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C.M.B., funcionário público

58 anos, natural de Pocrane (MG), mora em Vitória desde 1985. Reside na Ladeira do Vintém, Centro, bairro onde também trabalha; é servidor público na área de cultura. (28.08.2007)

– Eu sempre fui ligado ao artesanato, fazia figurino pra teatro e morava na Barra do Jucu, mas sempre estava expondo na feira da Praça dos Namorados e vendia muito pra butiques roupa naquele estilo indiano. Assim começou minha relação com Vitória. Pois acreditava no potencial da cidade e desde que morava em Belo Horizonte já vinha muito a Vitória pra vender minhas coisas. Aliás, tudo que aprendi foi aqui no Espírito Santo, desde quando morei em Ecoporanga. Até já caí de bonde no Centro, no início dos anos 60. Belo Horizonte era diferente, é uma metrópole, já Vitória, as pessoas amam Vitória, adotam Vitória quando não se é daqui.

– Quanto às atividades culturais de Vitória, por exemplo, já fui a muitos bons espetáculos, mas você nota que o público se ressente, o público não vai a não ser espetáculo global. Os equipamentos são bons, temos o Teatro do SESI, o Carmélia, e temos um bom público de cinema, o Festival Vitória Vídeo, muita gente escrevendo roteiro de curta. Proporcionalmente a efervescência cultural de Vitória é rica justamente porque as pessoas gostam de Vitória, elas atualmente estão ficando em Vitória, os bons não estão indo embora pra se projetarem como foi o caso do Carlinhos de Oliveira, o Jair Amorim, esse pessoal todo. O pessoal tá ficando e tem que apostar. Quanto à vida noturna, à boemia, confesso que eu não sou a pessoa ideal pra responder. Saio apenas pra alguns espetáculos da agenda cultural, não circulo, mas onde vou vejo muita gente, como nesse espaço novo do porto, com os shows etc.

– Não tenho carro. Ando muito a pé. Eu nunca fui abordado por ninguém na rua. Não sei se tenho uma sorte muito grande. Considero o Centro de Vitória seguro, pouquíssimo violento. O único perigo são aqueles pivetes da Praça Costa Pereira, mas é muito mais uma afronta, nunca vi eles fazerem nenhuma abordagem violenta, mas incomoda em vários sentidos, uma agressão tão grande quanto você ser usurpado monetariamente, um assalto, sei lá. Incomoda muito. Vejo polícia mais de dia. Mas também sou muito relaxado e nem reparo muito nisso, mas tenho meus cuidados, não vou passando em qualquer lugar porque eu sei que o perigo existe.

– Mas voltando ao aspecto cultural, o que mais me fascinou foi encontrar coisa escrita sobre a cidade, as pessoas escrevendo sobre Vitória, o Renato Pacheco, o Fernando Tatagiba, o Jair Amorim falando sobre os catraieiros, o tempo de O Diário da Rua Sete, isso tudo fez que Vitória me enchesse de amores como nunca antes, nem os mineiros…

– Meu lugar preferido de Vitória é aquele cantinho da Fonte Grande, a Piedade. De madrugada você ouve os galos cantando, de manhã os passarinhos, o frescor da mata, o meu apartamento no Vintém e ainda, se você subir mais um pouquinho você acaba vendo o mar…

– Acho que o nativo dá valor sim ao que é seu. Veja aquele pessoal do Suá, um lugar supervalorizado, veja como eles convivem com o crescimento, aquele cantinho, onde tem a igreja de São Pedro, tem a procissão dos barcos, os pescadores. Não é só isso. Morei em Consolação e a gente via o amor pelo lugar. Estava outro dia em Fradinhos e eu e meu filho encontramos o Varejão que joga basquete pela NBA, ele lá na rua, o povo cercando ele e ele dando atenção a todos, conversando com os amigos de infância, enfim uma demonstração de amor pelo seu lugar. O capixaba gosta um pouco de puxar pelo Rio de Janeiro sim, de torcer pelos times do Rio, mas eu acho que é porque não temos é time de futebol pra torcer. Mas existe sim bairrismo aqui. Eu me lembro de Jair Amorim que dizia que saiu daqui apenas por sobrevivência e que sua relação de amor com o estado era Vitória e não Santa Leopoldina, sua terra natal.

