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	<title>Arquivos Pesca artesanal &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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		<title>A pesca do siri patola</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:17:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[Jair Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Prainha. Autor: Jair Santos, 2004. Na verdade patola é um apelido dado ao siri. Foi assim chamado pelos antigos homens do litoral capixaba que habitavam nas vilas de pescadores. Podemos dizer que este cognome lhe cai como luva porque patola quer dizer maluco, pateta. Vejamos a explicação. Siri é um crustáceo que vive no fundo [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-VIfypAG0-9A/WIEDkdQclnI/AAAAAAAALQk/hlkmqH4NQAkdBiZDzGBKwTBWzmR9oYVYQCLcB/s1600/prainha.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Prainha. Autor: Jair Santos, 2004." border="0" height="187" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/prainha.gif" class="wp-image-5863" title="Prainha. Autor: Jair Santos, 2004." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Prainha. Autor: Jair Santos, 2004.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Na verdade patola é um apelido dado ao siri. Foi assim chamado pelos antigos homens do litoral capixaba que habitavam nas vilas de pescadores. Podemos dizer que este cognome lhe cai como luva porque patola quer dizer maluco, pateta. Vejamos a explicação.</p>
<p>Siri é um crustáceo que vive no fundo dos braços de mar, um decápode, isto é, que tem vários pés dos quais o último par, os menores, se constituem nas nadadeiras que lhe possibilitam rapidíssima mudança de direção em todos os sentidos no meio da massa líquida. O primeiro par de membros da frente são dotados de temíveis tenazes que lembram o instrumento, com cabos longos, apropriados para segurar o ferro em brasa a malhar na bigorna. No animal servem para a defesa e para levar, delicadamente, os alimentos à boca, por menores e delicados que sejam. Diante da delicadeza dos movimentos que possibilitam levar o ínfimo alimento à boca e da brusca e terrível garra, mais fortes que aquelas dos caranguejos, o humilde pescador apelidou-o de patola ou pateta.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Narrativa sobre a pesca desse crustáceo</b></p>
<p>— Isabé&#8230; ô Isabé.</p>
<p>Isabel é a mulher de seu Manuel Flores que trabalha de doméstica bem no centro de Vila Velha. Lá de dentro Isabel identificou a voz e foi atender. Sabia que era Adelina, sua colega, que trabalha na casa de dona Olímpia, funcionária da prefeitura, moradora da mesma rua, ali adiante.</p>
<p>Para atender ao chamado, Isabel chegou na janela.</p>
<p>— Ei Adelina, bom dia! Cumu vai?</p>
<p>— Óia Isabé, cumadi Arzira mandô falá pro seu marido qui vai matá duas galinha manhã di manhã. Pra ele vim buscá as tripa, oviu?</p>
<p>Manuel Flores morava em Vila Velha desde 1906, quando ali chegou, muito pequeno, filho de um casal de pescadores do longínquo povoado de Ponta da Fruta. Na vila, trabalhou de tudo enquanto pôde. Vendeu lenha para fogão, peixe, caranguejo, sururu, ostra, fez capina para a prefeitura, vendeu esterco para jardim das casas, consertou goteiras, podou árvores enormes, arranjava barro, areia, fez muita cerca de arame farpado e de ripa, enfim, mexeu com mil coisas. Ficou conhecido de todo mundo do lugar porque era o dia todo ocupado. Pediam de tudo para ele e a todos dizia: &#8220;Sim senhora, pois não. Pra hoje? Podi dexá que eu resorvo&#8221;.</p>
<p>Por ter sido assim, bom de trabalho, construiu sua cazinha ali perto de Itapuã, num lote que comprou, bem baratinho. O homem era danado, sem medir sacrifício construiu casa própria coberta de telhas e com uma varanda na frente. Casa bonitinha e muito melhor que a de muita gente da região. Sim senhor, uma casa que já nasceu com um jambeiro ao lado.</p>
<p>Logo depois, em 1926, casou com uma mocinha de nome Isabel, que hoje trabalha como doméstica no centro da vila, perto da ponte Nova. Professora Alzira é uma boa patroa e Isabel uma ótima ajudante, por isto, em 1930, a primeira filha de Isabel foi batizada pela professora. A partir daí as duas passaram a usar o tratamento carinhoso de &#8220;comadre&#8221;. Comadre pra lá, comadre pra cá, e assim Isabel foi ficando conhecida como &#8220;comadre&#8221;. A toda pessoa que chegava na em sua casa, a professora a apresentava assim: &#8220;Esta é a comadre&#8221;. Olha comadre, aproveita e traga um cafezinho, viu?</p>
<p>Com o passar dos anos o seu Manuel Flores já andava meio cansado, coisa da idade. O danado tem boa saúde, mas não está aguentando serviço pesado. Por isso tem se dedicado mais à pesca de camarão e siri. Vez por outra cata caranguejo, não mais que meio saco, só para atender alguns velhos fregueses. E tem sido muito bom, porque arranja tudo ali no rio da Costa, sem precisar andar para lugar muito distante. Resolve tudo quase no centro de Vila Velha. E assim vai vivendo até quando Nossa Senhora da Penha permitir. É verdade, sim senhor! Veja como tudo se arranja direitinho pro lado dele. Amanhã, pela manhã, a professora Alzira dar-lhe-á a melhor isca que existe para pescar siri: tripas, cabeça e pés de galinha. Ele sabe que se jogar isca de galinha no rio, ali na ponte Nova, todo siri que estiver lá atrás do morro Batalha, virá correndo. Aqueles da proximidade, nem se fala! Por essa razão sabe que amanhã será dia de encher a lata. E nem vai molhar os pés porque, até doze horas, a maré estará acabando de encher. Assim, só vai poder pescar de <span id="APSP_RP1V">jereré</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#APSP_RP1" title="A Ponte Nova ficava na atual avenida Champagnat, bem na frente da atual loja Mac Donalds. O povo a apelidou de Ponte Nova porque havia, no cruzamento das ruas XV de Novembro com América do Sul, a ruína da Ponte Velha, que tinha como piso, dois pares de vigas de madeira sobre 3 grandes pilares de apoio, usada na travessia a pé. Nada mais que um atalho para quem queria ir do centro da vila para a Praia da Costa. É bom lembrar que não circulava nenhum automóvel nas ruas de Vila Velha."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> de cima da ponte Nova<span id="APSP_RP2V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#APSP_RP2" title="Jereré é termo mais usado em Vila Velha."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> na parte da tarde.</p>
<p>Todo mundo sabe que é improdutiva a pesca do siri quando a maré está cheia, porque ele sempre gostou de freqüentar as águas rasas dos mangais. Na vazante da maré fica sendo o primeiro a comer as novidades que a água vem arrastando na descida, restos de lixo orgânico ou bicho morto, principalmente. Todos dizem que o siri é o urubu do rio ou do mar. Adora comer porcaria, podre então, nem se fala!</p>
<p>Imaginemos que Manuel Flores esteja pescando sentado na beira da ponte.</p>
<p>Esta pesca consiste em colocar o jereré com a isca em repouso no fundo do rio. Feito isto o pescador aguarda com paciência a chegada do comilão, o siri. Através da linha que sustenta na mão o pescador pode perceber quando o crustáceo está puxando ou comendo a comida. Assim sendo, é só começar, lentamente, a subida do jereré ou jererê.</p>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: left; margin-right: 1em; text-align: left;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-QGIs3rED9xI/WIEEZaTxgvI/AAAAAAAALQw/KtJwunF-z8UqDJ-tt1L8NFRHdlb3y4KJQCLcB/s1600/jerere.gif" imageanchor="1" style="clear: left; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Jererê. Autor: Jair Santos, 2004." border="0" height="258" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/jerere.gif" class="wp-image-5864" title="Jererê. Autor: Jair Santos, 2004." width="320" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Jererê. Autor: Jair Santos, 2004.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<div>
</div>
<div>
Esse jereré consta de um pedaço de rede preso a um aro feito de arame grosso e torcido em círculo de 50 centímetros de diâmetro, aproximadamente. Nesse aro estarão atados dois pedaços de arame mais fino, que se cruzam no centro onde será amarrada a isca. Ainda no mesmo aro serão atados três pedaços de fio que fazem o &#8220;cabresto&#8221;, em forma de pirâmide triangular, preso à linha que pende da mão do pescador, ou da vara caso o pescador esteja sobre uma pedra. Veja o desenho ilustrativo.</div>
<div>
</div>
<table cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="float: right; margin-left: 1em; text-align: right;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-yn96bOWCQmA/WIEErjFbczI/AAAAAAAALQ0/4wqbPcXj9mkXDH4JTiJ3s2jYPbROVVFeACLcB/s1600/pesca_jerere.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; margin-bottom: 1em; margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Pesca com jererê. Autor: Jair Santos, 2004." border="0" height="300" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/pesca_jerere.jpg" class="wp-image-5865" title="Pesca com jererê. Autor: Jair Santos, 2004." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Pesca com jererê. Autor: Jair Santos, 2004.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<div>
</div>
<p><b>Narrativa da pesca do siri com o uso do puçá</b></p>
<p>O puçá é semelhante ao jereré. O apetrecho de pesca é quase o mesmo só que agora, o seu Manuel Flores estará em pé, na beira do rio. Vejamos:</p>
<p>O puçá dispensa o cabresto feito com três pedaços de fio, e o aro de arame grosso termina em um cabo para que possa ser usado diretamente com a mão. O seu uso exige outro equipamento que consta de uma pequena vara que será fincada na margem ou no fundo do rio. O pescador poderá usar quantas varas quiser. À cada vara será atada a linha com a isca na extremidade oposta.</p>
<p>Observação: Na extremidade da linha, junto com a isca, poderá ser amarrado um pequeno peso (pode ser de chumbo, ou até mesmo uma pedra), caso haja correnteza.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-ZEhDd7On0z4/WIENhE9h_mI/AAAAAAAALRE/E3tTvG--8q4qixsT8hKxNl5Qw9gGyX8YgCLcB/s1600/puca.gif" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="239" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/puca.gif" class="wp-image-5866" width="320" /></a></div>
<p>Nesta modalidade, mais que na anterior, é primordial o silêncio. É importante também que todo movimento do pescador seja feito em câmara lenta, porque o siri, sem dúvida, de lá do fundo do rio enxerga melhor o pescador do que o pescador ao siri.</p>
<p>Observadas estas questões, a vara será fincada de modo a ficar com a ponta superior fora da água. A pescaria consiste no seguinte:</p>
<p>a) Ficar observando qual a linha que está esticada ou mexendo, sinais de siri na isca.<br />
b) Com passos lentos o pescador, de puçá numa das mãos, vai, vagarosamente, até a linha na cabeça da vara.<br />
c) Lentamente começa puxar a isca para perto de si. Pelo tato, sentirá que o siri resistirá, não deixando que a boa comida lhe escape.<br />
d) Estando ele bem perto, deve ser iniciado o movimento vertical, puxando a isca com o siri para cima, de modo a tirá-lo do fundo. O siri, por ser extremamente guloso, virá junto. Ao mesmo tempo que o pescador puxa a isca, com a outra mão, também cuidadosamente, faz descer o puçá. Observe que a primeira mão está puxando a isca para cima e a segunda mão está descendo com o puçá.<br />
e) Quando a isca com o siri comilão estiverem na altura aproximada do joelho ou da coxa, o puçá deverá estar chegando, lentamente, por baixo do siri. É evidente que o crustáceo está observando tudo e poderia ir dando o fora, não fosse a fome voraz que, neste momento, o faz correr risco de vida. Os mais espertos fogem, mas toda pescaria é um jogo de paciência. Lança-se novamente a isca e, bastam alguns minutos para iniciar a segunda tentativa. Uma coisa é certa, com a carniça adequada, o que ele mais quer é comer tudo. Então, a cada escapada, repete-se o procedimento. Quando o puçá estiver bem próximo, convém dar uma paradinha para que ele coma tranqüilo e perca o medo. Esta &#8220;paradinha&#8221; poderá ser repetida até que ele se acostume.<br />
f) A etapa final consiste no movimento de subida do puçá, o mais rápido que for possível, de modo a arrastar para cima a isca com o siri junto. Para que este movimento seja eficiente, é importante que o cabo do puçá esteja fortemente atado ao aro e o seu punho seja anatomicamente bom, isto é, esteja muito bem ajustado à mão do pescador.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-0BEDrwijXPQ/WIEOGotsFKI/AAAAAAAALRM/PHenNy_WVlwbtmZb8555x-Btcpk5Y0q-wCLcB/s1600/pesca_puca.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Pesca com puçá. Autor: Jair Santos, 2004." border="0" height="292" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/pesca_puca.jpg" class="wp-image-5867" title="Pesca com puçá. Autor: Jair Santos, 2004." width="400" /></a></div>
<p>
<b>Outra modalidade não muito apropriada</b></p>
<p>Lembramos que é possível pescar siri com rede de arrasto ou arrastão, mas na verdade esse equipamento é mais apropriado para a pesca do camarão. Por ser ela de malha estreita e por arrastar no fundo do rio, certamente pegará tudo por onde passar como, por exemplo, algas, muitos peixes pequenos, folhas, lixo e um ou outro siri. Esta modalidade deve ser evitada porque é de conseqüência predatória, principalmente para os peixes e siris pequenos.</p>
<p>
<b>Como transportar o siri pescado</b></p>
<p>1º) <i>Em cestas de mão</i> – Neste caso todos os siris pescados deverão se &#8220;empatados&#8221;. Não sabemos quem inventou este termo, mas podemos explicar. Empatar um siri, consiste em enfiar a ponta da unha de uma das suas pernas na junta de cada puã ou tenaz. Este procedimento o imobiliza completamente. Feito isto resta arrumá-lo na cesta, de ventre para cima.</p>
<p>2º) <i>Em lata de 20 litros</i> – Por se constituir num recipiente fundo, de onde jamais fugirá, não será preciso &#8220;empatá-los&#8221;. Entretanto, para que fique quietinho no fundo da lata, recomenda-se cobri-los com pontas de ramos das árvores do mangue. Este procedimento pode ser adotado também na cata de caranguejos. Todavia, os catadores mais dedicados ao caranguejo, na sua maioria, preferem transportá-los em sacos de estopa que deverá ter a boca torcida de modo a apertar ligeiramente os crustáceos dentro do saco.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
<span style="font-size: 90%;"><br />
NOTAS</span></h4>
<p></p>
<div id="APSP_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#APSP_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;A Ponte Nova ficava na atual avenida Champagnat, bem na frente da atual loja Mac Donalds. O povo a apelidou de Ponte Nova porque havia, no cruzamento das ruas XV de Novembro com América do Sul, a ruína da Ponte Velha, que tinha como piso, dois pares de vigas de madeira sobre 3 grandes pilares de apoio, usada na travessia a pé. Nada mais que um atalho para quem queria ir do centro da vila para a Praia da Costa. É bom lembrar que não circulava nenhum automóvel nas ruas de Vila Velha.</div>
<div id="APSP_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/a-pesca-do-siri-patola/#APSP_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Jereré é termo mais usado em Vila Velha.</div>
<p>[SANTOS, Jair. Falando de Vila Velha.&nbsp;Vila Velha, 2002. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Jair Santos</b>&nbsp;é arquiteto e professor aposentado, natural de Alegre, ES, autor dos livros&nbsp;<i>Vila Velha, onde começou o Estado do Espírito Santo</i>&nbsp;e&nbsp;<i>A igrejinha do Rosário</i>.</p>
<div>
</div>
</blockquote>
<p></p>
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		<title>Registros da Pesca Artesanal em Vila Velha &#8211; Slides</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:03:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Slides produzidos durante a realização do Projeto&#160;Registros da Pesca Artesanal em Vila Velha, Espírito Santo, realizado pela Phoenix Cultura com recursos da Prefeitura de Vila Velha / Lei Vila Velha Cultura e Arte em 2014. Concepção, coordenação, fotografia, tratamento de imagens e entrevistas e preparação de páginas para internet: Maria Clara Medeiros Santos Neves. Praia [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-N87__6amezw/VnGlpxXN0oI/AAAAAAAAAOc/lc8GvSzgCSUxNZtD31fMz0f7pLauDNXWQ/s1600/AM_23.01.2014-4b.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="300" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/AM_23.01.2014-4b.jpg" class="wp-image-5882" width="400" /></a></div>
<p>
Slides produzidos durante a realização do Projeto&nbsp;Registros da Pesca Artesanal em Vila Velha, Espírito Santo, realizado pela Phoenix Cultura com recursos da Prefeitura de Vila Velha / Lei Vila Velha Cultura e Arte em 2014. Concepção, coordenação, fotografia, tratamento de imagens e entrevistas e preparação de páginas para internet: Maria Clara Medeiros Santos Neves.</p>
<h4>
Praia do Ribeiro</h4>
<p><a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaSilvioRobertoScapinEAntonioMarcos#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Sílvio Roberto Scapin e Antônio Marcos</a><br />
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/VistaGeralDaPraiaDoRibeiro#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Vista geral da Praia do Ribeiro</a></p>
<h4>
Praia da Costa</h4>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaAldivoAlvesDeSouza#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Aldivo Alves de Souza</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaArlindoMariani#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Arlindo Mariani</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaEliomarZanetiDosSantos#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Eliomar Zaneti dos Santos</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaEriveltonZanetiDosSantos#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Erivelton Zaneti dos Santos</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaJuraciTartalhaCaliari#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Juraci Tartalha Caliari</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/VistaGeralDaPraiaDaCostaVilaVelhaES#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Vista geral da Praia da Costa</a></p>
</div>
<h4>
Praia de Itapuã</h4>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaAlcenirGrijoDoNascimento#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Alcenir Grijó do Nascimento</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaDamiaoMirandaFerreira#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Damião Miranda Ferreira</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaGessianeCorreaMascarenhas#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Gessiane Corrêa Mascarenhas</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaJoaoDaCruzCardoso#slideshow" target="_blank" rel="noopener">João da Cruz Cardoso</a></div>
<div>
<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaMariaMiranda#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Maria Miranda</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaMarluciaRufinoGuimaraes#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Marlúcia Rufino Guimarães</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaRobsonSantos#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Robson Santos</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/VistaGeralDaPraiaDeItapua#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Vista geral da Praia de Itapuã</a></p>
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Praia de Itaparica</h4>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaAlexandreDavilaDMacedo#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Alexandre Dávila D’Macedo</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaEzenildoDaVitoriaGomes#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Ezenildo da Vitória Gomes</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaLeonardoDeCarvalhoVieira#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Leonardo de Carvalho Vieira</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/VistaGeralDaPraiaDeItaparicaVilaVelhaES02#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Vista geral da Praia de Itaparica</a></p>
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Barra do Jucu</h4>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaFabioFirme#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Fábio Firme</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/RegistrosDaPescaArtesanalEmVilaVelhaMarceloFarichRego#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Marcelo Farich Rego</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/VistaGeralDaBarraDoJucu#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Vista geral da Barra do Jucu</a></p>
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Pesca de Arrastão</h4>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/PescaDeArrastao1#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Praia de Itapuã (1)</a></div>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/PescaDeArrastao2#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Praia de Itapuã (2)</a></p>
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Comercialização de pescados</h4>
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<a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/ComercializacaoDePescados#slideshow" target="_blank" rel="noopener">Praia de Itapuã</a></div>
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		<title>A pesca de espera em Jacaraípe</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 16:01:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Folclore]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Guilherme Santos Neves]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
		<category><![CDATA[Serra]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A &#8220;espera&#8221; é uma forma simples e curiosa de pesca fluvial praticada nas águas do rio Jacaraípe, em Jacaraípe, vila de pescadores localizada no município da Serra, neste Estado. A &#8220;pesca de espera&#8221; consiste em se aguardar, (e daí o seu nome) que o peixe, descendo das cabeceiras do rio, alcance o local da pesca [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
A &#8220;espera&#8221; é uma forma simples e curiosa de pesca fluvial praticada nas águas do rio Jacaraípe, em Jacaraípe, vila de pescadores localizada no município da Serra, neste Estado.</p>
<p>A &#8220;pesca de espera&#8221; consiste em se aguardar, (e daí o seu nome) que o peixe, descendo das cabeceiras do rio, alcance o local da pesca também chamado &#8220;espera&#8221;, onde se encontra armada uma grande rede fixa, estendida de margem a margem no sentido da largura do rio.</p>
