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	<title>Arquivos Serra &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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		<title>A pesca de espera em Jacaraípe</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 16:01:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A &#8220;espera&#8221; é uma forma simples e curiosa de pesca fluvial praticada nas águas do rio Jacaraípe, em Jacaraípe, vila de pescadores localizada no município da Serra, neste Estado. A &#8220;pesca de espera&#8221; consiste em se aguardar, (e daí o seu nome) que o peixe, descendo das cabeceiras do rio, alcance o local da pesca [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
A &#8220;espera&#8221; é uma forma simples e curiosa de pesca fluvial praticada nas águas do rio Jacaraípe, em Jacaraípe, vila de pescadores localizada no município da Serra, neste Estado.</p>
<p>A &#8220;pesca de espera&#8221; consiste em se aguardar, (e daí o seu nome) que o peixe, descendo das cabeceiras do rio, alcance o local da pesca também chamado &#8220;espera&#8221;, onde se encontra armada uma grande rede fixa, estendida de margem a margem no sentido da largura do rio.</p>
<p>A &#8220;rede armada&#8221; fica presa em compridas varas enterrados no fundo do rio. A parte superior, onde se enfileiram as &#8220;bóias&#8221;, toscas rodelas de madeira leve que permitem a flutuação quando se faz preciso, acha-se amarrada nas varas e, por isso, sobressai muito acima da superfície das águas como se fosse uma cortina transparente. Já a parte inferior da rede, conhecida por &#8220;chumbo&#8221; sendo pesada, mergulha dentro d&#8217;água, fazendo o &#8220;seio da rede&#8221;, formação em ventre decorrente da pressão exercida, pela correnteza de encontro às malhas submersas.</p>
<p>Convém referir, a título de esclarecimento, que o lastro usado para efeito de submersão da rede não é propriamente de chumbo, apesar do nome que, diga-se de passagem, se tradicionalizou. Isto porque o chumbo, empregado antigamente como contra peso, está hoje cabalmente substituído por saquinhos de areia em forma de cartuchos, costurados na parte inferior das malhas, a fim de afundarem a rede. Esta substituição recente do chumbo derivou de medida econômica.</p>
<p>Nas proximidades de uma das extremidades da rede armada, levanta-se um posto de observação rusticamente feito de varas e paus, onde tem assento o &#8220;vigia&#8221;, pescador encarregado de anunciar a chegada do peixe junto à rede estendida que lhe corta a passagem.</p>
<p>Quando isto ocorre, o vigia avisa os demais pescadores espalhados na margem. É o momento da ação, longa e pacientemente esperado.</p>
<p>Com a menor brevidade de tempo possível os pescadores, lançando-se à água, cruzam de um lado a outro das margens uma segunda rede que impedirá a fuga do peixe represado. Esta segunda rede, menor do que a primeira e da qual se acha afastada uns cinqüenta metros, é presa, por sua vez, a pequenas varas afincadas no leito do rio.</p>
<p>Encurralado pela frente e por trás, o peixe não tem por onde escapar, ficando prisioneiro dentro da &#8220;espera&#8221;, que se assemelha, desta forma, a uma espécie de tanque improvisado. Isto feito, lançando mão do &#8220;tresmalho&#8221;* rede de arrasto que se puxa lentamente por dentro do rio e que cobre toda a sua largura os pescadores iniciam o &#8220;cerco do peixe&#8221;, a partir da &#8220;rede armada&#8221;.</p>
<p>O trabalho de captura do peixe transcorre dentro d&#8217;água, com o pescador usando ligeiros calções de banho ou, então, completamente despido. Nos pontos de maior profundidade trabalha-se com água até os ombros.</p>
<p>Depois de arrastar o tresmalho por todo o trecho de rio que foi cercado, arrebanhando o peixe existente no fundo das águas, os pescadores se aproximam paulatinamente da segunda rede que fecha a &#8220;espera&#8221;. Ali chegados, levantam o tresmalho pelas &#8220;bolas&#8221; e &#8220;chumbos&#8221;, prendendo os peixes num movimento combinado, instantâneo e vigoroso.</p>
<p>O peixe emaranhado nas malhas é em seguida conduzido para terra onde é depositado no chão.</p>
<p>Não raro, conforme a quantidade trazida na rede, o pescador se fere no esforço de soerguer o peixe do fundo do rio e transportá-lo para a margem.</p>
<p>Muitas vezes, de acordo com a fartura dos peixes, costuma-se &#8220;passar um segundo tresmalho&#8221; ou mesmo repassá-lo depois, se assim se fizer necessário para a pesca completa do cardume encurralado.</p>
<p>Concluídos estes arrastos parciais o produto da pesca é vendido à base de quilo de peixe às pessoas interessadas e, principalmente, aos &#8220;mascates&#8221;revendedores — que farão o seu comércio em outras localidades do Estado.</p>
<p>Os tresmalhos e as redes utilizadas na pesca são lavados e limpos na água do rio e, logo após, estendidos no sol para secar, sobre os &#8220;varais&#8221; armações apropriadas de madeira, existentes na margem. Cumpre frisar, todavia, que a rede maior da &#8220;espera&#8221; não é recolhida como as outras, mas, simplesmente suspensa, das águas. Com, isto, ela se mantém armada, permanentemente, em condições de aproveitamento imediato nas pescas diárias.</p>
