Honestino Guedes. Há diversas acusações, inclusive um trancamento escabroso de um processo de uma viúva milionária aí de Guarapari&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes sentiu-se, de certa forma, vingado. O homem que livrara a cara da viúva agora estava sendo julgado&#8230; Disse ao amigo:</p>
<p>&#8220;Entrou por um ouvido, saiu pelo outro&#8230;&#8221;</p>
<p>Deixaram o desembargador no Parque Moscoso, onde ele ia trocar de roupa e almoçar, e foram, pela Avenida Vitória e Reta da Penha, para o campo de aviação, em Goiabeiras.</p>
<p>Silva Pontes tinha passagem na Aerovias Brasil, que operava uns velhos DC 3 salvos da Segunda Guerra, despressurizados. O médico detestava a viagem, pois enjoava, terrivelmente.</p>
<p>Usando o seu prestígio, entrou logo no avião e sentou-se no primeiro banco. Bem depois começaram a chegar os demais passageiros.</p>
<p>Uma mulher belíssima, bem maquiada, num vestido branco impecável, bateu no ombro do médico, piscou-lhe um olho e deu uma risadinha.</p>
<p>No primeiro momento não reconheceu a viúva Pitani. Logo atrás dela, tendo à mão uma trousse feminina, o delegado Paulo Thomé, terno de tergal preto, brilhoso e cafona, de agente secreto, o qual virou o rosto para não cumprimentar o médico. Fez que não o conhecia.</p>
<p>Em cinco minutos, mesmo antes de o avião decolar, o Dr. Silva Pontes já estava nos seus cochilos silenciosos, sonhando com Guarapari, maravilha da Natureza.</p>
<p>[Texto corrido extraído da primeira versão manuscrita do romance, com 58 folhas numeradas, escritas na frente e no verso. Reprodução autorizada pela família.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Renato Pacheco</b>&nbsp;foi importante pesquisador da história e folclore capixabas, além de escritor, com vários livros publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/renato-pacheco-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Crime no Radium Hotel — Capítulos produzidos por Luiz Guilherme Santos Neves</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 18:04:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1 Na praia das Pelotas, Silva Pontes interrompeu sua caminhada. Era uma nesga de areia situada entre rochas, que a separavam das praias vizinhas da Areia Preta e do Riacho. O médico chegara até ali depois de voltar do Riacho, andando sobre a pedra onde o mar quebrava em ondas, espraiando espumas na crosta molhada [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;">
<b>1</b></div>
<p>Na praia das Pelotas, Silva Pontes interrompeu sua caminhada. Era uma nesga de areia situada entre rochas, que a separavam das praias vizinhas da Areia Preta e do Riacho. O médico chegara até ali depois de voltar do Riacho, andando sobre a pedra onde o mar quebrava em ondas, espraiando espumas na crosta molhada e escorregadia. O sol tinha acabado de surgir sobre o oceano e Silva Pontes aspirou o ar da manhã enchendo os pulmões no limite da sua capacidade.</p>
<p>A praia das Pelotas era coberta por uma extensa camada de conchas e corais que as vagas depositavam na areia. O médico fazia ali uma parada habitual para catar &#8220;carrapatos&#8221;, uma conchinha que lembrava a forma deste artrópode. Era preciso apurar a vista para identificar os carrapatinhos nacarados, com pintas marrons, espalhados pela areia.</p>
<p>Silva Pontes impunha um desafio diário à sua sofrida miopia, mal atenuada pelo pincenê: ver quantos carrapatos era capaz de catar em cinco minutos. Marcava o tempo pelo seu Tissot de pulso, do qual nunca se separava, nem quando dormia ou mergulhava em suas vigílias elucubrativas. Seu recorde de catação tinha sido de quinze carrapatinhos, o que lhe dava a satisfatória média de três carrapatos por minuto. Uma glória, para quem tinha de manter o equilíbrio do pincenê acavalado no nariz, com as lentes ligeiramente embaçadas pela maresia.</p>
<p>Catar carrapatos na praia das Pelotas era uma distração de muitos banhistas. Silva Pontes já havia pensado em promover um concurso entre os adeptos do passatempo. Mas desistiu da ideia por achar que seriam tantos os concorrentes que a estreita praia não os comportaria de uma vez. Pelo menos esta iniciativa não seria mais uma das suas contribuições para divulgar Guarapari como maravilha da Natureza. E não pensou mais no assunto.</p>
<p>Curvado sobre o corpanzil cinquentão, terminou os cinco minutos que se dera e conferiu a féria do dia, reunida no côncavo da mão. &#8220;Doze carrapatos! Não foi uma performance de todo ruim&#8221;, murmurou para si mesmo, atirando de volta à areia as conchinhas catadas e contabilizadas. &#8220;Que alguém, de olho mais agudo que o meu, tenha melhor sorte,&#8221; disse, em voz alta, no gesto do arremesso.</p>
<p>&#8220;Falando sozinho, doutor?&#8221;, perguntou a veranista cuja aproximação Silva Pontes não notara.</p>
<p>O médico encarou a mulher através das lentes embaçadas do pincenê e reconheceu a professora Sílvia Miranda, uma das suas pacientes do Radium Hotel. Num gesto de boa educação, ergueu o chapéu Panamá que cobria a cabeleira basta, cor de caju, e respondeu, bem humorado:</p>
<p>&#8220;Não posso dizer que falava com os meus botões porque não os tenho no calção de banho. Mas falo com meus carrapatinhos de estimação.&#8221;</p>
<p>A professora sorriu da resposta e, sem se deter um segundo sequer, retrucou com uma saudação estimulante:</p>
<p>&#8220;Bom proveito, doutor!&#8221;</p>
<p>Silva Pontes ficou contemplando-a afastar-se em direção à praia do Riacho, caminhando sobre a pedra em passos de passarinho, o corpo jovem e torneado contido no maiô azul escuro.</p>
<p>&#8220;Bom proveito?&#8221;, indagou para si mesmo. E completou, tirando novamente o chapéu da cabeça, onde os cabelos à Carlos Gomes lembravam as lavas de um vulcão impetuoso: &#8220;Ai, carrapatinhos de minh&#8217;alma, o que posso esperar deste voto?&#8221;</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>2</b></div>
<p>Sílvia Miranda sentiu que, enquanto ia pela pedra em direção à praia do Riacho, os olhos do médico cravavam-se nas suas costas. Esta impressão, que era quase palpável, a deixou envaidecida. Claro que não iria cometer a leviandade de se virar e conferir o que a sua intuição feminina lhe assegurava com tanta certeza. Continuou seu caminho, reforçando, agora com certa malícia, o ligeiro bamboleio dos quadris, enquanto percebia, através da planta fina dos pés, a rugosidade da rocha por onde andava com o necessário cuidado para não escorregar. &#8220;Eu sei que ele está me olhando, tem de estar me olhando!&#8221;, pensava Sílvia.</p>
<p>Não podia negar que o médico, apesar do pincenê e daqueles cabelos de juba de leão pintados de caju, ou talvez até por causa da juba leonina, a impressionasse como homem. Alto, simpático, solteiro, e, ainda por cima, médico de renome nacional, era o que se podia chamar de um partido de primeira. E quanto ao pincenê, bem, nem sempre estaria ele cavalgando o dorso nasal do doutor.</p>
<p>A par disso, tratava-se de homem maduro, pelos quais Sílvia sempre tivera uma queda especial e diante dos quais sua carência de menina órfã, ex-interna do colégio do Carmo, em Vitória, se tornava extremamente vulnerável. Depois, havia como a ligá-los, premonitoriamente, a semelhança dos nomes — Sílvia e Silva. Nada mais do que um i os tornando diferentes e, ao mesmo tempo, os fazendo tão próximos um do outro, ele e ela, homem e mulher, macho e fêmea.</p>
<p>O lado romântico e ardente do temperamento de Sílvia Miranda sofreu, da parte dela, uma puxada de rédeas e seus devaneios se recolheram como as ondas do mar depois de espumarem sobre a rocha. Sua atenção orientou-se então para a praia do Riacho, onde havia marcado um encontro com possibilidades concretas, segundo pensava, de mudar para sempre seu destino de professora primária.</p>
<p>Estava em Guarapari há um mês e meio. Viera de Governador Valadares para passar férias de verão na Cidade Saúde e hospedara-se no Radium Hotel por indicação de um amigo, mas graças também a algumas economias forçadas, feitas durante o último ano letivo.</p>
<p>Na verdade, não só tinha em mira se conceder um justo e merecido descanso, como aproveitar a terapêutica monazítica das areias pretas para combater um começo de reumatismo que lhe afligia as juntas e o pulso da mão direita.</p>
<p>O amigo, que lhe indicou Guarapari, havia lido numa revista de medicina, na ante-sala de um consultório médico, um artigo apologético sobre as propriedades miraculosas das praias de Guarapari, para o tratamento do reumatismo e de outras doenças dos ossos. Tratava-se de trabalho assinado por Silva Pontes. Ao passar as informações para Sílvia, o amigo não se esquecera sequer de mencionar o nome do articulista. &#8220;Parece que é uma sumidade no tratamento de reumatismo&#8221;.</p>
<p>Ao hospedar-se no Radium Hotel, Sílvia Miranda ficou sabendo que a sumidade também se encontrava ali, hóspede de honra com direito ao uso de uma saleta para o atendimento de pacientes. Não seria ela, pois, que iria perder a oportunidade de travar conhecimento com aquele prodígio da medicina, tão à sua mão doente que quase a assustava.</p>
<p>Só que, antes que Sílvia levasse à frente um estreitamento de relações com Silva Pontes, o acaso colocou em seu caminho a figura bem apessoada e galante, e diga-se ainda que divertida e fogosa, do jovem Rodrigo Vilela da Cunha. Por ele a professora se tomou de amores e, impulsionada pelo sopro quente de Cupido, ia encontrá-lo na deserta praia do Riacho, onde a constante arrebentação das ondas espantava, para águas menos encapeladas, banhistas ousados e temerosos.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>3</b></div>
<p>&#8220;O homem — todos os homens — vivem num imponderável jogo de acasos.&#8221;</p>
<p>A frase mordeu o cérebro de Silva Pontes enquanto voltava para o Radium Hotel. À sua direita, o mar arrebentava com força, na praia da Areia Preta; à esquerda, uma falésia aprumada e vermelha, como um ventre de barro rasgado de cima em baixo, se despenhava reto sobre a praia, criando uma ribanceira com mais de quinze metros de altura. A falésia formava, naquele canto, um regaço morno e aconchegante.</p>
<p>Na barra do mar, em frente ao barranco, algumas rochas faziam as vezes de banheira natural, onde as ondas entravam espumando e onde Silva Pontes entrava suado, para usufruir daquele refúgio sereno. Era ali que ele se alojava como senhor do mundo, Netuno em águas reconfortantes, durante suas caminhas matinais, para banhar-se calmamente, com uma alegria quase juvenil. &#8220;Maravilha da natureza&#8221;, chegava a gritar para as ondas que se rompiam sem o menor perigo, por cima das pedras.</p>
<p>Terminado o banho de pato, Pontes dirigia-se para o hotel onde quebrava o jejum com um café da manhã, servido no salão de refeições, constituído de café, leite ou chocolate, pão com manteiga, cuscuz e banana da terra cozida, que ele cirurgicamente abria ao meio para passar manteiga e chuviscar com canela em pó.</p>
<p>Andando sem pressa, evitava a parte fofa da praia, onde, às vezes, suas pisadas mais firmes provocavam alguns assovios, curtos e agudos, que lhe causavam gastura. Aprendera a palavra em Guarapari, com a gente da terra, e a adotara para significar um mal-estar momentâneo e físico, geralmente acompanhado de arrepio. Enquanto caminhava, remoeu a frase que lhe tinha atinado à consciência, fruto de antiga obsessão da sua mente lógica e especulativa: &#8220;O homem — todos os homens — estão sujeitos na vida a um imponderável jogo de acasos.&#8221; E concluiu: &#8220;O acaso deve ter as suas leis, talvez tão sutis quanto as da hereditariedade. O diabo é explicá-las&#8221;.</p>
<p>E tomava a si próprio como exemplo para as essas ruminações filosóficas.</p>
<p>Nunca estivera nos seus desígnios se interessar pelos segredos da radioatividade. No entanto, quando ainda era estudante, caiu-lhe sob os olhos o Almanaque Hachette de 1904, que mencionava a existência do radium, descoberto em 1898 pelo casal Curie, cujas pesquisas posteriores levaram os dois cientistas ao Prêmio Nobel de 1903.</p>
<p>Anos depois, já formado pela Escola de Medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, Silva Pontes, num convite inesperado que lhe fez um embaixador amigo de seu pai, tornou-se assistente do Instituto de Radium de Berlim, no decurso da Primeira Guerra Mundial. Ali, onde trabalhou com alguns professores de maior renome na Alemanha, publicou, em revistas médicas, trabalhos experimentais sobre os efeitos biológicos da radioatividade no organismo animal.</p>
<p>Já no Brasil, durante uma de suas habituais excursões de férias, feitas em automóveis comprados de segunda mão, veio bater na modesta cidade de Guarapari, que, de tão modesta mais parecia uma simples vila de pescadores. Foi quando travou contato com a praia da Areia Preta, cujo potencial radioativo identificou a olho nu, percebendo, antes de qualquer outra pessoa, o potencial curativo que o lugar oferecia para tratar reumatismos.</p>
<p>Agora, quase vinte anos depois dessa primeira visita, ei-lo outra vez em Guarapari, que ajudou a projetar mundialmente como cidade-saúde. E, para sua maior satisfação, hospedado como convidado especial, no novo hotel da cidade, ao qual muito apropriadamente fora dado o nome de Medicinal Radium Hotel, erguido diante da praia da Areia Preta.</p>
<p>O hotel era explorado pelo Governo do Estado, interessado em divulgar Guarapari como balneário turístico e terapêutico. O governo o adquirira ao seu idealizador, um amazonense que estudara em Vitória, mas que não teve cacife para concluir as obras.</p>
<p>&#8220;Sim, o homem vive num imponderável jogo de acasos,&#8221; repisou Silva Pontes entrando no grande jardim do hotel, enquanto revia em pensamento o corpo atraente de Sílvia Miranda, balançando sobre as pedras lambidas pelo mar. E ele mesmo lambendo os lábios sem sentir, perguntou-se, sorridente: &#8220;Será este um outro exemplo das imponderabilidades do acaso?&#8221;</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>4</b></div>
<p>O Radium Hotel era o que se poderia chamar um hotel moderno, com o conforto necessário para atrair hóspedes e turistas de todas as partes do mundo. Seus quartos tinham ventiladores de teto, camas com mesinhas de cabeceira e abajur, penteadeiras com pufes e armários para roupas, além de banheiros privativos.</p>
<p>Para Silva Pontes, que chegou a Guarapari pela primeira vez em 1937, e teve de se hospedar num hotel de precárias condições, com sanitário tipo fossa, coletivo e imundo, com catres nos quartos no lugar de camas e assoalho de madeira cujos furos permitiam que se visse a vegetação do solo, o Radium era a última palavra em modernismo, como já alardeava a propaganda feita fora do Estado do Espírito Santo.</p>
<p>Além desses requintes, o hotel tinha alguns apartamentos que se comunicavam internamente por uma porta comum, como acontecia em grandes hotéis do Rio de Janeiro e São Paulo. Era uma solução prática que permitia a associação de dois cômodos, transformando-os, num abrir de porta, num aposento conjugado, quando assim fosse do interesse de alguns clientes.</p>
<p>Além das dependências para hóspedes, o Radium Hotel contava com um cassino. O cassino funcionava com a tolerância das autoridades do Estado, algumas das quais, independentemente dos poderes a que pertenciam, costumavam frequentá-lo nos finais de semana, com a vantagem de poder se passar por hóspedes acompanhados de suas digníssimas consortes ou de suas espevitadas amantes.</p>
<p>Jogava-se a rodo, o uísque corria solto, o dinheiro passava de mão em mão, sobretudo para as burras do cassino. Era como se a radioatividade das areias de Guarapari se transferisse, desde o cair da noite, para o frenesi da tavolagem.</p>
<p>Nos fins de semana que coincidiam com feriados religiosos ou dias da pátria, artistas vinham do Rio de Janeiro, especialmente contratados para cantar e tocar no cassino do hotel. O show se estendia até altas horas da madrugada, mas apesar da bebedeira reinante, nunca se soube de alguém que tivesse curado o porre fenomenal mergulhando em nudez etílica no mar ali perto.</p>
<p>De sua parte, apenas uma vez Silva Pontes pisou nas dependências do cassino, assim mesmo a serviço da medicina, para o atendimento urgente de um freguês da roleta e do bacará que foi acometido de uma súbita comoção cerebral, depois de ver esvair-se pelas mãos trêmulas e ansiosas o patrimônio construído durante anos. Silva Pontes teve muito pouco o que fazer, a não ser recomendar que o homem fosse removido às pressas para o hospital do Dr. Dório Silva, em Vitória.</p>
<p>Um carro chapa preta, que atendia ao secretário do Interior e Justiça, estacionado no grande jardim do Radium Hotel, serviu de ambulância para o transporte do doente.</p>
<p>Mas para Silva Pontes a ida ao cassino teve ainda outro proveito: revelou-lhe que algumas hóspedes do hotel também se faziam presentes às noitadas da jogatina. Bem arrumadas, com pulseiras, colares e anéis cintilantes, agitavam-se de um lado para o outro. Uma delas, Dona Marinalva Cunha, paciente a quem o médico atendia devido ao artritismo crônico, chamou-lhe em especial a atenção, docemente empurrada em sua cadeira de rodas por um enfermeiro do hotel.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>5</b></div>
<p>No dia seguinte à incursão ao cassino, Silva Pontes teve de ir a Vitória. Foi para atender ao convite para proferir uma palestra sobre a cura do reumatismo e do artritismo pela radioatividade.</p>
<p>O convite partiu do diretor do Sanatório Getúlio Vargas, Dr. Zaig, que fora um dos mais brilhantes alunos de Silva Pontes, na Faculdade da Praia Vermelha, no final da década de 20.</p>
<p>Silva Pontes partiu para Vitória na véspera do dia de Nossa Senhora da Conceição, 8 de dezembro, que começou radioso, com muito sol e temperatura amena, mas terminou sob tremendo temporal.</p>
<p>A perua do sanatório chegou ao Radium Hotel às 9,20 da manhã, dirigida pelo motorista Gabino Ramos. O médico embarcou logo, carregando na mão sua maleta marrom com uma muda de roupa. Deu bom dia a Gabino e acomodou o corpo pesado no banco dianteiro e inteiriço da Chevrolet 52.</p>
<p>De soslaio, Gabino conferiu o passageiro com a descrição que dele fizera Zaig: &#8220;Tem porte de vulcão, cabeça de vulcão e, às vezes, cospe lava pela boca, sem deixar cair o pincenê&#8221;. O personagem batia com o seu retrato falado.</p>
<p>Ao passar sobre a ponte de cimento armado, que liga o porto de Guarapari a Muquiçaba, Gabino puxou conversa: &#8220;Graças a essa obra, inaugurada há pouco tempo, não precisamos mais esperar a balsa para atravessar o canal.&#8221;</p>
<p>Silva Pontes inspirou fundo e, sem se voltar para o motorista, retrucou: &#8220;Pode ser uma bela obra de engenharia, mas para mim não passa de engenhosidade modernosa. Eu preferia a balsa. Esta ponte vai destruir Guarapari. Daqui a alguns anos, meu caro, a cidade vai virar um paredão de prédios, como Copacabana.&#8221;</p>
<p>Gabino não esperava tal resposta. Não podia imaginar que Silva Pontes tivesse sido ferrenhamente contrário à construção da ponte que, no seu entender, iria descaracterizar Guarapari como recanto acolhedor e tranqüilo. Resolveu ficar calado e murcho, como zero à esquerda, no seu canto de motorista, concentrando-se na estrada e nas mudanças de marcha, com a alavanca em baixo do volante.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>6</b></div>
<p>Rodados uns cinco quilômetros por estrada de chão, Silva Pontes virou-se para Gabino e quebrou o gelo reinante: &#8220;Como está o Zaig?&#8221;</p>
<p>&#8220;Bem, como sempre&#8221;, respondeu o motorista. &#8220;E aprontando muitas e boas&#8221;.</p>
<p>O médico se recordou do ex-aluno, agora seu amigo particular, a quem não via há algum tempo. Zaig era um homem de porte médio, de inteligência fulgurante, olhos vivos e perspicazes, com um nariz aquilino que não escondia sua ancestralidade judia, trazida de Portugal pela mãe lusitana. Tisiologista de fama nacional, era um humanista na verdadeira acepção da palavra. De formação clássica, leitor assíduo de Santo Agostinho e de Santa Teresa de Jesus, que lhe alimentavam o lado místico, sua luta infatigável para combater a tuberculose, principalmente junto às camadas menos favorecidas da população, transformar-se-ia na cruzada da sua vida. A ela Zaig se dedicava de corpo e alma e com toda a ciência que havia apreendido.</p>
<p>&#8220;O combate à doença se faz com lógica e precisão. Na enfermidade, como no roubo e no crime, há sempre um desafio à nossa inteligência, um mistério que pede solução&#8221;, costumava dizer, com ares sherloquianos. &#8220;O que é o diagnóstico, senão o ato preliminar e indispensável para o desvendamento de uma incógnita?&#8221;</p>
<p>Silva Pontes desconhecia, porém, do ex-aluno e amigo, aquele lado brincalhão e irreverente, a que se referira Gabino Ramos.</p>
<p>&#8220;Que história é essa de aprontar muitas e boas?&#8221;</p>
<p>&#8220;O senhor não sabia? Pois para armar uma brincadeira, que aqui no Espírito Santo se chama enxova, Dr. Zaig não dorme no ponto, principalmente quando está com seus amigos Dr. Pissinali e Dr. Paulo Veloso. Já ouviu falar deles?&#8221; Do médico Pissinali, Silva Pontes já ouvira falar pelo próprio Zaig. Mas, de Paulo Veloso, era a primeira vez que lhe mencionavam o nome.</p>
<p>&#8220;Quem é o Dr. Paulo?&#8221;, quis saber, sem reprimir a curiosidade e até arrumando motivo para alimentar a conversa durante a viagem. Ouvir, ouvir atentamente os outros, quaisquer que fossem as histórias que contassem, era um dos princípios de vida de Silva Pontes. &#8220;Pela audição se aprende tanto quanto pela leitura,&#8221; costumava dizer.</p>
<p>&#8220;Dr. Paulo é promotor de Justiça, enxovador de marca maior, amigo de Dr. Zaig desde os tempos de ginásio. Estão sempre juntos, como unha e carne&#8221;, explicou Gabino, retirando, por alguns segundos, as mãos do grande volante da perua, para fazer, com os indicadores em fricção, o gesto que indicava a estreita ligação entre os amigos. &#8220;Eu mesmo já fui vítima de muitas situações que eles me criaram&#8221;.</p>
<p>&#8220;Você?&#8221;, indagou Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Eu. A última que me fizeram foi domingo retrasado, no jogo entre o Caxias e o Vitória&#8221;.</p>
<p>A curiosidade de Silva Pontes levou Gabino a contar a história em detalhes.</p>
<p>&#8220;Já que o senhor quer saber..,&#8221; disse ele, depois de evitar, com uma guinada para a esquerda, o atropelamento de uma galinha com um renque de pintinhos que chisparam de um lado para outro da estrada, perto de Amarelos.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>7</b></div>
<p>&#8220;Olha, doutor, além de motorista, eu sou juiz de futebol. Não foi nem uma, nem duas partidas decisivas que apitei, no estádio Governador Bley, em Jucutuquara. Até jogos contra times do Rio e de Minas Gerais, que no placar são chamados Visitantes, eu marquei e me orgulho disso.</p>
<p>Mas como ia dizendo, domingo retrasado ia ser a final do campeonato capixaba, entre o Vitória Futebol Clube e a Associação Atlética do Caxias. O Caxias é o time da Polícia Militar do Estado, um osso duro de roer quando joga uma cartada decisiva. E duro de roer para o adversário e para o juiz. O pior é que eu fui sorteado para apitar a partida.</p>
<p>Dr. Zaig e Dr. Paulo são Vitória de carteirinha social, e costumam ir ao estádio nos jogos do seu clube. Dois dias antes, lá no sanatório, porque Dr. Paulo não é médico mas aparece sempre para ver Dr. Zaig, eles me cercaram perguntando: &#8216;Como é, Gabino, você não está com medo de apitar o jogo com o Caxias? Aquela meganhada é capaz de lhe cortar o pinto.</p>
<p>&#8216; Me encheram tanto a paciência com essas brincadeiras que eu acabei confessando que ia levar uma peixeira dentro do calção. Não que eu quisesse furar ninguém, mas na minha terra, doutor, em São Mateus, no norte do Estado, costuma-se dizer que seguro morreu de velho.</p>
<p>Dr. Zaig e Dr. Paulo ouviram calados a minha informação, mas eu conheço eles bastante para saber, pela troca de olhar entre os dois, que iam me aprontar alguma.</p>
<p>E não deu outra. Quando soprei o apito para o início do jogo ouvi a voz de Dr. Zaig, gritando da arquibancada: &#8216;Gabino tá com uma peixeira no calção!&#8217; E Dr. Paulo, completando: &#8216;Tira a peixeira dele!&#8217;</p>
<p>O Governador Bley é um estádio pequeno, o público nas arquibancadas fica perto do gramado. Em campo, ouve-se tudo o que os torcedores gritam. Pois foi assim o jogo todo. Dr. Zaig e Dr. Paulo me alcaguetando por causa da peixeira, eu fingindo que não era verdade, procurando apitar a partida sem me aproximar do lugar onde estavam meus acusadores.</p>
<p>No dia seguinte, quando fui pegar Dr. Zaig em casa, para levá-lo para o sanatório, como faço todas as manhãs, ele, com a cara mais lavada do mundo, me disse: &#8216;Mas que jogo, hein, seu Gabino! Uma beleza, a vitória do Vitória! E aquele pênalti, que nos deu o campeonato, só um macho como você teria coragem de marcar contra o Caxias&#8230;&#8217;</p>
<p>Não me contive e reclamei com ele, porque sempre houve muita liberdade entre nós, até somos parentes por laços familiares lá em São Mateus: &#8216;É, mas vocês me encheram a paciência com a história da peixeira.&#8217; E sabe o que o Dr. Zaig me respondeu?&#8221;</p>
<p>&#8220;O quê?&#8221;, indagou Silva Pontes, divertido com a história que ouvia.</p>
<p>&#8220;Olha, Gabino, se Paulo e eu não gritássemos que você estava armado, pensa que você sairia vivo do jogo de domingo? Fomos nós, seu putão, que garantimos sua integridade física. Isso você nos deve pelo resto da vida!&#8221;</p>
<p>Silva Pontes deu uma boa gargalhada com o caso, sobretudo porque Gabino acabou reconhecendo que Zaig e Paulo tinham razão.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>8</b></div>
<p>Chegaram a Vitória quase duas horas depois de terem saído de Guarapari. A estrada de barro não estava muito boa depois de Amarelos, pela via até a Barra do Jucu, onde ainda tiveram de esperar um caminhão mudar um pneu furado, em cima de uma das pontes de madeira que cortam o rio. Atravessaram o longo coqueiral dos Oliveira Santos, de onde Silva Pontes sempre admirava o convento da Penha, deixaram Vila Velha para trás, chegaram à ilha do Príncipe pelas Cinco Pontes e logo a perua 52 começou a trepidar pelas ruas de paralelepípedos de Vitória, a caminho do sanatório Getúlio Vargas, em Maruípe.</p>
<p>Em Jucutuquara, Gabino fez questão de passar diante do estádio governador Bley, que Silva Pontes conhecia só de nome, lembrando para o médico, &#8220;foi aí o meu suplício, domingo retrasado.&#8221; Mais à frente, depois do ponto final do bonde, pegou a avenida Maruípe para alcançar o sanatório. O prédio de dois pavimentos — construído de cimento armado, como então se dizia — sobressaía numa colina pontuada por pés de eucaliptos, considerados terapêuticos para o tratamento da tuberculose.</p>
<p>Quando Silva Pontes, quase ao meio-dia, entrou no gabinete de Zaig, este estava com as pernas esticadas em cima da mesa e os óculos puxados sobre a testa larga e branca, como era de seu estilo. Falava ao telefone animadamente e fez sinal para Silva Pontes se sentar em frente à sua mesa, numa cadeira de mogno, com réguas no encosto. Assim que terminou o telefonema, levantou-se e abraçou o amigo, dizendo, amistosamente:</p>
<p>&#8220;A vida é a luta constante entre o indivíduo e o meio em que vive&#8221;.</p>
<p>A frase, que se tornara saudação entre ambos, era repetida por Silva Pontes nas aulas da Faculdade da Praia Vermelha.</p>
<p>&#8220;Você não se esquece, hein, Zaig?&#8221;</p>
<p>&#8220;Pudera, mestre! Suas aulas são uma das boas lembranças dos meus tempos de acadêmico. E a saúde, como está?&#8221;</p>
<p>&#8220;Graças a Deus, vai bem, tirante a miopia, que às vezes me irrita&#8221;.</p>
<p>&#8220;Talvez graças a ela você tenha aprendido a ver mais longe do que muita gente&#8230;&#8221; disse Zaig, gentil.</p>
<p>&#8220;Quem sabe?&#8221; respondeu Silva Pontes, lisonjeado.</p>
<p>&#8220;Mas antes de mais nada, meu amigo, que tal irmos almoçar? Você se importa de comer aqui mesmo, no sanatório? Temos um refeitório onde se forra a tripa razoavelmente. Topas?&#8221;</p>
<p>A pergunta de Zaig fora feita por mera educação, sabendo que Silva Pontes não tinha outra alternativa senão aceitá-la.</p>
<p>Ao sair do gabinete, acompanhado pelo médico, Zaig dirigiu-se à sua secretária, Ilza Fundão, e disse: &#8220;Avise a Pissinali que o Pontes chegou e que estamos no refeitório.&#8221; E voltando-se para o amigo, perguntou: &#8220;Como está a sua Guarapari?&#8221;.</p>
<p>&#8220;Nossa&#8221;, respondeu Silva Pontes. &#8220;Ela é tão minha quanto de todos os capixabas. Eu só tento fazê-la internacional&#8221;.</p>
<p>&#8220;E está conseguindo, meu caro! Tanto que o governo passado construiu a ponte que agora dá acesso fácil ao balneário&#8221;, provocou Zaig, que conhecia a ojeriza do amigo pela obra.</p>
<p>Silva Pontes não perdeu a deixa: &#8220;Estou começando a entender o seu motorista Gabino Ramos&#8221;.</p>
<p>&#8220;Por quê?&#8221; interrogou Zaig, sem subsídios para matar a charada.</p>
<p>&#8220;Gabino me contou uma faceta sua, que eu desconhecia, um certo espírito galhofeiro que sobrou até para ele, num jogo de futebol&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Faceta que só dedico aos amigos mais íntimos&#8230;&#8221;, disse Zaig, alegremente, enquanto passava o braço sobre o ombro de Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Então obrigado pela parte que me toca&#8221;, replicou Pontes, entrando também na brincadeira.</p>
<p>Quando chegaram ao refeitório, Pissinali, que ali já se encontrava, veio cumprimentar Silva Pontes. Zaig o apresentou, dizendo:</p>
<p>&#8220;Com este mestre, Pissinali, aprendi a desvendar os mistérios das chapas de Raios-X&#8221;. Em seguida, indagou: &#8220;O que temos hoje?&#8221;</p>
<p>A pergunta devia ser rotina entre os dois porque Pissinali respondeu, sem titubeios: &#8220;Carninha moída com purê de batata, arroz com ervilhas, feijão manteiga, verduras e legumes&#8221;.</p>
<p>Zaig dirigiu-se a Silva Pontes e perguntou de novo:</p>
<p>&#8220;Topas?&#8221;</p>
<p>&#8220;Claro,&#8221; respondeu ele. Depois de se servirem em bandejas de madeira, sentaram-se os três numa mesinha de tampo de mármore branco, para iniciar a refeição.</p>
<p>&#8220;O pão, cadê o pão?&#8221; pediu Zaig à atendente. E explicou a Silva Pontes: &#8220;É um vício de quem vem de família dona de padaria, que funcionava no térreo da nossa residência&#8221;.</p>
