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Do par ao ímpar ou do ímpar ao par

“Vamos sentar aqui,” disse Pedro.

Era um banco de madeira, de cor indecifrável, tantas as camadas de tinta que recebera e perdera ao longo da sua existência. Ficava embaixo do velho cajueiro, no quintal da delegacia da Chapot Presvot, 272. Ali o escrivão de polícia se recolhia algumas vezes para meditar sobre a literatura e a vida. Como Clarindo pedira uma conversa reservada, Pedro o levou até àquele recanto isolado no Mundo, a salvo de interferências indesejáveis.

Clarindo merecia a atenção de Pedro. Amigos desde trasanteontem, dele o escrivão ganhou de presente a primeira viola em que se especializara nos chorinhos de Pixinguinha e como admirador de Paulinho da Viola (“nunca ninguém fez o que ele faz com a viola”, costumava dizer) até chegar as suas choramingadas próprias, a ponto de gravar um CD denominado Cara-de-Pau. E era.

De cigarro à boca, o escrivão deu a palavra ao amigo, já que um cigarro oferecido junto com a palavra fora recusado pelo outro.

“Preciso muito de um conselho seu. Nada a ver com problemas de delegacia,” desabrochou Clarindo.

“Fique à vontade,” incentivou-o Pedro, enquanto bofe afora baforava (ou esboferava?) uma nuvem de fumaça na direção ao cajueiro, que estava em fase de derrame nupcial em sua floração primaveril.

“Algo muito estranho está se passando com Clarinda,” avançou Clarindo.

Neste ponto, façam-se dois pontos: Clarindo era a única pessoa que Pedro conhecia no mundo que era casado com uma Clarinda. “Vocês fazem um par perfeito até nos nomes,” disse-lhes o escrivão, no dia do casório, quando servira de padrinho a Clarindo e a Clarinda. E completara sincero: “Clarindo & Clarinda, ou C&C, que belo monograma para um enxoval de cama e mesa!”

Só que agora, doze anos depois da frase que Pedro pretendera fosse uma tirada de efeito em honra de uma felicidade imorredoura, veio o seu autor a saber que o monograma estava se esgarçando o que, em bom português, significava uma garça pra cá, outra garça pra lá. E isso dito de viva voz por uma das garças, o garça macho pousado à sombra do cajueiro que se abria por cima de sua cabeça em derrame primaveril de floração nupcial.

“Explique-se melhor,” pediu Pedrinho.

“Você é testemunha de que eu e Clarinda sempre vivemos numa harmonia cotidiana de causar inveja a muitos casais. Digo isso falando em todos os sentidos….”

“Sou testemunha sim, no dia-a-dia de todos os seus dias,” confirmou Pedro bombasticamente.

“Mas já não é mais assim,” lamentou-se Clarindo, e Pedro se preparou para ouvir o pior que sua imaginação doentia antecipava. “Também não é o que você possa estar pensando,” ressalvou Clarindo como se tivesse lido a mente enfermiça do escrivão. “Tudo o que está acontecendo entre mim e Clarinda, para que você entenda a situação claramente, está acontecendo de Clarinda para Clarinda”.

“Confesso que…”

“… não entendeu ainda? Para mim também foi difícil entender. Mas a verdade é que Clarinda, de uns tempos para cá, deu para…, bem, deu para gozar sozinha,” desabafou Clarindo, escancarando a alma para o amigo como bandeira despregada.

Pedro deu outra esboferada de fumaça em direção à floração nupcial do cajueiro primaveril, e perguntou, embora meio a contra gosto: “Ela anda se masturbando?”

“Não é isso!” replicou Clarindo, em meia voz que, no caso, era uma voz meio chorosa.

“Ela atinge o orgasmo antes de você?” indagou Pedro, também incomodado pela própria pergunta, mas perguntando.

“Também não!,” replicou a outra meia voz choramingante de Clarindo.

“Então…

“Clarinda, Pedrinho, vou logo dizendo para encurtar suas más suposições, deu para ter orgasmos diante de qualquer incidente que lhe toque a sensibilidade. E se derrama toda onde quer que esteja pouco se lixando para o mundo ao seu redor.”

“Num repente e sem aviso prévio?”

“Num repente não. Dá para avisar ‘querido, vou sentir’. E sente.”

“Isso tem acontecido muitas vezes?” quis saber Pedro.

“Duas a três vezes por semana.”

“É a média dos orgasmos femininos, segundo as estatísticas das boas relações sexuais nos casamentos,” disse o escrivão.

“Eu sei, eu sei… Mas Clarinda vem num crescendo de reincidências.”

“Você se lembra da primeira vez?” interrogou um Pedro ainda pouco à vontade com o desdobramento da conversa.

