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	<title>Arquivos Luiz Guilherme Santos Neves &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Luiz Guilherme Santos Neves &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Série Estação Capixaba &#8211; volume 7</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 May 2017 16:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Série Estação Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Co-edição com a Cândida Editora [Edição digital &#8211; ISBN&#160;978-85-64258-13-6]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;">
<b><a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/p/serie-estacao-capixaba/" target="_blank" rel="noopener">Co-edição com a Cândida Editora [Edição digital &#8211; ISBN&nbsp;978-85-64258-13-6]</a></b></div>
<div style="text-align: center;">
<b><br /></b></div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://www.estacaocapixaba.com.br/p/serie-estacao-capixaba/" target="_blank" rel="noopener"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt=" SANTOS NEVES, Luiz Guilherme. Escrivão da frota. Vitória: Estação Capixaba / Cândida Ed., 2017." border="0" data-original-height="1000" data-original-width="609" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/05/Capa-final.jpg" class="wp-image-5180" width="388" /></a></div>
<div style="text-align: center;">
<b><br /></b></div>
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		<title>O menino e o parque</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Apr 2017 20:48:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Parque Moscoso]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há 73 anos um menino pedalava seu velocípede na calçada de cimento da José Bonifácio. Havia nascido cinco anos antes na casa nº 1 daquela rua, sendo recebido para o mundo pelas mãos de Dona Augusta Mendes, a parteira que atendia a domicílio as parturientes da cidade antiga. Nas pedaladas que dava de um lado [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Há 73 anos um menino pedalava seu velocípede na calçada de cimento da José Bonifácio. Havia nascido cinco anos antes na casa nº 1 daquela rua, sendo recebido para o mundo pelas mãos de Dona Augusta Mendes, a parteira que atendia a domicílio as parturientes da cidade antiga.</p>
<p>Nas pedaladas que dava de um lado para o outro como velocista de velocípede, o menino se sentia um Pintacuda (esta é uma referência de época ao campeão de corridas automobilísticas) preparando-se, sem o saber, para futuras conquistas geográficas.</p>
<p>Uma delas seria a do Parque Moscoso, situado à curtíssima distância da casa onde nascera.</p>
<p>Desse tempo de infância, o menino guardaria uma de suas mais caras e recuadas lembranças quando, ao lado de seu pai, um iniciante professor de português, ambos foram ao Parque e se sentaram num banco de concreto sem encosto, reto como uma tábua, duro como uma pedra, onde o menino merendou banana prata diante de um jardim com flores de inesquecíveis corolas amarelas.</p>
<p>Um pouco adiante estava o Parque Tênis Clube com seu alambrado alto e duas quadras de saibro demarcadas com linhas brancas como fitas espichadas pelo chão.</p>
<p>Mas ainda não era o momento do menino saber que iria jogar naquelas quadras.</p>
<p>Seria necessário que, antes de ser fazer tenista-mirim aos 12 anos, ele se mudasse com seus pais e seu irmão da casa de nº 1, onde nasceu, para morar temporariamente na casa de seu avô paterno, na Rua da Santa Casa (então denominada Misael Pena), sobre uma padaria que a cada fornada expandia o cheiro irresistível do pão fresco pela vizinhança toda.</p>
<p>Talvez – ainda que seja esta uma ideia romântica – talvez o odor do pão saído do forno chegasse até as corolas amarelas do Parque Moscoso, a pouca distância da padaria.</p>
<p>Aos seis anos, o menino volta a se achegar ao Parque de sua origem, de cuja órbita nunca escapou indo morar na residência nova da Rua Afonso Brás, 73. Dali, esticando o olhar pela Rua Vasco Coutinho, podia ver o Parque Tênis Clube que se situava onde foi construído o Jardim da Infância Ernestina Pessoa, e onde o menino se iniciou no jogo do tênis sem que lograsse passar do primeiro grau como tenista para jamais ser um campeão nesse bretão esporte.</p>
<p>Mas, afinal, que Parque Moscoso era este de que estamos falando?</p>
<p>Que nos conduza através dele o menino desta crônica não mais pedalando um velocípede, mas encimado numa bicicleta Hércules, de cor preta, aro 28, farol niquelado no meio do guidon, na qual ia prazerosamente andar sobre o piso de areia batida do Parque Moscoso.</p>
<p>Eis que o menino deixa a Vasco Coutinho de atenção alertada para se prevenir do bonde que passa pelos trilhos da 23 de Maio, vindo de Santo Antônio e indo para a Praça Costa Pereira, ou vice versa.</p>
<p>Pedalando sem parar prossegue em demanda da Alameda Paulo Mota – que através do parque era uma projeção natural da Avenida José Carlos, atual Marcos de Azevedo e que, com o seu nome, rendia homenagem ao idealizador da planta física do Parque que apesar das sucessivas intervenções sofridas conserva relativamente até hoje as suas bem traçadas linhas.</p>
<p>Firme na bicicleta, o menino contorna o coretinho com telhado de flandres e escadinha lateral onde a poucos metros desse coreto armava-se um tablado em que pulavam os foliões e mascarados que no Carnaval vinham a pé de Caratoíra e Vila Rubim cantando animadamente sambas e marchinhas; o menino passa em seguida em frente ao Orchidário, escrito com ch, que tem o formato de uma oca indígena gigantesca; roda agora pela fonte dos Cavalos, o mais antigo monumento do Parque; avança na direção do Clube Vitória, na esquina da Avenida Cleto Nunes, mas sem sair do Parque; dobra para a esquerda onde fica hoje a Concha Acústica; corta transversalmente a grande alameda dos oitis que, de ponta a ponta, vara o Parque, dando-se o menino à brincadeira de fazer a bicicleta tirar um fino na máquina fotográfica de um lambe-lambe, apoiada num tripé de madeira; atinge a curva em que, do outro lado da Cleto Nunes localizavam-se o Cine Politeama e a Padaria Sarlo; vira à esquerda e segue pelo piso de areia grossa tendo à sua direita a Avenida República com seus canteiros centrais, postes com luminárias e trânsito nenhum, e tendo à esquerda o lago central do Parque com as ilhas artificiais que lhe dão graça e servem de cenário de romance para os namorados se fotografarem ao estilo das décadas de 30 e de 40; chega agora na extremidade em que fica a esquina da Avenida República com a Rua José de Anchieta, onde mais à frente situa-se o Quartel da Polícia Militar com suas ameias eriçadas para uma guerra que nunca houve; ganha novamente a alameda Paulo Mota, ladeada por fícus verdejantes, rente aos quais o menino tira outro fino, já sabemos que se trata de um jovem ciclista que gosta de tirar finos, pedalando a bicicleta. Nessa alameda o menino atinge um conjunto de fícus majestosos, hoje substituídos por uma cancha esportiva rasteira e rasa, perto dos quais tinha lugar o recreio dos alunos do curso primário do Colégio Sagrado Coração de Jesus, da professora Mariazinha Silva, o menino entre eles; passa depois pelo chafariz com suas clássicas figuras esculpidas em bronze cujos jorros o vento espalha; chega próximo do alambrado do Parque Tênis por onde ramas de trepadeiras se engatam; enviesa para a esquerda, e – atenção, senhoras e senhores, atenção porque, fechando o périplo pelo Parque Moscoso, o menino, com sua hercúlea bicicleta preta, aro 28 e farol niquelado no meio do guidon, vai passar pelo banco de concreto sem encosto, reto como uma tábua, duro como uma pedra, onde num indeterminado dia de sua infância, acompanhado pelo pai, merendou banana prata diante de um jardim com flores de inesquecíveis corolas amarelas.</p>
<p>Embora o menino não seja capaz de identificar esse banco duro e reto quando bicicleteia ao lado dele, tal lapso de memória há de lhe ser perdoado porque em nada desfaz a força nostálgica da recordação que conservará permanentemente desse imorredouro recanto do velho Moscoso.</p>
<p>Que velho Moscoso era este?</p>
<p>Se a volta dada na companhia do menino em sua bicicleta não foi bastante para responder à pergunta que se repete, diga-se então que era um parque que estava com pouco mais de trinta anos de idade, desde que fora inaugurado, e que se afirmara desde a sua criação como a única e nobre área verde de Vitória, espaço aberto ao povo, sem muralhas e sem portões, sem roletas e sem gradis, para que todos pudessem nele entrar e dele sair com a naturalidade de quem vivia tempos de um viver provinciano e pacato.</p>
<p>A este parque, e ao que resultou dele em virtude das intervenções que acabou sofrendo para o bem e para o mal, o menino, que se fez adulto, continuou gravitacionalmente ligado durante sua vida.</p>
<p>Dispenso-me de espichar outras lembranças além das que foram levantadas. Mas não posso deixar de dizer (e faço questão de fazê-lo alto e bom som) que o menino que se fez velho tendo o Parque Moscoso como centro de gravidade ao longo de sua vida acha, sem modéstia alguma, que se faz merecedor da gentileza de um gentílico que é para si um motivo de orgulho: o de ser um parquemoscosense da gema!</p>
<p>NOTAS EVOCATIVAS</p>
<p><b>1. Rua José Bonifácio</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
A Rua José Bonifácio ainda existe e mantém a denominação. Ela serve de ligação entre as Ruas Henrique Coutinho e Washington Pessoa, no Parque Moscoso. A casa nº 1, e a de nº 2, sua vizinha, construídas próximas à atual Escadaria Sana Cecília, eram de planta e arquitetura idênticas. Pertenciam ao Sr. Alexandre Buaiz, que as alugava. As casas hoje estão reunidas numa só construção comercial. Conserva o nº 1.</p>
<p>
<b>2. Parque Tênis Clube</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
O Parque Tênis Club tinha como associados profissionais liberais e comerciantes de Vitória para a prática do jogo do tênis. Situava-se onde foi construído, no governo Jones dos Santos Neves (1951-1955), o Parque Infantil Ernestina Pessoa, cujas dependências estão hoje ocupadas pela Escola da Ciência Física, pertencente ao município de Vitória. Cercado de alambrado, dispunha de duas quadras de saibro separadas por um corredor que terminava na sede social do clube – um pequeno prédio de dois andares. A entrada habitual dos sócios era pelo portão que dava para a Rua 23 de Maio, ao lado do qual havia um depósito para a guarda das redes e demais equipamentos de limpeza do parque.</p>
<p>
<b>3. Padaria Electrica</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
A Padaria Electrica localizava-se na Rua Misael Pena – hoje João dos Santos Neves -, na época popularmente denominada “Rua da Santa Casa” por influência do hospital situado no morro dessa rua e que tinha seu acesso principal por meio de larga escadaria, atualmente posta em desuso. A padaria ocupava uma das dependências (lojas) que havia embaixo do sobrado onde morava a família do Dr. Jones, como era conhecido o médico que era um dos donos da padaria. Esta, durante muito tempo, atendeu a uma clientela de fregueses que tinha centro na região do Parque Moscoso, competindo com a Padaria Sarlo (da família Sarlo), que ficava na esquina da Avenida Cleto Nunes com a Avenida República.</p>
<p>
<b>4. Rua Afonso Brás e Vasco Coutinho</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
A Rua Afonso Brás tem inicio na Avenida Marcos de Azevedo e segue em direção ao pé do morro da Santa Clara, sendo transversalmente atingida, quase no final, pela Rua Vasco Coutinho. Exatamente neste ângulo situa-se a casa de nº 73, de que trata a crônica. Por seu turno, a Rua Vasco Coutinho desemboca na Rua 23 de Maio depois de receber, como se fosse um afluente enladeirado, a Ladeira da Santa Clara. A rua tem, nas duas esquinas que a formam, diante do Parque Moscoso, dois imóveis característicos do velho Moscoso. No lado direito de quem entra na rua, uma casa que pertenceu ao Sr. Alcides Guimarães, estilo final da década de 40, do século passado, “de concreto armado” como se dizia, com “moderna” arquitetura em linhas retas, hoje revestida de azulejos. Na esquina oposta fica o que resta do notável palacete da segunda década do século passado, com o nome de Villa Oscarina. Pertenceu originariamente ao comerciante Antenor Guimarães, passando depois a seu filho Orlando Guimarães. A denominação do imóvel foi homenagem à única filha mulher de Antenor Guimarães, casado com Ana da Cruz Guimarães. Depois da morte do marido, a viúva passou a residir na parte debaixo da casa, sendo a parte superior ocupada pelo filho do casal, o também comerciante Orlando Guimarães. A majestosa grade de ferro fundido do jardim (hoje infelizmente substituída por um muro tipo fortaleza) e os portões da Villa Oscarina (o de frente e o lateral) foram feitos em São Paulo, conforme informações colhidas a Oscar Augusto Saletto da Costa, sobrinho por afinidade (por parte de mãe) de Orlando Guimarães, que morou na Villa Oscarina mais de uma vez, durante a sua juventude.</p>
<p>
<b>5. O bonde Santo Antônio</b></p>
<p>
Na década de 50 o bonde Santo Antônio vinha desse bairro, passava no Parque Moscoso pela Rua 23 de Maio, indo para a Praça Costa Pereira após percorrer a Rua Henrique Coutinho, a praça do Quartel (atual Misael Pena), a ladeira Dom Fernando, a Rua Coronel Monjardim e a Rua Sete. Antes dele existiu o bondinho Circular que também passava pela Rua 23 de Maio e circulava pelo centro de Vitória, servindo aos moradores da Cidade Alta e da Cidade Baixa (e do Parque Moscoso), uma vez que retornava pelo centro da cidade (pela atual Jerônimo Monteiro, a partir do Teatro Glória).</p>
<p>
<b>6. Clube Vitória</b></p>
<p>
O Clube Vitória, que foi um dos mais tradicionais de Vitória nas décadas de 20 a 50, localizava-se em um sobrado, na esquina da Rua 23 de Maio com a Avenida Cleto Nunes. Era chamado “o aristocrático” por ter como sócios os membros das famílias de melhores condições sociais de Vitória que, todavia, não moravam apenas no centro da cidade. Paradoxalmente a decadência do Clube começou a se desenhar a partir da construção da sua nova sede, na Rua José de Anchieta, obra realizada pela CIEC – Comércio Indústria e Engenharia Capichaba Ltda. (depois sociedade anônima), dos irmãos engenheiros Jones Santos Neves Filho e Joel Santos Neves, sendo presidente do Clube o sr. Guaracy Assis. Influenciaram também na decadência do clube as mudanças sócio-econômicas por que passou a cidade de Vitória da década de 70 em diante, com a expansão urbana direcionando-se para a Praia do Canto. A nova sede do Clube Vitória, na Rua José de Anchieta (hoje o prédio, que envelheceu rapidamente foi adquirido pelo SESC), foi uma das últimas obras construídas pela CIEC nesse bairro (e a única não residencial) quando a tradicional nobreza do Parque começava a virar passado. Vale ainda o registro de que a CIEC, desde a sua fundação em 1954, destacou-se como a empresa capixaba de engenharia que, nas décadas de 50 a 70, mais edificou prédios residenciais na então valorizada área do bairro Moscoso, a saber: Edifícios Alpha, Marthélia, Serafim Derenzi (ex-Canopus), Procyon, Sheratan, Talitha, Régulos (na Rua Thiers Veloso), Churchil, Beethoven (na Rua 23 de Maio) e o prédio misto da Associação Comercial de Vitória (na Rua João dos Santos Neves).</p>
<p>
<b>7. Cine Politeama</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
O Cine Politeama foi o único cine “poeira” clássico que existiu em Vitória. Funcionava num barracão de alvenaria, coberto de zinco, localizado na esquina da Avenida Cleto Nunes com a Avenida República, tendo em frente, na esquina oposta, a Padaria Sarlo (este prédio ainda existe). O cine pertencia à família Cerqueira Lima, sendo comercialmente explorado como cinema popular pela empresa Santos e Cia., pertencente àquela família. O Politeama dispunha, na parte interna traseira, de uma “Geral” em forma de arquibancada semicurva, com acesso independente da entrada principal, destinada aos espectadores de menor poder aquisitivo, razão por que os seus ingressos eram vendidos a preços mais baratos. Na parte central do cinema havia, para os demais espectadores, cadeiras de madeira e, em piso ressaltado nas laterais, vizinhas das “cadeiras do meio”, bancos inteiriços para os assistentes que os preferissem. A cabine de projeção era isolada na parte de trás, diante da Geral. As sessões eram noturnas, uma por noite e, aos domingos havia matinês para o público infantil com filmes de faroeste e de mistério, geralmente em seriado. Na segunda-feira à noite a “sessão colosso” repetia os filmes que tinham passado no Teatro Carlos Gomes que a empresa Santos, proprietária ainda do Cine Teatro Glória, também explorava como cinema por concessão contratual monopolística que manteve com o governo do Estado durante muito tempo. No terreno onde existiu o Politeama seria construído pela família Cerqueira Lima o prédio em cujo térreo funcionou o Cine Santa Cecília, que marcou época como um dos mais luxuosos de Vitória. Com o tempo, e com o declínio urbano da área do Parque Moscoso, o Cine Santa Cecilia foi decaindo de qualidade e entrando também em decadência. No final de sua história como cinema exibia filmes de erotismo explícito. O cinema depois deu lugar a uma igreja evangélica.</p>
<p>
<b>8. Quartel da Polícia Militar</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
O quartel com planta quadrangular ficava onde está hoje o conjunto de serviços do SESC, na praça popularmente chamada “do Quartel”, atualmente denominada Misael Pena (esta era a denominação da atual Rua João dos Santos Neves, “a rua da Santa Casa”, cujo nome foi mudado em homenagem a Dr. Jones, depois do seu falecimento). Com sua planta quadrada, pátio interno largo, ameias no alto da fachada e corpo central em destaque, o quartel abrigava o contingente da Policia Militar antes de sua transferência para Maruípe.</p>
<p>
<b>9. Colégio Sagrado Coração de Jesus</b><br />
<b><br /></b></p>
<p>O Colégio Sagrado Coração de Jesus, de ensino primário, pertenceu às irmãs vocacionadas para o magistério Odete, Iracema e Maria Silva, sendo esta última a diretora responsável pelo colégio, por isso também conhecido por “colégio de Dona Mariazinha”. Funcionou durante décadas na Rua Dom Fernando (em mais de um local), e fazia do Parque Moscoso o ambiente de recreio para os seus alunos, no intervalo das aulas. A casa da família de Dona Mariazinha situava-se na esquina da Rua Afonso Brás com a Vasco Coutinho.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2012&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><br /></b><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Ingleses na costa – Impressões de um aspirante de marinha sobre o Espírito Santo em 1851</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Mar 2017 19:19:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Edward Wilberforce]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Corveta de guerra &#8220;Driver&#8221;, irmã da &#8220;Geyser&#8221;. James Cowan &#8211; &#8220;The New Zealand Wars&#8221;. Pelo menos dois marinheiros ingleses, documentadamente, navegaram, em diferentes épocas, o litoral do Espírito Santo, deixando registros de viagem. O primeiro foi Anthony Knivet, grumete na expedição que o célebre corsário Thomas Cavendish empreendeu ao Brasil no começo da última década [&#8230;]</p>
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<tbody>
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<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-t45bAiuo1d8/WLWyNm7okaI/AAAAAAAAMJ4/jp86PuYhn0M8nd5JpmrVm67QziTspxNjgCLcB/s1600/1024px-HMS_Driver-Wilberforce.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Corveta de guerra &quot;Driver&quot;, irmã da &quot;Geyser&quot;. James Cowan - &quot;The New Zealand Wars&quot;." border="0" height="281" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2017/03/1024px-HMS_Driver-Wilberforce.jpg" class="wp-image-5233" title="Corveta de guerra &quot;Driver&quot;, irmã da &quot;Geyser&quot;. James Cowan - &quot;The New Zealand Wars&quot;." width="400" /></a></td>
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<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Corveta de guerra &#8220;Driver&#8221;, irmã da &#8220;Geyser&#8221;. James Cowan &#8211; &#8220;The New Zealand Wars&#8221;.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><b><br /></b><br />
<b><br /></b><br />
Pelo menos dois marinheiros ingleses, documentadamente, navegaram, em diferentes épocas, o litoral do Espírito Santo, deixando registros de viagem. O primeiro foi Anthony Knivet, grumete na expedição que o célebre corsário Thomas Cavendish empreendeu ao Brasil no começo da última década do século XVI; o outro, o aspirante a oficial de marinha Edward Wilberforce, integrante da oficialidade da corveta de guerra&nbsp;<i>Geyser</i>&nbsp;que esteve no Espírito Santo na primavera de 1851 sob o comando do capitão de fragata Edward Tatham, em missão repressiva ao contrabando de africanos.</p>
<p>Distanciados entre si cerca de dois séculos e meio, súditos, respectivamente, das notáveis rainhas Elizabeth II e Vitória, da Inglaterra, Knivet e Wilberforce deixaram-se tomar por idêntico impulso narrativo pondo no papel as principais impressões que colheram de suas passagens pelo litoral brasileiro. Contribuíram, desta forma, para que seus apontamentos e registros se tornassem documentos de valor para a historiografia como fontes de informação de nossa história.</p>
<p>No relato de Knivet, que cobre a navegação de corso que Cavendish empreendeu, em 1591, nos mares da costa sul brasileira, a parte relativa ao Espírito Santo é bastante sucinta. Nela o marujo limita-se a narrar, como testemunha participante, a frustrada tentativa de saque ensaiada pelos ingleses contra a vila de Vitória. Seu depoimento foi editado sob o título &#8220;Vária fortuna e estranhos fados&#8221; pela Editora Brasiliense Limitada (São Paulo, 1947) em versão do original inglês feita por Guiomar de Carvalho Franco, da qual se transcreve o trecho que trata da investida contra Vitória:</p>
<p>&#8220;No nosso navio havia um português que recolhêramos da embarcação apreendida, em Cabo Frio; este português, que fora conosco ao estreito de Magalhães, e aí testemunhara a nossa falência, falou-nos duma vila chamada Espírito Santo, dizendo-nos que poderíamos chegar à frente da mesma com os nossos navios, e aí, sem perigo, lograríamos tomar muitos engenhos de açúcar e boa quantidade de gado.</p>
<p>As palavras deste português fizeram-nos renunciar ao projeto de ida a São Sebastião, tomando o rumo do Espírito Santo; em oito dias chegamos à embocadura do porto, acabando por lançar âncora na baía e mandar nossos botes sondar o canal; não encontrando estes nem a metade da profundidade que o português nos dissera que encontraríamos, supôs o general que o luso nos havia traído e, sem nenhuma comprovação, fê-lo enforcar de imediato. Neste local, todos os fidalgos que restavam a bordo manifestaram desejo de ir à terra tomar a povoação. O general não o queria de modo nenhum, objetando-lhes diversos inconvenientes; nenhum argumento porém os convenceu, e foram os moços tão insistentes que o general, escolhendo cento e vinte homens dentre os melhores que possuía em ambos os navios, enviou ao capitão Morgan, praça de terra singularmente boa, e ao tenente Royden, como comandantes neste empreendimento. Desembarcaram, pois, diante dum pequeno forte, com um dos seus botes e dele expulsaram os portugueses; o outro bote seguiu mais além, onde houve uma escaramuça muito violenta, e a vida desses moços depressa se abreviou, pois apearam num rochedo fronteiro ao forte e à medida que saltavam fora do bote, escorregavam com suas armas para dentro do mar; assim a grande maioria deles pereceu afogada. Em conclusão, perdemos oitenta homens neste lugar, e dos quarenta que se salvaram, nem um só voltou sem uma flechada em seu corpo, chegando alguns a ter cinco e seis ferimentos.&#8221;</p>
<p>O depoimento de Wilberforce sobre o Espírito Santo é bem mais extenso e informativo do que o de Anthony Knivet. o marinheiro vitoriano levou, sobre seu compatriota e antecessor, a vantagem de contacto mais demorado com a costa capixaba ao sul de Vitória, tanto com o litoral em si, por onde navegou em patrulhamento vigilante, quanto com algumas localidades que conheceu, inclusive a própria sede da então Província. Aliás, é a partir da cidade de Vitória que Wilberforce começa seus informes sobre o Espírito Santo.</p>
<p>Fica-se sabendo, assim, que os ingleses tiveram oportunidade de visitar a cidade, acanhada e sem conforto, renitentemente colonial embora aprazível em suas condições naturais. Aproveitando folgas e criando momentos de lazer, a oficialidade da&nbsp;<i>Geyser&nbsp;</i>percorreu os arredores de Vitória, enfiou-se por florestas e rios cujos nomes Wilberforce não registrou, enfrentou chuvas torrenciais, adquiriu peças de rendas e redes de dormir, viu como se fabricavam as redes de algodão cru. No palácio do governo os oficiais britânicos foram recebidos pelo presidente da Província, o bacharel José Bonifácio Nascente de Azambuja.</p>
<p>Impedido, por motivo de saúde e por proibição médica, de ir ao Convento da Penha, dele Wilberforce recebeu singela descrição feita por seus companheiros de bordo que não convenceu ao cronista, tendo-a atribuído ao espírito herético dos informantes.</p>
<p>Vê-se, por aí, que o escritor marinheiro entremeia informações de sua observação pessoal com outras, resultantes do testemunho de terceiros, chegando até a transcrever notícia de jornal brasileiro, cujo nome não cita, sobre a recepção que houve a bordo da&nbsp;<i>Geyser&nbsp;</i>reunindo personalidades da Província e que terminou sob o clarão de rojões.</p>
<p>Junto com os registros sobre a terra e seus habitantes, seus costumes e produção, Wilberforce, dando mostra de sua formação de oficial de marinha, anota referências, com valor de orientação náutica, sobre localidades do litoral espírito-santense para uso dos navegantes da época nas quais as indicações utilizadas são prosaicos identificadores da costa.</p>
<p>Olhos postos nos escravos contrabandeados, a eles faz diversas menções inclusive acerca dos locais em que se davam desembarques clandestinos, como em Guarapari e Piúma, por exemplo.</p>
<p>Como convinha a observador crítico dotado ainda de pendores literários, Wilberforce incluiu em sua narrativa pitadas de ironia e humor bem mais interessantes do que os extravasamentos líricos a que dá vazão ante a beleza natural da baía de Vitória que ele verteu em marolas poéticas de discutível qualidade literária.</p>
<p>Depois do regresso à Inglaterra, o texto de Wilberforce foi editado pela primeira vez, em Londres, em 1856, sob o título <i>Brazil viewed through a naval glass with notes on slavery and the slavetrade</i> (Brasil visto através de uma luneta com notas sobre escravidão e tráfico de escravos). A esta edição fez referência o escritor Norbertino Bahiense na obra <i>O Convento da Penha</i> (Vitória, Escola Técnica de Vitória, 1952), reportando-se ao ensaio crítico publicado por Afonso de E. Taunay no <i>Jornal do Comércio</i>, de 26 de agosto de 1945, denominado &#8220;Impressões de Vitória e seus arredores&#8221;.</p>
<p>Impressões do Espírito Santo de 1851 foi bem o que captou Wilberforce através de sua esquadrinhadora luneta de oficial de marinha, e que se contêm nos capítulos XV e XVI do texto original, ora publicados em separata, visando-se a colocar ao alcance do público interessado mais um relato de um viajante estrangeiro que esteve em terras e mares capixabas no século XIX.</p>
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Luiz Guilherme Santos Neves</div>
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<p></p>
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* * *</div>
<p><b><br /></b><br />
<span id="INCI_RP1V"><b>PREFÁCIO</b></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP1" title="É o prefácio geral da obra."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></p>
<p>