<p>O pão foi trazido numa cestinha de vime, coberta por um guardanapo de xadrez vermelho e branco. Zaig o partiu com a mão, retirou o miolo que sempre deixava de lado, e começou a comer os pedaços misturados com a comida.</p>
<p>&#8220;O que vocês esperam da minha palestra?&#8221; indagou Silva Pontes, entre a primeira e a segunda garfadas.</p>
<p>&#8220;Que seja agradável como os banhos de mar de Guarapari&#8221;, respondeu Zaig, enquanto Pissinali sorria.</p>
<p></p>
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<b>9</b></div>
<p>No fim da tarde, o tempo, que estava abafado, desfez-se em toró sobre Vitória. Caiu tanta chuva que a palestra de Silva Pontes teve de ser adiada para o dia seguinte.</p>
<p>Apesar do temporal, Zaig e Pissinali, acompanhados de Paulo Veloso, foram encontrar-se com Silva Pontes, no Hotel Sagres, onde o médico estava hospedado.</p>
<p>O Sagres situava-se no centro da cidade, ao lado do prédio dos Correios e Telégrafos. Na parte de baixo, ficava o bar e restaurante, que tinha também o nome do hotel. Ali, Silva Pontes foi introduzido na amizade de Paulo Veloso.</p>
<p>No programa dos quatro estava apenas deixar correr a conversa, em meio a rodadas de tira-gosto, regadas a caju-amigo, batida da preferência de Veloso.</p>
<p>Com sua capacidade invejável de conquistar amigos, Velozão, como o chamava Zaig, foi logo se fazendo íntimo de Silva Pontes. Quando o garçom veio com a primeira rodada de tira-gostos, Paulo pediu que trouxesse o caju separado da cachaça. Logo que o garçom retornou, Paulo apressou-se em explicar a Silva Pontes, numa demonstração de <i>connaisseur</i>, a técnica para degustar o verdadeiro caju-amigo.</p>
<p>&#8220;Veja, Pontes: você, que também é um estudioso dos comes e bebes brasileiros, pega um cálice desta Cariacica, uma das melhores cachaças do Espírito Santo, mas não mistura com o suco do caju, como fazem normalmente os leigos obtusos. Esta mistura de caju-amigo é o falso caju-amigo. O verdadeiro é o seguinte: você pega o caju, dá nele umas furadinhas com um palito e põe a fruta inteira na boca. Aí sim, você a mastiga nos dentes, bebe a cachaça por cima, juntando na boca o suco da fruta com a bebida, e engole num trago só. Experimente!&#8221;</p>
<p>Pontes provou e aprovou a receita: &#8220;Belíssima, Paulo, belíssima!&#8221;.</p>
<p>A partir daí, a conversa correu solta, Veloso dominando a cena com suas pilhérias insuperáveis, os cajus-amigos descendo em sucessão goelas abaixo.</p>
<p>Lá pelas tantas, Zaig disse:</p>
<p>&#8220;Paulo, o Gabino, que trouxe o Pontes de Guarapari, contou-lhe a história da peixeira, do jogo de domingo.&#8221;</p>
<p>Paulo abriu, debaixo do bigodinho à Adolfo Hitler, um sorriso de grande urso brincalhão, e proclamou o que considerava uma menção honrosa:</p>
<p>&#8220;Gabino é um dos nossos <i>sparrings </i>prediletos&#8221;.</p>
<p>&#8220;E também Paulo Fundão e Guilhermezinho&#8221;, acrescentou Pissinali.</p>
<p>&#8220;Guilhermezinho, não. Guilhermezinho é nosso parceiro&#8221;, corrigiu Zaig.</p>
<p>&#8220;Mas também entra bem,&#8221; disse Paulo, rindo.</p>
<p>&#8220;Como, aliás, todos nós. Está aí <i>Cantáridas</i>, que não me deixa mentir,&#8221; lembrou Zaig.</p>
<p>&#8220;O que é Cantáridas?&#8221;, quis saber Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Diz pra ele, Paulo, o que é <i>Cantáridas</i>,&#8221; instigou Zaig.</p>
<p>O rosto de Paulo se iluminou com a oportunidade que lhe era dada. Antes, porém, virou-se para o garçom, e pediu:</p>
<p>&#8220;Cearense, ô Cearense, traz mais uns cajus aqui pra mesa! Parece até que você os está escondendo debaixo da saia de Dona Maria&#8230;&#8221; E rindo como um garoto travesso, esclareceu para Silva Pontes: &#8220;D. Maria é a dona do Sagres.&#8221; Em seguida, empurrando a cadeira para trás, como se ganhasse espaço para uma revelação tridimensional, bateu com a mão na coxa de Silva Pontes e disse, empolgado: &#8220;Vamos a <i>Cantáridas</i>!&#8221;</p>
<p></p>
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<b>10</b></div>
<p>&#8220;<i>Cantáridas</i>, meu caro Silva Pontes, foi uma revista de versos fesceninos que eu, Zaig e Guilherme, irmão de Zaig, criamos quando estudávamos no Rio de Janeiro. Eu e Guilherme fazíamos Direito, na rua do Catete, e Zaig era aluno seu, na Praia Vermelha. Íamos para o Rio no Noturno, o trem da Leopoldina que saía de Vitória de manhã e chegava em Niterói no dia seguinte.&#8221;</p>
<p>&#8220;A revista era toda feita à mão&#8221;, explicou Zaig.</p>
<p>&#8220;Artesanato puro!&#8221;, atalhou Paulo, os olhos brilhando, em parte pela lembrança saudosa, em parte pelos cajus-amigos que já tinha entornado bucho adentro. &#8220;Mas o que valia mesmo era a versalhada em forma de sonetos ou não, quase sempre parodiando poetas brasileiros, num jogo de esculhambação recíproca, entre os três autores. Vou até confessar uma coisa que nunca disse a Zaig, nem a Guilherme: <i>Cantáridas</i>, na minha opinião, marca a chegada do Modernismo no Espírito Santo. Um modernismo ao nosso modo, mas modernismo!&#8221;</p>
<p>&#8220;Você tem razão, Veloso. Pode-se até dizer que foi o capítulo único do modernismo no Estado, ainda que esculhambativamente falando, mas valorizando a prata da casa,&#8221; interveio Zaig, no endosso da opinião de Paulo.</p>
<p>&#8220;Esculhambação que sobrava para muita gente&#8221;, lembrou Pissinali, que já se deliciara com a leitura de Cantáridas.</p>
<p>&#8220;Claro&#8221;, disse Paulo, &#8220;o que dava para ser aproveitado, aproveitado era. Lapisuinha, por exemplo, sofreu com as nossas musas e nas nossas mãos&#8221;.</p>
<p>&#8220;Lapisuinha era primo meu e de Guilherme&#8221;, esclareceu Zaig, &#8220;e também fez medicina no Rio. Especializou-se em otorrino&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Como era mesmo aquele soneto do Lapisu?&#8221;, perguntou Pissinali, estimulando a verve de Paulo.</p>
<p>&#8220;Qual deles?&#8221;, indagou o provocado, rindo com a memória de todos os sonetos que tiveram Lapisuinha por personagem.</p>
<p>&#8220;Recite um deles, Paulo, em homenagem aqui ao Pontes&#8221;, sugeriu Zaig.</p>
<p>Sem perda de tempo, Velozão aceitou o desafio. &#8220;Vai o Lapisu de sua autoria, Zaig.&#8221; E saboreando os versos entre risos, recitou:</p>
<p>Enrabador de bestas e de vacas<br />
Terror da pastaria e dos currais,<br />
Só de sentir o cheiro de babacas<br />
Lhe despertam os instintos bestiais.</p>
<p>Em cinema, ao seu lado, ninguém senta,<br />
Pois distinção de sexo ele não faz,<br />
Co´a mão bolina quem lhe está na frente.<br />
E bolina co´o cu quem está atrás&#8230;</p>
<p>&#8220;Veja que imagem maravilhosa, meu caro Pontes — e bolina co´o cu quem está atrás!&#8221; enfatizou Paulo, em êxtase poético. E apontando para Zaig: &#8220;Olha pra ele, Pontes! Olha pro puto que está aí ao seu lado! É o autor desta maravilha!&#8221;</p>
<p>&#8220;E o resto do soneto,&#8221; perguntou Pissinali?</p>
<p>&#8220;O resto nem com mais caju-amigo eu consigo me lembrar&#8221;, desculpou-se Paulo, sublimado com as risadas de Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Mas do &#8216;Fodologia&#8217; você se lembra&#8221;, provocou Zaig.</p>
<p>&#8220;Porque o &#8216;Fodologia&#8217; é uma obra prima!&#8221; assanhou-se Velozão. E com lágrimas de prazer antecipado, explicou a Silva Pontes: &#8220;Este soneto fui eu que fiz para Guilhermezinho, que era professor de português no Ginásio do Espírito Santo, na avenida Capichaba. Capichaba com ch,&#8221; frisou Paulo. &#8220;Zaig também sabe de cor. Vamos recitá-lo juntos?&#8221; E declamaram numa só voz:</p>
<p>Quem ontem p´lo Ginásio ia passando<br />
E a aula do Pancinha percebeu,<br />
Ouviu a garotada decorando:<br />
&#8220;Eu fodi, tu fodestes, ele fodeu!&#8221;</p>
<p>Viu também o malandro com cinismo,<br />
Sufocando o caralho enzinabrado,<br />
Gritar: &#8220;Pica com k é galicismo!<br />
Foder com ph é antiquado!&#8221;</p>
<p>Depois, pra analisar, na lousa escreve:<br />
&#8220;De que tamanho é a baja do servente?&#8221;<br />
E: &#8220;se o e de boceta é longo ou breve?&#8221;</p>
<p>E, como é hora de bater o sino,<br />
Ele sai pra ensinar praticamente<br />
À fogosa cunhada do Gabino&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Opa&#8221;, é agora Silva Pontes quem diz, entre risadas: &#8220;O Gabino também levou a dele&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu não lhe disse que ele era um dos nossos <i>sparrings </i>prediletos?&#8221;, falou Veloso, espumando-se de rir.</p>
<p></p>
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<b>11</b></div>
<p>A palestra de Silva Pontes começou às 20,00 horas, do dia 8 de dezembro, no auditório do Centro de Saúde, no Parque Moscoso. Era um auditório com capacidade para umas oitenta pessoas, que ficou lotado, notadamente por médicos e políticos.</p>
<p>Silva Pontes tornara-se um nome conhecido no Estado do Espírito Santo, desde que se empenhara na valorização e defesa das areias monazíticas de Guarapari. Com o correr dos anos, sua atuação ganhara ressonância nacional, principalmente quando denunciou a exportação predatória das areias da Cidade Saúde. Ricas em tório, ilmenita, monazita, cério e diversos outros elementos, para aplicações industriais e medicinais, as areias eram contrabandeadas para o estrangeiro, graças à conivência das autoridades brasileiras, em grande parte por ignorar o valor estratégico do material exportado, em grande parte por condescendência com a rapina.</p>
<p>Silva Pontes já havia advertido, no Rio de Janeiro e em São Paulo, que, no campo da radioatividade, sobretudo a partir da fissura do átomo que levou à produção da bomba atômica, o Brasil vinha sendo vergonhosamente sabotado nos acordos e tratados que permitiam a extração das areias, em troca de compensações mesquinhas e humilhantes.</p>
<p>Naquela noite, em oratória inspirada, o conferencista versou mais uma vez este tema, e relatou os estudos que vinha desenvolvendo, desde 1937, sobre os efeitos terapêuticos da radioatividade de Guarapari, no tratamento de determinados tipos de artritismo.</p>
<p>Foi uma conferência de alto nível. Durante mais de duas horas, sem precisar microfone, o orador expôs suas idéias e o seu conhecimento sobre o assunto, relatando casos sobre as pesquisas que vinha fazendo com pacientes portadores de reumatismo e de artritismo crônico. Acima de tudo, fez questão de mostrar as grandes perspectivas que ofereciam as praias de Guarapari, prevendo para o balneário um futuro promissor, no campo do tratamento daqueles males. &#8220;Desde que não continuemos sendo uns papalvos na defesa de nossas riquezas minerais&#8221;, acentuou, ferozmente, para a platéia atenta.</p>
<p>Papalvo e capadócio eram os termos preferidos por Silva Pontes para definir imbecil.</p>
<p>Encerrada a conferência, Zaig insistiu em levar o amigo até o Hotel Sagres, na perua do sanatório, que ele mesmo dirigia. Lá chegando, o cansaço de Silva Pontes não permitiu que aceitasse o convite do amigo para jantar no restaurante do hotel.</p>
<p>&#8220;Obrigado, Zaig, mas prefiro subir para o meu quarto, pedir um chá com torradas Petrópolis, tomar um banho de chuveiro e cair na cama&#8221;.</p>
<p>Zaig aceitou as desculpas, e se despediu de Silva Pontes na portaria do hotel. &#8220;Amanhã, às 7,00 em ponto, o nosso Gabino estará aqui para devolvê-lo são e salvo às suas &#8216;pretinhas&#8217; de Guarapari&#8230;&#8221;</p>
<p>Próximo do hotel, o relógio da Praça 8 bateu onze horas, depois de tocar o prefixo do hino do Estado.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>12</b></div>
<p>Silva Pontes acordou quando o relógio da praça batia 5,00 da manhã. Sentia-se bem-disposto e estava ansioso para regressar a Guarapari. Uma série de compromissos com seus pacientes do Radium Hotel, agendados para o dia anterior, foram transferidos devido ao adiamento da conferência, provocado pelo temporal.</p>
<p>Gabino Ramos havia se prontificado a ligar para o posto telefônico de Guarapari a fim de que fossem comunicados, no Radium Hotel, os motivos do atraso do médico. Inaugurado há pouco tempo, o hotel ainda não tinha telefone, até porque o serviço de telefonia era raro para o interior do Espírito Santo. De Vitória para Guarapari, era feito por meio de posto telefônico. Silva Pontes, porém, não chegou a saber o resultado da providência de Gabino.</p>
<p>No restaurante do Sagres, o médico fez um desjejum frugal e leu um artigo de A Gazeta, que elogiava a sua conferência, assinado pelo jornalista Mesquita Neto.</p>
<p>Quando Gabino parou a perua ao lado dos Correios, Pontes já o aguardava na porta do hotel, de maleta na mão. Foi o tempo de embarcar e seguir viagem.</p>
<p>Depois de passarem as Cinco Pontes, na saída de Vitória, o médico puxou conversa.</p>
<p>&#8220;Você realmente tem razão. O Paulo Veloso é um sujeito admirável.&#8221;</p>
<p>&#8220;E o senhor só teve uma amostrinha&#8230;&#8221; concordou Gabino.</p>
<p>&#8220;Mas deu para ver&#8230; Você sabe o que ele me confessou, quando nos despedimos ontem?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não faço a menor ideia&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes relatou então os fatos conforme os ouvira do próprio Paulo Veloso na véspera. Quando Zaig convidou Paulo para conhecer o visitante, Paulo quis saber como é que ele era. Então Zaig descreveu o amigo médico como uma pessoa inteligente e agradável, entendido em areia monazítica e no seu emprego na cura de algumas enfermidades.</p>
<p>&#8220;O Pontes está divulgando Guarapari como ninguém,&#8221; concluiu Zaig, sabendo o quanto Paulo valorizava o balneário, onde seu irmão tinha casa, na praia das Castanheiras.</p>
<p>&#8220;Ele gosta de pinga?&#8221; quis saber Veloso.</p>
<p>&#8220;Creio que sim, pois Pontes aprecia as boas coisas da vida,&#8221; respondeu Zaig.</p>
<p>&#8220;Então quero conhecê-lo,&#8221; disse Paulo.</p>
<p>&#8220;Mas tem uma coisa,&#8221; preveniu Zaig, preparando o espírito de Veloso.</p>
<p>&#8220;O que é?&#8221;</p>
<p>&#8220;Pontes usa pincenê e pinta os cabelos de caju. Cabelos e costeletas.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não vai me dizer que seu amigo é fruta?&#8221; ironizou Paulo.</p>
<p>&#8220;Absolutamente. É só para você não aprontar alguma das suas pilhérias com a cabeleira e o pincenê do meu amigo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Se é um pincenê à Eça de Queirós, já está perdoado,&#8221; disse Veloso, grande admirador do escritor português. &#8220;Quanto ao cabelo acajuado, vou formar juízo depois de conhecê-lo pessoalmente.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim, e aí?&#8221; perguntou Gabino.</p>
<p>&#8220;Bem, aí, seu Gabino, o Paulo me disse que quando me viu pela primeira vez, no restaurante do Sagres, ficou de pé atrás com a cor da minha cabeleira. Mas logo depois eu o conquistei completamente quando elogiei sua receita de caju-amigo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Este é bem o Dr. Paulo&#8230;&#8221;, comentou Gabino.</p>
<p>&#8220;Mas tem mais&#8230;&#8221;, prosseguiu Silva Pontes. &#8220;Com aquele jeito brincalhão de abraçar as pessoas sorrindo e armando o bote para uma galhofa, ele me disse, ao nos despedirmos: &#8216;Vou lhe confessar um segredo, Pontes, que o Zaig já sabe: Gostei tanto de você que já o apelidei de &#8230; caju-amigo!'&#8221;</p>
<p>Sem poder conter a gargalhada, Gabino teve de parar a perua para não bater numa ribanceira da estrada.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>13</b></div>
<p>Por nada do mundo Silva Pontes quis que Gabino atravessasse a ponte sobre o canal de Guarapari. &#8220;Me deixe em Muquiçaba. Quero fazer a travessia de bote. Ainda tem uns catraieiros que insistem em ganhar a vida atravessando uns poucos passageiros. Quero ser um deles.&#8221;</p>
<p>Depois de se despedir de Gabino, o médico embarcou no bote &#8220;Guarapari&#8221;, o único ali disponível, e passou para o outro lado do Canal. Durante a travessia, deu razão ao barqueiro que protestava contra a construção da ponte, aconselhando-lhe paciência.</p>
<p>&#8220;Paciência, doutor, na minha idade? Vou fazer setenta anos e só sei remar. Fui balseiro no tempo da balsa antiga, aquela que se apoiava em canoas, não a que está ali encostada em Muquiçaba. Sofri para economizar um dinheirinho e poder comprar este bote. Agora, com a construção da ponte, como vou viver? Mal sei ler e escrever&#8230; Foi por isso que votei em Chiquinho, pra governador.&#8221;</p>
<p>Silva Pontes, ainda condoído da sorte do barqueiro, desembarcou no cais de Guarapari e seguiu a pé até a praia das Castanheiras. Queria caminhar um pouco pela orla do mar, como gostava de fazer todas as manhãs. Contemplando a beleza da paisagem, lembrou-se das palavras do barqueiro. E numa associação de idéias, recordou-se também dos versos do boi Jaraguá, que tantas vezes ouvira cantar na cidade:</p>
<p>Guarapari tem um boi que sabe ler,<br />
balança o rabo mas não sabe escrever&#8230;</p>
<p>Falou então para os botões do paletó do terno branco: &#8220;Irremediavelmente, Guarapari está mudando.&#8221;</p>
<p>Quando finalmente chegou ao Radium Hotel, o recepcionista veio lhe comunicar, todo afobadinho:</p>
<p>&#8220;O senhor já soube, doutor, que a hóspede do 301 bateu as botas?&#8221;</p>
<p>&#8220;Dona Marinalva Cunha?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ela mesma. Passou desta para melhor. Morreu ontem e foi enterrada ontem mesmo.&#8221;</p>
<p>&#8220;E já se sabe do que ela morreu?&#8221; perguntou Silva Pontes.</p>
<p>Dando-se uma familiaridade que o médico achava insuportável, o recepcionista respondeu:</p>
<p>&#8220;Vou contar no seu ouvidinho, doutor. Mas não diga a ninguém que fui eu que falei. Primeiro disseram que foi suicídio. Depois, mudaram para um tal de &#8216;colápis&#8217;&#8230; que deu lá no peito dela&#8221;.</p>
<p>Não é possível, pensou o médico. Dona Marinalva, apesar de condenada a uma cadeira de rodas devido a um avançado artritismo nas pernas, era uma mulher bem disposta, em paz com a vida, de coração forte e saudável. A imagem dela, empurrada na cadeira de rodas pelo enfermeiro do hotel, disputando no cassino um lugar junto às roletas, veio à lembrança de Pontes. Além disso, dias antes ele a examinara cuidadosamente, tirara sua pressão, e não percebera qualquer anormalidade sintomática em seu estado de saúde. Não que tivesse experiência bastante para saber que não há bom diagnóstico que barre as surpresas da Morte. Mas sempre fora muito vaidoso da sua acuidade clínica, nos exames que fazia. Qualquer sinal de alteração cardíaca, em sua paciente, não lhe passaria despercebida.</p>
<p>&#8220;Onde ela estava, quando morreu?&#8221;, tornou a perguntar.</p>
<p>&#8220;No jardim do hotel, perto das azaleias. O corpo ficou caído no chão, e a cadeira de rodas, virada.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ela apresentava algum hematoma?&#8221;</p>
<p>&#8220;Algum o quê&#8230;?&#8221;</p>
<p>&#8220;Algum ferimento, um machucado na cabeça, um galo na testa, uma &#8216;roncha&#8217; no rosto?&#8221; indagou Silva Pontes, pouco faltando para chamar o recepcionista de papalvo.</p>
<p>&#8220;Que eu saiba, não, doutor. Ninguém falou em machucado. Mas quem achou ela primeiro foi Dona Maria Silveira, a cozinheira-chefe. Foi bem cedinho, quando Dona Maria chegou pra trabalhar. O corpo estava estendido entre as azaleias. Ela acordou o hotel todo, com seus gritos. Chamou até pelo senhor, &#8216;Acuda, doutor Silva Pontes, acuda!&#8217; porque tinha esquecido que o senhor estava em Vitória.&#8221;</p>
<p>&#8220;E depois?&#8221;, quis saber o médico.</p>
<p>&#8220;Depois, doutor, veio o delegado, que nomeou dois peritos para dar parecer sobre a causa da morte, e mandou chamar o sobrinho de Dona Marinalva, aquele que diz que é parente de barão&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;O Rodrigo Vilela da Cunha?&#8221;</p>
<p>&#8220;Este mesmo&#8221;.</p>
<p>Rodrigo Vilela da Cunha, sabia o médico, dizia-se filho de uma irmã da falecida, que morava em Belo Horizonte. Tinha se hospedado no Radium Hotel há uma semana, em visita a tia, sob o pretexto de tratar de negócios imobiliários.</p>
<p>&#8220;Mas você não disse que todos os hóspedes do hotel acordaram com os gritos de Dona Maria Silveira? Seu Rodrigo não veio ver o que estava acontecendo?&#8221;</p>
<p>&#8220;Seu Rodrigo não dormiu no hotel, doutor&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Onde ele dormiu então?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, isso eu não sei, nem quero saber&#8230; Só sei que quando ele chegou, e deu com o corpo de Dona Marinalva já coberto pelo lençol, nem quis espiar se era mesmo a tia dele. Podia ser eu, Deus que me livre, podia ser o senhor, Deus que o livre também, que ele ia acreditar. O pior é que até já fechou a conta no hotel, e foi s&#8217;embora&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes ficou pensativo, depois voltou à carga: &#8220;Quais foram o peritos nomeados pelo delegado?&#8221;</p>
<p>&#8220;O sacristão e o padre Manezinho&#8230;&#8221; disse o recepcionista com um risinho debochado, escondido na palma da mão.</p>
<p>&#8220;Um padre e um sacristão?&#8221; estranhou Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;O delegado disse que ninguém entende tanto de morto como um médico, um sacristão e um padre&#8230;&#8221; respondeu o informante, observando o esculápio de esguelha.</p>
<p>&#8220;Tem alguma coisa a mais que você não está querendo me contar?&#8221; perguntou Silva Pontes, desconfiado.</p>
<p>&#8220;Eu, hein, bebé! Minha alma é limpa como a de um anjo.&#8221;</p>
<p>Positivamente o médico não gostava daquele querubim. Sem esconder a irritação, disse:</p>
<p>&#8220;Então está bem. Seu nome é Euzébio, não é?&#8221;</p>
<p>&#8220;Em carne e osso, mas pode me chamar de Zezinho&#8221;.</p>
<p>&#8220;Vou chamá-lo de Euzébio mesmo,&#8221; cortou Silva Pontes. &#8220;Se você se lembrar de mais alguma coisa&#8230; Euzébio, ainda que julgue sem importância, venha me dizer.&#8221; &#8220;Pode contar comigo, doutor&#8221;, falou o recepcionista, satisfeito com a confiança que estava merecendo.</p>
<p>Silva Pontes desistiu de subir ao seu apartamento, no segundo andar, e dirigiu-se para um pequeno cômodo, ao lado da recepção, que tinha sido cedido pela direção do hotel para atender a seus pacientes. Estava de cenho carregado, quando entrou no consultório improvisado.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>14</b></div>
<p>Geralmente ele não atendia mais de quatro pacientes por dia. Naquela manhã, porém, abriu uma exceção para receber a professora Sílvia Miranda, a quinta pessoa que o procurou para consulta. Sendo vizinha de quarto de Dona Marinalva Cunha, imaginou Silva Pontes que talvez pudesse sondar a paciente e colher dela alguma informação sobre a falecida.</p>
<p>Sílvia Miranda entrou fingindo um desembaraço que o médico viu logo que era falso. Vestia uma saída de banho estampada, por cima do maiô azul escuro, as pontas se fechando em nó, abaixo dos seios. &#8220;Será um nó górdio, à espera de uma espada para rompê-lo?&#8221; perguntou-se Silva Pontes. O tipo <i>mignon </i>da professora provocava nos homens o sentimento de proteção que o macho se sente inclinado a dedicar às fêmeas aparentemente frágeis, e ante aquele nozinho distraído, Silva Pontes teve ímpetos de Alexandre, o Grande.</p>
<p>&#8220;Bom dia, doutor&#8221;.</p>
<p>&#8220;Bom dia, Dona Sílvia, melhorou das dores no pulso?&#8221;</p>
<p>&#8220;Melhorei passando areia preta, como o senhor mandou&#8221;.</p>
<p>&#8220;É um bom sinal. Não pare. Este é o pulso que a senhorita movimenta quando escreve no quadro-negro. São os ossos do ofício. A senhorita dá aula todo dia, escreve no quadro e os nervos do pulso e dos dedos ficam tensos e inflamam. É uma forma de neurite que pode se tornar aguda e dolorosa, se não for tratada a tempo. Um dia, creio que haverá na medicina um campo especializado para o tratamento das doenças do trabalho.&#8221;</p>
<p>&#8220;Até lá eu vou estar bem velhinha&#8230;,&#8221; disse a professora, com um cínico divertimento cravado nos olhos.</p>
<p>&#8220;Não seja pessimista. A Medicina faz avanços surpreendentes. Às vezes, chegam a ser assustadores, para quem não os acompanha de perto. Mas o importante é que se possa combater as dores e adiar a Morte&#8221;.</p>
<p>Enquanto o médico falava, Sílvia Miranda foi empalidecendo e, de repente, cobrindo a face com as mãos, começou a chorar convulsivamente.</p>
<p>Silva Pontes levantou-se da sua cadeira, por detrás de uma mesinha simples e estreita, de estudante, e aproximou-se da paciente para oferecer-lhe o lenço, que tirou do bolso do paletó.</p>
<p>&#8220;Enxugue as lágrimas, professora, e diga-me o que está acontecendo.&#8221;</p>
<p>Ela controlou a crise de choro e, ainda com o lenço umedecido na mão, disse:</p>
<p>&#8220;Desculpe-me, doutor, mas estou muito nervosa com o que aconteceu com Dona Marinalva. E quando o senhor falou em doença e morte, não pude resistir. Eu era vizinha dela, nossos quartos eram separados por uma porta, e a considerava minha amiga. Foi um choque quando vi seu corpo estendido no jardim. Bem que notei um silêncio incomum no seu quarto, durante aquela noite.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu compreendo, minha filha&#8221;, acumpliciou-se Silva Pontes com a moça, retornando à sua cadeira, com o lenço ensopado, que Sílvia lhe devolvera.</p>
<p>&#8220;Na verdade, doutor, hoje eu queria que o senhor me receitasse um calmante&#8221;.</p>
<p>&#8220;Isso não é problema,&#8221; disse Silva Pontes preparando sua Parker 51 para passar a receita. &#8220;Mas, talvez, melhor do que um calmante, tenha sido a crise de desabafo que a senhorita teve. Agora me diga: quais as verdadeiras causas de tanta angústia?&#8221;</p>
<p>Sílvia ajeitou-se na cadeira, meio desconcertada, e confessou:</p>
<p>&#8220;Infelizmente, existem outras razões&#8230; Eu acreditei num canalha que me causou um grande mal&#8230;&#8221;</p>
<p>Num toque de inspiração, Silva Pontes perguntou:</p>
<p>&#8220;Por acaso a senhorita está se referindo a Rodrigo Vilela da Cunha?&#8221;</p>
<p>Os lábios da professora voltaram a tremer, e o médico preparou-se para outra catadupa de choro. Mas antes que isso acontecesse, a porta do seu improvisado consultório foi aberta abruptamente e Euzébio irrompeu apavorado: &#8220;Acuda, Dr. Silva Pontes, acuda! O hóspede do 101 está morrendo. Acho que foi envenenado!&#8221;</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>15</b></div>
<p>Mais tarde, enquanto tirava a sesta na varanda do Radium Hotel, acomodado numa espreguiçadeira com forro de lona e com a cabeça recostada numa almofada com franjinhas rendadas, Silva Pontes teve um sobressalto. Do fundo de sua consciência, que boiava entre a vigília leve e o sono pesado, bateu-lhe a percepção de que, em menos de uma hora, na manhã daquele dia, ouvira duas vezes a frase &#8220;Acuda, Dr. Silva Pontes, acuda!&#8221;</p>
<p>Despertou sob o efeito do <i>insight </i>e caiu em outro tipo de transe, a que denominava especulações de sua razão clínica e investigativa. Inquiria-se, intrigado: &#8220;O que eu estou querendo dizer para mim mesmo?&#8221;</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Crime no Radium Hotel — Diversos subsídios e sugestões</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 17:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Renato Pacheco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Citações que, eventualmente, podem ser ditas por Silva Pontes, ao longo do texto: &#8220;A informação é infideindigna, como dizia Capistrano de Abreu.&#8221; Como dizia o Conselheiro Aires, do velho Machado, muita gente se consola com &#8220;a saudade de si mesmos&#8221;. Lembro-me de Sherlock Holmes advertindo Watson: &#8220;Quantas vezes eu lhe disse que depois que você [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Citações que, eventualmente, podem ser ditas por Silva Pontes, ao longo do texto:</p>
<p>&#8220;A informação é infideindigna, como dizia Capistrano de Abreu.&#8221;</p>
<p>Como dizia o Conselheiro Aires, do velho Machado, muita gente se consola com &#8220;a saudade de si mesmos&#8221;.</p>
<p>Lembro-me de Sherlock Holmes advertindo Watson: &#8220;Quantas vezes eu lhe disse que depois que você eliminar o impossível, aquilo que resta, por mais improvável, que seja, deve ser verdade.&#8221;</p>
<p>Como dizia Cícero, se quiser que o povo entenda o que estou explicando &#8220;acabarei falando às cadeiras.&#8221;</p>
<p>&#8220;Heráclito&#8230;&#8221; começa Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Seu Heráclis, marido de Dona Belinha?&#8221; perguntou o Zito do pirulito</p>
<p>&#8220;Não seja bobo&#8230; Heráclito, o filósofo grego, lembrava sempre que &#8216;o imbecil se excita com qualquer discurso&#8217;. Vejo isto nesses comícios de hoje&#8230;&#8221;</p>
<p>Num poema sobre os ratos, Robert Browning lembra que com seu ruído &#8220;até silenciaram as fofocas das comadres.&#8221;</p>
<p>&#8220;Tudo está bem quando termina bem&#8221;, frase atribuída a Shakespeare mas de autoria do poeta elizabetano John Heywood.</p>
<p>&#8220;Feliz é o povo que não tem história&#8221;, Marquês de Beccaria. Assim são nossos pescadores, Cronos sem Clio&#8230;</p>
<p>Não era o &#8220;depravado maio&#8221; de Eliot, era um maio perfumado e de temperatura agradável, sem chuva e de céu muito azul.</p>
<p>Thomas Carlyle: &#8220;Qualquer dúvida só pode ser resolvida por meio da ação.&#8221;</p>
<p>Samuel Johnson: &#8220;A curiosidade é uma das características mais importantes de uma mente fértil.&#8221;</p>
<p>Informe de Nezita [cunhada de Renato]: O cassino era completo, com roleta e bacará e pertencia ao sr. Bianchi. Os motoristas de praça de Vitória estavam autorizados a levar jogadores, gratuitamente, para Guarapari.</p>
<p>O Siribeira foi fundado em uma conversa na praia — Heliomar, Paulo e Maninho, Alceu Vieira, Lauro Lemos, Lauro Mota&#8230; Heliomar conseguiu do SPU a pedra onde primeiro fizeram uma palhoça. Enquanto construíam o clube atual o Carnaval foi no salão do Radium Hotel.</p>
<p>O boi Jaraguá era montado em uma armação de madeira, coberta de chita estampada e com uma caveira de boi. O brincante cantava: &#8220;Guarapari tem um boi que sabe ler / Balança o rabo mas não sabe escrever.&#8221;</p>
<p>Shakespeare, diz Silva Pontes, falando como se fora Júlio César, lembrava que &#8220;a falha, caro Brutus, não está em nossas estrelas, mas em nós mesmos..&#8221;</p>
