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	<title>Arquivos Rio Doce &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<title>Arquivos Rio Doce &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Informação que Francisco Manoel da Cunha deu sobre a província, então capitania, do Espírito Santo, ao ministro de Estado Antônio de Araújo Azevedo, 23/6/1811.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 May 2016 21:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Francisco Manoel da Cunha]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Rio Doce]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Navegação no Rio Doce, dezembro de 1815. Aquarela de autoria do príncipe &#160;Maximilian Von Wied.&#160; (Oferecida ao Instituto pelo sócio correspondente, o senhor Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva) Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor — Pesar as forças respectivas dos Estados, discutir os interesses dos soberanos, estudar suas pretensões, observar suas rivalidades, peneirando através do véu [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/">Informação que Francisco Manoel da Cunha deu sobre a província, então capitania, do Espírito Santo, ao ministro de Estado Antônio de Araújo Azevedo, 23/6/1811.</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;">
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-nQszGAsTXY4/V0SCKMaimSI/AAAAAAAAH-4/Z8G-7O4LUOwrdSUOCMWIcfYWqjO00QBkQCLcB/s1600/Shipping%2Bon%2Bthe%2BRio%2BDoce%252C%2BDecember%2B1815.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Navegação no Rio Doce, dezembro de 1815. Aquarela de autoria do príncipe  Maximilian Von Wied. " border="0" height="438" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/05/Shipping2Bon2Bthe2BRio2BDoce252C2BDecember2B1815.jpg" class="wp-image-5336" title="Navegação no Rio Doce, dezembro de 1815. Aquarela de autoria do príncipe  Maximilian Von Wied. " width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Navegação no Rio Doce, dezembro de 1815. Aquarela de autoria do príncipe &nbsp;Maximilian Von Wied.&nbsp;</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
(Oferecida ao Instituto pelo sócio correspondente,</div>
<div style="text-align: right;">
o senhor Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva)</div>
<div style="text-align: right;">
</div>
<p>
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor — Pesar as forças respectivas dos Estados, discutir os interesses dos soberanos, estudar suas pretensões, observar suas rivalidades, peneirando através do véu que encobre a política dos gabinetes, possuir a fundo os costumes, o caráter, o gênio das nações, os talentos e a capacidade dos particulares distinguidos em cada estado, e decidir sabiamente num golpe de vista infalível, das finanças, da guerra, da marinha, da história, justiça, religião, prerrogativas e direitos do soberano; eis aqui, Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor, os sinais característicos, que distinguem a Vossa Excelência, e o justo elogio, que lhe consagram todos aqueles que amam o estado e a nação.</p>
<p>Certificado pois pela experiência nestes princípios, tenho a honra de apresentar a Vossa Excelência uma verdadeira pintura da capitania do Espírito Santo, cujo quadro mostra a origem do rio Doce, onde Vossa Excelência observará os principais obstáculos que dificultam a intentada navegação daquele rio, que seria de grande utilidade para as províncias da Bahia e Minas Gerais se a mesma navegação tivesse o desejado êxito.</p>
<p>O rio Piranga e São José do Sipotó, o ribeirão do Carmo, que passa pela cidade de Mariana, e que ambos fazem barra no lugar denominado Matias Barbosa, são os progenitores do rio Doce: alguns pequenos córregos e regatos assoberbam o curso deste rio até o de Antônio Dias, donde descem as canoas. Não me esquece dizer, Excelentíssimo Senhor, que existem várias cachoeiras impraticáveis antes de chegar a este arraial. Cinco léguas distante do porto de Antônio Dias vê-se a primeira cachoeira, denominada Alegre; oito léguas mais abaixo descobre-se a chamada Escura; aqui, o rio de Santo Antônio dos Ferros (inavegável) vem depositar as águas. Daí a dez léguas aparecem as duas cachoeiras de Bagari: nesta posição, os rios dos Bugres e da Corrente baralham-se com o rio Doce. Na distância de oito léguas acham-se os rochedos de Bituruna, e defronte destes penedos vem desaguar o rio <span id="IQFM_RP1V">Suçuí</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP1" title="No original, Sussuy."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> Grande, tendo pouco mais acima desembocado igualmente o rio Suçuí Pequeno. Três léguas depois o ávido mineiro encontra a cachoeira da Figueira, avançando mais oito léguas observa a do Sapê, e dali a sete a do Cuité; aqui entra o rio do mesmo nome. Viajando-se mais quatro léguas acha-se a cachoeira do Eme, e três léguas avante está a conhecida pelo nome do Inferno.</p>
<p>O rio <span id="IQFM_RP2V">Manhuaçu</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP2" title="No original Manassú."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> alonga-se outras tantas léguas desta última cachoeira; ali está o quartel de Lorena, e navegando-se quase uma légua encontra-se a ilha da Natividade, donde principiam os pedregulhos conhecidos pelo nome de Escadinhas, que se dilatam até o rio Guandu, nas circunvizinhanças do porto de Souza, extrema das capitanias de Minas Gerais e Espírito Santo. Tais são, Excelentíssimo Senhor, os grandes obstáculos confessados pelos mesmos mineiros desde a vez primeira que se comunicaram com os capitanienses por aquele rio, que dificultam, como já disse, a sua freqüente navegação; mas obstáculos que foram tão facilmente removidos pelo atual governador da capitania do Espírito Santo, Manoel Vieira de Albuquerque e Tovar, na ligeira e curta viagem que fez por aquele rio; cuja execução ainda se não viu, nem tão pouco a chegada das canoas de Minas, que ali se esperavam dentro de oito dias, com gêneros permutáveis, como dizia o mesmo governador em um ofício, que nesta corte, logo que chegou da sua viagem, dirigiu ao Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor conde de Linhares.</p>
<p>A navegação do porto do Souza até a barra é mais cômoda, por se não encontrar tantos penedos; mas o fundo do canal é sempre desigual. Cento e quarenta ilhas, desde o lugar do Cascalho até o quartel da Regência Augusta, dividem este rio como em dois, cuja corrente é assaz extraordinária. A sua largura, desde a foz ate o já dito lugar do Cascalho, é quase sempre de um quarto de légua, e cheia de grande bancos de areia, tanto da parte do norte, como do sul. A barra não é estável: umas vezes tem dez a treze palmos, outras vezes sete, cinco, etc. Não há ali um surgidouro capaz de ancorar qualquer embarcação, e para escapar à rapidez da corrente é necessário segurar-se com cabos em terra. A entrada da barra é dificultosa e de grande perigo: esta entrada só com vento feito pode ser feliz, pois nada mais é capaz de vencer a aluvião de tantos rios combinados em um só ponto. Os baixos de um e outro lado impossibilitam as embarcações poderem bordejar, e se quisessem prosseguir a viagem pelo rio acima, não poderiam <span id="IQFM_RP3V">surmontar</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP3" title="Ultrapassar."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> pelas diferentes direções do canal, que ora demanda ao norte e noroeste, ora a oeste o sudoeste, e seriam necessários muitos ventos favoráveis a um mesmo tempo, para que as embarcações evitassem seu naufrágio.</p>
<p>Da barra do rio Doce, onde está o quartel da Regência Augusta, marchando-se pela praia na longitude de três léguas, está o quartel chamado dos Comboios, retirado da mesma praia um quarto de légua: aqui passa o rio ou, para melhor dizer, a lagoa do Campo, e se formos a combinar o tempo que se gasta daí ao lugar do Riacho, seja embarcado por esse pântano, ou vindo pela praia, a viagem sempre é igual. Ainda me recordo, que toda essa praia, desde o rio Doce até o dito sitio do Riacho (onde está um quartel já desamparado), é insuportável; a sua extensão é de sete léguas. A lagoa do Campo dista deste lugar para o oeste poucas horas de jornada, tanto por terra, como pelo mesmo rio, que lá vai ter.</p>
<p>Saindo do Riacho, e andando-se três léguas, está a Aldeia Velha: o rio neste lugar admite em si bergantins<span id="IQFM_RP4V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP4" title="Veleiro armado com dois mastros com velas latinas triangulares. [Dicionário Houaiss]"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> que muitas vezes têm ido carregar madeiras de que ricamente abundam as suas matas. Cinco ou seis horas de viagem pelo rio acima, a oeste-noroeste, está o destacamento de Piraqueaçu<span id="IQFM_RP5V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP5" title="No original Piraqui-Assu."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> composto unicamente de índios; e mais abaixo, por um braço do mesmo rio que demanda ao sul, vê-se o lugar denominado Piraquê-Mirim, onde há pouco sucedeu a catástrofe horrível, da qual falarei na continuação desta Memória. A Aldeia Velha em si não merece atenção; algumas pequenas casas, e pela maior parte cobertas de palhas e alongadas umas das outras, formam a totalidade dessa chamada povoação, de um a outro lado do rio.</p>
<p>Vila Nova de Almeida dista da Aldeia Velha tantas léguas quantas achamos do Riacho à mesma Aldeia: esta vila nutria algum comércio antes da proibição da corte, venda e exportação das madeiras, cujo interdito foi posto pelo atual governador: os habitantes dela são todos índios, excetuando-se alguns europeus ali estabelecidos. Todas as casas são cobertas de palhas, as paredes de barro; e só o colégio, que foi dos proscritos jesuítas, e seis ou sete prédios dos portugueses já domiciliados, se vêem cobertos de telhas. O rio que dá ou tira seu nome da dita vila e que corre ao norte dela, é de nenhuma conseqüência, pois que só admite canoas e pequenas lanchas. O Senado da Câmara dessa vila e o capitão-mor são índios de nação; em uma palavra, Excelentíssimo Senhor, eu vejo ali a miséria como no seu foco paternal.</p>
<p>Agora temos de chegar à vila capital, que mora oito léguas ao sudoeste da de Almeida. Esta vila denominada da Vitória, está situada em uma espécie de ilha: o braço-de-mar, que forma o seu ancoradouro, segue o oeste por mais de légua e meia e, dirigindo-se para o norte e leste, torna a engolfar-se no mesmo mar: a largura desta ilha, de norte a sul, será pouco menos de duas léguas, e de leste a oeste a sua extensão não é regular. Nove igrejas e dois conventos de religiosos aparecem no meio desta vila, que se estende sobre uma colina à maneira de um anfiteatro: as casas não são belas; ali não há divertimentos, porque a pobreza da terra assim o permite. O comércio, que consiste em pequenas quantidades de açúcar, aguardente, café, milho, feijão, arroz e algodão, não é bastante para animar os seus habitantes, e as suas pequenas embarcações só navegam ao longo das costas limítrofes do Rio de Janeiro e Bahia, e raras vezes se atrevem a viajar para Pernambuco ou Rio Grande do Sul. A maior parte das mulheres, só seu exercício diário é fiarem o algodão, percebendo deste trabalho unicamente três ou quatro vinténs: a agricultura está como esquecida; não há um só negociante capaz de animar ali os diversos gêneros do comércio, ou seja em artigos europeus, asiáticos ou africanos, donde nasce a desgraça e comiseração daquele país, de tal sorte que, mesmo arruinando-se qualquer prédio, jamais o reedificam.</p>
<p>A barra desta vila está na distância de pouco mais de légua, e nesta extensão apenas aparecem dois pequenos fortes; o de São Francisco Xavier ou Piratininga na dita barra, e o de São João Dongado, pelo rio acima mais de três quartos de léguas; sobre o cimo do monte, em cuja fralda está este forte, ainda hoje existe uma pequena muralha que antigamente serviu de defesa aos holandeses.</p>
<p>O rio de Santa Maria, que deságua no braço-de-mar que forma o ancoradouro da vila da Vitória, é assaz belo; as suas margens são cobertas de fazendas, e as matas vizinhas compõem-se de preciosas madeiras. A sua navegação é feita por canoas, pois o canal não admite embarcações de maior porte. Se a nova estrada que de Minas Gerais se dirige pela serra dos Arrepiados, e que, segundo dizem, vai ter à capitania do Espírito Santo, por esse rio se efetuasse, seria esta comunicação de maior vantagem que a navegação do rio Doce, porque desembocando o dito rio quase légua e meia distante da vila, no lugar chamado Lameirão<span id="IQFM_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP6" title="No original, Lamarão."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> seriam facilmente exportados os gêneros de Minas, importados diretamente na vila da Vitória.</p>
<p>Pouco acima do forte dito de São Francisco Xavier da Barra está a vila do Espírito Santo, a primeira que houve naquela capitania; quarenta casas pouco mais ou menos, e pela maior parte cobertas de palhas, compõem essa povoação. Ainda ali se vêem os alicerces de uma pequena alfândega, estabelecida logo depois da descoberta da mesma capitania, e que desapareceu, bem como a antiga navegação, que ela nutria diretamente com a Europa e África, de que hoje não há a mais ligeira sombra.</p>
<p>Desta vila segue a estrada que vai ter à vila de Guarapari<span id="IQFM_RP7V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP7" title="No original, Guaraparin."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> ao sul desta outra; Guarapari tem um porto capaz de ancorar embarcações sem o menor perigo; esta vila não é grande, e entretanto tem todas as comodidades possíveis para o comércio, e os mesmos gêneros que se exportam da vila da Vitória, aí mesmo se acham; além disto as madeiras são mais abundantes. Duas igrejas há nesta vila: e a inércia dos seus habitantes equilibra com a dos de toda a capitania. As águas potáveis não são boas, mas o terreno é fértil. Esquecia-me dizer a Vossa Excelência, que vindo da vila do Espírito Santo para esta, não se encontram rios memoráveis; porque uma légua distante da primeira vê-se o rio Jucu<span id="IQFM_RP8V"></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP8" title="No original, Jecu.">,<sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> cuja barra é só capaz de receber canoas; duas léguas antes de chegar a esta última vila encontra-se o rio de Una; e um quarto depois o de Perocão, todos semelhantes ao de Jucu.</p>
<p>De Guarapari à vila de <span id="IQFM_RP9V">Benevente</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP9" title="Hoje Anchieta."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> há seis léguas: esta vila demora ao sul; o seu porto fica no fundo de uma larga enseada que o mar ali forma, semelhante a uma grande bacia, e que tem bastante água para nadarem bergatins de maior porte, como por vezes já têm ancorado aí mesmo, tanto embarcações nacionais como estrangeiras. Aqui fabricam-se sumacas etc. As madeiras são muitas: os gêneros comerciais são os mesmos que os de Guarapari, e uma só igreja (o colégio dos jesuítas) existe nesta pequena vila. Todavia a pobreza aqui grandemente em sua extensão também aparece. O rio conhecido pelo nome de Aldeia, e que vem banhar o lado meridional da dita vila, é navegável pelo sertão até a última das fazendas situadas pelas suas margens. Duas léguas, seguindo sempre a direção do sul e distantes de Benevente está o rio Piúma, em tudo igual ao de Jucu. Marchando-se pouco mais de légua, chega-se ao grande monte do Agá, uma das balizas dos navegantes para aquela capitania; nas fraldas deste monte está a melhor água de toda a costa meridional. Daí a pouco mais de cinco léguas acha-se o rio Itapemirim, que dá o seu nome à povoação, que dista da barra meia légua; este rio algumas vezes admite grandes lanchas. É muito digno de notar-se, que ficando a vila do Guarapari ao norte da de Benevente, seja esta povoação sujeita às justiças da primeira vila. O terreno de Itapemirim não deixa de ser fértil: a povoação deste nome é assaz pequena, e sua única igreja, por muito velha, é digna de ser mencionada.</p>
<p>Seguindo pela praia, e passando através das barreiras do Ciri, toca-se em Itabapoana, último lugar da capitania do Espírito Santo. O rio de Itabapoana é só navegável algumas vezes para pequenas lanchas, e sempre para canoas: aqui nada vejo que mereça atenção. Neste porto, cuja população é composta de oito casas cobertas de palhas, existe um quartel onde estão destacados um cabo e quatro soldados da companhia de linha, a única que há na vila capital da Vitória; e, tanto em Itapmirim e Benevente, como em Guarapari, acham-se outros semelhantes destacamentos. Recordo-me que desde o rio Doce até Itabapoana a estrada é sempre pela costa do mar, e raras vezes dela se aparta.</p>
<p>Tendo dado esta pequena exposição sobre a capitania do Espírito Santo, permita-me Vossa Excelência tratar ainda da guerra que se mandou fazer contra o gentio botocudo, estacionado pelos sertões daquele país. Esta guerra não teve o êxito que se esperava. Algumas divisões, que entravam após do Botocudo, voltavam em dois ou três dias sem nada fazerem: as estradas novamente abertas em alguns lugares do sertão daquela capitania, e chamadas intermédias pelo governador atual, tão-somente servem de conduzir o gentio como pela mão aos lugares já povoados. Uma destas estradas, que vai sair no Piraquê-Mirim, lugar onde os índios domesticados laboram a terra, foi a causa de serem <span id="IQFM_RP10V">atassalhados</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP10" title="Dizimados."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> alguns dos mesmos indígenas ali domiciliados. O chefe de uma das ditas divisões, de nome Miguel da Silva, índio de nação, marchando por uma das estradas intermédias, que, do Piraqueaçu, correndo pelas cabeceiras da lagoa do Campo, vai ter ao rio Doce, defronte do quartel de Contins, hoje Linhares, este comandante foi sempre atacado na sua retaguarda pelos bárbaros; e certamente lhe fariam alguma emboscada se ele não recebesse algum socorro de Linhares.</p>
<p>A maior parte da freguesia da Serra tem sido infestada por tais selvagens, que tem chegado até Carapina, lugar que dista duas léguas da vila capital, e cujos habitantes se acham refugiados nela. O rio de Santa Maria igualmente foi vítima da sua ferocidade: eles aí postejaram uma mulher ainda viva, devorando-a, depois de haverem cometido outros atentados; e as providências que deram foram quase nenhumas. Certamente a horda botocuda estaria submetida, Excelentíssimo senhor, se as tribos Tatavó e Manaxó fossem atraídas pela doçura e amizade. É assim que Lombard e Ramette se fizeram amados dos índios galibis: é assim que Champelain, remontando o rio de São Lourenço, adoçou os costumes dos Algonquins, dos Huronnes, e dos Iroqueses; mas infelizmente esta tática é desconhecida do governador atual da capitania do Espírito Santo. Tal é o estado presente daquela capitania.</p>
<p>Eu me contemplaria importuno se avançasse mais na minha narração; e, confundido no meu próprio nada, espero que Vossa Excelência desculpará os erros da presente Memória. Conheço que tenho a honra de falar diante de uma pessoa que pertence à ordem das inteligências destinadas a manejar as molas dos Estados. Entretanto queira Vossa Excelência receber o pequeno serviço da minha gratidão, e a certeza de que sou com o mais profundo respeito. De Vossa Excelência, o mais reverente servo, obrigado e criado, Francisco Manoel da Cunha. Rio de Janeiro, em 23 de junho de 1811. — Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Antônio de Araújo e Azevedo, conselheiro de Estado de Sua Majestade.</p>
