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	<title>Arquivos Entrevista &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Entrevista &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Olympio Brasiliense: 50 anos de arquitetura em Vitória</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Feb 2016 15:46:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Acervo]]></category>
		<category><![CDATA[Arquitetura e Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Olympio Brasiliense]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Projeto do engenheiro Olympio Brasiliense. APRESENTAÇÃO O objeto desse estudo compreende o acervo de projetos arquitetônicos de autoria de Olympio Brasiliense, produzidos a partir de 1925, quando de &#160;sua vinda para Vitória, sendo nossa proposta a realização de inventário, pesquisa de campo preliminar no Município de Vitória, ES, e pesquisa em instituições públicas para complementação [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<p></p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://2.bp.blogspot.com/-9hhbOsPkwqg/VrC6uYTdtbI/AAAAAAAAAnk/GkIITw1h-6w/s1600/260%2B%25282%2529.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="Projeto do engenheiro Olympio Brasiliense." border="0" height="512" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/2602B252822529.jpg" class="wp-image-5387" title="Projeto do engenheiro Olympio Brasiliense." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Projeto do engenheiro Olympio Brasiliense.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h3>
APRESENTAÇÃO</h3>
<p>
O objeto desse estudo compreende o acervo de projetos arquitetônicos de autoria de Olympio Brasiliense, produzidos a partir de 1925, quando de &nbsp;sua vinda para Vitória, sendo nossa proposta a realização de inventário, pesquisa de campo preliminar no Município de Vitória, ES, e pesquisa em instituições públicas para complementação de informações. Com a morte do autor, o acervo ficou sob a guarda da viúva e filha do engenheiro, que ainda o conservam, e em comum acordo com a família, desenvolveu-se esse projeto para sua divulgação e organização. A pesquisa de campo nos permitiu identificar e documentar fotograficamente a situação atual de parte significativa dos imóveis projetados, assim como confirmar localização. A pesquisa institucional envolveu o Arquivo Público do Espírito Santo, o Arquivo Geral da Prefeitura Municipal de Vitória e Secretaria Municipal de Obras. Outro recurso empregado foi a realização de entrevistas para obter-se novas pistas e informações pessoais e profissionais Finalmente, para enriquecer o Projeto apresentamos alguns documentos relacionados à vida pessoal do engenheiro, assim como algumas entrevistas e artigos. Agradecimentos especiais ao Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, ao Arquivo Municipal de Vitória, a Ana Marta Renno, a Regina Piccin Lessa, a Ruth Alves da Silva, a Isabel Costa Moraes, a Ivan Espíndula, Aristides Navarro, a Abílio Neves e a Romeu Vieira de Menezes.</p>
<h3>
FICHA TÉCNICA DO PROJETO</h3>
<h4>
<b><br /></b></h4>
<h4>
<b>Coordenação, organização e preparação de páginas para internet</b></h4>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/maria-clara-medeiros-santos-neves-bio/" target="_blank" rel="noopener">Maria Clara Medeiros Santos Neves (Museóloga)</a></p>
<h4>
<br /><b>Pesquisa, fotografia e inventário</b></h4>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/vanessa-brasiliense-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">Vanessa Brasiliense (Historiadora)</a></p>
<h3>
SUMÁRIO</h3>
<p><b><br /></b><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-biografia/" target="_blank" rel="noopener"><b>Olympio Brasiliense: Biografia</b></a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-imagens-pessoais-e/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-imagens-pessoais-e/" target="_blank" rel="noopener"><b>Documentos pessoais e profissionais</b></a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-50-anos-de_3/" target="_blank" rel="noopener"><b>Relatório do Projeto</b></a><br />
<b><br />
Inventário do acervo:</b><br />
<b><br /></b><br />
<a href="https://drive.google.com/open?id=0B9YZkbO4qyDVeHlORkN0ckFwVHc" target="_blank" rel="noopener">Plantas de situação &#8211; ID 001-073</a><br />
<a href="https://drive.google.com/open?id=0B9YZkbO4qyDVRXhmYllCRWRHd2s" target="_blank" rel="noopener">Documentos profissionais &#8211; ID 074-178</a><br />
<a href="https://drive.google.com/open?id=0B9YZkbO4qyDVMGxPLVl1NXhyWFE" target="_blank" rel="noopener">Documentos Pessoais &#8211; ID 179-230</a><br />
<a href="https://drive.google.com/open?id=0B9YZkbO4qyDVZWFsRTg5UWpUS2s" target="_blank" rel="noopener">Projetos arquitetônicos &#8211; ID 231-552</a></p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/mapeamento-e-registros-fotograficos-de/" target="_blank" rel="noopener">Mapeamento e registros fotográficos de projetos</a></b></p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-amostra-do-acervo/" target="_blank" rel="noopener">Amostra do acervo de projetos pertencente à família</a></b></p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-amostra-de-acervos/" target="_blank" rel="noopener">Amostra de acervos institucionais</a></b><br />
<b><br /></b><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-artigos/" target="_blank" rel="noopener">Artigos</a></b><br />
<b><br /></b><br />
<b>Entrevistas realizadas por Vanessa Brasiliense em 2011 e 2012:</b><br />
<b><br /></b><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com/" target="_blank" rel="noopener">Aldezir Bachour</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com_1/" target="_blank" rel="noopener">Darcília Moysés</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com_96/" target="_blank" rel="noopener">Fernando Achiamé</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com_16/" target="_blank" rel="noopener">Gelson Loiola</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com-ivan/" target="_blank" rel="noopener">Ivan Espíndula Coutinho</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com_80/" target="_blank" rel="noopener">Pedro &nbsp;Maia</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com_83/" target="_blank" rel="noopener">Rosalina S. Brasiliense</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com_48/" target="_blank" rel="noopener">Zilma Rios</a><br />
<b><br /></b><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/roteiro-cartografico-de-lembrancas/" target="_blank" rel="noopener">Roteiro cartográfico de lembranças peregrinas &#8211; Texto de Luiz Guilherme Santos Neves</a></b><br />
<b><br /></b><br />
<b><a href="https://drive.google.com/open?id=0B9YZkbO4qyDVYnF0S2xfNDRXRmc" target="_blank" rel="noopener"><i>A Gazeta</i>, Caderno Pensar, 06/04/2013</a></b></p>
<p>
Veja também <a href="https://estacaocapixaba.com.br/projeto-digitalizacao-do-acervo-olympio/" target="_blank" rel="noopener">Digitalização do Acervo de Olympio Brasiliense</a><br />
<span style="font-size: x-small;"><br /></span><br />
<span style="font-size: x-small;"><br /></span><br />
<span style="font-size: x-small;">[Publicado originalmente no site Estação Capixaba em fevereiro de 2013]</span></p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="http://1.bp.blogspot.com/-dUenLKRSoiQ/VrDhnlAKIdI/AAAAAAAAAqg/TBsXmbcEKlY/s1600/marcas_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="128" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/marcas_2.jpg" class="wp-image-5388" width="640" /></a></div>
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		<title>Entrevistado: Pedro Maia</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com_80/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquitetura e Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Olympio Brasiliense]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Pedro Maia Entrevistador: Vanessa Brasiliense Vila Velha, 8/10/2011. Nome completo: Pedro da Silva Maia, mas eu sempre fui conhecido como Pedro Maia, que é meu nome de guerra no jornal há 50 anos. Sempre assinando as matérias como Pedro Maia. Profissão: Jornalista Data e local de nascimento: 10 de agosto de 1940, Campos, Estado [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
<b>Entrevistado: Pedro Maia</b><br />
<b>Entrevistador: Vanessa Brasiliense</b><br />
<b>Vila Velha, 8/10/2011.</b></p>
<p>
Nome completo: Pedro da Silva Maia, mas eu sempre fui conhecido como Pedro Maia, que é meu nome de guerra no jornal há 50 anos. Sempre assinando as matérias como Pedro Maia.<br />
Profissão: Jornalista<br />
Data e local de nascimento: 10 de agosto de 1940, Campos, Estado do Rio.</p>
<p>
VB: Sr. Pedro Maia como foi que Sr. conheceu Olympio Brasiliense ?</p>
<p>PM: O Dr. Olympio era um cidadão bem conhecido na cidade em função das atividades dele na Prefeitura.</p>
<p>De dia ele não dava conversa para qualquer um, mas ele gostava de freqüentar os bares de noite, e eu como jornalista saía da redação do jornal geralmente às 10:00h, 11:00 horas, que era a horário que o jornal fechava, e ia para os bares também e começávamos a conversar e tabulava papo e essa coisa toda. E o Dr. Olympio quanto mais ele tomava uma cervejinha mais extrovertido ele ficava, e ele gostava de extrapolar aquela revolta dele de estar vendo a cidade de Vitória sendo mal gerenciada, sendo mal orientada. Isto foi em 58 foi quando eu o conheci até os anos 60 e poucos por ai. E ele sempre extrapolava essa revolta dele: isso não pode ser assim; eu já falei, eu fiz&#8230;, e nessas ocasiões ele traçava nas mesas e guardanapos as idéias que ele tinha, e que não havia sido feito, e que tinha dado errado. E a prova está ai. Vitória é uma cidade estrangulada, praticamente estrangulada, uma cidade que quando chove, desce as águas do morro e se a maré estiver cheia todo capixaba sabe como é, e também o trânsito que um negócio de doido naquele centro de Vitória, se bem que desde de 1940, nos anos 40, o Dr. Olympio já falava em deixar o centro da cidade para pedestres e estacionamento de carros grandes onde hoje em Jucutuquara, por ali no Forte de São João, no Saldanha da Gama, e outro na Vila Rubim, daqui a 30 anos ninguém passa no centro da cidade. E está ai realmente o que ele conversava com a gente nos aos 60, anos 50. Então era um cidadão, que profissionalmente ele tinha uma visão notável. Outro exemplo, e que qualquer pessoa pode notar pode olhar lá e vê que é fato, ele traçou ele fez um traçado de uma rua que começaria onde começa a Rua do Rosário, atravessaria a Graciano Neves, atravessaria a Rua Sete de Setembro, e se transformaria na Rua Gama Rosa, o mesmo traçado que esta lá até hoje, e sairia no Parque Moscoso, quer dizer seria uma paralela a antiga Av. Capixaba, Av. Jerônimo Monteiro que, assim desafogava o trânsito porque teria dois caminhos,e fizeram a metade.</p>
<p>Mas as duas casas que interrompiam, como era o caso de pessoas influentes na época, os chamados turcos, sírios e libaneses que são donos até hoje, eles não conseguiram. A Prefeitura não conseguiu desapropriar as casas, e as casas ficaram lá, e Vitória ficou essa zorra que está aí. Agora, quem olhar de um lá em cima, de prédio mais alto e tirar uma vista, vai notar a Rua do Rosário começa certinha com a Rua Gama Rosa, e vai sair lá no Parque Moscoso. Seria um caminho opcional, isso foi nos anos 50&#8230; e diversos outros exemplos.</p>
<p>VB: Qual o relacionamento estabelecido entre o Sr. e Olympio Brasiliense?</p>
<p>PM: É como eu falei agora a pouco. O meu relacionamento com o Dr. Olympio sempre foi muito respeitoso, ele sempre foi um cidadão que se trajava de terno completo a hora que fosse, estava sempre de terno e gravata. Agora de dia, ele passava pela gente, e logicamente o homem era um alto funcionário da Prefeitura e a gente era um reportezinho, um foca, né. Sim senhor, doutor&#8230; Tudo bem? Oi! Oi! Isso até de noite, quando a gente se encontrava nos bares, e onde ele deixava de ser a figura que ele era para ser ele mesmo, e ai ele gostava de conversar, gostava de falar de Vitória, e eu sempre gostei sobre Vitória principalmente de autoridades, de erros de autoridades e na ocasião que ele se extrapolava e esculhambava, desde Punaro Bley&#8230;. Ele sempre se mostrou um incompreendido, que as idéias dele eram usadas, mas mão eram feitas como ele queria, que fosse feito, e ele se revoltava contra isso, e aí nós ficávamos até 3, 4 horas da manhã nos botecos, até um amigo dele levar ele até em casa. Ele tinha diversos amigos ele morava ali no centro, e aí doutor? vamos! doutor, vamos embora e Carregava ele pra casa.</p>
<p>VB: Sobre a cronologia da vida dele, a vinda para Vitória, os trabalhos, os contatos, amigos, o senhor sabe alguma coisa?</p>
<p>PM: Não, não sei, ele devia falar, mas o que nós estamos conversando aqui aconteceu já há 40 anos mais ou menos. Nos anos 60, 70, 40 anos mais ou menos.</p>
<p>VB: O trabalho que ele desenvolveu no Espírito Santo o senhor tem lembranças?</p>
<p>PM: Eu tenho lembranças desse tipo de coisa, por exemplo: aquele entorno do Parque Moscoso, ele também teve uma participação grande, mas também não fizeram como ele queria que fosse feito. O Parque Moscoso ali foi criado, as casas que existiam onde hoje é a Rua Misael Pena do lado do Colégio Americano hoje, eram casas populares, as casas foram feitas para o povo. Então quando fizeram o Parque Moscoso, ele achou que o Parque Moscoso também era para o povo, mas ele não aceitava que esse tipo de residência, esse tipo de grupo habitacional ficasse do lado do quartel, que ali era o quartel central da Polícia Militar, e ele se revoltava, não se revoltava, ele protestava contra isso. Dizia que isso tinha que ser feito em outro lugar, num local onde fossem acontecer indústrias, onde já tivesse um pólo comercial, e não do lado de um quartel. De repente havia uma revolução, porque revolução naquela época era todo mês, os aviões iam detonar o quartel pegava o pessoal todo. Nessa época o criticaram pra chuchu. E realmente não era uma situação agradável de quem morava ali. Eu me lembro que em 1945, quando acabou a guerra os aviões vieram fazer uma espécie de uma festa, e foi uma correria tremenda porque achavam que iam bombardear o quartel, teve gente que até largou casa, chorou&#8230; Isso foi noticiado, mas aconteceu mesmo, havia uma possibilidade de terror, e outra coisa que ele também protestou muito, e não foi só isso tem outros casos, foi a demolição daquele prédio do quartel. Ele achava, e eu também passei achar e qualquer cidadão que tem um pingo de respeito à memória do lugar que ele vive, tem que pensar assim. Aquilo ali de qualquer maneira era um monumento, era um monumento do Espírito Santo, um quartel de uma época de revoluções, enfim e era um prédio bonito. Não havia razão de desmanchar aquele prédio. Que fizesse o SESC tudo bem, mas que deixasse lá para as pessoas terem conhecimento. Ele tinha esse respeito pela memória, e ele se batia a respeito disso. Inclusive ele me contou uma vez uma história que o Pe. Diogo Feijó, ele foi, não é exilado, ele foi banido aqui para Vitória, Regência Trina, Regência Una, isso antes de Pedro I voltar para Portugal, e ele foi banido para cá, e a Rua Duque de Caxias era a única rua que havia, o mar vinha até&#8230; Então ali naquela Rua Duque de Caxias existiam tinham prédios seculares, prédios com arquitetura portuguesa colonial e estavam desmanchando os prédios e ai ele conta inclusive que o último ato que Pedro I assinou aqui foi o seguinte: é que o Diogo Feijó reclamava o mau cheiro do lugar, ainda mais que naquela época não tinha esgoto, era feito o despejo naqueles barris e ai a coisa ficava muito pior, e o último ato de Pedro I assinou antes de ir embora para Portugal foi mandando o Diogo Feijó para fazenda dos Monjardim em Jucutuquara, já era fazenda do Barão de Monjardim, e foi a salvação de Diogo Feijó.</p>
<p>Eu tive uma amiga que trabalhou lá muito tempo, a Carmélia de Souza, ela trabalhava na UFES e ela ficou lá uns dois ou três anos. Então ela me contava: Pedro, o padre aparece lá, toda a noite o padre ele aparece lá. Ah! Carmélia, você enche os&#8230; Mas ela jurava que via o Diogo Feijó lá. Então essa história, foi uma história que eu tive conhecimento, fiquei sabendo por intermédio dele, ele era um cara que se interessava, o Dr. Olympio se interessava muito não só pelo futuro de Vitória, mas também pelo passado, pela memória do lugar, e ele não era daqui, ele era mineiro, mas e ele costumava dizer capixaba &#8230;</p>