<p>A &#8220;rede armada&#8221; fica presa em compridas varas enterrados no fundo do rio. A parte superior, onde se enfileiram as &#8220;bóias&#8221;, toscas rodelas de madeira leve que permitem a flutuação quando se faz preciso, acha-se amarrada nas varas e, por isso, sobressai muito acima da superfície das águas como se fosse uma cortina transparente. Já a parte inferior da rede, conhecida por &#8220;chumbo&#8221; sendo pesada, mergulha dentro d&#8217;água, fazendo o &#8220;seio da rede&#8221;, formação em ventre decorrente da pressão exercida, pela correnteza de encontro às malhas submersas.</p>
<p>Convém referir, a título de esclarecimento, que o lastro usado para efeito de submersão da rede não é propriamente de chumbo, apesar do nome que, diga-se de passagem, se tradicionalizou. Isto porque o chumbo, empregado antigamente como contra peso, está hoje cabalmente substituído por saquinhos de areia em forma de cartuchos, costurados na parte inferior das malhas, a fim de afundarem a rede. Esta substituição recente do chumbo derivou de medida econômica.</p>
<p>Nas proximidades de uma das extremidades da rede armada, levanta-se um posto de observação rusticamente feito de varas e paus, onde tem assento o &#8220;vigia&#8221;, pescador encarregado de anunciar a chegada do peixe junto à rede estendida que lhe corta a passagem.</p>
<p>Quando isto ocorre, o vigia avisa os demais pescadores espalhados na margem. É o momento da ação, longa e pacientemente esperado.</p>
<p>Com a menor brevidade de tempo possível os pescadores, lançando-se à água, cruzam de um lado a outro das margens uma segunda rede que impedirá a fuga do peixe represado. Esta segunda rede, menor do que a primeira e da qual se acha afastada uns cinqüenta metros, é presa, por sua vez, a pequenas varas afincadas no leito do rio.</p>
<p>Encurralado pela frente e por trás, o peixe não tem por onde escapar, ficando prisioneiro dentro da &#8220;espera&#8221;, que se assemelha, desta forma, a uma espécie de tanque improvisado. Isto feito, lançando mão do &#8220;tresmalho&#8221;* rede de arrasto que se puxa lentamente por dentro do rio e que cobre toda a sua largura os pescadores iniciam o &#8220;cerco do peixe&#8221;, a partir da &#8220;rede armada&#8221;.</p>
<p>O trabalho de captura do peixe transcorre dentro d&#8217;água, com o pescador usando ligeiros calções de banho ou, então, completamente despido. Nos pontos de maior profundidade trabalha-se com água até os ombros.</p>
<p>Depois de arrastar o tresmalho por todo o trecho de rio que foi cercado, arrebanhando o peixe existente no fundo das águas, os pescadores se aproximam paulatinamente da segunda rede que fecha a &#8220;espera&#8221;. Ali chegados, levantam o tresmalho pelas &#8220;bolas&#8221; e &#8220;chumbos&#8221;, prendendo os peixes num movimento combinado, instantâneo e vigoroso.</p>
<p>O peixe emaranhado nas malhas é em seguida conduzido para terra onde é depositado no chão.</p>
<p>Não raro, conforme a quantidade trazida na rede, o pescador se fere no esforço de soerguer o peixe do fundo do rio e transportá-lo para a margem.</p>
<p>Muitas vezes, de acordo com a fartura dos peixes, costuma-se &#8220;passar um segundo tresmalho&#8221; ou mesmo repassá-lo depois, se assim se fizer necessário para a pesca completa do cardume encurralado.</p>
<p>Concluídos estes arrastos parciais o produto da pesca é vendido à base de quilo de peixe às pessoas interessadas e, principalmente, aos &#8220;mascates&#8221;revendedores — que farão o seu comércio em outras localidades do Estado.</p>
<p>Os tresmalhos e as redes utilizadas na pesca são lavados e limpos na água do rio e, logo após, estendidos no sol para secar, sobre os &#8220;varais&#8221; armações apropriadas de madeira, existentes na margem. Cumpre frisar, todavia, que a rede maior da &#8220;espera&#8221; não é recolhida como as outras, mas, simplesmente suspensa, das águas. Com, isto, ela se mantém armada, permanentemente, em condições de aproveitamento imediato nas pescas diárias.</p>
<p>E nem, podia ser de outro modo, uma vez que a &#8220;pesca de espera&#8221; caracteriza-se pela diuturnidade, na época, da &#8220;safra&#8221; tempo de peixe que ocorre anualmente dos meses de abril a agosto. Mesmo na &#8220;safra&#8221; a abundância do peixe é porém, irregular, verificando-se mais a miude nos &#8220;contra-tempos&#8221;, isto é, nas mudanças do tempo: vento sul, chuvas, conjunções da lua, etc. É nestas reviravoltas bruscas do tempo que o peixe aparece em largas quantidades &#8220;investindo contra as águas&#8221; das marés cheias, pois são elas que atraem os cardumes do alto do rio. Os pescadores, embora conheçam o, mecanismo do fenômeno, não lhe atinam nem lhe explicam a causa, limitando-se a aproveitá-lo da melhor maneira possível.</p>
<p>A &#8220;pesca de espera&#8221; em Jacaraípe é praticada em dois locais diferentes e distantes entre si: a &#8220;espera de baixo&#8221; situada nas imediações do desaguadouro do rio, próxina à vila de Jacaraípe; e a &#8220;espera, de cima&#8221;, bem, mais ao norte, longe da vila.</p>
<p>Como, evidentemente, a presença do peixe na &#8220;espera de baixo&#8221; depende de livre trânsito na &#8220;espera de cima&#8221;, o rio deve ser franqueado em determinados momentos, conforme estipulações da própria Capitania dos Portos, que rege o assunto. O franqueamento da &#8220;espera de cima&#8221; dando vazão aos cardumes para a &#8220;espera, de baixo&#8221;, é feito durante a noite, das seis horas da tarde, às duas ou três da madrugada, quando, de novo, é fechada. Os peixes que passaram ficam entre um e outro local de, pesca até a ocasião dos &#8220;contra tempos&#8221;, quando serão atraídos pelas marés montantes.</p>
<p>Aparentemente pode-se supor, que a &#8220;espera de cima&#8221; leva vantagem sobre sua congênere, em relação às possibilidades de pesca, pela situação favorável que desfruta no cimo do rio . Tal como nos foi informado, entretanto, isto não acontece, como bem atestam casos de quantiosas pescarias levadas a cabo, com ampla sucesso, na &#8220;espera de baixo&#8221;.</p>
<p>Em ambas as &#8220;esperas&#8221;, por ser muito elevado o número de pescadores partícipes desta técnica de pesca, criam-se &#8220;tripulações&#8221; — vale dizer — grupos de pescadores que trabalham em equipe, dividindo entre si as obrigações e os direitos inerentes e decorrentes das pescarias.</p>
<p>O trabalho das &#8220;tripulações&#8221; — cujo número de componentes é variável escaloneia-se de acordo com o critério &#8220;da vez&#8221;, cada uma atuando num dia. O pescador que integrar determinada &#8220;tripulação&#8221; fica impedido de cooperar numa outra, por auto-iniciativa, mas poderá fazê-lo se para tanto receber solicitação expressa.</p>
<p>Em toda &#8220;tripulação&#8221; existe um &#8220;mestre&#8221; que orienta as tarefas do grupo e cuida dos interesses gerais, como seja a venda do pescado e a partilha do lucro. A figura do &#8220;mestre&#8221;, porém, na modalidade de pesca, não é tão destacada e proeminente como caso do arrastão, por exemplo.</p>
<p>Na &#8220;pesca de espera&#8221; muito importante é a escolha do local onde se apressará o peixe. Escolhido dentro de certas condições deve ser um trecho de rio nem muito raso, nem muito fundo, sobretudo, desprovido de pedras no leito que entravem ou dificultem o arrastamento do &#8220;tresmalho&#8221;. Pouco importa que o lugar não seja dotado de margens firmes em ambas as bordas: uma só bastará para tornar exeqüível a pescaria, como sucede com a &#8220;espera de baixo&#8221;, em Jacaraípe, onde margem esquerda é brejo. Este inconveniente, porém, é remediado pela colocação de uma rede lateral que obsta a saída do peixe por aquele lado.</p>
<p>Como se vê, na luta pela subsistência, o pescador de Jacaraípe não conta apenas com os favores da natureza e do meio em que vive. Mas se vale também dos expedientes e recursos de sua inteligência no preparo da &#8220;espera&#8221; — pequena área fluvial de uns seiscentos metros quadrados — onde desenrola a ação capital de um processo de pesca rudimentar, mas prático e eficiente, pelos resultados compensadores que oferece, com um mínimo relativo de esforço, comparado com o muito de paciência que exige.</p>
<p>Além da paciência, outro requisito imprescindível ao pescador de espera é o silêncio. Não o silêncio absoluto que chegue às raias do mutismo, mas tão somente o silêncio necessário para não espantar o peixe — robalo, carapeba, rainha etc. — que, sendo de água doce, é dos mais espertos que existem, ligeiro na fuga ao menor estrépito que ouve, como afiança o pescador.</p>
<p>O resumo que ora fazemos da maneira como se professa a &#8220;pesca de espera&#8221; em Jacaraípe, não tem apenas o valor de um registro folclórico. Vale também por um convite a todos quanto se interessam pelos assuntos piscosos ou pelo modo de vida do nos povo simples para que, indo a Jacaraípe, procurem assistir ao desenrolar da &#8220;pesca de espera&#8221;, apreciando-lhe a riqueza e variedade dos temas e motivos que a caracterizam, na sua singeleza típica mas agradável.</p>
<p>* Existem dois tipos diferentes de &#8220;tresmalhos&#8221;, conforme a largura apresentada pelas malhas: o tresmalho maeiro (malhas mais abertas) destinado à pesca do peixe grande; e o tresmalho miúdo (malhas mais fechadas), para peixes menores.</p>
<p>
[Artigo publicado em <i>Folclore</i>, Vitória-ES, n. 40-48, de janeiro de 1956 a junho de 1957]</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Guilherme Santos Neves&nbsp;</b>(autor) nasceu em Vitória, ES, em 24 de setembro de 1933, é filho de Guilherme Santos Neves e Marília de Almeida Neves. Professor, historiador, escritor, folclorista, membro do Instituto Histórico e da Cultural Espírito Santo, é também autor de várias obras de ficção, além de obras didáticas e paradidáticas sobre a História do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/luiz-guilherme-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Entrevistado: Robson Santos</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/robson-santos-entrevista/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 19 Dec 2015 13:02:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Robson Santos, apelido Robalo Grupo ao qual pertence: Itapuã Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves Data da entrevista: 16/10/2013. Local / data de nascimento: Vila Velha, Centro em 23 /07/1958 Nome do pai: Pedro Oliveira Santos nascido em Vila Velha, Centro, marítimo e pescador Nome da mãe: Zenita Santos, nascida no Estado da Bahia. [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://3.bp.blogspot.com/-_isHU80h6Ks/VnVU29aYTYI/AAAAAAAAATw/CXuK7m09CGU/s1600/RS_16.10-35.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="480" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/RS_16.10-35.jpg" class="wp-image-6548" width="640" /></a></div>
<p><b>Entrevistado: Robson Santos, apelido Robalo</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Itapuã</b><br />
<b>Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves</b><br />
<b>Data da entrevista: 16/10/2013.</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Vila Velha, Centro em 23 /07/1958<br />
Nome do pai: Pedro Oliveira Santos nascido em Vila Velha, Centro, marítimo e pescador<br />
Nome da mãe: Zenita Santos, nascida no Estado da Bahia.</p>
<p>—————————————————————————————–</p>
<p><b>[Conte um pouco da história dos seus pais, da sua infância, adolescência e da sua vida adulta, como foi seu trabalho na pesca]</b></p>
<p>Eu segui o mesmo caminho do meu pai e sempre mexi com mar. Fui nascido e criado aqui em Itapuã, sou canela verde. &nbsp;Desde criança acompanhei meu pai no serviço dele, que era marítimo. Segui a carreira de marítimo e de pescador. Ele (meu pai) tinha carteira da Marinha, mais conhecido como pescador.</p>
<p>Meu pai trabalhava como rebocador na Codesa, Porto de Vitória, na antiga Codesa. Também trabalhei na Codesa e me aposentei por problemas de saúde que tenho até hoje: pancreatite aguda, e me aposentei por invalidez. Meu pai se aposentou normal.</p>
<p>Tenho nove irmãos, a família é bem grande, são quatro homens e cinco mulheres. Os homens quase todos eles mexiam com pescaria, só tem um que não mexe, e tenho três irmãs, três moram na Suíça, apenas uma mora aqui. Meu pai já faleceu e minha mãe vive sozinha, está viva graças a Deus até hoje. Sempre gostei do artesanato, do mar, da vida marítima e estou aí na vida.</p>
<p><b>[Com idade começou a pescar?]</b></p>
<p>Fui nascido na praia, já nasci pescando. Meus tios e meu pai colocavam rede e eu ajudava. Desde criança mexendo com rede.</p>
<p>Com 17 para 18 anos fiz curso para a marinha mercante. Passei, fiz os cursos e fiquei um determinado tempo, na faixa de uns vinte e poucos anos, quase chegando na época para eu me aposentar normal, mas eu adoeci uns três anos antes e aposentei por invalidez.</p>
<p>Meu primeiro emprego foi na Condusa, na lancha de transporte de Vitória. Em 1979 e em 1980 fiz curso na Codesa no início de 80 e fiquei na Codesa até 98. Na Codesa entrei como marítimo, como rebocador, e trabalhava sempre no mar. Nunca deixei o rebocador, me aposentei lá. Trabalhava atracando e desatracando navios sempre mexendo com o mar, e até hoje estou nessa vida aí. Hoje tenho dificuldades de ir para o mar e só fico consertando rede, os meninos é que pescam para mim, não tenho mais condições de trabalhar em barco, tenho a barriga toda cortada, da pancreatite aguda muito séria, então não posso pegar peso. Tenho dez cortes na barriga e fiquei muito tempo internado. A pescaria acabou para mim. Pescaria, só olhando os outros.</p>
<p>De vez em quando saio aqui para pertinho, para dar uma remada, mas mar a fora nunca mais fui, só umas remadinhas aqui na beira da praia, mas nem isso eu posso por causa da minha barriga. Tenho muitas hérnias grandes e não posso remar. De em vez quando vou à ilha aqui com os meninos, mas são eles que remam, eu não posso mais remar, há muitos anos não remo, vou mais a passeio. Quando é trabalho é com eles mesmos, eu não posso ir com eles porque não aguento.</p>
<p><b>[Quem trabalha com suas redes?]</b></p>
<p>São uns colegas pescadores profissionais. Eles não estão aqui hoje. A maioria que puxa rede aqui é aposentada, os mais novos trabalham à noite como vigias e vem para cá, ficam esperando um peixinho aí, passando o tempo, vêm aqui na pracinha e de vez em quando pegam um peixinho e levam para casa. Dividem o peixe que dá com todo mundo e, quando dá muito peixe, tiram um dinheirinho para tomar a cervejinha deles e a gente vai levando aí. A maioria aqui é aposentada.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como era a pesca há alguns anos atrás e como ela é hoje?]</b></p>
<p>Na pescaria antiga mesmo dava muito peixe em Itapuã, muito peixe mesmo. Devagarinho foi-se acabando, principalmente com esse negócio de traineiras aí fora. Nós estamos na época de peixe, e cadê? Não entra um peixe para pescar, está zerado. Não sei como é que esse pessoal que vive da pescaria vive. Se as mulheres deles não trabalharem fora e se não tiverem outra atividade, não sobrevivem aqui em Itapuã. Aqui já foi época, hoje, para comer aqui está difícil, tem que comprar, está difícil o peixe em Itapuã, o que pega aqui é pouquíssimo mesmo. Quem vive da pescaria aqui tem que arrumar outro meio para tentar sobreviver porque senão não consegue: a mulher trabalha na casa dos outros, de doméstica e vai embora. Pela pescaria mesmo, aqui em Itapuã está difícil.</p>
<p>Com as traineiras aí não entra nem mais um cardume de peixe aqui porque elas pegam tudo aí fora, porque em Vitória está liberado. Para vir um cardume de peixe aqui é um milagre, só quando tem muito mesmo, no verão, que vem algum cardumezinho. Antigamente, nessa época do ano, estava todo mundo […] Você podia pegar igual agricultura. Você pegava e ficava uns 7 a 8 meses sem pescar nada, mas você ganhava bem aqui, guardava um pouco do dinheiro e vivia nessa época, agora não dá nem um mês de peixe. Quem vive só disso aqui está bem ruim. Todo mundo tem que fazer uma coisinha, aqueles que não fazem nada está difícil. Tem uns seis ou sete pescadores que insistem ainda, mas as mulheres deles trabalham fora porque se não trabalharem… eles insistem na pescaria, mas têm que fazer alguma coisa.</p>
<p><b>[Como era Vila Velha, Itapuã no seu tempo de criança?]</b></p>
<p>Aqui tudo era mato, não tinha nada, só tinha umas casinhas de palha. As casas eram todas para o lado do mar. O mar invadiu quase tudo para cá. Eram todas de palha. Era difícil ver uma casinha… Nem eram casas de estuque, de barro, eram de madeira bem ruinzinha, de palha de coqueiros que tinha aí. Tinha muito coqueiro.</p>
<p>Aqui nessa área, onde nós estamos conversando, aqui para dentro, a gente puxava rede quando era criança. Quando dava fome, a gente não passava fome, tinha pitanga, coquinho, caju, tinha tudo aí. Dava fome, a gente não ia pra casa tomar café, a gente entrava pra dentro do mato e já arrumava caju, coquinho, pitanga, cactos. Aqui tinha fartura dessas coisas. Não precisava ir em casa tomar café, era aqui mesmo. Hoje em dia só dá prédio, não se vê uma pitangueira. Agora nós estamos plantando uns coqueiros, pitanga, aroeira para ver se nascem.[…] Nós plantamos ali para ver se cresce, mas os insetos estão matando tudinho, matou tudinho lá no centro.</p>
<p>Aqui a vida como pescador está bem difícil, sobreviver e viver da pescaria, eu mesmo penso em largar. Trabalhar o último ano aqui […] porque não tenho saúde e penso em comprar um sítio e mexer com peixe mesmo, criar tilápias em cativeiro. Para isso vendo uns órgãos para me orientar melhor, como começar. Já tenho um pouco de experiência, como cria, mas quero me profissionalizar melhor para começar legal e não bater cabeça como fiz com o artesanato. Eu penso em eu mesmo fazer minha própria ração, porque tem tanto resto de peixe aí, jogado fora. Pegar e fazer ração, produzir e criar peixe, não vou pegar muito peso e é só dar alimento aos peixes. Comprar um sítio pequeno que tenha água e levar o resto da minha vida assim, não muito fora da água, mas na água doce, porque o mar está cada vez pior.</p>
<p><b>[Seu pai fazia rede?]</b></p>
<p>Meu pai fazia rede e eu aprendi com ele. Minha mãe sempre mexeu com comércio, sempre gostou de ter o negocinho lá em baixo, era uma quitanda: vendia banana, essas coisinhas assim. Hoje ela está aposentada, com Alzheimer. Quando ela produziu, ela fez a casinha dela, hoje ela tem os aluguéis, tem a aposentadoria e não precisa da gente financeiramente, graças a Deus, ela mesma se mantém, é isso que ajuda a ela. Todo dia dou banho e café pela manhã para ela, ela está com Alzheimer e não pode fazer mais nada.</p>
<p><b>[Onde ficava o comércio dela?]</b></p>
<p>Lá em casa mesmo. O comércio dela ficava lá em casa mesmo, na Luciano das Neves, encostado ao antigo Colégio Nacional. Hoje em dia a frente é alugada: tem uma vidraçaria e uma lanchonete e em cima da casa dela tem umas quitinetes alugadas que, com a aposentadoria, dá para ela viver.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor lembra-se dos pescadores de Itapuã?]</b></p>
<p>Hoje vivos tem uma meia dúzia dos antigos: seu João de Zeco (seu João Cardoso), Mizinho, Zé Boião, […] que é mais novo do que eu, só tem isso. O pessoal da época do meu pai, só o seu João Cardoso e seu Mizinho.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E os mais antigos que o senhor encontrou aqui e que já não estão mais vivos?]</b></p>
<p>Antério, Zizinho,[…] seu Carlinhos, tem um monte deles aí, todos eles faleceram. Eu peguei o Zequinho vivo, até meu avô e meu tio. Meu avô era chamado de Cabo Antônio, não sei por que botaram o nome de Cabo Antônio, e meu tio era o Juquinha, era mais velho do que meu pai.</p>
<p>Meu avô era pescador bem antigo daqui, essa colônia que é bem antiga, igual na Praia da Costa, que é a mais antiga depois da Ponta da Fruta. A Barra é mais recente, mas não tem aquela pescaria como antigamente tinha aqui.</p>
<p><b>[E a Praia do Ribeiro?]</b></p>
<p>A Praia do Ribeiro é mais fraca, é mais para embarcação de motor, porque ali é muita lama, a pescaria ali não é tão boa de embarcação como a nossa. Ali é um porto seguro, quando chega embarcação maior, ancora ali porque não tem vento e não tem mar grosso. Aqui em Itapuã não pode encostar barco maior, de motor, porque quando dá uns tempos ruins não dá para ir buscar, então lá é um porto seguro, igual à Prainha de Vila Velha. Quando os portugueses chegaram aqui, chegaram na prainha de Vila Velha, no porto seguro, na tranquilidade.</p>
<p><b>[Como foi sua infância, o que você fazia quando criança aqui em Itapuã?]</b></p>
<p>Aqui era pegar peixe, pegar pitanga, goiaba e aqueles caranguejinhos que davam na beira da praia e vou aproveitar para fazer uma reclamação da Prefeitura e do Ibama. Hoje, a Prefeitura de Vila Velha passa a máquina para dizer que está limpando a praia à noite e não limpa nada, só faz fofar a terra e matar os animais todinhos. Os caranguejinhos, você não encontra mais os caranguejinhos de jeito nenhum, você encontra uma vez que outra um buraquinho aqui por cima. Aqueles caranguejinhos limpavam a praia, quando alguém suja a praia aqui, eles comem o resto, eles até faziam a limpeza da praia. Hoje em dia você não encontra, a Prefeitura acabou com aquilo. Aqui tinha muito guruçá! &nbsp;A gente chamava de guruçá. Eu comia muito aquilo, comia frito quando criança. A gente pegava à noite, na lamparina, à noite eles perdiam o buraco e ficava mais fácil pegar e comer.</p>
<p>Quando chegava o tempo de estudar, a gente ficava lá na casa da minha mãe, onde ela mora hoje, ela tinha um boteco aqui e vendia umas bebidas para os meninos aí. Quando acabava a escola a gente vinha morar aí, ninguém ficava lá em baixo todo mundo queria praia, dormia na areia. Minha infância foi na praia mesmo, pegando tatuí. Hoje em dia acabou tudo, tem uns poucos aí, o guruçá então, com a máquina passando, varrendo a praia. Nunca vi limpar praia daquele jeito, não limpa nada, só para destruir os guruçás e o Ibama e os outros setores ainda não abriram os olhos para isso, comenta, comenta e ninguém vê. E os animais foram mortos e ajudam a limpar a praia. Quando o turista chega a dormir, a deitar na praia não sabe os retos de comida que ficaram de ontem, porque os animais vão lá e comem. Acabaram com tudo, se tiver meia dúzia aí tem muito, perdido aí, porque dá cá em cima também, lá em baixo acabaram. Os guruçás antigamente, se eles começassem a subir você podia contar que o mar ia pegar balanço, que é ficar grosso, ficar bravo, criar ondas grandes de 2, 3m, &nbsp;do jeito que eles falam aí. É ressaca […] pegou balanço, balança demais o mar, as embarcações ficam balançando. Quando os caranguejos começam a subir, a embolar cá em cima, o mar vai balançar. A natureza sabe primeiro do que a gente, eles fogem para as casas cá em cima. Isso aí a gente tinha antigamente e a gente marcava por isso aí. Hoje em dia, se você vê na rua, nem sabe, não tem mais caranguejo para poder informar, os dedos duros, né? Antigamente na nossa época, os guruçás começavam a fazer buraco aqui em cima – Oh! Vamos botar os barcos lá em cima, porque vai vir mar groso, aí podia contar que já se sabia.</p>