<p>[Informação publicada na Revista do IHGB, 1842, tomo IV, p. 240-247.]</p>
<p>Transcrição e notas: Maria Clara Medeiros Santos Neves</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<span style="font-size: x-small;"><br /></span><br />
_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="IQFM_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;No original, Sussuy.</div>
<div id="IQFM_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;No original Manassú.</div>
<div id="IQFM_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Ultrapassar.</div>
<div id="IQFM_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Veleiro armado com dois mastros com velas latinas triangulares. [Dicionário Houaiss]</div>
<div id="IQFM_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;No original Piraqui-Assu.</div>
<div id="IQFM_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;No original, Lamarão.</div>
<div id="IQFM_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;No original, Guaraparin.</div>
<div id="IQFM_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;No original, Jecu.</div>
<div id="IQFM_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Hoje Anchieta.</div>
<div id="IQFM_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/informacao-que-francisco-manoel-da/#IQFM_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;.Dizimados.</div>
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		<item>
		<title>A exploração do rio Doce e seus afluentes da margem esquerda</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 07 Apr 2016 19:48:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[botocudos]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[Rio Doce]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
		<category><![CDATA[William John Steains]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O Rio Doce em 1815 (Gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional). Introdução O texto que se segue, de autoria de William John Steains, foi lido em sessão da Royal Geographical Society, de Londres, no dia 16 de Janeiro de 1888, e publicado no Boletim de fevereiro do mesmo ano, p. 61-79. [&#8230;]</p>
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<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-Pvc0n1nhNAQ/VwWWyJpajJI/AAAAAAAAHys/c5by745G1qEPeEMtvJ_0CTF-uGAimnPHQ/s1600/O%2BRio%2BDoce%2Bem%2B1815%2B%2528Gravura%2Bdo%2Bpr%25C3%25ADncipe%2BMaximilian%2BAlexander%2BPhilipp%2BWied-Neuwdied%2BFunda%25C3%25A7%25C3%25A3o%2BBiblioteca%2BNacional%2529..jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="O Rio Doce em 1815 (Gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional)." border="0" height="532" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/O2BRio2BDoce2Bem2B18152B2528Gravura2Bdo2Bpr25C325ADncipe2BMaximilian2BAlexander2BPhilipp2BWied-Neuwdied2BFunda25C325A725C325A3o2BBiblioteca2BNacional2529..jpg" class="wp-image-5350" title="O Rio Doce em 1815 (Gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional)." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">O Rio Doce em 1815 (Gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional).</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
<b>Introdução</b></p>
<p>O texto que se segue, de autoria de William John Steains, foi lido em sessão da Royal Geographical Society, de Londres, no dia 16 de Janeiro de 1888, e publicado no <i>Boletim</i> de fevereiro do mesmo ano, p. 61-79. Graças ao interesse da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, que adquiriu à Biblioteca Nacional cópia em microfilme do texto original e providenciou sua tradução, se publica pela primeira vez em vernáculo para conhecimento dos interessados. Em correspondência com o Royal Geographical Society, a FCAA obteve também algumas informações sobre o autor: William John Steains desde criança manifestou vivo interesse pela exploração geográfica e pelos estudos etnológicos. Veio para o Brasil aos 18 anos, a fim de trabalhar como desenhista na construção de uma ferrovia em Alagoas. Aos 22 anos concebeu e realizou a expedição ao rio Doce de que trata o presente relatório. Em 1891 estabeleceu-se na costa ocidental da África, como agente consular junto ao Protetorado da Costa do Níger. Sua saúde sofreu ali os rigores do clima, o que não o impediu de regressar àquela região em setembro de 1894, para ali morrer em novembro desse ano, com a idade de 31 anos.</p>
<p>A tradução aqui publicada é de Reinaldo Santos Neves<span id="AERD_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP1" title="Introdução feita para a publicação do texto na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, n.5, p.103-27, 1984."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Tenho a honra, esta noite, de chamar sua atenção para uma pequena região do grande império do Brasil que, atualmente, é muito pouco conhecida não só dos europeus em geral como também da maioria dos próprios brasileiros. Tendo residido cerca de três anos e meio numa das províncias do norte do Brasil, resolvi, nos primeiros meses de 1885, realizar uma exploração do rio Doce e de seus afluentes da margem esquerda. Essa exploração, que se estendeu de junho de 1885 a janeiro de 1886, foi realizada inteiramente sob minha própria responsabilidade, e por nenhum outro motivo senão pelo &#8220;simples amor à tarefa&#8221;.</p>
<p>Sendo limitados os recursos de que dispunha, evidentemente eram poucos os homens sob o meu comando, assim como, com relação às nossas provisões, tudo que posso dizer é que eram elas, por vezes, também poucas, e que, em conseqüência, nossas refeições eram feitas vez por outra. Contudo, apesar desses e de outros obstáculos, minha pequena expedição prosseguiu teimosamente o seu caminho para, depois de oito meses de sacrifício, retornar ao seio da civilização com a consciência de ter concluído de forma inteiramente satisfatória a missão a que se propôs.</p>
<p>O rio Doce está situado entre os paralelos 19° e 21° de latitude sul, e é formado por vários pequenos cursos d&#8217;água que descem da vertente oriental de uma importante cadeia de montanhas conhecida pelo nome de serra da Mantiqueira<span id="AERD_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP2" title="O ponto culminante dessa serra é Itatiaia-açu que, de acordo com Wells, está 10.040 pés acima do nível do mar, sendo 'o ponto mais alto que se conhece do Brasil'."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> Esta cadela, que se estende em direção nordeste, faz parte do irregular maciço litorâneo do Brasil, formando, por assim dizer, um &#8220;muro de arrimo&#8221; para a série de ondulosos planaltos que compõem a maior parte da região centro-sul do Brasil<span id="AERD_RP3V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP3" title="Vide o interessante trabalho do Sr. Wells sobre a 'Geografia física do Brasil', lido perante esta Sociedade em 8 de fevereiro de 1886."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> A extensão total do rio Doce é de pouco mais de 450 milhas.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-ubpwyFem45A/VwWWxD8ksFI/AAAAAAAAHy8/neG3wVSvjQsJFMfPRuAC8LUGZ80ASmc2Q/s1600/9-mapa-do-rio-doce-e-jequitinhonha.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Mapa dos rios Doce e Jequitinhonha." border="0" height="450" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/9-mapa-do-rio-doce-e-jequitinhonha.jpg" class="wp-image-5351" title="Mapa dos rios Doce e Jequitinhonha." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Mapa dos rios Doce e Jequitinhonha.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A região da bacia do rio Doce que se situa a leste da serra dos Aimorés é uma planície coberta por densas florestas, que de uma elevação de cerca de 900 pés desce gradualmente até a costa. Próximo à costa essa planície se transforma numa extensa baixada de aluvião, coberta em grande parte por lagoas pouco profundas que se comunicam entre si por meio de longos, estreitos e sinuosos cursos d&#8217;água chamados valões<span id="AERD_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP4" title="Em português no original, como todas as demais palavras em destaque no texto. (N. do T.)."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> A maior dessas lagoas é a Juparanã, que se comunica com o rio Doce, cerca de 30 milhas acima da foz, através de um canal estreito, tortuoso e profundo com sete milhas de extensão. A lagoa tem um comprimento de 18 milhas, e uma largura de aproximadamente duas e meia milhas em sua extremidade sul. É muito profunda e, à exceção de certos terrenos baixos de aluvião em suas extremidades norte e sul, está cercada de altos paredões cobertos de matas, compostos principalmente de barro avermelhado sobre uma camada de áspero cascalho vermelho. Ao norte da lagoa deságua um rio — o São José<span id="AERD_RP5V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP5" title="Nos mapas dessa região do Brasil até agora publicados, esse rio tem o nome de São Rafael, erro porém que não é muito de admirar, considerando o número de incorreções que se encontra em qualquer mapa que pretenda representar o vale do rio Doce. Um dos mapas que compulsei no Brasil mostrava três ou quatro grandes ilhas na lagoa Juparanã, quando nela só existe uma única ilha, a do Imperador, e por sinal muito pequena."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> que nasce na serra dos Aimorés e banha um território inexplorado, habitado por grupos nômades de ferozes botocudos. Na totalidade de seu curso, o São José atravessa densas florestas em que se encontra grande quantidade dessa árvore tão procurada que é o jacarandá (<i>Bignonia cocrulea Will</i>).</p>
<p>Com a exceção de dois deles, nenhum dos afluentes do rio Doce é navegável, em razão das numerosas quedas d&#8217;água e corredeiras que, em muitos trechos, obrigam o viajante a carregar por terra a sua canoa. Os rios Suçuí-Grande e Santo Antônio são os afluentes que se prestam melhor para a navegação, o segundo apresentando-se livre de obstáculos num trecho relativamente pequeno de 20 milhas de extensão. Já o rio Suçuí-Grande apresenta uma forte queda d&#8217;água pouco antes de sua confluência com o rio Doce, mas desse ponto em diante permite uma navegação ininterrupta por várias milhas.</p>
<p>Em seu curso principal, o rio é navegável até Porto do Souza, a 120 milhas de distância de sua foz. Logo acima de Porto do Souza se encontra uma série de fortes corredeiras conhecidas como Escadinhas. Sendo impraticável a sua travessia, nesse ponto as canoas precisam ser puxadas por terra, com o uso de bois, num trecho de três e meia milhas. Daí em diante, sucedem-se, em maiores ou menores intervalos, as quedas d&#8217;água e corredeiras.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-tzQ3I049S2A/VwWWybH-JnI/AAAAAAAAHzE/xT3lsnDRekggwAS0ldc-cQBmzfYdb_qGQ/s1600/Shipping%2Bon%2Bthe%2BRio%2BDoce%252C%2BDecember%2B1815.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Viagem no rio Doce, Dezembro de 1815." border="0" height="438" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Shipping2Bon2Bthe2BRio2BDoce252C2BDecember2B1815.jpg" class="wp-image-5352" title="Viagem no rio Doce, Dezembro de 1815." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Viagem no rio Doce, Dezembro de 1815.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>O grande encanto dessa região do Brasil está nas imensas florestas virgens que cobrem, com grandiosidade sem par, quase a totalidade da área banhada pelo rio Doce e seus numerosos afluentes. Em ambas as margens do rio, e durante a maior parte do seu curso, essas belas florestas, abundantes em uma centena de espécies da melhor madeira, chegam até à beira d&#8217;água, formando uma muralha quase impenetrável da vegetação tropical mais esplendidamente natural que possa ser imaginada. No momento em que o viajante, mediante o uso por assim dizer sacrílego de machado e facão, logra forçar sua entrada nos recônditos sombrios desses vastos templos da natureza, a grandeza e a imobilidade como que de morte que dominam o cenário lhe transmitem a impressão de se encontrar em terreno sagrado. As vastas áreas de mata virgem que se estendem ao norte do rio Doce mantêm-se até hoje praticamente invioladas pelo homem civilizado<span id="AERD_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP6" title="Os primeiros colonizadores do Brasil foram atraídos ao interior do país pela esperança de encontrar ouro, e nessa busca sempre utilizavam os rios como vias de penetração. Daí por que em muitas partes do Brasil encontramos regiões inteiramente inexploradas embora exista civilização em torno delas."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> razão por que seus soturnos interiores oferecem refúgio seguro para as numerosas tribos de botocudos, que por ali vagueiam nas mesmas primitivas condições em que viviam seus ancestrais à época do descobrimento do Brasil, cerca de quatro séculos atrás. Vez por outra esses índios assaltam as povoações mais avançadas, ocasiões em que aproveitam para saldar, com juros terríveis, &#8220;velhas contas&#8221; que ficaram arraigadas no espírito por natureza vingativo desses selvagens. A antropofagia é ainda a ordem do dia entre algumas das tribos mais selvagens, mas é consolador saber que esse hediondo costume está desaparecendo rapidamente, devendo deixar de existir dentro de pouco tempo.</p>
<p>Para que se possa explorar o vale do rio Doce, esses índios, que totalizam, eu diria, cerca de 7.000 indivíduos, precisam antes ser civilizados, ou pelo menos trazidos a um estado parcial de civilização. Os botocudos têm resistido tenazmente a todas as tentativas de civilização feitas nos últimos 380 anos, mas acredito firmemente que uma expedição bem organizada possa realizar essa tarefa em espaço de tempo relativamente curto. Daí adviriam enormes benefícios; as margens do rio Doce poderiam ser não digo colonizadas, mas povoadas, e o Brasil teria aberta e em condições de prosperidade uma das mais ricas regiões de seu vasto império.</p>
<p>Existem hoje somente três pequenas povoações nas margens do rio Doce, nenhuma das quais se pode chamar de próspera. Linhares, situada na margem esquerda do rio, a 30 milhas da foz, é um lugarejo decadente, de que teremos ocasião de falar mais adiante. Guandu, povoado bem próximo à confluência do rio do mesmo nome, não é o que poderia ser, devido às dificuldades de comunicação com outros portos. Todos os produtos, de que o principal é o café, precisam ser levados por <span id="AERD_RP7V">terra</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP7" title="Quando se tiver inaugurado a navegação a vapor no curso inferior do rio Doce, essa fatigante viagem terrestre se tornará coisa do passado. Um vapor poderá vencer em dois dias, ou no máximo dois dias e meio, a distância que vai de um ponto pouca abaixo de Guandu até a foz do rio. Alguns anos atrás propôs-se construir uma ferrovia de Vitória até Natividade (três milhas além de Guandu), chegando de fato a empresa Waring Brothers, do Rio de Janeiro, a executar os trabalhos de sondagem, etc., mas até o presente momento as obras da ferrovia em si não tiveram início."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> até Vitória (a capital da província), num percurso de dez dias. Em Guandu vivem quatro ou cinco colonos americanos, miseráveis remanescentes de um grupo que imigrou para o Brasil logo após a Guerra Civil. Estes colonos, assim que desembarcaram no Rio de Janeiro, foram despachados para o rio Doce, a fim de explorarem os recursos naturais do território e, ao mesmo tempo, fazerem suas próprias fortunas. Levados a acreditar que, dentre todas as regiões da terra, o vale do rio Doce era o lar ideal para os sulistas, entregaram-se com entusiasmo à oportunidade que se lhes oferecia. Logo perceberam, todavia, que tinham sido enganados por quem os persuadira a deixar sua terra natal. Os que puderam fazê-lo, partiram daquele pretenso &#8220;lar&#8221;, mas os que permaneceram, por não terem outra alternativa, foram gradualmente de mal a pior, de forma que hoje não há quase um só deles que não daria de bom grado tudo que possui (que aliás, é praticamente nada) em troca de uma oportunidade de dar as costas para sempre ao rio Doce e à sua triste experiência. A terceira e última povoação às margens do rio é Figueira. Os habitantes, em número de 700 aproximadamente, claro que conseguem subsistir de um dia para o outro, mas além disso não há muito a ser dito.</p>
<p>O sal constitui o principal artigo de comércio no rio Doce mas, devido à dificuldade de seu transporte, em canoas, do litoral até o interior, se torna, no final da jornada, um artigo de luxo extremamente caro. No Rio de Janeiro uma saca de sal pesando 60 libras custa, por alto, ls. 8d. Na foz do rio Doce, seu valor se eleva para 3s. 4d. Em Guandu a mesma saca de sal já é vendida por 5s., em Cuité por 13s. e em Figueira por algo em torno de 16s. 8d.</p>
<p>O vale do rio Doce pode ser descrito como uma grande lacuna no edifício de civilização que, nos últimos 370 anos, se vem lentamente erigindo ao longo das 4.900 milhas de litoral brasileiro. Há poucas dúvidas de que o Espírito Santo é hoje a mais pobre de todas as províncias do império ou pelo menos a mais pobre dentre as províncias litorâneas. E no entanto não vejo por que essa pobreza deva continuar numa província que tem condições de gerar os mesmos produtos que as outras. Não existe em todo o Brasil um território mais rico que aquele situado entre os rios Mucuri e Doce, e todavia aquilo é, metaforicamente falando, um deserto. Quase 25.000 milhas quadradas de terra rica e habitável jazem ali inaproveitadas devido ao pavor que aos moradores do Espírito Santo, como também aos de Minas Gerais, os índios inspiram. É mais do que provável que o povo das duas províncias nunca tomará providências para o melhoramento desse território; portanto, se alguma coisa há de ser feita no sentido do progresso dessa rica região do Brasil, terá de ser feita pelo governo imperial.</p>
<p>A propósito, alguns dos matutos fazem uma ideia bastante curiosa do significado do termo &#8220;governo&#8221;. Um deles informou-me que, se lhe acontecesse de ir um dia ao Rio de Janeiro, faria questão de &#8220;visitar o cavalheiro&#8221;. E com toda a sua simplicidade rústica ainda me perguntou se por acaso eu sabia qual o horário de expediente do cavalheiro (ou seja, do governo).</p>
<p>Não resta dúvida de que a futura riqueza dessa região do Brasil está na imensa reserva de valiosas madeiras que suas matas virgens contêm. Algumas das principais variedades ali encontradas são as seguintes:</p>
<div>
<table border="1" cellpadding="10" style="width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td align="center" rowspan="2" width="25%"><b>Nome popular</b></td>
<td align="center" colspan="2" width="45%"><b>Nome científico</b></td>
<td align="center" rowspan="2" width="30%"><b>Utilização</b></td>
</tr>
<tr>
<td align="center" width="25%"><b>Espécie</b></td>