<p>E nem, podia ser de outro modo, uma vez que a &#8220;pesca de espera&#8221; caracteriza-se pela diuturnidade, na época, da &#8220;safra&#8221; tempo de peixe que ocorre anualmente dos meses de abril a agosto. Mesmo na &#8220;safra&#8221; a abundância do peixe é porém, irregular, verificando-se mais a miude nos &#8220;contra-tempos&#8221;, isto é, nas mudanças do tempo: vento sul, chuvas, conjunções da lua, etc. É nestas reviravoltas bruscas do tempo que o peixe aparece em largas quantidades &#8220;investindo contra as águas&#8221; das marés cheias, pois são elas que atraem os cardumes do alto do rio. Os pescadores, embora conheçam o, mecanismo do fenômeno, não lhe atinam nem lhe explicam a causa, limitando-se a aproveitá-lo da melhor maneira possível.</p>
<p>A &#8220;pesca de espera&#8221; em Jacaraípe é praticada em dois locais diferentes e distantes entre si: a &#8220;espera de baixo&#8221; situada nas imediações do desaguadouro do rio, próxina à vila de Jacaraípe; e a &#8220;espera, de cima&#8221;, bem, mais ao norte, longe da vila.</p>
<p>Como, evidentemente, a presença do peixe na &#8220;espera de baixo&#8221; depende de livre trânsito na &#8220;espera de cima&#8221;, o rio deve ser franqueado em determinados momentos, conforme estipulações da própria Capitania dos Portos, que rege o assunto. O franqueamento da &#8220;espera de cima&#8221; dando vazão aos cardumes para a &#8220;espera, de baixo&#8221;, é feito durante a noite, das seis horas da tarde, às duas ou três da madrugada, quando, de novo, é fechada. Os peixes que passaram ficam entre um e outro local de, pesca até a ocasião dos &#8220;contra tempos&#8221;, quando serão atraídos pelas marés montantes.</p>
<p>Aparentemente pode-se supor, que a &#8220;espera de cima&#8221; leva vantagem sobre sua congênere, em relação às possibilidades de pesca, pela situação favorável que desfruta no cimo do rio . Tal como nos foi informado, entretanto, isto não acontece, como bem atestam casos de quantiosas pescarias levadas a cabo, com ampla sucesso, na &#8220;espera de baixo&#8221;.</p>
<p>Em ambas as &#8220;esperas&#8221;, por ser muito elevado o número de pescadores partícipes desta técnica de pesca, criam-se &#8220;tripulações&#8221; — vale dizer — grupos de pescadores que trabalham em equipe, dividindo entre si as obrigações e os direitos inerentes e decorrentes das pescarias.</p>
<p>O trabalho das &#8220;tripulações&#8221; — cujo número de componentes é variável escaloneia-se de acordo com o critério &#8220;da vez&#8221;, cada uma atuando num dia. O pescador que integrar determinada &#8220;tripulação&#8221; fica impedido de cooperar numa outra, por auto-iniciativa, mas poderá fazê-lo se para tanto receber solicitação expressa.</p>
<p>Em toda &#8220;tripulação&#8221; existe um &#8220;mestre&#8221; que orienta as tarefas do grupo e cuida dos interesses gerais, como seja a venda do pescado e a partilha do lucro. A figura do &#8220;mestre&#8221;, porém, na modalidade de pesca, não é tão destacada e proeminente como caso do arrastão, por exemplo.</p>
<p>Na &#8220;pesca de espera&#8221; muito importante é a escolha do local onde se apressará o peixe. Escolhido dentro de certas condições deve ser um trecho de rio nem muito raso, nem muito fundo, sobretudo, desprovido de pedras no leito que entravem ou dificultem o arrastamento do &#8220;tresmalho&#8221;. Pouco importa que o lugar não seja dotado de margens firmes em ambas as bordas: uma só bastará para tornar exeqüível a pescaria, como sucede com a &#8220;espera de baixo&#8221;, em Jacaraípe, onde margem esquerda é brejo. Este inconveniente, porém, é remediado pela colocação de uma rede lateral que obsta a saída do peixe por aquele lado.</p>
<p>Como se vê, na luta pela subsistência, o pescador de Jacaraípe não conta apenas com os favores da natureza e do meio em que vive. Mas se vale também dos expedientes e recursos de sua inteligência no preparo da &#8220;espera&#8221; — pequena área fluvial de uns seiscentos metros quadrados — onde desenrola a ação capital de um processo de pesca rudimentar, mas prático e eficiente, pelos resultados compensadores que oferece, com um mínimo relativo de esforço, comparado com o muito de paciência que exige.</p>
<p>Além da paciência, outro requisito imprescindível ao pescador de espera é o silêncio. Não o silêncio absoluto que chegue às raias do mutismo, mas tão somente o silêncio necessário para não espantar o peixe — robalo, carapeba, rainha etc. — que, sendo de água doce, é dos mais espertos que existem, ligeiro na fuga ao menor estrépito que ouve, como afiança o pescador.</p>
<p>O resumo que ora fazemos da maneira como se professa a &#8220;pesca de espera&#8221; em Jacaraípe, não tem apenas o valor de um registro folclórico. Vale também por um convite a todos quanto se interessam pelos assuntos piscosos ou pelo modo de vida do nos povo simples para que, indo a Jacaraípe, procurem assistir ao desenrolar da &#8220;pesca de espera&#8221;, apreciando-lhe a riqueza e variedade dos temas e motivos que a caracterizam, na sua singeleza típica mas agradável.</p>
<p>* Existem dois tipos diferentes de &#8220;tresmalhos&#8221;, conforme a largura apresentada pelas malhas: o tresmalho maeiro (malhas mais abertas) destinado à pesca do peixe grande; e o tresmalho miúdo (malhas mais fechadas), para peixes menores.</p>
<p>
[Artigo publicado em <i>Folclore</i>, Vitória-ES, n. 40-48, de janeiro de 1956 a junho de 1957]</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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