Este volume contém um simples relato do que vi na costa do Brasil. É forçosamente incompleto e fragmentado; a condição de um aspirante de marinha não lhe permite absorver muitos conhecimentos sobre os lugares que visita. Mas, seja como for, é todo de minha autoria, à exceção de duas ou três passagens, pelas quais tenho que agradecer a um cavalheiro, cujo nome não publico, uma vez que os oficiais do Serviço a que Pertence são avessos a qualquer publicação por parte de seus subordinados. Enquanto me empenhava em contar minha história de maneira divertida, entremeei diversas informações práticas relativas a ancoradouros e baías da costa, que poderão ser úteis a capitães que naveguem por aquelas bandas.</p>
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Edward Wilberforce.</div>
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28, Old Burlington street</div>
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2 de outubro de 1855.</div>
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* * *</div>
<p><b><br /></b><br />
<span id="INCI_RP2V"><b>CAPÍTULO 1</b></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP2" title="É o capítulo XV do texto original."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>
Rio e cidade do Espírito Santo. Lenda. Fortificações. A vila velha. O que é a verdade? No campo. Redes de algodão. Vendedores. Festividades. Excelsior! Pássaros de várias plumagens. Navios negreiros.</p>
<p>A cidade mais importante entre Rio de Janeiro e Bahia é a do Espírito Santo, que era o limite norte de nossa área de patrulha. O verdadeiro nome dessa cidade é Vitória, mas estando situada às margens do rio Espírito Santo, assumiu o nome deste, de acordo com o costume do país. Localiza-se a cerca de 250 milhas do Rio de Janeiro. Esse rio deságua na baía do Espírito Santo, onde ancoramos à espera de um piloto. A entrada do rio é estreita, ladeada por duas altas montanhas, das quais o Morro do Moreno é a mais notável. Permanecemos ali um dia até que algum piloto viesse, obedecendo ao nosso sinal. Finalmente um bote encostou, trazendo um homem vestido com uma espécie de uniforme naval, que melhor seria chamado multiforme, pela ausência de regularidade e ordem. A pessoa apresentou-se como piloto e afirmou que poderíamos atravessar a barra na preamar, quando haveria três braças de profundidade na parte mais rasa. Medimos duas braças e um quarto, de modo que era necessário certa precaução ao subirmos a corrente. Avançamos a passo de caracol, descendo os prumos constantemente, com capitão, arrais e piloto sobre a caixa das pás.</p>
<p>A paisagem em torno era tão extraordinária que um piloto poeta teria certamente deixado o navio encalhar, pela constante admiração das margens. O lado esquerdo era montanhoso, o direito, um volume de água salpicado de ilhas cobertas de cactus, embora não houvesse terra alguma sobre elas, não sobrando espaço nem para duas pessoas em pé. A água entre as ilhas era calma e bonita, como se não conhecesse outra forma. No cume de uma das montanhas do lado esquerdo, entre rochas fantasticamente empilhadas uma sobre a outra, como se tivessem sido petecas de gigantes, erguia-se altiva o que pensamos ser uma fortaleza e que, no entanto, revelou-se um convento<span id="INCI_RP3V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP3" title="Trata-se do convento da Penha."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> Às vezes abria-se uma bela enseada, mostrando praias cobertas com folhagem verde-escura, e algumas casinhas brancas ao fundo, repousando tranqüilas e à vontade num oceano de beleza. Pequenas rochas saltavam da água em ambos os lados, enquanto a vegetação derramava-se das montanhas mais altas. Era o lugar para poesia, e o viajante exausto poderia ser perdoado por dar vazão a seus sentimentos em verso e encher uma página, <i>more majorum</i><span id="INCI_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP4" title="À maneira dos antigos. Em latim no original."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a></p>
<p>
Levemente desliza o nosso navio<br />
Como uma ave marinha de asas abertas<br />
Através de estreitas correntes onde a fragrância insufla<br />
Fecundantes sopros primaveris.<br />
Altas, em uma das margens, às grimpas das montanhas<br />
Enrugam rochas, amontoadas sobre rochas,<br />
De onde muitos ribeiros se precipitam<br />
Claros como fios de prata.</p>
<p>Ali, no cume, entre rochedos eretos<br />
Ergue-se velho edifício<br />
Que deve ter desafiado os mais violentos embates da tempestade<br />
Ou as mãos presunçosas do inimigo.</p>
<p>Do outro lado ilhas baixas se avistam<br />
Onde os verdes cactos vicejam<br />
E onde por baixo de ramalhenda cortina<br />
Descansam os beija-flores.</p>
<p>E o enrugado oceano brandamente sorri<br />
Onde, em suave quietude, repousam<br />
Os espessos cachos de pequenas ilhas<br />
Em seu seio <span id="INCI_RP5V">enganadora</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP5" title="Essa é a tradução que Taunay fez dos versos de Wilberforce, incluindo-os em seu ensaio 'Impressões de Vitória e seus arredores', publicado no Jornal do Comércio, em 1945. (Apud Norbertino Bahiense, O convento da Penha, Vitória, 1 95 I.)"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a></p>
<p>
Uma rocha à entrada de uma dessas enseadas tinha uma pequena cruz branca de pedra erguida sobre ela. Ao inquirirmos sobre o significado daquilo, a tradição, falando pela boca do piloto, nos informou que, toda vez que os escravos de Vitória têm uma folga se dirigem a uma pequena vila a meio-caminho rio abaixo para festejar. Não era coisa rara os escravos se embriagarem e discutirem — na verdade, era o habitual. Não era menos comum sacarem-se facas e alguém do grupo ser morto. Se, nesse trágico desfecho da festa, o assassino conseguisse embarcar em sua canoa e alcançar a pedra da cruz antes de ser capturado, estava salvo; todavia, se apanhado antes, pagava com a vida o seu crime. Este certamente é um costume curioso, e nos lembra as cidades de refúgio de que nos fala o Velho Testamento.</p>
<p>As únicas fortificações que observei foram dois pequenos fortins de barro, contendo, a imaginar pelo seu tamanho, seis ou oito canhões cada. Estes não pareciam prometer grande segurança, uma vez que uma bala de 68 libras, bem arremessada, lançaria forte, paredes e tudo aos quintos dos infernos. Passávamos exatamente agora sob a sombra do imponente Pão de Açúcar<span id="INCI_RP6V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP6" title="Atualmente morro do Penedo. Era assim chamado pelos portugueses, como a outros morros de mesma configuração e talhe arredondado, numa alusão aos torrões de açúcar para exportação."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> através de um estreito canal, os cutelos da embarcação quase roçando as rochas de cada lado. No minuto seguinte, defrontamos a cidade e o porto, no qual ancoramos em quatro braças. Apesar de haver alguns belos prédios nesta cidade, entre os quais o palácio do governador <span id="INCI_RP7V">(?)</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP7" title="É o palácio Anchieta. A interrogação entre parênteses está no texto original."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> é o mais visível, sua aparência geral é tudo, menos florescente. A maioria das casas é pequena, suja e insignificante, enquanto as construções maiores rapidamente se vão deteriorando.</p>
<p>A meio-caminho rio abaixo fica uma vila, chamada vila velha, na qual os principais artigos aí produzidos, isto é, redes de algodão, são vendidos a preço mais barato que em qualquer outro lugar. A gentileza de um de meus <span id="INCI_RP8V">companheiros</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP8" title="O primeiro-tenente Jonh H. Crang que, juntamente com o capitão Edward Tatham, visitou o convento da Penha em 3 de setembro de 1851 (cf. Norbertino Babiense, op. cit., p. 8."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> me permite dar a seguinte descrição da fábrica, que a indelicadeza do médico me impediu de visitar:</p>
<p>Alguns de nós descemos à vila velha, situada na margem direita do rio, a cerca de uma milha da foz; abaixo do convento e no fundo de uma linda enseada. Há aí muitas fábricas de redes de algodão, e nós entramos em várias casas à sua procura. Um estoque era logo apresentado, com preços variando de seis a oito mil réis. Como o grupo estava ansioso por passear, não pude fazer muitas observações a respeito da fabricação; mas, pelo visto, o processo parecia muito simples. As armações tinham sete pés de comprimento por três de largura; e o material era algodão sul-americano cru, muito resistente.<br />
Tendo finalmente concluído as compras a contento, partimos para o convento que se elevava sobre nós. Da vila, a estrada prosseguia em ziguezague através de uma pequena floresta, e pelos vestígios de calçamento mostrava sinais evidentes de que outrora muito mais cuidado lhe fora dispensado do que agora. A posição do convento é muito conspícua, e como está situado no pináculo de uma alta montanha, dali se vê uma longa extensão da costa de norte a sul. A face da montanha voltada para o rio é quase perpendicular, mas a outra descai suavemente até uma imensa planície coberta de mata, que a sudeste se estende por milhas ao longo da, costa e, a oeste, até encontrar uma cadeia de montes férteis.</p>
<p>O convento em si tinha pouca coisa digna de registro<span id="INCI_RP9V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP9" title="Wilberforce interpelou no texto de Crang, entre parênteses, a seguinte observação: 'Estou envergonhado de você, herético colega, por dar vazão a semelhante sentimento'."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> A capela era pequena, embora possuísse um órgão, e o convento era usado por freiras mestiças, nenhuma das quais foi vista por nós, hereges.</p>
<p>Apesar de meu colega não ter visto nenhuma dessas internas, os grumetes, que desembarcaram sob o comando do mestre de armas, afirmaram que viram algumas delas vestidas do modo mais primitivo. Deve-se lembrar, porém, que esses jovens eram protestantes, e os protestantes nunca conseguem dizer a verdade, mesmo quando não têm motivo para agir de outra maneira. Esses jovens provavelmente aprenderam a mentir desde o berço, e poderiam não saber que todos os santos são virtuosos, ou então poderiam pretender lançar um estigma sobre a santidade de &#8220;Sua Santidade&#8221;.</p>
<p>Quando desembarquei pela primeira vez em Vitória, encontrei-a invadida por um grupo de marinheiros bêbados, cujos rostos facilmente reconheci. Tinha sido concedida folga a nossos homens, e as conseqüências disso podem ser facilmente imaginadas. Alguns estavam vagueando desvairados pela cidade, outros sentavam-se nas esquinas, como lamentadores queixando-se das loucuras e vícios da época, e produzindo surpreendentes textos para suas próprias meditações. Depois de espiar em algumas lojas, e deparar uma lamentável escassez de sólidos de todo tipo, e uma igualmente lamentável abundância de líquidos, partimos para o campo, emergindo das ruas imundas como borboletas de seus casulos, trocando toda a miséria de uma cidade brasileira pelo frescor de um campo brasileiro. A brisa afagava suavemente o prado perfumado e sussurrava musicalmente por entre a floresta, beijando as tranças das árvores, trazendo em suas asas os mais puros deleites. Passamos por uma colina coberta de grama, e seguimos caminho através de uma floresta. Estávamos em tal labirinto de beleza que mal podíamos parar para contemplar as largas folhagens, firmes e rígidas como espadas, as partes inferiores tingidas do mais delicado vermelho, que se erguiam a cada lado da trilha. Além desse bosque, Paramos em uma campina, no cume de um monte, e observamos então o rio, serpenteando em curvas graciosas pelo vale, as marolas incontáveis refletindo os raios do sol, enquanto casas agrupavam-se ao longo das margens, destacadas por arbustos verdejantes em viçosa exuberância.</p>
<p>
Tais coisas enchem o coração de silêncio<br />
profundo, porque, supõe-se, seja esse o seu papel<span id="INCI_RP10V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP10" title="Não foi possível localizar o autor desses versos, em inglês no original."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a></p>
<p>
Nessa campina havia uma casa, onde paramos para conseguir algo de beber. Uma mulher, um menino e um cachorro eram os únicos moradores. Este último, depois de latir e me morder, desapareceu pelos fundos; os dois primeiros foram mais corteses. O garoto apanhou para nós um coco de um coqueiro perto da casa, derrubando-o com uma vara comprida. Ao pé da árvore havia uma pedra, na qual se refletia minuciosa e cuidadosamente o delicado rendilhado das folhas do coqueiro. Em outra pedra, várias espigas de milho estavam secando ao sol. A palha das espigas é usada pelos brasileiros para o preparo de cigarros, sendo o tabaco enrolado nela tal como se faz na Turquia com finas folhas de papel.</p>
<p>Tendo apreciado suficientemente o interior, estávamos melhor preparados para explorar a cidade. Fomos até a residência do governador, e encontramos aquele autêntico potentado, um pequeno e robusto cavalheiro, vestindo casaco azul com botões de latão. Caminhamos pela praça coberta de capim, que tinha evidentemente produzido sementes, e visitamos algumas lojas em busca de redes e renda brasileira. Consegui adquirir uma rede certamente menor e mais cara do que teria sido na fábrica, mas nem por isso de se desprezar.</p>
<p>Contavam-se histórias a respeito dessas rendas. Um tenente comprara algumas de finíssima qualidade, que se comprazia em considerar uma pechincha, e que agradariam uma certa pessoa na Inglaterra. Se a referida pessoa fosse tão perita em renda como era de se esperar de alguém do belo sexo, logo perceberia que o artigo brasileiro havia sido feito na Inglaterra, e exportado para os Brasis. Ela então perguntaria o preço, e informaria a seu viajado amigo que a mesma renda poderia ser comprada no estabelecimento dos Senhores Bobbins por um quarto do que fora pago por ela no Espírito Santo. Às vezes aprendemos mais em casa sobre os lugares que visitamos do que nos próprios lugares, com os olhos bem abertos e os ouvidos bem atentos. Achamos a renda brasileira extremamente grosseira, e de boa qualidade só a que vinha da Inglaterra. Os vendedores, não tendo motivos para ocultar esses pormenores informavam-nos francamente a sua procedência.</p>
<p>Pode parecer curioso para uma nação de comerciantes, mas o fato é que os brasileiros têm certa aversão ao trabalho de vender. Nenhum John Gilpin brasileiro teria apeado de seu cavalo à vista de dois fregueses. Na Inglaterra, se alguém perguntar por alguma coisa que o vendedor não tenha em estoque, este insistirá em vender outra coisa que considere um substituto à altura. No Brasil, se alguém perguntar por alguma coisa que o vendedor tenha em estoque, este insistirá em que o freguês peça outra coisa de que ele não disponha, para poupar-se o trabalho de atendê-lo.</p>
<p>Graças a alguns meninos maltrapilhos, cujos corações foram abertos com o presente de um vintém cada, conseguimos algumas galinhas e ovos, retomando a bordo, onde encontramos um grupo de convidados reunidos. Um acontecimento tão elegante não poderia prescindir o seu <span id="INCI_RP11V"><i>vates sacer</i></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP11" title="Poeta sagrado, ou eleito pelos deuses. Em latim no original."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>, que adequadamente, assinando-se &#8220;nosso correspondente&#8221;, fez o seguinte relato da cerimônia, que apareceu em algum jornal.</p>
<p>
<b>FESTIVIDADFS NO ESPÍRITO SANTO</b><span id="INCI_RP12V"></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP12" title="Trata-se de um texto de autoria de um capixaba anônimo e publicado em jornal do Rio (como o atesta a indicação 'de nosso correspondente'), cuja tradução Wilberforce incluiu em seu relato."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a><br />
(de nosso correspondente)</p>
<p>
Ontem um grupo, consistindo de alguns membros da elite desta cidade, foi a bordo do vapor de guerra inglês, a convite do capitão. Depois de compartilhar uma refeição, servida com grande esplendor no camarote do nobre milorde, o grupo passou ao convés superior, onde um toldo decorado com bandeiras cobria suas cabeças. A música começou a tocar, e os convidados entregaram-se à nobre diversão da dança. O galante capitão instou um dos jovens oficiais do navio a tomar parte da dança, tomando a mão de uma jovem; mas este convite o indelicado oficial recusou, desculpando-se polidamente, e sem empregar a exclamação nacional inglesa. Evidentemente os britânicos assumiram seus melhores modos para nos recepcionar a bordo, pois nem sequer uma vez durante minha visita escutei a praga nacional <i>God dam</i>! É de uso tão freqüente que um erudito inglês publicou um livro mostrando que ela é proferida a cada cinco minutos por todo homem, mulher ou criança da Grã-Bretanha. Isso é certamente espantoso. Observei um grupo de aspirantes em pé, afastados dos que dançavam, conversando com um pequeno pajem moreno, cujo traje era elegante, consistindo em um chapéu lustroso com uma fita dourada, jaqueta azul com botões amarelos e um par de botas de cano alto. Uma senhora idosa era observada com especial atenção por esses aspirantes, e percebi que circulavam alguns rumores a respeito de sua idade, alguns assegurando que ela tinha trinta e dois anos, outros, apenas dezoito. Por informação de determinada pessoa, fui capaz de confirmar que esta conjectura estava correta; mas como nossas mulheres envelhecem quando ainda muito novas, comparativamente falando, e essa senhora tinha um filho de quatro anos, e um outro de idade mais tenra, a primeira opinião não deveria ser considerada infundada.</p>
<p>Terminada a dança, os marinheiros no castelo de proa entretiveram os visitantes com algumas canções, uma das quais era o pedido de um negro a uma moça chamada Susana para que não chorasse por ele, pois estava vindo vê-Ia, causando efeito impressionante, já que todos os marinheiros cantavam o refrão em coro<span id="INCI_RP13V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP13" title="Canção folclórica norte-americana."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> O cantor principal teve uma vida extraordinária, tendo até se apresentado uma vez no palco. Em minha próxima carta, pretendo iniciar uma biografia desse homem notável.</p>
<p>Retornando os convidados à terra, o cordial e alegre capitão ordenou que luzes azuis fossem acesas e rojões disparados, para iluminar o retorno deles. Os fogos de artifício clareavam os prédios próximos à beira-mar, e iluminavam os moradores atônitos, que se juntavam nas ruas, boquiabertos e maravilhados. Quando subi atrás da carruagem de minha esposa, não pude deixar de lançar um olhar de despedida ao navio, em prejuízo de minhas meias de seda, que foram salpicadas de lama.</p>
<p>Hoje o vapor brasileiro Maria chegou aqui, e esteve ocupado carregando madeira, geralmente usada por vapores brasileiros em lugar de carvão, que ficaria muito caro. Não eram boas as relações entre o capitão e o governador do Espírito Santo, o que explica a ausência do governador em nossas festividades.</p>
<p>Na manhã seguinte, desembarquei cedo com alguns de meus companheiros para uma excursão rio acima. Eram então cerca de cinco da manhã, e chovia intensamente.</p>
<p>Enquanto os outros foram procurar uma canoa, subi, com uma arma e uma cesta de provisões, até uma casa em ruínas, ficando com um cômodo só para mim. O resto da casa parecia fechado e abandonado; o quarto que eu ocupava estava aberto de um lado por falta de parede e tinha vários buracos no chão. A chuva, entretanto, não penetrava. Vi meus colegas vagueando desconsoladamente pelas ruas, que brilhavam com a chuva, e logo um brasileiro veio preparar uma canoa, onde nos alojamos com as provisões, quando o tempo melhorou um pouco. Partimos então rio acima, cinco pessoas com quatro remos. O brasileiro tomou lugar na popa como piloto, e desviou a canoa uma milha de seu rumo, dirigindo-se ao lado oposto de uma ilha, de modo que pudesse nos conduzir a uma venda onde esperava passar bem. Quando a canoa se aproximou da pequena casa branca à margem de um córrego, ele apontou para ela e exclamou: &#8220;<i>Bono venda la!</i><span id="INCI_RP14V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP14" title="Como no original.Como no original."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> Atentos às suas artimanhas, recusamo-nos a saltar. <i>Excelsior</i>!<span id="INCI_RP15V"></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP15" title="Para o alto! Em latim no original."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a> foi nosso grito. A canoa prosseguiu deslizando rio acima, os ocupantes levantando-se e remando valentemente. Em nossa ânsia por segurança e firmeza, havíamos conseguido uma canoa pesada e não podíamos impeli-Ia tão rápido como desejávamos. Isso, entretanto, não era uma falta grave, pois uma canoa mais leve teria provavelmente virado, provocando a perda de nossas armas e outros valores. Finalmente, colhidos por um aguaceiro, seguimos para a margem e nos refugiamos em uma cabana, colocando a cesta de provisões num depósito contíguo.</p>
<p>Como nosso desjejum fora de carne fria, começamos a preparar um rápido almoço de presunto e ovos. O dono da cabana foi indenizado de qualquer incômodo com um copo de rum, que engoliu com uma expressão de divertido êxtase, pulando e assobiando de alegria. O fogo na cabana era muito forte, e a fumaça penetrava-nos nos olhos, picando como miríades de mosquitos. Em tais circunstâncias, não pudemos lograr nenhuma excelência culinária; mas há sempre algo de mais especial no que se prepara do que nas mais finas iguarias de um <i>cordon bleu</i><span id="INCI_RP16V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP16" title="Cozinheiro exímio. Em francês no original."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> Não que esse prazer pudesse durar sempre; mas a mesma inspiração que preside ao primeiro poema preside também ao primeiro prato que se prepara. Tínhamos terminado nossa refeição e a chuva cessara, quando se aproximaram alguns senhores mais respeitáveis, que andavam ocupados na construção de uma casa na praia. Todos usavam facões nos cintos, e haviam talvez feito uso deles para propósitos menos inocentes que cortar madeira. As árvores e trilhas estavam ainda cintilando com a chuva, e pérolas espalhavam-se abundantes sobre cada arbusto. Dois de nosso grupo seguiram por uma trilha com o propósito de caçar, mas logo retornaram, de modo que embarcamos e seguimos corrente acima. Enquanto avançávamos, íamos atirando nos pássaros que nos apareciam; para caçar um fugitivo de plumas, metíamo-nos por algum córrego de água estagnada, com arbustos baixos crescendo na lama fértil, ou então descíamos nas margens pedregosas para atirar num bem-te-vi que nos fugia de galho em galho.</p>
<p>Desembarcamos logo depois em outra ilha, e subimos até uma casa grande, que encontramos habitada por negros, de quem compramos ovos e bananas. Muitas galinhas perambulavam por ali, mas não estavam à venda, pois não se encontrou o dono. Os ovos e as bananas foram colocados em nossa frigideira com um pouco de presunto, e acendendo-se o fogo, o cômodo logo se encheu de fumaça. De repente, o vento marinho irrompeu quarto adentro, batendo as janelas umas contra as outras, saindo com fúria por um lado para entrar de novo pelo outro. A fumaça, desnorteada e incapaz de sair pela janela, impedida pelos batentes, retornava ao quarto, refugiando-se em nossos olhos. As árvores envergavam e agitavam-se sob a rajada de vento, e o rio arrebentava furiosamente contra as pedras abaixo da casa. Em meio a essa ventania, tendo deixado nossa canoa em segurança, prosseguimos calmamente o jantar. O piloto nos informou, com a boca cheia, que aqueles negros eram &#8220;contrabanda<span id="INCI_RP17V">&#8220;,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP17" title="Como no original."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a> em que sentido ele não explicou.</p>
<p>Quando descíamos para a praia para o reembarque, uma grande canoa passou a todo pano, correndo rio acima com incrível velocidade. Com o vento e a maré contra nós, e ambos muito fortes, não pudemos seguir rio abaixo, mas fizemos um desvio para a margem oposta, a canoa jogando sobre as ondas como um navio de três conveses na baía de Biscaia. Ao alcançarmos o outro lado, encontramo-nos entre mangues, com árvores cobertas de ostras, largadas ali pela maré. Ali percebemos de relance alguns cisnes, mas muito arredios para permitir aproximação.</p>
<p>Perseguimos outra canoa que estava entrando no córrego e, chegando perto, os ocupantes ficaram tão assustados com nossa aproximação que encalharam. A água aqui era escura e barrenta, e os galhos compridos das <span id="INCI_RP18V">siriúbas</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP18" title="Siriúba (Avicennia nitida) e mangue (Rhizophora mangles), duas árvores tropicais típicas da vegetação dos mangues, ambas frequentemente traduzidas pelo vocábulo mangrove, usado pelo autor no original."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a> se juntavam sobre nossas cabeças num arco triunfante. Metemo-nos por um córrego e abicamos a canoa numa praia onde algumas pranchas nos livraram de um abismo de lama negra. Subindo um morro, chegamos a uma fábrica, donde se avistava a cidade e o rio sinuoso . Ali foram abatidas algumas viúvas<span id="INCI_RP19V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP19" title="Ave passeriforme de cor negra (Pipraeidae m. melanonota)."><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a> e também um pequeno bem-te-vi, marrom e de modesta aparência, mas possuidor de variegado topete de plumas vermelhas e amarelas, que podia eriçar à vontade. Quando o sol brilhava sobre ele, e seu topete cintilava e dançava na luz, esquecia-se seu corpo marrom e feio, e dava-se a ele justa admiração. As viúvas atraíram a atenção de nossos caçadores de uma longa distância devido à sua lustrosa plumagem negra, possuindo em algum grau o mesmo poder de fascinação de suas homônimas da raça humana.</p>
<p>Um ou dois dias depois, partimos da cidade do Espírito Santo. Uma ressaca estava começando, e as pequenas ilhas cuja paisagem comentei tão poeticamente ao chegarmos, ficavam visíveis agora só por um instante, quando o mar recuava ou quando as ondas quebravam sobre elas. Um pequeno navio costeiro estava ancorado a meio caminho rio abaixo, jogando muito, enquanto seu convés era uma cena de verdadeira confusão de mercadorias.</p>
<p>Uma vez fora do rio, desembarcamos e pagamos ao piloto, navegando então para sudoeste. As autoridades do Espírito Santo parecem ser contrárias ao tráfico de escravos. Fora da cidade estavam parados dois navios, recentemente capturados com escravos a bordo. Um deles era um barco de <span id="INCI_RP20V">Cabinda</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP20" title="Atual Angola, região de origem de boa parte dos escravos brasileiros."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a> improvisado, cuja capacidade certamente não excedia a trinta toneladas, mas que havia trazido em seu porão cento e oitenta escravos da costa da África!</p>
<p>
<span id="INCI_RP21V"><b>CAPÍTULO II</b></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP21" title="É o capítulo XVI do texto original."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a></p>
<p>
<span style="font-size: x-small;">Guarapari. Mulheres do campo. Nec vox hominem sonat. A cana. Benevente. Linha da costa. Piúma. Itabapoama. Itapemirim. Assassinato.</span><br />
<span style="font-size: x-small;"><br /></span><br />
<br />