<td align="center" width="20%"><b>Família</b></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">jacarandá</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Bignonia caerulea, Willd.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Bignonaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Marcenaria etc.</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Peroba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Bignonia similiatrapea</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Bignonaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção, especialmente naval</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Maçaranduba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Mimusops excelsa</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Sapotaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção de esteios</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Ipê</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Tecoma Ipê</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Bignonaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção e propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Sapucaia</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Lecythis ollaria, L.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Myrtaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Coração de negro</td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Pau d&#8217;arco</td>
<td valign="top" width="25%">Bignonia chrysantha, Willd.</td>
<td valign="top" width="20%">Bignonaceae</td>
<td valign="top" width="30%">Construção, especialmente dormentes de via férrea; propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Vinhático</td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Mobiliário etc.</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Angico</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Acácia angico, Mart.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção e propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Argelin pedra</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Andira spectabilis, Sald.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Braúna</td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"></td>
<td valign="top" width="30%">Construção</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Bicuíba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Myristica officinalis</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Myristicaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção e propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Araribá</td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Sicupira</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Robinia coccinea, Aubl.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção. Sua casca contém propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Pequiá</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Marfim</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Construção, mais especificamente das vigas das casas</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Guarabu</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Astronium coccineum</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Terebinthaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Copaíba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Copaifera officinalis, L.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Leguminosae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Propriedades medicinais</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Andiroba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Carapa guyanensis, Aubl.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Meliaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Almecegueiro</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Bursera gumifera, L.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Terebinthaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%"><b>Plantas:</b></td>
<td valign="top" width="25%"></td>
<td valign="top" width="20%"></td>
<td valign="top" width="30%"></td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Guaxima</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Helicteres meliflua?</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Sterculiaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Ipecacuanha</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Cephoelis ipecacuanha, Rich.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Rubiaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Salsaparrilha</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Smilax salsaparrilha, Linn.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Asparagineae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Sassafrás</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Ocotea cymbarum, Hunt.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Laurineae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
<tr>
<td valign="top" width="25%">Jumbeba</td>
<td valign="top" width="25%"><i>Cactus opuntia, L.</i></td>
<td valign="top" width="20%"><i>Cactaceae</i></td>
<td valign="top" width="30%">Idem</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O valioso pau-brasil (<i>Caesalpinia brasiliensis Linn., Fam. Leguminosae</i>) é encontrado em diversas áreas do rio Doce, sobretudo no curso inferior do São José.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-Y780qp5oS6I/VwWicOkGn3I/AAAAAAAAHzM/JQVe-Z_Q6UwSztbDF-Z5ItjV3XeC20Qgg/s1600/Pau-brasil-painel.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Pau-brasil." border="0" height="234" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Pau-brasil-painel.jpg" class="wp-image-5353" title="Pau-brasil." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Pau-brasil.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>No que se refere às riquezas minerais dessa região do Brasil, não posso informar senão pouca coisa. O ouro existe em vários locais, principalmente nas vizinhanças de Cuité. Em Onça encontramos numerosos espécimes do mineral conhecido como cristal brasileiro, e no curso superior dos rios Pancas e São José encontramos granadas. Sinais da existência de minério de ferro podem ser vistos em quase toda parte, e em muitos pontos do rio descobrimos uma espécie de talco. Segundo se conta, grandes quantidades de ouro teriam sido descobertas, anos atrás, perto das cabeceiras do rio São José.</p>
<p>O clima dessa região é de modo geral saudável. Se não fosse assim, acredito que meu pequeno grupo de exploradores, exposto a ele durante oito meses fatigantes, teria sofrido piores efeitos do que foi o caso. O calor é por vezes bastante forte, mas tornam-no mais tolerável os ventos alísios, carregados de umidade, que provocam uma equilibrada distribuição de chuva ao longo do ano, fazendo do vale do rio Doce um dos pontos mais férteis e luxuriantes do Brasil.</p>
<p>O primeiro explorador que tentou subir o curso do rio Doce parece ter sido Sebastião Fernando Tourinho. No <i>Dicionário da Província do Espírito Santo</i> constatamos que, no ano de 1572, Tourinho partiu de Porto Seguro com o objetivo de explorar o rio Doce, mas a insuficiência de meios levou-o de volta a Porto Seguro a fim de renovar suas provisões, retomando a seguir sua jornada. Até que ponto do rio Tourinho chegou, não sabemos; tampouco sabemos, com exatidão, o caminho por ele seguido. Consta, porém, que os índios o teriam ajudado em sua exploração, em mais de uma oportunidade.</p>
<p>O príncipe Maximiliano von Neuwied informa que, durante suas viagens pelo Brasil (1815-17), visitou o curso inferior do rio Doce, embora me pareça que sua exploração se tenha limitado às regiões próximas da vila de Linhares, distante 30 milhas da foz do rio.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
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<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-LNSwng37DU0/VwWWxDaEmrI/AAAAAAAAHy8/tWhRlkzY0206L2oie3yOqW4FQKpOm2ENw/s1600/Navega%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Bpelo%2Brio%2BDoce-5%2B-%2BNavigacion%2Bsur%2Bun%2Bbras%2Bdu%2BRio%2BDoce.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Navegação pelo rio Doce (Navigacion sur un bras du Rio Doce)." border="0" height="556" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Navega25C325A725C325A3o2Bpelo2Brio2BDoce-52B-2BNavigacion2Bsur2Bun2Bbras2Bdu2BRio2BDoce.jpg" class="wp-image-5354" title="Navegação pelo rio Doce (Navigacion sur un bras du Rio Doce)." width="640" /></a></td>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Navegação pelo rio Doce (Navigacion sur un bras du Rio Doce).</td>
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<p>A época em que a grande Expedição Agassiz procedia às suas pesquisas no Brasil (1865), o professor Hartt, um dos seus líderes, subiu o rio Doce até Porto do Souza. Em trabalho valioso intitulado <i>Resultados científicos de uma viagem ao Brasil</i>, aquele eminente geólogo americano fez um relato de sua exploração, realizada em companhia de um certo Sr. Edward Copeland, um dos voluntários da Expedição Agassiz.</p>
<p>Algumas tentativas têm sido feitas no sentido de melhorar as condições comerciais dessa rica região brasileira, fracassando todas elas, infelizmente, até o momento. Devo mencionar ao menos uma dessas tentativas, organizada, em 1857, por um filantropo brasileiro, Dr. Nicolau Rodrigues da França Leite. Esse cavalheiro, tendo obtido autorização (e algo mais substancial) do governo imperial, esforçou-se para instalar um certo número de colonos — sobretudo italianos — nas margens do rio Doce, numa localidade conhecida como Fransilvânia e também numa outra chamada Limão. Mas o bem-intencionado trabalho do Dr. França Leite fracassou, e de tal forma que não resta hoje o mais leve sinal de que essa tentativa de colonização tenha sido jamais feita. Não há dúvida de que foi o assassinato, por um grupo de botocudos, do jovem Avelino (parente próximo do Dr. França Leite), a causa principal que levou à dissolução da colônia. Esse lamentável incidente ocorreu em 1860, em circunstâncias realmente trágicas. O Dr. França Leite, supervisor da colônia, foi chamado ao Rio de Janeiro a negócios, sendo substituído em sua ausência por Avelino. Era costume dos nackinhapmás — a tribo de botocudos que habitava as vizinhanças — visitar a colônia de vez em quando a fim de obter um ou dois artigos, como tabaco, além de provar alguma coisa da comida civilizada. As coisas correram assim tranquilamente durante algum tempo até que, gradualmente, os índios começaram a tomar antipatia por Avelino. Por quê, ou como, não sou capaz de dizer. Um dia os índios vieram à colônia e, na presença de Avelino, mataram o seu cão, deliberadamente, a tiros. Diante disso, dois ou três amigos de Avelino (entre eles o meu intérprete Moreira) aconselharam-no com veemência a deixar a colônia, mas o jovem não lhes deu ouvidos e permaneceu corajosamente em seu posto. Passaram-se algumas semanas e os mesmos índios apareceram novamente na colônia. Desta vez, não havendo outros cães para matar, assassinaram o próprio Avelino, golpeando-lhe a nuca com um machado no momento em que ele fazia calmamente sua refeição. Em seguida os índios puseram fogo às poucas choças, cobertas por folhas de palmeira, que compunham a colônia, e, dividindo o corpo do pobre Avelino em postas, assaram-no e, depois de descansar um pouco para facilitar a digestão, partiram novamente para seus redutos. Esse incidente se torna ainda mais trágico tendo em vista que Avelino deveria casar-se em breve com uma prendada jovem que, na época, vivia em Linhares.</p>
<p>Passo agora a dar um roteiro aproximado de minha viagem:</p>
<p>A 7 de junho de 1885 saí do Rio de Janeiro, num pequeno navio-costeiro brasileiro com destino a Santa Cruz, na província do Espírito Santo. Antes de deixar o Rio de Janeiro, adquiri todas as provisões, munições, etc., que calculei seriam necessárias para a viagem. Previa então que a exploração do rio Doce exigiria de mim cerca de seis meses. Os principais artigos adquiridos foram carne seca, bacalhau e farinha, compreendendo sessenta grandes pacotes.</p>
<p>Na noite de 8 de junho o pequeno vapor <i>Mayrink</i> chegou a Vitória, capital da província do Espírito Santo, e na manhã seguinte fui a terra a fim de cumprimentar o presidente da província, Dr. Laurindo Pitta de Castro, que pareceu interessar-se vivamente por minha exploração. A 10 de junho chegamos ao pequeno porto marítimo de Santa Cruz, onde saltei com minhas provisões. Um pequeno vapor costumava fazer ocasionalmente o trajeto entre Santa Cruz e Linhares, vila às margens do rio Doce, mas por ocasião de minha chegada esse vapor estava quebrado, o que não me deixou alternativa senão dirigir-me a Linhares por terra. Felizmente um certo Senhor Pinto estava se preparando para fazer essa viagem, de forma que pude acompanhá-lo. Deixando Santa Cruz no dia 11 de junho, chegamos ao rio Doce após dois dias de penosa marcha, a cavalo, por um terreno algo montanhoso. Linhares é uma vila insignificante, que consiste em pouco mais do que uma praça, com casas pequenas e, em sua maior parte, habitadas por roceiros que não pareciam ter outra ocupação regular senão a de ficar à toa.</p>
<p>O príncipe Maximiliano, em suas <i>Viagens</i> (1815), descreve Linhares como “um lugarejo pobre e insignificante, as casas baixas e modestas (…) feitas de barro, sem reboco, e pequenas. Foi construída em forma de quadrado; não existe igreja ainda, mas somente uma grande cruz de madeira. A missa é rezada no interior de uma pequena casa”. Lamento dizer que, assim como era em 1815, assim é Linhares hoje, com uma única exceção. Na época da visita do príncipe não havia nem tinha havido igreja, enquanto hoje se pode ver, por suas ruínas, que pelo menos duas igrejas foram iniciadas, em períodos diferentes, sem que nenhuma delas tenha sido concluída. Uma dessas igrejas redundou em malogro total, e a outra, ou melhor, o que dela resta, transformou-se numa ferraria.</p>
<p>O passado histórico de Linhares bem serve para justificar sua condição atual. Segundo lemos no <i>Dicionário da Província do Espírito Santo</i> (já citado antes), Linhares foi fundada no ano de 1792, povoando-se com criminosos que, tendo escapado ao braço da lei, encontraram nas regiões banhadas pela rio Doce uma espécie de refúgio.</p>
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<a href="https://4.bp.blogspot.com/-6vTdDs7wZok/VwbU6gbLDbI/AAAAAAAAHzs/wcWDpHv70_gJlgepHRO8zWRZ8ewbX_ZPQ/s1600/Perspectiva%2Bda%2Bpovoa%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Bde%2BLinhares%252C%2B1819.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Perspectiva da povoação de Linhares, 1819." border="0" height="462" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Perspectiva2Bda2Bpovoa25C325A725C325A3o2Bde2BLinhares252C2B1819.jpg" class="wp-image-5355" title="Perspectiva da povoação de Linhares, 1819." width="640" /></a></div>
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Apesar de todas as suas limitações, porém, creio que em alguma época futura Linhares há de tornar-se um próspero centro comercial. O terreno em que se levanta é sem dúvida o local mais adequado para uma cidade em todo o vale do rio Doce, situando-se bem acima do nível do rio e, portanto, fora do alcance das grandes cheias que aí ocorrem anualmente.</p>
<p>Por volta de 28 de junho eu já tinha adquirido minhas canoas e posto a expedição de certa forma em funcionamento. Tinha contratado seis homens (quatro brasileiros, um escocês e um intérprete português) para acompanhar-me. Assim, minha primeira viagem foi até à foz do rio. Chegamos aí ao meio-dia de 1º de julho, montando acampamento numa longa e arenosa faixa de terra na margem norte do rio, do lado oposto a Regência. Aí o rio Doce tem uma largura de cerca de milha e meia. Era meu desejo demorar-me aí algum tempo, a fim de fazer um exame detalhado do que, segundo se pode esperar, será um dia um importante porto brasileiro. Mas atualmente a barra do rio Doce não é incluída na mesma categoria de outros portos do Império, ainda que, em alguns casos, bem inferiores. Além do fato de que alguns pequenos veleiros, vindos do Rio de Janeiro, atracam aí vez por outra com o objetivo de embarcar madeira (principalmente jacarandá), não há atividade comercial nenhuma.</p>
<p>A 9 de julho regressamos a Linhares, partindo de novo a 16 a fim de explorar a lagoa Juparanã e o rio São José. Nessa viagem descobri um erro que tem sido cometido em todos os mapas dessa região até agora impressos, ou seja, o erro que mostra dois rios (o São Rafael e o rio Preto) desaguando na extremidade norte da lagoa Juparanã, quando na realidade existe apenas um rio que deságua nessa lagoa, e esse rio tem o nome de São José. Ademais, esse rio nunca tinha sido explorado antes<span id="AERD_RP8V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP8" title="O Professor Hartt, em seu trabalho Resultados científicos de uma viagem ao Brasil (Agassiz), informa: 'Ao norte da lagoa (Juparanã) deságua um pequeno rio. (…) Ele nasce na floresta, em plena região dos botocudos, e nunca foi explorado'."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> até que eu e meus companheiros subíssemos o seu curso. Um mês inteiro foi gasto em subir e descer esse rio.</p>
<p>Nosso maior problema foi a destruição quase total de nossa canoa ao atravessarmos uma corredeira, e o menor foi termos de tomar café sem açúcar durante mais de uma quinzena. Deparamo-nos ao todo com mais de uma dúzia de cachoeiras, e corredeiras em grande número. A primeira cachoeira, subindo-se o rio, tinha cerca de 100 jardas de comprimento, com uma queda total de 24 pés, o que representou, no que nos dizia respeito, um dia e meio de ingentes esforços. Refiro-me ao tempo que levamos para subir a cachoeira. Em nossa viagem de regresso, porém, não levamos mais que meio minuto para descê-la. Além das corredeiras, outro tipo de obstáculo com que nos defrontávamos eram as moitas cerradas de uma árvore leguminosa conhecida pelo nome de ingá, que abunda no curso superior do rio. Em muitos trechos éramos forçados simplesmente a abrir caminho por entre essas moitas de ingá<span id="AERD_RP9V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP9" title="Existem cerca de 140 espécies de ingá. Aqui se trata da espécie conhecida pelo nome de Ingá bahiensis Benth. Essa árvore é notável devido à maneira como se espalha. Só é encontrada nos trechos em que os rios atravessam terreno pantanoso. Nos pontos em que os rios se estreitam (18 pés de largura, por exemplo) os ingás, cujas raízes principais crescem nas margens, lançam um sem número de ramos que se estendem sobre as águas e dentro delas, entrelaçando-se de maneira muito cerrada, o que cria obstáculos à navegação."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a></p>
<p>O ponto extremo do rio São José por nós atingido, foi uma catarata pitoresca a que chegamos na tarde de 26 de julho. Ficamos dois dias acampados junto a ela, iniciando o regresso na manhã de 29. Dei à catarata o nome de Leila. O aspecto que apresenta é de grande beleza, com cerca de 40 pés de altura e 80 de largura. Estávamos então no centro do território habitado por uma tribo de botocudos, os pojixa. A certa distância da catarata Leila, bem no meio da floresta, descobrimos uma choça desabitada, pertencente a esses índios. Mais tarde fui informado de que, enquanto estávamos subindo o São José, esses índios pojixa estavam rondando a vila de São Mateus, levando pânico, às vezes, aos fazendeiros instalados nos pontos mais distantes daquele lugar. Os índios roubaram gado e além disso, tendo desaparecido as duas filhas de um rico fazendeiro, supõe-se que teriam sido levadas pelos índios, bem para o interior da região, onde seria impossível resgatá-las.</p>
<p>Foi então que tive de enfrentar o pior problema que se me deparou durante toda a minha exploração, que reduzia a nada, em comparação, todo e qualquer perigo representado pelas cachoeiras, pelos índios, pelas feras, febres ou malária.</p>