<p>VB: Sobre as casas populares: as casas de Jucutuquara também foram projetadas por ele?</p>
<p>PM: Pois é, dele também, e essa foi a bronca dele porque lá em Jucutuquara havia uma razão de ser porque existe lá uma fabrica de tecidos de juta. Então lá essas casas populares&#8230; o que se gastou nessas casas do lado do quartel tinha que ser gasto também lá, poderia se tornar um pólo industrial e não no centro de cidade, ao lado de uma Igreja Batista, ao lado de um quartel.</p>
<p>VB: Como o senhor definiria em poucas palavras Olympio Brasiliense?</p>
<p>PM: Um idealista que como todos idealistas viveram numa hora errada pra ele, porque ele tinha visão de como seriam as coisas, e os burros ou os sábios não tem, eles vivem das idéias dos idealistas, depois que é feito eles se aproveitam e um homem de visão em termos de urbanismo, sabia como as pessoas se movimentam, como vai facilitar as pessoas se movimentar e, o tráfego de veículo, e mesmo como o direito de ir e vir do cidadão.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-dUenLKRSoiQ/VrDhnlAKIdI/AAAAAAAAAqg/TBsXmbcEKlY/s1600/marcas_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="128" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/marcas_2-9.jpg" class="wp-image-6338" width="640" /></a></div>
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			</item>
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		<title>Entrevistado: Ivan Espíndula Coutinho</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com-ivan/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquitetura e Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Olympio Brasiliense]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Ivan Espíndula Coutinho Entrevistador: Vanessa Brasiliense Vitória, 16/ 10/ 2011 Filho de Aquiles Ivan Coutinho e Maria Carmem Espíndula Coutinho, nascido em Vitória, a 11 de 01 de 1938. Profissão: Marítimo (aposentado) VB: Sr. Ivan, ontem tive a oportunidade de conhecê-lo e o senhor não só me ajudou a reconhecer algumas residências do projeto [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/olympio-brasiliense-entrevista-com-ivan/">Entrevistado: Ivan Espíndula Coutinho</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
<b>Entrevistado: Ivan Espíndula Coutinho</b><br />
<b>Entrevistador: Vanessa Brasiliense</b><br />
<b>Vitória, 16/ 10/ 2011</b></p>
<p>Filho de Aquiles Ivan Coutinho e Maria Carmem Espíndula Coutinho, nascido em Vitória, a 11 de 01 de 1938.<br />
Profissão: Marítimo (aposentado)</p>
<p>
VB: Sr. Ivan, ontem tive a oportunidade de conhecê-lo e o senhor não só me ajudou a reconhecer algumas residências do projeto de Olympio Brasiliense, como também localizá-las. Conversando com o senhor, pude constatar que se tratava da Chácara Serrat, e o senhor me disse ser neto do Serrat e Trinxet. Quem eram essas pessoas?</p>
<p>IEC: Maria Eulália Serrat e José Ribeiro Espíndula.</p>
<p>VB: Serrat da parte de sua avó?</p>
<p>IEC: Sim, avós maternas, de origem espanhola que vieram da Catalunha. Minha avó casou-se em Vitória, com José Ribeiro Espíndula.</p>
<p>VB: E seu avô? Era também espanhol?</p>
<p>IEC: Não, meu avô era brasileiro.</p>
<p>VB: Quando eles vieram, de onde? O senhor sabe?</p>
<p>IEC: Creio que chegaram aqui antes da 2ª Guerra. Eu os conheci, meus avós tanto de pai como de mãe. Por volta de 1955, quando eu contava meus 17 para 18 anos. Nessa época eles faleceram.</p>
<p>VB: Quem veio da Espanha?</p>
<p>IEC: Minha bisavó, D. Maria Eulália Trinxet, viúva. Acho que era casada com Emílio Trinxete, e minha avó, que também se chamava Maria Eulália Serrat Trinxet.</p>
<p>VB: Que atividade eles tinham na Espanha antes de se mudarem para o Brasil?</p>
<p>IEC: Eles possuíam uma fábrica de cristais, acho que na Catalunha.</p>
<p>VB: Sabe por que eles vieram?</p>
<p>IEC: Não sei muito bem, mas desconfio que vieram por causa da revolução que houve na Espanha, com Franco.</p>
<p>VB: Por que escolheram Vitória?</p>
<p>IEC: Acredito que foi por causa dos parentes que aqui moravam. Havia muitos espanhóis morando aqui. Parra, Trinxet, Navarro, Feu Rosa parece que eram de origem espanhola, não sei não. Os Feu Rosa eram muitos amigos dos meus avós.</p>
<p>VB: Onde essas famílias de descendentes espanhóis se localizaram em Vitória?</p>
<p>IEC: Serrat e Trinchet, no centro de Vitória.</p>
<p>VB: O senhor sabe que tipo de atividade desenvolveram aqui?</p>
<p>IEC: Meu avô, eu não sei. Meu tio Altamiro Serrat Espíndula, porém, tinha uma fábrica de velas em casa e consertava guarda chuva.</p>
<p>VB: Como seus avós adquiriram a chácara?</p>
<p>IEC: Acho eu eles tinham muito dinheiro quando chegaram aqui, porque &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; &nbsp; montaram uma fábrica de cerveja, onde hoje é a Santa Casa de Misericórdia. Outro dia eu entrei na Da Casa com minha esposa, &nbsp;e eu vi o quadro dessa fábrica, acho que ali na Praça Costa Pereira.</p>
<p>VB: Sobre a chácara, o senhor sabe da delimitação da chácara?</p>
<p>IEC: Acho que esta quadra, que vai &nbsp;até a Rua Padre Nóbrega e a Escadaria Serrat. Essa chácara pertencia a eles. Abrangia a Rua Coronel Monjardim, Escadaria Piedade, Rua Pe. Nóbrega, Rua Aristides Navarro e Rua Uruguai.</p>
<p>VB: Como era a chácara?</p>
<p>IEC: Quando a conheci, já estava loteada. Alguns terrenos foram doados; outros, vendidos.</p>
<p>VB: Doaram para particulares ou para o Estado?</p>
<p>IEC: Não sei.</p>
<p>VB: Essa residência foi de seus avós?</p>
<p>IEC: Não, aqui foi dos meus pais. Esta residência foi meu pai quem a construiu, sempre morei aqui.</p>
<p>VB: Onde sua bisavó e avó moraram aqui em Vitória?</p>
<p>IEC: Aqui na ladeira Serrat. Onde hoje é o edifício Espíndula, nº 22, era um casarão. Eu lembro que tinha uma empregada, Virgínia Concarre, que veio da Itália e trabalhou desde os 17 anos, ficando nesse casarão até sua morte, com 96 anos. Mesmo depois do falecimento de todos, ela ficou morando no casarão.</p>
<p>VB: O senhor recorda de nomes de pessoas antigas que moraram na antiga Chácara Trinxet?</p>
<p>IEC: Temístocles, Amilcar, Messina; Jorge Boueri construiu esse edifício aí; José Serrat Espíndula, Roberto Serrat Espíndula e toda a família. Romualdo Gianordoli, falecido, que é casado com minha prima Maria Ângela Espíndula, que mora naquela casa lá.</p>
<p>VB: Como conheceu Olympio Brasiliense.</p>
<p>IEC: Eu o conheci no bar da D. Noêmia. Fernando Adinet que morou aqui, falava muito nele, inclusive ele tinha um apelido: Espanta Leão.</p>
<p>VB: Quem era Fernando Adinet? Onde trabalhava? Como conhecia Olympio Brasiliense?</p>
<p>IEC: Ele trabalhava no armazém de café da Cesmag, e faleceu com 62 ou 63 anos, não sei como conheceu Olympio Brasiliense. Lembro-me de que falava muito nele.</p>
<p>VB: Quais pessoas o senhor conheceu ou conhece que também conheciam Olympio Brasiliense?</p>
<p>IEC: Aldo Barrilário era um italiano, campeão sul americano de natação pelo Flamengo e Vicente Balbi, dono da mercearia Fluminense na Praça Costa Pereira.</p>
<p>VB: O Senhor conheceu ou sabe de algum projeto de Olympio Brasiliense?</p>
<p>IEC: Não, só o conhecia de nome e de vista no bar da D. Noêmia, bar Piraquê, que ficava ali na Ladeira São Bento e Rua Graciano Neves.</p>
<p>VB: O senhor mencionou um certo diário de sua bisavó, onde ele estaria?</p>
<p>IEC: Esse diário foi escrito em catalão por minha bisavó, onde conta a história desde que partiu da Espanha para cá. Ele foi traduzido para o espanhol e português. O original eu emprestei para meu irmão mais velho, que faleceu e a viúva não sabe onde está, mas um primo tem uma cópia.</p>
<p></p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-dUenLKRSoiQ/VrDhnlAKIdI/AAAAAAAAAqg/TBsXmbcEKlY/s1600/marcas_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="128" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/marcas_2-10.jpg" class="wp-image-6341" width="640" /></a></div>
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		<title>Entrevistado: Gelson Loiola</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquitetura e Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Olympio Brasiliense]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Gelson Loiola Entrevistador: Vanessa Brasiliense Data da entrevista: 27 de outubro de 2011. Profissão: Policial Militar da reserva PMES, professor, escritor. Data e local de nascimento: Vitória-ES, 15 de outubro de 1951. VB: Como conheceu Olympio Brasiliense? Ou como teve informações sobre ele? GL: O nome de Olympio Brasiliense veio à tona, quando durante [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
<b>Entrevistado: Gelson Loiola</b><br />
<b>Entrevistador: Vanessa Brasiliense</b><br />
<b>Data da entrevista: 27 de outubro de 2011.</b></p>
<p>Profissão: Policial Militar da reserva PMES, professor, escritor.<br />
Data e local de nascimento: Vitória-ES, 15 de outubro de 1951.</p>
<p>
VB: Como conheceu Olympio Brasiliense? Ou como teve informações sobre ele?</p>
<p>GL: O nome de Olympio Brasiliense veio à tona, quando durante pesquisas realizadas em 2009, para elaboração do livro sobre <i>A evolução histórica da Polícia Militar do Espírito Santo: 1800-2010</i>, em fase de conclusão, nas comemorações do aniversário de 101 anos do coronel reformado da PMES Amado Ribeiro dos Santos, realizada na residência de seu genro, coronel da reserva Caliman, ocasião que tive a honra de conhecer a entrevistadora e historiadora Vanessa Brasiliense, que durante a nossa conversa, informou-me sobre dados relacionados com projeto de construção do Quartel de Maruípe elaborado por seu pai, Olympio Brasiliense. Conforme inserido na citada obra nos seguintes termos:</p>
<p>“Em 1931, o Quartel do Moscoso em virtude dos problemas já abordados, com relação ao peso da obra e a consistência deficiente do terreno, segundo Assis (1935), ocorre o desabamento de algumas paredes e do telhado exigindo novos reparos, ocasião em que o comandante geral Regimento Policial Militar capixaba, tenente-coronel Carlos Marciano de Medeiros promove a construção de mais dois pavilhões, um para o Rancho e outro para o Serviço de Saúde da Corporação capixaba, minimizando a situação.</p>
<p>O fato ocorrido leva o tenente-coronel Medeiros a solicitar ao engenheiro Olimpio Brasiliense, (pai da historiadora capixaba Vanessa Brasiliense), em dezembro de 1931, a elaboração de um projeto arquitetônico para construção de um novo aquartelamento para a Corporação Policial Militar do Espírito Santo, conforme consta do seguinte documento:</p>
<p>&#8216;Olympio Brasiliense</p>
<p>Encaminha ao ten-cel Carlos Marciano de Medeiros</p>
<p>30 de janeiro de 1933.</p>
<p>Tendo V,Excia, em dezembro de 1931, me autorizado à confecção de um projecto para o novo quartel do Regimento Policia Militar deste estado, logo iniciei os estudos e posteriormente de acordo com o nosso entendimento, passei a elaborar o ante-projecto.</p>
<p>Assim venho fazer a entrega do ante-projeto junto, nas condições em que se encontrava quando suspenso em dezembro de 1932.</p>
<p>Amº Attº Obgdº</p>
<p>Olympio Brasiliense&#8217;” [transcrito do original – propriedade de Vanessa Brasiliense]</p>
<p>“Assim, Olympio Brasiliense, autor de muitos projetos na capital e no interior do Estado, inclui entre os seus feitos, o primeiro projeto do Quartel da PMES de Maruípe, iniciado e concluído 1932, não sendo executado em virtude do inicio da “Revolução Constitucionalista de 1932”, sendo enviado a comando da Corporação em 30 de janeiro de 1933, após o fim da revolução, conforme documento original de posse da citada historiadora.” [transcrição da obra “A evolução histórica da Polícia Militar do Espírito Santo: 1800-2010”, &nbsp;autoria de Gelson Loiola, em fase de conclusão]</p>
<p>Devido ao fato, me interessei em pesquisar um pouco sobre sua origem e suas obras que tiveram início no governo de Florentino Avidos (1924-1928).</p>
<p>VB: Qual o relacionamento estabelecido com Olympio Brasiliense?</p>
<p>GL: Olympio Brasiliense faleceu em 1985, apesar de já estar na PMES havia 10 anos, passei a maior parte atuando pela PMES no interior (1979-1985) em Colatina e (1986-87) em Nova Venécia- ES, e infelizmente não conheci pessoalmente o Dr. Olympio.</p>
<p>VB: O que sabe sobre: cronologia de OB, sua vinda para Vitória, seu trabalho, seus contatos e amigos?</p>
<p>GL: O que sei obtive através de pesquisa em publicações pela mídia capixaba, onde consta que Olympio Brasiliense, nasceu em 1903, na cidade de Belo Horizonte, em Minas Gerais. Fez seus estudos na Escola de Engenharia de Ouro Preto e na Escola Mineira de Agronomia e Veterinária de Belo Horizonte. Veio para o Espírito Santo no inicio do governo de Florentino Avidos em 1924, onde passou a integrar a equipe da Comissão dos Serviços de Melhoramentos do governo do Estado. Casou-se com Dª. Rosalina da Silva Brasiliense e trabalhou na Prefeitura Municipal de Vitória, onde se aposentou.</p>
<p>VB: O que sabe sobre o trabalho que Olympio Brasiliense desenvolveu no Espírito Santo?</p>
<p>GL: Em 2009, o Mercado São Sebastião, de Jucutuquara, inaugurado em 1949, completou 60 anos, então resolvi escrever uma carta ao Jornal <i>A Tribuna</i>&nbsp;para enfatizar o fato, e na pesquisa descobri que o projeto é de autoria de Olympio Brasiliense, assim como me faz crer que a casa que fica ao lado, e que está sendo restaurada pela Prefeitura Municipal de Vitória, e o prédio da delegacia local, também sejam de sua autoria. A mídia cita algumas obras dentre as quais se destacam o Centro de Saúde de Vitória, o Colégio Salesiano de Vitória, o Hospital Getúlio Vargas, o Hospital Infantil de Vitória, o Mercado São Sebastião. No no interior do Estado, o Museu Mello Leitão.</p>
<p>Esta publicação levou ao jornalista de <i>A Tribuna</i>,&nbsp;Pedro Maia, a publicar um artigo em sua coluna “Cidade Aberta”, em homenagem a Olympio Brasiliense, no dia 10 de julho de 2009, quando então passei a saber um pouco mais sobre o homenageado.</p>
<p>VB: Conheceu seus projetos?</p>
<p>GL: Sim, pessoalmente por ocasião em que sua filha (entrevistadora) Vanessa Brasiliense organizava o material (fotografias e mais de 300 projetos), para a Mostra que foi realizada na Aliança Francesa, em Vitória-ES.</p>
<p>Devo acrescentar que Olympio Brasiliense foi um dos fundadores do Iate Club do Espírito Santo. Ata de fundação:</p>
<p>&#8220;Ata de fundação de um clube esportivo como se segue: Aos seis ( 6 ) dias do mês de agosto do ano de mil novecentos e quarenta e seis ( 1946 ) , nesta cidade de à rua Sete de Setembro, onde se acha estabelecida a Casa Bancaria Peixoto &amp; Cia Ltda, às 17 horas e 30 minutos reuniram-se os snrs. Oswaldo de Freitas Victor, Otorino Avancini, Eurico Ildebrando, Aurelio Ruschi, Olympio Brasiliense, Walter Ribeiro, Hubert Leslie Howard, Cicero Sudré, Joaquim Ribeiro Gonçalves, José Taquínio da Silva, Raul Leão Castello e Asdrubal de Resende Peixoto, afim de fundarem um club com a finalidade principal de incentivar a pratica do esporte de barco a vela. Ao projeto de estatutos apresentado foram feitas emendas e sugestões pelos presentes e foram tratadas digo e foram tomadas as seguintes deliberações:</p>
<p>• Considerar fundado o &#8220;Club&#8221; com a denominação de &#8216;Yatch Club do Espírito Santo'&#8221; [http://www.ices.com.br/port/clube.asp] [grifo nosso].</p>
<p></p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-dUenLKRSoiQ/VrDhnlAKIdI/AAAAAAAAAqg/TBsXmbcEKlY/s1600/marcas_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="128" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/marcas_2-11.jpg" class="wp-image-6353" width="640" /></a></div>
<p></p>
<div>
</div>
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		<title>Entrevistado: Fernando Achiamé</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquitetura e Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Olympio Brasiliense]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Fernando Achiamé Entrevistador: Vanessa Brasiliense Vitória, 03/01/2012. Local e data de nascimento: Colatina, ES, 22 de fevereiro de 1950. Profissão: Historiador. Profº Achiamé, a nossa entrevista será em torno de Olympio Brasiliense. VB: O senhor conheceu Olympio Brasiliense? FA: Não, Vanessa. Pessoalmente eu não o conheci. Mas em 1982 eu fiz um concurso público [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
