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	<title>Arquivos Luiz Busatto &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos Luiz Busatto &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Dec 2016 20:01:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Imigração]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração Italiana]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Busatto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A família de Timoteo Dalmonech, Santa Teresa, 1924. Fotógrafo não identificado. SUMÁRIO Capítulo I &#8211; Por uma identidade ítalo-capixaba Capítulo II &#8211; A imigração italiana no Espírito Santo Capítulo III &#8211; Dilemas do imigrante italiano no Espírito Santo Capítulo IV &#8211; A revolta de Nova Lombardia (1877-1977) Capítulo V &#8211; Notas sobre Santa Teresa Capítulo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-PSpTYfr5XAU/WFlw2vd_3sI/AAAAAAAALIw/TMqdMU0Szo44TqMJJ5pbpgEoemv5Oyp5wCPcB/s1600/A%2Bfam%25C3%25ADlia%2Bde%2BTimoteo%2BDalmonech%2B%2528Santa%2BTeresa%252C%2B1924%2529.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="A família de Timoteo Dalmonech, Santa Teresa, 1924. Fotógrafo não identificado." border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/12/A2Bfam25C325ADlia2Bde2BTimoteo2BDalmonech2B2528Santa2BTeresa252C2B19242529.jpg" class="wp-image-5276" title="A família de Timoteo Dalmonech, Santa Teresa, 1924. Fotógrafo não identificado." width="400" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">A família de Timoteo Dalmonech, Santa Teresa, 1924. Fotógrafo não identificado.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
SUMÁRIO</p>
<p>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-i-por-uma-identidade-italo/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo I</a> &#8211; Por uma identidade ítalo-capixaba</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo II</a> &#8211; A imigração italiana no Espírito Santo</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo III</a> &#8211; Dilemas do imigrante italiano no Espírito Santo</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iv-revolta-de-nova-lombardia/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IV</a> &#8211; A revolta de Nova Lombardia (1877-1977)</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-v-notas-sobre-santa-teresa/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo V</a> &#8211; Notas sobre Santa Teresa</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-vi-imigracao-italiana-e-o-i/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VI</a> &#8211; A imigração italiana e o I centenário de Ibiraçu</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-vii-i-centenario-de/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VII</a> &#8211; I Centenário de colonização italiana de Acioli</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-viii-barra-do-triunfo/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VIII</a> &#8211; Barra do Triunfo</p>
<p>
[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<item>
		<title>Capítulo II &#8211; A imigração italiana no Espírito Santo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 20:33:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração Italiana]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Busatto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1. Nova Trento. — 2. Núcleo Timbuí na colônia de Santa Leopoldina. — 3. Núcleo Santa Cruz (Ibiraçu). — 4. Epidemia de febre amarela. — 5. Imperial colônia do Rio Novo. — 6. Núcleo do Castelo. — 7. Recesso e ruínas. Reativação da imigração. — 8. A fase republicana. — 9. Núcleo Antônio Prado. — [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-hpEVFfXmRHY/WFlxRIVbr-I/AAAAAAAALI0/ix7uczIYcZA_ShZn0Ra0ZnouUVILT6u_ACPcB/s1600/Imigrante.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Imigrante.jpg" class="wp-image-5742" width="400" /></a></div>
<p><span style="font-size: 85%;"><br /></span><br />
<span style="font-size: 85%;">1. Nova Trento. — 2. Núcleo Timbuí na colônia de Santa Leopoldina. — 3. Núcleo Santa Cruz (Ibiraçu). — 4. Epidemia de febre amarela. — 5. Imperial colônia do Rio Novo. — 6. Núcleo do Castelo. — 7. Recesso e ruínas. Reativação da imigração. — 8. A fase republicana. — 9. Núcleo Antônio Prado. — 10. Colatina e seus primeiros habitantes. — 11. Núcleo Acióli Vasconcelos. — 12. Núcleo Demétrio Ribeiro. — 13. Núcleos Santa Leocádia e Nova Venécia. — 14. Sede em Linhares. — 15. Contrato Giffoni e proibição da imigração.</span></p>
<p>
O movimento imigratório italiano no Espírito Santo tem características próprias e se processou, basicamente, em dois tempos: o primeiro inclui a fase imperial (1874-1882) que vai da fundação até a emancipação de núcleos nas colônias, em regiões próximas aos centros de comercialização; o segundo, a fase imperial e republicana (1885-1895) e é uma retomada do surto imigratório em regiões mais afastadas e interioranas e que termina com a proibição causada pelo insucesso do núcleo Muniz Freire no rio Doce.</p>
<p>Dentro da Província do Espírito Santo não foi igual o modo de ocupação da terra na parte norte e na parte sul. Em Santa Leopoldina, a primeira das duas grandes colônias, predominou o sistema de concessão de prazos, enquanto que na outra colônia, a de Rio Novo, era comum o sistema de parceria nas fazendas, com uma posterior compra dos terrenos pelos imigrantes, terrenos que nem sempre eram terras devolutas, mas partes de fazendas decadentes. Em Rio Novo vigorou sempre o sistema de prazos. Enquanto nesta colônia a divisão das terras seguia um quadriculado, na colônia de Santa Leopoldina os prazos coloniais se ordenavam à margem direita e esquerda doe pequenos a grandes rios, de modo que todos tivessem aguadas. Sabe-se por exemplo, que no Rio Grande do Sul as medições se faziam de um e de outro lado de uma linha reta de muitos quilômetros não importando os acidentes orográficas.</p>
<p>Os imigrantes italianos da primeira fase chegavam em blocos, levas unitárias de um carregamento, indo todos para um núcleo como aconteceu com os de Timbuí (Santa Teresa) e de Santa Cruz (lbiraçu). Tinham que enfrentar situações de impacto com a mudança climática, a selva brasileira, as doenças tropicais. Na segunda fase, os imigrantes chegavam em grandes levas. Eram repartidos pelos novos núcleos em contingentes menores e levados para lugares bem mais distantes dos centros comerciais. Havia dificuldade de comunicação e uma exploração exagerada no comércio de gêneros de primeira necessidade. Vindos em maior quantidade e distribuídos pelos portos de Itapemirim, Píuma, Benevente (atual Anchieta), Guarapari, Vitória, Santa Cruz, São Mateus, necessariamente passavam pelos núcleos já fundados que, na sua maioria, se encontravam em franca prosperidade.</p>
<p>Diferente também foi a legislação sobre a imigração no Brasil e nas província do Império nos dois tempos inicialmente apontados. O decreto nº 3784, de 19 de janeiro de 1867, que aprova o regulamento para as Colônias do Estado, foi a cartilha da imigração no Brasil. Este regulamento teve muita força mas também gerou conflitos. Vigorou no Espírito Santo sempre com alterações e modificações ditadas por ofícios, portarias, avisos, pareceres, etc&#8230; Foi suprimido pelo decreto nº 7570, de 20 de dezembro de 1879. A lei de 28 de setembro de 1885 reativou as colônias emancipadas, daí se começando a usar, para designá-las, os termos: ex-colônia de Santa Leopoldina, ex-colônia do Rio Novo, ex-colônia do Castelo. Com o advento da República, o decreto nº 4 de 4 de junho de 1892 deu novo regulamento ao serviço de terras e colonização, com modificações complementares do decreto nº 20 de 30 de janeiro de 1893.</p>
<p><b>1. Nova Trento</b></p>
<p>Das imigrações europeias no Espírito Santo a italiana foi a mais numerosa e intensa, apesar de se ter iniciado somente em 1874. Com a abolição da escravatura, prenunciada em fervorosa campanha política, os conselheiros do Império sentiam que o Brasil não conseguiria passar de sua estrutura agrária para uma estrutura industrial, porque &#8220;as grandes fábricas no Brasil só dão prejuízos<span id="CIIA_RP1V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP1" title="MENEZES E SOUZA, Conselheiro João Cardoso de. Teses sobre colonização do Brasil. Rio de Janeiro, Tipografia Nacional, 1875, p. 188."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>. A alternativa que se impunha era a substituição do braço escravo pelo braço do trabalhador europeu que, freqüentemente enganado ou, por outros termos, persuadido por campanhas propagandísticas tendenciosas pensava encontrar aqui o Eldorado. A primeira experiência neste sentido fracassou e ocorreu no Espírito Santo, na fazenda &#8220;nova Trento&#8221;, de Pedro Tabachi, em Santa Cruz, às margens do rio Piraqueaçu<span id="CIIA_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP2" title="BUSATTO, Luiz. A insurreição branca. UFES, Revista de Cultura, Vitória, Fundação Ceciliano Abel de Almeida, nº 8 p. 5-10, agosto-setembro de 1978."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>O senhor Tabachi imaginou fazer fortuna com o sistema de parceria mantido cora seus co-nacionais. Para isto, tendo recebido favores do governo imperial através do decreto nº 5295 de 31 de maio de 1873, percorreu a região de Trento, na Itália, sua terra natal, e contratou mais de 50 famílias. Era setembro de 1873. A 19 de fevereiro do ano seguinte chegava ao porto de Vitória o brigue-barca Sofia, depois de 45 dias no oceano. Como o navio era muito comprido acabou encalhando ao manobrar entre o monte Moreno e a Ilha do Boi, e os passageiros tiveram de desembarcar do lado de Vila Velha, de onde foram transportados para a capital. Durante a travessia morreram duas crianças de 11 meses cada uma e chegaram 56 famílias perfazendo um total de 386 pessoas.</p>
<p>Menos de um mês depois de sua chegada a Santa Cruz no vapor &#8220;Diligente&#8221;, apareciam os primeiros sintomas de descontentamento. A 13 de março de 1874 o Juiz de Direito de Santa Cruz escrevia ao Dr. Luiz Eugênio Horta Barbosa, presidente da província, comunicando que</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>chegaram a esta vila o Sr. Pedro Tabachi e seu genro e declararam às autoridades que ameaçados em suas vidas por alguns colonos, que se achavam armados e sob fúteis pretextos tratavam de sublevar a Colônia, viam-se obrigados a deixar a sua fazenda e a pedir providências que lhes garantissem as suas famílias e contivessem os revoltosos. À vista disto partiu incontinenti o subdelegado de polícia a fim de providenciar a respeito e de contê-los, até que V. Exa. com o conhecimento do exposto, ordenasse a expedição de força<span id="CIIA_RP3V">.</span><a arquivo="" blico="" do="" esp="" estado="" governadoria="" href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP3" no="" p="" rito="" santo="" title="Para este conflito veja-se o volume 318 da 2ª série da "><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Juntamente com este ofício o juiz remete cópia do ofício de Pedro Tabachi:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Ilmo. Sr. Tendo os colonos que levei para minha fazenda por instigações de três ou quatro cabeças, e sem causa, revolucionados a porto de ordenar-me o transporte de todos eles até a Vitória por minha conta e consequentemente rescisão do contrato que recentemente fizeram comigo, com ameaças de morte que fizeram-me sair escondido de minha casa, e ainda com grave perigo de minha família, eu não posso que pedir instantemente a V. Sa. se digne providenciar para minha segurança e da família; e determinar com urgência que força e muita força de 40 ou 50 praças uniformizadas venha ao mais breve restabelecer a ordem ameaçada.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Em seguida o Juiz de Direito oficiou ao tenente coronel do 4º Batalhão da Guarda Nacional da legião do Norte pedindo auxílio. Diz ele que o subdelegado de polícia havia partido para a fazenda de Pedro Tabachi a ver se continha os colonos insubordinados mas não chegou à referida fazenda por ter conseguido somente um reduzido número de homens que o acompanhassem e os colonos lhe inspiravam receio. Diz que os colonos faziam pouco caso de paisanos e que era preciso por um termo à anarquia em que estavam e se evitar conseqüências fatais e perpetração de algum grave delito.</p>
<p>No dia 16 de março chegou a força composta de 15 praças sob o comando do alferes Antônio Joaquim da Silva. No dia seguinte partiram para aquela fazenda denominada Morro das Palmeiras, juntamente com o delegado de polícia e com o juiz municipal, a quem o juiz de direito incumbiu de fazer minuciosa sindicância sobre os fatos expostos por Tabachi. O juiz municipal inquiriu os 56 colonos cabeças de família.</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Pelas respostas — diz o juiz de direito ao presidente da província — verá V. Exa. que eles alegam contra Tabachi a violação do artigo 4º do contrato incluso, com este celebrado, pelo fato de estar o barracão em que residem em lugar tão distante das terras incultas em que têm de se estabelecer, que gastam seis horas de viagem sobre maus caminhos, não lhes restando tempo suficiente para o trabalho por terem de voltar diariamente para o referido barracão, seu comum e unico aposento.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A força militar cercou os aposentos dos colonos e exigiu-lhes as armas que tivessem e eles prontamente entregaram 56 espingardas, 13 pistolas, duas terçadas e duas espadas. Depois que o padre Domingos Martinelli leu e traduziu o contrato entre Tabachi e os colonos, procedeu-se ao interrogatório dos 56 chefes de família. O ponto de discórdia versava sobre o artigo 4º do contrato que dizia: &#8220;Obriga-se também o senhor Tabachi a fazer em favor do emigrante e de todos os indivíduos da família com idade superior a 10 anos, e sem direito a reembolso, as despesas pelo seu transporte marítimo, até o lugar de destino, e de fornecer-lhes gratuitamente conforme os costumes do lugar o necessário alimento e alojamento desde o dia da chegada, e durante o período de 180 dias seguidos para que possam neste meio tempo providenciar o seu primeiro estabelecimento.&#8221; Além das reclamações apontadas, sabe-se que os colonos se queixavam do estado de promiscuidade em que se encontravam amontoados num barracão que não comportava um número tão grande de pessoas. Não tendo chegado a um acordo os colonos cruzaram os braços pedindo remoção para outro lugar. No dia 18 de maio, 203 colonos vieram para Vitória porque não concordaram em assinar um acordo. Destes, a maioria foi colocada na região anterior à do núcleo Timbui. Os que permaneceram na fazenda de Tabachi acabaram esmorecendo e se retiraram não sem antes terem até de mendigar em Santa Cruz. Outros chegaram a Santa Maria da Soledade, no Rio Grande Sul, de onde, mais tarde, reclamavam suas armas tomadas na ocasião da revolta.</p>
<p>Pedro Tabachi morreu em 21 de junho de 1874, ao que parece, de desgosto. Quando o consul do Império Austro-Húngaro pediu, no ano seguinte, informações sobre o estado da liquidação do espólio de Tabachi as informações foram as seguintes: &#8220;Pedro Tabachi casou-se in extremis com D. Ana Fontoura Tabachi com quem já havia tido dois filhos: Ana, casada com Alfredo de Leon e Bartolomeu, de 13 anos de idade. Este casamento foi celebrado e certificado pelo padre Martinelli. Procedeu-se ao inventário dos bens de Tabachi que foram avaliados em 26:486$180 réis. Alfredo de Leon e sua mulher desistiram da herança que lhes pudesse caber. Pedro Tabachi devia à casa comercial da Corte-Faria, Cunha e Cia, a quantia de 57: 618$312 réis, cujo pagamento pediram no referido inventário e por este juízo não foi admitido. Mais tarde, por escritura pública, Faria, Cunha e Cia cederam a dívida a Eduardo Gabrielli e D. Ana Fontoura Tabachi, os quais, hoje, acionam ao órfão Bartolomeu, pedindo-lhe o pagamento de 28:189$056 reis, metade da dívida cedida.&#8221;</p>
<p>O primeiro lance da imigração italiana no Espírito Santo foi um fracasso completo. Depois da de Tabachi foram feitas ainda mais quatro tentativas de implantação de parceria. Todas elas foram levadas a efeito por fazendeiros particulares, mas nenhuma foi bem sucedida.</p>
<p><b>2. Núcleo Timbuí na colônia de Santa Leopoldina</b></p>
<p>A colonização italiana se processou, inicialmente, em duas grandes colônias já de há muito fundadas, uma no sul, a de Rio Novo (1854), outra mais para o norte, a de Santa Leopoldina (1857). Depois do insucesso de Pedro Tabachi, chegaram duas levas de imigrantes no ano de 1875. Uma compunha-se de 565 tiroleses vindos de Gênova e desembarcados em Benevente, em 16 de junho deste ano. Foram localizados no 2º território da colônia do Rio Novo, cujo diretor era o engenheiro Joaquim Adolfo Pinto Pacca. Outra leva de tiroleses foi a que fundou a atual cidade de Santa Teresa, tendo chegado no final de maio o inicio de junho de 1875<span id="CIIA_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP4" title="Sobre este núcleo existem dois livros: MULLER, Frederico. Fundação e fatos históricos de Santa Teresa. Diário da Manhã, Marcondes e C., Vitória, 1925 e RUSCHI, Enrico I. Aurélio. Município de Santa Teresa. IBGE, 1939."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a></p>