<p>Pouco depois de meu regresso a Linhares descobri que, em razão de despesas imprevistas, esgotara-se todo o dinheiro que trouxera comigo do Rio de Janeiro. O que fazer? Não pude admitir a ideia de vender e certamente com prejuízo as provisões, munições, etc., destinadas à expedição, e abandonar assim o meu projeto; resolvi portanto expor aos meus homens o estado de coisas, e, reunindo-os, informei-os de que não havia como receberem seu pagamento até que a expedição retornasse ao Rio de Janeiro. Os homens já estavam preparados para tal notícia, pois sua contratação tinha sido feita nesses termos. Informei-os ainda de que não receberiam nem um centavo de adiantamento além do que já lhes fora pago; em suma, que o dinheiro de que dispunha se esgotara inteiramente. Os homens ficaram um tanto chateados, e um ou dois começaram a resmungar que, nesse caso, eles não iriam adiante. Apelei então para os seus bons sentimentos num discurso estudado, e minhas palavras produziram o efeito desejado. Eles ficaram sentados em silêncio alguns momentos, entreolharam-se como ovelhas desgarradas e depois disseram em coro: “Doutor! nós vamos com o senhor até o fim.” Não houve necessidade de mais palavras: com um cordial aperto de mão selou-se o contrato de fidelidade. Tendo assim conquistado a lealdade dos homens, decidi partir de Linhares o mais breve possível. Deste modo, a 31 de agosto iniciamos nossa longa e árdua jornada.</p>
<p>A 3 de setembro alcançamos a confluência do rio Pancas, um dos afluentes da margem esquerda do Doce, a 54 milhas acima de Linhares. Era minha intenção subir esse rio da mesma forma como subira o São José; assim, no dia seguinte, quatro dos homens, juntamente comigo, partiram na canoa menor, a <i>Lily</i>, deixando Adriano e William por conta do acampamento principal e do grosso das provisões. Pouco depois do meio-dia chegamos à primeira cachoeira do rio Pancas (cachoeira dos Bugres). Aí tivemos de descarregar a canoa a fim de transportá-la através das pedras. As cinco horas da tarde tivemos a satisfação de acampar acima da cachoeira.</p>
<p>No dia seguinte passamos por duas corredeiras, a pequena distância uma da outra, e para vencê-las tivemos novamente de retirar a carga da canoa. Às 2 da tarde chegamos a mais uma corredeira, com cerca de 200 jardas de comprimento, muito estreita e violenta. Descarregamos a canoa para transportá-la pelas pedras da margem oriental da corredeira, num percurso de 160 jardas. O resto da tarde velejamos com tranqüilidade, à exceção de um trecho do rio que estava mais ou menos bloqueado por ingás.</p>
<p>A 6 de setembro percebemos as primeiras pegadas de índios e, no dia seguinte, após superarmos outras quatro corredeiras, encontramos uma ponte usada pelo índios — um estreito tronco de árvore caído através do rio — com um longo cipó esticado de fora a fora e atado a uma árvore de cada lado de forma a servir como uma espécie de corrimão; os índios tinham utilizado essa ponte natural a fim de permitir a passagem de suas mulheres e filhos. Outras evidências da presença dos índios nas proximidades apareciam à medida que continuávamos subindo o rio. Passamos por outra ponte rústica, percebendo nítidas pegadas em quase todos os bancos de areia. Fizemos a medida de algumas dessas pegadas e constatamos que os índios (quaisquer que sejam seus outros defeitos) em todo caso possuem pés pequenos. Descobrimos também um aparato de pesca. Era coisa simples, consistindo de algumas estacas enterradas no leito de um trecho raso do rio, formando assim uma espécie de cerca ou armadilha.</p>
<p>Próximo ao entardecer nosso progresso foi impedido por um grande jequitibá que tinha tombado sobre o rio. Tivemos de esperar cerca de um quarto de hora até que os homens cortassem a machado o obstáculo. Foi nesse momento que tivemos a certeza de que os índios ou bugres estavam bem próximos de nós, pois, quando os homens pararam um pouco para descansar, pudemos ouvir distintamente um ruído como se alguém estivesse fugindo pela floresta. Mandei que Moreira gritasse ao fugitivo para se mostrar, que não havia perigo; mas o fugitivo, quem quer que fosse, não obedeceu. Removida a árvore, continuamos nossa viagem rio acima. O rio, aliás, começava a fazer-se muito estreito, e nosso avanço era com freqüência dificultado por troncos caídos e por densas moitas de ingá.</p>
<p>Às 5:30 da tarde, os homens já inteiramente exaustos, avistamos um pequeno banco de areia, onde passamos a noite, dormindo em terreno coberto por grande número de pegadas recentes dos bugres.</p>
<p>No dia seguinte tivemos nosso primeiro encontro com os índios. Tínhamos acabado de dobrar uma curva do rio quando percebi uma figura avermelhada espiando por entre as árvores, a uma distância de não mais que dez jardas da canoa. Isso foi o bastante. No profundo silêncio daquele local primevo, a voz do velho Moreira, em obediência a ordem minha, soou forte e claramente, gritando: “Juck-jum-nook Jacarung!… ning amancoot… ouroohoo-o-o-o!” — o que significa: “Somos amigos; venham comer alguma coisa conosco”. Durante muito tempo não houve resposta, embora pudéssemos distinguir os sussurros de uma conversa que se processava na floresta. Os bugres estavam, evidentemente, consultando-se uns aos outros sobre o que fazer. Mas foi preciso Moreira renovar o convite para que então nos respondessem que viriam até nós se prometêssemos que não lhes faríamos mal. “Fazer-lhes mal, Moreira? Eu diria que não. Diga-lhes que se aproximem como homens, que os trataremos como irmãos”. O velho Moreira interpelou-os mais uma vez, e subitamente vimo-nos face a face com oito homens esguios, fortes, inteiramente nus, levando nas mãos um arco e várias flechas; dois ou três deles usavam, em torno do pescoço, pedaços de imbira dos quais pendiam pequenas facas de fabricação grosseira.</p>
<p>A <span id="AERD_RP10V">tribo</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP10" title="Essa tribo de botocudos é conhecida pelo nome de nackinhapmá, que significa linda terra."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> a que pertenciam esses selvagens contava cerca de setenta almas. Estivemos na companhia deles durante quase um mês, e nesse período tive a oportunidade de estudar seus modos e costumes, diariamente, desde o amanhecer até tarde da noite. Pela aparência física os <span id="AERD_RP11V">botocudos</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP11" title="Os colonizadores portugueses, no começo do presente século, deram a esses índios o nome de botocudos em razão de usarem eles o ornamento labial chamado botoque. os botocudos anteriormente eram conhecidos pelo nome de aimorés ou aimurás. Martius classificou seis tribos (ou clãs) de índios, que encontrou nesta região do Brasil, sob uma só denominação, chamando-os crens, devido ao fato de essa palavra, que significa cabeça, estar presente em todos os vocabulários das línguas faladas pelas seis tribos, a saber, botocudos, puris, coroados, malalis. araris e xumetos. Descobriu-se também uma semelhança craniológica entre os sambaquis, uma nação pré-histórica que habitava o Brasil, e os botocudos. Essa descoberta levou algumas pessoas a imaginar serem os botocudos, possivelmente, os últimos remanescentes de uma época remotíssima. Usei aqui o termo sambaquis como se fosse o nome dessa nação pré-histórica. Na realidade, porém, o termo serve para designar apenas os amontoados de conchas, ou túmulos, em que são encontrados com freqüência os crânios e instrumentos de pedra, etc., desses homens e mulheres (?) primevos. No Brasil esses restos humanos passam por pertencer ao homem dos sambaquis. As conchas mencionadas em relação a esses amontoados são conchas de ostras."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> dificilmente poderão ser tidos como atraentes. Algumas das jovens, é verdade, são bonitas e bem formadas, mas essa beleza menineira não é duradoura, uma vez que, entre os botocudos, persiste o costume (provocado pela necessidade) de as moças casarem muito cedo. Foi-me dado ver um exemplo impressionante de um desses casamentos prematuros, em que o marido já tinha os seus vinte anos, enquanto sua companheira, que ficaria com ele por toda a vida, mal chegara à idade de nove anos. A altura média dos botocudos é cinco pés e quatro polegadas. Têm o peito muito largo, o que explica a facilidade com que envergam os arcos, que são muito rijos, sendo feitos da madeira dura e flexível da palmeira airi ou brejaúba (<i>Astrocaryum Ayri Mart.</i>). Os pés e mãos dos botocudos, embora pequenos, não são delicados, mantendo-se porém proporcionais às suas pernas e braços, que são finos mas musculosos. Quanto à cor da pele, encontram-se os mais variados matizes, sendo alguns indivíduos de um marrom-avermelhado escuro, enquanto outros, sobretudo as mulheres, são bastante claros. Com respeito às feições, impressionou-me o fato de esses botocudos mostrarem notável semelhança com os chineses, de modo que, se em vez de cortarem o cabelo em forma de cuia eles usassem um rabicho, quem os olhasse superficialmente mal poderia distinguir a diferença entre uns e outros.</p>
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<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
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<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-_F3xjHFU1O0/VwWWxPRpBZI/AAAAAAAAHy8/NPok8cii6tsq0Kd_DLrFipyUzRggnzqSw/s1600/Fotos%2Bbotocudos-%2BVale%2Bdo%2BRio%2BDoce%2B-%2Bin%25C3%25ADcio%2Bdo%2BS%25C3%25A9culo%2BXX%2B%2Bdesenhos%2BDebret%2Be%2BRugendas-%2BSec.%2BXIX.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Fotos botocudos- Vale do Rio Doce - início do Século XX." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Fotos2Bbotocudos-2BVale2Bdo2BRio2BDoce2B-2Bin25C325ADcio2Bdo2BS25C325A9culo2BXX2B2Bdesenhos2BDebret2Be2BRugendas-2BSec.2BXIX.jpg" class="wp-image-5356" title="Fotos botocudos- Vale do Rio Doce - início do Século XX." width="353" /></a></td>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Fotos botocudos- Vale do Rio Doce &#8211; início do Século XX.</td>
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<p>Os botocudos são conhecidos principalmente pelo horrível costume de usar nos lábios e nas orelhas enormes ornamentos de madeira, costume que está desaparecendo rapidamente, e que atualmente só se encontra entre alguns dos índios mais velhos, que preservam inalterados todos os hábitos e costumes de seus antepassados.</p>
<p>Esses ornamentos labiais são feitos de uma madeira leve, a da barriguda (<i>Bombax ventricosa</i>, fam: <i>Bombaceae</i>). Há todo um processo a ser seguido, que se estende por toda a vida do indivíduo, para que o botocudo possa exibir um ornamento labial de, digamos, três polegadas de diâmetro. Aos três anos de idade tem início o processo, quando os pais fazem uma pequena perfuração no centro do lábio inferior da criança e em cada um dos lóbulos das orelhas, inserindo nos orifícios um pequeno tarugo de madeira com o diâmetro aproximado de um lápis. Daí a algumas semanas esse tarugo é substituído por outro maior, e assim por diante, até que o lábio (tendo-se esticado gradualmente) possa receber um botoque com a dimensão acima referida, ou seja, três polegadas de diâmetro. É comum ocorrer, com o passar do tempo, que o lábio, esticando-se em torno do botoque como se fosse uma tira de elástico, acaba por partir-se. isso, porém, não impede que se continue a usar o botoque. Nesse caso o índio limita-se a atar as duas pontas de seu lábio por meio de um pequeno pedaço de imbira, solucionando o problema de uma forma muito mais prática do que ornamental.</p>
<p>De modo geral os botocudos vivem até uma idade avançada. Aquele que se reúne aos antepassados aos setenta anos é lamentado por seus parentes por ter falecido na flor da juventude, o que, porém, não impede os parentes de abandonar o moribundo no meio da mata se acontecer de estarem em viagem. Argumentam dizendo que, se o doente se recuperar, sempre poderá levantar-se e alcançá-los outra vez. E esse é realmente o caso, ainda mais que, quando viajam, os bugres têm o costume de marear o caminho para quaisquer membros da tribo que se tenham atrasado na marcha, o que é feito quebrando-se ramos de árvores ao logo do trajeto.</p>
<p>Os botocudos se alimentam principalmente da noz de duas ou três espécies de palmeiras. Essas nozes (cuja casca é quebrada com o auxílio de pedras) são extremamente duras, e assim, para que os mais idosos e as crianças possam digerir adequadamente o alimento, as mulheres precisam mastigar as nozes até transformá-las numa polpa, que então retiram da boca e oferecem aos pais ou aos filhos, conforme o caso. Uns e outros aceitam com avidez esse alimento assim preparado e além disso, parecem apreciá-lo bastante. As principais palmeiras que fornecem alimento aos botocudos são a airi (<i>Astrocaryum Ayri Mart</i>.) e a indaiá (<i>Attalea compta Mart</i>.). As nozes desta última são, porém, mais apreciadas pelos índios do que as da airi, que têm um sabor um tanto amargo. As nozes da indaiá contêm ainda uma grande quantidade de óleo.</p>
<p>Esses índios passam os dias caçando, pescando e cuidando de seus arcos e flechas, enquanto as mulheres cuidam das crianças, juntam nozes e outros frutos para o consumo diário e executam o grosso do trabalho pesado para os seus senhores. Sempre que se precisa erguer uma nova choça, as mulheres é que se fazem de arquitetas e construtoras, e sempre que a tribo está em mudança, as mulheres se transformam simplesmente em veículos de transporte, já que os homens não se dignam a carregar nada a não ser seus arcos e flechas. Vestimentas de qualquer tipo são inteiramente desconhecidas por esse povo selvagem.</p>
<p>Os bugres não têm hora certa para as refeições, não sabendo, aliás, se de uma hora para outra encontrarão alguma coisa para comer. Dessa forma não estão sujeitos a nenhuma lei ou norma doméstica. Dormem à hora que lhes apraz; caçam, pescam, cantam e dançam sempre que lhes der vontade, e comem quando podem.</p>
<p>Entre os botocudos é permitida a poligamia, embora raramente se encontre quem se dê ao luxo de ter mais de uma esposa, sabendo-se muito bem que teria de obter comida (através da caça, etc.) não somente para uma outra esposa mas, com toda a probabilidade, para uma outra família; e isso representa uma grande preocupação, já que as florestas virgens não contêm de forma alguma uma reserva inexaurível de caça; muito pelo contrário, a caça é extremamente rara, e exige um trabalho de rastejamento muito cuidadoso da parte do caçador. Essa escassez de animais, contudo, se verifica apenas nos setores da mata mais frequentados pelos índios. Daí por que encontramos em certos locais (no trecho superior do rio Tambaquari, por exemplo) grande quantidade de caça, enquanto em outros locais ela se acha quase extinta<span id="AERD_RP12V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP12" title="A escassez de animais nos territórios índios será sem dúvida a causa principal para o futuro desaparecimento dos índios selvagens nessa região do Brasil. Tome-se como exemplo o caso da tribo nackinhapmá do rio Pancas. Esses índios dominam uma certa área que percorrem livremente sem serem incomodados por nenhuma outra tribo. Suponha-se porém que, devido à falta de caça, os nackinhapmás penetrassem no vizinho território dos incutcracks. Qual seria a consequência? Assim que os incutcracks tivessem conhecimento da invasão, pegariam em armas para se entregarem a um renhido conflito, de que resultaria o completo extermínio de uma ou outra das duas tribos."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a></p>
<p>Os botocudos não dispõem de nenhuma forma de governo, embora cada tribo tenha o seu chefe (capitão). O chefe, porém, não exerce nenhuma autoridade real sobre sua tribo. Geralmente é ele o melhor caçador e, sendo assim, cabe-lhe em grande parte a responsabilidade de obter caça, principalmente em períodos difíceis.</p>
<p>A religião desses índios é primitiva ao extremo. Acreditam na existência de um certo grande espírito que criou o mundo (o mundo deles), mas não lhe oferecem nem preces nem sacrifícios. Sobrevindo uma tempestade, interpretam-na como um sinal de que o grande espírito (cupã) está furioso, o que lhes provoca em consequência um grande temor. Alguns dos membros mais corajosos da tribo, porém, atiram tições para o ar, na crença de que esse gesto aplaca a fúria do grande espírito, amainando-se então a tempestade. Acreditam que, quando um homem morre, seu fantasma fica errando pela terra como se à procura de alguém a quem possa devorar, isto é, o fantasma do bugre causará danos a todos os que o maltrataram em vida ou, por outro lado, trará benefícios aos que lhe possam ter feito bem neste mundo. Esses índios fazem apenas uma vaga ideia do maligno, que acreditam residir no corpo de um certo pássaro noturno, que tem o hábito de guinchar durante as mais absurdas horas da noite, despertando o bugre de seu sono.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-xPNqjMExcrQ/VwWWytPUUHI/AAAAAAAAHy8/IJWw1YkpAlch65Yjq08spte6WytU9J9Ig/s1600/post-famc3adlia-de-botocudos.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Família de botocudos em viagem." border="0" height="318" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/post-famc3adlia-de-botocudos.jpg" class="wp-image-5357" title="Família de botocudos em viagem." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Família de botocudos em viagem.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>A 27 de setembro continuamos nossa viagem rio acima, chegando no dia seguinte a uma localidade chamada Mutum. Aqui, na margem direita do rio, existe uma pequena aldeia de índios semi-civilizados, compreendendo vinte e quatro almas, sendo seis homens (com calças), oito mulheres (com anáguas), e dez crianças (com coisa alguma). Essa aldeia está sob a supervisão do governo imperial. Na margem esquerda — bem em frente à aldeia — estão as ruínas de uma missão fundada, cerca de quinze anos atrás, por um digno monge capuchinho, frei Bento. O objetivo da missão era civilizar os índios das vizinhanças de Mutum, mas em razão de um desentendimento surgido entre os índios civilizados da missão e a tribo selvagem conhecida pelo nome de incutcrack, todo o projeto fracassou; o intérprete de frei Bento, Daniel, foi morto, e os demais membros do pequeno núcleo, se não tivessem fugido para o outro lado do rio, teriam sem dúvida partilhado o mesmo destino. A partir desse episódio trágico a missão foi relegada ao mais completo abandono, dela restando hoje apenas as ruínas desoladas de algumas moradias e uma grande cruz de madeira a assinalar o local em que a filantropia tentou fixar residência, mas sem ter êxito.</p>
<p>A 6 de outubro chegamos a Guandu. Estávamos então ao pé das imensas quedas d’água chamadas Cachoeira das Escadinhas. Fui obrigado a abandonar a pequena canoa em Guandu, já que teria sido absurdo tentar transportá-la mais além devido ao ímpeto das águas que nos seria dado enfrentar pelo restante da viagem.</p>
<p>Com certa dificuldade providenciamos com um natural de Guandu a utilização de seis bois e, com a ajuda deles, conseguimos arrastar nossa canoa grande por terra — uma distância de três milhas — até um lugar chamado Natividade. Aí pudemos retomar o rio, só que antes disso foi preciso trazer de Guandu também o nosso acampamento. Essa tarefa não contou com a ajuda dos bois, pois já não tínhamos condições de pagar novo aluguel. Da primeira vez tivemos de lançar mão de nossas provisões a fim de recompensar o dono dos bois pelo serviço de forma que não nos era possível ceder nada mais em forma de alimento. Quanto a pagamento em dinheiro, estava fora de questão. Começamos a 12 de outubro a mudança do acampamento, e somente após uma semana de tediosas marchas pela floresta densa é que tivemos a satisfação de acampar acima das quedas que tanto problema nos tinham causado.</p>
