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A briga

Entre seis países considerados ricos, a Itália ocupa o quarto lugar em casos de homicídio por grupo de cem mil pessoas. O jornal que presta a informação cita como fonte a revista Fortune. A aparência do quotidiano da Itália talvez induza a uma conclusão diferente, tal o estado de ebulição em que as pessoas usualmente se encontram. No entanto, mesmo após curta permanência no bel paese, inclino-me a aceitar essa estatística. Assim que li esses números veio-me à memória um episódio passado em Veneza.

Estávamos fora da estação. A cidade e os hotéis, vazios. Especialistas indicam ser esta a época ideal para uma visita à Sereníssima. Acho que estão certos. A única restrição fica para o vento gelado que sopra dos Alpes como um chicote e nos obriga a andar com toneladas de roupa. Fora isso, é possível namorar à vontade e sem grandes transtornos essa cidade misteriosa que pousa levemente nessas ilhas à beira do Adriático como uma libélula encantada. Mas voltemos à estatística. Como disse, acho que esses números da revista estão corretos. Na verdade, penso que todo aquele décor de violência é mesmo, via de regra, pura encenação.

No hotel em que me hospedei, o proprietário aproveitava a baixa estação para fazer reformas. Pela manhã, para ir até à sala do café eu precisava pular por cima de sacos de cimento, esquadrias espalhadas pelo chão, cacos de gesso, enfim, toda a parafernália das reformas.

O dono do hotel parecia um legítimo italiano dos antigos filmes da Metro. Fartos bigodes, barriga grande, suspensórios vermelhos, calça quadriculada e ar furibundo. Vivia resmungando e reclamando de tudo. Mas reclamava sobretudo do arquiteto que planejara e dirigia as obras. Por alguns dias, enquanto tomava café, ficava assistindo à briga dos dois. Ao contrário do dono do hotel, o arquiteto vestia-se como um dândi. Nunca pude compreender bem como ele conseguia entrar no meio de toda a barafunda dos materiais, da poeira produzida pelos operários, a fim de enfatizar um determinado detalhe de seus estentórios argumentos e voltar para junto da recepção do hotel com o terno sem mancha, o lenço no paletó dobrado de forma impecável e a camisa imaculadamente branca. Brandia seus croquis, suas plantas de papel vegetal e suas lapiseiras em direção ao proprietário do hotel com uma veemência tão espalhafatosa que, de um momento para outro, não seria improvável que o italiano da Metro voasse por cima do balcão e pegasse o arquiteto pelo gasganete. Mas não. O proprietário limitava-se a ouvir o arquiteto com os olhos semicerrados em completo silêncio. Quando o arquiteto terminava sua peroração até mesmo, segundo acredito, por falta de fôlego, lá vinha o proprietário. Começava falando devagar, em puro adágio, dirigia-se para a parede e mostrava qualquer coisa que o deixava muito desconsolado, atingia um pianíssimo e estacava no meio da sala com as mãos caídas ao longo do corpo e um ar de desamparo total. Mas, de súbito, do fundo de sua alma, começava a rufar a percussão, os tambores tremiam, os timbales retiniam e a sala virava um palco de pura ópera. O proprietário, aos poucos, aproximava-se do silente arquiteto e, em altos brados, desfilava todas as suas mágoas pelo serviço mal executado. O sentimento era sincero porque, num desses movimentos, o proprietário aproximou-se muito de minha mesa e pude ver-lhe os olhos molhados de pura emoção. O arquiteto ouvindo. Será que o arquiteto resistiria ao dedo em riste apontado para seu rosto?

Não apenas resistiu como até baixou a cabeça num aparente ato de contrição. Aparente porque daí a pouco a cena se alternaria e o arquiteto passaria novamente à ofensiva e o proprietário voltava àquela serenidade de buda meridional. O fato é que, enquanto essas cenas se desenvolviam, os operários continuavam a trabalhar sem ao menos dirigir um olhar para a comédia que os dois encenavam. Conversavam entre si e assoviavam como se nada estivesse acontecendo de anormal. Certa ocasião um deles chegou perto de minha mesa e, talvez percebendo minha surpresa diante daquilo, sorriu para mim e apenas me disse: “Quel due.”

O fato indiscutível é que, após alguns dias dessa sonoríssima dialética, o resultado, a síntese, nos enchia os olhos: as belezas que iam surgindo na sala, espelhos engastados em belas molduras rococós, marcos de portas lavrados em frisos dourados, revestimentos de parede com um material feito evidentemente nas oficinas do Canaletto, etc., etc. Enfim, truques retirados do arsenal da feitiçaria vêneta e que nos tornavam a todos marionetes guiados pelos fios invisíveis dos mistérios venezianos. A violência verbal também ia declinando a tal ponto que no meu último dia de hotel pude ver o proprietário e o arquiteto tomando juntos o café da manhã.

Esse não foi o único episódio que me leva a acreditar na estatística da Fortune. Mesmo em pouco tempo de visita à península pude constatar que quase todo aquele alvoroço das discussões violentas não passa mesmo de libretos de ópera.

[Transcrito de Crônicas de Roberto Mazzini, SPDC/Ufes, 1995.]

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Ivan Anacleto Lorenzoni Borgo é cronista e nasceu em Castelo, ES, em 21 de fevereiro de 1929. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Espírito Santo (Ufes), com especialização em Economia pelo Conselho Nacional de Economia em convênio com o MEC. Foi professor da Ufes de 1961 a 1989 e diretor regional do Senai/ES de 1969 a 1990. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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