<p>
<b>NÓTULAS</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Em 1950, o Brasil tinha 50 milhões de habitantes. Getúlio Vargas foi eleito com 3.849.040 votos. O Colégio Eleitoral só abrangia 15% da população. As eleições em 1950 foram gerais (todos os cargos e níveis). O dólar valia 18 cruzeiros.</p>
<p>Getúlio Vargas conduzia o país numa linha nacionalista e com desenvolvimento voltado para o mercado interno. Havia certos limites à atuação do capital estrangeiro. Getúlio era um entusiasta da Petrobrás e da Fábrica Nacional de Motores, na Baixada Fluminense, fabricante de caminhões que o povo apelidou de Fenemê. Foi pioneiro no uso do rádio para se comunicar com os &#8220;trabalhadores do Brasil&#8221;.</p>
<p>
<b>Caso do café</b></p>
<p>Uma exportadora vende 500 mil sacas de café em Londres a 2.1 dólares por libra-peso, superior ao preço mínimo de registro no Brasil de 2 dólares por libra peso. O comprador deposita a diferença em banco suíço, em conta ilegal de empresa brasileira. Numa operação de 138.9 milhões de dólares, 6.6 milhões foram depositados em conta ilegal de que o Pitani se apropriou à revelia de seu sócio.</p>
<p>
<b>Música</b></p>
<p>Waldir de Azevedo, em 1951, vendeu quase 500.000 discos, inclusive com o chorinho chamado &#8220;Brasileirinho&#8221;, de 1949, &#8220;tudo escrito na corda ré, de um instrumento de brinquedo&#8221; desses que se dão às crianças no Natal.</p>
<p>
<b>Leite</b></p>
<p>Silva Pontes advertia: &#8220;Os centros de saúde estão divulgando o leite em pó, estimulando as mães a não amamentarem seus filhos. As famílias pobres completam o leite com água, tornando fraca a alimentação dos bebês. Lacerda</p>
<p>Carlos Lacerda justificou o empréstimo do Banco do Brasil à Última Hora, de Samuel Wainer, como o maior escândalo da história republicana. Por isto, foi vítima de atentado, na rua Toneleros, no Rio, em agosto de 1954, por membros da guarda pessoal do presidente Getúlio Vargas, chefiados pelo Gregório Fortunato.</p>
<p>
<b>Cinema</b></p>
<p>Silva Pontes era sócio da Cinédia, de Ademar Gonzaga, mas não gostava de chanchadas carnavalescas. Huáscar Cruz, dono do Hotel e Bar Azul, inaugurou o Cinema Guará, de frente para o canal.</p>
<p>O primeiro filme, Nem Sansão nem Dalila, de Carlos Manga, com Oscarito: vítima de um acidente automobilístico, um barbeiro (Oscarito) sonha que voltou a Gaza e lá virou Sansão. Ao contrário do original, Oscarito toma o poder e estabelece uma ditadura, copiando Vargas. Mas não faltavam as músicas de Carnaval.</p>
<p>Silva Pontes não gostou da sala. Homem da Europa, só gostava do Cine Paissandu, no Flamengo, onde passavam os melhores filmes da nouvelle vague, tendo como principais diretores Jean-Luc Godard, François Truffaut e Alain Resnais. Dos filmes brasileiros, admirou O Cangaceiro, da Vera Cruz (1953). Sobre a Coca-Cola, a opinião de Silva Pontes: Sou a favor do guaraná. A Coca-Cola contém ácido fosfórico capaz de se transformar no organismo em fosfato de cálcio, descalcificando ossos e dentes em formação.</p>
<p>
<b>Praias de Guarapari</b></p>
<p>Do sul para o norte: Meaípe, Padres, Bacutia, Macumã, Guaibura, Riacho, Pelotas, Areia Preta, do Meio, Castanheiras, dos Namorados, Rebentação (na pedra) e das Virtudes. Depois do canal: Muquiçaba, do Morro, das Flechas e Três Praias. Episódio interessante a relembrar: Há a crença que, durante a Guerra, pescadores vendiam peixe fresco a tripulantes de submarinos alemães, donde o início de intenso patrulhamento com dirigíveis blimp norte-americanos.</p>
<p>
<b>Espírito Santo</b></p>
<p>Na eleição de 1950 mostrou sua dependência da polarização partidária nacional. Por exemplo: o PSD apoiou Getúlio, que era PTB, não aceitando seu candidato Cristiano Machado (mineiro: questão de limites). As oligarquias haviam se consolidado nos partidos existentes.</p>
<p>Jones, eleito contra Affonso Schwab, fez notável Plano de Valorização Econômica do Estado. Porto / Energia Elétrica / Rodovias / Produção agrícola. Governo modernizador.</p>
<p>Getúlio inaugurou a ponte sobre o rio Doce em Linhares em 22 de junho de 1954. Silva Pontes foi convidado mas, como amigo pessoal de Carlos Lacerda, declinou do convite. Mas foi à solenidade de instalação da Universidade Estadual do Espírito Santo, em 26.05.54 para abraçar seu velho amigo, o primeiro reitor Ceciliano Abel de Almeida.</p>
<p>
<b>Final do governo</b></p>
<p>Rompe-se a aliança com o PTB e surge nova correlação de forças com a disputa partidária daquele ano (1954) e todos os meninos de rua, em Guarapari, cantavam: Chiquinho vem aí.</p>
<p>Introduziu-se o populismo combinado com o coronelismo, beneficiando a chamada Coligação Democrática. Todos contra o PSD, de Carlos e Jones (PSP, PTB, PR, PRP e UDN).</p>
<p>
<b>Lacerda de Aguiar</b></p>
<p>Prefeito pessedista em Guaçuí. Aristocracia rural do sul do Estado. Deputado federal em 1950. Inaugurou um estilo populista com orientação ruralista. Venceu Eurico de Aguiar Salles, deputado federal do PSD. Chiquinho venceu com 55% dos votos.</p>
<p>
<b>Guarapari</b></p>
<p>Litoral sul, 582 km². 50 km de Vitória. Fundada em 1585 pelo padre José de Anchieta com o nome de Aldeia de Santa Maria de Guarapari. Município desde 19.9.1891. Atividades: turismo e pesca. Em 1954, também extração de areias. Artesanato em 1954: renda de bilro. Matriz fundada em 1585 por Anchieta, Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ao lado da matriz. Data de 1677. Ruínas. Poço dos jesuítas, água curativa.</p>
<p>
<b>Sugestão</b></p>
<p>À moda do inspetor Moorse, Silva Pontes pode, de vez em quando, fazer uma citação: Shakespeare, Dante, Camões, Manoel Bandeira (amigo dele).</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Renato Pacheco</b>&nbsp;foi importante pesquisador da história e folclore capixabas, além de escritor, com vários livros publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/renato-pacheco-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Crime no Radium Hotel, &#8220;onde couber&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 17:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
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		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Renato Pacheco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>[Minha nova versão, à luz da sugestão de Reinaldo.] Suspeita de homicídio confirmada Quando Silva Pontes voltou de Vitória, onde fora em breve visita, o rapaz da recepção, com uma familiaridade que o médico achava insuportável, bateu-lhe no ombro e disse: &#8220;Pois é, doutor, a velhinha do 302 bateu as botas&#8230;&#8221; [Reinaldo: Não sei se [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><b>[Minha nova versão, à luz da sugestão de Reinaldo.]</b></p>
<p>Suspeita de homicídio confirmada</p>
<p>Quando Silva Pontes voltou de Vitória, onde fora em breve visita, o rapaz da recepção, com uma familiaridade que o médico achava insuportável, bateu-lhe no ombro e disse:</p>
<p>&#8220;Pois é, doutor, a velhinha do 302 bateu as botas&#8230;&#8221; [Reinaldo: Não sei se o Radium Hotel tem três pavimentos.]</p>
<p>Silva Pontes teve um choque.</p>
<p>&#8220;O quê?&#8221;</p>
<p>&#8220;É isto mesmo. O irmão está chegando de São Mateus de teco-teco para levar o corpo&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;E se mal lhe pergunto, de que morreu a professora?&#8221;</p>
<p>&#8220;Diz que foi um tal &#8216;colápis&#8217; lá no coração dela&#8230; Foi encontrada caída no jardim, e a cachorrada da rua toda em cima dela&#8230;&#8221;</p>
<p>Não é possível, pensou o médico. A professora tinha artritismo, lá isto tinha, mas era forte como uma rocha. Viveria muitos e muitos anos. Poucos dias antes ele a examinara, tirara a pressão, estava tudo ok. Disseram que o exame cadavérico tinha sido feito por um padre e um sacristão. Que dupla!</p>
<p>Chegou o irmão da falecida — baixinho, gordo, careca, olhos muitos pretos sobre um nariz adunco. Silva Pontes foi apresentado a ele e lhe disse:</p>
<p>&#8220;Suspeito que há alguma coisa nessa causa mortis. Sua irmã, com o perdão da má palavra, era forte como um touro&#8230; Minha consciência profissional está gravemente ferida&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Para nós também foi surpresa. Na última carta ela diz que estava quase andando e&#8230; faz os maiores elogios ao senhor.&#8221;</p>
<p>Com alguma interferência política, dois médicos do necrotério de Vitória foram chamados às pressas para novo laudo de exame cadavérico e não deu outra — as suspeitas de Silva Pontes estavam certas. Feitos os testes recomendados pela medicina legal, averiguou-se que Dona Marinalva Cunha, como se propalou aos quatro cantos da cidade balneária, tinha morrido &#8220;não de morte morrida, mas de morte matada&#8221;. Morrera por asfixia, e as marcas da esganadura ainda estavam visíveis, como um colar de sangue pisado, em seu pescoço.</p>
<p>Com as diligências feitas ficou tarde para levar o corpo para o norte do Estado e o fazendeiro Cunha decidiu enterrá-la ali mesmo, no cemitério à beira-mar plantado, a jusante da igrejinha colonial.</p>
<p>Com a nova versão que se espalhou como fogo em capinzal seco, levantou-se nova e importante questão:</p>
<p>&#8220;Quem matou a paralítica? E por quê?&#8221;</p>
<p>Alguém chegou até a aventar que a moça perdera muito dinheiro no jogo e se suicidara. Outro dissera que ouviram, na véspera, uma discussão dela com o sobrinho veranista e malandro, que a vivia achacando. O rapaz negou veementemente:</p>
<p>&#8220;Eu amava minha tia. E dependia dela para viver aqui. Por que mataria a galinha dos ovos de ouro?&#8221;</p>
<p>Padre Manezinho, muito ofendido com a nova versão dos fatos, ele que à falta de médicos na cidade assinou com o sacristão o primitivo e errado laudo, se recusou a fazer as orações finais para a morta, que acabaram sendo feitas por oito velhas beatas, companheiras de jogo de baralho da falecida&#8230;</p>
<p>Depois de uma salve-rainha, foi rezado o terço, tirado por uma beata muito gorda e baixinha, olhos brancos e voz arrastada e monótona, e acompanhada por todos os presentes.</p>
<p>Diante dos boatos, o delegado determinou se ouvisse Aldo Cunha, filho de uma irmã da vítima. Ele era alto, atlético, bronzeado, bem vestido, um dandy conquistador. Era a estrela do time de basquete do Saldanha da Gama, um dos principais clubes da Capital.</p>
<p>À pergunta &#8220;Onde passou a noite de 8 de dezembro?&#8221; ele respondeu:</p>
<p>&#8220;Não posso responder, porque estava na casa de uma senhora que jamais trairei.&#8221;</p>
<p>E repetiu a história de que a tia, desde que sua mãe morrera, era a única mãe que reconhecia no mundo. Discutiram sim, por causa de dinheiro, &#8220;mas isto é comum entre parentes.&#8221;</p>
<p>O delegado tomou por termo suas declarações e o dispensou. Ao escrivão disse:</p>
<p>&#8220;Vamos ficar de olho nesse cabra safado&#8230;&#8221;</p>
<p>Enquanto isso, Silva Pontes em suas modorras vespertinas descartou a idéia de que o sobrinho fora o autor do homicídio. Na opinião do médico, um crime praticado pelo Aldo Cunha teria que ter muita pancada, muito sangue e não o delito asséptico que afinal ocorrera.</p>
<p>Lá fora meninos jogavam bola no parque do hotel, o que era terminantemente proibido. A algazarra que faziam doía nos nervos de Pontes, amante do silêncio.</p>
<p>Levantou-se e caminhou, lentamente, para seu apartamento, onde pela milésima vez ia reler o ensaio de Montaigne, &#8220;De como filosofar é aprender a morrer&#8221;: &#8220;Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparação para a morte, etc. etc.&#8221;</p>
<p>
<b>Tempestade no mar</b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Da sua janela assistia, emocionado, ao temporal que caía no mar. Vinha chegando a misteriosa noite. Relâmpagos. Trovões. Silva Pontes detestava a chuva forte, voz de um Deus irado. Sentia pena dos pescadores surpreendidos pela tormenta.</p>
<p>Ele amava o silêncio. Os longos silêncios meditativos.</p>
<p>Entre sono e vigília, conversava com o padre Manezinho, e a Maria, mulher do padre, o espiava da porta da cozinha, e era uma antiga ama preta que o embalava em Juiz de Fora. Quando ela fugiu com um boiadeiro, o menino teve febre alta. Um velho de longas barbas chamava-o de longe&#8230;</p>
<p>Acordou, e graças aos céus, o temporal se fora. Saiu para dar uma volta.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>[Sem título]</b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
&#8220;Quando se vê um forte na Escalvada podes crer,&#8221; disse seu Lyra, &#8220;é coisa dos alemães. Muito peixe vendi a eles, durante a guerra. A gente estava pescando e aquele baleião de aço surgia do fundo do mar. Eles mostravam, suástica no dólmã, moedas de ouro e a gente entendia que desejavam peixe fresco. Pois bem, voltando ao forte, ao anoitecer não havia nada na ilha. De noite, chegaram os marinheiros alemães do submarino, iniciaram a obra, de manhã todo mundo na praia viu, maravilhado, uma fortaleza sobre a ilha Escalvada. Ah! Gente danada&#8230; Depois foram embora e levaram o forte com eles&#8230; De vez em quando voltam, depende do tempo&#8230;&#8221;</p>
<p>
<b>Atenção: Nova personagem</b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Silva Pontes caminhava distraído em baixo das castanheiras e trombou com um garoto, cerca de doze anos, com suspensórios de pano, camisa do Grupo Escolar, e nos pés uma dessas sandálias novas, de borracha, recém-introduzidas na cidade.</p>
<p>Ao ombro ele conduzia um pau de vassoura em cujo topo havia uma peça circular de madeira, cheia de furinhos, cada qual com um dos famosos &#8220;pirulitos espetados no palito&#8221;, uma bolinha caramelada, em forma de cone, e enrolada em papel impermeável. Com o encontro, a armação das balas caiu na areia da praia.</p>
<p>&#8220;Oh, desculpe,&#8221; disse o médico. &#8220;Se houve prejuízo eu pago. Quem é você?&#8221;</p>
<p>&#8220;Sou o Zito do pirulito, espetado no palito&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Qual foi seu prejuízo?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah. Eu já vendi quase tudo. Só três pirulitos sujaram na areia.&#8221;</p>
<p>Silva Pontes deu-lhe uma nota pequena, mas que dava para pagar trinta docinhos. O menino se desmanchou em agradecimentos e desde aquele dia, todas as manhãs, ia vê-lo no hotel, perguntando se precisava fazer algum mandado, de olho nas boas gorjetas&#8230; Passou a ser um bom informante, quase o filho que ele não teve.</p>
<p>Silva Pontes adquiriu o hábito de colocar, no jardim, alpiste, painço, quirela para as rolinhas, um que outro pardal, importado da Europa, e que já invadia o pedaço. Ficou na varanda a ver as avezitas. De vez em quando uma dava uma carreira nas outras, que, em defesa, corriam com as asas levantadas.</p>
<p>Um dia, Zito perguntou-lhe:</p>
<p>&#8220;Por que o senhor dá comida às rolinhas? A gente nem come elas&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Tenho prazer&#8230; Há o lado pragmático da vida, meu filho, mas há também um lado estético&#8230;&#8221;</p>
<p>O menino não compreendeu, mas saiu pensando — rico tem cada idéia&#8230;</p>
<p>Um dia o menino chegou com a notícia:</p>
<p>&#8220;Doutor, sabe o que estão dizendo?&#8221;</p>
<p>&#8220;Como poderia saber? Mas, como dizia o grande Dr. Johnson, &#8216;a curiosidade é uma das características mais importantes de uma mente fértil&#8217;, vá lá, diga-me o que você tem em seu balaio de fofocas&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Tão dizendo que o prefeito vai abandonar Dona Vivi, que é uma santa (assim dizem) e vai juntar os trapinhos com a viúva do seu Pitani&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Nossa,&#8221; mostrou-se espantado o médico.</p>
<p>&#8220;Mas diz que,&#8221; continuou o menino, &#8220;ela prefere o Boris da Monazita, que é homem rico e mora na estranja&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Nossa, como você sabe de coisas&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;É o que tão dizendo por aí&#8230;&#8221;</p>
<p>E foi para a praia anunciando:</p>
<p>&#8220;Olha o pirulito, espetado no palito&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes ficou a matutar sobre o estranho sortilégio que a viúva do milionário estava exercendo na pacata cidadezinha praieira&#8230;</p>
<p>
<b>Ceia de Natal</b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Silva Pontes fora convidado para uma ceia de Natal no restaurante do judeu alemão Roberto Sternberg. Não era de seu feitio jantar, mas como o convite partiu de um veranista oficial da FAB, filho de um amigo dele, do Rio, deliberou ir.</p>
<p>O restaurante ficava numa puxada junto ao Armazém Sternberg, no caminho da Fonte (fonte que, segundo a lenda, fora descoberta pelo padre Anchieta batendo o cajado na pedra em frente ao mar).</p>
<p>Este Roberto era dono de próspero comércio em Vitória, no bairro de Santo Antônio. Apesar de judeu todos o chamavam de Alemão, o que foi o seu azar. Durante o quebra-quebra de agosto de 1942, invadiram-lhe o estabelecimento, furtaram tudo e tocaram fogo no prédio. Só não lincharam o proprietário porque ele se refugiou em um manguezal próximo, ficando três dias na lama.</p>
<p>Depois, amigos lhe emprestaram algum dinheiro e ele se refugiou em Guarapari. Agora estava próspero de novo.</p>
<p>Numa longa mesa feita de caixotes de madeira, agruparam-se os jovens de um lado — os Passos, os Bomfim, os Costa, os Aboudib e, na cabeceira, o prefeito, o delegado, Silva Pontes e Heliomar Carneiro da Cunha.</p>
<p>Bebia-se cachaça &#8220;Cariacica&#8221; à vontade, enquanto se esperava o peru de Natal. O padre Manezinho fora convidado mas alegara ter que rezar a Missa do Galo&#8230; Um gaiato disse:</p>
<p>&#8220;Ela vai mais é rezar ao pé da Maria&#8230;&#8221;</p>
<p>Carneiro da Cunha, meio à brinca, meio à vera, perguntou a seu vizinho:</p>
<p>&#8220;Como é, doutor, ainda continua investigando a morte da professora?&#8221;</p>
<p>&#8220;Que nada! Parece que nosso amigo aí, o Lyra, já encerrou o inquérito. Eu quero mais é cuidar de meus doentes&#8230;&#8221;</p>
<p>Roberto veio da cozinha trazendo um grande peru assado. Um menino trazia travessas menores de arroz. Serviam vinho branco português Grandjó. O Alencar começou a cortar o peru.</p>
<p>Carneiro da Cunha disse, sentencioso:</p>
<p>&#8220;Muita gente prefere a carne branca, o peito. Mas a carne mais saborosa é a escura, asas e coxas&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes retrucou:</p>
<p>&#8220;Melhor ainda é uma boa refeição vegetariana&#8230;&#8221;</p>
<p>Mas o alarido era tão grande que o amigo não lhe ouviu a observação.</p>
<p>Um dos Passos, de nome Alípio, bateu a faca no copo, levantou-se e ensaiou um pequeno discurso.</p>
<p>&#8220;Nessa noite tão festiva temos a satisfação em reunir nossos amigos no restaurante do Roberto. E mais satisfação ainda porque esta bela ave assada, que é comer e chorar por mais, foi discretamente furtada do galinheiro do nosso delegado, aqui presente.&#8221;</p>
<p>Palmas. O prefeito deu uma gargalhada. O delegado Lyra ficou vermelho como um pimentão, engoliu em seco e deu uma risadinha alvar, enquanto o prefeito lhe batia no ombro, com força de bêbado.</p>
<p>Rapidamente, do peru só ficaram os ossos.</p>
<p>Mais arroz. Mais cachaça. Mais vinho.</p>
<p>Roberto anunciou a <i>pièce-de-resistance</i>: um leitãozinho assado por inteiro, limão nas fuças, que foi conduzido por seis dos rapazes, todos já muito altos&#8230;</p>
<p>Desta vez o discurso coube a Rubens Costa, ex-pracinha e funcionário da Alfândega em Vitória:</p>
<p>&#8220;Mais uma vez, meus amigos, queremos agradecer a Deus e louvar ao Natal do Cristo. Nossa reunião aqui está sendo abrilhantada por um bacorinho discretamente retirado no chiqueirinho do nosso prefeito Cisne, na noite de trasanteontem. Agradecemos à Madame Violeta ter engordado tão bem este bichinho&#8230;&#8221;</p>
<p>Desta feita quem gargalhou foi o delegado Lyra.</p>
<p>A ceia continuou animada até de madrugada. Silva Pontes, acostumado a dormir cedo, estava com os olhos fechando e abrindo. Além disso, a zoada se lhe tornara insuportável. Na primeira oportunidade despediu-se e saiu com Heliomar.</p>
<p>Chovera e as ruas de chão arenoso ainda estavam úmidas.</p>
<p>No dia seguinte o Alemão procurou as mulheres do prefeito e do delegado propondo pagar-lhes o prejuízo das criações furtadas. Não queria complicação com as &#8220;otoridades&#8221;. Dona Violeta foi enfática:</p>
<p>&#8220;Qual o quê&#8230; Coisas de rapazes&#8230; Ainda tenho uma leitoinha para o Ano Bom&#8230;&#8221;</p>
<p>Dona Zazá, esposa do delegado, do alto de seus cem quilos, foi implacável:</p>
<p>&#8220;Tem que pagar trintamirréis&#8230; Eu tive dó quando roubaram meu peru.&#8221;</p>
<p>Pagou e não bufou e ainda saiu rindo das expressões usadas pela virago.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Pescaria em alto mar</b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Um senhor, José Antônio Pacheco, administrador da Santa Casa, convidou Silva Pontes para uma pescaria de alto mar. Tinha horror às viagens marítimas, tanto padecera nas travessias Brasil-Europa-Brasil. Por delicadeza, no entanto, aceitou. Tomou um farto café da manhã, seu fatal erro para quem vai ao mar: bolinhos de arroz em forminhas de empada, bananas da terra cozidas, com muito açúcar e manteiga. E eis que em manhã que prenunciava exuberante sol, madrugadinha ainda, boné na cabeça, Silva Pontes compareceu ao cais, onde embarcou na lancha Mareiro, &#8220;vento que sopra do mar, propício à navegação&#8221;.</p>
<p>Os companheiros estavam todos em sua faixa etária, 50/60 anos, e eram o dono da lancha, seu Pacheco, o sr. Homero Delacqua, comerciante da Capital, o tabelião Lyra e dois pescadores locais, o Neca Barros e o Juca Norbim.</p>
<p>Logo à saída, Silva Pontes se mostrou interessado pelo sistema de pesca: iam curicar com umas colheres de metal importadas dos Estados Unidos. Soltavam-se as linhas no mar, e o peixe, vendo a colherzinha brilhar, abocanhava-a, ficando preso no anzol anexo.</p>
<p>Mas com pouco tempo, veio-lhe um terrível enjoo e pôs cargas ao mar, o café da manhã em meio a bílis pura. Sem qualquer melhora, apesar de seu Lyra ter dito:</p>
<p>&#8220;Amigo, olhe para o horizonte.&#8221;</p>
<p>Apesar do conselho do tabelião, continuou mareado. Ajudado pelo Norbim foi deitar-se na cabine da lancha. Foi pior a emenda que o soneto. O cheiro do óleo que vinha do motor unido à maresia e a um cheiro incrível de peixe podre fez com que o pobre doutor começasse a lamentar-se do dia em que nasceu.</p>
<p>A lancha, no alto mar azul, muito longe da praia, para os que a observavam da terra, parecia pequeno asteroide perdido no espaço.</p>
<p>O dono da lancha veio oferecer-lhe um sanduíche, às vezes melhora mas o médico disse-lhe:</p>
<p>&#8220;Dou metade do que tenho para o senhor voltar à terra firme&#8230;&#8221;</p>
<p>Costearam a ilha Escalvada, e como o Dr. Silva Pontes era o convidado de honra, resolveram voltar, ainda mais que já haviam pescado cinco sardas cavala, de bom tamanho. Continuaram até Guarapari curicando, e ainda pescaram um chicharro de quase dez quilos.</p>
<p>Quando Silva Pontes se viu na ponte de cimento armado em que atracou o Mareiro, perdeu sua natural lhaneza, e gritou alto e bom som:</p>
<p>&#8220;Eu queria saber qual foi o miserável que me levou para alto mar&#8230;&#8221;</p>
<p>
<b>Amor, tanto amor</b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
&#8220;O senhor, tão amoroso, nunca se casou?&#8221; perguntou, ainda em êxtase, a camareira, uma cabocla sestrosa, deitada na cama king size do apartamento do médico.</p>
<p>Silva Pontes olhou pensativo para as pás do ventilador de teto. Ficou muitos minutos assim, tantos que a moça supôs que ele nada fosse responder.</p>
<p>O médico empostou a voz e falou, pausadamente:</p>
<p>&#8220;Em Berlim, fui noivo. Chamava-se Lotte e tinha 19 anos. Eu, aos 31 anos, ainda era residente no hospital, pois não conseguira sair da Alemanha por causa da guerra, a primeira. Isto foi em 1917, 1918. Ela era loura, de olhos azuis, covinhas no rosto quando ria, grandes tranças, uma autêntica fräulein. Moça rica, da aristocracia prussiana, prestava serviços voluntários na seção de pediatria. Nós, os internos, éramos proibidos de qualquer contato com essas moças de alta esfera, que vinham prestar ajuda ao hospital. Mas, como bom brasileiro, via-a e me apaixonei. Com jeitinho, um sorriso aqui, um bilhete ali, uma caixa de bombons, escassos na época, começamos um romance que se poderia dizer tórrido. Descobrimos, com pouco tempo, que íamos ter um filho. Decidimos casar escondidos. No dia aprazado, papéis feitos às escondidas, Lotte viria me buscar na mansarda onde morava. Chovia e ainda havia uma lama suja da neve do inverno, que terminava. Eu morava numa íngreme ladeira. Lotte, o meu pequeno filho — descobrimos depois que era homem — uma chapeleira à mão, escorregou e caiu nas pedras do calçamento. Foi atropelada por um carroção do exército que descia à toda. As patas do cavalo esmagaram seu ventre grávido, esmagaram todo meu futuro. Com os gritos, na rua, cheguei à janela e vi o triste espetáculo. Lotte e meu filho (nunca lhe dei um nome, mas sinto que ele se chamaria José) estavam mortos. Prometi a mim mesmo jamais me casar, nunca ter filhos&#8230;&#8221;</p>
<p>Talvez fosse impressão, mas o médico vislumbrou lágrimas na face da camareira.</p>
<p>
<b>Um cassino tolerado</b><br />
<b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Silva Pontes sabia que havia no hotel um cassino clandestino. Desde o governo do general Dutra, dizem que a pedido de sua esposa, Dona Santinha, católica e ultraconservadora, todos os jogos de azar — isto é, aqueles que não dependem de talento ou habilidade, e simplesmente de sorte para o ganho — estavam proibidos no Brasil. Desde o popular e tolerado jogo do bicho, inventado no fim do século XIX pelo Barão de Drumond, para sustentar o Jardim Botânico. A polícia, no entanto, fazia vista grossa, permitindo que, aqui e ali, proliferassem casas de tavolagem. Não os magníficos cassinos que o médico conheceu em Monte Carlo, mas tugúrios mal iluminados, onde os jogadores satisfaziam as suas necessidades psicológicas de emoções fortes.</p>
<p>Silva Pontes achou — ele mesmo se considerava um casmurro — que o jogo era coisa de crianças, para se adequarem às regras da vida, ou de adultos imaturos. Porém, por curiosidade, foi visitar o cassino do Radium Hotel, situado numa ala lateral do prédio, com entrada franca para maiores.</p>
<p>Admirou-se do luxo e do bom gosto. Grandes cortinas não deixavam que a luz passasse para a rua e ventiladores de teto arejavam o ambiente. Muita gente bem vestida tentando a sorte. Duas roletas, uma mesa de bacará, diversas mesas de pôquer, e, no fundo mais afastado, um bingo eletrônico, novidade no Brasil, com predominância de apostadores idosos.</p>
<p>Deu uma pequena volta pelo local, observou fisionomias tensas. O gerente convidou-o para uma roda de baralho, mas, delicadamente, ele recusou, e foi saindo de fininho. Por certo, aquele não era seu ambiente.</p>
<p>Soube que, de quando em vez, quando a imprensa denunciava, ou em época de eleições, havia batidas policiais adredemente avisadas.</p>
<p>&#8220;Dia tal vamos fechar o jogo.&#8221;</p>
<p>O cassino ficou fechado dois a três dias e reabriu logo. Graças ao cassino é que grandes artistas internacionais e nacionais como Lucho Gatica, Sílvio Caldas, Orquestra Severino Araújo tinham se apresentado no teatro do Hotel.</p>
<p>Consta que, certa feita, numa das investidas da polícia, uma velhinha solicitou:</p>
<p>&#8220;Ah, seu guardinha, deixa cantar mais uma pedra. Estou pela boa&#8230;&#8221;</p>
<p>Nas suas matutações, meio dormindo, meio acordado, Silva Pontes se perguntava:</p>
<p>&#8220;Por que os legisladores não regulamentam logo essa porcaria do jogo de azar, que deveria chamar-se jogo da sorte?&#8221;</p>
<p>Ele sabia o porquê, mas calado ficava.</p>
<p>
<b>Onde couber [o manuscrito tem apenas esta indicação]</b></p>
<p>
Março chegou. Carnaval passou, desanimado como sempre. O conjunto musical local, com cinco músicos só conhecia músicas antigas: Meu periquitinho verde, Amélia&#8230;</p>
<p>Agora chegaram os meses bons de Guarapari, os poucos veranistas tendo voltado para suas casas, em Vitória, ou no interior do Estado, ou até alguns do vizinho Estado de Minas.</p>
<p>Silva Pontes cuidava de seus seis doentes restantes, fazia prognósticos sobre futuros progressos, e aguardava a vinda de uma doutora em física, da PUC do Rio, que viria fazer medições com um contador Geiger, para analisar a radioatividade das areias das praias locais.</p>
<p>A moça atrasara porque o equipamento estava preso na Alfândega, e o médico, em gozo de licença-prêmio no Hospital Central do Rio, foi se deixando ficar no <i>dolce far niente</i>.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Onde couber [apenas com esta indicação]</b></p>
<p>
Padre Manezinho e o sacristão Dodô eram os únicos letrados da cidade, com exceção, talvez, do Wilson Laranja, da Agência Municipal de Estatística. Os demais eram pequenos comerciantes, serventuários da Justiça e pescadores, donas de casa, todos semi-analfabetos.</p>
<p>Por isto eram chamados, algumas vezes, como peritos leigos, para firmarem laudos em inquéritos policiais.</p>
<p>Uma vez, por ignorância ou preguiça, usando o Manual do Delegado de Polícia, do Dr. Eurípides Queiroz do Valle, usando apenas a numeração constante da foto de um cadáver, não tiveram dúvida:</p>
<p>&#8220;A bala entrou no 1 e saiu no 3&#8230;&#8221;</p>
<p>
[Capítulos escritos a posteriori, entregues esparsamente, sempre precedidos da observação: &#8220;Onde couber&#8221;.]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Renato Pacheco</b>&nbsp;foi importante pesquisador da história e folclore capixabas, além de escritor, com vários livros publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/renato-pacheco-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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			</item>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (final)</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 21:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(Final) Garibaldi retirou do colo materno o texto encadernado e depositou-o sobre a mesa do Sr. Eylau. Este título estava gravado com letras d&#8217;ouro na capa: Catálogo das ruas de Vitória pelo método racional simplificado. O Sr. Eylau abriu o volume e deu uma folheada, lambendo de quando em vez a ponta dos dedos. Aí [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (final)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>(Final)</b></div>