<p>Como houvesse já na colônia de Santa Leopoldina uma saturação na ocupação dos espaços por imigrantes alemães, O diretor interino Pedro de Sant&#8217;Anna Lopes escrevia ao presidente da Província, Domingos Gomes Peixoto, um ofício datado de 11 de julho de 1875 que esclarece e justifica a fundação do núcleo. Mostra a existência de uma estrada no lugar chamada Santa Teresa, que havia sido começada em 1847; mostra que os primeiros colonos do Timbuí foram alguns polacos e os remanescentes da fazenda de Tabachi. O ofício na íntegra é o seguinte:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>A conveniência da criação quanto antes de uma colônia nas fertilíssimas matas do Timbuí, torna-se cada vez mais urgente. A colônia de Santa Leopoldina acha-se já em tal estado de desenvolvimento que já se pode ir cuidando de sua próxima emancipação; quase que todos os colonos já se acham em condições de poderem dispensar a tutela do Estado, e grande número deles já possuem fortuna relativamente sofrível. A continuar a remessa para ela de imigrantes em número avultado, ocasiona o acréscimo progressivo de sua despesa, e na sombra dos colonos novos os velhos continuam no usufruto dos favores do Estado, sem que seja possível evitar esse abuso. Além disso acresce que a colônia abrange uma grande extensão de território coberto com uma grande rede de estradas e caminhos e muitas pontes, cuja conservação e prolongamento delas à proporção do seu desenvolvimento para o centro acarreta grande dispêndio. 0s últimos imigrantes acham-se estabelecidos a 8 e 9 léguas do Porto do Cachoeiro. (O diretor está se referindo aos fundadores de Santa Teresa). Acresce mais que os terrenos devolutos em rumo do sul já escasseiam e a cada passo se encontram terrenos ocupados por particulares residentes no Galo, Chapéu e Pedra Branca, Assim, pois, julgo conveniente que esses terrenos fiquem reservados não só para o futuro desenvolvimento da cultura dos colonos atuais, como também para o estabelecimento dos filhos destes, logo que atinjam idade legal. Deste modo o Governo poderá daqui a quatro anos decretar a emancipação desta colônia, fazendo-a entrar na massa comum da população. Para poder-se chegar a este fim convém desde já encaminhar a emigração para o Timbuí onde já existem emigrantes polacos estabelecidos há dois anos, e onde acabo de estabelecer os italianos recém chegados. Este novo núcleo (Timbuí) desenvolve-se à margem da antiga estrada de Santa Teresa, acompanhando no princípio o rio do Norte e depois o rio Timbuí; comunicando-se com o Porto do Cachoeiro pela estrada do Timbuí e com a colônia de Santa Leopoldina pelo centro. Prevendo o futuro desenvolvimento da colônia do Timbuí escolhi quatro prazos e lugar conveniente para o estabelecimento da futura povoação na estrada de Santa Teresa, margem do Timbuí, onde mandei derrubar o mato e construir um grande barracão. Deste ponto ao Porto do Cachoeiro, no estado atual dos caminhos gastam-se seis horas. Se o Governo quiser criar a nova colônia o poderá fazer desde já, visto já estar satisfeita a condição de medição e demarcação recomendada pelo Regulamento de 1867, para a criação de novos núcleos coloniais. Se for criada a nova colônia posso assegurar o seu próspero futuro, pois há mais de mil e quinhentos italianos austríacos que, a convite de seus parentes e amigos daqui, se preparam para emigrar para cá. Ao Governo compete resolver como julgar mais conveniente.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O núcleo, de fato, se chamou Tímbuí na estrada de Santa Teresa e era um empreendimento do governo imperial. Os 350 tiroleses vieram no navio Rivadávia até o Rio de Janeiro e daí, depois da quarentena, seguiram para Vitória em dois grupos, no navio Ceres com 154 imigrantes e no navio Bahia com 163 imigrantes. Até hoje a lista dos imigrantes fundadores da mais celebrada colônia italiana do Espírito Santo não foi divulgada e continua inédita.</p>
<p>Um mês antes o mesmo diretor da colônia achava inconveniente a vinda de um número tão grande de imigrantes no período em que a colônia era assolada por um surto de varíola. Recebeu, pois, ordem terminante para fazer pernoitar os imigrantes na fazenda &#8220;Nova Coimbra&#8221; no penúltimo dia de viagem. Tal medida visava a impedir o contato dos recém-chegados com os colonos do Porto do Cachoeiro, não lhes permitindo atravessar o rio. Para isso ficou calculado que os tiroleses deviam chegar a &#8220;Nova Coimbra&#8221; pela noitinha, às cinco horas da tarde. Entende-se assim o porquê do ufanismo doa primeiros colonos de Santa Teresa ao dizerem não ter encontrado nada em seu caminho quando foram retirados da cidade, levados por caminhos desertos e colocados no meio da floresta virgem.</p>
<p>No dia 5 de julho o diretor escrevia: &#8220;Por ocasião da entrega dos lotes de terras aos imigrantes recém chegados seis de entre eles se internaram tanto nas matas do Timbuí que extraviaram-se; 24 horas depois apareceram quatro, faltando dois.&#8221; Um mateiro de nome Benedito de Oliveira Lemos encontrou os dois últimos bastante extenuados de fome e fadiga e os conduziu ao barracão. Os nomes de alguns destes imigrantes pioneiros estão fixados na parede lateral externa da igreja matriz de Santa Teresa, homenagem prestada por ocasião da festa do cinqüentenário da fundação do núcleo.</p>
<p>A princípio os imigrantes ficaram alojados em barracões previamente construídos, que lhes davam condições precárias de vida. Freqüentemente cobertos de palha e com o chão de terra batida, ofereciam pouco conforto em época de chuva e temporal. Durante os seis primeiros meses os imigrantes recebiam subvenção do Governo, um pagamento para alimentação até que fizessem a derrubada e construíssem suas toscas habitações. Também durante este tempo tinham de proceder ao plantio de mudas de café fornecidas pelo Governo e de outros cereais para a sua sobrevivência. Os lotes mediam, em geral, 302.500m<span style="font-family: &quot;calibri&quot; , sans-serif; font-size: 11.0pt; line-height: 107%;">²</span>, com 275m de frente para cursos de água, por 1.100m de fundo e em geral terminavam em terras devolutas. Este era o tipo de prazo adotado em Santa Leopoldina.</p>
<p>Ao florestas virgens eram férteis em animais e febres e delas todos guardam as mais fantásticas histórias de horror e medo, mas as terras de Santa Teresa, no Timbuí não eram tão boas para o cultivo. Logo cansavam e não produziam o desejado de modo que os seus ocupantes não conseguiam tirar delas o sustento para as numerosas famílias. Além disso, os imigrantes deviam dar um número fixo de dias de trabalho para o Governo na abertura de estradas nas frentes dos prazos e na construção de pontes. Muitos deles não conseguiam conciliar este trabalho com o trabalho de cultivo da própria lavoura. Os descontentamentos explodiam quase sempre no dia do pagamento na sede da Diretoria onde se verificavam quebra-quebra e gritaria.</p>
<p>Um destes motins ficou marcado porque dele resultou a morte do colono Pietro Dalmaschio. Foi a revolta de Nova Lombardia. Estes imigrantes revoltosos haviam aportado ao Rio de Janeiro no navio Colúmbia num total de 744 pessoas e chegaram em Vitória no vapor de guerra brasileiro Werneck a 2 de novembro de 1876<span id="CIIA_RP5V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP5" title="BUSATTO, Luiz. A revolta de Nova Lombardia. A Gazeta, Vitória, ES, 2 de fevereiro de 1978, Caderno Dois, p. 1."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> A 27 de dezembro do ano anterior havia chegado o Fenelon com um grande contingente de colonos. O navio Mohely chegou com 276 imigrantes em 25 de fevereiro de 1876. Estas levas excessivas possibilitaram a ocupação de todo o território do Timbuí em pouco tempo, de modo que em dois anos foi planejada uma nova frente que não fosse distante da Capital. Um pouco mais ao norte, no lugar que é hoje Ibiraçu, fundou-se o núcleo Santa Cruz, partindo-se do ponto que fora a fazenda do finado Pedro Tabachi.</p>
<p><b>3. Núcleo Santa Cruz (Ibiraçu)</b></p>
<p>O núcleo Santa Cruz foi fundado em 1877 e estava localizado às margens do rio Piraqueaçu, nas áreas que compõem hoje os municípios de Ibiraçu, Aracruz e Fundão. O então presidente da Província, Afonso Peixoto de Abreu Lima tentou mudar o nome para Núcleo &#8220;Abreu Lima&#8221; por sugestão do diretor da colônia, Aristides Armínio Guaraná. O nome que ficou, porém, foi o de Conde D&#8217;Eu, homenagem ao chefe das forças brasileiras na guerra do Paraguai e de quem Guaraná fora ajudante de ordens. Com o nome de Conde D&#8217;Eu foi batizado o barracão construído no lugar onde é hoje a cidade de Ibiraçu.</p>
<p>Outros nomes ainda foram dados ao núcleo segundo os interesses dos governantes. Em 18 de janeiro de 1892 a Junta Governativa do Estado do Espírito Santo resolveu tornar sem efeito a lei nº 23 de 11 de setembro de 1891, que elevou à categoria de vila com o nome de Guaraná a antiga sede do ex-núcleo colonial de Santa Cruz; também estabeleceu as divisas do município que seria ali constituído. Em 1º de março a Junta Governativa decreta: &#8220;Art. 1º Passam a denominar-se cidade de Itabapoana e vila do Pau Gigante, a cidade de Monjardim e a vila Guaraná. Art. 2º Ficam revogadas as disposições em contrário.&#8221; Logo que Afonso Cláudio assumiu o governo do Estado escreveu ao inspetor interino da Repartição de Terras e Colonização:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Convindo eliminar quanto antes os nomes dos membros da dinastia deposta, que serviram para designar núcleos coloniais, cientifico-vos que os façais substituir por outros rememorativos do acontecimento de 15 do mês findo (novembro), ficando desde já o núcleo Conde D&#8217;eu, conhecido pelo nome de Quintino Boiacaúva.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Designou-se, pois, com este nome a área ocupada pelo movimento imigratório de então. No início do século, quando foi inaugurada a estação de estrada de ferro na vila de Pau Gigante, deram-lhe o nome de Lauro MüIler e pelo qual ficou sendo designado o lugar. Finalmente, a partir de 1943, Ibiraçu recebeu o nome atual. Não há dúvida de que estas contínuas alterações toponímicas dos núcleos, no período colonial, revelam a instabilidade da sociedade em formação.</p>
<p>As 55 primeiras famílias chegaram no navio Colúmbia no dia 15 de agosto de  <span id="CIIA_RP6V">1877</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP6" title="BUSATTO, Luiz. A imigração italiana e o I centenário de Ibiraçu. A Gazeta, Vitória, ES, 7 de agosto de 1977, Caderno Dois, p. 1 e 12."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>. Gastou 35 dias de Gênova até Vitória e trouxe 275 pessoas. Depois de um breve descanso na hospedaria da Pedra D&#8217;Água, que era chamado de quarentena, durava às vezes uma semana ou alguns dias, os colonos seguiram para Santa Cruz onde chegaram no dia 21 às 4 horas da tarde, alojando-se em casas para tal finalidade. No dia 24, primeiro um grupo de 126 foi transportado para o lugar denominado Morro das Palmas, em canoas; no dia 26 seguiu o resto. Aí foram agasalhados no mesmo barracão que serviu no tempo do finado Pedro Tabachi.</p>
<p>A primeira preocupação do engenheiro encarregado da recepção e transporte dos imigrantes foi dar-lhes serviço conforme escreveu ao presidente da Província: &#8220;Por onde vê V. Exa. que em sete dias foi feito todo o serviço de recepção e agasalho, recebendo eles no dia 28 trabalhos de estrada, conforme manda o regulamento e podem sustentar-se com o produto de seus trabalhos.&#8221; A estrada que começaram a construir é a que ia daquela fazenda até um ponto intermediário chamado Cachoeiro do Barro. Os fundadores de Ibiraçu receberam, além do mais, 108 machados, 109 foices, 160 enxadas e um pequeno auxílio em dinheiro. Para eles foi cortada a praxe seguida no núcleo de Santa Teresa, de se darem por conta do Governo, aos colonos, durante os seis primeiros meses de seu estabelecimento, os mantimentos necessários para seu sustento, além dos salários que percebiam nas estradas.</p>
<p>A ocupação e posse das terras eram programadas dentro das conveniências econômicas governamentais. Uma das vantagens da fundação de Ibiraçu era que o núcleo tinha fácil acesso navegável e possibilitava a comercialização sem grandes despesas. Chegando facilmente até onde o rio Piraqueaçu era navegável, ou seja, a fazenda Morro das Palmas na confluência com o rio Taquaruçu, os imigrantes daí avançavam na direção das matas virgens em terras devolutas.</p>
<p>Primeiro se fazia uma exploração na mata, depois, chegava a comissão de engenheiros e agrimensores que procedia à medição dos prazos. Os terrenos chamavam-se prazos porque deviam ser pagos dentro de dois anos. Feita a derrubada, o colono tinha seis meses para construir sua casa a fazer as primeiras plantações.</p>
<p>Os colonos não podiam fazer comércio, estabelecer-se como comerciantes mas deviam cultivar a terra, arrancar dela o seu sustento e o lucro para efetuar o pagamento da dívida contraída. O lucro comercializável provinha da produção agrícola.</p>
<p>Os primeiros mapas da região foram feitos pelo engenheiro Cristiano Boaventura da Cunha Pinto que no final do ano de 1877 foi demitido por Guaraná, tendo havido um desentendimento entre eles. Em 1879 já existe uma planta do Núcleo Colonial de Santa Cruz feita por Victor Hugo. Nela constam os nomes dos colonos inscritos no traçado dos respectivos lotes de terra. Em 1881 o agrimensor Charles Pelatan apresenta uma &#8220;Cópia da planta geral do núcleo de Santa Cruz com os prazos urbanos e alguns rurais, anexos, e planta demonstrativa do serviço de verificações e remedição do mês de janeiro.&#8221; Em 1882 tem-se a &#8220;Planta do núcleo colonial Santa Cruz da colônia de Santa Leopoldina organizado pela comissão a cargo do engenheiro diretor bacharel Lula Cavalcanti Campos Mello.&#8221; A partir da proclamação da República proliferam os mapas, já que todas as medições tiveram que ser refeitas. Existe a &#8220;Planta do ex-núcleo Bocaiuva, Vila Pau Gigante organizada pela comissão distritual da segunda circunscrição, outubro de 1892.&#8221; Em outubro de 1894 está pronta uma &#8220;Planta geral dos núcleos Muniz Freire, Acióli Vasconcelos, Antônio Prado e Demétrio Ribeiro situados nos vales do rio Doce e Piraqueaçu.&#8221; Em 1896 há uma planta geral feita pelo engenheiro Gabriel Emílio da Costa.</p>
<p>Para Ibiraçu vieram três grandes carregamentos de imigrantes feitos pelos navios Colúmbia, Izabella e Clementina. O Colúmbia chegou primeiro no dia 15 de agosto, motivo pelo qual Nossa Senhora da Assunção é a Padroeira da igreja local. O Izabella chegou no dia 27 de setembro com 77 famílias (353 pessoas) remetidas por Joaquim Caetano Pinto Júnior em virtude de seu contrato celebrado com o Governo Imperial que seria rescindido pelo aviso de 27 de junho de 1878. Os imigrantes nem chegaram a saltar na hospedaria da Pedra D&#8217;Água por causa de um surto de varíola em Vitória. Um terço das famílias vindas neste navio, porém, foi para Santa Cruz por engano e, uma vez lá, começaram seus líderes a apertar o diretor Aristides Guaraná com passaportes e recibos, afirmando terem pago suas passagens e ser outro o seu destino e que, portanto não iriam trabalhar na construção de estradas como os demais. Depois de uma tentativa de tumulto em que um dos colonos ameaçou o diretor com uma foice, retiraram-se umas 43 famílias que estavam paradas há dois meses.</p>
<p>No dia 25 de outubro de 1877 chegou uma terceira turma no navio <i>Clementina </i>com um maior contingente de imigrantes. Eram 113 famílias com 476 pessoas. Assim como os imigrantes dos navios anteriores, provinham das províncias italianas do norte. Entre lugares grandes e pequenos apareciam Belluno, Bérgamo, Bonate, Bréscia, Caneva, Cittadela, Cordignano, Cremona, Gajarine, Mantova, Padova, Polcenigo, Rovereto, Rovigo, Sacile, Sarmede, Seren, S. Benedetto, S. L,cia, S. Fior, S. Nazario, Tarso, Trento, Treviso, Vittorio Veneto, Vicenza e outros.</p>
<p>Em 10 de janeiro de 1880, próximo de deixar a direção da colônia Aristides Guaraná dizia num relatório ao presidente da Província: &#8220;Com uma população de 2.000 almas, pouco mais ou menos, habitado por 308 famílias italianas, 57 cearenses e 55 índios naturais desta Província.<span id="CIIA_RP7V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP7" title="Livro 35 da 2ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a><br />
<b><br /></b><br />
<b>4. Epidemia de febre amarela</b></p>