<p>Na cachoeira chamada do Inferno, e na do M, fomos obrigados a puxar a canoa por meio de cordas feitas de cipós. Amarra-se uma corda à proa da canoa e dois homens, segurando-a com firmeza, pulam de uma pedra para outra e vão assim rebocando a canoa. Um terceiro homem permanece à proa da canoa, evitando por meio de uma longa vara que a canoa se choque contra as pedras; ao mesmo tempo o piloto, com seu pesado remo de largas pás, dirige a canoa através das estreitas passagens entre as pedras, gritando ordens para os homens de uma tal maneira que leva a pensar que a canoa e toda a sua carga estão à beira de uma perda inevitável. O ruído da correnteza vem completar o quadro de confusão que sempre prevalece durante a subida de uma corredeira.</p>
<p>A 29 de outubro atingimos a confluência do Suçuí-Grande, um dos principais afluentes do rio Doce. Nele penetrando, verificamos ser um afluente largo e profundo. Nosso percurso foi fácil por cerca de duas milhas ou mais, até que tivemos de parar. Como de regra, o obstáculo era uma cachoeira. Logo abaixo dela, num banco de areia, armamos o acampamento. Nossas provisões tinham-se finalmente esgotado, e lá estávamos nós, ao pé dessa primeira cachoeira do Suçuí-Grande, dependendo de nossas armas para futura subsistência. A última colher de açúcar se tinha dissolvido, a última caneca de café tinha sido servida, o último grão de farinha já se fora, e o único pedaço que restava de carne seca, com suas três polegadas de tamanho e meia polegada de espessura, dera bolor naquela manhã mesma. Os homens se comportaram admiravelmente nessas circunstâncias, deixando escapar pouquíssimas queixas, embora bem sei que os coitados se sentiam por vezes tentados ao motim. Apesar de tudo subimos o Suçuí-Grande e, a 5 de novembro, penetramos no Tambaquari, afluente daquele.</p>
<p>Decidi subir o Tambaquari da mesma forma como subira os rios São José e Pancas. Os homens, contudo, embora eu os tivesse por mais de uma vez inteirado da minha intenção de explorar esse rio, fingiram não saber nada a respeito, perguntando, após termos remado uma curta distância, se já não era a hora de voltar. “Não, adiante, até que eu diga que é hora de voltar” respondia eu a essa insinuação da parte deles. Os homens prosseguiram comigo; e não foi senão a partir de 24 de novembro que começamos a regressar.</p>
<p>A 12 de novembro, tendo chegado a uma cachoeira que a canoa grande não tinha condições de ultrapassar, começamos a construir uma canoa menor, tarefa que nos ocupou durante três dias, ainda mais porque só dispúnhamos de machados para trabalhar. Terminada a canoa, que foi feita de uma madeira um tanto macia, descobrimos que nela só cabiam cinco pessoas, e mesmo assim o nível da água ficava a apenas três polegadas da amurada. Assim, foi necessário deixarmos dois homens no acampamento de Cachete, enquanto os outros cinco partiram nesse arriscado meio de transporte, continuando nossa exploração do rio Tambaquari. A 24 de novembro regressamos dessa exploração, que nos levou até um ponto à distância de 32 milhas de sua confluência.</p>
<p>Às vezes dispúnhamos de comida até de sobra, enquanto outras vezes a nossa dispensa (a proa da canoa) se mantinha completamente vazia.</p>
<p>Como substituto para o pão, recorríamos a um vegetal chamado palmito, que é constituído pela polpa de uma espécie de palmeira (<i>Euterpe oleracea Mart</i>.) que cresce em abundância nas densas florestas do rio Tambaquari. A fim de obter o palmito éramos obrigados a cortar a árvore inteira, daí por que, durante nossa exploração do Tambaquari, fizemos enorme devastação entre essas belas e esguias palmeiras. Abatíamos cerca de quinze árvores em média por dia, e posso calcular em torno de 450 o número de palmeiras que derrubamos durante aquela incursão, a fim de prover de alimento nosso pequeno e faminto grupo. É claro que não subsistimos unicamente à base do palmito, que, como indiquei, era um mero substituto do pão. Nossas armas nos prestavam um bom serviço abatendo uma variedade de caça.</p>
<p>Alguns dos animais, como macacos, pacas, cotias, capivaras, etc., constituíam uma deliciosa alimentação, enquanto outros eram inteiramente o inverso. O mesmo se aplica aos vários tipos de pássaros que caçávamos. No que se refere aos animais, os macacos eram os que mais apreciávamos, sobretudo os da espécie conhecida por “barbados” (<i>Myeetes ursinus</i>). Entre os pássaros, nossa carne preferida era a de patos selvagens, mutuns, jacus, jacutingas e jacupembas (<i>Penelope marail L.</i>). Em uma ocasião tentamos comer uma arara, mas não foi possível. Chegamos à metade do que pensávamos que ia ser um bom petisco, e então resolvemos dar a sobra ao cachorro. Capivara também não é uma comida gostosa, por ser dura a carne e de sabor muitíssimo forte.</p>
<p>Às vezes fazíamos boa pescaria, sendo surubim o maior peixe que pescamos, e piau, piaba e piabanha os mais saborosos.</p>
<p>A 10 de dezembro atingimos mais uma vez a confluência do Suçuí-Grande, chegando no dia seguinte ao povoado de Figueira. O percurso de oito milhas entre a confluência do Suçuí-Grande e Figueira apresentou extremas dificuldades. Vimo-nos forçados a navegar junto à margem, com a ajuda de ganchos, para podermos fazer algum progresso. A época das cheias estava começando, e o rio Doce estava cheio. Devido à profundeza da água e à corrente extremamente forte, o uso de varas ou de remos estava fora de questão. Por conseguinte só nos restava puxar a canoa com a ajuda de ganchos presos às forquilhas das árvores que cresciam abundantemente nas margens do rio junto à água. Esse é um processo tedioso, mas ao mesmo tempo é o único processo seguro que se pode adotar em certos trechos do rio durante as cheias.</p>
<p>Demoramo-nos em Figueira alguns dias, em vista de estarem doentes três dos meus homens, mas a 18 de dezembro a expedição prosseguiu rio acima, procurando adiantar- se o mais possível antes que as cheias chegassem ao seu nível mais alto. A viagem foi relativamente fácil até que chegamos à cachoeira de Baguari, vinte milhas acima de Figueira. Essa foi a primeira cachoeira pura e simples que encontramos no rio principal, e por sinal muito bonita — não muito alta (30 pés), porém alta o bastante para nos dar muito trabalho em ultrapassá-la. Tivemos a sorte de encontrar, ao pé da cachoeira, um pequeno grupo de pescadores vindos de Figueira e, com sua ajuda, obtida em troca de alguma pólvora e balas, conseguimos carregar a canoa sobre a cachoeira em menos tempo do que normalmente nos seria possível.</p>
<p>No dia de Natal chegamos à confluência do rio Santo Antônio. Penetramos nele e acampamos cerca de seis milhas rio acima. O rio Santo Antônio foi o mais fácil dos afluentes do Doce que tínhamos explorado, sendo largo, profundo, e bastante apropriado à navegação numa distância de 20 milhas a partir de sua confluência. Depois disso, porém, o rio perde inteiramente essas características, e, como tantos dentre os pequenos rios brasileiros, torna-se uma sucessão de quedas d’água e de corredeiras. Cerca de 10 milhas rio acima existe uma pequena povoação chamada Naque, assim chamada em virtude de ter havido aí anos atrás uma aldeia da tribo nackerehé, dos botocudos. Permanecemos em Naque algum tempo, já que o meu intérprete (Moreira) tinha ali alguns parentes que ele não via há vinte anos . O que serve para demonstrar como são raros os contatos entre um lugar e outro nesta parte do mundo. Moreira vivia em Guandu e (embora a distância entre Naque e Guandu, em linha reta, seja de apenas 85 milhas) nunca tivera oportunidade visitar aqueles parentes.</p>
<p>Percebi que um grande número dos moradores de Naque apresentavam bócios no pescoço. Por vezes todos os membros de uma família possuíam uma dessas excrescências disformes, e em alguns casos o bócio atingia tão grande dimensões que pendia do pescoço da pessoa. Disseram-me que esses bócios são causados pela fato de a água das redondezas conter multa cal.</p>
<p>Outra doença muito comum entre essas pessoas é a lepra. Ouvi de fonte segura que, na cidade de Joanésia, uma pessoa com o corpo sadio é uma ave rara. A lepra é causada talvez pela comida de muita caloria que os mineiros, por ignorância, estão acostumados a comer, ou seja, toucinho e farinha de milho. Os lavradores fazem questão de criar porcos com o único objetivo de obterem seu tão cobiçado toucinho.</p>
<p>A 29 de dezembro partimos de Naque, chegando no dia seguinte diante da cachoeira do Escuro. Essa cachoeira pareceu-nos muito semelhante, por seu tamanho e aparência, à de Baguari, só que um pouco menos larga. A expedição prosseguiu viagem rio acima no dia de Ano Novo.</p>
<p>Há algum tempo vínhamos sofrendo terrivelmente com mosquitos e outros insetos. Durante o dia todo, mutucas (grandes moscas marrons de índole muito malévola), capotes (moscas menores, cujas asas parecem ter sido cortadas nas pontas) e borrachudos (pequenos mosquitos) não nos davam descanso; e à noite, depois que esses insetos deixavam o campo, grandes reforços de mosquitos chegavam para terminar o que seus aliados tinham começado.</p>
<p>A 5 de janeiro a expedição atingiu a cachoeira do Surubim, a pior de quantas encontramos desde as Escadinhas, agora 150 milhas às nossas costas. O trabalho de transportar a canoa por terra até o alto da cachoeira foi longo e tedioso. Tiramos a canoa da água na manhã de 6 de janeiro, e somente no final da tarde do dia 11 conseguimos colocá-la de novo flutuando.</p>
<p>Nesses seis dias não fizemos mais do que um progresso cerca de 80 jardas.</p>
<p>Essa foi a última cachoeira por que passamos no rio Doce, e nossa exploração daquele rio selvagem e estranho estava chegando ao fim. Um dia depois meu pequeno grupo acampou ao pé de outra cachoeira, a da Ponte Queimada, mas não chegamos a ultrapassá-la. Os homens, coitados, devido aos sacrifícios e privações dos últimos dois meses e meio, não tinham perdido apenas as forças, mas também o ânimo, e eu mesmo sofri um ataque de febre, que me deixou fraco e inerme, a que se seguiu quase imediatamente um agudo ataque de malária.</p>
<p>Num povoado chamado Sacramento (13 milhas a lés-sueste de Ponte Queimada) foram tomadas providências para uma tropa de mulas transportar minha exausta expedição até São Geraldo, onde havia uma estação da Estrada de Ferro Leopoldina. A viagem durou doze dias, abrangendo uma distância de cerca de 160 milhas. Passamos por três ou quatro vilarejos, cujos habitantes nos olhavam com aquelas expressões suaves que os matutos brasileiros sempre assumem quando não compreendem inteiramente as coisas.</p>
<p>Chegamos a São Geraldo no dia 30 de janeiro. No dia seguinte tomei um trem para o Rio de Janeiro, onde cheguei após uma viagem de 16 horas. Minha primeira visita foi ao London and Brazilian Bank. Quatro dias depois retornei a São Geraldo, acertei as contas com o digno proprietário da tropa de mulas, e a 6 de fevereiro trouxe meus homens até a capital do país, de onde regressaram por mar às suas namoradas e esposas em Linhares. Nossas andanças, sacrifícios, tribulações e aborrecimentos estavam terminados, mas minha malária não. Ela não me deixou senão às vésperas de meu retorno à velha Inglaterra, onde cheguei no dia 29 de maio de 1886.</p>
<p>Autor: William John Steains<br />
Tradução: Reinaldo Santos Neves</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="AERD_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Introdução feita para a publicação do texto na <i>Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo</i>, n.5, p.103-27, 1984.</p>
</div>
<div id="AERD_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;O ponto culminante dessa serra é Itatiaia-açu que, de acordo com Wells, está 10.040 pés acima do nível do mar, sendo “o ponto mais alto que se conhece do Brasil”.</p>
</div>
<div id="AERD_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Vide o interessante trabalho do Sr. Wells sobre a “Geografia física do Brasil”, lido perante esta Sociedade em 8 de fevereiro de 1886.</p>
</div>
<div id="AERD_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Em português no original, como todas as demais palavras em destaque no texto. (N. do T.).</p>
</div>
<div id="AERD_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Nos mapas dessa região do Brasil até agora publicados, esse rio tem o nome de São Rafael, erro porém que não é muito de admirar, considerando o número de incorreções que se encontra em qualquer mapa que pretenda representar o vale do rio Doce. Um dos mapas que compulsei no Brasil mostrava três ou quatro grandes ilhas na lagoa Juparanã, quando nela só existe uma única ilha, a do Imperador, e por sinal muito pequena.</p>
</div>
<div id="AERD_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Os primeiros colonizadores do Brasil foram atraídos ao interior do país pela esperança de encontrar ouro, e nessa busca sempre utilizavam os rios como vias de penetração. Daí por que em muitas partes do Brasil encontramos regiões inteiramente inexploradas embora exista civilização em torno delas.</p>
</div>
<div id="AERD_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Quando se tiver inaugurado a navegação a vapor no curso inferior do rio Doce, essa fatigante viagem terrestre se tornará coisa do passado. Um vapor poderá vencer em dois dias, ou no máximo dois dias e meio, a distância que vai de um ponto pouca abaixo de Guandu até a foz do rio. Alguns anos atrás propôs-se construir uma ferrovia de Vitória até Natividade (três milhas além de Guandu), chegando de fato a empresa Waring Brothers, do Rio de Janeiro, a executar os trabalhos de sondagem, etc., mas até o presente momento as obras da ferrovia em si não tiveram início.</p>
</div>
<div id="AERD_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;O Professor Hartt, em seu trabalho <i>Resultados científicos de uma viagem ao Brasil</i> (Agassiz), informa: “Ao norte da lagoa (Juparanã) deságua um pequeno rio. (…) Ele nasce na floresta, em plena região dos botocudos, e nunca foi explorado”.</p>
</div>
<div id="AERD_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Existem cerca de 140 espécies de ingá. Aqui se trata da espécie conhecida pelo nome de <i>Ingá bahiensis Benth</i>. Essa árvore é notável devido à maneira como se espalha. Só é encontrada nos trechos em que os rios atravessam terreno pantanoso. Nos pontos em que os rios se estreitam (18 pés de largura, por exemplo) os ingás, cujas raízes principais crescem nas margens, lançam um sem número de ramos que se estendem sobre as águas e dentro delas, entrelaçando-se de maneira muito cerrada, o que cria obstáculos à navegação.</p>
</div>
<div id="AERD_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Essa tribo de botocudos é conhecida pelo nome de nackinhapmá, que significa linda terra.</p>
</div>
<div id="AERD_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Os colonizadores portugueses, no começo do presente século, deram a esses índios o nome de botocudos em razão de usarem eles o ornamento labial chamado botoque. os botocudos anteriormente eram conhecidos pelo nome de aimorés ou aimurás. Martius classificou seis tribos (ou clãs) de índios, que encontrou nesta região do Brasil, sob uma só denominação, chamando-os crens, devido ao fato de essa palavra, que significa cabeça, estar presente em todos os vocabulários das línguas faladas pelas seis tribos, a saber, botocudos, puris, coroados, malalis. araris e xumetos. Descobriu-se também uma semelhança craniológica entre os sambaquis, uma nação pré-histórica que habitava o Brasil, e os botocudos. Essa descoberta levou algumas pessoas a imaginar serem os botocudos, possivelmente, os últimos remanescentes de uma época remotíssima. Usei aqui o termo sambaquis como se fosse o nome dessa nação pré-histórica. Na realidade, porém, o termo serve para designar apenas os amontoados de conchas, ou túmulos, em que são encontrados com freqüência os crânios e instrumentos de pedra, etc., desses homens e mulheres (?) primevos. No Brasil esses restos humanos passam por pertencer ao homem dos sambaquis. As conchas mencionadas em relação a esses amontoados são conchas de ostras.</p>
</div>
<div id="AERD_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-exploracao-do-rio-doce-e-seus/#AERD_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;A escassez de animais nos territórios índios será sem dúvida a causa principal para o futuro desaparecimento dos índios selvagens nessa região do Brasil. Tome-se como exemplo o caso da tribo nackinhapmá do rio Pancas. Esses índios dominam uma certa área que percorrem livremente sem serem incomodados por nenhuma outra tribo. Suponha-se porém que, devido à falta de caça, os nackinhapmás penetrassem no vizinho território dos incutcracks. Qual seria a consequência? Assim que os incutcracks tivessem conhecimento da invasão, pegariam em armas para se entregarem a um renhido conflito, de que resultaria o completo extermínio de uma ou outra das duas tribos.</div>
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[Reprodução autorizada pelo tradutor.]</p>
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<span style="font-size: normal;"><b><span style="color: #660000;">© 2016 Reinaldo Santos Neves</span></b>&nbsp;&#8211; Todos os direitos reservados ao tradutor. A reprodução sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.</span></div>
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>William John Steains</b> desde criança manifestou vivo interesse pela exploração geográfica e pelos estudos etnológicos. Veio para o Brasil aos 18 anos, a fim de trabalhar como desenhista na construção de uma ferrovia em Alagoas. Aos 22 anos concebeu e realizou a expedição ao rio Doce de que trata o presente relatório. Em 1891 estabeleceu-se na costa ocidental da África, como agente consular junto ao Protetorado da Costa do Níger. Sua saúde sofreu ali os rigores do clima, o que não o impediu de regressar àquela região em setembro de 1894, para ali morrer em novembro desse ano, com a idade de 31 anos.</p></blockquote>
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		<title>Memória sobre o reconhecimento da foz e porto do rio Doce</title>
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		<pubDate>Wed, 06 Apr 2016 20:15:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[Luís D'Alincourt]]></category>
		<category><![CDATA[Rio Doce]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Vista do rio Doce, 1944. &#160;Acervo Vale. Até duas léguas e meia acima da mesma foz, respondendo-se aos artigos das instruções dadas sobre este objeto; e também acerca da parte da costa, que decorre desde a mencionada foz até à do Riacho, e subindo por este à confluência do rio Comboios:[ 1 ] trata mais [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-CYRs5w7X1kI/Vwk7wwMp9QI/AAAAAAAAH0I/qaP2xswAYk442BsVk_SeB-tmqo9Pqyl4Q/s1600/Paisagem%2Bdo%2Brio-doce-19441.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Vista do rio Doce, 1944.  Acervo Vale." border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/04/Paisagem2Bdo2Brio-doce-19441.jpg" class="wp-image-5359" title="Vista do rio Doce, 1944.  Acervo Vale." width="488" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Vista do rio Doce, 1944. &nbsp;Acervo Vale.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Até duas léguas e meia acima da mesma foz, respondendo-se aos artigos das instruções dadas sobre este objeto; e também acerca da parte da costa, que decorre desde a mencionada foz até à do Riacho, e subindo por este à confluência do rio Comboios<span id="MRFP_RP1V">:</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP1" title="No original Comboys."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> trata mais do reconhecimento dele, e termina no do rio Preto, e lagoa Parda; organizada segundo as instruções e ordens do Ilmo. e Exmo. Sr. Manuel José Pires da Silva Pontes, presidente da província do Espírito Santo.</p>
