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	<title>Arquivos Crônicas &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Crônicas &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Crônicas do livro No escuro, armados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 18:41:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Marcos Tavares]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>NUM DOMINGO, DIA DE FEIRA À minha irmã Martha Tavares Num domingo, dia de feira. Multidão em tumulto, indo e vindo, como onda. Entre a multidão, que se vai propagando e propagando, vaga misteriosa mulher, vadia. Procura-se, em vão, espaço para se instalar negócio. Mãos e olhos, olhos e mãos, em troca de compra e [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
NUM DOMINGO, DIA DE FEIRA</p>
<p>À minha irmã Martha Tavares</p>
<p>Num domingo, dia de feira.</p>
<p>Multidão em tumulto, indo e vindo, como onda.</p>
<p>Entre a multidão, que se vai propagando e propagando, vaga misteriosa mulher, vadia.</p>
<p>Procura-se, em vão, espaço para se instalar negócio.</p>
<p>Mãos e olhos, olhos e mãos, em troca de compra e venda.</p>
<p>Alguém vende algo doce: algodão doce.</p>
<p>Aipim, batata doce e mandioca, lê-se a propaganda.</p>
<p>— Olha o limão! Olha o limão! — a voz pouca e rouca de um velho de olhar amargo e aspecto abatido; fora, outrora, elogiável gritador de &#8220;jiló&#8221;.</p>
<p>Ávidos em comerciar, os mais vívidos gritam mais alto os preços dos produtos.</p>
<p>Dá-se a cada freguês laranja lima a navalha descascada, com esmero.</p>
<p>Uma menina mendiga furta uma fruta-pão. Por policial detida, prova — ou simula bem — estar farta de fome: como faminta, come-a loucamente, diante da pequena multidão já em volta aglomerada. É tida e reconhecida como louca. E logo posta em liberdade. Alguns lhe dão umas moedas: desfruta do auxílio de muitos poucos, afora os que a vêem alvo de gracejos. Mais adiante, porém, furta uma outra fruta, menor, e sai, furtivamente. Evita, no entanto, o juiz de menores.</p>
<p>Jovem anêmico, e raquítico, hesita na escolha de vitamina de tal ou qual fruta. Mas logo desanima.</p>
<p>— Vendo feijão preto! — um mulatinho, esperto, a mandar às favas os que por soja perguntam ou apenas observam, enquanto seu irmão maior recolhe, sujas as mãos, os pequenos grãos pelo chão espalhados.</p>
<p>— Castanha-do-pará para acabar! — um sotaque nortista, acanhado.</p>
<p>Um cão, ferido, raivosamente briga com outro, são. Este foge, rosnando, a exibir os dentes. Motivo da briga: um osso enorme, lançado fora, com o propósito de incitá-los.</p>
<p>Senhoras maduras, mal remuneradas, admiram somente a verdura das hortaliças. Uma aguarda, esperançosa, cesta à mão, que, ao final da feira, se reduza o preço das bananas verdes, então vendidas a valores inacessíveis à sua bolsa. De vez em quando observa as tabelas. &#8220;Belas bananas&#8221;, fala consigo. Outra comenta o aumento dos legumes e, por questão de classe, protesta a média voz.</p>
<p>Em gritos de pregão, dois vendedores concorrem:</p>
<p>— Rapadura de gengibre!</p>
<p>— Jaca mole madura é aqui!</p>
<p>A recolher restos para os porcos, os rastos da multidão um menino mal arrumado segue.</p>
<p>— Corre que lá vem o rapa! — com a vinda dos fiscais da Prefeitura, a dura venda dos sem licença ou sem documento, que se dispersam feito vento, apesar de feira livre, num domingo.</p>
<p>Agricultura farta, fruta barata, anuncia um vendedor de maçãs importadas. Caras, segundo opinião pública. A ninguém importa, mas ele anuncia.</p>
<p>Seis senhoras de cesta criticam o custo da dúzia de laranjas — e mexericas — e brigam até à redução: para o lar vão satisfeitas, a misturar com o gosto da vitória o amargo das cítricas.</p>
<p>Dois sotaques nordestinos, secos:</p>
<p>— Mamão macho da Paraíba, maxixe e cana caiana.</p>
<p>— Coco da Bahia, vatapá e cocada baiana.</p>
<p>Magros meninos, nanicos, oferecem-se a carregar pesadas bolsas, cheias de mercadorias. Outros, igualmente menores, carentes e/ou parentes, agem em sacolas e/ou vagem em pedidos de esmola.</p>
<p>Um feirante confere a féria do dia, maior do que aos feriados, enquanto o ajudante, em tarefa de mudar os preços, dobra as mangas da suada camisa.</p>
<p>Galinhas, à venda, cacarejam apenas, ante a hora da morte às mãos de estranho algoz. Uma dona-de-casa, abastada e penosa, penalizada delas, compra cinco carijós para soltá-las no quintal. Compara-as aos humanos. É contra a pena de morte. Além de vegetariana. Acha horrível a morte dos animais, sem ao menos uma venda aos olhos.</p>
<p>Ao redor da improvisada peixaria esvoaçam moscas. Expulsa-as o vendedor, a brandir, histérico, longo e fino peixe espada. Outro grita &#8220;sargo fresco e bonito&#8221; e em sua direção movem olhares as mulheres.</p>
<p>&#8220;Macarrão com camarão&#8221;, um novo prato propõe-se entre compradoras de um e outro, ambas comadres.</p>
<p>Rara espécie em feiras, um senhor de aspecto nobre interroga, com voz doce, onde encontrar fruta-do-conde. Mal lhe responde o vendedor de pimentas, o rosto a arder de ira, por haver vendido pouco, e o estômago a reclamar alimento. Quase azul, com seus haveres vai-se embora por via mais próxima, estreita. Esbarra, no caminho, com mercador de pimentão. Resmunga.</p>
<p>Longe, não muito, ouve-se &#8220;olha o couve, couve-flor, couve-brócolo e couve-manteiga&#8221;. É o coveiro da região, que, em folga do cemitério, comercia hortaliças de seu próprio plantio: além dos óbituais sete palmos, terras de cultivo conhece a fundo como se a própria palma da mão, segundo seu mesmo cultivado modo de falar.</p>
<p>Procuram-se, entre a multidão, abricós. É a costureira de nome e renome nas redondezas.</p>
<p>A um canto acha-se, agachado, o menino de olhar choroso, que, com alhos verdes, vende também cebolinhas e cebolas, quando não flores em botão.</p>
<p>Com faca de dois gumes — e certa arte — corta um mexicano melancias em duas partes semelhantes. E as põe à mostra a fim de se ver melhor o vermelho delas. Uma senhora gorda e avermelhada pergunta-lhe por cenoura, mas, logo, seu olho direito fita um repolho à esquerda. Ansiosa, apalpa-o por certo tempo. Balança-o. Logo o repõe no lugar. Acaba por comprar abacate, abacaxi, abricó e tomate.</p>
<p>Vindo do interior, louro hortelão expõe, timidamente, seus produtos: salsa, coentro e hortelã. Não faz propaganda. Embora silencioso comercia, porém, brotos de boa safra.</p>
<p>Policiais detêm um bêbado trôpego e dão batidas em supostos vadios. Estes, desorientados, mostram os bolsos, vazios, como de praxe, assim como é de praxe detenções e batidas, num domingo, dia de feira. Em carteira furtada: a féria e documentos. É a lei.</p>
<p>A multidão em constante movimento como se pelo vento movida, faz inventosos vaivéns, como ondas, ou ora em girares qual catavento ou redemoinho. Ou então qual tentáculos de gigantesco polvo.</p>
<p>Pleno o sol, já a pino, a requeimar as faces.</p>
<p>Da festa da feira, resta enorme estoque de pepino e alface. Sério, pensa o negociante: &#8220;Fácil seria a venda a preço de primeira mão. Mas não compensa. Melhor aguardá-los para segunda, o dia seguinte. É a lei da oferta e procura.&#8221;</p>
<p>Alguém procura por alguém perdido.</p>
<p>Em meio a conversa de nenhum assunto, dois homens, meio ébrios, bebem batidas. Enquanto isso, o sóbrio feirante conserva os jenipapos num saco já cheio deles.</p>
<p>Alguém oferta algo a alguém. É a lei.</p>
<p>Laranja aqui é uma uva. Jaca por preço de cajá. Banana a preço de banana, para ir embora. Abóbora aberta e fechada. Chuchu com X ou CH. Abacaxi a baixo preço. Aqui quem manda é o freguês. Picolé e sorvete. É chegar e levar. Caqui é aqui mesmo. Suco de morango para matar a sede. É hora de ir embora. Beterrabanete. Maracujambola. Milho verde para quem quiser ver e comprar. Batida de pêssego. Bananica a preço pequeno. Morena cor de jambo não paga o produto. Passas e ameixas estrangeiras. Pêra argentina a preço nacional. Manzanas brasilianas. Bananas aqui da terra mesmo. É comprar, levar e lavar. Alface crespa e francesa. Uvas brancas, pretas e rosadas. É comprar e comprovar. Pega ladrão, pega. Uva italiana. Olha o preço do cação. Uma esmola pelo amor ao próximo. Um auxílio para o cego. Três quilos para a madame. Tomate aqui é de graça. Cuidado com o fiscal. É para acabar. Jaca dura é moleza. Galinha já abatida com abatimento. O preço, o preço é do povo. Coma ovo de codorna. Mamão aqui na minha mão. Hoje é mole. Para se ver e vender. Olha a jabuticaba já acabando. Acabando. Acabando. Olha a banda da melancia. Acabando. Acabando. Olha que tudo se acaba: abacate, abacaxi e abricó. Acabando. Acabando.</p>
<p>Os fregueses fim-de-feira se acabando. Restam alguns: bandos esparsos, rostos à procura do que restou do acabado. Depois, cada qual para sua banda, melhor, seu lado. A feira se acabando. Acabando. Acabando. É como um campo de batalha, após acabada a batalha. As barracas quais barricadas, algumas já desarmadas, soado o alarme de trégua. Troços e destroços, os traços da fúria comercial. Mas sem feridos.</p>
<p>Enfim, num domingo, fim de feira.</p>
<p>[p. 104-9.]</p>
<p>* * * * *</p>
<p>FROM DORES DO RIO PRETO, WITH LOVE</p>
<p>Porque eu poderia estar em frente ao Big Bem e não estou, estou diante do relógio da matriz católica a ver o tempo passar e não posso me afogar nas águas do Tâmisa porque o rio que corre nesta cidade, limitando-a, é o rio Preto, e porque é meio-dia e estou a ver o tempo no relógio, não esqueço que não estou no coração de Nova York, e estas pessoas que passam, poucas, me acenam porque não estou sobre a ponte sobre o Hudson nem estou pronto para o mergulho com uma pedra amarrada ao pescoço. Porque não posso me lançar do último andar do Empire State estou na praça ao meio-dia nesta cidade de poucos habitantes, e não posso me lançar de andar algum porque nenhum edifício está situado nesta latitude, e meu coração me atrapalha as pernas. Porque não empunho um revólver apontado ao meu próprio ouvido, estou nesta cidade, sendo alvo de olhares, todos muito discretos, porque estou na praça da matriz católica e não estou na catedral de Notre Dame nem estou no Louvre a ver minha própria imagem de cera. E como não posso ver a baía de Vitória nem a baía dos Porcos, estou com um míssil apontado para o meu miocárdio, enquanto a moça dos Correios me anuncia a chegada de uma carta que poderia vir de Londres, Berlim ou Paris, mas não. Porque estou com um pé aqui e outro ali, um num Estado, outro no outro, um rio corre entre minhas pernas, e corta-me o coração banhado, um rio doce corre. E como não estou com os olhos banhados de lágrimas, um rio corre em meu rosto e prossegue sua história neste mapa de lembranças, porque Hong Kong está muito longe de mim, está longe e não devo me apressar para a hora da morte porque sei que um franco atirador me tem por alvo e não entrincheirado estou neste lugar assim como estive em Dallas, quando sobre mim caiu pesado sono, e o sonho veio. E estive perto da solidão, em Arizona, aqui. E pesada solidão desaba sobre meu chapéu, e tenho meu lugar à sombra, longe do sol, longe assim, agora.</p>
<p>[p. 110-1.]</p>
<p>
[In <i>No escuro, armados</i>, de Marcos Tavares, Anima/Fundação Ceciliano Abel de Almeida-Ufes, Rio de Janeiro/Vitória, 1987. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
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&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 Marcos Tavares</span></b>&nbsp;&#8211; Todos os direitos reservados ao autor. A reprodução sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais, desrespeito à propriedade dos acervos e aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p><b>Marcos Tavares</b>, poeta, contista e cronista, nasceu em Vitória, 1957, radicou-se em Dores do Rio Preto. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/marcos-tavares-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</div>
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			</item>
		<item>
		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (final)</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 21:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(Final) Garibaldi retirou do colo materno o texto encadernado e depositou-o sobre a mesa do Sr. Eylau. Este título estava gravado com letras d&#8217;ouro na capa: Catálogo das ruas de Vitória pelo método racional simplificado. O Sr. Eylau abriu o volume e deu uma folheada, lambendo de quando em vez a ponta dos dedos. Aí [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>(Final)</b></div>
<p>Garibaldi retirou do colo materno o texto encadernado e depositou-o sobre a mesa do Sr. Eylau. Este título estava gravado com letras d&#8217;ouro na capa: Catálogo das ruas de Vitória pelo método racional simplificado. O Sr. Eylau abriu o volume e deu uma folheada, lambendo de quando em vez a ponta dos dedos. Aí perguntou:</p>
<p>— O que o senhor propõe é uma simplificação oficial dos nomes das ruas de Vitória?</p>
<p>— Sim, — disse Garibaldi. — Fiz uma relação de todos os nomes de ruas de Vitória e os reduzi a um ou no máximo dois elementos. Nenhum escritor terá mais qualquer problema pra usar um nome de rua não só em título de livro mas também, não esqueçamos, em texto de conto ou romance ou em verso de poema. Porque isso também é importante: os atuais nomes de rua são altamente poluentes: poluem qualquer página literária em que sejam inseridos.</p>
<p>— A simplificação, porém, — disse o Sr. Eylau, — vai certamente provocar a repetição de alguns nomes. Como você resolve esse problema?</p>
<p>Garibaldi, aparentemente, pensou em tudo:</p>
<p>— De modo muito simples. Pra esses casos adotei o método anglo-saxônico: rua Oliveira Oeste, rua Oliveira Leste. Rua Rosa Norte, rua Rosa Sul. E assim por diante.</p>
<p>O Sr. Eylau fechou o volume sobre a mesa. Fisguei-o pra meu lado. Abri. Havia um sumário. O projeto se dividia em cinco partes: (a) Apresentação do problema; (b) Ação predadora contra os antigos nomes de ruas de Vitória; (c) Simplificação racional da nomenclatura; (d) Operacionalização do sistema; (e) Tabela de nomes atuais e simplificados. Fui adiante até chegar à tabela. Eis uma parte do que li à página 38, referente às ruas da Mata da Praia:</p>
<p>Nome original<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Nome simplificado<br />
Alcides Sérgio Melo Monteiro<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Alcides<br />
Amélia Tartuce Nassar<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Amélia<br />
Audífax Barreto Duarte<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Audífax Norte<br />
Carlos Gomes de Sá<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Sá<br />
Carmélia Maria de Souza<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Carmélia<br />
Danton Bastos (Desembargador)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Danton<br />
David Pimenta (Construtor)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>David<br />
Darcy Monteiro (Dr.)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Darcy<br />
Denizart Santos (Dr.)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Denizart<br />
Emília Mazoco Keijock<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Emília<br />
Gastão Franco Americano (Coronel)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Gastão<br />
Gilberto Martins<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Gilberto<br />
Hilário Favarato<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Favarato<br />
Maria de Lourdes Poyares Labuto<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Maria de Lourdes<br />
Newton Thevenard (Desembargador)<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Thevenard<br />
Ormandino Benezath<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Benezath<br />
Pedro Luiz Zanandréa<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span>Zanandréa</p>
<p>
Interrompi a leitura pra acompanhar a argumentação de Garibaldi, que seguia viajando de vento em popa:</p>
<p>— O senhor veja que o meu sistema tem muitas vantagens. Em certos casos, dei preferência ao sobrenome e não ao prenome. O que temos, então? A família inteira passa a ser homenageada e não apenas aquele indivíduo específico. É o caso, por exemplo, de Grecco, Rabelo, Caliman, Trancoso, Gagno, Neffa, Vivacqua, e tantos mais. Outra vantagem, sobretudo no caso de ser mantido o prenome, é a abrangência universal da homenagem. A rua Coronel Gastão Franco Americano, por exemplo, que só homenageava o próprio coronel, no meu sistema homenageia não só a ele como também ao sortudo Gastão, primo do Pato Donald. A rua Professor Nilo Martins da Cunha passa a ser, também, uma homenagem ao rio Nilo, e a rua Promotor Diógenes Malacarne uma homenagem, também, ao filósofo Diógenes, aquele do tonel.</p>
<p>— Mas não creio, — disse o Sr. Eylau, céptico, — que a Prefeitura aceitaria o seu sistema só em nome do bom senso.</p>
<p>— Aí é que está, — disse Garibaldi. — Eu pensei em tudo. Minha proposta contém uma isca que prefeitura nenhuma há de resistir a ela. Essa isca está na operacionalização do sistema. Proponho o seguinte. — Deu uma folheada no texto, à procura da isca passível de fisgar a Prefeitura em mortal anzol. — Onde é que está mesmo? Ah, aqui: &#8220;O executivo municipal substituirá as atuais placas de rua, onde aparecem os nomes sujeitos a simplificação, por outras, em que constarão os nomes simplificados.&#8221; Sentiu a isca? E mais: &#8220;Além das novas placas, o executivo municipal proverá placas especiais, em bronze, contendo informações sobre o homenageado específico, incluindo nome completo, datas de nascimento e morte, e um pequeno currículo de vida.&#8221; Que prefeitura vai resistir a uma coisa dessas? Já pensou a mão de obra que a operacionalização do meu sistema vai exigir? Já pensou a alegria das autoridades municipais quando sentirem o rebuliço que vão provocar em toda a cidade, a atenção que vão chamar entre todos os moradores votantes? Assim que perceberem isso, vão aceitar o meu sistema na hora.</p>
<p>— É possível, — disse o Sr. Eylau. — Mas ainda não entendi o que o senhor espera da Agência Ajax.</p>
<p>— Espero, — explicou Garibaldi, — que a agência, como pessoa jurídica, submeta uma proposta de venda do sistema, do jeito que está, prontinho da silva, à Prefeitura. Submeta, acompanhe o andamento do processo, mexa alguns pauzinhos, e, quando for aprovado, receba a grana e me pague um percentual de autor, tipo 90%, 50%, 15%, qualquer coisa simbólica. Que que acha?</p>
<p>— Creio que 15% é um percentual adequado, — disse o Sr. Eylau. — E qual o valor de venda que o senhor propõe para o sistema?</p>
<p>— Dez mil reais, — disse Garibaldi. — Mas, se eles chiarem, podemos baixar pra sete e trezentos, seis e quinhentos, algo assim.</p>
<p>O Sr. Eylau ficou estarrecido, e tanto que até suspirou. Depois do suspiro, disse:</p>
<p>— Sr. Garibaldi, acho que o senhor tem de dinheiro a mesma noção que tem de tempo. Dez mil reais é um valor ridículo. Vou propor duzentos mil para chegar a cento e cinqüenta.</p>
<p>— O quê? — Garibaldi quase caiu da cadeira. — Mas eu tenho vergonha de propor tanta grana assim.</p>
<p>— Não se preocupe, — disse o Sr. Eylau. — A Agência Ajax é que vai propor. E a Agência Ajax tem vergonha é de propor pouco, e não de propor muito. Quanto mais alto o valor da proposta, mais a gente é olhado com respeito e consideração.</p>
<p>Garibaldi estava sem fala. O Sr. Eylau disse:</p>
<p>— Vou estudar melhor o seu sistema e minutar duas coisas: um contrato para o senhor assinar e um expediente para encaminhar a proposta à Prefeitura. Deixe, por favor, o seu telefone com Dona Mônica e aguarde notícias.</p>
<p>Garibaldi levantou-se. A cifra, de tão vultosa, deixara-o quase catatônico. Imaginei que mais um pouco e ele arrebataria o seu Catálogo de cima da mesa e sairia correndo da agência como costuma sair correndo de consultórios dentários. Pra distraí-lo fiz-lhe esta pergunta banal:</p>
<p>— Sr. Garibaldi, e o jazz, como é que anda?</p>
<p>Seu rosto se iluminou. Eu tinha proferido a palavra mágica. Garibaldi recuperou a fala:</p>
<p>— O jazz anda bem, obrigado. Aliás, anda sempre muito bem por uma razão muito simples: porque o estoque de gravações que os músicos antigos deixaram pra nós é inesgotável, inesgotável no sentido de que nenhum de nós, jazzófilos, teria tempo astronômico pra ouvir tudo que gostaria de ouvir. Então o que temos? Morreram os veteranos, mas o som gravado está aí, imortal. É a nossa sorte. Porque, meu amigo, se não fosse isso, nós estaríamos fodidos. Porque o que esse pessoal anda fazendo hoje não dá pra escutar. Mas deixe eu ir, que tenho compromisso às quatro e meia lá no Centro da Praia.</p>
<p>— Já são mais de cinco, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— Tô em cima da hora, — disse Garibaldi.</p>
<p>Apertou-nos rapidamente as mãos e lá se foi, alto e sem engonços. O Sr. Eylau sentou-se de novo e começou, coisa incrível, a sorrir. Era o sorriso cintilante do agente que via cair à mão, por milagre, a oportunidade de tirar da lama o pé da agência. Não duvidei nada que aquela noite, diante de uma imagem de Nossa Senhora da Penha, fizesse a promessa de, se tudo saísse bem, subir de joelhos a escadaria do convento. De repente desceu da dimensão do devaneio e olhou fixamente pra mim.</p>
<p>— Quer dar uma mordida nesse bolo? — perguntou, apontando pro Catálogo de Garibaldi.</p>
<p>— Dinheiro honesto é comigo mesmo, — respondi. Um pouquinho desonesto também, pensei, mas não disse.</p>
<p>— Leve o texto para casa, dê uma estudada, veja se tem algum furo, faça alguma sugestão pertinente e redija os documentos necessários. Não. Só o expediente para a Prefeitura. Quanto ao contrato, deixe que eu mesmo redijo. Tenho mais prática.</p>
<p>— Quanto ganho com isso? — perguntei.</p>
<p>— Cinco por cento da fatia da agência. Aliás, acho que vou elevar o pedido para quatrocentos mil com possibilidade de reduzir para duzentos e cinqüenta. O que são duzentos e cinqüenta mil reais para a Prefeitura de Vitória?</p>
<p>— Também acho, Sr. Eylau, — concordei; não tenho o escrupuloso cagaço de Garibaldi. Dei ali mesmo uma de Homem que Calculava e calculei mentalmente a parte que me tocaria: 250.000 &#8211; 15% = 212.500 x 5% = 10.625. R$10.625,00? Nada mal. Poderia levar a doce Fúlvia pra jantar a semana toda num desses restaurantes que cobram trinta reais o prato.</p>
<p>Deixei o Sr. Porfírio Iolau Eylau sorrindo sozinho e saí de seu gabinete. Mal e mal dei boa noite a Dona Mônica, com a cabeça cheia de dez mil, seiscentos e vinte e cinco reais como ia. Se ela ficou, como presumo, meio decepcionada, que se consolasse com os beijos de Teodomiro Júnior. Saí pro corredor. Coincidência: desci no elevador com os mesmos dois rábulas com que subira. De novo conversaram entre si como se eu estar ali ou ali não estar tanto fizesse. Se soubessem que quem estava ali agora era o Homem de R$10.625,00 teriam decerto agido diferente.</p>
<p>— Você comeu aquela recepcionista da Esculamed? — perguntou o marido da aniversariante.</p>
<p>— Comi e estou comendo, — respondeu o outro. — Passei a conversa nela dizendo que eu era o governador.</p>
<p>— Ela acreditou? — perguntou o primeiro.</p>
<p>— Prometi até uma função gratificada na Secretaria de Cultura, — disse o outro, rindo.</p>
<p>— Até quando você vai levar isso adiante? — perguntou o primeiro.</p>
<p>— Até ela me dar a bunda, — disse o outro. — Depois quero ver a puta me encontrar.</p>
<p>— Deixa ela se queixar ao governador, — disse o primeiro.</p>
<p>*</p>
<p>Saí pro ar puro do poluído crepúsculo do centro de Vitória. Que faço comigo agora? Pego um ônibus pra Jardim Camburi, um ônibus pra Jardim Camburi ou um ônibus pra Jardim Camburi? Pego o 121, pra ir pela avenida da Penha, o 161, pra ir pela Maruípe, ou o 241, pra ir pela Beira-mar? Eis aí, pensei, três avenidas que se qualificam, pelos nomes que têm, a ser palco de um duplo assassínio literário. Assim pensativo, parei diante de uma loja de eletrodomésticos. Havia uns quinze televisores na vitrine, todos ligados, e todos mostravam, em cores berrantes, a cara porca de Miguel Desidério. Ele disse alguma coisa que não entendi. Num passe de mágica, sai Miguel Desidério das quinze telas e entra Jacqueline Paganini. É linda de desesperar qualquer sujeito que, como eu, não tenha namorada. Sorrindo pra mim numa quinzena de sorrisos, ela anuncia:</p>
<p>— Poeta Miguel Desidério vai recitar uma de suas mais recentes poesias.</p>
<p>Aí, leitor, leitora, tive de ver e ouvir, a um só tempo, quinze Manoéis Desidérios recitarem, com voz mais melíflua que a de Dom Evaristo Arns, o seu poema &#8220;Todo cuidado é pouco, Jacqueline&#8221;.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
FIM</div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (final)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continuação II)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 21:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(Continuação II) — Projeto Garibaldi? — exclamei. — Que projeto é esse que não estou sabendo de nada? — Não tem nada a ver com o senhor, — disse o Sr. Eylau. — Trata-se de um projeto para publicar a primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste. A parte composta pelo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>(Continuação II)</b></div>
<p>— Projeto Garibaldi? — exclamei. — Que projeto é esse que não estou sabendo de nada?</p>
<p>— Não tem nada a ver com o senhor, — disse o Sr. Eylau. — Trata-se de um projeto para publicar a primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste. A parte composta pelo velho narrador.</p>
<p>— E foi recusado? — exclamei, furibundo. Numa hora dessas uno-me solidário até mesmo ao chato do Velho. — Recusado por quê?</p>
<p>— A burocracia da Lei, — disse o Sr. Eylau, — exige um documento que nós esquecemos de anexar ao processo: uma declaração por escrito de Garibaldi Magalhães concordando em participar do projeto como personagem principal. Sem esse documento, nosso projeto nem sequer chegou à etapa de avaliação. Para usar linguagem futebolística, foi eliminado no torneio início do campeonato.</p>
<p>— Que pena, Sr. Eylau, — consolei-o. — Apesar de ser um texto do meu rival, não queria que passasse por situação tão patética.</p>
<p>— Coisas da vida, — disse o Sr. Eylau, filosófico. Logo, porém, menos filosófico, acrescentou: — Sei de pessoas que, para garantir seus próprios projetos, sempre que vão ao escritório da Lei levam biscoitos Alcobaça para distribuir entre os funcionários. Aposto que os projetos dessas pessoas não são recusados sumariamente, por falta de um documento, como foi o nosso. Tento encarar friamente essa situação, mas confesso que às vezes o sangue me sobe à cabeça e sinto vontade de fazer uma loucura.</p>
<p>Telefone sobre a mesa do Sr. Eylau zumbiu. Era Dona Mônica. Chegara o sujeito agendado pras quatro horas. O Sr. Eylau olhou pra mim e disse:</p>
<p>— Não se retire não. Do jeito que estou fragilizado esta semana, é bom contar com a sua presença aqui para me assistir se for necessário.</p>
<p>Bateram à porta, que se abriu pelas mãos de fada de Dona Mônica. Ela afastou-se pra dar entrada ao recém-chegado. Quem era? Leitor quer saber quem era? Pois era José Garibaldi Magalhães: o próprio. * Assim que José Garibaldi Magalhães, desengonçado como só ele sói, entrou gabinete do Sr. Eylau adentro, percebi que muito ainda mais amplo do que eu pensara a princípio era o paralelismo entre a visita que fizera mais cedo à Bico de Lacre Editores e a que fazia agora à Agência Ajax de Produções Literárias. Confira o leitor: lá, como cá, fui recebido por secretárias cujos nomes começam pela letra M; lá, como cá, sentei-me em audiência com os respectivos titulares de uma e outra empresa; lá, como cá, deparei-me com o que se poderia chamar de calamidade editorial; lá, como cá, tentei receber meus honorários (que me foram pagos lá mas não cá); e agora, por fim, se lá me vi em presença de um sócio emérito do Clube das Terças-feiras, a saber, Fernando Achiamé, cá me vejo em presença de outro sócio (só que mais emérito ainda: o mais emérito de todos) do mesmo clube, a saber, José Garibaldi Magalhães.</p>
<p>Confesso que me bateram no peito um tique e um taque de pura emoção diante da perspectiva de conhecer pessoalmente, agora vis-à-vis e tête-à-tête, o meu personagem principal. Garibaldi descambou porta adentro alto e sem engonços, plantado sobre suas longas pernas de Dexter Gordon e sobraçando um texto impresso encadernado em capa dura. Levantamo-nos, o Sr. Eylau e eu, corteses, pra apertar-lhe a mão. Quanto a mim, coração bateu ainda mais taquicardíaco (ou mais tiquetaquicardíaco, como diria o meu amigo Alfred) nessa hora histórica. O Sr. Eylau é que nem se tocou: triste ficou como triste estava. Sentamo-nos os três. Garibaldi depôs maternal sobre o próprio colo o texto impresso, deu uma espiada nas unhas das mãos, pra ver se estavam no lugar, e não disse palavra. Apenas enfiou sobre o Sr. Eylau o olho esganiçado e espremeu entre os lábios um sorriso de maraçapeba.</p>
<p>— Em que posso servi-lo, Sr. Garibaldi? — perguntou o Sr. Eylau.</p>
<p>— Ah! — exclamou Garibaldi. — Era isso que eu esperava que o senhor dissesse. O senhor quer mesmo saber?</p>
<p>— Acho que é o senhor que quer que eu saiba, — disse o Sr. Eylau. — Ou muito me engano ou foi o senhor que pediu esta audiência comigo.</p>
<p>— Bem enunciado, — disse Garibaldi. — Nesse caso não me resta outra alternativa a não ser colocar as cartas na mesa. O motivo da minha visita, senhores, é submeter à apreciação da Ájax —</p>
<p>— Ajax, — corrigiu o Sr. Eylau.</p>
<p>— Da Ajax um projeto de minha concepção e autoria, que intitulei —</p>
<p>Aqui Garibaldi interrompeu-se pra, num borbotão, dizer:</p>
<p>— Não, não, acho melhor começar historiando como foi que me bateu o estalo que deu origem a esse projeto. Foi assim: um mês atrás, estava lá em casa arrumando a estante de livros e dei com minha velha edição das Novelas extraordinárias, de Edgar Allan Poe. É uma edição da Garnier, que pertenceu a meu pai, e estão até faltando as últimas páginas, e por isso perdeu-se a parte final do conto &#8220;Berenice&#8221; e alguma coisa mais que não tenho como descobrir, porque perdeu-se o sumário também. Mas ainda ficou muita coisa boa ali, inclusive os três melhores contos de Poe, na minha Modesta Opinião, que são &#8220;O escaravelho de ouro&#8221;, &#8220;A carta roubada&#8221; e &#8220;O duplo assassínio na rua Morgue&#8221;. Meus amigos, parei de arrumar a estante pra reler essas obras-primas. Regalei-me com elas. Li-as pra mim mesmo, depois chegou Penha, que é a minha, ham, pois é, chegou Penha e li &#8220;O duplo assassínio&#8221; de novo, em voz alta, pra ela ouvir e se regalar também. Depois, deu vontade de tomar um café, então fomos tomar um café. Durante o café eu estava tão absorto em mim mesmo que Penha disse, como dizem as atrizes nos filmes americanos em situações semelhantes: Alô! Alô! Aí eu acordei do meu devaneio. Penha me perguntou: Em que que você está pensando? E eu respondi: No título do conto de Poe que li pra você: &#8220;O duplo assassínio na rua Morgue&#8221;. E o que tem isso, ela perguntou. Tem, eu disse, que um título como esse seria fatalmente impossível no Brasil, porque os nomes das ruas, aqui, com rarissimíssimas exceções, não se prestam à literatura. Aí eu disse a ela: Quem ia querer ler um conto chamado &#8220;O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior&#8221;? Credo, ela disse. Exatamente, eu disse. Um título como esse faz broxar o mais tarado dos leitores de literatura. Os amigos, por exemplo: os amigos encarariam um conto com esse título?</p>
<p>— Dificilmente, — disse o Sr. Eylau. E professorou: — O título de uma obra literária é de capital importância para captar o interesse do leitor em potencial.</p>
<p>— Existe uma rua Tenente-coronel não sei das quantas? — perguntei.</p>
<p>— Acho que não, — disse Garibaldi, — mas bem que poderia existir. Vocês sabem que os nomes de ruas, praças, avenidas, ou seja, dos logradouros em geral, no Espírito Santo e no Brasil, estão sob a pior das custódias, que é a das câmaras de vereadores. Vereador não quer saber de outra coisa que não seja voto. E nome de rua dá voto. Se você apresenta um projeto pra dar a uma rua que se chamava, digamos, rua da Árvore, o nome de algum falecido comerciante, você garante, nas eleições do ano que vem, os votos da viúva, dos filhos e noras, das filhas e genros e até dos netos votantes do homenageado. É uma tentação muito grande pra qualquer vereador que se preze, e afinal árvore não dá voto. Que importa então a ele se a pobre rua está condenada a carregar pela eternidade afora o nome, digamos, de Delecarliense Drummond de Alencar Araripe? Importam, sim, os votos que ele vai garantir com essa condenação. Porque por voto vereador dá até a, ham, a camisa. Nada o detém. Por voto vereador se arrisca até a queimar no fogo do inferno. Não vê o que aconteceu aqui mesmo em Vitória: a câmara em peso teve a coragem de espoliar a própria Nossa Senhora, mãe de Deus, pra bajular a família de um empresário poderoso. Lembram não do caso?</p>
<p>Eu lembrava. Garibaldi referia-se ao caso da avenida Nossa Senhora dos Navegantes, que os vereadores julgaram extensa e importante demais pra levar só o nome de Nossa Senhora e cortaram-na ao meio, pra fins onomásticos, bem entendido, dando à metade dela o nome de Américo Buaiz. Consolo de Nossa Senhora é que os hereges ainda lhe deixaram metade da avenida. Fosse uma santa menor, tipo Santa Rita dos Impossíveis, teria, apesar de toda a sua capacidade pra lidar com casos impossíveis, perdido a avenida toda pro falecido empresário. Garibaldi esperou a conclusão deste parágrafo narrativo pra continuar:</p>
<p>— Mas não me interessam aqui ilações religiosas mas literárias. Estou defendendo é o direito da literatura brasileira de poder usufruir de nomes de ruas literários. Todo país civilizado garante esse direito a seus escritores. &#8220;O duplo assassínio na rua Morgue&#8221; é o caso clássico. Mas tem muitos outros. O nome do romance póstumo de Eça de Queiroz é A tragédia da rua das Flores. Ora vejam só. Nós tivemos uma rua das Flores em Vitória, que se chamou assim, segundo diz a lenda, porque nela moravam, lá pelos idos de 1820, as moças mais bonitas da cidade, que eram as filhas do Dr. Pientznauer. Veio a vereança predadora, que não respeita nem moça bonita, e mudou o nome da rua pra Dionísio Rozendo. Pronto. Cagaram no pau dos nossos escritores que, agora, se quiserem, vão ter de escrever um romance chamado A tragédia da rua Dionísio Rozendo.</p>
<p>— Muito correto o seu ponto de vista, — disse o Sr. Eylau. — Como agente de produções literárias, minha simpatia está toda com o senhor. Mas ainda não vi aonde —</p>
<p>— Deixe-me dar mais alguns exemplos, — interrompeu Garibaldi. — Um: o grande Henry James escreveu um romance chamado Washington Square. Nossos escritores teriam a opção de escrever, digamos, Praça Antônio Jacob Saad. Outro: existe um conto de Dashiell Hammett com o título &#8220;A casa da rua Turk&#8221;. Um título equivalente entre nós seria &#8220;A casa da rua Carlos Eduardo Monteiro Lemos&#8221;. Mais outro: eu li uma vez um romance policial de Stanley Ellin chamado A chave da rua Nicholas.</p>
<p>— Belo título, — eu disse.</p>
<p>— Também acho. Em Vitória, qualquer coisa análoga viraria, por exemplo, A chave da rua Amélia Tartuce Nassar. Não há nada de belo nesse título.</p>
<p>— Concordo, — concordei.</p>
<p>Garibaldi, empolgado, continuou:</p>
<p>— E Sinclair Lewis, que escreveu um romance chamado Rua Principal? Quase todas as cidades do interior dos Estados Unidos têm a sua Main Street. A partir dessa rua, Lewis fez um retrato social que valia pra qualquer dessas cidades, todas tão idênticas entre si em seus vícios e virtudes, e o título do romance não podia ser outro nem melhor. Isso, no Brasil, seria impossível, porque vereador nenhum admitiria dar à rua principal de uma cidade o nome choco de rua Principal. Um nome desses só homenageia a própria rua, e desse mato não sai voto.</p>
<p>— Tudo bem, — disse o Sr. Eylau. — Mas ainda não entendi —</p>
<p>Garibaldi não deixa o Sr. Eylau dizer o que mas ainda não entendeu:</p>
<p>— Até pras crianças escreveram-se livros com nomes de rua. Exemplo? Os meninos da rua Paulo, do húngaro Ferenc Molnár. Como se chamaria um livro similar ambientado em Vitória? Os meninos da rua Soldado Miguel Furtado. Os meninos não teriam saco de ler esse livro, só por causa do título.</p>
<p>— Não há nenhum autor brasileiro que tenha escrito um livro com nome de rua no título? — quis saber o Sr. Eylau.</p>
<p>— Luís de Almeida, — Garibaldi respondeu, da ponta da língua. O Sr. Eylau recuou o cabeção ao ouvir o nome do inimigo. — É um autor de Vitória que impinge aos leitores da Internet algumas croniquinhas sobre o quotidiano de uma delegacia. Nunca li nada, mas meu amigo Pedro Nunes lê, e gosta, por alguma razão lá dele. O nome dessa série de crônicas é Chapot Presvot 272, que é o endereço da delegacia.</p>
<p>— Esse não vale, — disse o Sr. Eylau. — Não tem outro, mais nacional?</p>
<p>— Guilherme Figueiredo, — Garibaldi respondeu, de novo da ponta da língua. — Mas só que o livro dele tem no título o nome de uma rua de Paris: 14, Rue de Tilsitt. Imaginemos um título equivalente com o nome de uma rua de Vitória: Rua Lumberto Maciel de Azevedo 14. Que tal?</p>
<p>— Inconcebível, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— Isso me leva, aliás, a lembrar uma coisa. Queria ater-me ao campo da literatura, mas, como tenho algum conhecimentozinho de jazz, lembrei-me de uma composição do pianista Lennie Tristano que tem como título o endereço do estúdio que ele manteve em Nova York durante anos: 317 East 32nd Street, também conhecida como East Thirty-Second e como 317 E 32nd. Esse recurso onomástico é proibitivo pros músicos brasileiros.</p>
<p>Aí Garibaldi respirou fundo pra entrar nos aspectos teóricos da questão:</p>
<p>— Mas o problema da incompatibilidade entre os nomes de ruas de Vitória e a literatura está, portanto, em dois aspectos: primeiro, os nomes das ruas são longos demais; segundo, não têm, digamos, charme poético. Por que os nomes são longos? Primeiro, porque a vereança desvairada não admite abreviação. O poeta Augusto Lins sempre foi conhecido como Augusto Lins. Mas a rua que tem seu nome chama-se Augusto Emílio Estellita Lins, porque o vereador autor do projeto nunca leu um livro do poeta e ignora que o poeta se chamava apenas Augusto Lins. Segundo, a vereança prolixa agrega aos nomes dos homenageados os seus títulos, quando é o caso. A gente vê, nas ruas de Vitória, uma porrada de Desembargador, Professor, Engenheiro, Soldado, General, Presidente, Governador, Deputado e mais o caralho a quatro, totalmente desnecessários. E por que os nomes não têm charme? Que charme pode ter, pra nome de rua, um nome como Serapião Tolentino Cavalcante? Além disso, boa parte dos prenomes dos homenageados estão no que um teórico chamaria de grau zero de lirismo: Aflordízio, Crisolino, Dióscoro, Duntalmo, Elesbão, Erotildes, Itobal, Lucidato, Medardo, Orcalina, Orozimbo, Pantaleão, Urquízia, Arquimimo e outros mimos. Eu digo aos senhores: eu preferiria morar na rua das Putas do que na rua Euflorzina dos Anzóis Carapuça.</p>
<p>— Está bem, — disse o Sr. Eylau. — Já entendi a sua tese. Mas o que a Ajax pode fazer pelo senhor?</p>
<p>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/"><br /></a><br />
</p>
<div style="text-align: center;">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_12/">CONCLUI NA PRÓXIMA SEQÜÊNCIA</a></div>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continuação I)</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_4/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 21:42:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>(Continuação I) — Que eu me lembre, — disse o Sr. Eylau, — não mandei chamá-lo, mandei? — Que eu me lembre, — respondi, — mandou não. Mas tomei a liberdade de vir assim mesmo porque tenho um assunto com o senhor. — Não cabe ao senhor ter assuntos comigo, — disse ele, — mas [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>(Continuação I)</b></div>
<p>— Que eu me lembre, — disse o Sr. Eylau, — não mandei chamá-lo, mandei?</p>
<p>— Que eu me lembre, — respondi, — mandou não. Mas tomei a liberdade de vir assim mesmo porque tenho um assunto com o senhor.</p>
<p>— Não cabe ao senhor ter assuntos comigo, — disse ele, — mas eu com o senhor. Não invertamos a ordem hierárquica de nossa relação profissional.</p>
<p>— O senhor me deve dinheiro, — entrei de sola. — Isso faz toda a diferença.</p>
<p>O Sr. Eylau teve um estremecimento. Leitor dirá que não escolhi a hora certa pra cobrar do pobre homem uma dívida. Pelo contrário. Essa é a hora certa: quem deve um milhão não há de se incomodar de dever (e pagar) um milhão e cem.</p>
<p>— O que o senhor está me dizendo, — disse ele, sorrindo com malícia, — é um desatino. O que o fez pensar tal coisa?</p>
<p>— Dois capítulos no ar, — repliquei. — Dois capítulos da História inconfessável. Não foi esse o nosso trato? O senhor disse, textualmente, que eu não receberia nada por intercapítulos nem por entretenimentos, e que só me pagaria quando eu produzisse alguma coisa da História inconfessável. Pois produzi. Agora pague.</p>
<p>— Eu li esses capítulos, — disse ele. — Achei que estão muito aquém do que eu esperava e do que o senhor prometeu. Inclusive não consegui detectar ali nenhuma das influências que o senhor apregoou.</p>