<b>Entrevistado: Fernando Achiamé</b><br />
<b>Entrevistador: Vanessa Brasiliense</b><br />
<b>Vitória, 03/01/2012.</b></p>
<p>
Local e data de nascimento: Colatina, ES, 22 de fevereiro de 1950.<br />
Profissão: Historiador.</p>
<p>Profº Achiamé, a nossa entrevista será em torno de Olympio Brasiliense.</p>
<p>VB: O senhor conheceu Olympio Brasiliense?</p>
<p>FA: Não, Vanessa. Pessoalmente eu não o conheci. Mas em 1982 eu fiz um concurso público para professor da UFES na área de Teoria e História da Arquitetura. Como o curso de arquitetura estava novo, fui logo nomeado e passei a lecionar disciplinas ligadas à Teoria e História da Arquitetura, e Estética, ficando lá de 82 a 97. E neste contato eu era o único com formação em História, tinha alguns engenheiros e professores e a maioria arquitetos e nessa época eu ouvi falar nessa figura, nesse profissional, que marcou, sem dúvida, a paisagem arquitetônica construtiva e até mesmo urbanística de Vitória durante um período. Cheguei a ter notícias de trabalhos que hoje em dia se chama de TCC Trabalho de Conclusão de Curso. Na época, era monografia final, projeto final de alunos que se interessaram por estudar a obra de Olympio Brasiliense, como também de um outro chamado Joel da Escócia, que morava na Praia do Canto. Com a obra de Olympio Brasiliense tive contatos esparsos, nessa época. Tempos depois esse contato foi ampliando quando você, Vanessa, organizou uma belíssima exposição, na Aliança Francesa, juntamente com Maria Clara Medeiros Santos Neves.</p>
<p>O importante é que valorizemos esse profissional. Na época eram poucos os arquitetos e a maioria formada no Rio e em Belo Horizonte. Após formados vinham para cá trabalhar na formação de profissionais em arquitetura.</p>
<p>Eu, enquanto professor na época, notava que os alunos do curso de arquitetura da UFES não esqueceram aqueles antigos profissionais, que mesmo não sendo arquitetos de formação, valorizaram os projetos da arquitetura. Isso é que me chamou atenção: de valorizar aquele antigo profissional, no caso Olympio Brasiliense. Se não me engano, ele era formado em engenharia, não é verdade? Com a criação do CRA, Conselho Regional de Arquitetura, em 2011, houve a separação do CREA, Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, uma vez que antes era tudo junto. Mas agora a arquitetura separou. Mas desde os 30 e poucos, que eram juntos e a gente vê um entrosamento, apesar de que havia uma certa rivalidade, isso é até normal. Aqui no Espírito Santo, pode-se citar o engenheiro Gracelli, que apesar de não ter formação acadêmica em arquitetura, fez belíssimos prédios e casas. Como Gracelli, tivemos outros arquitetos nessa mesma situação, porém, renomados na criação de projetos e obras estruturais. No entanto, mais importante que isso é valorizar o profissional, que é feito dele mesmo e de suas circunstâncias. A exemplo disso, cita-se Olympio Brasiliense, que, para o Estado, foi um profissional requisitado pela sua competência. Veio para trabalhar e projetou o Quartel da Polícia Militar. Na época, esse trabalho era encomendado pelo serviço público estadual, apesar das limitações. Acredito que coube, também, a Olympio Brasiliense o projeto do Hospital de Maruípe e Getúlio Vargas, que antes era um patronato e hoje é o Hospital Universitário.</p>
<p>Enfim, Olympio Brasiliense foi pioneiro na arquitetura do Espírito Santo, não só no projeto, mas também na questão estrutural da obra. Na época ele já projetava construções mais arrojadas, fugindo das construções coloniais de pedra e cal, de madeira antiga, dos sobrados, enfim. E, dominando a nova técnica, Olympio Brasiliense, em sua engenharia, vai adequá-la a uma linguagem mais eclética, visando não só o projeto como também à obra pronta, funcionando bem e em pé.</p>
<p>E com uma linguagem da época esse arquiteto lidera projetos. Com construção no estilo art déco, bem dos anos 20, 30&#8230; deu-se início ao Quartel da Polícia Militar, com aquele estilo despojado e revestido em pó de pedra. Era no período da II Guerra Mundial a construção desse quartel, que logo depois de pronto o Exército o requisitou para ser ali a sede do Comando da Artilharia de Costa. Isso contrariou a Polícia Militar, que teve que voltar para o seu antigo quartel no Parque Moscoso, onde ficou por um tempo até o término da guerra. Após a desocupação voltaram ao seu local devido.</p>
<p>VB: O senhor falou de trabalhos na UFES que mencionaram Olympio Brasiliense. O senhor lembra que trabalhos foram esses?</p>
<p>FA: Olha, eu não tenho uma lembrança precisa. Mas um desses trabalhos eu tenho certeza de que foi um projeto de graduação. Muitas vezes os alunos os faziam em dupla ou em grupo de três, alguns individuais. São trabalhos que, obrigatoriamente, Vanessa, estão depositados na Biblioteca do Centro de Artes ou, melhor ainda, no NAU, que é o Núcleo de Arquitetura e Urbanismo. Os alunos foram à Prefeitura, fizeram levantamento dos projetos e assim conheceram a obra, que não se restringiu apenas a prédios públicos. Também, Olympio Brasiliense atuou na área particular, fazendo muitos projetos de casas na época: Praia Comprida, Praia do Canto, no Centro da cidade. Enfim, era uma pessoa dotada de muita sensibilidade. A noção que tenho é que Olympio Brasiliense fez projetos tanto na área governamental, como na particular. Penso que ele trabalhou até fora de Vitória.</p>
<p>Ele era uma pessoa requisitada, um profissional reconhecido. Havia também outros profissionais, como Moacyr Fraga, um arquiteto bem velhinho, formado no Rio. Eu me lembro das páginas semanais, aos domingos, num encarte de <i>A Gazeta</i>, um caderno ligado a coisas de cultura. Isso nos anos 60 mais ou menos, eu garoto ainda, já começava a ler jornal [&#8230;] e esse Moacyr Fraga, se não me engano, era um arquiteto, mas era teórico que divagava, fazia elucubrações, tendo seu mérito, sem dúvida, porém, como projetista. Olympio Brasiliense, não, ele era notável, pois “botava a mão na massa”, que ele fazia e o cliente ficava satisfeito com isso, porque ele o atendia bem, fosse esse cliente um particular, fazendo sua casinha de veraneio aqui na Praia do Canto, ou a sua casa maior, no centro da cidade, ou o Estado, construindo diversos tipos de programas. E Olympio Brasiliense, enfrentava, de fato ele era um arquiteto, sem dúvida nenhuma.</p>
<p>VB: O senhor gostaria de acrescentar mais alguma coisa?</p>
<p>FA: Não. Gostaria, sim, de parabenizá-la e a Maria Clara Medeiros Santos Neves, por essa iniciativa, ressaltando a minha alegria de resgatar a memória desse brasileiro, mineiro, depois capixaba, que aqui constituiu família. A arquitetura capixaba se engrandece com esse profissional que tantas construções fez aqui no Estado. Tem sua obra valorizada, reconhecida e divulgada.</p>
<p></p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-dUenLKRSoiQ/VrDhnlAKIdI/AAAAAAAAAqg/TBsXmbcEKlY/s1600/marcas_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="128" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/marcas_2-12.jpg" class="wp-image-6356" width="640" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Entrevistado: Darcília Moysés</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:12:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquitetura e Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Olympio Brasiliense]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Darcília Moysés Entrevistador: Vanessa Brasiliense Vitória, 07/03/2012 Data e local de nascimento: Cachoeiro de Itapemirim, 24 de outubro de 1948. Profissão: Professora, atualmente na direção da Aliança Francesa. VB: Como você conheceu Olympio Brasiliense? DM: Antes de conhecer o profissional Olympio Brasiliense, o grande responsável por uma série de obras em Vitória, eu conheci [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
<b>Entrevistado: Darcília Moysés</b><br />
<b>Entrevistador: Vanessa Brasiliense</b><br />
<b>Vitória, 07/03/2012</b></p>
<p>
Data e local de nascimento: Cachoeiro de Itapemirim, 24 de outubro de 1948.<br />
Profissão: Professora, atualmente na direção da Aliança Francesa.</p>
<p>VB: Como você conheceu Olympio Brasiliense?</p>
<p>DM: Antes de conhecer o profissional Olympio Brasiliense, o grande responsável por uma série de obras em Vitória, eu conheci o marido de uma amiga de minha mãe.</p>
<p>Verdade é que Rosalina, na época, era amiga de minha mãe. Ela era filha dos donos da casa que minha mãe ficava hospedada quando ia ao Rio. E, assim, quando fui apresentada a Olympio, aqui em Vitória, eu já tinha conhecimento de sua esposa. Tinha eu nesse tempo uns 13 anos e talvez, por ser ainda bem jovem, não reparasse em determinadas coisas que a gente só começa a perceber mais tarde.</p>
<p>VB: E mais tarde, qual foi a impressão que você teve de Olympio?</p>
<p>DM: Mais tarde, como eu já freqüentava a casa de Olympio, eu o via sempre ouvindo música. Aliás, ele trabalhava ouvindo música. Havia em sua casa uma vitrola, ou seja, uma eletrola e era nela que seu pai gostava de ouvir ópera.</p>
<p>Para entrar na casa de Olympio, passava-se antes pela sala de trabalho, havia ali uma imensa mesa de madeira de engenharia. Ali, ele ficava às voltas com suas plantas e projetos. E, dentro desse metiê, havia música.</p>
<p>Nessa convivência, fui percebendo quão importante era esse homem, tanto para Vitória como para a Prefeitura. E não era apenas eu que reconhecia isso. Também seus amigos, pessoas que tinham um nível cultural alto, aliás, havia um jornalista, entre outros que freqüentavam a casa de Olympio e depositavam nele muita importância. Desses amigos, lembro-me do Feitosa e de um outro chamado Bachour. Nessa época comecei a ouvir a respeito da ponte Florentino Avidos e Olympio Brasiliense foi um dos que trabalhou na organização para receber a ponte vinda da Alemanha. Era na década de 30, e Olympio esteve presente nesse projeto. Enfim, ficamos sabendo que Olympio era de uma família conceituada, tinha feito estudos em escolas tradicionais em Minas Gerais. Mas isso foi àquela coisa da voz do outro, que foi ressoando, e que foi incorporando as informações que eu tinha do Olympio. Lembro-me de Olympio, também como dançarino de tango, quando ele deu um “show”, exibindo-se muito bem, no casamento de minha irmã. Era, como de costume, casamento em casa, e Olympio aproveitou para mostrar que não só em projetos ele era bom como também em dança, ele dançava tango muito bem, diga-se de passagem.</p>
<p>Hoje, a visão, que eu tenho de Olympio é de um intelectual, que usava uma piteira e gostava de música, sem deixar de lado a sua engenharia. Essa Vitória, que hoje aí está, é a Vitória de depois de Olympio, cujo nome está ligado à transformação na década de 30, em que o dedo desse homem esteve em diversos pontos de construção. Tão importante foi a sua figura como agente na história de nossa cidade, que, hoje, encontra-se registrado na memória de seus conhecidos.</p>
<p>Olympio Brasiliense era um cara feliz. Tinha seu próprio universo e vivia dentro dele curtindo o que gostava; amigos, cerveja, piteira, música&#8230; Ele era um cara que tinha um refinamento, evidentemente de uma outra época, não era dos anos 60, mas ele trazia um refinamento que era um pouco mais antigo até, e exatamente por isso chamava a atenção.</p>
<p>Quando você nasceu, ele ficou muito feliz. Foi um dia de vitória. Foi muito engraçado porque ele bateu lá em casa para avisar a mamãe para a gente sair correndo, para ajudar a Rosa. E ele estava super feliz, porque ele era muito idoso e para ele era uma vitória, ver a continuidade dele. Eu tenho muitos flashes nesse sentido. Eu me lembro que no seu primeiro aniversário, eu gostava muito de fazer docinho, fazer bolo, essa coisa toda, e eu me lembro dele todo empolgado porque ele ia fazer o seu primeiro aniversário. Seu bolo foi um V, eu não sabia ainda confeitar tanto, mas enfim, colocamos umas flores e eu me lembro que, eu não sei como surgiu a conversa, eu virei pra ele e falei: &#8211; não é muito fácil fazer isso não! E ele virou pra mim e disse: &#8211; É se fosse um V gótico seria pior ainda. Você está feliz ainda porque é um V retinho. Eu me lembro como se fosse hoje. E aí os amigos dele vieram, o Alevino Basset que era amigo dele, o Feitosa era um cara muito culto, muito inteligente, jornalista, ele morava ali no Edifício Glória.</p>
<p>VB: Como era Olympio Brasiliense?</p>
<p>DM: Ele era uma pessoa divertida. Ele não era uma pessoa pra baixo, era uma pessoa empreendedora no sentido dentro daquilo que ele acreditava, ele fazia um universo dentro dele. Ele tinha um universo muito particular, e dentro deste universo ele era uma cara que era feliz, a gente pode dizer que ele viveu feliz dentro desse universo. Ele curtia as coisas dele, ele curtia os amigos, ele curtia a cerveja boa dele, ele curtia a piteira dele. Ele não fumava: puf! puf! Não. Ele levava tempo, você sentia pelo gesto dele fumando que havia ritual, havia prazer, existem gestos que traduzem um mundo interior, e nesse caso a gente percebia isso. Agora, era uma cara que tinha um universo muito especial, muito dele e da turma dele. As pessoas que ficavam à margem dele, não estou falando à margem no sentido pejorativo, mas à margem dentro de um comportamento que é muito peculiar, que é muito próprio, que está muito ligada a pessoa dentro de um certo nível de intelectualidade, geralmente elas ficam à margem. Eu me lembro que ele conversava muito com o meu padrasto. Eu mesma não cheguei a conversar tanto com ele porque, a última vez que eu vi Olympio, eu acho que eu tinha 20 anos, 22 anos no máximo. Havia uma diferença muito grande. Mas, eu me lembro dele conversando muito com meu padrasto que era um homem muito culto também, seu padrinho Elias Albuquerque de Carvalho, eles conversavam muito.</p>
<p>VB: Você acha que ele se destacava pela intelectualidade em função do trabalho?</p>
<p>DM: Era a sua intelectualidade oriunda do trabalho e da experiência de vida que ele tinha. Olympio Brasiliense era produto de uma pessoa desenvolvida com um elevado grau de criatividade. E não fora só os estudos que lhe deram isso, apesar de ter passado por determinadas escolas e desfrutado de excelentes conhecimentos.</p>
<p>VB: Como você definiria Olympio Brasiliense?</p>
<p>DM: Olympio era um mundo, o qual construiu com excentricidade e muita cultura. Ele era um cara inteligentíssimo, uma pessoa culta, uma pessoa meio excêntrica, exatamente por causa dessa particularidade de ter um mundo já construído.</p>
<p>VB: Tem alguma coisa que você gostaria de acrescentar?</p>
<p>DM: Ele construiu seu nome, deixando não uma; mas várias construções como contribuição para a cidade de Vitória, que hoje guarda na memória seu eterno caminhar pelas ruas desta cidade. Seus passos estão ali impregnados marcando uma época de vitórias. Nos caminhos por que ele trilhou, passam hoje vidas que anonimamente sequer sonham quão importantes foi a contribuição desse homem na construção de Vitória, que longe de ser uma cidade planejada, guarda nas entranhas a memória de Olympio Brasiliense.</p>
<p></p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-dUenLKRSoiQ/VrDhnlAKIdI/AAAAAAAAAqg/TBsXmbcEKlY/s1600/marcas_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="128" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/marcas_2-13.jpg" class="wp-image-6365" width="640" /></a></div>
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		<title>Entrevistado: Aldezir Bachour</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Arquitetura e Urbanismo]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Olympio Brasiliense]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Entrevistado: Aldezir Bachour Entrevistador: Vanessa Brasiliense Vila Velha, 13 de dezembro de 2011 Local e data de nascimento: nascido em 10 de setembro de 1928, em São Jacinto naquela época era distrito de Santa Tereza, hoje São Roque do Canaã. VB: O senhor é descendente de família libanesa? AB: Meu pai era libanês; e minha [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
<b>Entrevistado: Aldezir Bachour</b><br />
<b>Entrevistador: Vanessa Brasiliense</b><br />
<b>Vila Velha, 13 de dezembro de 2011</b></p>
<p>Local e data de nascimento: nascido em 10 de setembro de 1928, em São Jacinto naquela época era distrito de Santa Tereza, hoje São Roque do Canaã.</p>