Entre Espírito Santo e Rio de Janeiro, Guarapari é a vila de maior importância. Está situada às margens de um rio que desemboca numa baía, e o mesmo nome designa baía, rio e cidade. A ancoragem ali é difícil, devido à ressaca permanente, que sempre começa e nunca termina. Essa vila era famosa até recentemente devido ao patrocínio que dava ao tráfico de escravos. Os barcos do Harpy conseguiram apresar um navio negreiro rio acima, a despeito da vigorosa resistência dos cidadãos e da tripulação do navio. Nenhuma parte da vila é visível da baía, e mesmo próximo à foz do rio apenas algumas poucas cabanas aparecem. Sinais de decadência mostram-se por todos os lados. A igreja e o convento erguem-se sobre um alto promontório à entrada do rio, e estão ambos muito dilapidados. O convento especialmente está coberto de ervas daninhas e arbustos, que alcançam grande altura dentro de suas paredes. Não há flores aí, atualmente. Ao lado desses dois edifícios ergue-se uma altíssima palmeira que, sendo a única no promontório, é visível a longa distância, servindo para indicar a posição de Guarapari a navios com destino àquele porto.</p>
<p>Tão logo se cruza a barra do rio, na qual a profundidade é de cerca de três braças, descortina-se subitamente a vila, no lado leste ou na direção do mar, e o porto com um estaleiro, onde pequenos barcos costeiros estão geralmente em fase de construção. O rio, que não tem mais de trezentos pés de largura, estende-se ao sul, paralelamente à costa, e a povoação está situada no istmo entre o rio e o mar.</p>
<p>Em nossa primeira visita a Guarapari, uma canoa comprida e estreita, manejada por dois remadores, veio em nossa direção por sobre os vagalhões. As canoas nessas regiões são muito mais estreitas e compridas do que as de Ilha Grande, sendo sua proa mais pontuda, enquanto a proa das canoas do sul é larga e plana. Quando essa canoa veio encostando, os homens tiveram muita dificuldade em mantê-la a salvo junto à escada, enquanto o navio estava em movimento. Gritos e berros vinham da popa para a proa, e retornavam com juros da proa para a popa.</p>
<p>
<i>Pueri nautis, pueris convitia nauta</i><br />
<span id="INCI_RP22V"><i>Ingerere.</i></span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP22" title="Os meninos lançavam impropérios aos marinheiros, os marinheiros aos meninos. Não foi possível identificar o autor latino."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a></p>
<p>
Amarrado firmemente o barco, um homem subiu com duas caixas de ovos e algumas pobres galinhas subnutridas. Foram comprados imediatamente, mas depois que a canoa retornou à praia os ovos revelaram-se todos podres e velhos, duas qualidades quase sinônimas. Não posso culpar o homem por nos vender tais coisas. Ele deve ter sido informado de que na Inglaterra só honramos o que é velho e inútil.</p>
<p>Mais tarde naquele dia, quando alguns oficiais desembarcaram, depararam com esse homem, que imediatamente fugiu, com todos os terrores de uma consciência pesada, acreditando sem dúvida que uma delegação do navio viera prendê-lo, a fim de enforcá-lo, sendo a forca na Inglaterra a punição mais comum para qualquer crime.</p>
<p>Em nossa visita seguinte a Guarapari, continuamos a explorar as curiosidades do lugar sozinhos<span id="INCI_RP23V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP23" title="É de suspeitar que Wilberforce estivesse sozinho nessa ocasião, narrando suas aventuras em plural majestático."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a> já que o único cicerone, o presidente da Câmara, estava atendendo ao capitão. Numa pequena rua secundária, chegamos diante de uma porta aberta sobre a qual não havia nenhuma tabuleta pendurada para avisar-nos de que a entrada era proibida exceto a negócios. Espiamos lá dentro, o que era muito natural de nossa parte. Se as pessoas deixam as portas abertas, o que podem esperar? Não vimos nada além de algumas crianças brincando no chão, e uma magnífica rede pendurada do teto, desocupada. Afastamo-nos imediatamente, mas não sem atrair sobre nós as mais terríveis conseqüências.</p>
<p>Quando saíamos do recinto, encontramos uma velha que começou a matraquear contra nós tão implacavelmente como se fosse dotada do fôlego de trinta perus. Felizmente ela era parcialmente humana, não totalmente diabólica, e o pouco de humanidade que tinha transparecia na falta de ar depois de longo palavrório. Mas tão logo se calou, seu discurso foi retomado por um velho que parecia digno de ser seu marido, e a quem não desejo destino pior do que esse. Em tal discurso, porém, só eles é que falavam e só nós que ouvíamos, o que era a parte mais difícil. O marido seguiu o mesmo estilo da esposa, mas logo mostrou a inferioridade natural do homem em relação à mulher. Antes que tivesse terminado, ela começou de novo, puxando um coro de mulheres de várias idades, as vozes variando em cadência desde o grito estridente das jovens até o berro rascante das velhas. Inconscientes de nosso crime, batemos em retirada, com o coro atrás, mantendo sempre a cantoria melodiosa. Por último veio um homem ofegante que se pôs a dar pulos frenéticos e socos em nossa direção, praguejando e gritando feito um louco. Naturalmente, nosso único recurso foi praguejar e gritar em resposta, o que fizemos com toda honra até o inimigo se retirar.</p>
<p>Em seguida travamos conhecimento com um personagem sorridente e gracioso, que nos acenou para chegarmos à sua casa. Foi muito cordial conosco e falava com amável franqueza; contudo, seu rosto parecia insincero e assemelhava-se exatamente ao de Simon Renard, nas ilustrações da Torre de Londres feitas por G.C<span id="INCI_RP24V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP24" title="Provavelmente George Cruikshank (1792-1878), famoso caricaturista inglês."><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a> Mas essa insinceridade se explica facilmente pela referência ao seu cargo. Ele era, na verdade, o mestre-escola, um daqueles ilustres cavalheiros de quem freqüentemente ouvimos falar — os mestres-escola do estrangeiro. Mostrou-nos todos os seus instrumentos de ensino, a <span id="INCI_RP25V">tabuada</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP25" title="Termo obscuro. Poderia referir-se também ao quadro-negro."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a> e a palmatória, execrável instrumento do qual nem o Brasil está livre. Os brasileiros, portanto, podem alegar afinidade com o resto do mundo, citando o verso de Juvenal, que deveria funcionar como um sinal de maçonaria e unir num laço indissolúvel todos aqueles que pudessem afirmar</p>
<p>
<i>Et nos ergo manum ferulae subduximus</i><span id="INCI_RP26V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP26" title="E nós que subtraímos a mão à palmatória."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a></p>
<p>
O mestre-escola falava um pouco de inglês e tinha um dicionário de inglês-português e uma gramática, que nos mostrou e que lhe serviram de ajuda para traduzir algumas frases. Lendo uma frase literalmente, com o sentido de &#8220;Minha esposa está aqui&#8221;, ele traduziu desta maneira: &#8220;<i>May wumman ees he-ar</i><span id="INCI_RP27V">&#8220;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP27" title="Transcrição fonética da pronúncia do mestre-escola. A tradução literal é 'Minha mulher está aqui'."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a></p>
<p>Numa loja que tinha persianas de cana e vime servindo de janelas, eu estava comprando algumas laranjas quando entrou uma velha querendo aguardente. Suponho que ela tivesse por volta de quarenta anos, contudo seu rosto era o mais enrugado e medonho que já vira. Uma mulher de oitenta anos na Inglaterra seria bonita em comparação com essa bruxa. Mas o clima tropical, que desenvolve as mulheres aos quatorze anos, as faz envelhecer muito prematuramente.</p>
<p>Em outra loja havia um carola mal-encarado, parecido com um pregador, ou com o imortal Mr. Stiggins dos Documentos de Mr. Pickwick, do saudoso Mr. Boz<span id="INCI_RP28V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP28" title="Pseudônimo de Charles Dickens (1812-1870), autor do livro citado. De estranhar o adjetivo empregado por Wilberforce (no original, late lamented), visto que, nessa época, Dickens ainda estava vivo."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a> que vigiava a linda esposa enquanto ela cuidava dos negócios da venda. Comprei um peru, e outros perus foram comprados em outras lojas. Estavam todos tão calados que concluímos, recordando a aventura da manhã, que os perus de Guarapari haviam transferido suas vozes às mulheres dessa vila, recebendo a beleza delas em troca.</p>
<p>Prosseguiremos agora fornecendo uma descrição de outras partes notáveis dessa costa no estilo guia de viagem.</p>
<p>
<b>Benevente</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
<b><br /></b><br />
A baía de <span id="INCI_RP29V">Benevente</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP29" title="Atual cidade de Anchieta."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a> é larga, rasa e aberta. Navios de mais de dez pés de calado não podem chegar a uma milha da praia, mas podem ancorar a alguma distância fora dela, em quatro braças e meia, orientando-se pela última quarta lessueste e pela casa mais visível do lugar, norte por nordeste.</p>
<p>A povoação está situada no lado direito da foz de um rio que deságua no mar. Fica, em sua maior parte, em terreno baixo, com exceção da igreja e de um prédio junto a ela, que aparentemente foi um mosteiro, apesar da parte mais baixa estar agora transformada em prisão. Ficando a outra parte da vila quase no mesmo nível do rio, as ruas, que antes devem ter sido parcialmente calçadas, são hoje uma sucessão de poças de algo que deve ter sido água um dia. As casas estão, em grande número, em triste estado de decadência, sendo algumas restos de belos edifícios, com cortinas, persianas e entalhes de madeira.</p>
<p>Vários pequenos navios estão no estaleiro, e muitos barcos costeiros comerciam os produtos das fazendas situadas rio acima. O suprimento é abundante e de fácil obtenção; mas como é trazido do interior, é preciso uma antecedência mínima de um dia no pedido. O rio é navegável por canoa até duas milhas além da vila, encontrando-se boa caça em suas margens. No ponto extremo da baía existe um recife chamado Ponta do Cormorant, por ter o vapor <span id="INCI_RP30V"><i>Cormorant</i><span id="INCI_RP30V"></span><a href="https://www.blogger.com/null" span=""></a><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP30" title="Com esse mesmo cruzador inglês, também ocupado na repressão ao tráfico de escravos na costa brasileira, deu-se incidente na baía de Paranaguá, em julho de 1850, conforme relata Helio Vianna em sua História do Brasil (Melhoramentos, São Paulo, 9 ed., 1972): 'Tendo este navio aí realizado o apresamento de uma galera e dois brigues, foi hostilizado com tiros partidos da Fortaleza da Barra, disso resultando a morte de um tripulante e ferimentos em dois'. (p. 151 da segunda parte)."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a> encalhado ali.</p>
<p>O relevo da costa entre o cabo São Tomé e Guarapari é baixo; mas quarenta milhas para o interior se ergue uma cadeia de montanhas de talhe o mais rebuscado. Entre esses montes e a costa há extensas florestas de madeira de boa qualidade, principalmente pau-rosa<span id="INCI_RP31V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP31" title="Aniba rosaeodora. Árvore que contém um óleo composto fundamentalmente de linalol, de grande emprego em perfumaria."><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a> habitadas por índios vivendo em estado de barbárie. Diz-se que eles ocasionalmente se casam com colonos e que em certas estações do ano visitam as fazendas a fim de trabalhar, sendo pagos sobretudo com cachaça, bebida alcoólica local, semelhante à <i>aqua ardente</i>. Poderíamos deduzir, entretanto, que esses selvagens nem sempre visitam a civilização com tão amistosos motivos, mas são freqüentemente seduzidos pela esperança de saque. Os habitantes do litoral vivem principalmente da pesca, e quando nossos navios de guerra navegavam nessas águas para reprimir o tráfico de escravos, as pessoas entravam em aflição, impedidas de fazer-se ao mar em suas canoas devido à proximidade dos navios. Laranjas e bananas, entretanto, são encontradas aí em abundância, e com elas os brasileiros conseguem sobreviver, à falta de outro alimento.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Piúma</b></p>
<p>
Trata-se de um vilarejo próximo a Benevente, às margens de pequeno rio, e notável pela farta produção de pau-rosa, que pode ser adquirido a baixo custo.</p>
<p>Em frente à foz do rio de Piúma encontra-se a pequena ilha dos Franceses<span id="INCI_RP32V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP32" title="Franceza, no original."><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a> a leste da qual se estende uma linha de recifes rochosos, que servem de abrigo às embarcações. Aí se pode obter areia, tendo os navios de guerra descoberto que é um lugar propício para treinamento de tiro ao alvo com seus canhões. Outro bom ancoradouro fica ao largo dos Três Rochedos Vermelhos, que formam uma visível interrupção na cor parda que predomina à direita e à esquerda. Ao pé desses rochedos, no fundo da praia arenosa, há uma pequena floresta, discernindo-se cabanas entre as árvores. Há também um baixio com duas braças e meia na parte mais rasa em frente a esses rochedos, cujas orientações são as seguintes:</p>
<p>Grande Casa Branca no topo dos Rochedos Vermelhos, sudoeste por oeste quatro milhas.</p>
<p>Dois montes impressionantes (representados no diário de bordo por um rabisco indeciso, com um borrão em cada ponta), noroeste por norte.</p>
<p>
<b>Itabapoana</b></p>
<p>
Vila também às margens de um rio, com uma casa grande perto da barra. O ancoradouro está em latitude 21° 23&#8242; sul e longitude 40° 51&#8242; oeste. Posições, casa grande sudoeste, por sul duas milhas. Recifes a sueste por leste duas milhas.</p>
<p>Ponta dos Rochedos Vermelhos nordeste por norte. Os baixios ficam a cerca de seis milhas a oeste da casa grande. Dentro desse rio estava uma escuna de velas latinas. Ela havia desembarcado cento e sessenta escravos na véspera e foi apreendida imediatamente pelas autoridades governamentais, que ocupam a casa grande da barra. Era pouco maior que muitos navios negreiros, em proporção ao número de escravos que transportava.</p>
<p>
<b>Itapemirim</b><br />
<b><br /></b><br />
<br />
Vila de certo tamanho, situada uma milha ou duas rio acima. É notável sobretudo devido ao seu estágio de civilização, que mostra que a simplicidade de um refúgio rural nem sempre assegura paz e boa-vontade. Enquanto passeávamos com o presidente da Câmara, o capitão viu uma casa inacabada. Imediatamente parou para examiná-la com um sobressalto melodramático. Ela parecia sombria e desolada, como se cada tijolo soubesse do crime que retardara seu progresso, e que nem todas as lamentações e uivos angustiados de um vento forte em sua chaminé poderiam jamais revelar. Havia algo de sinistro e terrível na mera contemplação de suas obras inacabadas. O vento soprava suavemente? Era somente por comiseração pelo infeliz construtor; era apenas um lamento plangente pelo seu súbito, fim. O vento estava silencioso? Ele ainda parecia remoer serenamente aquele lugar e embalar-se naquele monte de argamassa que se deteriorava a um canto. A tempestade caía, o relâmpago brilhava; o trovão bramia, a chuva despejava suas grossas gotas? Tudo isso caía sobre a casa por motivos que nenhum mortal pode descrever. As desoladas súplicas de seus tijolos mudos, os gemidos e assobios da chaminé, tudo mostrava que ali se fizera algo que poderia ferir os ouvidos e sufocar a fala.</p>
<p>Por que a casa estava inacabada? Ah, sim! — disse serenamente o presidente da Câmara — ela pertence a um homem que foi apunhalado outro dia.</p>
<p>— Apunhalado! Por que razão?</p>
<p>— Realmente não sei; nada pessoal, eu acho. Uma simples provocação, ou coisa assim. Há indivíduos terríveis por aqui; sem exceção, os mais sanguinários que já vi.</p>
<p>Depois de tal exemplo, o depoimento do presidente da Câmara não era difícil de acreditar.</p>
<p>_____________________________<br />
</span></p>
<h4>
<span id="INCI_RP30V"><br />
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTAS</span></span></h4>
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<div id="INCI_RP1">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;É o prefácio geral da obra.</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span><br />
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<div id="INCI_RP2">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;É o capítulo XV do texto original.</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span><br />
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<div id="INCI_RP3">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se do convento da Penha.</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
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<div id="INCI_RP4">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;À maneira dos antigos. Em latim no original.</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span></p>
<div id="INCI_RP5">
<span id="INCI_RP30V"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Essa é a tradução que Taunay fez dos versos de Wilberforce, incluindo-os em seu ensaio &#8220;Impressões de Vitória e seus arredores&#8221;, publicado no<i> Jornal do Comércio</i>, em 1945. (Apud Norbertino Bahiense, <i>O convento da Penha</i>, Vitória, 1 95 I.).</span></div>
<p><span id="INCI_RP30V"></p>
<div id="INCI_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Atualmente morro do Penedo. Era assim chamado pelos portugueses, como a outros morros de mesma configuração e talhe arredondado, numa alusão aos torrões de açúcar para exportação.</div>
<div id="INCI_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;É o palácio Anchieta. A interrogação entre parênteses está no texto original.</div>
<div id="INCI_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;O primeiro-tenente Jonh H. Crang que, juntamente com o capitão Edward Tatham, visitou o convento da Penha em 3 de setembro de 1851 (cf. Norbertino Babiense, op. cit., p. 8.</div>
<div id="INCI_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Wilberforce interpelou no texto de Crang, entre parênteses, a seguinte observação: &#8220;Estou envergonhado de você, herético colega, por dar vazão a semelhante sentimento&#8221;.</div>
<div id="INCI_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Não foi possível localizar o autor desses versos, em inglês no original.</div>
<div id="INCI_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Poeta sagrado, ou eleito pelos deuses. Em latim no original.</div>
<div id="INCI_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;Trata-se de um texto de autoria de um capixaba anônimo e publicado em jornal do Rio (como o atesta a indicação &#8220;de nosso correspondente&#8221;), cuja tradução Wilberforce incluiu em seu relato.</div>
<div id="INCI_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Canção folclórica norte-americana.</div>
<div id="INCI_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;Como no original.</div>
<div id="INCI_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;Para o alto! Em latim no original.</div>
<div id="INCI_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;ozinheiro exímio. Em francês no original.</div>
<div id="INCI_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Como no original.</div>
<div id="INCI_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;Siriúba (<i>Avicennia nitida</i>) e mangue (<i>Rhizophora mangles</i>), duas árvores tropicais típicas da vegetação dos mangues, ambas frequentemente traduzidas pelo vocábulo mangrove, usado pelo autor no original.</div>
<div id="INCI_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Ave passeriforme de cor negra (<i>Pipraeidae m. melanonota</i>).</div>
<div id="INCI_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;Atual Angola, região de origem de boa parte dos escravos brasileiros.</div>
<div id="INCI_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;É o capítulo XVI do texto original.</div>
<div id="INCI_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;Os meninos lançavam impropérios aos marinheiros, os marinheiros aos meninos. Não foi possível identificar o autor latino.</div>
<div id="INCI_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;É de suspeitar que Wilberforce estivesse sozinho nessa ocasião, narrando suas aventuras em plural majestático.</div>
<div id="INCI_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;Provavelmente George Cruikshank (1792-1878), famoso caricaturista inglês.</div>
<div id="INCI_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;Termo obscuro. Poderia referir-se também ao quadro-negro.</div>
<div id="INCI_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;E nós que subtraímos a mão à palmatória.</div>
<div id="INCI_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Transcrição fonética da pronúncia do mestre-escola. A tradução literal é &#8220;Minha mulher está aqui&#8221;.</div>
<div id="INCI_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;Pseudônimo de Charles Dickens (1812-1870), autor do livro citado. De estranhar o adjetivo empregado por Wilberforce (no original, <i>late lamented</i>), visto que, nessa época, Dickens ainda estava vivo.</div>
<div id="INCI_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;Atual cidade de Anchieta.</div>
<div id="INCI_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;Com esse mesmo cruzador inglês, também ocupado na repressão ao tráfico de escravos na costa brasileira, deu-se incidente na baía de Paranaguá, em julho de 1850, conforme relata Helio Vianna em sua <i>História do Brasil </i>(Melhoramentos, São Paulo, 9 ed., 1972): &#8220;Tendo este navio aí realizado o apresamento de uma galera e dois brigues, foi hostilizado com tiros partidos da Fortaleza da Barra, disso resultando a morte de um tripulante e ferimentos em dois&#8221;. (p. 151 da segunda parte).</div>
<div id="INCI_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP31V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Aniba rosaeodora</i>. Árvore que contém um óleo composto fundamentalmente de linalol, de grande emprego em perfumaria.</div>
<div id="INCI_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/#INCI_RP32V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Franceza</i>, no original.</div>
<p>[WILBERFORCE, Edward.&nbsp;<i>Ingleses na costa – Impressões de um aspirante de marinha sobre o Espírito Santo em 1851</i>. (Tradução de Eliziane Andrade Paiva) Vitória: Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo; Academia Espírito-santense de Letras, Cultural-ES; 1989. 37p.]<br />
</span></p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
<div>
<span id="INCI_RP30V"><br /></span><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Edward Wilberforce</b>, integrante da oficialidade da corveta de guerra&nbsp;<i>Geyser</i>&nbsp;que esteve no Espírito Santo na primavera de 1851 sob o comando do capitão de fragata Edward Tatham, em missão repressiva ao contrabando de africanos.</p></blockquote>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)&nbsp;</p></blockquote>
<p></div>
<p><span id="INCI_RP30V"><br />
</span></p>
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		<title>Espírito Santo, Brasil (Português / Inglês)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 07 Oct 2016 14:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Baía de Vitória a partir do Morro do Moreno. Foto Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016. Texto (Text): Luiz Guilherme Santos Neves Renato Pacheco Reinaldo Santos Neves TERRA DE MAR E MONTANHA /&#160;LAND OF MOUNTAINS AND SEA Desta terra sem par a grandeza O meu canto não diz nem traduz São cachoeiras de força e [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;">
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-GVNPe3c75-Q/V_ezgbp3B_I/AAAAAAAAKYw/-Q__oZ3j77gnmnokQb3lLM6F-o31OEL1ACLcB/s1600/Vista-MC.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Baía de Vitória a partir do Morro do Moreno. Foto Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016." border="0" height="326" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/10/Vista-MC.jpg" class="wp-image-5297" title="Baía de Vitória a partir do Morro do Moreno. Foto Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Baía de Vitória a partir do Morro do Moreno. Foto Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Texto (Text): Luiz Guilherme Santos Neves</p></div>
<div style="text-align: right;">
Renato Pacheco</div>
<div style="text-align: right;">
Reinaldo Santos Neves</div>
<h4>
<br />TERRA DE MAR E MONTANHA /&nbsp;LAND OF MOUNTAINS AND SEA</h4>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 40%;">
<tbody>
<tr>
<td>Desta terra sem par a grandeza<br />
O meu canto não diz nem traduz<br />
São cachoeiras de força e beleza<br />
São montanhas cobertas de luz<br />
(Canção Minha terra, letra de Cyro Vieira da Cunha, música de Henrique Vogeler)<br />
&#8212;&#8212;&#8211;<br />
I know not how to sing or tell you<br />
Of this matchless land’s wonders:<br />
Waterfalls in their strength and beauty,<br />
Mountains sparkled with light.<br />
(My land. Lyrics by Cyro Veira da Cunha, music by Henrique Vogeler.)</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>Espírito Santo, Brasil. O que é? Como é? O que tem de El-Dorado, de Shangri-lá, de Canaã?</p>
<p>Falemos desse pequeno Estado do sudeste brasileiro. E falemos primeiro da terra, porque no princípio era a terra.</p>
<p>Em linguagem de geógrafo se diria que o Espírito Santo é um território de 45.597 km² de superfície, situado nos trópicos entre 17º 55′ 21″ e 21º 17′ 59″ de latitude sul. Mas, em estilo de crônica, vejam: o Espírito Santo, no mapa, nada mais é do que uma faixa de terra espremida entre o vasto Estado de Minas Gerais e o profundo mar azul. Parece mesmo, por ironia ou simbolismo, um Portugal invertido, com Minas fazendo o papel de Espanha, eqnaunto o oceano é o mesmo, Atlântico lá como cá. A diferença está no sol, que aqui se ergue molhado de mar, e lá, é no leito do mar que se deita ao crepúsculo.</p>
<p>É uma terra feita de mar e montanha, que o sol banha de muita luz a maior parte do ano.</p>
<p>As praias se sucedem ao longo de 400 quilômetros de costa, alternando-se em estirões e enseadas. Algumas conservam traços primitivos e edênicos. Outras se sofisticaram em balneários de fama internacional.</p>
<p>No verão essas praias são tomadas de assalto pelos turistas, atraídos pelas águas claras de temperatura agradável. Cresce então a procura pelos pratos típicos da terra, feitos com frutos do mar — peixes, camarões, siris e lagostas — ou com caranguejos, frutos dos mangues do litoral do Espírito Santo. Nessa culinária reina soberana a moqueca de peixe com pirão de farinha, servida fervendo em panela de barro.</p>
<p>A partir de 16 milhas da costa, nas águas azuis, a plataforma continental do Espírito Santo é o principal reduto do mundo para a pesca do marlim. Um marlim azul de 636 quilos mereceu registro noGuiness Book of Records.</p>
<p>As montanhas realçam a beleza natural da região central do Espírito Santo. Esses verdes relevos têm ameno clima tropical de altitude e a temperatura, nas noites de inverno, pode chegar perto de zero grau centígrado. Aí vivem beija-flores e orquídeas, e espalham-se pacatas cidades com jeito rural, onde o tempo não tem pressa de passar. Aí se deparam cenários que lembram recantos europeus, numa transposição mágica de geografias.</p>
<p>A região tem bons hotéis com chalés à beira de lagos onde se pode pescara carpa do almoço e campos de golfe para praticar aquele que é o mais tranqüilo dos esportes. Sem falar nas pousadas e restaurantes de estilo rústico nas vertentes das colinas cobertas de mata.</p>