<p>— Temos muito texto ainda pra correr por baixo da ponte, — afirmei. — Seja como for, em &#8220;Metade palmito, metade marguerita&#8221; já há algumas alusões a histórias em quadrinhos e já está esboçada a influência de Evelyn Waugh: igual ao personagem Gilbert Pinfold, o Velho já começou a sofrer de alucinações.</p>
<p>— Não vi alucinação nenhuma ali, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— Viu não? — eu disse. — E aquela sacada do &#8220;quer que te chupe&#8221;?</p>
<p>— Aquilo foi uma alucinação? — disse ele.</p>
<p>— Auditiva, — precisei.</p>
<p>O Sr. Eylau parou pra um ato de reflexão. Depois disse:</p>
<p>— Alucinação ou não, achei de muito mau gosto.</p>
<p>Achei necessário atualizar-lhe o conceito:</p>
<p>— Sr. Eylau, não existe, na literatura de hoje, isso de mau gosto. Pelo contrário, o bom gosto é a única coisa hoje que é de mau gosto. Mas voltemos ao que importa.</p>
<p>— Ainda não, — objetou ele. — Ainda tenho algo a dizer sobre o assunto em pauta. A influência que tenho visto em seus textos sabe qual é? É a influência do primeiro narrador.</p>
<p>— Como é que é? — exclamei.</p>
<p>— Isso mesmo, — disse ele. — Já não vejo mais em seus textos aquela narrativa seca, áspera, cínica, até escrachada dos primeiros capítulos. Dá para deduzir que o primeiro narrador está tomando posse de sua personalidade literária e assumindo controle de sua mente narrativa. Ele está encarnando no senhor. Sua escritura está cada vez mais rebuscada, mais prolixa, mais, por assim dizer, barroca.</p>
<p>— Barroca? — Senti-me insultado.</p>
<p>— Barroca, — confirmou o Sr. Eylau. — Para mim tanto faz. Meu compromisso com o autor é prover um narrador capaz de prosseguir e concluir a seqüência da História inconfessável. Mas, pensando bem, até nisso parece que o senhor vem sofrendo a influência do outro. Por que essa resistência quanto a botar para fora os capítulos inconfessáveis? Por que essa insistência em gerar uma profusão de intercapítulos e sobrecapítulos? Diria até que a fobia do outro contagiou o senhor.</p>
<p>Mal pude acreditar no que ouvia. Será possível, diga-me, leitor, que algo tão bizarro e sórdido esteja de fato ocorrendo? Se será, preciso tomar providências urgentes pra conter essa insidiosa possessão estilística.</p>
<p>— Vou examinar com calma esse assunto, — prometi, tanto ao Sr. Eylau como a mim mesmo. — Mas agora voltemos ao que importa. Acabei de passar na Bico de Lacre e recebi um cheque como pagamento de uma revisão que fiz pra editora. Se não acredita, eis aqui a evidência.</p>
<p>E exibi-lhe, em pleno nariz, o cheque da Desentupidora e Higienizadora Clean.</p>
<p>— Não há por que exibir nada para mim, — disse ele. — Eu li o intercapítulo anterior na internet. Aliás, uma observação: que o texto esteja repleto de notas de pé de página é compreensível, porque a tese da professora doutora serve de gancho para isso. O que não compreendo é por que, a partir de determinado ponto, as notas não têm mais nenhuma relação com o que diz o texto.</p>
<p>— O senhor já esqueceu do seu Mendes Fradique? — repliquei. E, diante da expressão de surpresa em seu rosto, prossegui: — Não lembra que Mendes Fradique, na Gramática portuguesa pelo método confuso, estica uma infinidade de notas de rodapé que não têm nada a ver com o texto? O leitor inocente vai lá ver o que é e encontra uma receita de bolo aqui, uma receita de cola pra vidro ali, mais adiante uma dica pra manter o brilho dos cristais ou a frescura das flores depois de colhidas. O que fiz foi fazer a mesma coisa, só que pior: pois as citações teóricas que escolhi pras notas, todas de Greimas, não têm utilidade nenhuma, porque não contêm nem que seja uma dica pra, por exemplo, evitar constipações. Mas, voltando ao cheque que tive o prazer de receber na Bico de Lacre, confesso que esperava merecer do senhor tratamento igual ao que recebi de Djalma Smee.</p>
<p>— Meu amigo pessoal, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— O que o senhor quer dizer quando diz amigo pessoal? — perguntei. — Haverá um amigo que não seja pessoal? E o que seria um amigo impessoal? Gasparzinho, o fantasma camarada?</p>
<p>— Não me venha com questões abstrusas, — disse o Sr. Eylau. — Quanto ao seu pagamento, estou impedido de fazê-lo.</p>
<p>— Impedido como? A Ajax está quebrada? — perguntei.</p>
<p>Ele se fez de ofendido:</p>
<p>— Claro que não. Tenho sólidos patrocinadores. O que há é que não posso pagar sem infringir a cláusula nona do nosso contrato.</p>
<p>A cláusula nona do maldito contrato que assinei com a Ajax é uma cláusula mutável: de texto movediço: hoje reza uma coisa, amanhã outra.</p>
<p>— E o que reza a cláusula nona no dia de hoje? — perguntei.</p>
<p>— Que, — respondeu ele, — se alguma coisa em seu trabalho der motivo a processo contra a agência, ficam suspensos os seus pagamentos até à conclusão do processo. Conclusão favorável à agência, bem entendido.</p>
<p>— Isso se aplica ao Roderico, não a mim, — protestei. — Não tive nada a ver com o caso Zefa-Rezefa.</p>
<p>— Não, não, — fez ele, impaciente. — Refiro-me a outro processo, que um tal Luís de Almeida está ameaçando mover contra nós.</p>
<p>— Luís de Almeida? — repeti.</p>
<p>— Sim, — disse ele. — Esteve aqui um advogado, que por sinal tem escritório aqui mesmo neste andar, e disse que estava representando esse Almeida. Por quê? Porque Almeida alega que o senhor se apropriou, sem autorização, de um personagem que pertence a ele: Teodomiro Reis. Alega que esse personagem aparece num conto que ele escreveu há muito tempo, intitulado &#8220;O penúltimo caso de Teodomiro Reis&#8221;. Alega que o senhor está usando esse personagem, nos seus intercapítulos, na qualidade de namorado de Dona Mônica e que o usou também no entretenimento intitulado &#8220;Estudo em ébano&#8221;. Viu no que deu sua mania obsessiva de intercapítulos e entretenimentos?</p>
<p>Fiquei sem fala. O Sr. Eylau aproveitou pra continuar:</p>
<p>— Por sorte sua, e nossa, o advogado disse que Luís de Almeida, ignorando o conselho dele advogado, não pretende entrar com um processo contra nós mas sim firmar um acordo que lhe garanta o uso exclusivo do personagem.</p>
<p>Maldito Luís de Almeida. Há vinte anos escreveu esse conto, há vinte anos, eu disse, e nunca publicou. Agora que usei o personagem lá vem ele reclamar direitos. Mas eu estava preparado pra isso ou pra algo como isso. Recostei-me à cadeira e assumi um ar de total tranqüilidade pra dizer:</p>
<p>— Desse processo a gente se safa numa boa, Sr. Eylau. Luís de Almeida não está com nada. Pois acontece que nosso Teodomiro Reis na verdade é filho do Teodomiro Reis dele. E isso é fácil de provar até por meio da lógica. Luís de Almeida escreveu o conto com Teodomiro como personagem há vinte anos atrás, e nesse conto Teodomiro tinha mais de quarenta anos. Me diga agora se é possível, a bem da lógica, a fulgurante Dona Mônica namorar um detetive escroto de sessenta anos. Não, Sr. Eylau, o Teodomiro Reis da Falcão Negro, seu vizinho, não tem nada a ver com o Teodomiro Reis de Luís de Almeida a não ser o nome e, naturalmente, alguns leucócitos e hemácias.</p>
<p>— Este é filho do outro? — disse o Sr. Eylau. — Então Luís de Almeida não tem caso contra nós.</p>
<p>— Claro que não. Mas já que ele mostrou certa consideração conosco, podemos aceitar um acordo nestes termos: se ele esquecer essa furada de meter processo na gente, o nosso detetive passará a chamar-se Teodomiro Reis Júnior.</p>
<p>— Não é má idéia, — murmurou o Sr. Eylau.</p>
<p>— Ou até, abreviado, Teodomiro Júnior, — acrescentei. — A propósito, o senhor foi leitor da Vida Capichaba?</p>
<p>— Fui, — disse o Sr. Eylau, e ? de sorriso se afixaram em seus lábios, porque a saudosa revista é doce lembrança pra todos os capixabas que tiveram ocasião de comprá-la em bancas, como o sócio velhinho do capítulo anterior.</p>
<p>— Então deve lembrar, — eu disse, — de uma seção da revista que se chamava &#8220;Consultório do Dr. Nostradamus Júnior&#8221;.</p>
<p>— Se lembro? — confirmou ele. — Essa seção é inesquecível.</p>
<p>A seção inesquecível, inaugurada em 1952 na célebre revista, não era, como poderá pensar o leitor, uma coluna de orientação clínica, nem, como poderá pensar a leitora, um consultório sentimental. Nada disso. O Dr. Nostradamus Júnior, Ph. D. em Cultura Inútil, respondia a toda e a qualquer pergunta que lhe faziam os leitores da Vida no âmbito desse vasto e ilimitado território do conhecimento humano. Só que ocorre (vou entregar o bruto) que o ilustre sábio nunca recebeu consulta de leitor algum! Sim, aqui digo e assevero que o Dr. Nostradamus Júnior simplesmente inventava as consultas e, por conseguinte, os consulentes, ou vice-versa, pra justificar a permanência (por pura vaidade, porque, como os demais colaboradores, era pago mensalmente a leite de pato) do consultório nas páginas da revista. Assim, nem um só daqueles consulentes que se escondiam sob os mais diversos pseudônimos — Carola, Hermengardo, Marmanjo, Pixote Canela-verde, etc. — nunca existiu, a tal ponto que todos eles chegavam a ser ainda menos reais do que o Homem que Nunca Existiu: pois enquanto esse famoso personagem da Segunda Guerra Mundial tinha toda uma história de vida, falsa embora, minuciosamente elaborada pra enganar a contra-espionagem alemã, qualquer um dos fictícios consulentes do Dr. Nostradamus Júnior nada tinha de seu além do seu falso pseudônimo, já que mais não era preciso pra enganar o velho Maneco Pimenta, dono da revista, que acreditava piamente na farsa. Assim, falsos eram os consulentes, falsos os pseudônimos e falsas as consultas, que o próprio sábio extraía dos almanaques e das enciclopédias de que dispunha, em especial do Tesouro da Juventude.</p>
<p>— Eu gostava muito, — disse o Sr. Eylau, — daquele consultório. Costumava acompanhar as consultas com muito interesse. Posso até dizer que o consultório foi tão importante para minha formação cultural como uma universidade. Lembro que uma vez atrevi-me a fazer uma consulta, e para isso usei o pseudônimo de Iolau, que é meu nome do meio. Queria saber a origem e o significado da palavra intelligentzia, de uso ainda recente na época, mas não dei sorte: no número seguinte não vi mais o consultório. Tinha fechado.</p>
<p>Não disse nada ao Sr. Eylau, pra não perturbá-lo, mas tenho certeza de que o consultório fechou exatamente por conta da consulta que Iolau se atreveu a fazer. O Dr. Nostradamus Júnior só sabia as respostas pras consultas que ele mesmo pinçava em seus sebentos alfarrábios.</p>
<p>— Mas por que o senhor mencionou essa seção da velha Vida? — perguntou o Sr. Eylau. — O que tem isso a ver com Luís de Almeida?</p>
<p>— Tudo, — respondi. — Quer saber a identidade secreta do Dr. Nostradamus Júnior? Eu lhe direi: Luís de Almeida. Sim. Luís de Almeida e o Dr. Nostradamus Júnior eram a mesma pessoa. E se ele se assinava Júnior era porque já antes dele tinha pontificado, em jornal de Vitória, nas mesmas condições de sábio-que-sabe-tudo, um outro Dr. Nostradamus. Ora, se Luís de Almeida se apropriou do consultório do Dr. Nostradamus valendo-se do ardil de acrescentar um &#8220;Júnior&#8221; ao nome, por que não podemos nos valer do mesmo ardil pra nos apropriar do nome Teodomiro Reis? Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.</p>
<p>— Excelente! — vibrou o Sr. Eylau. — Esse argumento, se for preciso, será usado como golpe de misericórdia contra as ameaças de Luís de Almeida.</p>
<p>Fiquei todo bobo dentro das calças diante do reconhecimento, por parte do Sr. Eylau, da minha capacidade advocatícia. Quis logo capitalizá-lo:</p>
<p>— Bom, agora que esse problema não representa mais nenhum perigo, que tal pedir a Dona Mônica pra me fazer um cheque?</p>
<p>— Não creio que seja possível, — disse ele.</p>
<p>— O texto da cláusula nona já mudou de novo? — perguntei.</p>
<p>— Exatamente, — disse ele. — Agora reza que o senhor só receberá seu pagamento quando tiver produzido pelo menos o mesmo número de capítulos nucleares, isto é, da História Inconfessável propriamente dita, e de capítulos periféricos. Ora, pelas minhas contas, temos dois capítulos nucleares contra sete periféricos. Viu? O senhor está perdendo tempo com esses intercapítulos e contracapítulos e sei lá mais o quê. Tempo e dinheiro. Mas não posso deixar de reconhecer que, no caso Teodomiro Reis, o senhor me deixou aliviado com a solução proposta.</p>
<p>— Eu devia tê-la vendido pro senhor, — murmurei.</p>
<p>— Eu a teria comprado, — disse ele. — Estou sempre pronto a pagar alguma coisa por um bom tranqüilizante. Esta semana, então, foi um rabo de foguete atrás do outro. Primeiro a ameaça de Luís de Almeida, depois o caso Zefa-Rezefa, como o senhor o chama, e ainda hoje mesmo recebi uma comunicação da Lei Rubem Braga no sentido de que o Projeto Garibaldi, que apresentamos à Lei, foi recusado.</p>
<div style="text-align: center;">
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<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_4/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continuação I)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VII. O duplo assassínio na rua Tenente-coronel Maximiliano José Alves da Fonseca Júnior (continua)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 21:37:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Promessa é dívida, portanto cumpra-se a promessa é dívida do narrador: abra-se, pelas mãos de musa de Dona Mônica, a sisuda porta da Agência Ajax. Dona Mônica abriu meia porta, viu quem era, meteu o belo rosto pra fora, varreu o corredor com o olhar, talvez pra ver se não havia por ali algum detetive [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Promessa é dívida, portanto cumpra-se a promessa é dívida do narrador: abra-se, pelas mãos de musa de Dona Mônica, a sisuda porta da Agência Ajax.</p>
<p>Dona Mônica abriu meia porta, viu quem era, meteu o belo rosto pra fora, varreu o corredor com o olhar, talvez pra ver se não havia por ali algum detetive de tocaia, e aí então me botou agência adentro.</p>
<p>— Cá está você outra vez, — disse ela.</p>
<p>— Tornar a vir é o ser do que devém, — eu disse. — Tornar a vir é o ser do próprio devir, o ser que se afirma no devir. O eterno retorno como lei do devir, como justiça e como ser.</p>
<p>— Que que é isso? — perguntou ela, surpreendida. — Poesia?</p>
<p>— Sei lá, — eu disse.</p>
<p>Nem queria saber. Já estava entregue ao êxtase de confirmar que Dona Mônica consegue, sabe-se lá a poder de que artifícios, poções mágicas ou pactos diabólicos, pôr-se cada dia mais linda e mais gostosa. Quis, recuando dela, criar a necessária distância pra, que nem crítico de artes plásticas, contemplar aquela obra-prima de alto a baixo e de baixo a alto, mas a saleta, desde a minha última visita, tinha sido capaz de uma grande proeza: encolher. O que era, o que não era, verifiquei que parte do já exíguo jazigo que é a saleta de Dona Mônica estava tomada por pilhas de pacotes que emparedavam as próprias paredes e que, evidentemente, continham esse produto nojento que se chama livro; nojento e prolífero, visto que suas ninhadas nunca se contam por menos que centenas. De qualquer modo, recuei até o limite de encostar a bunda a uma dessas pilhas e dali o que fiz foi deixar de molho o olho sobre a, de Dona Mônica, beleza estonteante (nela, mais que em ninguém, o clichê é de todo perdoável).</p>
<p>— Que que você está olhando? — perguntou ela.</p>
<p>— Olhando você, — respondi. — Cada dia mais linda. Cada dia mais g&#8230; Cada dia mais garrida.</p>
<p>Contato com Miguel Desidério me deixara confiante pra seduzir e conquistar. Desidério não era nada de mais bonito que eu e no entanto comia, se não toda e qualquer, muita e qualquer mulher que lhe desse na telha da libido comer. Daí, com a cara mais sonsa, parti pra esta pergunta inocente:</p>
<p>— Já pensou em posar pra fotografia, Dona Mônica?</p>
<p>— Posar? Que que você quer dizer? Pra fotos artísticas? — disse ela.</p>
<p>— Até certo ponto, — disse eu.</p>
<p>— Pra fotos eróticas, é isso que você quer dizer, — disse ela. — Fotos em pêlo. Pois nem que a vaca tussa. Já me convidaram e eu disse que não. Qual é? Sou filha de meu pai e evangélica.</p>
<p>Evangélica? Evangélica e não hesita em personificar a figura diabólica de uma freira por duas horas em lugar público e concorrido? Vai entender. Mas, por outro lado, mostrei sincera indignação:</p>
<p>— Já te convidaram? Quem foi o patife que ousou fazer uma coisa dessas?</p>
<p>— Conhece um poeta chamado Miguel Desidério? — disse ela. — Pois é fotógrafo também. Me mostrou algumas fotos que tirou de mulher de tudo que é tipo: branca, preta, castanha, amarela. Tudo muito erótico. Cama, praia, piscina, banheira. Deus que me livre. Tá pensando que eu sou o quê? De vez em quando o safado liga pra mim e repete o convite. Pois pode esperar sentado.</p>
<p>Aproveitei a dica e sentei-me. E disse:</p>
<p>— Mas faça-me o favor de não me confundir com Miguel Desidério. As fotos que quero tirar de você são artísticas, verdadeiramente artísticas, e não eróticas. Ou melhor, com uma lightíssima carga de erotismo, porque até vestida de freira você fica sedutora. Por falar nisso, como é que uma briosa evangélica como você foi capaz de se disfarçar de freira?</p>
<p>— Sou profissional, — disse Dona Mônica, com dignidade.</p>
<p>A velha e mofada desculpa de todo mundo — até de uma secretária da Agência Ajax — pra fazer e ter feito toda e qualquer merda na vida. Mudei de assunto:</p>
<p>— E que livralhada é essa que inundou a sala, Dona Mônica?</p>
<p>— Esses pacotes? — murmurou ela. — Preferia que você não tivesse perguntado.</p>
<p>— Agora já perguntei, — eu disse. — E faço absoluta questão de ser informado a respeito. Tenho direito de. Afinal, sou praticamente da família Ajax.</p>
<p>Esperei enquanto Dona Mônica hesitava três segundos. Depois ela disse:</p>
<p>— Uma das nossas publicações foi impressa com erros escabrosos. O autor mandou recolher a edição e ameaçou processar o Sr. Eylau se ele não fizer outra às custas da agência. Um tremendo prejuízo financeiro. Coitado do Sr. Eylau. Já tem tantos problemas e ainda por cima cai-lhe sobre a cabeça essa calamidade.</p>
<p>Calamidade, disse Dona Mônica. Calamidade, dissera Fernando Achiamé. A mesma palavra. Calamidade, calamidade, tudo calamidade. Calamidade no Instituto Histórico e Geográfico, calamidade na Agência Ajax de Produções Literárias. E, no meio de tanta calamidade, o pobre narrador autodiegético.</p>
<p>— Tem um exemplar aí pra eu ver? — perguntei.</p>
<p>Dona Mônica abriu a gaveta da mesa e extraiu de lá o exemplar de um livro, que passou às minhas mãos. Era um romance intitulado Regina, meu amor, e seu autor chamava-se Marcéu do Espírito Santo.</p>
<p>— Já vi a calamidade, — eu disse. — O nome do autor está escrito errado na capa.</p>
<p>— Como assim? — estranhou Dona Mônica.</p>
<p>— O nome dele não é Marcel, com &#8220;l&#8221;? — estranhei por minha vez.</p>
<p>— Não, é assim mesmo, — disse ela. — O nome dele reúne as palavras &#8220;mar&#8221; e &#8220;céu&#8221;. Achei lindo isso. Achei muito romântico.</p>
<p>— Então o que foi que aconteceu de tão grave na edição do livro? — perguntei.</p>
<p>— A personagem principal chamava-se Regina, — disse Dona Mônica, — mas havia também uma personagem secundária chamada Gina. Depois do livro editorado, pronto pra imprimir, o Sr. Eylau tomou a iniciativa de sugerir ao autor que não convinha ter duas personagens com nomes tão parecidos, e o autor concordou e decidiu mudar pra Zefa o nome da tal Gina. Aí o Sr. Eylau mandou Roderico, o editorador, fazer a mudança no arquivo. Isso é fácil de fazer no computador. Você usa os comandos &#8220;localizar&#8221; e &#8220;substituir&#8221;. No caso, localizar Gina e substituir por Zefa. Você pode substituir tudo de uma vez, se quiser, mas não é prudente. O computador é meio burrinho e pode mudar coisas que não é pra mudar. Só que Roderico, que é um irresponsável, usou o comando &#8220;substituir tudo&#8221; e deu no que deu. O texto impresso do romance está todo prejudicado.</p>
<p>Meu olho pediu-lhe que explicasse melhor. Ela disse:</p>
<p>— A palavra &#8220;virginal&#8221;, que aparece umas trinta vezes no texto, virou &#8220;virzefal&#8221;. &#8220;Página&#8221; virou &#8220;pázefa&#8221;. A expressão &#8220;imagina só&#8221;, que também aparece várias vezes, tornou-se &#8220;imazefa só&#8221;. E, o que é pior, o nome da personagem principal ficou Regina só na capa e na folha de rosto; no texto do livro, de fora a fora, virou Rezefa.</p>
<p>Dei uma folheada no livro. Era vero. À pázefa 64, logo na primeira linha, dei com uma frase estranha, aparentemente escrita numa língua híbrida de português e uraniano: &#8220;Rezefa, a linda zefasiana do rosto virzefal, estava apaixonada.&#8221;</p>
<p>— E o pior, — disse Dona Mônica, — é que o problema que deu origem à calamidade não foi resolvido. Se antes o livro tinha as personagens Gina e Regina, agora tem Zefa e Rezefa.</p>
<p>— O pior, — disse eu, — é saber que, com Gina e Regina ou com Zefa e Rezefa, o romance é a mesma boa merda. Uma nova edição não vai salvar a literatura da calamidade original. Ou devo dizer: orizefal?</p>
<p>— Você já leu o livro? — espantou-se Dona Mônica.</p>
<p>— E preciso? — repliquei. — Basta ler uma frase pra saber.</p>
<p>Telefone tocou, Dona Mônica atendeu. Era uma tal de Dona Amália. Pelo que pude deduzir das falas de Dona Mônica, Dona Amália insistia com ela pra fazer alguma coisa e Dona Mônica insistia em dizer que não podia, que não tinha interesse, que não ficava bem, afinal de contas, Dona Amália, eu tenho namorado. Teodomiro Reis. É detetive particular. Eu sei. Sei. Sei. Não, claro que não. Ham. Hum. Hein? Não. Sei. Mas, Dona Amália&#8230; Sei. Hum. Ham. Sei. Posso não, Dona Amália. Olha, Dona Amália, eu estou com um cliente aqui, preciso dar atenção. Depois eu ligo pra senhora. Boa tarde.</p>
<p>Dona Mônica desligou, olhou pra mim meio constrangida. Tentei adivinhar o que que Dona Amália queria que Dona Mônica fizesse. Minha fértil imaginação fez de Dona Amália uma alcoviteira que queria (no que eu lhe dava toda razão) contratar os serviços qualificados de Dona Mônica como prostituta de luxo. Por que outro motivo Dona Mônica invocaria o namorado como impedimento pra proposta de tal modo razoável e lucrativa? Dona Mônica, porém, parece que leu o meu pensamento e resolveu corrigi-lo:</p>
<p>— Dona Amália é uma velhinha que mora no mesmo conjunto que eu. Não regula muito bem. Botou na cabeça de me casar com o irmão dela e vive telefonando pra armar um encontro entre nós dois.</p>
<p>— E como é esse irmão dela? — perguntei. — Rico e bonito?</p>
<p>— Eu acho até que ele é um rapaz alegre, — disse Dona Mônica.</p>
<p>— Veado? — exclamei.</p>
<p>Ela acenou afirmativa com a cabeça. Depois disse:</p>
<p>— Que tonta que eu sou! O Sr. Eylau está sozinho esse tempo todo. O sujeito que devia vir às quatro não veio. Vou perguntar se ele quer receber você antes da hora.</p>
<p>Algo me disse que, por alguma razão misteriosa lá dela, Dona Mônica queria livrar-se de mim. Foi até à porta da sala do Sr. Eylau, bateu e entrou. Entrou pela metade: de onde eu estava podia ver-lhe o belíssimo perfil da bunda. Logo voltou inteira e fabulosa.</p>
<p>— Pode entrar, — disse.</p>
<p>Porfírio Eylau manda, eu que sou eu obedeço. Entrei. Algumas pilhas de pacotes de Regina, meu amor tinham chegado na enxurrada até seu gabinete, reduzindo-lhe as dimensões originais. Lá estava o velho agente sentado miúdo do outro lado da mesa; sua mesa e seu cabeção conservavam, no território abreviado, a enormidade de sempre. O Sr. Eylau usava o mesmo terno e o mesmo luto das outras vezes em que o vira. Desta vez, diante da tragédia que se abatera sobre a agência no caso Zefa-Rezefa, o luto até que fazia algum sentido.</p>
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<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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			</item>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VI. De adenóides e amígdalas</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 19:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Naquela tarde — Não. Comecemos pela Prof. Álvara Fragosa. Dois quase exatos anos atrás, a professora Álvara Maria Fragosa[ 1 ] defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo, diante de uma banca de medalhões da Crítica Literária Nacional. A tese ostentava o título de A fantasmalização do morto em espectro e o silêncio [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VI. De adenóides e amígdalas</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Naquela tarde —</p>
<p>Não. Comecemos pela Prof. Álvara Fragosa.</p>
<p>Dois quase exatos anos atrás, a professora Álvara Maria <span id="GARI_RP1V">Fragosa</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP1" title="Professora adjunta do Departamento de Teoria Literária da Ufes."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo, diante de uma banca de medalhões da Crítica Literária Nacional. A tese ostentava o título de <i>A fantasmalização do morto em espectro e o silêncio intervalar, diferido no espacitempo, informado como sintaxe dos indecidíveis derridianos por meio de marcas iterativas no âmbito de um glossário intertextual, com base em obras de Luciano de Samósata, William Shakespeare, Machado de Assis e William Burroughs</i> e, título por título, um título como esse, por si só, já deveria ser suficiente para dar a alguém o título de doutor. Ao final da séance (que durou quatro horas) a professora se viu aplaudida de pé pelos quatro medalhões que compunham a banca e pelos cinco gatos pingados que compunham a platéia, aplauso que a levou a tão vulcânica erupção de soluços e lágrimas que deu origem a nova catadupa de palmas e pôs em moção um círculo vicioso: quanto mais chorava ela, tanto mais aplaudiam os circunstantes, de modo que já não saberia dizer quem porventura entrasse naquele momento se o aplauso se destinava à brilhante defesa de tese ou ao sísmico epílogo de lágrimas. Seja como for, esse, segundo confessou depois a já então doutora Dra. Álvara a uma amiga aqui em Vitória, foi o melhor e o mais feliz choro de toda a sua <span id="GARI_RP2V">vida.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP2" title="Cf. 'Vale de lágrimas', in Mickey, revista mensal de Walt Disney, n. 13, outubro de 1953, p. 2, São Paulo: Editora Abril. Cite-se a fala de Minnie: 'Obrigada, Mickey! Foi uma noite maravilhosa! O melhor choro de minha vida!'."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>Aprovada summa cum laude, a Dra. Álvara Fragosa zarpou a bordo do seu próprio Entusiasmo rumo à publicação da obra. A tanto, apesar de sua congênita modéstia, foi convencida pelos quatro cavaleiros da néo-nova crítica no jantar que a eles ofereceu após a <span id="GARI_RP3V">defesa.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP3" title="Que lhe custou — o jantar, não a defesa — a bagatela de quatrocentos e quinze reais e trinta e oito centavos."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> Pois a súmula da conversa desse jantar foi esta e só esta: que empreendimento intelectual de tamanha envergadura como A fantasmalização tinha de ser devidamente divulgado entre todos os estudiosos de crítica literária do país.</p>
<p>Isso fora dois anos antes. De volta a Vitória, fiel à confiança nela depositada pelos olímpicos medalhões, a Dra. Álvara enviou cópias da tese (quatrocentas páginas em entrelinha dupla) a dezesseis editoras, inclusive à da USP, e a treze medalhões que a pudessem apadrinhar com uma só palavra ao pé de um ouvido editorial ou até mesmo com o laurel de um bem aplicado prefácio. Nessa brincadeira gastou uma pequena fortuna, seja pra produzir as vinte e nove cópias xerográficas (a R$ 0,06 a página, preço especial pra documentos acima de cinqüenta páginas), seja pra remeter os vinte e nove pacotes via Sedex (a R$ 19,80 o pacote), mas pouquíssimo ou nada conseguiu de concreto além de três ou quatro mensagens eletrônicas acusando recebimento do material e prometendo leitura em breve. Numa das mensagens, assinada por um velho medalhão de Santa Catarina, o nome da professora doutora aparecia como Alvará Fragosa.</p>
<p>A Dra. Álvara, porém, não se permitiu esquecer o seu sonho. Ou melhor, seus bons colegas, que torciam todos contra ela, isto é, a favor de seu fracasso, é que não permitiram que esquecesse, cobrando-lhe notícias e relatórios do andamento da edição no momento do cafezinho de cada dia na sala nossa dos professores. Decidiu, portanto, dar uma banana (a expressão é minha e não dela) aos dezesseis insensíveis editores e aos treze relutantes padrinhos e custear ela mesma uma edição caprichada em Vitória, certa de que, uma vez impressa a obra, viriam — não pra ela, que era doce e humilde, mas pra tese dela, que não era nem uma coisa nem outra — a glória e o desagravo. Uma grande editora, sonhava, poderá mesmo interessar-se em fabricar uma segunda edição, e nesses momentos de sonho franzia o cenho e prometia-se que a nenhuma das dezesseis casas a cuja porta batera em vão a nenhuma delas daria o gostinho de publicar sua obra-prima.</p>
<p>Assim foi que a Dra. Álvara caiu nas mãos melhores impossível de Djalma Smee, da Bico de Lacre Editores. Ele a impressionou à primeira vista pela figura forte e varonil, pelo perfume de loção após barba, pelo terno de microfibra, pela voz de barítono (que, junto com sua figura, a fez lembrar do ator Howard Keel), pela beijoca que depositou nas costas da mão dela, pelas palavras de confiança e serenidade, pelas baforadas de charuto (que pediu licença pra acender) e por um esporro homérico que despejou, via telefone, sobre um sujeito que tratou por <span id="GARI_RP4V">Perereca,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP4" title="Talvez um descendente direto do histórico padre do mesmo nome."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> e que, pela conversa, nada tinha a ver com nada de bibliográfico mas sim com mecânica de automóveis. Impressionou-a, portanto, por tanta coisa que ela relevou (coisa difícil numa professora da área de Letras) os barbarismos cariocas que pontuam o discurso <span id="GARI_RP5V">dele.</span><sup><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP5" title="Ver exemplos mais adiante.">[ 5 ]</a></b></sup></p>
<p>A Dra. Álvara saiu da Bico de Lacre com Djalma Smee na cabeça e no coração, e com cheiro de tabaco no cabelo. Estava segura de ter confiado seu tesouro intelectual ao editor mais que certo, e ainda levava de lambujem, pra casa e pra cama, a fantasia de um possível, nunca se sabe, relacionamento amoroso com um homem que era, na cara e na voz, o próprio sósia de Howard Keel. Ressalve-se que esse meigo xodó pelo ator não significa que ela tivesse idade pra ter visto os filmes dele no cinema, pois nessa época (primeira metade dos anos cinqüenta) nem tinha sequer pensado em nascer. Vira-os, mas sim, em vídeo, retirados da seção de clássicos da locadora, porque uma de suas muitas paixões eram os românticos musicais da Metro (outra eram alcachofras empanadas). E, com a cabeça cheia de Djalma Smee como estava, na volta pra casa passou na sua locadora, a Videologia, ali mesmo em Santa Lúcia, o seu bairro, e, meio excitada, meio constrangida, locou uma cópia de <i>Ardida como </i><span id="GARI_RP6V"><i>pimenta</i>.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP6" title="Calamity Jane, 1953, produção da Warner Brothers, com Doris Day e Howard Keel nos papéis principais, direção de David Butler e trilha sonora de Sammy Fain e Paul Francis Webster."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a></p>
<p>A história da Dra. Álvara Fragosa, com alcachofras e tudo, já vai extensa demais. Cumpre dizer apenas que tal era a confiança dela em seu editor adquirido que, apesar do bruto susto telefônico que levou no dia seguinte ao inteirar-se do orçamento pra publicação de seu livro com o selo do passarinho de bico vermelho, logo se recuperou e, com voz firme, como se estivesse casando com aquele orçamento, disse a Djalma Smee que sim.</p>
<p>A Dra. Álvara não era rica; quarenta e cinco anos, divorciada (ainda que sem filhos), sujeita a pagar uma pensão alimentícia ao marido (que, no mercado informal, ganhava mais que ela), vivia do emprego que tinha na Ufes, e a publicação do livro lhe custaria o equivalente a cinco meses de salário. Aceitou o assalto, como tudo na vida, em confiança, fez um empréstimo na Caixa Econômica e, na cerimônia de assinatura do Contrato de Edição, pagou um gorducho sinal. Feito isso, aceitou um cappuccino e esperou engatar uma conversa mole com o seu editor, que lhe permitisse, inclusive, chegar aonde queria: a Howard Keel. O editor, porém, espiando a hora certa em seu relógio, lamentou sinceramente que uma audiência com a secretária de cultura lhe abreviasse o tempo disponível aquela manhã. Saiu a Dra. Álvara mais pobre e menos satisfeita e chamou Djalma Smee a secretária (não a de cultura, mas a dele próprio, que respondia pelo nome de Magnólia) e mandou incluir o nome da professora no índex das pessoas pra quem estaria, a partir de então, ou em viagem de negócios a Gotthaab, na Groenlândia, ou em reunião com a secretária de cultura do município, do estado, ou da universidade: nessa ordem. Djalma Smee tinha verdadeira fixação em secretárias de cultura, na doce ilusão de que seus seios fossem bojudas cornucópias de verbas e recursos e na perene esperança de muito mamar em cada um da meia dúzia <span id="GARI_RP7V">deles.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP7" title="Metaforicamente falando, é claro, porque o nosso Barrica babava-se todo é por ninfeta, e não consta que exista em lugar nenhum, nem mesmo em Gotthaab, na Groenlândia, uma secretária de cultura aquém dos quarenta. Aliás, foi também metaforicamente que Barrica, uma vez, contrariado em seus interesses pecuniários por uma dessas secretárias, uma senhora de quase sessent'anos, deixou escapar em público sua insatisfação dizendo: Eu vou foder com essa mulher! Isso porque tinha intenção de botar a boca no trombone da imprensa contra a senhora secretária. Vai logo então uma má língua, com a melhor das intenções, repetir as palavras de Djalma à secretária, que, surpresa, exclamou: Mas esse rapaz não sabe que eu sou casada?"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a></p>
<p>Não se pense, no entanto, que a medida de Djalma Smee de indexar a Dra. Álvara na sua lista negra telefônica significasse que pretendia rolar a edição do livro até o fim dos tempos. Se tomou essa medida foi só porque sentira na Dra. Álvara uma certa predisposição a se tornar uma chata do tipo &#8220;Como é que vai o nosso livro?&#8221; — no que estava muito enganado, porque o que ela só queria era conversar com ele sobre Howard Keel e, quem sabe, convidá-lo pra verem juntos <i>Ardida como pimenta</i>. Mas a Bico de Lacre não enrola os seus autores, pois não interessa a Djalma Smee garfar apenas o gorducho sinal mas toda a grana do obeso orçamento. Tanto assim que no mesmo dia passou os originais da famosa tese — que, na Bico de Lacre, ficou conhecida pelo codinome de &#8220;livro dos fantasmas&#8221; —, às mãos da secretária que, por sua vez, os passou às mãos do revisor oficial da casa editora, isto é, às mãos de mim.</p>
<p>Nem seria necessário, a rigor, uma revisão do texto impecável da professora, mas a casa editora não abria mão dessa rubrica de despesa, até porque 60% do valor cobrado sugava-os o bolso voraz de Djalma Smee. De qualquer modo, dei conta do meu trabalho: li a tese da professora e fiz alguns pequenos reparos — do tipo trocar aspas duplas por aspas simples em citações no interior de citações e corrigir uma que outra falha de digitação — sem, no entanto, entender muito bem o que estava acontecendo ali naquele texto. Sim, o texto não fez sentido nenhum pra mim, fato que atribuí ao elevado grau de inteligência crítica e teórica da professora, já que não podia contrapor o meu pobre e rasteiro estranhamento ao erudito aplauso dos quatro medalhões da banca nem ao diploma de doutorado conferido por uma universidade como a USP. Assim, li o cipoal acadêmico munido de reverência e respeito e até quase bati palmas pra frases como esta: &#8220;O múltiplo é a manifestação inseparável, a metamorfose essencial, o sintoma constante do único. O múltiplo é a afirmação do um, o devir, a afirmação do ser. A afirmação do devir é, ela própria, o um; a afirmação múltipla é a maneira pela qual o um se afirma.&#8221; E como esta: &#8220;Tornar a vir é o ser do que devém. Tornar a vir é o ser do próprio devir, o ser que se afirma no devir. O eterno retorno como lei do devir, como justiça e como ser.&#8221; Pérolas da néo-nova crítica literária.</p>
<p>Naquela tarde (agora sim e finalmente) fui à Bico de Lacre devolver o texto da professora devidamente revisto e incompreendido. A Bico de Lacre, como se sabe, é o braço editorial da Desentupidora e Higienizadora Clean, e divide com esta, irmãmente, as suas dependências administrativas. Djalma Smee atende, na mesma mesa, aqueles clientes interessados em limpar fossas e esgotos e também aqueles fissurados por colocar no mundo obras intelectuais que sem elas (na opinião exclusiva de seus <span id="GARI_RP8V">autores</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP8" title="No que se assemelham àqueles candidatos que, nas eleições, só recebem um voto."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> ) o mundo estaria irremediavelmente empobrecido. Lembrando-me de <span id="GARI_RP9V">algumas</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP9" title="A vasta maioria."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> dessas obras, todas revistas por mim, vejo que, ao contrário do que pode parecer, não é tão descabida assim a associação entre desentupidora e editora: a diferença está em que a desentupidora trata merda como merda e a editora trata merda como literatura. Já administrativamente o que as distingue é que, ao atender os clientes literários, Djalma Smee maloca a plaqueta em que seu nome aparece como diretor gerente e a substitui por outra com os dizeres gerente editorial.</p>
<p>Mas <i>andiamo</i>, como dizem os etruscos. O endereço de ambas e uma só firma é ali no bairro do Horto, ao pé de um morro, não muito longe mas também não muito perto da horta de gráficas que se situa em Gurigica. A rua é tranqüila (até mesmo os cadáveres que de vez em quando rolam lá de cima do morro são discretos e silenciosos) e (coisa rara em Vitória, cidade sedenta de sol) arborizada. Toquei a campainha, troquei algumas palavras com uma voz emparedada e, como por milagre, a porta abriu-se com um estalo de chibata, acionada por um dedo de longo alcance. Galgando os alguns muitos degraus a pique, corri a mão pelo corrimão de madeira, e não demorou muito cheguei ao patamar administrativo da empresa. Dona Magnólia veio receber-me com um sorriso estranho, estranho porque sorriso. Quando foi que vi essa megera sorrir antes pra mim? Vejam: vai tratar-me até de danadinho:</p>
<p>— Você caiu do céu, seu danadinho. Já liguei não sei quantas vezes pra sua casa. Dr. Djalma está louco pra falar com você.</p>
<p>Djalma Smee não é doutor a não ser pras negas dele, já que não defendeu nenhuma tese de teoria literária, ou do que seja, como fez, galhardamente, a Dra. Álvara Fragosa. Doutor ou não, vi-o ver-me através do vidro do aquário que lhe serve de gabinete e vi-o pespegar na perna uma palmada de contentamento, após o quê chamou-me com largos acenos de mão e charuto. Entrei no aquário. Djalma apertou-me a mão. Mandou-me sentar.</p>
<p>— Como é que tu <span id="GARI_RP10V">adivinhou</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP10" title="Djalma Smee fez um curso de seis meses na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e uma de suas aquisições no Rio foi essa concordância verbal tipicamente carioca — outra foi a esposa, uma loura platinada do Leme que o ajuda a manter até hoje essa concordância."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> que eu estava querendo falar contigo? Magnólia está ligando direto pra tua casa desde meio-dia.</p>
<p>— Meio-dia eu saí pra almoçar e não voltei em casa, — eu disse.</p>
<p>— Tu precisa é de um celular, — aconselhou ele, — pra ficar acessível quando a gente precisa de ti. Vou te dar um de presente de Natal.</p>
<p>— No momento o que eu quero, — disse eu, — são os meus honorários de revisor.</p>
<p>E depositei sobre a mesa o calhamaço em que se encarnava a tese da Dra. Álvara Fragosa.</p>
<p>— Já? — assombrou-se Djalma. — Tu é fera, hein, <span id="GARI_RP11V">cara?</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP11" title="Os leitores relevem o merchandising em benefício próprio."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> E que que tu achou? Diz pra mim.</p>
<p>— É do cacete, — disse eu pra ele, — só que não entendi porra nenhuma.</p>
<p>— É exatamente isso que eu quero pra Bico de Lacre, — exultou ele: — o texto indevassável. E está cheio de penduricalhos, não está?</p>
<p>— Penduricalhos? — estranhei.</p>
<p>— Notas de rodapé, — traduziu ele, soltando uma baforada de fumaça.</p>
<p>— Às pencas, — disse eu.</p>
<p>— Jóia, — disse ele. — São textos assim que impõem respeito à comunidade acadêmico-científica.&nbsp;</p>
<p>— E quanto a isto, Djalma? — perguntei, coçando o polegar com o indicador.</p>
<p>Nesse ponto — em pagar o que deve, pelo menos a mim — tenho de reconhecer que Djalma nunca nega fogo, e não negou desta vez:</p>
<p>— Vou falar com Magnólia pra fazer teu cheque, — disse ele, com o charuto plantado em riste entre os dentes.</p>
<p>Falai no mal, preparai o pau. A secretária bateu à porta e meteu dentro do aquário meio palmo de cara.</p>