<p>VB: O senhor é descendente de família libanesa?</p>
<p>AB: Meu pai era libanês; e minha mãe, filha de italianos, da família Pretti que, na época era uma família grande espalhada por em Santa Teresa, Vitória e Colatina.</p>
<p>VB: E sua profissão?</p>
<p>AB: A Vida inteira, até 1973, fui exportador de café.</p>
<p>VB: E atualmente?</p>
<p>AB: Atualmente me aposentei, tomo conta dos imóveis, que possuo, e não tenho comércio nenhum mais.</p>
<p>VB: Como o Sr conheceu Olympio Brasiliense?</p>
<p>AB: Olympio Brasiliense, eu o conhecia há muito tempo, de vista. Depois, quem aproximou Olympio Brasiliense da nossa turma, foi Edgard Gomes Feitosa, um jornalista de “A Gazeta “ amigo íntimo meu e de Olympio Brasiliense.</p>
<p>VB: Isso em que data, o senhor lembra?</p>
<p>AB: Não posso precisar, mas calculo que foi por volta de 1950.</p>
<p>VB: Mas como se estabeleceu esse relacionamento, essa amizade?</p>
<p>VB: Nós nos encontrávamos às sextas-feiras: eu, Edgard Feitosa, Codé Bonfim, Bizinho o Almir Duarte Barreto, Lauro Ribeiro. Éramos 5 ou 6 e nos encontrávamos no Hotel Sagres, onde sentávamos e tomávamos alguma coisa. Olympio gostava de uma cerveja. Um dia chegou lá, estávamos nós lá sentados conversando – “hoje vou tomar guaraná!” Tomou guaraná e passou mal, não estava acostumado com essa bebida, e passou mal.</p>
<p>Ali também era lugar de discussões, e Olympio discutia vários assuntos com Sarlo, um amigo nosso. Olympio quando tratava de algum assunto, ia até o fim, e não admitia que ninguém o interrompesse, defendia aquele assunto. Ele discutia muito com Flamínio Sarlo, um corretor de câmbio. A discussão, de tão acirrada, colocava em dúvida amizade deles, porém, quando a conversa acabava, tudo se normalizava e a amizade era a mesma.</p>
<p>VB: O que o senhor sabe da vinda de Olympio Brasiliense para Vitória?</p>
<p>AB: A trajetória de Olympio Brasiliense de Belo Horizonte para Vitória foi devido ao apego e á amizade que existia entre ele e os filhos de Florentino Avidos, na época, governador do Estado. Em Minas, eles estudaram engenharia. Moraram na casa de Olympio e viviam juntos o tempo todo.</p>
<p>VB: O senhor sabe em que faculdade Olympio estudou?</p>
<p>AB: Minas Gerais e Ouro Preto também.</p>
<p>VB: Quem eram os amigos de Olympio Brasiliense?</p>
<p>AB: Sílvio Avidos&#8230; eram dois&#8230;</p>
<p>VB: Foram os amigos de Olympio que o trouxeram para Vitória. Isso gerou muito ciúme, pelo fato de Olympio ser dotado de vastas concepções, afinal era ele dono de uma sabedoria inigualável. O conhecimento dele ia além do conhecimento dos colegas. Com o passar do tempo, ele se colocou entre o pessoal, passando o que sabia de seu ofício para os outros colegas. Naquela época já estava nos planos de Olympio a retirada dos casarões velhos de Vitória e a edificação de novas construções.</p>
<p>VB: O senhor se recorda em que época ele veio para Vitória? 1924, 1925&#8230;</p>
<p>AB: Não, nessa época eu não existia. Ele era mais idoso do que eu.</p>
<p>VB: Sobre os projetos de Olympio Brasiliense, o senhor lembra-se de algum? Tem conhecimento?</p>
<p>AB: Sobre os projetos de Olympio, o que eu sei é que ele era muito procurado no sul do Estado, Cachoeiro e Alegre. Como profissional, Olympio não falhava. O conhecimento que tinha era passado adiante e os companheiros absorviam essa sabedoria, a qual os ajudava a exercer as suas funções.</p>
<p>VB: E a vida profissional de Olympio como foi?</p>
<p>AB: Como profissional Olympio Brasiliense era infalível e usava esse conhecimento para repassá-lo aos colegas, que os absorvia no exercício de suas funções.</p>
<p>VB: E quanto aos amigos?</p>
<p>AB: Entre os amigos, estava Alevino Basset, um construtor, que seguiu os ensinamentos de Olympio Brasiliense, o “know haw” de construções.</p>
<p>VB: Sobre aquele prédio Bachour, no Parque Moscoso, eu encontrei entre os projetos do Olympio, exatamente naquela localidade, o prédio de 8 a 10 andares, o Edifício Bachour foi projeto de Olympio?</p>
<p>AB: Sobre o Ed. Bachour, no Parque Moscoso, eu não me recordo se foi projeto de Olympio.</p>
<p>VB: No local onde esta esse edifício foi encontrado um projeto, mas sem identificação do proprietário. A construção do edifício foi o meu pai e, certamente, o projeto deve ter sido de Olympio, pelo fato de ter tido conhecimento com o senhor seu pai.</p>
<p>AB: Deve ter sido sim. Aquilo foi papai quem fez aquele negócio, eu era novo naquela época.</p>
<p>VB: Aquele prédio o senhor acredita que tenha sido projeto de Olympio?</p>
<p>AB: É, é.</p>
<p>VB: Então Olympio conhecia o senhor seu pai?</p>
<p>AB: Deve ser isso. Papai sabia dos nossos conhecimentos, o tempo todo.</p>
<p>VB: De um modo geral, o que o senhor gostaria de acrescentar sobre Olympio?</p>
<p>AB: Sobre o Olympio, o que posso acrescentar é o seu jeito correto de ser mesclado a um companheirismo ideal. Olympio foi um exemplo para todos que com ele conviveram.</p>
<p>VB: Como o senhor definiria Olympio Brasiliense?</p>
<p>AB: Nos tempos modernos com tantas novidades, certamente, Olympio se enquadraria, dada a sua inteligência aos seus conhecimentos e a sua flexibilidade em relação às inovações, às mudanças. Seria ele um homem de vanguarda, no campo da elaboração de projetos de construção.</p>
<p>VB: Olympio era adepto a mudanças, a novidades, a novas tecnologias?</p>
<p>AB: Olympio era um homem flexível, que se adaptava às mudanças e tinha uma mente voltada para as novas tecnologias. Dentro do conhecimento que ele construiu na engenharia da construção ele tinha domínio e facilmente esses saberes eram repassados àqueles que lhe eram caros. Para os amigos ele sempre estava disposto a colaborar, dando a sua contribuição no sentido de enriquecê-los profissionalmente.</p>
<p>VB: O senhor é da família Pretti. Aquela residência do Mário Pretti foi projeto do Olympio?</p>
<p>AB: Aquela residência do Mário Pretti, provavelmente fora projeto de Olympio. Mário apenas morava naquela propriedade da qual ele não era dono. Aquilo fora uma negociação dum Volpini, que tinha com Mário um compromisso. Digo que Olympio dói o mentor daquela construção porque ele era muito solicitado.</p>
<p>VB: Olympio era muito solicitado lá em Cachoeiro de Itapemirim e Alegre.</p>
<p>AB: Sim.</p>
<p>VB: O projeto da casa do Sr. Jorge, por sinal uma belíssima residência; o hospital de Alegre; a urbanização dessa cidade&#8230;</p>
<p>AB: Olympio era levado para lá pelo amigo do Mário Pretti, que vinha, buscava Olympio e levava.</p>
<p>VB: Há algum fato marcante do grupo de amigos que o senhor queira registrar?</p>
<p>AB: Era uma grupo de amigos os quais se encontravam às sextas-feiras. Todos eram amicíssimos de Olympio: Eu, Feitosa, Almir Duarte Barreto, Bizinho, Flamínio Sarlo, Paulo Ribeiro, Mário Ribeiro, Alevino Basset, Durval Avidos. Esses eram os que sempre estavam com Olympio, e entre eles havia uma cumplicidade, apesar de cada um desenvolver a sua atividade profissional. Edgard Feitosa era cronista de “A Gazeta”, morava no último andar do edifício do cine Glória.</p>
<p>Pimpinho! Nós o chamávamos Olympio, de Pimpinho. E ele atendia como Pimpinho. Quem gostava muito dele era Almir Duarte Barreto, morava lá no final da Capixaba. Bizinho ele era contador de uma firma que não me lembro mais. O Alevino Basset tinha uma firma de construção que ele dava assistência.</p>
<p>VB: A Albamar?</p>
<p>AB: Albamar.</p>
<p>VB: Olympio dava assistência à Albamar?</p>
<p>AB: Não, pessoal, não à firma. Ao Alevino, que vinha procurá-lo, ele auxiliava.</p>
<p>VB: Ele não quis mais voltar para Belo Horizonte ele ficou por aqui mesmo. O senhor sabe se lembra por quê? Teve algum acontecimento? O senhor disse que ele amava vitória.</p>
<p>AB: Ele tinha muita amizade ao filho do Avidos casado com Dona&#8230;</p>
<p>VB: Durval Avidos</p>
<p>AB: Amicíssimo de Durval Avidos</p>
<p>Qualquer problema dele, ele batia lá para a casa do Durval Avidos. Chegava lá, às vezes à noite mesmo, ele chegava lá e sentava na varanda – Maria! Maria! Maria era a mulher do (Durval) Avidos, aí abria e conversava e tal. A amizade continuou. A amizade dos Avidos foi através do Durval Avidos.</p>
<p>VB: Qual a relação Del Olympio com Vitória? Qual a impressão que ele tinha da cidade?</p>
<p>AB: Vitória para Olympio era lugar para viver. O sujeito vinha para cá através do Exército, do Banco do Brasil, a fim de trabalhar e aqui ele se estabelecia. Olympio Brasiliense amava a cidade, a qual o encantava pelas qualidades do lugar. O seu ofício na cidade de Vitória dava-lhe dinheiro, mas não era por isso que ele gostava tanto desta cidade.</p>
<p>VB: No centro de Vitória o senhor fez referência a uma região que foi demolida, que passou por uma urbanização, onde foi?</p>
<p>AB: Houve, em Vitória uma região a qual ele demoliu. Foi a dos Guimarães, que fica na região dos Correios.</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-dUenLKRSoiQ/VrDhnlAKIdI/AAAAAAAAAqg/TBsXmbcEKlY/s1600/marcas_2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="128" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/marcas_2-14.jpg" class="wp-image-6382" width="640" /></a></div>
<p></p>
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		<title>Depoimento de Gilbert Chaudanne ao Neples</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2015 18:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Neples]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>UNIVERSO PESSOAL E INÍCIO DE CARREIRA 1. Descreva sua infância e vida escolar Nasci e me criei em Besançon (França) — na região chamada Franco-Condado, cidade de pensadores e escritores (Victor Hugo, Proudhon, Fourier) — Besançon é antiquíssima, já existia no império romano (Vesutio). Meu bairro era o bairro popular tipo Vila Rubim, com imigrantes [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>
UNIVERSO PESSOAL E INÍCIO DE CARREIRA</h3>
<p></p>
<h4>
1. Descreva sua infância e vida escolar</h4>
<p>Nasci e me criei em Besançon (França) — na região chamada Franco-Condado, cidade de pensadores e escritores (Victor Hugo, Proudhon, Fourier) — Besançon é antiquíssima, já existia no império romano (Vesutio). Meu bairro era o bairro popular tipo Vila Rubim, com imigrantes (italianos, espanhóis, portugueses, árabes), muitos botequins e uma prostituição moderada. O bairro é medieval, barroco, renascentista e há até as antigas arenas do circo romano onde eu ia jogar futebol. Há também, onipresentes, as fortificações de Vauban (séc. XVII) que marcam o bairro com seu espírito de geometria estrelada. Bairro labirinto com os atalhos debaixo das casas como túneis quase esotéricos, tem o nome regional de “Trage”.</p>
<p>Meu prédio é uma antiga sinagoga e sempre achei que o corredor de entrada tinha algo “oriental”; o bairro era dedicado a Baco-Dioniso; ainda tem a praça “Bacchus” com um chafariz que infelizmente só verte água. — Uma das ruas que cerca meu prédio se chama de “Rue de Vignier”, essa última palavra certamente vindo de “vigne”, porque até o século passado [XIX] eram cultivadas muitas vinhas nesse bairro e em Besançon em geral.</p>
<p>Minha infância foi assim ninada por este doce labirinto, de uma certa maneira “haut en couleur” e cosmopolita. Eu me deslocava no meio de várias culturas (árabe, latina, francesa) sem problema, sendo aceito por todos como criança fácil de conviver.</p>
<p>O contraponto era uma casinha, perto de Besançon, que meus pais tinham numa colina. Lá os jogos continuavam = uma guerra de meninos nos murgers (amontoados de pedras retiradas do solo para cultivar a vinha). Esses murgers continham antigas casas talvez gaulesas e com meu irmão nós tentamos resgatá-las brincando de arqueólogos. Construíamos também “camps”, espécie de casinhas de pedras e folhagem. Tinha um lugar chamado “Bout du monde”, fim do mundo — e eu imaginava uma parede imensa debaixo dos meus pés (como as muralhas de Vauban) — e além nada: o azul do céu em cima, em frente, em baixo. Tudo isso era talvez meu imaginário.</p>
<p>Mas havia a escola. E eu era o aluno modelo, sempre no primeiro ou segundo lugar, muito disciplinado, e a disciplina na França não é mole não. No liceu (até 18 anos) continuei meu caminho glorioso (4 vezes prêmio de excelência em 7 anos) — disciplinado e apaixonado pelas ciências e matemáticas, mas praticando a pintura e o desenho desde os 13 anos de idade e a escrita a partir dos 17. — Uma infância feliz, onírica — sim — uma adolescência desesperada: o surgimento da consciência e a ausência de um apoio adulto — apesar de uma admiração generosa para certos professores.</p>
<p>Aos 12-13 anos eu tinha o que eu chamava de “crises filosóficas”. De repente o mundo cotidiano parecia se abrir, como uma fenda, e me colocava em contato com uma espécie de outro mundo sem que esse fosse um mundo sobrenatural. Era algo como Sartre o descreveu na Nausée. E os adultos viam isto como anormalidade — o que me magoava muito e me levou à revolta.</p>
<p>A universidade foi traumática porque eu estava perdido num rebanho imenso, enquanto no liceu eram turmas pequenas onde tinha um certo aconchego e uma certa crueldade também. Minha revolta foi crescendo, passou por 68 e foi na direção da Índia. Abandonei os estudos e viajei. Fim das escolas —</p>
<p></p>
<h4>
2. Que lembranças guarda da sua cidade natal e ou das outras cidades onde viveu?</h4>
<p>Acho que já respondi à primeira parte da pergunta.</p>
<p>As cidades onde eu vivi: Marselha, Berlim, Vientiane (Laos), Natal, São Luís, Teresina, Lisboa.</p>
<p>Berlim me marcou bastante: em 1971, era a época do Muro da Vergonha e a situação ilhada de Berlim ocidental, essa situação excepcional me agradava justamente porque era excepcional. — Berlim também simbolizava a capital das Brumas metafísicas e germano-nórdicas em oposição ao sul mediterrâneo luminoso. — Cor: cinza e azul da Prússia.</p>
<p>Vientiane: na época da guerra do Vietnam, com suas polícias múltiplas, o Rei, o Triângulo de Ouro ao alcance da mão. A queda da monarquia e uma cidade-jardim, doce, estendida ao lado do Rio Mekong. — Cor verde e mel.</p>
<p>Lisboa: capital da Europa para mim / — um filme de Alain Tanner: “La ville blanche” (a cidade branca) retrata bem Lisboa. Talvez essa presença do labirinto (como o do meu bairro) e sempre fui mais atraído pelos povos do sul da Europa ou da Ásia, América latina, e África que pelos germanos-nórdicos anglo-saxônicos. (Austrália e América do Norte não me interessam): Cor azul e branco.</p>
<p>Natal: uma cidade que era uma etapa da minha busca da cidade absoluta e absolutamente aconchegante. Cor: azul.</p>
<p>São Luís: magnífico poema sujo. Cor marrom e creme.</p>
<p>Teresina: uma aparente ausência de elegância, comparando com São Luís e Natal — porém convivendo mais uma presença de quintal, um rosto escondido. Cor: Teresina é chamada cidade verde, mas para mim ela é bege.</p>
<p></p>
<h4>
3. Como começou sua atividade literária? Recebeu orientação ou incentivo de professores ou ainda de outras pessoas?</h4>
<p>Comecei a escrever aos 17 anos, no verão, depois de ter lido Assim falava Zaratustra. Nunca mostrei para ninguém até minha primeira publicação em 1973, oito anos depois.</p>
<p>Trabalho só, não peço opinião, somente depois que o texto é publicado. No fundo, não duvido do valor do que escrevo.</p>
<h4>
4. Quais foram suas primeiras leituras e primeiras produções literárias?</h4>
<p>Primeiras leituras: Edgar Allan Poe, Nietzsche, Dostoievsky, Conan Doyle, Anatole France.</p>
<p>Primeiras produções literárias: um texto poético-filosófico aos 17 anos lembrando Nietzsche, e depois poemas que podem lembrar Verlaine, Hugo, Mallarmé, apesar denão gostar desses autores e de conhecê-los muito pouco.</p>
<h3>
O ESCRITOR E SEU OFÍCIO</h3>
<h4>
5. Quais os temas principais abordados em sua obra? Que função predominante atribui à sua literatura?</h4>
<p>Os temas: a revolta (hoje desapareceu), a viagem, o Amor, o espírito do lugar, a história. Acho que a literatura não tem função nenhuma, ela é gratuita e está ali como uma pedra ou uma flor. Ela está e isto basta.</p>
<h4>
6. Quando começa a escrever, o enredo já está definido ou se desenvolve e se altera à medida que vai escrevendo? Delineia os capítulos e planeja toda a estrutura antecipadamente?</h4>