<p>Rio é coisa que não falta nessa parte do Espírito Santo, com águas frias e arrepiadas caindo em penca em inúmeras cachoeiras e cascatas, ou percorrendo vales cheios de história, porque neles se estabeleceram colônias de imigrantes europeus. O nome de alguns deles — Jucu, Itapemirim — guarda a lembrança dos indígenas, donos da terra por direito natural. O nome de outros, como Benevente, fixa a saudade que o colono português sentia de casa.</p>
<p>Mas o maior rio do Estado chama-se simplesmente rio Doce. Natural de Minas Gerais, vem desaguar no Atlântico, cindindo o território do Espírito Santo em duas metades quase iguais em tamanho, porém de relevo distinto.</p>
<p>Ao sul ficam os contrafortes da serra da Mantiqueira, que se aproxima do litoral para espiar o mar. Seu ponto culminante é o pico da Bandeira, na serra do Caparaó, muro que separa os quintais do Espírito Santo e Minas Gerais. Do alto de seus2.890 metros fica fácil, quando as nuvens não tapam a vista, contemplar boa parte do Espírito Santo.</p>
<p>Já ao norte do rio Doce abre-se uma região de tabuleiros ondulados onde despontam belos picos solteiros plantados em meio a maciços de granito. O rio São Mateus, chamado Cricaré — ou preguiçoso, em língua tupi — desliza por essas bandas numa pachorra que lhe justifica o antigo nome.</p>
<p>Nessa parte setentrional, em que o porto de São Mateus teve época de fastígio, graças ao comércio da farinha de mandioca, desenvolvem-se hoje a pecuária, o reflorestamento intensivo e a produção do petróleo.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
Espírito Santo, Brazil. What is it? What is it like? What does it have in common with El Dorado, Shangri-la, and Canaan? We will speak first of the land, because it has always been there.</p>
<p>Geographers would state that Espírito Santo has an area of 17,605 square miles in the tropics, between 17º 55′ 21″ and 21º 17′ 59″ south latitudes. But, if we were to write a chronicle, we would say that, on a map, it represents no more than a strip of land wedged between the state of Minas Gerais and the deep blue sea. It seems — be it ironically or symbolically — like an inverted Portugal, with Minas playing the role of Spain whereas the ocean is the same. It is the Atlantic, both here and there. We find the difference in the sun. Here it rises, drenched by the sea, and there its settles into a watery bed at dusk.</p>
<p>This is a land forged from the mountains and sea, basking in the sun most of the year.</p>
<p>Its beaches lie along more than two hundred miles of coast, alternating between long, sandy stretches and small bays. Some have retained their primitive, Edenic features while others have become sophisticated resorts of world renown.</p>
<p>During the summer, those beaches are stormed by tourists, attracted by the clear, warm waters. And the demand grows for typical local dishes prepared from the fish, shrimp and lobsters taken from the sea or crabs from the mangrove swamps along the coast. The matchless specialty there is fish moqueca, served boiling in earthenware pots with a side of pirão de farinha — a spicy cassava flour mush.</p>
<p>The continental shelf, which begins 16 miles offshore, is by far the best spot in the world for marlin fishing. A 1,404-pound blue marlin caught there was duly granted an entry in the Guinness Book of Records.</p>
<p>Mountains heighten central Espírito Santo’s beauty. Those green highlands enjoy a mild climate, where the temperature may drop to zero degree Celsius on winter nights. In an area that is home to hummingbirds and orchids, peaceful rural towns abound where there is no hurrying time. And we can find scenes that remind us of Europe, in a magical transposition of geography.</p>
<p>The region features good hotels with lakeside chalets. You can catch a carp for your lunch or take advantage of the golf course built for fans of that particularly relaxing sport. And we have not even mentioned the rustic restaurants and inns scattered on the slopes of tree-covered hills.</p>
<p>There is no shortage of streams in the area. Their chilly waters rush over numerous falls and wash along valleys drenched with the history of the European immigrants who once settled on their banks. Some of their names — Jucu, Itapemirim — remind of the land’s original inhabitants, the Indians. Others, like Benevente, express the Portuguese colonists’ longing for their homeland.</p>
<p>The state’s greatest river is simply called the Rio Doce — Fresh Water River. With its headwaters in Minas Gerais, it flows eastward to the Atlantic ocean and divides Espírito Santo into two halves, almost identical in size but with quite different contours.</p>
<p>In the south lie the foothills of the Mantiqueira range, which approach the coast as if to peep at the sea. They culminate at Bandeira peak in the Caparaó range, forming a wall that separates the backyards of Espírito Santo and Minas Gerais. At 9,462 feet, you can easily see much of Espírito Santo on a clear, dry day.</p>
<p>A vast expanse of rolling tablelands stretches north from the Rio Doce, displaying beautiful, solitary peaks that crop up among granite massifs. Rio São Mateus, also know as Cricaré — Lazy River in Tupi — flows across those areas at a sluggish pace that accounts for its earlier name.</p>
<p>Today, we find cattle farming, intensive reforestation, and oil production in this northern region where São Mateus was once a booming port, thanks to cassava flour.</p>
<h4>
<br />UM POUCO DE HISTÓRIA /&nbsp;A BIT OF HISTORY</h4>
<p>
Falamos da terra. Falemos agora um pouca da história do povo que nela habita.</p>
<p>Pode-se dizer, com liberdade de imagem, que a história do Espírito Santo tem uma estrutura sinfônica, dividindo-se em três movimentos: <i>vivace com brio</i>, <i>adagio </i>e <i>presto</i>.</p>
<p>O primeiro movimento abrange o século inicial da colonização portuguesa, quando se põem face a face, na terra luxuriosa, portugueses e índios, no confronto dos contrários. A fundação dos primeiros povoados, a criação de uma agricultura permanente, a exploração do território, a pregação do cristianismo pelo jesuítas, a escravização e aldeamento dos indígenas, fazem estalar conflitos inevitáveis entre colonos e índios, marcando com a violência os compassos dessas overture. A introdução do africano para o trabalho das lavouras agrava e amplia o ritmo desses entrechoques.</p>
<p>Vasco Fernandes Coutinho, o primeiro donatário, é o personagem principal desse período. Sua longa vida teve duas fases bem distintas: na primeira ele é o herói camoniano, o lusíada que desbrava os mares e conquista as Índias, na Segunda, que é a aventura brasileira, Coutinho protagoniza uma tragédia shakesperiana de fracasso, miséria e morte. Tendo empenhado patrimônio e saúde na colonização, morreu quase ao desamparo depois de 25 anos de Brasil.</p>
<p>A chegada dos portugueses à terra se deu em 23 de maio de 1535, Domingo do Espírito Santo — razão do nome. Espírito Santo também chamou-se a primeira vila, fundada no remanso de uma enseada, a Prainha. Quinze anos depois, o lugarejo passou a chamar-se Vila Velha, não porque tivesse envelhecido a olhos vistos, mas porque a administração da colônia foi mudada para local mais seguro, a ilha montanhosa no interior da baía. Desde então, a Vila Nova de Nossa Senhora da Vitória tornou-se sede do governo do Espírito Santo.</p>
<p>Esparsos núcleos de povoamento surgiram ao norte e ao sul de Vitória — São Mateus, Nova Almeida, Serra, Guarapari, Reritiba — sempre na franja litorânea. Suas populações, ralas e humildes, daí não arredavam pé, sofrendo da crônica falta de recursos, atemorizados pelos índios do sertão e pelos piratas do mar.</p>
<p>Era o pau-brasil e o açúcar da capitania que atraíam esses piratas, mas suas incursões não passaram de grandes sustos. Nem os franceses, nem os ingleses, que aqui estiveram em 1592 sob o comando do célebre corsário Thomas Cavendish, conseguiram butim que valesse a pena.</p>
<p>Maior foi o susto nas duas ocasiões em que holandeses assaltaram Vitória subindo suas ladeiras. Em 1625 tiveram de se ver com a jovem Maria Ortiz, que se fez heroína e virou mito. Em 1640, foram repelidos após ferozes escaramuças que serviram para batizar uma ladeira com o nome de rua do Fogo.</p>
<p>Lá na Bahia, o padre Antônio Vieira celebrou a derrota dos protestantes com estas palavras de duplo sentido: “Esta foi a vitória do Espírito Santo uma das mais notáveis que hão tido no Brasil as armas católicas”.</p>
<p>São palavras de exaltação que encerram o <i>vivace com brio</i> de nossa sinfonia histórica.</p>
<p>O segundo movimento é um <i>adagio</i>. Descobrira-se ouro no sertão, que foi logo desmembrado do território do Espírito Santo para constituir a capitania de Minas Gerais. Para proteger riquezas recém-descobertas, Portugal proibiu a abertura de caminhos naquela direção, sob pena de confisco e degredo para Angola.</p>
<p>Mesmo parcos de bens, os habitantes do Espírito Santo não se arriscaram ao desterra, e até acharam na ameaça oficial um motivo a mais para ficar como estavam. Permaneceram aquietados no litoral, emendando o vazio dos dias com os pavores da noite, bastando-se das roças de milho, feijão e mandioca. O regalo das proteínas, em sua dieta diária, vinha dos peixes que colhiam ao mar e aos rios e que comiam do jeito que já se sabe, cozidos em panelas de barro, fortalecendo assim a tradição das moquecas.</p>
<p>O século XIX vê brotar um outro Espírito Santo, no que seria o terceiro movimento — <i>presto </i>— da sinfonia, uma sinfonia ainda inacabada. Esgotado o ouro das Minas Gerais, foi estimulada a comunicação com aquela capitania pelo governo português. O sertão, antes impenetrável, passou a ser desbastado e o botocudo, que nele habitava, defendeu como pôde seu território.</p>
<p>Nesse século começa também, em ondas crescentes, o avanço dos cafezais pelo sul da província, ficando raízes no chão antes recoberto de matas. Lavradores fluminenses e mineiros fundam fazendas no vale do rio Itapemirim e em terrenos vizinhos. Em pouco, um novo pólo econômico centraliza-se na vila de Cachoeiro de Itapemirim.</p>
<p>A partir de meados do século foram criados, nas serras centrais do Espírito Santo e nos vales dos rios que por entre elas correm, colônias com novos imigrantes europeus. São colonos da Europa Central, alemães — especialmente pomeranos — austríacos, suíços e holandeses. Mas o maior número vem do norte da Itália em fluxo que não pára.</p>
<p>Plantando e colhendo café juntamente com outros produtos agrícolas, os imigrantes e seus descendentes vão gradativamente incorporando novas áreas à agricultura, transpondo o rio Doce e desbravando as terras setentrionais, onde mineiros e baianos também se estabeleciam. Na metade do século XX o território do Espírito Santo estava enfim todo conquistado. A população rural sobrepujava a urbana mas a cidade de Vitória, capital do Estado, já pontificava como importante porto do litoral brasileiro.</p>
<p>Esta situação demográfica se inverteu nas décadas seguintes. Atualmente quase metade da população do Espírito Santo, cujo total ascende a cerca de 3 milhões de habitantes, vive nas cidades, com maior concentração na região metropolitana da Grande Vitória. Constituída pelos municípios da Serra, Vila Velha, Cariacica, Viana e Vitória.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
We have talked about the land, so let us now turn to the history of those who live there.</p>
<p>We can imagine the history of Espírito Santo as being a three-movement symphony. The first movement — <i>vivace con brio</i> — spans the first century of European colonization, as the Portuguese and Indians faced each other in a battle of contrasts over a lush, tropical country. The founding of the first settlements, introduction of permanent agriculture, exploration of the land, preaching of Christianity by Jesuit missionaries, and attempts to settle the Indians and reduce them into slavery gave rise to inevitable conflicts between the native population and the colonists, thus stamping this overture with a high pitch of violence. The forced arrival of Africans to work in the fields aggravated and deepened those hostilities.</p>
<p>Vasco Fernandes Coutinho, who received the first grant in Espírito Santo, was the outstanding figure during this period. His long life had two very different phases. He began as a typical Portuguese hero in the style of Camoëns’s Lusíadas by braving unknown seas and conquering the East Indies. As a middle-aged man, however, he took part in a Shakespearean tragedy of failure, misery, and death on Brazilian shores. He invested both his property and health in the colonial effort, only to die almost penniless after twenty-five years in the country.</p>
<p>The Portuguese landed on May 23, 1535, Pentecost Sunday — Domingo do Espírito Santo in their language — which explains the origins of the name. They also christened their first settlement on the backwaters of the bay — Prainha, or Small Beach — with the same name. Fifteen years later, it was changed to Vila Velha — Old Village, but not because the village had aged. Rather, they moved the colonial administration to a safer location — a mountainous island in the bay. Since that time, the new village — Vila Nova de Nossa Senhora da Vitória — has been the seat of government in Espírito Santo.</p>
<p>Dispersed settlements sprang up north and south of Vitória — São Mateus, Nova Almeida, Serra, Guarapari, Reritiba — all along or near the coast. Poor and few in number, the colonists would not budge, even though they suffered from chronic shortages of supplies and were terrified of Indians from the backlands and pirates from the sea.</p>
<p>The pirates coveted brazilwood and sugar, but their raids in Espírito Santo caused little more than great alarm. Neither the French nor the English — the latter led by the famed privateer Thomas Cavendish in 1592 — were able to take enough loot to justify their effort.</p>
<p>The Dutch tried and almost succeeded where others had failed. They twice fought their way up the island’s slopes. In 1625, they had to deal with Maria Ortiz, a young heroine who became a local legend. They were driven off in 1640 after a series of wild skirmishes that gave Fire Street its name.</p>
<p>In Bahia, Father Antônio Vieira commemorated the Protestants’ defeat with a play on words: “This Victory of the Holy Spirit was one of the most remarkable victories ever achieved by Catholic arms in Brazil.” In Portuguese, Vitória do Espírito Santo can mean both the name of the city and, literally, the victory in question.</p>
<p>And with these words of exaltation, the first movement of our historic symphony comes to a close.</p>
<p>Our second movement is an <i>adagio</i>. Gold was discovered in the hinterlands, which led the Portuguese to separate it from Espírito Santo and create the captaincy of Minas Gerais. So zealous were they about protecting their newly-found mines that they forbade the opening of roads westward, under the penalty of forfeiture of property and banishment to Angola.</p>
<p>Though destitute, Espírito Santo’s inhabitants would not risk being transported overseas. They even regarded the official threat as another reason to stay the way they were. They quietly remained on the coast, coupling fear of their nights with the emptiness of their days while contenting themselves with crops of corn, beans, and cassava. The protein in their daily diet came from fish they caught at sea or in the rivers, which they boiled in earthenware pots, thus strengthening the tradition of moquecas.</p>
<p>Our third symphonic movement — <i>presto </i>— brought with it the flowering of a new Espírito Santo in the nineteenth century, which is still in progress. With the depletion of gold in Minas Gerais, the Portuguese government encouraged the opening of new routes to that captaincy. The backlands, formerly barred, were now opened and the Botocudo Indians living there defended their land as best they could.</p>
<p>At the time, coffee groves were planted in southern Espírito Santo on formerly forest-covered lands. Farmers from Rio de Janeiro and Minas Gerais established plantations in and around Itapemirim Valley and a new economic axis was soon centered on the village of Cachoeiro de Itapemirim.</p>
<p>By mid-century, new waves of European immigrants had begun settling in the central highlands and along the rivers running through its valleys. The immigrants were from Central Europe — Germans, mainly from Pomerania, as well as Austrians, Swiss, and Dutch. But the greatest numbers came from northern Italy in a never-ending flow.</p>
<p>The immigrants and their descendants, planting and harvesting coffee, gradually occupied new areas for agriculture. They spread beyond the Rio Doce into northern Espírito Santo, where people from Minas Gerais and Bahia had already put down roots.</p>
<p>By mid-twentieth century, Espírito Santo’s territory had been fully occupied. The rural population out-numbered that in urban areas, but Vitória, the state capital, had grown into a major Brazilian port.</p>
<p>This demographic pattern was reversed in subsequent decades. Today, roughly, half of the state’s three million inhabitants live in cities, particularly in Cariacica, Viana, Vila Velha, and Vitória.</p>
<h4>
RAÍZES CULTURAIS /&nbsp;CULTURAL ROOTS</h4>
<p>
Se a história do Espírito Santo veio do mar, sua cultura formou-se na terra, de outras culturas pré-existentes.</p>
<p>Os índios contribuíram com palavras que batizaram lugares e enriqueceram a língua do povo. A expressão capixaba é uma delas. Significando em tupi pequena roça de milho, virou o gentílico dos nascidos no Espírito Santo. Os índios transmitiram ainda técnicas tropicais de pescar e caçar, do fabrico da farinha de mandioca, da produção de panelas de barro usadas na culinária e na decoração. De lambuja ensinaram os portugueses a pescar com gestos artísticos usando tarrafas.</p>
<p>Os africanos entraram, de sua parte, com danças populares como as Bandas de Congo e o Ticumbi, de indumentária vistosa e coreografia guerreira. Deles veio a devoção a São Benedito, o requinte no preparo das comidas à base de farinha de mandioca, da torta de marisco da Semana Santa e da gostosa moqueca capixaba, feita com o africano capricho de temperos e azeites.</p>
<p>Os portugueses trouxeram a língua, a organização administrativa, a arquitetura colonial e a fé católica, cujo monumento máximo é o convento da Penha, na entrada da baía de Vitória, o mais notável templo seiscentista da costa do Brasil. Fundado pelo fanciscano frei Pedro Palácios, o convento tornou-se sede do culto a Nossa Senhora da Penha, padroeira do Espírito Santo.</p>
<p>Os imigrantes da Itália e da Europa Central deixaram sua marca na culinária, de que é exemplo a polenta da receita italiana, e na arquitetura de telhados inclinados. Com experiência milenar legaram a aptidão para o cultivo do solo, a prática de ofícios artesanais e mecânicos e o gosto pela música o vaivem alegre e serpentino das concertinas. Seu poder de iniciativa revela-se em grandes empreendimentos do comércio e da indústria, acompanhados mais tarde pelos descendentes dos sírios e libaneses, chegados ao Espírito Santo no começo do século XX.</p>
<p>O perfil cultural do Espírito Santo não está acabado. Ele continua sendo conformado pelas transformações econômicas e sociais. Os japoneses, mais recentemente, estão se integrando a este grande caldeamento cultural, atraídos como técnicos pelos projetos industriais em expansão, principalmente nas áreas portuária, siderúrgica e de indústrias de ponta.</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
If Espírito Santo’s history arrived by sea, its culture was forged on land from other cultures.</p>
<p>Indians gave us place names and enriched our everyday language. The very word capixaba serves as an example. Originally a Tupi word meaning a small corn field, capixaba now signifies anyone born in Espírito Santo. They also contributed hunting and fishing skills, cassava flour, techniques for making earthenware pots used for cooking and decorative purposes. As a bonus, they taught the Portuguese the graceful art of fishing with throw nets.</p>
<p>The Africans, on their part, also contributed folk dances replete with colorful costumes and warlike choreography, such as the Congo and Ticumbi. In addition, they gave us the cult of St. Benedict, excellent cassava-based culinary, a seafood pie traditionally served during Holy Week, and the delicious moqueca, concocted with typically African spices and oils.</p>
<p>The Portuguese brought their language, administrative organization, colonial architecture, and the Catholic religion. The convent of Our Lady of the Rock, atop a hill overlooking the entrance to Vitória bay, is the most notable example of colonial church architecture on Brazil’s coast. Founded by the Franciscan friar Pedro Palácios, it became the shrine of Our Lady of the Rock, Espírito Santo’s patron saint.</p>
<p>Immigrants from Italy and Central Europe also left their mark on local cuisine and architecture, as shown by Italian polenta and tall, sloping roofs. Their millennial legacy included agricultural techniques, handicrafts, mechanical skills, and a taste for concertina music. Many large commercial and industrial ventures bear witness to their entrepreneurial abilities, an aptitude they share with the descendants of Syrians and Lebanese who arrived here in the early twentieth century.</p>
<p>Espírito Santo’s cultural profile has not yet been completed. It is still undergoing economic and social transformations. The Japanese, recent newcomers, are integrating themselves in this great cultural melting pot. They are being employed as technicians in expanding industrial projects, especially in port facilities, iron ore mills, and state-of-the-art technology.</p>
<h4>
A CAMINHO DE UM TEMPO NOVO /&nbsp;BOUND FOR TOMORROW</h4>
<p>
Falemos, finalmente, do que se fez e se pode fazer nesta terra.</p>
<p>Até meados do século passado, a economia do Espírito Santo limitava-se à pesca artesanal, à extração de madeiras, à pecuária incipiente, às lavouras de subsistência e da cana-de-açúcar e da mandioca.</p>
<p>O cultivo do café alterou este quadro tornando-se a base da economia, responsável pela transformação de Vitória em ativo porto de exportação.</p>
<p>O café ainda tem expressiva participação no produto interno bruto estadual, contando com milhões de cafeeiros produtivos. Novos produtos, porém, encontram-se em franca expansão, como alho, tomate, macadâmia, pimenta-do-reino e outros. O cultivo de frutas tropicais e de clima temperado se firma aceleradamente. Outras frutas como abacaxi, mamão e banana são exportadas para vários Estados brasileiros. A industrialização de alimentos à base de carnes de qualidade e de derivados do leite tem campo aberto pela frente devido ao avanço da pecuária.</p>
<p>Com a implantação, a partir da década de 60, dos chamados grandes projetos, a fisionomia econômica estadual mudou radicalmente. A Companhia Vale do Rio Doce inaugurou, em 1966, o porto de Tubarão, para exportação de minério de ferro, inclusive pelotizado.</p>
<p>Nas proximidades do porto o governo brasileiro instalou a Companhia Siderúrgica de Tubarão tendo, à época, parceiros italiano e japonês. A empresa está hoje privatizada produzindo mais de três milhões de toneladas de placas de aço por ano.</p>
<p>Contíguo ao terminal de Tubarão foi montado o grande porto de Praia Mole que completa, com o complexo industrial da Aracruz Celulose, ao norte de Vitória, o elenco dos grandes projetos.</p>
<p>O Centro Industrial de Vitória — Civit — no município da Serra abriga hoje cerca de cem indústrias inclusive a JDR, uma joint-venture da Xerox com dois de seus ex-empregados, dedicada à fabricação de periféricos para impressoras eletrônicas. Dois centros industriais já estão projetados para os municípios de Vila Velha e Linhares, com previsão de novos para Cariacica, Cachoeiro de Itapemirim e Colatina. Nesta última cidade, à margem do rio Doce, acaba de ser inaugurada uma Escola Técnica Federal para a preparação de técnicos de nível médio. Ela passa a integrar a rede de ensino especializado que tem na Escola Técnica Federal de Vitória, no Senai – Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e na Universidade Federal do Espírito Santo centros fundamentais de formação profissional.</p>
<p>Mas é sem dúvida, o corredor de exportação da região centro-leste do Brasil que rasga incomparáveis perspectivas para o Espírito Santo. O corredor escoa por meio de ferrovia a produção do cerrado brasileiro — vastíssima e rica área que compreende os Estados de Minas Gerais, Goiás, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Para isto o terminal de Tubarão foi dotado do aparelhamento necessário, além de unidades especiais de armazenamento de grãos, notadamente soja. A Companhia Vale do Rio Doce participa do transporte com sua estrada de ferro Vitória a Minas.</p>
<p>Vitória transformou-se no maior complexo portuário brasileiro, voltado para a importação de produtos vários como o carvão e para a exportação principalmente de minérios, produtos siderúrgicos e grãos. Caminha assim para ser poderoso pólo comercial e financeiro internacional graças a sua posição portuária privilegiada, integrada à região que, com os Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerias e São Paulo, gera a maior renda interna do Brasil.</p>
<p>Buscando equilibrar o desenvolvimento da Grande Vitória com o do interior do Estado, medidas estão sendo postas em prática. São projetos diferenciados, ligados aos recursos naturais e às possibilidades econômicas dos municípios do Estado. O beneficiamento do granito e do mármore com segurança de absorção pelo mercado externo, onde o mármore do Espírito Santo tem sido confundido com o de Carrara, é um exemplo.</p>
<p>O turismo, atrelando a região serrana às praias próximas, já movimenta investimentos públicos e privados atentos à capacidade da recepção do Estado para 5.000.000 de turistas por ano.</p>
<p>O desenvolvimento do Estado está sendo alcançado com a consciência da necessidade de se priorizar a preservação do meio ambiente.</p>
<p>O Espírito Santo fecha o século bem diferente de quando começou. O projeto de expansão econômica que se tem agora é arrojado e diversificado, dentro de planejamento bem estruturado, de sólida sustentação. Suas diretrizes apontam para o século que se aproxima e dão a certeza de que é possível se realizar o sonho de que fala o hino do Espírito Santo: alcançar a estrela prometida.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;<br />
And, finally, let us speak about what has been and can be done in this land.</p>
<p>Until the mid-nineteenth century, Espírito Santo’s economy was restricted to rudimentary fishing and cattle ranching, lumbering, subsistence level agriculture, sugar cane and cassava.</p>
<p>Coffee, which became the basis of the economy, changed this picture altogether. It made Vitória evolve into a major port for exports.</p>
<p>Coffee remains an important item in the state’s gross domestic product, as there are millions of productive coffee plants. A new line of products, however, is now being fully expanded to include, among others, garlic, tomatoes, Queensland nuts, and black pepper. The cultivation of tropical and temperate fruits has been rapidly increased. Other fruits, such as pineapples, papaya, and bananas, are being exported to several Brazilian states. Improved cattle ranching has opened the horizon for the meat processing and dairy industries.</p>
<p>The state’s economic profile began to change drastically in the early sixties due to the implementation of so-called major projects. The Vale do Rio Doce Company inaugurated the port of Tubarão in 1966 to export iron ore, including in the form of pellets.</p>
<p>The Brazilian government opened the Tubarão Steel Company near the port in conjunction with Italian and Japanese partners. This company has since been privatized and now has an annual output of over three million tons of steel plates.</p>
<p>The large Praia Mole port was constructed near Tubarão, which, with the Aracruz Celulose industrial complex north of Vitória, rounds out the list of the state’s major projects.</p>