<p><b>[E os peixes que eram encontrados ou ainda são encontrados?]</b></p>
<p>Tem peixe aqui que você não encontra nem para remédio, você não acha, se você tiver morrendo, você não acha. É melhor você ganhar na loteria do que pegar. Xaréu, antigamente dava na mudança, a cavalinha e a sardinha hoje em dia estão escassas também. Muitos peixes são escassíssimos aqui. Tinha muito peixe aqui, hoje em dia se você quiser xaréu para remédio… Se você tem que jogar na mega sena, que você vai ter mais lucro.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que quer dizer a expressão “para fazer remédio”?]</b></p>
<p>A coisa é muito cara ou que você não acha, é igual garimpar, é uma expressão muito usada, você está para morrer e não acha o remédio.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E o calendário da pesca?]</b></p>
<p>Tudo tinha sua época. A partir de outubro é época do chicharro. Cada época tinha uma qualidade de peixe. No inverno era a enchova, o baiacu passou a época e ninguém matou nenhum. O colega matou um ali ontem e foi a festa, unzinho que ele matou, não achou nenhum mais. Baiacu dava demais aqui, acabou. Tinha enchova, tainha, hoje estamos na época do chicharro e cadê? Quando é época dos peixes as redes ficam todas aqui em baixo, estão todas aqui em cima, não tem peixe, ninguém nem desce, nós estamos aqui sem pegar peixe. Desde fevereiro que não dá peixe nenhum.</p>
<p>Só vai mesmo mirar rede, puxar rede aqui, não. Só traz malha, que é rede de espera. Só com esse tipo de rede que vem algum peixinho ainda, você coloca um bocado de rede só vêm um, dois, três peixinhos, não é aquela fartura.</p>
<p><b>[E o que é a tarrafa?]</b></p>
<p>Tarrafa é tipo: você botar no ombro, na boca e arremessar em cima do cardume de peixe. A tarrafa depende do lugar, da fundura, do local. Não pode ser muito no fundo, não tem condições de ir lá, não tem como arremessar porque as ondas não permitem. Tem que ser lugar mais manso que você possa entrar com água na cintura e arremessar, mais próxima da praia, bem próxima, é manual.</p>
<p>Já a rede de arrastro você bota dentro do barco, pega as cordas e bota em cima e vai até onde está o cardume, arrasta ele e junta. Só um barco que vai. Quando sai, uma ponta fica na praia, ele vai, cerca o cardume e fecha na outra ponta, aí o pessoal ajuda a puxar, os turistas também ajudam, junta todo mundo e junta as duas pontas, uma já sai e a outra já volta.</p>
<p><b>[E quais são os nomes das redes, por exemplo, a rede que faz o arrastão?]</b></p>
<p>É a rede de arrastro. Aqui nós temos a rede boieira, que pega o peixe mais boiado, em cardume, e tem a de pescadinha, que é um peixe mais de fundo, ele vem por baixo só para pegar pescadinha porque é um peixe que só fica na lama, no fundo. Os dois tipos de redes trabalham separadas. Quando é pescadinha a gente coloca rede de pescadinha, que é igual a essa aqui, já vem no fundo. Já a outra é para peixe boieiro.</p>
<p>É boieiro porque ela fica em cima, na superfície da água. Todas elas têm boias, mas a boieira fica na superfície. A de fundo ela só vai no fundo porque a rede não pega de cima em baixo. Todas elas têm boias, as de fundo a gente coloca mais boias e mais chumbo para elas descerem. Já as boieiras a gente coloca mais boias e menos chumbo para elas ficarem no alto para aguentar o peso do peixe, são mais reforçadas.</p>
<p>Essa branca é usava para o peixe ficar ali dentro e não sair. É usada junto com a rede boieira, é uma rede só, é muito usada como rede de espera. Estou colocando aqui para porque se botar essa aqui só ninguém aguentar puxar, pesa muito e aquela fica mais leve para a gente puxar, elas são emendadas, é uma rede só. A boieira tem mais azul porque se você pegar manjuba ou sardinha ela vaza, ela não fica, então a gente coloca mais seda para ficar com a malha bem grande porque dentro do escuro fica com medo de invadir. A de pescadinha a gente coloca menos seda porque senão pesa muito. A seda pesa muito e as outras são para cercar o peixe. Aí, quando o peixe vê o escuro fundo, pensa que vai vazar e ensaca no funil e fica preso. Os menorzinhos passam pela malha maior e só ficam os maiores.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E a pesca de linha de fundo?]</b></p>
<p>Tem a de linha também. A pesca de linha eles pescam com os anzóis, vão para a embarcação, procuram o lugar em que está o peixe, na lama ou na pedra, e arremessa manual. A gente não sua molinete, molinete só na beira de praia, para quem vai pescar manual. Bota a linha o peixe pega e puxa, só com a isca no anzol, e só puxa com a linha, tira o peixe e volta com a linha para dentro d’água. Pesca com duas linhas ou três linhas, cada pescador pesca com duas, três linhas, uma de um lado e outra do outro, e sempre coloca uma boieira atrás também, porque quando você está arriando uma pode aparecer um peixe diferente, duas linhas de um lado e de outro, porque quando você está arriando puxa outra que está com peixe, você não vai ficar esperando as duas. Você pega até com o pé na pedra. Enquanto você trabalha com essa linha, tira o peixe da outra […], vai puxar outra linha para aproveitar melhor o tempo.</p>
<p>Pescador tem que ser esperto porque se o peixe chegar no fundo e ele não aproveitar o cardume, o cardume vai embora, e se não tiver esperteza, vai ficar esperando outro cardume chegar, vai ser difícil. Tem que matar o mais rápido possível, tem que ser esperto para poder pegar um peixinho melhor, se for todo enrolado não arruma nada.</p>
<p><b>[E como funcionam os horários, a que horas o senhor vinha para a praia quando pescava?]</b></p>
<p>O horário é muito similar, às vezes que o peixe vem na enchente da maré, às vezes no embate, que é a mudança da maré. Por exemplo: a maré vazia vai começar a encher, aí dá aquele embate. Às vezes, de noite, de linha, varia muito o horário. O pessoal pesca mais de manhã cedo porque o vento é mais calmo do que de tarde, que sopra mais por causa da mudança da maré. &nbsp;A pescaria mesmo é de manhã ou senão à noite, não tem horário fixo porque a maré muda todo dia.</p>
<p><b>[E como vocês sabem da mudança da maré?]</b></p>
<p>Pelo calendário mesmo, a lua também influencia muito. Cada dia é as 6h e poucos minutos que muda, nunca fica o mesmo horário, sempre tem mudança, cada semana […] muda muito, é quase 40 minutos por causa da vazante, não tem aquele horário específico.</p>
<p><b>[Como funcionava o calendário de pesca?]</b></p>
<p>Antigamente, se tinha calendário, nem usava, era mais a prática do pescador, eram os animais que falei, eram umas aves que passavam aqui também, que eles chamavam de tesoura. Passou vento sul aqui, é sagrado. Na Bahia tem vento sul demais, passa a ave já sabe que vai mudar para vento sul. É experiência mesmo, e o pescador conhecia. Olhar para o navio lá fora, vê a embarcação se ela está parada ou não, se subir uma barreira pelo sul, aquela coisa preta, já não saía, que já sabia que ia vir vento sul. Se começar a subir barreira não sai para alto mar porque vai vir vento sul e embarcação pequena… Então a pessoa já via pela natureza mesmo. O próprio pescador sabia a época certa do peixe, o peixe que entrava na época certa. Outubro é época de chicharro, todo mundo já sabia que outubro é época de chicharro. Já começava a aparecer. Não existe mais calendário para peixe, não existe mais, mudou tudo e mudou feio. A natureza está toda…</p>
<p>Só hoje que é usado calendário, porque tem as duas marés, tem que é boa ou não. Antigamente, era o pescador mesmo que tinha que saber, era ao natural, pela natureza e pelos animais. É igual na agricultura, se a formiga começar dentro de casa mesmo, se você vir a formiga mudando com os ovinhos dela, pode contar que vai vir chuva. É igual aqui. […] Sanhaço, como acabou a mata, eles estão todos aqui. Tem gavião aqui, que a gente não via aqui pássaros, que era de mato mesmo, como não tem mais mato… Tem tanto canarinho fazendo ninho aí, canarinho dá em todo lugar, mas todos os pássaros estão vindo para a praia. Antigamente era de mato fechado. Até as pombas grandonas estão vindo aqui, coisa que era de mato, espantada mesmo. Hoje em dia está tudo na cidade. Só tinha em arrozal. As matas estão acabando.</p>
<p><b>[Quais são os nomes de cada parte das redes?]</b></p>
<p>Pela maneira que tem a corda, chama calão para abrir a rede. Calão é um pedaço de madeira que faz para puxar a rede para ela não fechar, vai manter a rede aberta e esticada, depois nós temos as mangas das redes, que são as partes brancas, temos a guarda encontro e temos o centro porque a guarda encontro fica entre a manga e o centro. A parte branca é do centro, onde fica o peixe, que é a malha vem diminuindo um pouquinho o tamanho para concertar o peixe. Tem a manga, a guarda encontro e centro. O centro é o azul, onde aguenta mesmo o peixe, a guarda encontro é o marrom […] é para poder fazer a entralha. A rede você compra ou você faz. Se você comprar 100m, ela vai dar 60 depois de pronta porque você a compra esticada, mas quando vai esticar ela vai ter que ficar abertinha para… Aí tem que botar essas amarrações com essas boias, em baixo coloca o chumbo e as boias em cima. Se for rede de fundo você coloca mais na beira e as boias mais distantes uma da outras, se for boieira, inverte, faz o costado de cima e as boias em cima do encostado e chumbo na beira e modifica o peso, aí muda tudo, e tem as redes de fundo que vem no fundo.</p>
<p><b>[A rede de fundo pega que tipo de peixe?]</b></p>
<p>Pescadinha, vários peixes que não sobem que vive só no fundo comendo camarão, na lama e só vivem no fundo. O peixe boieiro é o chicharro, galo, manjuba, sardinha, são peixes de superfície, só vivem em cima. Se a rede pega em cima e em baixo, você não aguenta puxar, pesa muito porque é muita rede para colocar em cima e em baixo, então cada peixe tem que ter um tipo de rede. Para pegar galo a gente tem uma rede com uma malha bem grande. Para pescadinha, que é um peixe menor, tem que ser menor. Para sardinha tem que ser menor ainda, porque a sardinha é pequena e fina, senão vaza. Cada peixe tem um tipo de malha em um tipo de rede diferente e a boieira tem outro tipo e rede. Para o galo e o chicharro tem outro tipo de rede. Os peixes maiores, a malha é maior, além de serem redes grandes, são mais leves e são malhas grandes e mais altas, por causa do peso. Então cada peixe tem que ter uma rede diferente. Espada é o inimigo do pescador aqui, de rede, porque ela corta muito, mas eu não esquento não, eu gosto de espada, eu pego, minha vida é consertar rede, eu não me importo. Tem colegas aí que não chegam a pescar a espada, dá muito profunda. Às vezes trabalha mais com ela do que com a boieira, que é mais difícil. A boieira a gente cerca o peixe quando a gente vê o cardume, já a de fundo a gente vai de instinto, a gente chuta, às vezes não vem nada, às vezes vem alguma coisa, às vezes vem muito. A gente não vê o peixe, vai no escuro. A gente chama de escuro mesmo, lanceia no local. Às vezes vem bastante, às vezes a gente não vê um cardume.</p>
<p><b>[E no caso do arrastão?]</b></p>
<p>Fica uma ponta de corda aqui na areia e o barco leva e faz a distribuição. Quando chega na praia ele contorna e faz coisa de &nbsp;um círculo e volta na areia e começam a puxada dos dois pontos, recolhendo. &nbsp;Centraliza no meio certinho, que é onde fica o peso, e vem puxando dos dois lados para não adiantar nem um lado nem o outro. &nbsp;Aí os turistas ajudam, os colegas ajudam, todos ajudam até chegar na praia.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como é feita a distribuição?]</b></p>
<p>Uma parte é do proprietário da rede, que tem uma parte de 30% líquido, o outro é dividido entre os colegas, para o pessoal que fica todo o dia. Eles dizem que são 50%, mas não é não, porque separa em duas partes. Os outros ficam na faixa de 35% da pesca. O conserto da rede, compra de material tudo é dele, a despesa toda é do dono da rede. O material todo é da gente, o resto todo é feita a divisão, os amigos que estão aqui constantemente.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor é um homem religioso?]</b></p>
<p>Mais ou menos, fui criado na igreja evangélica. Hoje em dia estou desviado, mas conheço um pouquinho a palavra. Meu pai nunca foi de religião, no final da vida é que ele ia à igreja Maranata, mais novo não. Quando saiu de casa e casou-se com outra mulher é que ia para a igreja. Minha mãe sempre foi da igreja.</p>
<p><b>[O senhor gostaria de falar alguma coisa que achou de interessante?]</b></p>
<p>Muita coisa tem que mudar aqui em Itapuã, o pessoal tem que olhar mais para os pescadores que estão à míngua, a maioria está passando dificuldades. O governo não abre as portas para eles, só pagam um defeso na época, mas é nacional. Da Exclusiva chegou uma galera aqui. Tem lugar que tem muito peixe aqui […] O governo não está olhando para quem está na pior ou na melhor. Tem lugares aí que está bom, outros não tem nada, não dá incentivo nenhum. Os grandes empresários levam, os empresários ficam aí fora pescando o ano todo. Aqui o pescador que precisa do peixe não tem peixe. Os empresários podiam ter uma participação para distribuir esse dinheiro que eles ganham demais para os pescadores aqui. Se juntar essas redes todas de Itapuã, com Praia da Costa, Ponta da Fruta, Barra do Jucu, essas traineiras [?] ainda que eles fiquem dormindo ali uma semana, o verão todinho não pegam. Se juntar todo mundo não pega uma pescadinha deles. […] Eles pegam 70, 80 toneladas de peixe, aqui não pegam nem 10 toneladas, todo mundo aqui, não pegam. Então eles estão comendo tudo ali, e o pescador nada. Desse dinheiro também podia ter uma verba, 10%, só para os pescadores, para dividir nessa área de Vila Velha. Se estão atuando aqui em Vila Velha, eles (os empresários) tem que dividir um pouco desse lucro, essa é uma pescaria só para quem tem muito dinheiro. Uma embarcação dessa aí custa muito dinheiro. Eles vem de fora, não são nem de Vitória, são de outros estados, e pegam o peixe todinho e o pescador fica a ver navios e não tem distribuição de renda para eles. Até esses grandes empresários, que ganham muito dinheiro, deviam ter uma pequena participação dos pequenos pescadores de toda a área de Vila Velha. O que falta é a distribuição de renda, enquanto um só está pegando tudo ou outros… Não tem um equilíbrio certo, o errado é isso aí, é o empresário lá de baixo que pega tudo. A minha reclamação é essa, a má distribuição, enquanto tem famílias passando fome, os empresários só na boa. É a vida né?</p>
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<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/todas.jpg" class="wp-image-6549" width="400" /></a></div>
<p></p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/robson-santos-entrevista/">Entrevistado: Robson Santos</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Entrevistada: Marlúcia Rufino Guimarães</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Dec 2015 12:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Marlúcia Rufino Guimarães Grupo ao qual pertence: Praia de Itapuã Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 16/01/2014 Local / data de nascimento: Itapuã, Vila velha, ES, 18/01/1973. ——————————————————————————— [Como foi sua infância?] Meus pais já são mortos e sempre trabalharam com pesca. Minha família é toda de pescadores: pais, avós, todo mundo. Fui [&#8230;]</p>
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<p><b>Entrevistado: Marlúcia Rufino Guimarães</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Praia de Itapuã</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 16/01/2014</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Itapuã, Vila velha, ES, 18/01/1973.</p>
<p>———————————————————————————<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como foi sua infância?]</b></p>
<p>Meus pais já são mortos e sempre trabalharam com pesca. Minha família é toda de pescadores: pais, avós, todo mundo. Fui nascida e criada aqui em Itapuã. Sempre trabalhei com a pesca, tentei ir para outros lados, mas não deu certo, voltei para a pesca de novo e estou criando minhas filhas no mesmo caminho, na pesca.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que você lembra da sua infância aqui?]</b></p>
<p>Minha infância aqui foi muito boa. Há 25, 30 anos tinha muito peixe, hoje em dia é que está escasso o peixe, está sumido porque antigamente as traineiras não podiam pescar aqui perto. Eram cinco milhas que elas podiam pescar e elas não vinham pescar aqui. Hoje dizem que o governo liberou, as traineiras vêm aqui e pegam todos os peixes. No verão passado nós não pegamos nada de peixe. Esse verão já começou e já estamos na metade de janeiro e até agora nada.</p>
<p>Então está difícil. Eu não trabalho só com peixe. Trabalho com peixe, com sururu e camarão, só que a coisa agora está ficando apertada porque até mesmo o sururu tem pessoas pegando a semente para fazer cultivo e levam para outros lugares. Se o Ibama e as autoridades não nos ajudarem daqui uns dias até o sururu vai acabar também.</p>
<p>O governo dá quatro meses de defeso, mas passaram os quatro meses, a gente está indo na ilha e não tem nada. Eles dão o defeso, mas eles não fiscalizam, nem todo mundo respeita. O pessoal daqui respeita, mas o pessoal de Vitória e de outros lugares não respeitam. Se eles não pegarem pesado e não fizerem uma fiscalização vai acabar também. E o peixe também está acabando, infelizmente. Eu queria que minhas filhas pelo menos vivessem um pouco da nossa história e conhecessem.</p>
<p>Antigamente a gente botava uma rede aqui apanhava dois, três barcos, hoje em dia não pega nem meio, está difícil. Numa época de hoje, em janeiro, era para estar pegando sardinha, manjuba e chicharro. Já estamos em 15 de janeiro e não estamos pegando nada até hoje. Está muito difícil por causa das traineiras, porque as traineiras vão ali atrás da ilha, […], eles tem uns aparelhos que nós não temos, e pegam todos os peixes e nós não pegamos nada. E também tem o problema da Petrobrás, que está fazendo essas escavações aí. Essas escavações estão acabando também. Eles vêm aqui dizem que vão ajudar os pescadores, mas só não vêm. Passa na televisão, dizem que estão ajudando os pescadores, que estão dando isso para os pescadores – Não estão dando nada! Só contam mentira. Só ficam na promessa.</p>
<p>Vem aqui fazem reuniões – Vê o que os pescadores estão precisando, que a gente vai ajudar. Os pescadores não estão precisando de cesta básica. Os pescadores estão precisando que parem de jogar lama no mar para que a gente possa voltar a ser como era antes. Infelizmente as escavações estão acabando com o peixe. Tem outros lugares que eles podem estar fazendo essas escavações, mas infelizmente as autoridades competentes ficam do lado deles e não ajudam os pescadores […] Futuramente, se continuar do jeito que está, daqui há uns dois, três anos, todos os pescadores terão que vender os barcos, jogar fora e caçar procurar um serviço, porque peixe, não tem, sururu, não está tendo, caranguejo, muito menos, porque os mangues estão se acabando. Então, o pescador realmente […] só Jesus! Está feia a coisa!</p>
<p>A pesca aqui era muito farta, mas hoje[…] queria que minha neta crescesse vendo do que a gente vivia, do que ela foi criada. A mãe dela também é pescadora e trabalha comigo no cultivo do sururu. Só que estou vendo que daqui a alguns dias, na adolescência dela, não vai ter mais, vou ter que mostrar por fotos, nós temos fotos em casa de como era antigamente. No futuro as crianças vão conhecer a pesca só por fotos ou nos livros. No mar tem o peixe, mas o peixe não encosta por causa das traineiras, dessas escavações, da lama que estão jogando no mar. A nossa infância aqui foi muito boa.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você lembra quantos anos tinha quando começou a vir para a praia?]</b></p>
<p>Eu comecei com idade de nove anos a ajudar meus pais, tios e avós. Aqui nós somos uma colônia de pesca e se olhar, quase todo mundo é parente. Então foi desde criancinha. Essas criancinhas aqui já vêm. Essa aqui tem dois anos, a mãe dela está trabalhando fora porque infelizmente não está tendo peixe e tem que fazer alguma coisa na vida para sustentá-la. Aí, como eu venho pescar, e eu tomo conta dela, tenho que trazê-la. Ela já participa, já ajuda a puxar uma rede. Quando estou descascando sururu ela fica sentadinha aqui. Não tem idade, já cresce […] e daí vai tomando gosto.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você brincava de alguma coisa aqui na praia?]</b></p>
<p>Aqui na praia, vira e mexe, estamos jogando bola e brincando de pegar onda. Com esse mar que Deus nos deu a vida é abençoada, até hoje em dia. Quando não tem peixe, tem que estar brincando de pegar onda, vamos à ilha. Juntamos 10, 15 pessoas e vamos passear na ilha. Ficamos brincando de queimada aqui na beira da praia. Essa é a vida de pescador.</p>
<p><b>[Você estudou?]</b></p>
<p>Eu estudei até a 7ª série, mas as duas filhas mais velhas […] uma terminou o 3º ano, só não fez faculdade porque infelizmente ela engravidou e com a grana curta […] Eu até ia ajudá-la, mas não tem como ajudar. Tenho uma de 19 anos que terminou o 3º ano, já tem três anos que ela terminou. Futuramente está pensando em fazer um curso, uma faculdade, mas tem que esperar as coisas melhorarem. Tenho uma de 15 anos que está na 7ª série e já está quase terminando e se Deus quiser vai terminar. Só que infelizmente tem que correr atrás, tem que começar a trabalhar cedo porque a pesca […]</p>
<p>Há 25 anos daria até para bancar uma faculdade, porque na meada de janeiro já estava cansada de tanto pegar peixe, mas infelizmente hoje em dia não tem mais como viver do peixe. Viver do peixe não dá mais.</p>
<p>Nós estamos até pensando em vender os nossos barcos e arrumar um trabalho. Se continuar assim mais uns dois, três anos… &nbsp;Infelizmente se as autoridades não vieram ajudar a gente vamos ter que fazer isso, vender os barcos e arrumar um trabalho, porque nós temos que comer, pagar aluguel, fazer as coisas e infelizmente o que vai acontecer é isso.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E seus pais e avós?]</b></p>