<p>Minha maneira de escrever é pulsional: obedece ao meu “inconsciente”, melhor: confio nele e não na minha razão porque essa tem suas razões que não são as da escrita. A obra é sempre epifânica e não é uma construção, um projeto. Às vezes posso ter um projeto mas em geral ele termina sendo traído. Talvez existam outros tipos de temperamentos literários: os machadianos, o escriba, os que relatam e ordenam, o meu temperamento literário é dionisíaco: acredito no delírio. No delírio autêntico.</p>
<h4>
7. Até que ponto seus personagens se baseiam em pessoas reais, inclusive em você mesmo? Como você escolhe o nome dos personagens?</h4>
<p>Eu não crio muitos personagens mas quando há alguns acho que como em Proust eles são a síntese de várias pessoas reais porém com algo a mais que faz que o personagem se torne arquétipo. Ex.: Dom Quixote. O meu eu narrador é um outro eu que talvez nem me pertence.</p>
<p>Os nomes dos personagens (quando tem) são escolhidos instintivamente, o nome surge um dia com uma nitidez incontornável.</p>
<h4>
8. Do ponto de vista da técnica, quais os escritores que mais admira e de quem sofreu influência?</h4>
<p>Artaud, Lautréamont, Augusto dos Anjos, Audífax de Amorim, Marguerite Duras, Amylton de Almeida, Dostoievsky, Camus, Nietzsche, T. S. Eliot, Auden, Wallace Stevens, Hopkins, Rimbaud, Ferlinghetti, Kerouac, Laforgue, Rabelais, Céline.</p>
<p>Quem me reconciliou com a literatura (que eu odiava apesar de escrever) — foi Artaud e Lautréamont porque seus estilos fogem das artimanhas, do coquetismo, do preciosismo e da ausência de generosidade que esteriliza a literatura francesa.</p>
<h4>
9. De que modo descreveria seu estilo?</h4>
<p>Atualmente um estilo neobarroco e às vezes meio cubista, barroco porque não tem medo do chamado mau gosto, das repetições e das cacofonias, cubista porque justapõe frases ou elementos de frases que aparentemente não têm uma relação lógica mas apenas espacial.</p>
<h4>
10. Faz uso de intertextos, analogias, referências, citações?</h4>
<p>Sim, às vezes até inconsciente e às vezes eu reutilizo uma frase, o refrão, ou personagem de um outro livro meu.</p>
<h4>
11. Faz uso do diálogo interior?</h4>
<p>Sim, mas raramente.</p>
<h4>
12. Faz uso da linguagem popular?</h4>
<p>Sim, mas não de uma maneira contínua, ela convive com outros tipos de linguagem como a linguagem erudita, ou línguas estrangeiras.</p>
<h4>
13. Sente-se mais à vontade numa narrativa na primeira ou na terceira pessoa?</h4>
<p>Em geral, na primeira, mas eu admiro os escritores que criam um personagem que termina existindo mais que o autor, como Don Juan ou Dom Quixote; Le Grande Meaulnes.</p>
<h4>
14. Com que regularidade escreve?</h4>
<p>Todo mês, escrevo um ensaio para a revista Você e participo de outras revistas mineiras, piauienses e francesas. Eu posso ter uma periodicidade no tipo ensaio não na poesia ou escrita a caráter poético como A passagem de Marina. — Gosto de escrever cartas: é um bom exercício como a barra para a bailarina.</p>
<h4>
15. Reescreve seus textos, cortando, acrescentando, alterando?</h4>
<p>Em geral não. Há o primeiro “jato”, no máximo depois passo a limpo corrigindo apenas detalhes. Mas às vezes escrevo uns dois ou três textos que não me satisfazem, até chegar no que eu gosto. Mas a maioria das vezes é o primeiro “jato”.</p>
<h4>
16. Qual é sua relação, como escritor, com a língua portuguesa?</h4>
<p>Sendo de língua francesa minha relação talvez é mais complicada. Tenho a impressão de ser um eterno Cabral lingüístico já que eu nunca termino de redescobrir a língua brasileira. Isto é uma espécie de nova inocência que acho fecunda para a escrita já que há de ter essa relação lúdica com a linguagem para poder escrever.</p>
<h3>
O LEITOR E A LITERATURA</h3>
<h4>
17. Faz concessões ao leitor nos seus textos?</h4>
<p>Não.</p>
<h4>
18. Que acha da função da crítica literária?</h4>
<p>Condená-la é um romantismo adolescente.</p>
<p>Fazer sua apologia é uma mumificação perigosa do saber.</p>
<p>Acredito numa crítica que é ao mesmo tempo pensamento e criação. O tipo é Roland Barthes. Cuidado com a superinterpretação que é o delírio das críticas sociológicas ou psicanalíticas ou ideológicas.</p>
<h4>
19. Qual sua opinião sobre o futuro do romance, da poesia, do teatro?</h4>
<p>Para ter futuro teria talvez que ter presente, e a literatura boa é tão pouco lida hoje que não me preocupo com o futuro mas com a situação meio catastrófica que é a de hoje.</p>
<h4>
20. Que tem a dizer sobre os autores do Espírito Santo?</h4>
<p>Eu descobri aqui talentos que vão se projetar nacionalmente e internacionalmente: como Amylton de Almeida, Audífax de Amorim, Reinaldo Santos Neves, Renato Pacheco. Ao que me parece há duas tendências, uma escrita erudita ou neoerudita que é a dos autores citados e outra mais descompromissada com o passado como Flavio Sarlo ou Wilson Coêlho (“a palavra criatura”).</p>
<p>É possível estabelecer uma identidade literária capixaba? Escrevi na revista Você um texto sobre a identidade capixaba. [Vide na seção Textos/Identidade da ESTAÇÃO CAPIXABA] É de fato um estudo sobre um possível imaginário capixaba e era destacado um certo “efeito mosaico”, uma fragmentação devido às várias culturas encontradas no estado. Na literatura parece que a fragmentação é apenas literatura erudita-trabalhada / literatura coloquial-espontânea. O tema da Terra Natal (Canaã, romance das imigrações etc.) existe mas não é isto que cria uma identidade no plano da escrita e do espírito do lugar. Neste último caso me parece que o desencanto de Amylton de Almeida, o ceticismo irônico de Reinaldo Santos Neves, uma certa distanciação apurada nos poemas de Renato Pacheco, poderiam ser uma vertente de sensibilidade literária capixaba atual: distanciação. De uma outra maneira, um certo telurismo de José Irmo Gonring, a busca da casa “habitável” aqui e agora de Roberto Almada, o espontaneísmo de Flavio Sarlo, compõem uma outra vertente da aceitação do aqui e agora. Um sim que se opõe à distanciação dos autores citados no primeiro caso.</p>
<p>Acho que a cidade de Vitória (Carmélia M. de Souza, Amylton de Almeida, Reinaldo Santos Neves) tem um papel talvez à parte e que ela não aparece como cidade neotropicalista ou machadiana mas como cidade existencialista.</p>
<h4>
21. O que teria a dizer aos escritores iniciantes?</h4>
<p>Escreve.</p>
<p>[1996]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 </span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia <b>autorização expressa</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>O camponês da arte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Nov 2001 18:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
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		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
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<br /></h3>
<p>O francês Gilbert Chaudanne nasceu em Besançon (talvez não por coincidência também a terra natal de Victor Hugo), a 332 quilômetros de Paris, em 3.6.1948. Logo, logo, porém, Chaudanne abandonou as ruínas romanas, as brumas e o clima romântico da bela Besançon, além da formação acadêmica em Biologia e Matemática, com mestrado em Geologia, e, tomado pelo espírito de Van Gogh, caiu no mundo — atrás de sol e calor —, munido apenas de pincel, caneta e de um desejo insanável de capturar o Belo com tintas e palavras. “Mas a arte é uma busca eterna. Por isso estou sempre pintando” — diz ele, candidamente, sabendo que, ao chegar ao topo de uma montanha, é preciso continuar subindo.</p>
<p>Quando <i>Você </i>convidou o escritor e psicólogo Oscar Gama Filho para entrevistar Gilbert Chaudanne, esperava apenas uma entrevista. O que se vai ler nas próximas nove páginas é mais do que isso. É, principalmente, um debate sofisticado sobre o fazer artístico.</p>
<p>Atenção: Esta entrevista é para ser lida com sotaque francês.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
<i>VOCÊ</i>: Por que a opção de vir para o Espírito Santo, deixar a França, um país civilizado, e aqui desenvolver uma obra bonita, tanto em termos de artes plásticas, quanto de literatura e de crítica?</p>
<p><i>CHAUDANNE</i>: É uma história antiga. Eu tive um primeiro contato no Brasil, em 1972. Me apaixonei pelo nordeste, o lado medieval, os poetas populares. Bom, eu fiquei por lá 7 anos, e depois voltei para a França, querendo voltar ao Brasil. Só que no nordeste, às vezes, eu ficava meio isolado e procurei um lugar no sul. Mas, também, não gosto de cidade muito grande. Olhando o mapa tinha que ter certas condições, como ser uma cidade à beira-mar, uma cidade com clima tropical, uma cidade que não fosse grande demais e que fosse, também, capital cultural para eu poder me manifestar. Rio era muito grande, Salvador também é grande. Lá no sul tem Florianópolis, que é uma ilha, e eu não sabia, e olhei Vitória: deve ser aí. A opção foi a mais racional. Aí, depois de chegar aqui, comecei a pintar arte sacra, porque a cidade… esse lance da Madona é muito interessante. A cidade, na verdade, é dedicada à Nossa Senhora da Penha, Nossa Senhora da Vitória. Não sabia nada disso. Lentamente, inclusive, conversando com as pessoas ou com os alunos, às vezes, lá na Aliança Francesa, surgiram esses signos. Na escrita, trabalho o espírito do lugar, e eu vi que a cidade tinha uma configuração incomum: ilha e montanha. Esta é a configuração do lugar e já me despertou interesse. Então, tem um jogo de simbolismo. E é do que eu gosto, perto do mar, clima quente e tal. Eu não sabia das montanhas, uma boa surpresa. Eu gosto delas, como gosto do mar. E, justamente, talvez, dizem que o inconsciente se esconde no lugar da razão. Cheguei aqui pensando em ser bem racional, e achei a minha mitologia toda aí. Ela foi-se formando, no caso da Madona. Então, é uma escolha racional, que foi-se desdobrando em símbolos. É só, talvez, o meu imaginário que está nutrindo isso, mas o lugar sabe me nutrir. Ele é um pouco fenomenológico. Mas, o caminho foi isso, foi uma armadilha agradável através do meu inconsciente, eu acho.</p>
<p>— Então, Chaudanne, o clima foi fundamental para trazer você para o Brasil? Por que a Europa, também, é medieval. O que trouxe você para o Brasil foi o que levou Rimbaud para a África? É o clima, é o sol? Rimbaud disse que era impossível escrever debaixo de um céu azul e um sol daquele, não é?</p>
<p>— Eu acho que muitos europeus têm esse mito do sol. Rimbaud falava que era filho do sol. Só que, para mim, é o contrário. Sobretudo, para pintar, o fato de ter o sol… Se acordo e tem um sol como o desses dias, tenho vontade de pintar. O clima cinzento da Europa me angustia e acho que não é por acaso que Kierkegaard criou o conceito de angústia nas brumas, que não são nem de Avalon, são da Dinamarca mesmo. Então, tem uma certa náusea, sim, porque a Europa de hoje é cinzenta. Essa luz, sim, é de poeta, essa busca da luz e, do pintor, é talvez mais, porque o Van Gogh ficou deslumbrado no sul da França. Bom, a Holanda tem muitos pintores, mas não chegam até essa luz mediterrânea. Aqui no Brasil, esse jogo de luz e de cor… a luz é muito forte e a cor, talvez, torna-se transparente, de certa maneira. O que eu retrato lá nos meus quadros e uso muito é um gel, que dá uns efeitos de superposição. Agora, o fato mais prosaico do quente e do frio, é que eu me sinto melhor no calor. Talvez tenha um lado psicológico, o cinzento e as neblinas e tudo isso, a neve. Eu até gosto, mas… Eu tenho essa fascinação pelo sol. Meu primeiro contato foi no sul da França e na Itália, quando era adolescente. Com o mar Mediterrâneo também, o mar e o sol.</p>
<p>
— Vitória tem um hino oficial e um hino verdadeiro, que é: “Cidade sol com o céu sempre azul”. Diz a lenda que o nosso azul, a nossa luminosidade, não tem igual no Brasil. E a melhor época do ano, segundo os especialistas em cor, seria o outono, que teria as cores bem interessantes. E no verão, no nordeste, há um problema, porque a luz é demais, então, ela desbota um pouco, fica chapada. E no sul tem a questão de ficar meio penumbrento, meio angustiante e cinzento. Aqui a luminosidade é celebrada, vemos várias pessoas falando isso.</p>
<p>— Eu nunca ouvi falar o que você está falando, mas já fiz essa observação da luz do nordeste: ela deixa as coisas e as cores chapadas. A daqui tem um lado meio impressionista, apesar de que eu não trabalho assim, mas tem muito paisagista aqui na pintura, talvez porque, realmente, a paisagem seja incomum. Mas, também, por causa dessa luz, dessas mudanças. O mar, às 5 horas ou 4:30, é o mar de prata. Acho que lá no sul puxa mais para a penumbra e já vem a luz européia. A do nordeste me fascinou, mas a daqui… talvez, a de lá seja mais cortante e a daqui puxe mais para delicadeza dos tons.</p>
<p>— É o tempero adequado. No nordeste salga a tela e no sul tem pouco sal. Aqui há um equilíbrio. Bom, uma pergunta que vem em decorrência do que estamos falando, você tem uma atração por símbolos sacros, por madonas. Essas atração é meramente estética ou tem um cunho religioso? Quer, dizer, você tem uma ligação religiosa, de alguma forma (porque são símbolos católicos) com o catolicismo? Você é católico?</p>
<p>— Eu vou dizer não, mas eu me defino, atualmente, como agnóstico. Com relação ao problema do divino eu falo o tempo todo, nos meus escritos, o divino tem toda uma relação complexa. O católico, o que admira em certas religiões, não é só cristão. Tem o budismo, inclusive, a arte tibetana e tudo. Eu gosto muito do ícone ortodoxo mas também do medieval. Escultura, catedral. Eu acho que até a metade do Renascimento, até Leonardo da Vinci, incluindo a Idade Média toda, todos os ícones, havia algo de sacro naquelas figuras. No Barroco, às vezes, perde-se um certo tipo de sacralidade, para passar uma coisa mais emocional. Eu assumo minhas fascinações. Sei que não posso explicar isso, explicar como, dessas fascinações, faço imagens. Para mim o importante é isso. Ultimamente, voltei a pintar naturezas mortas, que já fazia há muito tempo, no nordeste, e, quando adolescente, na França. Aí, eu me questiono: o que uma chaleira tem em comum com a Nossa Senhora? Porque um seria um olhar mais fenomenológico da natureza morta, do objeto como percepção, e a Madona é rasgar o céu, transcendental. Mas gosto muito de Van Gogh, não gosto só de arte sacra. Munch, Klimt, por exemplo, aquelas cadeiras, de Van Gogh, de palha, o que é que tem lá que fascina tanto? Para mim, elas são tão sagradas como a Madona de Rafael, de Leonardo da Vinci ou de Boticelli. Porque, na verdade, não é tanto o tema que importa, ele tem uma função, mas é o olhar. E nessas naturezas mortas, aquela chaleira simples, acho que o mundo está ali, só. Você tem uns momentos em que vê um objeto, ele é simples e está lá. Parece que o mundo se centraliza, se fecha ao redor daquela cadeira e daquela chaleira. E naquilo tem tanta coisa quanto numa imagem do Divino. Estou lendo filosofia, atualmente. Eu leio muito São João da Cruz, mestre Descartes, essa linha. Agora, não posso dizer que tenho fé. Acho que no fundo tem algo em mim que quer ter a fé. Então, tem uma parte de mim, que é a minha parte intelectual, que não se desdobra, não casa com isso. A gente não tem resposta mesmo. É fazer imagens e pronto.</p>
<p>— Nota-se que você tem uma tendência à sacralização e à transcendentalização. São tendências, e falo isso, naturalmente, em tom de elogio, um pouco metafísicas, em que você abandona os limites da realidade sensível. Aliás, agnóstico é aquele que acha que pelas vias do conhecimento sensível não se pode conhecer Deus. Mas essa sacralização, essa tendência a transcendentalizar, essa direção que a gente vê, eu percebo muito em você. A gente vê que a sua mente, a sua alma, não habitam o mesmo espaço que seu corpo. Você se preocupa muito pouco com o seu corpo, com o que você faz. Você seria uma máquina de produzir arte, uma máquina de transcendentalizar, uma máquina de sacralizar. Como é isso? Por que cresceu tanto a arte dentro de você, como elemento físico, orgânico, corporal, se atrofiou?</p>