<p>Garibaldi retirou do colo materno o texto encadernado e depositou-o sobre a mesa do Sr. Eylau. Este título estava gravado com letras d&#8217;ouro na capa: Catálogo das ruas de Vitória pelo método racional simplificado. O Sr. Eylau abriu o volume e deu uma folheada, lambendo de quando em vez a ponta dos dedos. Aí perguntou:</p>
<p>— O que o senhor propõe é uma simplificação oficial dos nomes das ruas de Vitória?</p>
<p>— Sim, — disse Garibaldi. — Fiz uma relação de todos os nomes de ruas de Vitória e os reduzi a um ou no máximo dois elementos. Nenhum escritor terá mais qualquer problema pra usar um nome de rua não só em título de livro mas também, não esqueçamos, em texto de conto ou romance ou em verso de poema. Porque isso também é importante: os atuais nomes de rua são altamente poluentes: poluem qualquer página literária em que sejam inseridos.</p>
<p>— A simplificação, porém, — disse o Sr. Eylau, — vai certamente provocar a repetição de alguns nomes. Como você resolve esse problema?</p>
<p>Garibaldi, aparentemente, pensou em tudo:</p>
<p>— De modo muito simples. Pra esses casos adotei o método anglo-saxônico: rua Oliveira Oeste, rua Oliveira Leste. Rua Rosa Norte, rua Rosa Sul. E assim por diante.</p>
<p>O Sr. Eylau fechou o volume sobre a mesa. Fisguei-o pra meu lado. Abri. Havia um sumário. O projeto se dividia em cinco partes: (a) Apresentação do problema; (b) Ação predadora contra os antigos nomes de ruas de Vitória; (c) Simplificação racional da nomenclatura; (d) Operacionalização do sistema; (e) Tabela de nomes atuais e simplificados. Fui adiante até chegar à tabela. Eis uma parte do que li à página 38, referente às ruas da Mata da Praia:</p>
<p>Nome original<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Nome simplificado<br />
Alcides Sérgio Melo Monteiro<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Alcides<br />
Amélia Tartuce Nassar<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Amélia<br />
Audífax Barreto Duarte<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Audífax Norte<br />
Carlos Gomes de Sá<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Sá<br />
Carmélia Maria de Souza<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Carmélia<br />
Danton Bastos (Desembargador)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Danton<br />
David Pimenta (Construtor)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>David<br />
Darcy Monteiro (Dr.)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Darcy<br />
Denizart Santos (Dr.)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Denizart<br />
Emília Mazoco Keijock<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Emília<br />
Gastão Franco Americano (Coronel)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Gastão<br />
Gilberto Martins<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Gilberto<br />
Hilário Favarato<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Favarato<br />
Maria de Lourdes Poyares Labuto<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Maria de Lourdes<br />
Newton Thevenard (Desembargador)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Thevenard<br />
Ormandino Benezath<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Benezath<br />
Pedro Luiz Zanandréa<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Zanandréa</p>
<p>
Interrompi a leitura pra acompanhar a argumentação de Garibaldi, que seguia viajando de vento em popa:</p>
<p>— O senhor veja que o meu sistema tem muitas vantagens. Em certos casos, dei preferência ao sobrenome e não ao prenome. O que temos, então? A família inteira passa a ser homenageada e não apenas aquele indivíduo específico. É o caso, por exemplo, de Grecco, Rabelo, Caliman, Trancoso, Gagno, Neffa, Vivacqua, e tantos mais. Outra vantagem, sobretudo no caso de ser mantido o prenome, é a abrangência universal da homenagem. A rua Coronel Gastão Franco Americano, por exemplo, que só homenageava o próprio coronel, no meu sistema homenageia não só a ele como também ao sortudo Gastão, primo do Pato Donald. A rua Professor Nilo Martins da Cunha passa a ser, também, uma homenagem ao rio Nilo, e a rua Promotor Diógenes Malacarne uma homenagem, também, ao filósofo Diógenes, aquele do tonel.</p>
<p>— Mas não creio, — disse o Sr. Eylau, céptico, — que a Prefeitura aceitaria o seu sistema só em nome do bom senso.</p>
<p>— Aí é que está, — disse Garibaldi. — Eu pensei em tudo. Minha proposta contém uma isca que prefeitura nenhuma há de resistir a ela. Essa isca está na operacionalização do sistema. Proponho o seguinte. — Deu uma folheada no texto, à procura da isca passível de fisgar a Prefeitura em mortal anzol. — Onde é que está mesmo? Ah, aqui: &#8220;O executivo municipal substituirá as atuais placas de rua, onde aparecem os nomes sujeitos a simplificação, por outras, em que constarão os nomes simplificados.&#8221; Sentiu a isca? E mais: &#8220;Além das novas placas, o executivo municipal proverá placas especiais, em bronze, contendo informações sobre o homenageado específico, incluindo nome completo, datas de nascimento e morte, e um pequeno currículo de vida.&#8221; Que prefeitura vai resistir a uma coisa dessas? Já pensou a mão de obra que a operacionalização do meu sistema vai exigir? Já pensou a alegria das autoridades municipais quando sentirem o rebuliço que vão provocar em toda a cidade, a atenção que vão chamar entre todos os moradores votantes? Assim que perceberem isso, vão aceitar o meu sistema na hora.</p>
<p>— É possível, — disse o Sr. Eylau. — Mas ainda não entendi o que o senhor espera da Agência Ajax.</p>
<p>— Espero, — explicou Garibaldi, — que a agência, como pessoa jurídica, submeta uma proposta de venda do sistema, do jeito que está, prontinho da silva, à Prefeitura. Submeta, acompanhe o andamento do processo, mexa alguns pauzinhos, e, quando for aprovado, receba a grana e me pague um percentual de autor, tipo 90%, 50%, 15%, qualquer coisa simbólica. Que que acha?</p>
<p>— Creio que 15% é um percentual adequado, — disse o Sr. Eylau. — E qual o valor de venda que o senhor propõe para o sistema?</p>
<p>— Dez mil reais, — disse Garibaldi. — Mas, se eles chiarem, podemos baixar pra sete e trezentos, seis e quinhentos, algo assim.</p>
<p>O Sr. Eylau ficou estarrecido, e tanto que até suspirou. Depois do suspiro, disse:</p>
<p>— Sr. Garibaldi, acho que o senhor tem de dinheiro a mesma noção que tem de tempo. Dez mil reais é um valor ridículo. Vou propor duzentos mil para chegar a cento e cinqüenta.</p>
<p>— O quê? — Garibaldi quase caiu da cadeira. — Mas eu tenho vergonha de propor tanta grana assim.</p>
<p>— Não se preocupe, — disse o Sr. Eylau. — A Agência Ajax é que vai propor. E a Agência Ajax tem vergonha é de propor pouco, e não de propor muito. Quanto mais alto o valor da proposta, mais a gente é olhado com respeito e consideração.</p>
<p>Garibaldi estava sem fala. O Sr. Eylau disse:</p>
<p>— Vou estudar melhor o seu sistema e minutar duas coisas: um contrato para o senhor assinar e um expediente para encaminhar a proposta à Prefeitura. Deixe, por favor, o seu telefone com Dona Mônica e aguarde notícias.</p>
<p>Garibaldi levantou-se. A cifra, de tão vultosa, deixara-o quase catatônico. Imaginei que mais um pouco e ele arrebataria o seu Catálogo de cima da mesa e sairia correndo da agência como costuma sair correndo de consultórios dentários. Pra distraí-lo fiz-lhe esta pergunta banal:</p>
<p>— Sr. Garibaldi, e o jazz, como é que anda?</p>
<p>Seu rosto se iluminou. Eu tinha proferido a palavra mágica. Garibaldi recuperou a fala:</p>
<p>— O jazz anda bem, obrigado. Aliás, anda sempre muito bem por uma razão muito simples: porque o estoque de gravações que os músicos antigos deixaram pra nós é inesgotável, inesgotável no sentido de que nenhum de nós, jazzófilos, teria tempo astronômico pra ouvir tudo que gostaria de ouvir. Então o que temos? Morreram os veteranos, mas o som gravado está aí, imortal. É a nossa sorte. Porque, meu amigo, se não fosse isso, nós estaríamos fodidos. Porque o que esse pessoal anda fazendo hoje não dá pra escutar. Mas deixe eu ir, que tenho compromisso às quatro e meia lá no Centro da Praia.</p>
<p>— Já são mais de cinco, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— Tô em cima da hora, — disse Garibaldi.</p>
<p>Apertou-nos rapidamente as mãos e lá se foi, alto e sem engonços. O Sr. Eylau sentou-se de novo e começou, coisa incrível, a sorrir. Era o sorriso cintilante do agente que via cair à mão, por milagre, a oportunidade de tirar da lama o pé da agência. Não duvidei nada que aquela noite, diante de uma imagem de Nossa Senhora da Penha, fizesse a promessa de, se tudo saísse bem, subir de joelhos a escadaria do convento. De repente desceu da dimensão do devaneio e olhou fixamente pra mim.</p>
<p>— Quer dar uma mordida nesse bolo? — perguntou, apontando pro Catálogo de Garibaldi.</p>
<p>— Dinheiro honesto é comigo mesmo, — respondi. Um pouquinho desonesto também, pensei, mas não disse.</p>
<p>— Leve o texto para casa, dê uma estudada, veja se tem algum furo, faça alguma sugestão pertinente e redija os documentos necessários. Não. Só o expediente para a Prefeitura. Quanto ao contrato, deixe que eu mesmo redijo. Tenho mais prática.</p>
<p>— Quanto ganho com isso? — perguntei.</p>
<p>— Cinco por cento da fatia da agência. Aliás, acho que vou elevar o pedido para quatrocentos mil com possibilidade de reduzir para duzentos e cinqüenta. O que são duzentos e cinqüenta mil reais para a Prefeitura de Vitória?</p>
<p>— Também acho, Sr. Eylau, — concordei; não tenho o escrupuloso cagaço de Garibaldi. Dei ali mesmo uma de Homem que Calculava e calculei mentalmente a parte que me tocaria: 250.000 &#8211; 15% = 212.500 x 5% = 10.625. R$10.625,00? Nada mal. Poderia levar a doce Fúlvia pra jantar a semana toda num desses restaurantes que cobram trinta reais o prato.</p>
<p>Deixei o Sr. Porfírio Iolau Eylau sorrindo sozinho e saí de seu gabinete. Mal e mal dei boa noite a Dona Mônica, com a cabeça cheia de dez mil, seiscentos e vinte e cinco reais como ia. Se ela ficou, como presumo, meio decepcionada, que se consolasse com os beijos de Teodomiro Júnior. Saí pro corredor. Coincidência: desci no elevador com os mesmos dois rábulas com que subira. De novo conversaram entre si como se eu estar ali ou ali não estar tanto fizesse. Se soubessem que quem estava ali agora era o Homem de R$10.625,00 teriam decerto agido diferente.</p>
<p>— Você comeu aquela recepcionista da Esculamed? — perguntou o marido da aniversariante.</p>
<p>— Comi e estou comendo, — respondeu o outro. — Passei a conversa nela dizendo que eu era o governador.</p>
<p>— Ela acreditou? — perguntou o primeiro.</p>
<p>— Prometi até uma função gratificada na Secretaria de Cultura, — disse o outro, rindo.</p>
<p>— Até quando você vai levar isso adiante? — perguntou o primeiro.</p>
<p>— Até ela me dar a bunda, — disse o outro. — Depois quero ver a puta me encontrar.</p>
<p>— Deixa ela se queixar ao governador, — disse o primeiro.</p>
<p>*</p>
<p>Saí pro ar puro do poluído crepúsculo do centro de Vitória. Que faço comigo agora? Pego um ônibus pra Jardim Camburi, um ônibus pra Jardim Camburi ou um ônibus pra Jardim Camburi? Pego o 121, pra ir pela avenida da Penha, o 161, pra ir pela Maruípe, ou o 241, pra ir pela Beira-mar? Eis aí, pensei, três avenidas que se qualificam, pelos nomes que têm, a ser palco de um duplo assassínio literário. Assim pensativo, parei diante de uma loja de eletrodomésticos. Havia uns quinze televisores na vitrine, todos ligados, e todos mostravam, em cores berrantes, a cara porca de Miguel Desidério. Ele disse alguma coisa que não entendi. Num passe de mágica, sai Miguel Desidério das quinze telas e entra Jacqueline Paganini. É linda de desesperar qualquer sujeito que, como eu, não tenha namorada. Sorrindo pra mim numa quinzena de sorrisos, ela anuncia:</p>
<p>— Poeta Miguel Desidério vai recitar uma de suas mais recentes poesias.</p>
<p>Aí, leitor, leitora, tive de ver e ouvir, a um só tempo, quinze Manoéis Desidérios recitarem, com voz mais melíflua que a de Dom Evaristo Arns, o seu poema &#8220;Todo cuidado é pouco, Jacqueline&#8221;.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
FIM</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (final)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continuação II)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 21:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(Continuação II) — Projeto Garibaldi? — exclamei. — Que projeto é esse que não estou sabendo de nada? — Não tem nada a ver com o senhor, — disse o Sr. Eylau. — Trata-se de um projeto para publicar a primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste. A parte composta pelo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>(Continuação II)</b></div>
<p>— Projeto Garibaldi? — exclamei. — Que projeto é esse que não estou sabendo de nada?</p>
<p>— Não tem nada a ver com o senhor, — disse o Sr. Eylau. — Trata-se de um projeto para publicar a primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste. A parte composta pelo velho narrador.</p>
<p>— E foi recusado? — exclamei, furibundo. Numa hora dessas uno-me solidário até mesmo ao chato do Velho. — Recusado por quê?</p>
<p>— A burocracia da Lei, — disse o Sr. Eylau, — exige um documento que nós esquecemos de anexar ao processo: uma declaração por escrito de Garibaldi Magalhães concordando em participar do projeto como personagem principal. Sem esse documento, nosso projeto nem sequer chegou à etapa de avaliação. Para usar linguagem futebolística, foi eliminado no torneio início do campeonato.</p>
<p>— Que pena, Sr. Eylau, — consolei-o. — Apesar de ser um texto do meu rival, não queria que passasse por situação tão patética.</p>
<p>— Coisas da vida, — disse o Sr. Eylau, filosófico. Logo, porém, menos filosófico, acrescentou: — Sei de pessoas que, para garantir seus próprios projetos, sempre que vão ao escritório da Lei levam biscoitos Alcobaça para distribuir entre os funcionários. Aposto que os projetos dessas pessoas não são recusados sumariamente, por falta de um documento, como foi o nosso. Tento encarar friamente essa situação, mas confesso que às vezes o sangue me sobe à cabeça e sinto vontade de fazer uma loucura.</p>
<p>Telefone sobre a mesa do Sr. Eylau zumbiu. Era Dona Mônica. Chegara o sujeito agendado pras quatro horas. O Sr. Eylau olhou pra mim e disse:</p>
<p>— Não se retire não. Do jeito que estou fragilizado esta semana, é bom contar com a sua presença aqui para me assistir se for necessário.</p>
<p>Bateram à porta, que se abriu pelas mãos de fada de Dona Mônica. Ela afastou-se pra dar entrada ao recém-chegado. Quem era? Leitor quer saber quem era? Pois era José Garibaldi Magalhães: o próprio. * Assim que José Garibaldi Magalhães, desengonçado como só ele sói, entrou gabinete do Sr. Eylau adentro, percebi que muito ainda mais amplo do que eu pensara a princípio era o paralelismo entre a visita que fizera mais cedo à Bico de Lacre Editores e a que fazia agora à Agência Ajax de Produções Literárias. Confira o leitor: lá, como cá, fui recebido por secretárias cujos nomes começam pela letra M; lá, como cá, sentei-me em audiência com os respectivos titulares de uma e outra empresa; lá, como cá, deparei-me com o que se poderia chamar de calamidade editorial; lá, como cá, tentei receber meus honorários (que me foram pagos lá mas não cá); e agora, por fim, se lá me vi em presença de um sócio emérito do Clube das Terças-feiras, a saber, Fernando Achiamé, cá me vejo em presença de outro sócio (só que mais emérito ainda: o mais emérito de todos) do mesmo clube, a saber, José Garibaldi Magalhães.</p>
<p>Confesso que me bateram no peito um tique e um taque de pura emoção diante da perspectiva de conhecer pessoalmente, agora vis-à-vis e tête-à-tête, o meu personagem principal. Garibaldi descambou porta adentro alto e sem engonços, plantado sobre suas longas pernas de Dexter Gordon e sobraçando um texto impresso encadernado em capa dura. Levantamo-nos, o Sr. Eylau e eu, corteses, pra apertar-lhe a mão. Quanto a mim, coração bateu ainda mais taquicardíaco (ou mais tiquetaquicardíaco, como diria o meu amigo Alfred) nessa hora histórica. O Sr. Eylau é que nem se tocou: triste ficou como triste estava. Sentamo-nos os três. Garibaldi depôs maternal sobre o próprio colo o texto impresso, deu uma espiada nas unhas das mãos, pra ver se estavam no lugar, e não disse palavra. Apenas enfiou sobre o Sr. Eylau o olho esganiçado e espremeu entre os lábios um sorriso de maraçapeba.</p>
<p>— Em que posso servi-lo, Sr. Garibaldi? — perguntou o Sr. Eylau.</p>
<p>— Ah! — exclamou Garibaldi. — Era isso que eu esperava que o senhor dissesse. O senhor quer mesmo saber?</p>
<p>— Acho que é o senhor que quer que eu saiba, — disse o Sr. Eylau. — Ou muito me engano ou foi o senhor que pediu esta audiência comigo.</p>
<p>— Bem enunciado, — disse Garibaldi. — Nesse caso não me resta outra alternativa a não ser colocar as cartas na mesa. O motivo da minha visita, senhores, é submeter à apreciação da Ájax —</p>
<p>— Ajax, — corrigiu o Sr. Eylau.</p>
<p>— Da Ajax um projeto de minha concepção e autoria, que intitulei —</p>
<p>Aqui Garibaldi interrompeu-se pra, num borbotão, dizer:</p>
<p>— Não, não, acho melhor começar historiando como foi que me bateu o estalo que deu origem a esse projeto. Foi assim: um mês atrás, estava lá em casa arrumando a estante de livros e dei com minha velha edição das Novelas extraordinárias, de Edgar Allan Poe. É uma edição da Garnier, que pertenceu a meu pai, e estão até faltando as últimas páginas, e por isso perdeu-se a parte final do conto &#8220;Berenice&#8221; e alguma coisa mais que não tenho como descobrir, porque perdeu-se o sumário também. Mas ainda ficou muita coisa boa ali, inclusive os três melhores contos de Poe, na minha Modesta Opinião, que são &#8220;O escaravelho de ouro&#8221;, &#8220;A carta roubada&#8221; e &#8220;O duplo assassínio na rua Morgue&#8221;. Meus amigos, parei de arrumar a estante pra reler essas obras-primas. Regalei-me com elas. Li-as pra mim mesmo, depois chegou Penha, que é a minha, ham, pois é, chegou Penha e li &#8220;O duplo assassínio&#8221; de novo, em voz alta, pra ela ouvir e se regalar também. Depois, deu vontade de tomar um café, então fomos tomar um café. Durante o café eu estava tão absorto em mim mesmo que Penha disse, como dizem as atrizes nos filmes americanos em situações semelhantes: Alô! Alô! Aí eu acordei do meu devaneio. Penha me perguntou: Em que que você está pensando? E eu respondi: No título do conto de Poe que li pra você: &#8220;O duplo assassínio na rua Morgue&#8221;. E o que tem isso, ela perguntou. Tem, eu disse, que um título como esse seria fatalmente impossível no Brasil, porque os nomes das ruas, aqui, com rarissimíssimas exceções, não se prestam à literatura. Aí eu disse a ela: Quem ia querer ler um conto chamado &#8220;O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior&#8221;? Credo, ela disse. Exatamente, eu disse. Um título como esse faz broxar o mais tarado dos leitores de literatura. Os amigos, por exemplo: os amigos encarariam um conto com esse título?</p>
<p>— Dificilmente, — disse o Sr. Eylau. E professorou: — O título de uma obra literária é de capital importância para captar o interesse do leitor em potencial.</p>
<p>— Existe uma rua Tenente-coronel não sei das quantas? — perguntei.</p>
<p>— Acho que não, — disse Garibaldi, — mas bem que poderia existir. Vocês sabem que os nomes de ruas, praças, avenidas, ou seja, dos logradouros em geral, no Espírito Santo e no Brasil, estão sob a pior das custódias, que é a das câmaras de vereadores. Vereador não quer saber de outra coisa que não seja voto. E nome de rua dá voto. Se você apresenta um projeto pra dar a uma rua que se chamava, digamos, rua da Árvore, o nome de algum falecido comerciante, você garante, nas eleições do ano que vem, os votos da viúva, dos filhos e noras, das filhas e genros e até dos netos votantes do homenageado. É uma tentação muito grande pra qualquer vereador que se preze, e afinal árvore não dá voto. Que importa então a ele se a pobre rua está condenada a carregar pela eternidade afora o nome, digamos, de Delecarliense Drummond de Alencar Araripe? Importam, sim, os votos que ele vai garantir com essa condenação. Porque por voto vereador dá até a, ham, a camisa. Nada o detém. Por voto vereador se arrisca até a queimar no fogo do inferno. Não vê o que aconteceu aqui mesmo em Vitória: a câmara em peso teve a coragem de espoliar a própria Nossa Senhora, mãe de Deus, pra bajular a família de um empresário poderoso. Lembram não do caso?</p>
<p>Eu lembrava. Garibaldi referia-se ao caso da avenida Nossa Senhora dos Navegantes, que os vereadores julgaram extensa e importante demais pra levar só o nome de Nossa Senhora e cortaram-na ao meio, pra fins onomásticos, bem entendido, dando à metade dela o nome de Américo Buaiz. Consolo de Nossa Senhora é que os hereges ainda lhe deixaram metade da avenida. Fosse uma santa menor, tipo Santa Rita dos Impossíveis, teria, apesar de toda a sua capacidade pra lidar com casos impossíveis, perdido a avenida toda pro falecido empresário. Garibaldi esperou a conclusão deste parágrafo narrativo pra continuar:</p>
<p>— Mas não me interessam aqui ilações religiosas mas literárias. Estou defendendo é o direito da literatura brasileira de poder usufruir de nomes de ruas literários. Todo país civilizado garante esse direito a seus escritores. &#8220;O duplo assassínio na rua Morgue&#8221; é o caso clássico. Mas tem muitos outros. O nome do romance póstumo de Eça de Queiroz é A tragédia da rua das Flores. Ora vejam só. Nós tivemos uma rua das Flores em Vitória, que se chamou assim, segundo diz a lenda, porque nela moravam, lá pelos idos de 1820, as moças mais bonitas da cidade, que eram as filhas do Dr. Pientznauer. Veio a vereança predadora, que não respeita nem moça bonita, e mudou o nome da rua pra Dionísio Rozendo. Pronto. Cagaram no pau dos nossos escritores que, agora, se quiserem, vão ter de escrever um romance chamado A tragédia da rua Dionísio Rozendo.</p>
<p>— Muito correto o seu ponto de vista, — disse o Sr. Eylau. — Como agente de produções literárias, minha simpatia está toda com o senhor. Mas ainda não vi aonde —</p>
<p>— Deixe-me dar mais alguns exemplos, — interrompeu Garibaldi. — Um: o grande Henry James escreveu um romance chamado Washington Square. Nossos escritores teriam a opção de escrever, digamos, Praça Antônio Jacob Saad. Outro: existe um conto de Dashiell Hammett com o título &#8220;A casa da rua Turk&#8221;. Um título equivalente entre nós seria &#8220;A casa da rua Carlos Eduardo Monteiro Lemos&#8221;. Mais outro: eu li uma vez um romance policial de Stanley Ellin chamado A chave da rua Nicholas.</p>
<p>— Belo título, — eu disse.</p>
<p>— Também acho. Em Vitória, qualquer coisa análoga viraria, por exemplo, A chave da rua Amélia Tartuce Nassar. Não há nada de belo nesse título.</p>
<p>— Concordo, — concordei.</p>
<p>Garibaldi, empolgado, continuou:</p>
<p>— E Sinclair Lewis, que escreveu um romance chamado Rua Principal? Quase todas as cidades do interior dos Estados Unidos têm a sua Main Street. A partir dessa rua, Lewis fez um retrato social que valia pra qualquer dessas cidades, todas tão idênticas entre si em seus vícios e virtudes, e o título do romance não podia ser outro nem melhor. Isso, no Brasil, seria impossível, porque vereador nenhum admitiria dar à rua principal de uma cidade o nome choco de rua Principal. Um nome desses só homenageia a própria rua, e desse mato não sai voto.</p>
<p>— Tudo bem, — disse o Sr. Eylau. — Mas ainda não entendi —</p>
<p>Garibaldi não deixa o Sr. Eylau dizer o que mas ainda não entendeu:</p>
<p>— Até pras crianças escreveram-se livros com nomes de rua. Exemplo? Os meninos da rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár. Como se chamaria um livro similar ambientado em Vitória? Os meninos da rua Soldado Miguel Furtado. Os meninos não teriam saco de ler esse livro, só por causa do título.</p>
<p>— Não há nenhum autor brasileiro que tenha escrito um livro com nome de rua no título? — quis saber o Sr. Eylau.</p>
<p>— Luís de Almeida, — Garibaldi respondeu, da ponta da língua. O Sr. Eylau recuou o cabeção ao ouvir o nome do inimigo. — É um autor de Vitória que impinge aos leitores da Internet algumas croniquinhas sobre o quotidiano de uma delegacia. Nunca li nada, mas meu amigo Pedro Nunes lê, e gosta, por alguma razão lá dele. O nome dessa série de crônicas é Chapot Presvot 272, que é o endereço da delegacia.</p>
<p>— Esse não vale, — disse o Sr. Eylau. — Não tem outro, mais nacional?</p>
<p>— Guilherme Figueiredo, — Garibaldi respondeu, de novo da ponta da língua. — Mas só que o livro dele tem no título o nome de uma rua de Paris: 14, Rue de Tilsitt. Imaginemos um título equivalente com o nome de uma rua de Vitória: Rua Lumberto Maciel de Azevedo 14. Que tal?</p>
<p>— Inconcebível, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— Isso me leva, aliás, a lembrar uma coisa. Queria ater-me ao campo da literatura, mas, como tenho algum conhecimentozinho de jazz, lembrei-me de uma composição do pianista Lennie Tristano que tem como título o endereço do estúdio que ele manteve em Nova York durante anos: 317 East 32nd Street, também conhecida como East Thirty-Second e como 317 E 32nd. Esse recurso onomástico é proibitivo pros músicos brasileiros.</p>
<p>Aí Garibaldi respirou fundo pra entrar nos aspectos teóricos da questão:</p>
<p>— Mas o problema da incompatibilidade entre os nomes de ruas de Vitória e a literatura está, portanto, em dois aspectos: primeiro, os nomes das ruas são longos demais; segundo, não têm, digamos, charme poético. Por que os nomes são longos? Primeiro, porque a vereança desvairada não admite abreviação. O poeta Augusto Lins sempre foi conhecido como Augusto Lins. Mas a rua que tem seu nome chama-se Augusto Emílio Estellita Lins, porque o vereador autor do projeto nunca leu um livro do poeta e ignora que o poeta se chamava apenas Augusto Lins. Segundo, a vereança prolixa agrega aos nomes dos homenageados os seus títulos, quando é o caso. A gente vê, nas ruas de Vitória, uma porrada de Desembargador, Professor, Engenheiro, Soldado, General, Presidente, Governador, Deputado e mais o caralho a quatro, totalmente desnecessários. E por que os nomes não têm charme? Que charme pode ter, pra nome de rua, um nome como Serapião Tolentino Cavalcante? Além disso, boa parte dos prenomes dos homenageados estão no que um teórico chamaria de grau zero de lirismo: Aflordízio, Crisolino, Dióscoro, Duntalmo, Elesbão, Erotildes, Itobal, Lucidato, Medardo, Orcalina, Orozimbo, Pantaleão, Urquízia, Arquimimo e outros mimos. Eu digo aos senhores: eu preferiria morar na rua das Putas do que na rua Euflorzina dos Anzóis Carapuça.</p>
<p>— Está bem, — disse o Sr. Eylau. — Já entendi a sua tese. Mas o que a Ajax pode fazer pelo senhor?</p>
<p>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/"><br /></a><br />
</p>
<div style="text-align: center;">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/">CONCLUI NA PRÓXIMA SEQÜÊNCIA</a></div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_96/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continuação II)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continuação I)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 21:42:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(Continuação I) — Que eu me lembre, — disse o Sr. Eylau, — não mandei chamá-lo, mandei? — Que eu me lembre, — respondi, — mandou não. Mas tomei a liberdade de vir assim mesmo porque tenho um assunto com o senhor. — Não cabe ao senhor ter assuntos comigo, — disse ele, — mas [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>(Continuação I)</b></div>
<p>— Que eu me lembre, — disse o Sr. Eylau, — não mandei chamá-lo, mandei?</p>
<p>— Que eu me lembre, — respondi, — mandou não. Mas tomei a liberdade de vir assim mesmo porque tenho um assunto com o senhor.</p>
<p>— Não cabe ao senhor ter assuntos comigo, — disse ele, — mas eu com o senhor. Não invertamos a ordem hierárquica de nossa relação profissional.</p>
<p>— O senhor me deve dinheiro, — entrei de sola. — Isso faz toda a diferença.</p>
<p>O Sr. Eylau teve um estremecimento. Leitor dirá que não escolhi a hora certa pra cobrar do pobre homem uma dívida. Pelo contrário. Essa é a hora certa: quem deve um milhão não há de se incomodar de dever (e pagar) um milhão e cem.</p>
<p>— O que o senhor está me dizendo, — disse ele, sorrindo com malícia, — é um desatino. O que o fez pensar tal coisa?</p>
<p>— Dois capítulos no ar, — repliquei. — Dois capítulos da História inconfessável. Não foi esse o nosso trato? O senhor disse, textualmente, que eu não receberia nada por intercapítulos nem por entretenimentos, e que só me pagaria quando eu produzisse alguma coisa da História inconfessável. Pois produzi. Agora pague.</p>
<p>— Eu li esses capítulos, — disse ele. — Achei que estão muito aquém do que eu esperava e do que o senhor prometeu. Inclusive não consegui detectar ali nenhuma das influências que o senhor apregoou.</p>
<p>— Temos muito texto ainda pra correr por baixo da ponte, — afirmei. — Seja como for, em &#8220;Metade palmito, metade marguerita&#8221; já há algumas alusões a histórias em quadrinhos e já está esboçada a influência de Evelyn Waugh: igual ao personagem Gilbert Pinfold, o Velho já começou a sofrer de alucinações.</p>
<p>— Não vi alucinação nenhuma ali, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— Viu não? — eu disse. — E aquela sacada do &#8220;quer que te chupe&#8221;?</p>
<p>— Aquilo foi uma alucinação? — disse ele.</p>
<p>— Auditiva, — precisei.</p>
<p>O Sr. Eylau parou pra um ato de reflexão. Depois disse:</p>
<p>— Alucinação ou não, achei de muito mau gosto.</p>
<p>Achei necessário atualizar-lhe o conceito:</p>
<p>— Sr. Eylau, não existe, na literatura de hoje, isso de mau gosto. Pelo contrário, o bom gosto é a única coisa hoje que é de mau gosto. Mas voltemos ao que importa.</p>
<p>— Ainda não, — objetou ele. — Ainda tenho algo a dizer sobre o assunto em pauta. A influência que tenho visto em seus textos sabe qual é? É a influência do primeiro narrador.</p>
<p>— Como é que é? — exclamei.</p>