<p>Meus avós e meus pais trabalhavam com a pesca […] A minha bisavó, ela morreu há a cinco anos, com 110 anos. A minha avó ainda é viva e mora aqui na rua de trás e está com quase 100 anos. Elas foram umas das primeiras pessoas a chegarem aqui na colônia de pesca. A minha família foi uma das primeiras a chegarem aqui, quando chegaram aqui era tudo mato, não tinha casa, não tinha barraco, não tinha nada, aí foram chegando mais gente e estão aí. O progresso, prédios de todos os tamanhos, há quarenta anos não tinha nada disso. O pessoal veio, fundou, colonizou. Hoje em dia estão esses prédios aí de todos os tamanhos, que não deveria se permitido. Deveria ser permitido só de quatro andares, porque atrapalham o sol. Chega certo horário aqui que não tem sombra, não tem nada. Não tem sol, não tem sombra, não tem nada.</p>
<p>Isso aí também contribuiu para atrapalhar o peixe, porque é muito barulho de carro, tem muito carro. Um prédio desse aí tem dois três carros e com o barulho e a claridade o peixe não vem. Quando essas luzes acendem isso aqui fica tudo claro, mas em compensação o peixe não vem, então, essas coisas aí que eles falam que é o progresso, para a gente é o fim do mundo.</p>
<p>As autoridades deveriam de olhar por esse lado. Um prédio desses de 15, 20 andares acaba com a pesca. Isso aqui é uma praia de pesca, de pescadores, o nome já diz: praia dos pescadores. Só que eles querem saber do bolso deles cheio de dinheiro e os outros que se ferrem né? Infelizmente é isso o que está acontecendo. Tinha necessidade de um prédio desse aí de 20 andares na beira da praia? Acaba com o sol, com a natureza, isso só agride, é por isso que está tendo tantas enchentes […]</p>
<p><b>[Com quantos anos você começou a pescar?]</b></p>
<p>Eu comecei a pescar com 12 anos.</p>
<p><b>[Quem te ensinou?]</b></p>
<p>Quase todos os pescadores aqui têm rede. Todas as crianças, filhos de pescadores, já começam indo pescar, às vezes porque acham legal ver os peixes, às vezes porque querem ganhar um peixe para levar para casa. […] E vai indo já estão tão envolvidos que não querem mais sair, tomam gosto que não querem mais sair. E assim é a vida de pescador, vai passando de geração em geração.</p>
<p><b>[Como você compara a pesca de antigamente com a de hoje em dia em termos de quantidade e tipo de peixe?]</b></p>
<p>Há 20, 30 anos você podia escolher o peixe que queria pescar. Era peroá, dourado, chicharro, você podia escolher. Hoje você não consegue nem pegar, imagina escolher. Antigamente isso aqui era muito farto, tinha peixe demais, a gente achava que era peixe demais, mas era coisa de quantidade certa. Hoje não tem como. Antigamente você via um cardume de peixe ali, ia lá, cercava e dava para todos os donos de redes ficarem satisfeitos. Hoje se aparece um cardume de peixe dá até briga, porque talvez ele seja o único que vai aparecer durante todo o dia, porque não está tendo mais.</p>
<p>Não tem nem como comparar a pesca de 20 atrás. Era uma maravilha. Hoje não tem mais pesca. Não se pode dizer: o pescador que disser que ele vive só da pesca – ele está mentindo.</p>
<p><b>[Você tem alguma outra fonte de renda?]</b></p>
<p>Eu trabalho com peixe e com sururu. Quando eu não estou pescando eu estou na ilha arrancando sururu. Mas estou vendo que daqui há uns três, quatro anos, se continuar do jeito que está, se nada for feito para nos ajudar, vou ter que sair, largar isso aqui e procurar um trabalho. Antigamente, há 20 anos, nessa época do mês de janeiro nós estávamos cheios de dinheiro, já tinha vendido bastante peixe. Você chegava aqui na praia tinha 10, 15 caminhões encostados aqui. Hoje, não tem mais, não se vê nem um caminhão, estão indo para o Rio, para outros lugares, porque aqui não tem peixe. Eles sabem que aqui não está dando nada, então nem vem aqui.</p>
<p>Minha fonte de renda é só a pesca. Eu e meu marido somos pescadores de peixe e de sururu, vivemos só da pesca.</p>
<p><b>[Como é sua rotina como pescadora?]</b></p>
<p>No verão, quando chega janeiro, às 5h da manhã a gente vem para cá, porque é o horário que os cardumes começam a aparecer. Quando está dando peixe a gente nem vai em casa almoçar, ficamos direto. Às vezes até 7, 8h da noite, mas ultimamente não está dando peixe, a gente é obrigada […] a gente vem às 5h da manhã, fica sentado na beira da batera vigiando, não aparece nada, vai em casa, volta.</p>
<p>Quando a gente vai arrancar sururu, geralmente a gente gosta de apanhar a maré cedo. Às vezes, a maré dá 6h, aí a gente sai de casa 5;30h e vamos para a ilha, ficamos lá até umas 11h arrancando sururu, vem para a praia, faz o fogo aqui mesmo na praia. […], já vai descascando e vendendo. Os fregueses vêm, sentam junto com a gente, metade dos fregueses gostam de ver o fogo aceso. Já tentaram proibir, um tal de PDM, que se diz dono da praia. Eu achava que isso aqui era marítimo, não é? Que era a Marinha que mandava, mas dizem que não é, dizem que é um tal de PDM, que eu nem sei o que significa. Já vieram aqui umas duas vezes e tentaram fazer com que a gente não fizesse fogo na beira da praia, mas nós chamamos a Prefeitura e eles disseram que vão fazer um local apropriado para nós, mas o apropriado é aqui, a cultura é aqui, o povo não quer ver o sururu já embalado, eles querem ver a gente acender o fogo no cantinho, querem ver a gente cozinhar e descascar ali mesmo.</p>
<p>O peixe, eles querem ver o peixe fresco do mar, igual ao rapaz que chegou ali agora com o peixe todo fresquinho. Você vai preferir comprar o peixe fresquinho ou aquele que está na geladeira, que você nem sabe quantos anos está ali?</p>
<p>Então, não têm como a Prefeitura proibir isso aqui, PDM, nem nada. Isso aqui é cultura e não vem de dois, três anos, isso vem mais de 100 anos. Eu mesma tive uma bisavó que morreu com 110 anos e ela era pescadora, tem carteira dela até hoje, a carteira dela está na colônia, dado baixa, mas está lá e existe lá para comprovar. Meu pai morreu tem dois meses com 78 anos e era pescador, pescador de carteirinha, de ir lá no mar, porque tem uns que são só de carteirinha, tem aqueles que são velhos, são antigos. O Seu João de Zeco que é pescador, ele tem mais de 100 anos, está velhinho. Se deixar, ele vai para o mar. Ele é pescador de carteirinha que vai mesmo, conserta rede e trasmalha. E como pode acabar um negócio desses?</p>
<p>Ao invés de quererem acabar com isso aqui, eles deveriam se unir para melhorar isso aqui para a gente. Colocar uma água. Hoje se trabalha com umas mesas de madeira. Se a gente tivesse uma mesinha de fórmica, de azulejo, tudo bonitinha […] Se eu vendo 100kg de sururu eu venderia 200, 300kg, se tivesse uma mesinha, uma água para lavar as facas direitinhas, para lavar tudo direitinho. Mas a Prefeitura não deixa, não permite.</p>
<p>Nós já tentamos fazer ali uma mesa de azulejo. O cara fez de mármore, tudo bonitinho. A Prefeitura esteve aqui e quebrou, porque eles não deixam e não dão condições para a gente trabalhar. Ao invés de quererem tirar a gente daqui deviam se unir com a gente, procurar saber o que estamos precisando e nos ajudar. Ficaria uma praia muito mais limpa e mais bonita. &nbsp;Por exemplo: a areia daqui fica preta? Fica! E porque a Prefeitura não manda um trator vir aqui e pegar a areia lá de baixo e sempre estar limpando e ajudando? A gente faz isso com o carrinho, mas não é a mesma coisa de um trator estar limpando.</p>
<p>A culpa de estar essa bagunça não é dos pescadores. É dos organizadores, da Prefeitura, do pessoal lá de cima que não colabora com a gente. Só que eles pensam que é só fazer prédio, mas turista não quer ver prédio, se for para ver prédio eles ficam lá em Nova York que é uma cidade muito mais bonita do que isso aqui. Eu nunca fui lá, mas pela televisão dá para saber que é muito mais linda do que isso aqui. Eles vêm por causa dos pescadores. Eu tenho freguês lá da Bahia que vem comprar sururu comigo. Quando chega a Semana Santa que é a semana de fazer a torta capixaba em abril, eles ligam para mim e dizem olha, separa sururu para mim, eu quero sururu para fazer torta. Eu tenho que estar com o sururu no freezer, se não tiver sururu eles não vem. Teve dois anos que não teve sururu e aí eu liguei para eles avisando. – Então nós não vamos aí. Eles querem ver o fogo aqui, querem ver a gente cozinhando o marisco. Se a Prefeitura acabar com isso aqui, isso vai acabar. Eles acham que a boniteza daqui são os prédios, mas se enganam… Se eles nos ajudassem aqui, viessem até a nossa comunidade, procurassem os pescadores, isso aqui iria encher de turista.</p>
<p>Os quiosques: eles acham que acabando com os quiosques vão chamar turista. Turista vai vir na praia fazer o quê? O mesmo sol que brilha aqui brilha em Nova York, na Bahia. Eles vão vir aqui fazer o quê? É a mesma coisa se eles acabarem com a pesca, com o sururu. O turista vai vir aqui fazer o quê? Gente bonita tem em todos os lugares, eles vêm aqui é por causa disso aqui. Tem gente de Minas, da Bahia de tudo quanto é lugar e eles falam que vêm aqui para verem as redes e para ver a pesca. O sururu que eu vendo vai para tudo quanto é lugar.</p>
<p><b>[Como é a preparação da rede para a pesca? O que você tem que preparar para ir fazer a pesca de peixe?]</b></p>
<p>Eu trabalho com a rede de arrasto, que é aquela que quando a gente vê o cardume a gente joga e ficam duas pessoas dentro do mar no barquinho e joga e as outras pessoas ficam em terra puxando. As outras pessoas ficam puxando a rede, depois se juntam as duas pontas e o cardume de peixe fica no meio, essa é a de rede.</p>
<p>Tem a de rede de trasmalho que é uma rede que a gente vai lá no meio do mar e coloca lá. Por exemplo: a gente vai lá hoje e amanhã só vai recolher o que Deus permitiu que ficasse lá, o peixe, a lagosta, tudo o que tiver lá. Eu trabalho com as duas redes.</p>
<p><b>[Você prepara as redes? Como que é?]</b></p>
<p>Eu não preparo as redes, eu compro feita, tem pessoas aqui que fazem. Meu marido aprendeu a fazer agora, ele está pegando o jeito de fazer e está tentando, de vez em quando ele faz alguma. Seu João de Zeco é uma pessoa que faz bem o trasmalho, costura e remenda rede. Quando as nossas redes rasgam tem que pagar alguém para costurar, tudo isso é prejuízo para a gente.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Tem alguma preparação para se usar a rede?]</b></p>
<p>Tem que colocar a rede certinha no barco, embarcar, e não é que qualquer maneira. Se for de qualquer maneira, quando for jogar em cima do cardume ela vai estar embolada e não vai conseguir pegar o cardume. Tem que ter duas pessoas, tem que ser em dois, pegar as cordas por cordas, malha por malha e colocar dentro da rede. Essa é a rede de arrasto, a de trasmalho é a mesma coisa.</p>
<p>A de trasmalho [rede de espera] coloca dentro do barco, vão duas pessoas lá fora no mar, joga e deixa amarrada com a corda e com a gallhateira. No outro dia vai só recolher os peixes.</p>
<p>A rede de arrasto é aquela que quando se vê o cardume corre, joga a rede e puxa. A rede de trasmalho se deixa de um dia para o outro, é o que se chama de rede de espera. Essa semana eu não coloquei porque fiquei esperando cardume.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quando se coloca a rede de espera?]</b></p>
<p>A rede de espera se coloca mais no inverno, quando não está dando peixe. Não dá para fazer as duas coisas porque a gente fica muito cansada fazendo as duas coisas ao mesmo tempo.</p>
<p>No verão, uma hora dessa era para a gente estar cansado de tanto puxar rede, mas estou aqui sentada.</p>
<p>De trasmalho, só de vez em quando, quando não está dando nada de rede tem que apelar para a rede de trasmalho.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quantas pessoas são necessárias pra puxar a rede de arrasto?]</b></p>
<p>Olha eu tenho uma pequena ali que umas seis pessoas puxam. Mas eu tenho uma rede maior que tem que ser umas 10 a 15 pessoas, porque pesa muito. Se estiver cheia de peixe, quando Deus abençoa que vem cheia de peixe, tem que ter bastante gente, senão a gente perde todo o peixe.</p>
<p>O Anderson, meu sobrinho tem 17 anos, trabalha com meu marido. &nbsp;Ele trabalha tanto com rede de arrasto quanto com rede de espera. Ele já atua comigo na pesca.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Que tipos de peixes se pega na rede de arrasto?]</b></p>
<p>Antigamente pegava variado, hoje não se sabe o que vem, agora, por exemplo, que é verão, é época de sardinha, chicharro, bonito, mas esses peixes estão sumidos. A espada hoje está difícil.</p>
<p>Dizem que lá na Ponta da Fruta tem muita sardinha, mas ainda não veio para cá. Era para estar pegando e era o que a gente queria que estivesse aparecendo, cardume de sardinha, de espada, mas não está dando nada. Esse mês está fraco mesmo.</p>
<p><b>[O que se pega com a rede de espera?]</b></p>
<p>Lá na rede de espera vem sarda, enchova, pescadinha, bonito, bagre, banco, quando vem, porque a rede de espera é todo peixe que passa no fundo. Joga a rede, a rede fica no fundo e é todo o peixe que vem. Quando a gente dá sorte, aí vem uma sarda, às vezes uma pescada, aí é muito bom, mas não é sempre que vem. Antigamente a gente ia na certeza, mas hoje não se tem mais certeza, o que vier, veio.</p>
<p><b>[Quantas vezes você tem jogado a rede de arrasto?]</b></p>
<p>Duas vezes por semana. Hoje eu já joguei duas vezes, mas não peguei nada. Hoje passou um cardume, jogamos a rede, mas não veio nada, era tudo peixinho pequeno. A gente está aqui esperando, eu vou ficar aqui até às 16h mais ou menos para ver se aparece algum cardume. Se não aparecer nada a gente vai embora e amanhã volta de novo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E a rede de espera, quantas vezes por semana você coloca?]</b></p>
<p>A rede de espera às vezes se coloca três vezes, porque a rede de espera se deixa lá. Por exemplo: coloca na segunda feira, fica lá a semana toda. Tem que ir todos os dias mirar, se estiver dando peixe, tem que ir duas vezes por dia, pela manhã e às 16h de novo, isso quando está dando peixe. Quando não está dando nada, deixa lá, vai lá hoje e pega o que tem. Amanhã por volta das 6h vai de novo para ver se tem alguma coisa, quanto tem puxa, recolhe o peixe, bate [a rede] para lavar e joga de novo no mar, não precisa trazer a rede, recolhe o peixe e deixa lá mesmo, fica uma duas semanas, quando dá sorte fica lá 15, 20 dias. Às vezes, quando está muito suja, tira e trás para terra para lavar com a água do mar mesmo, lava e coloca para secar, daí dois dias de novo vai lá e faz a mesma coisa. Essa é a rede de espera.</p>
<p><b>[Qual o processo da pesca do sururu?]</b></p>
<p>O sururu a gente vai de acordo com a lua, com a maré-baixa. A lua boa para ir é a lua nova e a lua cheia, quando a maré está mais calma. Na Lua crescente e minguante não dá para arrancar porque a maré bate muito. Geralmente vamos em quatro pessoas porque senão fica muito cansativo e cada um faz uma coisa, se for muita gente fica difícil. Aí, a gente tem o barquinho, vou eu, meu sobrinho, meu marido e, às vezes, minha filha também vai. Geralmente a gente vai às escalvadas, que é onde tem uns maiores, lá perto do navio. Lá meu sobrinho e meu marido arrancam. Nós temos uma ferramenta chamada grapuá, que é um pedaço de pau com um ferro na ponta, tem gente que chama de catadeira, mas a gente aqui chama de grapuá. Aí nós colocamos em um saco de estopa. Eles ficam agarrados nas pedras da ilha, cavouca e pega os sururus, depois coloca em sacos de estopa e amarra põe na batera e vem para terra.</p>
<p>A primeira coisa que se vê é a lua. As luas boas são: a lua cheia e a lua nova, não vamos na minguante nem na quarta crescente, porque a maré bate muito. Até dá, mas é perigoso, a gente pode cair e se machucar. A maré está agitada, para apanhar sururu o bom é quando a maré está mais calma, bom é quando ela dá zero, zero, mas esse ano ainda não deu nem uma, está dando ponto 3, ponto 4.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que é zero, zero?]</b></p>
<p>Zero, zero, é quando está sem onda. Na ilha ela não bate nada, fica como uma lagoa, você pode ir despreocupado porque você não vai se machucar. Tem que ver de acordo com o calendário, passa na televisão, o horário da maré. Se ela for dar 6h da manhã a gente tem que sair daqui às 5h, uma antes para chegar lá e fazer a preparação. Tem que encostar e amarrar o barco, tem que ir antes do horário dela para depois subir em cima da pedra e devagarzinho ir pegando, calçar o tênis para não se machucar, porque tem muito ouriço (é cheio de espinho que fura a gente) e muita casquinha, tem as ostras que, se a gente cair, a gente se corta, tem a mãe d’água que é perigoso e tem limo. Tem que ter muito cuidado, é um serviço gostoso de fazer, mas é perigoso e trabalhoso. Aí, depois que arranca o sururu, coloca nos sacos e amarra, lava e guarda todo o material do dia e vem embora para casa.</p>
<p><b>[Quais são as ferramentas que se leva para pegar o sururu?]</b></p>
<p>Um tênis, e não pode estar furado porque se tiver furado é perigoso entrar o ouriço, um par de luvas, cada um leva a sua luva, o grapuá e os sacos.</p>
<p><b>[O que é grapuá?]</b></p>
<p>Tem gente que chama de cavadeira. É um pedaço de pau, de um metro mais ou menos, e um ferro na ponta. Aqui nós chamamos de grapuá, mas por aí o pessoal chama de cavadeira.</p>
<p><b>[Quantas pessoas vão?]</b></p>
<p>O ideal são dois, três, porque se for muita gente fica difícil. Quando nós vamos na batera pequena, vamos em dois, porque senão não dá para trazer quase nada se for muita gente. &nbsp;No meu caso, eu tenho um barco a motor de sete metros e aí nós vamos em quatro pessoas. Normalmente vamos eu, meu marido e meu sobrinho, às vezes, a minha filha também vai.</p>
<p>Na Semana Santa geralmente o mar está bem mansinho, as minhas filhas também vão, porque não tem perigo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são as épocas do sururu?]</b></p>
<p>O único mês que geralmente não dá para ir é agosto, porque é o mês mais bravo e aí não dá para ir, mas hoje em dia está tudo mudado. Antigamente eu saberia te falar com certeza qual era o dia que dava para ir, hoje tem dias que a maré está boa e tem dias que não está. Parece que até o tempo eles mudaram. […] está difícil saber. Às vezes a gente diz: hoje não vai ter maré boa e chega aqui o mar está calminho. Às vezes é o vento que atrapalha muito a ficar em cima da pedra, o barco pode ir para muito longe, arrastar, então, quando está ventando muito não dá apara ir, mas hoje não tem como dizer se vai dar ou não para ir, tem que ficar de olho no tempo e na meteorologia para saber.</p>
<p>Quando se chega em terra, aqui mesmo se faz o fogo. Vamos nas obras e catamos lenha nas obras […]<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que se faz com o sururu assim que se chega do mar?]</b></p>
<p>A primeira coisa que tem que fazer é tirar do barco e trazer para a sombra, porque não pode deixar ele no sol. Então, a primeira coisa que tem que fazer é tirar os sacos (de estopa ou nas caixas) de sururus do barco (nas costas) trazer e colocar em cima da lona no chão na sombra e colocar o sururu em cima da lona, fazer o fogo e aqui mesmo cozinhar. A gente cata lenha nas obras. A gente cozinha e vai descascando aqui mesmo, às vezes tem aqui umas seis pessoas, ou até mais, trabalhando com a gente, tipo uma cooperativa.</p>
<p><b>[E como é? Tem que separar? Tem aqueles que não estão bons?]</b></p>
<p>Geralmente todos que vem da ilha estão bons, a gente cozinha e automaticamente quando ele está fervendo ele abre. O sururu é uma conchinha, ela vem fechada, lacrada, se você quebrar, estraga. Tem que cozinhar e automaticamente sozinha ela já abre e se tira o que tem dentro. Tem gente que quer um, dois quilos, geralmente estamos vendendo a R$ 20,00 o quilo, que pesa aqui na hora. &nbsp;Tem pessoas que querem somente comprar uma penca para comer como tira gosto, e se vende por R$ 2,00, R$ 5,00.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E a fogueira?]</b></p>
<p>A fogueira é para cozinhar o sururu, tem que cozinhar o sururu e se não estiver cozido o pessoal diz que não é fresco. Aqui tem pessoas que compram o sururu lá em Vitória para revenderem, mas aí tem que vir congelado porque senão estraga. Quando a pessoa vê congelado diz que não é de hoje, que não é fresquinho, você viu o moço falar agora – vou esperar você ir lá, pegar e cozinhar. O pessoal quer ver isso, isso aqui é uma coisa que não pode acabar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como se faz para ascender a fogueira?]</b></p>
<p>A gente pega duas pedras, põe em um cantinho, coloca a madeira e ascende. Eu tenho um caldeirão de alumínio que fica em casa guardado. Ou então a gente pega aquelas latas grandes de manteiga que tem nas padarias, tipo aquelas de tinta, limpa, lava em casa direitinho e traz para cozinhar. Quando a gente tira sururu, a gente fica o dia inteiro […] Na Semana Santa, que é em abril, vem pessoas de todos os lugares para comprar, é a época que mais vende.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Desde quando você pesca nesse ponto de Itapuã?]</b></p>
<p>Praticamente, desde os 12 anos de idade. &nbsp;Aqui foi passando de um para o outro. Antes era meu tio e depois eu. […] Sempre pesquei nesse ponto.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são suas lembranças daqui de Itapuã?]</b></p>
<p>Já foi uma época muito boa, agora é que a situação está meio ruim, meio complicada, mas já teve uma época muito boa.</p>
<p><b>[Como vocês ficam na praia?]</b></p>
<p>Nós ficamos sentados de olho para o mar. Quando o cardume aparece nós pegamos o barquinho e saímos em cima dele para tentar pegar, e tem que ser na mesma hora, a água mexeu tem que sair correndo.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que foi que os meninos avistaram lá?]</b></p>
<p>Eu acho que avistaram um cardume de chicharro.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quem foi para o mar?]</b></p>
<p>Foi meu sobrinho e meu primo. Foram com meu barco.</p>
<p><b>[Os dois foram e o que você fica fazendo aqui?]</b></p>
<p>Enquanto eles estão lá fico segurando a corda, porque se ele jogar a rede, se o cardume vier mais para perto, eu tenho que puxar a corda até chegar a rede, e é assim o tempo todo. Se estiver comendo tem que largar a comida, largar tudo e sair correndo. Vida de pescador é assim, é gostosa, é trabalhosa, mas é boa.</p>
<p><b>[Se seu sobrinho não estivesse aqui você que iria no barco?]</b></p>
<p>Não, porque teria que ter outra pessoa para ir comigo. Se eu estivesse sozinha não teria como. A rede tem que ser em dois, sozinho não dá. Tem que ser duas pessoas, uma para remar e outra para jogar a rede, não dá para esperar, senão perde o cardume.</p>
<p><b>[Eles já jogaram a rede?]</b></p>
<p>Não, ainda não. Estão esperando porque o cardume apareceu aqui e sumiu, foi embora. Aí tem que ficar um tempinho para ver se vai aparecer de novo ou o que vai acontecer.</p>
<p><b>[Quanto tempo vão ficar?]</b></p>
<p>Ficam ali uma meia hora, mais ou menos, e se não aparecer nada eles voltam para a terra de novo. Se aparecer, eles cercam e jogam a rede, se não aparecer nada, eles voltam e esperam.</p>