<p>— O transcendental existe no meu trabalho, no que eu falo, mas não é um transcendental, apesar de que a arte sacra é neoplatônica, de certa maneira. A concepção que tenho disso é mais no caso da natureza morta, é o surgimento do ser. Como Heidegger fala, o ser é um assoalho e neste tem uma tábua que descolou, que despregou, e ela levanta um pouco, e aí tem um buraco. Esta é a imagem que criei para mim, sempre o lance das imagens. E não tenho essa separação, justamente, do corpo e da alma, que é mais Platão. Não vejo de outra maneira o corpo. Tenho pavor do bom materialista, que fala que, quando isso aqui morrer, não vai ter mais nada. Estava lendo Augusto dos Anjos, Verne, e não acredito nesse poder do espírito. O espírito, a psique existe, é claro, o homem não se reduz a uma fisiologia. Mas acho que não se reduz nem ao espírito nem ao corpo. Porque o materialismo absoluto, também, não satisfaz muito o questionamento. O corpo-envelope, receptáculo do espírito, da alma, não me satisfaz porque uma dor forte tenho que procurar um médico, ele que tem o remédio. O corpo tem a vida dele. O Artaud falava que o corpo pensa, mas é uma contradição, porque no meu trabalho, tanto na escrita como, sobretudo, na pintura, tem esse transcendentalismo neoplatônico. Disso aí sou consciente porque tem toda representação, como o pássaro da alma, a serpente da matéria-prima e por aí vai. Mas é o que estava falando, não sou pensador, no caso da pintura ou da escrita poética, eu tenho que aceitar o que está chegando para mim. Porque me coloco na posição do receptáculo e tenho que aceitar, mesmo que a minha razão, o meu intelecto, não aceitem, o que está chegando.</p>
<p>— Bom, vamos explicitar melhor isso. É o seguinte, Chaudanne: a sua pintura está presente, mas não estou-me referindo a ela. Onde é que está Gilbert Chaudanne? Para o capixaba, você é um enigma no seguinte sentido: seu corpo, suas vestes, sua barba, seu cabelo sempre, artisticamente, revoltos, como era Rimbaud. Nenhuma preocupação em passar um pente no cabelo, na barba, e não estou dizendo que você deve fazer isso, porque, no dia em que fizer, vou ficar decepcionado. Quando a gente vai conversar, percebe-se isso, que nós temos aqui um dos grandes cérebros, uma das nossas grandes mentes, uma das nossas grandes sensibilidades. A gente percebe que essa mente parece que abandona o corpo, parece que se desliga dessas coisas materiais, dessas coisas efêmeras, coisas fúteis, de vaidade, e você se sintoniza em outro canal. Quero saber sobre Gilbert Chaudanne. Como fica isso? Em termos do seu ser, de você, Gilbert Chaudanne. Há esse tipo de posição, de fato?</p>
<p>— Não é uma posição. É uma coisa que eu não procuro, não é uma pose. Eu sou assim. Não estou obedecendo ao, por exemplo, Rimbaud, que admiro muito, mas não faço o gênero Rimbaud. Se eu tenho alguma coisa a ver com ele, é que eu também sou um matuto lá da França e, talvez, os bárbaros e ineptos que eram os gauleses e tal. Mas não tem pose naquilo, é uma coisa assim que… Sinceramente, não me preocupo com isso. As pessoas me aceitam e acham meio estranho, mas não é atitude, uma espiritualização. Eu sou um camponês da arte.</p>
<p>— Chaudanne, estávamos conversando há pouco e você dizia que, de certa forma, cada obra de arte é um resumo do universo que a comporta. Seria mais ou menos como o DNA, em que cada célula do corpo tem uma cópia de todo o ser?</p>
<p>— Eu fiz, certa vez, uma pequena teoria. Gosto de teorizar também, é o meu lado intelectual. Não tem aquele quadro com um casal que tem um medalhão que representa o quadro todo dentro do quadro? O quadro dentro do quadro. Dentro dele tem o infinito. Esta é uma ilustração que, como o Aleph, de Borges, parece — e a gente pode sonhar com isso — que tem um ponto, de onde se vê o universo todo. Pode ser um plano puramente simbólico, mas poderia ser também como uma abertura para o real. A obra de arte não concorda com esta interpretação do psicologismo, é a subjetividade do artista que está vendo. Eu acho que a arte, se não é um conhecimento no sentido científico, é uma apreensão do real. Mas esse real é inacessível, é uma busca eterna, por isso que o pintor está sempre pintando. Eu já fiz centenas de madonas, mas depois vou fazer outras, porque cheguei perto, mas não é. Isso aqui são especulações mesmo da razão pura ou prática. Só que, no ato da criação, não tenho essa preocupação. É algo que acontece, vou acompanhando, porque tem um desdobramento e gosto de analisar um pouco, filosófica ou criticamente. Acho que a filosofia e a crítica são um jogo do espírito, como a arte. Falamos que a arte é lúdica, mas o pensamento, mesmo altamente lógico, é lúdico também. O que é mais lúdico do que matemática? Não para os meninos do colégio, claro, que eles vão achar chato.</p>
<p>— Uma questão muito importante que temos visto é a possibilidade do novo. Nós, artistas, perseguimos alguma coisa que pode ser o novo, o belo. Existe a possibilidade do novo e do belo? Algumas pessoas dizem que esta possibilidade não existe porque a arte teria morrido, aí pelo final do século XIX, início do XX. Picasso chegou a dizer que o grande problema da arte moderna é que ela não tem defeitos, e todos os defeitos foram usados como estilo. Esta impossibilidade de você ver um erro na arte, porque a arte não erra, quem erra é o olhar do crítico, ela, de certa forma, é usada como argumento pelas pessoas que dizem que a arte morreu, enquanto possibilidade técnica e estética. O que você acha disso?</p>
<p>— O Nietzsche falou que Deus morreu. E alguém escreveu numa parede, não me lembro onde: “Deus está morto. Assinado: Nietzsche.” E logo abaixo: “Nietzsche está morto. Assinado: Deus.” Esse novo é o mito modernista. Não sou contra o novo, mas não é uma obrigação absoluta fazer algo de novo. Por exemplo, a arte do ícone existe até hoje como existia no Império Bizantino e o grande lance é fazer dentro dos padrões, o que não impede uma manifestação pessoal. Os ícones de um bailarino russo você reconhece, têm estilo próprio dentro dos padrões. Essa busca do novo vem, sobretudo, a partir do Impressionismo. E era preciso porque a pintura estava um pouco empoeirada, sem gosto. Depois, você exagerou em acreditar que a morte da arte é, na verdade, uma arte maior. Eu especulo como crítico, mas como pintor não. Inclusive, a teorização faço depois, não antes de pintar. O gesto é como o da bailarina, é um acontecimento puro, não tem como codificar. É claro que isso carrega coisas que são legíveis, em termos filosóficos, e sempre vai ter esse espaço de indeterminação. Até na ciência tem isso, hoje, o princípio de incerteza. Então, se tem na ciência, tem, a fortiori, na arte. É simplesmente o excesso de teorização que faz falar do novo, da morte da arte. O belo… O belo existe: uma madona, um anjo, uma cadeira lá de Van Gogh. Mas o verdadeiro belo tem uma dimensão que assusta. É o surgimento do improvável, do impossível, ou um reflexo, porque não é um impossível em si, mas é uma abertura. Em geral, no meu trabalho com as madonas, por exemplo, inclusive, os cristãos são os primeiros a reconhecer que aí tem algo sacro, que essas madonas têm algo muito forte, e acho que o meu papel é o belo, e não dizer se é ou não divino. Tem belo na madona, mas não é um belo, assim, doméstico, bonitinho. Não é o bonito, é o belo, e o belo é: todo anjo é terrível, toda beleza é terrível. É só olhar, quando aparece uma mulher muito bonita… Se você não consegue olhar, olhe o olhar de quem está olhando ela. É o deslumbramento. É o deslumbramento.</p>
<p>— Então, uma das funções da arte seria exprimir o inexprimível?</p>
<p>— O que Rimbaud tentou fazer na poesia, por exemplo, é justamente anotar essas sensações fugazes. A literatura, às vezes, é mais analítica. Seria uma definição possível da arte de pintar o improvável, o impossível e, talvez, no meu caso, na arte sacra, o imponderável. Estava percebendo, gosto muito da Santa Teresa de Ávila, do Bernini, aquela escultura, que já está em êxtase com a boca entreaberta, só que ela não recebeu o Eros, o amor divino, porque a flecha do anjo que está lá ainda não atravessou o coração dela — mas ela já está em êxtase. O que eu estava falando do gesto é isto. É essa suspensão do gesto que apenas aflora à tela. É só um afloramento. Não é uma coisa, pelo menos no que estou procurando fazer, como retratar madonas, anjos. Tenho que pintar essa imponderabilidade de outra maneira, mas estou pensando nas bailarinas de Degas, porque, por exemplo, eu tenho um lado expressionista, quando faço Cristo. Fiz o Anchieta, mas aí é por causa do tema da crucificação. Na crucificação há a tortura, então o expressionismo pode funcionar, um mysterium tremendum, o mistério do horror, e os Cristos de Grünewald, por exemplo, aqueles trípticos aí, é um horror belíssimo, como o suplício de Bataille, por aí. Mas a minha linha não é bem… de vez em quando, dependendo do tema, tem esse belo horrível, terrível. Em geral, é o belo imponderável. São imagens da neve, da rosa, mas o inconveniente dessa linha é que você “bate a cabeça com o açucarado”, e não é nada disso, não é o sentimentalismo. É muito mais quando você fala do transcendentalismo. É um aconchego transcendental. E isso aqui, realmente, deve ser uma deformação profissional. Vejo uma mulher com um neném, e não tem jeito: vejo um princípio, não em termos intelectuais, mas em termos de artista. Então, essa busca dessa espécie de neve espiritual é difícil, porque é o imponderável, é algo que é mais difícil de retratar do que a dor, por exemplo, do Cristo.</p>
<p>— Bom, contra o pessimismo crítico a respeito da arte, nós temos que ter o otimismo da prática do artista que pouco se importa com o crítico. A originalidade foi criada pelo Romantismo. Até então, a lição dos clássicos era a imitação, justamente, porque se copiava e se deveriam copiar em sala de aula os autores clássicos, os autores estudados. A norma era a imitação. O bom artista era aquele que conseguia imitar os clássicos com perfeição, dando um toquezinho peculiar, mas não exagerado. Daí surgiu o Barroco, quando exageraram a mão. Chaudanne, você está sempre envolto neste universo estético, é quase um personagem de si mesmo, fala bastante do seu lado plástico, mas falemos um pouco do seu lado literário. Como é essa imersão do seu ser no elemento estético? Como é que você se insere nisso? Eu não vejo você fora dessa universo estético. Eu já vi você dando aula. Suas aulas deveriam ser gravadas em vídeo e divulgadas. São obras de arte. Mesmo um tema que, vamos dizer, você não conheça bem no momento, daí a pouco, se alguém te convidar para trabalhar aquele tema, com todo prazer, com toda graça, você efetua. Como é isso, como é essa imersão da sua sensibilidade, é arte 24 horas por dia?</p>
<p>— Praticamente. Estou pintando, escrevendo e me manifesto muito, e, talvez, eles vão chamar de maturidade, mas tenho facilidade, hoje, de pintar e escrever. Escrever é esporádico, só os ensaios para a revista Você é que são regulares. O tipo mais poético é esporádico, mas, também, não é a quantidade que faz a qualidade. É a prática mesmo. Ser artista não é fazer uma representação, é viver a arte. As pessoas acham que tem a vida de um lado e a arte do outro. Não. A vida é seguir alguma coisa, algum caminho. Escrever? O cara pode ficar o dia todo fechado no escritório e escrever como Proust, no final, e ele está vivendo mais que o cara que vai ao Pólo Norte. Depende tudo da pessoa. Em relação à escrita, tenho o mesmo método que tenho na pintura. Não controlo, deixo, como surrealista, a escrita automática, fluir o que seria o inconsciente. Isso aqui não tem controle. As palavras são saborosas, mas elas têm um lado que… Talvez, eu coloque a literatura antes, mais alto, na minha paixão. A diferença que sinto entre a pintura e a literatura: primeiro, tem uma parte de mim que não gosta de fazer os dois, porque não gosto desse lado de fazer muita coisa. É bom se concentrar só em uma, mas tenho que aceitar os dois. A pintura tem um lado, aparentemente, mais material. Tenho um prazer artesanal em pintar. Aquele negócio do camponês da arte, que está mexendo com a matéria. E tem essa transfiguração, que dessa matéria está saindo algo que não é mais matéria. Isso aqui é muito sensível, é no toque. Agora, a literatura é mais ascética porque diante da página branca tenho mais angústias do que diante da tela branca. O material não vai ser pegar em pincel ou me sujar, e todo essa lado da criança que brinca. É mais ascético porque tem uma página branca e uma caneta: é como um monge dentro de uma cela pintada de cal. Não tenho esta presença sensual da matéria. Estou trabalhando com algo que ainda é seco, porque a palavra tem duas vertentes: ela é uma fruta saborosa (claro que o poeta trabalha com o gosto da palavra, um Rimbaud, Mallarmé e tal), mas ela, também, carrega outras significações de ordem conceitual e isso, muitas vezes, atrapalha a escrita, porque, como dizia Mallarmé, “não sei fazer um poema com idéias, mas sim com palavras”.</p>
<p>— Concordo com você. Acho que a riqueza da literatura é a pobreza dela. Comparando, de fato, com artes plásticas, com pintura, por exemplo. Pode-se incluir palavras nela. A pintura já tem um cenário pronto, ela é um livro em si mesmo com figurino, com roupa, cenário, e eventualmente, até com falas. Já na literatura têm que ser usados dois tons, em geral, preto e branco, e desse conjunto compor cenário e figurino. Compor elementos que, de certa forma, são a riqueza, porque a possibilidade de a pessoa chegar a caminhos próprios, que não os do autor, é infinda, por causa dessa pobreza. Quando você fala “ascética”, está falando ascética, de “ascese”, e não “asséptica”, de “assepsia”. É bom falar sobre esta questão, a pobreza da literatura é a sua riqueza.</p>
<p>— Estava comparando o escritor com um monge, devido à cela pintada de cal, que lembra uma página em branco. Então, a pobreza dele é isso. É esse lado monástico do escriba. Essa pobreza é uma riqueza porque, justamente, a literatura vai no coração das coisas, pois é desprovida, pelo meio que usa, do lado anedótico. Ela não tem escolha, ou é essencial ou não é. Gosto muito dessas imagens que você falou, talvez um lado meio monge na minha personalidade. O temperamento do escritor e o do pintor são muito diferentes. Não posso generalizar, mas pensando um pouquinho, o Proust se fechou num quarto até morrer, escreveu lá com as formigações dele e foi um monge, escrevendo, escrevendo. Pode-se pegar também um Van Gogh, que era trágico, mas era um cara de sair, fazer farra e pintar. Quer dizer, um é um monge, e o outro é um boêmio. Desde os anos 70, eu sinto este lado e o chamo até “o escriba”, porque o monge, no caso, é ligado com o literato, com o escritor. O pintor mostra isso, é aquele que morde na fruta. Parece que o pintor morde na fruta e o escritor está descrevendo. Talvez, ele vá mais longe na fruta, na essência, o escritor. Mas tem esse lado monástico da literatura. E esta condição monástica, no caso do escritor, não impede a paixão, ao contrário, é algo que não se escreve com a razão. Às vezes, uma imagem do fogo, no caso de Van Gogh, pintar com fogo e escrever com gelo. Mallarmé é uma poesia fria, só que o gelo também queima.</p>
<p>— Você fala de Lacan, falou da sua atitude diante da tela branca e do papel em branco. Os analistas, como eu, costumam dizer que o papel e a tela em branco são o analista perfeito, já que a pessoa pode projetar ali todo o seu ser. De fato, funcionam como um teste projetivo de personalidade. Projetamos nossa personalidade em determinado receptáculo. Você acha que isso, de fato, ocorre? Que a angústia seria o motor da criação? Talvez não o motor da criação, quando o artista já estivesse consolidado em termos de uma maturidade profissional, mas, pelo menos no início, a angústia seria o motor da criação? E a tela ou o papel em branco seriam uma espécie de analista?</p>