<p>A epidemia de febre amarela que assolou o núcleo de Santa Cruz é um dos capítulos mais sombrios da imigração italiana no Espírito Santo. O surto da doença coincidiu com a derrubada das matas quando os insetos baixavam das copas para o chão. Em março de 1878 estava no auge. Os colonos começaram a ter vitimas no mês de outubro do ano anterior e dai em diante a doença foi atingindo índices assustadores de modo que no final de 1878 eram mais de 200 os mortos. Do navio <i>Clementina </i>morreram 111 pessoas numa proporção de uma sobre quatro. Não houve família poupada e ninguém na colônia deixou de contrair a febre amarela. Mandou-se buscar no núcleo de Santa Leopoldina todo o sulfato de quinina disponível. Não é verdade que os colonos eram abandonados à sua sorte. Desde o início um medico acompanhou os imigrantes. O que havia era atraso da medicina e dos recursos dela. Acusa-se, hoje, a displicência do atendimento médico que não era, porém, outra coisa senão uma resultante do atraso cultural da sociedade brasileira. Com a morte do chefe de família a mulher ou voltava para a Itália ou casava-se com um viúvo, nas mesmas condições. Quando morria o casal, os órfãos eram distribuídos entre as outras famílias. Muitas vezes os parentes da Itália requeriam, através do representante consular, o repatriamento dos menores.</p>
<p>Enterravam-se os mortos por toda a parte. O fato de muitos imigrantes ficarem impressionados com o grande numero de sepulturas é atestado por alguns que chegaram quase 20 anos depois, como no caso de Giovanni Bof, citado pelo bispo Dom <span id="CIIA_RP8V">Cavati</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP8" title="CAVATI, João Batista. História da imigração italiana no Espírito Santo. BH, São Vicente, 1973, p. 131."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>. Atualmente existe a lista destes mortos mas não existem mais os cemitérios. Para que se tenha uma idéia do trágico acontecimento basta uma citação do relatório de Jacinto Adolfo de Aguilar Pantoja, engenheiro chefe da Comissão de Terras e Colonização da ex-colônia de Santa Leopoldina, dez anos depois, ou seja, em 1888:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Finalmente sobre cemitérios nada há feito, não existindo um só, digno deste nome, em toda a ex-colônia. Os enterramentos, muitas vezes, são feitos onde entendem os parentes e amigos do falecido, havendo até quem, no pasto do próprio lote, haja enterrado já duas esposas<span id="CIIA_RP9V">!</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP9" title="Livro 47 da 2ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Antônio Francisco de Ataíde escreve em 13 de Julho de 1887 ao Pantoja que, no Conde D&#8217;eu</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>notando que os enterramentos dos cadáveres eram feitos emcampo aberto, entregue à pastagem dos animais, resolvi indignado, em vista de tal procedimento anticivilizador, promover uma reunião entre os habitantes daqui com o fim de o mais breve possível ser construído o cemitério à custa deles<span id="CIIA_RP10V">.</span><a agricultura="" ape-es.="" href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP10" title="Caixa 116 da 1ª série da "><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Os médicos enviavam, periodicamente, ao presidente da Província uma estatística patológica dos colonos atendidos por eles. Apresentavam também uma lista dos remédios necessários na composição da farmácia do núcleo. As sedes dos núcleos tinham também uma enfermaria. Isto se verificava igualmente na colônia de Santa Leopoldina e na do Rio Novo. Os inconvenientes mais sérios apontados no atendimento médico eram as distâncias dos lotes e prazos que separavam os colonos da sede central, além de a colônia contar com um único médico.</p>
<p>O núcleo Santa Cruz pode ser estudado através de 482 ofícios expedidos na gestão Aristides Armínio <span id="CIIA_RP11V">Guaraná</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP11" title="Livro 35 da 2ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> que foi empossado a 7 de setembro de 1877, e de 503 ofícios da gestão Lula Cavalcanti de Campos Mello que ficou até 18 de julho de 1882 quando a colônia de Santa Leopoldina foi emancipada.</p>
<p><b>5. Imperial colônia do Rio Novo</b></p>
<p>A existência da colônia do Rio Novo é bem anterior à chegada dos imigrantes italianos. Em 1855 tinha o nome de &#8220;Associação Colonial do Rio Novo&#8221;. Depois passou ao Estado em 7 de outubro de 1861 já com o nome de Imperial colônia do Rio Novo, sendo dividida em cinco territórios. O 1º e o 3º territórios ficavam à margem do Rio Novo com seu centro colonial a 2km do porto de embarque de seus produtos; o 2º, 4º e 5º, à margem do rio Benevente. A colônia tinha uma área de 40.000ha, aproximadamente, com 713 lotes, dos quais 426 ocupados.</p>
<p>A área desta colônia oferecia uma particularidade: é que havia muita fazenda abandonada e terrenos pertencentes a particulares, o que tornou a sua ocupação diferente da de outras colônias. Nem tudo eram terras devolutas na área da colônia.</p>
<p>Durante muitos anos não prosperou até que em 25 de setembro de 1871 foi nomeado diretor Joaquim Adolfo Pinto Pacca. Diz ele em relatório de 1876: &#8220;Só em junho de 1875 foram a ela remetidos novos emigrantes, depois de um período de 15 anos de interrupção de tais remessas.<span id="CIIA_RP12V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP12" title="Livro 63 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a></p>
<p>De fato, aos 16 de junho chegavam a Beneverte 565 tiroleses que foram levados ao núcleo colonial São José do Tirol, no 2º território. Apesar de se cumprir o artigo 32 do regulamento de 19 de janeiro de 1867 que dizia: &#8220;Havendo trabalho na colônia, serão nele empregados os colonos que o quiserem nos seis primeiros meses&#8221;, em 18 de dezembro, 220 deles se retiraram alegando ao delegado de polícia da vila de Itapemirim, em inquérito policial, que sofreram maus tratos e que na sua retirada tiveram de comer burros mortos, ratos e urubus. Tal notícia veiculada pelo jornal O Comércio da capital, foi rebatida como falsa pelo diretor. No entanto, a carestia dos gêneros de primeira necessidade era verdadeira; &#8220;efetivamente os gêneros foram caros no primeiro mês em que estes colonos chegaram ao 2º território&#8221; porque havia um só comerciante sem concorrência na praça. Reclama Pinto Pacca ao presidente da Província em 20 de março de 1876:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Assim viviam aglomerados em um rancho de palha do Governo sem terem derribado um só&#8221; pau e seus prazos abandonados e como único trabalho tinham o de virem à Diretoria nos domingos receber dez mil réis. Tirando umas 15 famílias a lavoura deles consistia em meia dúzia de pés de alface e outros tantos pés de beijos de frades, flor esta que eles muito apreciam.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A razão mais profunda, porém, apresentada por Pinto Pacca em seu relatório diz respeito ao próprio sistema colonial adotado na região. Ele minimiza o insucesso da retirada e a má impressão causada pelo fato.</p>
<p>Aconteceu com parte destes tiroleses fato semelhante ao que havia acontecido em 1873 na Colônia de Santa Leopoldina com os polacos. Os tiraleses queriam trabalhar em estradas de ferro e não na lavoura. Por isso diz Pinto Pacca:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Todas as colônias do Estado têm por ele passado, e continuarão a passar enquanto receberam tiroleses, forem os mesmos os meios de promover a emigração na Europa, não for essencialmente alterado o regulamento das colônias com a substituição de sistema de pequena propriedade pelo sistema que chamo misto &#8220;parceria e pequena propriedade&#8221; que deve consistir em montar-se nas colônias fazendas normais &#8220;escolas práticas de agricultura&#8221; onde os emigrantes recém chegados, nos dois primeiros anos de seu estabelecimento, aclimem-se, aprendam a cultura do país, ganhem os meios de subsistência e vão pouco a pouco familiarizando-se com os nossos sertões e preparando sua pequena propriedade. Este sistema convenientemente desenvolvido de harmonia com sábias lições da experiência e acurada observação é prenhe de benéficos resultados, já em relação à economia, já em relação à solução do importante problema da colonização<span id="CIIA_RP13V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP13" title="Idem."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A história não é feita só do ufanismo que reveste a vida dos pioneiros italianos no Espírito Santo. Existe também um lado feio que, tanto o Governo tenta apagar em sua administração, como também os imigrantes tentam esconder em sua trajetória. Os imigrantes na sua quase totalidade eram uma classe menos favorecida na Europa; viajavam, freqüentemente, em condições infra-humanas; tinham, no Brasil, que aclimatar-se e enfrentar dificuldades nunca imaginadas. Isto explica porque a colônia &#8220;Nova Trento&#8221; de Pedro Tabachi acabou num inquérito policial. Também na colônia de Rio Novo a tentativa dos primeiros tiroleses culminou com a retirada de dois terços deles, cerca de 443, com base em um inquérito policial que dizem existir no arquivo da vila do Itapemirim. Sabe-se pelo relatório do diretor que em abril de 1878 haviam entrado 688 tiroleses dos quais pereceram 245, enquanto os italianos eram em número de 832.</p>
<p>No final de 1877, os restantes tiroleses que viviam do trabalho nas estradas não quiseram se dirigir a São Joaquim. Desobedecendo às ordens do ajudante do diretor, empunharam uma bandeira vermelha e foram melhorar um trecho de estrada próximo do seu núcleo. No dia do pagamento promoveram um tumulto.</p>
<p>O diretor mandou prender cinco deles, os mais exaltados, ameaçando-os com o artigo 37 do regulamento de 110, de Janeiro de 1867 que tratava da expulsão da colônia. Além disso, as mulheres vieram à casa do diretor reclamar e dirigir-lhe algumas injúrias, mas o diretor deixou-os presos mais quatro dias para não intimidar-se diante de tais atos. Depois, amainados os ânimos, soltou-os.</p>
<p>Em 21 de agosto de 1878 Pinto Pacca apresenta um relatório de 46 páginas manuscritas ao inspetor geral das Terras e Colonização, encabeçando uma comissão encarregada da emancipação da colônia do Rio Novo e vai pessoalmente à Corte imperial levar o referido relatório.</p>
<p>É certo que a colônia do Rio Novo não possuía tantas terras devolutas e que sua área estava recortada de fazendas abandonadas e de sesmarias. Era imperioso proceder-se ou à abertura de novas frentes de ocupação, ou à compra de fazendas e sesmarias para dividi-las em colônias<span id="CIIA_RP14V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP14" title="ACHIAMÉ, Fernando A. M. A colonização e a pequena lavoura cafeeira: a colônia de Rio Novo. Caderno de História nº 4 e 5, setembro de 1978 a março de 1979, Departamento de História, UFES."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> Pinto Pacca atribui a si os méritos de ter transformado a colônia atrasada em uma das mais prósperas e populosas.</p>
<p>A imperial colônia do Rio Novo foi emancipada a 7 de março de 1880 e sua história, sobretudo no que diz respeito à imigração italiana não foi suficientemente estudada.</p>
<p><b>6. Núcleo do Castelo</b></p>
<p>Em janeiro de 1880 foram estabelecidos 581 imigrantes no novo núcleo do Castelo. A ocupação da área e a emancipação da colônia foram rápidas, 16 meses depois. A colônia do Castelo começou com algumas seções que se multiplicaram na fase republicana: Alexandrina, Araguaia, Carolina, Deserto, Guiomar, Iracema, Matilde, Maravilha, Santa Júlia, Urânia, Vitor Hugo. Estas seções se estendiam ao longo das águas dos rios Benevente, Jucu e Castelo. A colônia do Castelo foi emancipada em 28 de maio de 1881. Em dezembro de 1882 Pinto Pacca foi incumbido de medir 150 lotes neste núcleo, mas cento e vinte e dois imigrantes a ele destinados se recusaram a aceitar lotes tão distantes e pediram para se estabelecer na seção Alexandrina, no que os satisfez o diretor.</p>
<p>Em fins de 1885 o ministro da Agricultura resolveu dispensar as comissões de medição da Província, entre os quais se achava a de Pinto Pacca. Este, porém, foi, vinte dias depois, nomeado inspetor especial para continuar os trabalhos. Ele estava terminando uma estrada de mais de 15 léguas, que considerava a melhor da Província. Havia então nas colônias 800 lotes devolutos e demarcados. Caso não fossem ocupados haveria prejuízo para o governo. Neles poderiam estabelecer-se 4.000 imigrantes aproximadamente. Ao assumir sua nova função reclamava Pinto Pacca que se achava cansado de ensinar a outros funcionários há 18 anos, recaindo sobre ele o trabalho de aprendizes.</p>
<p><b>7. Recesso e ruínas. Reativação da imigração</b></p>
<p>Emancipadas as colônias em 1880 e 1882, a sua população ficou sujeita à administração comum da Província. Se os poucos funcionários não foram demitidos, as casas do Governo pelo menos caíram em estado de abandono. O que aconteceu em Santa Teresa e Ibiraçu em 1885, aconteceu também no Rio Novo. O diretor desta colônia informava ao presidente da Província que</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>e tanto é assim que estas propriedados acham-se em ruínas, acontecendo até ser-lhes roubadas portas e janelas e existir ocupada por uma venda a excelente casa de instrução pública do 5º território, ignorando eu onde foram os utensílios da escola, não só desta, como de todas as outras existentes na colônia<span id="CIIA_RP15V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP15" title="Relatório no livro 63 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Júlio Alves da Cunha, engenheiro que tinha sido transferido do Pará para ocupar o cargo de chefe da Comissão de Descriminação de Terras Nacionais no município de Santa Cruz refere-se ao estado da casa da diretoria no conde D&#8217;Eu, em janeiro de 1885, nos seguintes termos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>encontrei em abandono completo, toda aberta, sem uma só chave ou trinco, com alguns portais e soleiras apodrecidas, esquadrias arrancadas, rodapés e forros em mau estado, cheia de cupins em diferentes pontos e cercado de grosso e cerrado capoeiral. A esta casa me recolhi porque não havendo outra em que me abrigasse..<span id="CIIA_RP16V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP16" title="Ofício de 19 de janeiro de 1885 no livro 29 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
E no dia 10 de março seguinte já era nomeado para substituir o anterior o engenheiro Carlos Leopoldo Ferreira, de modo que, o rodízio dos próprios funcionários não permitia levar à frente a realização das obras necessárias. O novo chefe, porém, conseguiu a verba de 1:173$743 réis para os reparos.</p>
<p>Em Santa Teresa o edifício da diretoria ficava fora da vila e no alto. Em 1892 suas portas e janelas tinham sido roubadas. É interessante observar que o encarregado do estabelecimento de imigrantes dizia não se dever afagar — o termo é este — os imigrantes com esse luxo tardio<span id="CIIA_RP17V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP17" title="Livro 84 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a></p>
<p>A hospedaria da Pedra D&#8217;Água, se não foi desativada, perdeu, ao menos, parte de sua função. Os imigrantes que se dirigiam ao Espírito Santo eram poucos, esporádicos e vinham transferidos de outras províncias do Brasil. A hospedaria estava em ruínas e não tinha meios de receber hóspedes.</p>
<p>Em detalhado relatório feito no início de 1888, diz o engenheiro Pantoja ao inspetor especial das Terras e Colonização, Pinto Pacca:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Em toda esta ex-colônia não possui o Estado um só prédio em condições de prestar-se para recepção e agasalho de imigrante recém-chegados&#8230; Na povoação de Santa Teresa há dois prédios do Estado, sendo um o que serviu de casa de administração e a outra a que serviu de escola e hospital. O primeiro acha-se bastante estragado e o segundo está em regular estado de conservação e pode ainda prestar serviços, como está prestando, depois de ter esta Comissão mandado asseá-lo. Na povoação Conde D&#8217;Eu tem o Estado três prédios, um, antiga casa da diretoria, podendo ainda prestar serviços sendo convenientemente reparada; a outra, o antigo barracão de recepção e agasalho de imigrantes precisa também de reparo sem os quais em breve tempo desabará; finalmente, o terceiro, o que serviu de escola, casa de modestas proporções está também arruinada&#8230; Assim, não tendo o Estado nesta ex-colônia senão prédios como os que acabo de descrever e sendo de necessidade que os possua em condição de servirem para receber e agasalhar imigrantes em diversos pontos da ex-colônia, ainda que por algumas horas, porque aqueles que se dirigem para Porto do Cachoeiro e Timbuí só chegam a esta vila ao cair da noite, assim como os que se dirigem para o Conde D&#8217;Eu só chegam à povoação do mesmo nome à tarde ou à noite, tendo, por conseguinte, de pernoitar nessas localidades, da mesma sorte os que, chegando ao Porto do Cachoeiro, se destinam ao Baixo Timbuí (águas do Rio Doce) têm de pernoitar na povoação de Santa Teresa, é preciso que haja nessas localidades, pelo menos, um teto que possa abrigá-los e as suas bagagens, sem falar nos que podem chegar adoentados<span id="CIIA_RP18V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP18" title="Livro 47 da 2ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Tudo o que se lê nos documentos atesta, de fato, um período de interrupção da corrente imigratória na colônia de Santa Leopoldina, até 1887.</p>