<p><b>[Quem está lá agora?]</b></p>
<p>Meu sobrinho e um primo, um tem 17 e o outro 19.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Todos os dias que você vem você trás seus sobrinhos e sua neta?]</b></p>
<p>Não, geralmente trago minha neta [dois anos de idade], porque a mãe dela tem que ir trabalhar e ela fica comigo. Ela não entra no barco comigo porque é perigoso. Se eu tiver que ir no barco ela fica aqui com a minha outra sobrinha, que toma conta, ela só fica em terra.</p>
<p>[E quais são as outras lembranças que você tem daqui?]</p>
<p>Eu tenho uma lembrança daqui muito boa, porque isso aqui já foi muito farto. Eu acredito que se as autoridades fizerem alguma coisa […] eu espero que antes de morrer possa ver como era antes. Gostaria muito que minha neta e minha filha de 15 anos que não chegaram a pegar essa época […] Porque a gente está sempre contando como era, quando a gente saía, nunca era perdido o cardume. Eu acredito que eu ainda vá viver muito e peço a Deus para que os governantes façam alguma coisa para voltar a ser como era antes. Isso aqui é muito bom de viver e trabalhar. Tirar o pão de cada dia honestamente daqui, com nosso suor, com nosso trabalho é uma coisa muito boa, sem precisar fazer nada de errado, sem estar prejudicando ninguém, foi Deus que nos deu isso aqui para nós trabalharmos. Quando esse mar está cheio de peixe, que joga a rede e pega os cardumes é muito bom, não tem nem explicação o que nós sentimos quando pegamos um barco cheio de peixe. Não só visualizando o dinheiro, é muito importante o dinheiro porque a gente vai ganhar com a venda do peixe, mas também é prazeroso, é gostoso saber que a gente está fazendo uma coisa com o nosso próprio suor. Criei minhas filhas […]<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Interrupção para a puxada.]</b></p>
<p>Está vendo o cardume de peixe? Você viu o peixe pular? É o cardume que está pulando. É chicharro!<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que eles estão fazendo agora?]</b></p>
<p>Agora eles estão cercando, porque agora eles estão vendo o peixe e jogando a rede. Isso é uma coisa muito bonita. Você está na praia com lazer, trabalhando, tirando seu sustento. Não tem nada melhor do que isso. […] Às vezes as minhas filhas vem, meu marido e junta todo mundo aqui. Daqui tiramos nosso sustento. […]</p>
<p><b>[Deu para cansar Marlucia?]</b></p>
<p>Deu um pouco, mas graças a Deus pegamos uns peixinhos, chicharro e bonito. É isso que está faltando vir, mas se Deus quiser vai começar a aparecer de novo.</p>
<p><b>[E agora o que você vai fazer?]</b></p>
<p>Agora, põe na banca e vende, vamos oferecendo aos fregueses e vamos vendendo.</p>
<p><b>[O que vocês pegaram?]</b></p>
<p>Bonito e chicharro. Esse mais escuro é o bonito, ele é bonito no tamanho e o nome dele é bonito mesmo. No alto mar eles chamam de atum, é o famoso atum, e esse aqui é o chicharro, bom para fazer moqueca e fritar.</p>
<p>Agora tem esperar para trazer a bicicleta para levar para a barraca, porque lá tem balança, tem sacola e fica mais fácil para vender.</p>
<p><b>[E comum nesse horário de 12h pegar peixe?]</b></p>
<p>É o que falei, no verão não tem horário, estamos aqui desde as 5:30h da manhã e olha o horário que fomos conseguir pegar, no verão não tem horário. Na hora em que Deus abençoa, o peixe aparece.</p>
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<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/todas-1.jpg" class="wp-image-6552" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Juraci Tartalha Caliari</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2015 17:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Juracy Tartalha Caliari, apelido Fio Grupo ao qual pertence: Praia da Costa Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 23/01/2014 Local / data de nascimento: nascido em Colatina, ES, 09/06/1958 Nome do pai: Armando Caleari, carpinteiro, faleceu aos 72 anos Nome da mãe: Ana Tartalha Caleari, do lar, faleceu aos 69 anos Casado, três [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://3.bp.blogspot.com/-gw4gx-3UsAc/VnRHcfP52oI/AAAAAAAAASs/CA0aR957-Gk/s1600/JTC_23.01.2014.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="480" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/JTC_23.01.2014.jpg" class="wp-image-6554" width="640" /></a></div>
<p><b>Entrevistado: Juracy Tartalha Caliari, apelido Fio</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Praia da Costa</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 23/01/2014</b></p>
<p>Local / data de nascimento: nascido em Colatina, ES, 09/06/1958<br />
Nome do pai: Armando Caleari, carpinteiro, faleceu aos 72 anos<br />
Nome da mãe: Ana Tartalha Caleari, do lar, faleceu aos 69 anos<br />
Casado, três filhos.</p>
<p>—————————————————————————————————————</p>
<p>Meu nome é Juracy Tartalha Caleari e meu apelido é Fio. Esse apelido é italiano, e já cheguei aqui com ele. Foram os meus que colocaram. Para mim não tem nenhum significado, é um apelido comum, igual aos outros. Acho que vem de filho. Pegou e ficou.</p>
<p>Moro em Terra Vermelha, Barra do Jucu. Eu nasci em Colatina, ES em 09/06/1958. Meu pai faleceu com 72 anos e minha mãe faleceu com 69 anos de idade.</p>
<p><b>[Qual o ponto de referência que vocês dão ao grupo de pesca daqui da Praia da Costa?]</b></p>
<p>O ponto de referência é a colônia de pesca que fica perto da padaria, da sorveteria Pilates e perto do restaurante Atlântica. Usamos também como referência o ponto das castanheiras mais conhecido como dos pescadores.</p>
<p><b>[Quantos barcos o senhor tem?]</b></p>
<p>Eu tenho dois barcos, esse aqui e outro que está na água com um companheiro meu. Ele pesca para ele, o barco está emprestado para ele, ele vem e vende o peixinho dele.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são os nomes dos seus barcos?]</b></p>
<p>Os nomes dos barcos são Ana Julia e Ana Júlia II, porque é o nome da minha neta. Eu tenho quatro netas. Duas são filhas do meu filho que trabalha aqui e duas da filha mais nova que mora em Cachoeiro. Na minha casa moramos eu, minha esposa, meu filho com a esposa e os dois netos. A outra filha é casada, mora perto da minha casa, mas ainda não tem filhos. Todos os meus três filhos são casados.</p>
<p><b>[O senhor tem alguns outros colegas pescadores que poderia indicar, que sejam mais velhos, que ainda atuam na pescaria daqui?]</b></p>
<p>O irmão do Eliomar, o Erivelton. Tem o Galo que pesca aqui, o Ari, que a gente chama de Gaguinho porque ele gagueja, e o Rogério.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como foi a sua infância?]</b></p>
<p>Minha infância foi boa, eu brincava de bola, era fascinado em jogar bola, todo o dia jogava bola.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor estudou?]</b></p>
<p>Eu estudei até a 8ª série. Na minha época tinha até o 5º ano, depois do 5º ano era 1ª, 2ª, 3ª, 4ª 5ª, e aí parava. Eu estudei até a 8ª e depois parei.</p>
<p><b>[O senhor disse que aprendeu a pescar com seu primo, ele ainda é pescador?]</b></p>
<p>Eu aprendi a pescar com um primo meu que já faleceu. Eu pescava em lagoa, em água doce. Quando eu vim para cá é que eu comecei a pescar com meu primo. Aí eu aprendi mais ou menos com uns doze anos de idade e comecei a pescar.</p>
<p>Mas eu tenho meu serviço na Prefeitura. Eu trabalho à noite e aí dá tempo de ter uma vaga durante o dia para pescar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como foi esse contato com a pesca?]</b></p>
<p>Foi por aqui mesmo, a gente ficava no meio dos pescadores aqui e ia aprendendo. Quando era mais novo eu morava no Ibes e aí a gente vinha para cá e pescava de cima dos barcos, eu e Erivelton, e foi indo, comecei a pescar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como seus pais reagiram quando o senhor começou a trabalhar com a pesca?]</b></p>
<p>Só falaram que era perigoso sair de barco para pescar, mas nunca me proibiram e continuei pescando até hoje. Eu e meu primo passamos bastante tempo pescando juntos, mas depois que ele faleceu […] Morreu aqui na Praia da Costa, caiu dentro d’água. Ele tinha problema de epilepsia, caiu na água e não deu para salvá-lo, e morreu. Isso tem uns seis anos.</p>
<p>Às vezes, a gente ia pescar junto e outras não, a gente variava os colegas para ir pescar. Um dia com um, outro dia com outro, não ficávamos todo o tempo junto.</p>
<p><b>[Como era a pesca antigamente e como está hoje em dia?]</b></p>
<p>A pesca antigamente era bem melhor, tinha mais condições de peixe, mais quantidade. Agora, nessa época mesmo, […] naquela época uma hora dessas o peixe estava aqui. Hoje, já não tem mais. O pessoal da CST, de Tubarão, vão jogando […] tiram a lama do valão ali e jogam por aqui. Aí tampa as pedras e não tem como, os peixes vão embora. Depois que fizeram o píer de Tubarão acabaram com os peixes daqui, só vai acabando.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais eram os tipo de peixes que se pescavam antes?]</b></p>
<p>Ah vários tipos de peixes: enchova, robalo, muita espada, muita pescadinha, dava muita sardinha. Agora está acabando tudo.</p>
<p><b>[E hoje em dia, que tipo de peixe vocês pescam?]</b></p>
<p>É o que você está vendo aí – uma espada, uma pescadinha. Quando aparece enchova a gente pesca, mas raramente. É muito difícil.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E qual é a quantidade que se pesca por dia?]</b></p>
<p>Uma média de 20, 25, 30kg. Antigamente dava bem mais, o dobro. Antigamente a gente pescava aqui, agora tem que ir lá fora, lá em Itapuã, lá em Coqueiral.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]</b></p>
<p>Não, tenho a Prefeitura, sou efetivo. Lá eu trabalho como vigia há 28 anos, uma noite sim outra não.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como o senhor concilia seu trabalho com a pesca?]</b></p>
<p>Quando saio do trabalho vou em casa, faço café, tomo e venho para cá. Venho para a praia quase todos os dias.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como é sua rotina de pescador?]</b></p>
<p>Quando eu estou trabalhando eu acordo às 4h, às 5h deixo o serviço. Meu horário de largar o serviço é às 6h, mas eu largo uma hora antes justamente para vir para cá. Aqui sai uma fonte de renda pouca, mas sai. O dia que eu não vou trabalhar, por exemplo, amanhã, eu venho mais cedo. Acordo às 4h e venho para cá. Pego o carro (ônibus) às 4:30h e chego aqui às 5:20h, mais ou menos. Todos os dias eu venho de ônibus. Chego em casa faço o cafezinho e venho para cá.</p>
<p><b>[Qual a primeira coisa que tem que fazer quando chega aqui na praia?]</b></p>
<p>Quando chego aqui desço a embarcação, coloco tudo dentro e saio para pescar. Dia de domingo eu não venho para a praia pescar é o dia que eu descanso. Se estiver chovendo muito eu não saio para pescar. A não ser se pegar chuva lá (no mar).</p>
<p><b>[Tem alguma variação dos meses do ano em que vocês pegam mais ou menos peixes?]</b></p>
<p>Tem. A época da enchova é setembro, a gente pega três, quatro peças de enchovas grandes, coloca aqui e vende, mas tem época que a gente vai lá e não pega.</p>
<p>Em janeiro é pescadinha, espada, alguma pescada que sai maior, porque o peixe está sumindo.</p>
<p><b>[Como é a sua pesca?]</b></p>
<p>Eu não pesco com rede. Eu pesco só de linha, de anzol. Aqui a pesca é artesanal.</p>
<p><b>[Como é a preparação da linha e do anzol?]</b></p>
<p>Na preparação você usa um arco, faz um aparadinho com dois anzóis, coloca a linha, joga a linha com a isca, o peixe belisca e você puxa. Cada linha tem dois anzóis. A gente joga duas linhas cada uma, uma de um lado e outra de outro. No barco vamos ele (o rapaz que tem problema de audição que é colega daqui) e eu. O barco é meu, a gente divide o peixe que vende aí, sem problema nenhum.</p>
<p><b>[Onde o senhor compra os materiais de pesca?]</b></p>
<p>Eu compro em casa de pesca.</p>
<p><b>[O que o senhor usa como isca?]</b></p>
<p>Como isca eu uso tainha, que eu compro aqui mesmo na praia. Quando a gente acha para comprar aqui, a gente compra aqui mesmo. Quando não acha para comprar aqui, a gente vai a Vila Rubim, em Santo Antônio ou em outro lugar. Tem que encontrar isca para poder pescar, senão não pesca.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são os tipos de anzol?]</b></p>
<p>Tem vários tipos de anzol: tem o anzol 8, 9, 10, vai variando. Aquele tipo de anzol que for melhor a gente coloca.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Com que tipo de anzol o senhor costuma pescar?]</b></p>
<p>Costumo pescar sempre com o de 10. A numeração de linha varia de 70, 80, 90, 100. Isso varia conforme o peixe. Se for espada, a gente coloca uma linha mais grossa para poder puxar o peixe melhor. Se for pescadinha a linha é mais fina.</p>
<p><b>[Como sabe se o peixe fisgou?]</b></p>
<p>Ele puxa a linha. Tira o peixe e joga na caixa e joga a linha de novo com a isca. O dilema é esse!<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual a quantidade que o senhor pesca?]</b></p>
<p>A quantidade varia. Às vezes pega 10, 20, 30, 5, 2kg.</p>
<p><b>[Quanto tempo o senhor fica no mar?]</b></p>
<p>Saio daqui às 5:30h e às 6h estou lá. De 6h até às 10h, quatro cinco horas de pescaria.</p>
<p><b>[Tem peixes que são mais fáceis de pegar no anzol?]</b></p>
<p>Por exemplo, a pescada é grande 4, 5kg, quando ela puxa lá em baixo, ela já puxa querendo tomar a linha, carregar a linha. A gente tem que descarregar a linha, aí ela cansa e a gente joga para dentro do barco. A espada não, ela puxa, a gente puxa para cima e joga para dentro. A pescadinha é mais fácil: ela beliscou, puxa e joga para dentro, pronto.</p>
<p><b>[Tem algum peixe que não se pega com o anzol, ou é mais difícil?]</b></p>
<p>No mar todos os peixes se pegam com anzol. O que tem mais dificuldade para pescar é a pescada. Ela só carrega um pouquinho, e aí a gente dá um descarrego de linha, depois puxa de volta, pronto.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Há quanto tempo o senhor pesca nesse ponto da Praia da Costa?]</b></p>
<p>Há uns 20 anos ou mais. Teve um a época que eu pesquei na Barra, mas foi pouco tempo, um ano mais ou menos, depois vim para cá e estou aqui até hoje.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual a lembrança que o senhor tem desses pontos de pesca?]</b></p>
<p>As histórias de pescadores, de pesca. A gente conta a história da gente.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Mudou muito?]</b></p>
<p>Mudou muito. Antigamente essas bancas não eram assim. Era tudo de madeira, esquisito. Agora é de alvenaria, inclusive o prefeito Max Filho já tentou vir aqui derrubar as mesas, mas não conseguiu. O próprio morador vem aqui, vem comprar um peixinho fresco, são eles (os moradores) que não deixaram derrubar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quanto tempo o senhor acha que vai continuar pescando?]</b></p>
<p>Ah, até a minha morte! Isso aqui e um vício que você não larga de jeito nenhum, então é até a morte mesmo.</p>
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<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/todas-2.jpg" class="wp-image-6555" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: João da Cruz Cardoso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2015 17:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: João da Cruz Cardoso, apelido João do Zeco Grupo ao qual pertence: Itapuã Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves Data da entrevista: 15/10/2013 Local / data de nascimento: Vila Velha, município de Jaguaruçú, próximo a Terra Vermelha, 12/11/1926 Nome do pai: José Cardoso de Paiva, pescador Casado, 6 filhos. ——————————————————————————— [De onde veio esse [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
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<p><b>Entrevistado: João da Cruz Cardoso, apelido João do Zeco</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Itapuã</b><br />
<b>Entrevistador: Maria Clara Medeiros Santos Neves</b><br />
<b>Data da entrevista: 15/10/2013</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Vila Velha, município de Jaguaruçú, próximo a Terra Vermelha, 12/11/1926<br />
Nome do pai: José Cardoso de Paiva, pescador<br />
Casado, 6 filhos.</p>
<p>———————————————————————————</p>
<p>
<b>[De onde veio esse apelido?]</b></p>
<p>Esse apelido veio dos meus pais. Meu pai tinha o apelido de Zeco. Aqui ele era conhecido por Zeco, era pescador. Mas o nome dele era Jose Cardoso de Paiva.</p>
<p><b>[Fale um pouco sobre seus pais.]</b></p>
<p>Meu pai era uma pessoa de pouca renda e viveu com muito sacrifício. Ele era pescador. Em 1945, ele passou a trabalhar no porto, naquele cais de minério, no Atalaia, e ganhava C$150,00 por mês, era o salário daquela época. Ele foi para lá em 1945. Eu estava aqui pescando, tinha tirado minha carteira em 1943. Eu estudei aqui, no Vasco Coutinho, e completei até o 4º ano. Quando completei o 4º ano fui lá para a Escola Técnica, na inauguração da Escola Técnica, foi em 1943. Lá eu estudei uns oito meses, mas não tive condições de continuar.</p>
<p><b>[Qual o curso?]</b></p>
<p>Eu ainda ia decidir. Tinha todas as profissões. Eu ia escolher uma profissão e estava pensando em mecânica. Quando chegou outubro, novembro não aguentei mais, porque não tinha dinheiro para a passagem e meus pais não podiam dar. Enquanto era até junho que nós estudávamos das 7h às 11h, na parte da tarde eu fazia alguma viração, alguma coisa e outra para arrumar o dinheiro para a passagem. Mas quando passou de julho em diante, depois que voltamos das férias, passou-se a estudar das 7h às 16h. Davam almoço e café. Mas tinha dias de explicações no quadro e tínhamos que sair às 5h e às 5h não tinha condições de eu fazer mais nada e aí eu terminei saindo. Saí de lá, peguei os documentos e fui dar entrada na Capitania. Dei entrada em 1943. Eu entrei lá (Escola Técnica) em janeiro e saí de lá em outubro. Em novembro eu dei entrada na Capitania para tirar minha carteira.</p>
<p>Isso aqui era mato puro, não tinha nada. Aqui só tinha quatro grupos de pesca, quatro grupos que tinham as turmas certas, que trabalhavam com eles. Depois, eu entrei numa, entrei para outra, na outra, eu equilibrei um pouco e foi quando eu fiz meu grupo. Daí em diante, estamos até hoje. Hoje eu não tenho esse grupo porque eu não tenho mais rede de arrastro, não tenho mais nada. A rede de arrastro, se eu não abandono, eu já tinha morrido, era muito pesada.</p>
<p>Eu trabalhei com bote a motor de 70 a 80. Em 1980, pedi para me aposentar. Eu tinha dois botes e me desfiz de um e fiquei com outro. Quando eu me aposentei, desfiz do outro porque a quem eu entregava não tomava conta certo. Eu me aposentei em 1988, vai fazer agora, em 29 de novembro, 32 anos de aposentado. Me aposentei com 38 anos trabalhados e essa é a minha situação até hoje. Eu não peguei a minha aposentadoria na época da guerra porque tinha uma lei de praia […] que queriam tanta documentação que não me quiseram dar os tempos de 43, me deram de 47, e já tinha acabado a guerra, aí eu perdi essa inclusão no meu salário.</p>
<p>Fiquei por aqui mesmo, trabalhando mesmo. Nunca fumei, nunca bebi, nunca fui de farra, só trabalhando. Quando eu me casei fiz uma casinha na Rua Sete de Setembro, em frente à Clínica Vila Velha, tem até dois filhos que moram lá. Dali eu vim […] campo em 1962, morava numa casa que não tinha luz, não tinha nada, só tinha água. Depois, trabalhando fiz uma casa ali na descida do Santuário e passei a morar ali. Com o tempo eu vim morar aqui. Eu tenho uns trinta anos aqui. Antes de me aposentar eu frequentava aqui, mas não morava aqui.</p>
<p>Eu morei num barraco, fiz outra coisa, fui melhorando, fiz duas casas para as duas filhas aqui, […] fiz lá em baixo que é alugado, fiz duas quitinetes lá no fundo e fui levando a vida porque eu não paro, a minha vida não para. Quando saí, meu salário minha filha recebe lá, e aquele salário é somente para fazer alguma compra e comprar remédio. Eu pago R$400,00 de plano de saúde e eu sou dependente de uma filha. Agora passou para R$400,00 por mês que eu pago, fora remédio. Eu tomo uma média de dezoito comprimidos por dia. Todo dia, não pode faltar. Agora, eu tenho seis apartamentos.</p>
<p><b>[Qual o seu problema de saúde?]</b></p>
<p>Eu operei o coração duas vezes. Tenho diabetes, mas é controlada.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como foi o seu aprendizado da pesca?]</b></p>
<p>Eu aprendi a pescar com meu pai. Eu pescava com meu pai. Quando eu vim pescar, meu pai já pescava aqui há três anos. Ele sempre pescou, mas não tinha material de pesca, só pescava. Era uma pessoa de pouco recursos, muito pouco. Quando eu comecei a trabalhar, comecei a ajudar em casa para poder controlar. Eu não sei com quem ele aprendeu a pescar.</p>
<p><b>[Seu avô pescava?]</b></p>
<p>Não conheci meu avô. Não conheci meus avós, nem de pai, nem de mãe, só conheci uma avó, que tinha o nome de Maria Vigília da Vitória, era a mãe do meu pai, o resto eu não conheci.</p>
<p>Em 1935 foi quando viemos para Vila Velha. Não tem esse roçado aqui que chamam de Coqueiral de Itaparica? Isso aí era mato puro. Só tinha a estrada no meio do mato que ia sair na Barra, da Barra para Terra Vermelha, para o Xuri. Para esses cantos não tinha estrada ainda. Depois de 1935, abriram uma roçada ali, para plantar coco e plantaram muito. Mas depois foi se acabando, e é por nisso que tem esse nome Coqueiral de Itaparica. Ele começava aqui, onde tem esse posto de gasolina, e ia até lá no Dunas, de um lado e de outro, era um coqueiral grande. Mas foi indo, foi se acabando e está nessas condições que está.</p>
<p>Prédios! Prédios da Praia da Costa até aqui. Eu conheci o Guruçá e um que tinha lá em frente ao Libanês, do lado de cima, tinha um hotel ali, e o Sereia que era muito antigo. O bar Sereia era dos Motta, que eram os donos daqueles terrenos todos da Praia da Costa, até quase aqui perto do Guruçá, que fica na esquina da Champagnat com a Rua Gil Veloso. É o prédio mais antigo. Eu não conheci nenhuma casa dali do Guruçá pra cá. Quando eu comecei a vida aqui não tinha nenhuma casa, nenhuma. Aqui também era mato puro. Só tinha a família dos Miranda, que morava ali em baixo. Eles foram os pioneiros daqui. Maria Miranda nasceu aqui.</p>
<p>Agora, quando eu cheguei aqui tinha um pessoal que falava que já pescava há 20, 30 anos. Quando eu cheguei aqui tinha Antônio Nunes, Benedito Galdino, João de Oliveira e Carlos Borges. Eram os quatro que tinham conjunto de pesca aqui. Tinha outros pescadores que pescavam só de […] Mas esses [os quatro] pescavam com rede, tarrafa. Quando eu cheguei, eu não tinha nada e comecei a fazer tarrafa. Foi indo, fui crescendo e quando eu parei eu tinha uma das melhores redes daqui. Minha vida foi toda empregada aqui, não teve jeito. &nbsp;Meu pensamento era estudar, mas não tive condições.</p>