<p>The Vitória Industrial Center (Civit) in the municipality of Serra now houses nearly one hundred industries. Among these, we find JDR, a joint-venture established by Xerox and two of its former employees to manufacture peripherals for electronic printers. Another two industrial centers have been planned for Vila Velha and Linhares, and others are being considered for Cariacica, Cachoeiro de Itapemirim, and Colatina. Colatina, on the banks of the Rio Doce, just witnessed the inauguration of a federal technical school to train middle level technicians. This school has been integrated into the network of specialized education that includes the Federal Technical School in Vitória, the National Service for Industrial Apprenticeship (Senai) and the Federal University of Espírito Santo.</p>
<p>However, it is undoubtedly the transport corridor in Brazil’s central-eastern region that has brought the state incomparable perspectives for growth. Products from the Brazilian cerrado — a vast and fertile area including the states of Minas Gerais, Goiás, Tocantins, and Mato Grosso do Sul — are carried along the corridor by rail, which is why the Tubarão terminal was given all of the equipment it needed, in addition to special facilities for storing grain, particularly soy beans. The Vale do Rio Doce Company has contributed its Vitória-Minas railroad to this transportation network.</p>
<p>Vitória has become Brazil’s largest port facility, focussing on importing goods like coal and exporting iron ore, steel, and grain. It is thus on its way to becoming an important international commercial and financial center because of its highly developed port, which is closely integrated with the states of Rio de Janeiro, Minas Gerais, and São Paulo — Brazil’s greatest income-producing region.</p>
<p>Measures are being taken to balance Greater Vitória’s economic growth with that of the state’s rural areas. These projects are varied in nature and are linked to the natural resources and economic potential of the state’s municipalities. As an example, we can cite the processing of granite and marble. The state’s marble — in great demand overseas — has been ranked equal to that of Carrara.</p>
<p>Tourism, which links the highland and coastal regions, has already brought about public and private investments aimed at the state’s capacity to accommodate five million tourists per year.</p>
<p>Furthermore, development in the state is being carried out with an awareness of the need to make environmental protection a priority.</p>
<p>Espírito Santo is different altogether from the humble province it was at the turn of the century. The daring and diversified economic development project now under way is being carried out in accordance with sensible, carefully thought-out guidelines. It is geared toward the coming century, certain of realizing the dream spoken of in the state’s an them: to reach the promised star.</p>
<p>
[Reprodução autorizada pela Xerox do Brasil e pelos autores.]</p>
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<b><span style="color: #660000;">© 2011&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Renato Pacheco</b>&nbsp;foi importante pesquisador da história e folclore capixabas, além de escritor, com vários livros publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/renato-pacheco-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b>&nbsp;é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)&nbsp;</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/espirito-santo-brasil-portugues-ingles/">Espírito Santo, Brasil (Português / Inglês)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Fuga de Canaã: romance revisitado</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Jun 2016 16:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Fuga de Canaã]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Durante cerca de um ano o escritor Renato Pacheco foi juiz em Santa Leopoldina, na década de 60. Historiador e sociólogo, além de magistrado, impossível que, morando ainda que por pouco tempo em Santa Leopoldina, onde, em 1890, Graça Aranha também foi juiz, não se interessasse Renato por aprofundar seus conhecimentos sobre o caso de [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-LvDCQOBFw2Q/V2_zFwpo56I/AAAAAAAAJyE/bhVbna-t8DYQ11-YKAvenqOovF0P01Y3QCLcB/s1600/Fuga%2Bde%2BCana%25C3%25A3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/06/Fuga2Bde2BCana25C325A3.jpg" class="wp-image-5327" width="283" /></a></div>
<p>
Durante cerca de um ano o escritor Renato Pacheco foi juiz em Santa Leopoldina, na década de 60.</p>
<p>Historiador e sociólogo, além de magistrado, impossível que, morando ainda que por pouco tempo em Santa Leopoldina, onde, em 1890, Graça Aranha também foi juiz, não se interessasse Renato por aprofundar seus conhecimentos sobre o caso de Guilhermina Lübke, cujos autos criminais passaram pelas mãos de Graça Aranha, dando ao maranhense o insumo literário para escrever um dos mais chocantes capítulos da literatura brasileira – a morte brutal, nos dentes dos porcos, do filho recém-nascido da infeliz Guilhermina, a Maria Perutz do romance <i>Canaã</i>.</p>
<p>Impossível também que o tema geral de <i>Canaã </i>não motivasse &#8211; como motivou Renato &#8211; à criação do romance <i>Fuga de Canaã</i>, que trata da decadência de uma família alemã no Brasil.</p>
<p>Apenas para relembrar, o romance de Renato se compõe das narrativas de quatro personagens diferentes, às quais ele denominou Livros, apresentados segundo o ponto de vista dos narradores. </p>
<p>Não sei se já foi feita por algum estudioso do romance a observação que faço agora: sua leitura provoca em mim remotos ecos de <i>O som e a fúria</i>, de William Faulkner.</p>
<p>Graças a informações que ouvi diretamente a Renato, ele foi um grande admirador de Faulkner, tendo lido vários de seus romances, dentre os quais naturalmente <i>O som e a fúria</i>.</p>
<p>De saída, em reforço do que eu disse, estabeleçam-se os dois seguintes liames entre <i>O som e a fúria</i> e <i>Fuga de Canaã</i>: ambos têm por objeto a ruína de famílias ligadas à vida rural de regiões profundas (em Faulkner, o sul dos Estados Unidos; em Renato, o vale montanhoso do rio Santa Maria da Vitória, em Santa Leopoldina); além disso, nos dois romances, a história é narrada por quatro personagens, cujos relatos compõem o complexo arcabouço que forma o contexto estrutural das duas obras.</p>
<p>Mas não é só.</p>
<p>Tanto <i>O som e a fúria</i> quanto <i>Fuga de Canaã</i> se caracterizam, estilisticamente, pelo chamado fluxo de consciência, com que cada narrador dos capítulos de que se constitui o todo da história transmite a sua versão individualizada para conhecimento dos leitores.</p>
<p>Sabe-se que o recurso ao fluxo de consciência, com maior ou menor complexidade narrativa, foi usado por escritores em geral, com destaque absoluto, dentre os estrangeiros, para Joyce, Proust, Virginia Woolf, Faulkner, Cortázar, além de outros; e, no Brasil, com ênfase para Clarice Lispector. Renato dele se valeu em<i> Fuga de Canaã</i> – e o fez muito bem, no meu modesto entendimento.</p>
<p>Cite-se como ilustração o seguinte trecho do Livro Terceiro do romance, em que são expostas as tumultuadas confissões de Helmut Jank ao seu psiquiatra:</p>
<p>
Eu fujo de mim mesmo, para um lugar onde possa resolver o enigma da vida. Mas doido, doido, não sou. Beber sim, bebia pra valer. Tenho é nojo de tudo que encontro, e horror pelo demônio que o lazarento colocou dentro de mim. A culpa é minha ou dele, ou de ninguém? Se minha, a lembrança estará comigo até a morte. Nem padre, nem juiz, nem médico (o senhor me desculpe), ninguém poderá purificar-me, não há cordeiro nem azeite que me expiem. Minha orelha, meus dedos não terão sangue que baste para começar vida nova. A praga veio e foi. Mas, limpar-me? Se matei ou não, às vezes vejo tudo como um pesadelo.</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
Aos leitores do romance, com base nas narrativas intimistas dos seus personagens, compete juntar as peças esparsas do quebra-cabeça que desvendará (tanto quanto possível) o quadro geral da narração em que soçobram os próprios narradores, envolvendo, de cambulhada, os demais partícipes da trágica saga familiar.</p></blockquote>
<p>
Além disso, no caso de <i>Fuga de Canaã</i>, evidencia o uso da técnica do fluxo de consciência o fato de os depositários das confidências narradas – o pastor-pai, o juiz de direito, o jovem psiquiatra e o padre, em cada um dos episódios capitulares do romance – não emitirem uma palavra sequer, no curso de cada relato que lhes é contado.</p>
<p>Funcionam, assim, como ouvidos sem voz, repositórios mudos e passivos do que lhes é dito, fazendo, no texto, o papel do leitor que toma conhecimento da história contada por pedaços &#8211; e contada num estilo linguístico que não difere de personagem para personagem.</p>
<p>Com muita propriedade observou Andréia Delmaschio no estudo “Herman e Helmut: duas faces da orfandade em <i>Fuga de Canaã</i>”, publicado na coletânea <i>Reino conquistado</i>: “Poder-se-ia dizer que o narrador de Renato Pacheco é muitas vezes – porque são sempre vários os seus narradores &#8211; uma espécie de escritor.”</p>
<p>Tudo isso faz de <i>Fuga de Canaã</i> a obra literária mais inquietante, intrincada e densa de Renato Pacheco, logo ele, que primou pelo estilo de narrar claro, econômico e sem rebuscamentos. Ele mesmo me disse, quando voltávamos num sábado de manhã da Livraria Logos: “Luiz, eu escrevo, mas não sou um estilista.” &nbsp; </p>
<p>Dentro desta ótica, é licito perguntar se a mudança de técnica narrativa que Renato adotou quando escreveu <i>Fuga de Canaã</i>, constituindo exceção à regra da simplicidade que presidia sua escritura romanesca, não objetivava estabelecer um paralelo consciente com <i>O Som e a Fúria</i>.</p>
<p>Vamos deixar claro que não estou fazendo nenhum juízo de valor comparativo entre Renato e Faulkner, quanto ao emprego do fluxo de consciência como técnica literária. Nem o próprio Renato certamente receberia de bom grado este comparativo.</p>
<p>Seja como for, o tema aí está posto dentre muitos outros que <i>Fuga de Canãa</i> propicia para considerações e estudos críticos. À guisa de exemplo, podem-se citar os seguintes:</p>
<p>1.&nbsp;O diálogo literário entre <i>Fuga de Canaã</i> e o processo criminal de Guilhermina Lübke (tantas vezes evidente no romance);<br />
2.&nbsp;O folclore, o social e o etnográfico nas páginas do romance;<br />
3.&nbsp;A ambivalência de personagens reais e ficcionais no romance (basta dizer que até meu pai, Guilherme Santos Neves, faz uma ponta na história);<br />
4.&nbsp;O dialogo literário entre os romances <i>Fuga de Canaã</i> e <i>Canãa</i>, de Graça Aranha, tema sobre o qual já se debruçou Andréia Delmaschio;<br />
5.&nbsp;A informação com valor historiográfico no romance.</p>
<p>Sobre este último item, eu mesmo já tive oportunidade de apontar, em trabalho apresentado no Bravos Companheiros e Fantasmas – V Seminário sobre o Autor Capixaba, ocorrido na UFES em 2012, um texto analisando a presença do registro historiográfico com valor testemunhal na obra de Pacheco, em que me vali dos romances <i>A oferta e o altar</i>, <i>Fuga de Canaã</i> e <i>Reino não conquistado</i>.</p>
<p>É claro que com as sugestões apresentadas não esgotei as possibilidades de estudos que <i>Fuga de Canaã</i> enseja numa possível convocação a maiores aprofundamentos críticos-literários, se é que já não foram feitos, o que não foi meu propósito nesta apreciação sem aprofundamentos acadêmicos.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2016&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>As chamas do padre-poeta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 20:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Marcelino Duarte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>No começo do século XIX o Espírito Santo ainda era verde. A mata espessa descia da capitania de Minas Gerais até o litoral capixaba. No sertão grosso, cuja travessia fora proibida no século anterior para proteção do ouro extraído dos rios mineiros, bugres hostis, que matavam animais a dentadas, deslizavam como sombras, misturados às árvores. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
No começo do século XIX o Espírito Santo ainda era verde. A mata espessa descia da capitania de Minas Gerais até o litoral capixaba. No sertão grosso, cuja travessia fora proibida no século anterior para proteção do ouro extraído dos rios mineiros, bugres hostis, que matavam animais a dentadas, deslizavam como sombras, misturados às árvores.</p>
<p>Sem ímpeto desbravador, a minguada população do Espírito Santo vivia com os pés na praia e a cabeça na brisa do mar, evitando o sertão. No vale do rio Doce esplendia a floresta ancestral e magnífica. Deus e o Diabo habitavam a terra luxuriosa tolerando-se na rivalidade complacente do compadrio.</p>
<p>O padre Marcelino Pinto Ribeiro Duarte, filho dos trópicos, filho do Espírito Santo, sabia disto e acendia uma vela a Deus e outra ao Diabo. Entre ambas as chamas exerceu seu sacerdócio à brasileira, provando com gosto &#8220;as exuberâncias pagãs&#8221; da terra, dando asas ao seu &#8220;espírito irrequieto até o arrebatamento&#8221;. Palavras de Afonso Cláudio.</p>
<p>Filho natural do padre Manoel Pinto Ribeiro, o que significa ter nascido com o pecado original em duplicata, Marcelino foi feito sacerdote pela vontade do pai, que lhe deu nome, exemplo e futuro garantido. Além da certeza da boa instrução, a carreira sacerdotal constituía, na colônia ignara, trampolim para a ascensão social e política.</p>
<p>A decisão pragmática do pai iria selar o destino do filho ainda que, dentro da batina, Marcelino fosse carne e nervos. O padre-poeta chamou-o &#8220;pai impiedoso&#8221; em versos dirigidos a uma de suas musas.</p>
<p>Falamos do pai e do seu pátrio poder. Falemos agora da mãe, com a devida licença.</p>
<p>Da mãe que o pariu — e o pariu certamente mestiço, em 1788 — pouco ou nada se sabe. Com a devida licença, repito, e a se dar crédito à crença popular, a mãe deve ter virado mula sem cabeça depois de legar ao filho o temperamento fogoso que o fez femeeiro.</p>
<p>Esse temperamento Marcino — nome poético do padre — vazou corajosamente para sua poesia amorosa. E bota coragem nisso em tempos primevos e num ambiente social limitado e rústico.</p>
<p>Veja-se a vila de Nossa Senhora da Vitória, edificada em ilha, onde temos o padre Marcelino Duarte, em 1817.</p>
<p>A vila, em pose de cartão-postal, mostra-se risonha e franca, vistosa em sua brancura de cal, bem assentada nos limites possíveis entre encostas verdejantes e as águas mansas do mar. Nela amontoam-se casas de janelas envidraçadas, fortes, igrejas e trapiches.</p>
<p>Suas ruas, no entanto, são estreitas, sem praças nem passeios públicos, e nela não existem hospedarias. A chegada de um estranho açula a curiosidade geral; se chegam dois, arma-se um reboliço que só perde para o grande ajuntamento popular que provoca o aparecimento de burros, animais raros na ilha.</p>
<p>O alimento trivial da terra é o feijão com peixe e farinha de mandioca. O boi, abatido duas vezes na semana, é consumido moderadamente, ficando o couro esticado no varal para curtir ao sol, em meio ao moscaréu ruidoso. Ao curtume, a céu aberto, chama-se, por isso, Pelames.</p>
<p>Nas roças da vila planta-se e colhe-se regulando-se o serviço das lavouras pelo almanaque das luas. Empregam-se as enxadas e os ancinhos e, se faltam ambos, mãos à terra. Picadas de cobras se curam com mezinhas, sumo de limão e pólvora. É tiro certo.</p>
<p>Os fortes da vila são tantos, para o tamanho dela — São João, São Diogo, São Maurício, Carmo — que só de vê-los correm arrepios de medo na espinha, apesar de terem a pólvora úmida e os canhões silenciosos.</p>
<p>As igrejas da vila são tantas, para a modéstia dela — São Tiago, Misericórdia, São Gonçalo, São Francisco, Santa Luzia, Matriz, Carmo, Nossa Senhora da Conceição, Rosário — que só de contemplá-las purifica-se a alma em enlevos de fé. Na verdade, guarnecida para a guerra a vila de Nossa Senhora da Vitória vive em paz celestial.</p>
<p>Gravura de 1805 faz referência particular ao seu porto declarando-o &#8220;belo e abrigado dos ventos; o seu comércio exportativo consiste em açúcar, aguardente, algodão em rama e manufaturado, madeira, arroz, milho, feijão&#8221;. Era a produção da terra onde o café ainda não dera a graça de suas ramas.</p>
<p>Os gêneros e mercadorias desse comércio exportativo saíam por muitos trapiches e cais — das Colunas, dos Padres, do Azambuja, do Batalha, do Santíssimo, das Lanchas, Cais Grande — onde o arroto das águas, batendo no tabuado, embalava as sestas dos negros-estivas.</p>
<p>Já chama a atenção a escadaria entre palmeiras, diante do palácio do governo, antigo colégio dos jesuítas. No extremo oposto da vila, a ladeira de Pernambuco dava acesso ao &#8220;lugar chamado Capixaba&#8221;. Ali, fonte famosa jorrava as águas da mataria próxima. Marcelino, em versos de 1850, mencionou-a evocativo juntamente com a fonte da Lapa, gabando-lhes a pureza das águas, &#8220;o santo licor das duas fontes / que a natureza formou e inda conserva&#8221;.</p>
<p>Mas, e o povo, por que não aparece o povo nesse cartão-postal risonho e franco?</p>
<p>Não aparece porque é ralo mesmo.</p>
<p>Saint-Hilaire, que visitou Vitória em 1818, cita apenas 4.245 habitantes. Teria contado nos dedos ou deduzido o número pelos fogos (ou seja, casas) da vila?</p>
<p>No dedo, porém, podiam-se apontar os dois juízes ordinários e o de órfãos; este ou aquele mestre de ler e de contar para o gasto das letras e dos números, b-a, ba, 1 + 1; o cirurgião, o rábula e o boticário ou ainda o ferreiro-dentista que um dia dava na ferradura, outro na dentadura. Quem ousasse o desafio apontasse por fim o déspota governador, Francisco Alberto Rubim, capitão de mar-e-guerra, ancorado na terra desde 1812.</p>
<p>Vista está a vila de Nossa Senhora da Vitória quando dela partiu o padre Marcelino Duarte em 1817. Concedo que, nessa descrição, salpiquei-lhe suaves ironias. Nada, entretanto, que distorcesse o modelo real.</p>
<p>Marcelino Pinto Ribeiro Duarte amou de amor sempiterno essa vila a que chamou poeticamente de &#8220;ninho carinhoso&#8221;, doce ninho de amadas, de mulheres especiais com nomes arcádicos — Francinas, Análias, Marílias — possivelmente descobertas com olho de padre-mestre através das tramas obscuras dos confessionários.</p>
<p>Com elas deleitou-se, devido a elas purgou penas. Os amores a Anália custaram-lhe um ano de desterro em Itacibá. Foi determinação de Rubim que, guardião dos bons costumes e da ordem pública, não admitia as derrapadas amorosas de Marcino. Este jamais perdoou ao tirano, cujas arbitrariedades — e foram tantas — foi denunciar à corte. Agia em causa própria, mas não mentia.</p>
<p>A ida é o tema do longo poema Derrota de uma viagem ao Rio de Janeiro em 1817. Se o padre teve ou não força para remover da capitania o todo-poderoso governador, não está muito claro. Afinal, Rubim era bem cotado na administração portuguesa desfrutando do respeito e da proteção nepótica do tio, o intendente Paulo Fernandes Viana. Além disso, pontificara como administrador notável ao rasgar, sertão adentro, a estrada que pôs o litoral do Espírito Santo em ligação direta com Vila Rica.</p>
<p>Seja como for, o capitão de mar-e-guerra acabou removido para o Ceará, em 1819. Marcelino Duarte pôde então voltar ao ninho carinhoso, recomeçando a amar e poetar com mais desembaraço entre uma vela a Deus e outra ao Diabo.</p>
<p>[Transcrito da Revista <i>Você</i>, n° 14, de agosto de 1993.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>O compasso perdido</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-compasso-perdido/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 18:17:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Renato Pacheco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mantive com Renato Pacheco uma parceria na autoria de vinte livros, reunindo títulos sobre história, obras didáticas e de literatura infantil. Alguns desses trabalhos contaram também com a colaboração da professora Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa e de meu irmão Reinaldo. Dos livros infantis, dois, integrantes de uma trilogia iniciada com Tião Sabará, publicado [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Mantive com Renato Pacheco uma parceria na autoria de vinte livros, reunindo títulos sobre história, obras didáticas e de literatura infantil. Alguns desses trabalhos contaram também com a colaboração da professora Léa Brígida Rocha de Alvarenga Rosa e de meu irmão Reinaldo.</p>
<p>Dos livros infantis, dois, integrantes de uma trilogia iniciada com <i>Tião Sabará</i>, publicado pela Editora Moderna, permanecem inéditos. Além destes, um último romance, ao qual, por minha culpa, minha máxima e exclusiva culpa, não consegui dar seguimento, ficou inacabado.</p>
<p>E é dele que desejo tratar, na tentativa de expiar um pouco essa culpa, embora talvez a única forma de me redimir com a memória de meu amigo e parceiro fosse atacar a obra com fôlego de sete gatos, e fazer a parte que me coube na empreitada.</p>
<p>Não que eu não tivesse tentado. Mas o caminho pelo qual enveredei mostrou-se ser uma vertente diferente da que Renato seguiu e, pela primeira vez em nossa parceria de autores e amigos, comecei a sentir dificuldade para sintonizar o texto que eu redigia e o que Renato me entregara. Aí parei, para me dar um tempo, mas sem pedir isola a Renato. Por isso, volta e meia, ele me cobrava o romance, enquanto eu ficava na moita.</p>
<p>Com a sua morte, senti-me desamparado de vez para prosseguir a história, porque, independentemente do que ele já havia escrito e do que eu escrevi ou pudesse escrever, a sua presença ao alcance das minhas consultas, como fonte de informações ao vivo, era de fundamental importância para a conclusão do livro, pelo menos naquilo que me dizia respeito, segundo o projeto que havíamos idealizado.</p>
<p>E que livro era este?</p>
<p>Bateu na telha de Renato escrever um romance policial centrado no Radium Hotel, tendo por cenário a cidade de Guarapari, por volta dos anos 50. Ao livro, ele deu o nome preliminar de <i>Crime no Radium Hotel</i>. Mas, desde logo, percebi que gostaria que fosse um título definitivo.</p>
<p>O Rádium Hotel e Guarapari formariam, assim, o &#8220;ambiente&#8221; nuclear da trama policialesca (!), que teria como principal personagem um médico improvisado em detetive, Dr. Silva Pontes.</p>
<p>Em mensagem prévia a que denominou &#8220;Duas Palavras&#8221;, dirigida aos futuros leitores, Renato confessou, conforme está nos manuscritos em meu poder: &#8220;O Dr. Silva Pontes foi inspirado no famoso e humanitário médico Dr. Silva Mello (1896-1973), tragicamente morto por seu mordomo, e descobridor das maravilhas curativas de Guarapari [nos manuscritos, desenvolvendo a sua parte do romance, Renato chegou até a grafar Silva Mello, ao invés de Silva Pontes].&#8221;</p>
<p>Renato era um grande admirador do médico, a quem se referia como o propagandista pioneiro das virtudes medicinais e curativas das areias da Cidade Saúde, no tratamento natural para alguns tipos de reumatismo. Silva Mello teria, portanto, mais do que ninguém, lugar privilegiado no romance, sob o manto diáfano de Silva Pontes.</p>
<p>A descrição do personagem, Renato a tirou da própria pessoa de Silva Mello, a quem chegou a conhecer em Guarapari: &#8220;&#8230; uma figura altiva, de pincenê, costeletas bem aparadas, botinas, e cabelos visivelmente pintados de roxo.&#8221;</p>
<p>E, no romance, a descoberta da Cidade Saúde por Silva Pontes, Renato a foi buscar na obra <i>Guarapari, Maravilha da Natureza</i>, da autoria de Silva Mello:</p>
<p>O Dr. Silva Pontes soubera, na Suíça, das virtudes radiotivas das praias de Guarapari e resolvera visitar a pacata localidade de pescadores, 60 km ao sul de Vitória [&#8230;] Silva Pontes pegou seu Ford 29 e enfrentando a falta de estradas saiu do Rio e foi a Muriaé, em Minas Gerais, ao norte, desceu para leste, em São Miguel do Veado, Cachoeiro de Itapemirim, e, três dias depois e dois pneus trocados, chegou à paradisíaca cidade, então com cerca de 400 moradores, a maioria de pescadores. Examinou detidamente as condições de salubridade, as virtudes radioativas da monazita e ilmenita, abundantes nas praias da cidade, e voltando ao Rio, passou a receitar para seus doentes de reumatismo que viessem enterrar-se nas areias de Guarapari.</p>
<p>Numas das muitas achegas que escreveu, depois de já me haver entregue o eixo básico do romance, na vertente que produziu, Renato me passou a seguinte sugestão, sob a pergunta &#8220;que acha?&#8221;: &#8220;À moda do Inspetor Morse, Silva Pontes pode, de vez em quando, fazer umas citações: Shakespeare, Dante, Camões, Manoel Bandeira (amigo dele)&#8230;&#8221; E me recheou de citações que poderiam ser colocadas na boca do nosso médico-detetive.</p>
<p>Outras figuras reais também estão contempladas nos originais de Renato: Jayme Santos Neves, Rubem Braga, Heliomar Carneiro da Cunha, Boris Ackermann — gerente da Mibra, Monazitique e Ilmenite du Brésil, o cantor Sílvio Caldas&#8230; A presença de Sílvio Caldas aparece diretamente ligada ao cassino que funcionava no Radium Hotel.</p>
<p>O Cabloquinho querido, como era chamado, viera, em outubro, cantar no hotel, sob o patrocínio de Heitor Latorraca, arrendatário do cassino (clandestino) e tolerado pela polícia e pela Justiça. Gostara da cidade e dois meses depois ainda se deixava ficar, comendo, bebendo e cantando. Dizia que já lançara suas músicas de carnaval, e voltaria para o Rio depois do tríduo momesco.</p>
<p>Além dos nomes citados (afora outros mais), participa da narrativa, como verdadeiro ator coadjuvante, o célebre padre Manezinho — Manoel do Nascimento (&#8220;cuja vida é descrita em <i>A Centopéia</i>, de Jayme Santos Neves, Vitória, edição do autor, 1989, p. 81 a 85&#8243;), diz Renato, nas &#8220;Duas Palavras&#8221;.</p>
<p>Já no primeiro capítulo, &#8220;Um corpo no jardim&#8221;, da versão inicial do manuscrito de 58 páginas que me legou (fora as que acrescentou depois, para que eu as incluísse onde coubessem), ocorre a menção aos dois personagens principais do romance, Silva Pontes e padre Manezinho. Vale a transcrição (este primeiro capítulo, Renato modificou em parte, posteriormente):</p>
<p>Os cães da rua, invadindo o amplo jardim do Radium Hotel, à beira da praia da Areia Preta, é que, com seus latidos, deram o alarme. Já lambiam e mordiscavam um cadáver desnudo.<br />
Dona Maria Silveira, a cozinheira-chefe, e suas duas auxiliares, vieram correndo para ver que tanto barulho era aquele.<br />
Encontraram o cadáver de uma hóspede, Dona Marinalva Cunha, em decúbito dorsal, sobre uma moita de azaleias.<br />
Dona Maria gritou:<br />
&#8220;Socorro! Socorro!&#8221;<br />
As auxiliares, Pretinha e Jorete, correram para o interior do hotel, em busca de ajuda. Logo uma pequena multidão de hóspedes, empregados e curiosos se formou em torno do corpo. O gerente, Delduque Bonfim, telefonou para a delegacia e, peremptório, disse:<br />
&#8220;Afastem-se. Não mexam em nada&#8230;&#8221;<br />
Num jipe velho, o delegado leigo Manoel Lyra chegou e dispersou os curiosos.<br />
Soube que era hóspede do hotel o famoso médico carioca Dr. Silva Pontes e logo o convidou para presidir a autópsia.<br />
O médico, descobridor das areias radioativas, se desculpou com sua próxima viagem para o Rio, e eximiu-se da função.<br />
&#8220;Então,&#8221; disse o delegado, &#8220;como faço sempre, vou chamar o sacristão e o padre Manezinho para peritos&#8230;&#8221; E se justificou: &#8220;O sacristão fez até o 3° ano de medicina&#8230;&#8221;<br />
Silva Pontes, embora tendo se desobrigado do encargo, observou detidamente o local em que o corpo caíra, o possível ponto de queda na varanda do segundo andar do hotel, e, com surpresa, ao virar-se o corpo, verificou tratar-se de uma quase paralítica, sempre em cadeira de rodas, vítima de avançado reumatismo.</p>