“Foi vendo o filme A Última Ceia. Eu peguei a fita num vídeo e estávamos assistindo juntos até que chegou a cena da transa entre os atores principais. É realmente uma das transas mais fantásticas que já vi em filme. Pois quando a cena estava terminando, Clarinda me disse num sussurro, toda esticadinha no sofá: ‘meu bem, vou gozar também’. “E pumba! – foi aquele êxtase esparramado.”

“Eu vi o filme e concordo que seja uma cena eletrizante.”

“Tudo bem, mas gozar sozinha, sem a minha participação, foi um pouco demais, você não acha?”

“E quando o fenômeno se repetiu?” indagou Pedro, dando-se ares de psiquiatra.

“Algumas semanas depois, num Domingo. Nós estávamos sentados na praia, contemplando o mar, quando uma gaivota deu um mergulho fulminante e pegou um peixe no bico. Eu olhei para Clarinda e perguntei se ela tinha visto. ‘Vi, e está vindo, benzinho.’ E foi aquele estertor à luz do sol.”

“Chamou a atenção de outras pessoas?” interrogou Pedro com alguma ansiedade.

“Para minha sorte, Clarinda é discreta. Não fala, não geme, não uiva, não faz escândalo. São estremeções limpos e límpidos, eu diria até civilizados, chorando e sorrindo ao mesmo tempo, mas sem ruído e sem grunhidos. Como nesse domingo ela estava de óculos escuros, eu vi as lágrimas escorrerem sob as lentes negras, descendo mansamente como um regatinho de encontro aos seus lábios entreabertos.”

“Sorriso e choro beatíficos?”

“Isso mesmo!” teve que admitir Clarindo.

“Essas beatitudes são sempre ao seu lado?” perguntou Pedro, aprofundando a pesquisa freudiana.

“Que eu saiba, sim, mas não sei se posso acreditar nessa exclusividade.”

“Nunca houve quem notasse os orgasmos em público?”

“Uma vez, uma velhinha notou. Nós estávamos num consultório médico, sentados numa dessas poltronas de couro envernizado, fresco e macio, em que o corpo afunda até o umbigo, quando Clarinda começou a alisar o braço da poltrona e a tremer levemente, chorando e sorrindo. Então a velhinha olhou para ela e me disse: ‘Sua mulher está passando mal.’

“E o que você respondeu…?”

“Eu retruquei: ‘ao contrário, minha senhora, ela está passando muito bem…’ A velhinha não entendeu nada.”

“Por que você não leva Clarinda a um psicólogo? Se quiser eu lhe indico um amigo meu, muito competente. Ele tem conseguido curas milagrosas, no campo das estranhezas do comportamento humano. Tem até um aparelho que ele usa que quase fala ao identificar as mazelas da mente e da alma dos pacientes.”

“E você acha que Clarinda aceita ir? Sabe o que ela disse quando lhe dei a sugestão? ‘Benzinho, eu estou atingindo o Nirvana sexual por conta própria, por que vou me curar dessa conquista?”

“Então só tem um jeito, meu amigo, é você fingir orgasmos perto dela,” aconselhou Pedrinho acometido por uma idéia que considerou brilhante. “Você viu o filme Harry e Sally – feitos um para o outro, em que Meg Ryan imita um gozo em pleno restaurante? Faz a mesma coisa! Só que você escolhe uma mulher e lhe dedica um orgasmo na frente de Clarinda. Talvez, por ciúme, ela volte a ser o que era antes com você.”

Clarindo se fez meditabundo até que, meditabundo feito, ergueu-se do banco e despediu-se de Pedro dizendo. “Vou pensar no seu conselho. Pelo menos, tem originalidade.”

Para o seu cigarro prestes a virar um toco, Pedro confessou, porém, que não acreditava no êxito do conselho dado. E continuou, por mais algum tempo, apreciando a floração primaveril do cajueiro nupcial que vibrava e sorria levemente ao vento com estremeções limpos e límpidos. Ah se Clarinda te visse, meu amigo cajueiro, pensou Pedro maldosamente, antes de voltar ao trabalho.

Meses depois, o escrivão de polícia recebeu uma carta de Clarindo: “Caro Pedrinho. Estamos em Paris, em repeteco de lua-de-mel. Seu conselho foi de extrema utilidade. Comecei fingindo orgasmos diante de Clarinda e cheguei ao auge de conseguir gozos intensos e verdadeiros. Só que de mãos dadas com ela, sob o efeito das mesmas excitações, e sem precisar de me concentrar em nenhuma outra mulher. A última vez que vibramos juntos como seres eroticamente siameses foi admirando o Arco do Triunfo. Foi realmente… triunfal (perdoe-me o trocadilho). Chequei à conclusão de que formamos o casal perfeito e já combinamos um próximo orgasmo, na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes, como diante de um espelho de motel. PS.: Antes que você pergunte, movido por sua mente infame e suja, digo que preventivamente tenho usado camisinha. C&C.”

[Este texto integra a série intitulada CHAPOT PRESVOT 272, de Luiz Guilherme Santos Neves]

Luiz Guilherme Santos Neves (autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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