<p>— Não há dúvidas que a angústia é fecunda. Ela faz criar. Agora, tem um limiar: se você cai do outro lado, não consegue pintar. E se ficar, vamos dizer, entre os dois, é sempre um jogo de meio-termo. Esse exagero acontece por si, mas não se pode procurá-lo. Quando ele chega, eu o recebo. Essa figura do artista, do poeta tipo romântico, exaltado, na exaltação dele achando verdades incríveis, tem um pouco disso e existe o seu mito também, porque no poeta e no pintor há um lado quase matemático, só que a lógica que surge aí não é a lógica da matemática, é a lógica dos símbolos. O artista tem que ter esta vacuidade para poder se deixar levar por isso. E o que cria a vacuidade é, muitas vezes, a angústia, porque é uma descida ao inferno. Há um poema de Baudelaire em que ele vai descendo, naquela orgia, e cai na sarjeta, e aí, na gruta adormecida, acorda um anjo, porque existe um momento em que não se pode cair mais, parece que o inferno tem fundo. Pergunta ao Rimbaud, que é um especialista. E não tem jeito, porque você, querendo ou não, vai subindo. Tocou o fundo e, lá, parece que não é só lama, existe mais alguma coisa, tipo um mergulho. Agora, a tela ou a página branca como suporte psicanalítico tem fundamento. Em Vitória fiz uma descoberta, que é a psicanálise. Eu não tinha este tipo de contato na França. Estava questionando a crítica de arte e a literária e comecei a descobrir um pouco isso nos místicos, como São João da Cruz. Conversando sobre o tema, surgiu o interesse por Lacan. Eu acho que se é uma projeção da minha subjetividade, na verdade, é furada. Neste furo, tem um pedaço do real que ilumina toda a obra. É claro que existe o caminho da singularidade, Van Gogh é Van Gogh e Einstein pode até ser outro, que descobriu a relatividade. Se o artista chega ao real, é por causa da sua subjetividade e, ao mesmo tempo, tem a sua exaltação dela e a sua abolição. Neste ponto abolido é que surge o real, quer dizer, o belo. Para nós, para o artista, para mim, o real é o belo. O efeito do belo, que faz com que um quadro pareça sempre uma janela aberta sobre algo. O Gide falava que tinha de abolir esta noção de mérito espiritual. E o Proust acrescentava que o gênio, quer dizer, o poder criador, tem algo que é como uma distração. Percebi que, às vezes, não estou nem aí, especialmente, para a escrita. Não posso escrever num ambiente fechado. Tenho que ir ao Centro da Praia, as pessoas passam, a vida está circulando e vou escrever uma carta para não sei quem e, de repente, está saindo um texto. Então, a relação não é de propriedade. É algo que está escapando do artista e, mais uma vez, está acontecendo, está surgindo. Pode ser, também, este lado sofrido, pode ser um lado patológico, uma dor, algo assim. Falando do caminho da singularidade, a personalidade, num sentido bem amplo, incluindo o inconsciente, é que projeta isso. Mas não tem só isso, porque a isso eu chamo de “psicologismo”. O impressionismo é subjetivo. Eu já fiz algumas palestras e existe a leitura do impressionista, que é objetiva. Ele não está pintando as suas impressões. Esse fluir da pincelada e tudo, é como se o quadro ou a paisagem estivessem se refletindo num rio, que corre devagar. Este rio está em tudo, é invisível atravessando todas as coisas, e é o quê? É o tempo. A conclusão é que o impressionismo é objetivo, considerando que o tempo não é apenas uma leitura do espírito, mas um problema filosófico. Considerando que o tempo é objetivo, então, os impressionistas não têm nada de subjetivo. Eles pintam o próprio tempo. O que me ajudou muito a raciocinar (porque gosto do raciocínio crítico) ultimamente foram Heidegger e Lacan, a psicanálise, mas juntando isso aí, o Heidegger realmente coroou uma tendência, que eu tinha graças aos místicos, e me encaixou numa linguagem filosófica. Cada vez mais vou usar estes conceitos, inclusive o da angústia. Isso aí é dele, esta angústia fundamental.</p>
<p>— A angústia é um motor e aonde se chega é o belo. É isso, Chaudanne?</p>
<p>— É, acho que se pode resumir assim.</p>
<p>
[Entrevista realizada por Oscar Gama Filho e publicada na revista <i>Você</i>, da Universidade Federal do Espírito Santo, n. 47, julho de 1997.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Oscar Gama Filho&nbsp;</b>é psicólogo, poeta e crítico literário com diversas obras publicadas.(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/oscar-gama-filho-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Entrevista de Pedro J. Nunes à Revista Você: “Universo povoado de Aninhanhas</title>
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		<pubDate>Sat, 17 Nov 2001 14:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Adilson Vilaça]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Pedro José Nunes, capixaba de São José do Calçado, é a grande novidade literária que o Espírito Santo lançou na presente década. A escritura de Pedro é um delírio que enreda a ação no fio do insólito. “Nada do que digo aqui é, pois, da esfera das certezas”, confessa o narrador de <i>Vilarejo</i>. A novela <i>Vilarejo </i>teve sua primeira publicação encartada no quarto número da revista <i>Você</i>. A segunda edição, que nasceria engordada pela companhia de quatro contos — O porco, A questão, O relógio e A divisória —, veio na Coleção Cultura-Ufes, da Secretaria de Produção e Divulgação Cultural — SPDC, e deu formato definitivo ao livro. Com esse traçado, <i>Vilarejo </i>foi adotado pela Ufes para o vestibular de 1996.</p>
<p>Antes de <i>Vilarejo</i>, Pedro esteve na coletânea Jovens contos eróticos, da Brasiliense; esteve no projeto Palavras da cidade, da Prefeitura de Vitória; publicou na revista <i>Contexto</i>, do Departamento de Línguas e Letras da Ufes; e, entre outras façanhas, assombrou com a publicação de <i>Aninhanha</i>, em 1991, também pela coleção da SPDC. De sua passagem no conselho editorial do projeto Escritos de Vitória, publicação da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, que já alcança a décima versão, Pedro guardou o hábito de reunir escritores. Aliou o hábito à lasciva experiência na Brasiliense e deu vez ao vício: um livro de contos eróticos reunindo o talento capixaba.</p>
<p>De seu universo povoado de aninhanhas, da confraria que teceu a libido de seu vício, de seu novo romance, de seus espelhos, da polêmica acerca do parceiro de <i>Vilarejo </i>— o outro livro adotado para o vestibular/Ufes é acusado de plágio —, disso e de um tanto mais é que nos vai falar Pedro Nunes, dublê de autor-revelação e servidor estadual na Polícia Civil.</p>
<p>A conversa foi marcada para o dia 24 de julho, dia do escritor, “por obra e graça do acaso, esse ancião operário do destino” — do conto O porco. Só atinamos para a data quando Pedro telefonou pedindo adiamento. As atribulações na Academia de Polícia, onde leciona, tinham algemado seu dia. Sua agenda concedeu-lhe habeas-corpus para o dia seguinte. E, como Pedro demonstra a seguir, todo dia é dia do bom escritor e da boa prosa.</p>
<div style="text-align: right;">
Adilson Vilaça</div>
<p>
<b>Você — É importante ter um livro adotado para o vestibular?</b></p>
<p>Pedro — É importante enquanto divulgação. Sem dúvida é uma ocasião que faz circular o nome do autor e de sua obra. Entretanto, considero de maior validade a adoção do livro nas escolas de primeiro e segundo graus. O livro, transformado em questão de prova do vestibular, é estudado muito parcialmente, limitando-se, por vezes, a pequenos trechos ou ao estudo da trama e de alguns personagens. A maioria dos alunos que vão para essas provas não lê nada ou lê apenas o resumo da obra. Aliás, o resumo é um crime contra a formação do estudante e um crime contra os direitos autorais. Nas escolas de primeiro e segundo graus é feito um trabalho mais sério, que exige tempo, fornecendo um saldo positivo, gratificante para o autor. No próprio contato entre autor e estudantes, quando feito, há mais sedução de ambas as partes.</p>
<p><b>Você — Agora que você está no mercado compulsório, um bom número de estudantes, apesar do famigerado resumo, lerá <i>Vilarejo </i>preparando-se para provas. Tirante isso, você considera o capixaba um bom leitor?</b></p>
<p>Pedro — O fenômeno da crescente onda de instalação de livrarias em Vitória é um bom sinal. Se os livreiros estão investindo em novas lojas, é evidente que o fazem porque acreditam no crescimento do mercado, no aumento do número de leitores. Por outro lado, a qualidade dos livros que figuram na lista dos mais vendidos é, no mínimo, duvidosa. Mas, afinal, há um consolo: leitura puxa leitura. As livrarias estão com boa freqüência de público, o momento é alentador para o mercado editorial. Os livros capixabas estão sendo bem recebidos e essa aceitação tende a crescer. A série Escritos de Vitória é muito procurada.</p>
<p><b>Você — Por que <i>Vilarejo </i>teve mais sucesso do que <i>Aninhanha</i>?</b></p>
<p>Pedro — <i>Aninhanha </i>é um livro mais novo do que dois contos de <i>Vilarejo</i>. Mas <i>Aninhanha </i>reflete uma procura muito grande de se chegar a uma linguagem que unificasse narrador e personagem. Uma linguagem que transmitisse ao leitor o universo peculiar da personagem. Nessa busca, houve um ponto de efetiva sintonia: a linguagem incorporou o narrador. Daí as experimentações morfológicas, a subversão sintática, o aproveitamento de vícios. Entre os acadêmicos foi excelente a receptividade a <i>Aninhanha</i>, muitos o consideram superior ao <i>Vilarejo</i>. Mas <i>Aninhanha</i>, reconheço, tem essa dificuldade expressa na linguagem. A parte inicial chega a ser meio chata, mas o tom de suspense que impera no restante do livro supera essa dificuldade presente no início. Bem, <i>Vilarejo </i>veio logo depois. A primeira versão teria linguagem muito próxima da linguagem de <i>Aninhanha</i>. Mas eu reescrevi o livro, simplificando-o nesse aspecto. <i>Vilarejo</i>, de início, iria ser um conto sem movimento. Mas a história começou a mandar em mim, tomou outro destino. Creio que foi meu primeiro caso de inspiração. A história, como você sabe, é uma homenagem que presto ao meu avô paterno. E o que atrai nela é a identidade que tem com a história vivida das pessoas, a história não contada de nossas crônicas familiares, de nossas aldeias. Circulando pelo Espírito Santo, falando de literatura, ouvi pessoas se manifestarem quanto à identidade do vilarejo comparando-o a Ecoporanga, Dores do Rio Preto e São José do Calçado, este com mais evidência. Assim, <i>Vilarejo </i>se destacaria mais pela readequação da linguagem e por proporcionar esse encontro, essa identidade manifesta com outras pequenas cidades, com seus habitantes e seus acontecimentos.</p>
<p><b>Você — A escritora e professora de literatura Deny Gomes estabeleceu comparações entre a trama de <i>Vilarejo </i>e o julgamento de Cristo (ver Os medonhos insucessos de <i>Vilarejo </i>e outras histórias, da professora Deny Gomes). A adaptação, ou melhor, adequação, foi inteiramente consciente? Você já obteve essa resposta à obra em outras análises?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — A <i>Bíblia </i>é um livro que eu leio insistentemente. Tenho a minha <i>Bíblia </i>desde os 15 anos de idade e já fiz duas leituras completas de seus textos. Não procuro nela outra coisa que não seja sua beleza como obra. Encanta-me mais o Velho Testamento: a metáfora do Gênesis, a fúria do profeta Isaías, os salmos, a coragem de Jó. No livro <i>Aninhanha </i>ocorre uma proximidade intencional com os textos evangélicos, com a trama evangélica. Mas no Vilarejo não há intencionalidade. Mas é inegável a semelhança com o julgamento de Cristo. Há uma pessoa realmente sacrificada, seu ressurgimento, a culpa coletiva.</p>
<p><b>Você — Em outras ocasiões, você já trabalhou recriações?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Não tenha dúvida. Aponto <i>Aninhanha </i>como o caso mais flagrante.</p>
<p><b>Você — O que você acha do recurso da intertextualidade?</b></p>
<p>Pedro — Nós estamos vivendo uma época de reciclagem, de apoio nas experiências de nossas leituras. Mas precisamos fazer isso respeitando as referências, sem aviltar, sem copiar. É perigoso na intertextualidade deixar que o texto de outro mande no seu. Você deve manter sua necessidade de criação. Inspiro-me, com certeza, em leituras que faço. Mais uma vez cito o livro <i>Aninhanha</i>: olhei muito no espelho <i>Hora da estrela</i>, de Clarice Lispector, quando o escrevia. Dessa leitura, inclusive, tirei a epígrafe de <i>Aninhanha</i>: “Se essa história não existe, passará a existir.” E o mais que acompanha essa frase.</p>
<p><b>Você — O outro livro adotado para o vestibular da Ufes — <i>O mofo no pão</i>, de Neida Lúcia Moraes — é acusado de plágio. Você leu os artigos de Deny Gomes e a defesa da autora? O que acha do caso?</b></p>
<p>Pedro — A Deny me falou do fato antes de publicar o artigo: “Espantosas semelhanças entre os textos…” Em momento algum, mesmo em conversa informal, falou de plágio. Mas o que eu pude interpretar, lendo seu artigo na revista, é que Deny constatou várias semelhanças que apontam para o plágio. Depois, no segundo artigo, viriam novas semelhanças, ainda com Carlo Ginzburg — <i>O queijo e os vermes</i> — e outras com Umberto Eco — <i>O nome da rosa</i>. Acho que a autora nem tinha como se defender. Infelizmente. Por isso os argumentos de sua defesa foram tão fracos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Apesar disso, você acha que a literatura produzida no Espírito Santo está em fase de amadurecimento?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Nós temos escritores maduros no meio de um batalhão que escreve por escrever. Há um bom número de escritores produzindo literatura no Espírito Santo buscando esse amadurecimento. A lista de tais autores não é nova, não tenho visto coisas alentadoras. Mas alguns já estão prontos. E o amadurecimento está acontecendo, embora num círculo muito restrito. Quero citar um conselho do professor Francisco Aurélio, que disse que o autor de um livro de poemas, um livro de estréia, deveria esperar dez anos antes de publicar esse livro. A pressa em publicar pode atrapalhar o talento que está no limiar da revelação. Só o tempo produz a maturidade da obra.</p>
<p><b>Você — O que está faltando para o escritor capixaba deslanchar no mercador nacional?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Ressentimentos da falta de uma editora profissional. Temos escritores tão bons quanto em qualquer parte do país. Escritores que trabalham seriamente e que estão no mesmo nível de autores que fazem sucesso nacional. Falta isso ser descoberto. Tentamos fazer a reedição do <i>Vilarejo </i>com uma editora de fora, com a participação da SPDC. Tivemos a resposta de que o livro talvez não atingisse a faixa de público que eles estão atingindo. Ficou nisso. O que nos leva à certeza de que precisamos de uma editora que faça um trabalho comercial, pois tal trabalho faria a literatura produzida no Espírito Santo ser conhecida no país inteiro. A exemplo do que hoje acontece no Rio Grande do Sul.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Que iniciativa local melhor tem contribuído para popularizar o autor capixaba, isto é, apresentá-lo ao público potencial do Espírito Santo?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Há casos isolados, como o projeto Escritor na Cidade, desenvolvido através de uma ação conjunta da Biblioteca Nacional com a Biblioteca Estadual. Esse projeto leva o autor a peregrinar pelo Estado, divulgando seu trabalho e conversando com estudantes e leitores locais sobre literatura e produção literária. Quando publicamos <i>Vilarejo</i>, eu, o Reinaldo — Reinaldo Santos Neves — e o Joca — João Carlos Simonetti Jr. — saímos em viagem por várias cidades, falando da revista <i>Você </i>e da literatura produzida no Espírito Santo. Esse périplo me ajudou a dissipar uma ideia equivocada que eu tinha do pessoal que escreve. Descobri que o escritor sério, honesto na sua atividade, é extremamente solidário com outro escritor que também trabalha com seriedade. Fala do trabalho do outro por onde passa, mesmo não tendo com ele maior afinidade que seja essa de tentar produzir literatura de qualidade. Já os livreiros capixabas continuam não dando atenção aos livros aqui editados. O espaço nobre das estantes nunca é frequentado pelos autores locais. Um projeto que não poderia ser esquecido é o Escritos de Vitória, da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo. Mas o sucesso do projeto não está na qualidade dos textos, mas nos temas tratados. De boa qualidade literária tivemos o primeiro e o sétimo. Mas é bom que o projeto continue. Fui do primeiro conselho editorial e, depois, quando saí, publiquei uma crônica no nono número da série, que tinha como tema as igrejas de Vitória. Antes do Escritos, havia o Palavras da Cidade, também muito bom. Deste participei com o conto A ratazana e o ocaso. No meu caso, muito me ajudaram os concursos. Num, da editora Brasiliense, tive o conto Sereia selecionado para o livro Jovens contos eróticos; aliás, quero ressalvar que considero o texto selecionado bastante fraco diante do que eu produziria depois. Mas o concurso me ajudou muito. Noutro, aqui do Estado, em 1987, tive o conto <i>Aninhanha</i>, ainda com o título Maria Trinta Cruzes, agraciado com uma menção honrosa. Os concurso sempre promovem o autor. (Por que abrimos esses parênteses? Para explicar que foi o escritor Carlos Nejar quem sugeriu a Pedro a mudança do título para <i>Aninhanha</i>. Como é sabido, ele acatou a sugestão. Explicado e fechado). E uma iniciativa que me deixou agradavelmente surpreso foi o projeto Nossolivro, encabeçado pelo jornal <i>A Gazeta</i>. O jornal de maior circulação do Estado levando a seus leitores bons escritores capixabas. Mas critico a imprensa local por achar que ela não promove adequadamente o debate acerca da produção literária do Espírito Santo. Bem ou mal, ela deveria falar mais de nossos autores.</p>