<p>Ainda sobre o padre Manezinho, que em vida foi personagem que deu o que falar quando vigário na Serra e depois de Guarapari, Renato espalha pelos seus originais várias informações que retratam o temperamento franco e o modo de vida escandaloso do sacerdote. Puxemos, do capítulo 10, uma passagem ilustrativa:</p>
<p>Uma bela afro-brasileira, jovem baixinha e gordota, chegou à porta e disse:<br />
&#8220;Senhor padre, o almoço está servido&#8230;&#8221;<br />
O padre convidou o médico para acompanhá-lo no repasto de peixe frito, mas este, polidamente recusou.<br />
&#8220;Então o senhor fica intimado para a sexta-feita que vem. A Maria vai fazer uma torta capixaba, ouviu falar?&#8221;<br />
E à guisa de despedida disse:<br />
&#8220;A Maria eu não posso apresentar ao senhor como minha esposa, porque a Santa Igreja Católica não deixa. Mas não posso dizer que é minha empregada porque ela dorme comigo&#8230;&#8221;</p>
<p>Pelo trecho acima, e pelo início do capítulo I, antes transcrito, pode-se depreender a linha que Renato Pacheco pretendia fosse imprimida ao &#8220;nosso romance&#8221;, ou seja, à novela que teria motivação policial, mas apenas como chamarisco, para <i>épater le bourgeoisie</i>, como gostava de dizer, já que visava, principalmente, a reconstituição da época de ouro do Radium Hotel, em Guarapari. Além de, naturalmente, prestar-se a um <i>divertissement </i>para os seus dois autores.</p>
<p>Este toque de <i>divertissement </i>Renato o quis deixar claro, penso eu, na pequena introdução que escreveu para o romance: &#8220;Este livro, à moda de Ellery Queen, é fruto de antiga e fraternal associação criativa entre Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco. Realiza, a quatro mãos, o primeiro romance policial &#8220;capixaba&#8221; do século XXI, e talvez o primeiro romance policial &#8220;capixaba&#8221; de todos os tempos, se não levarmos em conta o livro de Azambuja Suzano do século XIX.&#8221;</p>
<p>Generosa visão dourada, do meu parceiro e amigo!</p>
<p>No capítulo segundo, intitulado &#8220;O Radim Hotel&#8221;, confirma-se, pelo manuscrito em meu poder, a proeminência que Renato desejava dar, sem prejuízo da trama, ao principal hotel de Guarapari na década de 50 do século passado. (E aí podemos enxergar a mão do historiador impulsionando o romancista. Neste sentido, juntou aos seus originais várias informações históricas, para caracterizar a época do romance.) Vamos ao trecho que ilustra esta afirmação:</p>
<p>Não se pode dizer que o prédio do Radium Hotel é bonito. Grande, isto ele é, um sobradão em forma de V com mais de dois mil metros quadrados de jardim em torno.<br />
Sua construção fora planejada por um amazonense que estudara em Vitória, Adalberto Ferreira do Vale, presidente da Previdência Capitalização. Na falta de recursos, ele vendeu o prédio, ainda no esqueleto, ao Governo do Estado, que o concluiu, aproveitando a planta previamente desenhada.<br />
O hotel competia com os outros dois hotéis da localidade: o Veranistas e o Guará, menores e não tão bem localizados.</p>
<p>Mais tarde, vieram novos acréscimos sobre o Radium Hotel, para serem aproveitados onde fossem cabíveis. Um deles, sob a forma de capítulo a mais, transcrevo a seguir:</p>
<p>Silva Pontes sabia que havia, no hotel, um cassino clandestino. Desde o governo do general Dutra, dizem que a pedido de sua esposa, Dona Santinha, católica e ultraconservadora, todos os jogos de azar — isto é, aqueles que não dependem de talento ou habilidade, e simplesmente de sorte para o ganho — estavam proibidos no Brasil, desde o popular e tolerado jogo do bicho, inventado no fim do século XIX pelo Barão de Drumond, para sustentar o Jardim Botânico. A polícia, no entanto, fazia vista grossa, permitindo que, aqui e ali, proliferassem casas de tavolagem. Não os magníficos cassinos que o médico conheceu em Monte Carlo, mas tugúrios mal iluminados, onde os jogadores satisfaziam as suas necessidades psicológicas de emoções fortes.<br />
Silva Pontes achou — ele mesmo se considerava um casmurro — que o jogo era coisa de crianças, para se adequarem às regras da vida, ou de adultos imaturos. Porém, por curiosidade, foi visitar o cassino do Radim Hotel, situado numa ala lateral do prédio, com entrada franca para maiores.<br />
Admirou-se do luxo e do bom gosto. Grandes cortinas não deixavam que a luz passasse para a rua e ventiladores de teto arejavam o ambiente. Muita gente bem vestida tentando a sorte. Duas roletas, uma mesa de bacará, diversas mesas de pôquer, e, no fundo, mais afastado, um bingo eletrônico, novidade no Brasil, com predominância de apostadores idosos.<br />
Deu uma pequena volta pelo local, observou fisionomias tensas. O gerente convidou-o para uma roda de baralho, mas, delicadamente, recusou, e foi saindo de fininho. Por certo, aquele não era seu ambiente&#8230;<br />
Soube que, de quando em vez, quando a imprensa denunciava, ou em época de eleições, havia batidas policiais, adredemente avisadas: &#8220;Dia tal vamos fechar o jogo.&#8221;<br />
O cassino ficou fechado dois a três dias e reabriu logo. Graças ao cassino é que grandes artistas internacionais e nacionais como Lucho Gatica, Sílvio Caldas, Orquestra Severino Araújo, tinham se apresentado no teatro do Hotel.<br />
Consta que, certa feita, numa das investidas da polícia, uma velhinha solicitou:<br />
&#8220;Ah, seu guardinha, deixa cantar mais uma pedra. Estou pela boa&#8230;&#8221;<br />
Nas suas matutações, meio dormindo, meio acordado, Silva Pontes se perguntava: — Por que os legisladores não regulamentam logo essa porcaria do jogo de azar, que deveria chamar-se jogo da sorte?<br />
Ele sabia o porquê, mas calado ficava.</p>
<p>Na folha de abertura dos seus originais, precedida de um croquis à mão reconstituindo Guarapari na época do romance, Renato assinalou três datas: 20.02.2001, 07.01.2002 a 10.01.2002. Era um velho hábito que tinha, de datar seus escritos. Como se lançava com obsessão àquilo que se propunha fazer, fazendo-o de uma arrancada, enquanto o tema lhe batia a passarinha (ele se confessava um obcecado, quando tinha de fazer alguma coisa), passava-me em seguida o material que terminava e assumia a posição de cobrador do que desejava que fizéssemos juntos. &#8220;Já fiz a minha parte, falta a sua,&#8221; costumava dizer, atenuando a cobrança com a liberdade que me dava para alterar tudo, como eu bem entendesse, sem que se preocupasse em nada com o sofrimento intelectual em que me deixava, espremido no córner de um ringue que ele mesmo armava.</p>
<p>No caso do <i>Crime no Radium Hotel</i> foi exatamente assim. Deixou em meu poder os manuscritos produzidos no ímpeto da inspiração, sem preocupações estilísticas, sem um maior rigor narrativo, embalado pelo projeto que o entusiasmara (&#8220;a gente deve ter sempre um projeto em execução, para espantar a morte&#8221;), que era praticamente um roteiro destinado a agir no meu ânimo como o impulso inicial, o chute na bola, o <i>starting point</i> do romance. O caráter de roteiro fica evidente em muitas passagens do manuscrito, em que a narrativa se faz quase telegráfica, fixando pontos e insinuando sugestões a serem aprofundadas e desenvolvidas para se chegar ao texto final.</p>
<p>Quando começou a sentir que eu me retardava em meter a mão no <i>Crime no Radium Hotel</i>, a pressão passou a ser explícita para que eu esquentasse as turbinas: num envelope branco, para cartas, onde subscritou &#8220;Feliz Páscoa, votos extensivos a Terezinha e família&#8221;, e onde colocou a data 30.03.2002, premiou-me com a transcrição digitada da entrevista que se segue, feita com o sr. Antônio Vieira, 70 anos, aposentado do Radium Hotel, endereço Rua José Barcello de Mattos, 1000, Guarapari, fone 33615188:</p>
<p>Guarapari 28 de março de 2002</p>
<p>O entrevistado começou a trabalhar no Radium Hotel em outubro de 1953. O estabelecimento foi inaugurado em 8 de dezembro de 1953, dia de Nossa Senhora da Conceição e dia da cidade. O prédio pertencia ao Estado que o arrendou a Alberto Bianchi. Primeiro gerente: Manuel Jantzen Fom. Outros servidores: o depoente, o motorista Libonati, o almoxarife Ângelo Forastieri e o chefe de cozinha Ovídio Chagas.<br />
O cassino (clandestino) funcionou desde antes da inauguração oficial. Como a luz (da cidade) era desligada às 22 horas, os jogadores seguiam à base de lampiões. O contrato com Bianchi, de 10 anos, findos os quais as benfeitorias passariam para o Estado, foi prorrogado por Hélcio Cordeiro, por mais dez anos, em dezembro de 1961. Em dezembro de 1968, Christiano Dias Lopes, então governador, tomou o hotel na marra.<br />
Havia 18 apartamentos, 30 quartos e o sótão chamado república, onde não havia divisões. Mais tarde ficaram apenas 49 apartamentos, inclusive a suíte do Governo do Estado, eliminando-se os quartos.<br />
O auge do funcionamento do Radium foi até 1963, e o cassino funcionava de acordo com a maior ou menor complacência das autoridades.<br />
No cassino havia bacará, campista, roleta, street flash, este um jogo violentíssimo de que participavam poucos jogadores. Uma vez Gaturamo ganhou na roleta quatro vezes em seguida no número ZERO. Pessoal do pif paf, selecionados entre os maiores jogadores: Joelmir, de Cachoeiro, Aprígio Gomes, Graciano Espíndula, José Tristão. Chegavam sexta-feira à tarde e saíam segunda-feira de madrugada. Graciano mandou vir de Vitória um barbeiro, pagando a corrida de 50 km, e fez a barba sem levantar-se da mesa de jogo. Outros jogadores: Márcio Vivacqua, Adamastor Bomfim, os Pretti (Gato e Pelota).<br />
Sobre Silva Mello: ficou duas temporadas no Radium, mas ele preferia um hotel mais modesto, o Guarapari (onde hoje está o Edifício Caparaó, na praça Central, do sr. João Pessoa). Inicialmente, além de estudar as areias pretas, ele fez um pequeno estudo sobre a longevidade de três centenárias irmãs, que moravam perto do Canal, na rua das Bonecas. Uma vez ele disse, no Hotel, que o asfalto tirava a radioatividade das ruas. Nessa época ele trouxe americanos e o padre Xavier, da PUC do Rio, que estudaram os pendores curativos das areias monazíticas. Famosos que, nesse tempo, estiveram no Hotel: Tenório Cavalcante com sua filha e o genro Hércules de Freitas Lima (que foi o deputado federal mais novo na época); Elza Soares, cantora, com seu marido Garrincha; Maysa Monjardim, que bebia gin logo cedo, e ficou seis meses no Hotel; o conde Matarazzo e sua esposa; o dono das Casas da Banha e muitos outros. Na semana santa o dono dava de 40 a 50 &#8220;cortesias&#8221; para pessoas gradas virem comer torta capixaba no Radium. Outros que se hospedavam no Radium, como convidados: General Amauri Kruel; senhores Genaro Pinheiro e João Batista Pinheiro, com sua esposa. Como os quartos eram geminados, o porteiro Alfredo encaminhava a turma da república para espreitar no apartamento vizinho casais em lua de mel. Sobre o padre Manoel: Um amigo dele, Ciríaco Ramalhete, arranjou-lhe um rapaz para auxiliá-lo em sua casa. Todas as noites o padre ouvia a BBC de Londres. Uma noite, o informante estava jogando víspora nas vizinhanças quando apareceu o empregado do padre, todo rasgado, dizendo que o padre o quisera violentar.</p>
<p>Não parou aí. No Natal de 2003, presenteou-me com um exemplar do livro de Silva Mello, <i>Guarapari, Maravilha da Natureza</i>, que havia encontrado no sebo da rua 13 de Maio, e que me deu, com a dedicatória: &#8220;Para Luiz Guilherme, na esperança de que o Silva Mello inspire o Conan Doyle Jr. Com abraços do velho amigo Renato&#8221;.</p>
<p>Eu já havia lido o livro graças a um exemplar que Ivan Borgo me emprestara, para que pudesse — no dizer de Renato —, ir me inspirando para a tarefa que me estava sendo firmemente cobrada. Mas aquele presente que, diga-se de passagem, recebi com enorme prazer, não só porque pude devolver o exemplar de Ivan, como também por poder usar o meu com a liberdade de rabiscá-lo à vontade, foi uma estocada a mais de Renato, no lado esquerdo do peito, me convocando para concluir o nosso compromisso, quebrando o passo de cágado que eu imprimia ao romance.</p>
<p>No entanto, apesar de pressionado e encurralado &#8220;tão discretamente&#8221;, continuei driblando o meu amigo até o fim (literalmente falando, do que não me vanglorio), com o <i>Crime no Radium Hotel</i>. Em grande parte, como já disse, por incompetência pessoal em compor o romance a quatro mãos; outro tanto, por certa macunaímica preguiça em juntar as pontas do que Renato escreveu com o que eu já tinha escrito e ainda restava por escrever; e, finalmente, devido àquela vã tranqüilidade de quem achava que podia deixar para amanhã o que estava sendo pedido hoje, acreditando que o amanhã fosse contornável a ponto de torná-lo imperecível. Por minha culpa, minha máxima culpa, claudicou a &#8220;antiga e fraternal associação criativa entre Luiz Guilherme Santos Neves e Renato Pacheco.&#8221; E por negligência minha, perdi o compasso no contrapé de uma procrastinação, indesculpável e perdulária.</p>
<p></p>
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***</div>
<p>
Seguem-se:</p>
<p>1) <a href="https://estacaocapixaba.com.br/crime-no-radium-hotel-romance-policial/">Texto corrido extraído da primeira versão manuscrita do romance</a>, com 58 folhas numeradas, escritas na frente e no verso.</p>
<p>2) <a href="https://estacaocapixaba.com.br/crime-no-radium-hotel-onde-couber/">Diversos textos</a>, também manuscritos, apresentados posteriormente por Renato, quase todos com a indicação &#8220;onde couber&#8221;. (Resolvi deixar soltos e não encaixar na forma inicial do manuscrito.)</p>
<p>3) <a href="https://estacaocapixaba.com.br/crime-no-radium-hotel-diversos/" target="_blank" rel="noopener">Diversos subsídios e sugestões</a> para possível aproveitamento.</p>
<p>4) <a href="https://estacaocapixaba.com.br/crime-no-radium-hotel-capitulos/" target="_blank" rel="noopener">Finalmente, os capítulos que cheguei a produzir</a>, nos quais fiz alguns ajustes para a eventual divulgação. Não fui além do que está apresentado.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Crime no Radium Hotel — Capítulos produzidos por Luiz Guilherme Santos Neves</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 18:04:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1 Na praia das Pelotas, Silva Pontes interrompeu sua caminhada. Era uma nesga de areia situada entre rochas, que a separavam das praias vizinhas da Areia Preta e do Riacho. O médico chegara até ali depois de voltar do Riacho, andando sobre a pedra onde o mar quebrava em ondas, espraiando espumas na crosta molhada [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: center;">
<b>1</b></div>
<p>Na praia das Pelotas, Silva Pontes interrompeu sua caminhada. Era uma nesga de areia situada entre rochas, que a separavam das praias vizinhas da Areia Preta e do Riacho. O médico chegara até ali depois de voltar do Riacho, andando sobre a pedra onde o mar quebrava em ondas, espraiando espumas na crosta molhada e escorregadia. O sol tinha acabado de surgir sobre o oceano e Silva Pontes aspirou o ar da manhã enchendo os pulmões no limite da sua capacidade.</p>
<p>A praia das Pelotas era coberta por uma extensa camada de conchas e corais que as vagas depositavam na areia. O médico fazia ali uma parada habitual para catar &#8220;carrapatos&#8221;, uma conchinha que lembrava a forma deste artrópode. Era preciso apurar a vista para identificar os carrapatinhos nacarados, com pintas marrons, espalhados pela areia.</p>
<p>Silva Pontes impunha um desafio diário à sua sofrida miopia, mal atenuada pelo pincenê: ver quantos carrapatos era capaz de catar em cinco minutos. Marcava o tempo pelo seu Tissot de pulso, do qual nunca se separava, nem quando dormia ou mergulhava em suas vigílias elucubrativas. Seu recorde de catação tinha sido de quinze carrapatinhos, o que lhe dava a satisfatória média de três carrapatos por minuto. Uma glória, para quem tinha de manter o equilíbrio do pincenê acavalado no nariz, com as lentes ligeiramente embaçadas pela maresia.</p>
<p>Catar carrapatos na praia das Pelotas era uma distração de muitos banhistas. Silva Pontes já havia pensado em promover um concurso entre os adeptos do passatempo. Mas desistiu da ideia por achar que seriam tantos os concorrentes que a estreita praia não os comportaria de uma vez. Pelo menos esta iniciativa não seria mais uma das suas contribuições para divulgar Guarapari como maravilha da Natureza. E não pensou mais no assunto.</p>
<p>Curvado sobre o corpanzil cinquentão, terminou os cinco minutos que se dera e conferiu a féria do dia, reunida no côncavo da mão. &#8220;Doze carrapatos! Não foi uma performance de todo ruim&#8221;, murmurou para si mesmo, atirando de volta à areia as conchinhas catadas e contabilizadas. &#8220;Que alguém, de olho mais agudo que o meu, tenha melhor sorte,&#8221; disse, em voz alta, no gesto do arremesso.</p>
<p>&#8220;Falando sozinho, doutor?&#8221;, perguntou a veranista cuja aproximação Silva Pontes não notara.</p>
<p>O médico encarou a mulher através das lentes embaçadas do pincenê e reconheceu a professora Sílvia Miranda, uma das suas pacientes do Radium Hotel. Num gesto de boa educação, ergueu o chapéu Panamá que cobria a cabeleira basta, cor de caju, e respondeu, bem humorado:</p>
<p>&#8220;Não posso dizer que falava com os meus botões porque não os tenho no calção de banho. Mas falo com meus carrapatinhos de estimação.&#8221;</p>
<p>A professora sorriu da resposta e, sem se deter um segundo sequer, retrucou com uma saudação estimulante:</p>
<p>&#8220;Bom proveito, doutor!&#8221;</p>
<p>Silva Pontes ficou contemplando-a afastar-se em direção à praia do Riacho, caminhando sobre a pedra em passos de passarinho, o corpo jovem e torneado contido no maiô azul escuro.</p>
<p>&#8220;Bom proveito?&#8221;, indagou para si mesmo. E completou, tirando novamente o chapéu da cabeça, onde os cabelos à Carlos Gomes lembravam as lavas de um vulcão impetuoso: &#8220;Ai, carrapatinhos de minh&#8217;alma, o que posso esperar deste voto?&#8221;</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>2</b></div>
<p>Sílvia Miranda sentiu que, enquanto ia pela pedra em direção à praia do Riacho, os olhos do médico cravavam-se nas suas costas. Esta impressão, que era quase palpável, a deixou envaidecida. Claro que não iria cometer a leviandade de se virar e conferir o que a sua intuição feminina lhe assegurava com tanta certeza. Continuou seu caminho, reforçando, agora com certa malícia, o ligeiro bamboleio dos quadris, enquanto percebia, através da planta fina dos pés, a rugosidade da rocha por onde andava com o necessário cuidado para não escorregar. &#8220;Eu sei que ele está me olhando, tem de estar me olhando!&#8221;, pensava Sílvia.</p>
<p>Não podia negar que o médico, apesar do pincenê e daqueles cabelos de juba de leão pintados de caju, ou talvez até por causa da juba leonina, a impressionasse como homem. Alto, simpático, solteiro, e, ainda por cima, médico de renome nacional, era o que se podia chamar de um partido de primeira. E quanto ao pincenê, bem, nem sempre estaria ele cavalgando o dorso nasal do doutor.</p>
<p>A par disso, tratava-se de homem maduro, pelos quais Sílvia sempre tivera uma queda especial e diante dos quais sua carência de menina órfã, ex-interna do colégio do Carmo, em Vitória, se tornava extremamente vulnerável. Depois, havia como a ligá-los, premonitoriamente, a semelhança dos nomes — Sílvia e Silva. Nada mais do que um i os tornando diferentes e, ao mesmo tempo, os fazendo tão próximos um do outro, ele e ela, homem e mulher, macho e fêmea.</p>
<p>O lado romântico e ardente do temperamento de Sílvia Miranda sofreu, da parte dela, uma puxada de rédeas e seus devaneios se recolheram como as ondas do mar depois de espumarem sobre a rocha. Sua atenção orientou-se então para a praia do Riacho, onde havia marcado um encontro com possibilidades concretas, segundo pensava, de mudar para sempre seu destino de professora primária.</p>
<p>Estava em Guarapari há um mês e meio. Viera de Governador Valadares para passar férias de verão na Cidade Saúde e hospedara-se no Radium Hotel por indicação de um amigo, mas graças também a algumas economias forçadas, feitas durante o último ano letivo.</p>
<p>Na verdade, não só tinha em mira se conceder um justo e merecido descanso, como aproveitar a terapêutica monazítica das areias pretas para combater um começo de reumatismo que lhe afligia as juntas e o pulso da mão direita.</p>
<p>O amigo, que lhe indicou Guarapari, havia lido numa revista de medicina, na ante-sala de um consultório médico, um artigo apologético sobre as propriedades miraculosas das praias de Guarapari, para o tratamento do reumatismo e de outras doenças dos ossos. Tratava-se de trabalho assinado por Silva Pontes. Ao passar as informações para Sílvia, o amigo não se esquecera sequer de mencionar o nome do articulista. &#8220;Parece que é uma sumidade no tratamento de reumatismo&#8221;.</p>
<p>Ao hospedar-se no Radium Hotel, Sílvia Miranda ficou sabendo que a sumidade também se encontrava ali, hóspede de honra com direito ao uso de uma saleta para o atendimento de pacientes. Não seria ela, pois, que iria perder a oportunidade de travar conhecimento com aquele prodígio da medicina, tão à sua mão doente que quase a assustava.</p>
<p>Só que, antes que Sílvia levasse à frente um estreitamento de relações com Silva Pontes, o acaso colocou em seu caminho a figura bem apessoada e galante, e diga-se ainda que divertida e fogosa, do jovem Rodrigo Vilela da Cunha. Por ele a professora se tomou de amores e, impulsionada pelo sopro quente de Cupido, ia encontrá-lo na deserta praia do Riacho, onde a constante arrebentação das ondas espantava, para águas menos encapeladas, banhistas ousados e temerosos.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>3</b></div>
<p>&#8220;O homem — todos os homens — vivem num imponderável jogo de acasos.&#8221;</p>
<p>A frase mordeu o cérebro de Silva Pontes enquanto voltava para o Radium Hotel. À sua direita, o mar arrebentava com força, na praia da Areia Preta; à esquerda, uma falésia aprumada e vermelha, como um ventre de barro rasgado de cima em baixo, se despenhava reto sobre a praia, criando uma ribanceira com mais de quinze metros de altura. A falésia formava, naquele canto, um regaço morno e aconchegante.</p>
<p>Na barra do mar, em frente ao barranco, algumas rochas faziam as vezes de banheira natural, onde as ondas entravam espumando e onde Silva Pontes entrava suado, para usufruir daquele refúgio sereno. Era ali que ele se alojava como senhor do mundo, Netuno em águas reconfortantes, durante suas caminhas matinais, para banhar-se calmamente, com uma alegria quase juvenil. &#8220;Maravilha da natureza&#8221;, chegava a gritar para as ondas que se rompiam sem o menor perigo, por cima das pedras.</p>
<p>Terminado o banho de pato, Pontes dirigia-se para o hotel onde quebrava o jejum com um café da manhã, servido no salão de refeições, constituído de café, leite ou chocolate, pão com manteiga, cuscuz e banana da terra cozida, que ele cirurgicamente abria ao meio para passar manteiga e chuviscar com canela em pó.</p>
<p>Andando sem pressa, evitava a parte fofa da praia, onde, às vezes, suas pisadas mais firmes provocavam alguns assovios, curtos e agudos, que lhe causavam gastura. Aprendera a palavra em Guarapari, com a gente da terra, e a adotara para significar um mal-estar momentâneo e físico, geralmente acompanhado de arrepio. Enquanto caminhava, remoeu a frase que lhe tinha atinado à consciência, fruto de antiga obsessão da sua mente lógica e especulativa: &#8220;O homem — todos os homens — estão sujeitos na vida a um imponderável jogo de acasos.&#8221; E concluiu: &#8220;O acaso deve ter as suas leis, talvez tão sutis quanto as da hereditariedade. O diabo é explicá-las&#8221;.</p>
<p>E tomava a si próprio como exemplo para as essas ruminações filosóficas.</p>
<p>Nunca estivera nos seus desígnios se interessar pelos segredos da radioatividade. No entanto, quando ainda era estudante, caiu-lhe sob os olhos o Almanaque Hachette de 1904, que mencionava a existência do radium, descoberto em 1898 pelo casal Curie, cujas pesquisas posteriores levaram os dois cientistas ao Prêmio Nobel de 1903.</p>
<p>Anos depois, já formado pela Escola de Medicina da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, Silva Pontes, num convite inesperado que lhe fez um embaixador amigo de seu pai, tornou-se assistente do Instituto de Radium de Berlim, no decurso da Primeira Guerra Mundial. Ali, onde trabalhou com alguns professores de maior renome na Alemanha, publicou, em revistas médicas, trabalhos experimentais sobre os efeitos biológicos da radioatividade no organismo animal.</p>
<p>Já no Brasil, durante uma de suas habituais excursões de férias, feitas em automóveis comprados de segunda mão, veio bater na modesta cidade de Guarapari, que, de tão modesta mais parecia uma simples vila de pescadores. Foi quando travou contato com a praia da Areia Preta, cujo potencial radioativo identificou a olho nu, percebendo, antes de qualquer outra pessoa, o potencial curativo que o lugar oferecia para tratar reumatismos.</p>
<p>Agora, quase vinte anos depois dessa primeira visita, ei-lo outra vez em Guarapari, que ajudou a projetar mundialmente como cidade-saúde. E, para sua maior satisfação, hospedado como convidado especial, no novo hotel da cidade, ao qual muito apropriadamente fora dado o nome de Medicinal Radium Hotel, erguido diante da praia da Areia Preta.</p>
<p>O hotel era explorado pelo Governo do Estado, interessado em divulgar Guarapari como balneário turístico e terapêutico. O governo o adquirira ao seu idealizador, um amazonense que estudara em Vitória, mas que não teve cacife para concluir as obras.</p>
<p>&#8220;Sim, o homem vive num imponderável jogo de acasos,&#8221; repisou Silva Pontes entrando no grande jardim do hotel, enquanto revia em pensamento o corpo atraente de Sílvia Miranda, balançando sobre as pedras lambidas pelo mar. E ele mesmo lambendo os lábios sem sentir, perguntou-se, sorridente: &#8220;Será este um outro exemplo das imponderabilidades do acaso?&#8221;</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>4</b></div>
<p>O Radium Hotel era o que se poderia chamar um hotel moderno, com o conforto necessário para atrair hóspedes e turistas de todas as partes do mundo. Seus quartos tinham ventiladores de teto, camas com mesinhas de cabeceira e abajur, penteadeiras com pufes e armários para roupas, além de banheiros privativos.</p>
<p>Para Silva Pontes, que chegou a Guarapari pela primeira vez em 1937, e teve de se hospedar num hotel de precárias condições, com sanitário tipo fossa, coletivo e imundo, com catres nos quartos no lugar de camas e assoalho de madeira cujos furos permitiam que se visse a vegetação do solo, o Radium era a última palavra em modernismo, como já alardeava a propaganda feita fora do Estado do Espírito Santo.</p>
<p>Além desses requintes, o hotel tinha alguns apartamentos que se comunicavam internamente por uma porta comum, como acontecia em grandes hotéis do Rio de Janeiro e São Paulo. Era uma solução prática que permitia a associação de dois cômodos, transformando-os, num abrir de porta, num aposento conjugado, quando assim fosse do interesse de alguns clientes.</p>
<p>Além das dependências para hóspedes, o Radium Hotel contava com um cassino. O cassino funcionava com a tolerância das autoridades do Estado, algumas das quais, independentemente dos poderes a que pertenciam, costumavam frequentá-lo nos finais de semana, com a vantagem de poder se passar por hóspedes acompanhados de suas digníssimas consortes ou de suas espevitadas amantes.</p>
<p>Jogava-se a rodo, o uísque corria solto, o dinheiro passava de mão em mão, sobretudo para as burras do cassino. Era como se a radioatividade das areias de Guarapari se transferisse, desde o cair da noite, para o frenesi da tavolagem.</p>
