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Artigo 3

Ana Joaquina, a mais rabequista[ 1 ] velha daquele tempo, dizia com ênfase: Era um céu aberto! O teatro estava bem arrumado! Os representantes deram pancas! Estava bem es clareado! Aquela cena do intécro e prafaméco[ * ] fazia a gente chorar! Aqui começava ela a chorar e a soluçar medonhamente, correndo- lhe em jorros o monco pelas fossas nasais! Era uma megera!

Aquele cabelo arrepiado debaixo de um enorme chapéu preto, com largas abas, com grandes plumas pretas, dava-lhe ares de uma sibila.

O velho João Rodrigues e a Sra. Bibiana não dormiam, em recontar o enredo da peça durante uma noite inteira! Esfaimados chegavam à casa, ali junto da ponte do Reguinho, que dá passagem para a rua da Várzea, e atiravam-se sobre os gordos caranguejos, untando-os num molho de pimenta e limão e quebrando-lhes os dedos com tal estrondo que não me deixava dormir! Que têmpera de velhos!

Anunciava-se o espetáculo por máscaras[ 2 ] com tambores e um zabumba,[ 3 ] os quais paravam nas esquinas das ruas, bradando um pregoeiro:

Quem quiser se divertir por hora e meia, à praça do Colégio[ 4 ] vá, pois temos ceia.

Rataplã… plã… plã… rataplã… falavam os tambores. Bum… bum, dizia o zabumba, marcando o compasso!

O que pândega!

* * *

Corramos as cortinas desse quadro e descrevamos as suntuosas festividades que no templo se consagravam ao Senhor dos exércitos, que tem em suas mãos os corações dos reis e dos povos.

Antes desses festejos populares, os presidentes da província convidavam os empregados públicos e toda a oficialidade, além do clero, para assistirem a um Te Deum em ação de graças na capela nacional.[ 5 ] Reuniam-se todos em uma das salas do nosso vasto palácio e. à hora aprazada, acompanhado de um imenso séquito, feitas as continências por uma guarda de honra, se dirigiam todos à igreja, onde se executava a cerimônia religiosa. Por essa ocasião subia à tribuna sagrada o mais acreditado orador e pronunciava um discurso, rememorando o assunto que fazia o objeto da festividade. Um Clímaco, um Fraga, eram sempre honrados com essa escolha predileta.

Que rasgos de eloquência! Que assomos de entusiasmo! Que facúndia[ 6 ] de palavra!
Ante o palácio da presidência revezavam-se em bonitas evoluções dois batalhões da guarda nacional com suas bandas de música e, depois dos vivas de estilo, davam as descargas das ordenanças.

Tínhamos então dado um passo para o progresso…

Havia o cortejo à efígieefígie[ 7 ] do monarca com aquelas cerimônias da corte do império.

Dava-se à noite um lunch e iluminavam-se os edifícios públicos e particulares. Terminava por um baile e uma diversão, conforme a oportunidade do tempo, como aconteceu quando aqui esteve madame Barbière, de jogo de florete.

As fortalezas de Piratininga[ 8 ] e São João salvavam ao romper da aurora desses dias festivos com o estrondo de seus canhões e, à 1 hora, tempo do cortejo, repetiam-se as mesmas salvas reais, de 21 tiros.

Acarretou essa prática um grande prejuízo. Homens inscientes, sem a instrução de serventes de peças,[ 9 ] dirigidos por imprudentes chefes, foram vítimas dessas salvas. Armado de antigos soquetes, ao carregar uma delas, frouxa a dedeira,[ 10 ] [um desses homens] foi impelido pela explosão da carga, que o lançou das baterias ao mar, ficando sem uma perna e braço!… E viva a pátria!

Era extasiador ver um Malta, um Sarmento, coronéis da milícia cívica, comandando em fogosos ginetes, bem ajaezados, os seus batalhões: estendendo os flancos, abrindo e correndo colunas, contramarchando à direita e à esquerda, formando e duplicando quadrados, ao som marcial de músicas preparadas pelo Baltazar, de saudosa memória!

* * *

Para evitar as impressões desagradáveis que possam produzir as ideias acerca do nosso censurável atraso, devemos lembrar ao leitor que foi tudo isso resultado de ciúmes e arrufos por motivos políticos, como ainda hoje sucede entre nós.

Nos tempos de Delencourt, Gomes Filho, Ildefonso e o Teixeira, gorducho, instalou-se uma sociedade dramática que funcionou até 1844.

Aí deram-se espetáculos aparatosos, levando-se à cena dramas de quadros e mutações[ 11 ] luxuosas. A cenografia foi preparada no Rio de Janeiro, e bem assim todos os aprestos[ 12 ] e vestidos a caráter. A influência de Gomes Filho e de Susano com amigos da corte facilmente obteve tudo isso.

As récitas eram todas sujeitas às assinaturas dos sócios, para evitar que ombreasse certa gente com famílias e pessoas distintas. Hoje baralha-se tudo! Ao lado de uma senhora de tratos finos encontram-se as “horizontais[ 13 ] et alias ejusdem furfuris[ 14 ] a disputar as graças e os cumprimentos de meia dúzia de licenciosos, que, sem vislumbres de educação, não respeitam conveniências sociais, quanto mais a honestidade pública, entidade que desconhecem!

Segundo a constituição — está belo!

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NOTAS

[ 1 ] Indivíduo saliente, intrometido.
[ * ] Era a fala de D. Inês: Sombra implacável! Pavoroso espectro!
[ 2 ] Mascarado, personagem-tipo de determinado gênero teatral.
[ 3 ] Tambor de grandes dimensões e sonoridade grave.
[ 4 ] Atual praça João Clímaco na cidade alta de Vitória.
[ 5 ] Igreja de São Tiago, que ocupava parte do atual palácio Anchieta.
[ 6 ] Eloquência, facilidade para discursar.
[ 7 ] Retrato em pintura a óleo que existia no palácio do governo, atual Anchieta.
[ 8 ] Forte de São Francisco Xavier da Barra, situado no atual 38º B.I. em Vila Velha.
[ 9 ] Peças de artilharia.
[ 10 ] Pequena bolsa de couro que o soldado que está à espoleta mete no dedo polegar da mão direita a fim de não se queimar quando, depois de dar fogo, tapa o orifício por onde se dispara as peças de artilharia carregadas pela boca.
[ 11 ] Mudanças de cenário.
[ 12 ] Apetrechos.
[ 13 ] Meretrizes.
[ 14 ] E outras da mesma laia (farinha do mesmo saco).

Pe. Francisco Antunes de Siqueira nasceu em 1832, em Vitória, ES, e faleceu na mesma cidade, em 1897. Autor de: A Província do Espírito Santo (Poemeto)Esboço Histórico dos Costumes do Povo Espírito-santense,  Memórias do passado: A Vitória através de meio século. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, clique aqui)

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