<p><b>Você — Que papel, afinal, cumpre a Lei Rubem Braga?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — A Lei Rubem Braga exerce o papel de publicar autores que de outra maneira não conseguiriam publicar. Isso pela própria realidade do nosso mercado editorial. É bom? É ruim? Não sei. Sou relator da Lei Rubem Braga. Recentemente recebi um texto para análise que era por demais imaturo. O que não quer dizer que todos os textos enviados para a Lei sejam da mesma qualidade. Há livros muito bons publicados. Como há livros muito ruins.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Por que você nunca enviou textos para a Lei Rubem Braga? Você é um fora-da-lei?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Não mandei. Sou, nesses termos, um fora-da-lei. Escrevo pouco, no ritmo de São José do Calçado, bem lentamente. Nem tudo que eu escrevo aproveita. Tenho obsessão em melhorar, em reescrever. Reescrevi <i>Aninhanha </i>umas dez vezes; uma, inteiramente. Não tenho um texto para mandar para a Lei Rubem Braga. Tivesse, mandaria. Há algum tempo, penso em escrever um livro de poemas, de sonetos eróticos, amorosos. Como já pensei em produzir um livro de sextinas sacras usando idéias retiradas do Livro de Jó. Escrevi dois destes poemas; a exigência da forma torna difícil a realização dos textos. Se tivesse um desses livros prontos, mandaria para a Lei Rubem Braga. Por quê? Porque meu terreno é a prosa, a boa história. Um livro de sonetos poderia não ser bem aceito por quem edita no Espírito Santo e por quem compra o autor capixaba. Sextinas, então… Aí entra a validade da Lei: ela não convive com a preocupação de comercializar, podendo amparar um livro bem realizado. Para finalizar, se não procurei a Lei Rubem Braga antes é por não ter disponível um material decente para oferecer.</p>
<p><b>Você — Bem, vamos falar de foras-da-lei. Luís Trevisan, editor da seção Victor Hugo, de <i>A Gazeta</i>, anunciou que você reuniu sete contistas capixabas numa tentativa de erotizar a literatura local. Fale dessa reunião.</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Há livros publicados por iniciativa oficial que têm mais erotismo do que qualquer conto do livro de contos eróticos que planejamos. A idéia de fazer esse livro surgiu num sábado em que eu folheava o livro da Brasiliense (Jovens contos eróticos, de que o autor participou). A ideia, enfim, era fazer um livro que juntasse os escritores que se reúnem aos sábados na Logos. O tema poderia ser mistério, terror ou, como ficou, erotismo. Falei primeiramente com o Reinaldo e com o Luiz Guilherme Santos Neves. Reinaldo ficou reticente, como esperado. Mas o entusiasmo do Luiz Guilherme foi surpreendente. Depois, noticiei ao Renato Pacheco, ao Francisco Grijó e ao Tião Lyrio. Todos eles autores que freqüentam essas reuniões aos sábados. Convidamos você (Adilson Vilaça) e Bernadette Lyra. Tentamos colocar um conto do José Carlos Oliveira, mas houve problemas quanto à cessão dos direitos com seus herdeiros. Bernadette não topou. Adilson Vilaça — aponta com o dedo e o olhar — topou. O livro está pronto, e ficou com o título <i>Mulheres — diversa caligrafia</i>. O tema erotismo poderia ser outro, terror ou mistério, como já falei.</p>
<p><b>Você — Como mentor e organizador dessa reunião, além de escrever uma das tentativas e de ser obrigado a ler, ainda no pecado de cada original, as outras seis desistências, você é o maior conhecedor dos segredos desse quase livro. Que personagens dessa coletânea você convidaria para fazer ou desfazer uma aninhanhazinha?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Veja só (ri muito), é uma sinuca de bico. Gosto muito da safadeza da Albertina, de sua disposição para a safadeza. Safadeza no sentido do jogo da sedução e sua conseqüência. Sendo minha criatura, tenho muita intimidade com a personagem Albertina. Mas os textos que compõem o livro têm uma carga de erotismo bastante contida. É bem verdade que há personagens que materializadas seriam deliciosas tentações.</p>
<p><b>Você — Onde você encontrou apoio para a publicação? Quando será o lançamento?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — A Secretaria de Cultura e Turismo de Vitória se interessou, comprometendo-se a participar com algum apoio. Estamos aguardando o desenrolar do processo. O projeto é interessante para os autores, para a literatura produzida no Espírito Santo, para a Secretaria, que teria a chance de participar de um projeto que reúne vários de nossos melhores ficcionistas. Não tão eróticos assim, mas, sem dúvida, uma confraria de primeira linha.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Pedro, rogando o perdão de Eros pelo nosso delicioso fracasso em <i>Mulheres — diversa caligrafia</i>, vamos falar de seu próximo livro. Qual é o gênero, o título, o tema, o universo… Conte tudo, com direito a esconder muito mais.</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Quando estávamos indo para São José do Calçado, eu mais o Reinaldo e o Joca, foi inevitável que eu começasse a relembrar minha infância. As paradas, as taças de vinho bebidas. Tudo estava muito evocativo. Num dos dias daqueles que lá permanecemos, o Joca queria tomar vinho refrescado na água, recriando uma cena de <i>O sol também de levanta</i>, de Hemingway. Estávamos os três e minha irmã Josana, a mais nova de minhas irmãs, numa cachoeira. E eu relembrando minhas histórias. Não sei se foi o Joca ou o Reinaldo, ou os dois, o vinho apagou a certeza, me perguntou por que eu não fazia um livro sobre a minha infância. Guardei a resposta, não levei a pergunta muito a sério. Bem, recentemente me vi compelido pela necessidade de escrever um livro. Tinha empacado num livro de terror, que não engrenava. Como escrever é ofício de desocupado, lembrei-me da proposta. Botei no papel algumas lembranças e veio o livro. Tornou-se o livro da infância de quem tem 30 anos e viveu no interior, sem televisão e outras parafernálias da modernidade. Houve crise, briguei com velhos fantasmas, interrompi o livro por três meses. O projeto inicial do <i>Menino </i>era de 100 laudas e acabou em 200. É um romance com capítulos bem independentes e que tem como tema principal o primeiro amor da infância.</p>
<p><b>Você — Fellini, após se exasperar com a insistência de um entrevistador — a imprensa é néscia, culpada dos fatos, quando não, maldosa e leviana — disse que é autobiográfico até mesmo quando fala de um peixe. O que tem o <i>Menino </i>de autobiográfico?</b><br />
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Pedro — É um romance inteiramente autobiográfico. Conta a minha vida até os 11 anos de idade, quando entrei no ginásio. Fala de meus amigos, de ambientes da minha infância, de meus familiares, de São José do Calçado. O levantamento do tempo, de segredos caros, de coisas que não estavam resolvidas mas apenas guardadas, que voltaram e não me fizeram bem, todas essas questões tornaram o livro muito penoso. Acho que é meu melhor livro. Não por ser o último. Menino foi reescrito quatro vezes. É a maturidade que posso oferecer. Menino tem muito de autobiográfico, mas assemelha-se à infância coletiva vivida no interior.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Numa reportagem do jornal <i>A Tribuna</i>, abordando a relação filosofia/literatura, você se confessou um autor que sofre ao escrever. Como você explica essa autoflagelação com tão boa fatura estética?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Há dois tipos de sofrimento. O primeiro está bem descrito num biografia de Dostoievski, uma biografia que acho mais interessante do que tudo que ele escreveu. Um jovem autor levou um original para Dostoievski avaliar. Ele teria perguntado ao autor: “Há sofrimento nisso?” Ao receber uma negativa do jovem, Dostoievski teria dito: “Então reescreva. Para escrever bem é preciso sofrer, sofrer e sofrer.” O segundo tipo de sofrimento é a angústia da busca do texto perfeito. E, por mais que busque, sei que não vou conseguir. A reescritura constante é o sofrimento que permeia tudo que escrevo. Acima disso, há o prazer de escrever, o êxtase de criar no papel. Até achar o fio condutor de uma história eu padeço. Há uma lógica interna que eu não domino por antecipação. Talvez por isso produza tão pouco. Ou melhor, assuma tão pouco o que escrevo. Há textos meus inteiros, finalizados, que eu não publicaria.</p>
<p><b>Você — Ainda neste tema, ou seja, continuando a pescar o mesmo peixe de Fellini, que influência o passado de escrivão de polícia tem na sua produção literária? Você já se aventurou no enredo policial?</b><br />
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Pedro — Não. Mas a vivência já me deu matéria. <i>Aninhanha </i>tem dois fatos policiais que são a inspiração do livro. Uma mulher que deu à luz e enterrou o recém-nascido. Eu tomei o depoimento dessa mulher, uma moradora lá do morro do Macaco, aquele morro que desabaria durante as chuvas de 1985, provocando uma terrível tragédia. O outro é o caso de uma senhora da Praia do Canto que acha uma criança num terreno baldio e a acolhe, disposta a criá-la. Também o conto O relógio tem origem num fato policial. Não há como não passar a experiência do dia a dia.</p>
<p><b>Você — Perdoe-me a insistência, e, por favor, acalme qualquer possível exasperação felliniana. Para encerrar o inquérito policial: o escritor Rubem Fonseca foi recentemente descoberto, pela <i>Folha de São Paulo</i>, na pele de um ex-agente de polícia. E, na obra de Rubem Fonseca, muita vez, tintim por tintim, aflora seu passado de investigador criminal. Você renuncia à exploração desse filão? Por quê?</b><br />
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Pedro — O Grijó já me aconselhou a seguir por essa via, indicando que eu tenho um material fantástico nas mãos. Mas nunca fiz nada a jeito do típico romance policial. Nem quero fazer. Talvez seja a forma de manter uma saudável distância entre o que escrevo e o meu trabalho.</p>
<p><b>Você — Seu temário e sua linguagem podem ser classificados de regionalistas? Você gosta dessa classificação?</b><br />
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Pedro — Não me agrada, mas também não me desagrada. Sou indiferente a tais rotulações. O <i>Aninhanha </i>é essencialmente urbano. A linguagem pode ter algumas experimentações morfológicas que confundem o linguajar típico do caipira. Mas o que é a maioria do favelado do Espírito Santo senão um caipira? Onde ele vivia até bem pouco tempo senão no mato? Acho que essa classificação revela que a escolha dessa linguagem foi mal compreendida. É evidente que estou escrevendo sobre o que está à minha volta. E acho que o romance <i>Menino </i>irá estimular ainda mais essa classificação. Contudo, eu não a considero aplicável a toda a minha obra. Acho a classificação imprópria, precipitada, mas não me preocupo com ela.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — Os contos A questão e O relógio, junto a dois outros títulos, acompanham a novela <i>Vilarejo</i>, muito se aproximam do texto de Guimarães Rosa. Aliás, confirmando a escritura de Aninhanha. Se perguntado no vestibular se há marcante influência de Guimarães Rosa na sua produção a resposta é um redondo SIM? Fale dessa relação, do quanto ela é verdade ou apenas suspeição.</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Acho que é apenas suspeição. Só conheço do Guimarães Rosa os livros <i>Sagarana e Grande sertão: veredas</i>. Mas um editor carioca que analisou meus textos para possível publicação evidenciou “notáveis influências” de Guimarães Rosa. E usou isto para descartar a edição. Ora, se tem tanta parecença com Guimarães Rosa deveria mais é ser publicado, porque ele é muito bom. Mas não é somente por lançar mão de recursos morfológicos que alguém se assemelharia a Guimarães Rosa. Aliás, eu sou avesso a essa comparação. E também não vamos falar que eu e Guimarães Rosa bebemos da mesma fonte, porque isso é problemático (risos).</p>
<p><b>Você — Depois de <i>Menino</i>, que promete ser seu romance-terapia, Pedro Nunes começará a escrever sem sofrer?</b><br />
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Pedro — Como <i>Menino </i>não haverá sofrimento igual. Mexer com o íntimo, com a ressurreição do passado, com as velhas cicatrizes, é sempre muito doloroso. Do sofrimento do texto, da obsessão do texto perfeito, todavia, não há como fugir.<br />
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<b>Você — No meio literário capixaba há uma boa meia dúzia de escrevinhadores de São José do Calçado. É a água de lá ou milagre de São José operário?</b><br />
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Pedro — Calçado tem fama de ser cidade triste; lá as pessoas são introspectivas. A sensibilidade é um dom de Calçado. Por isso a quantidade de pessoas que escrevem, pois lá se aprende a viver e a contar a vida. É também uma das poucas cidades do interior com Academia de Letras. Todos da minha geração liam muito. E onde há interesse pela leitura, há também o interesse pela produção.<br />
<b><br /></b><br />
<b>Você — As aninhanhas, os rabudos, as gurileitoas, enfim, a fauna lobisomem que habita seus textos está em extinção? Ou você mantém escondida uma arca repleta de tais consumados casos?</b><br />
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Pedro — De maneira nenhuma; essa fauna não corre o risco da extinção. Tenho forte intenção, um incontrolável desejo, de lidar com esse imaginário. Carrego comigo o terror das histórias contadas nos serões, as histórias de assombrações que ouvia lá no sítio da família. Contadas para assustar as crianças, e que ficaram gravadas profundamente. Essas possibilidades horríveis, horrorosas, herança da prosa dos peões da roça, agora estão montadas na minha cabeça. Em <i>Menino </i>contei uma delas. Não se foi Dostoievski ou Tolstoi quem disse que devemos prestar atenção à nossa aldeia. Isso é o que faço. Se é regionalismo ou não, importa menos.<br />
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<b>Você — Com o <i>Menino </i>no prelo, qual é o próximo caso?</b><br />
<b><br /></b><br />
Pedro — Tenho vontade de escrever um livro para quem está na faixa etária de 14 a 16 anos. Os livros que tenho visto para essa faixa de idade são de péssima qualidade. Numa linguagem que eu reputo como pouco literária. Uma linguagem de informação e debate. Com certeza fugiria disso. Tenho muita empatia com essa faixa etária. Constatei essa sintonia nas minhas andanças pelos colégios para falar de literatura e dos meus livros. Mas os meus livros não são exatamente para esse público. Daí a minha vontade de escrever um livro para esse público, sem abrir mão daquilo que considero qualidade literária. Um livro que os respeite enquanto leitores.</p>
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<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Textos com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Pedro José Nunes</b>, escritor,&nbsp;nasceu em Ibitirama, ES, em 1962. Nesse mesmo ano, sua família retornou a São José do Calçado, e lá ele residiu até os 19 anos, quando se mudou definitivamente para Vitória. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Criador e responsável pela manutenção do site Terlúlia, dedicado à literatura produzida no Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedro-jose-nunes-repertorio-literario/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/entrevista-de-pedro-j-nunes-revista/">Entrevista de Pedro J. Nunes à Revista Você: “Universo povoado de Aninhanhas</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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