<p>Nos fins de semana que coincidiam com feriados religiosos ou dias da pátria, artistas vinham do Rio de Janeiro, especialmente contratados para cantar e tocar no cassino do hotel. O show se estendia até altas horas da madrugada, mas apesar da bebedeira reinante, nunca se soube de alguém que tivesse curado o porre fenomenal mergulhando em nudez etílica no mar ali perto.</p>
<p>De sua parte, apenas uma vez Silva Pontes pisou nas dependências do cassino, assim mesmo a serviço da medicina, para o atendimento urgente de um freguês da roleta e do bacará que foi acometido de uma súbita comoção cerebral, depois de ver esvair-se pelas mãos trêmulas e ansiosas o patrimônio construído durante anos. Silva Pontes teve muito pouco o que fazer, a não ser recomendar que o homem fosse removido às pressas para o hospital do Dr. Dório Silva, em Vitória.</p>
<p>Um carro chapa preta, que atendia ao secretário do Interior e Justiça, estacionado no grande jardim do Radium Hotel, serviu de ambulância para o transporte do doente.</p>
<p>Mas para Silva Pontes a ida ao cassino teve ainda outro proveito: revelou-lhe que algumas hóspedes do hotel também se faziam presentes às noitadas da jogatina. Bem arrumadas, com pulseiras, colares e anéis cintilantes, agitavam-se de um lado para o outro. Uma delas, Dona Marinalva Cunha, paciente a quem o médico atendia devido ao artritismo crônico, chamou-lhe em especial a atenção, docemente empurrada em sua cadeira de rodas por um enfermeiro do hotel.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>5</b></div>
<p>No dia seguinte à incursão ao cassino, Silva Pontes teve de ir a Vitória. Foi para atender ao convite para proferir uma palestra sobre a cura do reumatismo e do artritismo pela radioatividade.</p>
<p>O convite partiu do diretor do Sanatório Getúlio Vargas, Dr. Zaig, que fora um dos mais brilhantes alunos de Silva Pontes, na Faculdade da Praia Vermelha, no final da década de 20.</p>
<p>Silva Pontes partiu para Vitória na véspera do dia de Nossa Senhora da Conceição, 8 de dezembro, que começou radioso, com muito sol e temperatura amena, mas terminou sob tremendo temporal.</p>
<p>A perua do sanatório chegou ao Radium Hotel às 9,20 da manhã, dirigida pelo motorista Gabino Ramos. O médico embarcou logo, carregando na mão sua maleta marrom com uma muda de roupa. Deu bom dia a Gabino e acomodou o corpo pesado no banco dianteiro e inteiriço da Chevrolet 52.</p>
<p>De soslaio, Gabino conferiu o passageiro com a descrição que dele fizera Zaig: &#8220;Tem porte de vulcão, cabeça de vulcão e, às vezes, cospe lava pela boca, sem deixar cair o pincenê&#8221;. O personagem batia com o seu retrato falado.</p>
<p>Ao passar sobre a ponte de cimento armado, que liga o porto de Guarapari a Muquiçaba, Gabino puxou conversa: &#8220;Graças a essa obra, inaugurada há pouco tempo, não precisamos mais esperar a balsa para atravessar o canal.&#8221;</p>
<p>Silva Pontes inspirou fundo e, sem se voltar para o motorista, retrucou: &#8220;Pode ser uma bela obra de engenharia, mas para mim não passa de engenhosidade modernosa. Eu preferia a balsa. Esta ponte vai destruir Guarapari. Daqui a alguns anos, meu caro, a cidade vai virar um paredão de prédios, como Copacabana.&#8221;</p>
<p>Gabino não esperava tal resposta. Não podia imaginar que Silva Pontes tivesse sido ferrenhamente contrário à construção da ponte que, no seu entender, iria descaracterizar Guarapari como recanto acolhedor e tranqüilo. Resolveu ficar calado e murcho, como zero à esquerda, no seu canto de motorista, concentrando-se na estrada e nas mudanças de marcha, com a alavanca em baixo do volante.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>6</b></div>
<p>Rodados uns cinco quilômetros por estrada de chão, Silva Pontes virou-se para Gabino e quebrou o gelo reinante: &#8220;Como está o Zaig?&#8221;</p>
<p>&#8220;Bem, como sempre&#8221;, respondeu o motorista. &#8220;E aprontando muitas e boas&#8221;.</p>
<p>O médico se recordou do ex-aluno, agora seu amigo particular, a quem não via há algum tempo. Zaig era um homem de porte médio, de inteligência fulgurante, olhos vivos e perspicazes, com um nariz aquilino que não escondia sua ancestralidade judia, trazida de Portugal pela mãe lusitana. Tisiologista de fama nacional, era um humanista na verdadeira acepção da palavra. De formação clássica, leitor assíduo de Santo Agostinho e de Santa Teresa de Jesus, que lhe alimentavam o lado místico, sua luta infatigável para combater a tuberculose, principalmente junto às camadas menos favorecidas da população, transformar-se-ia na cruzada da sua vida. A ela Zaig se dedicava de corpo e alma e com toda a ciência que havia apreendido.</p>
<p>&#8220;O combate à doença se faz com lógica e precisão. Na enfermidade, como no roubo e no crime, há sempre um desafio à nossa inteligência, um mistério que pede solução&#8221;, costumava dizer, com ares sherloquianos. &#8220;O que é o diagnóstico, senão o ato preliminar e indispensável para o desvendamento de uma incógnita?&#8221;</p>
<p>Silva Pontes desconhecia, porém, do ex-aluno e amigo, aquele lado brincalhão e irreverente, a que se referira Gabino Ramos.</p>
<p>&#8220;Que história é essa de aprontar muitas e boas?&#8221;</p>
<p>&#8220;O senhor não sabia? Pois para armar uma brincadeira, que aqui no Espírito Santo se chama enxova, Dr. Zaig não dorme no ponto, principalmente quando está com seus amigos Dr. Pissinali e Dr. Paulo Veloso. Já ouviu falar deles?&#8221; Do médico Pissinali, Silva Pontes já ouvira falar pelo próprio Zaig. Mas, de Paulo Veloso, era a primeira vez que lhe mencionavam o nome.</p>
<p>&#8220;Quem é o Dr. Paulo?&#8221;, quis saber, sem reprimir a curiosidade e até arrumando motivo para alimentar a conversa durante a viagem. Ouvir, ouvir atentamente os outros, quaisquer que fossem as histórias que contassem, era um dos princípios de vida de Silva Pontes. &#8220;Pela audição se aprende tanto quanto pela leitura,&#8221; costumava dizer.</p>
<p>&#8220;Dr. Paulo é promotor de Justiça, enxovador de marca maior, amigo de Dr. Zaig desde os tempos de ginásio. Estão sempre juntos, como unha e carne&#8221;, explicou Gabino, retirando, por alguns segundos, as mãos do grande volante da perua, para fazer, com os indicadores em fricção, o gesto que indicava a estreita ligação entre os amigos. &#8220;Eu mesmo já fui vítima de muitas situações que eles me criaram&#8221;.</p>
<p>&#8220;Você?&#8221;, indagou Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Eu. A última que me fizeram foi domingo retrasado, no jogo entre o Caxias e o Vitória&#8221;.</p>
<p>A curiosidade de Silva Pontes levou Gabino a contar a história em detalhes.</p>
<p>&#8220;Já que o senhor quer saber..,&#8221; disse ele, depois de evitar, com uma guinada para a esquerda, o atropelamento de uma galinha com um renque de pintinhos que chisparam de um lado para outro da estrada, perto de Amarelos.</p>
<p></p>
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<b>7</b></div>
<p>&#8220;Olha, doutor, além de motorista, eu sou juiz de futebol. Não foi nem uma, nem duas partidas decisivas que apitei, no estádio Governador Bley, em Jucutuquara. Até jogos contra times do Rio e de Minas Gerais, que no placar são chamados Visitantes, eu marquei e me orgulho disso.</p>
<p>Mas como ia dizendo, domingo retrasado ia ser a final do campeonato capixaba, entre o Vitória Futebol Clube e a Associação Atlética do Caxias. O Caxias é o time da Polícia Militar do Estado, um osso duro de roer quando joga uma cartada decisiva. E duro de roer para o adversário e para o juiz. O pior é que eu fui sorteado para apitar a partida.</p>
<p>Dr. Zaig e Dr. Paulo são Vitória de carteirinha social, e costumam ir ao estádio nos jogos do seu clube. Dois dias antes, lá no sanatório, porque Dr. Paulo não é médico mas aparece sempre para ver Dr. Zaig, eles me cercaram perguntando: &#8216;Como é, Gabino, você não está com medo de apitar o jogo com o Caxias? Aquela meganhada é capaz de lhe cortar o pinto.</p>
<p>&#8216; Me encheram tanto a paciência com essas brincadeiras que eu acabei confessando que ia levar uma peixeira dentro do calção. Não que eu quisesse furar ninguém, mas na minha terra, doutor, em São Mateus, no norte do Estado, costuma-se dizer que seguro morreu de velho.</p>
<p>Dr. Zaig e Dr. Paulo ouviram calados a minha informação, mas eu conheço eles bastante para saber, pela troca de olhar entre os dois, que iam me aprontar alguma.</p>
<p>E não deu outra. Quando soprei o apito para o início do jogo ouvi a voz de Dr. Zaig, gritando da arquibancada: &#8216;Gabino tá com uma peixeira no calção!&#8217; E Dr. Paulo, completando: &#8216;Tira a peixeira dele!&#8217;</p>
<p>O Governador Bley é um estádio pequeno, o público nas arquibancadas fica perto do gramado. Em campo, ouve-se tudo o que os torcedores gritam. Pois foi assim o jogo todo. Dr. Zaig e Dr. Paulo me alcaguetando por causa da peixeira, eu fingindo que não era verdade, procurando apitar a partida sem me aproximar do lugar onde estavam meus acusadores.</p>
<p>No dia seguinte, quando fui pegar Dr. Zaig em casa, para levá-lo para o sanatório, como faço todas as manhãs, ele, com a cara mais lavada do mundo, me disse: &#8216;Mas que jogo, hein, seu Gabino! Uma beleza, a vitória do Vitória! E aquele pênalti, que nos deu o campeonato, só um macho como você teria coragem de marcar contra o Caxias&#8230;&#8217;</p>
<p>Não me contive e reclamei com ele, porque sempre houve muita liberdade entre nós, até somos parentes por laços familiares lá em São Mateus: &#8216;É, mas vocês me encheram a paciência com a história da peixeira.&#8217; E sabe o que o Dr. Zaig me respondeu?&#8221;</p>
<p>&#8220;O quê?&#8221;, indagou Silva Pontes, divertido com a história que ouvia.</p>
<p>&#8220;Olha, Gabino, se Paulo e eu não gritássemos que você estava armado, pensa que você sairia vivo do jogo de domingo? Fomos nós, seu putão, que garantimos sua integridade física. Isso você nos deve pelo resto da vida!&#8221;</p>
<p>Silva Pontes deu uma boa gargalhada com o caso, sobretudo porque Gabino acabou reconhecendo que Zaig e Paulo tinham razão.</p>
<p></p>
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<b>8</b></div>
<p>Chegaram a Vitória quase duas horas depois de terem saído de Guarapari. A estrada de barro não estava muito boa depois de Amarelos, pela via até a Barra do Jucu, onde ainda tiveram de esperar um caminhão mudar um pneu furado, em cima de uma das pontes de madeira que cortam o rio. Atravessaram o longo coqueiral dos Oliveira Santos, de onde Silva Pontes sempre admirava o convento da Penha, deixaram Vila Velha para trás, chegaram à ilha do Príncipe pelas Cinco Pontes e logo a perua 52 começou a trepidar pelas ruas de paralelepípedos de Vitória, a caminho do sanatório Getúlio Vargas, em Maruípe.</p>
<p>Em Jucutuquara, Gabino fez questão de passar diante do estádio governador Bley, que Silva Pontes conhecia só de nome, lembrando para o médico, &#8220;foi aí o meu suplício, domingo retrasado.&#8221; Mais à frente, depois do ponto final do bonde, pegou a avenida Maruípe para alcançar o sanatório. O prédio de dois pavimentos — construído de cimento armado, como então se dizia — sobressaía numa colina pontuada por pés de eucaliptos, considerados terapêuticos para o tratamento da tuberculose.</p>
<p>Quando Silva Pontes, quase ao meio-dia, entrou no gabinete de Zaig, este estava com as pernas esticadas em cima da mesa e os óculos puxados sobre a testa larga e branca, como era de seu estilo. Falava ao telefone animadamente e fez sinal para Silva Pontes se sentar em frente à sua mesa, numa cadeira de mogno, com réguas no encosto. Assim que terminou o telefonema, levantou-se e abraçou o amigo, dizendo, amistosamente:</p>
<p>&#8220;A vida é a luta constante entre o indivíduo e o meio em que vive&#8221;.</p>
<p>A frase, que se tornara saudação entre ambos, era repetida por Silva Pontes nas aulas da Faculdade da Praia Vermelha.</p>
<p>&#8220;Você não se esquece, hein, Zaig?&#8221;</p>
<p>&#8220;Pudera, mestre! Suas aulas são uma das boas lembranças dos meus tempos de acadêmico. E a saúde, como está?&#8221;</p>
<p>&#8220;Graças a Deus, vai bem, tirante a miopia, que às vezes me irrita&#8221;.</p>
<p>&#8220;Talvez graças a ela você tenha aprendido a ver mais longe do que muita gente&#8230;&#8221; disse Zaig, gentil.</p>
<p>&#8220;Quem sabe?&#8221; respondeu Silva Pontes, lisonjeado.</p>
<p>&#8220;Mas antes de mais nada, meu amigo, que tal irmos almoçar? Você se importa de comer aqui mesmo, no sanatório? Temos um refeitório onde se forra a tripa razoavelmente. Topas?&#8221;</p>
<p>A pergunta de Zaig fora feita por mera educação, sabendo que Silva Pontes não tinha outra alternativa senão aceitá-la.</p>
<p>Ao sair do gabinete, acompanhado pelo médico, Zaig dirigiu-se à sua secretária, Ilza Fundão, e disse: &#8220;Avise a Pissinali que o Pontes chegou e que estamos no refeitório.&#8221; E voltando-se para o amigo, perguntou: &#8220;Como está a sua Guarapari?&#8221;.</p>
<p>&#8220;Nossa&#8221;, respondeu Silva Pontes. &#8220;Ela é tão minha quanto de todos os capixabas. Eu só tento fazê-la internacional&#8221;.</p>
<p>&#8220;E está conseguindo, meu caro! Tanto que o governo passado construiu a ponte que agora dá acesso fácil ao balneário&#8221;, provocou Zaig, que conhecia a ojeriza do amigo pela obra.</p>
<p>Silva Pontes não perdeu a deixa: &#8220;Estou começando a entender o seu motorista Gabino Ramos&#8221;.</p>
<p>&#8220;Por quê?&#8221; interrogou Zaig, sem subsídios para matar a charada.</p>
<p>&#8220;Gabino me contou uma faceta sua, que eu desconhecia, um certo espírito galhofeiro que sobrou até para ele, num jogo de futebol&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Faceta que só dedico aos amigos mais íntimos&#8230;&#8221;, disse Zaig, alegremente, enquanto passava o braço sobre o ombro de Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Então obrigado pela parte que me toca&#8221;, replicou Pontes, entrando também na brincadeira.</p>
<p>Quando chegaram ao refeitório, Pissinali, que ali já se encontrava, veio cumprimentar Silva Pontes. Zaig o apresentou, dizendo:</p>
<p>&#8220;Com este mestre, Pissinali, aprendi a desvendar os mistérios das chapas de Raios-X&#8221;. Em seguida, indagou: &#8220;O que temos hoje?&#8221;</p>
<p>A pergunta devia ser rotina entre os dois porque Pissinali respondeu, sem titubeios: &#8220;Carninha moída com purê de batata, arroz com ervilhas, feijão manteiga, verduras e legumes&#8221;.</p>
<p>Zaig dirigiu-se a Silva Pontes e perguntou de novo:</p>
<p>&#8220;Topas?&#8221;</p>
<p>&#8220;Claro,&#8221; respondeu ele. Depois de se servirem em bandejas de madeira, sentaram-se os três numa mesinha de tampo de mármore branco, para iniciar a refeição.</p>
<p>&#8220;O pão, cadê o pão?&#8221; pediu Zaig à atendente. E explicou a Silva Pontes: &#8220;É um vício de quem vem de família dona de padaria, que funcionava no térreo da nossa residência&#8221;.</p>
<p>O pão foi trazido numa cestinha de vime, coberta por um guardanapo de xadrez vermelho e branco. Zaig o partiu com a mão, retirou o miolo que sempre deixava de lado, e começou a comer os pedaços misturados com a comida.</p>
<p>&#8220;O que vocês esperam da minha palestra?&#8221; indagou Silva Pontes, entre a primeira e a segunda garfadas.</p>
<p>&#8220;Que seja agradável como os banhos de mar de Guarapari&#8221;, respondeu Zaig, enquanto Pissinali sorria.</p>
<p></p>
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<b>9</b></div>
<p>No fim da tarde, o tempo, que estava abafado, desfez-se em toró sobre Vitória. Caiu tanta chuva que a palestra de Silva Pontes teve de ser adiada para o dia seguinte.</p>
<p>Apesar do temporal, Zaig e Pissinali, acompanhados de Paulo Veloso, foram encontrar-se com Silva Pontes, no Hotel Sagres, onde o médico estava hospedado.</p>
<p>O Sagres situava-se no centro da cidade, ao lado do prédio dos Correios e Telégrafos. Na parte de baixo, ficava o bar e restaurante, que tinha também o nome do hotel. Ali, Silva Pontes foi introduzido na amizade de Paulo Veloso.</p>
<p>No programa dos quatro estava apenas deixar correr a conversa, em meio a rodadas de tira-gosto, regadas a caju-amigo, batida da preferência de Veloso.</p>
<p>Com sua capacidade invejável de conquistar amigos, Velozão, como o chamava Zaig, foi logo se fazendo íntimo de Silva Pontes. Quando o garçom veio com a primeira rodada de tira-gostos, Paulo pediu que trouxesse o caju separado da cachaça. Logo que o garçom retornou, Paulo apressou-se em explicar a Silva Pontes, numa demonstração de <i>connaisseur</i>, a técnica para degustar o verdadeiro caju-amigo.</p>
<p>&#8220;Veja, Pontes: você, que também é um estudioso dos comes e bebes brasileiros, pega um cálice desta Cariacica, uma das melhores cachaças do Espírito Santo, mas não mistura com o suco do caju, como fazem normalmente os leigos obtusos. Esta mistura de caju-amigo é o falso caju-amigo. O verdadeiro é o seguinte: você pega o caju, dá nele umas furadinhas com um palito e põe a fruta inteira na boca. Aí sim, você a mastiga nos dentes, bebe a cachaça por cima, juntando na boca o suco da fruta com a bebida, e engole num trago só. Experimente!&#8221;</p>
<p>Pontes provou e aprovou a receita: &#8220;Belíssima, Paulo, belíssima!&#8221;.</p>
<p>A partir daí, a conversa correu solta, Veloso dominando a cena com suas pilhérias insuperáveis, os cajus-amigos descendo em sucessão goelas abaixo.</p>
<p>Lá pelas tantas, Zaig disse:</p>
<p>&#8220;Paulo, o Gabino, que trouxe o Pontes de Guarapari, contou-lhe a história da peixeira, do jogo de domingo.&#8221;</p>
<p>Paulo abriu, debaixo do bigodinho à Adolfo Hitler, um sorriso de grande urso brincalhão, e proclamou o que considerava uma menção honrosa:</p>
<p>&#8220;Gabino é um dos nossos <i>sparrings </i>prediletos&#8221;.</p>
<p>&#8220;E também Paulo Fundão e Guilhermezinho&#8221;, acrescentou Pissinali.</p>
<p>&#8220;Guilhermezinho, não. Guilhermezinho é nosso parceiro&#8221;, corrigiu Zaig.</p>
<p>&#8220;Mas também entra bem,&#8221; disse Paulo, rindo.</p>
<p>&#8220;Como, aliás, todos nós. Está aí <i>Cantáridas</i>, que não me deixa mentir,&#8221; lembrou Zaig.</p>
<p>&#8220;O que é Cantáridas?&#8221;, quis saber Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Diz pra ele, Paulo, o que é <i>Cantáridas</i>,&#8221; instigou Zaig.</p>
<p>O rosto de Paulo se iluminou com a oportunidade que lhe era dada. Antes, porém, virou-se para o garçom, e pediu:</p>
<p>&#8220;Cearense, ô Cearense, traz mais uns cajus aqui pra mesa! Parece até que você os está escondendo debaixo da saia de Dona Maria&#8230;&#8221; E rindo como um garoto travesso, esclareceu para Silva Pontes: &#8220;D. Maria é a dona do Sagres.&#8221; Em seguida, empurrando a cadeira para trás, como se ganhasse espaço para uma revelação tridimensional, bateu com a mão na coxa de Silva Pontes e disse, empolgado: &#8220;Vamos a <i>Cantáridas</i>!&#8221;</p>
<p></p>
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<b>10</b></div>
<p>&#8220;<i>Cantáridas</i>, meu caro Silva Pontes, foi uma revista de versos fesceninos que eu, Zaig e Guilherme, irmão de Zaig, criamos quando estudávamos no Rio de Janeiro. Eu e Guilherme fazíamos Direito, na rua do Catete, e Zaig era aluno seu, na Praia Vermelha. Íamos para o Rio no Noturno, o trem da Leopoldina que saía de Vitória de manhã e chegava em Niterói no dia seguinte.&#8221;</p>
<p>&#8220;A revista era toda feita à mão&#8221;, explicou Zaig.</p>
<p>&#8220;Artesanato puro!&#8221;, atalhou Paulo, os olhos brilhando, em parte pela lembrança saudosa, em parte pelos cajus-amigos que já tinha entornado bucho adentro. &#8220;Mas o que valia mesmo era a versalhada em forma de sonetos ou não, quase sempre parodiando poetas brasileiros, num jogo de esculhambação recíproca, entre os três autores. Vou até confessar uma coisa que nunca disse a Zaig, nem a Guilherme: <i>Cantáridas</i>, na minha opinião, marca a chegada do Modernismo no Espírito Santo. Um modernismo ao nosso modo, mas modernismo!&#8221;</p>
<p>&#8220;Você tem razão, Veloso. Pode-se até dizer que foi o capítulo único do modernismo no Estado, ainda que esculhambativamente falando, mas valorizando a prata da casa,&#8221; interveio Zaig, no endosso da opinião de Paulo.</p>
<p>&#8220;Esculhambação que sobrava para muita gente&#8221;, lembrou Pissinali, que já se deliciara com a leitura de Cantáridas.</p>
<p>&#8220;Claro&#8221;, disse Paulo, &#8220;o que dava para ser aproveitado, aproveitado era. Lapisuinha, por exemplo, sofreu com as nossas musas e nas nossas mãos&#8221;.</p>
<p>&#8220;Lapisuinha era primo meu e de Guilherme&#8221;, esclareceu Zaig, &#8220;e também fez medicina no Rio. Especializou-se em otorrino&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Como era mesmo aquele soneto do Lapisu?&#8221;, perguntou Pissinali, estimulando a verve de Paulo.</p>
<p>&#8220;Qual deles?&#8221;, indagou o provocado, rindo com a memória de todos os sonetos que tiveram Lapisuinha por personagem.</p>
<p>&#8220;Recite um deles, Paulo, em homenagem aqui ao Pontes&#8221;, sugeriu Zaig.</p>
<p>Sem perda de tempo, Velozão aceitou o desafio. &#8220;Vai o Lapisu de sua autoria, Zaig.&#8221; E saboreando os versos entre risos, recitou:</p>
<p>Enrabador de bestas e de vacas<br />
Terror da pastaria e dos currais,<br />
Só de sentir o cheiro de babacas<br />
Lhe despertam os instintos bestiais.</p>
<p>Em cinema, ao seu lado, ninguém senta,<br />
Pois distinção de sexo ele não faz,<br />
Co´a mão bolina quem lhe está na frente.<br />
E bolina co´o cu quem está atrás&#8230;</p>
<p>&#8220;Veja que imagem maravilhosa, meu caro Pontes — e bolina co´o cu quem está atrás!&#8221; enfatizou Paulo, em êxtase poético. E apontando para Zaig: &#8220;Olha pra ele, Pontes! Olha pro puto que está aí ao seu lado! É o autor desta maravilha!&#8221;</p>
<p>&#8220;E o resto do soneto,&#8221; perguntou Pissinali?</p>
<p>&#8220;O resto nem com mais caju-amigo eu consigo me lembrar&#8221;, desculpou-se Paulo, sublimado com as risadas de Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;Mas do &#8216;Fodologia&#8217; você se lembra&#8221;, provocou Zaig.</p>
<p>&#8220;Porque o &#8216;Fodologia&#8217; é uma obra prima!&#8221; assanhou-se Velozão. E com lágrimas de prazer antecipado, explicou a Silva Pontes: &#8220;Este soneto fui eu que fiz para Guilhermezinho, que era professor de português no Ginásio do Espírito Santo, na avenida Capichaba. Capichaba com ch,&#8221; frisou Paulo. &#8220;Zaig também sabe de cor. Vamos recitá-lo juntos?&#8221; E declamaram numa só voz:</p>
<p>Quem ontem p´lo Ginásio ia passando<br />
E a aula do Pancinha percebeu,<br />
Ouviu a garotada decorando:<br />
&#8220;Eu fodi, tu fodestes, ele fodeu!&#8221;</p>
<p>Viu também o malandro com cinismo,<br />
Sufocando o caralho enzinabrado,<br />
Gritar: &#8220;Pica com k é galicismo!<br />
Foder com ph é antiquado!&#8221;</p>
<p>Depois, pra analisar, na lousa escreve:<br />
&#8220;De que tamanho é a baja do servente?&#8221;<br />
E: &#8220;se o e de boceta é longo ou breve?&#8221;</p>
<p>E, como é hora de bater o sino,<br />
Ele sai pra ensinar praticamente<br />
À fogosa cunhada do Gabino&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Opa&#8221;, é agora Silva Pontes quem diz, entre risadas: &#8220;O Gabino também levou a dele&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu não lhe disse que ele era um dos nossos <i>sparrings </i>prediletos?&#8221;, falou Veloso, espumando-se de rir.</p>
<p></p>
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<b>11</b></div>
<p>A palestra de Silva Pontes começou às 20,00 horas, do dia 8 de dezembro, no auditório do Centro de Saúde, no Parque Moscoso. Era um auditório com capacidade para umas oitenta pessoas, que ficou lotado, notadamente por médicos e políticos.</p>
<p>Silva Pontes tornara-se um nome conhecido no Estado do Espírito Santo, desde que se empenhara na valorização e defesa das areias monazíticas de Guarapari. Com o correr dos anos, sua atuação ganhara ressonância nacional, principalmente quando denunciou a exportação predatória das areias da Cidade Saúde. Ricas em tório, ilmenita, monazita, cério e diversos outros elementos, para aplicações industriais e medicinais, as areias eram contrabandeadas para o estrangeiro, graças à conivência das autoridades brasileiras, em grande parte por ignorar o valor estratégico do material exportado, em grande parte por condescendência com a rapina.</p>
<p>Silva Pontes já havia advertido, no Rio de Janeiro e em São Paulo, que, no campo da radioatividade, sobretudo a partir da fissura do átomo que levou à produção da bomba atômica, o Brasil vinha sendo vergonhosamente sabotado nos acordos e tratados que permitiam a extração das areias, em troca de compensações mesquinhas e humilhantes.</p>
<p>Naquela noite, em oratória inspirada, o conferencista versou mais uma vez este tema, e relatou os estudos que vinha desenvolvendo, desde 1937, sobre os efeitos terapêuticos da radioatividade de Guarapari, no tratamento de determinados tipos de artritismo.</p>
<p>Foi uma conferência de alto nível. Durante mais de duas horas, sem precisar microfone, o orador expôs suas idéias e o seu conhecimento sobre o assunto, relatando casos sobre as pesquisas que vinha fazendo com pacientes portadores de reumatismo e de artritismo crônico. Acima de tudo, fez questão de mostrar as grandes perspectivas que ofereciam as praias de Guarapari, prevendo para o balneário um futuro promissor, no campo do tratamento daqueles males. &#8220;Desde que não continuemos sendo uns papalvos na defesa de nossas riquezas minerais&#8221;, acentuou, ferozmente, para a platéia atenta.</p>
<p>Papalvo e capadócio eram os termos preferidos por Silva Pontes para definir imbecil.</p>
<p>Encerrada a conferência, Zaig insistiu em levar o amigo até o Hotel Sagres, na perua do sanatório, que ele mesmo dirigia. Lá chegando, o cansaço de Silva Pontes não permitiu que aceitasse o convite do amigo para jantar no restaurante do hotel.</p>
<p>&#8220;Obrigado, Zaig, mas prefiro subir para o meu quarto, pedir um chá com torradas Petrópolis, tomar um banho de chuveiro e cair na cama&#8221;.</p>
<p>Zaig aceitou as desculpas, e se despediu de Silva Pontes na portaria do hotel. &#8220;Amanhã, às 7,00 em ponto, o nosso Gabino estará aqui para devolvê-lo são e salvo às suas &#8216;pretinhas&#8217; de Guarapari&#8230;&#8221;</p>
<p>Próximo do hotel, o relógio da Praça 8 bateu onze horas, depois de tocar o prefixo do hino do Estado.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>12</b></div>
<p>Silva Pontes acordou quando o relógio da praça batia 5,00 da manhã. Sentia-se bem-disposto e estava ansioso para regressar a Guarapari. Uma série de compromissos com seus pacientes do Radium Hotel, agendados para o dia anterior, foram transferidos devido ao adiamento da conferência, provocado pelo temporal.</p>
<p>Gabino Ramos havia se prontificado a ligar para o posto telefônico de Guarapari a fim de que fossem comunicados, no Radium Hotel, os motivos do atraso do médico. Inaugurado há pouco tempo, o hotel ainda não tinha telefone, até porque o serviço de telefonia era raro para o interior do Espírito Santo. De Vitória para Guarapari, era feito por meio de posto telefônico. Silva Pontes, porém, não chegou a saber o resultado da providência de Gabino.</p>
<p>No restaurante do Sagres, o médico fez um desjejum frugal e leu um artigo de A Gazeta, que elogiava a sua conferência, assinado pelo jornalista Mesquita Neto.</p>
<p>Quando Gabino parou a perua ao lado dos Correios, Pontes já o aguardava na porta do hotel, de maleta na mão. Foi o tempo de embarcar e seguir viagem.</p>
<p>Depois de passarem as Cinco Pontes, na saída de Vitória, o médico puxou conversa.</p>
<p>&#8220;Você realmente tem razão. O Paulo Veloso é um sujeito admirável.&#8221;</p>
<p>&#8220;E o senhor só teve uma amostrinha&#8230;&#8221; concordou Gabino.</p>
<p>&#8220;Mas deu para ver&#8230; Você sabe o que ele me confessou, quando nos despedimos ontem?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não faço a menor ideia&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes relatou então os fatos conforme os ouvira do próprio Paulo Veloso na véspera. Quando Zaig convidou Paulo para conhecer o visitante, Paulo quis saber como é que ele era. Então Zaig descreveu o amigo médico como uma pessoa inteligente e agradável, entendido em areia monazítica e no seu emprego na cura de algumas enfermidades.</p>