<p>— O pessoal chegaram, — disse ela, empregando com muita propriedade uma concordância ideológica.</p>
<p>— Manda entrar, — disse Djalma, e levantou-se pra receber os visitantes.</p>
<p>— Quer que eu saia? — perguntei, humilde, levantando-me também.</p>
<p>— Não, não, — disse ele. — Tu é a pessoa que eu quero comigo nesta reunião.</p>
<p>Entraram no gabinete três homens e uma mulher, que Djalma recebeu com uma overdose de cordialidade. A mulher era jovem e estava visivelmente ou grávida ou ascítica, ou seja, ou esperando neném ou com barriga <span id="GARI_RP12V">d&#8217;água.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP12" title="É muito tênue a diferença entre um caso e outro. Na Vitória dos anos trinta, por exemplo, uma certa Velha Chica passava por sofrer de ascite quando o que a afligia era na verdade uma gravidez eterna (cf. Cantáridas e outros poemas fesceninos, de Paulo Vellozo et alii, poemas LI, LXII e LXVII e respectivos comentários às p. 234, 238 e 240)."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a> Dos três homens, o primeiro era velho, franzino e anguloso, e bem podia ser o pai da moça. O segundo era grande, sisudo e faraônico, e bem podia ser o seu irmão. O terceiro, pra minha surpresa, era Fernando Achiamé, um dos sócios eméritos do Clube das Terças-feiras: era o único que trazia chapéu na <span id="GARI_RP13V">mão,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP13" title="Na verdade um boné propedêutico pra proteger do sol o couro — no seu caso impropriamente chamado — cabeludo."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> e a ele bem podia a moça ter dado a mão ou algo mais: e, sendo ou não sendo ele o pai da criança, aproveitemos pra concluir que ela não estava ascítica mas grávida.</p>
<p>Ao apresentar-me aos recém-chegados, Djalma fez questão de carregar nas tintas. Longe de ser pouca porcaria, eu era, pra todos os efeitos, chefe da equipe de revisão da editora, formado em Letras, poeta com livro publicado, pesquisador de naufrágios de <span id="GARI_RP14V">navios,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP14" title="De onde terá ele tirado essa idéia?"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> e premiado em vários concursos promovidos por instituições culturais de todo o Brasil. Os quatro nomearam, um a um, os seus nomes, e Djalma repetiu-os, um a um, pra mim como se lhe coubesse a responsabilidade de homologá-los, e depois apresentou os visitantes em conjunto como membros do conselho editorial da Academia Pansófica do Espírito Santo.</p>
<p>— Instituto Pansófico, — corrigiu Fernando.</p>
<p>— Sinto-me honrado, — disse Djalma, ignorando a correção e, por conseguinte, o erro, — com a vossa presença em minha toca.</p>
<p>Dito o quê, dirigiu-se vocífero à secretária que, empedrada à porta, esperava ordens:</p>
<p>— Liga pra Miguel Desidério. Diz que só está faltando ele. E manda trazer café e água.</p>
<p>Há no aquário de Djalma Smee uma mesa de reunião com meia dúzia de distintas cadeiras, distintas tanto porque todas têm aparência respeitável como porque nenhuma delas tem qualquer parentesco com nenhuma <span id="GARI_RP15V">outra.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP15" title="Djalma arrematou essas cadeiras, bem barato, na loja de móveis do Rabinowitz, onde eram vendidas como pontas de estoque."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a> O editor da Bico de Lacre abriu sobre as asas de nós cinco os vastos tentáculos e conduziu-nos até à mesa. Ali cada qual sentou na cadeira que lhe coube; a uma e outra cabeceira sentaram-se Djalma e o irmão da moça. Djalma abriu então um largo sorriso editorial nos lábios e disse:</p>
<p>— Que calor que está fazendo lá fora, hein? Diz pra mim. Se importam de esperar um pouquinho? Desidério já foi chamado. Trabalha aqui perto. Não demora. Não conheço quem faça melhores projetos gráficos que ele em Vitória. Em Vitória? No sudeste inteiro, e quem fala do melhor do sudeste fala do melhor do país. Não é não? Diz pra mim.</p>
<p>— Vai demorar muito? — perguntou Fernando.</p>
<p>— Nada, — respondeu Djalma. — Cinco, dez minutos. Enquanto isso, vamos tomar um café.</p>
<p>— O senhor poderia apagar o charuto? — disse a Djalma o irmão da moça. — Peço este obséquio em atenção ao estado interessante de Terezinha.</p>
<p>— Mil perdões, — disse Djalma, enterrando o charuto editorial na tumba de um cinzeiro.</p>
<p>Chegou a servente das empresas geminadas trazendo café e água. Era uma senhora franzina de seus mais pra sessenta que pra cinqüenta anos, de cara amarrada, que bem podia ser esposa do sócio velhinho e, por conseguinte, mãe da moça grávida. Djalma achou de bom tom mostrar-se democrático:</p>
<p>— Dona Leonarda está conosco há quantos anos, Dona Leonarda? Quinze? Diz pra mim.</p>
<p>— Fora os sem carteira, — disse Dona Leonarda.</p>
<p>— Ah! Que senso de humor! — exclamou Djalma. — E ainda faz o melhor café forte de Vitória. Tem gente de alto quilate que vem aqui, eu penso que é por minha causa, que nada, é pra tomar o café desta moça.</p>
<p>— A senhora é daonde? — perguntou Fernando Achiamé.</p>
<p>— Sou de Colatina, — respondeu Dona Leonarda.</p>
<p>— Eu também! — exclamou ele, deslumbrado ante o feliz acaso. — Então a senhora é minha conterrânea!</p>
<p>— Eu não, credo! — disse ela. — Nem conheço o senhor. Olha essas liberdades comigo, moço. Sou pobre mas sou honesta.</p>
<p>— Que senso de humor! — riu-se Djalma. — Que faria eu sem essa mulher? Diz pra mim.</p>
<p>Dona Leonarda caiu fora sem ter pronunciado um só sorriso. Calamo-nos pra beber a água e depois pra adoçar o café. Colherinhas de plástico fizeram um vôo rasante do açucareiro às xícaras, enquanto a moça grávida pingava no seu café algumas gotas de adoçante. O meu fiz questão de, prevenido, açucarar bem açucarado, que já conheço o café forte de Dona Leonarda. Djalma tomou o dele puro e preto, num só gole, e levantou-se.</p>
<p>— Vão me desculpar um minuto. Aproveitem pra pôr meu chefe de revisão a par do problema que aflige a nobre Academia.</p>
<p>Aí fugiu pra sua mesa e pediu uma ligação, que aguardou com um charuto fresco metido — apagado — no canto da boca. Cá entre nós, Fernando tomou a palavra. Disse que estavam ali, ele e os outros, pra entregar à Bico de Lacre a edição da Sursum Prorsum, a revista do Instituto Pansófico.</p>
<p>Aproveitei a ausência de Djalma pra perguntar, baixinho, o que significava a palavra &#8220;pansófico&#8221;.</p>
<p>— Pansófico, — explanou Fernando, — é o adjetivo que corresponde a pansofia, palavra grega que significa ciência universal. E <i>Sursum Prorsum</i>, o nome da nossa revista, significa, em latim, para cima e para diante. É, modéstia à parte, o periódico mais antigo do Estado em circulação. O primeiro número saiu em 1912, com colaborações de Rui Barbosa, Austragésilo de Ataíde, Pessanha Póvoa, Dom Fernando Monteiro, meu xará, e muitos mais.</p>
<p>— É mais antiga que a <i>Revista do Instituto Histórico</i>, — disse o irmão da moça.</p>
<p>— É mais antiga que a <i>Vida Capichaba</i>, — repetiu o sócio velhinho, levantando um dedo idoso e caloso.</p>
<p>— A <i>Vida Capichaba</i> não conta, — resmungou o irmão da moça: — parou de circular há mais de trinta anos.</p>
<p>— Ah é? — disse o sócio velhinho. — Bem que eu não tenho visto nas bancas.</p>
<p>— É mais antiga que <i>A Gazeta</i>, — disse Fernando, — que circula desde 1928.</p>
<p>— É verdade que <i>A Gazeta</i> é um jornal diário, — disse a moça, — e a <i>Sursum </i>teve ano que não saiu nenhuma edição dela, mas, ressalvando isso, não se pode negar que tem mais tempo de longevidade.&nbsp;</p>
<p>— Ultimamente temos publicado sem falha um número por ano, — disse Fernando. — O problema é que a qualidade gráfica e editorial sempre deixou muito a desejar, e o último número foi uma verdadeira calamidade. Por isso o atual conselho, do qual tenho a honra de fazer parte, resolveu dar uma guinada de trezentos e sessenta <span id="GARI_RP16V">graus</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP16" title="Ou seja, pra voltar ao mesmo ponto?"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> e reformular a revista como um todo, sobretudo nos itens grafismo e revisão.</p>
<p>— Deu tudo errado na revisão do último número, — suspirou a moça.</p>
<p>— Grum, — resmungou o irmão dela.</p>
<p>— Só no meu artigo, — disse a irmã dele, — contei oitenta e sete erros diversos, principalmente de ortografia. Os acentos fugiram todos das palavras certas e foram parar nas palavras erradas. Por exemplo: todos os verbos no passado receberam chapeuzinho: estâmos, recebêmos, colocâmos.</p>
<p>Ao enunciar cada palavra a moça fazia no ar, com o dedinho, o sinal de circunflexo.</p>
<p>— Quem foi o responsável pela revisão? — perguntei, com curiosidade meramente profissional. E estava tranqüilo: eu que não fora.</p>
<p>Minha pergunta fez pipocar na mesa um silêncio pesado.</p>
<p>— Que que ele perguntou? — perguntou o sócio velhinho.</p>
<p>— Ele perguntou, — disse o irmão da moça, — quem foi o responsável pela revisão desse número da revista.</p>
<p>— Ah! — exclamou o velhinho. — E não foi você, Epitácio? Me disseram que foi você.</p>
<p>— E fui eu, sim, — disse Epitácio. — E quero ver quem tem coragem de dizer que não cumpri diligentemente minha tarefa. Passei oito dias lendo as provas da revista e anotando as correções à margem. E afirmo que havia correções a dar com o pau. Fiz o que me competia e entreguei as provas ao nosso presidente. O que aconteceu depois não é de minha responsabilidade.</p>
<p>— E o que foi que aconteceu? — perguntei.</p>
<p>— Pelo que sei, — disse Fernando, — o empregado da gráfica teve dificuldade pra decifrar as correções que tinha de fazer, porque a letra de Epitácio são uns garranchos ilegíveis.</p>
<p>— Isso é desculpa dele, — disse Epitácio. — O sujeito é um preguiçoso safado. Eu falei isso pra ele. Abri a esmo as provas da <i>Sursum </i>no nariz dele e mostrei uma das minhas correções. Olha o que eu escrevi aqui: Almanaque do <i>Tico-tico</i>. Você corrigiu? Não. Do jeito que estava, ficou.</p>
<p>— E como é que estava? — perguntei.</p>
<p>— Almanaque do <i>Reco-reco</i>, — disse Epitácio. — A autora do texto confundiu <i>Tico-tico</i> com <i>Reco-reco</i> porque a revista tinha um trio de personagens que se chamavam Reco-reco, Bolão e Azeitona. Mas eu consertei. Consertei e não adiantou nada. Tá lá: Almanaque do <i>Reco-reco</i>. E o sujeito teve o desplante de dizer na minha cara que eu tinha corrigido <i>Reco-reco</i> pra <i>Reco-reco</i>, quando estava lá, claramente, <i>Tico-tico</i>.</p>
<p>— Logo você, Epitácio, — disse Fernando, — que até escreveu uma crônica sobre o Almanaque do <i>Tico-tico</i>, aliás belíssima.</p>
<p>— Pois então, — disse Epitácio.</p>
<p>— Então a revista saiu cheia de erros, — disse eu.</p>
<p>— Cheíssima, — disse Fernando. — A única coisa que saiu correta foram uns poemas em polonês que Mieczyslaw levou pra revista e ninguém teve coragem de <span id="GARI_RP17V">recusar.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP17" title="Trata-se de texto bilíngüe (polonês e português) de quatro poemas de Ludmila Szczecinska, presidente da Academia de Letras de Czestochowa, traduzidos e comentados por Mieczyslaw Lelewel."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a></p>
<p>— Esses eu nem olhei, — disse Epitácio. — Não sei polonês&#8230; O raio foi que um dia aí me telefonou um gaiato perguntando quanto é que eu cobrava pra fazer a revisão de um livro em polonês. Quando entendi que era uma gozação e já ia mandar o sujeito praquele lugar, ele desligou.</p>
<p>— Deve ter sido alguém do próprio Instituto, — disse Fernando, com um sorriso tão deliciado que logo desconfiei ter sido ele mesmo o autor do trote.</p>
<p>— A revista do Instituto Pansófico também publica poesia? — estranhei.</p>
<p>— Sim, nós temos uma seção chamada &#8220;A poesia é necessária,&#8221; — disse o pai da moça.</p>
<p>— Isso também vamos mudar, — replicou Fernando. — A poesia não será mais necessária, pelo menos na nossa revista. Não tenho nada contra a poesia, também eu cometo meus <span id="GARI_RP18V">versos,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP18" title="A obra incerta, de Fernando Achiamé, apresentação de Reinaldo Santos Neves, Vitória: Florecultura, 2000."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a> se quiser posso até recitar alguns aqui, mas o Instituto não pode descarrilar de sua linha pansófica. Teve um número aí que tinha mais literatura que ciência. E, cá pra nós, uma literatura muito da chinfrim ainda por cima. O Instituto estava perdendo a credibilidade. Mas não importa. Daqui pra frente tudo vai ser diferente.</p>
<p>— Você tem que aprender a ser gente, — cantou uma voz. Era Miguel Desidério que vinha entrando aquário adentro. — O seu orgulho não vale nada, nada!</p>
<p>— Oi, Miguel, — disse Fernando, com um sorriso. É amigo de Miguel? Quem diria.</p>
<p>— Ei, Miguel, — disse eu, não querendo deixar por menos: também eu sou amigo do bruto.</p>
<p>Miguel chegava do jeito desleixado como gosta de andar, com blusa de malha, bermuda jeans e sandálias de borracha, e uma sacola de supermercado cheia de tudo que precisa pra enfrentar o dia, inclusive alguns exemplares de seu mais recente livro de <span id="GARI_RP19V">poemas,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP19" title="Cupim, de Miguel Desidério, apresentação de Alice B. Tocas, Vitória: Florecultura, 2ª edição, 2001."><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a> que costuma distribuir como isca a toda e qualquer criatura do sexo feminino que encontre pelo caminho. À vontade em qualquer espaço, Miguel veio sentar-se à cabeceira da mesa, no lugar deixado vago por Djalma: muito justo: quem foi ao convento perdeu o <span id="GARI_RP20V">assento.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP20" title="Cf. capítulo 13 da primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a> Foi então logo se apresentando à moça, sentadinha à sua esquerda, e apertou-lhe a mão. Depois apertou também a mão da família toda: do pai e do irmão e daquele a quem a moça deu a <span id="GARI_RP21V">mão.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP21" title="Ou talvez algo mais que a mão."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a></p>
<p>Djalma Smee voltou do convento pra mesa trazendo nas mãos uma sétima cadeira, e abriu espaço pra ela e pra si ao lado de Miguel: preferia dividir com outro o império da cabeceira a perdê-lo. A seguir pigarreou. Bem, agora estamos todos aqui, disse ele, expressando o necessário óbvio. Aí começou, oficialmente, a reunião pra redenção editorial da revista do Instituto Pansófico do Espírito Santo.&nbsp;</p>
<div style="text-align: center;">
*&nbsp;</div>
<p>
Uma hora depois estava terminada a reunião. Nenhum dos quatro representantes do conselho editorial do Instituto resistiu à avalanche de esmeradas publicações que se derramou sobre a mesa, todas elas com projeto gráfico creditado ao fino gosto de Miguel Desidério e a inequívoca marca de qualidade editorial representada pelo passarinho de bico vermelho. Não havia ali, é verdade, nenhum texto que fizesse justiça à capa primorosa, ao caprichoso projeto gráfico ou ao sublime logotipo ornitológico: nem o robusto <i>Valor reconhecido</i>, que continha nada mais nada menos que o curriculum vitae do professor Nicanor Dias dos Santos, <span id="GARI_RP22V">Ph. D.,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP22" title="Colega da Dra. Álvara no Departamento de Teoria Literária da Ufes."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a> nem tampouco o livro de poemas <i>Rebentos da minha alma</i>, do desembargador Átila, o Huno, de Oliveira, nem mesmo a profunda filosofia religiosa de <i>Jesusismo</i>, de um iluminado garçom que vendeu a casa pra pagar a edição. Mas todos esses volumes contribuíram pro resultado final da reunião: a Bico de Lacre assumiu formalmente o controle editorial da <i>Sursum Prorsum</i>, com Desidério responsável pelo projeto gráfico e editoração e este narrador, pela revisão dos textos.&nbsp;</p>
<p>— À exceção, — frisei, cedendo à tentação do gracejo, — de poemas em polonês.</p>
<p>— Desses Epitácio cuida, — acrescentou Fernando.</p>
<p>— Seu filho da mãe, — disse Epitácio, mas rindo.</p>
<p>A reunião levantou-se pras despedidas. Desidério encostou num canto a moça grávida e passou-lhe, num gesto de mágica, um exemplar de seu Cupim. Certamente havia inserido ali uma daquelas suas famigeradas dedicatórias, feitas de caso pensado pra seduzir ainda que até mesmo a mais inflexível das madres superioras de convento de carmelitas descalças.</p>
<p>— Telefona pra mim e diz o que achou, — disse ele, com jeito modesto, como se sua auto-estima de poeta dependesse do veredicto daquela leitora em especial.</p>
<p>Saíram do aquário os sócios pansóficos do Instituto. Ficamos Desidério e eu, que Djalma queria dar-nos ainda uma palavrinha.</p>
<p>— Capricho, hein, capricho! — disse ele. — Essa revista vai nos dar prestígio no meio acadêmico-científico de Vitória. Tudo bem publicar umas merdas como essa — e deu um chega-pra-lá no exemplar do Valor reconhecido, do professor Nicanor Dias dos Santos, Ph. D., —, que ninguém é de ferro, mas o que dá prestígio é publicação científica. Não é não? Diz pra mim. E além disso o dinheiro entra da mesma maneira.</p>
<p>E como. O orçamento apresentado por Djalma Smee era estratosférico. Só o projeto gráfico e editoração de Miguel Desidério ficava a preço de artista plástico consagrado. A minha revisãozinha besta também não ficava muito atrás, uma vez que, como propagara o editor, seriam feitas três revisões de provas e uma revisão de vegetais, e por mais de um revisor, porque, explicou, há que haver um rodízio de revisores porque revisor cansa do texto e texto cansa do revisor. Fez questão de assinalar que não há livro, nem mesmo da Bico de Lacre, sem erro de revisão, porque perfeito só Deus, mas garantiu que a sua equipe de revisores daria um tratamento de primeira aos textos da revista, e nisso empenharia sua barba, se a tivesse.</p>
<p>— Qualidade gráfica e conteúdo intelectual, — disse Djalma. — Com a revista dos pansóficos e a tese da Dra. Álvara inaugura-se uma nova fase pra Bico de Lacre. Não me vão cagar no pau, hein? Diz pra mim.</p>
<p>E despediu-nos. Fiz uma escala na Dona Magnólia pra embolsar meu cheque. Depois descemos, nós da equipe técnica da revista do Instituto, até sermos postos na rua tranqüila e arborizada ali do Horto.&nbsp;</p>
<p>— Vamos naquele bar que eu quero comer alguma coisa, — disse Desidério.</p>
<p>Havia um boteco na esquina de uma ladeira que sobe morro acima. Havia alguns salgados tristonhos na vitrine do balcão. Era preciso coragem pra encarar qualquer um deles. Desidério tinha toda a coragem necessária. Pediu uma coxinha.</p>
<p>— Quer uma? — perguntou.</p>
<p>— Não, obrigado, — respondi.</p>
<p>Desidério pediu também uma guaraná. Sentamo-nos a uma mesa esquálida — filha única de mãe solteira — na calçada. Ele deu uma mordida na coxinha e retirou de dentro da sacola de supermercado um desses pequenos álbuns de fotografias que as reveladoras dão de brinde aos clientes.</p>
<p>— Olha só, — disse ele.</p>
<p>Olhei mas não só: olhei e perscrutei cada foto. Era o ensaio fotográfico de uma moçoila morena que, nuazinha em pêlo, mostrava, em corpo esguio, um sorriso carnudo e uma carnuda xota como raramente vi outros tão que tais.</p>
<p>— Onde você descobriu essa figura?</p>
<p>— Gostou? — Desidério lambeu dos beiços alguns átomos de frango.</p>
<p>— Se gostei? — exclamei. — Miguel, aposto que nunca vi lábios tão sensuais assim antes.</p>
<p>— Nome dela é Hipoteneuza, — disse Desidério, — mas gosta que chamem de Neuza. Achei na rua. Você não imagina as jóias que estão aí dando sopa na sarjeta.</p>
<p>Desidério tem dessas coisas. Descobre no olho das ruas modelos fotográficos em bruto, leva pra um motel, dá-lhes um bom banho, ensina-lhes algumas poses <span id="GARI_RP23V">eróticas,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP23" title="A natureza das poses depende da modelo. As poses da moça Hipoteneuza caem na categoria (pra usar a nomenclatura do próprio artista) pornô naïf."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a> fotografa e depois come. Reveladas as fotos, carrega pra cima e pra baixo na sacola de supermercado pra mostrar aos amigos.</p>
<p>— Tá precisando de emprego, — disse ele. — Tem emprego pra ela não?</p>
<p>— Essa moça já nasceu com emprego, — disse eu. — Nasceu pra dar. Que que ela está esperando? E que que você está esperando pra ser o proxeneta, quer dizer, o empresário dela? O book já está aí pronto.</p>
<p>— Tô falando sério, — disse ele. — Ela tem uma filha.</p>
<p>— Tenho emprego não, — disse eu. — Por que não pediu a Barrica?</p>
<p>— Barrica não, — disse ele. — Não confio.</p>
<p>— Então pede ao pessoal do Instituto Pansófico, — disse eu.</p>
<p>Ele sorriu.</p>
<p>— Gostei daquela Terezinha, — disse. — Existem duas coisas numa mulher que me deixam de água na boca, e uma delas é gravidez.</p>
<p>— Você é um pervertido, — disse eu. — E qual é a outra?</p>
<p>— Aparelho nos dentes, — disse ele.</p>
<p>— Você é um tarado, — disse eu.</p>
<p>Desidério deu mais uma dentada na coxinha e tomou mais um gole de <span id="GARI_RP24V">guaraná.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP24" title="O investimento moralizante não é, contudo, nem necessário nem suficientemente geral: ele se vê amiúde substituído por um investimento estetizante, por exemplo, ou distribuído não apenas pelas duas dêixis opostas, mas por termos mais numerosos do quadrado semiótico."><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a></p>
<p>— Quanto à tal da Terezinha, — eu disse, — não está só grávida, está casada. Não viu a aliança na mão dela não?</p>
<p>— Também adoro mulher casada, — disse ele. — Estou até comendo uma. Se eu te disser quem é, você vai levar um susto. É mulher de amigo.</p>
<p>A última frase foi sussurrada com todos os requintes de confidência ao meu ouvido.</p>
<p>— Então não me diz, — disse eu. — Não quero saber.</p>
<p>Nesse ponto sou absolutamente leal. Mulher de amigo pra mim é homem, como se diz. Já fui cantado por mulher de amigo, e mulher gostosa ainda por cima, e declinei a cantada com absoluta convicção, embora tenha tomado um puta esporro do meu pau <span id="GARI_RP25V">depois.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP25" title="O problema da veridicção ultrapassa sobremaneira o quadro da estrutura atuacional."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a></p>
<p>— Comi essa mulher na semana passada pela primeira vez, — disse ele. — Uma belezura. Deixa eu te dizer quem é.</p>
<p>— Não quero saber, — repeti.</p>
<p>— Só as iniciais, — insistiu ele.</p>
<p>— Não, — disse eu.</p>
<p>— Então lê o poema que eu fiz pra ela, — disse ele.</p>
<p>Tirou uma pasta de dentro da sacola e, de dentro da pasta, uma folha de <span id="GARI_RP26V">papel.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP26" title="O lexema é uma organização sêmica virtual que, com raras exceções (quando seja mono-semêmico), quase nunca se realiza, tal como realmente é, no discurso manifesto."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a> Eis o poema que jazia ali:</p>
<p>Não é pra menos, eu que o diga, amada:<br />
também pudera, e olhe lá, agora<br />
em ponto, tão bonita que, além<br />
do mais, sem mais tardar, vamos, venhamos.<br />
Há quanto tempo é como queiras. Psiu.<br />
Antes, porém, depois. Se for o caso,<br />
deixo de nove às vinte e quatro horas,<br />
e pelo sim se for o que dirás?<br />
Há que, tal qual, favor não soletrar,<br />
porque não há por quê, nem há de quê,<br />
e o poema se faz sem ter em vista<br />
senão coisa com coisa. E tanto faz<br />
assim como como como assim,<br />
dou-lhe uma e dou-lhe duas e fim.</p>
<p>— Que que você achou? — perguntou ele.</p>
<p>Respondi no chofre:</p>
<p>— Achei indecidivelmente conceitual e metafórico, organizador e desestruturante, filosófico e poético.</p>
<p>Ele releu o poema, por sua vez, enquanto mastigava a derradeira lasca de coxinha. Depois concordou:<br />
<br />
— Acho que você tem razão. De qualquer forma, nossa amiga, a mulher de nosso amigo, ficou extasiada quando leu. Agora lê isso aqui.</p>
<p>E me impingiu outra folha de papel com outro poema nela. Eis o que li:</p>
<p>Todo cuidado é pouco, Jacqueline,<br />
agora que te vi, agora que assisti<br />
você sorrir, que admirado admirei<br />
a sombra do teu corpo esguio e belo,<br />
e passei necessidade de tocar<br />
as tuas mãos, e os lábios, e os cabelos,<br />
todo cuidado é pouco, porque basta<br />
um só deslize, um triz, uma fagulha,<br />
e apaixonado estarei até o pescoço<br />
por você. E aí? Que terrível destino<br />
me espera, prisioneiro em tuas mãos?<br />
Melhor me prevenir enquanto é cedo:<br />
fica o poema contigo de refém<br />
e eu fico livre de ti e passo bem.</p>
<p>— E aí? Que que achou? — perguntou o poeta.</p>
<p>Respondi com a maior sinceridade:</p>
<p>— Achei um tanto constativo e performativo, mas a textualidade podia ser mais velada, mais heterotanatobiográfica. Porque, você sabe, não há indecidibilidade nem deslocamento do texto metafísico sem a incorporação de uma película mortífera ao tecido textual.</p>
<p>— É? — disse Desidério, meio decepcionado. — Mas essa é uma primeira versão. Vou ver se reescrevo o poema de acordo com isso aí que você disse.&nbsp;</p>
<p>— Mas quem é Jacqueline? — perguntei.</p>
<p>— Jacqueline Paganini, — disse Desidério.</p>
<p>— Da tevê? — exclamei, incrédulo.</p>
<p>— A própria, — disse Desidério. — Telefonou me convidando pra ir no programa dela hoje à noite falar de poesia. E acho que ela me dá ponto. Olha o que estou dizendo: seu amigo ainda vai acabar comendo essa musa televisiva.</p>
<p>Jacqueline Paganini é um fenômeno da televisão local. A porra da mulher tem trinta anos, parece que tem vinte, é linda pra cacete, desimpedida, desembaraçada, e tem o dom de sorrir o sorriso mais bonito de Vitória. Todos os homens (e quem sabe algumas mulheres também) que comparecem ao seu programa fatalmente acabam por cantá-la até mesmo diante das câmeras. Não será Miguel Desidério que fará <span id="GARI_RP27V">diferente.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP27" title="Pode-se dizer que, no caso da pluriisotopia, uma figura única inicial dá lugar a desenvolvimentos de significação superpostos num só discurso."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a></p>
<p>— Não esquece de dar seu livro a ela, — recomendei.</p>
<p>— Já dei, — disse ele. — Já fui no programa dela uma vez. Agora vou atacar de poema personalizado. E mais: pretendo recitar o poema com o programa no ar.</p>
<p>Aí Desidério virou-se pro dono do boteco e disse:</p>
<p>— Quanto é que deu?</p>
<p>— Três contos, — disse o homem.</p>
<p>— Tem três contos aí? — perguntou a mim.</p>
<p>— Não tem dinheiro não? — repliquei.</p>
<p>— Só uma nota de cem, — disse ele. E, pro dono do bar: — O senhor troca cem?</p>
<p>— Cem contos? — disse o homem. — Nem sei o que que é isso.</p>
<p>— Paga aí pra mim, cara, — disse Desidério. — Você tá com muito. Acabou de receber.</p>
<p>Paguei o lanche de Desidério, em respeito ao seu talento como poeta. Despedimo-nos, cada qual ia pra um canto. Lá se foi ele de volta ao estúdio onde trabalha, lá vim eu pra avenida Vitória a fim de pegar um ônibus. Essa decisão estava tomada. Só não sabia se pegava um ônibus pra casa ou pro centro. Sim. Rever um de meus editores deu vontade de rever o <span id="GARI_RP28V">outro.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP28" title="Guardadas as devidas proporções, a configuração discursiva corresponde, no quadro do discurso, ao papel temático, como o lexema corresponde ao semema no quadro do enunciado."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a> Tive saudades do Sr. Eylau e, sobretudo, de Dona Mônica. Tive saudades da doce Fúlvia, até porque estava trabalhando num poema de amor endereçado a ela (também tenho esse direito). Tive saudades do Edifício Pongal. Saudades tive do centro da cidade às quatro e meia da tarde. Passava nesse exato momento diante de um telefone público, que como os há espalhados pela cidade toda: um exército de caça-níqueis. Tinha um cartão telefônico. Liguei pra Agência Ajax. Atendeu, como esperado, a secretária da agência.</p>
<p>— Dona Mônica, boa tarde, — disse eu, — e diga-me depressa, que meu cartão só tem três unidades, se o Sr. Eylau pode me receber ainda hoje.</p>
<p>— Ele tem um compromisso às quatro, — respondeu ela. — Vou agendar você às cinco. Pode ser?</p>
<p>— Estou indo pra aí, — disse eu.</p>
<p>— Está cedo, — disse ela. — São dez pras quatro.</p>
<p>— Estou com saudades da Agência Ajax, — disse eu, e desliguei.</p>
<p>Peguei um ônibus pra cidade na avenida Vitória. Aproveitei a viagem pra fazer, na cabeça, mais uma estrofe do poema pra doce Fúlvia. Embora seja eu quem o diga e não a Dra. Álvara Fragosa, trata-se de um projeto ambicioso e revolucionário, uma versão altamente original e pós-moderna de poema alfabético, bem distante, é claro, dos poemas abecedários medievais e dos abecês da poesia popular. O elemento alfabético do poema se situa na última sílaba do primeiro verso de cada estrofe, e se caracteriza por um monossílabo em á. Eis a estrofe referente à letra J:</p>
<p>Te quero, Fúlvia, já!<br />
Te quero tanto como<br />
não quero operar as adenóides<br />
nem as amígdalas, mas,<br />
se for preciso pra cheirar melhor o teu cangote,<br />
pra engolir melhor a tua baba de moça,<br />
que venham, cortantes, afiados, mais que já,<br />
as abençoadas pinças e os redentores bisturis.</p>
<p>Saltei na rua Osório. No elevador subi junto com dois rábulas engravatados que, por coincidência, iam também pro quarto andar, ou seja, por coincidência tinham algum processo a tratar com o patrão da doce Fúlvia. Os dois conversavam não como se eu nem estivesse ali mas sim como se, estando ou não estando, tanto <span id="GARI_RP29V">fizesse.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP29" title="O investimento semântico é realizado pela seleção, operada pelos papéis atuacionais, papéis temáticos que, para realizar suas virtualidades, exploram o plano lexemático da linguagem e se manifestam sob a forma de figuras que se prolongam em configurações discursivas."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a> Um deles disse ao outro:</p>
<p>— Hoje não tem jeito: vou ter de comer a minha mulher.&nbsp;</p>
<p>— Que que houve? — perguntou o outro.&nbsp;</p>
<p>— É o aniversário da filha da puta, — disse o primeiro.</p>
<p>Saltamos os três no quarto andar. Passei à frente deles e patinei em direção à esquina que, uma vez dobrada, deixava a gente de frente pra porta da Agência Ajax. Bati à porta com os nós dos dedos, trêmulo de saudade. Ah, boa e velha agência Ajax. Ah, bom e velho Porfírio Eylau. Ah, boa e gostosa Dona Mônica.</p>
<p>Feche-se o intercapítulo. O próximo — promessa de narrador — há de abrir-se-á ao abrir-se, pelas mãos de fada de Dona Mônica, a sisuda porta da Agência <span id="GARI_RP30V">Ajax.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP30" title="O Pequeno Polegar é, enquanto ator, ao mesmo tempo sujeito-herói e objeto de consumação pelo Bicho Papão, fornecedor este, por fim, de toda a sua família."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a></p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="GARI_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Professora adjunta do Departamento de Teoria Literária da Ufes.</div>
<div id="GARI_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Cf. &#8220;Vale de lágrimas&#8221;, in Mickey, revista mensal de Walt Disney, n. 13, outubro de 1953, p. 2, São Paulo: Editora Abril. Cite-se a fala de Minnie: &#8220;Obrigada, Mickey! Foi uma noite maravilhosa! O melhor choro de minha vida!&#8221;.</div>
<div id="GARI_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Que lhe custou — o jantar, não a defesa — a bagatela de quatrocentos e quinze reais e trinta e oito centavos.</div>
<div id="GARI_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Talvez um descendente direto do histórico padre do mesmo nome.</div>
<div id="GARI_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Ver exemplos mais adiante.</div>
<div id="GARI_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Calamity Jane, 1953, produção da Warner Brothers, com Doris Day e Howard Keel nos papéis principais, direção de David Butler e trilha sonora de Sammy Fain e Paul Francis Webster.</div>
<div id="GARI_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Metaforicamente falando, é claro, porque o nosso Barrica babava-se todo é por ninfeta, e não consta que exista em lugar nenhum, nem mesmo em Gotthaab, na Groenlândia, uma secretária de cultura aquém dos quarenta. Aliás, foi também metaforicamente que Barrica, uma vez, contrariado em seus interesses pecuniários por uma dessas secretárias, uma senhora de quase sessent&#8217;anos, deixou escapar em público sua insatisfação dizendo: Eu vou foder com essa mulher! Isso porque tinha intenção de botar a boca no trombone da imprensa contra a senhora secretária. Vai logo então uma má língua, com a melhor das intenções, repetir as palavras de Djalma à secretária, que, surpresa, exclamou: Mas esse rapaz não sabe que eu sou casada?</div>
<div id="GARI_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;No que se assemelham àqueles candidatos que, nas eleições, só recebem um voto.</div>
<div id="GARI_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;A vasta maioria.</div>
<div id="GARI_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Djalma Smee fez um curso de seis meses na Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, e uma de suas aquisições no Rio foi essa concordância verbal tipicamente carioca — outra foi a esposa, uma loura platinada do Leme que o ajuda a manter até hoje essa concordância.</div>
<div id="GARI_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Os leitores relevem o merchandising em benefício próprio.</div>
<div id="GARI_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;É muito tênue a diferença entre um caso e outro. Na Vitória dos anos trinta, por exemplo, uma certa Velha Chica passava por sofrer de ascite quando o que a afligia era na verdade uma gravidez eterna (cf. Cantáridas e outros poemas fesceninos, de Paulo Vellozo et alii, poemas LI, LXII e LXVII e respectivos comentários às p. 234, 238 e 240).</div>
<div id="GARI_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Na verdade um boné propedêutico pra proteger do sol o couro — no seu caso impropriamente chamado — cabeludo.</div>
<div id="GARI_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;De onde terá ele tirado essa idéia?</div>
<div id="GARI_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;Djalma arrematou essas cadeiras, bem barato, na loja de móveis do Rabinowitz, onde eram vendidas como pontas de estoque.</div>
<div id="GARI_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;Ou seja, pra voltar ao mesmo ponto?</div>
<div id="GARI_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se de texto bilíngüe (polonês e português) de quatro poemas de Ludmila Szczecinska, presidente da Academia de Letras de Czestochowa, traduzidos e comentados por Mieczyslaw Lelewel.</div>
<div id="GARI_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;A obra incerta, de Fernando Achiamé, apresentação de Reinaldo Santos Neves, Vitória: Florecultura, 2000.</div>
<div id="GARI_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Cupim, de Miguel Desidério, apresentação de Alice B. Tocas, Vitória: Florecultura, 2ª edição, 2001.</div>
<div id="GARI_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;Cf. capítulo 13 da primeira parte de Dois graus a leste, três graus a oeste.</div>
<div id="GARI_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;Ou talvez algo mais que a mão.</div>
<div id="GARI_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;Colega da Dra. Álvara no Departamento de Teoria Literária da Ufes.</div>
<div id="GARI_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;A natureza das poses depende da modelo. As poses da moça Hipoteneuza caem na categoria (pra usar a nomenclatura do próprio artista) pornô naïf.</div>
<div id="GARI_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;O investimento moralizante não é, contudo, nem necessário nem suficientemente geral: ele se vê amiúde substituído por um investimento estetizante, por exemplo, ou distribuído não apenas pelas duas dêixis opostas, mas por termos mais numerosos do quadrado semiótico.</div>
<div id="GARI_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;O problema da veridicção ultrapassa sobremaneira o quadro da estrutura atuacional.</div>
<div id="GARI_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;O lexema é uma organização sêmica virtual que, com raras exceções (quando seja mono-semêmico), quase nunca se realiza, tal como realmente é, no discurso manifesto.</div>
<div id="GARI_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Pode-se dizer que, no caso da pluriisotopia, uma figura única inicial dá lugar a desenvolvimentos de significação superpostos num só discurso.</div>
<div id="GARI_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;Guardadas as devidas proporções, a configuração discursiva corresponde, no quadro do discurso, ao papel temático, como o lexema corresponde ao semema no quadro do enunciado.</div>
<div id="GARI_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;O investimento semântico é realizado pela seleção, operada pelos papéis atuacionais, papéis temáticos que, para realizar suas virtualidades, exploram o plano lexemático da linguagem e se manifestam sob a forma de figuras que se prolongam em configurações discursivas.</div>
<div id="GARI_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/#GARI_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;O Pequeno Polegar é, enquanto ator, ao mesmo tempo sujeito-herói e objeto de consumação pelo Bicho Papão, fornecedor este, por fim, de toda a sua família.</div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/vi-de-adenoides-e-amigdalas/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; VI. De adenóides e amígdalas</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; 1. A história inconfessável: Fumaça</title>
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		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>— E tem tempo que você gosta de jazz? — pergunta o Velho à moça de boina. Cenário é uma pizzaria do bairro de Jardim Camburi, na franja setentrional da mui leal cidade de Nossa Senhora da Vitória, metrópole-mor e grã-capital do egrégio Estado do Espírito Santo. O salão é amplo no sentido longitudinal: um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
— E tem tempo que você gosta de jazz? — pergunta o Velho à moça de boina.</p>
<p>Cenário é uma pizzaria do bairro de Jardim Camburi, na franja setentrional da mui leal cidade de Nossa Senhora da Vitória, metrópole-mor e grã-capital do egrégio Estado do Espírito Santo. O salão é amplo no sentido longitudinal: um passadiço mal iluminado que se estende por dir-se-íveis léguas e mais léguas a fora até a longínqua, quase inacessível, cozinha. Se estivéssemos na Europa, onde fronteiras entre diferentes nações cortam, às vezes, pelo meio, um dos cômodos de uma casa, conferindo a ela uma indesejada dupla nacionalidade, poderia acontecer, se na Europa estivéssemos, de comerem os fregueses aqui na Bélgica a pizza preparada ali na Holanda. Mas não estamos na Europa, estamos, pro que der e vier, no Brasil, e o salão da pizzaria, embora extenso a perder de vista, não passa disso (ah, amigo Alfred, eis aí mais uma vez a tua perniciosa influência!), ou seja, não passa de um mega-refeitório, e qualquer distração pode levar o freguês a imaginar-se sentado pra comer em uma caserna ou em um mosteiro.</p>
<p>Diga-se de passagem que nem se deram os proprietários por satisfeitos com os vastos acres de chãs e planas estepes de que dispõem aqui embaixo para acomodar as esperadas hordas de fregueses famintos e pagantes. Não. Na impossibilidade de estender o recinto da pizzaria, para oeste, até o meridiano de Tordesilhas, contornaram a restrição geográfica seguindo a bem sucedida estratégia das incorporadoras e estenderam-no — o recinto — para cima. Para cima, sim, pois a um canto do recinto um lance de degraus — compondo uma escadaria sem corrimão — conduz ao tão quão vasto convés superior que, como nos Titanics da vida, destina-se a uma classe restrita e diferenciada de fregueses: neste caso, aos não fumantes.</p>
<p>Não se sabe quanto a lá em cima, mas quanto a aqui embaixo não foi feito nem o menor esforço pra se cometer uma decoração do ambiente. As paredes tiritam em sua gélida nudez, e as mesas e as cadeiras ocupam maciçamente o salão, a ponto de inviabilizar a presença de qualquer corpo estranho que ali pudesse se imiscuir com tímida veleidade decorativa, como, digamos, uma pobre palmeirinha chinfrim enfiada num vaso anêmico de cerâmica. Mesmo sobre as mesas o que há são objetos congenitamente utilitários: saleiros, paliteiros, frascos de ketchup, de mostarda, de azeite, e um cinzeiro de vidro que já recolheu em seu seio várias gerações de guimbas de tudo quanto é marca de cigarro.</p>