<div style="text-align: right;">
Por</div>
<div style="text-align: right;">
Luiz D&#8217;Alincourt, sargento-mor engenheiro.</div>
<div style="text-align: right;">
Vila de Linhares, em agosto de 1833.</div>
<p>
Dignou-se o Excelentíssimo senhor presidente comunicar-me por sua respeitável portaria a resolução do conselho do governo, para o fim de cumprir-se a Lei de 23 de outubro do ano próximo passado, pela qual tem de levar ao conhecimento do ministério a planta do canal do rio Doce, com observações sobre os obstáculos que dificultam a sua navegação, e sobre os meios de removê-los; em virtude, pois, desta resolução, tive a honra de ser encarregado de tão importante tarefa, à vista das instruções que juntas à mencionada portaria me foram entregues.</p>
<p>Conhecendo o Excelentíssimo senhor presidente que não seriam poucos os dias a empregar até chegar-se ao resultado final desta comissão, e desejando prestar prontos esclarecimentos ao ministério, ao menos sobre alguns pontos mais importantes, houve por bem dirigir-me segunda portaria a este respeito, com duas cópias de informações que marcam estes pontos, e porque eles entram nas instruções juntas à primeira portaria, eu as segui, dando princípio ao meu trabalho do modo seguinte: e assim julgo preencher as vistas de Sua Excelência, senão em toda a plenitude, conforme aos meus desejos, ao menos quanto foi possível à curta esfera de minhas idéias. Desenvolverei, pois, na presente Memória o que exigem os artigos 1º, 2º, 3º, 4º, 5º (este até duas léguas e meia acima da foz do rio Doce), 6º, 7º, 8º, 12° e 13° (somente por agora no que diz respeito à barra e porto). À Memória juntarei quatro mapas (por enquanto em borrão, pois falta-me tempo para os desenhar melhor)<span id="MRFP_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP2" title="Nota do editor da Revista: faltam no manuscrito. Nota da Estação Capixaba: trata-se, pelo que pudemos entender, dos quatro documentos a que o autor já se refere mais adiante como plantas."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>O primeiro mostrará no maior grau de exatidão possível o rio Doce desde a sua foz até duas léguas e meia acima dela, ou à curvatura do rio para terceiro estirão. Devo declarar, que este mapa ou planta foi levantado em fins de junho e princípios de julho do corrente ano, o que se faz mister por ser variável a formatura do álveo do rio relativamente à direção dos canais, altura d&#8217;água nos mesmos, posição das coroas de areia, e extensão dos baixios, e dos pontais que limitam a barra, ou barras, e à do cordão, ou grande cinta que semi-circunda as mesmas; dependendo estas variações da maior, ou menor pressão das torrentes periódicas do mesmo rio, e dos ventos fortes que açoitam sua ampla superfície.</p>
<p>O segundo mapa descreve a costa atlântica desde a foz do rio Doce até a do Riacho, o curso deste a contar da confluência do rio Comboios para baixo, toda a extensão do mesmo Comboios até acima do arruinado quartel, o rio Preto, o finalmente a grande lagoa Parda.</p>
<p>O terceiro apresenta o ancoradouro do rio Preto, o melhoramento fácil que se lhe pôde fazer para tornar-se em um excelente molhe, aonde as embarcações fiquem ao abrigo de todos os ventos, e o curso do mesmo rio até que sai, pelo seu braço da direita, da lagoa Parda, notando-se que do ponto — A — para cima deixa de ser navegável, não por falta de altura d&#8217;água até ao braço, mas por muito atravancado.</p>
<p>O quarto finalmente patenteia a barra do Riacho, o seu porto, a concha formada por meio de recifes, que demora ao sul-sudeste da mesma barra, junto à praia; a valeta por onde se deve encanar o rio, e a direção da muralha que se precisa construir, para tornar-se este porto, atualmente insignificante, em uma doca proveitosa.</p>
<p>Antes de dar princípio ao desenvolvimento dos supracitados artigos, julgo conveniente apresentar algumas idéias acerca do rio Doce e terrenos adjacentes, idéias formadas das minhas observações, com o auxilio do juízo crítico que fiz combinando as disposições de uns com as de outros práticos, e conhecedores do país.</p>
<p>A posição geográfica do rio Doce o torna de um interesse reconhecido às províncias de Minas Gerais e do Espírito Santo; a esta porque a sua prosperidade depende incontestavelmente de francas e livres relações comerciais com aquela, que a seu turno obtém por este canal comunicação fácil com o oceano; e porventura serão somente estas províncias as que tirem real proveito de facilitar-se a navegação do rio Doce? Não certamente; as de Goiás e Cuiabá a devem ambicionar também: seus comerciantes escusarão de descer dos 16 graus e meio, com pouca diferença, de latitude austral, aos 23 e mais, para chegarem aos portos marítimos, conduzindo seus efeitos (os poucos que o podem fazer) às costas de animais pelo espaço de centenas de léguas, com tantos riscos, e fadigas: encare-se bem a direção do rio Doce relativamente a estas províncias e às suas principais povoações, que, de certo não restará a menor dúvida em concluir-se que é um bem necessário aos povos, e mui proveitoso ao Estado, cuidar-se com eficácia dos meios que, podem tornar cômoda a sua navegação.</p>
<p>Mas que outras e grandes vantagens resultam de facilitar-se a navegação do rio Doce! A indústria, a agricultura, o comércio e a mineração partilham estas vantagens. Os terrenos adjacentes a este rio produzem exuberantemente diversas e ricas plantas, frutas e legumes; por eles se estendem longas e pingues vargens, fundas o piscosas lagoas; dilatadas e virgens matas, auríferos rios; preciosas e ainda não revolvidas serras, e morros; finalmente terrenos tanto na província do Espírito Santo, como na de Minas, em que a natureza prodigalizou seus dons para ventura e regalo da espécie humana: todavia tão grandes bens têm sido até agora desprezados! A idéia terrível, que se há concebido e espalhado acerca da barra do rio Doce, será talvez a causa motriz deste país abençoado estar ainda tão escassamente povoado; nunca se entrou em serão e rigoroso exame dos motivos por que se julga mui perigosa a entrada deste rio, nem tão pouco porque se hão perdido nela facilmente algumas e pequenas embarcações; e é tal o terror pânico, que nem o seguro quer segurar para este porto: vamos, pois, à exposição destes motivos.</p>
<p>É, perigosa a barra do rio Doce para os ignorantes que a demandam, e por falta de providências que auxiliem a sua entrada; eis aqui tudo. Conhecendo os navegantes que devem esperar no seguro e franco porto da Aldeia Velha vento próprio para demandar a dita barra, e que saindo com ele firme, como geralmente se mostra em ocasião de luas, nos meses de maio, junho, julho, agosto e setembro, ele não lhes faltará de certo no curto espaço de 26 a 27 milhas, que têm a navegar para chegarem à mencionada barra; e que, ou com diminuição de pano, ou com algum bordo no mar e na terra, se devem sustentar para não varar a mesma barra, esperando que a maré chegue a meia enchente, para então a buscarem com força de vela, caso não seja despropositado o vento; conhecendo mais os navegantes a simples linguagem do sinal que se lhes há de fazer da atalaia, e que, sendo mais de uma embarcação, devem guardar entre si distâncias suficientes para se não embaraçarem na entrada, podem sem receio acometer o cordão, que facilmente hão de vencer, bem como o esganadouro, ficando a salvo em poucos minutos. O cordão nunca apresenta menos de 14 palmos d&#8217;água, quase em baixa-mar, como observou o patrão-mor, e mais no canal do esganadouro, altura bastante para as embarcações de cabotagem, que demandem 10 palmos, que são as próprias para este porto: isto acontece quando há duas barras; mas quando o rio apresenta somente uma, como o ano passado, e como é geral, então ainda sobe a sonda a maior altura.</p>
<p>Está, pois, o primeiro risco na passagem do cordão caso o navegante não haja tomado as indicadas precauções, e não esteja atento a obedecer ao sinal, que lhe indica o rumo para vencer o mesmo cordão, e logo se há de orçar ou arribar para correr o esganadouro, onde encontra já maior fundo, e é nele que está o segundo risco, no caso de acalmar o vento de repente, porque não podendo a embarcação voltar atrás, e correndo o rio sempre para fora, ainda que encha a maré, forçosamente há de encostar à praia: é pois para desviar este risco, que proponho adiante o auxílio de uma catraia, com espias firmes nos arganéus de boias, como igualmente proponho; pois que neste lugar não pode a embarcação usar de seus ferros, que não unham, por ser o fundo de areia mui ligada e dura, de superfície lisa e escorregadia. Aqui temos, pois, desviados os dois únicos riscos, com estas poucas atenções a executar.</p>
<p>Suponhamos agora, que a embarcação que se dirige à barra é de porte de 10 palmos d&#8217;água, e que o cordão não está capaz de consentir-lhe a entrada, até por ser mui forte nele o rolo do mar; neste caso o patrão-mor, ou o prático da barra faz-lhe sinal para não acometer, e a embarcação tem amplo mar para navegar, sem o menor receio de dar à costa; pois que a posição da foz do rio Doce relativamente à mesma costa, tanto para o norte como para o sul, assim o permite, mesmo por não haver ali travessia, favor que não experimentam todas as barras de areia; e até se quiser, não sendo rijo o vento, pode fundear ao mar do cordão, porque acha excelente fundo de lama, e não tem que temer baixio ou recife algum, que o não há, tendo somente cuidado de não fundear de 12 braças d&#8217;água para a terra.</p>
<p>Guardadas estas precauções, e com o auxilio do sinal da atalaia, eu vi entrar pela barra do sul, no dia 15 de julho, duas lanchas e um iate carregados de sal, tocados por vento sul fresco, e sem o menor risco salvaram o cordão e o esganadouro em 4 a 5 minutos cada uma, e correram velozmente a amarrar-se dentro do rio Preto; com a mesma facilidade tenho visto sair duas. Com que desabusem-se os incrédulos, a barra do rio Doce é má só para os loucos, que a procuram temerariamente, entregando-se aos vaivéns de cega fortuna; foi assim que se perdeu o iate novo do negociante da Vitória Domingos Rodrigues Souto, e é assim que se têm perdido outras embarcações; mas nem uma só, se conta havendo-se tomado as convenientes, precauções, e com o auxílio somente do sinal.</p>
<p>Diz-se mais. os canais, as coroas, os baixios, os esganadores, e até a barra do rio Doce, sofrem mudanças o alterações, causadas, já pela força das cheias, já pela veemência dos ventos. Respondo, que isso nada influo para este porto deixar de ser frequentado, porque sempre há canais, sempre há barra, e sempre há fundo bastante para as embarcações que não excedam a 10 palmos d&#8217;água; o que resta, pois, averiguar é a nova direção dos canais, posição de coroas e baixios, estado do cordão, do esganadouro e da sonda: eis o que deve conhecer o patrão-mor; eis aqui necessária a mudança das boias como proponho, e com estas medidas estamos no primeiro caso. Além disto a barra é quase sempre, a que se dirige para sudeste, e é raro apresentarem-se duas, como este ano, o que proveio da exorbitante cheia, que obrigou o rio a subir muito além das suas barreiras, a romper o pontal do sul e a deslizar grande porção d&#8217;água pelo sítio do capitão José Maria Nogueira da Gama, duas léguas e meia acima da foz, para ir entrar em um pequeno rio, e sair ao mar pela medíocre barra de Monsarás.</p>
<p>Espanta o rio Doce nas suas máximas cheias, que carregam nos meses de dezembro, janeiro, fevereiro, e ainda em março; isto é, na força das chuvas, principalmente nas províncias centrais, como a de Minas, onde ele tem as suas remotas fontes: mas teremos só um meio de comunicação do rio Doce com oceano, e reciprocamente? Eu me lisonjeio de mostrar mais de um no fim da minha comissão, assegurando desde já o do rio Preto, Lagoas, e rio Comboios à barra do Riacho, como em seu lugar demonstrarei. Passo agora ao desenvolvimento dos indicados artigos das instruções; queira a minha estrela que acerte no seu justo desempenho, para que, preenchendo assim as sábias intenções de Sua Excelência, se torne o meu trabalho proveitoso à nação e ao Estado.</p>
<p><b>Artigo I</b> — Reconhecer a capacidade do porto da Regência, com a determinação da altura a que chegam as marés ordinárias, e a duração do preamar.</p>
<p><b>Respondo</b>: O porto da Regência dentro do rio Preto, onde as embarcações se vão amarrar, tem fundo suficiente, e pode tornar-se com facilidade em um excelente molhe, como adiante descrevo; fora deste rio há também bom ancoradouro, mui perto da margem direita do rio Doce, à sombra da ilha das Bexigas, como mostra a planta n. 1<span id="MRFP_RP3V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP3" title="Nota da Estação Capixaba: a planta número 1 não aparece no artigo da Revista."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> que igualmente manifestam com precisão as sondas tomadas em baixa-mar, subindo as marés ordinárias a perto de 4 palmos, e a 6 na ocasião de águas vivas. A maré gasta 6 horas, com pouca diferença, a tocar o preamar, e outras 6 a vazar, varia, porém a hora de começar a encher, com a variação da lua, e, na ocasião de lua nova, ou cheia, é preamar às 2 horas pouco mais depois do meio-dia, ou da meia-noite. A inclinação do rio Doce é tal que, não obstante o fluxo do mar, ele corro sempre para fora, conservando-se a água doce até nos esganadouros mesmo nas marés grandes; o que sucede é que, no fluxo do mar, torna-se a corrente mais branda, subindo a superfície do rio não só pela pressão resultante do mesmo fluxo, como por causa da água salgada que penetra por baixo da doce: no rio Preto, porém, há enchente e vazante, quero dizer, vê-se correr a água para cima naquela, e para baixo nesta, entrando-lhe água do rio Doce na enchente.</p>
<p><b>Artigo II</b> — Sondar também o ancoradouro, declarando a natureza do fundo, e os melhoramentos que precisa.</p>
<p>A planta n.1 mostra a altura do fundo do ancoradouro em baixa-mar, o de fora, ou no rio Doce é de areia grossa, bom, e permanente; e porque as águas correndo à margem direita, e deslizando-se pela curva do barranco com força, não consentem que por ali se formem coroas, o ancoradouro do rio Preto tem o fundo de lama, e, pode melhorar-se como direi.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Artigo III</b> — Reconhecer as causas que tornam perigosa a entrada deste porto, oferecendo as reflexões que ocorrerem sobre os meios de remover ou prevenir o perigo.</p>
<p>Já expus as causas que tornam perigosa a entrada no rio Doce, que não são outras mais do que a falta das indicadas precauções e de providências; causas nascidas, portanto, na maior parte, da ignorância, temeridade, e mesmo do interesse dos que geralmente têm acometido a barra: o maior número de embarcações que se têm perdido hão sido grandes canoas de coberta, governadas e manobradas por índios, não só ignorantes, mas até, saindo de Aldeia Velha com a cabeça enfumaçada, tornam-se temerários e assim acometem a barra, dando-se-lhes pouco de perder-se a embarcação, porque, salvando eles facilmente suas vidas, tiram o proveito, e outros companheiros que logo aparecem, de colher os despojos do naufrágio.</p>
<p>A barra do rio Doce é boa; fora do cordão não se encontra um só baixio, um só recife, e o fundo é excelente, e não há vento que lhe seja travessia: esta barra não é, como geralmente são as de areia, encravada no fundo de uma enseada, sofrendo ventos de travessia, e outros obstáculos; ela existe em uma espécie de tromba mui saliente, fugindo-lhe de repente a costa tanto para o norte como para o sul, seguindo para o Riacho ao sudoeste e para São Mateus ao norte e ao norte-nordeste; vê-se, portanto, que as embarcações, que estiverem ao mar do cordão, têm bordada franca com todos os ventos, ou seja para o norte ou para o sul.</p>
<p>Chegada a embarcação à barra, pode correr dois riscos, o primeiro na passagem do cordão, o segundo no esganadouro; o primeiro eu o julgo menor que o segundo, porque deve contar-se que o cordão será varado facilmente, em meia maré de enchente, tendo o navegante atendido às citadas precauções e ao sinal da atalaia; ficando este perigo assim inteiramente desvanecido; o segundo dentro do esganadouro só pode provir de faltar o vento de repente, e neste caso perder-se-á a embarcação por causa da corrente do rio, e por não poder usar de seus ferros, como já expus: é para evitar no todo este segundo perigo que proponho as providências seguintes:</p>
<p>Necessita-se uma catraia de 12 remos, bem equipada, que possa subir a barra quando se fizer mister, e de popa aberta para poder suspender ferros; esta catraia vem a servir de grande auxilio à barra, não só para com ela se observar o fundo do cordão, e esganadouro, como para suspender os ferros das boias, que igualmente proponho, e fornecer espias às embarcações em ocasião oportuna, indicar-lhes o canal, etc. Deste modo providenciada a barra, conte-se de certo ficar também desvanecido este segundo perigo. Havendo já o patrão-mor, que é sem dúvida excelente prático, faz-se absolutamente necessário que se lhe forneça quanto antes a catraia, para que de uma vez fiquem desvanecidos os terrores pânicos, e bem depressa acreditada a barra, o que fará aumentar a população neste paraíso admirável, conspirando-se assim para lapidar-se este brilhante bruto, que desgraçadamente até aqui tem estado mergulhado no imundo pélago do esquecimento; desafio, pois, aos entendedores e amantes verdadeiros do Brasil para que visitem este rico país, e conhecerão então que não sou exagerado, e suplico ao governo para que haja por bem dar providências a fim dele ser aproveitado em tão grande e manifesto proveito da nação e do Estado.</p>
<p>Sendo duas as barras, precisam de 4 ou 6 boias, com seus fortes arganéus e ferros, ou âncoras capazes, com cadeias, para serem colocadas as ditas boias bem fixas nos lugares convenientes, a fim de marcarem não só o canal de boa entrada, como também de poderem suportar em seus arganéus as espias quando se façam mister. Estas boias postas no esganadouro serão mudadas com a mudança que se experimentar na barra, no que o patrão-mor terá todo o cuidado, e no mesmo lugar serão suspendidos os ferros todos os oito dias, e lançados de novo para não arearem.</p>
<p>Devem haver cabos de cairo de 4 a 5 polegadas para espias; digo de cairo por serem mais duráveis, e boiantes, não fazendo tanto corso, ou peso dentro da água, como os de linho.</p>
<p>Necessita-se mais de duas ostaxas de 7 a 8 polegadas (podem ser de linho) para dar socorro a qualquer embarcação, quando seja preciso, largando-se um ferro suficiente em lugar asado, e seguindo a ostaxa para a embarcação com os cabos de espia, que devem ir dentro da catraia, isto nos casos em que, as boias não venham a ficar em situação proveitosa: para este fim haverá três âncoras de 4, 5 e 6 quintais, que julgo bastar. Precisa-se também uma peça do cairo para uma estralheira, ou talha de suspender as âncoras tanto das boias, como as outras, com seus competentes cadernais bronzeados prontos.</p>
<p>Além destes auxílios deve construir-se uma atalaia em cada barra (havendo mais de uma como agora), de bons paus fincados à prumo, com altura bastante para ser vista de longe, com seu girão e escada de mão fixa: serve a atalaia não só para dela se observar o mar à larga distância, por ser o terreno baixo por ali, como também para se fazerem os convenientes sinais às embarcações, que demandarem a barra.</p>