– Eu acredito e espero a revitalização do Centro de Vitória e até me previno de certa maneira de ter uma estabilidade assim pra ter um imóvel meu aqui e eu acho que o Centro vai valorizar bastante em função do número de moradias ociosas que existem e as pessoas ainda não redescobriram o Centro da cidade. Estrategicamente o comércio é amplo no Centro, tem supermercado em tudo que é lugar, você não precisa ir a shopping. Só falta cinema. Temos boas escolas, unidades de saúde, e olha, Vitória é show de bola em questão de saúde. Em toda a região metropolitana Vitória é o único município que responde pela parte que lhe cabe e ainda colabora com a Santa Casa e o estado. Por outro lado, Cariacica sobrecarrega nosso sistema, isso é histórico. Vitória tem muita sorte porque desde Vitor Buaiz os prefeitos têm feito muito. Vitor começou e tanto que o seu planejador, o urbanista e arquiteto Fernando Betarello, tem prêmio no Salão Lúcio Costa em Brasília; foram eles que começaram tudo isso, se preocuparam em humanizar a cidade, trabalhar nos bairros periféricos como São Pedro; aí veio Paulo Hartung, otimizou o planejamento, o Luiz Paulo, o Coser agora. Teve a Serra também com o Vidigal… Isso ajuda Vitória, ao contrário de Cariacica. Agora, o que Vitória tem que se conscientizar é que ela é a capital, mesmo sendo município, ela tem que ser melhor, ter os melhores equipamentos pra receber a todos, suportar as carências dos outros.

– Amo Vitória. A única coisa que tenho de mineiro é a herança da culinária. Por aqui se come muito peixe sim, principalmente na periferia, o pessoal pesca muito e aproveita os berés, os mariscos. E temos muita verdura também devido à proximidade com a montanha, os plantios.

– Devido à diversidade étnica e por ser um lugar pequeno, vejo pouca discriminação racial em Vitória e também tem a presença do folclore que permite que no estado como um todo seja montada sua identidade. Enfim, descobrimos que a nossa identidade é a diversidade, e nós somos multiculturais e isso faz com que o preconceito se afaste mais. Tem o velho preconceito, herdeiro de uma ignorância antiga. E hoje observamos no estado, o que reflete em Vitória, descendentes de imigrantes europeus unindo descendentes africanos, cuja presença é até observada nos grupos folclóricos organizados pelas comunidades, como a italiana ou a pomerana.

– A pobreza está concentrada mais na região de São Pedro. Mas poderia ser pior se não houvesse investimentos públicos naquela área. Veja, a maior policlínica da capital está em São Pedro, onde também há boas escolas e faculdades. Há sim a herança da violência que foi originalmente formada lá.

– A presença de um grande número de igrejas evangélicas em Vitória não deixa de ser uma ameaça à preservação da memória oral e do bem imaterial. As pessoas que detêm a oralidade têm se convertido a essas religiões e acabam transformando tudo isso em pecado, como sua ligação com São Benedito, Nossa Senhora do Rosário. É uma ameaça a proliferação dessas igrejas em Vitória às nossas tradições culturais.

– Se eu pudesse aconselhar a cidade de Vitória sobre alguma coisa eu ressaltaria a necessidade de se preservar a sua memória, porque é uma cidade muito antiga e bastam os pecados de derrubadas de prédios históricos, preservar o patrimônio natural da Fonte Grande e todo o seu entorno e partir pra sua vocação turística. Temos que preservar a panela de barro, a moqueca, pois a panela de barro foi o primeiro patrimônio de bem imaterial a ser aprovado pelo IPHAN nacionalmente, é o primeiro símbolo de um povo a ser reconhecido depois da criação dessa lei há pouco mais de dois anos. Temos outras referências, como o Parque da Pedra da Cebola, o Parque da Fonte Grande, apesar do problema lá que tem muito assaltante, naquela Estrada Tião Sá. Eu fui lá e digo: depois do Rio de Janeiro o lugar que eu achava mais bonito era Florianópolis. Depois que fui lá em cima, achei Vitória mais bonita. Sei não, talvez por ser um pouco bairrista, depois que fui lá em cima da Fonte Grande já estou achando Vitória mais bonita que o Rio.

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