<p>Com a retomada intensa da imigração no início de 1889 foi necessário reconstruir de novo a Hospedaria dos imigrantes, comprar terrenos para construir junto a ela um hospital orçado em 38:140$832 réis; para reparos da Hospedaria a verba foi de 43:649$053 réis, sem contar os gastos posteriores, pois a restauração só foi concluída em novembro de 1889, com a cimentação das escadarias para dar agradável aparência. Estes trabalhos eram urgentes e reconhecidamente obrigatórios porque, com o anúncio da chegada próxima de grandes remessas chegavam também notícias de surtos de varíola ocorridos nas viagens. Durante a travessia morreram 17 imigrantes de varíola, conforme atesta um registro de 25 de dezembro de 1888<span id="CIIA_RP19V">.</span><a ape-es.="" governadoria="" href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP19" title="Livro 21 da 2ª série da "><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a></p>
<p>Enquanto as construções do Governo caíam em ruínas os imigrantes valiam-se da precariedade dos barracões primitivos como foi o caso do barracão de Conde D&#8217;Eu que serviu de igreja até 1887. Não havia cemitérios oficiais nos núcleos.</p>
<p>Para agravar a sorte dos primeiros colonos, também os serviços burocráticos que procediam à legalização dos papéis de posse, relativos aos prazos, eram morosos como ineficientes e acontecia de haver dois colonos reclamando um mesmo terreno ou parte do prazo mal medido. A colônia de Santa Leopoldina teve, em 1887-1888 e 89 a sua planta geral toda revisada a fim de regularizar a legitimação e revalidação de posses.</p>
<p>Os reflexos da desorganização remontavam ao tempo da emancipação. Veja-se o que escrevia Pinto Pacca em setembro de 1880:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Tendo sido emancipada a colônia do Rio Novo retirou-se dali, como cumpria, a diretoria, a quem com competia o registro civil de nascimentos, casamentos e óbitos. Não existindo autoridades civis e policiais acontece: ignoram os colonos a quem devem dirigirem-se para o referido registro e como, por isso, importunam constantemente a diretoria do núcleo colonial do Castelo, absolutamente independente daquela colônia: respeitosamente peço a V. Exa. que digne-se designar a autoridade competente para continuar tal registro.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Desde maio de 1876 os assentamentos de batizados, casamentos e óbitos da colônia do Rio Novo eram feitos pelo pároco de Itapemirim em livro da capela do 1º território, nas poucas vezes em que ele para ali se dirigia a fim de oficiar tais atos. A diretoria fazia o assentamento de óbitos, casamentos e nascimentos com base nas informações que lhe enviavam, mensalmente, os auxiliares nos territórios.</p>
<p>Como se sabe, a lei de 28 de setembro de 1885 reativou o movimento colonizador que, se era inexpressivo em termos de quantidade numérica de imigrantes não o era quanto ao número de lotes demarcados ou medidos. A comissão a cargo de Jacinto Adolfo de Aguílar Pantoja na ex-colônia de Santa Leopoldina só recebeu 44 imigrantes dos 400 chegados no ano de 1887 ao Espírito Santo e deste total muitos não eram italianos. Mediram-se 362 lotes tendo 181 disponíveis. Havia um problema a ser enfrentado no caso dos colonos de família numerosa que tinham filhos maiores de 18 anos. O artigo 7º do regulamento de 19 de janeiro de 1867 dizia: &#8220;Os filhos maiores de 18 anos terão direito à escolha de lotes com as mesmas condições, para se estabelecerem separadamente, quando assim o requererem.&#8221; Isto se verificou por ocasião da emancipação da colônia tendo se chegado a mandar cumprir este artigo através de instruções de 18 de novembro de 1884. Ocupadas todas as áreas disponíveis próximas aos núcleos, só restava a opção de internamento nas terras devolutas. Assim começa um novo período na história da imigração italiana do Espírito Santo.</p>
<p><b>8. A fase republicana&nbsp;</b></p>
<p>A segunda fase da história da imigração italiana no Espírito Santo é marcada por uma proliferação de núcleos coloniais que consolidaram a ocupação das áreas vazias. Sua criação se investe de características bem diversas da criação dos primeiros núcleos. Foram eles: Costa Pereira (1889) e Afonso Cláudio (1890) ao sul; Antônio Prado (1887), Acioli Vasconcelos (1887) e Muniz Freire (1893) no vale do rio Doce; Demétrio Ribeiro (1890) no vale do rio Piraqueaçu; Santa Leocádia (1888) e Nova Venécia (1892) no vale do rio São Mateus.</p>
<p>As informações sucintas que sobre eles se lêem no livro <i>O Estado do Espírito Santo e seu desenvolvimento econômico</i> de Artur E. Magarinos Torres Filho, foram extraídas, com, as mesmas palavras e cortes de relatórios redigidos por Gabriel Emílio, existentes no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo<span id="CIIA_RP20V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP20" title="Relatórios da Caixa 193 da 1ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a> Pouco se tem escrito sobre estes núcleos. Alguns deles se tornaram cidades, outros, trocaram de nome e outros ainda, ou porque perderam representatividade na economia, não corresponderam ao futuro próspero que lhes era destinado. O núcleo Muniz Freire significou o fim de um período na história do Espírito Santo e da imigração italiana.</p>
<p><b>9. Núcleo Antônio Prado</b></p>
<p>O núcleo Antônio Prado foi fundado em 1887 pelo engenheiro Antônio Francisco de Ataíde. O local escolhido para sua sede ficou na confluência do rio Mutum com o rio Santa Maria do rio Doce. Os lotes, porém, só começaram a ser ocupados a partir de 1888 por imigrantes trazidos nas sucessivas viagens sobretudo do navio Adria que de setembro de 1888 a setembro de 1891 trouxe 4.289 italianos Os imigrantes tinham que passar pelo Cachoeiro de Santa Leopoldina e Santa Teresa, para depois descer ao baixo Timbuí. A distância a percorrer era enorme. A queda do regime monárquico trouxe conseqüências que repercutiram até os capilares da vida nacional. O núcleo recém fundado no Mutum ficou ao abandono das iniciativas. O novo governador do Estado, Afonso Cláudio de Freitas Rosa incumbiu o coronel Augusto Nogueira da Gama de inspecionar o novo núcleo com &#8220;instruções reservadas&#8221; e o coronel apresentou-lhe o seguinte relatório que aponta medidas de urgência para aliviar a penúria dos imigrantes:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Em obediência às determinações que me fizestes em instruções reservadas, dirigi-me à ex-colônia Santa Leopoldina e tomei por ponto objetivo o núcleo Conselheiro Prado, onde se acham estabelecidos os últimos imigrantes vindos diretamente a esta capital no vapor <i>Adria </i>e outros por via do Rio de Janeiro no vapor <i>Colúmbia</i>. Esse núcleo compreende duas seções — Mutum e Baunilha. O motivo que determinou a vossa patriótica resolução, de remeter-me àquelas paragens, foi por mim escrupulosamente investigado, chegando ao conhecimento do que passo a expor:<br />
<br />
Nos dois últimos meses os colonos ali localizados sofreram grandes provações motivadas pela falta absoluta de gêneros alimentícios com que provessem a sua subsistência, produzindo essa falta desagradável impressão no espírito de todos que dela tiveram conhecimento, de modo que convém por todos os meios fazê-la cessar de vez a fim de não fazer abortar o povoamento de uma zona tão prometedora de grandes vantagens para os colonos que nela se estabelecerem e de imenso futuro para a prosperidade deste Estado, confiado hoje ao vosso alto critério e alevantado patriotismo, o qual hoje mais do que nunca, precisa pôr em ação todos os recursos de que é dotado. No meu humilde pensar duas foram as causas desse flagelo: uma, a anormalidade da estação que atravessamos, a qual deu em resultado a escassez de produtos agrícolas, de modo a encarecê-los exorbitantemente, e a outra, ao quase abandono em que se acha aquele núcleo de uma direção ativa, que trate por meios peremptórios de providenciar conforme as circunstâncias o exigirem. Esta causa eu a constatarei dizendo que estando o referido núcleo sob a direção do engenheiro Jacinto Adolfo de Aguilar Pantoja, reside este no Porto do Cachoeiro (16 a 20 léguas distante do lugar que tem de inspecionar e dirigir). É certo que tem no núcleo empregados executores de suas ordens; mas infelizmente aquele a quem escolheu para seu preposto, não tinha capacidade para isso, segundo fui informado e se evidencia pelas recriminações que em geral ouvi contra ele. Este cidadão João Manuel Dias Simões, faleceu dois ou três dias depois de minha chegada, pelo que não me foi possível recolher dados para reconhecer com precisão qual a dívida do Estado, proveniente de salários e outros pagamentos, conforme me recomendastes. Entretanto, por alguns dados que pude colher me parece que com a quantia de dezoito contos de réis se poderão liquidar todos os pagamentos que estão em atraso. Dois outros empregados que ali existem são meros executores de ordens que tardiamente recebem. Apesar de tudo isto apraz-me em dizer-vos que em despeito dessas irregularidades achei os colonos encorajados para prosseguirem em seus labores animados pela uberdade dos terrenos que lhes foram distribuídos.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Depois de dedicar uma parte à reclamação dos colonos espanhóis estabelecidos na seção Baunilha, continua o mesmo relator:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Logo que cheguei na vila do <span id="CIIA_RP21V">Cachoeiro</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP21" title="Atual cidade de Santa Leopoldina."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a> fui informado de que no aludido núcleo havia falta quase absoluta de alimentação, pelo que tratei imediatamente de fazer seguir para a dita localidade tropas, conduzindo gêneros de primeira necessidade e efetivamente ali chegando, reconheci essa falta e tive de providenciar no sentido de fazer nova remessa a fim de poder acudir às reclamações que neste sentido me foram feitas. Com essa providência despendi a quantia de dois contos cinco mil quatrocentos e noventa réis, conforme consta dos documentos juntos de número um a quatro. Além destes socorros despendi no mesmo intuito a quantia de duzentos mil réis que entreguei a um empregado do núcleo para ser aplicado em auxílio de duas viúvas mães de família (documento nº 5). Adicionada a semelhante despesa a de 995$700 constante dos documentos número seis a dez eleva-se o total de 3:201$190 que comparada com a de 6:000$000 que me foi entregue, resulta o saldo de 2:798$810 que devo recolher aos cofres da Tesouraria da Fazenda.<br />
Como meio de obviar ou remover os embaraços que estorvam o desenvolvimento daquela localidade seja-me permitido consignar aqui algumas medidas que me parecem indispensáveis. Segundo verifiquei, o atraso de pagamento das despesas do núcleo deu lugar à adoção de vales ou abonos passados aos colonos para por meio deles poderem obter dos negociantes os gêneros de que carecem para a sua subsistência; este sistema, que a prática já demonstrou ser de grande inconveniente para a boa fiscalização dos dinheiros públicos e ainda de maior desvantagem para o imigrante, que em tais condições fica sujeito a exageradas exigências dos comerciantes. Julgo pois de toda a conveniência que se faça cessar semelhante sistema, providenciando-se no sentido de serem pagos mensalmente os salários dos trabalhadores em moeda corrente. Com este regime não só melhoram as circunstâncias financeiras do indivíduo, como ainda os liberta da desagradável condição de tutelado, que não pode dispor livremente do resultado do seu trabalho matando destarte o estímulo, agente poderoso para o desenvolvimento das forças físicas. Creio que não poderá exceder a dois contos de réis a despesa mensal necessária com tal alvitre. Uma outra medira necessária é o melhoramento das estradas cujo estado atual é sobremodo deplorável parecendo atestar o abandono em que estão dos poderes competentes. Tomadas estas providências é de supor que desaparecerão as causas que periodicamente se avolumam para motivarem reclamações que tanto têm prejudicado o progresso do nosso Estado, que muito espera do patriotismo de seus habitantes sob a inspiração de um governo moralizado. Paz e fraternidade. Vítória, 16 de dezembro de 1889<span id="CIIA_RP22V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP22" title="Relatório de 16 de dezembro de 1889 na caixa 118 da 1ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
<b>10. Colatina e seus primeiros habitantes</b></p>
<p>O núcleo Antônio Prado era composto de oito seções: Santa Maria, São Jacinto, Mutum, Baunilha, Baunilha de Baixo, Baunilha de Cima, Córrego da Ponte e Colatina. A exploração das terras se fazia das nascentes dos rios para a foz. Assim aconteceu no rio Santa Maria do Rio Doce. O Baixo Timbuí era um prolongamento do núcleo Timbuí fundado em 1875.</p>
<p>Embora a ocupação da atual Colatina se desse somente a partir de 1888, em maio de 1877 uma expedição chefiada pelo engenheiro Cristiano Boaventura da Cunha Pinto chegou a foz do rio Santa Maria e deste trabalho deixou minucioso relatório:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>&#8230;percebi que o rio Santa Maria se finalizava quer numa lagoa quer no rio Doce, e para fazê-lo mais provável, pouco depois encontramos uma picada de caçadores de três a quatro meses de idade que seguia de sul para oeste; continuei com o rumo de norte tendo deixado o rio que seguia a direção nordeste, mas como fosse já tarde e necessário acampar, mas segui com o rumo de leste a fim de encontrar outra vez o rio, depois de termos andado para norte uma meia légua. Tendo chegado à sua margem descobriu-se um vargedo extenso e limpo, e aí mandei fazer um rancho. Depois de cinco minutos indo ao meio do rio por uma árvore que servia de ponte, e conquanto já fosse escuro, pude observar na distância de 50 metros a correnteza de um outro rio, muito maior. No dia 13 às cinco horas da manhã plantou-se um marco de madeira de lei com as formalidades do estilo, na extremidade da língua de terra que separava as águas do rio Doce das do Santa Maria.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Somente dez anos mais tarde, no mês de setembro de 1887 foram medidos os últimos dez lotes na foz do rio. O terreno que hoje compreende a área da esplanada, em Colatina, foi assinalado como pertencente a Vitor Hugo e assim ficou até 1896. O barracão para recepção de imigrantes, porém, foi construído no alto, em Colatina Velha, no final de 1888. O engenheiro Pantoja dizia em 31 de janeiro de 1889:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>É também de grande necessidade que à margem direita do rio Doce, um pouco abaixo do rio Santa Maria, cerca de um quilômetro, seja estabelecido um ponto para desembarque de imigrantes derribando aí cerca de 10 hectares, construindo-se um barracão para receber e agasalhar imigrantes e fazendo-se daí partir uma estrada de rodagem de 20 quilômetros de extensão margeando o rio Santa Maria do rio Doce do lado de leste até encontrar a barra do rio Mutum. Este porto e esta estrada facilitarão o transporte dos imigrantes e das suas bagagens para esta parte do núcleo além da notável economia nas despesas que atualmente se fazem com transportes da Vitória ao porto do Cachoeiro e daí até a barra do rio Mutum numa extensão total de cerca de 150 quilômetros em canoas e costas de animais. Estabelecido este porto, a distância que terão os imigrantes a percorrer por terra se reduzirá a 20 e poucos quilômetros em média. Reputo a construção do barracão e da estrada de rodagem em 35 contos<span id="CIIA_RP23V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP23" title="Relatório de fevereiro de 1888 no livro 147 da 2ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Das seções do núcleo Antônio Prado era natural que o porto no rio Doce estivesse destinado a prosperar. Com a subida de Muniz Freire ao Governo do Estado, batizaram o lugar com o nome de sua esposa Colatina.</p>
<p>No dia 1º de junho de 1893 saía o edital assinado pelo auxiliar de escritório servindo de escriturário, Rufino Rafael de Carvalho, regulamentando a distribuição dos lotes urbanos para os primeiros habitantes de Colatina. &#8220;Faço público que nesta data foram feitas concessões de lotes urbanos no barracão do Santa Maria do rio Doce aos requerentes abaixo mencionados que ficam obrigados ao começo da construção no prazo de três meses.<span id="CIIA_RP24V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP24" title="Caixa 193 e 195 da 1ª série da 'Agricultura', APE-ES.