<p><b>[Com quantos anos o senhor começou a pescar aqui?]</b></p>
<p>Comecei a pescar com 17 anos, como profissional. Antes disso eu já pescava quando garoto, com meu pai, com outros. Mas, foi ele (meu pai) quem me ensinou a pescar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O senhor lembra-se dos que te ensinaram a pescar?]</b></p>
<p>Meu pai foi um. Tinha o Orminto de Oliveira Santos, que foi o que mais me ensinou a pescar de linha. De rede eu aprendi dentro do movimento do remo. Conheço Messias, que foi um garoto que nasceu depois de que eu estava aqui. O Zé boião. Só tem aqui os descendentes dos que eu topei aqui, não tem mais ninguém na vida. Agora de 1990 para cá, de 2002, eu parei de pescar.</p>
<p><b>[O senhor conheceu o pai do Josias?]</b></p>
<p>Conheci muito o pai do Josias, o Darli. Eles moravam aqui. Os irmãos dele, o Jorge, e tinha mais outro, o Jorge era pescador também, só pescava. O Darli era pescador, não era de confusão, teve família e ainda está vivo. Não sei se está morando em Terra Vermelha.</p>
<p>Tem o Valdenildo, que andou pescando durante muito tempo aqui, também está vivo, mas não mora mais aqui e nem pesca.</p>
<p>Terra Vermelha eu conheci quando era areia pura. Agora, não conheço nada. Quando eu vim de lá para cá, ali era tabuinha, era areia quente que tinha até a Barra. A estrada só ia da Barra a Ponta da Fruta e lá parava.</p>
<p>Aqui antigamente existia muito respeito. Antigamente, tinha fiscal. Quem mandava na pescaria era a colônia que ficava aqui. Depois veio a SUDESP, depois vieram tantos […] que eu nem sei quantos foram. Essa Florestal é a que mais castiga aqui. Proibiu a gente botar tarrafa aqui, nessas pontas de pedra não podemos botar tarrafa nem nada. Nos proibiu de tudo e só tivemos ajuda aqui de pescaria em 1946, mais ou menos. Quando veio um […] do Rio, mas vendia para os pescadores fiado. Teve muito pescador que ficou devendo. Teve um que abriu falência de tanto que roubaram […] perto de Guarapari era dos chefes aí, também ele e Dr. Mendonça. A gente ia lá comprar um objeto a dinheiro, ele não aceitava, era só comprado fiado e quando não tinha no depósito o material que a gente queria ele mandava o fiscal comprar […].</p>
<p>Teve muito pescador sem vergonha que pegava o material de lá, da Barra, esses eram da Barra e vendiam aqui no comércio de Vila Velha. Era uma armadilha que fazia antigamente, caçuá [rede de malhas largas], pra pegar xaréu. Precisava puxar o fio de três para poder fazer essa armadilha. Ela tinha 25cm de tamanho, a malha. Agora de lá pra cá, o respeito aqui é muito pouco. Aqui ninguém respeita os donos de rede. Não respeitam um ao outro, entra por dentro do outro, de rede.</p>
<p>Tem duas safras. A passada e a que passou agora, que não deu peixe para ninguém. Antigamente a gente parava porque não tinha venda. Parava. O peixe passava e ninguém caía em cima do cardume de manjuba, ninguém trabalhava porque não tinha valor e também dava muita qualidade de peixe. Hoje em dia não dá sarda, não dá anchova, não dá xaréu. Peixe de linha ali fora sumiu. Sumiu a corvina, o roncador, são peixes que sumiram mesmo. A peroá dava muita, até na beira daquela ilha ali dava peroá, muita peroá branca. Mas depois ela sumiu que até hoje quando um acha ela lá fora é só aquele dia, dois, sumiu, desapareceu. E aqui, saía de cima dela porque não tinha valor. Hoje em dia viver aqui só da pescaria é viver no cabresto, não é vida boa não! &nbsp;Quem tem rede aí está… Pelo que eu vi e pelo que eu vejo, não tem não.</p>
<p>Pescaria aqui, praticamente, eu acredito que ela vai se acabar igualmente na Praia da Costa, Ribeiro, Inhoá, Vila Velha, Prainha de Vila Velha, onde é a Escola de Aprendiz de Marinheiro. Ali era uma vila de pescadores e só moravam pescadores. Fizeram umas casas em outro lugar deram para eles e fizeram a Marinha, a Escola de Aprendiz de Marinheiros. Na época da fabrica de bala, a grande fábrica de bala, a Garoto, eu trabalhava ali na prainha. Conheci aquela fábrica por dentro trabalhando com quatro motores. Tive duas irmãs que trabalharam lá. A bala era batida na parede com um gancho por um camarada até dar ponto para fazer a bala. Eu conheci muito aquilo lá. Fazia quase todo tipo de bala. Tinha bastante melado. Era ali na entrada que vai para a Marinha, onde tem um colégio hoje em dia.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Tinha ali uma fábrica de cal?]</b></p>
<p>Tinha uma fábrica de cal em Jaburuna. Tinha também uma fábrica de sabão. Mas quando eu cheguei a conhecer só tinha a armação do prédio, não tinha mais nada. Era entre Jaburuna e a Prainha, naquele intervalo, porque a outra parte era dos Leal, que eram donos dali até a maternidade. Talvez ele ainda tenha uns dois filhos vivos ainda, uns morreram cedo […]</p>
<p>Eu conheci Vila Velha com poucas ruas. As ruas principais não tinham. A Sete de Setembro não era completa. Da Sete de Setembro para o lado sul não tinha nenhuma rua completa. &nbsp;Essa que passa pelo Santuário, aquela que passa pelo cemitério, aquela nas costas do cemitério, o que tinha era caminho. […] Hoje eu não conheço mais.</p>
<p><b>[Além das casas dos pescadores o que mais tinha na Prainha?]</b></p>
<p>Eram duas casa para chegar à areia da Prainha. Ali tinha uma fábrica de bala. […] Tinha a casa da D. Celeste, que morava numa beira de casa, e o pai do Dr. José Luís Schneider. Eu estudei com ele. O pai dele morava lá perto da fábrica de bala. Fizemos do 1º ao 4º ano juntos no Vasco Coutinho e o diretor era Ernane de Sousa. Ali eu fiz do 1º ao 4º ano.</p>
<p><b>[Fale um pouco do centro de Vila Velha]</b></p>
<p>Do centro de Vila Velha eu me lembro pouco. Me lembro do aterro que fizeram que era até na beira do Fórum. &nbsp;O mar vinha ali. Por ali eu botava arrastão, botava rede de noite. Quando a coisa estaca ruim aqui a gente corria para lá. Era rede de arrastro de um canto a outro. O Batalhão não tinha nenhuma área ali ainda e nem a Marinha. Aquilo era água pura. Era um local que de vez em quanto eu me recordo que era pra nunca ter sido aterrado porque foi aonde pisou o primeiro donatário do Espírito Santo.</p>
<p>Aquele portão do convento, &nbsp;a entrada antiga, hoje em dia ninguém quase pode subir mais por ali porque o Exército tomou conta de tudo.</p>
<p>A Praça de Vila Velha, não tinha. A Rua Duque de Caxias, não existia. Conheci ali tirada de areia. Aquele local era pra ser mar seco. &nbsp;Porque numa enchente que deu que a água foi lá em cima foi quase perto da praça. Foi a enchente de 1960. Eu andei nessa baixada aqui todinha de canoa, passando por cima de cerca de arame. Essa é a lembrança de quando eu passo pelas ruas […] isso foi até secar. Dr. […] ele fez uma estrada &nbsp;para aquele carros que andavam em areia. Ele fez uma estrada por aqui até a Praia da Costa. &nbsp;Mas na metade da enchente a Praia da Costa ficou também prejudicada porque passava numa ponte que tinha ali perto do Marista e eles estouraram aquela ponte para dar evacuação às águas. Era uma baixada dali da beira da ponte, na beira do Marista até cá em cima perto do corpo da praia. Tinha lá, uma baixada grande, que era banho de burro muito era baixa, até hoje a gente sai da Henrique Moscoso para Praia da Costa tem um elevado ali. Aquilo ali foi aterro. Foi o Campanelli que fez aquele aterro para asfaltar para a Praia da Costa, até isso eu lembro. Não me lembro de quando asfaltaram.</p>
<p>Quando eles asfaltaram eu apanhei da pedreira onde está a cabeça da ponte – ali era uma pedreira e quebraram tudo. Eu apanhei muita pedra para fazer o alicerce da primeira casa que eu tinha na beira do Santuário. Arranquei muita pedra ali. Eles liberaram, e aí a gente podia apanhar. Disso eu lembro bastante.</p>
<p>Rua mesmo só tinha a Rua o Torrão, que era aquela rua que sai do Marista, que hoje em dia tem outro nome. Passa lá no portão do Convento, a Rua Maria Grinalda que era chamada Rua do Torrão. Ali tinha e ainda tem uma delegacia. Ali eu conhecia tudinho. Por baixo passava um valão da Praia da Costa, ali está tudo aterrado.</p>
<p>O matadouro era lá no pé do Convento, até pouco tempo era do Dr. Francisco que era neto do Godofredo Schneider (pai do Dr. José Luís Schneider) […]</p>
<p>Ali em Boa Vista eu peguei uma questão. Eu era procurador da família. O filho fez uma conta errada da mãe que estava com 86 anos. Eu era procurador da minha sogra. Os outros herdeiros que faziam parte dessa família, eu comecei uma briga porque fizeram a conta errada. Então disseram que iam vender porque não iam ganhar nada. E venderam 600m². O mais caro que eu comprei foi por 15,00 cruzados o mais barato por 10,00 cruzados. De um herdeiro eu comprei 14.800m² na faixa de 25m de largura por 186m de comprimento. Mas houve muita invasão, houve duas invasões. Estava na justiça, mas tiraram e eu vendi por pouco e mais ou nada. Desses 600m eu comprei seis pedaços de 600m e quando vendi, vendi barato e fiz uma casa e fui melhorando de situação.</p>
<p>No meu tempo de novo foi muito sacrifício que eu fiz na minha vida. Quando eu me casei em 1950, eu já tinha uma casinha ali, de alvenaria. Me casei com Angélica Gomes Cardoso. Tivemos seis filhos: um homem e cinco mulheres. Três moram em Vila Velha e duas moram aqui. Meu filho mora em Vila Velha também.</p>
<p><b>[O senhor gostaria de falar mais alguma coisa de Vila Velha, de Itapuã?]</b></p>
<p>Cheguei aqui era mato puro e topei esses cinco que já dei o nome deles. &nbsp;Morador mesmo quando eu cheguei era só o pessoal dos Miranda. &nbsp;Tinha o velho e mais as filhas que tinham uns barracos, perto daqueles prédios altos, e tinha um outro, que tinha uma casinha aqui. Daí em diante foi chegando gente, foi chegando. Isso daqui não tinha dono. Diziam eles que eram donos. Uns diziam que eram donos, mas nunca provaram na justiça que eram donos. Tomaram conta, entendeu?</p>
<p>Eu fico pensando na quantidade de gente que vai vir para essas construções. E vai ser muita e está se estendendo por aí a fora, Ponta da Fruta, Jucu, Terra Vermelha, Xuri, […] era do pa[dre] José, que só andava a cavalo. Ele era encarregado do Convento, mas também andava com dois revólveres. Ele saía daqui pra lá com dois revólveres na cintura. Era dono [daqui].</p>
<p><b>[O senhor se lembra da construção do Marista na Champagnat?]</b></p>
<p>Eu lembro muito. Aquele terreno do Marista era do pessoal do Dr. Américo, que alugou o terreno […], não me lembro do […], mas o pessoal do Dr. Américo alugou aquele pedaço de terreno […], ali onde era o sítio dos Batalha até em baixo.</p>
<p>Houve uma invasão, só ficou a parte do Marista e o morro que se chamava Batalha. Passei muito por ali, quando era garoto, para tomar banho no braço de rio. Antigamente era limpinho […] começaram a jogar esgoto e agora fecharam tudo. Vila Velha antigamente tinha saída de água, hoje não tem mais.</p>
<p><b>[Fale da pesca.]</b></p>
<p>Antigamente eu pescava de canoa, igual a essas canoas de índios. &nbsp;Quando eu fiz o bote eu desconhecia até os lugares, a distância que eu andei fora da costa no bote.</p>
<p>A canoa era dessas canoas de índio, ainda tem algumas. Elas tinham quilha, só que as de índio não tinha quilha, mas as daqui tinham. &nbsp;Pescava de pé ou sentado. Mas para remar era sentado e tinha três bancos: um na proa, um no meio e outro na popa. Remava sentado e também andava muito no pano. O vento, quando não estava favorável, ninguém remava, andava no pano. Tinha tempo que a gente andava no mar adentro aqui, no mínimo, umas dez milhas fora da costa. Desaparecia, sumia as praias. A gente às vezes ia até o estado de Minas. Eu não perdi a vida porque Deus abençoou.</p>
<p>Quando eu ia pescar na canoa, eu ia com no máximo duas pessoas, eu e mais dois. &nbsp; Nesses caiaques é a mesma coisa, pescava muito sozinho. Quando eu passei a pescar em caiaque aqui, caiaque é termo novo, esse aí, eu pesquei muito no remo e pescava sozinho. Antigamente dava peixe. &nbsp;Hoje em dia ninguém vê peixe. Peixe que eles estão matando aí não dá para sustentar a família.</p>
<p><b>[O senhor se lembra das pessoas que pescavam com o senhor?]</b></p>
<p>Muitos já morreram e nem lembro mais. O Orninto foi um que desapareceu no mar. Manoel Miranda também foi outro. Era o mais velho da família dos Miranda, que chegou a pescar comigo, é o bisavô do seu Damião. A Maria é filha de uma filha do Manoel Miranda, da D. Tereza, que morreu com mais de cem anos. Tinha uns que bebiam muito e morreram cedo. Ultimamente quem quase morreu foi Serafina, que é a mãe do Gilson. A filha de Serafina é que era dona do barraco, casada com o finado […] que era de Anchieta. Esse menino morreu novo.</p>
<p>Resultado: Quase tudo ali é dos Miranda. O resto daqui veio chegando muito depois. […], outros já morreram. Antigamente não tinha esse calçadão, não tinha nada. Quem fez isso foi o prefeito Jorge Anders. Foi quem deu vida aqui. Colocou luz e água. Fez essa rodovia aqui, ele tinha aqui um terreno que hoje em dia tem aqueles dois prédios.</p>
<p><b>[Como o senhor pescava além das 10 milhas?]</b></p>
<p>A gente pegava muita pouca coisa ruim lá fora. Antigamente a gente tinha noção do tempo. O tempo estava para virar […], qualquer coisa a gente já pressentia. Quando dava muito nordeste a gente não viajava. Antigamente dava muita ressaca de mar, muita mesmo, de atravessar essa estrada. Hoje em dia isso se acabou.</p>
<p><b>[Que tipo de pesca era feita lá?]</b></p>
<p>Lá pescava com linha de fundo: de alto, caixilho e enseada. Enseada é o peixe que dá aqui pela beira da praia. De alto é o mar que trabalha, e o caixilho é mais fora, a gente perde a noção de terra. A beirada então a pessoa pega serra, é mareado.</p>
<p><b>[Qual o tipo de peixe que vocês pegavam nessas áreas?]</b></p>
<p>Lá se pegava papa-terra, peroá, catuá … Era muito peixe misturado, tudo isso na linha. Cação nós pegamos partindo a linha deles, que era grande. Cação de 200, 300kg. Encontrava com eles e aí parava, um fazia […], eu mesmo encontrei muitos, mas nunca atacou. Hoje, até no alto, a gente não acha peixe quase nenhum porque botaram umas armadilhas. Hoje a pescaria moderna é que acabou com toda a pescaria de costa, o arrastão, a traineira. Arrastão e traineiras são devastadores de costa. Porque a traineira apanha, trás. Mas os arrastões não trazem peixe nenhum, só traz peixe […]. Aquela outra quantidade que vai para cima do convés joga tudo na água, joga fora. Às vezes, tem baloeiro aí que só apanha camarão. Aí o peixe miúdo eles jogam tudo fora, não deixam nada e é o que vai acabando com o movimento. Antigamente a gente dava de rede aqui e pegava seis, oito toneladas, eu dei várias vezes. Mas hoje em dia esse peixe não aparece mais. Aqui teve dois anos, uma foi em 1949 e outra foi em 1962. Apareceu enchovinha de quilo em cardume só daquele tamanho, de um quilo abaixo, cardume fazendo o roxo, igual roxo. Foi nesses dois anos, também não deu mais.</p>
<p><b>[O que é fazer roxo?]</b></p>
<p>A manjuba a gente conhece quando ela vem pulando ou vem sombreada, vem só em cima d’água sem pular, sem nada. Ela faz um roxo em cima d’água. Aí, a gente conhece os cardumes de peixe por isso. Aqui não se cerca à toa, muito difícil cercar à toa.</p>
<p>A rede de fundo é uma rede que se bota gancho e o que tem de fundo ela vem trazendo, e aquilo a gente não vê. Só vê em terra. Agora as outras redes poeiras, só se vê cercando: se vê, se cerca, se não vê, não se cerca. A boieira fica em cima d’água que tem as boias, já as de fundo vem por debaixo d’água.</p>
<p><b>[Fale um pouco de cada uma delas]</b></p>
<p>Quando vamos pescar de canoa fazemos a pesca de linha de fundo, ou pelo contrário, quando vai mirar alguma malha pessoal. A malha? acabou-se. Caboclos que trabalhavam com ela aqui, na beira da praia, pararam. Nessas pontas de ilhas a Florestal proibiu tudo. Se tomar, carrega. É o IBAMA e a Florestal. A Florestal nos castigou muito. Tomou o material de pescador aqui que valia mais de R$20. 000,00. Tomou, prendeu e ainda está respondendo processo e perdeu o direito de botar. Aí, acabou essa pescaria.</p>
<p><b>[Como ela era?]</b></p>
<p>Nós colocávamos ela parada. As moitas que seguram ela ficavam lá fora e ela era parada. A moita hoje em dia se chama de galhateira. Essas galhateiras têm de gancho que ficam em baixo.</p>
<p>A Florestal está querendo, mas o pessoal não está obedecendo: se tirar a carteira para pescar um peixe, ele não pode pescar outro. A gente vai lá pra fora para procurar e o que der, pegar. Se ele disser que ele vai pescar dourado, ele só vai pescar dourado e assim por diante. Hoje em dia é muito difícil encontrar garoupa, sumiu tudo. Aqui dava sarda em quantidade nessas beiras de pedra. Hoje em dia não dá nada… Sumiram esses peixes, desapareceram e, a cada tempo que passa as coisas mudam…<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Descreva cada técnica de pesca]</b></p>
<p>A linha de fundo é o […] que desce de baixo, chumbada. Ali se amarra a linha de um lado e amarra três anzóis para baixo. O peixe quando balança nos anzóis, lá em baixo, acusa lá em cima. […] tinha vezes que estava em lugar diferente e quando batia um peixe diferente, que não era daquele lugar a gente conhecia.</p>
<p>Hoje em dia os caras andam com a sonda, a sonda vai acusando tudo no fundo. O peixe que tem no fundo, que é alto ou baixo, tudo isso é acusado. Antigamente a gente marcava um lugar e passavam cinco, seis anos voltava em cima daquele mesmo lugar. Eu conheci muitos pescadores. Eu peguei um pouco dessa prática. Mas tinha muitos mestres acima de mim, que tinham 30, 40, 50 lugares com marcas diferentes que faziam isso. Levavam anos sem ir a um lugar, o dia que dava para ir naquele lugar eles iam em cima daquele lugar certinho. Isso eu conheci muito.</p>
<p>É uma pescaria que só pesca com aquele material. Quando ele desconhece que tem um perfil maior, algum olho de boi, algum peixe grande que está tomando peixe das linhas, que vai sumindo, aí a pessoa entra com outra linha mais grossa e anzol maior pra pegar aquele peixe. Às vezes é cação, às vezes é […] de meia-água. Tem vários peixes de meia-água. A espada hoje em dia de fartura quando aparece é espada, baiacu e pescadinha. Quando aparece, aparece muita. A espada é perigosa de se trabalhar com ela. O baiacu também não é muito fácil de trabalhar, tem que ter cuidado. A pescadinha não pesca à vontade.</p>
<p>A rede de espera tem gente que chama de rede de malhar. O peixe fica pegado naquela rede. A rede de arrastro, a pessoa cercou o cardume de peixe, joga pra terra e daí leva para o mercado. A rede de fundo é a mesma coisa, quando apanha em quantidade leva para o mercado.</p>
<p><b>[Descreva a colocação da rede]</b></p>
<p>A rede de fundo tem o local próprio de se trabalhar com ela porque reconhece o local que não tem pedra. A rede de armar, que dá em beira de pedra, a gente sabe os pontos certos de armar e deixa ela lá. A de arrastro é a de puxar para a praia, e a de fundo puxa para a praia também.</p>
<p>O barco sai, vai lá fora. A boieira vai a uma distância de 100m, 200m , é a maior distância. Tem uma rede aí que toma pé, tem uma rede aí tralhada de doze metros de altura e as outras tem seis, oito metros de altura. Os peixes passam por baixo se ele trabalhar em distância. &nbsp;Já a rede de fundo lança ela com 400, 500m de distância e ela bate lá em cima d´agua e vai direto para o fundo. Aí vem trabalhando e puxando na praia na hora, não fica lá esperando. Rede de arrastro de fundo não fica esperando, tem evolução. A de armar, de malhar fica vários dias, e todo dia a pessoa mira de manhã e de tarde. Quando nós pescávamos aqui na beira da praia, mirava três vezes por dia.</p>
<p><b>[o que é exatamente mirar?]</b></p>
<p>Mirar é puxar a rede da parte que está no fundo, ir puxando e tirando o peixe. Vai mirando, tirando o peixe e largando ela para trás para ela fica no lugar que estava. Vai correndo de uma ponta a outra vendo se tem peixe e ela fica arreada de novo na mesma posição. Costuma ficar dois, três dias, se não deu peixe, tira. Às vezes trás para terra […]. Se a rede está rasgada, remenda, trás para remendar. Ela pode ter os buracos que tiver o camarada tem que remendar tudo.</p>
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<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/todas-3.jpg" class="wp-image-6558" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Gessiane Corrêa Mascarenhas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 18 Dec 2015 17:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Gessiane Correia Mascarenhas, apelido Neném Grupo ao qual pertence: Colônia de pesca de Itapuã Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 29/03/2014. Local / data de nascimento: 1970. &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;- [Como foi sua infância e adolescência?] Eu não tive infância e comecei a trabalhar com 10 anos de idade em casa de família. Perdi minha [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://2.bp.blogspot.com/-_HZZGAB0vcc/VnRD0Kt8rJI/AAAAAAAAASM/oYSbaPVoyik/s1600/GCM_29.03.2014-3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="474" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/GCM_29.03.2014-3.jpg" class="wp-image-6560" width="640" /></a></div>
<p><b>Entrevistado: Gessiane Correia Mascarenhas, apelido Neném</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Colônia de pesca de Itapuã</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 29/03/2014.</b></p>
<p>Local / data de nascimento: 1970.</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-</p>
<p>
<b>[Como foi sua infância e adolescência?]</b></p>
<p>Eu não tive infância e comecei a trabalhar com 10 anos de idade em casa de família. Perdi minha mãe muito cedo, fui morar com minha madrasta e fugi da casa do meu pai. Aí fui trabalhar como doméstica, conheci meu primeiro marido e tivemos três filhos, vivemos sete anos juntos, mas não deu certo e separei. Estava trabalhando quando conheci meu segundo marido, que já era pescador, moramos 27 anos juntos e tivemos três filhos. Vivíamos da pesca aqui [em Itapuã]. Com meu pai aprendi a limpar peixe e com meu marido aprendi a pescar. Tirei minha carteira de pescadora [&#8230;] e criei meus filhos através da pesca, trabalhando e pescando aqui.</p>
<p><b>[Onde você morava quando criança?]</b></p>
<p>Morava na Ilha das Flores.</p>
<p><b>[Você tem irmãos?]</b></p>
<p>Sim.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Do que vocês brincavam naquela época?]</b></p>
<p>Naquela época nós brincávamos de pique bandeira, amarelinha, de pular corda e de pedrinhas. Sentávamos na calçada e brincávamos com as pedrinhas, eram cinco pedrinhas. Brincadeiras de bola, queimada e, às vezes, vôlei. Hoje não tem mais essas brincadeiras.</p>
<p><b>[Você estudou?]</b></p>