<p>— Isso mesmo, — disse ele. — Já não vejo mais em seus textos aquela narrativa seca, áspera, cínica, até escrachada dos primeiros capítulos. Dá para deduzir que o primeiro narrador está tomando posse de sua personalidade literária e assumindo controle de sua mente narrativa. Ele está encarnando no senhor. Sua escritura está cada vez mais rebuscada, mais prolixa, mais, por assim dizer, barroca.</p>
<p>— Barroca? — Senti-me insultado.</p>
<p>— Barroca, — confirmou o Sr. Eylau. — Para mim tanto faz. Meu compromisso com o autor é prover um narrador capaz de prosseguir e concluir a seqüência da História inconfessável. Mas, pensando bem, até nisso parece que o senhor vem sofrendo a influência do outro. Por que essa resistência quanto a botar para fora os capítulos inconfessáveis? Por que essa insistência em gerar uma profusão de intercapítulos e sobrecapítulos? Diria até que a fobia do outro contagiou o senhor.</p>
<p>Mal pude acreditar no que ouvia. Será possível, diga-me, leitor, que algo tão bizarro e sórdido esteja de fato ocorrendo? Se será, preciso tomar providências urgentes pra conter essa insidiosa possessão estilística.</p>
<p>— Vou examinar com calma esse assunto, — prometi, tanto ao Sr. Eylau como a mim mesmo. — Mas agora voltemos ao que importa. Acabei de passar na Bico de Lacre e recebi um cheque como pagamento de uma revisão que fiz pra editora. Se não acredita, eis aqui a evidência.</p>
<p>E exibi-lhe, em pleno nariz, o cheque da Desentupidora e Higienizadora Clean.</p>
<p>— Não há por que exibir nada para mim, — disse ele. — Eu li o intercapítulo anterior na internet. Aliás, uma observação: que o texto esteja repleto de notas de pé de página é compreensível, porque a tese da professora doutora serve de gancho para isso. O que não compreendo é por que, a partir de determinado ponto, as notas não têm mais nenhuma relação com o que diz o texto.</p>
<p>— O senhor já esqueceu do seu Mendes Fradique? — repliquei. E, diante da expressão de surpresa em seu rosto, prossegui: — Não lembra que Mendes Fradique, na Gramática portuguesa pelo método confuso, estica uma infinidade de notas de rodapé que não têm nada a ver com o texto? O leitor inocente vai lá ver o que é e encontra uma receita de bolo aqui, uma receita de cola pra vidro ali, mais adiante uma dica pra manter o brilho dos cristais ou a frescura das flores depois de colhidas. O que fiz foi fazer a mesma coisa, só que pior: pois as citações teóricas que escolhi pras notas, todas de Greimas, não têm utilidade nenhuma, porque não contêm nem que seja uma dica pra, por exemplo, evitar constipações. Mas, voltando ao cheque que tive o prazer de receber na Bico de Lacre, confesso que esperava merecer do senhor tratamento igual ao que recebi de Djalma Smee.</p>
<p>— Meu amigo pessoal, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— O que o senhor quer dizer quando diz amigo pessoal? — perguntei. — Haverá um amigo que não seja pessoal? E o que seria um amigo impessoal? Gasparzinho, o fantasma camarada?</p>
<p>— Não me venha com questões abstrusas, — disse o Sr. Eylau. — Quanto ao seu pagamento, estou impedido de fazê-lo.</p>
<p>— Impedido como? A Ajax está quebrada? — perguntei.</p>
<p>Ele se fez de ofendido:</p>
<p>— Claro que não. Tenho sólidos patrocinadores. O que há é que não posso pagar sem infringir a cláusula nona do nosso contrato.</p>
<p>A cláusula nona do maldito contrato que assinei com a Ajax é uma cláusula mutável: de texto movediço: hoje reza uma coisa, amanhã outra.</p>
<p>— E o que reza a cláusula nona no dia de hoje? — perguntei.</p>
<p>— Que, — respondeu ele, — se alguma coisa em seu trabalho der motivo a processo contra a agência, ficam suspensos os seus pagamentos até à conclusão do processo. Conclusão favorável à agência, bem entendido.</p>
<p>— Isso se aplica ao Roderico, não a mim, — protestei. — Não tive nada a ver com o caso Zefa-Rezefa.</p>
<p>— Não, não, — fez ele, impaciente. — Refiro-me a outro processo, que um tal Luís de Almeida está ameaçando mover contra nós.</p>
<p>— Luís de Almeida? — repeti.</p>
<p>— Sim, — disse ele. — Esteve aqui um advogado, que por sinal tem escritório aqui mesmo neste andar, e disse que estava representando esse Almeida. Por quê? Porque Almeida alega que o senhor se apropriou, sem autorização, de um personagem que pertence a ele: Teodomiro Reis. Alega que esse personagem aparece num conto que ele escreveu há muito tempo, intitulado &#8220;O penúltimo caso de Teodomiro Reis&#8221;. Alega que o senhor está usando esse personagem, nos seus intercapítulos, na qualidade de namorado de Dona Mônica e que o usou também no entretenimento intitulado &#8220;Estudo em ébano&#8221;. Viu no que deu sua mania obsessiva de intercapítulos e entretenimentos?</p>
<p>Fiquei sem fala. O Sr. Eylau aproveitou pra continuar:</p>
<p>— Por sorte sua, e nossa, o advogado disse que Luís de Almeida, ignorando o conselho dele advogado, não pretende entrar com um processo contra nós mas sim firmar um acordo que lhe garanta o uso exclusivo do personagem.</p>
<p>Maldito Luís de Almeida. Há vinte anos escreveu esse conto, há vinte anos, eu disse, e nunca publicou. Agora que usei o personagem lá vem ele reclamar direitos. Mas eu estava preparado pra isso ou pra algo como isso. Recostei-me à cadeira e assumi um ar de total tranqüilidade pra dizer:</p>
<p>— Desse processo a gente se safa numa boa, Sr. Eylau. Luís de Almeida não está com nada. Pois acontece que nosso Teodomiro Reis na verdade é filho do Teodomiro Reis dele. E isso é fácil de provar até por meio da lógica. Luís de Almeida escreveu o conto com Teodomiro como personagem há vinte anos atrás, e nesse conto Teodomiro tinha mais de quarenta anos. Me diga agora se é possível, a bem da lógica, a fulgurante Dona Mônica namorar um detetive escroto de sessenta anos. Não, Sr. Eylau, o Teodomiro Reis da Falcão Negro, seu vizinho, não tem nada a ver com o Teodomiro Reis de Luís de Almeida a não ser o nome e, naturalmente, alguns leucócitos e hemácias.</p>
<p>— Este é filho do outro? — disse o Sr. Eylau. — Então Luís de Almeida não tem caso contra nós.</p>
<p>— Claro que não. Mas já que ele mostrou certa consideração conosco, podemos aceitar um acordo nestes termos: se ele esquecer essa furada de meter processo na gente, o nosso detetive passará a chamar-se Teodomiro Reis Júnior.</p>
<p>— Não é má idéia, — murmurou o Sr. Eylau.</p>
<p>— Ou até, abreviado, Teodomiro Júnior, — acrescentei. — A propósito, o senhor foi leitor da Vida Capichaba?</p>
<p>— Fui, — disse o Sr. Eylau, e ? de sorriso se afixaram em seus lábios, porque a saudosa revista é doce lembrança pra todos os capixabas que tiveram ocasião de comprá-la em bancas, como o sócio velhinho do capítulo anterior.</p>
<p>— Então deve lembrar, — eu disse, — de uma seção da revista que se chamava &#8220;Consultório do Dr. Nostradamus Júnior&#8221;.</p>
<p>— Se lembro? — confirmou ele. — Essa seção é inesquecível.</p>
<p>A seção inesquecível, inaugurada em 1952 na célebre revista, não era, como poderá pensar o leitor, uma coluna de orientação clínica, nem, como poderá pensar a leitora, um consultório sentimental. Nada disso. O Dr. Nostradamus Júnior, Ph. D. em Cultura Inútil, respondia a toda e a qualquer pergunta que lhe faziam os leitores da Vida no âmbito desse vasto e ilimitado território do conhecimento humano. Só que ocorre (vou entregar o bruto) que o ilustre sábio nunca recebeu consulta de leitor algum! Sim, aqui digo e assevero que o Dr. Nostradamus Júnior simplesmente inventava as consultas e, por conseguinte, os consulentes, ou vice-versa, pra justificar a permanência (por pura vaidade, porque, como os demais colaboradores, era pago mensalmente a leite de pato) do consultório nas páginas da revista. Assim, nem um só daqueles consulentes que se escondiam sob os mais diversos pseudônimos — Carola, Hermengardo, Marmanjo, Pixote Canela-verde, etc. — nunca existiu, a tal ponto que todos eles chegavam a ser ainda menos reais do que o Homem que Nunca Existiu: pois enquanto esse famoso personagem da Segunda Guerra Mundial tinha toda uma história de vida, falsa embora, minuciosamente elaborada pra enganar a contra-espionagem alemã, qualquer um dos fictícios consulentes do Dr. Nostradamus Júnior nada tinha de seu além do seu falso pseudônimo, já que mais não era preciso pra enganar o velho Maneco Pimenta, dono da revista, que acreditava piamente na farsa. Assim, falsos eram os consulentes, falsos os pseudônimos e falsas as consultas, que o próprio sábio extraía dos almanaques e das enciclopédias de que dispunha, em especial do Tesouro da Juventude.</p>
<p>— Eu gostava muito, — disse o Sr. Eylau, — daquele consultório. Costumava acompanhar as consultas com muito interesse. Posso até dizer que o consultório foi tão importante para minha formação cultural como uma universidade. Lembro que uma vez atrevi-me a fazer uma consulta, e para isso usei o pseudônimo de Iolau, que é meu nome do meio. Queria saber a origem e o significado da palavra intelligentzia, de uso ainda recente na época, mas não dei sorte: no número seguinte não vi mais o consultório. Tinha fechado.</p>
<p>Não disse nada ao Sr. Eylau, pra não perturbá-lo, mas tenho certeza de que o consultório fechou exatamente por conta da consulta que Iolau se atreveu a fazer. O Dr. Nostradamus Júnior só sabia as respostas pras consultas que ele mesmo pinçava em seus sebentos alfarrábios.</p>
<p>— Mas por que o senhor mencionou essa seção da velha Vida? — perguntou o Sr. Eylau. — O que tem isso a ver com Luís de Almeida?</p>
<p>— Tudo, — respondi. — Quer saber a identidade secreta do Dr. Nostradamus Júnior? Eu lhe direi: Luís de Almeida. Sim. Luís de Almeida e o Dr. Nostradamus Júnior eram a mesma pessoa. E se ele se assinava Júnior era porque já antes dele tinha pontificado, em jornal de Vitória, nas mesmas condições de sábio-que-sabe-tudo, um outro Dr. Nostradamus. Ora, se Luís de Almeida se apropriou do consultório do Dr. Nostradamus valendo-se do ardil de acrescentar um &#8220;Júnior&#8221; ao nome, por que não podemos nos valer do mesmo ardil pra nos apropriar do nome Teodomiro Reis? Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.</p>
<p>— Excelente! — vibrou o Sr. Eylau. — Esse argumento, se for preciso, será usado como golpe de misericórdia contra as ameaças de Luís de Almeida.</p>
<p>Fiquei todo bobo dentro das calças diante do reconhecimento, por parte do Sr. Eylau, da minha capacidade advocatícia. Quis logo capitalizá-lo:</p>
<p>— Bom, agora que esse problema não representa mais nenhum perigo, que tal pedir a Dona Mônica pra me fazer um cheque?</p>
<p>— Não creio que seja possível, — disse ele.</p>
<p>— O texto da cláusula nona já mudou de novo? — perguntei.</p>
<p>— Exatamente, — disse ele. — Agora reza que o senhor só receberá seu pagamento quando tiver produzido pelo menos o mesmo número de capítulos nucleares, isto é, da História Inconfessável propriamente dita, e de capítulos periféricos. Ora, pelas minhas contas, temos dois capítulos nucleares contra sete periféricos. Viu? O senhor está perdendo tempo com esses intercapítulos e contracapítulos e sei lá mais o quê. Tempo e dinheiro. Mas não posso deixar de reconhecer que, no caso Teodomiro Reis, o senhor me deixou aliviado com a solução proposta.</p>
<p>— Eu devia tê-la vendido pro senhor, — murmurei.</p>
<p>— Eu a teria comprado, — disse ele. — Estou sempre pronto a pagar alguma coisa por um bom tranqüilizante. Esta semana, então, foi um rabo de foguete atrás do outro. Primeiro a ameaça de Luís de Almeida, depois o caso Zefa-Rezefa, como o senhor o chama, e ainda hoje mesmo recebi uma comunicação da Lei Rubem Braga no sentido de que o Projeto Garibaldi, que apresentamos à Lei, foi recusado.</p>
<div style="text-align: center;">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_96/">CONTINUA</a></div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continua)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 21:37:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Promessa é dívida, portanto cumpra-se a promessa é dívida do narrador: abra-se, pelas mãos de musa de Dona Mônica, a sisuda porta da Agência Ajax. Dona Mônica abriu meia porta, viu quem era, meteu o belo rosto pra fora, varreu o corredor com o olhar, talvez pra ver se não havia por ali algum detetive [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Promessa é dívida, portanto cumpra-se a promessa é dívida do narrador: abra-se, pelas mãos de musa de Dona Mônica, a sisuda porta da Agência Ajax.</p>
<p>Dona Mônica abriu meia porta, viu quem era, meteu o belo rosto pra fora, varreu o corredor com o olhar, talvez pra ver se não havia por ali algum detetive de tocaia, e aí então me botou agência adentro.</p>
<p>— Cá está você outra vez, — disse ela.</p>
<p>— Tornar a vir é o ser do que devém, — eu disse. — Tornar a vir é o ser do próprio devir, o ser que se afirma no devir. O eterno retorno como lei do devir, como justiça e como ser.</p>
<p>— Que que é isso? — perguntou ela, surpreendida. — Poesia?</p>
<p>— Sei lá, — eu disse.</p>
<p>Nem queria saber. Já estava entregue ao êxtase de confirmar que Dona Mônica consegue, sabe-se lá a poder de que artifícios, poções mágicas ou pactos diabólicos, pôr-se cada dia mais linda e mais gostosa. Quis, recuando dela, criar a necessária distância pra, que nem crítico de artes plásticas, contemplar aquela obra-prima de alto a baixo e de baixo a alto, mas a saleta, desde a minha última visita, tinha sido capaz de uma grande proeza: encolher. O que era, o que não era, verifiquei que parte do já exíguo jazigo que é a saleta de Dona Mônica estava tomada por pilhas de pacotes que emparedavam as próprias paredes e que, evidentemente, continham esse produto nojento que se chama livro; nojento e prolífero, visto que suas ninhadas nunca se contam por menos que centenas. De qualquer modo, recuei até o limite de encostar a bunda a uma dessas pilhas e dali o que fiz foi deixar de molho o olho sobre a, de Dona Mônica, beleza estonteante (nela, mais que em ninguém, o clichê é de todo perdoável).</p>
<p>— Que que você está olhando? — perguntou ela.</p>
<p>— Olhando você, — respondi. — Cada dia mais linda. Cada dia mais g&#8230; Cada dia mais garrida.</p>
<p>Contato com Miguel Desidério me deixara confiante pra seduzir e conquistar. Desidério não era nada de mais bonito que eu e no entanto comia, se não toda e qualquer, muita e qualquer mulher que lhe desse na telha da libido comer. Daí, com a cara mais sonsa, parti pra esta pergunta inocente:</p>
<p>— Já pensou em posar pra fotografia, Dona Mônica?</p>
<p>— Posar? Que que você quer dizer? Pra fotos artísticas? — disse ela.</p>
<p>— Até certo ponto, — disse eu.</p>
<p>— Pra fotos eróticas, é isso que você quer dizer, — disse ela. — Fotos em pêlo. Pois nem que a vaca tussa. Já me convidaram e eu disse que não. Qual é? Sou filha de meu pai e evangélica.</p>
<p>Evangélica? Evangélica e não hesita em personificar a figura diabólica de uma freira por duas horas em lugar público e concorrido? Vai entender. Mas, por outro lado, mostrei sincera indignação:</p>
<p>— Já te convidaram? Quem foi o patife que ousou fazer uma coisa dessas?</p>
<p>— Conhece um poeta chamado Miguel Desidério? — disse ela. — Pois é fotógrafo também. Me mostrou algumas fotos que tirou de mulher de tudo que é tipo: branca, preta, castanha, amarela. Tudo muito erótico. Cama, praia, piscina, banheira. Deus que me livre. Tá pensando que eu sou o quê? De vez em quando o safado liga pra mim e repete o convite. Pois pode esperar sentado.</p>
<p>Aproveitei a dica e sentei-me. E disse:</p>
<p>— Mas faça-me o favor de não me confundir com Miguel Desidério. As fotos que quero tirar de você são artísticas, verdadeiramente artísticas, e não eróticas. Ou melhor, com uma lightíssima carga de erotismo, porque até vestida de freira você fica sedutora. Por falar nisso, como é que uma briosa evangélica como você foi capaz de se disfarçar de freira?</p>
<p>— Sou profissional, — disse Dona Mônica, com dignidade.</p>
<p>A velha e mofada desculpa de todo mundo — até de uma secretária da Agência Ajax — pra fazer e ter feito toda e qualquer merda na vida. Mudei de assunto:</p>
<p>— E que livralhada é essa que inundou a sala, Dona Mônica?</p>
<p>— Esses pacotes? — murmurou ela. — Preferia que você não tivesse perguntado.</p>
<p>— Agora já perguntei, — eu disse. — E faço absoluta questão de ser informado a respeito. Tenho direito de. Afinal, sou praticamente da família Ajax.</p>
<p>Esperei enquanto Dona Mônica hesitava três segundos. Depois ela disse:</p>
<p>— Uma das nossas publicações foi impressa com erros escabrosos. O autor mandou recolher a edição e ameaçou processar o Sr. Eylau se ele não fizer outra às custas da agência. Um tremendo prejuízo financeiro. Coitado do Sr. Eylau. Já tem tantos problemas e ainda por cima cai-lhe sobre a cabeça essa calamidade.</p>
<p>Calamidade, disse Dona Mônica. Calamidade, dissera Fernando Achiamé. A mesma palavra. Calamidade, calamidade, tudo calamidade. Calamidade no Instituto Histórico e Geográfico, calamidade na Agência Ajax de Produções Literárias. E, no meio de tanta calamidade, o pobre narrador autodiegético.</p>
<p>— Tem um exemplar aí pra eu ver? — perguntei.</p>
<p>Dona Mônica abriu a gaveta da mesa e extraiu de lá o exemplar de um livro, que passou às minhas mãos. Era um romance intitulado Regina, meu amor, e seu autor chamava-se Marcéu do Espírito Santo.</p>
<p>— Já vi a calamidade, — eu disse. — O nome do autor está escrito errado na capa.</p>
<p>— Como assim? — estranhou Dona Mônica.</p>
<p>— O nome dele não é Marcel, com &#8220;l&#8221;? — estranhei por minha vez.</p>
<p>— Não, é assim mesmo, — disse ela. — O nome dele reúne as palavras &#8220;mar&#8221; e &#8220;céu&#8221;. Achei lindo isso. Achei muito romântico.</p>
<p>— Então o que foi que aconteceu de tão grave na edição do livro? — perguntei.</p>
<p>— A personagem principal chamava-se Regina, — disse Dona Mônica, — mas havia também uma personagem secundária chamada Gina. Depois do livro editorado, pronto pra imprimir, o Sr. Eylau tomou a iniciativa de sugerir ao autor que não convinha ter duas personagens com nomes tão parecidos, e o autor concordou e decidiu mudar pra Zefa o nome da tal Gina. Aí o Sr. Eylau mandou Roderico, o editorador, fazer a mudança no arquivo. Isso é fácil de fazer no computador. Você usa os comandos &#8220;localizar&#8221; e &#8220;substituir&#8221;. No caso, localizar Gina e substituir por Zefa. Você pode substituir tudo de uma vez, se quiser, mas não é prudente. O computador é meio burrinho e pode mudar coisas que não é pra mudar. Só que Roderico, que é um irresponsável, usou o comando &#8220;substituir tudo&#8221; e deu no que deu. O texto impresso do romance está todo prejudicado.</p>
<p>Meu olho pediu-lhe que explicasse melhor. Ela disse:</p>
<p>— A palavra &#8220;virginal&#8221;, que aparece umas trinta vezes no texto, virou &#8220;virzefal&#8221;. &#8220;Página&#8221; virou &#8220;pázefa&#8221;. A expressão &#8220;imagina só&#8221;, que também aparece várias vezes, tornou-se &#8220;imazefa só&#8221;. E, o que é pior, o nome da personagem principal ficou Regina só na capa e na folha de rosto; no texto do livro, de fora a fora, virou Rezefa.</p>
<p>Dei uma folheada no livro. Era vero. À pázefa 64, logo na primeira linha, dei com uma frase estranha, aparentemente escrita numa língua híbrida de português e uraniano: &#8220;Rezefa, a linda zefasiana do rosto virzefal, estava apaixonada.&#8221;</p>
<p>— E o pior, — disse Dona Mônica, — é que o problema que deu origem à calamidade não foi resolvido. Se antes o livro tinha as personagens Gina e Regina, agora tem Zefa e Rezefa.</p>
<p>— O pior, — disse eu, — é saber que, com Gina e Regina ou com Zefa e Rezefa, o romance é a mesma boa merda. Uma nova edição não vai salvar a literatura da calamidade original. Ou devo dizer: orizefal?</p>
<p>— Você já leu o livro? — espantou-se Dona Mônica.</p>
<p>— E preciso? — repliquei. — Basta ler uma frase pra saber.</p>
<p>Telefone tocou, Dona Mônica atendeu. Era uma tal de Dona Amália. Pelo que pude deduzir das falas de Dona Mônica, Dona Amália insistia com ela pra fazer alguma coisa e Dona Mônica insistia em dizer que não podia, que não tinha interesse, que não ficava bem, afinal de contas, Dona Amália, eu tenho namorado. Teodomiro Reis. É detetive particular. Eu sei. Sei. Sei. Não, claro que não. Ham. Hum. Hein? Não. Sei. Mas, Dona Amália&#8230; Sei. Hum. Ham. Sei. Posso não, Dona Amália. Olha, Dona Amália, eu estou com um cliente aqui, preciso dar atenção. Depois eu ligo pra senhora. Boa tarde.</p>
<p>Dona Mônica desligou, olhou pra mim meio constrangida. Tentei adivinhar o que que Dona Amália queria que Dona Mônica fizesse. Minha fértil imaginação fez de Dona Amália uma alcoviteira que queria (no que eu lhe dava toda razão) contratar os serviços qualificados de Dona Mônica como prostituta de luxo. Por que outro motivo Dona Mônica invocaria o namorado como impedimento pra proposta de tal modo razoável e lucrativa? Dona Mônica, porém, parece que leu o meu pensamento e resolveu corrigi-lo:</p>
<p>— Dona Amália é uma velhinha que mora no mesmo conjunto que eu. Não regula muito bem. Botou na cabeça de me casar com o irmão dela e vive telefonando pra armar um encontro entre nós dois.</p>
<p>— E como é esse irmão dela? — perguntei. — Rico e bonito?</p>
<p>— Eu acho até que ele é um rapaz alegre, — disse Dona Mônica.</p>
<p>— Veado? — exclamei.</p>
<p>Ela acenou afirmativa com a cabeça. Depois disse:</p>
<p>— Que tonta que eu sou! O Sr. Eylau está sozinho esse tempo todo. O sujeito que devia vir às quatro não veio. Vou perguntar se ele quer receber você antes da hora.</p>
<p>Algo me disse que, por alguma razão misteriosa lá dela, Dona Mônica queria livrar-se de mim. Foi até à porta da sala do Sr. Eylau, bateu e entrou. Entrou pela metade: de onde eu estava podia ver-lhe o belíssimo perfil da bunda. Logo voltou inteira e fabulosa.</p>
<p>— Pode entrar, — disse.</p>
<p>Porfírio Eylau manda, eu que sou eu obedeço. Entrei. Algumas pilhas de pacotes de Regina, meu amor tinham chegado na enxurrada até seu gabinete, reduzindo-lhe as dimensões originais. Lá estava o velho agente sentado miúdo do outro lado da mesa; sua mesa e seu cabeção conservavam, no território abreviado, a enormidade de sempre. O Sr. Eylau usava o mesmo terno e o mesmo luto das outras vezes em que o vira. Desta vez, diante da tragédia que se abatera sobre a agência no caso Zefa-Rezefa, o luto até que fazia algum sentido.</p>
<div style="text-align: center;">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_4/">CONTINUA</a></div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_1/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continua)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VI. De adenóides e amígdalas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 19:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Naquela tarde — Não. Comecemos pela Prof. Álvara Fragosa. Dois quase exatos anos atrás, a professora Álvara Maria Fragosa[ 1 ] defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo, diante de uma banca de medalhões da Crítica Literária Nacional. A tese ostentava o título de A fantasmalização do morto em espectro e o silêncio [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Naquela tarde —</p>
<p>Não. Comecemos pela Prof. Álvara Fragosa.</p>
<p>Dois quase exatos anos atrás, a professora Álvara Maria <span id="GARI_RP1V">Fragosa</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP1" title="Professora adjunta do Departamento de Teoria Literária da Ufes."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo, diante de uma banca de medalhões da Crítica Literária Nacional. A tese ostentava o título de <i>A fantasmalização do morto em espectro e o silêncio intervalar, diferido no espacitempo, informado como sintaxe dos indecidíveis derridianos por meio de marcas iterativas no âmbito de um glossário intertextual, com base em obras de Luciano de Samósata, William Shakespeare, Machado de Assis e William Burroughs</i> e, título por título, um título como esse, por si só, já deveria ser suficiente para dar a alguém o título de doutor. Ao final da séance (que durou quatro horas) a professora se viu aplaudida de pé pelos quatro medalhões que compunham a banca e pelos cinco gatos pingados que compunham a platéia, aplauso que a levou a tão vulcânica erupção de soluços e lágrimas que deu origem a nova catadupa de palmas e pôs em moção um círculo vicioso: quanto mais chorava ela, tanto mais aplaudiam os circunstantes, de modo que já não saberia dizer quem porventura entrasse naquele momento se o aplauso se destinava à brilhante defesa de tese ou ao sísmico epílogo de lágrimas. Seja como for, esse, segundo confessou depois a já então doutora Dra. Álvara a uma amiga aqui em Vitória, foi o melhor e o mais feliz choro de toda a sua <span id="GARI_RP2V">vida.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP2" title="Cf. 'Vale de lágrimas', in Mickey, revista mensal de Walt Disney, n. 13, outubro de 1953, p. 2, São Paulo: Editora Abril. Cite-se a fala de Minnie: 'Obrigada, Mickey! Foi uma noite maravilhosa! O melhor choro de minha vida!'."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>Aprovada summa cum laude, a Dra. Álvara Fragosa zarpou a bordo do seu próprio Entusiasmo rumo à publicação da obra. A tanto, apesar de sua congênita modéstia, foi convencida pelos quatro cavaleiros da néo-nova crítica no jantar que a eles ofereceu após a <span id="GARI_RP3V">defesa.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP3" title="Que lhe custou — o jantar, não a defesa — a bagatela de quatrocentos e quinze reais e trinta e oito centavos."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> Pois a súmula da conversa desse jantar foi esta e só esta: que empreendimento intelectual de tamanha envergadura como A fantasmalização tinha de ser devidamente divulgado entre todos os estudiosos de crítica literária do país.</p>
<p>Isso fora dois anos antes. De volta a Vitória, fiel à confiança nela depositada pelos olímpicos medalhões, a Dra. Álvara enviou cópias da tese (quatrocentas páginas em entrelinha dupla) a dezesseis editoras, inclusive à da USP, e a treze medalhões que a pudessem apadrinhar com uma só palavra ao pé de um ouvido editorial ou até mesmo com o laurel de um bem aplicado prefácio. Nessa brincadeira gastou uma pequena fortuna, seja pra produzir as vinte e nove cópias xerográficas (a R$ 0,06 a página, preço especial pra documentos acima de cinqüenta páginas), seja pra remeter os vinte e nove pacotes via Sedex (a R$ 19,80 o pacote), mas pouquíssimo ou nada conseguiu de concreto além de três ou quatro mensagens eletrônicas acusando recebimento do material e prometendo leitura em breve. Numa das mensagens, assinada por um velho medalhão de Santa Catarina, o nome da professora doutora aparecia como Alvará Fragosa.</p>
<p>A Dra. Álvara, porém, não se permitiu esquecer o seu sonho. Ou melhor, seus bons colegas, que torciam todos contra ela, isto é, a favor de seu fracasso, é que não permitiram que esquecesse, cobrando-lhe notícias e relatórios do andamento da edição no momento do cafezinho de cada dia na sala nossa dos professores. Decidiu, portanto, dar uma banana (a expressão é minha e não dela) aos dezesseis insensíveis editores e aos treze relutantes padrinhos e custear ela mesma uma edição caprichada em Vitória, certa de que, uma vez impressa a obra, viriam — não pra ela, que era doce e humilde, mas pra tese dela, que não era nem uma coisa nem outra — a glória e o desagravo. Uma grande editora, sonhava, poderá mesmo interessar-se em fabricar uma segunda edição, e nesses momentos de sonho franzia o cenho e prometia-se que a nenhuma das dezesseis casas a cuja porta batera em vão a nenhuma delas daria o gostinho de publicar sua obra-prima.</p>
<p>Assim foi que a Dra. Álvara caiu nas mãos melhores impossível de Djalma Smee, da Bico de Lacre Editores. Ele a impressionou à primeira vista pela figura forte e varonil, pelo perfume de loção após barba, pelo terno de microfibra, pela voz de barítono (que, junto com sua figura, a fez lembrar do ator Howard Keel), pela beijoca que depositou nas costas da mão dela, pelas palavras de confiança e serenidade, pelas baforadas de charuto (que pediu licença pra acender) e por um esporro homérico que despejou, via telefone, sobre um sujeito que tratou por <span id="GARI_RP4V">Perereca,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP4" title="Talvez um descendente direto do histórico padre do mesmo nome."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> e que, pela conversa, nada tinha a ver com nada de bibliográfico mas sim com mecânica de automóveis. Impressionou-a, portanto, por tanta coisa que ela relevou (coisa difícil numa professora da área de Letras) os barbarismos cariocas que pontuam o discurso <span id="GARI_RP5V">dele.</span><sup><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP5" title="Ver exemplos mais adiante.">[ 5 ]</a></b></sup></p>
<p>A Dra. Álvara saiu da Bico de Lacre com Djalma Smee na cabeça e no coração, e com cheiro de tabaco no cabelo. Estava segura de ter confiado seu tesouro intelectual ao editor mais que certo, e ainda levava de lambujem, pra casa e pra cama, a fantasia de um possível, nunca se sabe, relacionamento amoroso com um homem que era, na cara e na voz, o próprio sósia de Howard Keel. Ressalve-se que esse meigo xodó pelo ator não significa que ela tivesse idade pra ter visto os filmes dele no cinema, pois nessa época (primeira metade dos anos cinqüenta) nem tinha sequer pensado em nascer. Vira-os, mas sim, em vídeo, retirados da seção de clássicos da locadora, porque uma de suas muitas paixões eram os românticos musicais da Metro (outra eram alcachofras empanadas). E, com a cabeça cheia de Djalma Smee como estava, na volta pra casa passou na sua locadora, a Videologia, ali mesmo em Santa Lúcia, o seu bairro, e, meio excitada, meio constrangida, locou uma cópia de <i>Ardida como </i><span id="GARI_RP6V"><i>pimenta</i>.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP6" title="Calamity Jane, 1953, produção da Warner Brothers, com Doris Day e Howard Keel nos papéis principais, direção de David Butler e trilha sonora de Sammy Fain e Paul Francis Webster."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a></p>
<p>A história da Dra. Álvara Fragosa, com alcachofras e tudo, já vai extensa demais. Cumpre dizer apenas que tal era a confiança dela em seu editor adquirido que, apesar do bruto susto telefônico que levou no dia seguinte ao inteirar-se do orçamento pra publicação de seu livro com o selo do passarinho de bico vermelho, logo se recuperou e, com voz firme, como se estivesse casando com aquele orçamento, disse a Djalma Smee que sim.</p>