"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a></p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>1. Francisco Jazdzevski<br />
2. Alberto Rafalski<br />
3. Jacob Passamani (-)<br />
4. Evaristo Ferrari (-)<br />
5. Vago Giuseppe<br />
6. Cesare Ferrari<br />
7. João Có (*)<br />
8. Godofredo Schneider<br />
9. Vago Eugênio<br />
10. Vago Cezario<br />
11. Francísco Poraczeki<br />
12. Vilaschi Angelo (*)<br />
13. Bosetti Giovanni (*)<br />
14. Campi Giuseppe</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A extensão dos lotes a eles concedidos media 10m de frente e 15m de fundo. Só consta que três deles estavam morando, Godofredo Schneider, Francisco Poraczeki e Campi Giuseppe. Jacob Passamani e Evaristo Ferrari não compareceram no tempo previsto e suas concessões caíram em comisso. Os outros 36 a quem foram concedidos lotes em 29 de julho, 2 e 19 de dezembro de 1893 eram: Franz, Meyer e Cia (*), João Pickler, José Antônio da Silva, Geraldo von Hake, Negrelli Paolo (*), Manoel Tavares de A. Nogueiras, Pedro Alexandrino Mascarenhas, Benedito André, Miguel Gonring, José Fernandes Benevides (*), Manoel Ludgero da Costa (-), João José de Andrade (*), José Kopeski, João Viersasefski (-), José Joaquim do Nascimento (-), José Schmitberger (*), Vicente Pidner, Luiz Kopferer, Rufino de Souza Carvalho, Germano Sebastião Wolkartt (*), Henrique Moschen (*), Carlos Avancini (-), João Damasceno Vieira (*), Francisco Pereira Lopes (-), Galdino Ferreira da Motta, Joaquim F. Pereira Grillo, Agnello dos Passos Carlos (*), João Pereira de Sant&#8217;Anna (-), Pritoli Silvestre, João Werfele (*), Leon Lenci, Catarina Posmoser, José Butiscofski, Manoel Teodoro do Nascimento, Manoel Correia, Ivo Pereira de Sant&#8217;Anna (*).</p>
<p>Os assinalados com (-) não compareceram e, portanto, perderam o direito ao lote. Alguns, tentando burlar o decreto nº 4 de 4 de junho de 1892, no seu artigo 94 que dizia: &#8220;Os lotes urbanos destinados a futuras povoações só serão vendidos sob a condição de imediata construção de casa&#8221;, mandavam fincar esteios para fingir que estavam construindo. Em 24 de agosto de 1894 foi afixado o aviso: &#8220;De ordem do cidadão doutor diretor desta repartição faço público aos cidadãos abaixo mencionados, concessionários de lotes urbanos na vila Colatina, nos quais tem apenas esteios fincados, que lhes fica marcado o prazo de noventa dias, a contar desta data, para darem andamento à construção de suas casas, sob pena de caducar a concessão, sem direito a reclamação alguma em vista do pouco caso com que estão tratando os interesses do Estado.&#8221; (Ver o nome dos interessados com o sinal (*) acima. E neste mesmo dia saiu outro aviso com a concessão de lotes urbanos a mais 25 interessados, acrescentando: &#8220;Previno mais a todos que não servirão de garantia para domínio do lote urbano esteios fincados ou madeiras amontoadas no mesmo lote, competindo nestes casos ao chefe da Comissão transferir a concessão para qualquer pretendente que, nos termos acima se obrigue a edificar, podendo fazê-lo sem ônus algum dos esteios ou madeiras no lote considerado em comisso.&#8221; A seguir vem uma lista de 25 nomes na sua quase totalidade constituída de nacionais.</p>
<p>Do exposto se confirma a tradição oral que relata a formação de Colatina como sendo eclética. Era um povoado formado por brasileiros, italianos, alemães, poloneses e outros povos, bastando conferir os sobrenomes. Os dados acima apresentados são inéditos e não constam da monografia Colatina ontem e hoje, de Fausto Teixeira, excelente em informações a respeito da cidade.</p>
<p><b>11. Núcleo Acioli Vasconcelos</b></p>
<p>O nome do núcleo colonial fundado às margens do rio Pau Gigante é homenagem ao tenente coronel Francisco de Barros e Acioli Vasconcelos. O primeiro a medir lotes na margem do rio foi o engenheiro Artur Napoleão de Barros que batizou o lugar com o nome de seção Cecília,</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>ficando nesta região, em uma grande volta que faz o rio à margem esquerda, uma área de 790.325 metros quadrados completamente devoluta e a qual pretendo subdividi-la em lotes urbanos pois escolhi-a para o estabelecimento de um novo núcleo a que denominei núcleo Cecília<span id="CIIA_RP25V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP25" title="Caixa 159, 160 e 161 da 1ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Ficou só na denominação. Seu cargo foi ocupado um mês depois, em abril de 1887, por Antônio Francisco de Ataíde que continuou as medições até a foz do rio.</p>
<p>Para sede do núcleo foi escolhido o lugar atual da vila de Acióli nos lotes 46 e 48. O barracão ainda estava sendo construído no início de 1889 e a ocupação dos lotes era bastante heterogênea. A predominância italiana só se verificou a partir das sucessivas viagens realizadas pelo <i>Adria </i>e por outros navios. O <i>Maria Pia</i> chegou a Vitória em fevereiro de 1986 com 301 italianos; o <i>Adria </i>em setembro com 463 num total de 125 famílias; o <i>Adria </i>voltou com 1530 em dezembro; em março de 1889 o <i>Adria </i>trazia mais 1280 italianos; e assim o <i>Napoli</i>, o <i>Montana</i>, o <i>G.B. Lavarello</i>, o <i>Coffaro </i>iam descarregando centenas de imigrantes no ano de 1891. Em setembro de 1891 o <i>Adria </i>deixou em Vitória 852 imigrantes e em dezembro o navio <i>Birmânia </i>trouxe 1423. Os imigrantes vindos neste navio já iam ocupando os últimos rincões, as cabeceiras dos terrenos devolutos. Alto Bérgamo, nas cabeceiras do rio Pau Gigante foi colonizada por eles. Os espaços iam diminuindo. Febres, mortes, intrigas marcaram o início do núcleo cujo clima não era salubre.</p>
<p>O núcleo teve oito seções: Pau Gigante (atual Acioli), Ubás, Triunfo, Esperança, Treviso, Café, Otelo e Alto Bérgamo. Poucas existem como aglomerados populacionais e só possuem moradias esparsas. Barra do Triunfo foi sede de fazenda, propriedade de Giuseppe Battisti, que prosperou com casa comercial, igreja e cemitério incrustrados em terreno particular. O motivo pelo qual estes lugares não prosperaram não era exclusivamente econômico. Pensava-se, na época, em termos de vias navegáveis através do rio Pau Gigante, então caudaloso. Este plano inviável foi substituído pela estrada de ferro. Hoje, nem a estrada de ferro, nem a estrada pavimentada passam dentro da vila de Acioli.</p>
<p><b>12. Núcleo Demétrio Ribeiro</b></p>
<p>O núcleo Demétrio Ribeiro foi fundado em 1890 nas cabeceiras do rio Piraqueaçu e era uma passagem para o núcleo Acioli, no Pau Gigante e núcleo Antônio Prado, no Santa Maria do Rio Doce. O bispo Dom João Nery, quando de sua visita pastoral no início deste século, o descreveu assim:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>No encontro dos dois ribeirões: Clotário e Saúnas, o primeiro afluente do Santa Maria e dos dois valões correspondentes, se acha o pequeno arraial outrora núcleo deste nome. Em forma de um T e constando de 20 casas baixas, modestas e cobertas de tabuinhas aí está situada a localidade. No meio de todos os edifícios se destacam dois magníficos prédios: um à esquerda do ribeirão Clotário, em uma pequena elevação, propriedade do senhor Carlesso Bortolo; outro à direita do mesmo ribeirão fechando a pequena rua que corre de leste a oeste acompanhando o ribeirão Saúnas, propriedade do senhor Negri Orestes, ambos assobradados e magnificamente construídos. Pouco adiante do arraial, águas acima do Saúnas está a capela que serve aos habitantes destas regiões. É consagrada a Santo Antônio e tem um único altar, no canto da capela mor. Toda a capela é de pau a pique e coberta de tabuinhas.<br />
O senhor Orestes Negri foi um dos primeiros habitantes do lugar e ficou encarregado dos serviços por ordem do diretor Gabriel Emílio. Foi ele quem derrubou a mata para construir a igrejinha e o cemitério<span id="CIIA_RP26V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP26" title="Caixa 114 da 1ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
<b>13. Núcleos Santa Leocádia e Nova Venécia</b></p>
<p>Os núcleos de Santa Leocádia e Nova Venécia, ambos à margem do rio São Mateus (Cricaré) foram os que mais sofreram em razão do isolamento dos demais centros de colonização e até hoje pouco se sabe sobre eles. É natural que as áreas e as épocas onde houve sofrimento sejam apagadas e esquecidas. O documento que batizou o núcleo, na íntegra é o seguinte:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Tenho a honra de comunicar a V. Exa. que nesta data resolvi dar a denominação de Santa Leocádia ao núcleo colonial que estou fundando no ribeirão Bamburral para o que peço desde já aprovação de V. Exa. Deus guarde a V. Exa. Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Henrique de Ataípde Lobo Moscoso M.D. Presidente desta Província. Gabriel Emílio da Costa<span id="CIIA_RP27V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP27" title="Livro 21 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Este documento tem a data de 20 de setembro de 1888.</p>
<p>Santa Leocádia recebeu primeiro uma leva de 86 imigrantes. O maior contingente, porém, que se dirigiu para São Mateus foi de 323 imigrantes, uma parcela dos 1.530 chegados no <i>Adria </i>em dezembro de 1888. Em março do ano seguinte os colonos estavam em pé de revolta por falta de comida<span id="CIIA_RP28V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP28" title="Livro 84 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a> Em 18 de julho, Leonel Joaquim Almeida Fundão envia um telegrama para Vitória dizendo que:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Ontem, três horas tarde, foram incendiados os dois principais barracões da colônia Santa Leocádia e casa de negócio Olinto Santos. Delegado Polícia segue já proceder rigoroso inquérito. Há muitos dias colônia em completo abandono. Diretor e empregados ausentes acham-se constantemente nesta cidade. Ressentimento geral. Devido ser esta colônia o mais lisonjeiro futuro desta comarca<span id="CIIA_RP29V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP29" title="Telegrama de 18 de julho de 1889 no livro 36 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Tanto Gabriel Emílio como Pinto Pacca negam a gravidade do fato, afirmando que Leonel Fundão nunca ocupara o cargo de agente de colonização e era sim um intrigante. O sinistro tinha sido provocado involuntariamente por descuido de uma mulher que fazia comida no seu fogão.</p>
<p>Nova Venécia é o prolongamento do núcleo Santa Leocádia e sua sede foi estabelecida em 1892 no governo Muniz Freire.</p>
<p><b>14. Sede em Linhares</b></p>
<p>A sede da ex-colônia de Santa Leopoldina devia funcionar no núcleo Antônio Prado, mas Gabriel Emílio foi nomeado para dirigir a comissão na ex-colônia de Santa Leopoldina a 4 de março de 1890, no lugar de Pantoja, tendo sido removido de Santa Leocádia em São Mateus<span id="CIIA_RP30V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP30" title="Para a gestão de Gabriel Emílio consulte-se a caixa 144 da 1ª série da 'Agricultura', APE-ES."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a> O primeiro ato ao chegar à sede foi escrever ao engenheiro Antônio Ataíde solicitando sua vinda para orientá-lo e dar informações. Mas já tinha em mente a mudança da sede da comissão para Linhares, bem como uma série de planos diferentes para conduzir a imigração. Conhecedor da região do rio Doce, Ataíde não concordou e se recusou alegando motivo de saúde. Daí surgiu uma polêmica entre ambos. Ataíde foi demitido pelo governador e no seu lugar foi nomeado o agrimensor Antônio Machado Bitencourt e Melo Júnior. Gabriel Emílio escreve ao governador dizendo que passava às suas mãos o ofício de Ataíde a fim de que ficasse sabendo que o pessoal da comissão a seu cargo estava reduzido ao chefe e ao agrimensor Bitencourt; pois a vila de Linhares, zona marginal do rio Doce, compreendendo localidades manifestamente insalubres não convinha à saúde do ajudante engenheiro Antônio Francisco Ataíde, que tudo podia conhecer menos a zona e vales do rio Doce<span id="CIIA_RP31V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP31" title="Ofício nº 27 de 30 de junho de 1890 na caixa 144 anteriormente referida."><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a> Ironicamente Gabriel Emílio grifou as palavras de Ataíde, mas a história mostrou, em menos de cinco anos, que o ajudante tinha mais razão e que as medidas de Gabriel Emílio redundaram no fracasso do núcleo Muniz Freire. O leitor dos periódicos de então pode se deliciar com esta polêmica ao ler o Comércio do Espírito Santo, cujo redator era Aristides Freire, em 1895, ano da proibição da imigração. O jornal, em suas edições de números 212 a 237, publicou artigos em que Ataíde se justifica e em que enumera as inconveniências da transferência da sede do núcleo para Linhares.</p>
<p>Não fora preciso tanta polêmica se se tivesse seguido a orientação de um dos homens mais experientes na questão, o inspetor especial Joaquim Adolfo Pinto Pacca, com seus mais de 25 anos no ofício. São estas as razões apresentadas por Pinto Pacca ao governador Afonso Cláudio em 30 de dezembro de 1889, justificando porque não era conveniente a mudança da sede da comissão para a vila de Linhares:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>a.<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span><br />
Linhares acha-se a cerca de 13 léguas de distância do centro de ação mais conveniente atualmente a essa comissão, porquanto é esta a distância que existe do ponto de confluência do rio Mutum com o rio Santa Maria do rio Doce.</p>
<p>b.<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span><br />
É notória a insalubridade dos terrenos baixos marginais ao rio Doce até pouco mais ou menos quatro léguas montantes a Linhares, e bem assim os que se estendem até a barra do afluente Santa Maria, pelo que:</p>
<p>c.<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span><br />
assentou esta Inspetoria, de acordo com o chefe da comissão, colonizar o rio Doce pelos seus afluentes Pau Gigante, Santa Joana, Santa Maria, Guandu e afluentes destes, partindo das cabeceiras, próximas a zonas já colonizadas, para a foz.</p>
<p>d.<span class="Apple-tab-span" style="white-space: pre;"> </span><br />
Importa muito que imigrantes novos sejam estabelecidos nas vizinhanças de antigos, com os quais aprendam a cultura, costumes, economia, etc., e recebam a necessária animação que sempre lhes falta nos estabelecimentos isolados.<br />
Assim, pois, de acordo com as sábias considerações da portaria a que respondo em relação à inconveniência da sede da comissão na vila do Porto Cachoeiro, sou do parecer que deve a comissão transferir sua sede para a sede do núcleo Senador Prado, no ponto de confluência do rio Mutum com o Santa Maria, porquanto aí é o centro aproximado das novas operações e dista da margem do rio Doce cerca de 20 quilômetros, lugar salubre e centro de grande colonização já estabelecido.
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Este lugar salubre a que alude o diretor é Colatina. E continuava ainda com outras sugestões que justificavam o seu parecer ao governador:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Chegada assim a colonização à margem do rio Doce poderá ela descer por esta margem em busca da foz do rio Pau Gigante e aproximar-se de Linhares, porquanto a derrubada das matas dos afluentes deve melhorar o estado sanitário daquele rio, estado sanitário que tem sido obstáculo e grande a diversas tentativas de sua colonização<span id="CIIA_RP32V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP32" title="Livro 36 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Deve-se lembrar que uma primeira tentativa de colonizar Colatina nos anos de 1860 pelo Dr. França Leite fracassou tanto pelo ataque dos índios botocudos quanto pela persistência das febres malignas. Hoje, a história deve dar razão à lucidez deste homem que dedicou a vida à causa da imigração, bem como ao seu ajudante o engenheiro Antônio Francisco de Ataíde.</p>
<p>Enquanto os imigrantes continuavam chegando em grande número ao Espírito Santo, nos transatlânticos, as condições de atendimento, transporte e localização pioravam com a insuficiência de pessoal do Governo. Os lugares para onde os colonos eram enviados revelavam-se insalubres, de difícil acesso, onde a escassez dos gêneros de primeira necessidade provocava fome, e as febres matavam de maneira fulminante.<br />
<b><br /></b><br />
<b>15. Contrato Giffoni e a proibição da imigração</b></p>