<p>&#8220;O Pontes está divulgando Guarapari como ninguém,&#8221; concluiu Zaig, sabendo o quanto Paulo valorizava o balneário, onde seu irmão tinha casa, na praia das Castanheiras.</p>
<p>&#8220;Ele gosta de pinga?&#8221; quis saber Veloso.</p>
<p>&#8220;Creio que sim, pois Pontes aprecia as boas coisas da vida,&#8221; respondeu Zaig.</p>
<p>&#8220;Então quero conhecê-lo,&#8221; disse Paulo.</p>
<p>&#8220;Mas tem uma coisa,&#8221; preveniu Zaig, preparando o espírito de Veloso.</p>
<p>&#8220;O que é?&#8221;</p>
<p>&#8220;Pontes usa pincenê e pinta os cabelos de caju. Cabelos e costeletas.&#8221;</p>
<p>&#8220;Não vai me dizer que seu amigo é fruta?&#8221; ironizou Paulo.</p>
<p>&#8220;Absolutamente. É só para você não aprontar alguma das suas pilhérias com a cabeleira e o pincenê do meu amigo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Se é um pincenê à Eça de Queirós, já está perdoado,&#8221; disse Veloso, grande admirador do escritor português. &#8220;Quanto ao cabelo acajuado, vou formar juízo depois de conhecê-lo pessoalmente.&#8221;</p>
<p>&#8220;Sim, e aí?&#8221; perguntou Gabino.</p>
<p>&#8220;Bem, aí, seu Gabino, o Paulo me disse que quando me viu pela primeira vez, no restaurante do Sagres, ficou de pé atrás com a cor da minha cabeleira. Mas logo depois eu o conquistei completamente quando elogiei sua receita de caju-amigo.&#8221;</p>
<p>&#8220;Este é bem o Dr. Paulo&#8230;&#8221;, comentou Gabino.</p>
<p>&#8220;Mas tem mais&#8230;&#8221;, prosseguiu Silva Pontes. &#8220;Com aquele jeito brincalhão de abraçar as pessoas sorrindo e armando o bote para uma galhofa, ele me disse, ao nos despedirmos: &#8216;Vou lhe confessar um segredo, Pontes, que o Zaig já sabe: Gostei tanto de você que já o apelidei de &#8230; caju-amigo!'&#8221;</p>
<p>Sem poder conter a gargalhada, Gabino teve de parar a perua para não bater numa ribanceira da estrada.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>13</b></div>
<p>Por nada do mundo Silva Pontes quis que Gabino atravessasse a ponte sobre o canal de Guarapari. &#8220;Me deixe em Muquiçaba. Quero fazer a travessia de bote. Ainda tem uns catraieiros que insistem em ganhar a vida atravessando uns poucos passageiros. Quero ser um deles.&#8221;</p>
<p>Depois de se despedir de Gabino, o médico embarcou no bote &#8220;Guarapari&#8221;, o único ali disponível, e passou para o outro lado do Canal. Durante a travessia, deu razão ao barqueiro que protestava contra a construção da ponte, aconselhando-lhe paciência.</p>
<p>&#8220;Paciência, doutor, na minha idade? Vou fazer setenta anos e só sei remar. Fui balseiro no tempo da balsa antiga, aquela que se apoiava em canoas, não a que está ali encostada em Muquiçaba. Sofri para economizar um dinheirinho e poder comprar este bote. Agora, com a construção da ponte, como vou viver? Mal sei ler e escrever&#8230; Foi por isso que votei em Chiquinho, pra governador.&#8221;</p>
<p>Silva Pontes, ainda condoído da sorte do barqueiro, desembarcou no cais de Guarapari e seguiu a pé até a praia das Castanheiras. Queria caminhar um pouco pela orla do mar, como gostava de fazer todas as manhãs. Contemplando a beleza da paisagem, lembrou-se das palavras do barqueiro. E numa associação de idéias, recordou-se também dos versos do boi Jaraguá, que tantas vezes ouvira cantar na cidade:</p>
<p>Guarapari tem um boi que sabe ler,<br />
balança o rabo mas não sabe escrever&#8230;</p>
<p>Falou então para os botões do paletó do terno branco: &#8220;Irremediavelmente, Guarapari está mudando.&#8221;</p>
<p>Quando finalmente chegou ao Radium Hotel, o recepcionista veio lhe comunicar, todo afobadinho:</p>
<p>&#8220;O senhor já soube, doutor, que a hóspede do 301 bateu as botas?&#8221;</p>
<p>&#8220;Dona Marinalva Cunha?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ela mesma. Passou desta para melhor. Morreu ontem e foi enterrada ontem mesmo.&#8221;</p>
<p>&#8220;E já se sabe do que ela morreu?&#8221; perguntou Silva Pontes.</p>
<p>Dando-se uma familiaridade que o médico achava insuportável, o recepcionista respondeu:</p>
<p>&#8220;Vou contar no seu ouvidinho, doutor. Mas não diga a ninguém que fui eu que falei. Primeiro disseram que foi suicídio. Depois, mudaram para um tal de &#8216;colápis&#8217;&#8230; que deu lá no peito dela&#8221;.</p>
<p>Não é possível, pensou o médico. Dona Marinalva, apesar de condenada a uma cadeira de rodas devido a um avançado artritismo nas pernas, era uma mulher bem disposta, em paz com a vida, de coração forte e saudável. A imagem dela, empurrada na cadeira de rodas pelo enfermeiro do hotel, disputando no cassino um lugar junto às roletas, veio à lembrança de Pontes. Além disso, dias antes ele a examinara cuidadosamente, tirara sua pressão, e não percebera qualquer anormalidade sintomática em seu estado de saúde. Não que tivesse experiência bastante para saber que não há bom diagnóstico que barre as surpresas da Morte. Mas sempre fora muito vaidoso da sua acuidade clínica, nos exames que fazia. Qualquer sinal de alteração cardíaca, em sua paciente, não lhe passaria despercebida.</p>
<p>&#8220;Onde ela estava, quando morreu?&#8221;, tornou a perguntar.</p>
<p>&#8220;No jardim do hotel, perto das azaleias. O corpo ficou caído no chão, e a cadeira de rodas, virada.&#8221;</p>
<p>&#8220;Ela apresentava algum hematoma?&#8221;</p>
<p>&#8220;Algum o quê&#8230;?&#8221;</p>
<p>&#8220;Algum ferimento, um machucado na cabeça, um galo na testa, uma &#8216;roncha&#8217; no rosto?&#8221; indagou Silva Pontes, pouco faltando para chamar o recepcionista de papalvo.</p>
<p>&#8220;Que eu saiba, não, doutor. Ninguém falou em machucado. Mas quem achou ela primeiro foi Dona Maria Silveira, a cozinheira-chefe. Foi bem cedinho, quando Dona Maria chegou pra trabalhar. O corpo estava estendido entre as azaleias. Ela acordou o hotel todo, com seus gritos. Chamou até pelo senhor, &#8216;Acuda, doutor Silva Pontes, acuda!&#8217; porque tinha esquecido que o senhor estava em Vitória.&#8221;</p>
<p>&#8220;E depois?&#8221;, quis saber o médico.</p>
<p>&#8220;Depois, doutor, veio o delegado, que nomeou dois peritos para dar parecer sobre a causa da morte, e mandou chamar o sobrinho de Dona Marinalva, aquele que diz que é parente de barão&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;O Rodrigo Vilela da Cunha?&#8221;</p>
<p>&#8220;Este mesmo&#8221;.</p>
<p>Rodrigo Vilela da Cunha, sabia o médico, dizia-se filho de uma irmã da falecida, que morava em Belo Horizonte. Tinha se hospedado no Radium Hotel há uma semana, em visita a tia, sob o pretexto de tratar de negócios imobiliários.</p>
<p>&#8220;Mas você não disse que todos os hóspedes do hotel acordaram com os gritos de Dona Maria Silveira? Seu Rodrigo não veio ver o que estava acontecendo?&#8221;</p>
<p>&#8220;Seu Rodrigo não dormiu no hotel, doutor&#8230;&#8221;</p>
<p>&#8220;Onde ele dormiu então?&#8221;</p>
<p>&#8220;Ah, isso eu não sei, nem quero saber&#8230; Só sei que quando ele chegou, e deu com o corpo de Dona Marinalva já coberto pelo lençol, nem quis espiar se era mesmo a tia dele. Podia ser eu, Deus que me livre, podia ser o senhor, Deus que o livre também, que ele ia acreditar. O pior é que até já fechou a conta no hotel, e foi s&#8217;embora&#8230;&#8221;</p>
<p>Silva Pontes ficou pensativo, depois voltou à carga: &#8220;Quais foram o peritos nomeados pelo delegado?&#8221;</p>
<p>&#8220;O sacristão e o padre Manezinho&#8230;&#8221; disse o recepcionista com um risinho debochado, escondido na palma da mão.</p>
<p>&#8220;Um padre e um sacristão?&#8221; estranhou Silva Pontes.</p>
<p>&#8220;O delegado disse que ninguém entende tanto de morto como um médico, um sacristão e um padre&#8230;&#8221; respondeu o informante, observando o esculápio de esguelha.</p>
<p>&#8220;Tem alguma coisa a mais que você não está querendo me contar?&#8221; perguntou Silva Pontes, desconfiado.</p>
<p>&#8220;Eu, hein, bebé! Minha alma é limpa como a de um anjo.&#8221;</p>
<p>Positivamente o médico não gostava daquele querubim. Sem esconder a irritação, disse:</p>
<p>&#8220;Então está bem. Seu nome é Euzébio, não é?&#8221;</p>
<p>&#8220;Em carne e osso, mas pode me chamar de Zezinho&#8221;.</p>
<p>&#8220;Vou chamá-lo de Euzébio mesmo,&#8221; cortou Silva Pontes. &#8220;Se você se lembrar de mais alguma coisa&#8230; Euzébio, ainda que julgue sem importância, venha me dizer.&#8221; &#8220;Pode contar comigo, doutor&#8221;, falou o recepcionista, satisfeito com a confiança que estava merecendo.</p>
<p>Silva Pontes desistiu de subir ao seu apartamento, no segundo andar, e dirigiu-se para um pequeno cômodo, ao lado da recepção, que tinha sido cedido pela direção do hotel para atender a seus pacientes. Estava de cenho carregado, quando entrou no consultório improvisado.</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>14</b></div>
<p>Geralmente ele não atendia mais de quatro pacientes por dia. Naquela manhã, porém, abriu uma exceção para receber a professora Sílvia Miranda, a quinta pessoa que o procurou para consulta. Sendo vizinha de quarto de Dona Marinalva Cunha, imaginou Silva Pontes que talvez pudesse sondar a paciente e colher dela alguma informação sobre a falecida.</p>
<p>Sílvia Miranda entrou fingindo um desembaraço que o médico viu logo que era falso. Vestia uma saída de banho estampada, por cima do maiô azul escuro, as pontas se fechando em nó, abaixo dos seios. &#8220;Será um nó górdio, à espera de uma espada para rompê-lo?&#8221; perguntou-se Silva Pontes. O tipo <i>mignon </i>da professora provocava nos homens o sentimento de proteção que o macho se sente inclinado a dedicar às fêmeas aparentemente frágeis, e ante aquele nozinho distraído, Silva Pontes teve ímpetos de Alexandre, o Grande.</p>
<p>&#8220;Bom dia, doutor&#8221;.</p>
<p>&#8220;Bom dia, Dona Sílvia, melhorou das dores no pulso?&#8221;</p>
<p>&#8220;Melhorei passando areia preta, como o senhor mandou&#8221;.</p>
<p>&#8220;É um bom sinal. Não pare. Este é o pulso que a senhorita movimenta quando escreve no quadro-negro. São os ossos do ofício. A senhorita dá aula todo dia, escreve no quadro e os nervos do pulso e dos dedos ficam tensos e inflamam. É uma forma de neurite que pode se tornar aguda e dolorosa, se não for tratada a tempo. Um dia, creio que haverá na medicina um campo especializado para o tratamento das doenças do trabalho.&#8221;</p>
<p>&#8220;Até lá eu vou estar bem velhinha&#8230;,&#8221; disse a professora, com um cínico divertimento cravado nos olhos.</p>
<p>&#8220;Não seja pessimista. A Medicina faz avanços surpreendentes. Às vezes, chegam a ser assustadores, para quem não os acompanha de perto. Mas o importante é que se possa combater as dores e adiar a Morte&#8221;.</p>
<p>Enquanto o médico falava, Sílvia Miranda foi empalidecendo e, de repente, cobrindo a face com as mãos, começou a chorar convulsivamente.</p>
<p>Silva Pontes levantou-se da sua cadeira, por detrás de uma mesinha simples e estreita, de estudante, e aproximou-se da paciente para oferecer-lhe o lenço, que tirou do bolso do paletó.</p>
<p>&#8220;Enxugue as lágrimas, professora, e diga-me o que está acontecendo.&#8221;</p>
<p>Ela controlou a crise de choro e, ainda com o lenço umedecido na mão, disse:</p>
<p>&#8220;Desculpe-me, doutor, mas estou muito nervosa com o que aconteceu com Dona Marinalva. E quando o senhor falou em doença e morte, não pude resistir. Eu era vizinha dela, nossos quartos eram separados por uma porta, e a considerava minha amiga. Foi um choque quando vi seu corpo estendido no jardim. Bem que notei um silêncio incomum no seu quarto, durante aquela noite.&#8221;</p>
<p>&#8220;Eu compreendo, minha filha&#8221;, acumpliciou-se Silva Pontes com a moça, retornando à sua cadeira, com o lenço ensopado, que Sílvia lhe devolvera.</p>
<p>&#8220;Na verdade, doutor, hoje eu queria que o senhor me receitasse um calmante&#8221;.</p>
<p>&#8220;Isso não é problema,&#8221; disse Silva Pontes preparando sua Parker 51 para passar a receita. &#8220;Mas, talvez, melhor do que um calmante, tenha sido a crise de desabafo que a senhorita teve. Agora me diga: quais as verdadeiras causas de tanta angústia?&#8221;</p>
<p>Sílvia ajeitou-se na cadeira, meio desconcertada, e confessou:</p>
<p>&#8220;Infelizmente, existem outras razões&#8230; Eu acreditei num canalha que me causou um grande mal&#8230;&#8221;</p>
<p>Num toque de inspiração, Silva Pontes perguntou:</p>
<p>&#8220;Por acaso a senhorita está se referindo a Rodrigo Vilela da Cunha?&#8221;</p>
<p>Os lábios da professora voltaram a tremer, e o médico preparou-se para outra catadupa de choro. Mas antes que isso acontecesse, a porta do seu improvisado consultório foi aberta abruptamente e Euzébio irrompeu apavorado: &#8220;Acuda, Dr. Silva Pontes, acuda! O hóspede do 101 está morrendo. Acho que foi envenenado!&#8221;</p>
<p></p>
<div style="text-align: center;">
<b>15</b></div>
<p>Mais tarde, enquanto tirava a sesta na varanda do Radium Hotel, acomodado numa espreguiçadeira com forro de lona e com a cabeça recostada numa almofada com franjinhas rendadas, Silva Pontes teve um sobressalto. Do fundo de sua consciência, que boiava entre a vigília leve e o sono pesado, bateu-lhe a percepção de que, em menos de uma hora, na manhã daquele dia, ouvira duas vezes a frase &#8220;Acuda, Dr. Silva Pontes, acuda!&#8221;</p>
<p>Despertou sob o efeito do <i>insight </i>e caiu em outro tipo de transe, a que denominava especulações de sua razão clínica e investigativa. Inquiria-se, intrigado: &#8220;O que eu estou querendo dizer para mim mesmo?&#8221;</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>Nota preliminar ao livro Ingleses na costa, de Edward Wilberforce</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 15:18:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Edward Wilberforce]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pelo menos dois marinheiros ingleses, documentadamente, navegaram, em diferentes épocas, o litoral do Espírito Santo, deixando registros de viagem. O primeiro foi Anthony Knivet, grumete na expedição que o célebre corsário Thomas Cavendish empreendeu ao Brasil no começo da última década do século XVI; o outro, o aspirante a oficial de marinha Edward Wilberforce, integrante [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Pelo menos dois marinheiros ingleses, documentadamente, navegaram, em diferentes épocas, o litoral do Espírito Santo, deixando registros de viagem. O primeiro foi Anthony Knivet, grumete na expedição que o célebre corsário Thomas Cavendish empreendeu ao Brasil no começo da última década do século XVI; o outro, o aspirante a oficial de marinha Edward Wilberforce, integrante da oficialidade da corveta de guerra&nbsp;<i>Geyser</i>&nbsp;que esteve no Espírito Santo na primavera de 1851 sob o comando do capitão de fragata Edward Tatham, em missão repressiva ao contrabando de africanos.</p>
<p>Distanciados entre si cerca de dois séculos e meio, súditos, respectivamente, das notáveis rainhas Elizabeth II e Vitória, da Inglaterra, Knivet e Wilberforce deixaram-se tomar por idêntico impulso narrativo pondo no papel as principais impressões que colheram de suas passagens pelo litoral brasileiro. Contribuíram, desta forma, para que seus apontamentos e registros se tornassem documentos de valor para a historiografia como fontes de informação de nossa história.</p>
<p>No relato de Knivet, que cobre a navegação de corso que Cavendish empreendeu, em 1591, nos mares da costa sul brasileira, a parte relativa ao Espírito Santo é bastante sucinta. Nela o marujo limita-se a narrar, como testemunha participante, a frustrada tentativa de saque ensaiada pelos ingleses contra a vila de Vitória. Seu depoimento foi editado sob o título &#8220;Vária fortuna e estranhos fados&#8221; pela Editora Brasiliense Limitada (São Paulo, 1947) em versão do original inglês feita por Guiomar de Carvalho Franco, da qual se transcreve o trecho que trata da investida contra Vitória:</p>
<p>&#8220;No nosso navio havia um português que recolhêramos da embarcação apreendida, em Cabo Frio; este português, que fora conosco ao estreito de Magalhães, e aí testemunhara a nossa falência, falou-nos duma vila chamada Espírito Santo, dizendo-nos que poderíamos chegar à frente da mesma com os nossos navios, e aí, sem perigo, lograríamos tomar muitos engenhos de açúcar e boa quantidade de gado.</p>
<p>As palavras deste português fizeram-nos renunciar ao projeto de ida a São Sebastião, tomando o rumo do Espírito Santo; em oito dias chegamos à embocadura do porto, acabando por lançar âncora na baía e mandar nossos botes sondar o canal; não encontrando estes nem a metade da profundidade que o português nos dissera que encontraríamos, supôs o general que o luso nos havia traído e, sem nenhuma comprovação, fê-lo enforcar de imediato. Neste local, todos os fidalgos que restavam a bordo manifestaram desejo de ir à terra tomar a povoação. O general não o queria de modo nenhum, objetando-lhes diversos inconvenientes; nenhum argumento porém os convenceu, e foram os moços tão insistentes que o general, escolhendo cento e vinte homens dentre os melhores que possuía em ambos os navios, enviou ao capitão Morgan, praça de terra singularmente boa, e ao tenente Royden, como comandantes neste empreendimento. Desembarcaram, pois, diante dum pequeno forte, com um dos seus botes e dele expulsaram os portugueses; o outro bote seguiu mais além, onde houve uma escaramuça muito violenta, e a vida desses moços depressa se abreviou, pois apearam num rochedo fronteiro ao forte e à medida que saltavam fora do bote, escorregavam com suas armas para dentro do mar; assim a grande maioria deles pereceu afogada. Em conclusão, perdemos oitenta homens neste lugar, e dos quarenta que se salvaram, nem um só voltou sem uma flechada em seu corpo, chegando alguns a ter cinco e seis ferimentos.&#8221;</p>
<p>O depoimento de Wilberforce sobre o Espírito Santo é bem mais extenso e informativo do que o de Anthony Knivet. o marinheiro vitoriano levou, sobre seu compatriota e antecessor, a vantagem de contacto mais demorado com a costa capixaba ao sul de Vitória, tanto com o litoral em si, por onde navegou em patrulhamento vigilante, quanto com algumas localidades que conheceu, inclusive a própria sede da então Província. Aliás, é a partir da cidade de Vitória que Wilberforce começa seus informes sobre o Espírito Santo.</p>
<p>Fica-se sabendo, assim, que os ingleses tiveram oportunidade de visitar a cidade, acanhada e sem conforto, renitentemente colonial embora aprazível em suas condições naturais. Aproveitando folgas e criando momentos de lazer, a oficialidade da&nbsp;<i>Geyser&nbsp;</i>percorreu os arredores de Vitória, enfiou-se por florestas e rios cujos nomes Wilberforce não registrou, enfrentou chuvas torrenciais, adquiriu peças de rendas e redes de dormir, viu como se fabricavam as redes de algodão cru. No palácio do governo os oficiais britânicos foram recebidos pelo presidente da Província, o bacharel José Bonifácio Nascente de Azambuja.</p>
<p>Impedido, por motivo de saúde e por proibição médica, de ir ao Convento da Penha, dele Wilberforce recebeu singela descrição feita por seus companheiros de bordo que não convenceu ao cronista, tendo-a atribuído ao espírito herético dos informantes.</p>
<p>Vê-se, por aí, que o escritor marinheiro entremeia informações de sua observação pessoal com outras, resultantes do testemunho de terceiros, chegando até a transcrever notícia de jornal brasileiro, cujo nome não cita, sobre a recepção que houve a bordo da&nbsp;<i>Geyser&nbsp;</i>reunindo personalidades da Província e que terminou sob o clarão de rojões.</p>
<p>Junto com os registros sobre a terra e seus habitantes, seus costumes e produção, Wilberforce, dando mostra de sua formação de oficial de marinha, anota referências, com valor de orientação náutica, sobre localidades do litoral espírito-santense para uso dos navegantes da época nas quais as indicações utilizadas são prosaicos identificadores da costa.</p>
<p>Olhos postos nos escravos contrabandeados, a eles faz diversas menções inclusive acerca dos locais em que se davam desembarques clandestinos, como em Guarapari e Piúma, por exemplo.</p>
<p>Como convinha a observador crítico dotado ainda de pendores literários, Wilberforce incluiu em sua narrativa pitadas de ironia e humor bem mais interessantes do que os extravasamentos líricos a que dá vazão ante a beleza natural da baía de Vitória que ele verteu em marolas poéticas de discutível qualidade literária.</p>
<p>Depois do regresso à Inglaterra, o texto de Wilberforce foi editado pela primeira vez, em Londres, em 1856, sob o título Brazil viewed through a naval glass with notes on slavery and the slavetrade (Brasil visto através de uma luneta com notas sobre escravidão e tráfico de escravos). A esta edição fez referência o escritor Norbertino Bahiense na obra O Convento da Penha (Vitória, Escola Técnica de Vitória, 1952), reportando-se ao ensaio crítico publicado por Afonso de E. Taunay no Jornal do Comércio, de 26 de agosto de 1945, denominado &#8220;Impressões de Vitória e seus arredores&#8221;.</p>
<p>Impressões do Espírito Santo de 1851 foi bem o que captou Wilberforce através de sua esquadrinhadora luneta de oficial de marinha, e que se contêm nos capítulos XV e XVI do texto original, ora publicados em separata, visando-se a colocar ao alcance do público interessado mais um relato de um viajante estrangeiro que esteve em terras e mares capixabas no século XIX.</p>
<p>
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/ingleses-na-costa-impressoes-de-um/" target="_blank" rel="noopener">Ingleses na costa Ingleses na costa – Impressões de um aspirante de marinha sobre o Espírito Santo em 1851</a></b></p>
<p>
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 1989&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><br /></b><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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			</item>
		<item>
		<title>Luiz Guilherme Santos Neves &#8211; Referências</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-referencias/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 Jan 2016 20:48:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Espírito Santo]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Referências]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A obra do escritor Luiz Guilherme Santos Neves foi estudada por vários autores, entre os quais: 1 – MARIA THEREZA COELHO CEOTTO História, carnavalização e neobarroco:&#160;Leitura do romance contemporâneo produzido no Espírito Santo. CEG Publicações/Editora da Ufes, 1999. Texto da orelha, pelo Prof. Dr. Francisco Aurelio Ribeiro Este livro da Profa. Maria Thereza Lindenberg Coelho [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A obra do escritor Luiz Guilherme Santos Neves foi estudada por vários autores, entre os quais:</p>
<p>
1 – MARIA THEREZA COELHO CEOTTO</p>
<p><i>História, carnavalização e neobarroco:&nbsp;</i><i>Leitura do romance contemporâneo produzido no Espírito Santo.</i> CEG Publicações/Editora da Ufes, 1999.</p>
<p>Texto da orelha, pelo Prof. Dr. Francisco Aurelio Ribeiro</p>
<p>Este livro da Profa. Maria Thereza Lindenberg Coelho Ceotto originou-se de sua dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras, em dezembro de 1997, intitulada <i>História, carnavalização e neobarroco: leitura do romance contemporâneo produzido no Espírito Santo</i>.</p>
<p>Por várias razões, este livro ficará registrado na historiografia literária feita no Espírito Santo: em primeiro lugar, por ter sido a primeira dissertação defendida no PPGL, da Ufes; em segundo, por enfocar a Literatura do Espírito Santo e sua inserção no contexto nacional e internacional, uma de nossas linhas de pesquisa; em terceiro, por ter sido escrito por uma das mais brilhantes professoras que atuaram no Departamento de Línguas e Letras da Ufes, ensinando Literatura Brasileira, por mais de 30 anos.</p>
<p>Neste trabalho, a Prof. Maria Thereza dá um &#8220;banho&#8221; de erudição, de adequação formal da linguagem, de correção no tratamento do tema, de capacidade de síntese e de associação de obras, autores, temas sob um enfoque teórico atualizado e pertinente.</p>
<p>No primeiro capítulo, discute &#8220;os caminhos da história e da ficção&#8221;, buscando analisar esse percurso sob a luz do enfoque contemporâneo da &#8220;Nova História&#8221; e das correntes filosófico-literárias do pós-estruturalismo; no segundo, analisa os romances <i>As chamas na missa</i>, de Luiz Guilherme Santos Neves, <i>A panelinha de breu</i>, de Bernadette Lyra, e <i>Albergue dos querubins</i>, de Adilson Vilaça, sob a perspectiva bakhtiniana da teoria da carnavalização; no terceiro, retoma o conceito de neobarroco, de Omar Calabrese e Severo Sarduy, para situar os romances escolhidos para análise e contrapô-los ao tempo histórico da contemporaneidade.</p>
<p>Como orientador que fui da dissertação, sou suspeitíssimo para falar do texto da Profa. Maria Thereza, mas tenho certeza de que todos os amantes da Literatura, da Teoria Literária e do Espírito Santo ficarão tão orgulhosos como eu de ver este trabalho virar livro e ficar à disposição de muitos mais leitores.</p>
<p>Parabéns à Edufes por estar publicando este livro; à Maria Thereza por tê-lo escrito; ao PPGL, por estar produzindo trabalho de tal nível e a você, prezado leitor, pelo prazer que certamente irá ter ao lê-lo.</p>
<p>E <i>la nave va</i>.</p>
<p>Vitória, primavera chuvosa de 1999, às portas do terceiro milênio.<br />
Prof. Dr. Francisco Aurelio Ribeiro<br />
Presidente da Academia Espírito-santense de Letras.</p>
<p>
SUMÁRIO DA OBRA</p>
<p>Introdução<br />
1 Os caminhos da história e da ficção<br />
2 A carnavalização da história<br />
2.1 O Tribunal do Santo Ofício como metáfora da repressão<br />
2.1.1 As chamas na missa, o romance do medo e do riso<br />
2.1.2 A caravela Santa Catarina: a História possível<br />
2.1.3 As invasões francesas: a face cômica da História<br />
2.1.4 O riso do narrador<br />
2.2 Maria Ortiz e a desmitificação da mulher<br />
2.3 A formação do Espírito Santo em Albergue dos querubins<br />
3 Do barroco ao neobarroco<br />
3.1 O diálogo dos tempos<br />
3.1.1 O neobarroco<br />
3.2 Uma estrutura barroca/neobarroca<br />
3.2.1 A polifonia neobarroca de As chamas na missa<br />
3.2.2 Labirinto e metamorfose em A panelinha de breu<br />
3.2.3 Repetição e fragmento<br />
3.2.4 A panelinha de breu, um mosaico de citações<br />
3.2.5 As engrenagens do tempo em Albergue dos querubins<br />
Conclusão: Atando fios, desatando nós<br />
Referências bibliográficas</p>
<p>
2 – FRANCISCO AURELIO RIBEIRO</p>
<p>Literatura: uma releitura da história (Análise de A nau decapitada, romance de Luiz Guilherme Santos Neves). In <i>Estudos críticos de literatura capixaba</i>, Vitória, 1990.</p>
<p>
3 – ADRIANNA M. MENEGUELLI</p>
<p>Rapunzel pós-moderna. In <i>Você,&nbsp;</i>n. 12, junho de 1993. SPDC/Ufes.</p>
<p>
4 – DENEVAL SIQUEIRA DE AZEVEDO FILHO</p>
<p>A nau e o rapto: perversão a bordo. In <i>Desarraigados. Ensaios</i>. SPDC/Ufes, 1995.</p>
<p>
5 – MIGUEL DEPES TALLON</p>
<p>O intertexto em Torre do delírio. In <i>Cadernos de Pesquisa</i>. Ano I, n. 1, agosto de 1997. Mestrado em Letras, Departamento de Línguas e Letras, Universidade Federal do Espírito Santo.</p>
<p>
6 – ESTER ABREU VIEIRA DE OLIVEIRA</p>
<p>Luiz Guilherme, trilhando os caminhos de Rubén Darío e Borges. In <i>Cadernos de Pesquisa</i>. Ano I, n. 2, julho de 1998. Mestrado em Letras, Departamento de Línguas e Letras, Universidade Federal do Espírito Santo.</p>
<p>
7 – MARIA THEREZA COELHO CEOTTO</p>
<p>As chamas na missa: a história possível. In <i>Cadernos de Pesquisa</i>. Ano I, n. 2, julho de 1998. Mestrado em Letras, Departamento de Línguas e Letras, Universidade Federal do Espírito Santo.</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves </b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Luiz%20Guilherme%20Santos%20Neves" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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