<p>É incalculável, claro, no salão, o número das mesas e das cadeiras, e como tal impossível de ser calculado a não ser pelos garçons e por Beremis Samir, o homem que calculava. Mas quem disse que isso importa? Porque, dentre todas essas mesas — em sua maior parte esperando, entediadas como putas, os seus fregueses —, a mesa doze é a única que se pode chamar impunemente de umbigo da crônica. Definida em termos meramente geométricos, essa mesa nada mais não é que um quadrilátero um tanto vulgar, como as demais todas; difere delas, porém, em termos puramente metafóricos, que é o que realmente importa em literatura e adjacências, porque adotou esta noite a cidadania de triângulo, naturalizou-se triângulo, e triângulo escaleno, que é aquele cujos ângulos são todos entre si desiguais. A moça de boina, interpelada acima à queima-roupa pelo Velho, chama-se Maria da Penha Gotti. À sua esquerda, lado do coração, vê-se o namorado dela, um chato profissional histórico chamado José Garibaldi Magalhães. À sua direita, lado da razão, vêem-se três pessoas numa só: o sujeito que ali está, a quem o texto se refere, inexorável, como o Velho, tem uma trindade de funções vitais: é presidente do Clube das Terças-Feiras, amigo de Garibaldi e apaixonado por Maria da Penha. Pronto. Está posta a mesa pro primeiro capítulo à vera da história inconfessável. Vamos em frente, que temos quatro anos de atraso narrativo pra recuperar.</p>
<p>Maria da Penha Gotti pensa duas vezes e duas vezes sopra pro lado miasmas de fumaça do cigarro antes de responder à pergunta impertinente do Velho: se tem tempo que ela gosta de jazz.</p>
<p>— Estou aprendendo a gostar de ouvir, — ela diz, modesta e precisa, e tritura, no cinzeiro de vidro, o toco do cigarro, apagando o último sopro de vida que ainda fulgia nele. — Antes de conhecer Garibaldi eu gostava de ver.</p>
<p>— De ver jazz? — O Velho ergue um sobrolho.</p>
<p>O Velho é um homem de cinqüenta e um pra cinqüenta e dois anos. Não é, dirá alguém, idade tão provecta assim que justifique o epíteto que, inexorável, lhe impõe o Texto. Justificam-no, porém, a barba alvacenta que lhe cobre o baixo ventre do rosto — uma barba velhaca que embranqueceu antes do tempo, antes dos pêlos cranianos e pubianos — e a alma borolenta que lhe governa os pensamentos, as palavras e os atos, em sua maioria, é justo que se diga, bisonhos e mesquinhos.</p>
<p>— Sempre me amarrei, — Maria da Penha explica, — em fotografia de jazz, sobretudo no trabalho de fotógrafos como William Gottlieb, Ted Williams, Bob Parent e Herman Leonard. — Os nomes ela pronuncia à latina, adicionando sílabas onde caibam: Gottiliebi, Parenti, Leonardi. — Eles descobriram a beleza plástica do mundo do jazz e passaram a vida à caça de imagens desse mundo.</p>
<p>A mesa ao lado acaba de ser ocupada por um grupo de três mulheres e um homem. A mesa justamente ao lado; estranho o instinto gregário dos seres humanos, que os leva, como aqui, em que a oferta de mesas se faz às grosas, a buscar uma estreita contigüidade com seus semelhantes, pra não deixar passar sem ser colhida a ocasião oportuna de importuná-los ou de serem importunados por eles.</p>
<p>— Penha é fotógrafa, — Garibaldi esclarece.</p>
<p>— Ah! — exclama o Velho, como se isso explicasse tudo que é mistério na moça de boina. Explica, pelo menos, a máquina fotográfica com que Maria da Penha disparou em cheio contra os dois varões da mesa, há qualquer coisa de cinco minutos atrás, nos idos de dezembro de 1998: Maria da Penha tem porte de arma. — Fotógrafa profissional, eu presumo?</p>
<p>— Sim, — diz ela. — Faço fotos de arte, de moda, books de manequim, casamentos, batizados, aniversários, formaturas, recepções, reproduções, o que der e vier eu faço, em p&amp;b ou a cores. Só não faço fotos aéreas porque enjôo no avião. É. Você acertou. Sou profissional, sim.</p>
<p>— Só que às vezes nem tanto, — diz Garibaldi. — Foi fazer um casamento semana passada numa igreja. Tirou duzentas fotos. Fotos da noiva entrando na igreja, fotos de damas e daminhas de honra, fotos da horda de convidados, fotos do padre, fotos dos pais do noivo e da noiva, fotos de padrinhos e madrinhas, fotos de bênção das alianças, fotos de noivo metendo aliança na noiva e vice-versa, fotos do beijo nupcial, fotos de noivo e noiva saindo da igreja, tirou foto de tudo que estava lá dando sopa. Só depois disso tudo é que descobriu que—</p>
<p>— Que não tinha filme na máquina, — antecipa-se o Velho.</p>
<p>— Não, — diz Maria da Penha. — Que era o casamento errado.</p>
<p>— Ou seja, — acrescenta Garibaldi, com um sorriso sarcástico: — Tirou fotos da noiva errada, do noivo errado, das damas e daminhas erradas, dos convidados errados, do padre errado, dos pais dos noivos errados, dos padrinhos e madrinhas errados, das alianças erradas, do beijo nupcial errado e da igreja errada. Em duzentas fotos, não foi capaz de tirar uma só foto que prestasse.</p>
<p>— Por Tupã! — exclamou o Velho: uma de suas exclamações favoritas em circunstâncias de espanto ou surpresa. — Mas como é que—?</p>
<p>— Fui na igreja da Praia do Canto, — diz Maria da Penha, — e o casamento era na igreja da Praia do Suá. Troquei São Pedro por Santa Rita.</p>
<p>— Por essa e por outras, — diz Garibaldi, — é que chamam Santa Rita de Santa Rita dos Impossíveis.</p>
<p>Garçom chega trazendo uma bandeja com bebidas. Nada estranhe o leitor atento e memorioso de quatro anos atrás: foi feito, sim, pela mesa doze, um pedido de bebidas, só que o narrador anterior deixou de registrá-lo no texto do capítulo 20 da primeira parte desta série, talvez por julgá-lo implícito, talvez por pura imperícia narrativa, talvez porque Garibaldi, heróico herói desta epopéia, não tenha pedido bebida alguma. Garçom põe sobre a mesa, diante de Maria da Penha, um cálice de martini com uma cereja empalada num palito; diante do Velho, um copo de Malzbier. Ela, com dedos prestes, faz a devida troca e dá a cada qual o que é de cada qual. Garçom se desculpa e vira-se pra atender os fregueses da mesa ao lado, que estão discutindo quais dos trinta e seis modelos de pizza devem pedir pra melhor satisfazerem seu quarteto de paladares e estômagos.</p>
<p>— Bem que eu percebi, — continua Maria da Penha, — que os outros fotógrafos olhavam pra mim e davam um risinho cínico, mas só depois é que eu fui entender por quê.</p>
<p>Aí ela ergue o copo e permite-se o consolo de um sumo gole de cerveja.</p>
<p>— O casamento era em Meca, ela foi em Ceca, — diz Garibaldi. E, raspando o sarcasmo do fundo do tacho: — Por essa e por outras é que eu chamo nossa amiga aqui presente de Maria da Penha dos Impossíveis.</p>
<p>— Garibaldi, — diz o Velho, saboreando aperitivamente sua cereja no palito, — por que tripudiar tanto assim sobre o equívoco de Maria da Penha? Estou vendo que você e ela têm isso em comum: confundir as coisas. Só que cada um à sua maneira. Você sabe o lugar onde tem de ir mas não sabe a hora, e Maria da Penha sabe a hora mas não sabe o lugar. O que me remete a uma coisa que li uma vez: que o corvo sabe o lugar onde deve encontrar a presa mas não sabe a hora, e a águia sabe a hora mas não sabe o lugar. Ou seja, nisso você é o corvo e Maria da Penha é a águia.</p>
<p>— Onde você leu essa história? — diz a águia, ligeiramente admirada da analogia que o Velho tirou do fosso da cartola.</p>
<p>— Está no velho Giraldus Cambrensis, — diz o Velho, — um escritor do século XII, também conhecido como Gerald of Wales.</p>
<p>— Contemporâneo seu, — diz o corvo.</p>
<p>O Velho deixa passar a maledicência sem nem um peteleco de riposta. Sabe, o finório, que a citação de Giraldus Cambrensis, também conhecido como Gerald of Wales, está furos acima do sarcasmo de botequim de Garibaldi. Tanto que retoma com serena majestade a estrada real da conversa com Maria da Penha:</p>
<p>— Quer dizer então que você chegou ao jazz por via da fotografia, — diz ele.</p>
<p>— Me interesso muito por fotos de trabalho, — ela diz, brincando entre os dedos com um cigarro que subtraiu do maço, — e música é trabalho.</p>
<p>— Nem é à toa, — diz Garibaldi, — que os saxofonistas de jazz chamam o instrumento de ax, ou seja, machado.</p>
<p>— São axofonistas, — diz o Velho, querendo mostrar espírito, e trata de bebericar o seu martini.</p>
<p>Garibaldi assume o papel, de que tanto gosta, de mestre-escola de jazz:</p>
<p>— A origem da metáfora deve estar na semelhança entre as palavras ax e sax em inglês, embora o termo já se tenha estendido das palhetas aos metais. Mas é uma metáfora feliz. Todo músico de jazz é um lenhador que desbasta o tronco de uma melodia até o miolo, revelando nódulos e mais nódulos de variações até que, se for um bom lenhador, derruba a melodia com tudo no chão: Madeira!</p>
<p>Pessoal da mesa ao lado reduziu suas opções a nove sabores. Meta é pedir duas pizzas gigantes de quatro sabores diferentes. Concordam, de modo democrático, em decidir a parada no voto. Que cada eleitor vote em quatro opções de sabor, das quais as mais votadas serão chamadas a integrar as duas pizzas mistas pra consumo do quarteto.</p>
<p>— Isso que você disse é pura poesia, Garibaldi, — diz o Velho.</p>
<p>— O jazz faz de mim um poeta a qualquer hora, — diz Garibaldi.</p>
<p>Hoje, porém, a atenção do Velho só quer pertencer a Maria da Penha:</p>
<p>— Música é trabalho, — diz ele, fazendo suas as palavras dela e devolvendo-as à autora como um mote pra ela glosar.</p>
<p>— É, — diz ela. E pontua sua afirmação com os dois dedos fumantes, entre os quais continua embutido o cigarro ainda ileso. — Mas, embora a fotografia de jazz me interesse muito como um todo, porque música é trabalho, quando eu olho uma determinada foto eu vou logo fazendo uma inspeção pra ver se ela contém os componentes estéticos que, pelo menos pra mim, são fundamentais nesse tipo de foto.</p>
<p>Diante da postura professoral de Maria da Penha, o Velho faz um trejeito de lábio e enfia o olho em Garibaldi, com olhar de quem está pensando: Isso pega.</p>
<p>— Esses componentes são quatro, — continua ela. — Em primeiro lugar, a data. Pra eu realmente gostar de uma foto de jazz, essa foto não pode ser de data posterior a 1960.</p>
<p>— Que coincidência, — diz o Velho. — Garibaldi também prefere o jazz produzido até 1960. Pelo menos foi o que eu li nas crônicas da tal série Dois graus a leste, três graus a oeste.</p>
<p>Garibaldi não se compromete. A tirada do Velho, ele próprio antigo narrador das crônicas da tal série, hoje destronado a bem da literatura, cai no vazio.</p>
<p>— Garibaldi chegou a essa preferência, — diz Maria da Penha, — por via do ouvido; eu cheguei por via do olhar. Gosto do ambiente do jazz das décadas de 40 e 50. Gosto de ver os músicos tocando de terno e gravata. O traje em si já me agrada, e eu chego a viajar no exame do corte e do padrão do terno, do desenho da gravata, do número e do formato dos botões do paletó, e de outros detalhes mais. Além disso, gosto do contraste entre o traje e o instrumento, entre o traje e os movimentos do corpo. Gosto também de imaginar que, por baixo do traje convencional, exigido pela etiqueta da época, está a alma endiabrada de um transgressor. Ali está um lobo solitário, um aventureiro, um fora-da-lei, um soldado da fortuna. Ali está um cidadão da noite e da sarjeta, irmão de outros tantos fodidos e mal pagos que nem ele: traficantes, cafetões, prostitutas, alcoólatras e bandidos. O típico músico de jazz, nessa época, era um sujeito que vivia na corda bamba, que não sabia se teria onde cair morto no dia seguinte. Isso me arrebata. Você olha a foto do cavalheiro de terno e sabe que ali está um sujeito que vive a perigo, que vive de roldão, que provavelmente não vai chegar à casa dos quarenta, e que não está nem aí pra isso, porque ainda tem tempo pro próximo drinque, pro próximo pico, pra próxima foda e, principalmente, pro próximo solo. Que que ele quer mais da vida? Afinal, se a vida é mesmo pra ser destruída, vamos destruí-la com o máximo de arte e competência.</p>
<p>Vê-se, visivelmente, que o Velho está impressionado com a efusão verbal de Maria da Penha; só que ao ouvir, na boca da moça, as palavras fodido e, logo depois, foda, retraiu-se como se tivesse levado, a cada palavra, um beliscão na bunda. Quanto a Maria da Penha, ela dá por encerrado o parágrafo de ouro de sua peroração pendurando entre os lábios o cigarro que ainda não teve tento pra acender.</p>
<p>— Penha está escrevendo, — diz Garibaldi, — um ensaio sobre a fotografia de jazz. Isso que você ouviu é um trecho do ensaio.</p>
<p>— Se é um ensaio, — diz o Velho, — talvez fosse o caso de substituir uma ou outra palavra excessivamente coloquial, como, por exemplo, hã, f-o-d-a.</p>
<p>— Foda? — diz Maria da Penha, e o cigarro, apenso ao lábio por um fio de saliva, quase lhe cai da boca. — Não precisa. O ensaio é pra publicar numa coletânea da Bico-de-Lacre. Conhece? É uma editora de ponta. Lá não fazem esse tipo de censura.</p>
<p>— Sendo assim, — diz o Velho, não querendo correr o risco de parecer moralista — já não está mais aqui quem falou. Queira, por favor, continuar a sua tese.</p>
<p>Os vizinhos de mesa realizaram sua eleição: saíram vencedoras as pizzas de atum, de cinco queijos, de frango e de nozes, com três, três, dois, dois votos respectivamente. Nenhum dos sabores teve unanimidade.</p>
<p>— Em segundo lugar, — diz Maria da Penha, tirando da boca o cigarro, — a foto tem de ser em p&amp;b. Pra mim, aliás, qualquer foto de arte tem de ser em p&amp;b, quanto mais a foto de um músico de jazz. O universo de jazz, na minha concepção estética, é essencialmente noir e dark. É noturno, é escuro, é sombrio. Só pode ser retratado em p&amp;b. Fotografá-lo em cor seria profanar a sua própria mística. Não concorda?</p>
<p>— Concordo, — diz o Velho.</p>
<p>Maria da Penha toma outro gole de cerveja antes de prosseguir:</p>
<p>— Em terceiro lugar, quero ver foto de músico fazendo música. Quero ver músico tocando no seu habitat natural, que é o night-club fechado, acanhado, abafado, com pouca luz e muita fumaça, e aí temos exatamente o quarto componente estético: a fumaça. Se eu tiver que escolher um símbolo pra fotografia de jazz, escolho a fumaça dos cigarros. — Agita o cigarro diante dos olhos do Velho, como que achando que ele não sabe que diabo é isso. — Tem tudo a ver. O cigarro é, à sua maneira, um instrumento de sopro, como o sax e o trompete, só que, através do seu parceiro, o fumante, o cigarro em vez de som produz fumaça. Mas na fotografia o sax, o trompete e os outros instrumentos também não produzem som. Aí, então, cabe à fumaça do cigarro representar o som da música. Sim, sim, é isso mesmo, a fumaça é a própria imagem da música. Afinal, tanto a fumaça como a música se esvaem no ar.</p>
<p>Aí, enfim, Maria da Penha acende o cigarro e se rende ao prazer da tragada que por tanto tempo protelou.</p>
<p>— Mas eu acho um contra-senso, — diz o Velho, — um cigarro na mão, por exemplo, de um saxofonista, pelo que sugere de prejuízo pros pulmões.</p>
<p>— Ah, mas a mim me agrada muito isso que você chama de contra-senso, — diz Maria da Penha, com um brilho mórbido no olhar azul azul, e lança pro alto uma golfada de fumaça mais leve que o ar. Uma das mulheres da mesa ao lado, uma loura repolhuda, olha pra ela com cara feia e tenta enxotar com a mão a fumaça como quem enxota uma nuvem de mosquitos.</p>
<p>— Recapitulando, — diz o Velho, — uma foto de jazz, pra você gostar dela, tem de ser dos anos 40 ou 50, tem de ser em p&amp;b, tem de ter músico tocando, e tem de ter fumaça como marca da própria qualidade etérea e efêmera da música. É isso?</p>
<p>— É, — diz ela, — mas é lógico que tem de ter também o quinto componente, que é o artístico. Gosto de certas fotos só pelo componente artístico, como a foto que Francine Winham fez de John Coltrane tocando sax-soprano. Ela tirou a foto de frente, de modo que a perspectiva é quase nula, e a abertura do instrumento parece a boca do músico. Ou seja, a foto sugere perfeitamente o que eu chamo no meu ensaio de conjunção anatômica de músico e instrumento. Dá até pra achar que é possível distinguir, lá dentro, as amígdalas de Coltrane.</p>
<p>Outra baforada de Maria da Penha, outro olhar de censura por parte da loura repolhuda.</p>
<p>— Um fotógrafo que me seduz principalmente pelo componente artístico, — diz Maria da Penha, — é Terry Cryer. A impressão é que ele é como aqueles fotógrafos de pássaros, que ficam o dia inteiro esperando o momento da foto magistral. Já vi grandes fotos dele. Tem uma de Zoot Sims com as mãos em concha diante da boca, acendendo um cigarro. Tem uma de Frank Wess tocando flauta com um cigarro enxerido entre os dedos. Tem uma de Coleman Hawkins de perfil, com a mão espalmada sobre o lado do rosto. Tem outra de Hawkins, de costas, fantástica, com Sonny Stitt ao lado fazendo bico, prestes a dar um beijo na cabeça de Hawkins. São fotos maravilhosas.</p>
<p>— De onde é que você me desentranha essas fotos? — pergunta o Velho, e comemora com um gole de martini tanto a pergunta como o dativo ético nela inserida em itálico.</p>
<p>— Da internet, — responde Maria da Penha, e com um leve toque do cigarro na borda do cinzeiro faz cair ali dentro uma tripa de cinzas. — Às vezes eu e Garibaldi passamos horas na internet só abrindo e fechando fotos de jazz, e gravando aquelas que a gente gosta mais.</p>
<p>O Velho não parece receber à vontade uma informação que atesta o bem estar doméstico de Garibaldi e Maria da Penha. Trata logo de fugir do assunto:</p>
<p>— Me fala de outros fotógrafos de jazz que você gosta.</p>
<p>— William Gottlieb, — diz ela, — é um dos pioneiros, mas o que me desagrada na maioria das fotos dele é que são fotos feitas em casa ou em estúdio, e o que estraga essas fotos, pra mim, é a pose tanto do músico como do instrumento. A pose é dura, rígida, quase cadavérica, e reduz músico e instrumento a objetos sem vida nem alma. Há exceções, é claro. Gottlieb tirou uma foto de Dizzy Gillespie na esquina da rua 52, a rua do jazz nos anos 40. Gillespie está ao pé do poste que mostra a placa da rua, e está fazendo uma pose, mas é uma pose vivaz, que estabelece uma relação dinâmica entre o homem e o poste e uma relação semântica entre o músico e tudo que a rua 52 significava na época. Pois nessa rua ficava o Minton&#8217;s, que foi o berço do bop.</p>
<p>— E não dá pra esquecer, — diz Garibaldi, — que Gottlieb nessa mesma época fotografou Thelonious Monk no Minton&#8217;s, quando Monk ainda era praticamente uma quantidade desconhecida no jazz.</p>
<p>— Amo aquela foto de Monk de boina na cabeça, — diz a moça de boina na cabeça.</p>
<p>— Gottlieb devia ter fotografado você também, — diz o Velho.</p>
<p>— Penha ainda não era nascida, — diz Garibaldi.</p>
<p>Maria da Penha toma um gole de cerveja, dá, logo de per cima, uma tragada no cigarro e por fim emite um sopro de fumaça úmida de álcool.</p>
<p>— Outra coisa que me desagrada em Gottlieb, — diz ela, — é que ele gostava de flagrar os músicos fora do ambiente musical.</p>
<p>— O pior exemplo disso, — diz Garibaldi, — é aquela seqüência de fotos em que aparecem alguns músicos da orquestra de Stan Kenton em campo aberto jogando baseball, e logo o quê, o jogo mais imbecil jamais inventado pelo homem. Até June Christy, a cantora da orquestra, aparece numa foto empunhando um taco. É verdade que Gottlieb também fotografou a orquestra tocando, e eu gosto muito de uma foto que mostra Art Pepper de perfil, em pé, em pleno solo, com a platéia lá embaixo como uma enseada de gente.</p>
<p>Saxofonista Art Pepper, diga-se de passagem pela primeira vez na segunda parte desta série, é o ídolo maior de Garibaldi no jazz.</p>
<p>— Também gosto dessa foto, — diz Maria da Penha, — embora falte fumaça. Gosto muito quando a foto mostra o músico e seu público. Principalmente se o local é um night-club apertado, com as mesas bem junto dos músicos, de modo que dá pra ver os homens e as mulheres que estão lá, dá pra distinguir rostos, mãos, roupas, copos, taças, garrafas, saleiros, maços de cigarro, cinzeiros, talheres, restos de comida nos pratos, e até os cartões em cima das mesas, com a palavra reserved escrita neles. Você vê as duas dimensões econômicas da música: a oferta e a procura.</p>
<p>Maria da Penha faz uma pausa pra nova tragada. O Velho não quer silêncio da parte dela:</p>
<p>— Fala mais, moça, — diz ele. — Estou ouvindo e aprendendo.</p>
<p>— Bom, dois dos melhores fotógrafos de jazz — diz ela, — são, sem dúvida, Herman Leonard e William Claxton. Entre os dois, eu prefiro Leonard. As fotos dele têm mais fumaça. Foi ele que fez aquela foto clássica de Dexter Gordon quando jovem, em que Gordon, que sempre foi um ator, contracena com uma nuvem de fumaça.</p>
<p>— Maria da Penha, — interrompe o Velho, — você não acha Garibaldi parecido com Dexter Gordon não?</p>
<p>— Acho não, — diz ela, soprando mais fumaça pra mesa ao lado.</p>
<p>— Eu também não, — diz Garibaldi.</p>
<p>— Pois eu sempre achei, — diz o Velho, meio ressabiado em sua condição de minoria.</p>
<p>Maria da Penha aspira o que ainda resta de fumo no cigarro, sopra a fumaça pro lado e num golpe digital de misericórdia esmaga o toco no cinzeiro ao lado do toco anterior. A loura repolhuda resolve dar um palpite:</p>
<p>— Não me diga que esse é o último cigarro da noite.</p>
<p>Maria da Penha vira-se pra loura e, logo em seguida, pra Garibaldi:</p>
<p>— Ela está falando comigo? — pergunta, com inocência talvez simulada.</p>
<p>— Que eu saiba, não tem ninguém mais fumando aqui, — a loura responde por Garibaldi.</p>
<p>— Acho que ela está querendo um cigarro, — diz Garibaldi.</p>
<p>— Então sirva-se, — diz Maria da Penha, estendendo o maço na direção da loura.</p>
<p>— Quero fumar porra nenhuma, — diz a loura, rejeitando o maço com repulsa de autêntica antitabagista. — Quero é não ter de respirar tua fumaça a noite toda.</p>
<p>— Então sobe, — retruca Maria da Penha. — Lugar de não fumante é lá em cima. Aqui eu tenho o direito de fumar o tanto de maços que eu quiser sem ninguém me encher a paciência.</p>
<p>Dito isso, ela deu prosseguimento à sua aula:</p>
<p>— Um sujeito chamado Jim Merod escreveu um ensaio sobre a luz e a fumaça na fotografia de Herman Leonard, e analisa a fundo essa foto de Dexter Gordon, a ponto de compará-la com uma variação da Pietà, por causa de vários fatores: a paz eclesiástica do cenário, o sax aninhado no colo de Dexter Gordon, o olhar beatífico voltado pro céu como sinal da satisfação do músico com o seu trabalho&#8230; Ah, pode-se viajar muito nessa foto!</p>
<p>Os fregueses da mesa ao lado, depois de conferenciarem entre si, resolvem bater em retirada pra ambiente menos poluído. Recolhem bolsas, garrafas e copos e tomam rumo da escada. A loura repolhuda ainda lança um olhar de hostilidade sobre Maria da Penha, e rilha entre os dentes uma maldição: Tomara que tu morra de câncer. Maria da Penha recebe o agouro como se nem fosse com ela.</p>
<p>— Já as fotos de William Claxton, — diz ela, — são muito clean. Muito cool. Também não admira. Ele é o fotógrafo do jazz da Costa Oeste, o cool jazz. A proposta dele era mostrar músicos de jazz no ambiente saudável da Califórnia. Nada de suor, nada de fumaça, nada de ambientes fechados e viciados. Ele tirou os músicos da noite e colocou em pleno dia, ao ar livre, nas praias, nas montanhas, nas estradas, e até os carros eram conversíveis abertos. Fez com que os músicos transmitissem uma imagem de saúde e de vida regrada. Como se o jazz da Costa Oeste não tivesse também o suor, a fumaça e a autodestruição do jazz do leste.</p>
<p>Garçom surgiu do nada e estranhou a ausência dos fregueses da outra mesa. A princípio deve ter pensado que fugiram do país sem pagar as bebidas nem esperar as pizzas.</p>
<p>— Subiram, — diz o Velho, vindo em seu socorro.</p>
<p>— Garçom, me traz mais uma, — diz Maria da Penha, mostrando o copo quase vazio.</p>
<p>— Quero mais uma dose de martini, — diz o Velho, audacioso, e, virando o cálice, enxuga-o até o fundilho.</p>
<p>— E o senhor, nada? — garçom pergunta a Garibaldi.</p>
<p>— Só quando a pizza vier, — rebate Garibaldi: — quando e se.</p>
<p>— Já está saindo, senhor, — garçom afirma.</p>
<p>— Uma das poucas fotos de Claxton, — diz Maria da Penha, — em que eu vi alguma fumaça é uma foto de dois bateristas, quem são eles mesmo, Garibaldi?</p>
<p>— Philly Joe Jones e Larance Marable, — diz Garibaldi.</p>
<p>— Seja, — diz Maria da Penha. — Os dois estão sentados no chão, ao lado das peças de uma bateria, olhando pra uma mulher de quem só dá pra ver na foto o braço, apoiado na banqueta do baterista. Entre os dedos ela segura um cigarro aceso que deixa no ar uma nódoa de fumaça. O que eu acho sintomático é que os dois músicos são negros, e isso parece significar que, na cabeça de Claxton, a saúde fotográfica era um monopólio dos músicos brancos.</p>
<p>— Nem tanto, Penha, — diz Garibaldi. — Você está esquecendo, só pra exemplificar, aquela foto que Claxton fez de Chet Baker sentado no chão aos pés do piano de Teddy Charles.</p>
<p>— Não é uma foto que foi tirada de cima? — diz Maria da Penha. — Não me lembro de fumaça naquela foto.</p>
<p>— Não tem fumaça, — diz Garibaldi, — mas sobre o teclado do piano, no canto direito, tem um cinzeiro cheio de guimbas de cigarro dentro.</p>
<p>— É? — diz Maria da Penha, franzindo a testa por via das dúvidas.</p>
<p>— Mas eu, — diz Garibaldi, — que não faço questão de fumaça numa foto de jazz, tenho que reconhecer que Claxton tirou belas fotos de Art Pepper. Era ele que fazia as fotos pras capas dos discos das gravadoras Pacific Jazz e Contemporary, que lançaram os discos de Art Pepper nos anos 50 e 60.</p>
<p>— Todas as fotos que ele fez de Art Pepper são muito clean, — diz Maria da Penha. — Elas salientam o bom mocismo do rapaz, a serenidade, a suavidade, quando a gente sabe que a coisa era bem diferente. O próprio Art Pepper confessou que aquelas fotos dele junto às árvores de um bosque foram tiradas num momento em que ele estava agoniado por falta de heroína.</p>
<p>— Nessa mesma ocasião, — diz Garibaldi, — Claxton tirou a foto mais fabulosa de Art Pepper. Dá pra deduzir que é a mesma ocasião pelas roupas que ele está usando, um paletó de lã por cima de uma camisa quadriculada.</p>
<p>— É a foto da ladeira, — diz Maria da Penha.</p>
<p>— Isso mesmo, — diz Garibaldi. — A foto é tirada do alto de uma ladeira de terra, quase a pique, mostrando lá embaixo uma área residencial meio rural, um subúrbio de Los Angeles em 1956. Pepper está subindo a ladeira, com o sax seguro no vão do braço, e a impressão que dá é que um passo em falso e ele rola ladeira abaixo com sax e tudo. A foto tem um toque de vertigem que sempre foi a marca registrada da vida e da música de Art Pepper, por isso eu tenho que bater palmas pra William Claxton.</p>
<p>Garçom volta com as bebidas. Agora ele aprendeu: vai o copo de Malzbier pra Maria da Penha e pro Velho o cálice de martini com a cereja empalitada.</p>
<p>— Agora, tanto Leonard como Claxton, — diz Maria da Penha, — fizeram algumas fotos que eu tenho especial predileção por elas. Nessas fotos a pessoa do músico não aparece, mas está representada pelo instrumento ou até por outros objetos. São fotos metonímicas.</p>
<p>— Já vi uma foto assim, — diz o Velho. — É uma foto da maleta de Dizzy Gillespie, aberta, mostrando todo o conteúdo.</p>
<p>— Essa foto, — diz Maria da Penha, — foi tirada por um fotógrafo chamado Mephisto.</p>
<p>— Deve ser um capeta dando uma de fotógrafo, — diz Garibaldi. — Ou então é só um veado querendo dar uma de capeta. Mephisto&#8230; Um pseudônimo desses me cheira a coisa de veado. Esse cara não é veado não, Penha?</p>
<p>— Não sei nem quero saber, — replica ela, e toma um gole de cerveja.</p>
<p>— Mas, além do trompete inconfundível de Gillespie, — continua o Velho, — dá pra ver na maleta escovas, estojos, toalhas, e até um caderno de partituras, o famoso Real Book.</p>
<p>— Famoso no pior sentido, — diz Garibaldi. — Lady Embratel conta que, aqui mesmo em Vitória, quando um músico comete erros na exposição de um tema os colegas dizem uns pros outros: Estudou pelo Real Book.</p>
<p>O Velho já traçou a cereja e num só gole ingere metade da dose de martini.</p>
<p>— Tem outras fotos nessa linha, — diz Maria da Penha. — Tem uma de William Claxton, por sinal célebre, que mostra o trompete de Chet Baker repousando sobre o assento do Cadillac conversível dele. É uma das fotos esterilizadas de Claxton. Já Herman Leonard fotografou os sapatos de Duke Ellington e o chapéu de Lester Young, aquele chapéu de feltro de copa chata e de aba virada pra cima, que na foto parece que está suspenso no ar. Também tem uns rabiscos de fumaça na foto, escapando de um cigarro aceso equilibrado no bico de uma garrafa. Uma garrafa fumante, quem diria.</p>
<p>— Pork pie hat, — diz Garibaldi. — É como se chama esse chapéu em inglês. Por isso é que Charles Mingus chamou de &#8220;Goodbye Pork Pie Hat&#8221; o réquiem que compôs em homenagem a Lester Young.</p>
<p>— Belíssimo réquiem, — diz o Velho, que em tudo quer dar palpite. — Ouvi uma versão muito bonita com John Handy no sax-alto. Está no disco Mingus Ah Um.</p>
<p>— Gosto mais, — diz Maria da Penha, — daquela do disco Mingus Mingus Mingus. Tem uma atmosfera fantasmagórica e um solo doído de sax-tenor. Nunca ouvi tanta dor num sax a não ser no solo de Art Pepper em &#8220;Summertime&#8221;.</p>
<p>Parece que ela está aprendendo depressa.</p>
<p>— Também gosto mais dessa versão, — concorda professor Garibaldi. — O solo de tenor é de Booker Ervin. O arranjo é tão lúgubre que os instrumentos soam como carpideiras, e a sensação é que você está num velório. Já a versão com John Handy, sem querer desmerecer o moço, pode até ser usada como acompanhamento pra um strip-tease. Não ouço luto nenhum ali.</p>
<p>— Bom, — o Velho começa a dizer, e acaba ali mesmo onde começou, por falta de argumentos. Pra disfarçar, emborca o cálice de martini e sorve tudo que flutuava ali pintado de vermelho.</p>
<p>— Mas será que ninguém vai me perguntar qual a foto que eu gosto mais? — queixa-se Garibaldi.</p>
<p>— Está bem, Garibaldi, — diz o Velho. — Considere-se perguntado.</p>
<p>— Pois a foto de jazz que eu mais gosto, — diz Garibaldi, — é a foto que Art Kane tirou em agosto de 1958 no Harlem.</p>
<p>— Muito bem lembrado, Garibaldi, — concorda Maria da Penha. — Aquela foto é sensacional.</p>
<p>O Velho está por fora e precisa ser informado a respeito. Garibaldi se encarrega disso com prazer:</p>
<p>— Nunca houve uma foto como essa, nem antes nem depois. Art Kane, que era fotógrafo da revista Esquire, fez espalhar a notícia que em tal dia, às dez horas da manhã, ia estar na rua 126, no Harlem, entre as avenidas Quinta e Madison, pra tirar uma foto de músicos de jazz. Porra, dez horas da manhã é um horário proibitivo pra músicos. Os colegas dele disseram: Não vai aparecer ninguém. Mas apareceu, sim. Apareceram 57 músicos, e Art Kane fez a foto mais histórica do jazz: é um dilúvio de músicos que transborda pelos degraus de um prédio e alaga a calçada até o meio-fio. Tem gente de todos os tipos ali, de todas as idades, de todas as escolas de jazz. Só pra citar os mais conhecidos, Count Basie está ali, e Coleman Hawkins, e Lester Young, e Thelonious Monk, e Charles Mingus, e Dizzy Gillespie, e Roy Eldridge, e Pee Wee Russell, e Sonny Rollins.[ * ] No meio deles tem até um músico misterioso, Bill Crump, que, segundo as poucas informações que existem sobre ele, era um saxofonista de strip-tease que veio de Buffalo pra Nova York à procura de trabalho. Na internet você pode ver a foto de fora a fora mas pode também selecionar grupos de músicos, pra examinar melhor os detalhes. Dizzy Gillespie, palhaço como sempre, está botando a língua de fora. Lester Young, ao contrário, parece que está engolindo a língua. Gerry Mulligan parece um fantasma: branco de dar medo. Count Basie cansou de esperar que a putada se arrumasse pra tirar a foto e sentou no meio-fio ao lado de uns doze pivetes do Harlem. Cara, a foto é do cacete. A idéia foi brilhante e o resultado está à altura da idéia.</p>
<p>— A gente viu também, — diz Maria da Penha, — o documentário de Jean Bach sobre o making of da foto, que Rogério Coimbra emprestou pra gente. Esse documentário, que é de 1995, inclui entrevistas com alguns dos poucos músicos que ainda estavam vivos e alguma filmagem que fizeram no dia, mostrando a chegada dos músicos, os abraços, as conversas, os preparativos. Esse documentário também é fantástico. Chama-se A great day in Harlem.</p>
<p>— Foi realmente um grande dia, — diz Garibaldi. — Os músicos curtiram, os fotógrafos e cinegrafistas curtiram, os pivetes curtiram, e nessa brincadeira produziu-se um documento histórico sem precedentes nem sucedentes.</p>
<p>Garçom chega junto, apodera-se do cálice vazio de martini e pergunta ao Velho se aceita mais uma dose. O Velho aceita, álacre.</p>
<p>— Eu gosto dessa foto por duas razões principais, — diz Garibaldi. — Primeiro, porque é a foto da nação do jazz, tirada na capital do jazz, e num clima de curtição que está na alma do jazz: aquela foto é o resultado de uma jam session fotográfica. Segundo, porque Miles Davis não está na foto. O cara não foi ou porque deve ter se achado bom demais pra participar da brincadeira, ou porque achou que fosse passar despercebido no meio dos verdadeiros gigantes do jazz, ou porque não ia receber cachê nenhum. Quem quiser que escolha a razão mais plausível pra ausência de Miles Davis, ou até todas essas razões juntas e outras mais. Não importa. Importa é que Miles Davis ficou em casa se olhando no espelho e ainda bem. Assim a foto não ficou poluída com a presença dele.</p>
<p>Garibaldi conclui a peroração com uma risada gutural.</p>
<p>— Tive uma idéia, — diz o Velho; sua voz soa mais solta do que nunca. — Uma idéia brilhante. Maria da Penha precisa tirar uma foto da gente.</p>
<p>— Da gente quem? — pergunta Garibaldi.</p>
<p>— Da gente, de nós todos, da turma, do Clube das Terças. Do decateto.</p>
<p>Garibaldi derruba o beiço e fica pensativo.</p>
<p>— Por incrível que pareça, — diz ele, — a idéia não é de todo ruim. Não, não é nada ruim. Pelo contrário, não deixa de ser uma boa idéia. É, tenho de admitir que a idéia até que é boa. Mais que boa. É muito boa. Se facilitar, vai ver que é uma ótima idéia.</p>
<p>— Que que você acha, Maria da Penha? — pergunta o Velho.</p>
<p>— Eu cobro pela tabela do sindicato, — diz ela, profissional.</p>
<p>— A gente faz uma vaquinha e paga, — diz o presidente do Clube, metendo de antemão a mão no bolso dos demais sócios. — Olha só: Maria da Penha faria uma foto oficial, com os dez sócios juntos, e fotos individuais de cada um de nós. Tudo em p&amp;b, é claro. E de repente a gente até publica um livro sobre o Clube, ilustrado com todas as fotos que Maria da Penha tirar.</p>
<p>— Com que dinheiro? — diz Garibaldi.</p>
<p>— Com dinheiro da Lei Rubem Braga, — diz o Velho.</p>
<p>— Vai ser um best-seller, — diz Maria da Penha, sardônica.</p>
<p>— Gostei da idéia das fotos individuais, — diz Garibaldi. — Cada um de nós seria fotografado na sua postura mais característica. Lady Moraes tomando um gole daquele garrafão de água que ele leva pro Clube; Lady Mazzi parado no ar, que nem um beija-flor, no meio de um daqueles saltos que ele dá na tentativa, sempre frustrada, de cabecear uma das placas que pendem do teto do Centro da Praia; Lady Romero se apresentando num dos happy-hours do shopping, só que tocando três instrumentos ao mesmo tempo, que nem Roland Kirk: um sax, uma casquinha de sorvete de abacaxi e um livro de Jacques Derrida; Lady Nunes fumando placidamente em sua cadeira, olhando pro alto, que nem Dexter Gordon.</p>
<p>— Uma foto do jeito que você gosta, — diz o Velho pra Maria da Penha: — com fumaça que não acaba mais.</p>
<p>— Lady Gurgel, — continua Garibaldi, — com um pão de mel numa mão e uma xícara de café frio na outra e, sobre a mesa, o cd de algum músico de jazz bem obscuro, tipo Phil Urso ou outro qualquer; Lady Embratel no ato exato de sorver um gole de sua tulipa de chopp, com a cuia dos pães de queijo na cabeça; Lady Coimbra sentado numa cadeira, com um braço em torno de outra cadeira, com cara de quem está cansado pra caralho; Lady Achiamé chegando atrasado à reunião, naquele passo de quem curte uma balada; você, Lady Pres, comendo um pé-de-moleque presidencial; e, finalmente, eu, Lady Magalhães, ouvindo na ostra um cd de Art Pepper, com uma cara bem inteligente.</p>
<p>— Essa vai ser a mais difícil de fazer, — diz Maria da Penha.</p>
<p>— Difícil vai ser você chegar no shopping certo, — diz Garibaldi. — Em vez do Centro da Praia, é capaz de ir parar no Boulevard da Praia.</p>
<p>— Só está faltando uma coisa nessas fotos, — diz Maria da Penha. — Não tem ninguém olhando pra uma bunda de mulher.</p>
<p>O Velho fica vermelho, como se tivesse culpa no cartório. Garibaldi ri:</p>
<p>— Penha botou na cabeça que a gente vai pro clube pra olhar mulher. No nosso clube não tem veado, mas todo mundo é sério e fiel aos seus compromissos, não é, presidente?</p>
<p>— Não, claro que não, — diz o Velho, confirmando a primeira metade da declaração de Garibaldi e deixando a segunda pra lá.</p>
<p>— Acredito piamente, — diz Maria da Penha, e acende, sem remorso, um novo cigarro.</p>
<p>— Lady Gotti, — diz o Velho, — se me permite, tenho um pedido a fazer.</p>
<p>— Lady Gotti? — diz Garibaldi. — Cara, isso de chamar as pessoas de lady, que nem Lester Young fazia, é prerrogativa minha e só minha. Tá querendo me plagiar?</p>
<p>— Você chama os homens de lady, — defende-se o Velho. — Eu chamo de lady as próprias ladies. É diferente.</p>
<p>— Qual é o pedido? — pergunta Lady Gotti.</p>
<p>— Depois dessa conversa toda sobre fumaça, — diz ele, — fiquei seco por um cigarro. Você pode me dar um dos seus?</p>
<p>Lady Gotti fica um átimo surpresa. Só um átimo. No átimo seguinte estende o próprio cigarro pro Velho.</p>
<p>— É o meu último, — diz ela. — Pode ficar.</p>
<p>O Velho recebe o cigarro como uma dádiva do outro mundo. Olha-o entre os dedos com reverência antes de levá-lo aos lábios. Ali deixa-o arder espontâneo por trinta segundos, entregue, de olhos cerrados, ao arroubo de ter entre os lábios um cigarro que provém dos lábios mesmos da pessoa amada. Depois aspira a doce e sagrada fumaça.</p>
<p>Na primeira tragada sobrevém-lhe um acesso de tosse.</p>
<p>Lady Gotti levanta-se e dá-lhe umas palmadas nas costas. Garibaldi, de onde está, colabora com o tratamento dizendo: São Brás, São Brás. O Velho tosse mais um pouco, debaixo das palmadas terapêuticas de Lady Gotti, até que passa o acesso.</p>
<p>— Obrigado, — diz ele, com os olhos pingando de lágrimas.</p>
<p>— Não sabe nem fumar não? — pergunta Garibaldi.</p>
<p>— Pensei que fosse mais fácil, — diz o Velho.</p>
<p>Garibaldi abre a boca pra dizer uma coisa, mas os olhos resvalam por cima da cabeça do Velho e cintilam de êxtase. Aí ele, que abriu a boca pra dizer uma coisa, diz outra:</p>
<p>— Aí vem a nossa pizza!</p>
<p>Nunca se saberá que coisa Garibaldi abriu a boca pra dizer. Mas pode-se ter certeza de que dificilmente seria de mais suma importância do que aquilo que ele disse em seu lugar. Quatro anos depois de feito o pedido, eis que enfim chega à mesa doze da pizzaria de Jardim Camburi a pizza gigante, metade palmito, metade marguerita, pra consumo, com os leitores por testemunhas, dos três personagens ali reunidos. A ocasião é tão memorável que exige uma comemoração metalingüística.</p>
<p>Que se comemore a chegada da pizza, então, com a ovação silenciosa de uma quebra de capítulo.</p>
<p>[ * ] São os seguintes os 57 músicos que aparecem na foto de Art Kane: Count Basie, Hank Jones, Jimmy Jones, Marian McPartland, Thelonious Monk, Luckey Roberts, Horace Silver, Mary Lou Williams, pianistas; Red Allen, Emmett Berry, Buck Clayton, Roy Eldridge, Art Farmer, Dizzy Gillespie, Taft Jordan, Max Kaminsky, Rex Stewart, trompetistas; Scoville Browne, Bill Crump, Bud Freeman, Benny Golson, Johnny Griffin, Gigi Gryce, Coleman Hawkins, Hilton Jefferson, Gerry Mulligan, Rudy Powell, Sonny Rollins, Sahib Shihab, Joe Thomas, Ernie Wilkins, Lester Young, saxofonistas; Art Blakey, Sonny Greer, J.C. Heard, Osie Johnson, Jo Jones, Gene Krupa, Eddie Locke, Zutty Singleton, George Wettling, bateristas; Milt Hinton, Chubby Jackson, Charles Mingus, Oscar Pettiford, Wilbur Ware, contrabaixistas; Lawrence Brown, Vic Dickenson, Tyree Glenn, J.C. Higginbotham, Miff Mole, Dicky Wells, trombonistas; Buster Bailey, Pee Wee Russell, clarinetistas; Stuff Smith, violinista; Jimmy Rushing, Maxine Sullivan, cantores. Curioso não ter aparecido nenhum guitarrista.</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_68/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; 1. A história inconfessável: Fumaça</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; V. Entretenimento — Estudo em ébano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 18:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
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		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Quando ela entrou no escritório a segunda impressão que tive dela foi que era uma mulher muito bonita, e nada mais que isso, e a terceira, que era uma mulher entre quarenta e quarenta e cinco anos, e nada menos que isso. Mas a primeira impressão que tive foi que ali estava, no meu escritório, [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_46/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; V. Entretenimento — Estudo em ébano</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Quando ela entrou no escritório a segunda impressão que tive dela foi que era uma mulher muito bonita, e nada mais que isso, e a terceira, que era uma mulher entre quarenta e quarenta e cinco anos, e nada menos que isso. Mas a primeira impressão que tive foi que ali estava, no meu escritório, uma mulher distinta.<br />