<p>Sim, estudei até a 8ª série, quando estava com meu primeiro marido. Com meu segundo marido, tinha voltado a estudar e fiz até o 1º ano do 2º grau. Estudei no Ailton Lombar, em Ilha das Flores, e depois em Terra Vermelha. No próximo ano vou dar continuidade aos meus estudos, se Deus quiser, e pretendo terminar o ensino médio.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Fale um pouco sobre seus pais e seus avós.]</b></p>
<p>Não conheci meus avós maternos nem paternos. Eles já eram falecidos. Minha mãe faleceu quando eu tinha cinco anos de idade, meu pai era aposentado da Cia. Vale do Rio Doce.</p>
<p><b>[Com quem você aprendeu a pescar?]</b></p>
<p>Aprendi com meu falecido marido. Aprendi a matar traíra, pescadinha, a baluar e a pegar camarão.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Os seus pais, ou avós tinham contato com a pesca?]</b></p>
<p>Não. Na época em que eu era criança não.</p>
<p><b>[Como era a pesca antigamente?]</b></p>
<p>Era muito boa, o peixe dava aqui na beira da praia. A peroá pegava-se aqui, atrás da ilha, e pegava-se 100, 150kg de peroá. Hoje, não dá mais. Pescadinha nós vendíamos baratinho, hoje não se vende mais. Peroá está escassa. Antigamente no Morro da Barra se matava peroá branca, hoje não se acha mais. O ano retrasado deu muita sardinha e manjuba, esse ano já não deu nada. Galo e espada são peixes que não se acha mais aqui nessa beira de praia. Eram peixes que davam aqui na beira da praia. O pessoal que vinha pescar de molinete pegava muita espada e agora não pega mais nada. Está tudo se acabando.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Faça um comparativo de como era antigamente, e como está hoje sobre os tipos de peixes e de quantidade.]</b></p>
<p>Antigamente dava muito pescadinha, xaréu, chicharro, espada, sarda e baiacu. Pescava-se tanto de linha quanto de rede. Hoje não tem mais nada. Já pegamos toneladas de pescadinha de rede. Uma vez meu marido deu uma estacada em um &nbsp;xaréu aqui, que pegou xaréu de 15 a 20kg. Foi uma batera e meia de xaréu. Hoje não se encontra mais esse peixe por aqui. A sardinha, a manjuba e o baiacu. O ano passado deu baiacu, esse ano cadê o baiacu? A pescadinha está dando porque está lá fora, aqui na beira da praia não dá mais. O peixe galo e o espada também davam muito. A cada ano que passa as coisas estão ficando piores, os peixes estão sumindo. Dava muita pescada amarela por aqui, hoje não se acha mais. Os peixes estão muito escassos. Para se trabalhar com peixe tem que se correr muito atrás e comprar na mão dos pescadores. Os barcos grandes trazem para cá para vender. Antes não havia necessidade, era só colocar uma rede e se vinha com várias qualidades de peixes: pescadinhas, pescada, e baiacu.</p>
<p><b>[Quais são os peixes que estão dando aqui?]</b></p>
<p>Para nós pescadores, só a pescadinha, e no máximo de 10 a 20kg por dia, isso quando se acha.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Há quanto tempo começaram essas mudanças?]</b></p>
<p>De uns três anos para cá já vem diminuindo a quantidade de peixe.</p>
<p><b>[Em sua opinião porque aconteceu essa mudança?]</b></p>
<p>Eu creio que seja devido à presença das traineiras que vieram para cá. Muitos barcos grandes com três, quatro balões. As traineiras quando passam, elas vem arrastando tudo quanto é tipo de peixes que estão no fundo, seja peixe grande ou pequeno, camarão&#8230; Dentro do barco os pescadores vão selecionando, mas não adianta porque já está dentro do barco. Vão devolver o peixe morto para o mar?</p>
<p>Estão vindo traineiras de fora, do Rio, da Bahia, para pescarem aqui, e onde está a fiscalização? Só vem em cima dos pescadores menores, de baixa renda, de tem barcos pequenos, como um barco de sete metros, com só um balão. Quando meu marido era vivo ele tinha um barco com só um balão e não podia baloar aqui. Ele tomou multa do IBAMA por causa disso. Com as traineiras enormes passando por fora eles não faziam nada. Só vinham em cima dos pescadores artesanais.</p>
<p><b>[Atualmente a pesca é a sua única fonte de renda?]</b></p>
<p>Não. Como meu marido faleceu há dois anos, eu tenho uma pensão através da colônia dos pescadores, porque nós éramos registrados na colônia dos pescadores, no IBAMA e na Capitania. Tinha tudo certinho. Então através dele tenho minha pensão, que é de um salário mínimo, e trabalho aqui com meu filho com a pesca. Hoje eu tenho outra renda devido ao meu marido, que também era pescador. Se ele não tivesse falecido eu não teria outra renda a não ser a pesca. Não tenho nenhuma outra atividade a não ser a pesca.</p>
<p><b>[Como é sua rotina como pescadora?]</b></p>
<p>Quando meu marido era vivo nós saíamos às 2, 3 horas da madrugada e vínhamos de bicicleta. Às vezes pegávamos o bacurau e chegávamos aqui, ficávamos vigiando o peixe até certas horas. Quando não aparecia nada íamos para o mar, matar pescadinha, conforme estivesse o mar. Se o mar estivesse manso, nós íamos para as pedras arrancar sururu. Nós decidíamos o que fazer na hora em que chegávamos, ou ia pescar ou ia arrancar sururu, uma das duas coisas nós íamos fazer. Se aparecesse peixe de rede, nós colocávamos rede. Como ele faleceu, eu só venho para abrir a peixaria. Às 6:30h eu já estou aqui. Meu filho é que vai para a ilha e eu fico esperando ele chegar com o sururu para descascar. Agora eu não vou mais pescar com meu filho.</p>
<p>São muitas recordações e lembranças. Eu nem queria mais vir para cá, meu filho foi quem insistiu para eu vir ajudá-lo, depois que meu marido faleceu. Hoje eu diminuí bastante minha atividade com a pesca ou de ir tirar sururu. Já fiz muito, mas hoje não faço mais. Meu filho está com 26 anos e foi tudo através da pesca. Ele e os outros foram criados através da pesca.</p>
<p><b>[Quantos anos ficou casada?]</b></p>
<p>Fui casada por 26 anos. No dia 20 de junho vai fazer dois anos que ele faleceu. Ele faleceu devido a um problema de saúde de tanto trabalhar com a pesca, passava da hora de se alimentar. Pescador quando ele está trabalhando não tem hora para nada: ou ele trabalha ou ele se alimenta. Ele teve um problema de saúde, foi para o hospital e veio a óbito.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como é sua rotina hoje?]</b></p>
<p>Acordo às 5 ou 5:30h e venho para a praia ajudar meu filho a descascar o sururu e a vender o peixe. Fico até no máximo 7h, guardo as coisas no barracão de pesca e vou embora. No outro dia é a mesma coisa. Quando o mar está manso ele vai pescar ou vai tirar sururu e eu fico aqui sozinha tomando conta da mercadoria. Meu filho de 26 anos é que vai para o mar, ele aprendeu comigo e com o pai de criação.</p>
<p><b>[Com que idade ele começou a pescar?]</b></p>
<p>Com dois anos ele já ia para o mar com o pai. Naquela época não havia fiscalização, os pescadores levavam os filhos para o mar com dois anos de idade e já ensinavam, isso quando o mar estava mansinho. Desde novinho ele já estava indo para o mar com o pai, eu ficava com o coração na mão, e está aí até hoje. Hoje trabalhamos juntos, só não vou para o mar com ele.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual o tipo de pesca que você praticava com seu marido?]</b></p>
<p>Quando nós íamos para fora [alto mar], era de linha e de rede de arrasto para pegar camarão, de baluar. Com grapuá, para arrancar o sururu em cima das pedras. Aqui em terra era de rede de arrasto, na beira da praia, quando aparecia o cardume. Nós cercávamos com a nossa rede e depois colocava para vender.</p>
<p><b>[Fale um pouco de cada um dos tipos de pesca.]</b></p>
<p>De linha tem que ter o anzol e a isca, que pode ser camarão ou tainha. Essas iscas são usadas lá fora, lá se pescam de linha a pescadinha, a pescada e o baiacu. De rede de arrasto é o chicharro, a espada, o peixe galo, a sarda, a manjuba e a sardinha, que davam muito aqui na beira da praia. Nas pedras era o sururu e o búzio, que nós pegávamos com o grapuá.</p>
<p><b>[Você sempre pescou aqui nesse ponto de Itapuã?]</b></p>
<p>De linha, sim. De rede de arrasto íamos para a Barra do Jucu, quando estava dando muito peixe, e na Ponta da Fruta, que dava muita pescadinha de rede de arrasto. Nós pagávamos o frete para levar nossa rede. De linha só aqui.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Há quanto tempo você está nesse ponto da Praia de Itapoá?]</b></p>
<p>Estou aqui há 27 anos.</p>
<p><b>[Quais são as suas lembranças desse ponto da praia de Itapuã?]</b></p>
<p>Daqui tenho muitas boas lembranças. Teve época de eu vender dois barquinhos desses de peixes, vendendo de balança para não entregar barato para o mercado. Hoje não se consegue vender uma caixa de peixe aqui.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são os pontos positivos e negativos da vida de um pescador?]</b></p>
<p>O ponto positivo era que na época do verão dava muito peixe. Era uma época que nos ganhávamos dinheiro com força. Pegávamos toneladas, pegávamos duas, três bateras. Já teve pescador aqui de pegar quatro bateras de peixes. Um pouco se vende aqui para os moradores mais próximos de Itapuã e o restante nós vendemos para o mercado, porque em um dia não se consegue vender três bateras de peixes. Então tem que entregar para o mercado da Vila Rubim. O caminhão vem e entregamos. O lado positivo aqui era no verão, porque agora não tem mais isso.</p>
<p>O negativo é no inverno porque não dá nada. Nós somos iguais a formiguinhas, temos que trabalhar o verão todinho, sem comer ou beber, para poder sobreviver no inverno. No inverno quem tiver disposição de encarar o mar bravo, de mirar uma rede, aí ganha um dinheirinho.</p>
<p><b>[Quais são as maiores dificuldades da vida de um pescador?]</b></p>
<p>O pescador sofre no inverno, não tem como entrar o inverno, se entra morre. Nós esposas ficamos preocupadas com nossos maridos que estão no mar – Será que ele vai voltar? Quantas vezes fiquei aqui na beira da praia no inverno, rezando para o meu marido conseguir chegar vivo, devido o mar estar bravo. Uma vez ele foi baluar e o barco quebrou devido ao vento sul [&#8230;], foi meu filho que foi ajudar o pai, e conseguiram chegar em terra. Não se sabe se vai retornar ou não. Aqui no inverno é muito difícil, se não guardar um dinheiro para sobreviver no inverno nós passamos fome. A colônia não ajuda: nós pagamos a colônia e há pouco tempo é que viemos a receber o defeso.</p>
<p>A prefeitura colocou chuveiro para os quiosqueiros e para nós? Nós não precisamos de água para limpar o peixe, e até para atender melhor os fregueses do que já atendemos? Aqui, não temos ajuda de nada e de ninguém, só vêm aqui para criticar ou para nos tirar daqui, para dar melhorias, não. Estávamos pensando em fazer uma banca de lajota, com azulejo, mas a prefeitura embargou. Como nós vamos trabalhar? E querem exigir isso e aquilo. Como podem exigir se não nos dão oportunidades para fazer uma coisa melhor? Mesmo se fizermos com nosso dinheiro, eles não deixam. Custava colocar um chuveirinho aqui, para os pescadores dessa área? Só colocaram para os quiosqueiros, e para o pessoal que vende coco. Não tem um chuveiro para lavarmos as pernas ou as mãos, não tem estrutura para nós pescadores e não temos ajuda de ninguém.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Até quando você acha que o pescador vai poder viver da pesca?]</b></p>
<p>Ah, não vai muito tempo. Muitos pescadores estão colocando seus filhos para estudar, para fazer cursos, porque pescador não quer saber de filho dele enfiado aqui na pesca. Olha quantos anos tem que meu filho está na pesca e veja os de hoje, veja se eles querem saber de pesca? É daí para pior. Não querem seus filhos o mar. Como já são pescadores velhos, preferem ir sozinhos a levar um filho ou um neto. Mais tarde isso não vai ter mais futuro.</p>
<p>Eu criei meus cinco filhos com a pesca, hoje não se consegue mais porque a renda é muito baixa. Não se consegue criar nem um filho, quanto mais cinco.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Porque você acha que isso acontece, e o que poderia ser feito para mudar essa situação?]</b></p>
<p>Para mudar vai ter que ter muitas reuniões e muita fiscalização. Primeiro dentro d’água, porque os grandes barcos que chegam de fora estão acabando com tudo. Depois, procurar ajudar os pescadores em terra, procurar fazer melhorias. Aqui, vinha muita gente de fora, em Itapuã ficava lotado, e agora não vem porque os próprios pescadores não procuram manter a praia limpa. A culpa não é só dos governantes. Os pescadores, muitas vezes, são relaxados, largam madeira na areia&#8230; Se todos se unirem talvez dê para se fazer uma melhoria. Não só os governantes, mas também os pescadores. Quantas vezes eu também larguei as coisas por aqui, sem limpar, fui embora e deixei sujo? [&#8230;] Ganhava meu dinheirinho, colocava no bolso e rachava fora. A culpa aqui em terra não é só dos governantes, é dos pescadores também. Lá fora é dos governantes, lá têm que ter fiscalização por causa das traineiras e dos grandes barcos que estão acabando com tudo. Não achamos mais peixes grandes.</p>
<p><b>[Por quanto tempo mais você pretende pescar?]</b></p>
<p>Eu já estou em tempo de me aposentar da pesca, já estou com 44 anos, e vamos ver se consigo chegar aos 60, mas não quero mais pescar, só quero ficar aqui ajudando meu filho. Meu marido já se foi e agora tenho muito medo, com ele eu tinha confiança. Não estou dizendo que meu filho não tenha capacidade, mas meu marido tinha mais experiência. Se acontecia algum problema ele sabia resolver e chegávamos em terra. Eu sei que meu filho aprendeu com ele, mas não tem a experiência que ele tinha. Prefiro ficar em terra limpando os peixinhos e cuidando do meu sururu.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Qual foi a maior lição que você aprendeu na sua vida de pescadora?]</b></p>
<p>É saber tratar os fregueses com educação e os amigos que trabalham na mesma profissão com o devido respeito. Procurar respeitar a todos, porque todos nós precisamos uns dos outros. Respeitar o direito de ir e vir de cada um.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/todas-4.jpg" class="wp-image-6561" width="400" /></a></div>
<p></p>
<div>
</div>
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		<title>Entrevistado: Erivelton Zanetti dos Santos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Dec 2015 19:19:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Erivelton Zanetti dos Santos, Neneco Grupo ao qual pertence: Praia da Costa Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 12/03/2014 Local / data de nascimento: Vila Velha, ES, 14/05/1969 Nome do pai: João Jorge dos Santos, pescador Nome da mãe: Eloísa Zanetti dos Santos, do lar Casado, dois filhos. ————————————————————————————- [Quem te deu esse [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://3.bp.blogspot.com/-dfYbIMXQ0fE/VnMIUE1J9DI/AAAAAAAAARg/BzbavqE7SIU/s1600/ERZS_12.03.2014-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="472" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/ERZS_12.03.2014-2.jpg" class="wp-image-6563" width="640" /></a></div>
<p>
<b><br /></b><br />
<b>Entrevistado: Erivelton Zanetti dos Santos, Neneco</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Praia da Costa</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 12/03/2014</b></p>
<p>Local / data de nascimento: Vila Velha, ES, 14/05/1969<br />
Nome do pai: João Jorge dos Santos, pescador<br />
Nome da mãe: Eloísa Zanetti dos Santos, do lar<br />
Casado, dois filhos.</p>
<p>————————————————————————————-</p>
<p><b>[Quem te deu esse apelido?]</b></p>
<p>Esse apelido foi colocado no meu filho quando era pequeno e como eu o trazia aqui [na praia] acabou pegando em mim. Passaram a me chamar de Neneco e não saiu mais.</p>
<p>Para mim é um apelido carinhoso, aqui na praia o pessoal me chama de Neneco, um ou outro me chama de Erivelton. Em pescador apelido pega mesmo.</p>
<p>Atualmente, eu moro no Ibes. Meu pai chamava-se João Jorge dos Santos. Já faleceu e era pescador, e minha mãe era Eloísa Zanetti dos Santos, do lar. Sou separado e estou no segundo casamento.</p>
<p><b>[Como é identificado o ponto de pesca da Praia da Costa?]</b></p>
<p>O ponto de referência é a colônia de pescadores que todo mundo conhece. Tem a prainha do Ribeiro, mas lá nem todo mundo conhece. É também uma praia de pescadores só que lá encosta os barcos grandes e vão até eles com barquinhos menores.</p>
<p><b>[Também se conhece como ponto das castanheiras?]</b></p>
<p>Não. Aqui se fala ponto dos pescadores. Ali na frente se costuma falar barraquinha dos pescadores por causa das bancas.</p>
<p><b>[Você tem barco?]</b></p>
<p>Tenho um barco, e o nome de Neneco. Meu barco fica no Ribeiro e a gente usa para chegar até um barco grande. É um barco comum, atualmente eu estou pescando no barco chamado Nezinho, que é de um amigo meu.</p>
<p><b>[Quais são os pescadores que pescam com você?]</b></p>
<p>Geralmente quem pesca comigo é o meu irmão. Geralmente vou pescar sozinho, ele agora está pescando com o filho dele, parceria mesmo, eu e ele.</p>
<p><b>[Como foi sua infância?]</b></p>
<p>Eu fiz o 1º grau e praticamente fugi da escola. Eu estudei até a 7ª série. Quando eu saí da escola, eu saí de casa, meu pai queria que eu estudasse, mas eu não queria estudar. Saí de casa com 14 anos de idade.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Com qual idade você começou a vir para a praia?]</b></p>
<p>Eu vim quando era pequenininho. Comecei a vir para a praia com meu pai com cinco anos de idade e fui gostando. Comecei a pescar aqui com oito anos de idade, e foi quando eu saí para o mar. Fui uma vez e nunca mais deixei de ir.</p>
<p><b>[O que você fazia na praia?]</b></p>
<p>Antes de ir para o mar, ficava correndo pela praia pra lá e para cá. Antigamente, dava muito peixe, muita sardinha. Os pescadores cercavam as sardinhas e a gente ficava atrás pegando os peixinhos e brincando, ia na rede pegava os peixes e soltava, e meu pai brigava comigo – Não solta os peixes! – Tudo era muito farto. Tinha muita fartura de peixe e a gente ficava brincando pra lá e para cá com os peixes, eu e meu irmão mais velho, era legal.</p>
<p>Vendo todos os dias aquilo ali, fui gostando. Um dia meu pai me chamou para pescar. – Você vai pescar comigo hoje. – Ele falava assim: – Vou te ensinar uma vez só a botar o anzol, você olha para aprender, não vou ensinar de novo. Aí é o dom, porque eu olhava e aprendia, aí não teve jeito, não parei mais de pescar.</p>
<p>Só que primeiro tinha fartura, hoje não tem mais, está difícil. Se eu falar para você que sobrevivo só da pesca é mentira, quem falar isso vai passar fome, não tem como. O ser humano está acabando […] quer dizer isso aqui vai crescendo… Rebocadores, navios, essas embarcações grandes que entram aqui… você não pode mais pescar aqui. As traineiras estão acabando com os peixes. Hoje o que mais prejudica e que todo mundo reclama são as traineiras. O que está acabando com tudo são as traineiras.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Seus avós eram pescadores? Você sabe com quem seu pai aprendeu a pescar?]</b></p>
<p>Meus avós não eram pescadores. Meu pai aprendeu a pescar com o pai dele, o pai dele era pescador de rio e de lagoa. O meu pai passou a pescar…</p>
<p>Antigamente, apanhava sacos e sacos de peixes, marobá e traíra, peixes de água doce. Aí meu pai começou a pescar, pegou gosto e se tornou pescador. Começou em rio, foi para mangue e depois veio para o mar. Mas meu avô não era pescador por profissão. Ele pescava para ajudar a renda em casa. Dava muito marobá e traíra, era o sustento. Eram peixes de rio, de água doce. Era o sustento que tinha. Meu pai começou a pescar e se tornou pescador mesmo. Aí foi meu irmão mais velho, que é mais velho do que eu dez anos. Depois, eu sendo o mais novo, fui ser pescador, os outros vieram depois.</p>
<p><b>[Como era a pesca nos anos anteriores e como é hoje?]</b></p>
<p>Antigamente, nós não tínhamos motores. Os barcos não eram motorizados, eram no remo, no braço. Só que antigamente era mais fácil pegar peixe porque era mais farto de peixe. Pegava-se peixe em todo o lugar. Hoje em dia temos motores, estamos mais equipados, mas a pesca está mais difícil. A fartura que tinha antigamente, hoje não tem mais justamente por causa dessas traineiras que vem acabando.</p>
<p><b>[Em média quanto vocês pescavam e quanto se pesca hoje?]</b></p>
<p>Existe peixe de inverno e de verão. Não faltava peixe, hoje falta. O peixe no inverno é mais escasso. Por exemplo: nós pegávamos muita peroá, dava muito baiacu, hoje não tem mais, tem, mas é muito pouco. Quando chegava nessa época, sardinha era demais. Era sardinha que não tinha para quem vender. A gente enchia barcos e mais barcos de sardinha. Hoje em dia é mais difícil, não consegue. Tudo isso, em minha opinião como pescador, é por causa das traineiras. As sardinhas que encostariam aqui, para sustentar as famílias, uma traineira pega lá fora 40, 50t. Essas 40, 50t que encostariam aqui para vários pescadores pegarem, não tem como, um barco só pega tudo.</p>
<p>Realmente, era farto de peixe, hoje é muito disputado. Tem gente que, numa época dessas, vai lá e mata 5, 6kg de peixes. Tem gente que mata 30, 40kg, então em comparação é que primeiro tinha mais fartura de peixe, e o peixe tinha menos valor, e hoje tem menos peixe, e o peixe tem mais valor, é mais valorizado, tem mais preço.</p>
<p><b>[Qual é o tipo de peixe que dá por época?]</b></p>
<p>Novembro, dezembro, janeiro, fevereiro até março é época da pescadinha. Pode aparecer no mês de outubro. Janeiro, fevereiro, março, até abril é peixe espada. Nesse meio dá pescada e corvina. Abril, maio e junho é época da tainha. Maio, junho, julho e agosto é época da enchova e nessa época de maio a junho, julho e agosto é época do baiacu, mas também é um peixe que está escasso.</p>
<p><b>[A pesca é a sua única fonte de renda?]</b></p>
<p>Eu faço alguns bicos, às vezes, quando não está dando peixe. Se não está dando peixe você tem que se virar, tem que procurar fazer coisa, não pode ficar parado. A gente vive do dia a dia, do que ganha na pesca, se não trabalha, não ganha, se não pegou peixe não ganha.</p>
<p><b>[O que você faz de bico?]</b></p>
<p>Não tem tempo ruim, de capinar quintal a carregar cascalho para fazer […] O importante é não ficar sem ganhar dinheiro. Tem filhos para cuidar, sustentar, para dar alimentação, pagar aluguel. Quem mora de aluguel tem que se virar de qualquer jeito. Fixo mesmo é só a pesca.</p>
<p><b>[Como é sua rotina como pescador?]</b></p>
<p>O mais tardar que eu e meu irmão acordamos é às 4h da manhã, isso quando está tarde. Geralmente 1, 2h da manhã nós estamos vindo para a praia, todos os dias, principalmente nessa época de verão. No inverno não tem essa necessidade, no inverno nosso horário de vir para a praia é 3:30, 4h da manhã, no verão 0:00, 1h. Quando é lua cheia a gente vem para a praia 23h e pesca a noite toda, quando são 6h da manhã nós estamos chegando do mar com 30, 40kg de peixe na noite de lua cheia. Nessa época de verão que é a época que a gente ganha dinheiro mesmo. Temos que pescar todos os dias.</p>
