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O Espírito Santo em princípios do século XIX – Apontamentos feitos pelo bispo do Rio de Janeiro quando de sua visita à capitania do Espírito Santo nos anos de 1812 e 1819

PREFÁCIO

Terra de poucos habitantes, a maioria iletrada, foi graça de Deus que muitos prelados, em suas visitas pastorais, dessem em seus diários e apontamentos testemunho de andanças pela então Capitania do Espírito Santo.

Assim foi com nosso primeiro Bispo, D. João Baptista Nery, em cujos Diários, Mestre Guilherme Santos Neves encontrou a solução para o problema suscitado no século XIX por Nina Rodrigues, sobre onde se cultuava a Cabula.

Isto também ocorreu com os preciosos Diários de D. Pedro Maria de Lacerda, que nos visitou em 1880 e 1886, sobre os quais dei breve notícia na Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, ano de 1995, n. 45, p.93 a 98.

O mesmo posso dizer, agora, aos ler estes Apontamentos secretos que são publicados graças ao apoio da Lei Rubem Braga da Prefeitura Municipal de Vitória.

São eles firmados por D. José Caetano da Silva Coutinho, visitante ilustre ao final do Brasil Colônia e início do Reino Unido, superiormente analisados, no Estudo, por Luiz Guilherme Santos Neves, amigo de mais de meio século, e com o qual tive o prazer de editar tantas obras sobre nossa terra que quando me perguntam quantas digo sempre perdi a conta, mas são mais de quinze livros.

A mim, o que mais chama a atenção nos Apontamentos é que quando o diligente antístite por aqui andou éramos uma nesga de terra litorânea, quase apenas uma passagem do Rio de Janeiro para a Bahia. Impedido de fazer entradas para as minas gerais (“Onde há muito caminho, há muito descaminho” dizia sisudo Desembargador lisboeta, isto é se estradas fossem abertas seria fácil o contrabando do ouro, diamantes e pedras preciosas pelas praias do Espírito Santo) o desbravador dos sertões do século XVII, que saía de Porto Seguro ou Vitória, se tomou bandeirante, demandando o interior através do planalto de Piratininga.

Por isto o Senhor Bispo andou por ínvios caminhos, encontrou pouca gente e mínimos sinais de civilização. Por isto ele, aqui e ali, registra a presença de tantos padres velhos, rancorosos, amancebados há décadas, com filhos adolescentes, ignorantes, celebrando missas “frias e acanhadas…”

Como observador participante, antropólogo sem ser, antes que a ciência do homem fosse sistematizada, produziu documento para uso próprio, cuja divulgação permite-nos maior compreensão da ocupação do solo espírito-santense ao longo do século. Por exemplo, quando D. Pedro aqui esteve, concertou com seu colega Arcebispo de Mariana, Minas Gerais, a fixação dos limites no sudoeste da já então Província, sob o império do rei Café que dominava desde o primeiro cachoeira do rio Itapemirim até as grimpas de São Miguel do Veado, em prósperas fazendas. Ao tempo de D. José Caetano da Silva Coutinho era mata atlântica contínua, com uma pouca de índios puris atacando, de quando em quando, os luso-brasileiros confinados na beira do mar.

Estamos na presença de fonte primária da mais alta valia para o entendimento da formação histórica de nossa terra, e temos de entoar loas a Reinaldo Santos Neves pela redescoberta do texto e o trabalho beneditino de sua restauração e publicação com 272 notas realmente esclarecedoras

Vitória, 12 de outubro de 2001.
RENATO PACHECO
Presidente de honra do Instituto Histórico 
e Geográfico do Espírito Santo

INTRODUÇÃO

Os apontamentos do bispo D. José Caetano sobre suas duas visitas ao Estado do Espírito Santo encontram-se em dois livros. O primeiro, que recebeu o número 12, intitula-se Apontamentos Secretos Sobre a Visita de 1811 e 1812 e nele encontram-se, no que se refere ao Espírito Santo, apenas o registro de sua passagem por Itapemirim, Benevente (Anchieta) e Guarapari. O restante se acha no segundo livro, de número 18, e intitulado Visita de 1819-1820, juntamente com os apontamentos da segunda viagem, seguindo a mesma ordem desta.
Esses livros encontram-se no Arquivo da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro. A transcrição foi feita inicialmente a partir de uma antiga cópia xerográfica — provavelmente dos anos 70 — encontrada em meio aos papéis do falecido professor e folclorista Guilherme Santos Neves. Para a finalização deste trabalho, com elucidação de dúvidas e preenchimento de lacunas, foi necessária a consulta aos documentos originais, realizando-se para isso uma viagem até o Rio de Janeiro.
O estado de conservação desses documentos dificultou a compreensão de certas palavras ou trechos, resultando daí algumas lacunas. Em algumas delas tentamos apontar uma possível leitura, deixando clara nossa dúvida ao incluir explicação entre colchetes.
Infelizmente constatamos o desaparecimento, no documento original, das quatro páginas referentes a São Mateus (1819). Assim, a leitura dessa parte do texto foi feita exclusivamente com base na cópia xerográfica, verificando-se aí, por isso, uma incidência bem maior de lacunas.
A caligrafia do bispo é, em geral, bastante uniforme, com caracteres de tamanho reduzido, e sua leitura é por vezes bastante difícil. O texto inclui muitas citações latinas. Há trechos acrescentados em entrelinha, que por vezes não foi possível decifrar em sua totalidade.
No que se refere à ordenação do texto, respeitou-se a estrutura original dos documentos, apesar de ferir a seqüência cronológica da primeira viagem. Na transcrição, optou-se pela atualização da ortografia, inclusive dos nomes próprios, inserindo-se notas explicativas quando julgado necessário. Algumas vezes o bispo grafou o nome de uma mesma localidade de formas diferentes. Nesses casos todas as formas utilizadas por ele ao longo do texto encontram-se assinaladas em notas. A pontuação foi corrigida para facilitar a compreensão da frase. Com relação às iniciais maiúsculas, empregadas com freqüência pelo bispo, foram substituídas, conforme o caso, por minúsculas, enquanto as abreviaturas foram desdobradas por extenso: Pe. = Padre, Revdo. = Reverendo, N. S. = Nossa Senhora etc.
As notas de rodapé tanto abrangem questões de natureza histórica como explicam termos pouco conhecidos hoje e que não se encontram nos dicionários convencionais. 
De maneira geral, na transcrição foram adotadas poucas convenções preferindo-se um texto limpo e de fácil compreensão para o leitor comum, mantendo-se fidelidade aos documentos originais.
MARIA CLARA MEDEIROS SANTOS NEVES
Organizadora e coordenadora do site Estação Capixaba


FICHA TÉCNICA

Transcrição a partir do original manuscrito,
produção de mapas e coordenação editorial:
Maria Clara Medeiros Santos Neves

Estudo introdutório:
Luiz Guilherme Santos Neves

Revisão:
Reinaldo Santos Neves

Para visualizar o texto completo clique aqui

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D. José Caetano da Silva Coutinho, 8º bispo do Rio de Janeiro — Filho de Caetano José Coutinho e natural de Portugal, mas brasileiro por ter aderido à constituição do império, nasceu na vila de Caldas da Rainha a 13 de fevereiro de 1768 e faleceu no Rio de Janeiro a 27 de janeiro de 1833.  (Para obter mais informações sobre o autor clique aqui)

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