Distinção a marcava como um halo. Era uma mulher distinta no modo de vestir, no modo de andar, no modo de sentar, de cruzar as pernas, de ajeitar a barra da saia sobre o joelho, no modo de olhar para você — no caso, para mim — e, eu bem sabia, antes mesmo dela abrir a boca, no modo de falar.</p>
<p>O penteado, que tinha um toque sutil de desleixo, o batom, que era de um rosa discreto, os brincos de pérola, que lhe timbravam os lóbulos das orelhas, a delgada aliança de casamento, que lhe cingia o dedo, tudo delatava a mulher distinta por natureza. A presença dela em meu escritório era nociva: realçava ainda mais a vulgaridade da sala, dos móveis, do proprietário da espelunca, no caso, eu mesmo.</p>
<p>— Senhor Reis? — disse ela, com voz que não direi distinta para não desgastar o adjetivo.</p>
<p>— Pois não? — respondi.</p>
<p>E esperei. Os dedos da mão direita correram todos até à outra mão para bulir com a aliança de casamento, que jazia quieta no seu canto. Quatro, cinco vezes, agindo todos em concerto, arrastaram a aliança até a ponta do dedo para depois arrastá-la de volta ao seu devido lugar. Longe da visitante imaginá-lo, mas eu, que sou rude e safado, logo vi naquele movimento de vaivém a representação digital e anelar, se não de uma trepada, certamente de uma relação sexual. Ela, distinta e inocente, nem se tocou; eu, rude e safado, não só me toquei mas comecei a enrubescer por ela; sua voz salvou-me antes que o rubor se tornasse embaraçoso:</p>
<p>— O senhor entenderá que não tenho o hábito de freqüentar lugares como este.</p>
<p>Acenei com a cabeça. Concordava plenamente: meu escritório combinava tão pouco com ela como um bordel. Ela se deu conta, porém, de que sua observação continha um elemento de repúdio ao meu ofício.</p>
<p>— Não quero ofendê-lo, Senhor Reis. Não tenho nada contra sua profissão, desde, é claro, que seja exercida com a honestidade com que, estou certa, o senhor a exerce. Acho que detetives particulares são&#8230;</p>
<p>Aí ela hesitou.</p>
<p>— Somos um mal necessário, — ajudei-a.</p>
<p>— Uma necessidade social, — corrigiu ela, equiparando a minha profissão ao meretrício. — Há situações em que só um detetive particular pode resolver um problema com lisura e propriedade. O que eu quis dizer foi que nunca esperei me encontrar um dia numa dessas situações.</p>
<p>— Entendo, — eu disse. — Espero sinceramente poder ajudá-la.</p>
<p>— Também espero, Senhor Reis, — ela disse.</p>
<p>Aí calou-se. Ficou alguns segundos olhando para minha cara como se esperasse que a minha ajuda incluísse adivinhar o motivo que a levara até o meu escritório, poupando-a assim de relatar, ela mesma, o seu drama pessoal. Calei-me também. Nesse ponto não havia como ajudá-la. Cabia a ela pôr tudo para fora.</p>
<p>— O senhor fuma, Senhor Reis? — ela disse.</p>
<p>Pelo sim, pelo não, menti:</p>
<p>— Parei recentemente, minha senhora.</p>
<p>Podia ter acrescentado, como costuma fazer certo amigo meu: Depois de amanhã faz dois dias. Mas já dera para sentir que, com essa mulher distinta, era essencial ater-me apenas ao essencial.</p>
<p>— Fez bem, — ela disse. — Mas importa-se se eu fumar?</p>
<p>— Absolutamente, — eu disse. Uma mulher como ela eu não me importaria nem que vomitasse sobre a minha mesa. E levantei-me, solícito, já com isqueiro na mão pronto para deitar fogo pelas ventas.</p>
<p>Ela abriu a bolsa e extraiu dali um maço de Charm. Retirou um cigarro, bateu com ele duas vezes sobre o tampo da mesa, meteu-o entre os lábios e ofereceu-me a boca — tudo isso com gestos esmerados. Acendi-lhe o cigarro. Ela deu uma longa tragada e soprou a fumaça para o lado, respeitando a minha condição de não mais fumante. A palavra tragada, porém, não condiz com a classe daquela mulher. É preciso inventar uma nova palavra só para descrever essa ação se executada por ela. Seja como for, o cigarro soltou-lhe a língua:</p>
<p>— Senhor Reis, receio que meu marido esteja cometendo adultério, — ela disse.</p>
<p>O motivo de sua visita era exatamente o que eu esperava que fosse. A frase, não. Há mulheres que chegam na minha sala e dizem, sem rodeios, que os maridos estão botando chifres nelas ou que estão pulando a cerca ou, até mesmo, que estão mijando fora do penico, sem perceber, neste caso, como a expressão denigre a imagem de sua própria genitália. Dessa senhora eu esperava ouvir: Meu marido está me traindo. Ou: Meu marido está sendo infiel. Mas da forma como expôs o problema, reunindo o verbo cometer e o substantivo adultério, ela ao mesmo tempo reduziu o problema a uma questão legal e mitigou a leviandade do marido, fazendo-a parecer tão grave como sentar-se à mesa do jantar em camisa de malha.</p>
<p>— O que a leva a recear isso, minha senhora?</p>
<p>— Sonhei com isso, — ela disse.</p>
<p>— Pois não, — eu disse.</p>
<p>— Três vezes, — ela disse. — Sonhei com isso três vezes.</p>
<p>Achei que não convinha repetir minha frase anterior.</p>
<p>— Senhor Reis, — ela disse. — Sinto que, no íntimo, o senhor deve estar julgando que eu sou uma tola. Espero sinceramente que eu seja mesmo. Mas não julgue nada antes de ouvir tudo que tenho a dizer.</p>
<p>— Estou aqui pra ouvi-la, — eu disse.</p>
<p>— Chamo-me Maristela Lelevel, — começou ela, — e sou casada há quinze anos com Manfredo Lelevel.</p>
<p>Arregalei o olho em sinal de respeito. A família Lelevel é uma das famílias mais imaculadas de Vitória, em especial no que tange à origem de sua fortuna, toda ela construída com base em vidas inteiras de trabalho honesto. Ela fingiu não notar o meu tique de respeito e prosseguiu:</p>
<p>— Não temos filhos. Não se trata de esterilidade de nenhuma das partes, mas de uma opção existencial. Trabalho como executiva de uma empresa de exportação de Vitória, e meu marido é um dos diretores da firma Bernardes &amp; Lelevel. Talvez o senhor tenha ouvido falar.</p>
<p>— Sim, — eu disse. Era uma conhecida firma de auditoria contábil e ocupava uma mansão na Praia do Canto que antes pertencera a um milionário judeu. Só o aluguel da mansão devia andar por volta de quatro mil reais.</p>
<p>— Nossa vida particular, — continuou ela, — sempre foi tranqüila e reservada. Temos poucos amigos, que visitamos de vez em quando e recebemos em casa também de vez em quando. Uma vez por ano fazemos uma viagem ao exterior, mas a lugares fora da praxe turística, como a Finlândia, a Bulgária, as ilhas Faroé. Em casa gostamos de ver um filme juntos, e de ler juntos um mesmo livro.</p>
<p>Fez uma pausa para tirar do lábio um farelo de fumo.</p>
<p>— Uma vez, Senhor Reis, — ela disse, — Manfredo traduziu do alemão um poema que achava que descrevia com precisão o nosso casamento. Dizia assim: &#8220;A faca reparte o pão nosso / em partes iguais. / Onde teus lábios tocaram no copo / eu bebo o segundo gole. / Anda com meus sapatos! / Quando vem o inverno / teu casaco me aquece. / Choramos a mesma lágrima / e à noite fechamos a porta / para ficarmos sozinhos. E dormindo / meus sonhos se abraçam nos teus.&#8221;</p>
<p>Imagine-se uma mulher distinta recitando um poema traduzido do alemão por Manfredo Lelevel.</p>
<p>— Pelo quinto verso, — eu disse, — só pode ter sido escrito da perspectiva do homem. Não consigo visualizar uma mulher dizendo ao marido: Anda com meus sapatos! De quem é o poema, Dona Maristela?</p>
<p>— De um sujeito chamado Hans Bender, — ela disse.</p>
<p>— Hans Bender? — eu disse. Fingi um esforço de memória. — Acho que nunca li nada dele.</p>
<p>— O que eu quero que o senhor entenda, Senhor Reis, — ela disse, — é que meu marido e eu, como o casal do poema, sempre desfrutamos intensamente a companhia um do outro, até porque foi com essa finalidade que optamos por uma vida sem filhos. Em quinze anos de casamento, nunca me interessei por outro homem e, até o mês passado, podia jurar que meu marido nunca tinha se interessado por outra mulher.</p>
<p>— Conte-me os sonhos que teve, Dona Maristela, — pediu o detetive entrando na seara do psicanalista.</p>
<p>— O primeiro sonho foi há três semanas, — disse ela. — Sonhei que tinha ido ao Shopping Sahara fazer umas compras, e que depois me sentei na praça pra tomar um suco de maçã. Havia duas mulheres numa mesa próxima, tomando caldo de cana e comendo pastel. Uma delas era uma moça negra e tinha formas, como se diz, esculturais. Ouvi a outra chamá-la várias vezes pelo nome: Renée. O nome martelava em minha mente: Renée, Renée, Renée. De repente a outra virou-se pra ela e perguntou: Renée, há quanto tempo você é amante de Manfredo? A moça negra respondeu: Há mais de dez anos. Encontramo-nos toda quarta-feira, há mais de dez anos. E a amiga exclamou: Como é que você agüenta, Renée? Aquele diálogo me incomodou, Senhor Reis. Deixei o suco pela metade e tive pressa de sair da praça. Quando ia saindo, vi, chegando pelo outro lado, o meu marido. Fiquei aturdida e não pude mover-me. Vi então que ele entrou na praça e foi direto à mesa onde estava a moça negra com a amiga.</p>
<p>Dona Maristela deu, com perdão da má palavra, uma tragada no cigarro e largou a mão no ar, em lânguido abandono, palma para cima e cigarro entre os dedos.</p>
<p>— Aí eu acordei, — disse ela. — Confesso que achei estranho o sonho, confesso até que me perturbou um pouco, mas em momento algum a ponto de suspeitar de meu marido. Pensei até em contar-lhe o sonho, pra rirmos juntos, mas alguma coisa me impediu de fazê-lo. Os dias passaram, e o sonho perdeu importância. Uma semana depois, sonhei de novo com a moça negra. Com Renée. Sonhei que estava sozinha em casa e que o telefone começou a tocar. Tocava insistentemente, mas eu não queria atender, porque tinha certeza de que era Renée que estava ligando. Mas chegou um momento em que não suportei mais tanta insistência e atendi. Aí ouvi a voz do meu marido do outro lado da linha: É você, Renée? Fiquei surpresa e não consegui dizer palavra. Meu marido insistiu: Responde, Renée, meu amor. É você? É você? É você? Aí eu acordei.</p>
<p>Dona Maristela calou-se, arfante de aflição. Durante algum tempo não me encarou. Prendeu entre os dentes o flanco de um dedo e mordeu-o até quase sangrar. Quando retirou o dedo, vi nele, bem nítido, o sinete de seus incisivos.</p>
<p>— Isso foi na noite de terça pra quarta, — ela disse. — Na quarta à tarde telefonei pro escritório de meu marido. Ele não estava. Liguei pro celular. Estava fora da área de cobertura. Lembrei-me do que disse a moça negra no primeiro sonho: Toda quarta-feira, há mais de dez anos. Comecei a ficar angustiada.</p>
<p>— Conversou com seu marido quando ele chegou?</p>
<p>— Não tive coragem, — ela disse. — Ele parecia tão normal, tão carinhoso, parecia, na verdade, tão inocente, que não tive coragem. Só disse que tinha telefonado à tarde, e ele respondeu que tinha ido a uma reunião com um cliente. Isso é comum. Já me aconteceu muitas vezes ligar pro escritório e a secretária dizer exatamente isso. Só que, nessa tarde, ela não disse nada. Só disse que ele tinha saído.</p>
<p>— A senhora mencionou que tentou falar com ele no celular?</p>
<p>— Sim, — ela disse. — Ele limitou-se a dizer: Esses celulares! Nem sempre se pode confiar neles.</p>
<p>Dediquei trinta segundos a tomar algumas notas sobre o caso em minha caderneta personalizada. A caderneta, que tem a marca da Agência Falcão Negro na capa, costuma encantar as mulheres que me procuram para se queixar de maridos que botam chifres, ou pulam cercas, ou mijam fora de penicos. Que gracinha, dizem, e pegam para olhar. Dona Maristela não deu a mínima.</p>
<p>— E o terceiro sonho? — perguntei.</p>
<p>— Foi anteontem, — ela disse.</p>
<p>Dona Maristela deu uma última tragada no cigarro, soprou a fumaça para longe e espremeu o toco do cigarro no cinzeiro de vidro.</p>
<p>— Terça, — eu disse, e fiz uma anotação na caderneta.</p>
<p>— Sim, — disse ela. — Sonhei que estava no centro da cidade, andando pela calçada do Parque Moscoso. Não costumo ir ao centro, Senhor Reis, a não ser por motivos profissionais. Mas as minhas raízes estão ali. Nasci numa casa na Ladeira do Bispo. Freqüentei o Parque Moscoso quando criança. Estudei no Colégio Americano. Apesar daquela região estar um tanto aviltada hoje, no sonho eu me sentia à vontade andando por ali. Feliz, até. Só que, quando eu ia caminhando pela calçada da Rua 23, de repente vi meu marido vindo em minha direção. Paramos um diante do outro. Eu perguntei: Manfredo, que que você está fazendo aqui? Ele ficou meio sem graça e disse: Vim ver Renée. Eu perguntei: Quem é Renée? Ele respondeu: Renée? Ora, você sabe quem é Renée. Aí olhou pro relógio e disse: Estou em cima da hora. E lá se foi pela calçada. Acompanhei-o com os olhos. Vi que atravessou a rua e entrou num edifício quase na esquina da Rua Azevedo. Aí acordei.</p>
<p>Dona Maristela calou-se e notei que estava fazendo um esforço para conter um esboço de lágrima.</p>
<p>— Telefonei pra Manfredo ontem à tarde, — disse ela, — e me disseram que ele não estava no escritório. Só isso: não estava no escritório.</p>
<p>— A senhora ligou pro celular?</p>
<p>— Não, — ela disse. — Já tinha tomado a decisão de contratar um detetive.</p>
<p>Aí fiz a pergunta que, se médicos fazem, por que não detetives?</p>
<p>— Quem indicou meu nome pra senhora?</p>
<p>— O senhor resolveu um caso pra uma amiga minha. O caso de seqüestro de um poodle. Telefonei pra ela com um pretexto qualquer, ela me deu seu nome e o telefone de sua agência.</p>
<p>Triste caso, o seqüestro do poodle. Os filhos da amiga de Dona Maristela estavam por trás do seqüestro, para comprar droga com o dinheiro do resgate.</p>
<p>— Muito bem, — eu disse. — A senhora tem mais alguma coisa a acrescentar sobre o possível adultério de seu marido?</p>
<p>— Não, — ela disse.</p>
<p>— De modo que o que temos, — eu disse, — são os seus sonhos e as ausências de seu marido do escritório nas tardes de quarta-feira.</p>
<p>— Temos o nome do edifício onde ele se encontra com Renée, — ela disse.</p>
<p>— Como assim?</p>
<p>— Antes de vir ao seu escritório, — ela disse, — estive na Rua Azevedo e passei diante do edifício em que, no sonho, vi meu marido entrar. O edifício chama-se Prócyon.</p>
<p>— Prócyon? — estranhei.</p>
<p>— É o nome de uma estrela, — ela esclareceu.</p>
<p>— De que constelação?</p>
<p>— Canis Minor, — ela disse.</p>
<p>Tomei o lápis para anotar o nome na caderneta.</p>
<p>— P-r-o-c-y-o-n, — soletrou ela. — Acento no primeiro o.</p>
<p>Fechei a caderneta.</p>
<p>— Bom, Dona Maristela, — eu disse, — o que posso fazer em primeiro lugar é o seguinte: vou tentar obter alguma informação com os porteiros do edifício sobre a possível presença de seu marido ali. Dependendo do resultado dessa primeira investigação, saberei o que fazer na próxima quarta-feira à tarde.</p>
<p>— Está bem, — ela disse.</p>
<p>— Vou precisar de uma foto de seu marido, — eu disse.</p>
<p>— Eu sei, — ela disse.</p>
<p>Abriu a bolsa e retirou lá de dentro um envelope. Abri o envelope e dei de cara com a foto colorida, tamanho passaporte, de um homem de cinqüenta anos, de feições graves e inteligentes. A cabeça grande e rotunda traía sua ascendência polonesa, e a testa invadia, feito um mar, o alto do crânio, deixando no centro apenas um promontório de cabelos. Filho da puta, insultei-o. Como pode fazer uma sacanagem dessas com uma mulher como Dona Maristela?</p>
<p>— Quanto a seus honorários, — ela disse, — quer que eu pague o valor total ou só um adiantamento?</p>
<p>— Um adiantamento seria conveniente, — eu disse, — pra gratificar os porteiros.</p>
<p>Dona Maristela retirou da bolsa o talão de cheques e uma caneta tinteiro — uma galante Parker 51 —, preencheu com ela um cheque e passou às minhas mãos. Vi que sua assinatura era uma obra de arte. Depois vi que seu nome completo era Maristela Lala Lelevel. Depois vi que o valor do cheque era de mil reais.</p>
<p>— O valor não é suficiente? — perguntou ela.</p>
<p>— A senhora não sabe quanto eu cobro? — perguntei eu.</p>
<p>— Nem quero saber, — ela disse. — Quero é uma prova de que meu marido é culpado de adultério.</p>
<p>— Ou de que é inocente, — eu disse, dando ao safado o beneplácito de uma dúvida que eu não tinha mais. Como negar a esmagadora evidência dos sonhos de Dona Maristela?</p>
<p>— O senhor acredita nessa possibilidade? — disse ela, levantando-se.</p>
<p>— A inocência é uma caixa de surpresas, — disse eu, levantando-me.</p>
<p>— O número de meu celular está no cheque, — ela disse. — Por favor ligue assim que tiver alguma informação.</p>
<p>Apertamos as mãos, e ela saiu. Sentei-me e fiquei ali namorando a assinatura de Dona Maristela. Então Dona Maristela era da família Lala. Uma Laura Lala, nos anos cinqüenta, em Vitória, fora o pivô de um triângulo amoroso que terminara em assassinato. Eu tinha a história documentada num dos meus álbuns de recortes. Tia de Dona Maristela? Quem sabe? Mas não seria eu que faria tal pergunta a ela.</p>
<p>* * *</p>
<p>O Edifício Prócyon fica, como no sonho de Dona Maristela, quase na esquina da Rua Azevedo com a Rua 23. A vinte e quatro passos dali, cruzando a Rua 23, fica a entrada sul do Parque Moscoso. A Rua Azevedo é a rua mais arborizada da região. Pode-se até dizer que é um distrito da reserva florestal maior que é o parque. Suas árvores, que são mais altas que os seus sobrados, esticam os galhos para a outra margem da rua e dão-se as mãos, cobrindo tudo que está embaixo com uma densa sombra de folhas.</p>
<p>A seu lado, na dobra mesma da esquina propriamente dita, ergue-se outro edifício, o Canopus, nome que se duvidar é nome de outra estrela. Há uma loja no térreo do Canopus: Sônia Noivas. Em suas vitrines se vêem vários manequins de noivas e noivos, empertigados a caráter, entre eles um noivo louro com a cara azeda de quem vai casar e não vai gostar. Aliás, em toda a região do parque, incluindo ramificações como as Avenidas Cleto e República e as Ruas Anchieta e Osório, pululam lojas de noivas — mas é na Rua Azevedo que se congrega o maior contingente delas, a ponto de bem poder chamar-se Rua das Noivas. Além da Sônia Noivas, no térreo do Canopus, outras cinco lojas se espalham em diferentes pontos da rua: Nazaré Noivas, Telma Noivas, Sandra Noivas, Aninha Noivas, Palácio das Noivas, e Noivas Juliette. Os nomes, suponho, servem para homenagear noivas célebres da história e da literatura. Embora tenha havido nesta mesma rua, lembro-me, uma loja chamada Carlão Noivas. Que fechou, ou então está ainda aí, só que com o nome Carlão travestido em Telma ou Juliette.</p>
<p>O fenômeno, seja como for, é digno de nota. Talvez um dia quem sabe algum aluno de Ciências Sociais estude o assunto numa alentada dissertação de mestrado. Gostaria muito de viver para lê-la.</p>
<p>O Edifício Prócyon é um edifício magro, calcado sobre magros pilotis. À direita de quem olha para ele está a entrada que conduz à garagem. No centro há um pátio com um único banco e alguns vasos de plantas, num dos quais reside um tinhorão. À esquerda, por um relance de degraus, chega-se a um altar-mor onde, a uma pequena mesa, se assenta o porteiro. Subi até a sua canônica presença. O porteiro é um nordestino de seus sessenta anos, de baixa estatura, olhar levemente desvairado e cabelo liso varrido para trás e retido ali a poder de goma arábica. Trocamos boas tardes.</p>
<p>— Seu nome é? — perguntei.</p>
<p>— Ataliba José de Alencar, — disse ele, e estendeu uma mão viscosa e frouxa. — Ao vosso dispor.</p>
<p>— Seu Ataliba, — perguntei, — o senhor trabalha aqui há muito tempo?</p>
<p>— Meu amigo, — disse ele, com a altivez de um catedrático, — eu fui vigia da obra. Vi este prédio nascer e crescer. Sinto-me como se fosse o próprio pai do Procyon.</p>
<p>Pronuncia o nome do filho à francesa, oxitonamente.</p>
<p>— Isso tem muito tempo, suponho, — eu disse.</p>
<p>— Vai fazer quarenta anos, — ele disse.</p>
<p>— Sendo assim, — eu disse, — o senhor estaria habilitado, mais do que ninguém, a escrever a biografia do prédio.</p>
<p>— Como é que o senhor sabe que eu sou escritor? — perguntou ele, abismado.</p>
<p>— Está na cara, — menti. — E no nome. Por acaso o senhor é descendente de José de Alencar?</p>
<p>— Sou não, — ele disse. — Meus Alencares são de boa cepa paraibana, os dele eram só do Ceará.</p>
<p>Pois para mim, pensei, é tudo a mesma merda.</p>
<p>— De qualquer modo, — eu disse, — é um sobrenome digno dos melhores escritores.</p>
<p>— O senhor tem razão, — ele disse. — Apesar de que não posso dizer que li José de Alencar. Também não careci. Sou um escritor autodidata. Poeta, melhor dizendo. Tenho em casa uma arca só pra guardar meus trabalhos poéticos. Minha mulher reclama da papelada, mas que que ela entende de literatura? Ela não passa de uma analfabeta, que mal sabe assinar o nome.</p>
<p>— Quer dizer que o seu talento não é reconhecido em casa? — eu disse.</p>
<p>Uma empregada do condomínio apareceu armada de vassoura para varrer as folhas de fícus do saguão do edifício.</p>
<p>— Nem em casa nem fora de casa, — ele disse. — Já perdi a conta dos escritores e dos professores que prestigiei com minhas poesias. Nenhum deles me ajudou a publicar nem um verso só. Inveja, eu acho. Ou falta de sensibilidade. E se dizem críticos literários. Pfff! Entendem de literatura tanto quanto minha mulher.</p>
<p>— E qual seria o seu estilo? — perguntei.</p>
<p>— Meu estilo é o clássico, — ele disse. — Não tolero essas modernices de poesia sem rima. Poesia tem de ter rima, porque senão não é poesia. Minhas poesias têm rima. Deixe-me mostrar uma delas, pro senhor ter uma idéia.</p>
<p>Seu Ataliba abriu a gaveta da mesinha e retirou dali algumas folhas de papel almaço cobertas de garatujas feitas a caneta esferográfica. Explicou-me:</p>
<p>— Trata-se de um trabalho poético de assunto elevado, honorário, brasileiro, dedicado ao Dr. Silas Martins, que foi síndico deste edifício. Permite que eu leia?</p>
<p>— Por favor, — eu disse.</p>
<p>Seu Ataliba levantou-se, limpou a garganta e danou a ler o seguinte:</p>
<p>Receba, Dr. Silas Martins,<br />
A minha humilde homenagem.<br />
Na forma deste poema<br />
Que fiz por camaradagem.<br />
Não reparar nas falhas<br />
Mas sim na pura mensagem.</p>
<p>Me lembro quando Dr. Silas<br />
Foi síndico legendário.<br />
Como meu superior<br />
De modo extraordinário,<br />
Sabia bem dar valor<br />
A qualquer funcionário.</p>
<p>Foram doze estrofes disso, que ele leu como um vereador discursando de um palanque. Quando terminou, bati palmas delicadamente. Observei que a empregada do condomínio escondia o riso na ponta do cabo da vassoura.</p>
<p>— Excelente, seu Ataliba. Muito bom mesmo.</p>
<p>— Tenho outra aqui, melhor ainda, — ele disse.</p>
<p>A empregada do condomínio varreu-se apressadamente do saguão do edifício e desapareceu na direção da garagem. Eu já ia inventar uma desculpa para poupar meus ouvidos de nova prosopopéia, mas seu Ataliba disse uma frase mágica:</p>
<p>— Fiz esta poesia em homenagem ao Dr. Manfredo Lelevel. É um dos inquilinos do Procyon.</p>
<p>— Quero ouvir, — eu disse.</p>
<p>— A verdade me obriga a dizer, — ele disse, — que o Dr. Manfredo não recebeu a homenagem como um cavalheiro, mas a poesia está acima de mesquinharias pessoais.</p>
<p>Aí limpou novamente a garganta e deitou o verbo:</p>
<p>Em nome de um grande Deus<br />
Que em segredo ele está<br />
Planejando um Novo Mundo<br />
Para o seu povo habitar,<br />
Fiz esta poesia para um nobre<br />
Amigo particular.</p>
<p>Por Dr. Manfredo Lelevel<br />
É o amigo chamado;<br />
Respeita os seres humanos<br />
Sim, desde alguém humilhado<br />
Até o homem de fama<br />
Politicamente exaltado.</p>
<p>Compreendi que Dr. Manfredo<br />
É muito sentimental<br />
E sabe que o presente<br />
Tem aparência legal<br />
De que tudo é eterno.<br />
No fim: ilusão real.</p>
<p>Amigo Dr. Manfredo:<br />
Eis a prova especial<br />
Da família Lelevel,<br />
Na economia estadual<br />
Do Espírito Santo, que brilha<br />
Até o nível federal.</p>
<p>Queira aceitar meu trabalho.<br />
É uma prova também<br />
Que, em minha vida, não<br />
Esquecerei de alguém<br />
Que sempre me deu valor<br />
Em tudo que me convém.</p>
<p>Ao Dr. Manfredo Lelevel<br />
E sua família honrada,<br />
Desejo felicidades!<br />
Em toda hora sagrada.<br />
Só quero vê-lo em riqueza<br />
Sendo por Deus alcançada.</p>
<p>Pras altas personalidades<br />
Eu sempre vivo escrevendo.<br />
Se um dia conseguir<br />
Algo que quase estou vendo,<br />
Me lembrarei do Dr. Manfredo<br />
Que bom amigo vem sendo.</p>
<p>— Este é, realmente, ainda melhor que o outro, — concordei.</p>
<p>— Eu disse e repito, por ser de verdade, — seu Ataliba disse, — que os elogios poéticos não conferem muito bem com a pessoa do homenageado, mas na época eu não sabia disso. Enviei a poesia pro Dr. Manfredo, lá pra firma dele, junto com um requerimento onde, de justiça, fazia um pequeno pedido que, mas porém, ele me negou sem qualquer justificativa.</p>
<p>— O que foi que o senhor requereu, seu Ataliba?</p>
<p>— Requeri, — ele disse, — que me providenciasse um veículo com motorista pra me trazer do trabalho e levar pra casa todos os dias. Aleguei que moro longe, lá em Itanhenga, e que minha dignidade de poeta não combina com os coletivos superlotados do Transcol. Não é razão suficiente pra me atender o pedido? Veja bem, meu amigo, não pedi o veículo pra passear nos fins-de-semana, como fazem os políticos, não, senhor. Só pra me conduzir de casa pro trabalho e do trabalho pra casa. E o senhor não gostou da poesia?</p>
<p>— Muito, — respondi.</p>
<p>— Pois então, — ele disse. — A poesia dá bem uma idéia dos meus méritos poéticos sertanejos. Se ele fosse um homem sensível, teria considerado muito justo poupar-me de me misturar a essa ralé que usa e abusa dos coletivos do Transcol. Mas quem disse? Nem quis saber. Disse que o que eu pedia era um absurdo e pronto.</p>
<p>— Essas pessoas não têm consideração com os poetas, — eu disse.</p>
<p>— Pois é, — ele disse. — O homem é podre de rico. Já viu a firma que ele dirige, ali na Praia do Canto? Um palácio. E a casa onde ele mora, na ilha do Boi? Uma mansão.</p>
<p>— Mas ele não mora aqui? — perguntei, sonso.</p>
<p>— Não, — ele disse. — Ele aluga um apartamento no prédio, o 602, mas só faz uma visita uma vez por semana. Sobe, fica umas duas horas, depois desce e vai embora.</p>
<p>— Que estranho, — eu disse. — Tem muito tempo que ele faz isso?</p>
<p>— Uns dez anos, — seu Ataliba disse. — Toda quarta-feira. Anteontem mesmo ele esteve aqui.</p>
<p>— E o senhor conhece a moça que freqüenta o apartamento? — resolvi arriscar.</p>
<p>— Que moça? — ele estranhou.</p>
<p>— Uma moça negra, bonita, escultural, — eu disse.</p>
<p>— Não sei de moça nenhuma, — ele disse. — O senhor quer ouvir outro poema?</p>
<p>— Seu Ataliba, — eu disse. — O senhor é um poeta, e os poetas são pessoas especiais. Têm elevada consciência do que é certo e do que é errado. Por isso não tenho medo de revelar ao senhor, em estrita confidência, é claro, a razão da minha vinda ao seu edifício.</p>
<p>Seu Ataliba sentou-se para ouvir o que eu tinha a dizer.</p>
<p>— O Dr. Manfredo, — eu disse, — é um homem sem nenhuma sensibilidade, só quer saber de dinheiro e poder. Mas a esposa é uma mulher refinada. Gosta de poesia, e até escreve uns versos. E talvez o senhor não acredite, seu Ataliba, mas é tal o desprezo do Dr. Manfredo pelo gosto da esposa por poesia que ele diz que poesia é lixo, é desperdício de tempo, é coisa de veado.</p>
<p>— Oh! — disse seu Ataliba, horrorizado. — Será que ele acha que eu sou veado? Eu mato o filho da puta!</p>
<p>Percebi que me excedera. Tentei corrigir o erro tático:</p>
<p>— O senhor não, é claro. Toda regra tem exceção, e até o Dr. Manfredo sabe que paraibano veado nasce morto.</p>
<p>— Isso mesmo, — ele concordou. — E poesia de veado é bem diferente da minha. Minha poesia é poesia de cabra macho.</p>
<p>— Pois então, — eu disse. — Mas aqui vim em nome dessa senhora refinada que é a infeliz esposa do Dr. Manfredo. Ela tem razões pra crer que o marido esteja usando o apartamento 602 deste edifício pra se encontrar com a amante, uma moça negra chamada Renée, que o senhor afirma, porém, que nunca viu. E olha que essa moça é muito bonita. Muito bonita e, cá entre nós, muito gostosa. Dificilmente o senhor deixaria de notá-la.</p>
<p>— Alto lá, — ele disse. — Em primeiro lugar, não tenho nenhuma predileção por negras, que só gostam de sambar e de rebolar. Em segundo lugar, sou absolutamente fiel à poesia. Não olho duas vezes pra uma mulher, meu amigo. Por isso, se eu estou sentado aqui nesta mesa fazendo uma poesia e chega uma pessoa e pede licença pra tocar o interfone de um apartamento, e uma voz lá de cima diz que é pra subir, a pessoa sobe e eu volto à minha poesia, e um minuto depois já nem lembro mais se quem subiu era homem, mulher ou criança, nem se era negro, branco, verde ou amarelo. Se o Dr. Manfredo, por exemplo, não quer que eu repare nessa moça, basta chegar antes dela ao apartamento e mandar que suba quando ela tocar o interfone.</p>
<p>— O senhor é um verdadeiro intelectual, — eu disse. — Resolveu o enigma com brilhante inteligência. Não sei o que faria sem sua ajuda. Só não sei se me poderá ajudar em outra coisa, mas lembre-se que ajudando a mim está, na verdade, ajudando à esposa do Dr. Manfredo, a quem represento aqui nesta missão.</p>
<p>— Que outra coisa? — ele quis saber.</p>
<p>— Preciso entrar no apartamento 602, — eu disse.</p>
<p>Seu Ataliba deitou um olhar adunco sobre mim e por um momento pensei que fosse me escorraçar dos seus domínios. Em vez disso, abriu de novo a gaveta da mesinha. Temi que tirasse dali outro poema. Não: tirou dali uma chave, que depôs sobre a mesa, e aí sorriu para mim um sorriso de triunfo.</p>
<p>— Sirva-se, — ele disse.</p>
<p>— É a chave do 602? — perguntei.</p>
<p>— Claro que é, — ele respondeu. — De quinze em quinze dias minha mulher faz a faxina do apartamento.</p>
<p>— Seu Ataliba, — eu disse, — o senhor é um homem de expediente e de caráter. A esposa do Dr. Manfredo ficará eternamente grata ao senhor.</p>
<p>— Trata-se de uma alma gêmea, — ele disse, — e bem posso imaginar o que ela sofre nas mãos de um homem como o Dr. Manfredo.</p>
<p>— Então posso subir? — perguntei.</p>
<p>— Deve de subir, — ele disse.</p>
<p>Aí ergueu-se da cadeira e me escoltou até o elevador. Abriu a porta para mim e, metendo dentro metade do corpo, apertou o botão do sexto andar. Mantive a porta entreaberta para dizer-lhe:</p>
<p>— Seu Ataliba, hoje é sexta-feira, por isso não tem chance do Dr. Manfredo aparecer. Mas sejamos previdentes. Se ele aparecer, ou alguém por ele, o senhor faça o favor de me interfonar imediatamente pra não me pegarem de calças curtas.</p>
<p>Ele acenou com a cabeça. Percebi pelo brilho de seus olhinhos que estava saboreando todo o fel de sua vingança contra o Dr. Manfredo. Bem feito. Quem manda o safado do auditor não entender de poesia sertaneja.</p>
<p>* * *</p>
<p>O piso do corredor era revestido de cerâmica vermelha. Havia apenas dois apartamentos por andar. O 602 ficava à esquerda; era, portanto, o apartamento de frente e dava para a Rua Azevedo.</p>
<p>Enfiei a chave na fechadura e girei duas vezes. A porta se abriu com um estalo agudo e seco. Entrei. Pelo sim, pelo não, retirei a chave e guardei-a no bolso da capa. Dois metros de corredor conduziam a uma sala extensa, tanto mais extensa porque não havia ali móvel nenhum: nem uma cadeira para remédio. O piso era de tacos de madeira; alguns deles jaziam frouxos em seu leito. Cheguei até à janela, afastei as cortinas e olhei para fora. Na esquina, um sobrado antigo, dos anos trinta ou quarenta, se tanto, pintado de cor de rosa, renegara todo seu passado residencial para alojar as instalações comerciais de Aninha Noivas. Olhando para baixo, enchi os olhos com a folhagem verdoenga das árvores da rua. Olhando para a esquerda, enchi os olhos com a luxuriante paisagem vegetal do parque. No fundo, em frente, por entre os edifícios da Rua 23 e por cima dos armazéns do cais do porto, pude discernir um retalho de mar, composto por água da baía de Vitória.</p>
<p>Confesso que estava decepcionado com o Dr. Manfredo. Cadê os confortáveis sofás e as opulentas almofadas? Cadê os felpudos tapetes persas? Cadê a porra da longa mesa de refeições, mais a sua ninhada de cadeiras? Cadê a porra do bar com toda espécie de bebida e apetrechos para preparar um drinque? Cadê, sim, cadê, nas paredes, as telas de artistas pelo menos medianamente celebrados, capazes de angariar no mínimo dois mil reais por tela no mercado de arte de Vitória? Cadê as porras da televisão e do vídeo, onde assistir a umas fitas pornô para esquentar as turbinas da libido? Cadê, por que não, o cd-player e os cds de música erudita — Vivaldi —, de jazz — Miles Davis —, de rock — Rick Wakeman —, de mpb — Elis Regina? Aquela sala me parecia mais estéril do que uma tenda de beduíno, mas confiei, quem sabe, que encontraria tudo isso no aconchego de um dos cômodos mais de dentro.</p>
<p>Voltei sobre os meus passos e abri a porta à direita. Vi-me num corredor estreito, com três portas à esquerda e duas à direita, todas fechadas. Abri a primeira à esquerda. Era a cozinha. A bancada da pia estava lá, e o interfone, mas não havia fogão, nem geladeira, nem tampouco um filtro de água. Passei a uma diminuta área de serviço. À direita ficavam um tanque e um banheiro. À esquerda, o quarto de empregada, um cubículo totalmente vazio. Embaixo do tanque é que vi sinais de vida e habitação: alguns frascos de detergente e pacotes de sabão em pó, que a digna esposa de seu Ataliba devia usar em suas faxinas quinzenais.</p>
<p>Voltei ao corredor e abri a segunda porta à esquerda. Era o banheiro, todo ele preservado do jeito que fora construído na década de sessenta: lavatório, banheira, vaso, bidê, e um chuveiro protegido por uma cortina de plástico num tom verde aguado com motivos de praia de crianças: baldinhos, pazinhas, estrelas do mar, conchas e peixinhos. Abri o armário sobre o lavatório. Abri e sorri meu sorriso detetivesco para situações de descobertas especiais. Pois havia ali, além de algumas côdeas inocentes de sabonete Dove, uma nada inocente bisnaga de K-Y*: gel lubrificante da Johnson &amp; Johnson: para lubrificação íntima: solúvel em água, transparente, não gorduroso: peso líq. 50g. A validade expirava em abril de 2003, mas a bisnaga já estava pedindo outra. Olhei meu rosto no espelho e gostei do que vi: estava iluminado não só pelo sorriso mas pelo sentimento de que o caso começava a se encaminhar para o melhor dos desfechos: a culpa conjugal. Aquilo era insofismável evidência contra o canalha. E evidência que, cá entre nós, contava uma história de insatisfação doméstica. O Dr. Manfredo, vedado o acesso ao distinto ânus de Dona Maristela, recorria ao cu da amante para dar vazão à sua tara de auditor contábil.</p>
<p>Deixei o banheiro e abri a primeira porta à direita. Era um dormitório, e estava vazio, mas tinha um armário embutido que cobria a parede de fora a fora. O armário se dividia em dois compartimentos estanques, cada um deles com duas portas. Abri ambos os compartimentos e todas as gavetas em cada compartimento, mas não vi sinal de coisa alguma, suspeita ou insuspeita. Coisa alguma. Alto como sou, não tive dificuldade em abrir os maleiros, que não estavam trancados a chave. Bastou depois um ligeiro salto no ar para certificar-me de que tampouco ali havia coisa alguma.</p>
<p>A porta seguinte, à direita, deu acesso a outro dormitório. Também estava vazio, e igualmente vazio o armário embutido, de que vasculhei conscientemente todos os espaços e gavetas. Senti uma ponta de desaponto. Esvaiu-se parte da euforia propiciada pela feliz descoberta da bisnaga de KY*. Eu queria mais itens de evidência, e itens de evidência, se os havia, minha última chance de encontrá-los estava no cômodo de fundos.</p>
<p>Se é assim, vamos lá. Saí do segundo dormitório e, com pé direito, penetrei no terceiro e último, aquele único dos três que ficava do lado esquerdo do corredor.</p>
<p>* * *</p>
<p>Cadê os confortáveis sofás e as opulentas almofadas? Cadê os felpudos tapetes persas? Cadê a porra da longa mesa de refeições, mais a sua ninhada de cadeiras? Cadê a porra do bar com toda espécie de bebida e apetrechos para preparar um drinque? Cadê, sim, cadê, nas paredes, as telas de artistas pelo menos medianamente celebrados, capazes de angariar no mínimo dois mil reais por tela no mercado de arte de Vitória? Cadê as porras da televisão e do vídeo, onde assistir a umas fitas pornô para esquentar as turbinas da libido? Cadê, por que não, o cd-player e os cds de música erudita — Vivaldi —, de jazz — Miles Davis —, de rock — Rick Wakeman —, de mpb — Elis Regina?</p>
<p>Sim, cadê? Pois a alcova estava tão vazia quanto os demais cômodos do maldito apartamento, vazia, vazia, vazia, exceto — grandes merdas — por uma velha cadeira de imbuia no centro do quarto e uma estante para partituras musicais em frente a ela. Meu Deus do céu, exclamei. Será que o filho da mãe vem a este apartamento só para praticar flauta ou violino?</p>
<p>Senti vontade de dar um bico na cadeira e uma rasteira na estante e atirá-las longe. Mas logo me pus a mim mesmo em brios. O que é isso, Teodomiro? O que é isso, Senhor Reis? O que é isso, Falcão velho de guerra? Você está incorrendo no mesmo erro que fez perder vários de seus colegas. Você entrou neste apartamento com uma idéia preconcebida e se recusa a aceitar o fato de que os fatos não se ajustam a essa idéia; insiste em tentar meter a peça cilíndrica no orifício quadrado. Não dá, rapaz, não dá.</p>
<p>Avancei até a janela. Espiando por entre as cortinas descortinei os apartamentos dos fundos do edifício e, mais à direita, o velho casarão histórico que na pia batismal recebeu o nome de Vila Oscarina, hoje relegado a abrigar uma clínica de repouso e tratamento de doentes mentais.</p>
<p>Ali, de pé, prossegui de mim mesmo para mim mesmo meu raciocínio. Você estava certo de achar aqui um apartamento montado para sacanagem clandestina, mas encontra o quê? Um ambiente mais nu e limpo e estéril que o de um mosteiro. Mas em que que isso, pensa bem, inocenta necessariamente o Dr. Manfredo? Do avaro que se negou a ajudar a locomoção do pobre Ataliba não é de esperar avareza também quanto ao ambiente semanal em que encontra a amante? Além do mais, embora a estante de partituras não se enquadre em nenhuma teoria pertinente, pode-se muito bem comer um cu numa cadeira de imbuia. Sem esquecer a banheira, sem esquecer o chuveiro. Provavelmente era ali na cadeira que se iniciava e lá no banheiro que se desdobrava a putaria do Dr. Manfredo com a vagabunda da Renée. E, como evidência, não bastava o tubo de K-Y*? Para que suntuosos leitos de dossel cobertos com colchas de tafetá? O tubo de K-Y* continha, já e ainda, gel suficiente para lubrificar o divórcio de Dona Maristela.</p>
<p>Nisso, vi movimento humano na área de serviço do apartamento do quinto andar. Apareceu ali uma negra alta, de blusa de malha branca e sucinto short vermelho, que, de costas para a janela indiscreta do 602, pôs-se a fazer algum afazer diante do tanque. Era uma mulher gostosa, com uma pletora de peitos, pródiga bunda e coxas soberbas. Talvez não chegasse aos pés da tal Renée, que, vista em sonho por Dona Maristela, merecera o reparo de que tinha formas, como se diz, esculturais. Talvez não atraísse a atenção do Dr. Manfredo, mas não seria um pobre e fodido detetive particular como eu que a desprezaria. Aí, automaticamente, segui um dos meus métodos dedutivos elementares e inverti a conjetura, para ver a cara de sua antítese: ou será que atrairia, sim, a atenção do Dr. Manfredo? A hipótese pareceu-me à altura da arguta equipe da Agência Falcão Negro. Quem sabe não havia, afinal, um caso entre a gostosa do 501 e o Dr. Manfredo Lelevel? Isso explicaria à perfeição por que seu Ataliba nunca vira entrar no prédio nenhuma negra misteriosa nas quartas-feiras à tarde: ela já estava dentro do prédio: morava lá: bastava-lhe, na calada da tarde, escapulir do quinto para o sexto andar e cair nos braços sôfregos do seu amante dublê de auditor contábil.</p>
<p>Fiquei ali, durante algum tempo, devassando a alma da devassa o mais fundo que pude, convencendo-me cada vez mais que uma — ou a — possível solução achava-se ali bem diante dos meus olhos. Aí a suspeita deixou o tanque e começou a estender uma blusa amarela no varal da área. Lembrei-me de um verso que lera em algum velho poema: Icem bandeira amarela que a bordo há peste. Embora, para ser sincero, essa peste que o Dr. Manfredo contraíra bem que eu gostaria de contrair também.</p>
<p>Despeguei-me do meu posto de voyeur antes que fosse visto pela mais que provável Renée. Já podia apresentar à minha cliente uma teoria sólida. Agora era deixar o tempo correr até quarta-feira para então preparar o palco para o flagra triunfal. Já estava até propenso a ir embora quando me dei conta de que não fizera a vistoria do armário. Não deixar pedra sem virar nem armário sem abrir é uma das normas investigativas de que nunca abro mão.</p>
<p>Um dos dois compartimentos do armário mostrou-se vazio em todas as suas gavetas e espaços, exceto por uma pilha de toalhas de banho de variadas cores, coisa que considerei mera prova circunstancial de que os amantes tomavam banho após o enlace, por questões de higiene e, no caso do Dr. Manfredo, de precaução: já pensou chegar em casa na ilha do Boi cheirando a Renée? O outro continha um fator diferencial que recebi com boas vindas: uma escrivaninha embutida. Tive um frisson de esperança. A porta da escrivaninha abria para fora e dobradiças mantinham-na suspensa no ar. Diante de mim revelou-se uma série de escaninhos e gavetinhas. Meus olhos e minhas mãos atiraram-se a eles com avidez. Em vão. Os escaninhos estavam vazios, e nas gavetinhas encontrei dois clipes de papel.</p>