<p>É de absoluta necessidade cuidar-se já no quartel para o comandante, patrão-mor, e guarnição; pois que o atual está a cair, aproveitando-se dele a telha, e alguma madeira, bem como a telha de outro que existe próximo, com vários portais, o qual pelo estado de ruína em que se acha já não pode ser habitado, nem reparado. Por esta ocasião lembro que se devia aproveitar quanto antes a telha de outro quartel, que está abandonado na barra de Monsarás, telha que se pode conduzir facilmente pelo pequeno rio, que vai daquela barra até ao sítio do capitão José Maria Nogueira da Gama, e dali passar-se ao rio Doce, cujo trajeto é mui curto, e a barra de Monsarás fica perto do dito sítio; do contrário perde-se esta telha, porque o quartel, que dantes ficava à boa distância do rio, está hoje junto ao barranco, e não tarda a cair.</p>
<p>Julgo também mui proveitoso construir-se um armazém por conta da fazenda pública, com suas repartições, para estas se alugarem aos comerciantes por conta da mesma fazenda, a fim de terem onde depositem o sal, e mais mercadorias, pois não há ali uma só casa onde o possam fazer: assim aproveitará o público, e a fazenda bem depressa cobrirá a despesa, vindo a lucrar para o futuro.</p>
<p>Com estas precauções e auxílios, contem os incrédulos que é muito boa a barra do rio Doce, e que até pode ser acometida no tempo das cheias com vento fresco desde o sudoeste até leste-sudeste pelo sul, buscando-se sempre as grandes marés em meia enchente, o que já se tem visto.</p>
<p><b>Artigo IV</b> — Informar que embarcações entram, ou podem entrar no porto.</p>
<p>Por segurança digo, que podem entrar todas aquelas que não demandem mais de 10 palmos d&#8217;água, como lanchas, sumacas etc. Além das três embarcações, que eu citei, e vi entrar, e das duas que saíram, já entraram mais duas lanchas, e saiu uma e um iate, com a mesma facilidade, e já se vê em Linhares alguns gêneros de comércio que dantes não havia, como vinho, carne-seca, louça de cozinha etc.</p>
<p><b>Artigo V</b> — Reconhecer a direção e largura do rio Doce desde a foz no oceano até ao sítio em que ele se precipita nas gargantas e catadupas das Escadinhas etc.</p>
<p>Do que exige este artigo está somente satisfeito o que pertence à distância da foz até ao sítio do capitão José Maria, distância que monta a duas léguas e meia; portanto, a planta responde a esta exigência no maior grau de exatidão que me foi possível; enquanto à velocidade da corrente neste espaço, é variável segundo a direção dos estirões, e da correnteza das águas, sendo mais veloz nos canais, e menor nos espraiados e coroas: próximo aos esganadores e nos mesmos pode reputar-se a velocidade média do rio neste tempo da seca de 45 segundos para 20 braças, e nos baixios, ou fora dos canais, de 55; quero dizer, gasta a corrente 45&#8243; ou 55&#8243; em 20 braças.</p>
<p><b>Artigo VI</b> — Reconhecer até onde chega a maré, e até onde pode ter lugar o auxílio de velas.</p>
<p>O máximo luxo do mar faz-se sentir somente até meio da povoação dos índios, marcada na planta; e o auxílio de velas pode empregar-se em toda a extensão de duas léguas e meia de rio, que reconheci; daqui para cima a seu tempo direi o que ocorrer a este respeito: a inclinação do leito do rio tornando veloz a corrente, apesar da sua largura, é a causa de não subir mais longe a maré, ainda em águas vivas.</p>
<p><b>Artigo VII</b> — Indagar a época e duração das enchentes periódicas, e se elas obstam ou facilitam a navegação, no todo ou em parte.</p>
<p>Estas cheias acontecem nos meses em que chuvas copiosas ensopam a superfície das províncias centrais; principiam em outubro algumas pancadas d&#8217;água, tornam-se mais repetidas em novembro, e grandes torrentes desprendem as nuvens em dezembro, janeiro, fevereiro, e ainda em março; então os mais humildes ribeiros ficam soberbos e pujantes, e como à porfia vão conduzir as suas águas aos amplos rios, formando-lhes suas enchentes periódicas: tal acontece ao rio Doce, que tem as suas fontes na província central de Minas; é, pois, em dezembro, janeiro, fevereiro e março, que este rio se esforça para romper suas barreiras, principalmente em janeiro e fevereiro, dependendo a maior ou menor veemência de suas cheias de ser a estação chuvosa mais ou menos abundante. O ano passado foi notável a enchente deste rio, subiu a 25 palmos, alagando terrenos que há longos anos estavam intactos das cheias, rompeu o pontal do sul, de não pequena largura, abriu a barra que hoje demora àquele rumo, e cobriria todo o terreno aonde está o quartel da Regência se não trasbordasse, como já disse, logo acima da casa do dito capitão José Maria. Quando para o futuro se empregarem na navegação deste rio barcos de vapor, construídos tanto para servirem no tempo das águas como da seca, ver-se-á que as cheias favorecem a navegação até onde tenho idéias claras do rio, quero dizer até às Escadinhas; porque livremente se navega por cima das coroas, tanto subindo como descendo, havendo só o cuidado de buscar a curvatura dos estirões para cima, em que for menor a correnteza: as canoas podem também navegar para cima naquela época, ou buscando as coroas onde firmem as varas, ou sirgando: e para facilitar-se a sirga tanto a canoas, como a outros barcos, que se venham a empregar nesta navegação, devem descortinar-se os barrancos do mato que os cobre, que geralmente oferecem bom cômodo para a sirga.</p>
<p><b>Artigo VIII</b> — Informar que embarcações podem ser empregadas na sua navegação.</p>
<p>As ordinárias são canoas de mais ou menos porte; mas frequentando-se a navegação deste rio devem construir-se embarcações de propósito, que demandem pouca, quantidade d&#8217;água e satisfaçam, ao mesmo tempo a carregar volumes do maior número de arrobas que for possível; para estas embarcações devem-se preferir-se madeiras leves, serem de fundo de prato, e carregadas que não demandem mais de 4 palmos d&#8217;água. Temos barcaças em Campos, que não excedem a 4 palmos d&#8217;água, carregadas com 20 e 25 caixas de açúcar, e pode ser melhorada a construção praticando-se o método moderno anunciado este ano nas folhas públicas, e aplicado à embarcações do lote que se pretende.</p>
<p><b>Artigo XII</b>&nbsp;— Reconhecer a barra, o curso e profundidade do rio dos Comboios, com observações sobre a sua capacidade, ou incapacidade de servir à união do oceano com o rio Doce, defronte de Linhares, pelo rio Preto e enfiada de lagos adjacentes.</p>
<p>Falando primeiro do rio Comboios, digo, que por ele se pode comunicar o rio Doce com o oceano: o Comboios segue em rumo geral ao norte-nordeste e nordeste, quase paralelo à costa; ele deságua no rio Riacho (de que tratarei) por um esteiro de pouco fundo, em repetidas voltas, e de perto de meia légua; navegando aquele esteiro, entra-se em espaçosos, fundos e lindos estirões, limpos e unidos por brandas curvas, de modo que a variação dos rumos destes estirões, ou lagos contíguos, é de uma quarta até quarta meia (a planta n. 2 mostra a direção deste rio), estirões de 200 braças de comprido, e alguns de mais, e largos de 30, 40 e mesmo 50 braças, e seu fundo geralmente de 10, 12 e 14 palmos, e em partes de 20 e 30, e no penúltimo estirão, antes de chegar-se ao arruinado quartel, me aportou o prático de nome Benedito Barbosa, um lugar onde ele pescando emendava duas linhas de 20 braças cada uma para chegar ao fundo! Este rio é fechado por alta mataria, tanto a leste como a oeste, à exceção de alguns espaços baixos junto ao mesmo rio, que ficam geralmente cobertos d&#8217;água no tempo das cheias; e a passada subiu por ali a 16 palmos acima da superfície atual do rio, que tem desde a sua barra no Riacho até ao dito quartel arruinado 4 léguas e 3 quartos. É este rio abundante de peixe, como tainhas, robalos, jundiás, carapebas, piáus, acarás, traíras, marobás etc.; e suas matas e margens de caça, como antas, cutias, pacas, lontras, capivaras, macacos, barbados, preguiças, tamanduás grandes e pequenos porcos e animais ferozes, onças; aves, grandes taboiaiás, papagaios, pavoas, mutuns, jacupemas, araçaris e diversas qualidades de pequenos pássaros; as águas são claras, saborosas e frescas neste tempo da seca.</p>
<p>Logo acima do sobredito quartel estreita o rio, e vai ao norte 1/4 noroeste procurar a língua da mataria, que brevemente encontra; para seguir então ao norte-nordeste, começando a ficar atravancado com madeiras, diferentes arbustos, aguapé etc.; o dito prático que me acompanhou, que foi pedestre, e esteve anos destacado no dito quartel dos Comboios, segurou-mo que, andando várias vezes à caça, observara que este rio para cima do quartel vem de lagoas, que se unem, e vão puxando ao nordeste; eu mesmo vi que ele alarga para cima do quartel. Com efeito, a comprida lagoa <span id="MRFP_RP4V">Parda</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP4" title="Nota da Estação Capixaba: aqui menciona-se uma planta número dois, que também não aparece no artigo da Revista."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> fica em posição tal que, dirigindo-se na sua maior extensão ao sudoeste, vem a frontear o rio Comboios, ou lagos seguidos que o formam: aquela lagoa acaba em um brejo, inclinando ele algum tanto para o sul, e ao mesmo rumo sudoeste há um esteiro, que, me afirmaram caçadores ir a outras lagoas; e em Linhares acabam de certificar-me o mesmo, ao que dou inteiro crédito por combinarem as disposições de uns com as de outros; o dito esteiro tem 11 palmos d&#8217;água na sua entrada; eu o não segui por estar muito atravancado: a distância da lagoa Parda aos lagos observados do Comboios não é grande, e nada há que faça ajuizar que esta enfiada de lagos não seja continua e sucessiva, acompanhando o grande e largo areal que vai à costa, seguindo do sudoeste ao nordeste.</p>
<p>Do princípio daquela lagoa sobe um braço, que, juntando-se a outro, que parte duma lagoa fronteira à povoação dos índios, formam o rio Preto<span id="MRFP_RP5V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP5" title="Idem, planta número três."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> que vai alargando em estirões abundantes d&#8217;água, mas muito atravancados por madeiras, que para ali deitaram no tempo das derrubadas para plantações, tempo em que se empregou bastante gente, no serviço dos quartéis da Barra, administrado pelo coronel, já falecido, Julião Fernandes Leão, de cujos quartéis só existe o da Regência arruinado. Acha-se, pois atravancado o rio Preto até ao ponto — A — da planta, seguem-se dali lindos estirões de bom fundo, entre 10, 12 e 14 palmos geralmente, e em partes 16 e 20 neste tempo da seca. Tem o rio Preto desde que principia a alargar em seus aprazíveis estirões 495 braças até ao portinho do caminho que mandei abrir para a lagoa Parda<span id="MRFP_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP6" title="Idem."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> e por onde se varou uma pequena canoa para fazer o reconhecimento da mesma lagoa. No fim dos estirões estreita este rio muito, por algum espaço, de maneira que não tem mais de 10 a 12 palmos de largura, e fundo de 4, 5 e 6, ao mesmo tempo que não descreve grandes voltas; o motivo de existir por ali tão estreito é porque de suas margens se estendem sobre ele densas ramagens, crescendo por entre elas o capim; entra depois a ser mais largo e mais fundo, descrevendo então voltas mais fortes até ao ancoradouro, e portinho da Regência, seguindo daqui a leste em estirão de 26 braças até à sua barra no rio Doce, contando-se ao todo desde que principia a estreitar até à dita barra 525 braças. A planta mostra os rumos que descreve o rio até que pelo seu braço direito vai à lagoa Parda, da qual o fundo e a direção também o manifesta a mesma planta; é esta lagoa limpa, de livre navegação, águas turvas, e duma légua de comprido, e somente de 150 braças na sua maior largura.</p>
<p>O rio Preto para baixo dos seus estirões formava, em outro tempo, um medíocre esteiro; mas o coronel Julião o mandou limpar, e alargar desde a sua foz, e de então para cá serve de mui bom ancoradouro aos poucos navegantes que têm freqüentado o rio Doce. Tem portanto, a cadeia de lagos dois escoantes, um para o rio Doce, que é o rio Preto, o outro para o Riacho, que é o já citado esteiro do Comboios; e eis aqui uma comunicação do rio Doce com o oceano, sem ser pela sua barra. Que resta, pois, fazer? Melhorar esta comunicação profundando e alargando competentemente os canais estreitos, que a natureza apresenta, fazendo-se o mesmo que facilmente fez o coronel Julião no baixo rio Preto; cortar algumas voltas nos esteiros, pois o terreno baixo por onde serpenteiam bem o permite, e deste modo se tornará fácil a navegação por dentro desde o rio Doce até à barra do Riacho no oceano.</p>
<p>Respondo mais a este artigo, que pelo rio Preto, e Comboios, nunca se comunicará o Doce com o oceano defronte de Linhares; a planta o mostra. Outra comunicação pode ter lugar fronteando esta vila para o sul, e é pela comprida lagoa de Aguiar e Riacho, que dela nasce, como a seu tempo tratarei depois de medir o trajeto o reconhecer a lagoa e o rio.</p>
<p>Para que o porto do Riacho, de medíocre que é, se torne em uma doca proveitosa a lanchas e a sumacas, precisa fazer-se-lhe os seguintes melhoramentos, ou outros que se julguem mais adequados. O Riacho logo para cima da ilha, ou, coroa de areia perto da barra, apresenta mui bom fundo; está, pois, o caso no curto espaço que, vai dali para baixo, em que o fundo é, em partes de areia, e geralmente de pedra carcomida e arenosa, fácil a despedaçar-se; é mister, portanto, fazê-lo, levar o rio a desaguar na concha ao sul-sudeste<span id="MRFP_RP7V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP7" title="Nota da Estação Capixaba: menciona-se aqui uma planta de número quatro que não aparece na Revista."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> construir-se um paredão (para o que pode servir a pedra arrancada do leito) da parte do mar, desde a terra firme até ao recife, da Concha, cuja direção se mostra pela linha grossa — A B —<span id="MRFP_RP8V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP8" title="Idem."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> com 194 braças; é de acreditar que este paredão vá assentar em rocha, senão no todo, ao menos em grande parte, pois que o alvêo do rio e da valeta assim o indica, o que muito convém: desta sorte escorregando pelo paredão as águas do rio, sem grande pressão, por causa do rumo do curso que trazem, irão pela valeta a entrar na Concha, impedindo-se, como se pretende, que o rio rompa o pontal que lho fica a leste, em qualquer ponto, o que torna incerta e de nenhuma capacidade a barra: a atual serve só para canoas, e à do ano passado, também no tempo da seca, aconteceu o mesmo; ela ficava 15 braças mais ao sul da existente: o barranco da margem direita do Riacho será cortado quando se faça mister para dar ao porto a capacidade conveniente. O paredão, e pontal, e os recifes da Concha, suportando a fúria do mar, tornam abrigado o porto, semelhantemente ao de Pernambuco; a boca da Concha não muda, demora a Leste-sudeste, e, colocando-se na terra firme duas boas balizas na direção deste rumo, as embarcações, enfiando-as e correndo à Concha, têm segura a entrada: há nesta Concha outra entrada da parte do sudoeste, que serve para canoas, que venham costa a costa da parte do pequeno rio Saí que fica a uma légua de distancia, aproveitando-se da serenidade do mar, que quebra a sua força na linha do recife, que acompanha a mesma costa alguma distância: a dita concha tem fundo para as lanchas, e sumacas, não sendo estas de grande porte.</p>
<p>O quartel do Riacho é mui necessário, por isso mesmo que não há outro lugar onde se abriguem os caminhantes; ele se acha abandonado, e já em ruína pela parte de trás, tendo ainda as paredes da sala, cozinha, e quartos em bom estado; é, pois, para lamentar deixar-se perder aquela casa por se lhe não assentar nova coberta, que é de palha, e por se não reparar o que está arruinado, conservando ali dois homens que tenham conta dele, e das passagens, do contrário sofre muito o público, e os correios demorados muitas vezes por não haver quem passe, porque os moradores do Riacho ficam distantes, e há ocasiões em que nem existem na sua casa; com aquela mui pouco dispendiosa providência tudo fica sanado.</p>
<p>O porto do rio Preto precisa também melhorar-se, fazendo-se-lhe um molhe capaz para conter as embarcações, que assim ficam ao abrigo de todos os ventos; para isto não há mais que limpar o fundo e margens do pequeno estirão de 26 braças que vai da barra a oeste até ao portinho da Regência, garganta que não precisa alargar-se, e desde o dito portinho para cima cortar-se o barrando de um e de outro lado, a fazer-se o molhe com a forma elíptica, como mostra o retângulo junto à planta n.3<span id="MRFP_RP9V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP9" title="Nota da Estação Capixaba: planta mencionada anteriormente que não aparece no artigo da Revista."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> Com estes melhoramentos aqui temos uma boa e segura comunicação do rio Doce com o oceano.</p>
<p>É pena que o capitão-mor dos índios da vila de Nova Almeida, Francisco José Pinto, falecesse repentinamente na madrugada do dia seguinte ao da sua chegada à margem do rio Doce, ficando assim privado da relação exata da sua viagem desde o rio Piraqué, braço setentrional do rio da Aldeia Velha: todavia sabe-se que aquele capitão-mor dirigiu a picada pela parte superior, ou pelo poente dum morro de nome Cavalinho, para melhor subir ao Pau Gigante, ou ainda acima se lhe fosse possível; isto porque, quando ele, há anos, acompanhou um seu tio na mesma diligência, saiu este abaixo do dito Pau Gigante, deflorando-lhe o mencionado morro à esquerda, ou para o poente; carregou, portanto, em demasia o dito capitão-mor para o noroeste até que, encontrando uma grande lagoa, teve de costeá-la, puxando então para leste, e veio sair muito abaixo do sobredito Pau, com 6 dias de viagem, e de trabalho, o qual sendo praticado por índios é de acreditar que menos tempo se gastaria fazendo-se a picada por outra qualidade de gente: julgo, portanto, que este mesmo caminho, que de certo não segue a direção mais curta, se pode fazer em dois dias: disseram os índios que o capitão-mor tinha tenção de endireitar a picada na volta para Aldeia Velha, tanto ele conheceu a má direção da mesma picada; disseram mais que o terreno por onde vieram é plano, sem dificuldades, nem morros. Por esta exposição, ainda que sucinta, sou conduzido à probabilidade de que o trajeto do Piraqué ao rio Doce, pela direção conveniente, não é grande, e que talvez se possa ainda diminuir usando-se da navegação de alguma das muitas, fundas e grandes lagoas, que acompanham as margens deste notável rio, a mais ou menos distância delas: eu vou mandar dois homens a examinar a picada, para ver escoteiros quanto tempo gastam até ao dito Piraqué.</p>