<p>A Dra. Álvara não era rica; quarenta e cinco anos, divorciada (ainda que sem filhos), sujeita a pagar uma pensão alimentícia ao marido (que, no mercado informal, ganhava mais que ela), vivia do emprego que tinha na Ufes, e a publicação do livro lhe custaria o equivalente a cinco meses de salário. Aceitou o assalto, como tudo na vida, em confiança, fez um empréstimo na Caixa Econômica e, na cerimônia de assinatura do Contrato de Edição, pagou um gorducho sinal. Feito isso, aceitou um cappuccino e esperou engatar uma conversa mole com o seu editor, que lhe permitisse, inclusive, chegar aonde queria: a Howard Keel. O editor, porém, espiando a hora certa em seu relógio, lamentou sinceramente que uma audiência com a secretária de cultura lhe abreviasse o tempo disponível aquela manhã. Saiu a Dra. Álvara mais pobre e menos satisfeita e chamou Djalma Smee a secretária (não a de cultura, mas a dele próprio, que respondia pelo nome de Magnólia) e mandou incluir o nome da professora no índex das pessoas pra quem estaria, a partir de então, ou em viagem de negócios a Gotthaab, na Groenlândia, ou em reunião com a secretária de cultura do município, do estado, ou da universidade: nessa ordem. Djalma Smee tinha verdadeira fixação em secretárias de cultura, na doce ilusão de que seus seios fossem bojudas cornucópias de verbas e recursos e na perene esperança de muito mamar em cada um da meia dúzia <span id="GARI_RP7V">deles.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP7" title="Metaforicamente falando, é claro, porque o nosso Barrica babava-se todo é por ninfeta, e não consta que exista em lugar nenhum, nem mesmo em Gotthaab, na Groenlândia, uma secretária de cultura aquém dos quarenta. Aliás, foi também metaforicamente que Barrica, uma vez, contrariado em seus interesses pecuniários por uma dessas secretárias, uma senhora de quase sessent'anos, deixou escapar em público sua insatisfação dizendo: Eu vou foder com essa mulher! Isso porque tinha intenção de botar a boca no trombone da imprensa contra a senhora secretária. Vai logo então uma má língua, com a melhor das intenções, repetir as palavras de Djalma à secretária, que, surpresa, exclamou: Mas esse rapaz não sabe que eu sou casada?"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a></p>
<p>Não se pense, no entanto, que a medida de Djalma Smee de indexar a Dra. Álvara na sua lista negra telefônica significasse que pretendia rolar a edição do livro até o fim dos tempos. Se tomou essa medida foi só porque sentira na Dra. Álvara uma certa predisposição a se tornar uma chata do tipo &#8220;Como é que vai o nosso livro?&#8221; — no que estava muito enganado, porque o que ela só queria era conversar com ele sobre Howard Keel e, quem sabe, convidá-lo pra verem juntos <i>Ardida como pimenta</i>. Mas a Bico de Lacre não enrola os seus autores, pois não interessa a Djalma Smee garfar apenas o gorducho sinal mas toda a grana do obeso orçamento. Tanto assim que no mesmo dia passou os originais da famosa tese — que, na Bico de Lacre, ficou conhecida pelo codinome de &#8220;livro dos fantasmas&#8221; —, às mãos da secretária que, por sua vez, os passou às mãos do revisor oficial da casa editora, isto é, às mãos de mim.</p>
<p>Nem seria necessário, a rigor, uma revisão do texto impecável da professora, mas a casa editora não abria mão dessa rubrica de despesa, até porque 60% do valor cobrado sugava-os o bolso voraz de Djalma Smee. De qualquer modo, dei conta do meu trabalho: li a tese da professora e fiz alguns pequenos reparos — do tipo trocar aspas duplas por aspas simples em citações no interior de citações e corrigir uma que outra falha de digitação — sem, no entanto, entender muito bem o que estava acontecendo ali naquele texto. Sim, o texto não fez sentido nenhum pra mim, fato que atribuí ao elevado grau de inteligência crítica e teórica da professora, já que não podia contrapor o meu pobre e rasteiro estranhamento ao erudito aplauso dos quatro medalhões da banca nem ao diploma de doutorado conferido por uma universidade como a USP. Assim, li o cipoal acadêmico munido de reverência e respeito e até quase bati palmas pra frases como esta: &#8220;O múltiplo é a manifestação inseparável, a metamorfose essencial, o sintoma constante do único. O múltiplo é a afirmação do um, o devir, a afirmação do ser. A afirmação do devir é, ela própria, o um; a afirmação múltipla é a maneira pela qual o um se afirma.&#8221; E como esta: &#8220;Tornar a vir é o ser do que devém. Tornar a vir é o ser do próprio devir, o ser que se afirma no devir. O eterno retorno como lei do devir, como justiça e como ser.&#8221; Pérolas da néo-nova crítica literária.</p>
<p>Naquela tarde (agora sim e finalmente) fui à Bico de Lacre devolver o texto da professora devidamente revisto e incompreendido. A Bico de Lacre, como se sabe, é o braço editorial da Desentupidora e Higienizadora Clean, e divide com esta, irmãmente, as suas dependências administrativas. Djalma Smee atende, na mesma mesa, aqueles clientes interessados em limpar fossas e esgotos e também aqueles fissurados por colocar no mundo obras intelectuais que sem elas (na opinião exclusiva de seus <span id="GARI_RP8V">autores</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP8" title="No que se assemelham àqueles candidatos que, nas eleições, só recebem um voto."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> ) o mundo estaria irremediavelmente empobrecido. Lembrando-me de <span id="GARI_RP9V">algumas</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP9" title="A vasta maioria."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> dessas obras, todas revistas por mim, vejo que, ao contrário do que pode parecer, não é tão descabida assim a associação entre desentupidora e editora: a diferença está em que a desentupidora trata merda como merda e a editora trata merda como literatura. Já administrativamente o que as distingue é que, ao atender os clientes literários, Djalma Smee maloca a plaqueta em que seu nome aparece como diretor gerente e a substitui por outra com os dizeres gerente editorial.</p>
<p>Mas <i>andiamo</i>, como dizem os etruscos. O endereço de ambas e uma só firma é ali no bairro do Horto, ao pé de um morro, não muito longe mas também não muito perto da horta de gráficas que se situa em Gurigica. A rua é tranqüila (até mesmo os cadáveres que de vez em quando rolam lá de cima do morro são discretos e silenciosos) e (coisa rara em Vitória, cidade sedenta de sol) arborizada. Toquei a campainha, troquei algumas palavras com uma voz emparedada e, como por milagre, a porta abriu-se com um estalo de chibata, acionada por um dedo de longo alcance. Galgando os alguns muitos degraus a pique, corri a mão pelo corrimão de madeira, e não demorou muito cheguei ao patamar administrativo da empresa. Dona Magnólia veio receber-me com um sorriso estranho, estranho porque sorriso. Quando foi que vi essa megera sorrir antes pra mim? Vejam: vai tratar-me até de danadinho:</p>
<p>— Você caiu do céu, seu danadinho. Já liguei não sei quantas vezes pra sua casa. Dr. Djalma está louco pra falar com você.</p>
<p>Djalma Smee não é doutor a não ser pras negas dele, já que não defendeu nenhuma tese de teoria literária, ou do que seja, como fez, galhardamente, a Dra. Álvara Fragosa. Doutor ou não, vi-o ver-me através do vidro do aquário que lhe serve de gabinete e vi-o pespegar na perna uma palmada de contentamento, após o quê chamou-me com largos acenos de mão e charuto. Entrei no aquário. Djalma apertou-me a mão. Mandou-me sentar.</p>
<p>— Como é que tu <span id="GARI_RP10V">adivinhou</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP10" title="Djalma Smee fez um curso de seis meses na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e uma de suas aquisições no Rio foi essa concordância verbal tipicamente carioca — outra foi a esposa, uma loura platinada do Leme que o ajuda a manter até hoje essa concordância."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> que eu estava querendo falar contigo? Magnólia está ligando direto pra tua casa desde meio-dia.</p>
<p>— Meio-dia eu saí pra almoçar e não voltei em casa, — eu disse.</p>
<p>— Tu precisa é de um celular, — aconselhou ele, — pra ficar acessível quando a gente precisa de ti. Vou te dar um de presente de Natal.</p>
<p>— No momento o que eu quero, — disse eu, — são os meus honorários de revisor.</p>
<p>E depositei sobre a mesa o calhamaço em que se encarnava a tese da Dra. Álvara Fragosa.</p>
<p>— Já? — assombrou-se Djalma. — Tu é fera, hein, <span id="GARI_RP11V">cara?</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP11" title="Os leitores relevem o merchandising em benefício próprio."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> E que que tu achou? Diz pra mim.</p>
<p>— É do cacete, — disse eu pra ele, — só que não entendi porra nenhuma.</p>
<p>— É exatamente isso que eu quero pra Bico de Lacre, — exultou ele: — o texto indevassável. E está cheio de penduricalhos, não está?</p>
<p>— Penduricalhos? — estranhei.</p>
<p>— Notas de rodapé, — traduziu ele, soltando uma baforada de fumaça.</p>
<p>— Às pencas, — disse eu.</p>
<p>— Jóia, — disse ele. — São textos assim que impõem respeito à comunidade acadêmico-científica.&nbsp;</p>
<p>— E quanto a isto, Djalma? — perguntei, coçando o polegar com o indicador.</p>
<p>Nesse ponto — em pagar o que deve, pelo menos a mim — tenho de reconhecer que Djalma nunca nega fogo, e não negou desta vez:</p>
<p>— Vou falar com Magnólia pra fazer teu cheque, — disse ele, com o charuto plantado em riste entre os dentes.</p>
<p>Falai no mal, preparai o pau. A secretária bateu à porta e meteu dentro do aquário meio palmo de cara.</p>
<p>— O pessoal chegaram, — disse ela, empregando com muita propriedade uma concordância ideológica.</p>
<p>— Manda entrar, — disse Djalma, e levantou-se pra receber os visitantes.</p>
<p>— Quer que eu saia? — perguntei, humilde, levantando-me também.</p>
<p>— Não, não, — disse ele. — Tu é a pessoa que eu quero comigo nesta reunião.</p>
<p>Entraram no gabinete três homens e uma mulher, que Djalma recebeu com uma overdose de cordialidade. A mulher era jovem e estava visivelmente ou grávida ou ascítica, ou seja, ou esperando neném ou com barriga <span id="GARI_RP12V">d&#8217;água.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP12" title="É muito tênue a diferença entre um caso e outro. Na Vitória dos anos trinta, por exemplo, uma certa Velha Chica passava por sofrer de ascite quando o que a afligia era na verdade uma gravidez eterna (cf. Cantáridas e outros poemas fesceninos, de Paulo Vellozo et alii, poemas LI, LXII e LXVII e respectivos comentários às p. 234, 238 e 240)."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a> Dos três homens, o primeiro era velho, franzino e anguloso, e bem podia ser o pai da moça. O segundo era grande, sisudo e faraônico, e bem podia ser o seu irmão. O terceiro, pra minha surpresa, era Fernando Achiamé, um dos sócios eméritos do Clube das Terças-feiras: era o único que trazia chapéu na <span id="GARI_RP13V">mão,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP13" title="Na verdade um boné propedêutico pra proteger do sol o couro — no seu caso impropriamente chamado — cabeludo."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> e a ele bem podia a moça ter dado a mão ou algo mais: e, sendo ou não sendo ele o pai da criança, aproveitemos pra concluir que ela não estava ascítica mas grávida.</p>
<p>Ao apresentar-me aos recém-chegados, Djalma fez questão de carregar nas tintas. Longe de ser pouca porcaria, eu era, pra todos os efeitos, chefe da equipe de revisão da editora, formado em Letras, poeta com livro publicado, pesquisador de naufrágios de <span id="GARI_RP14V">navios,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP14" title="De onde terá ele tirado essa idéia?"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> e premiado em vários concursos promovidos por instituições culturais de todo o Brasil. Os quatro nomearam, um a um, os seus nomes, e Djalma repetiu-os, um a um, pra mim como se lhe coubesse a responsabilidade de homologá-los, e depois apresentou os visitantes em conjunto como membros do conselho editorial da Academia Pansófica do Espírito Santo.</p>
<p>— Instituto Pansófico, — corrigiu Fernando.</p>
<p>— Sinto-me honrado, — disse Djalma, ignorando a correção e, por conseguinte, o erro, — com a vossa presença em minha toca.</p>
<p>Dito o quê, dirigiu-se vocífero à secretária que, empedrada à porta, esperava ordens:</p>
<p>— Liga pra Miguel Desidério. Diz que só está faltando ele. E manda trazer café e água.</p>
<p>Há no aquário de Djalma Smee uma mesa de reunião com meia dúzia de distintas cadeiras, distintas tanto porque todas têm aparência respeitável como porque nenhuma delas tem qualquer parentesco com nenhuma <span id="GARI_RP15V">outra.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP15" title="Djalma arrematou essas cadeiras, bem barato, na loja de móveis do Rabinowitz, onde eram vendidas como pontas de estoque."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a> O editor da Bico de Lacre abriu sobre as asas de nós cinco os vastos tentáculos e conduziu-nos até à mesa. Ali cada qual sentou na cadeira que lhe coube; a uma e outra cabeceira sentaram-se Djalma e o irmão da moça. Djalma abriu então um largo sorriso editorial nos lábios e disse:</p>
<p>— Que calor que está fazendo lá fora, hein? Diz pra mim. Se importam de esperar um pouquinho? Desidério já foi chamado. Trabalha aqui perto. Não demora. Não conheço quem faça melhores projetos gráficos que ele em Vitória. Em Vitória? No sudeste inteiro, e quem fala do melhor do sudeste fala do melhor do país. Não é não? Diz pra mim.</p>
<p>— Vai demorar muito? — perguntou Fernando.</p>
<p>— Nada, — respondeu Djalma. — Cinco, dez minutos. Enquanto isso, vamos tomar um café.</p>
<p>— O senhor poderia apagar o charuto? — disse a Djalma o irmão da moça. — Peço este obséquio em atenção ao estado interessante de Terezinha.</p>
<p>— Mil perdões, — disse Djalma, enterrando o charuto editorial na tumba de um cinzeiro.</p>
<p>Chegou a servente das empresas geminadas trazendo café e água. Era uma senhora franzina de seus mais pra sessenta que pra cinqüenta anos, de cara amarrada, que bem podia ser esposa do sócio velhinho e, por conseguinte, mãe da moça grávida. Djalma achou de bom tom mostrar-se democrático:</p>
<p>— Dona Leonarda está conosco há quantos anos, Dona Leonarda? Quinze? Diz pra mim.</p>
<p>— Fora os sem carteira, — disse Dona Leonarda.</p>
<p>— Ah! Que senso de humor! — exclamou Djalma. — E ainda faz o melhor café forte de Vitória. Tem gente de alto quilate que vem aqui, eu penso que é por minha causa, que nada, é pra tomar o café desta moça.</p>
<p>— A senhora é daonde? — perguntou Fernando Achiamé.</p>
<p>— Sou de Colatina, — respondeu Dona Leonarda.</p>
<p>— Eu também! — exclamou ele, deslumbrado ante o feliz acaso. — Então a senhora é minha conterrânea!</p>
<p>— Eu não, credo! — disse ela. — Nem conheço o senhor. Olha essas liberdades comigo, moço. Sou pobre mas sou honesta.</p>
<p>— Que senso de humor! — riu-se Djalma. — Que faria eu sem essa mulher? Diz pra mim.</p>
<p>Dona Leonarda caiu fora sem ter pronunciado um só sorriso. Calamo-nos pra beber a água e depois pra adoçar o café. Colherinhas de plástico fizeram um vôo rasante do açucareiro às xícaras, enquanto a moça grávida pingava no seu café algumas gotas de adoçante. O meu fiz questão de, prevenido, açucarar bem açucarado, que já conheço o café forte de Dona Leonarda. Djalma tomou o dele puro e preto, num só gole, e levantou-se.</p>
<p>— Vão me desculpar um minuto. Aproveitem pra pôr meu chefe de revisão a par do problema que aflige a nobre Academia.</p>
<p>Aí fugiu pra sua mesa e pediu uma ligação, que aguardou com um charuto fresco metido — apagado — no canto da boca. Cá entre nós, Fernando tomou a palavra. Disse que estavam ali, ele e os outros, pra entregar à Bico de Lacre a edição da Sursum Prorsum, a revista do Instituto Pansófico.</p>
<p>Aproveitei a ausência de Djalma pra perguntar, baixinho, o que significava a palavra &#8220;pansófico&#8221;.</p>
<p>— Pansófico, — explanou Fernando, — é o adjetivo que corresponde a pansofia, palavra grega que significa ciência universal. E <i>Sursum Prorsum</i>, o nome da nossa revista, significa, em latim, para cima e para diante. É, modéstia à parte, o periódico mais antigo do Estado em circulação. O primeiro número saiu em 1912, com colaborações de Rui Barbosa, Austragésilo de Ataíde, Pessanha Póvoa, Dom Fernando Monteiro, meu xará, e muitos mais.</p>
<p>— É mais antiga que a <i>Revista do Instituto Histórico</i>, — disse o irmão da moça.</p>
<p>— É mais antiga que a <i>Vida Capichaba</i>, — repetiu o sócio velhinho, levantando um dedo idoso e caloso.</p>
<p>— A <i>Vida Capichaba</i> não conta, — resmungou o irmão da moça: — parou de circular há mais de trinta anos.</p>
<p>— Ah é? — disse o sócio velhinho. — Bem que eu não tenho visto nas bancas.</p>
<p>— É mais antiga que <i>A Gazeta</i>, — disse Fernando, — que circula desde 1928.</p>
<p>— É verdade que <i>A Gazeta</i> é um jornal diário, — disse a moça, — e a <i>Sursum </i>teve ano que não saiu nenhuma edição dela, mas, ressalvando isso, não se pode negar que tem mais tempo de longevidade.&nbsp;</p>
<p>— Ultimamente temos publicado sem falha um número por ano, — disse Fernando. — O problema é que a qualidade gráfica e editorial sempre deixou muito a desejar, e o último número foi uma verdadeira calamidade. Por isso o atual conselho, do qual tenho a honra de fazer parte, resolveu dar uma guinada de trezentos e sessenta <span id="GARI_RP16V">graus</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP16" title="Ou seja, pra voltar ao mesmo ponto?"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> e reformular a revista como um todo, sobretudo nos itens grafismo e revisão.</p>
<p>— Deu tudo errado na revisão do último número, — suspirou a moça.</p>
<p>— Grum, — resmungou o irmão dela.</p>
<p>— Só no meu artigo, — disse a irmã dele, — contei oitenta e sete erros diversos, principalmente de ortografia. Os acentos fugiram todos das palavras certas e foram parar nas palavras erradas. Por exemplo: todos os verbos no passado receberam chapeuzinho: estâmos, recebêmos, colocâmos.</p>
<p>Ao enunciar cada palavra a moça fazia no ar, com o dedinho, o sinal de circunflexo.</p>
<p>— Quem foi o responsável pela revisão? — perguntei, com curiosidade meramente profissional. E estava tranqüilo: eu que não fora.</p>
<p>Minha pergunta fez pipocar na mesa um silêncio pesado.</p>
<p>— Que que ele perguntou? — perguntou o sócio velhinho.</p>
<p>— Ele perguntou, — disse o irmão da moça, — quem foi o responsável pela revisão desse número da revista.</p>
<p>— Ah! — exclamou o velhinho. — E não foi você, Epitácio? Me disseram que foi você.</p>
<p>— E fui eu, sim, — disse Epitácio. — E quero ver quem tem coragem de dizer que não cumpri diligentemente minha tarefa. Passei oito dias lendo as provas da revista e anotando as correções à margem. E afirmo que havia correções a dar com o pau. Fiz o que me competia e entreguei as provas ao nosso presidente. O que aconteceu depois não é de minha responsabilidade.</p>
<p>— E o que foi que aconteceu? — perguntei.</p>
<p>— Pelo que sei, — disse Fernando, — o empregado da gráfica teve dificuldade pra decifrar as correções que tinha de fazer, porque a letra de Epitácio são uns garranchos ilegíveis.</p>
<p>— Isso é desculpa dele, — disse Epitácio. — O sujeito é um preguiçoso safado. Eu falei isso pra ele. Abri a esmo as provas da <i>Sursum </i>no nariz dele e mostrei uma das minhas correções. Olha o que eu escrevi aqui: Almanaque do <i>Tico-tico</i>. Você corrigiu? Não. Do jeito que estava, ficou.</p>
<p>— E como é que estava? — perguntei.</p>
<p>— Almanaque do <i>Reco-reco</i>, — disse Epitácio. — A autora do texto confundiu <i>Tico-tico</i> com <i>Reco-reco</i> porque a revista tinha um trio de personagens que se chamavam Reco-reco, Bolão e Azeitona. Mas eu consertei. Consertei e não adiantou nada. Tá lá: Almanaque do <i>Reco-reco</i>. E o sujeito teve o desplante de dizer na minha cara que eu tinha corrigido <i>Reco-reco</i> pra <i>Reco-reco</i>, quando estava lá, claramente, <i>Tico-tico</i>.</p>
<p>— Logo você, Epitácio, — disse Fernando, — que até escreveu uma crônica sobre o Almanaque do <i>Tico-tico</i>, aliás belíssima.</p>
<p>— Pois então, — disse Epitácio.</p>
<p>— Então a revista saiu cheia de erros, — disse eu.</p>
<p>— Cheíssima, — disse Fernando. — A única coisa que saiu correta foram uns poemas em polonês que Mieczyslaw levou pra revista e ninguém teve coragem de <span id="GARI_RP17V">recusar.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP17" title="Trata-se de texto bilíngüe (polonês e português) de quatro poemas de Ludmila Szczecinska, presidente da Academia de Letras de Czestochowa, traduzidos e comentados por Mieczyslaw Lelewel."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a></p>
<p>— Esses eu nem olhei, — disse Epitácio. — Não sei polonês&#8230; O raio foi que um dia aí me telefonou um gaiato perguntando quanto é que eu cobrava pra fazer a revisão de um livro em polonês. Quando entendi que era uma gozação e já ia mandar o sujeito praquele lugar, ele desligou.</p>
<p>— Deve ter sido alguém do próprio Instituto, — disse Fernando, com um sorriso tão deliciado que logo desconfiei ter sido ele mesmo o autor do trote.</p>
<p>— A revista do Instituto Pansófico também publica poesia? — estranhei.</p>
<p>— Sim, nós temos uma seção chamada &#8220;A poesia é necessária,&#8221; — disse o pai da moça.</p>
<p>— Isso também vamos mudar, — replicou Fernando. — A poesia não será mais necessária, pelo menos na nossa revista. Não tenho nada contra a poesia, também eu cometo meus <span id="GARI_RP18V">versos,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP18" title="A obra incerta, de Fernando Achiamé, apresentação de Reinaldo Santos Neves, Vitória: Florecultura, 2000."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a> se quiser posso até recitar alguns aqui, mas o Instituto não pode descarrilar de sua linha pansófica. Teve um número aí que tinha mais literatura que ciência. E, cá pra nós, uma literatura muito da chinfrim ainda por cima. O Instituto estava perdendo a credibilidade. Mas não importa. Daqui pra frente tudo vai ser diferente.</p>
<p>— Você tem que aprender a ser gente, — cantou uma voz. Era Miguel Desidério que vinha entrando aquário adentro. — O seu orgulho não vale nada, nada!</p>
<p>— Oi, Miguel, — disse Fernando, com um sorriso. É amigo de Miguel? Quem diria.</p>
<p>— Ei, Miguel, — disse eu, não querendo deixar por menos: também eu sou amigo do bruto.</p>
<p>Miguel chegava do jeito desleixado como gosta de andar, com blusa de malha, bermuda jeans e sandálias de borracha, e uma sacola de supermercado cheia de tudo que precisa pra enfrentar o dia, inclusive alguns exemplares de seu mais recente livro de <span id="GARI_RP19V">poemas,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP19" title="Cupim, de Miguel Desidério, apresentação de Alice B. Tocas, Vitória: Florecultura, 2ª edição, 2001."><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a> que costuma distribuir como isca a toda e qualquer criatura do sexo feminino que encontre pelo caminho. À vontade em qualquer espaço, Miguel veio sentar-se à cabeceira da mesa, no lugar deixado vago por Djalma: muito justo: quem foi ao convento perdeu o <span id="GARI_RP20V">assento.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP20" title="Cf. capítulo 13 da primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a> Foi então logo se apresentando à moça, sentadinha à sua esquerda, e apertou-lhe a mão. Depois apertou também a mão da família toda: do pai e do irmão e daquele a quem a moça deu a <span id="GARI_RP21V">mão.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP21" title="Ou talvez algo mais que a mão."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a></p>
<p>Djalma Smee voltou do convento pra mesa trazendo nas mãos uma sétima cadeira, e abriu espaço pra ela e pra si ao lado de Miguel: preferia dividir com outro o império da cabeceira a perdê-lo. A seguir pigarreou. Bem, agora estamos todos aqui, disse ele, expressando o necessário óbvio. Aí começou, oficialmente, a reunião pra redenção editorial da revista do Instituto Pansófico do Espírito Santo.&nbsp;</p>
<div style="text-align: center;">
*&nbsp;</div>
<p>
Uma hora depois estava terminada a reunião. Nenhum dos quatro representantes do conselho editorial do Instituto resistiu à avalanche de esmeradas publicações que se derramou sobre a mesa, todas elas com projeto gráfico creditado ao fino gosto de Miguel Desidério e a inequívoca marca de qualidade editorial representada pelo passarinho de bico vermelho. Não havia ali, é verdade, nenhum texto que fizesse justiça à capa primorosa, ao caprichoso projeto gráfico ou ao sublime logotipo ornitológico: nem o robusto <i>Valor reconhecido</i>, que continha nada mais nada menos que o curriculum vitae do professor Nicanor Dias dos Santos, <span id="GARI_RP22V">Ph. D.,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP22" title="Colega da Dra. Álvara no Departamento de Teoria Literária da Ufes."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a> nem tampouco o livro de poemas <i>Rebentos da minha alma</i>, do desembargador Átila, o Huno, de Oliveira, nem mesmo a profunda filosofia religiosa de <i>Jesusismo</i>, de um iluminado garçom que vendeu a casa pra pagar a edição. Mas todos esses volumes contribuíram pro resultado final da reunião: a Bico de Lacre assumiu formalmente o controle editorial da <i>Sursum Prorsum</i>, com Desidério responsável pelo projeto gráfico e editoração e este narrador, pela revisão dos textos.&nbsp;</p>
<p>— À exceção, — frisei, cedendo à tentação do gracejo, — de poemas em polonês.</p>
<p>— Desses Epitácio cuida, — acrescentou Fernando.</p>
<p>— Seu filho da mãe, — disse Epitácio, mas rindo.</p>
<p>A reunião levantou-se pras despedidas. Desidério encostou num canto a moça grávida e passou-lhe, num gesto de mágica, um exemplar de seu Cupim. Certamente havia inserido ali uma daquelas suas famigeradas dedicatórias, feitas de caso pensado pra seduzir ainda que até mesmo a mais inflexível das madres superioras de convento de carmelitas descalças.</p>
<p>— Telefona pra mim e diz o que achou, — disse ele, com jeito modesto, como se sua auto-estima de poeta dependesse do veredicto daquela leitora em especial.</p>
<p>Saíram do aquário os sócios pansóficos do Instituto. Ficamos Desidério e eu, que Djalma queria dar-nos ainda uma palavrinha.</p>
<p>— Capricho, hein, capricho! — disse ele. — Essa revista vai nos dar prestígio no meio acadêmico-científico de Vitória. Tudo bem publicar umas merdas como essa — e deu um chega-pra-lá no exemplar do Valor reconhecido, do professor Nicanor Dias dos Santos, Ph. D., —, que ninguém é de ferro, mas o que dá prestígio é publicação científica. Não é não? Diz pra mim. E além disso o dinheiro entra da mesma maneira.</p>
<p>E como. O orçamento apresentado por Djalma Smee era estratosférico. Só o projeto gráfico e editoração de Miguel Desidério ficava a preço de artista plástico consagrado. A minha revisãozinha besta também não ficava muito atrás, uma vez que, como propagara o editor, seriam feitas três revisões de provas e uma revisão de vegetais, e por mais de um revisor, porque, explicou, há que haver um rodízio de revisores porque revisor cansa do texto e texto cansa do revisor. Fez questão de assinalar que não há livro, nem mesmo da Bico de Lacre, sem erro de revisão, porque perfeito só Deus, mas garantiu que a sua equipe de revisores daria um tratamento de primeira aos textos da revista, e nisso empenharia sua barba, se a tivesse.</p>
<p>— Qualidade gráfica e conteúdo intelectual, — disse Djalma. — Com a revista dos pansóficos e a tese da Dra. Álvara inaugura-se uma nova fase pra Bico de Lacre. Não me vão cagar no pau, hein? Diz pra mim.</p>
<p>E despediu-nos. Fiz uma escala na Dona Magnólia pra embolsar meu cheque. Depois descemos, nós da equipe técnica da revista do Instituto, até sermos postos na rua tranqüila e arborizada ali do Horto.&nbsp;</p>
<p>— Vamos naquele bar que eu quero comer alguma coisa, — disse Desidério.</p>
<p>Havia um boteco na esquina de uma ladeira que sobe morro acima. Havia alguns salgados tristonhos na vitrine do balcão. Era preciso coragem pra encarar qualquer um deles. Desidério tinha toda a coragem necessária. Pediu uma coxinha.</p>
<p>— Quer uma? — perguntou.</p>
<p>— Não, obrigado, — respondi.</p>
<p>Desidério pediu também uma guaraná. Sentamo-nos a uma mesa esquálida — filha única de mãe solteira — na calçada. Ele deu uma mordida na coxinha e retirou de dentro da sacola de supermercado um desses pequenos álbuns de fotografias que as reveladoras dão de brinde aos clientes.</p>
<p>— Olha só, — disse ele.</p>
<p>Olhei mas não só: olhei e perscrutei cada foto. Era o ensaio fotográfico de uma moçoila morena que, nuazinha em pêlo, mostrava, em corpo esguio, um sorriso carnudo e uma carnuda xota como raramente vi outros tão que tais.</p>
<p>— Onde você descobriu essa figura?</p>
<p>— Gostou? — Desidério lambeu dos beiços alguns átomos de frango.</p>
<p>— Se gostei? — exclamei. — Miguel, aposto que nunca vi lábios tão sensuais assim antes.</p>
<p>— Nome dela é Hipoteneuza, — disse Desidério, — mas gosta que chamem de Neuza. Achei na rua. Você não imagina as jóias que estão aí dando sopa na sarjeta.</p>
<p>Desidério tem dessas coisas. Descobre no olho das ruas modelos fotográficos em bruto, leva pra um motel, dá-lhes um bom banho, ensina-lhes algumas poses <span id="GARI_RP23V">eróticas,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP23" title="A natureza das poses depende da modelo. As poses da moça Hipoteneuza caem na categoria (pra usar a nomenclatura do próprio artista) pornô naïf."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a> fotografa e depois come. Reveladas as fotos, carrega pra cima e pra baixo na sacola de supermercado pra mostrar aos amigos.</p>
<p>— Tá precisando de emprego, — disse ele. — Tem emprego pra ela não?</p>
<p>— Essa moça já nasceu com emprego, — disse eu. — Nasceu pra dar. Que que ela está esperando? E que que você está esperando pra ser o proxeneta, quer dizer, o empresário dela? O book já está aí pronto.</p>
<p>— Tô falando sério, — disse ele. — Ela tem uma filha.</p>
<p>— Tenho emprego não, — disse eu. — Por que não pediu a Barrica?</p>