<p>— Seu filho da puta! — Não me contive. Minha ira não tinha nada a ver com o caso em si: afinal, a descoberta da bisnaga de K-Y* e a perspectiva do flagra na próxima quarta-feira já prenunciavam o triunfo das forças do bem. Mas custava ao Dr. Manfredo deixar ali uma carta de amor escrita e assinada por Renée? Ou então, se isso era pedir demais, custava deixar ali alguns objetos pessoais, algumas folhas de papel com anotações, alguns recibos de restaurante, alguns extratos de banco, alguma mensagem cifrada, coisas assim, que fazem a felicidade de um detetive particular? Custava, seu filho da puta? Mesmo que não levassem a lugar nenhum, seriam alimento para as minhas faculdades de detecção, e me dariam o conforto de merecer os honorários que Dona Maristela estava me pagando.</p>
<p>Aí, para finalizar o trabalho e ir embora daquele antro de frustração, abri as gavetas sob a escrivaninha. A primeira estava, lógico, vazia. A segunda, não.</p>
<p>Havia ali um exemplar da revista Playboy.</p>
<p>Havia ali um exemplar da revista Playboy.</p>
<p>Havia ali um exemplar da revista Playboy.</p>
<p>Tripliquei a frase para dar uma idéia do meu desmedido assombro. Pois assombrado fiquei, primeiro porque achara mais um objeto no árido deserto daquele apartamento, e segundo porque era um objeto sobremodo pertinente ao caso, devido ao seu alto teor de erotismo. Mas como se encaixaria na tese perfeita do affair entre o marido infiel e a Renée do 501? Talvez nem sempre Renée pudesse subir na hora marcada para o encontro, e o amante usasse a revista como consolo na espera e como prelúdio do prazer. De qualquer forma, achei que devia dar uma revista na revista. Talvez, quem sabe, contivesse algumas linhas manuscritas que pudessem reforçar nosso caso contra Manfredo Lelevel. Assim, não perdi tempo: estendi a mão, catei o objeto e fui sentar-me na cadeira para examinar-lhe o conteúdo.</p>
<p>Primeira coisa que fiz foi segurar o objeto pelo dorso e sacudi-lo, na esperança de que caísse dentre as páginas algum papel incriminador. Não caiu porra nenhuma. Pus-me, então, a revistar a revista.</p>
<p>Era um exemplar — por sinal bastante manuseado — da edição brasileira de outubro de 1990. Naquela época, ao que tudo indicava, o nu frontal não chegara ainda às capas das revistas. Uma loura que achei insossa e que portanto era insossa ocupava todo o centro da capa, vestida num boustier de miçangas azuis e numa canga, também azul, que a um leigo como eu pareceu feita de celofane. Letras vermelhas e pretas anunciavam-na, alternadamente, como Andréia Setter, a nova sensação da TV Manchete, nunca jamais se viu uma sereia assim. De ambos os lados da moça insossa mais uma multidão de letras pretas e vermelhas disputavam o espaço para anunciar o diversificado conteúdo da revista. Na altura do cotovelo direito da loura, num box que não media mais que 3&#215;4, havia a foto do rosto de uma negra. Sobre o box estava escrito: Playmate do ano. Renée Cholmondeley. E embaixo: A mulata que enlouqueceu os americanos.</p>
<p>Não quis deter-me em mais nada. Com asas nos dedos, folheei as páginas da revista até dar com a matéria que vinha precisamente ao caso: &#8220;Estudo em ébano&#8221;. Eram seis páginas de fotos. Na primeira a tal Renée punha à mostra, ambos nus, rosto e busto, e, não só nua mas nua em pêlo, uma basta cabeleira negra e encrespada. Na segunda, ela aparecia sentada ao contrário — à la Christine Keeler — numa cadeira, com os longos braços apoiados no encosto, um dos peitos pendendo maciço de perfil, e a bunda intrépida ultrapassando os limites do assento. Na terceira usava uma outra cadeira como montaria. Fora fotografada de frente, com um longo véu vermelho transcorrendo-lhe da coxa direita ao ombro esquerdo para dali cair-lhe sobre as costas. A posição expunha-lhe, no pólo sul do torso, a fiação hirsuta do púbis. Dividiam irmãmente o espaço da quarta página duas fotos menores. Uma delas mostrava novamente rosto e busto de Renée, de perfil, e o cabelo drapejando como uma bandeira pirata colhida pelo sopro agressivo do próprio deus Éolo. Na outra Renée meio que se erguia do leito, de costas, sobre as palafitas de braços e pernas, atirando a cabeça para trás, o que fazia jorrar-lhe sobre e além dos ombros o cachoeiro crepuscular dos cabelos. Nas duas últimas páginas, Renée voltava ao seu envolvimento amoroso com a primeira cadeira, debruçando-se sobre o encosto e fincando no assento um dos joelhos, o que permitia uma visão generosa da bunda e uma entrevisão dos pêlos que lhe forravam o eixo de Vênus. Nessa foto, virando o rosto para mim e lançando-me um olhar de sedução, parecia sussurrar, entre os lábios rubros, uma única palavra: Vem.</p>
<p>Estava eu imerso na platônica contemplação da amante alheia quando o interfone tocou. Tomei um susto tão grande que a revista me caiu das mãos. Corri à cozinha para atender. A voz de seu Ataliba percutiu sertaneja em meu ouvido, abafada e afobada:</p>
<p>— Sai daí, depressa! Ele está subindo!</p>
<p>Deus do céu! Que teria acontecido para que o filho da puta do Manfredo Lelevel quebrasse uma rotina de dez anos e invadisse o seu apartamento numa tarde de sexta-feira? Mas não havia tempo para especulação. Saí da cozinha feito um petardo, corri à alcova, guardei a revista onde a tinha descoberto, fechei gaveta e portas do armário e ouvi o estalo agudo e seco da porta da sala que se abria. Acuado, enfiei-me no outro compartimento do armário, encolhendo-me como pude, em posição fetal, no fundo do espaço destinado à guarda de calças compridas. Ficou aberto um dedo de fresta, suficiente para ver, a meias, a cadeira em repouso, parda, no centro do quarto.</p>
<p>O Dr. Manfredo entrou sem demonstrar suspeita de nada. Vi-o passar diante do armário num terno cinza impecável, ouvi-o abrir as portas do outro compartimento, e puxar a gaveta onde o esperava, toda desnuda em suas formas esculturais, sua musa negra, Renée Cholmondeley. Com a revista em posse da mão, vi-o sentar-se à cadeira de imbuia. Não deu à loura insossa da capa a menor bola. Fiel, foi direto às páginas mais à frente, domicílio do seu objeto de desejo. Folheou essas páginas, detendo-se demoradamente em cada uma delas. Deu alguns suspiros. Murmurou o nome dela: Renée, Renée, Renée. Aspirou, num sibilo excitado, alguns fios de ar entre os dentes. Arfou e ofegou de êxtase.</p>
<p>De súbito ergueu-se, pousou a revista sobre a cadeira e desapareceu. Ouvi alguns ruídos no banheiro. Daí a pouco ele voltou. Vinha pelado de corpo inteiro e trazia na mão a bisnaga de K-Y*. Vi-o tirar a tampa da bisnaga e untar com gel ambas as mãos. Aí acomodou a revista, como uma partitura, na estante, e começou a tocar o seu instrumento. Não quis invadir tanta intimidade. Abaixei a cabeça para não ver mais nada. Não tive, porém, como não ouvir, do começo ao fim, o concerto solitário em lá maior do Dr. Manfredo Lelevel.</p>
<p>* * *</p>
<p>O Dr. Manfredo levou mais de uma hora naquilo. Quando acabou de tocar, deixou-se estar ainda algum tempo, lânguido, sentado na cadeira. Depois, por fim, ergueu-se, abriu o armário, guardou a revista e se retirou para o banheiro. Ouvi o som de água corrente correndo. Esperei chinês. Foi um banho demorado. Finalmente o Dr. Manfredo se deu por lavado a contento e fechou a torneira. Escoou-se mais algum tempo, que deduzi o Dr. Manfredo levou para vestir o seu disfarce de auditor contábil e marido de Maristela Lala. Aí saiu pelo corredor assoviando desafinado. Ouvi o som da porta fechando.</p>
<p>Exumei-me a fórceps do meu exíguo jazigo. Sentia o corpo todo dolorido: ossos e músculos. Fiz alguns alongamentos, estalei articulações, e pelo estado da nuca previ que só dormiria aquela noite à base de analgésico. Mas o caso estava elucidado. Era só decidir o que dizer a Dona Maristela Lelevel, ou melhor, como.</p>
<p>Saí do apartamento levando comigo o exemplar da revista Playboy e a bisnaga de gel lubrificante K-Y*. Já não podia predizer que o Dr. Manfredo não retornaria antes da quarta-feira, pois ele havia quebrado o padrão estabelecido por ele próprio. Mas eu queria mais é que ele se fodesse, se por acaso voltasse e não encontrasse mais nem a amante à sua espera nem a bisnaga a seu dispor. O calhorda merecia todo tipo de sofrimento físico e moral. O que ele fazia ali era manter uma pobre coitada em cárcere privado para fins da mais sórdida baixaria.</p>
<p>Lá embaixo seu Ataliba estava inquieto. Tranqüilizei-o:</p>
<p>— Não se preocupe, ele não sentiu nem o cheiro de minha presença no apartamento.</p>
<p>— Graças a Deus, graças a Deus, — ele exclamou. — Mas me diga uma coisa: a negra safada estava lá com ele?</p>
<p>— Estava, sim, — eu disse.</p>
<p>— Chegou antes dele ou depois?</p>
<p>— Já estava lá esperando por ele, — eu disse.</p>
<p>— E ela viu o senhor?</p>
<p>— Pode-se dizer que sim, — eu disse, evocando o rabo de olhar de Renée sobre mim.</p>
<p>— Então estou ferrado, — ele disse. — Vou perder o meu emprego.</p>
<p>— Não vai não, — eu disse. — Ela está do nosso lado. Ela também é uma vítima do Dr. Manfredo.</p>
<p>— Então esse homem é um cabra da peste vagabundo como nunca vi outro igual, — ele disse. — O que ele merece é ser capado com uma peixeira cega.</p>
<p>— Há muitas formas de capar um homem, — eu disse. — Por isso, volte à sua poesia e não queira tomar nenhuma atitude, seu Ataliba. Quem vai resolver o que fazer é a esposa, que é a parte ofendida. Aliás, quero agradecer-lhe mais uma vez em nome dela. E tenho certeza de que ela gostaria que o senhor aceitasse este pequeno agrado.</p>
<p>Tirei da carteira uma nota de cem. Ele sacudiu a cabeça, constrangido.</p>
<p>— Não, não, não, — ele disse. — Não fiz nada por dinheiro, fiz por justiça.</p>
<p>— Como é que nós poderemos recompensá-lo, então? — perguntei, reunindo Dona Maristela e a mim no seio do mesmo pronome.</p>
<p>— Quer mesmo recompensar-me? — ele disse.</p>
<p>— Sim, claro, — eu disse.</p>
<p>— Peça à madame que me ajude a publicar um de meus livros, — ele disse.</p>
<p>Pensei um segundo e disse:</p>
<p>— Seu Ataliba, tenho uma sugestão melhor. Procure o Senhor Porfírio Eylau na Agência Ajax de Produções Literárias, que ele resolve o seu problema.</p>
<p>Num pedaço de papel escrevi o endereço da Agência Ajax e o nome de Porfírio Eylau.</p>
<p>— Este senhor vai publicar o meu livro? — disse seu Ataliba, esperança toldando-lhe o rosto em vez de iluminá-lo.</p>
<p>— Seu Ataliba, se o Senhor Eylau não publicar o seu livro, ninguém mais no mundo o publicará.</p>
<p>— Meu amigo, o senhor ainda não me disse o seu nome, — cobrou ele. — Me diga, por obséquio, que faço questão de escrever um poema sertanejo, particular, confidencial, brasileiro, em homenagem ao senhor.</p>
<p>— Meu nome é Luís de Almeida, — eu disse. E desejei-lhe boa tarde e me mandei para o porto seguro da minha sala no Edifício Pongal.</p>
<p>* * *</p>
<p>Do escritório telefonei para o celular de Dona Maristela.</p>
<p>— Dona Maristela?</p>
<p>— É o senhor, Senhor Reis? Tenho uma coisa pra lhe dizer.</p>
<p>— A senhora sonhou de novo com Renée.</p>
<p>— Como é que o senhor adivinhou?</p>
<p>— Eu não adivinhei, minha senhora, eu deduzi. Não sou adivinho, sou detetive.</p>
<p>— Desculpe, — disse ela. — E o senhor tem alguma coisa pra me informar?</p>
<p>— Tudo, — respondi. — O caso está encerrado.</p>
<p>— Cedo assim? — ela disse, quase como se o lamentasse.</p>
<p>— Eu não tenho por costume enrolar os meus clientes, — eu disse. — A senhora tem como vir até meu escritório hoje ainda?</p>
<p>— Mas já são quase seis horas, — ela disse. — Daqui a pouco meu marido vai chegar em casa e vai estranhar se eu não estiver lá nem aqui.</p>
<p>— Dona Maristela, — eu disse, — qual o problema? Deixa seu marido estranhar.</p>
<p>— Tem razão, — ela disse. — Vou chamar um táxi imediatamente.</p>
<p>Passei o tempo de espera folheando a revista Playboy, lendo uma coisa aqui, outra ali. Coisa que envelhece cem anos em dez é revista masculina. Havia uma entrevista, por exemplo, com um certo João Santana, que parece ter sido na época um pica grossa do governo federal e que hoje o que será? Dez mulheres tiradas a formadoras de opinião davam opiniõezinhas — patéticas de tão mofadas — sobre transar por telefone. E até Machado de Assis estava presente na revista, dando pitaco num comercial de moda com a vai ver pior frase de sua carreira: &#8220;Existem pessoas elegantes e pessoas enfeitadas.&#8221; Quanto às modelos e atrizes que desfilavam por ali exibindo lugares tão comuns como mamas, bundas e bucetas, sou muito mais a minha namorada Mônica do que todas elas juntas, inclusive Renée Cholmondeley.</p>
<p>Não levou meia hora Dona Maristela chegou ao meu escritório. Vinha tão distinta como da primeira vez, ou mais ainda.</p>
<p>— E então? — ela disse, assim que se sentou à minha frente.</p>
<p>Notou a revista em cima de minha mesa e franziu o róseo lábio diante do que supôs fosse não uma peça de evidência criminal mas uma amostra da minha vulgaridade de detetive particular. Tirei então do bolso da capa e, com um dedo suave, empurrei na direção dela a bisnaga de K-Y*. Ela teve um estremecimento.</p>
<p>— Ele também usa isso com ela? — exclamou, furiosa.</p>
<p>— Pode-se dizer que sim, — respondi.</p>
<p>Aí abri a revista na primeira página do estudo em ébano, virei a revista para ela e disse:</p>
<p>— Esta é a amante de seu marido. Renée Cholmondeley.</p>
<p>Ela olhou com atenção para a moça negra e nua e exclamou:</p>
<p>— É a mulher que vi no meu sonho!</p>
<p>Aí passou com fúria as páginas da revista, da primeira à sexta, que continham o célebre estudo fotográfico da mulata que enlouqueceu os americanos. Seis segundos depois atirou de volta sobre a mesa a revista; que deslizou sobre o tampo, caiu da borda da mesa e veio tombar sobre meu baixo ventre. Pousei-a de novo sobre a mesa e abri-a de novo nas páginas 128 e 129.</p>
<p>— O senhor os flagrou juntos? — ela perguntou.</p>
<p>— Dona Maristela, — eu disse, — seu marido se encontra toda quarta-feira com esta mulher que aí está. Bem entendido: com a imagem dela nesta revista.</p>
<p>Ela levou dez segundos pra entender.</p>
<p>— O senhor quer dizer, — ela disse, empurrando a cadeira para trás e levantando-se quase fora de si, — que Manfredo alugou esse apartamento pra bater dez anos de punheta?</p>
<p>Escandalizou-me a falta de classe de Dona Maristela, mas perdoei, devido às circunstâncias, todas elas atenuantes.</p>
<p>— Exatamente, — confirmei. Ela se sentou de novo. Pediu um copo d&#8217;água. Levantei, abri o frigobar — meu escritório tem um frigobar —, havia ali um derradeiro copo de água mineral. Trouxe-lhe. Ela tentou retirar a tampa, mas tremiam-lhe a mão e as unhas. Pedi licença e retirei a tampa por ela. Ela tomou um gole, depois enfiou um comprimido na boca e tomou outro gole. A garganta saudou o comprimido com um glut.</p>
<p>Aí contei-lhe, o mais sucintamente que pude, a minha visita ao Edifício Prócyon e ao apartamento 602. Ela não deixava de menear a cabeça a cada ponto mais escabroso. Mas tinha reassumido, como uma segunda pele, a antiga distinção.</p>
<p>— Há uma coisa que falta explicar, — ela disse. — Se esse caso, digamos, de onanismo tem dez anos, por que só agora, depois de tanto tempo, é que eu vim a sonhar com essa moça?</p>
<p>— Como é que era, — eu disse, — o último verso daquele poema? &#8220;E dormindo meus sonhos se abraçam nos teus.&#8221; Era assim? Pois aí está a explicação. Se só agora a senhora começou a sonhar com Renée deve ser porque só agora seu marido começou a sonhar com ela também.</p>
<p>Ela tomou outro gole d&#8217;água. Esperei que deglutisse as implicações do que eu havia dito. Ela fez um esforço para sorrir e conseguiu. Era mesmo uma executiva.</p>
<p>— O senhor não quer dizer, — ela disse, mantendo o sorriso à força no lugar, — que meu marido está apaixonado por essa piranha.</p>
<p>— Não sei, — eu disse. — Só sei que ele não agüentou ficar mais de dois dias longe dela.</p>
<p>Dona Maristela puxou a revista para si e analisou criticamente as seis fotos de Renée.</p>
<p>— Acha bonita essa moça, Senhor Reis? — perguntou.</p>
<p>— Permite-me usar de sinceridade, Dona Maristela? — perguntei.</p>
<p>— Naturalmente, — ela disse.</p>
<p>— Prefiro a senhora a ela, — eu disse, usando a regência castiça do verbo preferir. — Digo isso, claro, inocuamente, porque tenho uma namorada a quem faço questão de ser fiel.</p>
<p>Ela me olhou fixo, sem sorrir e sem corar.</p>
<p>— Não sei se acredito ou não, — ela disse.</p>
<p>Não deixei passar incólume a ambigüidade:</p>
<p>— Não acredita que prefiro a senhora a Renée ou que eu seja fiel à minha namorada?</p>
<p>Sua resposta foi abrir a bolsa e tirar de lá o talão de cheques.</p>
<p>— Quanto lhe devo?</p>
<p>— Por um dia de trabalho? — exclamei. — Já me considero pago. Nem precisei subornar o porteiro.</p>
<p>— Faço questão, — ela disse, de novo executiva.</p>
<p>Aí preencheu, com sua galante Parker 51, outro cheque de mil reais, que deixou sobre a mesa. E levantou-se. E disse, estendendo a mão:</p>
<p>— Adeus, Senhor Reis.</p>
<p>Apertei-lhe a mão.</p>
<p>— Acho que não devo perguntar o que a senhora pretende fazer, — eu disse.</p>
<p>— Realmente, não, — ela disse. — Nem precisa. Basta adivinhar o sonho que tive a noite passada.</p>
<p>— Dona Maristela, — eu disse, — eu não sou adivinho, sou detetive.</p>
<p>Ela fez um gesto que queria dizer: Então não posso fazer nada. Girou para ir, mas girou de volta.</p>
<p>— Já ia esquecendo, — disse ela. E, apossando-se da revista Playboy e da bisnaga de gel lubrificante K-Y*: — Acho que estes objetos me pertencem. Manfredo e eu somos casados em comunhão de bens.</p>
<p>E foi embora, toda distinta, sem nem olhar para trás. Olhar para trás para quem? Para quê?</p>
<p>Esqueci até de perguntar se queria uma carona para a ilha do Boi.</p>
<p>E ainda bem que esqueci.</p>
<p>Dona Maristela Lala Lelevel não foi feita para circular por aí na porra de um Chevette.</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; IV. Reunião de projeto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 18:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Telefone tocou quatro vezes antes de atenderem. — Agência Ajax de Produções Literárias, boa tarde, Mônica falando, — disse Dona Mônica. A voz viçosa, a voz florida, a sumarenta voz. — Boa tarde, Dona Mônica, — eu disse. A voz perdeu viço, perdeu sumo, pétalas perdeu; virou fria, seca: — Ah, é você, — disse [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Telefone tocou quatro vezes antes de atenderem.</p>
<p>— Agência Ajax de Produções Literárias, boa tarde, Mônica falando, — disse Dona Mônica. A voz viçosa, a voz florida, a sumarenta voz.</p>
<p>— Boa tarde, Dona Mônica, — eu disse.</p>
<p>A voz perdeu viço, perdeu sumo, pétalas perdeu; virou fria, seca:</p>
<p>— Ah, é você, — disse a filha da puta.</p>
<p>Sim, era eu, e que fizera eu pra merecer tanta friagem? Ou não era nada de pessoal comigo? Ah. Já sei. Amorosa Dona Mônica estava esperando telefonema do namorado, o inefável Teodomiro Reis. Então era isso? Ardi de raiva. Juro que rosnei, em pensamento: &#8220;Qual é, sua vadia, meu telefonema é puramente profissional; eu digo a que venho, você responde o que couber, e tchau e bênção.&#8221; E a seguir, sem rosnar, mas ainda em pensamento: &#8220;Pelo visto, o Sr. Eylau deve continuar encagaçado em Barra de São Francisco. E você, sua vadia, aproveita pra regar e adubar a cifra da conta telefônica da agência.&#8221; E por fim, dando conta, em pensamento, de uma saborosa emoção: &#8220;Que bel-prazer tratar Dona Mônica assim devidamente de vadia — sua vadia —, ainda que em pensamento.&#8221;</p>
<p>— Sou eu, sim, minha musa, — eu disse, em tom mavioso. — Aposto que o Sr. Eylau ainda está em Barra de São Francisco.</p>
<p>— Ele está aqui, — ela disse, pra minha surpresa. — Quer falar com ele?</p>
<p>— Não necessariamente, — eu disse, contornando a surpresa. Que teria eu pra dizer a esse estrupício? Só liguei mesmo foi pra jogar sedução fora com Dona Mônica; pra ouvir-lhe a voz viçosa, a voz florida, a sumarenta voz.</p>
<p>— Mas ele quer falar com você, — disse Dona Mônica. Ouvi um silêncio; senti, com minha audição canina, com minha canina imaginação, a pele macia da patinha de Dona Mônica tapando, do outro lado da linha, o bocal do telefone. Do lado de cá da linha, dei-lhe um beijinho sonoro bem na palma da mão.</p>
<p>— Que estalo foi esse? — disse, do outro lado, a voz do Sr. Eylau. — Um beijo?</p>
<p>É demais, cara. O filho da puta veio falar comigo no próprio aparelho de Dona Mônica; devia estar zanzando na saleta dela quando liguei.</p>
<p>— Não, não, — apressei-me a dizer. — É que estou palitando os dentes, aí fiz esse ruído de estalo, foi só isso.</p>
<p>O Sr. Eylau, empresário de alto gabarito, passou imediatamente aos negócios:</p>
<p>— Li o seu relatório, — ele disse. — Quero uma reunião de projeto com o senhor sem falta ainda hoje. Estarei livre às 17:47. Seja pontual.</p>
<p>E mais não disse nem me deu tempo de perguntar. Ou melhor, não me deu tempo de inventar um compromisso inadiável no mesmo horário, tipo audiência em juizado de pequenas causas ou final de campeonato de porrinha em Gurigica de Dentro, coisas assim. Ou melhor, não me deu tempo de porra nem de porrinha nenhuma. Simplesmente desligou, empresarial, bem na cara do meu ouvido. Fiquei com o fone pulsando tu, tu, tu, tu, na mão, e olhei-o censor, como se fosse dele a culpa do Sr. Eylau ter desligado no meu focinho. Aí interessei-me em aproveitar, à falta do que fazer, pra contar os orifícios cavados no bocal e no auscultador. Meu aparelho é antigo. O bocal tem vinte e cinco orifícios. Daí examinei o auscultador e contei ali apenas oito orifícios — um a menos que os mictórios, que têm nove. O que significa essa injusta distribuição de orifícios? Filosofei: Falamos mais do que ouvimos? Ou ouvimos melhor do que falamos? Aí, pousando na base do telefone o enigma insolúvel, entreguei-me ao destino: Bem, já tenho programa pro final de tarde.</p>
<p>Eram 14:15 e eu estava em meu escritório, o que quer dizer, estava em minha casa. É onde, além de viver e morar, também trabalho. Preparei um suco de maracujá, bom contra stress, e me entreguei todo corpo e todo alma à revisão de texto que me tinham contratado pra fazer.</p>
<p>Sim. Ganho a vida, ou uma parte substancial dela, fazendo revisão de textos. Não já disse isso antes? Acontece que sou mais ou menos amigo pessoal de um sujeito que é mais ou menos editor de livros em Vitória. Certamente o leitor ou a leitora já viu algum livro com a marca de um passarinho de bico vermelho voejando na capa, na contracapa, na lombada. É a marca da Bico de Lacre Editores, a editora em questão. Esse meu mais ou menos amigo e editor chama-se Djalma Smee, vulgo Barrica, mas vou logo avisando que ele odeia ser chamado pelo apelido, vira bicho, a menos que seja alguém de quem tenha medo (a mulher, por exemplo) ou de quem contemple tirar dinheiro. Aí ele sorri aberto. Se há muito dinheiro em vista, então, chega mesmo até o extremo de exclamar: Barrica, sim, ao seu dispor!</p>
<p>Eu o chamo de Djalma. Ele é bem conhecido no meio empresarial de Vitória como proprietário da Desentupidora e Higienizadora Clean, que, conforme anúncio nas páginas amarelas do catálogo telefônico, executa limpeza de fossas, filtros, sumidouros, caixas de gordura, caixas d&#8217;água, sisternas (sic) e esgostos (sic: não fui eu que fiz a revisão do anúncio) e desentupimento de pias, ralos, vasos, tanques, colunas, manilhas e tubulações em geral. A Bico de Lacre é digamos o braço literário da desentupidora, e consolida um velho xodó do empresário pela poesia. Por conta disso, de vez em quando Djalma Barrica organiza uma coletânea de crônicas, ou de contos, ou de poesia, ou até de crônicas, contos e poesia, tudo junto e atravessado, e tira uma graninha honesta de cada participante e me dá um troco pra fazer a revisão das provas. Ele faz questão, editor solidário, de estar presente em todas as coletâneas, seja como poeta, seja como apresentador. Como poeta, e não vai aqui nenhuma bajulação gratuita, Djalma sempre se destaca como autor dos piores poemas de cada coletânea, e olha que cada qual dos demais autores também dá tudo que pode pra ser reconhecido como tal; já como apresentador, contenta-se em assinar um texto mambembe que me paga por fora pra escrever. De vez em quando edita, pra variar, um livro de autor individual. Nesse caso, de duas, uma. Se o livro é dele próprio, a edição é feita com recursos do Projeto Rubem Braga, a lei municipal de apoio à cultura, que o xodó de Djalma Barrica pela poesia não chega ao extremo de fazê-lo aplicar um centavo de seu bolso em produtos invendáveis. Se o livro é de outro beletrista, a edição se faz com subsídios do próprio autor, a partir de orçamento editorial astronomicamente inflado. Folgo em dizer que a Bico de Lacre, que existe há uns cinco anos, já pode exibir um seleto catálogo de quase trinta títulos; à edição de todos eles, posso dizer com orgulho, dei minha contribuição profissional.</p>
<p>Se têm algum valor literário? Claro que não; menos que nenhum. Então, ora, direis, leitores amigos, como pode você sentir orgulho de contribuir pra perenização de trinta títulos de diarréia impressa? Defendo-me invocando a tese de certos sociólogos e historiadores, segundo os quais tudo que é impresso tem um valor, se não científico ou literário, pelo menos sociológico e histórico, porque vai engrossar o caldo que representa a produção intelectual de uma comunidade em determinado período; no qual caldo, ou no qualdo, como diria meu amigo Alfred, os estudiosos do futuro, em parte graças a gente como o editor e o revisor da Bico de Lacre, poderão mergulhar suas colheres acadêmicas pra extrair dali os elementos necessários às suas análises críticas retrospectivas sobre a história da inteligência espírito-santense na virada dos nossos séculos passado e presente.</p>
<p>Nessa tarde encontrava-me debruçado sobre as provas de mais uma edição da Bico de Lacre. O que era? O texto indigesto de uma professora de Economia da Ufes, uma mulher de trinta anos com impressionante currículo acadêmico culminando com um Ph. D. em Economia pela Universidade de Yale, e que no entanto não sabe escrever uma só frase que tenha começo, meio, fim e sentido claro.</p>
<p>Fiz a leitura atenta de duas ou três páginas, cobrindo o texto de correções em vermelho, e aí o sono bateu forte. Bocejei uma trilogia de bocejos. Cabeceei sobre as provas. Não tenho nenhuma força de vontade pra resistir a tão insidiosa sedução. Larguei a revisão em cima da mesa, armei o relógio pra despertar às 17:00 e desabei no sofá da sala.</p>
<p>Se eu ganhasse dinheiro pra dormir seria milionário. É o que faço de melhor, com a maior eficiência e perfeição, a qualquer hora, em qualquer lugar. Não levei três minutos pra mergulhar naquele éter voluptuoso que é o sono imediato. Eram 15:00. Pouco depois o despertador tocou. Talvez Einstein já tenha explicado, em termos físicos e quânticos, como é que duas horas de sono podem ter peso e gosto de quinze minutos. Saltei do sofá, corri ao banheiro, dei uma bela mijada caudalosa, calcei os sapatos e me mandei pra rua. Eram 17:07. Tinha quarenta minutos pra chegar a tempo de chegar a tempo à audiência com o Sr. Eylau.</p>
<p>Na calçada, saindo do prédio, quase dei de encontro com o desembargador Furtado.</p>
<p>— Boa tarde, desembargador, — cumprimentei.</p>
<p>— Boa, — ele disse. E passou. Sei que ele nem sabe quem sou, mas de tanto vê-lo na rua, pois mora nas proximidades, me acostumei a cumprimentá-lo. É um tipo sisudo, encorpado, pombalino, que deve ter noventa anos de idade mas aparenta oitenta e cinco, estourando oitenta e seis. Perpetrou suas literatices quando jovem e com isso, mais um milhar de sentenças judiciais, que a rigor em sua maioria nem lhe pertencem, porque as vendeu a peso de ouro, entrou pra Academia Espírito-santense de Letras. Os literatos que namoram uma vaga naquele excelso sodalício já perderam as esperanças de ocupar a vaga dele; dizem que vai durar mais do que uma dúzia dos jovens sexagenários que lá estão; dizem que é, entre o comum dos imortais mortais, a exceção incomum: o imortal imortal.</p>
<p>Moro em Jardim Camburi, ou seja, como se diz, no sul da Bahia. Peguei um ônibus que já ia saindo do ponto, que sorte, e me mandei pro centro da cidade. Cheguei ao Edifício Pongal às 17:35. Às 17:38 o elevador me depôs, solícito, no oitavo andar. Estava nove minutos adiantado, o que era tão grave quanto estar nove minutos atrasado. Encaminhei-me pelo corredor mal iluminado. Diante do escritório de advocacia onde trabalha a doce Fúlvia passei sem bater e, dobrada a esquina do corredor, sem bater passei diante da Agência Ajax; por fim, também sem bater, nem havia por quê, passei diante da Agência de Detetives Falcão Negro. Diante da janela parei, no fundo do corredor. Sem pensar em suicídio, acendi um cigarro, com o propósito de ruminá-lo em oito minutos e aí bater à porta da Agência Ajax pontualmente às 17:47. Estava ali não havia nem cinco minutos, fumando pra meus botões, quando ouvi ruídos inquietantes: ruídos de elevador parando, de porta de elevador abrindo, de passos vindo rasteiros pelo corredor. Daí a pouco um sujeito alto e comprido, vestido numa capa de chuva que lhe descia até o nível dos joelhos, dobrou a esquina do corredor e estacou diante da Agência Falcão Negro. Olhou pra mim. Vi que tinha uns bigodões de palha de aço.</p>
<p>— Esperando por mim? — perguntou ele, presunçoso.</p>
<p>— Agência Ajax, — eu disse, apontando pra porta vizinha.</p>
<p>— Por que não entra? — perguntou ele, indiscreto.</p>
<p>Em resposta, ergui no ar dois dedos e entre eles o cigarro aceso. O homem se deu por meio satisfeito, tirou do bolso um chaveiro e deslizou uma chave na fechadura. Antes de entrar, ainda me pespegou uma olhada de soslaio, como quem diz: Tou de olho em você.</p>
<p>Mais três minutos de tabagismo e joguei o cigarro numa caixa de areia suja a um canto do corredor. Caminhei até a Agência Ajax e bati à porta. Senti que o grandalhão da Falcão Negro me observava pelo olho mágico: estava mesmo de olho em mim. Dona Mônica reconheceu-me por uma fresta de porta e me pôs pra dentro.</p>
<p>Tinha largado, graças a Deus, de uma vez por todas o hábito de freira: estava linda num vestido vermelho que lhe caía às mil e uma maravilhas sobre as mil e uma maravilhas do corpo. Quanto à saleta, nada mudara ali desde a minha visita anterior: a mesma violeta sobre o arquivo, as mesmas telas nas paredes — o saco de batatas cantando ao microfone, o palácio Anchieta depois da gripe —, e a mesma visão do morro do Cabral, também conhecido como da Caixa d&#8217;Água.</p>
<p>— Estou atrasado? — eu disse, pra chamar-lhe a atenção pra minha pontualidade.</p>
<p>— O Sr. Eylau está com cliente, — ela disse, sentando-se à sua mesinha. Os óculos, a postos sobre seu narizinho arrebitado, lhe asseguravam o ar intelectual condizente com a natureza artístico-literária da Agência Ajax.</p>
<p>— Pensei que eu tivesse hora marcada com ele, — queixei-me.</p>
<p>Dona Mônica nem respondeu. Sentei-me na cadeira de palhinha e admirei-lhe os hábeis movimentos secretariais. Ela levou três minutos pra arrumar os papéis sobre a mesa, depois levantou-se, com a bolsa na mão.</p>
<p>— Com licença, — ela disse. Havia uma porta no fundo da saleta e ali ela entrou. Deu pra perceber que era um banheiro minúsculo. Deu pra especular como é que cabia ali dentro uma mulher opulenta como Mônica Vicentina Quinamor. Tudo questão de relatividade, pensei. Vai ver Dona Mônica, com todo aquele volume de peito e de bunda, não tinha peso nem consistência mais do que eu.</p>
<p>Na ausência de Dona Mônica, tive de encarar a muda violeta plantada em seu vaso de cerâmica. Fiquei ali, à espera de ouvir o som da descarga, confirmando que Dona Mônica fora dar uma mijada. O que ouvi foi baterem à porta do corredor. E a voz de Dona Mônica:</p>
<p>— Quer atender à porta pra mim, faz favor?</p>
<p>Abri a porta e dei de cara com o sujeito da Falcão Negro. Curioso. Eu teria jurado que ele usava bigodões de palha de aço, mas agora não havia nenhum vestígio deles no seu rosto eqüino. Ele empurrou a porta e foi entrando.</p>
<p>— Cadê Mônica? — perguntou, olhando-me desconfiado, como se eu tivesse alguma coisa a ver com o desaparecimento dela.</p>
<p>— Estou aqui, Tell, — cantarolou Dona Mônica, do banheiro. — Já estou saindo.</p>
<p>Tell? Guilherme Tell? Pais dão cada nome aos filhos. Enquanto eu matutava sobre o seu nome, Guilherme Tell sentou-se na minha cadeira — temi pelo que restava de palhinha no assento — e cruzou as pernas. E ficou olhando pra mim, desafiante. Resolvi peitá-lo. Levei o dedo sobre o lábio superior e toquei ali algumas vezes, interrogativo. Ele entendeu o gesto.</p>
<p>— Disfarce, meu caro, — ele disse. — Estava seguindo um cavalheiro casado que anda mijando fora do penico. Caso muito fácil, até porque a amante está colaborando conosco.</p>
<p>— A amante está colaborando? — estranhei.</p>
<p>— Afirmativo, — disse Guilherme Tell. — Ela quer foder com o casamento do cavalheiro por interesse próprio. Foi ela mesma que ligou pra minha cliente, a esposa do cavalheiro, e contou tudo. Minha cliente não acreditou. Então a Outra disse: Hoje à noite, depois que ele voltar pra casa, procura em baixo do banco do carona que você vai encontrar minha écharpe. Vou deixar lá de propósito, como prova de que tenho um caso com seu marido. Dito e feito: minha cliente achou a écharpe do jeito que a Outra disse. Agora estou no caso, pra confirmar o envolvimento. Próximo passo é o flagra.</p>
<p>— Mas que sacana, — eu disse.</p>
<p>— Quem? O marido? A Outra? A sociedade? — quis saber Guilherme Tell. — Mas não importa. Pra mim, quanto mais adultério, melhor pra minha conta bancária. Por mim, eu queria que todos os cônjuges de Vitória pusessem um monte de chifres uns nos outros. Já perdi a conta de quantos casamentos fiz desmanchar. Tem um cara que é meu cliente há três casamentos. Todas as esposas meteram chifre nele. A última, então, ninguém podia imaginar. Tem cara de anjo. Só foi desmascarada por acidente.</p>
<p>— Como é que foi? — perguntei, interessado.</p>
<p>— Vou contar, — disse Guilherme Tell. — Ela levou o amante pro motel no próprio veículo. Já estava saindo do motel quando o sujeito que vinha atrás bateu no veículo dela. Ela não quis nem saber de discutir, mas se mandou. Mas deu tempo do motorista de trás anotar a placa. Alguns dias depois, a maior coincidência. O cara viu o mesmo veículo no estacionamento de um shopping. Consciencioso, esperou pra falar com o motorista. Daí a pouco chegou o marido, que tinha saído com o veículo da mulher. O cara se apresentou, se desculpando todo, e referiu-se à batida na saída do motel. Dali mesmo meu cliente me ligou e me contratou pra um flagra.</p>
<p>— A coisa mais difícil, — eu disse, — é alguém querer pagar o prejuízo de uma batida de carro. Quando aparece alguém consciencioso, é pra acabar com o casamento do outro.</p>
<p>— O mundo é cheio de contradições, não é mesmo? — disse Guilherme Tell, com um sorriso feliz.</p>
<p>Dona Mônica acionou a descarga no banheiro e logo depois abriu a porta e saiu. Vinha sem óculos, portanto bem menos intelectual e muito mais maravilhosa. Guilherme Tell levantou da cadeira, foi até ela, segurou-lhe as mãos e deu-lhe um beijo possessivo na boca. Cara, fiquei surpreso e furioso. Talvez até, apesar da corpulência do ofensor, abrisse o verbo pra tomar satisfação contra aquele assédio sexual, mas Dona Mônica disse:</p>
<p>— Tudo bem, Amor?</p>
<p>E, dirigindo-se a mim:</p>
<p>— Este é Teodomiro Reis, meu namorado.</p>
<p>— Muito prazer, — disse Teodomiro Reis, não mais Tell mas Téo. E me apertou a mão no torno de sua manopla. Aí do bolso da camisa tirou um cartão. — Você é casado?</p>
<p>— Não, — respondi.</p>
<p>Ele hesitou um momento. Depois me estendeu o cartão.</p>
<p>— Pois fica com meu cartão assim mesmo, — disse. — Dá pra um amigo seu que seja casado. Nunca se sabe.</p>
<p>Dona Mônica explicou a Téo a minha ligação com a agência.</p>
<p>— Muito interessante, — disse Teodomiro Reis, desinteressado. E, voltando-se pra Dona Mônica: — Vamos, querida?</p>
<p>Estava com pressa: ansioso talvez por jogar com Dona Mônica uma partida de mico preto.</p>
<p>— Você pode dizer ao Sr. Eylau que eu já fui? — pediu-me Dona Mônica.</p>
<p>— Claro, — eu disse, engolindo o engulho que senti ao ver-me feito moço de recados da vadia.</p>
<p>Teodomiro Reis abriu a porta da agência, Dona Mônica saiu na frente, ele atrás. Antes de fechar a porta, o detetive piscou, filho da puta, um olho pra mim.</p>
<p>Fiquei inevitavelmente sozinho e, como diria Fernando Achiamé, na lama por amor. Ruminei com alguma bile o ato antecedente, que mal acabara de acabar mal, e tentei raciocinar. Afinal, eu já sabia que Dona Mônica tinha um namorado, e já sabia até que esse namorado se chamava Teodomiro Reis. Só não tinha visto a figura ainda, com bigode ou sem, nem podia imaginar que estivesse geograficamente situado tão perto da musa da Agência Ajax a ponto de ser vizinho de parede do banheiro da agência. O que tanto me incomodara então na experiência de ser apresentado a Téo e apertar-lhe a mão? Incomodara-me ver provada em definitivo a existência de uma criatura que, até essa maldita prova em contrário, podia ser — como aqueles amigos invisíveis que as crianças inventam — pura e inocente fantasia de Dona Mônica? Ou a existência de uma criatura que podia ser — quem dera — uma ficção criada pela moça pra incutir saudáveis ciúmes em seu pretenso e pretensioso pretendente? De qualquer modo, Teodomiro Reis era, tirando os seus bigodes, uma criatura realmente real. A mão que me apertara a mão era a mesma que usava pra afagar e afanar as delícias do corpo de Dona Mônica. Cara, isso era cru e cruel. Mas, em defesa própria, tentei ser filósofo. Afinal, Teodomiro Reis certamente não fora o primeiro a saborear, com mão, língua e pau, aquelas delícias, nem seria certamente o último. Minha vez, certa ou incertamente, um dia haveria de chegar.</p>
<p>Nisso abriu-se a porta do gabinete do Sr. Eylau e a saleta foi tomada de assalto por um forte odor de incenso. Na esteira do cheiro, como se anunciadas por ele, saíram do gabinete duas pessoas. Uma era o Sr. Eylau, que nem crescera desde a vez anterior nem se tornara mais bonito. A outra era uma mulher magra e baixa, de pele mortiça como a de um cadáver, embalsamada num vestido negro que lhe ia até os joelhos. Seus lábios estavam pintados com várias demãos de batom de um vermelho sanguinário. O Sr. Eylau vinha trocando com ela alguns arremates de conversa. Nem se dignou a cumprimentar-me nem muito menos a apresentar-me à distinta dama. Acompanhou-a até à porta, saíram juntos pelo corredor, falando ambos ao mesmo tempo. Devia ser uma cliente internacional, pra que o Sr. Eylau julgasse de bom tom acompanhá-la até o elevador, onde ela tomaria o avião pra Londres, Paris ou Nova York.</p>
<p>Voltou em questão de alguns minutos. A primeira coisa que fez, ao entrar, foi olhar pro relógio de pulso e resmungar, patronal:</p>
<p>— São 18:23. O senhor está atrasado trinta e seis minutos.</p>
<p>— Mas eu cheguei aqui pontualmente às 17:47, — aleguei em minha defesa.</p>
<p>— Não sei nada disso, — replicou ele, inflexível.</p>
<p>— Dona Mônica é testemunha, — exclamei.</p>
<p>— Onde está ela? — perguntou o Sr. Eylau.</p>
<p>— Pediu pra dizer-lhe que já foi, — respondi. Ia acrescentar: com o namorado. Mas esse acréscimo ficou preso na garganta.</p>
<p>— Não aceito uma testemunha in absentia, — decretou ele. — E não percamos mais tempo discutindo esse assunto. Aconselho-o a ser pontual da próxima vez.</p>
<p>O Sr. Eylau entrou no seu gabinete. Se ele certamente não crescera nem um centímetro nem uma polegada desde que eu o vira pela última vez, sua mesa parecia maior ainda em sua imensidão do que antes. De uma mera vareta fumegando sobre a mesa vazava o aroma de incenso que, segundo me pareceu, ameaçava tragar o mundo inteiro. O Sr. Eylau aspirou a fumaça como quem aspira o perfume de uma petúnia ou de um resedá e sentou-se. Sentei-me também.</p>
<p>— Excelente senhora, — ele disse, apontando metonimicamente pra vareta de incenso. — E muito intelectual. O livro dela vai inaugurar uma nova fase na história da Agência Ajax.</p>
<p>Cara, a dama sinistra estava mancomunada com o Sr. Eylau com objetivos de produção literária. Fiquei curioso:</p>
<p>— Com que então temos uma obra-prima no gatilho?</p>
<p>— Temos? — rebateu o Sr. Eylau. — Temos, por quê? O que tem o senhor a ver com esse projeto? Ponha-se no seu lugar, que é o de narrador de tantos graus a leste, outros tantos a oeste. Ou seja, narrador de um dos mais insignificantes projetos desta agência, e mais confusos também. Se eu pudesse cancelaria o contrato que em má hora assinei com o autor desse, desse, desse — faltou-lhe uma palavra adequada pra definir este livro, até que ela veio, como um espirro: — desse troço.</p>
<p>Aí ajeitou sobre a mesa o porta-retrato contendo a santa imagem de sua mãe, e afagou com carinho o retalho de pano negro que levava à lapela. Depois, mais calmo, disse:</p>
<p>— Essa senhora que acaba de sair daqui é nada mais nada menos que Eros Volapük.</p>
<p>Esperou que eu me desfizesse em interjeições de admiração e encantamento. Não fiz nada disso, por mais que me agradasse a idéia de agradá-lo. Não o fiz porque nunca ouvira aquele nome mais gordo antes.</p>
<p>— Não espera que eu acredite que não a conhece, — repreendeu ele. E, diante de minha cara de tacho, acrescentou: — Certamente a conhece pelo seu verdadeiro nome, Pulquéria de Souza.</p>
<p>Continuei encarando-o com a mesma cara de tacho e temi pelo meu emprego. O Sr. Eylau foi, porém, filosófico:</p>