<p>O Governo fez um contrato em 2 de junho de 1892 com Domenico Giffoni para a introdução de 20.000 imigrantes europeus, de preferência italianos e precisou ser renovado a 23 de Julho de 1893. Giffoni, de fato, não conseguiu trazer mais de 12.000 mil imigrantes. Os ecos deste contrato chegaram cedo à Europa de tal modo que Alcindo Guanabara escreveu ao governador do Estado do Espírito Santo, de Paris, onde estava sediada a Superintendência Geral da emigração para o Brasil na Europa, nestes termos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Paris, 4 de maio de 1893. Sr. governador. Constando a esta Superintendência ter o governo italiano editado uma proibição no sentido de estancar a corrente emigratória para o Estado, que tão patrioticamente dirigis, apressei-me em telegrafar ao nosso ministro plenipotenciário em Roma, senhor Barão de Tefé, perguntando o que havia a tal respeito. Respondeu-me, também por telegrama, que por escrito me informaria, fazendo-o em ofício de 28 de abril último. Diz ter recebido do nosso comissário em Gênova aviso de que estava formalmente suspensa a emigração para o nosso Estado, e que procurando o ministro dos Negócios Estrangeiros do gabinete italiano, senhor Brin, soube que a circular, proibindo a emigração para &#8220;os Estados do Norte do Brasil&#8221; tem origem num contrato feito pelo Governo do Espírito Santo para a introdução de 20.000 imigrantes. Acrescenta no citado ofício que ao informações oficiais coligidas pelo mesmo senhor Brin, afirmam que não são favoráveis as condições e vantagens oferecidas no referido contrato. No entretanto, tratando-se de um caso especial para esse Estado, rogo-vos digneis de ordenar me sejam enviadas, com a brevidade possível, informações sobre o contrato acima mencionado, vantagens oferecidas, sobre a situação geral dos negócios de imigração e colonização, enfim todos os dados que em tal assunto possam servir-me para pleitear os direitos do Estado do Espírito Santo..<span id="CIIA_RP33V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP33" title="Livro 84 da 2ª série da 'Governadoria', APE-ES."><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Se os nossos agentes estavam atentos ao andamento da imigração, não menos atentos estavam os agentes consulares italianos que andavam por todos os núcleos e colhiam informações ao vivo, sem intermediários do Governo que pudessem falsear a realidade dos fatos e a veracidade das estatísticas. Exemplo disto são os relatórios de Zettiry, do cônsul Nagar, das informações de Brandolini, que afirmavam não serem ao condições sanitárias suficientes para impedir a imigração para o Estado. O fato é que a notícia da catástrofe do núcleo Muniz Freire e das colônias no rio Doce, em maio de 1895 chegou aos ouvidos do Governo do Rei da Itália. O decreto de 20 de julho de 1895 dizia o seguinte:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>O Real Ministério do Interior, considerando que no Estado do Espírito Santo, quer pelo modo como está sendo dirigido o serviço de imigração, quer pelas condições econômicas, climatológicas e higiênicas da região, aqueles que para lá emigram vão de encontro a danos e prejuízos certos e gravíssimos, decreta: É proibido até nova ordem, aos agentes e subagentes de fazer operações de emigração para o porto de Vitória, e em geral para o Estado do Espírito Santo<span id="CIIA_RP34V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP34" title="RIZZETTO, Rizzardo. L'immigrazione italiana nello Stato di Espírito Santo. Bolletino del R. Commissariato dell'Emigrazione, nº 7, anno 1903, p. 23."><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Encerrava-se, temporariamente, um movimento que alterou toda a estrutura do Estado do Espírito Santo e lhe determinou características até hoje inconfundíveis.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<div id="CIIA_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;MENEZES E SOUZA, Conselheiro João Cardoso de. <i>Teses sobre colonização do Brasil</i>. Rio de Janeiro, Tipografia Nacional, 1875, p. 188.</div>
<div id="CIIA_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;BUSATTO, Luiz. A insurreição branca. UFES,&nbsp;<i>Revista de Cultura</i>, Vitória, Fundação Ceciliano Abel de Almeida, nº 8 p. 5-10, agosto-setembro de 1978.</div>
<div id="CIIA_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Para este conflito veja-se o volume 318 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221; no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APE-ES).</div>
<div id="CIIA_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Sobre este núcleo existem dois livros: MULLER, Frederico. Fundação e fatos históricos de Santa Teresa.<i> Diário da Manhã</i>, Marcondes e C., Vitória, 1925 e RUSCHI, Enrico I. Aurélio. Município de Santa Teresa. IBGE, 1939.</div>
<div id="CIIA_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;BUSATTO, Luiz. A revolta de Nova Lombardia. <i>A Gazeta</i>, Vitória, ES, 2 de fevereiro de 1978, Caderno Dois, p. 1.</div>
<div id="CIIA_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;BUSATTO, Luiz. A imigração italiana e o I centenário de Ibiraçu. <i>A Gazeta</i>, Vitória, ES, 7 de agosto de 1977, Caderno Dois, p. 1 e 12.</div>
<div id="CIIA_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 35 da 2ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;CAVATI, João Batista. <i>História da imigração italiana no Espírito Santo</i>. BH, São Vicente, 1973, p. 131.</div>
<div id="CIIA_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 47 da 2ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Caixa 116 da 1ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 35 da 2ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 63 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem.</div>
<div id="CIIA_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;ACHIAMÉ, Fernando A. M. A colonização e a pequena lavoura cafeeira: a colônia de Rio Novo. <i>Caderno de História</i> nº 4 e 5, setembro de 1978 a março de 1979, Departamento de História, UFES.</div>
<div id="CIIA_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;Relatório no livro 63 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;Ofício de 19 de janeiro de 1885 no livro 29 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 84 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 47 da 2ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 21 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;Relatórios da Caixa 193 da 1ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;Atual cidade de Santa Leopoldina.</div>
<div id="CIIA_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;Relatório de 16 de dezembro de 1889 na caixa 118 da 1ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;Relatório de fevereiro de 1888 no livro 147 da 2ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;Caixa 193 e 195 da 1ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;Caixa 159, 160 e 161 da 1ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;Caixa 114 da 1ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 21 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 84 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;Telegrama de 18 de julho de 1889 no livro 36 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;Para a gestão de Gabriel Emílio consulte-se a caixa 144 da 1ª série da &#8220;Agricultura&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP31V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a>&nbsp;Ofício nº 27 de 30 de junho de 1890 na caixa 144 anteriormente referida.</div>
<div id="CIIA_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP32V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 36 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP33">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP33V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 84 da 2ª série da &#8220;Governadoria&#8221;, APE-ES.</div>
<div id="CIIA_RP34">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-ii-imigracao-italiana-no/#CIIA_RP34V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a>&nbsp;RIZZETTO, Rizzardo. L&#8217;immigrazione italiana nello Stato di Espírito Santo. <i>Bolletino del R. Commissariato dell&#8217;Emigrazione</i>, nº 7, anno 1903, p. 23.</p>
<p>[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
</div>
<blockquote class="tr_bq">
<div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p>
<div>
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		<title>Capítulo VIII &#8211; Barra do Triunfo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração Italiana]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Busatto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1. Cronologia – os primeiros proprietários. 2. Mapas da fazenda. 3. Construção da igreja e cemitério centenários. 4. A primeira visita pastoral do Bispo. 5. Informações de um colono ao Cônsul italiano. 6. A época de Guilherme Batista. 7. Atualidade: os laços de família. 1. Cronologia – os primeiros proprietários A história de Barra do [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-hpEVFfXmRHY/WFlxRIVbr-I/AAAAAAAALI0/ix7uczIYcZA_ShZn0Ra0ZnouUVILT6u_ACPcB/s1600/Imigrante.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Imigrante-1.jpg" class="wp-image-5815" width="400" /></a></div>
<p><span style="font-size: 85%;"><br /></span><br />
<span style="font-size: 85%;">1. Cronologia – os primeiros proprietários. 2. Mapas da fazenda. 3. Construção da igreja e cemitério centenários. 4. A primeira visita pastoral do Bispo. 5. Informações de um colono ao Cônsul italiano. 6. A época de Guilherme Batista. 7. Atualidade: os laços de família.</span></p>
<p>
<b>1. Cronologia – os primeiros proprietários</b></p>
<p>A história de Barra do Triunfo deve ser vista e situada num segundo momento da história da imigração italiana no Espírito Santo. A &#8220;fazenda&#8221; — como hoje é chamada — só vai se destacar quando o governo imperial retoma e incrementa o movimento imigratório para o Estado. Há uma interiorização na busca de espaços, ao mesmo tempo em que se cumpre a lei de também se vender terras aos filhos de imigrantes maiores de 18 anos. Relatórios, mapas, requerimentos, ofícios e outros documentos escritos do Arquivo Público Estadual mostram a origem deste centro de imigração italiana.</p>
<p>O primeiro proprietário das terras devolutas onde hoje se encontra a &#8220;fazenda&#8221; foi Aurélio Fernandes de Alvarenga Rosa. No dia 11 de março de 1882 já consta, em requerimento, um seu pedido para comprar aquela localidade. O Diretor da então colônia de Santa Leopoldina, Luiz Cavalcanti de Campos Mello envia ao Presidente da Província a seguinte correspondência:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Devolvendo a V.Exa. o incluso requerimento de Aurélio Fernandes de Alvarenga Rosa, e em cumprimento ao despacho nele exarado por V.Exa., venho informar que achando-se ele fora das linhas coloniais, parece não haver inconveniente algum em se lhe conceder o que requer, obrigando-se às condições impostas pelo Governo. Com esta informação, e caso seja-lhe concedido o terreno que pede o requerente neste requerimento datado de 6 do corrente, fica completamente inutilizado o requerimento que o mesmo dirigiu a essa Exma. Presidência em 29 de fevereiro último, e por V.Exa. mandado informar em 1 do corrente, cujo documento também ora incluso devolvo a V.Exa. a quem Deus Guarde.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
No verso aparece o seguinte despacho do contador:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Em vista da informação do Diretor da Colônia de Santa Leopoldina, constante do presente ofício, acerca da pretensão de Aurélio Fernandes de Alvarenga Rosa a compra de cinco prazos de terras no lugar denominado — Córrego do Ubás —, parece-me que poderá ser deferido o suplicante. Em 27 de março de 1882.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
De onde se conclui que o local pedido está situado fora das linhas ou limites marcados para colonização. Estas terras eram chamadas devolutas e significava que eram do Governo Imperial, eram terras virgens, habitat de animais silvestres e, possivelmente, de tribos errantes de índios. Isto há menos de 120 anos . Conclui-se também que o contador chamou o local de &#8220;Córrego dos Ubás&#8221;, especificando a dimensão de cinco prazos. Como o governo imperial era centralizador, qualquer iniciativa que se tomasse na mais próxima ou remota das províncias devia passar pelo crivo da corte. Sendo assim foi o Diretor da Agricultura do Ministério dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras públicas, no Rio de Janeiro, que emitiu a ordem ao novo presidente da Província do Espírito Santo:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Autorizo V.Exa. a vender em hasta pública a quem mais vantagens oferecer, mil e quinhentos (1500) metros em quadro de terras devolutas na &#8220;Barra do Córrego Ubás&#8221;, junto ao picadão que dá trânsito para os núcleos &#8220;Conde D&#8217;Eu&#8221; e Petrópolis, da ex-colônia Santa Leopoldina, e requeridas por Aurélio de Alvarenga Rosa, cuja petição foi por essa Presidência informada em ofício de 25 de maio último; devendo, na forma da Lei, o pagamento do valor das referidas terras efetuar-se à vista, depois de pagas pelo comprador todas as despesas de medição e demarcação. (G 15).</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Há um erro colossal no despacho. Não são 1.500 metros mas 1.500.000 (um milhão e quinhentos mil metros quadrados). Concede-se a licença para a venda mas não se cria uma nova frente pioneira de colonização, o que só vai ocorrer cinco anos mais tarde. Especifica-se a quantidade total de cinco prazos e o nome da localidade como &#8220;Barra do Córrego dos Ubás&#8221;. A única justificativa que existe para que a mudança do nome tenha sido feita para &#8220;Barra do Triunfo&#8221; é que a moradia do senhor Aurélio, de fato, vai ser construída ao lado do rio Triunfo. Curiosa é também a menção que se faz da estrada que ligava aquela inóspita paragem a outros dois núcleos de colonização, a atual Ibiraçu e Barracão de Petróplis. O nome é bem próprio e diz que era uma estrada muito primitiva. O segundo proprietário da fazenda Barra do Triunfo foi Giuseppe Battisti (este é o nome correto; o cognome italiano &#8220;Battisti&#8221; vai sendo escrito com muitas variantes e até mesmo é abrasileirado para &#8220;Batista&#8221; por causa da segunda guerra mundial; foi adotado para evitar problemas com a polícia de Getúlio Vargas). Foi ele o responsável pela formação e atual estado da fazenda. Giuseppe chegou em Vitória, juntamente com a família , vindo do Rio de Janeiro no paquete Bahia em 4 de novembro de 1876. Sendo natural de Calliano, Trento, era natural que fosse integrar-se aos seus conacionais trentinos, em Santa Teresa, recentemente fundada com o nome de Núcleo Timbuí. A família era constituída do pai Gio Batta Battisti de 38 anos, da mãe Anna Rossi de 35 e dos filhos Giuseppe de 12, Gio Batta de 9, Giovanni de 7, Anna de 4, Guglielmo de 2 e Enrichetta de um mês. O pai era cavouqueiro e prático em quebrar pedras. Na construção da estrada que vai de Santa Teresa para o Barracão de Petrópolis, teve a infelicidade de querer desarmar um último cartucho de dinamite. Morreu com a explosão . A viúva recebeu um lote de terras no lugar chamado &#8220;25 de julho&#8221;. Foi a partir dos 17 anos que Giuseppe agregou-se a um jovem engenheiro, medidor de terras, chamado Antonio Athayde. Desfrutando desta amizade conseguiu adquirir animais de carga que, naquela época, valiam mais do que um caminhão. Giuseppe, além de trabalhar com o Athayde, começou a transportar café para Santa Leopoldina, ao mesmo tempo em que trazia mantimentos. Conforme depoimento de seu filho Renato, em 1888 foi abrir a fazenda de Barra do Triunfo pois já se casara em novembro de 87 e lhe nascera a filha mais velha, Virgínia, em 8 de agosto de 88. Trouxe os irmãos para ajudá-lo na administração. E os filhos foram nascendo: Lúcia Catarina, Hermínia, Paolina, José B. Filho, Evelina, Renato, Deolindo, João Batista e Maria. Quando se casou em 1887 com uma jovem de Ibiraçu, ele tinha 21 anos e a esposa 18. A certidão de casamento resume o acontecimento:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Aos doze dias do mês de novembro de mil oitocentos e oitenta e sete pelas sete horas da manhã neste oratório do Conde D&#8217;Eu Província do Espírito Santo, Bispado do Rio de Janeiro, decorridos os proclamas sem aparecer impedimento algum tendo os contraentes confessados habilitados, em presença das testemunhas abaixo assinado João Schmitberger, Engenheiro Antônio Francisco de Athayde além de outras pessoas presentes, uni em matrimônio por palavras de presente na forma do Ritual Romano segundo o Concílio de Trento a Giuseppe Battisti com Teresa Pissinati. Ele filho legítimo de Giovanni Baptista Battisti e Anna Rossi, nascido e batizado na paróquia de Calliano Província de Tirol Itália. Ela filha legítima de Giuseppe Pissinati e Lúcia Fiorot, nascida e batizada na paróquia de S. Stefano Província de Treviso Itália ambos contraentes moradores no Conde D&#8217;Eu. Em seguida dei-lhes as benção nupciais dentro da missa. E para constar fiz este termo e assino. O vigário João André Casella. Conde D&#8217;Eu 12 de novembro de 1887.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Padres e escrivães, por diversos motivos, são responsáveis pelas alterações dos sobrenomes italianos. O cognome italiano PIZZINAT, que é o correto, apresenta, só nas certidões de casamento mais doze variantes incluindo esta da certidão acima.</p>
<p>Em 1897 Giuseppe foi à Itália passear e trouxe aproximadamente uns trinta conterrâneos seus. Pode-se incluir o Raizer casado com Maria Battisti. Trouxe também uma estampa grande de São José. O Varnier fez a moldura e o quadro ficou na igreja local que tinha o santo como padroeiro. Conforme o filho Renato, durante este tempo Giuseppe intensificou o comércio na direção da atual Ibiraçu onde comprou o sobrado dos Bissolati e comprou também um depósito no Córrego Fundo. Depois de l2 anos na fazenda mudou-se para Ibiraçu por volta de 1900. Deixou a fazenda para os irmãos. Em Ibiraçu foi por mais de duas vezes prefeito e várias vezes membro da câmara, tornando-se político de influência na região, recebendo de muitos o tratamento de coronel.</p>
<p><b>2. Mapas da fazenda</b></p>
<p>O primeiro mapa que se pôde descobrir no Arquivo Público Estadual é um Diagrama dos trabalhos efetuados durante o mês de julho de 1888 nas margens do Rio dos Ubás pelo engenheiro ajudante Antônio Athayde. Aí ele assinala &#8220;Terras de Alvarenga&#8221;, sendo que metade da área não está delimitada por marcação de lotes. Para que a área medisse 1.500.000m2 ela devia ter uma lateral de dois mil e outra de setecentos e cinqüenta metros. Quando em 1890 se medem os lotes do lado do rio Triunfo, aparece uma lateral de 1.320m e onde se assinala &#8220;Terreno de Giusepi Batista&#8221;. Ora, multiplicando as duas laterais se chega a uma área de 2.640.000m2, ou seja, o equivalente a 8 prazos e não mais aos 5 de Alvarenga Rosa. Mais tarde outros informantes vão apontar 8 prazos comprovando a possibilidade de produção de mil e quinhentas arrobas de café. Há quem mencione mais de 20 prazos dos irmãos Battisti mas em áreas separadas.</p>
<p>Os lotes coloniais a serem distribuídos aos imigrantes foram padronizados no tipo médio de 302.500m² previstos na lei de 17 de janeiro de 1867. Sua configuração não era quadriculada como no Rio Grande do Sul e, inicialmente, nos mapas da colônia de Santa Leopoldina onde se estabeleceram os alemães. No Espírito Santo o prazo colonial media 275 metros de frente para os rios de modo que todos tivessem aguadas e 1.100m de profundidade, em direção aos morros ou terras devolutas.</p>
<p>Antônio Athayde deixa um enorme arquivo de lotes medidos e descritos tecnicamente, especificando até a presença das madeiras de lei neles contidas.</p>