<p>Juntarei ao expendido as minhas reflexões baseadas em dados positivos: da Aldeia Velha em linha reta ao nordeste à barra do rio Doce contam-se 27 milhas, ou 9 léguas, e se as barras estivessem na linha norte sul contar-se-iam somente 19 milhas ou 6 léguas e 1/3 (lado do triângulo retângulo isósceles); ora, o mencionado Piraquê vai puxando para o sul, em seus respectivos quadrantes de noroeste e de sudoeste, de maneira que os morros do Pau Gigante ficam ao sudoeste 1/4 oeste, de Linhares, e esta vila já se acha em paralelo ao sul do da foz do rio; eis aqui cada vez mais diminuída a distância das 19 milhas contando-se também norte-sul; portanto, aproximando-se, como mostro, o Piraquê do rio Doce, posso assegurar, se me não engana a fantasia, que virá a ser a jornada do trajeto dum só dia, sem fadiga; que proveitosa circunstância! Bem depressa se comunicará pelo novo caminho de Linhares com Aldeia Velha, e abrindo-se outro, pelo grande assentado, daquela vila para São Mateus, virá a distância desta última vila para a cidade a ser muito mais curta e cômoda.</p>
<p>Enquanto ao que exige o <b>Artigo XIII</b>, só direi por agora, que a barra da Aldeia Velha é muito boa, e não mudável, por causa do recife que a limita pelo sul; a qual pode tornar-se excelente, aplicando-se-lhe a máquina de roçagar, para dar mais fundo à sua entrada; o porto é ótimo, as embarcações até estão chegadas à terra, com prancha lançada, como vi o patacho da madeira, achando-se já carregado: pode acometer-se a dita barra com quase todos os ventos, e fica no fundo de uma notável sinuosidade. Quando escrever a Memória em resultado final da minha comissão, falarei do grande local sobranceiro ao porto daquela aldeia para assento duma linda povoação , da totalidade do rio até onde é navegável, e do proveito que dele pode tirar a navegação do rio Doce, facilitando-se o trajeto.</p>
<p>Vastíssimo campo oferece o rio Doce, com seus terrenos adjacentes, para discorrerem e se recrearem os sábios! Enquanto a mim, escasso de princípios, mas não de ardentes desejos de tornar-me útil ao Brasil, esforçar-me-ei quanto me for possível para satisfazer, noutra Memória mais difusa, as providentes vistas do governo.</p>
<p>Linhares, 16 de agosto de 1833.<br />
Luiz d&#8217;Alincourt.<br />
sargento-mor engenheiro.</p>
<p>[Publicado na <i>Revista </i>do IHGB, tomo 29, parte I, 1866. Vol. 32, p. 115-38.]<br />
_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="MRFP_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;No original <i>Comboys</i>.</div>
<div id="MRFP_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do editor da Revista: faltam no manuscrito. Nota do site Estação Capixaba: trata-se, pelo que pudemos entender, dos quatro documentos a que o autor já se refere mais adiante como plantas.</div>
<div id="MRFP_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do site Estação Capixaba: a planta número 1 não aparece no artigo da <i>Revista</i>.</div>
<div id="MRFP_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do site Estação Capixaba: aqui menciona-se uma planta número dois, que também não aparece no artigo da <i>Revista</i>.</div>
<div id="MRFP_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, planta número três.</div>
<div id="MRFP_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem.</div>
<div id="MRFP_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do site Estação Capixaba: menciona-se aqui uma planta de número quatro que não aparece na <i>Revista</i>.</div>
<div id="MRFP_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem.</div>
<div id="MRFP_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/memoria-sobre-o-reconhecimento-da-foz-e/#MRFP_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Nota do site Estação Capixaba: planta mencionada anteriormente que não aparece no artigo da <i>Revista</i>.</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luís D&#8217;Alincourt</b> nasceu em Oeiras, em 1787 e faleceu no Espírito Santo, em 1841. Foi militar, oficial do Real Corpo de Engenheiros, escritor, ensaísta, memorialista, pensador, ativista, intelectual e pesquisador português radicado no Brasil. (Para obter mais informações sobre o autor,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luis-dalincourt-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
</div>
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		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Feb 2016 19:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada de Ferro Vitória a Minas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Rio Doce]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (terceiro sentado da direita para a esquerda), em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas. SUMÁRIO Prefácio Reminiscências Rio Doce ______________________ Capítulo I — O Rio Doce no tempo de Cabral. Lendas. Entradas. Ouro. Comunicações. Estrada geral. Embarcação a vapor. Liberta-se do vento a navegação. [&#8230;]</p>
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</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
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<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-0IMN6mEptW4/Vrz2XvugriI/AAAAAAAABLs/hHMoZ1_2XD8/s1600/Ceciliano-EFVM-p.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (terceiro sentado da direita para a esquerda), em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas." border="0" height="470" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Ceciliano-EFVM-p.jpg" class="wp-image-5379" title="O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (terceiro sentado da direita para a esquerda), em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: left;">O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (terceiro sentado da direita para a esquerda), em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas.</p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h4>
SUMÁRIO</h4>
<p>
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_78/" target="_blank" rel="noopener">Prefácio</a></b><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_38/" target="_blank" rel="noopener">Reminiscências</a></b></p>
<p><b>Rio Doce</b><br />
______________________</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo I</a></b> — O Rio Doce no tempo de Cabral. Lendas. Entradas. Ouro. Comunicações. Estrada geral. Embarcação a vapor. Liberta-se do vento a navegação. Farol. Regência Augusta. Padre Anchieta. Navegação fluvial. A barra do Rio Doce. Flora e fauna. A madrugada. Retiram as pranchas. Rio acima. Suínos. A benzedeira. Lenha. Ilha das Frecheiras. Grupo das Carapuças. Energia do brasileiro. Cabas-tatu. Fechava o corpo.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_98/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo II</a></b> — Linhares em 1905. Decadência. Reerguimento. Terra maravilhosa. Progresso delirante. O Rio Pequeno. A Lagoa Juparanã. Visita de D. Pedro II. Ilha do Imperador. Rio de São José e suas matas. Pescarias e caçadas. O caboclo indispensável. Apólogo. &#8220;Rodas ponteadas&#8221;. Versos soltos. Histórias fantásticas. Paisagens. Borboletas amarelas.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo III</a></b> — Confronto das florestas. Rio Juparanã-mirim. Encalhou: o barqueiro. Satisfação a bordo. O homem da carabina. &#8220;Olhe a carniça&#8221;. &#8220;Na cabeça não entra bala&#8221;. Terra Alta. Colônias de caçaremas. Quadro bucólico. Respeitável poeta. Exuberância da floresta. Garças estudam? Gastão Cruls e as perspectivas do Rio Doce. Guaribas. A. Wallace e Humboldt. O orgulho do barbado e a arrogância do caracu. Um &#8220;mimo&#8221; das matas. É &#8220;desinfeliz&#8221; na caçada. O condenado da ninhada. Um &#8220;revés&#8221;. A terra adormece. O grito do quero-quero.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IV</a></b> — O nevoeiro. Colatina. O cometa. Vale de Canaã. Contraste. Conversa de rio-docenses. O rio de Santa Joana. O pavor da bicharada. Catita. Barrigudas e companheiras. Porto BElo. Ariranhas. O capitão Nazaré. Urubus e carniça. Divergências. O rio Mutum. Passarinhada. Esperam o milho. Desaparecem os indícios de chuvas.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_1/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo V</a></b> — Porto Final. Franqueada a navegação do Rio Doce? Problema não resolvido. Entrega de novas florestas. Cachoeira das Escadinhas. Saint-Hilaire esclarece. Registros e destacamentos. Rui Barbosa, patrono do Espírito Santo. A Constituição de 1937. &#8220;Lembrem-se de que sou mineiro.&#8221;</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_44/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VI</a></b> — Observações de C. F. Hartt. Casebres. Pedras do Lorena, dos Cágados, do Resplendor e da Vaca. Serra da Onça. Cachoeira de Santana. Vasto anfiteatro. Moradores e cabras. Cachoeirão. Matas e lendas. Afluentes do Rio Doce. Cachoeiras e ilhas. Figueira. Ibituruna. Distrito de Peçanha. Os três pioneiros. Suaçuí Pequeno. Baguari. Pedra Corrida. Escura. Cachoeira perigosa. Antônio Dias.</p>
<p><b>Bugres</b><br />
_______________________</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_2/" target="_blank" rel="noopener"><br />
</a><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_2/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo I</a></b> — Mata gigantesca. Índios. VIII Congresso de Geografia. General Rondon. Excursão à Cachoeira da Serra. Detidos por indígenas. Fazendeiro flechado.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_11/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo II</a></b> — Ligeiras informações. Capitão da Mão Branca. Fundação de Filadélfia. Companhia do Mucuri. Carro tirado a bestas. Liquidação da Companhia. Imprensa da Corte.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_68/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo III</a></b> — Sugestão dos índios. &#8220;Daquí não sairei.&#8221; O livro de Frei Jacinto. Ataques dos Pojichás. Flagelo do Mucuri. Dois mil e quinhentos indígenas. Sarampo e febres. &#8220;Você morrerá depois irei eu.&#8221; O bugre chorou. Flechados os missionários. O chefe Pojichá volta a ser cruel. Ataques repetidos. Remanescentes da terrível tribo. Presentes. Apertados abraços. Foi infeliz o Dr. Portela.<br />
<b><br /></b><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_26/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IV</a></b> — Correspondência trocada. Relatório. Origem tupi. Boas lavouras. Ascendência sobre os chefes, de algumas índias. O Vale do Etuete. A bebedeira do capitão. Crenaques gritadores. Giporocas taciturnos. Assistência médica. Crenaques recusam presentes e atacam. População escassa. Recrutamento de trabalhadores nos Estados do Norte.</p>
<p><span style="font-weight: bold;">A Estrada de Ferro Vitória a Minas</span><br />
_______________________</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_56/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo I </a></b>— Trocando a capital pela selva. Porto Velho, a estação inicial. O ferroviário perde o trem. Lenda da jaqueira. As esposas dos agentes, pioneiras do comércio. A malária em Alfredo Maia. As moças da estação e a pedra de Itapocu. Timbuí, seu progresso e seus arredores. O Rio Itapirá e as matas do Guaraná. Novamente a febre. Lotes coloniais. Pendanga. Enfim, Lauro Müller: a ponta dos trilhos.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_83/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo II</a></b> — A família do chefe. A hospitalidade praxista. A dedicação dos médicos. Justos elogios aos trabalhadores. Visita ao povoado de muitos nomes; a igreja. Exame de perfis e projetos. Preparo do leito da estrada. Fornecimentos difíceis. Mina encravada, trabalhador maneta. Rampa máxima, supressão de túneis e muros. Referência a engenheiros. O Dr. Schnoor , o auxiliar, o pagador e a variante de Cariacica. A construção além de Lauro Müller. Crítica. Caminho de serviço, um arremedo! Garganta do Guasti: o bombardeio, os cavouqueiros e os marreteiros. Minúcias a respeito dos trabalhos. Crianças radiam felicidade. A nobreza da profissão de engenheiro. Discursos de inauguração.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo III</a></b> — Moços da cidade. Conversas de família. O carneiro de Djalma e a inveja do autor. O Professor ou o Coronel Xandoca. Itinerário de viagem. &#8220;O mata a fome&#8221; ou &#8220;o mata à fome&#8221;. O almoxarifado. Aquisição de mantimentos. A amizade entre o coronel e o chefe. Pagamento atrasado. Dificuldades de trânsito. A família do coronel. Louvores ao Rio Doce. O pé-de-alferes do auxiliar à filha do coronel. Últimas recomendações.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_21/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IV</a></b> — Agitação matinal. Despedidas. A cavalo, rumo ao Rio Doce. Moças ítalo-brasileiras. Paisagens da viagem. Cafezais. Cães ameaçadores. Matrona enraivecida. A moeda tudo aplaina. Colchão de palha de milho. O Rio Baunilha. Rio Doce! &#8220;Patrão, como ele é bonito!&#8221; Recepção cordial. Viagem em canoa. A professora de Colatina. Canto e peleja dos canoeiros. Monotonia. &#8220;A criança quebra&#8221;, diz o engenheiro austríaco. Porto da Esperança. Família Buriche. Porto Final. Família Viana. Um mito, as maleitas do Rio Doce? Compra do Queimado, suas qualidades. Assistência religiosa. Dom Fernando de Souza Monteiro.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_35/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo V</a></b> — O emissário. O chefe da exploração. Viminas. Advertências e deveres. Início do trabalho. O sol descai. &#8220;Alto!&#8221; Vamos bem. Travessia do Manhuaçu. Dez quilômetros explorados. Pedra da Vaca. O abarracamento. O cuca, palmito e surubim. Coruja, macuco e curiango. Cobra na barraca. Correição de guaju-guajus. &#8220;Não é homem, é arsenal!&#8221; Ribeirão dos Quatis. Luz, muita luz. Trabalho leve. A gulodice da Morena. A foice do Lopinho. &#8220;Não quero brigas.&#8221; Tolerância do chefe. Lopinho mofino. Rezas e penitência. Galo músico. &#8220;Olhem! Que perigo!&#8221; O caburé. &#8220;Basta!&#8221; O velho Moisés. O avejão. &#8220;Ele sou eu.&#8221;</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_78/" target="_blank" rel="noopener"><b>Capítulo VI</b> </a>— O santa casa. A barriguda estourou. O capiau, a filha, o tordilho e a alazã. Cabras, borrachudos, carrapatos e mucuins. A cachoeira do M. Crenaques e Puris. &#8220;Pode aumentar, diminuir nunca!&#8221; Canecas aos doutores, cuités aos trabalhadores. A tempestade. Vi cair um &#8220;perigo&#8221;. O córrego embraveceu. Estômagos e &#8220;terradas&#8221; sem açúcar? A estanca do ribeirão da Lapa. Úlceras. &#8220;É homem bom.&#8221; &#8220;O alarido era enorme.&#8221; &#8220;Estão vivos por milagre!&#8221; As três barras. A venda indiscreta. Ainda o Lopinho. O Rio Doce impetuoso. A morte de um cunhado.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_50/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VII</a></b> — O Chefe despede-se. Revisão de projeto. Compressão de dispêndios. A construção da estrada empolga a todos. O café das quinze horas. Comentários. Críticas aos &#8220;bitolinhas&#8221; e à Diretoria. Diligências máximas. Obcecados pela profissão. A estação de Colatina. O Pinga-Fogo. A borrasca. &#8220;Baiano custa a ter medo.&#8221; Operários estrangeiros gungunam. Pagamento atrasado. A pescaria. &#8220;Estou muito preocupada.&#8221; Boatos. Pretendente nervoso. Cavalheiro de respeitável sociedade. A agourenta. Está solene. &#8220;Agora ou nunca.&#8221; &#8220;Que boa lembrança!&#8221; &#8220;Essa vale!&#8221; Deixam de ser amigos. Método impiedoso. Caçada interrompida. &#8220;Seu doutor, em bugres não se confia.&#8221; Vasto programa de trabalho.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VIII</a></b> — Missão cumprida em Colatina. Viagem incômoda. &#8220;Cala a boca Feróis!&#8221; Manta de suçuarana. Instalações. Aboletam-se as turmas. &#8220;Eia! vai mariquinha!&#8221; Boa impressão. Variante. Bugres famintos. Assustou-se o zabelê. Labuta intensíssima. Tarimba e serão. Bruxas endoidecidas. A jiquitiranabóia. A tagarelice do Carvão. Rio Guandu. Índios bravos. Curiosidade lusa. A cabocla intérprete. Canoa encalhada. O ataque. Saraivada de flechas. Grito selvático da Benedita. Alucinado de pavor. Festejam os Crenaques a fuga dos civilizados. Grupos de imprudentes.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_92/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IX</a></b> — Casas de turmas de Quatis e Boa Vista. Trânsito difícil. Tolices de trabalhadores. Invernada. Ilhados. Mutuns. A mudança. Moradia aprazível. Elevado conceito técnico. Reconciliado o espalha-brasas. Novos planos. O engenheiro setuagenário. Aceleração no trabalho. Homem disciplinador. &#8220;Julguei-os hipócritas.&#8221; Gente enfezada. Admoestações. Feitores semi-embriagados. Impropérios do chefe. Linha telefônica. Exasperado. Babou-se de raiva. Frase indecorosa. Tocaia. Surrado e amarrado. &#8220;Seu Góis está aqui.&#8221; Condenação. Palavras respeitadas.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_28/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo X</a></b> — Notícias falsas. Tarefas e empreitadas. &#8220;Trabalhar a vida inteira, não.&#8221; A antítese do outro. O profissional não esmorecia. Sepultado em Figueira. Febre amarela? Visita do primeiro engenheiro. &#8220;Seu doutor está multado.&#8221; &#8220;Aquele homem não produz.&#8221; Compressão nos gastos. Promovido. Outra mudança. Legiões de soldados do trabalho. A bondade e o peso da senhora. &#8220;A doença é falta de pagamento.&#8221;</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_82/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo XI</a></b> — O cascatear do ribeirão. Um apelo inesperado. &#8220;Não seja imprudente.&#8221; A afirmação do Dr. Mayo. O Rio Cuieté. O paludismo alastra-se. O sexagenário da Serra do ltueta. &#8220;Não é corrupio, mas é birro grosso.&#8221; Transes comoventes. &#8220;Mosquito não transmite a malária.&#8221; A alegria desapareceu. Durante o dia ou a noite o drama é o mesmo. Para imigrantes, monumentos, para brasileiros, discursos. Perseguição dos insetos. Termo da tarefa. Proteção. Recordações. Justiça e generosidade. Caçadores. O mau-olhado.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_27/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo XII</a></b> — Na berlinda. Obrigações retomadas. Retirada de um profissional. Parabéns. Novo superintendente. Apanhado de surpresa. Reclamações. Não recebem. Promessas. Interferência conciliatória. Satisfação geral. &#8220;Não troquei palavras.&#8221; &#8220;A greve vai estourar.&#8221; &#8220;O dinheiro aparecerá.&#8221; Pagamentos sem atraso. Boa intenção. Despedidas. O trem parte. Explodiu a greve. Divergências. Engenheiros demitem-se. Vitória! região descampada. Caminho de cabrito ou de serviço.</p>
<p></p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><span style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/DesbravamentoDaSelvaDoRioDoceMemorias#slideshow/6251696395810726082" target="_blank" rel="noopener"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Capa da primeira edição." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Desbravamento-capa.jpg" class="wp-image-5380" title="Capa da primeira edição." width="255" /></a></span></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;"><a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/DesbravamentoDaSelvaDoRioDoceMemorias#slideshow" target="_blank" rel="noopener"><b><span style="font-size: small;">Galeria de imagens desta postagem</span>.</b></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
<span style="font-size: 80%;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span><br />
<span style="font-size: 80%;"><br /></span><br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1959&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização </b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.&nbsp;</p></blockquote>
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