<p>— Não posso esperar outra coisa, — regougou, e se digo regougou é porque somente ao Sr. Eylau, dentre todas as pessoas que conheço, pode aplicar-se esse verbo. E o que ele queria dizer com o que regougou era: Não posso esperar que o narrador de um mero projeto de subsolo tenha ouvido falar de Eros Volapük ou de Pulquéria de Souza.</p>
<p>— E quem que é ela? — perguntei.</p>
<p>— É uma célebre médium de Vitória, Portugal e Algarve, — ele disse. — Mas não só. É também poeta de primeira linha, tanto que pertence à Academia Feminina Espírito-santense de Letras, e aliás me fez a gentileza de confidenciar que pretende ingressar também na Academia Masculina. Além disso, tem uma loja de produtos místicos no Shopping Shopping e apresenta no canal 2 um programa chamado Fractais de Sonho.</p>
<p>— E trouxe pra agência um livro de poesia? — perguntei.</p>
<p>— Não, claro que não, — respondeu ele, com repulsa. — Poesia não vende. O que ela trouxe foi um livro de mensagens psicografadas.</p>
<p>— Sério? — eu disse.</p>
<p>— Serissíssimo, — ele disse, todo superlativo. — Belíssimas mensagens ditadas por vários irmãos desencarnados.</p>
<p>— Como? — eu disse.</p>
<p>— Irmãos já falecidos, — ele disse. — Alguns deles são pessoas famosas no Estado e até no país. Eis aqui o sumário do livro.</p>
<p>Passou-me às mãos uma folha de papel com o timbre da Fractais de Sonho, e por aí entendi que a loja mística de Eros Volapük tinha o mesmo nome de seu programa de televisão, ou vice-versa. O documento, como convém chamá-lo, continha as informações essenciais sobre o livro Mensagens sem carne. O sumário relacionava trinta e três mensagens, enviadas por dezoito espíritos desencarnados — expressão que me soou redundante —, todas elas psicografadas por Eros Volapük. Havia mensagens de personalidades históricas nacionais, como Conselheiro Barbarossa e Antônio Conselheiro, Carmen Miranda, Nelson Rodrigues, e regionais, como o presidente Jerônimo Monteiro, Vidocq Silva — entre parênteses a informação de que fora Rei Momo em Vitória em 1958 —, a pianista clássica Guilhermina Abranches e dois desembargadores, Domingos José Furtado de Mendonça e José Luís de Santa Rita Durão.</p>
<p>— Vamos ao que interessa, — disse o Sr. Eylau, tomando-me das mãos e dos olhos a folha de papel. — Li o seu relatório sobre o Projeto Leste-Oeste, e confesso que estou apreensivo. Primeiro, estou apreensivo quanto à inserção do que o senhor chama de antecapítulos e intercapítulos.</p>
<p>— Sr. Eylau, — eu disse, e pigarreei pra limpar a garganta e o cérebro. — Entendo que não convém entrar direto na história inconfessável. Tem que haver uma preparação, uma espécie de aquecimento, tanto pro narrador, que sou eu, como pro leitor, como pro próprio texto. Daí a composição dos antecapítulos, que são em número de quatro: &#8220;Capítulo de primeira necessidade&#8221;; &#8220;Freira na terça-feira&#8221;; &#8220;Capítulo que vem&#8221;; e este agora, em que nos encontramos. Esses antecapítulos relatam o advento do novo narrador, apresentando-o assim aos leitores, revelam o Clube das Terças-feiras sob a ótica de um narrador por assim dizer externalizado, e definem as linhas gerais da estratégia narrativa e estilística que será adotada pra contar a história inconfessável. Aí, sim, poderemos entrar na história com o pé direito.</p>
<p>— E os intercapítulos? — cobrou o Sr. Eylau.</p>
<p>— Os intercapítulos, como o nome o indica, — esclareci, — mantêm o contraponto, iniciado nos antecapítulos, entre as duas dimensões do texto. Ou seja, enquanto os capítulos se referem diretamente à fábula, os intercapítulos acompanham os bastidores metalingüísticos do texto. Na dimensão da fábula está o triângulo amoroso formado por Garibaldi, Maria da Penha e o Narrador Original; aí estarão também, eventualmente, os demais sócios do Clube das Terças. Na dimensão extra-fabular, ou supra-fabular, está a Agência Ajax, está o senhor, estou eu, está Dona Mônica e estão outras personagens do nosso mundo substantivo. Até que um dia os dois mundos, as duas dimensões, venham a colidir, e aí salve-se quem puder.</p>
<p>— Muito inviável, — o Sr. Eylau disse.</p>
<p>— Permita-me dizer que não é, não, — eu disse. — Poeta Homero fez isso na Ilíada e na Odisséia, ao contar a história em dois planos, o dos gregos e troianos se fodendo aqui em baixo e o dos deuses do Olimpo dando pitaco lá de cima.</p>
<p>— Bom, se Homero usou essa técnica, — ele disse, — já não está mais aqui quem falou. Mas ainda continuo apreensivo, porque Homero é uma coisa, o senhor é outra; porque uma coisa é um triângulo épico formado por Menelau, Helena e Páris, outra coisa é um triângulo metalingüístico formado por Garibaldo, Maria da Penha e o Narrador Original. Vê lá o que o senhor vai aprontar. Agora tratemos do tal caldeirão de técnicas narrativas. Não sei se isso vai funcionar. Gostaria que o senhor me desse algumas razões para a escolha de fontes tão disparatadas.</p>
<p>— Pois não, — eu disse. — Luís de Almeida eu escolhi porque escreveu um conto tendo como personagem o detetive Teodomiro Reis. É um conto ultrametalingüístico, e acho que tem tudo a ver com esta segunda parte do projeto.</p>
<p>— Quem é Teodomiro Reis? — perguntou o Sr. Eylau.</p>
<p>— É o seu vizinho da Agência Falcão Negro, — respondi.</p>
<p>— E vai entrar na história? — perguntou ele.</p>
<p>— Acabou de entrar, — respondi.</p>
<p>O Sr. Eylau meneou a cabeça, pessimista.</p>
<p>— E Raymond Chandler? — perguntou.</p>
<p>— De Raymond Chandler, é óbvio, — respondi, — pretendo retirar um pouco da atmosfera noir do romance policial americano dos anos quarenta.</p>
<p>— Romance policial? — estranhou ele.</p>
<p>— Nada mais natural, — repliquei, — já que temos um detetive na fábula.</p>
<p>— Se facilitar, — resmungou ele, — esse detetive vai tomar o lugar de Garibaldo como personagem principal do livro.</p>
<p>— Deixa comigo, — eu disse, pra tranqüilizá-lo.</p>
<p>— É aí que reside o risco, — ele disse. — E esse tal de Marcos Tavares?</p>
<p>— Marcos Tavares, — esclareci, — contribui com a presença eventual de trocadilhos ao longo do texto e sobretudo com a falta ou a dificuldade de comunicação entre os personagens.</p>
<p>— Isso não me parece preciso, — ele disse.</p>
<p>— Posso explicar melhor, — eu disse. — É como se a atmosfera noir contribuísse pra embaçar também a comunicação entre os diversos personagens.</p>
<p>— Ainda não me parece preciso, — insistiu ele.</p>
<p>— Visualize então o ambiente da história, — eu disse, — como uma torre de Babel, só que light, porque os personagens não se entendem mas não percebem que não se entendem. Está preciso agora?</p>
<p>— Meu amigo, — ele disse, — eu não estava usando o adjetivo preciso com o sentido de exato, mas de necessário. Mas o senhor me convenceu. Com um narrador como o senhor, a influência de Marcos Tavares não só é precisa como necessária.</p>
<p>— Precisamente, — concordei.</p>
<p>— Quem é o próximo? — suspirou ele.</p>
<p>— Evelyn Waugh, — respondi. — Nesse autor quero me inspirar não só quanto à satirização desmedida da sociedade, mas também, e sobretudo, quanto ao tormento a que quero submeter o Narrador Original, o mesmo a que Waugh submeteu o personagem principal do romance The Ordeal of Gilbert Pinfold.</p>
<p>— ? — perguntou o Sr. Eylau com o olhar.</p>
<p>— Quero que ele seja vítima de alucinações, — informei.</p>
<p>— Temo que eu acabe submetido a tormento semelhante, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>A essa altura senti que a estratégia do caldeirão devia estar impressionando fundo o Sr. Eylau. Quis que Dona Mônica estivesse ali, naquela hora, pra ver-me bem sucedido na inquirição inexorável do Sr. Eylau. Quem sabe se ver-me incensado pela tácita aprovação do nosso exigente superior não lhe viraria a cabecinha? Quem sabe não dispensasse sem aviso prévio o seu Sherlock em benefício de um valor mais — figurativamente falando — alto?</p>
<p>O Sr. Eylau pediu-me que terminasse o meu arrazoado o mais rápido possível.</p>
<p>— Julio Cortázar entra no caldeirão como autor dos textos encadeados de Um tal Lucas, que pretendo que dialoguem com algumas cenas da história inconfessável. José Carlos Oliveira entra não como cronista nem como romancista, mas como folhetinista de O naufrágio do Dr. Stevenson no Edgar II, já que entrevejo no nosso livro um surrealismo dietético semelhante ao que José Carlos criou nesse texto. Francisco Manoel de Melo entra como autor da Carta de guia de casados, que espero que ajude a descrever a relação conjugal de Garibaldi e Maria da Penha Gotti. A Miscelânea quinhentista de Garcia de Rezende entra como contraponto caótico-poético. Quanto a Nuno Castanheira, cortei fora. Afinal, pra que incluir esse autor mineiro entre as fontes do projeto se Francisco Grijó me apresentou a um outro autor, semelhante a Castanheira, mas muito mais refinado, e que tem sobre este a vantagem de ser capixaba? Refiro-me a Viriato Gambini. O senhor leu Reykjavik submersa?</p>
<p>— Li não, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— E Nudez na auto-estrada?</p>
<p>— Também não, — disse o Sr. Eylau.</p>
<p>— Devia ler, — eu disse. — Eu fiquei impressionado. Gambini trabalha a metalinguagem como Italo Calvino, mas as tramas dele têm mais a ver com o romance norte-americano contemporâneo, John Fante, por exemplo.</p>
<p>— E as histórias da revista Pato Donald? — perguntou o Sr. Eylau.</p>
<p>— Ah, o toucinho do caldeirão! — exclamei. — Histórias em quadrinhos como fonte intertextual de escrituras pós-modernas. Absolutamente epifânico, diria eu. O senhor notou que já comecei, ainda que timidamente, a empregar esse recurso nos antecapítulos?</p>
<p>— Notei, — disse ele. — Lembro-me especialmente de uma passagem em que o senhor escreveu que um dos sócios do clube comia e bebia como João Bafo-de-Onça.</p>
<p>— Isso mesmo, — disse eu. — Tirei a símile de uma história chamada &#8220;O tesouro de Domba&#8221;, publicada em 1953 ou 54. Agora imagine o senhor, daqui a alguns anos, quando se assentar a poeira dessa novidade, a histeria acadêmica diante da necessidade de adaptar as teorias da intertextualidade às aproximações que terei feito, no Projeto Leste-Oeste, entre Pateta e Garibaldi, por exemplo, e entre João Bafo-de-Onça e Rogério Coimbra. Quero viver pra ver! E, lógico, pra ser coroado de louros pelo rasgo criativo.</p>
<p>— Alto lá, — disse o Sr. Eylau. — Nesse caso, a agência é que seria coroada de louros, e não o senhor. Já esqueceu a renúncia de autoria estabelecida pelo artigo sexto do contrato que o senhor assinou? De qualquer modo, duvido muito que essa coroação venha a ocorrer.</p>
<p>— O senhor não gostou da sacada? — perguntei.</p>
<p>— Não posso dizer que tenha gostado, — ele disse. — Me pareceu muito infantil.</p>
<p>— No entanto, — eu disse, — há um precedente na primeira parte do projeto. No capítulo 19, pra ser mais exato. O Narrador Original se refere ali à chinamite, combustível inventado pelo Pato Donald. Foi essa referência que me deu a dica. E, se ele pôde fazê-lo, eu também posso.</p>
<p>— O senhor não pode fazer nada, — ele disse, — a não ser o que eu diga que o senhor pode fazer.</p>
<p>— Isso me lembra, — repliquei, — uma frase de José Carlos Oliveira, em que um personagem chamado Oskar diz a uma personagem chamada Anita: &#8220;Só farás o que eu ordenar, e eu ordeno que faças o que bem entendes.&#8221;</p>
<p>O Sr. Eylau fez silêncio. Sua respiração era pesada como seu pensamento.</p>
<p>— Como eu disse há pouco, — murmurou ele, por fim, — se eu pudesse eu bem que cancelaria o contrato do Projeto Três por Dois e jogaria no lixo tudo que foi feito até agora. Tenho as piores dúvidas quanto às perspectivas desse projeto, mas sou obrigado a ordenar que faças o que bem entenderes.</p>
<p>— Muito obrigado pela confiança, Sr. Eylau, — eu disse.</p>
<p>O Sr. Eylau me ofereceu uma pastilha de hortelã. Aceitei. Ele se serviu de uma também.</p>
<p>— Mas lembre-se de duas coisas — ele disse: — a primeira é que vou fiscalizar cada linha e cada entrelinha que o senhor produzir; a segunda é que o senhor só receberá pagamento quando começar efetivamente a contar a história inconfessável. Saiba que não vou pagar um centavo nem por antecapítulos, nem por intercapítulos nem por subcapítulos ou o que mais o senhor venha a inventar.</p>
<p>Cara, fiquei tão contrariado que até engoli a pastilha de hortelã. Contava como certo sair da agência com um cheque, ainda que magro, no bolso. Quis dizer alguma coisa, mas o Sr. Eylau levantou-se. Levantei-me também. Estendeu a mão. Apertei-a. Voltei-me pra sair. Aí percebi como era injusto que eu saísse frustrado no âmago do coração do bolso e que ele ficasse sentado ali aspirando tranqüilo o odor do incenso e meditando confiante sobre o livro de Dona Eros.</p>
<p>— Sr. Eylau, — eu disse.</p>
<p>— Sim? — ele disse, cortante.</p>
<p>— Não tenha muita pressa, — eu disse, — em publicar o livro de Dona Eros.</p>
<p>— Como? — ele exclamou. — O cronograma editorial da Agência Ajax não lhe diz respeito, senhor.</p>
<p>— Espere pelo menos, — sugeri, — até que morra o desembargador Furtado.</p>
<p>— Que quer o senhor dizer com isso? — ele blaterou.</p>
<p>— Quero dizer, — eu disse, com firmeza, — que o desembargador Furtado é um dos espíritos desencarnados que enviaram mensagem a Dona Eros.</p>
<p>O Sr. Eylau começou a entender o espírito da coisa.</p>
<p>— E acabei de cruzar com ele na rua antes de vir pra cá, — eu disse.</p>
<p>— Vivo? — ele exclamou.</p>
<p>— E com saúde, — eu disse.</p>
<p>O Sr. Eylau sentou-se e pousou a grande cabeça na concha das grandes mãos.</p>
<p>— Preciso pensar a respeito, — ele disse.</p>
<p>— Retificando o que eu disse acima, — eu disse, — acho que o que o senhor deve fazer é suprimir do livro a mensagem do desembargador. Não adianta esperar a morte dele: ele é imortal.</p>
<p>Saí do gabinete pra saleta de recepção. Saí da saleta de recepção pro corredor mal iluminado. Diante do elevador havia três pessoas em pé: dois homens e uma moça. Os homens, pelos ternos escuros, pelas maletas petulantes, pelo cheiro de vade-mecums, eram advogados. A moça era a doce Fúlvia: revi-lhe ali o lábio triste, o cabelo brando e anêmico. Os dois rábulas e suas maletas olharam-me com desprezo como se eu estivesse cheirando a incenso. Descemos juntos os quatro. Os rábulas falavam em acórdãos e liminares. Fúlvia e eu dividíamos o mesmo silêncio. Cutuquei-a com o olho, mas ela não reagiu. Saímos do edifício juntos os quatro. Os dois rábulas trocaram até-amanhãs com Fúlvia e se afastaram pela calçada, falando de liminares e acórdãos. Fúlvia atravessou a rua, seguiu até à avenida Florentino e juntou-se à corrente de gente que subia em direção à avenida Jerônimo. Segui-a como um ladrão à noite.</p>
<p>Eram sete e qualquer coisa. Quanta gente na calçada, quantos veículos na rua! Lá adiante, atracados ao cais de São Francisco, distraíam-se alguns navios a ver o movimento em terra. Segui a doce Fúlvia por entre a multidão ambulante até o ponto de ônibus em frente ao antigo hotel Tabajara. Ali ela parou, e no meio daquele povo todo, magricinha, quase passava por invisível. Achei que a noite podia ser que me desse coisa melhor do que o dia dera. Aproximei-me e saquei do bolso um exemplar do meu livretim, Musa do Transcol, publicado pela Bico de Lacre Editores com recursos da Lei Rubem Braga. Abordei a moça como um adolescente débil mental:</p>
<p>— Seu nome é Fúlvia, não é?</p>
<p>Ela se inteiriçou toda e apertou a bolsa contra o peito.</p>
<p>— Não se lembra de mim? — perguntei.</p>
<p>Ela apertou ainda mais a bolsa contra o peito.</p>
<p>— Descemos juntos no elevador, — rememorei.</p>
<p>Ela desviou o olhar de mim pro ônibus amarelo que vinha atracando no cais do ponto. Era um ônibus do Transcol, fazendo ali uma última escala antes de partir com destino ao Terminal de Campo Grande. O olhar dela acendeu-se numa chama de alívio.</p>
<p>— &#8216;Cença, — ela disse, passando por dentro de mim como por dentro de um fantasma.</p>
<p>Pensou que fosse escapar? Não tão fácil. Corri-lhe atrás e meti-lhe no vão entre peito e bolsa o exemplar do Musa do Transcol.</p>
<p>— Leva e lê, — sugeri; e acrescentei, já falando pras costas dela: — E depois me diz.</p>
<p>A doce Fúlvia foi arrastada pela voragem da multidão que invadiu o ônibus. Fiquei olhando pra ela com ternura. É muito tímida, pensei. Mas depois que ler meus poemas duvido que deixe de sorrir na próxima vez que bater o olho na pessoa deste poeta. Avancei no tempo, em pensamento, e já me vi sendo visto por Dona Mônica de braço dado com a doce Fúlvia; já me vi vendo o rubor de ciúme tingindo o belo rosto de Dona Mônica.</p>
<p>As portas do ônibus se fecharam herméticas sobre a multidão maciça. Já nem pude mais distinguir a doce Fúlvia no meio dos passageiros que se entrecosturavam de pé em cada polegada de espaço do ônibus. Que zarpou resoluto: próxima parada, Terminal de Campo Grande.</p>
<p>Aí que eu olhei e vi, na rua, junto ao meio-fio, na mais escarrada e cuspida das sarjetas, pisado e pisoteado por mil sapatos e sandálias, um exemplar do livro de poemas Musa do Transcol.</p>
<p>O pobre livretim dirigiu ao autor um mudo apelo de socorro. Fiz que nem o conhecia. Sim. Jazia ali tão degradado, física e literariamente, que neguei-o como Pedro negou a Cristo.</p>
<p>As baratas que o lessem.</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_74/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; IV. Reunião de projeto</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; III. Capítulo que vem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 18:36:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1. Em que o presidente preside Este é o capítulo que vem, mas só é &#8220;que vem&#8221; em relação ao capítulo anterior, capítulo que, por sua vez, em relação a este, é o capítulo que foi. Posso estender ainda um pouco mais a estéril especulação e dizer que este capítulo, o &#8220;capítulo que vem&#8221;, só [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><b>1. Em que o presidente preside</b></p>
<p>Este é o capítulo que vem, mas só é &#8220;que vem&#8221; em relação ao capítulo anterior, capítulo que, por sua vez, em relação a este, é o capítulo que foi. Posso estender ainda um pouco mais a estéril especulação e dizer que este capítulo, o &#8220;capítulo que vem&#8221;, só é realmente &#8220;que vem&#8221; enquanto não vem. Assim que vem, deixa de ser &#8220;que vem&#8221; pra ser, na melhor das hipóteses, o &#8220;capítulo que é&#8221; ou &#8220;que flui&#8221; ou, então, o &#8220;capítulo que vai&#8221;. (Algo me diz que estou me afastando do meu estilo narrativo próprio e deixando-me influenciar não sei bem por quem, talvez (será?), por Nuno Castanheira.) E quem vem neste capítulo que vai é o personagem esdrúxulo de per si, o narrador original do livro Dois graus a leste, três graus a oeste, projeto literário produzido pela Agência Ajax de Produções Literárias, sob a regência do Sr. Porfírio Eylau. O narrador original, não, o Narrador Original. Com todas as restrições que faço a ele (inclusive e sobretudo o fato de ter prejudicado o antigo testamento deste livro com sua abordagem pedante e labiríntica), serei elegante a ponto de lhe prestar a homenagem das iniciais maiúsculas. Mas isso, bem entendido, só de rara vez em quando. As mais das vezes, por conta de todas as restrições que faço a esse indivíduo (inclusive e sobretudo o fato de ter desviado o curso da história em função de sentimentos pessoais), darei a ele o tratamento que acho que merece (e que lhe dão, na sua ausência, os demais sócios do Clube das Terças-Feiras) e o chamarei expressamente de Velho.</p>
<p>E é o Velho quem aí vem, e é pra dar uma olhada nele que me reviro todo na cadeira. A figura é patética. Chama a atenção logo de tampa a barba esbranquiçada que toma conta do seu rosto esquálido, dando-lhe o aspecto de escritor russo epiléptico do século XIX. Sim, o cara é feio e esquisito, e se não é tão feio quanto o Sr. Eylau é mais esquisito do que o qual. Aí vem ele então com sua barba alvacenta, seus óculos aposto que achados perdidos no banco de um parque (no mesmo banco ou no mesmo parque em que Tio Patinhas encontra os jornais que lê), com sua camisa insípida, comprada em camelô da praça Costa Pereira, e suas calças de linho folgadonas, herdadas de pai morto há vinte anos: o defunto maior da parlenda. Aí vem ele e traz ainda, como uma segunda pele, a prepotência própria dos narradores; ou ainda não se sabe destituído e substituído, ou já se sabe mas ainda mantém a arrogância do déspota destronado. Cara, é isso aí: não vou com os cornes dele. Já vinha nutrindo alguma antipatia pelo sujeitinho só de ler a primeira parte do livro, mas juro que estava me esforçando pra ser visceralmente neutro na hora de vê-lo em carne e osso, rebaixado à condição de mero personagem do projeto. Mas como ser neutro com um sujeito desses? Um sujeito que além do mais ainda ousa se apaixonar por uma personagem da história narrada por ele próprio, sem contar que certamente pretendia usar de abuso de poder pra, mais capítulo, menos capítulo, fazer a pobre Maria da Penha ceder aos seus desejos espúrios. (Sem qualquer intenção louvaminheira, congratulo os gerentes do projeto pela atitude político-literariamente correta de lhe puxarem o tapete de sob os pés e transferir a outro mais probo e honesto a tarefa de narrar a história do jeito que deve ser narrada.) Como manter neutralidade, então, com um sujeito desses? Quero mais é que ele se foda, e aqui empenho minha palavra, palavra de narrador, que no que depender de mim ele vai é se foder mesmo.</p>
<p>O Velho passa junto à nossa mesa e roça um olho de soslaio pela figura conspícua da irmã de caridade aqui sentada. Intriga-o ver uma religiosa em lugar tão mundano, ainda mais com as belas mãos brancas enlaçando maternalmente um copo de uísque. Roça o olho também por mim, na certa se indagando quem será esse sujeito de palito na boca e que grau de parentesco ou envolvimento terá com a religiosa. Na certa, menos esperto e menos malicioso do que Deus e o Mundo, conclui que eu seja apenas o irmão da irmã. É, esse cara não sabe nada do complô em curso contra ele. Nem sonha que aqui tão junto se trama a nova ordem que fará cessar tudo que sua antiga musa canta, pois outro valor maior se alevanta. Os sócios do clube já o avistaram de longe e trocam entre si murmurações que não consigo ouvir, mas que só podem ser de caráter maledicente. Ele se aproxima, se chega, e diz:</p>
<p>— Boa noite, senhores. É aqui que está havendo uma reunião do Conselho Central Anarquista?</p>
<p>Cara, que babaca! Reunião do Conselho Central Anarquista! Não resisto e sopro no ouvido tapado da irmã de caridade:</p>
<p>— Dona Mônica, esse cara é muito indigesto. Não é porque eu vou ocupar o lugar dele não, mas o projeto estava muito mal escorado com esse cara.</p>
<p>— Discordo, — diz ela. — Acho que ele tem qualidades, tanto como narrador como pessoa.</p>
<p>— Como como, — corrijo-a, sem dó.</p>
<p>— Como?</p>
<p>— Como, não. Como como. Já esqueceu a lição? Tanto como narrador como como pessoa.</p>
<p>Em resposta ela bebe um gole acintoso de uísque. Assim vai acabar ficando alta. Que fique. Volto os olhos pro cenário do clube. Preciso acompanhar com atenção o diálogo entre os sócios do clube e o seu distinto presidente.</p>
<p>— Está atrasado, presidente&#8230; — diz Embratel. Rogério enche os dedos de pipoca e deixa pingar tudo na boca. Parece João Bafo-de-Onça comendo. Depois toma um gole de cerveja. Parece João Bafo-de-Onça bebendo.</p>
<p>— Senhores, em primeiro lugar, — diz o Velho, — presidente é Lester Young. Em segundo lugar, estou chegando mais do que em boa hora. Estive aqui terça passada, cheguei aqui às 6:05, esperei até 7:00, não apareceu nem um só outro sócio pra remédio. Garibaldi eu ainda perdôo, que nunca sabe nem que dia é, quanto mais que horas são. Mas vocês têm relógio pra quê? Esperei por vocês até 7:00 e aí fui embora. E saí tão desiludido que pensei em nunca mais botar o pé aqui. Pensei até em fechar as portas do clube e jogar a chave na baía lá do alto da Terceira Ponte. Mas depois em casa pensei melhor e aí resolvi: já que é assim, vou entrar no ritmo da maioria. Se é pra chegar atrasado, eu vou chegar às 7:15, vou chegar às 7:30, vou chegar às quinze pras oito. Até que um belo dia eu vou chegar às 8:00 e sair às dez pras oito. Ou então vou fazer igual a Marco Antonio Grijó: vou vir só pra dizer que não vou vir.</p>
<p>Senta-se o Velho entre seus pares. Pedro Nunes está tratando de devorar o seu quibe, que mais parece um cagalhão de dez centímetros. Antes de cada mordida ele borrifa sobre o topo do cagalhão algumas gotas de pimenta, que a moça trouxe pra ele num frasco. Depois de cada mordida ele toma um gole refrigerante de Coca-Cola.</p>
<p>— Está havendo muita dispersão, muita negligência, muito desleixo neste clube, — diz ele, não sei se com intenção de ironia ou de apoio moral ao presidente. — Este clube está precisando rever os estatutos.</p>
<p>— Este clube não tem estatutos, — diz o Velho. Ah, a intenção de Pedro Nunes, ainda bem, era de ironia.</p>
<p>— Este clube está em crise, — diz João Luiz.</p>
<p>— E o senhor é um dos principais responsáveis por essa crise, — diz o Velho. — Quantas vezes eu telefonei pra você, você combinou chegar aqui às 6:30 no máximo e só chegou às 7:30? E é quem mora mais perto daqui. E nem tem chovido nem nada.</p>
<p>— Se chover eu não venho nem por decreto, — diz João Luiz, peremptório. Lembro que li, no meio do cipoal produzido pelo antigo narrador, que a fobia de João Luiz à chuva é tão entranhada que atinge até seu gosto musical. Ele, que não gosta de balada, adora uma balada de John Coltrane chamada &#8220;After the Rain&#8221;.</p>
<p>— Eu sei, — diz o Velho. — Você devia é ter vergonha nessa cara. Tem medo de pisar no molhado e pegar freira?</p>
<p>A expressão me causa estranheza: pegar freira. Nunca ouvi nada parecido. Por sorte tem uma freira ao meu lado e, sendo freira, talvez conheça a expressão. É a ela que recorro:</p>
<p>— Que que ele quer dizer com pegar freira?</p>
<p>— Pegar frieira, — esclarece Dona Mônica.</p>
<p>Fui mal. Me fiz passar por surdo e por burro diante da musa da Agência Ajax.</p>
<p>— Se chover eu não venho nem amarrado, — reitera João Luiz, peremptório.</p>
<p>— Mas eu quero lhe pedir uma coisa, — diz o Velho, ainda no pé de João Luiz. — Quando você botar a mão do lado de fora da janela pra ver se está chovendo e cair um pingo na palma da sua mão, pelo menos lembre de verificar se o pingo não é do ar condicionado do vizinho de cima.</p>
<p>Chico interfere pra mudar de assunto:</p>
<p>— Você viu a freira linda que está ali, presidente?</p>
<p>— Se vi, — diz ele. — Olha, já vi muitas freiras bonitas no cinema, mas essa aí põe todas elas no chinelo.</p>
<p>— A mais bonita que eu vi foi Madre Joana dos Anjos, — diz Rogério.</p>
<p>— Muito especial, Madre Joana, — diz o Velho. Contemporâneo de Rogério, diferente de Embratel, ele sabe de quem se trata. Talvez Rogério e ele tenham visto o filme na mesma sessão, talvez sentados na mesma fila de cadeiras, sem nem se conhecerem nem preverem que um dia seriam consócios de um mesmo clube, convivas de uma mesma mesa.</p>
<p>— Muito safada, você quer dizer, — diz Rogério. — Freira quando quer dar inventa logo que está possuída. O diabo é sempre o bode expiatório de freira safada.</p>
<p>Tento ler no rosto de Dona Mônica, na estreita folha de seu rosto, o efeito de insinuação tão pesada. Será que é assim que ela age, igual a Madre Joana, quando quer dar? Será que é capaz de acusar um inocente, de botar a culpa de seu furor uterino no pobre diabo do diabo? Mas o rosto dela é uma folha em branco. O que Rogério disse parece que não é com ela.</p>
<p>— Essa Madre Joana que vocês estão falando, — diz Chico, — é daquela família de Barra de São Francisco?</p>
<p>A menção a Barra de São Francisco faz Dona Mônica erguer um sobrolho. O que é natural, já que o seu honorável patrão, o Sr. Eylau, está recolhido naqueles pagos a negócios.</p>
<p>— Chico, — diz Rogério, — muito me admira que você, um polonês, não tenha visto esse filme.</p>
<p>— Madre Joana dos Anjos, — explica o Velho, — é um filme polonês dos anos 60 sobre um episódio de possessão demoníaca em massa num convento de freiras do século XVII.</p>
<p>— Esse convento, — diz Embratel, — era a própria casa de Madre Joana&#8230;</p>
<p>— Era o próprio cu de Madre Joana, — corrige Rogério.</p>
<p>— Mas a freira mais bonita que eu vi não foi Madre Joana, — diz o Velho. — Foi Genevieve Bujold no filme Monsenhor, com Christopher Reeve fazendo papel de padre.</p>
<p>Confesso que a opinião do Velho me surpreende. Eu vi esse filme. Genevieve Bujold não faz exatamente uma freira, mas uma noviça. Muito mais rebelde que a casta noviça rebelde vivida por Julie Andrews, ela tem um caso com um padre e aparece sem hábito nem nada numa cena, mostrando pele jalne, peitos sem graça e uma moita de buço florindo no canteiro à volta da, à volta da, à volta da — Cara, que nome dar a esse sagrado objeto sem ofender olhos ou ouvidos femininos? À volta da, à volta da —</p>
<p>— Permite-me uma sugestão? — diz uma voz não sei de quem que ouço vindo não sei donde.</p>
<p>— Pois não, — respondo, com polidez. Afinal sou novato no projeto e não conheço direito ainda os macetes, os artifícios.</p>
<p>— Só que pra dar essa sugestão, — diz a voz, — vai ser preciso contar uma história.</p>
<p>— Fique à vontade, — replico. É até bom, que enquanto isso eu descanso. A voz limpa o pigarro da garganta e dá início à sua história:</p>
<p>— Era num dos anos dos anos 60, e o momento político era de eleição de Miss Espírito Santo. Nessa época o povo ainda acompanhava com o maior interesse cada etapa do concurso de Miss Brasil, desde a eleição das misses municipais e, em subseqüência, da Miss Estado, até a grande festa, transmitida pela televisão, da escolha da ilustre representante da beleza nacional. Garibaldi nessa ocasião namorava uma moça da Vila Rubim. Uma noite ele estava na casa da namorada, sentado no sofá da sala, com a namorada ao lado e a família em peso ao redor: pai, mãe, irmã, gato, cachorro, papagaio. O assunto, como em todos os lares e em todas as rodas, eram os dotes das candidatas ao título de Miss Espírito Santo. Falou-se de uma, falou-se de outra, e Garibaldi calado, mãos dadas às da namorada, sem coisa contribuir de efetivo pra conversação. Até que veio à baila uma candidata de quem ele tinha ouvido dizer que chegara ao extremo de ir ao Rio fazer o curso da Socila. Socila era um instituto, uma companhia, uma empresa, uma seja lá o que for, que amestrava as moças da época pra transformá-las em misses ou modelos.</p>
<p>— Ou em esposas pra marido rico, — acrescento eu, que ainda peguei essa época.</p>
<p>— Também, — diz a voz. — Mas então Garibaldi resolveu dar a informação como subsídio ao debate. Abriu a boca e disse: Eu ouvi dizer que essa moça fez o curso da Socila. Ou melhor, foi isso que ele pretendeu dizer, mas o que ele disse na verdade foi: Eu ouvi dizer que essa moça fez o curso da Xoxota. A palavra teve o dom de instaurar um silêncio berrante sobre a sala. Garibaldi ficou rubro que nem ferro em brasa, e a namorada, em moção de repúdio, retirou a mão do enlace da dele. Aí a irmã da namorada riu alto e disse a Garibaldi: É só isso que você tem na cabeça?</p>
<p>— E? — pergunto, já meio arrependido de ter dado trela pra essa voz misteriosa.</p>
<p>— E? — diz a voz. — E é isto que eu sugiro: que você aproveite o ato falho do jovem Garibaldi pra concluir assim a frase do parágrafo que ficou lá em cima: uma moita de buço florindo no canteiro à volta da socila.</p>
<p>A voz se cala e eu fico sem saber a quem devo a honra da sugestão bisonha. Ao visitante extraterrestre (reduzido por uma explosão a uma voz sem corpo) com quem se defrontam Mickey e Pateta na história A cidade dos autômatos? Mas ao extraterrestre como, se na seqüência da história, conforme li com meus próprios olhos, até sua voz sem corpo foi destruída numa colisão de espaçonave com meteorito desgovernado? Ou ao Narrador Original? Mas ao Narrador Original como, se ele está ali, à frente dos meus olhos, no meio de seus pares e ímpares, saboreando a lembrança de Genevieve Bujold no filme Monsenhor?</p>
<p>— Nunca comi uma freira, — diz Rogério, tristonho diante desse ligeiro senão em seu rico currículo de vida.</p>
<p>A moça do Work Chop está de novo ali a serviço do clube. Sem dizer água vai, estende ao Velho um saquinho plástico com alguma coisa dentro.</p>
<p>— Ah, muito bem&#8230; — diz Embratel. — Uma sessão deste clube só está aberta formalmente depois que chega o pé-de-moleque do presidente&#8230;</p>
<p>Não acredito e não acredito. Não acredito, primeiro, que o cara tenha pedido um pé-de-moleque como merenda; não acredito, segundo, que tenha obrigado a moça a fazer todo o percurso da lanchonete até a sede do clube só pra lhe trazer um pé-de-moleque. É muita folga e muita babaquice. Me dá engulhos vê-lo abrir o saquinho, botar pra fora uma unha do pé-de-moleque, dar uma dentada, mastigar com prazer senil aquele troço e até catar migalhas de amendoim que pingam sobre a mesa.</p>
<p>— Presidente, quais são os itens da pauta? — pergunta Pedro Nunes.</p>
<p>— Começando pelas informações gerais, — diz o Velho, — tenho a informar que virei fornecedor de droga.</p>
<p>— Sério, presidente? — pergunta Chico.</p>
<p>— Sério, — confirma ele. — Nego telefona pra mim altas horas da noite, pedindo droga pelo amor de Deus, senão vai morrer, aí eu vou e entrego a droga pelo telefone mesmo. Meu primeiro cliente foi Rogério Coimbra.</p>
<p>— Eu? — diz Rogério. Terminou de comer toda a pipoca que havia no saco de pipoca, amassou o saco de pipoca sem pipoca, enfiou na lixeira mais próxima.</p>
<p>— Você mesmo, — diz o Velho. Aí volta a falar pra mesa toda: — Esse cara me telefonou ontem, onze horas da noite, pra me perguntar se eu tinha alguma versão da balada &#8220;Smoke Gets in Your Eyes&#8221;. Aí eu disse, Rogério, pelo amor de Deus, pra essas coisas você devia telefonar pra Garibaldi.</p>
<p>— Eu já tinha telefonado pra Garibaldi, — explica Rogério. — Não estava em casa. Devia estar na casa lá da namorada dele. E eu precisava ouvir com urgência uma versão de &#8220;Smoke Gets in Your Eyes&#8221;. Qualquer versão. Estava agoniado. Quando me bate essa necessidade de ouvir uma música, eu não consigo sossegar. Tenho que ouvir a música de qualquer jeito.</p>
<p>— Eu não disse? — diz o Velho. — Igual viciado com síndrome de abstinência. O problema é que os músicos de jazz não deram muita pelota pra &#8220;Smoke Gets in Your Eyes&#8221;. Tive de puxar pela memória até lembrar de uma versão com Dodo Marmarosa ao piano. Botei a droga pra Rogério ouvir pelo telefone, e aí ele suspirou aliviado. Não precisava mais dar um tiro no coco.</p>
<p>— Gostei da versão, — diz Rogério. — Dodo toca a melodia toda certinha, depois no final consegue, com umas poucas variações, estilhaçar a melodia sem quebrá-la. Gostei.</p>
<p>— Thelonious Monk gravou essa música, — informa João Luiz. — Me lembro que ouvi num velho lp lançado no Brasil com o título The Prophet. — Aí volta-se pro Velho: — E tem uma versão também naquele cd de Charlie Mariano que você tem, com o grande pianista John Williams.</p>
<p>— Ah, é? — diz o Velho. — Nem lembrei.</p>
<p>João Luiz Mazzi conhece os cds dos amigos melhor do que os conhecem os próprios donos.</p>
<p>— Que história é essa de grande pianista John Williams, cara? — se queixa Rogério. — Grande pianista é Bill Evans.</p>
<p>— Grande pianista é John Williams, — reincide João Luiz. — E digo mais —</p>
<p>— Já sei, — diz Rogério. — Vai dizer que é melhor do que Bill.</p>
<p>— Pra mim, é, — diz João Luiz. — E aposto que pra Garibaldi também.</p>
<p>— Ouvido de um, — diz Rogério, — orelha de outro.</p>
<p>— Nem tanto, — diz João Luiz. — Ele gosta de Charles Mingus e de Eric Dolphy e eu não gosto. Eu gosto do disco de John Coltrane com Duke Ellington e ele não. E mais uma meia dúzia de onze ou doze coisas mais. Entre nossas convergências principais eu citaria gostar de Art Pepper, desgostar de Miles Davis, dar nota acima de dez ao jazz da West Coast e nota abaixo de zero aos ritmos latinos no jazz.</p>
<p>— Miles Davis, — diz Chico, fazendo careta de quem sentiu cheiro de mijo. — Não gosto desse cara.</p>
<p>— Chico, — diz Rogério, — você gosta até de harpa paraguaia, você gosta até de Rodolfo e seu acordeom. Como é que não gosta de Miles Davis? Você está sendo solidário com João Luiz e Garibaldi, é isso. Réu solidário, porque não gostar de Miles Davis é crime.</p>
<p>— Pode me prender, — diz Chico, firme, — mas eu não gosto. — Dito isso, põe a bolsa no colo, abre o zíper, retira de dentro uma garrafa de plástico, enorme, que caber não sei como coube ali dentro. Retira a tampa, leva a garrafa à boca e bebe. Enfio em Dona Mônica um olho interrogativo.</p>
<p>— É água, — diz ela. — Ele bebe água o dia inteiro, e quando sai pra rua leva um litro de água na bolsa. Se fosse comprar toda a água que bebe, ia gastar uma fortuna.</p>
<p>— Mutatis mutandis, — diz o Velho, dando uma de latinista, — quero informar aos confrades que acabo de juntar-me aos bons. Aproveitei que hoje é dia de São Valentim e finalmente fui ao Valentim.</p>
<p>— Ao Valentim Zás-trás? — pergunta Rogério, admirado. E, como ilustração, põe o dedo médio em posição fálica e faz um gesto rápido de vaivém no ar.</p>
<p>— A ele mesmo, — diz o Velho. — E você tinha razão: ele é zás-trás.</p>
<p>— Eu não falei? — diz Rogério. — Dedo fino e rápido.</p>
<p>— Dedo de moça, — diz Chico.</p>
<p>— Dedo de santo, — diz o Velho.</p>
<p>Preciso de intérprete pra esclarecer essa linguagem codificada:</p>
<p>— A quem eles estão se referindo, Dona Mônica? Ao Valentim da cantiga de roda?</p>
<p>— Que cantiga de roda, menino, — diz ela. — Eles estão se referindo ao Dr. Valentim, um urologista. Quase todos os sócios já consultaram esse médico pra fazer o toque retal.</p>
<p>Senti um arrepio no rabo. Vade retro do meu reto, Valentim.</p>
<p>— Quer dizer que perdeu o cabaço, presidente? — diz Pedro Nunes.</p>
<p>— Com muita honra, — diz o Velho. — E acho que você devia fazer o mesmo.</p>
<p>— Eu não, — diz Pedro Nunes. — Meu cu é uma fortaleza indevassável, que tão cedo esse Valentim não terá ocasião de violar com dedo duro.</p>
<p>— O meu também não, — dizem, em coro, João Luiz Mazzi e Paulinho da Embratel.</p>
<p>— Tudo veado, — diz Rogério. — É preciso ser macho pra enfrentar a dedada retal.</p>
<p>— Sim, — concorda o Velho. — É preciso ser macho pra deixar fazer do cu dedal.</p>
<p>Nisso Dona Mônica anuncia ao meu ouvido:</p>
<p>— Garibaldi está chegando.</p>
<p>
<b>2. De sapatos e travestis</b></p>
<p>Confesso que me batem no peito um tique e um taque de pura emoção diante da perspectiva de enfim conhecer pessoalmente, ainda que a distância, o meu personagem principal. José Garibaldi Magalhães aponta à esquina da alameda do sudeste. Tenho de convir que ele é exatamente como o Narrador Original o descreveu: é alto, é desengonçado, e tem longas pernas trôpegas com as quais parece caminhar por linhas tortas. Quero crer também que pareça um Dexter Gordon branco, mas esse tipo de analogia está longe, pelo menos por ora, de ser minha especialidade. Tem olhar de facínora e boca de solha ou, pra usar o termo do Narrador Original, boca de maraçapeba. Numa das mãos traz uma sacola dessas de loja metida a chique de shopping rés-do-chão. É nesses termos que ele chega à orla da mesa do clube.</p>
<p>— Presente pra Maria da Penha, Garibaldi? — pergunta João Luiz, apontando pra sacola que Garibaldi traz na mão. Vejo, ou penso que vejo, o Velho contrair o rosto, deve ter sentido uma pontada aguda de ciúme.</p>
<p>— Que pra Maria da Penha o quê, — diz Garibaldi. — Eu sou lá de dar presente pra namorada. Isso aqui eu comprei pra mim mesmo. Três cuecas, que as minhas já estão em petição de miséria. Saio de casa, ando cem metros, a cueca já está abaixo da linha da bunda, ando mais cem metros, já está quase no joelho. Aí fui ali nessa loja e pedi três cuecas no meu número. Depois que eu escolhi, a moça teve o desplante de perguntar se era pra embrulhar pra presente. Olhei pra ela assim de banda e perguntei, Tá pensando que eu sou veado, moça? Tá pensando que essas cuecas são presente pra namorado? Eu gosto de jazz, moça, sou veado não. Ela ficou troncha, pediu desculpa, disse que foi a força do hábito que fez ela perguntar se era pra presente. Pra cima de um macho histórico que nem eu! Tá pensando o quê!</p>
<p>— Por falar nisso, — diz Pedro Nunes, — você viu a força do hábito que está sentado ali naquela mesa?</p>
<p>Garibaldi despacha um olhar infra-vermelho na direção de Dona Mônica, que baixa a cabeça, pudica. O semblante de Garibaldi se ilumina. O beiço se desdobra numa reverência antes de falar:</p>
<p>— Meus amigos, temos que entrar com um mandado de segurança pra tirar essa freira do convento. É anticonstitucional uma mulher como essa guardar castidade. E se a Igreja exigir uma troca de prisioneiras, a gente faz uma vaquinha das nossas mulheres, cada um dá a que tem, e eu até me comprometo a dar de lambuja, além de Maria da Penha, a mãe de Maria da Penha. Aí a gente troca essa freira por todas elas, que duvido que a Igreja recuse uma barganha dessas. A Igreja gosta de quantidade.</p>
<p>— E nós vamos ficar sem mulher? — diz Pedro Nunes.</p>
<p>— Como sem mulher, Lady Nunes? — rebate Garibaldi. — Pra essa mulher que está aí um homem só é pouco. Tem de pedir pau emprestado, como diz Francisco Grijó. Ela dá e sobra pro clube inteiro, pode confiar.</p>