<p>Mapas de 1890, 1892, 1894 e 1896 enumeram os lotes com números. Quando ocupados eles aparecem assinalados com as letras TP e TD que significam, respectivamente, com título provisório ou título definitivo. Alguns mapas das colônias, e são muitos, trazem dentro da área o nome do seu dono. A fazenda de José Baptiste é visível, e com destaque, em todos estes mapas. Quando se fundou o núcleo Acioli Vasconcelos em 1887, o primeiro entreposto e barracão que acolhia os imigrantes era Barra do Triunfo. Havia aí um engenho movido a água e uma venda com gêneros de primeira necessidade. Deste comércio Giuseppe Battisti tirará ganhos econômicos consideráveis e ocupará mais tarde postos chaves em Ibiraçu e Córrego Fundo.</p>
<p>Com a morte de Giovanni Battisti em 1904 a fazenda foi dividida entre Guilherme e a viúva Dona Páscoa e seus filhos menores em maio de 1908, cabendo a parte Oeste a Guilherme com 1.465.200m² e 1.372.800m² a Dona Páscoa na parte Este. No total dividem uma área maior que nove prazos ou colônias. Em 1920 parte da área de Dona Páscoa vai ser vendida a Modesto Zuccolotto e também a Antonio Pellizzon.</p>
<p><b>3. Construção da igreja e cemitério centenários</b></p>
<p>A fazenda de Barra do Triunfo se situava num ponto estratégico e ficou sendo também um lugar de referência para os colonos imigrantes. Como os italianos sempre foram muito católicos, não ficavam sem um oratório, uma capela ou uma igreja. O culto religioso era exigência fundamental na vida do colono A igreja católica era uma necessidade em todos os núcleos, era um lugar privilegiado ao redor do qual se manifestava não só o traço forte da catolicidade mas toda uma trama de relações sociais. Depois da reza vinha a festa, o leilão, os jogos, os negócios. Começavam os namoros, estreitavam-se os laços da boa vizinhança e tudo o mais.</p>
<p>Também em 1887, um imigrante trevisano e bom carpinteiro veio morar no lote 50 do rio Triunfo. Luiz Varnier viera, primeiro para São Paulo, depois para Ibiraçu, para Santa Teresa e enfim para Barra do Triunfo. Tendo um pouco mais de cultura que a média, lia e explicava a doutrina cristã para a comunidade, funcionando como um padre leigo. Usava um livro intitulado Libro D&#8217;Istruzione e di Divozione Cristiana do padre Goffine. O padre comparecia uma ou no máximo duas vezes ao ano. Então batizava, casava e procedia a todas as celebrações de que a comunidade precisava. Era sempre uma festa o dia de missa. O culto religioso requeria um lugar apropriado e Luiz Varnier, encabeçando uma comissão,os fabriqueiros, tomou a iniciativa de compra de um terreno para se construir uma igreja e um cemitério apropriados já que existiam, de fato, na base e no alto do morro. Consta que a primeira pessoa a ser enterrada no local foi Maria Marim, de 16 anos, em1892. Houve um cemitério mais abaixo do rio Ubás que provocou briga e até incêndio de uma casa.</p>
<p>Com letra elegante — conservando-se o texto e grafia original — o Varnier escreveu:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Nos abaixo assignados, Varnier Luigi, Mazzega Giuseppe, Zucoloto Modesto, João Paulo Bizera e José Francisco de Barro residente no Nucleo Accioli Vasconcelos Municipio da Villa Pão Gigante, da Comarca de Santa Cruz, attendendo a grande destancia que está a sede da Villa, resolvemo promover uma subscrição para a compra de terreno e construção de uma capella e Cemiterio neste nucleo em o lugar que mais conveniente acharem ficando por em quanto a Commissão composta dos nomes a cima, inscripto ficando esta en carregada de angariar donativos de todos a quellis que se dignarem prestar seus auxilho. Pao Gigante 5 de Decembro de 1896. A Commissão Varnier Luigi, Mazega Giuseppe, Zuccoloto Modesto, João Paulo Bizerra, José Francisco de Barros.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Os fabriqueiros compraram 2.500m² para a igreja e 5.000m2 para o cemitério, pagando a quantia de 60 réis o m². A Comissão se obrigava a dar andamento à construção da capela e acabá-la com o auxílio do povo até o mês de julho do ano vindouro de 1897 sob pena de tornar-se nula a venda. Nesta época Giuseppe trouxera da Itália, para onde viajara, uma estampa de São José padroeiro do lugar que, emoldurada por Luigi Varnier, foi entronizada na igreja. O mesmo senhor Varnier construiu os bancos e o altar em madeira entalhada, conjunto desmanchado recentemente para facilitar a nova liturgia.</p>
<p><b>4. A primeira visita pastoral do Bispo</b></p>
<p>Quando Dom João Néry, primeiro Bispo do Espírito Santo fez a primeira visita pastoral nos meados de 1900, deixa por escrito um primeiro painel histórico de Barra do Triunfo:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Geralmente se dá este nome às terras que formam e circundam a propriedade do Sr. Baptiste José. A residência deste senhor se acha pouco acima da confluência dos rios Triunfo e Ubás, sendo o segundo um dos principais afluentes do rio Pau Gigante que corre entre os rios Santa Maria e o Santo Antônio. Por enquanto só existem três ou quatro casas, modestas e um engenho de cana tocado a água com aparelhos também para beneficiar café. É esta uma das situações que mais se prestam a uma localidade, pela bondade de seu clima e considerável extensão de seu horizonte. Pouco adiante da casa de residência do Sr. Baptiste se acha a capelinha consagrada a São José, com pequenas mas decentes acomodações.<br />
Tem a capela mor 4,50m de comprimento sobre 5m de largura, o corpo da igreja 9,75m de comprimento sobre 6,10m de largura, a sacristia 1,30m de comprimento sobre 5m de largura. Tem de altura 7,50m. Ainda é nova só tendo por isso a capela mor assoalhada. O altar ainda é provisório(de panos). Não tem sinos. No mesmo valão hora e meia abaixo se acha outra capela do antigo barracão de Pau Gigante que não visitamos. A colonização nesta região já não é puramente italiana, é mista, havendo muitos cearenses, alguns sergipanos e polacos. Calcularam a população em 2.000 habitantes.<br />
É aqui um dos pontos de litígio sobre limites entre Linhares e Pau Gigante; mas os povos parecem querer pertencer a Pau Gigante.<br />
Corre em toda a extensão deste vale o rio Pau Gigante que nasce no Alto Bérgamo, tendo, além de muitos córregos os seguintes afluentes: Santa Clara, Santa Ana, Ubás e Esperança.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O senhor Bispo soube reconhecer as vantagens que o lugar oferecia e mesmo a sua beleza. Quanto ao litígio sobre os limites deve-se dizer que, além da briga política, também estava em jogo uma disputa econômica na captação de impostos. Quando na década de 90 Gabriel Emílio da Costa transferiu a sede da administração da colônia para Linhares, provocou a demissão do engenheiro Antônio Athayde que conhecia a temeridade de enfrentar terras paludosas, infestadas de febre. Se Acioli começou afugentando alguns alemães que tentaram sediar-se no Pau Gigante, mais tarde, em 1895, os ocupantes do Núcleo Moniz Freire foram simplesmente dizimados pela desorganização e pelas febres. Agora, na virada do século, quem procurava atrair as terras de Acioli e vizinhanças para Linhares era o coronel Calmon. A população de Barra do Triunfo e de Acioli em peso se opôs à investida política do coronel. No meio desta intriga, o judeu francês Edmond Lempé mandou um significativo bilhete ao subdelegado de polícia de Barra do Triunfo, Modesto Zuccolotto, bilhete que mostra o envolvimento das autoridades da época na momentosa questão:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>O Dr Guaraná me escreveu que o Domício foi que combinou com o Dr Jerônimo deixar o Acioli para Linhares para ter Comarca, mas que ele ia novamente ver se convence o Dr Jerônimo. Quando você vier cá lhe mostrarei a carta do Dr Guaraná. Já mandei cópia da mesma ao Beppi. Seu amigo E Lempé 12 Dez 1910.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Um longo abaixo assinado encabeçado por Giuseppe Battisti, seu cunhado João Schmidtberger, seu irmão Guilherme, seu compadre Luiz Varnier e mais uns 283 nomes, solicitava a intervenção ao Presidente do Estado Muniz Freire para que não fossem erradicados do município de que eram originários. E assim ficou. O jornal O Trabalho, de Ibiraçu, de 1959, cujo redator era Antonio Vescovi Possato historia muito bem a questão.</p>
<p><b>5. Informações de um colono ao cônsul italiano</b></p>
<p>Depois que foi proibida a imigração italiana para o Espírito Santo em 1895 por causa dos fatos ocorridos no núcleo Muniz Freire às margens do Rio Doce, logo logo o Governo italiano criou um consulado em Vitória. Tal posto diplomático tinha como função proteger a cidadania dos imigrantes, se bem que, com a emancipação das colônias, automaticamente os imigrantes eram considerado brasileiros. Um desses cônsules deixou por escrito vasta documentação publicada num boletim oficial do Ministério das Relações Exteriores da Itália. Rizzardo Rizzetto teve o cuidado de fazer apontamentos de tudo o que os colonos italianos lhe contavam. Para resguardar a identidade do informante o cônsul escrevia apenas as letras iniciais do cognome e nome. Embora o boletim tenha sido publicado em 1905 as informações são do final do século passado. Eis o que anota o cônsul enquanto o colono vai falando:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>&#8230;diz o sr. S&#8230;&#8230;G&#8230;&#8230;da província de T.; habita em Pau Gigante no Rio Triunfo, a 5 horas acima da Vila Pau Gigante, ex Núcleo Acioli Vasconcelos: a região compreende montes e poucas planícies; o cultivo do café é intenso; é uma colônia nova que remonta a 12 ou 13 anos somente e foi fundada por cearenses; existem também muitos italianos; no Rio Triunfo devem existir cerca de 150 famílias; não se pode saber ao certo quantas sejam porque estão muito espalhadas pelos vales e se reúnem somente quando chega o padre ou quando se faz uma festa; a igreja está na fazenda de G. B., tirolês, o único italiano que hoje está bem de vida; os B. são três irmãos, os colonos que chegaram primeiro; primeiro estavam sozinho, mas depois chegaram italianos e cearenses; um dos B. vendeu o terreno onde está a igreja e o cemitério; o padre está na vila Pau Gigante e aparece a cada três ou quatro meses na localidade para fazer o eventuais batizados, casamentos etc.; o B. possui 8 prazos, isto é, oito colônias. Tem uma casa de comércio na vila; da fazenda, isto é, do campo, se ocupam os irmãos; os prazos valem pouco hoje; nas terras que lhe pertencem ele mantém seis famílias como meeiros; a sua produção de café no ano passado foi de 1.500 arrobas; a média de produção dos colonos é de 200 arrobas; as dificuldades, contra as quais os colonos têm que lutar, dependem do preço do café que se vende ora a 3.000 réis a arroba, de cujo preço precisa descontar a despesa de pila do café que é de 400 réis por arroba e a despesa do transporte até a casa do comerciante que compra o café, despesa que varia de acordo com a distância; os preços dos gêneros nas vendas são extraordinários, muito caros, uma caixa de sabão de 3kg 5.000 Rs; uma quarta (10 litros) de sal 3.000 Rs; uma lata de petróleo 9.500 Rs; não existe padeiro; os colonos não comem pão porque não têm forno e a farinha de trigo é muito cara custando 10.000 Rs 15 quilos; a carne seca custa de 1.500 a 1.700 Rs o quilo; os colonos comem carne seca quando podem; não há botequim; às vezes ao sábado um colono mata uma cabeça de gado, e os vizinhos informados vão lá e compram a carne que é fresca e custa em geral 900 ou 1.000 Rs o quilo; a carne de porco ou de galinha se come com mais freqüência, mas tendo em vista o preço do café a dieta do colono o obriga a consumir arroz, milho e feijão que é o que produz no terreno; com o milho se faz aquilo que aqui chamam de fubá e com ele fazem a polenta. Na localidade de rio Triunfo existem 4 moinhos que moem o milho; paga-se 1.600 Rs para moer um saco de 60 kg; cada colono pila o seu arroz porque existem muitas correntes de água; a água é boa e não se vê muito a opilação; quando os colonos ficam doentes, curam-se por si mesmos; o remédio principal é um fruto de uma planta que cresce espontaneamente; ela se parece com o nosso figo; os seus filhos se livram da opilação com aquele remédio; não existem médicos; é preciso vir a Vitória, 3 dias de viagem a cavalo, para se tratar; existem no entanto alguns colono práticos que preparam os remédios; quando um tem um livro de medicina e sabe ler, é consultado de preferência; nas vendas existem pílulas, senna, óleo de rícino; em fim, se um colono fica doente se trata como pode aconselhando daqui e de lá; não existem parteiras; as mulheres se ajudam entre si na ocasião dos partos; não existem escolas; somente na vila Pau Gigante existe uma estadual; um grande número de crianças cresce sem nenhum instrução; os colonos não poderiam manter escolas por sua conta; para que um professor ou professora pudesse viver, seria necessário que cada colono pagasse 4 ou 5 mil réis por cada criança e isto é impossível com o atual preço do café, tanto mais que as famílias italianas são muito numerosas. No Rio Triunfo a maioria é de cearenses; os terrenos são muito bons; basta que o tempo seja favorável; os legumes crescem se não houver seca; o trigo não dá, já fizeram experiência; talvez nas baixadas o cacau pudesse dar bem pois até ele mesmo tem dez a doze pés altos e bonitos; também dá muita cana de açúcar e alguns colonos possuem alambiques para destilar a cachaça e para fazer rapadura.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Há fortes indícios para se crer que o informante seja o sr. Giovanni Soneghet. Só ele e o Varnier eram os italianos localizados no Rio Triunfo. Todos os demais eram cearenses. O informante demonstra ter um espírito prático e familiarizado com os problemas locais. Do que diz se conclui que só havia uma casa de comércio em Barra do Triunfo. Onde não há concorrência ocorre a exploração. Na virada do século o preço do café caiu tanto que no final de cada ano, quando iam ajustar conta, os colonos verificavam que toda a produção de café não dava para pagar os gêneros de primeira necessidade comprados na venda. O primeiro inconveniente disto consistia na monocultura do café e o segundo era a falta de competição nos transporte e venda dos produtos necessários para os colonos. Não foi um nem dez os colonos ou viúvas que tiveram hipotecadas as colônias para saldar as dívidas anuais nas chamadas vendas. Muitos se arruinavam, vendiam tudo e procuravam sair para a Argentina. Luigi Varnier depois de 28 anos de Brasil caiu nesta armadilha. Percebeu que nunca ia poder ter nada trabalhando no campo como pequeno proprietário ou mesmo como marceneiro. O que mais lhe assustava era a injustiça social. Mesmo sendo compadre do Giuseppe Battisti e líder comunitário voltou para Cordignano, Itália, em 1908 com a mulher e duas filhas solteiras para morrer em 1935. Ele é a imagem viva do imigrante dividido entre duas pátrias e o coração repartido entre dois continentes.</p>
<p><b>6. A época de Guilherme</b></p>
<p>Depois que o &#8220;Bepe&#8221; foi morar em Ibiraçu, os dois irmãos Giovanni e Guilherme ficaram na fazenda. Viviam em sociedade. Giovanni trabalhava de tropeiro indo até Santa Cruz, levando café e trazendo mercadoria. Numa de suas viagens apanhou uma febre e morreu em Capuba em 1904. Deixou a viúva com os filhos menores: Florêncio, Malvina, Roberto, Amábile e Gentila. Páscoa Vaccari, na partilha dos bens em 1908 ficou com a parte Este da fazenda que tinha uma área de 1.372.500m².</p>
<p>Guilherme, o irmão mais novo, tendo-se casado com Maria Casoti em 1894 em Santa Teresa teve doze filhos. Depois da divisão da fazenda Guilherme empreendeu a construção de um sobrado de aparência aristocrática, em substituição à antiga casa de estuque. Construído depois de 1910 teve como construtor a João Plotegher (um dos trentinos por ele trazido em 1897?). Em fotos da época ainda são visíveis as ruínas da primitiva casa de estuque atrás do sobrado. Os informantes do Cônsul Rizzetto eram unânimes ao afirmar que os únicos a estar bem de vida na região eram os irmãos Battisti.</p>
<p>Começa uma era de prosperidade. Além de movimentar o alambique e a máquina de pilar café, tinha a casa de comércio. Muitas de suas iniciativas perduram até os dias atuais. Foi juiz distrital em 1908. Em 1910 construiu a escola de primeira entraça cujo primeiro professor foi Joaquim de Azevedo Araponga. Mais tarde notabilizou-se o professor Odorífico dos Santos. Em 1913 Guilherme criou a banda de música &#8220;Lira Triunfense&#8221;, na qual também ele tocava. Em 1915 fundou o time de futebol &#8220;O Camponês&#8221;. Em 1917 construiu a estrada que liga Barra do Triunfo a Acioli. Foi um dos construtores da usina elétrica em 1922. Comprou o primeiro automóvel na década de 30. Juntamente com seus parentes e amigos impunha-se com uma autoridade moral indiscutível na resolução de conflitos e na pacificação dos ânimos. Guilherme faleceu no dia 27 de setembro de 1941 com 67 anos.<br />
<b><br /></b><br />
<b>7. Atualidade: os laços de família</b></p>
<p>Barra do Triunfo se originou da família Battisti cercada por uma população de imigrantes vênetos, tiroleses e muitos cearenses que eram mais de trinta famílias só no Rio Triunfo. A população local, hoje, mantém linhas diretas de parentesco. Continua uma tradição que já existiu nos começos.</p>
<p>Embora Giuseppe fosse trentino, sua mulher Teresa Pissinati era de Cordignano e, portanto, vêneto-trevisana. O pai de Teresa, Giuseppe Pizzinat foi um dos fundadores de Ibiraçu. Chegou na primeira turma no navio Colúmbia com a mulher Lucia Fiorot e as filhas Giovanna, Regina, Luigia, Teresa, e Antonia.</p>
<p>A família Pizzinat vai marcar presença na nova frente pioneira de ocupação por meio dos seus maridos. Poucos percebem que João Schmitdberger foi casado com Giovanna e se estabeleceu nos lotes 16 e 18 do rio Ubás. Giovanni Soneghet casou-se com Regina e morava no lote 51 do rio Triunfo. Giovanni Polese casou-se com Luigia e ocupava a colônia ao lado do Schmidtberger. Antonio Polese casou-se com Antonia. Assim, todas as cinco irmãs eram vizinhas, criando-se um verdadeiro matriarcado. Os homens, apesar de nomes e procedências diferentes, eram os que mantinham os nomes de família numa linha patrilinear. Quando as mulheres se casavam, perdiam o sobrenome do pai e, em compensação entravam na herança do marido que devia ser possuidor de terras. Exemplo típico desta condição é o caso da família de Giovanni Battisti. Com sua morte, a herança das terras passou automaticamente para a mulher e filhos. O que se quer dizer é que o agrupamento destas famílias em Barra do Triunfo tinha uma explicação na irmandade das mulheres da família Pizzinat.</p>