<p>— Barrica não, — disse ele. — Não confio.</p>
<p>— Então pede ao pessoal do Instituto Pansófico, — disse eu.</p>
<p>Ele sorriu.</p>
<p>— Gostei daquela Terezinha, — disse. — Existem duas coisas numa mulher que me deixam de água na boca, e uma delas é gravidez.</p>
<p>— Você é um pervertido, — disse eu. — E qual é a outra?</p>
<p>— Aparelho nos dentes, — disse ele.</p>
<p>— Você é um tarado, — disse eu.</p>
<p>Desidério deu mais uma dentada na coxinha e tomou mais um gole de <span id="GARI_RP24V">guaraná.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP24" title="O investimento moralizante não é, contudo, nem necessário nem suficientemente geral: ele se vê amiúde substituído por um investimento estetizante, por exemplo, ou distribuído não apenas pelas duas dêixis opostas, mas por termos mais numerosos do quadrado semiótico."><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a></p>
<p>— Quanto à tal da Terezinha, — eu disse, — não está só grávida, está casada. Não viu a aliança na mão dela não?</p>
<p>— Também adoro mulher casada, — disse ele. — Estou até comendo uma. Se eu te disser quem é, você vai levar um susto. É mulher de amigo.</p>
<p>A última frase foi sussurrada com todos os requintes de confidência ao meu ouvido.</p>
<p>— Então não me diz, — disse eu. — Não quero saber.</p>
<p>Nesse ponto sou absolutamente leal. Mulher de amigo pra mim é homem, como se diz. Já fui cantado por mulher de amigo, e mulher gostosa ainda por cima, e declinei a cantada com absoluta convicção, embora tenha tomado um puta esporro do meu pau <span id="GARI_RP25V">depois.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP25" title="O problema da veridicção ultrapassa sobremaneira o quadro da estrutura atuacional."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a></p>
<p>— Comi essa mulher na semana passada pela primeira vez, — disse ele. — Uma belezura. Deixa eu te dizer quem é.</p>
<p>— Não quero saber, — repeti.</p>
<p>— Só as iniciais, — insistiu ele.</p>
<p>— Não, — disse eu.</p>
<p>— Então lê o poema que eu fiz pra ela, — disse ele.</p>
<p>Tirou uma pasta de dentro da sacola e, de dentro da pasta, uma folha de <span id="GARI_RP26V">papel.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP26" title="O lexema é uma organização sêmica virtual que, com raras exceções (quando seja mono-semêmico), quase nunca se realiza, tal como realmente é, no discurso manifesto."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a> Eis o poema que jazia ali:</p>
<p>Não é pra menos, eu que o diga, amada:<br />
também pudera, e olhe lá, agora<br />
em ponto, tão bonita que, além<br />
do mais, sem mais tardar, vamos, venhamos.<br />
Há quanto tempo é como queiras. Psiu.<br />
Antes, porém, depois. Se for o caso,<br />
deixo de nove às vinte e quatro horas,<br />
e pelo sim se for o que dirás?<br />
Há que, tal qual, favor não soletrar,<br />
porque não há por quê, nem há de quê,<br />
e o poema se faz sem ter em vista<br />
senão coisa com coisa. E tanto faz<br />
assim como como como assim,<br />
dou-lhe uma e dou-lhe duas e fim.</p>
<p>— Que que você achou? — perguntou ele.</p>
<p>Respondi no chofre:</p>
<p>— Achei indecidivelmente conceitual e metafórico, organizador e desestruturante, filosófico e poético.</p>
<p>Ele releu o poema, por sua vez, enquanto mastigava a derradeira lasca de coxinha. Depois concordou:<br />
<br />
— Acho que você tem razão. De qualquer forma, nossa amiga, a mulher de nosso amigo, ficou extasiada quando leu. Agora lê isso aqui.</p>
<p>E me impingiu outra folha de papel com outro poema nela. Eis o que li:</p>
<p>Todo cuidado é pouco, Jacqueline,<br />
agora que te vi, agora que assisti<br />
você sorrir, que admirado admirei<br />
a sombra do teu corpo esguio e belo,<br />
e passei necessidade de tocar<br />
as tuas mãos, e os lábios, e os cabelos,<br />
todo cuidado é pouco, porque basta<br />
um só deslize, um triz, uma fagulha,<br />
e apaixonado estarei até o pescoço<br />
por você. E aí? Que terrível destino<br />
me espera, prisioneiro em tuas mãos?<br />
Melhor me prevenir enquanto é cedo:<br />
fica o poema contigo de refém<br />
e eu fico livre de ti e passo bem.</p>
<p>— E aí? Que que achou? — perguntou o poeta.</p>
<p>Respondi com a maior sinceridade:</p>
<p>— Achei um tanto constativo e performativo, mas a textualidade podia ser mais velada, mais heterotanatobiográfica. Porque, você sabe, não há indecidibilidade nem deslocamento do texto metafísico sem a incorporação de uma película mortífera ao tecido textual.</p>
<p>— É? — disse Desidério, meio decepcionado. — Mas essa é uma primeira versão. Vou ver se reescrevo o poema de acordo com isso aí que você disse.&nbsp;</p>
<p>— Mas quem é Jacqueline? — perguntei.</p>
<p>— Jacqueline Paganini, — disse Desidério.</p>
<p>— Da tevê? — exclamei, incrédulo.</p>
<p>— A própria, — disse Desidério. — Telefonou me convidando pra ir no programa dela hoje à noite falar de poesia. E acho que ela me dá ponto. Olha o que estou dizendo: seu amigo ainda vai acabar comendo essa musa televisiva.</p>
<p>Jacqueline Paganini é um fenômeno da televisão local. A porra da mulher tem trinta anos, parece que tem vinte, é linda pra cacete, desimpedida, desembaraçada, e tem o dom de sorrir o sorriso mais bonito de Vitória. Todos os homens (e quem sabe algumas mulheres também) que comparecem ao seu programa fatalmente acabam por cantá-la até mesmo diante das câmeras. Não será Miguel Desidério que fará <span id="GARI_RP27V">diferente.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP27" title="Pode-se dizer que, no caso da pluriisotopia, uma figura única inicial dá lugar a desenvolvimentos de significação superpostos num só discurso."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a></p>
<p>— Não esquece de dar seu livro a ela, — recomendei.</p>
<p>— Já dei, — disse ele. — Já fui no programa dela uma vez. Agora vou atacar de poema personalizado. E mais: pretendo recitar o poema com o programa no ar.</p>
<p>Aí Desidério virou-se pro dono do boteco e disse:</p>
<p>— Quanto é que deu?</p>
<p>— Três contos, — disse o homem.</p>
<p>— Tem três contos aí? — perguntou a mim.</p>
<p>— Não tem dinheiro não? — repliquei.</p>
<p>— Só uma nota de cem, — disse ele. E, pro dono do bar: — O senhor troca cem?</p>
<p>— Cem contos? — disse o homem. — Nem sei o que que é isso.</p>
<p>— Paga aí pra mim, cara, — disse Desidério. — Você tá com muito. Acabou de receber.</p>
<p>Paguei o lanche de Desidério, em respeito ao seu talento como poeta. Despedimo-nos, cada qual ia pra um canto. Lá se foi ele de volta ao estúdio onde trabalha, lá vim eu pra avenida Vitória a fim de pegar um ônibus. Essa decisão estava tomada. Só não sabia se pegava um ônibus pra casa ou pro centro. Sim. Rever um de meus editores deu vontade de rever o <span id="GARI_RP28V">outro.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP28" title="Guardadas as devidas proporções, a configuração discursiva corresponde, no quadro do discurso, ao papel temático, como o lexema corresponde ao semema no quadro do enunciado."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a> Tive saudades do Sr. Eylau e, sobretudo, de Dona Mônica. Tive saudades da doce Fúlvia, até porque estava trabalhando num poema de amor endereçado a ela (também tenho esse direito). Tive saudades do Edifício Pongal. Saudades tive do centro da cidade às quatro e meia da tarde. Passava nesse exato momento diante de um telefone público, que como os há espalhados pela cidade toda: um exército de caça-níqueis. Tinha um cartão telefônico. Liguei pra Agência Ajax. Atendeu, como esperado, a secretária da agência.</p>
<p>— Dona Mônica, boa tarde, — disse eu, — e diga-me depressa, que meu cartão só tem três unidades, se o Sr. Eylau pode me receber ainda hoje.</p>
<p>— Ele tem um compromisso às quatro, — respondeu ela. — Vou agendar você às cinco. Pode ser?</p>
<p>— Estou indo pra aí, — disse eu.</p>
<p>— Está cedo, — disse ela. — São dez pras quatro.</p>
<p>— Estou com saudades da Agência Ajax, — disse eu, e desliguei.</p>
<p>Peguei um ônibus pra cidade na avenida Vitória. Aproveitei a viagem pra fazer, na cabeça, mais uma estrofe do poema pra doce Fúlvia. Embora seja eu quem o diga e não a Dra. Álvara Fragosa, trata-se de um projeto ambicioso e revolucionário, uma versão altamente original e pós-moderna de poema alfabético, bem distante, é claro, dos poemas abecedários medievais e dos abecês da poesia popular. O elemento alfabético do poema se situa na última sílaba do primeiro verso de cada estrofe, e se caracteriza por um monossílabo em á. Eis a estrofe referente à letra J:</p>
<p>Te quero, Fúlvia, já!<br />
Te quero tanto como<br />
não quero operar as adenóides<br />
nem as amígdalas, mas,<br />
se for preciso pra cheirar melhor o teu cangote,<br />
pra engolir melhor a tua baba de moça,<br />
que venham, cortantes, afiados, mais que já,<br />
as abençoadas pinças e os redentores bisturis.</p>
<p>Saltei na rua Osório. No elevador subi junto com dois rábulas engravatados que, por coincidência, iam também pro quarto andar, ou seja, por coincidência tinham algum processo a tratar com o patrão da doce Fúlvia. Os dois conversavam não como se eu nem estivesse ali mas sim como se, estando ou não estando, tanto <span id="GARI_RP29V">fizesse.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP29" title="O investimento semântico é realizado pela seleção, operada pelos papéis atuacionais, papéis temáticos que, para realizar suas virtualidades, exploram o plano lexemático da linguagem e se manifestam sob a forma de figuras que se prolongam em configurações discursivas."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a> Um deles disse ao outro:</p>
<p>— Hoje não tem jeito: vou ter de comer a minha mulher.&nbsp;</p>
<p>— Que que houve? — perguntou o outro.&nbsp;</p>
<p>— É o aniversário da filha da puta, — disse o primeiro.</p>
<p>Saltamos os três no quarto andar. Passei à frente deles e patinei em direção à esquina que, uma vez dobrada, deixava a gente de frente pra porta da Agência Ajax. Bati à porta com os nós dos dedos, trêmulo de saudade. Ah, boa e velha agência Ajax. Ah, bom e velho Porfírio Eylau. Ah, boa e gostosa Dona Mônica.</p>
<p>Feche-se o intercapítulo. O próximo — promessa de narrador — há de abrir-se-á ao abrir-se, pelas mãos de fada de Dona Mônica, a sisuda porta da Agência <span id="GARI_RP30V">Ajax.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP30" title="O Pequeno Polegar é, enquanto ator, ao mesmo tempo sujeito-herói e objeto de consumação pelo Bicho Papão, fornecedor este, por fim, de toda a sua família."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a></p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="GARI_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Professora adjunta do Departamento de Teoria Literária da Ufes.</div>
<div id="GARI_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Cf. &#8220;Vale de lágrimas&#8221;, in Mickey, revista mensal de Walt Disney, n. 13, outubro de 1953, p. 2, São Paulo: Editora Abril. Cite-se a fala de Minnie: &#8220;Obrigada, Mickey! Foi uma noite maravilhosa! O melhor choro de minha vida!&#8221;.</div>
<div id="GARI_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Que lhe custou — o jantar, não a defesa — a bagatela de quatrocentos e quinze reais e trinta e oito centavos.</div>
<div id="GARI_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Talvez um descendente direto do histórico padre do mesmo nome.</div>
<div id="GARI_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Ver exemplos mais adiante.</div>
<div id="GARI_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Calamity Jane, 1953, produção da Warner Brothers, com Doris Day e Howard Keel nos papéis principais, direção de David Butler e trilha sonora de Sammy Fain e Paul Francis Webster.</div>
<div id="GARI_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Metaforicamente falando, é claro, porque o nosso Barrica babava-se todo é por ninfeta, e não consta que exista em lugar nenhum, nem mesmo em Gotthaab, na Groenlândia, uma secretária de cultura aquém dos quarenta. Aliás, foi também metaforicamente que Barrica, uma vez, contrariado em seus interesses pecuniários por uma dessas secretárias, uma senhora de quase sessent&#8217;anos, deixou escapar em público sua insatisfação dizendo: Eu vou foder com essa mulher! Isso porque tinha intenção de botar a boca no trombone da imprensa contra a senhora secretária. Vai logo então uma má língua, com a melhor das intenções, repetir as palavras de Djalma à secretária, que, surpresa, exclamou: Mas esse rapaz não sabe que eu sou casada?</div>
<div id="GARI_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;No que se assemelham àqueles candidatos que, nas eleições, só recebem um voto.</div>
<div id="GARI_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;A vasta maioria.</div>
<div id="GARI_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Djalma Smee fez um curso de seis meses na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e uma de suas aquisições no Rio foi essa concordância verbal tipicamente carioca — outra foi a esposa, uma loura platinada do Leme que o ajuda a manter até hoje essa concordância.</div>
<div id="GARI_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Os leitores relevem o merchandising em benefício próprio.</div>
<div id="GARI_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;É muito tênue a diferença entre um caso e outro. Na Vitória dos anos trinta, por exemplo, uma certa Velha Chica passava por sofrer de ascite quando o que a afligia era na verdade uma gravidez eterna (cf. Cantáridas e outros poemas fesceninos, de Paulo Vellozo et alii, poemas LI, LXII e LXVII e respectivos comentários às p. 234, 238 e 240).</div>
<div id="GARI_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Na verdade um boné propedêutico pra proteger do sol o couro — no seu caso impropriamente chamado — cabeludo.</div>
<div id="GARI_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;De onde terá ele tirado essa idéia?</div>
<div id="GARI_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;Djalma arrematou essas cadeiras, bem barato, na loja de móveis do Rabinowitz, onde eram vendidas como pontas de estoque.</div>
<div id="GARI_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;Ou seja, pra voltar ao mesmo ponto?</div>
<div id="GARI_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se de texto bilíngüe (polonês e português) de quatro poemas de Ludmila Szczecinska, presidente da Academia de Letras de Czestochowa, traduzidos e comentados por Mieczyslaw Lelewel.</div>
<div id="GARI_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;A obra incerta, de Fernando Achiamé, apresentação de Reinaldo Santos Neves, Vitória: Florecultura, 2000.</div>
<div id="GARI_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Cupim, de Miguel Desidério, apresentação de Alice B. Tocas, Vitória: Florecultura, 2ª edição, 2001.</div>
<div id="GARI_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;Cf. capítulo 13 da primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste.</div>
<div id="GARI_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;Ou talvez algo mais que a mão.</div>
<div id="GARI_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;Colega da Dra. Álvara no Departamento de Teoria Literária da Ufes.</div>
<div id="GARI_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;A natureza das poses depende da modelo. As poses da moça Hipoteneuza caem na categoria (pra usar a nomenclatura do próprio artista) pornô naïf.</div>
<div id="GARI_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;O investimento moralizante não é, contudo, nem necessário nem suficientemente geral: ele se vê amiúde substituído por um investimento estetizante, por exemplo, ou distribuído não apenas pelas duas dêixis opostas, mas por termos mais numerosos do quadrado semiótico.</div>
<div id="GARI_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;O problema da veridicção ultrapassa sobremaneira o quadro da estrutura atuacional.</div>
<div id="GARI_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;O lexema é uma organização sêmica virtual que, com raras exceções (quando seja mono-semêmico), quase nunca se realiza, tal como realmente é, no discurso manifesto.</div>
<div id="GARI_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Pode-se dizer que, no caso da pluriisotopia, uma figura única inicial dá lugar a desenvolvimentos de significação superpostos num só discurso.</div>
<div id="GARI_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;Guardadas as devidas proporções, a configuração discursiva corresponde, no quadro do discurso, ao papel temático, como o lexema corresponde ao semema no quadro do enunciado.</div>
<div id="GARI_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;O investimento semântico é realizado pela seleção, operada pelos papéis atuacionais, papéis temáticos que, para realizar suas virtualidades, exploram o plano lexemático da linguagem e se manifestam sob a forma de figuras que se prolongam em configurações discursivas.</div>
<div id="GARI_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;O Pequeno Polegar é, enquanto ator, ao mesmo tempo sujeito-herói e objeto de consumação pelo Bicho Papão, fornecedor este, por fim, de toda a sua família.</div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VI. De adenóides e amígdalas</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; 1. A história inconfessável: Fumaça</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_68/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>— E tem tempo que você gosta de jazz? — pergunta o Velho à moça de boina. Cenário é uma pizzaria do bairro de Jardim Camburi, na franja setentrional da mui leal cidade de Nossa Senhora da Vitória, metrópole-mor e grã-capital do egrégio Estado do Espírito Santo. O salão é amplo no sentido longitudinal: um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
— E tem tempo que você gosta de jazz? — pergunta o Velho à moça de boina.</p>
<p>Cenário é uma pizzaria do bairro de Jardim Camburi, na franja setentrional da mui leal cidade de Nossa Senhora da Vitória, metrópole-mor e grã-capital do egrégio Estado do Espírito Santo. O salão é amplo no sentido longitudinal: um passadiço mal iluminado que se estende por dir-se-íveis léguas e mais léguas a fora até a longínqua, quase inacessível, cozinha. Se estivéssemos na Europa, onde fronteiras entre diferentes nações cortam, às vezes, pelo meio, um dos cômodos de uma casa, conferindo a ela uma indesejada dupla nacionalidade, poderia acontecer, se na Europa estivéssemos, de comerem os fregueses aqui na Bélgica a pizza preparada ali na Holanda. Mas não estamos na Europa, estamos, pro que der e vier, no Brasil, e o salão da pizzaria, embora extenso a perder de vista, não passa disso (ah, amigo Alfred, eis aí mais uma vez a tua perniciosa influência!), ou seja, não passa de um mega-refeitório, e qualquer distração pode levar o freguês a imaginar-se sentado pra comer em uma caserna ou em um mosteiro.</p>
<p>Diga-se de passagem que nem se deram os proprietários por satisfeitos com os vastos acres de chãs e planas estepes de que dispõem aqui embaixo para acomodar as esperadas hordas de fregueses famintos e pagantes. Não. Na impossibilidade de estender o recinto da pizzaria, para oeste, até o meridiano de Tordesilhas, contornaram a restrição geográfica seguindo a bem sucedida estratégia das incorporadoras e estenderam-no — o recinto — para cima. Para cima, sim, pois a um canto do recinto um lance de degraus — compondo uma escadaria sem corrimão — conduz ao tão quão vasto convés superior que, como nos Titanics da vida, destina-se a uma classe restrita e diferenciada de fregueses: neste caso, aos não fumantes.</p>
<p>Não se sabe quanto a lá em cima, mas quanto a aqui embaixo não foi feito nem o menor esforço pra se cometer uma decoração do ambiente. As paredes tiritam em sua gélida nudez, e as mesas e as cadeiras ocupam maciçamente o salão, a ponto de inviabilizar a presença de qualquer corpo estranho que ali pudesse se imiscuir com tímida veleidade decorativa, como, digamos, uma pobre palmeirinha chinfrim enfiada num vaso anêmico de cerâmica. Mesmo sobre as mesas o que há são objetos congenitamente utilitários: saleiros, paliteiros, frascos de ketchup, de mostarda, de azeite, e um cinzeiro de vidro que já recolheu em seu seio várias gerações de guimbas de tudo quanto é marca de cigarro.</p>
<p>É incalculável, claro, no salão, o número das mesas e das cadeiras, e como tal impossível de ser calculado a não ser pelos garçons e por Beremis Samir, o homem que calculava. Mas quem disse que isso importa? Porque, dentre todas essas mesas — em sua maior parte esperando, entediadas como putas, os seus fregueses —, a mesa doze é a única que se pode chamar impunemente de umbigo da crônica. Definida em termos meramente geométricos, essa mesa nada mais não é que um quadrilátero um tanto vulgar, como as demais todas; difere delas, porém, em termos puramente metafóricos, que é o que realmente importa em literatura e adjacências, porque adotou esta noite a cidadania de triângulo, naturalizou-se triângulo, e triângulo escaleno, que é aquele cujos ângulos são todos entre si desiguais. A moça de boina, interpelada acima à queima-roupa pelo Velho, chama-se Maria da Penha Gotti. À sua esquerda, lado do coração, vê-se o namorado dela, um chato profissional histórico chamado José Garibaldi Magalhães. À sua direita, lado da razão, vêem-se três pessoas numa só: o sujeito que ali está, a quem o texto se refere, inexorável, como o Velho, tem uma trindade de funções vitais: é presidente do Clube das Terças-Feiras, amigo de Garibaldi e apaixonado por Maria da Penha. Pronto. Está posta a mesa pro primeiro capítulo à vera da história inconfessável. Vamos em frente, que temos quatro anos de atraso narrativo pra recuperar.</p>
<p>Maria da Penha Gotti pensa duas vezes e duas vezes sopra pro lado miasmas de fumaça do cigarro antes de responder à pergunta impertinente do Velho: se tem tempo que ela gosta de jazz.</p>
<p>— Estou aprendendo a gostar de ouvir, — ela diz, modesta e precisa, e tritura, no cinzeiro de vidro, o toco do cigarro, apagando o último sopro de vida que ainda fulgia nele. — Antes de conhecer Garibaldi eu gostava de ver.</p>
<p>— De ver jazz? — O Velho ergue um sobrolho.</p>
<p>O Velho é um homem de cinqüenta e um pra cinqüenta e dois anos. Não é, dirá alguém, idade tão provecta assim que justifique o epíteto que, inexorável, lhe impõe o Texto. Justificam-no, porém, a barba alvacenta que lhe cobre o baixo ventre do rosto — uma barba velhaca que embranqueceu antes do tempo, antes dos pêlos cranianos e pubianos — e a alma borolenta que lhe governa os pensamentos, as palavras e os atos, em sua maioria, é justo que se diga, bisonhos e mesquinhos.</p>
<p>— Sempre me amarrei, — Maria da Penha explica, — em fotografia de jazz, sobretudo no trabalho de fotógrafos como William Gottlieb, Ted Williams, Bob Parent e Herman Leonard. — Os nomes ela pronuncia à latina, adicionando sílabas onde caibam: Gottiliebi, Parenti, Leonardi. — Eles descobriram a beleza plástica do mundo do jazz e passaram a vida à caça de imagens desse mundo.</p>
<p>A mesa ao lado acaba de ser ocupada por um grupo de três mulheres e um homem. A mesa justamente ao lado; estranho o instinto gregário dos seres humanos, que os leva, como aqui, em que a oferta de mesas se faz às grosas, a buscar uma estreita contigüidade com seus semelhantes, pra não deixar passar sem ser colhida a ocasião oportuna de importuná-los ou de serem importunados por eles.</p>
<p>— Penha é fotógrafa, — Garibaldi esclarece.</p>
<p>— Ah! — exclama o Velho, como se isso explicasse tudo que é mistério na moça de boina. Explica, pelo menos, a máquina fotográfica com que Maria da Penha disparou em cheio contra os dois varões da mesa, há qualquer coisa de cinco minutos atrás, nos idos de dezembro de 1998: Maria da Penha tem porte de arma. — Fotógrafa profissional, eu presumo?</p>
<p>— Sim, — diz ela. — Faço fotos de arte, de moda, books de manequim, casamentos, batizados, aniversários, formaturas, recepções, reproduções, o que der e vier eu faço, em p&amp;b ou a cores. Só não faço fotos aéreas porque enjôo no avião. É. Você acertou. Sou profissional, sim.</p>
<p>— Só que às vezes nem tanto, — diz Garibaldi. — Foi fazer um casamento semana passada numa igreja. Tirou duzentas fotos. Fotos da noiva entrando na igreja, fotos de damas e daminhas de honra, fotos da horda de convidados, fotos do padre, fotos dos pais do noivo e da noiva, fotos de padrinhos e madrinhas, fotos de bênção das alianças, fotos de noivo metendo aliança na noiva e vice-versa, fotos do beijo nupcial, fotos de noivo e noiva saindo da igreja, tirou foto de tudo que estava lá dando sopa. Só depois disso tudo é que descobriu que—</p>
<p>— Que não tinha filme na máquina, — antecipa-se o Velho.</p>
<p>— Não, — diz Maria da Penha. — Que era o casamento errado.</p>
<p>— Ou seja, — acrescenta Garibaldi, com um sorriso sarcástico: — Tirou fotos da noiva errada, do noivo errado, das damas e daminhas erradas, dos convidados errados, do padre errado, dos pais dos noivos errados, dos padrinhos e madrinhas errados, das alianças erradas, do beijo nupcial errado e da igreja errada. Em duzentas fotos, não foi capaz de tirar uma só foto que prestasse.</p>
<p>— Por Tupã! — exclamou o Velho: uma de suas exclamações favoritas em circunstâncias de espanto ou surpresa. — Mas como é que—?</p>
<p>— Fui na igreja da Praia do Canto, — diz Maria da Penha, — e o casamento era na igreja da Praia do Suá. Troquei São Pedro por Santa Rita.</p>
<p>— Por essa e por outras, — diz Garibaldi, — é que chamam Santa Rita de Santa Rita dos Impossíveis.</p>
<p>Garçom chega trazendo uma bandeja com bebidas. Nada estranhe o leitor atento e memorioso de quatro anos atrás: foi feito, sim, pela mesa doze, um pedido de bebidas, só que o narrador anterior deixou de registrá-lo no texto do capítulo 20 da primeira parte desta série, talvez por julgá-lo implícito, talvez por pura imperícia narrativa, talvez porque Garibaldi, heróico herói desta epopéia, não tenha pedido bebida alguma. Garçom põe sobre a mesa, diante de Maria da Penha, um cálice de martini com uma cereja empalada num palito; diante do Velho, um copo de Malzbier. Ela, com dedos prestes, faz a devida troca e dá a cada qual o que é de cada qual. Garçom se desculpa e vira-se pra atender os fregueses da mesa ao lado, que estão discutindo quais dos trinta e seis modelos de pizza devem pedir pra melhor satisfazerem seu quarteto de paladares e estômagos.</p>
<p>— Bem que eu percebi, — continua Maria da Penha, — que os outros fotógrafos olhavam pra mim e davam um risinho cínico, mas só depois é que eu fui entender por quê.</p>
<p>Aí ela ergue o copo e permite-se o consolo de um sumo gole de cerveja.</p>
<p>— O casamento era em Meca, ela foi em Ceca, — diz Garibaldi. E, raspando o sarcasmo do fundo do tacho: — Por essa e por outras é que eu chamo nossa amiga aqui presente de Maria da Penha dos Impossíveis.</p>
<p>— Garibaldi, — diz o Velho, saboreando aperitivamente sua cereja no palito, — por que tripudiar tanto assim sobre o equívoco de Maria da Penha? Estou vendo que você e ela têm isso em comum: confundir as coisas. Só que cada um à sua maneira. Você sabe o lugar onde tem de ir mas não sabe a hora, e Maria da Penha sabe a hora mas não sabe o lugar. O que me remete a uma coisa que li uma vez: que o corvo sabe o lugar onde deve encontrar a presa mas não sabe a hora, e a águia sabe a hora mas não sabe o lugar. Ou seja, nisso você é o corvo e Maria da Penha é a águia.</p>
<p>— Onde você leu essa história? — diz a águia, ligeiramente admirada da analogia que o Velho tirou do fosso da cartola.</p>
<p>— Está no velho Giraldus Cambrensis, — diz o Velho, — um escritor do século XII, também conhecido como Gerald of Wales.</p>
<p>— Contemporâneo seu, — diz o corvo.</p>
<p>O Velho deixa passar a maledicência sem nem um peteleco de riposta. Sabe, o finório, que a citação de Giraldus Cambrensis, também conhecido como Gerald of Wales, está furos acima do sarcasmo de botequim de Garibaldi. Tanto que retoma com serena majestade a estrada real da conversa com Maria da Penha:</p>
<p>— Quer dizer então que você chegou ao jazz por via da fotografia, — diz ele.</p>
<p>— Me interesso muito por fotos de trabalho, — ela diz, brincando entre os dedos com um cigarro que subtraiu do maço, — e música é trabalho.</p>
<p>— Nem é à toa, — diz Garibaldi, — que os saxofonistas de jazz chamam o instrumento de ax, ou seja, machado.</p>
<p>— São axofonistas, — diz o Velho, querendo mostrar espírito, e trata de bebericar o seu martini.</p>
<p>Garibaldi assume o papel, de que tanto gosta, de mestre-escola de jazz:</p>
<p>— A origem da metáfora deve estar na semelhança entre as palavras ax e sax em inglês, embora o termo já se tenha estendido das palhetas aos metais. Mas é uma metáfora feliz. Todo músico de jazz é um lenhador que desbasta o tronco de uma melodia até o miolo, revelando nódulos e mais nódulos de variações até que, se for um bom lenhador, derruba a melodia com tudo no chão: Madeira!</p>
<p>Pessoal da mesa ao lado reduziu suas opções a nove sabores. Meta é pedir duas pizzas gigantes de quatro sabores diferentes. Concordam, de modo democrático, em decidir a parada no voto. Que cada eleitor vote em quatro opções de sabor, das quais as mais votadas serão chamadas a integrar as duas pizzas mistas pra consumo do quarteto.</p>
<p>— Isso que você disse é pura poesia, Garibaldi, — diz o Velho.</p>
<p>— O jazz faz de mim um poeta a qualquer hora, — diz Garibaldi.</p>
<p>Hoje, porém, a atenção do Velho só quer pertencer a Maria da Penha:</p>
<p>— Música é trabalho, — diz ele, fazendo suas as palavras dela e devolvendo-as à autora como um mote pra ela glosar.</p>
<p>— É, — diz ela. E pontua sua afirmação com os dois dedos fumantes, entre os quais continua embutido o cigarro ainda ileso. — Mas, embora a fotografia de jazz me interesse muito como um todo, porque música é trabalho, quando eu olho uma determinada foto eu vou logo fazendo uma inspeção pra ver se ela contém os componentes estéticos que, pelo menos pra mim, são fundamentais nesse tipo de foto.</p>
<p>Diante da postura professoral de Maria da Penha, o Velho faz um trejeito de lábio e enfia o olho em Garibaldi, com olhar de quem está pensando: Isso pega.</p>
<p>— Esses componentes são quatro, — continua ela. — Em primeiro lugar, a data. Pra eu realmente gostar de uma foto de jazz, essa foto não pode ser de data posterior a 1960.</p>