<p>Confesso que faltou pouco pra eu avançar como um tanque contra aquele clube de filhos da puta, derrubar a pontapés umas três cadeiras com os respectivos sacripantas e achatar o nariz do sem-vergonha do Garibaldi com um soco bem dirigido. Dona Mônica, apesar de um pouco alta, é quem me contém.</p>
<p>— Deixa pra lá, que nós estamos em pesquisa de campo, — murmura ela ao meu ouvido.</p>
<p>Me atenho à cadeira, ainda arfante de fúria represada. Acendo um cigarro pra amainar os nervos. Definitivamente, disfarçar Dona Mônica em vestes de freira não foi a melhor das idéias que jamais passaram pelo cabeção do Sr. Eylau. Aí, de uma das lojas à roda da praça vejo sair uma moça que vejo chamar a atenção dos sócios do clube. Ela carrega, pendente de uma das mãos, um saco plástico com a barriga cheia d&#8217;água e um peixe enferrujado nadando dentro. Pelo menos um namorado, neste dia dos namorados, vai ganhar de presente outra coisa que não cuecas.</p>
<p>— Maria da Penha, — diz Garibaldi, — tem um peixe igualzinho a esse em casa.</p>
<p>— Garibaldi, por falar em Maria da Penha, — diz João Luiz, — estou vendo que se você não deu presente a Maria da Penha, Maria da Penha bem que deu presente a você.</p>
<p>— Como é que você sabe, Lady Mazzi? — pergunta Garibaldi.</p>
<p>— João Luiz Holmes? — diz Rogério.</p>
<p>— Eu sei porque sei, — diz João Luiz. — Sei que você ganhou presente, sei que o presente foi um sapato, e sei que o sapato é esse que você está usando. Sei tudo isso porque você esqueceu de tirar a etiqueta do sapato.</p>
<p>Garibaldi levanta o pé e vê-se que esse pé está calçado num sapato novo em folha, cor de rato quando foge. Vê-se também, confirmando os dotes observatórios de João Luiz, que tem uma etiqueta de papelão de todo tamanho pendendo por um fio do sapato novo. (Com que então temos aqui outro namorado que mereceu da namorada um sapato e não cuecas de presente no dia dos namorados.) Garibaldi ergue o pé, desamarra o cadarço e retira do pé o sapato. Que ele deposita com carinho sobre a mesa do clube.</p>
<p>— Parece até uma das lanchas da empresa de Paulinho, — diz Rogério.</p>
<p>Garibaldi, depois de algum esforço, consegue desvencilhar do sapato a etiqueta, que deixa cair sobre a mesa. O Velho, de enxerido, pega a etiqueta entre os dedos e aí solta uma exclamação:</p>
<p>— Garibaldi, esse sapato foi feito de encomenda pra você! Olha só a marca: West Coast!</p>
<p>— Que coincidência, não é? — diz Garibaldi. — Maria da Penha comprou sem nem notar a marca. Quanto a mim, gostei mais da marca que do sapato. O sapato parece que tem uns ovos de pau, tipo aqueles de costureira, embutidos no solado. Quando eu ando parece até que estou pisando em ovos.</p>
<p>— João Luiz, — diz o Velho, — você que, como Garibaldi, gosta tanto do jazz da West Coast, devia pedir à sua mulher pra comprar um sapato dessa marca pra você também.</p>
<p>— Deixa ver se vale a pena, — diz João Luiz.</p>
<p>O sapato de Garibaldi ainda está em descanso sobre a mesa. João Luiz pega o sapato na mão e o leva ao ouvido como se fosse um rádio de pilha.</p>
<p>— Não quero, — diz João Luiz. — Não estou ouvindo jazz nenhum, quanto mais da West Coast.</p>
<p>E entrega o sapato a Garibaldi. Que dobra sobre o joelho uma das suas pernas de Dexter Gordon e enfia o sapato no pé. Nesse momento, brota ao lado da mesa do clube a figura de um Intruso. Brota ali todo vestido de azul, com um avental de couro negro amarrado ao pescoço e à cintura, e, braços em riste pra baixo, bate palmas pra chamar a atenção. Parece um ferreiro, mas é, aposto, o engraxate que, pelo que sei da leitura dos capítulos pregressos, costuma circular por entre as mesas do Centro da Praia à caça de freguês.</p>
<p>— Quer que engraxa? — pergunta o Engraxate, apontando pro sapato West Coast de Garibaldi.</p>
<p>— Quero não, — diz Garibaldi. — Este sapato é novo.</p>
<p>— Eu tenho graxa dessa cor, — insiste o Engraxate. — Tenho graxa de toda cor.</p>
<p>— Não precisa, — diz Garibaldi. — Ganhei o sapato hoje. Estou usando pela primeira vez.</p>
<p>— Quer eu levo, levo e trago, em confiança, — diz o Engraxate, que ou é ou se faz de surdo. — Eu fico ali na entrada do shopping. Vinte minutos tá de volta no pé.</p>
<p>— Não, não, não, — diz Garibaldi. Estou vendo o momento em que Garibaldi vai tirar o sapato do pé e dar com ele na bunda do Engraxate.</p>
<p>— Tá bom, — diz o Engraxate. — Então leva o senhor mesmo. Eu fico lá na entrada até 20:00 horas. Tô esperando.</p>
<p>Vai-se o Engraxate e, no que se vai, cruza ao largo da praça com uma mulher gostosa, gostosa só?, pra lá de gostosa, quase tão gostosa, Deus que me perdoe, quanto Dona Mônica. Ela tem longos, largos cabelos pretos, negros, que lhe caem cacheados sobre as costas brancas, e feições de mulher fatal, incluindo lábios pintados na mais fatal das cores, vermelho-sangue-derramado. O corpo é curvilíneo, e o vestido cai tão justo sobre o corpo que parece a ponto de rasgar de cima a baixo, num strip-tease geofísico. Os sócios do clube todos com olhos fúlgidos acompanham a passagem da gostosa. Todos? Não, menos Garibaldi, que raspou na moça uma olhadela e agora se curva todo pra amarrar o cadarço do sapato. Quem disse que Garibaldi é doido por mulher? A atitude dele à passagem daquele mulherão contém um alto teor de indiferença que não se espera, em circunstâncias análogas, nem de um veado, quanto mais de um mulherengo contumaz. Embratel toma um gole de chope e diz:</p>
<p>— Eu conheço essa mulher&#8230; Essa mulher é casada, de vez em quando passa aqui com o marido, mas eu acho que ela é mulher casada de programa&#8230; E eu acho também que ela bate no marido, que é um tampinha deste tamaninho&#8230;</p>
<p>— Isso porque ele reclama que ela está chegando tarde do trabalho, — diz Rogério.</p>
<p>Pedro Nunes cai em si que Garibaldi não se deixou encantar nem um pouco pelo mulherão.</p>
<p>— Garibaldi, estou te estranhando, cara, — diz ele. — Como é que você pode olhar e desolhar uma mulher dessas?</p>
<p>Embratel é quem responde:</p>
<p>— Garibaldi acha que essa mulher é um travesti&#8230;</p>
<p>— Ele acha? — diz Pedro Nunes. — Então Garibaldi está provando que não entende nem de mulher, nem de travesti.</p>
<p>— E não entende mesmo, — diz Rogério. — Lembra daquele travesti que ele levou pra um quarto de hotel pensando que fosse uma mulher?</p>
<p>— Aquilo foi um equívoco compreensível, — se defende Garibaldi. — Vocês precisavam ver que travesti! Quanto a esse troço aí, o futuro ainda me dará razão. Isso não é mulher, é travesti.</p>
<p>— Você está é doido, Garibaldi&#8230; — diz Embratel. — É uma mulher casada de programa&#8230;</p>
<p>— Nada, — diz Garibaldi, convicto. — É um travesti de programa.</p>
<p>— Isso me lembra, — diz o Velho, — aquela história que aconteceu com Evelyn Waugh.</p>
<p>— Evelyn U. O.? Quem é essa? — pergunta Rogério.</p>
<p>— Não é essa, é esse, — corrige o Velho. — Evelyn Waugh é homem.</p>
<p>— Pensei que fosse alguma líder feminista, — diz Rogério.</p>
<p>— É um famoso escritor inglês, — informa o Velho. — Autor de Furo.</p>
<p>— Se chamava Evelyn e escreveu um livro chamado Furo, — diz Rogério, já malicioso. — Não era uma drag-queen não?</p>
<p>— Não, que é isso, o cara era um escritor católico, — informa o Velho. — E esse Furo, aí, é furo de reportagem, Scoop em inglês.</p>
<p>— Já pensou, — diz Embratel, — se esse Evelyn fosse casado com uma mulher que também se chamasse Evelyn?&#8230;</p>
<p>— Pois, por incrível que pareça, — diz o Velho, — a primeira mulher dele também se chamava Evelyn.</p>
<p>— Não brinca, — diz Rogério. — A primeira mulher dele? E se separaram porque nenhum dos dois sabia quem era quem?</p>
<p>— Não, — diz o Velho. — Se separaram porque a Evelyn andou botando uns chifres no Evelyn.</p>
<p>— Fez ela de muito bem, — diz Rogério. — Não é possível que um sujeito desses fosse bom de cama. Mas o que que você ia contar sobre ele?</p>
<p>— Durante a segunda guerra, — diz o Velho, reassumindo com gosto sua condição de narrador, — Evelyn Waugh serviu nos Bálcãs, e entrou em contato com a guerrilha sérvia. O chefe dos guerrilheiros era Tito, que depois se tornou presidente da Iugoslávia, e Evelyn Waugh, que era meio doido, sei lá o que deu na cabeça dele que ele começou a espalhar que Tito era mulher.</p>
<p>— Que doideira, — diz Rogério. — O cara tem nome de mulher, escreve um livro chamado Furo, e bota na cabeça que os outros é que são mulheres.</p>
<p>— Até que um dia, — continua o Velho, — Evelyn Waugh se encontrou cara a cara com Tito, e Tito perguntou a ele: É você o inglês que vive dizendo por aí que eu sou mulher? Aí Evelyn Waugh ficou todo sem graça e parou com aquela história.</p>
<p>— Tito deve ter botado o pau pra fora e mostrado pra ele, — diz Rogério.</p>
<p>— Devia ser um pau pra toda obra pra convencer o tal do Evelyn&#8230; — diz Embratel.</p>
<p>— Mesma coisa Garibaldi&#8230; — diz Pedro Nunes. — Só vai se convencer que aquela mulher não é travesti se ela tirar a roupa na frente dele e mostrar a identidade&#8230;</p>
<p>— Se ela fizer isso, — diz Rogério, — eu também vou duvidar que ela é mulher.</p>
<p>— É travesti, — diz Garibaldi, teimoso que nem uma mula.</p>
<p>— O problema deste clube de jazz, — diz João Luiz, — é que aqui não se fala de jazz. Por isso é que está em crise.</p>
<p>— O problema deste clube de jazz, — diz Rogério, — é que aqui não se ouve jazz. Por isso é que está em crise.</p>
<p>— Pois então eu vou falar de jazz, — diz o Velho. — Nosso amigo Luiz Romero, aliás Salsa —</p>
<p>Embratel interrompe pra perguntar:</p>
<p>— Cadê Salsa, afinal?&#8230; Por que não vem mais?&#8230; Será que trancou matrícula?&#8230;</p>
<p>— Está dando aulas no curso de Letras da Ufes, — diz o Velho, — como professor substituto.</p>
<p>Por que será que me bate mal nos ouvidos essa expressão, professor substituto?</p>
<p>— Eu soube disso, — diz Rogério, que tudo sabe e muito informa. — Soube que ele dá aula pra uma turma de quarenta mulheres. Logo no primeiro dia a mulherada foi querendo se engraçar pra cima dele, ele fez questão de deixar bem claro: sou professor exigente e fiel à minha esposa.</p>
<p>— Que babaca, — diz Garibaldi. — Lady Babaca e os quarenta mulherões&#8230;</p>
<p>— Perguntaram a Salsa, quando ele era criança, — diz Rogério, — que que ele queria ser quando crescesse. Aí Salsa respondeu, sem hesitar: Eu quero é casar!&#8230;</p>
<p>— Senhores, — diz o Velho. — Vocês não querem que se fale de jazz neste clube? Pois então deixem-me falar de jazz.</p>
<p>— Fala, presidente, — diz Chico.</p>
<p>— Nosso amigo Salsa está vendendo todos os cds dele de jazz, — diz o Velho. — Aliás, todos os cds dele, todos, de jazz, de rock, de mpb, sem exceção.</p>
<p>— Está precisando tanto de dinheiro assim? — pergunta Chico.</p>
<p>— Salsa parece personagem de Chesterton, — diz o Velho. — Já esteve muito mais precisado de dinheiro do que agora e não vendeu cd nenhum. Agora, justamente porque não está mais tão precisado assim é que pôs à venda todos os cds, sem exceção.</p>
<p>Houve um silêncio geral de homenagem ao incrível bom senso do sócio ausente.</p>
<p>— Minha sala na universidade, — diz o Velho, — virou um bazar de mercador persa. O armário está abarrotado de sacolas com a mercadoria de Salsa, e de vez em quando ele me entra portas adentro com um cliente a tiracolo.</p>
<p>— A quanto ele está vendendo a muamba, Lady Prez? — pergunta Garibaldi.</p>
<p>— Preço de feira, — diz o Velho: — dez paus a unidade.</p>
<p>Garibaldi ameaça se interessar.</p>
<p>— Que que tem lá de coisa boa? — quer saber.</p>
<p>— Na maior parte, cds de guitarristas, — diz o Velho, — que Salsa, embora saxofonista, sempre quis é tocar guitarra.</p>
<p>— Se fosse guitarrista, ia querer tocar sax, — diz Rogério.</p>
<p>— Tem cds de Mike Stern, — informa o Velho, — de Mike Whitfield, de Earl Klugh, de Joe Pass, de Philipe Catherine, de Larry Coryell —</p>
<p>— Você quer dizer, eu presumo, de Lady Embratel, aqui presente? — diz Garibaldi.</p>
<p>— Ah, sim, — diz o Velho. — Dele tem dois, e um é justamente aquele que Coryell gravou com Emily Remler.</p>
<p>— Lady Embratel, tem notícias de Emily Remler? — diz Garibaldi.</p>
<p>— Não morreu? — diz Embratel.</p>
<p>— Sabe tudo sobre Emily Remler, — diz Garibaldi. Pelo que já li antes e pelo que estou vendo agora, brincar com a semelhança entre Larry Coryell e Paulinho da Embratel é o único exercício de ironia que Garibaldi jamais foi capaz de conceber e executar em toda sua vida. Logo depois diz ele pro Velho: — Pois nenhum desses músicos que você mencionou aí, nada disso me interessa, — porque nada disso é da minha época. Que que tem pra mim? Que que tem da minha época?</p>
<p>— Da sua época? — diz o Velho. — Da sua época tem Relaxin&#8217;, de Miles Davis —</p>
<p>— Me respeita, cara, — diz Garibaldi. — Eu sou o inimigo público n. 1 de Miles Davis, já esqueceu?</p>
<p>— Tem Blues Walk, de Lou Donaldson.</p>
<p>— Esse disco, — diz Garibaldi, — tem aquele parente de Lima Barreto, Ray Barretto, tocando conga. Esse disco eu pago pra não ganhar nem de presente.</p>
<p>— Tem The Bridge, de Sonny Rollins com Jim Hall.</p>
<p>— Eu vi Sonny Rollins no Rio&#8230; — diz Embratel. — Ele imitou o apito de um navio. Ele segurou a nota um tempão, assim, ó&#8230;</p>
<p>Embratel segura nas mãos um sax-tenor imaginário, compõe os lábios num círculo e começa a soprar ali uma nota grave que extrai do fundo do fole de suas entranhas: Tó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó&#8230; Dá pra notar, pela expressão do seu rosto, que ele está quase em êxtase produzindo aquele som de apito de navio. O que não é de estranhar em pessoa que trabalha no ramo de lanchas: esse é o som da baía de Vitória.</p>
<p>— Sonny Rollins, — diz Garibaldi, — nunca se dignou a pensar em mim na hora de escolher os temas do repertório dele. Só toca merda.</p>
<p>— Sonny Rollins, — diz Rogério, — já disse que não dá importância ao tema, mas ao desenvolvimento do tema. Pra ele tanto faz tocar &#8220;Now&#8217;s the Time&#8221; como &#8220;Mary tinha um carneirinho&#8221;.</p>
<p>— Até posso concordar, — diz Garibaldi. — A merda é que Sonny Rollins sempre foi o rei do calipso, e ouvir &#8220;Mary tinha um carneirinho&#8221; em ritmo de calipso é mais do que meus ouvidos delicados podem suportar.</p>
<p>O Velho insiste em anunciar a mercadoria posta à venda por Luiz Romero:</p>
<p>— Tem Natural Rhythm, com Al Cohn e Freddie Green.</p>
<p>— Freddie Green? — diz Garibaldi, torcendo ao mesmo tempo boca e nariz. — Freddie Green é o cara mais chato da história do jazz. Tocou cinqüenta anos na orquestra de Count Basie e o que fez nesse tempo todo? Só marcou ritmo na guitarra. Cinqüenta anos e nem um solo sequer. Cinqüenta anos, ainda por cima, competindo com o som do contrabaixo da orquestra. Eu quero ouvir o contrabaixo de Eddie Jones, tenho de ouvir junto aquela guitarrinha pé-no-saco metendo o bedelho no meu ouvido.</p>
<p>A moça de amarelo está de volta ao recinto do clube. Traz na mão um prato no qual se espicha, como num leito de Procusto, uma baguete quilométrica; é um sanduíche de peito de frango defumado, com maionese light, queijo prato, alface e tomate. A moça pede licença pra acomodar o prato sobre a mesa. Ouvem-se exclamações de todos os lados: Quem pediu isso? Chico, foi você que pediu isso? Quem pediu isso? Fui eu não. Mas esse é o sanduíche polonês que você gosta. Não foi você não? Então quem foi? Quem pediu isso, moça?</p>
<p>A moça sorri, e só. A identidade da pessoa que pediu aquele sanduíche irá com ela pra cova.</p>
<p>— Foi alguém que mandou um torpedo pra nós?&#8230; — diz Embratel.</p>
<p>— Isso é que é torpedo, — diz Pedro Nunes. — E, se não tem dono, comamo-lo. Dá pra satisfazer o clube todo, assim como, segundo Garibaldi, a nossa amiga religiosa também.</p>
<p>— Ei! Vão tirando a mão do meu sanduíche, — diz uma voz.</p>
<p>— Fernando Achiamé, — diz Dona Mônica, sem nem olhar pro lado de onde vem a voz.</p>
<p>3. Miss Terça-Feira</p>
<p>Fernando Achiamé é um sujeito pesado e corpulento, e no entanto desliza sobre o piso como se tivesse rolimãs nos pés. A cabeça é redonda; seu topo, pela ausência de vegetação, lembra uma calota polar; no rosto, embora sobre testa, não falta nada: tem olhos, nariz, orelhas e boca. Na boca medra, neste instante, um sorriso de quem fez travessura. Dou uma espiada em sua ficha: &#8220;Fernando Antônio de Moraes Achiamé: Colatina, 1950. Licenciado em História. Historiador. Arquivista. Ex-diretor do Arquivo Público. Ex-professor de História da Arte na Ufes. Ex-síndico do edifício onde mora. Talvez devido à sua especialização como arquivista, é obsessivo colecionador e disseminador de papéis, e adora tirar cópia de qualquer documento. Organizou a edição das Memórias do passado, do padre Francisco Antunes de Siqueira (1832-1897), para a qual preparou uma apresentação quase tão longa quanto o texto do padre. Poeta, é autor do livro Expedição diversa, que, impresso, tomou o nome de A obra incerta, em lembrança do demorado processo de edição: os cépticos davam como incerto que o livro fosse algum dia publicado. Credita-se a ele a criação da antológica expressão &#8216;estar na lama por amor&#8217;, resultado de leitura equivocada do título da canção &#8216;I&#8217;m in the mood for love&#8217;, que ele teria lido como &#8216;I&#8217;m in the mud for love&#8217;. Chegou ao jazz pelo caminho do cancioneiro popular norte-americano, donde sua reverência por cantoras como Billie Holiday e Ella Fitzgerald. Luiz Romero de Oliveira cunhou para ele o cognome de Achmed; as más línguas do clube cunharam o de noivo da praça Costa Pereira, local onde foram tiradas as fotografias depois do enlace; o presidente do clube aparece nas fotos na condição de padrinho.&#8221;</p>
<p>— Só mesmo o comilão do clube, — diz o Velho, — seria capaz de mandar um sanduíche polonês pra anunciar sua chegada.</p>
<p>— Quis fazer uma brincadeira com vocês, — diz Fernando.</p>
<p>— Pois mais um pouco e você teria perdido seu sanduíche polonês, — diz Pedro Nunes.</p>
<p>— Por que é que chamam esse sanduíche de polonês? — pergunta Fernando.</p>
<p>— É o sanduíche que o turista polonês leva de merenda, — diz Embratel, — pra comer na Place Vendôme em Paris&#8230;</p>
<p>— Chico, que é polonês mas nunca foi a Paris, — diz Rogério, — come esse sanduíche ouvindo o disco Place Vendôme, dos Swingle Singers com o Modern Jazz Quartet.</p>
<p>— Que beleza de disco, Rogério, — diz Chico. — O presente que me deu de presidente. — Aí vê que bateu em tecla perigosa. — Esse disco também era seu, Rogério?</p>
<p>— Fica tranqüilo, — diz Rogério. — Esse era do presidente mesmo.</p>
<p>— Tá chovendo à beça lá fora, — diz Fernando, de olho em João Luiz. — Tá tudo alagado, é um verdadeiro dilúvio.</p>
<p>— Você tá brincando, — diz João Luiz, que já deve estar escaldado desse tipo de brincadeira.</p>
<p>Durante todo esse tempo Garibaldi se mantém calado, espiando as unhas.</p>
<p>— Fala com os pobres, Garibaldi, — diz Fernando.</p>
<p>— Fala com os pobres o cacete, — rosna Garibaldi. O clube faz silêncio total. A luz dos refletores, se refletores aqui houvesse, se concentraria sobre os dois súbitos antagonistas. Oba. Parece que vem duelo por aí.</p>
<p>— Que que foi, Garibaldi? — diz Fernando. — Brigou com Maria da Penha?</p>
<p>— Não quero conversa com você não, seu pulha, — diz Garibaldi. Como acha que pulha é pouco desaforo pra despejar sobre Fernando, acrescenta: — Seu joaquim silvério. Seu fernandantônio. Seu noivo da praça Costa Pereira!</p>
<p>— Mas o que foi que eu fiz? — diz Fernando, com um sorriso de quem sabe muito bem o que fez.</p>
<p>— Mas o que foi que ele fez? — diz o Velho, com um mal-estar de quem não sabe.</p>
<p>— O que foi que ele fez? — diz Garibaldi. — Eu vou contar. Outro dia aí, ontem, anteontem, sei lá, eu peguei o ônibus ali na avenida Isabel, lá na cidade. Entrei, a primeira coisa que eu vi foi a cabeça desse cara lá pelo meio do ônibus. Ele estava sentado num banco ao lado de outra pessoa. Aí ele disse, apontando pra um lugar vazio num banco próximo: Senta aqui, Garibaldi, pra gente conversar. Mas nesse momento, que vejo eu num banco mais atrás: o rosto radiante da deusa de Jucutuquara!</p>
<p>— A deusa de Jucutuquara! — o Velho quase chega a babar de emoção.</p>
<p>— Minha musa inalcançável, — diz Garibaldi, com beiço lírico, — bem ali ao alcance da minha mão. E ainda por cima tinha um lugar vago ao lado dela. Foi ali que eu sentei, coração batendo disparado que nem a bateria de Gene Krupa.</p>
<p>— E aí, Garibaldi? — diz o Velho. A atenção dos demais sócios do clube também está toda pendurada no beiço de Garibaldi.</p>
<p>— Gente, — diz Garibaldi. — ela estava deusa e cor-de-rosa como sempre. Vestido diáfano cor-de-rosa, pele também cor-de-rosa, joelhinho cor-de-rosa, pezinhos nus, toda cor-de-rosa, deusa, diva, divina, caída do céu pra mim bem ali naquele bendito banco de ônibus! Aí respirei fundo e me preparei pra abordar. Não podia perder aquela oportunidade cor-de-rosa. Aí virei pra ela e disse: Moça, você está lembrada de mim? Ela olhou pra mim, senhores, e eu senti o olhar dela como uma lambida de carinho. Estou lembrada não, ela disse, e cada sílaba de cada palavra pronunciada por ela caiu em meu ouvido como uma pérola de som. Aí eu expliquei: Eu sou aquele da televisão, lembra não? Podia ser, eu achei, que ela lembrasse daquela vez que ela estava pedindo carona em Maruípe, eu parei o carro, mas tinha a filha da puta da televisão em cima do banco do carona e só deu merda. Aí ela virou o corpo na minha direção, toda interessada, e os joelhinhos dela tocaram a minha perna. Aí ela disse: Da televisão? Você trabalha na televisão? Gente, eu ia mentir. Se isso era importante pra ela, eu juro por Deus que ia mentir que mandava e desmandava na televisão. Depois eu me virava pra arranjar um emprego de diretor lá, nem que tivesse de matar uns três pra conseguir. Mas na hora que eu ia responder, alguém, algum filho da puta, se inclina sobre a deusa e diz: Menina, você se importa de sentar no outro banco pra eu bater um papinho aqui com o meu amigo?</p>
<p>Garibaldi desfere um olhar de ódio sobre Fernando, que continua com seu sorriso ligado em ponto morto nos lábios.</p>
<p>— Era esse filho da puta, — diz Garibaldi. — Era esse pentelho do diabo, esse rei dos xaropes, esse pé de alface, esse perna quebrada das bengalas. A deusa levantou, esse veado sentou e começou a falar abobrinha sobre Ella Fitzgerald. Desci no primeiro ponto pra não dar uma porrada no focinho dele.</p>
<p>— Fernando, isso não é coisa que se faça nem com o pior inimigo, — diz Rogério.</p>
<p>— Com um amigo como Achiamé, — diz Garibaldi, — ninguém precisa de pior inimigo.</p>
<p>— Que nada, — diz Fernando, inabalável em sua consciência tranqüila. — Salvei você de mentir, salvei você de matar, e salvei você de se envolver com uma mulher interesseira, que ia trocar você depois pelo primeiro pica grossa da televisão. E mais: nem achei a moça tão divina assim como você alardeia. Falta cor e falta carne.</p>
<p>— Cala o bico, serolico, — diz Garibaldi. — Quer cor, vai na Bahia. Quer carne, vai num açougue. Você lá entende da mulher dos outros, seu trombeta de sete varas!</p>
<p>Garibaldi fala rugindo, fala espumando. Daqui a pouco mais vai sair porrada na praça. Fernando entende que é preciso contemporizar.</p>
<p>— Mas olha só o que eu trouxe pra você, Garibaldi, — diz ele. Diz e exibe diante dos olhos de Garibaldi, como isca apetitosa, um cd. Que num gesto instantâneo Garibaldi arrebata da mão de Fernando. Arrebata e dá um beijo de estalo na capa do cd. Foi-se a tempestade do seu rosto, que é todo bonança.</p>
<p>— Ah, o bom disco à casa torna! — exclama ele.</p>
<p>— Que disco é esse, Garibaldi? — pergunta Chico.</p>
<p>— É Time Further Out, de Dave Brubeck, — diz Garibaldi.</p>
<p>— E por que todo esse melodrama? — pergunta o Velho.</p>
<p>— Outro dia eu dei por falta deste disco, — diz Garibaldi. — Procurei lá em casa, procurei na casa de Maria da Penha, não achei em lugar nenhum. Aí supus que tivesse emprestado a alguém do clube, mas não lembrava a quem. Perguntei a João Luiz e a Rogério, com eles não estava. Aí liguei pra esse cara. Fernando, você por acaso está com o meu cd Time Further Out, de Dave Brubeck? Olha só o que o cara me responde: Ah, é seu? Eu vi esse cd na minha estante e não lembrava de quem era, pensei que fosse meu.</p>
<p>— Foi só um lapso de memória, — diz Fernando.</p>
<p>— Garibaldi, essas coisas acontecem&#8230; — diz Embratel. — Outro dia eu pedi a um amigo meu pra devolver um cd que eu tinha emprestado a ele, ele disse: Ué, eu pensei que você tivesse me dado o cd de presente&#8230; Aí eu disse: Então me empresta&#8230;</p>
<p>— Garibaldi, essas coisas acontecem, sim, — diz Rogério. — Já aconteceu coisa semelhante com você mesmo. Uma vez eu dei a você no seu aniversário um cd de presente e no meu aniversário você me deu o mesmo cd de volta. Lembra não? Digo até o nome do cd: Undercurrent, de Bill com Jim Hall.</p>
<p>— Também, — diz Garibaldi, — esse cd é chato pra caralho.</p>
<p>Aí dá outro beijo de estalo no cd de Dave Brubeck. Aí vê, presa no dorso do cd, uma pequena etiqueta adesiva. Aí exclama:</p>
<p>— Número J-41? Que diabo é isso aqui no meu cd?</p>
<p>— Ah, Garibaldi, — diz Fernando, — eu explico. Eu pensei que o cd fosse meu, aí dei logo a ele um número identificador. É o meu cacoete de arquivista, só isso. — Retira do cd a etiqueta e diz: — Pronto. É todo seu. Agora podemos fumar o cachimbo da paz?</p>
<p>— Podemos, Lady Achiamé, — diz Garibaldi, — embora o mais correto seria eu enfiar o cachimbo da paz no seu cu. Mas tudo bem. Você ainda está me devendo a deusa de Jucutuquara, mas pelo menos meu cd eu recuperei. Esse cd significa muito pra mim. Foi o primeiro disco de Brubeck que eu comprei, e ainda tenho o lp até hoje.</p>
<p>Fernando Achiamé consegue enfiar uma cadeira entre Rogério e Embratel e puxa pra seu lado o prato com o sanduíche polonês. Lambe os beiços de gula e começa a trinchar o sanduíche com garfo e faca. Põe na boca a primeira garfada e parece que entra em transe gastronômico. João Luiz se levanta e sai da mesa sem uma palavra. Garibaldi continua a cantar loas pro disco de Dave Brubeck:</p>
<p>— A faixa &#8220;Far More Drums&#8221; tem o solo de bateria do século. Joe Morello é o baterista de jazz do século, na minha humilde opinião. O cara é foda. Pra vocês verem, dia desses cheguei na casa de Maria da Penha, ela estava sentada no chão, com headphone no ouvido, ouvindo alguma coisa na ostra. Cara, ela se agitava toda, cabeça, corpo, braços, peitos, mãos, dedos, tudo, no ritmo da música que estava ouvindo. Estava de olho fechado e a expressão do rosto dela era de uma bacante. Fiquei duas coisas: fiquei curioso e fiquei de pau duro. Quando a música terminou, ela abriu os olhos e me viu. Tá ouvindo o quê, eu perguntei. Sabe o que era? Era o cd de Dave Brubeck daquela série holandesa, Jazz Hour. Era a gravação de um concerto do quarteto feito em 1965 em algum lugar da Europa. Ela estava ouvindo uma faixa chamada &#8220;Joe&#8217;s Blues&#8221;, que é quase que só um solo de Joe Morello, mais ou menos no estilo de &#8220;Far More Drums&#8221;, só que mais longa. Estilo tribal, como diz Maria da Penha. Resumo da ópera, meus amigos: ela uma bacante, eu de pau duro, não podia dar outra: comi Maria da Penha ali mesmo no chão em homenagem a Joe Morello.</p>
<p>Observo que o rosto do Velho se tingiu de verde, sinal de que ele foi acometido de mal súbito. Não deve ser fácil pra ele, coitado, ouvir da boca torta de Garibaldi um relato desses envolvendo o objeto de sua paixão. Mas eu disse coitado? Coitado por quê? Por que deveria eu ter pena? Bem feito. Quem manda se apaixonar por uma personagem de ficção?</p>
<p>— Fernando, — diz Chico. — Eu encontrei no sebo da rua O&#8217;Reilly um exemplar do Guia do Arquivo Público Estadual feito por você. E comprei. E trouxe pra você autografar pra mim, se me faz favor.</p>
<p>— Claro, Chico, — diz Fernando. — Cadê a obra?</p>
<p>Chico põe a bolsa no colo, abre o zíper, retira lá de dentro a garrafa d&#8217;água, que põe sobre a mesa, e depois um pequeno abajur de cabeceira, que põe também sobre a mesa, e depois um vaso de planta sem planta, que acrescenta aos outros itens sobre a mesa, e depois uns dois ou três livros grossos, que idem ibidem, e depois um guarda-chuva desses que dobram e desdobram, que deita no chão por falta de espaço na mesa, e por fim um volume largo como um caderno, que passa às mãos de Fernando.</p>
<p>— Você que encapou o livro com plástico? — diz Fernando.</p>
<p>— Eu mesmo, — diz Chico. — Eu trato meus livros com muito carinho, Fernando. Livro é uma coisa muito preciosa pra mim.</p>
<p>Fernando rabisca alguma coisa na folha de rosto do livro. Chico aproveita pra beber alguns goles d&#8217;água, dando um beijo demorado na boca da garrafa. Fernando devolve o livro a Chico. Chico lê a dedicatória.</p>
<p>— Muito obrigado, Fernando, — diz ele. — Este é um livro muito importante, que eu ainda não tinha na minha coleção. Muito obrigado.</p>
<p>— Chico, não tem nenhum aparelho de som aí nessa bolsa de Mary Poppins não? — diz Rogério.</p>
<p>— Tem não, Rogério, — diz Chico.</p>
<p>— E essa tralha toda aí? — pergunta Rogério.</p>
<p>— O abajur eu levei pra consertar, — diz Chico. — Os livros eu comprei no sebo, tudo muito bom e muito barato, Rogério, não podia deixar de comprar. E o vaso eu comprei pra plantar umas mudas de violeta que eu ganhei de presente da minha vizinha de vinte e cinco anos.</p>
<p>— Uma vizinha de vinte e cinco anos te deu violeta de presente? — diz Garibaldi. — Dá em cima, Chico, dá em cima, que aí tem coisa&#8230;</p>
<p>— É Dona Deolinda, Garibaldi, — diz Chico. — Tem vinte e cinco anos que ela é minha vizinha, mas ela já passou dos oitenta.</p>
<p>João Luiz retorna ao grêmio da companhia dos amigos.</p>
<p>— Não tá chovendo porra nenhuma, — diz ele pra Fernando.</p>
<p>— Já estiou? — diz Fernando, sonso. — Quem diria, parecia que ia chover a noite toda. — Seu olho resvala até a mesa de cá e pega em cheio em Dona Mônica. Diz ele: —Ou muito me engano ou aquela freira ali está tomando uma dose de uísque.</p>
<p>— Está ali desde que chegamos&#8230; — diz Embratel. — Parece que o cara ao lado é o namorado dela&#8230;</p>
<p>— Bom, se freira já pode tomar uísque num shopping, — diz Fernando, mastigando mais um naco do sanduíche polonês, — já pode ter namorado também.</p>
<p>— Nunca comi uma freira, — diz Rogério, tristonho.</p>
<p>— Come essa aí, — diz Garibaldi. — Aproveita que ela está n&#8217;água. Se ela for igual a agrião, que só dá n&#8217;água, está em tempo dela dar.</p>
<p>— Mas lembre-se, Rogério, — diz o Velho, metendo a colher torta, — que uma freira você tem de cantar com boas maneiras, tem de cantar à moda antiga. Talvez fosse o caso de usar a cantada com que, segundo Paulo Vellozo, as donas mafaldas eram cantadas pelos dons joões de antigamente.</p>
<p>— Que cantada é essa?&#8230; — pergunta Embratel.</p>
<p>— Na verdade é uma trova, — diz o Velho. — As cantadas eram em verso naquele tempo.</p>
<p>Aí recita:</p>
<p>Senhora Dona Mafalda,<br />
Eu peço que permitais<br />
Introduza o com que mijo<br />
No por onde vós mijais.</p>
<p>A quadra faz sucesso, não admira. Pra porcos chauvinistas, lavagem fescenina. No que eles lá riem e gargalham, Dona Mônica aqui se levanta e pede licença pra ir ao toalete. Acho que está com a cabeça doída de tanta sacanagem que seus ouvidos de freira foram obrigados a ouvir durante esta mafaldada, digo, malfadada pesquisa de campo. Mas é ela se afastar e me bate um estalo de autocrítica. Que moralismo é esse? Não estou me reconhecendo. Releio na memória a quadra de Paulo Vellozo e rio. Rio ainda que tarde, e rio bem e com prazer. Sinto-me, ainda que a distância, enturmado com os sócios do Clube das Terças-Feiras; sinto-me, ainda que com um pé atrás, próximo do Velho, capaz de congraçar-me com ele. O que é, então, que deu antes em mim? Será que foi a presença de Dona Mônica em trajes de freira que me levou a assumir mentalidade carola e feminista? Se foi isso, em boa hora sua virtuosa bexiga a levou pro banheiro, em busca de um vaso onde verter sua urina benta. Assim, longe dela e de sua influência perniciosa, desfaz-se o encanto e volto a ser o que sempre fui e sempre serei, com a graça masculina de Deus: um bom porco chauvinista filho da puta e militante.</p>
<p>Rogério, que acompanhou a saída de Dona Mônica com os olhos, de repente começa a recitar um poema:</p>
<p>A mecânica dos meus olhos sobre bundas e testas<br />
realça o prazer de estar reouvindo,<br />
entre conversas e ruídos, o título da faixa,<br />
o treque, a track e o craque, o som enfim.<br />
Não existe prazer maior do que o da música<br />
e, claro, o do prazer.<br />
Tudo isso acontece em favor do jazz e da jezebel.<br />
Terças sagradas, gravadas, reveladas.<br />
Terças e quintas, sétimas e nonas.<br />
All blues.</p>
<p>— Que coisa linda, Rogério, — aplaude Chico, emocionado. — É coisa sua?</p>
<p>— Bem ou mal, é coisa minha, — diz Rogério, tomando um gole de cerveja.</p>
<p>— Vai fazer sombra a Fernando, a Pedro e a Garibaldi, os poetas do clube, — diz o Velho. As mãos de Rogério gesticulam no ar, discordando modestas do elogio.</p>
<p>— Sou poeta porra nenhuma, — contesta Garibaldi.</p>
<p>Ressurge na paisagem o Engraxate, que vem trazendo nas mãos, cheio de orgulho profissional, um par de sapatos marrons. Pára junto a uma mesa da praça onde está sentado um sujeito de pé de meia. É dele o par de sapatos levados em confiança pra engraxar e agora devolvidos cintilantes aos pés do dono.</p>
<p>— Gostei do nome Jezebel, — diz o Velho. — É nome ideal pra mulher que gosta de jazz. A bela do jazz.</p>
<p>— Mulher que gosta de jazz, — interpõe Garibaldi, — ou se chama Amy Merrill ou se chama Maria da Penha. Jezebel é nome de mulher que dá pra homem que gosta de jazz.</p>
<p>Nesse exato momento, os sócios do clube, o Velho inclusive, se mesmerizam a olhar quem passa, uma morena gostosa até dizer chega, que, ainda que me doa admiti-lo, é a mulher mais gostosa que apareceu no Centro da Praia esta noite, mais gostosa até do que Dona Mônica. Esta gostosa tem a vantagem, além do mais, de poder usar e estar usando um vestido curto e estampado, mais curto do que estampado, preso aos ombros morenos por alças finas como barbante. Vestido curto e estampado que passa a certeza de que, ali embaixo, se há calcinha, sutiã não há. Os peitos são duros, os mamilos aguçados. E como se não bastasse tanta gostosura, ela ainda exibe, no alto da omoplata direita, uma aranha tatuada. Passa a morena e as observações dos sócios do clube pululam no ar:</p>
<p>— Essa mulher tem o tipo de peito que nosso amigo Beto Freire chama de peito de Quero Beto, Quero Beto, — diz João Luiz.</p>
<p>— Coisa boa é mulher, — diz Chico.</p>
<p>— Se eu tivesse uma mulher dessas em casa, eu não viria à reunião deste clube nem pelo capeta&#8230; — diz Embratel.</p>
<p>— Se cada um de nós tivesse uma mulher dessas em casa, — diz Rogério, — o clube ia ter que fechar.</p>
<p>— Só que ela tem um andar meio esquisito, — diz o Velho.</p>
<p>— Andar meio esquisito? Quem foi o pederasta que falou isso? — diz Pedro.</p>
<p>— Foi o presidente, — diz Fernando.</p>
<p>— E eu que achei que aquela freira fosse gostosa, — diz Garibaldi. — Gostosa é essa mulher da caranguejeira.</p>
<p>— Eu sempre gostei de aranha caranguejeira, — diz Rogério.</p>
<p>A morena entra numa loja de antigüidades ali perto da praça. Os sócios do clube continuam azarando-a mesmo de longe. Na loja a moça olha uma ou duas peças antigas, faz uma ou duas perguntas, ouve uma ou duas respostas, o tempo todo consciente da admiração que crepita no grupo de estetas ali fora reunidos. Quando sai da loja, sai com as mãos vazias mas a cabeça cheia de bons pensamentos, do tipo &#8220;gostosa sou eu, quando eu passo a homarada aplaude de olho em pé e a mulherada morre dura de inveja&#8221;. Sai da loja, vira à direita e dá de cara com uma loura do caralho que vem vindo na contramão desta história. A loura está vestindo também vestido leve e folgado, tem joelhos e pernas gloriosas, e os peitos em ponta devem ser a quintessência do estilo de peito Quero Beto, Quero Beto. Por alguns segundos as duas gostosas se encaram de alto a baixo. Está em jogo entre as duas o título de Miss Terça-Feira. A morena, por fim, desvia pro lado e se afasta. Se afasta ainda cheia de si, mas um narrador astuto percebe que ela se afasta como quem engoliu em seco. Seu andar, inclusive, nota o narrador astuto, é um pouco esquisito. Parece que ela tem de agitar, a cada passo, uns guizos invisíveis presos ao calcanhar. Já a loura vem na direção da praça com uma expressão de puro alheamento no rosto, que não é suficiente pra esconder, do narrador astuto, que sua cabeça está cheia de bons pensamentos, do tipo &#8220;botei essa sirigaita no lugar dela&#8221;. A loura vem, senta-se à mesa ao meu lado, cruza as pernas suntuosas.</p>
<p>— Larguei o hábito, — diz Dona Mônica.</p>
<p>O clube está em peso de olho nela.</p>
<p>— Quem é essa mulher? — pergunta Garibaldi. — É a irmã da irmã?</p>
<p>— Bem que eu desconfiava, — diz Fernando, — que essa freira não era freira coisíssima nenhuma. Aposto que é uma atriz fazendo uma performance no shopping.</p>
<p>— Cara, — diz Embratel, — se essa mulher vier aqui toda terça, eu nunca mais falto a uma sessão do clube&#8230;</p>
<p>— Meu amigo, — diz Garibaldi a Rogério, — você é que perdeu sua oportunidade de comer uma freira. Agora não dá mais.</p>
<p>Quanto a mim, mato as saudades de ver o rosto como um todo da secretária da Agência Ajax, de ver-lhe os cabelos (se de louro legítimo ou folheados a louro, tanto faz), de ver-lhe pescoço, ombros, braços, tudo que dê pra ver. Resisto, com a ajuda de Santo Antão, à tentação de pegar a patinha macia de Dona Mônica e cobri-la de beijos alucinados. Pelo menos olho-a no olho e me declaro:</p>
<p>— Dona Mônica, foi um prazer fazer pesquisa de campo com a senhora. Mas devo admitir que o prazer teria sido bem maior se não fosse essa cambada de imbecis aí se fazendo notar o tempo todo.</p>
<p>— Mas eles são o objeto da pesquisa, — diz ela. — É sobre eles que você vai escrever. É pra isso que você está sendo pago.</p>
<p>— Estou sendo não é o tempo verbal adequado, — contesto. — Você deve dizer: É pra isso que um dia quem sabe pode ser que você seja pago. E por falar em finanças, antes que eu me esqueça, queria que você levasse isto aqui pro Sr. Eylau como prova da alta consideração que dedico à pessoa dele.</p>
<p>Tiro do bolso da camisa um papel dobrado e ponho nas mãos de Dona Mônica. Ela abre o papel e se surpreende com o que lê:</p>
<p>— Oração de Santa Edwirges para os endividados? Que diabo é isso? Que utilidade isso teria pro Sr. Eylau?</p>
<p>— Respeito a sua fidelidade pelo patrão, Dona Mônica, — é o que digo, — mas ambos sabemos que o Sr. Eylau está devendo até as cuecas. Sei ler muito bem nas entrelinhas telefônicas e em saídas de emergência como essa viagem a Barra de São Francisco. Não pense que nasci ontem.</p>
<p>— Hum, — diz ela, devolvendo-me a oração com uma sílaba nasal de desdém. — Pois reze o senhor. O meu patrão está em dificuldades, sim, mas não de ordem financeira. Está em dificuldades, digamos assim, de ordem passional. Se envolveu com uma mulher casada e o marido dela está atrás dele pra tirar satisfação.</p>
<p>— O Sr. Eylau? — me admiro.</p>
<p>— O Sr. Eylau tem muitas qualidades, — diz Dona Mônica, — mas infelizmente é um casanova incorrigível.</p>
<p>
<b>4. Coda</b></p>
<p>Assim foi a pesquisa de campo da Agência Ajax de Produções Literárias pra fins do projeto Dois graus a leste, três graus a oeste, segunda parte. Resta apenas acrescentar uma rápida coda. A moça de amarelo vem cobrar a despesa, que a Agência Ajax não tem crédito na casa. Deu catorze paus. Não consigo segurar uma exclamação: Catorze paus! Afinal quanto é que vocês cobram por um palito nessa lanchonete? O palito é de graça, diz a moça. Só cobramos o uísque. Me contorço todo dentro de mim, só de pensar que lá se vai meu rico dinheirinho. Mas Dona Mônica, não mais irmã, ainda é capaz de fazer caridade. Bota quinze paus na mão da moça e diz: Pode ficar com o troco. E pra mim: Eu sou uma mulher moderna. Gosto de pagar eu mesma aquilo que consumo. Penso em cobrar o café aziago que paguei pra ela, mas deixo pra lá. Antes morrer num café aziago do que numa dose dupla de uísque Johnnie Walker de doze anos. A conta paga sem dor, a cantora do dia dos namorados aparece na praça do Canto com seu violão peripatético e pergunta aos sócios do clube se querem pedir uma música. Garibaldi vai logo dizendo que se pedirem &#8220;My Funny Valentine&#8221; ele se retira em protesto. Os outros hesitam. Bate um branco coletivo. Ninguém tem presença de espírito pra pedir música alguma. Da outra mesa, uma loura gostosa levanta o dedo. A cantora diz: Sim? A loura gostosa diz: &#8220;Carinhoso&#8221;. Quer dedicar a alguém, pergunta a cantora. A loura gostosa diz: Quero dedicar a Teodomiro Reis, meu namorado, com um grande beijo de amor. A cantora começa a cantar &#8220;Carinhoso&#8221;. Os sócios do clube ficam todos enciumados de Teodomiro Reis, e eu, que sócio não sou, fico mais enciumado do que todos eles juntos.</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b> é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Reinaldo%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-graus-leste-tres-graus-oeste_0/">Dois graus a leste, três graus a oeste &#8211; Segunda parte: A história inconfessável, ou Garibaldi para adultos &#8211; III. Capítulo que vem</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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