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Safira, a caneta

O autor de literatura infanto-juvenil, hoje, enfrenta problemas de comunicação e linguagem. Uns julgam que a criança, e mesmo o adolescente, não tem censo do real, merecendo um texto fácil e óbvio, por não entenderem nada. Como se fosse o verdadeiro entendimento privilégio do “mundo adulto”, quando, a maioria das vezes, é o contrário.

Outros, mais lúcidos, sabem que a fábula é a pátria da infância e que a compreensão do texto está na razão direta da intensidade lúdica e humana.

Não nos enganemos, leitores: a maior dose de inventividade vige no ar da infância que a linguagem perpetua. O que escreve, deve revelar-se, revelando a criança perene que o habita.

Recordo a tese excelente do professor Francisco Aurélio Ribeiro, da Ufes, sobre a Literatura infantil de Clarice Lispector, onde um dos achados valiosos é o da humanização dos personagens claricianos e a forma como apresenta a realidade à criança.

Isso tudo veio a propósito de Safira, do poeta capixaba Sérgio Blank, publicado em edições DEC/Sedu – do Governo do Estado do Espírito Santo, com ilustrações de Mara Perpétua.

A qualidade primordial desse livro é a de nos envolver, leitores, num território mágico, puro, comunicativo, conseguindo o desígnio de ser um texto para todas as idades. Isto é, para o menino que levamos, de mãos dadas, nalguma parte de nosso tempo ou silêncio.

Vale ressaltar o acompanhamento justo das ilustrações criativas de Mara Perpétua.

Impressiona a maneira com que a linguagem se adapta ao tema e este à criatura-caneta-Safira, que vai desdobrando experiências de separação, superioridade, isolamento (caneta de tinta azul, nobre) de outros seres através de um processo aproximativo (com o papel, o pássaro; a formiga, o pernilongo, a barata, o menino, a princesa, o lençol…) ou de oposição. Até a descoberta fundamental da amizade, o sentimento fraterno que nos eleva e reúne.

Fica-se querendo bem a esta criatura-caneta-palavra, com o seu ensino de viver mais simples, sensível, quotidiano. Entre a invenção e a surpresa.

E o deslumbramento de Safira se transforma, inefavelmente, no de todos.

Por que não constatar? Ainda mais que se cumpre, aqui, o que observa o pintor Mondrian – “uma imagem pura de relação”. Com outra, a do sortilégio da infância.

E Safira se escreve em nosso patrimônio fabular. Com tantos outros sonhos. Todos claros, verdadeiros.

[Carlos Nejar in A Gazeta, 31/10/1991]
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Carlos Nejar (Luís Carlos Verzoni Nejar), nasceu em Porto Alegre, RS, em 1939. Formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela PUC-RS. É poeta, ficcionista, tradutor e crítico literário brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Brasileira de Filosofia. Estabeleceu residência em Vila Velha, ES, por vários anos, mudando-se depois para o Rio de Janeiro. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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