<p>— Que coincidência, — diz o Velho. — Garibaldi também prefere o jazz produzido até 1960. Pelo menos foi o que eu li nas crônicas da tal série Dois graus a leste, três graus a oeste.</p>
<p>Garibaldi não se compromete. A tirada do Velho, ele próprio antigo narrador das crônicas da tal série, hoje destronado a bem da literatura, cai no vazio.</p>
<p>— Garibaldi chegou a essa preferência, — diz Maria da Penha, — por via do ouvido; eu cheguei por via do olhar. Gosto do ambiente do jazz das décadas de 40 e 50. Gosto de ver os músicos tocando de terno e gravata. O traje em si já me agrada, e eu chego a viajar no exame do corte e do padrão do terno, do desenho da gravata, do número e do formato dos botões do paletó, e de outros detalhes mais. Além disso, gosto do contraste entre o traje e o instrumento, entre o traje e os movimentos do corpo. Gosto também de imaginar que, por baixo do traje convencional, exigido pela etiqueta da época, está a alma endiabrada de um transgressor. Ali está um lobo solitário, um aventureiro, um fora-da-lei, um soldado da fortuna. Ali está um cidadão da noite e da sarjeta, irmão de outros tantos fodidos e mal pagos que nem ele: traficantes, cafetões, prostitutas, alcoólatras e bandidos. O típico músico de jazz, nessa época, era um sujeito que vivia na corda bamba, que não sabia se teria onde cair morto no dia seguinte. Isso me arrebata. Você olha a foto do cavalheiro de terno e sabe que ali está um sujeito que vive a perigo, que vive de roldão, que provavelmente não vai chegar à casa dos quarenta, e que não está nem aí pra isso, porque ainda tem tempo pro próximo drinque, pro próximo pico, pra próxima foda e, principalmente, pro próximo solo. Que que ele quer mais da vida? Afinal, se a vida é mesmo pra ser destruída, vamos destruí-la com o máximo de arte e competência.</p>
<p>Vê-se, visivelmente, que o Velho está impressionado com a efusão verbal de Maria da Penha; só que ao ouvir, na boca da moça, as palavras fodido e, logo depois, foda, retraiu-se como se tivesse levado, a cada palavra, um beliscão na bunda. Quanto a Maria da Penha, ela dá por encerrado o parágrafo de ouro de sua peroração pendurando entre os lábios o cigarro que ainda não teve tento pra acender.</p>
<p>— Penha está escrevendo, — diz Garibaldi, — um ensaio sobre a fotografia de jazz. Isso que você ouviu é um trecho do ensaio.</p>
<p>— Se é um ensaio, — diz o Velho, — talvez fosse o caso de substituir uma ou outra palavra excessivamente coloquial, como, por exemplo, hã, f-o-d-a.</p>
<p>— Foda? — diz Maria da Penha, e o cigarro, apenso ao lábio por um fio de saliva, quase lhe cai da boca. — Não precisa. O ensaio é pra publicar numa coletânea da Bico-de-Lacre. Conhece? É uma editora de ponta. Lá não fazem esse tipo de censura.</p>
<p>— Sendo assim, — diz o Velho, não querendo correr o risco de parecer moralista — já não está mais aqui quem falou. Queira, por favor, continuar a sua tese.</p>
<p>Os vizinhos de mesa realizaram sua eleição: saíram vencedoras as pizzas de atum, de cinco queijos, de frango e de nozes, com três, três, dois, dois votos respectivamente. Nenhum dos sabores teve unanimidade.</p>
<p>— Em segundo lugar, — diz Maria da Penha, tirando da boca o cigarro, — a foto tem de ser em p&amp;b. Pra mim, aliás, qualquer foto de arte tem de ser em p&amp;b, quanto mais a foto de um músico de jazz. O universo de jazz, na minha concepção estética, é essencialmente noir e dark. É noturno, é escuro, é sombrio. Só pode ser retratado em p&amp;b. Fotografá-lo em cor seria profanar a sua própria mística. Não concorda?</p>
<p>— Concordo, — diz o Velho.</p>
<p>Maria da Penha toma outro gole de cerveja antes de prosseguir:</p>
<p>— Em terceiro lugar, quero ver foto de músico fazendo música. Quero ver músico tocando no seu habitat natural, que é o night-club fechado, acanhado, abafado, com pouca luz e muita fumaça, e aí temos exatamente o quarto componente estético: a fumaça. Se eu tiver que escolher um símbolo pra fotografia de jazz, escolho a fumaça dos cigarros. — Agita o cigarro diante dos olhos do Velho, como que achando que ele não sabe que diabo é isso. — Tem tudo a ver. O cigarro é, à sua maneira, um instrumento de sopro, como o sax e o trompete, só que, através do seu parceiro, o fumante, o cigarro em vez de som produz fumaça. Mas na fotografia o sax, o trompete e os outros instrumentos também não produzem som. Aí, então, cabe à fumaça do cigarro representar o som da música. Sim, sim, é isso mesmo, a fumaça é a própria imagem da música. Afinal, tanto a fumaça como a música se esvaem no ar.</p>
<p>Aí, enfim, Maria da Penha acende o cigarro e se rende ao prazer da tragada que por tanto tempo protelou.</p>
<p>— Mas eu acho um contra-senso, — diz o Velho, — um cigarro na mão, por exemplo, de um saxofonista, pelo que sugere de prejuízo pros pulmões.</p>
<p>— Ah, mas a mim me agrada muito isso que você chama de contra-senso, — diz Maria da Penha, com um brilho mórbido no olhar azul azul, e lança pro alto uma golfada de fumaça mais leve que o ar. Uma das mulheres da mesa ao lado, uma loura repolhuda, olha pra ela com cara feia e tenta enxotar com a mão a fumaça como quem enxota uma nuvem de mosquitos.</p>
<p>— Recapitulando, — diz o Velho, — uma foto de jazz, pra você gostar dela, tem de ser dos anos 40 ou 50, tem de ser em p&amp;b, tem de ter músico tocando, e tem de ter fumaça como marca da própria qualidade etérea e efêmera da música. É isso?</p>
<p>— É, — diz ela, — mas é lógico que tem de ter também o quinto componente, que é o artístico. Gosto de certas fotos só pelo componente artístico, como a foto que Francine Winham fez de John Coltrane tocando sax-soprano. Ela tirou a foto de frente, de modo que a perspectiva é quase nula, e a abertura do instrumento parece a boca do músico. Ou seja, a foto sugere perfeitamente o que eu chamo no meu ensaio de conjunção anatômica de músico e instrumento. Dá até pra achar que é possível distinguir, lá dentro, as amígdalas de Coltrane.</p>
<p>Outra baforada de Maria da Penha, outro olhar de censura por parte da loura repolhuda.</p>
<p>— Um fotógrafo que me seduz principalmente pelo componente artístico, — diz Maria da Penha, — é Terry Cryer. A impressão é que ele é como aqueles fotógrafos de pássaros, que ficam o dia inteiro esperando o momento da foto magistral. Já vi grandes fotos dele. Tem uma de Zoot Sims com as mãos em concha diante da boca, acendendo um cigarro. Tem uma de Frank Wess tocando flauta com um cigarro enxerido entre os dedos. Tem uma de Coleman Hawkins de perfil, com a mão espalmada sobre o lado do rosto. Tem outra de Hawkins, de costas, fantástica, com Sonny Stitt ao lado fazendo bico, prestes a dar um beijo na cabeça de Hawkins. São fotos maravilhosas.</p>
<p>— De onde é que você me desentranha essas fotos? — pergunta o Velho, e comemora com um gole de martini tanto a pergunta como o dativo ético nela inserida em itálico.</p>
<p>— Da internet, — responde Maria da Penha, e com um leve toque do cigarro na borda do cinzeiro faz cair ali dentro uma tripa de cinzas. — Às vezes eu e Garibaldi passamos horas na internet só abrindo e fechando fotos de jazz, e gravando aquelas que a gente gosta mais.</p>
<p>O Velho não parece receber à vontade uma informação que atesta o bem estar doméstico de Garibaldi e Maria da Penha. Trata logo de fugir do assunto:</p>
<p>— Me fala de outros fotógrafos de jazz que você gosta.</p>
<p>— William Gottlieb, — diz ela, — é um dos pioneiros, mas o que me desagrada na maioria das fotos dele é que são fotos feitas em casa ou em estúdio, e o que estraga essas fotos, pra mim, é a pose tanto do músico como do instrumento. A pose é dura, rígida, quase cadavérica, e reduz músico e instrumento a objetos sem vida nem alma. Há exceções, é claro. Gottlieb tirou uma foto de Dizzy Gillespie na esquina da rua 52, a rua do jazz nos anos 40. Gillespie está ao pé do poste que mostra a placa da rua, e está fazendo uma pose, mas é uma pose vivaz, que estabelece uma relação dinâmica entre o homem e o poste e uma relação semântica entre o músico e tudo que a rua 52 significava na época. Pois nessa rua ficava o Minton&#8217;s, que foi o berço do bop.</p>
<p>— E não dá pra esquecer, — diz Garibaldi, — que Gottlieb nessa mesma época fotografou Thelonious Monk no Minton&#8217;s, quando Monk ainda era praticamente uma quantidade desconhecida no jazz.</p>
<p>— Amo aquela foto de Monk de boina na cabeça, — diz a moça de boina na cabeça.</p>
<p>— Gottlieb devia ter fotografado você também, — diz o Velho.</p>
<p>— Penha ainda não era nascida, — diz Garibaldi.</p>
<p>Maria da Penha toma um gole de cerveja, dá, logo de per cima, uma tragada no cigarro e por fim emite um sopro de fumaça úmida de álcool.</p>
<p>— Outra coisa que me desagrada em Gottlieb, — diz ela, — é que ele gostava de flagrar os músicos fora do ambiente musical.</p>
<p>— O pior exemplo disso, — diz Garibaldi, — é aquela seqüência de fotos em que aparecem alguns músicos da orquestra de Stan Kenton em campo aberto jogando baseball, e logo o quê, o jogo mais imbecil jamais inventado pelo homem. Até June Christy, a cantora da orquestra, aparece numa foto empunhando um taco. É verdade que Gottlieb também fotografou a orquestra tocando, e eu gosto muito de uma foto que mostra Art Pepper de perfil, em pé, em pleno solo, com a platéia lá embaixo como uma enseada de gente.</p>
<p>Saxofonista Art Pepper, diga-se de passagem pela primeira vez na segunda parte desta série, é o ídolo maior de Garibaldi no jazz.</p>
<p>— Também gosto dessa foto, — diz Maria da Penha, — embora falte fumaça. Gosto muito quando a foto mostra o músico e seu público. Principalmente se o local é um night-club apertado, com as mesas bem junto dos músicos, de modo que dá pra ver os homens e as mulheres que estão lá, dá pra distinguir rostos, mãos, roupas, copos, taças, garrafas, saleiros, maços de cigarro, cinzeiros, talheres, restos de comida nos pratos, e até os cartões em cima das mesas, com a palavra reserved escrita neles. Você vê as duas dimensões econômicas da música: a oferta e a procura.</p>
<p>Maria da Penha faz uma pausa pra nova tragada. O Velho não quer silêncio da parte dela:</p>
<p>— Fala mais, moça, — diz ele. — Estou ouvindo e aprendendo.</p>
<p>— Bom, dois dos melhores fotógrafos de jazz — diz ela, — são, sem dúvida, Herman Leonard e William Claxton. Entre os dois, eu prefiro Leonard. As fotos dele têm mais fumaça. Foi ele que fez aquela foto clássica de Dexter Gordon quando jovem, em que Gordon, que sempre foi um ator, contracena com uma nuvem de fumaça.</p>
<p>— Maria da Penha, — interrompe o Velho, — você não acha Garibaldi parecido com Dexter Gordon não?</p>
<p>— Acho não, — diz ela, soprando mais fumaça pra mesa ao lado.</p>
<p>— Eu também não, — diz Garibaldi.</p>
<p>— Pois eu sempre achei, — diz o Velho, meio ressabiado em sua condição de minoria.</p>
<p>Maria da Penha aspira o que ainda resta de fumo no cigarro, sopra a fumaça pro lado e num golpe digital de misericórdia esmaga o toco no cinzeiro ao lado do toco anterior. A loura repolhuda resolve dar um palpite:</p>
<p>— Não me diga que esse é o último cigarro da noite.</p>
<p>Maria da Penha vira-se pra loura e, logo em seguida, pra Garibaldi:</p>
<p>— Ela está falando comigo? — pergunta, com inocência talvez simulada.</p>
<p>— Que eu saiba, não tem ninguém mais fumando aqui, — a loura responde por Garibaldi.</p>
<p>— Acho que ela está querendo um cigarro, — diz Garibaldi.</p>
<p>— Então sirva-se, — diz Maria da Penha, estendendo o maço na direção da loura.</p>
<p>— Quero fumar porra nenhuma, — diz a loura, rejeitando o maço com repulsa de autêntica antitabagista. — Quero é não ter de respirar tua fumaça a noite toda.</p>
<p>— Então sobe, — retruca Maria da Penha. — Lugar de não fumante é lá em cima. Aqui eu tenho o direito de fumar o tanto de maços que eu quiser sem ninguém me encher a paciência.</p>
<p>Dito isso, ela deu prosseguimento à sua aula:</p>
<p>— Um sujeito chamado Jim Merod escreveu um ensaio sobre a luz e a fumaça na fotografia de Herman Leonard, e analisa a fundo essa foto de Dexter Gordon, a ponto de compará-la com uma variação da Pietà, por causa de vários fatores: a paz eclesiástica do cenário, o sax aninhado no colo de Dexter Gordon, o olhar beatífico voltado pro céu como sinal da satisfação do músico com o seu trabalho&#8230; Ah, pode-se viajar muito nessa foto!</p>
<p>Os fregueses da mesa ao lado, depois de conferenciarem entre si, resolvem bater em retirada pra ambiente menos poluído. Recolhem bolsas, garrafas e copos e tomam rumo da escada. A loura repolhuda ainda lança um olhar de hostilidade sobre Maria da Penha, e rilha entre os dentes uma maldição: Tomara que tu morra de câncer. Maria da Penha recebe o agouro como se nem fosse com ela.</p>
<p>— Já as fotos de William Claxton, — diz ela, — são muito clean. Muito cool. Também não admira. Ele é o fotógrafo do jazz da Costa Oeste, o cool jazz. A proposta dele era mostrar músicos de jazz no ambiente saudável da Califórnia. Nada de suor, nada de fumaça, nada de ambientes fechados e viciados. Ele tirou os músicos da noite e colocou em pleno dia, ao ar livre, nas praias, nas montanhas, nas estradas, e até os carros eram conversíveis abertos. Fez com que os músicos transmitissem uma imagem de saúde e de vida regrada. Como se o jazz da Costa Oeste não tivesse também o suor, a fumaça e a autodestruição do jazz do leste.</p>
<p>Garçom surgiu do nada e estranhou a ausência dos fregueses da outra mesa. A princípio deve ter pensado que fugiram do país sem pagar as bebidas nem esperar as pizzas.</p>
<p>— Subiram, — diz o Velho, vindo em seu socorro.</p>
<p>— Garçom, me traz mais uma, — diz Maria da Penha, mostrando o copo quase vazio.</p>
<p>— Quero mais uma dose de martini, — diz o Velho, audacioso, e, virando o cálice, enxuga-o até o fundilho.</p>
<p>— E o senhor, nada? — garçom pergunta a Garibaldi.</p>
<p>— Só quando a pizza vier, — rebate Garibaldi: — quando e se.</p>
<p>— Já está saindo, senhor, — garçom afirma.</p>
<p>— Uma das poucas fotos de Claxton, — diz Maria da Penha, — em que eu vi alguma fumaça é uma foto de dois bateristas, quem são eles mesmo, Garibaldi?</p>
<p>— Philly Joe Jones e Larance Marable, — diz Garibaldi.</p>
<p>— Seja, — diz Maria da Penha. — Os dois estão sentados no chão, ao lado das peças de uma bateria, olhando pra uma mulher de quem só dá pra ver na foto o braço, apoiado na banqueta do baterista. Entre os dedos ela segura um cigarro aceso que deixa no ar uma nódoa de fumaça. O que eu acho sintomático é que os dois músicos são negros, e isso parece significar que, na cabeça de Claxton, a saúde fotográfica era um monopólio dos músicos brancos.</p>
<p>— Nem tanto, Penha, — diz Garibaldi. — Você está esquecendo, só pra exemplificar, aquela foto que Claxton fez de Chet Baker sentado no chão aos pés do piano de Teddy Charles.</p>
<p>— Não é uma foto que foi tirada de cima? — diz Maria da Penha. — Não me lembro de fumaça naquela foto.</p>
<p>— Não tem fumaça, — diz Garibaldi, — mas sobre o teclado do piano, no canto direito, tem um cinzeiro cheio de guimbas de cigarro dentro.</p>
<p>— É? — diz Maria da Penha, franzindo a testa por via das dúvidas.</p>
<p>— Mas eu, — diz Garibaldi, — que não faço questão de fumaça numa foto de jazz, tenho que reconhecer que Claxton tirou belas fotos de Art Pepper. Era ele que fazia as fotos pras capas dos discos das gravadoras Pacific Jazz e Contemporary, que lançaram os discos de Art Pepper nos anos 50 e 60.</p>
<p>— Todas as fotos que ele fez de Art Pepper são muito clean, — diz Maria da Penha. — Elas salientam o bom mocismo do rapaz, a serenidade, a suavidade, quando a gente sabe que a coisa era bem diferente. O próprio Art Pepper confessou que aquelas fotos dele junto às árvores de um bosque foram tiradas num momento em que ele estava agoniado por falta de heroína.</p>
<p>— Nessa mesma ocasião, — diz Garibaldi, — Claxton tirou a foto mais fabulosa de Art Pepper. Dá pra deduzir que é a mesma ocasião pelas roupas que ele está usando, um paletó de lã por cima de uma camisa quadriculada.</p>
<p>— É a foto da ladeira, — diz Maria da Penha.</p>
<p>— Isso mesmo, — diz Garibaldi. — A foto é tirada do alto de uma ladeira de terra, quase a pique, mostrando lá embaixo uma área residencial meio rural, um subúrbio de Los Angeles em 1956. Pepper está subindo a ladeira, com o sax seguro no vão do braço, e a impressão que dá é que um passo em falso e ele rola ladeira abaixo com sax e tudo. A foto tem um toque de vertigem que sempre foi a marca registrada da vida e da música de Art Pepper, por isso eu tenho que bater palmas pra William Claxton.</p>
<p>Garçom volta com as bebidas. Agora ele aprendeu: vai o copo de Malzbier pra Maria da Penha e pro Velho o cálice de martini com a cereja empalitada.</p>
<p>— Agora, tanto Leonard como Claxton, — diz Maria da Penha, — fizeram algumas fotos que eu tenho especial predileção por elas. Nessas fotos a pessoa do músico não aparece, mas está representada pelo instrumento ou até por outros objetos. São fotos metonímicas.</p>
<p>— Já vi uma foto assim, — diz o Velho. — É uma foto da maleta de Dizzy Gillespie, aberta, mostrando todo o conteúdo.</p>
<p>— Essa foto, — diz Maria da Penha, — foi tirada por um fotógrafo chamado Mephisto.</p>
<p>— Deve ser um capeta dando uma de fotógrafo, — diz Garibaldi. — Ou então é só um veado querendo dar uma de capeta. Mephisto&#8230; Um pseudônimo desses me cheira a coisa de veado. Esse cara não é veado não, Penha?</p>
<p>— Não sei nem quero saber, — replica ela, e toma um gole de cerveja.</p>
<p>— Mas, além do trompete inconfundível de Gillespie, — continua o Velho, — dá pra ver na maleta escovas, estojos, toalhas, e até um caderno de partituras, o famoso Real Book.</p>
<p>— Famoso no pior sentido, — diz Garibaldi. — Lady Embratel conta que, aqui mesmo em Vitória, quando um músico comete erros na exposição de um tema os colegas dizem uns pros outros: Estudou pelo Real Book.</p>
<p>O Velho já traçou a cereja e num só gole ingere metade da dose de martini.</p>
<p>— Tem outras fotos nessa linha, — diz Maria da Penha. — Tem uma de William Claxton, por sinal célebre, que mostra o trompete de Chet Baker repousando sobre o assento do Cadillac conversível dele. É uma das fotos esterilizadas de Claxton. Já Herman Leonard fotografou os sapatos de Duke Ellington e o chapéu de Lester Young, aquele chapéu de feltro de copa chata e de aba virada pra cima, que na foto parece que está suspenso no ar. Também tem uns rabiscos de fumaça na foto, escapando de um cigarro aceso equilibrado no bico de uma garrafa. Uma garrafa fumante, quem diria.</p>
<p>— Pork pie hat, — diz Garibaldi. — É como se chama esse chapéu em inglês. Por isso é que Charles Mingus chamou de &#8220;Goodbye Pork Pie Hat&#8221; o réquiem que compôs em homenagem a Lester Young.</p>
<p>— Belíssimo réquiem, — diz o Velho, que em tudo quer dar palpite. — Ouvi uma versão muito bonita com John Handy no sax-alto. Está no disco Mingus Ah Um.</p>
<p>— Gosto mais, — diz Maria da Penha, — daquela do disco Mingus Mingus Mingus. Tem uma atmosfera fantasmagórica e um solo doído de sax-tenor. Nunca ouvi tanta dor num sax a não ser no solo de Art Pepper em &#8220;Summertime&#8221;.</p>
<p>Parece que ela está aprendendo depressa.</p>
<p>— Também gosto mais dessa versão, — concorda professor Garibaldi. — O solo de tenor é de Booker Ervin. O arranjo é tão lúgubre que os instrumentos soam como carpideiras, e a sensação é que você está num velório. Já a versão com John Handy, sem querer desmerecer o moço, pode até ser usada como acompanhamento pra um strip-tease. Não ouço luto nenhum ali.</p>
<p>— Bom, — o Velho começa a dizer, e acaba ali mesmo onde começou, por falta de argumentos. Pra disfarçar, emborca o cálice de martini e sorve tudo que flutuava ali pintado de vermelho.</p>
<p>— Mas será que ninguém vai me perguntar qual a foto que eu gosto mais? — queixa-se Garibaldi.</p>
<p>— Está bem, Garibaldi, — diz o Velho. — Considere-se perguntado.</p>
<p>— Pois a foto de jazz que eu mais gosto, — diz Garibaldi, — é a foto que Art Kane tirou em agosto de 1958 no Harlem.</p>
<p>— Muito bem lembrado, Garibaldi, — concorda Maria da Penha. — Aquela foto é sensacional.</p>
<p>O Velho está por fora e precisa ser informado a respeito. Garibaldi se encarrega disso com prazer:</p>
<p>— Nunca houve uma foto como essa, nem antes nem depois. Art Kane, que era fotógrafo da revista Esquire, fez espalhar a notícia que em tal dia, às dez horas da manhã, ia estar na rua 126, no Harlem, entre as avenidas Quinta e Madison, pra tirar uma foto de músicos de jazz. Porra, dez horas da manhã é um horário proibitivo pra músicos. Os colegas dele disseram: Não vai aparecer ninguém. Mas apareceu, sim. Apareceram 57 músicos, e Art Kane fez a foto mais histórica do jazz: é um dilúvio de músicos que transborda pelos degraus de um prédio e alaga a calçada até o meio-fio. Tem gente de todos os tipos ali, de todas as idades, de todas as escolas de jazz. Só pra citar os mais conhecidos, Count Basie está ali, e Coleman Hawkins, e Lester Young, e Thelonious Monk, e Charles Mingus, e Dizzy Gillespie, e Roy Eldridge, e Pee Wee Russell, e Sonny Rollins.[ * ] No meio deles tem até um músico misterioso, Bill Crump, que, segundo as poucas informações que existem sobre ele, era um saxofonista de strip-tease que veio de Buffalo pra Nova York à procura de trabalho. Na internet você pode ver a foto de fora a fora mas pode também selecionar grupos de músicos, pra examinar melhor os detalhes. Dizzy Gillespie, palhaço como sempre, está botando a língua de fora. Lester Young, ao contrário, parece que está engolindo a língua. Gerry Mulligan parece um fantasma: branco de dar medo. Count Basie cansou de esperar que a putada se arrumasse pra tirar a foto e sentou no meio-fio ao lado de uns doze pivetes do Harlem. Cara, a foto é do cacete. A idéia foi brilhante e o resultado está à altura da idéia.</p>
<p>— A gente viu também, — diz Maria da Penha, — o documentário de Jean Bach sobre o making of da foto, que Rogério Coimbra emprestou pra gente. Esse documentário, que é de 1995, inclui entrevistas com alguns dos poucos músicos que ainda estavam vivos e alguma filmagem que fizeram no dia, mostrando a chegada dos músicos, os abraços, as conversas, os preparativos. Esse documentário também é fantástico. Chama-se A great day in Harlem.</p>
<p>— Foi realmente um grande dia, — diz Garibaldi. — Os músicos curtiram, os fotógrafos e cinegrafistas curtiram, os pivetes curtiram, e nessa brincadeira produziu-se um documento histórico sem precedentes nem sucedentes.</p>
<p>Garçom chega junto, apodera-se do cálice vazio de martini e pergunta ao Velho se aceita mais uma dose. O Velho aceita, álacre.</p>
<p>— Eu gosto dessa foto por duas razões principais, — diz Garibaldi. — Primeiro, porque é a foto da nação do jazz, tirada na capital do jazz, e num clima de curtição que está na alma do jazz: aquela foto é o resultado de uma jam session fotográfica. Segundo, porque Miles Davis não está na foto. O cara não foi ou porque deve ter se achado bom demais pra participar da brincadeira, ou porque achou que fosse passar despercebido no meio dos verdadeiros gigantes do jazz, ou porque não ia receber cachê nenhum. Quem quiser que escolha a razão mais plausível pra ausência de Miles Davis, ou até todas essas razões juntas e outras mais. Não importa. Importa é que Miles Davis ficou em casa se olhando no espelho e ainda bem. Assim a foto não ficou poluída com a presença dele.</p>
<p>Garibaldi conclui a peroração com uma risada gutural.</p>
<p>— Tive uma idéia, — diz o Velho; sua voz soa mais solta do que nunca. — Uma idéia brilhante. Maria da Penha precisa tirar uma foto da gente.</p>
<p>— Da gente quem? — pergunta Garibaldi.</p>
<p>— Da gente, de nós todos, da turma, do Clube das Terças. Do decateto.</p>
<p>Garibaldi derruba o beiço e fica pensativo.</p>
<p>— Por incrível que pareça, — diz ele, — a idéia não é de todo ruim. Não, não é nada ruim. Pelo contrário, não deixa de ser uma boa idéia. É, tenho de admitir que a idéia até que é boa. Mais que boa. É muito boa. Se facilitar, vai ver que é uma ótima idéia.</p>
<p>— Que que você acha, Maria da Penha? — pergunta o Velho.</p>
<p>— Eu cobro pela tabela do sindicato, — diz ela, profissional.</p>
<p>— A gente faz uma vaquinha e paga, — diz o presidente do Clube, metendo de antemão a mão no bolso dos demais sócios. — Olha só: Maria da Penha faria uma foto oficial, com os dez sócios juntos, e fotos individuais de cada um de nós. Tudo em p&amp;b, é claro. E de repente a gente até publica um livro sobre o Clube, ilustrado com todas as fotos que Maria da Penha tirar.</p>
<p>— Com que dinheiro? — diz Garibaldi.</p>
<p>— Com dinheiro da Lei Rubem Braga, — diz o Velho.</p>
<p>— Vai ser um best-seller, — diz Maria da Penha, sardônica.</p>
<p>— Gostei da idéia das fotos individuais, — diz Garibaldi. — Cada um de nós seria fotografado na sua postura mais característica. Lady Moraes tomando um gole daquele garrafão de água que ele leva pro Clube; Lady Mazzi parado no ar, que nem um beija-flor, no meio de um daqueles saltos que ele dá na tentativa, sempre frustrada, de cabecear uma das placas que pendem do teto do Centro da Praia; Lady Romero se apresentando num dos happy-hours do shopping, só que tocando três instrumentos ao mesmo tempo, que nem Roland Kirk: um sax, uma casquinha de sorvete de abacaxi e um livro de Jacques Derrida; Lady Nunes fumando placidamente em sua cadeira, olhando pro alto, que nem Dexter Gordon.</p>
<p>— Uma foto do jeito que você gosta, — diz o Velho pra Maria da Penha: — com fumaça que não acaba mais.</p>
<p>— Lady Gurgel, — continua Garibaldi, — com um pão de mel numa mão e uma xícara de café frio na outra e, sobre a mesa, o cd de algum músico de jazz bem obscuro, tipo Phil Urso ou outro qualquer; Lady Embratel no ato exato de sorver um gole de sua tulipa de chopp, com a cuia dos pães de queijo na cabeça; Lady Coimbra sentado numa cadeira, com um braço em torno de outra cadeira, com cara de quem está cansado pra caralho; Lady Achiamé chegando atrasado à reunião, naquele passo de quem curte uma balada; você, Lady Pres, comendo um pé-de-moleque presidencial; e, finalmente, eu, Lady Magalhães, ouvindo na ostra um cd de Art Pepper, com uma cara bem inteligente.</p>
<p>— Essa vai ser a mais difícil de fazer, — diz Maria da Penha.</p>
<p>— Difícil vai ser você chegar no shopping certo, — diz Garibaldi. — Em vez do Centro da Praia, é capaz de ir parar no Boulevard da Praia.</p>
<p>— Só está faltando uma coisa nessas fotos, — diz Maria da Penha. — Não tem ninguém olhando pra uma bunda de mulher.</p>
<p>O Velho fica vermelho, como se tivesse culpa no cartório. Garibaldi ri:</p>
<p>— Penha botou na cabeça que a gente vai pro clube pra olhar mulher. No nosso clube não tem veado, mas todo mundo é sério e fiel aos seus compromissos, não é, presidente?</p>
<p>— Não, claro que não, — diz o Velho, confirmando a primeira metade da declaração de Garibaldi e deixando a segunda pra lá.</p>
<p>— Acredito piamente, — diz Maria da Penha, e acende, sem remorso, um novo cigarro.</p>
<p>— Lady Gotti, — diz o Velho, — se me permite, tenho um pedido a fazer.</p>
<p>— Lady Gotti? — diz Garibaldi. — Cara, isso de chamar as pessoas de lady, que nem Lester Young fazia, é prerrogativa minha e só minha. Tá querendo me plagiar?</p>
<p>— Você chama os homens de lady, — defende-se o Velho. — Eu chamo de lady as próprias ladies. É diferente.</p>
<p>— Qual é o pedido? — pergunta Lady Gotti.</p>
<p>— Depois dessa conversa toda sobre fumaça, — diz ele, — fiquei seco por um cigarro. Você pode me dar um dos seus?</p>
<p>Lady Gotti fica um átimo surpresa. Só um átimo. No átimo seguinte estende o próprio cigarro pro Velho.</p>
<p>— É o meu último, — diz ela. — Pode ficar.</p>
<p>O Velho recebe o cigarro como uma dádiva do outro mundo. Olha-o entre os dedos com reverência antes de levá-lo aos lábios. Ali deixa-o arder espontâneo por trinta segundos, entregue, de olhos cerrados, ao arroubo de ter entre os lábios um cigarro que provém dos lábios mesmos da pessoa amada. Depois aspira a doce e sagrada fumaça.</p>
<p>Na primeira tragada sobrevém-lhe um acesso de tosse.</p>
<p>Lady Gotti levanta-se e dá-lhe umas palmadas nas costas. Garibaldi, de onde está, colabora com o tratamento dizendo: São Brás, São Brás. O Velho tosse mais um pouco, debaixo das palmadas terapêuticas de Lady Gotti, até que passa o acesso.</p>
<p>— Obrigado, — diz ele, com os olhos pingando de lágrimas.</p>
<p>— Não sabe nem fumar não? — pergunta Garibaldi.</p>
<p>— Pensei que fosse mais fácil, — diz o Velho.</p>
<p>Garibaldi abre a boca pra dizer uma coisa, mas os olhos resvalam por cima da cabeça do Velho e cintilam de êxtase. Aí ele, que abriu a boca pra dizer uma coisa, diz outra:</p>
<p>— Aí vem a nossa pizza!</p>
<p>Nunca se saberá que coisa Garibaldi abriu a boca pra dizer. Mas pode-se ter certeza de que dificilmente seria de mais suma importância do que aquilo que ele disse em seu lugar. Quatro anos depois de feito o pedido, eis que enfim chega à mesa doze da pizzaria de Jardim Camburi a pizza gigante, metade palmito, metade marguerita, pra consumo, com os leitores por testemunhas, dos três personagens ali reunidos. A ocasião é tão memorável que exige uma comemoração metalingüística.</p>
<p>Que se comemore a chegada da pizza, então, com a ovação silenciosa de uma quebra de capítulo.</p>
<p>[ * ] São os seguintes os 57 músicos que aparecem na foto de Art Kane: Count Basie, Hank Jones, Jimmy Jones, Marian McPartland, Thelonious Monk, Luckey Roberts, Horace Silver, Mary Lou Williams, pianistas; Red Allen, Emmett Berry, Buck Clayton, Roy Eldridge, Art Farmer, Dizzy Gillespie, Taft Jordan, Max Kaminsky, Rex Stewart, trompetistas; Scoville Browne, Bill Crump, Bud Freeman, Benny Golson, Johnny Griffin, Gigi Gryce, Coleman Hawkins, Hilton Jefferson, Gerry Mulligan, Rudy Powell, Sonny Rollins, Sahib Shihab, Joe Thomas, Ernie Wilkins, Lester Young, saxofonistas; Art Blakey, Sonny Greer, J.C. Heard, Osie Johnson, Jo Jones, Gene Krupa, Eddie Locke, Zutty Singleton, George Wettling, bateristas; Milt Hinton, Chubby Jackson, Charles Mingus, Oscar Pettiford, Wilbur Ware, contrabaixistas; Lawrence Brown, Vic Dickenson, Tyree Glenn, J.C. Higginbotham, Miff Mole, Dicky Wells, trombonistas; Buster Bailey, Pee Wee Russell, clarinetistas; Stuff Smith, violinista; Jimmy Rushing, Maxine Sullivan, cantores. Curioso não ter aparecido nenhum guitarrista.</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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