<p><b>[O que diferencia o horário no verão e no inverno?]</b></p>
<p>Para nós pescadores não diferencia em nada.</p>
<p><b>[Porque no verão se pesca mais cedo e no inverno mais tarde?]</b></p>
<p>É por causa do tipo de peixe. Existe tipo de peixe ele come no horário mais cedo, de madrugada, no clarear do dia, é o horário do peixe. O pescador sabe, vem vindo 4h vai vindo 3h, 2h, 1h. Cada dia que ele vai pescando ele vai sabendo o horário que o peixe está comendo. O bom pescador tem por obrigação saber.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que você faz antes de sair de casa?]</b></p>
<p>Preparo meu café e trago café, tody, suco, água, refrigerante, farofa, pão e café. &nbsp;O mar dá muita fome. Acordo, preparo e venho para a praia. Venho de bicicleta todos os dias e gasto vinte minutos. Todos os dias venho de bicicleta.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Chegando aqui na praia o que faz primeiro?]</b></p>
<p>A primeira coisa que a gente faz é ajeitar as coisas na embarcação, tipo de linha que vai levar e ver se não está faltando nada, material, garapé, remo e isca. Ajeitou, colocou o barco ali e espera o horário que tem que sair.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são os instrumentos de pesca que se usa, como se prepara?]</b></p>
<p>A gente pesca de linha, de mão enrolada em um cano de 10omm. A gente usa um arco que se chama triangulo, onde vão dois anzóis, um em cada ponta, com a diferença de 40cm de um anzol para o outro, mais ou menos. Se batem dois peixes, a gente pega dois peixes de vez, e trabalha com duas linhas, uma em cada lado, do lado esquerdo e do lado direito.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[E quais são os tipos de linhas e anzóis?]</b></p>
<p>Esse tipo de pescaria, para pescadinha é anzol 20, pode até pescar com 12 também, mas geralmente é anzol 20. Se for para pescar espada tem que ser com aço porque ela corta. Se você não colocar aço ela corta com os dentes.</p>
<p><b>[O que você costuma usar como isca?]</b></p>
<p>Geralmente nós pescamos com tainha, que é a melhor isca, porque serve para qualquer tipo de peixe. Sardinha também serve, camarão, se for camarão daqui da região do lameirão, que o peixe come, serve. Se for outro camarão de fora, não serve. Nós pescamos mais com tainha porque é uma isca dura e firme e é mais difícil do peixe roubar. A sardinha já é mais fácil, mas sardinha também é isca da pescadinha. A sardinha serve para todos os peixes.</p>
<p>A isca nós compramos, às vezes pega, costumamos pegar. Às vezes, de madrugada, ela costuma passar na beira da praia, aí se pega. Mas 90% nós compramos.</p>
<p><b>[Tem algum peixe que é mais fácil de pegar no anzol ou mais difícil?]</b></p>
<p>Geralmente peixe grande dá mais trabalho. Peixe grande é mais rápido, esperto e voraz. O peixe maior tem mais fome, é mais violento. O peixe tem manha para comer. Às vezes, ele não quer comer determinada isca, quer outro tipo de isca. A água, quando está parada, ele costuma não comer, pega na isca e solta. Depende muito de como a água está correndo, tem essas manhas.</p>
<p><b>[Você saí para pescar todos os dias?]</b></p>
<p>Saio para pescar todos os dias. Geralmente, a gente evita de sair em tempo de chuva, porque não se vê terra, não se identifica. Nós vamos aos pesqueiros marcando pela terra. Agora está mais fácil porque tem GPS e então você não se perde, antes não tinha. Mas de preferência a gente pesca muito é marcando pelas terras e se está chovendo a gente fica sem visão. Quando se pega chuva lá fora você não tem para onde correr e, como diz o ditado: Quem está na chuva é para se molhar! Sair daqui debaixo de chuva, a gente não sai.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Há quanto tempo você pesca aqui nesse ponto da Praia da Costa?]</b></p>
<p>Aproximadamente 36 anos e sempre pesquei aqui. Meu pai também pescava aqui.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Quais são as lembranças que você tem desse ponto de pesca ou de outros?]</b></p>
<p>A lembrança daqui é o trampolim. As pessoas subiam a escada e pulavam lá de cima e muita gente morria. Pulavam lá de cima. Ali tem duas pedras, e não passavam no meio das pedras, batiam a cabeça e morriam. Eu já vi vários acidentes. As pessoas que se acidentaram ali não eram conhecidas, eram pessoas que não conheciam, ficavam presas. É inesquecível.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Você já sofreu algum acidente em seu trabalho?]</b></p>
<p>Já, um peixe comeu meu dedo (o indicador esquerdo). Esse acidente tem três anos e meio. Acidentes acontecem você não prevê. Eu estava pescando e tinha pegado bastante baiacu e estava segurando ele (baiacu) e tirando o anzol. Ele escorregou, mas não escorregou para baixo, ele escorregou da minha mão para cima. Ele deu tipo um bote e em tudo que ele fez ele pegou meu dedo e travou. Em dez segundos ele arrancou meu dedo. Eu estava pescando com meu sobrinho. Aí eu arranquei minha camisa e quando ele travou eu falei: – perdi meu dedo. Só esperei ele arrancar. Tirei a camisa, enrolei no pulso, apertei e travei. Aquilo foi paralisando tudo, foi adormecendo, saía sangue igual água, como bica, jorrava. Tirei a camisa, enrolei aqui e travei. Vim embora para ir ao hospital, mas não teve jeito de implantar o dedo.</p>
<p><b>[Como você ficou depois?]</b></p>
<p>Na verdade fiquei deprimido uns dias, fiquei procurando achar porque aconteceu comigo, porque eu pesco desde pequeno, porque eu vacilei, em que eu errei. Tentei achar explicação. Se fosse essa mão direita diria que tinha sido um vacilo, que tinha tirado o anzol e enfiado na boca do peixe. Fiquei sem pescar 45 dias, porque tinha que me recuperar, mas em nenhum momento pensei em parar de pescar. Foi acidente. Assim que estava bom, que fui liberado para pescar e tirei os pontos, voltei a pescar. Foram sete ou oito pontos. Mesmo não podendo pescar, fui assim mesmo.</p>
<p><b>[Esse acidente mudou alguma coisa?]</b></p>
<p>Sim, porque tive que aprender a mexer com esse outro dedo. &nbsp;Esse dedo é muito importante para bater o anzol, segura aqui, a linha, para cortar isca, é tudo aqui. Então eu tive que me adaptar com esse […] [O acidente foi com o indicador esquerdo]. Sou direito na mão e esquerdo no pé, então faz muita falta. Às vezes esqueço, às vezes vou pegar alguma coisa e não dá. Tive que aprender a fazer tudo com esse dedo aqui, principalmente cortar isca, empatar anzol e material de pesca, faz falta, mas tem que se adaptar, não tem jeito, tem que se acostumar.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[O que mais te marcou na vida de pescador?]</b></p>
<p>A pescaria em si, só de você estar aqui e ver essa maravilha que é o mar já é uma coisa gratificante. A gente que tem a visão que pode enxergar, fico pensando quem não tem visão e que não pode enxergar isso.</p>
<p>Isso é uma coisa que não sei explicar. Sou pescador e faço o que eu gosto, eu amo pescar e só sei pescar. Vou morrer pescador, não vai ter jeito e não vou mudar nunca. &nbsp;Não aconselho a ninguém a ser pescador, mas isso vem de berço, de família, é o dom. Muitas vezes a pessoa começa a pescar quando está mais velha, agora, se você não aprender de novo dificilmente aprenderá de velho.</p>
<p>Existem pescadores e pescadores. Existem pescadores que pescam porque veem os outros pescarem e tem pescadores que pescam porque sabem pescar. Conhecem, têm o dom, sabem onde tem a lama, sabem onde é sola, onde é cascalho. Esse é o pescador. Ele tem que arriar uma chumbada no chão e distinguir – aqui é lama, aqui é sola, aqui é cascalho, aqui vai dar o peixe tal. &nbsp;Tem pescadores que vão pescar e veem os outros matar peixe, que acompanham. Sabem que aquele cara que vai ali como ele tem mais conhecimento, ele sabe que vai dar o peixe tal, então ele sai seguindo ele. Nós chamamos de pescador largado, pesca porque vê os outros pescarem.</p>
<p>Para mim, o que eu vou levar é o aprendizado. Pesca a gente não esquece.</p>
<p><b>[Você pretende pescar por mais quanto tempo?]</b></p>
<p>Até quando Deus deixar, porque quanto mais velho você vai ficando, mais você vai se apaixonando por isso aqui. Hoje eu não me vejo parar de pescar por dinheiro nenhum.</p>
<p>É como falei: é difícil você sustentar família, pagar as coisas com o dinheiro da pesca, só que é coisa prazerosa. Eu gosto disso aqui, eu amo isso aqui.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://4.bp.blogspot.com/-IxQGKzLCfko/VnLoaxyHMVI/AAAAAAAAAPc/B-eyl7DCTTc/s1600/todas.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="121" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/todas-5.jpg" class="wp-image-6564" width="400" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Eliomar Zaneti dos Santos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 17 Dec 2015 19:07:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Pesca artesanal]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Eliomar Zanetti dos Santos Grupo ao qual pertence: Praia da Costa Entrevistador: Fernanda de Souza Data da entrevista: 22/01/2014 Local / data de nascimento: nascido em 1960 Casado, 2 filhos. ————————————————————————- Meu pai era pescador e eu segui a mesma carreira dele. Saí do colégio e segui a carreira de pescador. Desde pequeno acompanhava [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
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<p>
<b><br /></b><br />
<b>Entrevistado: Eliomar Zanetti dos Santos</b><br />
<b>Grupo ao qual pertence: Praia da Costa</b><br />
<b>Entrevistador: Fernanda de Souza</b><br />
<b>Data da entrevista: 22/01/2014</b></p>
<p>Local / data de nascimento: nascido em 1960<br />
Casado, 2 filhos.</p>
<p>————————————————————————-</p>
<p>Meu pai era pescador e eu segui a mesma carreira dele. Saí do colégio e segui a carreira de pescador. Desde pequeno acompanhava meu pai. A partir de três anos de idade ele me trazia para a praia. Ele ia pescar e eu ficava na praia com os colegas jogando bola.</p>
<p>Com sete anos eu já pescava com ele. Eu morava em Aribiri, depois fui para Glória e hoje moro em Santos Dumont, depois do Ibes, Vila Velha.</p>
<p>Estudei até a 6ª série, depois sai do colégio e não voltei mais.</p>
<p>Tenho mais quatro irmãos e duas irmãs. Eles vinham para a praia só como banhistas. Depois, outro irmão, com idade de 10 anos, começou a pescar.</p>
<p>Minha mãe era do lar e o meu pai era pescador e faleceu com 73 anos. Ele era funcionário público, porém era pescador para complementar a renda, porque ele ganhava pouco no estado. Ele foi pescador até aos 59 anos mais ou menos, depois ele adoeceu e não pescou mais. Meus avós, nem por parte de pai e de mãe, não eram pescadores. Não sei como meu pai veio parar na pesca, mas acho que foi por influência de alguém e entrou na pesca. Como era uma forma de ajudar, como meio de vida, ele ficou nisso.</p>
<p>Toda a minha vida em vim aqui, até mesmo quando eu estudava. Às vezes estudava pela manhã, vinha à praia de tarde, pescava de tarde. &nbsp;Às vezes estudava de tarde, pescava pela manhã, chegava em casa, tomava banho e de tarde ia para o colégio.</p>
<p>Já fui empregado por dois anos. Trabalhei na Rádio Capixaba de 1980 a 1982. Trabalhei seis meses em serraria e trabalhei uns cinco meses em um escritório &nbsp;em Vitória. De 1981 até hoje só trabalhei na pesca.</p>
<p>Sou casado e tenho dois filhos, um tem 12 anos e o outro vai fazer 31 anos. Meus filhos não trabalham com pesca. O menor estuda e o outro saiu do serviço semana passada e , enquanto não arruma outro emprego, está dando uma […] só para quebrar o galho, só para não ficar parado, mas ele trabalha, tem profissão. Minha esposa é do lar e não tem envolvimento com a pesca. Só trabalha em casa e às vezes ajuda a vender o peixe que eu levo para casa.</p>
<p><b>[Como era a pesca nos anos anteriores e como é hoje?]</b></p>
<p>Antigamente aqui era rico de peixe, agora acabou, não existe nem mais peixe. Tinha várias espécies de peixes. Chegava a época dos peixes, qualquer peixe da época dava muito. Hoje não tem mais.</p>
<p>Cada época tinha uma qualidade de peixe: no verão dava chicharro, dava muita manjuba, muita pescadinha, muito peixe espada. Hoje em dia não dá, dá um peixe fora de época, o peixe galo, baiacu sumiu. Esse ano passado não teve baiacu na nossa costa aqui. De maio em diante, até setembro, outubro, nós pegávamos muito. Esse ano não teve. Está-se acabando, em extinção.</p>
<p><b>[Qual a sua rotina como pescador?]</b></p>
<p>Meu horário de acordar ultimamente é entre 0:30h e 1:30h, no máximo. Vou para casa agora e só vou dormir por volta das 19h, acordo entre 0:30h e 1:30h e venho para a praia. Esta noite mesmo acordei às 0:20h. Às 0:35h &nbsp;o café já estava pronto para vir para a praia. Às vezes vou dormir às 19, 20, 21h, depende.</p>
<p>Agora vou sair para conseguir uma isca. Chego em casa, às vezes, 15, 16h. Vou colocar no gelo, quando vou desocupar mesmo já passam das 18h. Até tomar banho e jantar, dá 20h. Às vezes não durmo nem três horas. Levanto e venho para a praia para poder pescar. Trago uma garrafinha de café para levar para o mar, ajeito as coisas aqui e vou para o mar. Saio de casa por volta da 1h da manhã. Hoje saímos de casa a 1:10h. Gasto da minha casa até aqui 25 minutos de bicicleta e chego aqui na praia por volta de 1:40h. Venho para a praia de bicicleta todos os dias.</p>
<p>Às vezes paro no posto para comprar gasolina. Ajeito as coisas e antes de sair tem que lavar a embarcação. Tem uns banhistas na área que inventam de entrar na embarcação e fazem sujeira. Então, a gente joga água para deixar a batera limpa.</p>
<p><b>[Quais são os procedimentos que o senhor faz antes de entrar no mar?]</b></p>
<p>Eu pesco de anzol, de linha. Não tenho rede. Primeiro tenho que colocar os materiais na embarcação. Depois coloco a embarcação na água e faço a oração tradicional, que tem que fazer e pedir para o moço lá em cima ajudar a gente.</p>
<p>Saindo daqui 2, 2:30h da manhã […] Eu cheguei aqui hoje 9h horas da manhã. Às vezes a gente não tem hora para voltar, tem hora para ir. Às vezes não acha peixe e tem que procurar. Então chega 1h da tarde, 1:20h e ainda tem gente pescando, gente que saiu de madrugada e ainda está na manchinha verde. Apesar de que o cara que está pescando é aposentado, está porque […] não precisa disso, mas está pescando porque não achou peixe cedo está tentando para não vir batendo carroceria vazia.</p>
<p><b>[Descreva o processo da pesca de anzol]</b></p>
<p>Eu só pesco no anzol, não tem vara, é na linha de mão, e os instrumentos que eu uso são: linha, chumbo (tem que botar o chumbo para ir ao chão), a isca cortadinha para colocar no anzol, botar para o fundo e esperar o peixe bater. Agora você aporta. Aporta que a gente fala é uma âncora no fundo para segurar a embarcação. Se não acha peixe tem que puxar a âncora, sair e ir para outro lugar. Se não achar lá, puxa e vai para outro. E assim sucessivamente, você vai procurando até encontrar. Tem dia que não encontra e vem de lá com 1kg, 0,5kg de peixe. É muito difícil.</p>
<p>Eu uso linha de mão e, como isca, normalmente uso tainha e sardinha. É muito difícil usar camarão. Tem anzóis de vários tamanhos. A linha varia a espessura dela. Tem 0.70, 0.80. A gente pesca com 0.90 para cima, 100, 120, uns pescam com 140.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Descreva o processo da pesca de linha de mão]</b></p>
<p>A gente arreia (a linha) para o fundo. Eu jogo duas linhas. No caso eu sento aqui e arreio uma linha de cada lado e o outro que senta ali, faz a mesma coisa. Às vezes, vêm dois peixes porque a gente coloca dois anzóis. A maioria é um, porque o peixe cata a linha mesmo. Nessa semana o dia que matamos mais foi hoje. Matamos 22kg de peixe, foi o dia que mais matamos porque não tem dado mais de 10, 12,15kg, não tem dado mais do que isso.</p>
<p>No mês de janeiro só deu pescadinha, não deu outro peixe, é o peixe que nós estamos pescando porque é o peixe da época.</p>
<p><b>[Qual é a rotina quando volta do mar?]</b></p>
<p>Quando desembarco, guardo o material e espero comprador. Se a gente não vender aqui a gente leva para casa para vender em casa. Oferece a um, oferece a outro. Às vezes, quando a gente pega uma quantidade a mais a gente passa para arrematar, para o atravessador. O nosso peixe é mais difícil passar. O atravessador não dá valor ao trabalho da gente. O atravessador é o peixeiro que vende por fora, compra da mão da gente para vender por fora, para revender.</p>
<p><b>[Como é acondicionado o peixe que é pescado?]</b></p>
<p>Colocamos em uma caixa de isopor no barco para não pegar a quentura. Coloca um gelinho para não pegar muita quentura e não chegar peixe muito amassado aqui. Se ficar na quentura logo poca [estoura] a barriga. Todos os peixes, se as vísceras deles pegarem sol, logo pocam a barriga, e aí já viu.</p>
<p>Quando chegamos (na praia) começamos a limpeza do peixe.</p>
<p><b>[A que horas começam a ter clientes para compra?]</b></p>
<p>Depende da hora que a gente chega. Tem dia que se vende tudo, tem dia que vende 1, 2 k aqui, e aí tem que levar todo o peixe para casa. O peixe já está limpinho e oferece a um e outro.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[A que horas vocês chegam aqui na praia?]</b></p>
<p>Em média chego à praia por voltas da 9, 10h, mas não tem um horário para chegar, para voltar. Para sair a gente tem hora, para voltar não tem hora. Pode ser mais cedo ou mais tarde.</p>
<p><b>[Quanto tempo o senhor fica aqui na praia para vender?]</b></p>
<p>Hoje mesmo eu cheguei às 9h e estou aqui na praia até agora. Pegamos poucos peixes e tem ali, mais ou menos uns 3 a 4kg de peixe ainda para vender. O que eu não vendo aqui eu levo para vender em casa. Esse transporte eu faço na bicicleta. Tenho a bicicleta cargueira e tenho a normal. Hoje eu vim com meu menino, eu vim de carro com ele, coloco dentro da caixa e levo para casa. Meu transporte normal é bicicleta.</p>
<p>Vendo os peixes no meu bairro. Ofereço a um e outro. Às vezes chegam lá em casa pessoas que sabem que vendo peixe fresco. Se eu não vender tudo no mesmo dia, guardo no freezer e vou vendendo no decorrer dos dias. Minha esposa ajuda na venda quando saio de casa.</p>
<p><b>[Vocês consomem muito peixe?]</b></p>
<p>Minha esposa só come cação ou baiacu por causa da espinha. Eu como mais do que ela. Na minha casa é pouco consumo de peixe porque só eu que como, e o peixe que ela come eu não gosto, que é o cação e o baiacu. &nbsp;É pouco consumo, mas a gente come peixe. O cação que eu não pego eu compro para ela comer.</p>
<p><b>[Há quanto tempo o senhor pesca aqui na Praia da Costa?]</b></p>
<p>Eu pesco aqui há 33 anos, comecei aqui em 1981, mas já pesquei na Prainha de Vila Velha, em Abrolhos, mas poucas vezes, meu ponto fixo é aqui. Eu pago a colônia desde 1981, vai completar 34 anos agora em dezembro.</p>
<p><b>[Quais são as lembranças que o senhor tem da Praia da Costa, dos outros pontos de pesca, de pescadores?]</b></p>
<p>Apesar da minha pouca idade que eu tenho, quando eu cheguei aqui, não tinha moradia nenhuma. Só tinha uma casa onde tem aquele pinheiro, aquele prédio e aquele bar ali. Tinha outra casa lá em baixo, mas eram pouquíssimas. Cheguei aqui era só mato. Eu né! Meu pai então, quando chegou aqui, não tinha quase nada mesmo. Depois foi crescendo. Só tinha um ônibus para ir e voltar. A estrada era de barro. Hoje está tudo tomado de casas e prédios.</p>
<p><b>[O senhor já teve algum acidente no mar?]</b></p>
<p>Já, por três vezes emborquei lá fora no mar. Uma vez torci o tornozelo na subida da pedra para eu me salvar, mas às pressas, porque a onda ia estourar em cima de mim, aí eu pisei no buraco e torci o tornozelo, depois o rapaz foi me pegar em cima da pedra. Mas já emborcamos três vezes no mar, eu e meu irmão, duas. Eu e um rapaz que mataram há pouco tempo emborcamos outra vez ali. Todas as três vezes precisamos de ajuda para sair de lá. Um rapaz passou com um barco que ia para Meaípe, lá para as bandas de Guarapari, e fizemos sinal. Nós estávamos em cima da ilha porque conseguimos nadar até a ilha. Ele salvou a gente e nos trouxe para terra. Da outra vez foi um barco a motor pequeno que estava próximo que nos trouxe para terra.</p>
<p><b>[Como e porque isso acontece?]</b></p>
<p>Não é vacilo da gente, porque a gente sabe que quando não tem condições de sair a gente não sai. Foi fatalidade mesmo, normal. Onde a gente estava de repente a onda subiu, quebrou e emborcou o barco, não tem a ver com o mar agitado, a gente não passa em cima de baixo. Quando a gente vê, quando a gente pesca, a gente vê do lado da […] &nbsp;Quando o mar está muito agitado a gente não pesca porque sabemos que é perigoso. Foi acidente normal, não foi por descuido, a gente não abusa. Quando a gente vê que o mar está agitado, quando está com muito vento, a gente não sai. Tem alguns aí que saem. Mas nós, eu e meu irmão, não saímos quando o mar está agitado, com muita ventania.</p>
<p><b>[O senhor pesca todos os dias?]</b></p>
<p>Eu pesco todos os dias. Só não pesco quando está chovendo muito ou quando tem muito vento, aí eu não saio. Frio não é comigo, não sou pinguim.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Como o senhor conhece se o mar está bom?]</b></p>
<p>A gente vê. Quando vê que dá para sair, a gente sabe. Se começar a virar […] se estiver lá fora e o tempo não ficar bom, a gente volta para terra.</p>
<p><b>[Como foi esse período do final do ano de 2013?]</b></p>
<p>Com as chuvas que deram no final do ano de 2013 ficamos sem pescar. Lá em casa ficou tudo alagado, tudo cheio, a casa ficou toda cheia de água. Ficamos muitos dias sem pescar e depois começou a descer água doce, do rio, na boca da barra, e aí é que não dá peixe mesmo. Ficamos um bocado de tempo sem pescar.</p>
<p>Graças a Deus meu irmão e minha irmã me ajudaram, mas ficou meio complicado. Nem sempre a gente pode ficar na espera do irmão para poder ajudar, eu pelo menos acho que incomoda. A gente fica querendo trabalhar, mas a pessoa está sabendo que não está trabalhando porque não tem condições, mas eu não gosto disso, eu gosto de eu mesmo correr atrás.<br />
<b><br /></b><br />
<b>[Por quanto tempo o senhor ainda pretende pescar?]</b></p>
<p>Eu já estou querendo correr atrás de aposentadoria, mas dizem que antes de 60 anos não se aposenta. Uns dizem que pescador são 25 anos, outros dizem que tem que fazer 60 anos de idade, mas eu vou correr atrás. Depois que eu me aposentar eu vou continuar pescando. Porque se eu me aposentar por tempo normal de serviço […] Só não vou continuar pescando se por acaso, Deus me livre e guarde, se eu me aposentar por invalidez, aí eu não vou pescar, mas se eu me aposentar por tempo normal de serviço e se eu puder, eu vou continuar pescando.</p>
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<p></p>
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