<p>Havia outras razões, é claro, para que os imigrantes escolhessem suas terras e, portanto, seu modo de vida. A presença de Luigi Varnier na fazenda não se explica apenas porque era um bom marceneiro que ensinava aos novos a sua profissão. Ele era velho conhecido e conterrâneo dos Pizzinat, Fiorot e mais cem moradores do grupo inicial de Ibiraçu, formado de imigrantes de Cordignano, Treviso. A sedimentação dos costumes tinha procedência numa forte trama de laços de sangue que continua até hoje em Barra do Triunfo. Pouco se tem falado sobre o regime de matriarcado de nossas &#8220;nonnas&#8221;.</p>
<p>Forte laços de família permanecem na atualidade em crescente complexidade. Muitas famílias foram embora por causa da erradicação do café promovida pelo Governo Federal na década de 60. Outras permaneceram sem jamais abandonar sua terra. Assim são os Battisti, Casoti, Cecato, Marinot, Vacari, Fornaciari, Botan, Pellizzon, Zuccolotto, Varnier, Polese, Favarato, Marim, Busato, Mazzolini, Bortolini, Vazzoler, Mazzega, Arten Giacomin, Dalla Barba, Costa e tantas outras. Também devem ser lembradas famílias de nacionais como Barcelos, Miranda, Landolfo, Teixeira, Dos Santos, Souza, Lemos, Barbosa, Rodrigues, Aguiar e outras mais. Elas fazem a saga da imigração italiana no Espírito Santo. Deve-se lembrar que é impossível contar a história de uma só família porque ela se inclui num grupo social maior de um povo. Aí então é mais fácil falar dos múltiplos aspectos da sua existência e de sua presença num país, com identidade própria, com estas marcas de comportamento que servem de assunto tanto para obras de arte como para a conversa do dia a dia. Tradição e família são duas características marcantes da cultura italiana e sobretudo dos vênetos. Os descendentes destes pioneiros andam sequiosos à procura de informações sobre eles, porque buscar raízes é hoje, no Espírito Santo, uma busca da própria identidade.</p>
<p>
[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p>
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		<title>Capítulo VII &#8211; I Centenário de colonização italiana de Acióli</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:37:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>1. Dados históricos sobre Acióli — 2. Barra do Triunfo 1. Dados históricos sobre Acióli Acióli comemora seu primeiro centenário. O núcleo colonial foi fundado em 1887 pelo engenheiro Antônio Francisco de Ataíde (1860-1945). O nome Acióli foi uma homenagem ao coronel Francisco de Barros e Acióli Vasconcelos então Inspetor Geral de Terras e Colonização [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-hpEVFfXmRHY/WFlxRIVbr-I/AAAAAAAALI0/ix7uczIYcZA_ShZn0Ra0ZnouUVILT6u_ACPcB/s1600/Imigrante.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Imigrante-2.jpg" class="wp-image-5835" width="400" /></a></div>
<p>
<span style="font-size: 85%;">1. Dados históricos sobre Acióli — 2. Barra do Triunfo</span></p>
<p>
<b>1. Dados históricos sobre Acióli</b></p>
<p>Acióli comemora seu primeiro centenário. O núcleo colonial foi fundado em 1887 pelo engenheiro Antônio Francisco de Ataíde (1860-1945). O nome Acióli foi uma homenagem ao coronel Francisco de Barros e Acióli Vasconcelos então Inspetor Geral de Terras e Colonização do Império, com sede na cidade do Rio de Janeiro.</p>
<p>As medições dos lotes coloniais no rio Pau Gigante foram iniciadas em janeiro pelo engenheiro bacharel Artur Napoleão de Barros que pretendia chamar de &#8220;Cecília&#8221; a sede do núcleo. Lê-se no memorial dos seus trabalhos que:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Ficando nesta região (do rio Pau Gigante) em uma grande volta que faz o rio à margem esquerda uma área de 790.325 metros quadrados completamente devoluta e a qual pretendo subdividi-la em lotes urbanos, pois escolhi-a para o estabelecimento de um novo núcleo a que denominei &#8220;Núcleo Cecília&#8221;.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O lugar a que se refere ficava próximo à lagoa do Café e o nome, por sua vez, ficou só no papel porque no mês de abril daquele ano foi nomeado em seu lugar o engenheiro Antônio Francisco de Ataíde que continuou as medições e reservou os lotes de números 46 e 48 para local da futura sede do núcleo Acióli Vasconcelos. É onde, hoje, está Acióli. Não se pode esquecer que houve uma tentativa de se fundar a sede do núcleo um pouco mais acima onde confluem os rios Ubás e Pau Gigante. Os lotes coloniais mediam 275 metros de frente, com aguadas para o rio, e 1.100 metros de profundidade, de modo que a área total era de 302.500 metros quadrados. Aí, durante os seis primeiros meses, o colono devia derrubar um pedaço de mata, construir sua casa e fazer as primeiras plantações. Em uma das modalidades de pagamento o colono podia começar a quitar as prestações dois anos após o seu estabelecimento. O colono não podia também, de início, ir morar nas vilas e cidades. Por isso, os responsáveis pela fundação dos núcleos reservavam sempre uma área para sede da futura povoação onde, necessariamente, além das casas de comércio, deveria haver uma igreja e o cemitério. Um fato curioso a respeito de Acióli é que os primeiros a terem lotes no Pau Gigante foram alemães, em 1887. Por motivos da febre amarela quase todos abandonaram aquelas terras baixas e paludosas. Consta que em junho de 1887 Henrique RATS ocupava os lotes 22 e 24. Augusto SCHULTZ tinha os lotes 56 e 58 e seus filhos ocupavam os lotes 28 e 30. Henrique BRAUN estava no 34 e 36 e seu filho Ricardo no 32. Em outubro, Joaquim WERNECK aparece como dono do lote 6 e Carl BINOW do 64 e 66. Além desses podem ser citados Hermann LOFFLER, Edevin NICKEL, Hermann GOLDNER, George BIRCLER, Augusto TEICHMAN, Frederico FUCHS, Emil SEIDEL, Carios Othon SCHWARZ, Rodolfo ENGELHARDT e outros. Provavelmente muitos deles nem chegaram a tomar posse das colônias e suas figuras sumiram da história.</p>
<p>Os italianos que se estabeleceram no Pau Gigante vieram no navio <i>Adria </i>que chegou a Vitória no dia 27 de dezembro de 1888 com 1.510 passageiros e em outra viagem que fez aos 27 de fevereiro de 1889. Já não se fundavam os núcleos coloniais com levas unitárias como aconteceu com a fundação de Santa Teresa e Ibiraçu. Apenas chegados a Vitória, depois de um breve repouso na hospedaria dos imigrantes, eram disperses por São Mateus cujo núcleo Santa Leocádia fora também fundado em 1887, por Santa Leopoldina, por Benevente, por Itapemirim e por Santa Cruz. Os que se destinavam ao Pau Gigante depois de chegados a Santa Cruz subiam o rio Piraqueaçu até o Córrego Fundo. Daí chegavam ao Conde D&#8217;Eu (Ibiraçu). Seguiam por Mundo Novo, passavam pelo local onde mais tarde iria ser Demétrio Ribeiro e chegam às seções do interior. Consta que havia um barracão na Barra do Triunfo e era, inicialmente, a pousada para se chegar a Acióli.</p>
<p>Os livros assinalam os seguintes italianos ocupantes de colônias no Pau Gigante: 18 Marco REDOLFI, 20 Domenico Tassan MAZZOCO, 22 Angelo Tassan MAZZOCO, 24 Giuseppe B. MASSARIOL, 26 Frederico MASSARIOL, 28 Francisco BERGAMINI, 30 Cleto LOMBARDI, 38 Luigi ZANINI, 40 Luigi ROSA, 42 Antônio MANDATO, 44 Eugênio PATUZZO, 50 Giovanni MASIERO, 52 Daniel ORSINGHER, 60 Brunone BENEZOLE, Adolfo FERRETI, 68 Luigi ZAMATIO, 70 Antônio ZAGHET e 72 Pietro ROSSETI. Nas colônias de números ímpares, estavam: 23 Luigi MAZZEGA, 27 Luigi CIPOLATI, 29 Giacomo TREVELIN, 31 Francesco BASSO, 33 Giuseppe MAZZEGA, 35 Domenico DE PIANTI, 43 Domenico VIVIANI, 45 Amadeo ZAMBON, 47 Francisco Moreira de Sousa (brasileiro, estabelecido em dezembro de 1887), 51 Silvio GIRELLI, 53 Giovani BISSI, 55 Giuseppe BISSI, 57 Antônio BORGHI, 59 Eurico PALASSI, 61 Francisco Lassance Mitre, 63 Giuseppe MASIERO.</p>
<p>O início de Acióli é marcado por uma epidemia de febre amarela e por pequenas desavenças. Em abril de 1890 o engenheiro Antônio Francisco de Ataíde confirma que de janeiro até aquela data haviam morrido treze pessoas e que mais de cinqüenta estavam doentes. O Dr. Custódio Moreira de Sousa contratou Giuseppe Battisti para fornecer os gêneros de subsistência aos doentes. Transformou o barracão em hospital para 16 a 18 leitos e pediu remédios já que quatro garrafas de vinho quinado tinham-se quebrado. O cidadão Lassance Mitre, por sua vez, dentro das suas atribuições, chamou o imigrante Antônio Borghi para ajudar no barracão, pagando-lhe 1.700 réis a diária.</p>
<p>Quando Gabriel Emílio assumiu a direção da colônia quis transferir sua sede para Linhares e concentrar os imigrantes à margem do rio Doce. Antônio Ataíde foi demitido porque discordou da solução. Ele achava que as febres iriam impedir o sucesso da colonização. Até 1895 os dois travaram uma polêmica que ficou registrada nos jornais. O tempo veio dar razão ao Ataíde. O núcleo MUNIZ FREIRE não só fracassou por causa das febres e do mal atendimento do Governo como também encerrou o movimento imigratório dos italianos no Espírito Santo.</p>
<p>Quanto a dissensões entre colonos registra-se o incidente entre Francisco Cardoso Lassance Mitre e João Schimitberg que botaram fogo na casa de Giovanni Batista Sagrillo que teve de ir para o barracão. Em dezembro de 1890 este imigrante vai ocupar a colônia 63 nas cabeceiras do rio Ubás.</p>
<p>O núcleo colonial Acióli Vasconcelos tinha oito seções: Pau Gigante (atual Acióli) Ubás, Triunfo, Esperança, Treviso, Café, Otelo e Alto Bérgamo. Ele é simplesmente a continuação do ex-núcleo Santa Cruz fundado dez anos antes e cuja sede era o Conde D&#8217;Eu, atual Ibiraçu. O núcleo Pau Gigante todo tinha uma população de 2.250 pessoas no final de 1887, ocupando 450 lotes e tendo em média 5 pessoas por família. O Conde D&#8217;Eu era uma povoação de 13 casas. Em fevereiro de 1890 Acióli tinha uma população de 355 habitantes, sem médico que lhe pudesse dar assistência. Não havia igreja. As funções religiosas se realizavam no barracão mesmo. O engenheiro Ataíde, preocupado com a frente pioneira, pensava numa estrada que ligasse o Pau Gigante ao Cavalinho, muito mais vantajosa economicamente e sem ter que dar uma grande volta, uma estrada que &#8220;partindo da futura sede colonial vá pela encosta do morro Cavalinho até a seção Clotário e aí bifurcando-se em um ramo para este povoado que já está feito e outro para o Córrego Fundo.&#8221;</p>
<p>Os primeiros núcleos coloniais foram fundados nas proximidades dos centros de comercialização. Já os núcleos SENADOR PRADO às margens do rio Santa Maria do Rio Doce, SANTA LEOCADIA às margens do rio Bamburral em São Mateus e Acióli VASCONCELOS às margens do rio Pau Gigante, todos de 1887, resultavam da necessidade de interiorização e ocupação das terras devolutas. A interiorização era provocada não só porque se anunciava a chegada de novas levas de imigrantes, mas também porque os filhos maiores de 18 anos dos imigrantes já estabelecidos tinham direito à escolha de lotes nas mesmas condições dos pais conforme determinava o artigo 7º do Regulamento de 1867 para as Colônias do Estado. Desta forma se entende porque filhos e filhas dos Pissinati, Costa, Sagrillo, Soneghetti, Vazzoler, Pellizzari, Polesi e tantos outros moradores no Conde D&#8217;Eu casavam-se e vinham morar no Pau Gigante. Oficialmente, porém, os primeiros imigrantes italianos do Pau Gigante chegaram no navio <i>Adria </i>em 27 de dezembro de 1888. Eram umas doze famílias aproximadamente. Um outro tanto de famílias chegou também no <i>Adria </i>aos 27 de fevereiro de 1889 e foram destinados ao núcleo Acióli Vasconcelos. Os chefes destas famílias e seus respectivos lotes coloniais são aqueles enumerados anteriormente.</p>
<p>Pouca notícia resta das seções do núcleo. Elas nunca se distinguiram com um aglomerado de casas. Sabe-se que aos 10 de dezembro de 1891 o navio <i>Birmânia </i>descarregou todos os 1.423 passageiros em Vitória e que foram eles os ocupantes destas seções do núcleo em suas ramificações por rios e córregos secundários. Os imigrantes do&nbsp;<i>Birmânia</i>, depois de cumprirem a &#8220;quarentena&#8221; na Hospedaria da Pedra d&#8217;Água, já então reconstruída, espalharam-se pelo estado inteiro. Para Santa Cruz seguiram três grupos de 202, 199 e 237 pessoas. No dia 19 de dezembro seguiram no vapor São João as famílias de CHIESSO Francesco e Angelo, ROSSANI G. Batta, GHIDOTTI Valentino, AMBROSINI Bernardo, CARRARA Tomaso, Giovanni e Luigi, FACHETTI Batista e Abele, SIGNORELLI Maximino, GUALANDRI Rosa, PANDOLFI Anibale, Bartolomeo, Andrea, Giuseppe e Gioachino, ZANI Catterina, SIMONELLI Giacomo e Angelo, SIRTOLI Luigi, PROVENZI Giovanni, CERRUTI Angelo, CAVARELI Luigi, PRIVA Giacomo, CONTI Giovanni, RADAELLI Luigi, TERZI Giovanni, UBIALI Samuele, CENATI Giovanni, AGOSTI Angelo, PESENTI Luigi, DELCARRO Giovanni, GATTI Andrea, MAI Macario, PROVENZI Angelo, BONA Santa, DELCARRO Luigi, TESTA Luigi e Giuseppe, BLANCHESSI Andrea, DANELLI Giovanni, ARESI Pietro, CERRUTI Giovanni e Giuseppe, CARMINATI Lúcia, PESENTI Inácio, MILARI Gio Batta, MELERI Giuseppe, ANZIOLI Federico, FRIGERI Agostino, ALLIEVI Francesco e MARCHETTI Angelo. Este grupo era constituído em sua maioria de bergamascos e a isto induz a informação de Dona Judite Favalessa, nascida em 1901 e ainda moradora de Alto Bérgamo em 1981. Filha de Martim Favalessa e de Giovanna Buffon ela indicou como principais famílias do lugar os AREZZI, BIANCHESSI, CAPPELARO, CARRARA, CERRUTTI, DANELI, FACHETTI, FAVALESSA, FAVARO, GATTI, GASPARINI, INHERTI, MAI, MILIMI, PANDOLFI, SIGNORELLI, SIMONELLI, SIRTOLI, TESTA e outros. Alto Bérgamo estava situada nas cabeceiras do rio Pau Gigante, isolada por uma sesmaria particular pertencente a um Coelho Rodrigues. Quando os imigrantes queriam vir a Demétrio Ribeiro ou à Barra do Triunfo deviam atravessar uma estrada que era um verdadeiro túnel na floresta. Quando chovia, levavam três horas a cavalo para chegarem à vila do Pau Gigante (lbiraçu). Alto Bérgamo tinha um só comerciante que monopolizava os gêneros de consumo. Quando no início do século o preço do café baixou muitas famílias se retiram indo algumas para a Argentina, porque todas as dificuldades juntas não compensavam.</p>
<p>Dois dias depois de seguir o primeiro grupo, o vapor <i>São João</i> levou para Santa Cruz as famílias de GASPARINI Luigi, FAVALESSA Augusto, FAVORO Giuseppe e Antonio, PELLIZZON Giuseppe, ZERGI Girolamo e Isidoro, MASTEGHIN Ferdinando, CAPELLARO Giacomo, MANERA Pietro, RICATO Agostino, MARIM Giacinto, CAON Sebastiano, CALEGARIN Faustino, MORON Angelo, BOTOLOZZO Giuseppe, FAVALESSA Petro e Martino, GARDINON Luigi, SCOPELLO Giovanni, FASSINA Nicoló, Binotto Domenico, ZANCHETTA Donienico, CASTAGUTA Giuseppe e Vittorio, FAVARATO Domenico, CESTARO Antonio, VECHIATO Antonio, BORSATTO Luigi, BUSATTO Ferdinando, SCHIAVON Giuseppe, VEZZOLER Antonio, MASSARIOL Costante, MORA Mariana, SCOLARO Agostino, ZACCHIA Antonio, MENEGAZZO Luigi, FASSINA Antonio, TONIN Pietro, CECON Giovanni. Neste grupo predominam os trevisanos.</p>
<p>O terceiro grupo seguiu para Santa Cruz no dia 8 de janeiro de 1892 e se constituía das seguintes famílias: ZERBINI Nilo, DENTI Giuseppe, VEZZALI Rinaldo, GAINI Giuseppe, POGGIOLI Pietro, ARTOSI Arturo, MARANGONI Giovanni, BIANCUSSI Antonio, MAZZINI Angelo, LUCIANI Albino, SAMARITANI Giuseppe, FUGAGNOLI Pietro, BALDASSIN Sigismondo, MARCHIORI Giovanni, NARDI Luigi, FURLAN Giovanni, MAGGIORI Giacinto, DEMARCHI Amedeo, CECCATO Giuseppe, FAVERO Stefano, Baraldo Fedele, TRENTO Amedeo, VEDOVATO Antonio, FERRANDI Andrea, MANDELLI Carlos, Moro Giovitta, PESENTI Giovanni, FERRANDI Natale, FORNAZZARI Pachoale, MAURI Giuseppe, ROSSONI Gio Batta, CASATI Andrea, BOTAN Luigi e Pietro, RAGAZZO Giacomo, TONANI Giovanni, MARCHI Luigi, DEBIASI Antonia, RAMPINELLI Albino, LOCATELLI Sante e Ferdinando, MAGRI Giuseppe, GUSSO Virginio, BARBARIOL Catterina, PULCINI Giacomo e DEMARCHI Fortunato.</p>
<p>A seção Ubás compreendia as margens deste rio que deságua no rio Pau Gigante. As colônias desta seção foram ocupadas em sua maioria por retirantes cearenses fugidos da seca no Nordeste. Contam-se pelo menos umas trinta famílias. O Governo central teve sempre a preocupação da miscigenação, o cuidado de misturar brasileiros com os italianos como já o fizera em Ibiraçu. Luigi ZUCCOLOTTO que chegou a Vitória no dia 23 de abril de 1889 somente em setembro do mesmo ano foi estabelecido no lote 28 de rio Ubás. Com ele chegou Giovanna Colli sua mulher e os filhos Modesto com 17 anos, Giovanni de 15, Antonio com 12, Emma com 9, Maria de 6 e Domenica de 10 meses. Sabe-se apenas que um filho pequeno morreu e foi jogado ao mar. O lote 2 do Ubás pertencia a Giacomo CECCATO de 43 anos e sua mulher Maria de 45 com os filhos Giovanna de 22, Giovanni de 11 e Paulo de 9. Eles haviam chegado ao Brasil em março de 1890. Somente na década de 30 é que Giovanni, então casado, constrói o pequeno santuário de Nossa Senhora de Caravaggio na sua fazenda. O lote 17 era de Giacomo DA RÉ, o 19 era do filho Pietro. Giovanni POLESI, filho de um fundador de Ibiraçu ocupava o lote 20. Giovanni MARINOT morava no 21, Pietro GIMOLAI no 22.</p>
<p>O progresso, no final do século passado dependia dos meios de comunicação e transportes e estes dependiam muito das vias navegáveis. Pensava-se na colonização e no escoamento dos produtos agrícolas através do transporte fluvial. Santa Leopoldina ligava-se a Vitória por um serviço de canoas e chegou a ser, naquela época, o lugar de maior volume de comercialização agrícola do Espírito Santo. Pensava-se também em ligar as demais colônias através do caudaloso rio Doce. Colatina não passou, inicialmente, de uma seção do núcleo ANTONIO PRADO, fundado em 1887, que ficava intermediária entre este rio e o rio Santa Maria do Rio Doce. Acreditava-se também que o rio Pau Gigante manteria sempre o seu volume de água que o tornaria permanentemente navegável. Os sucessivos desmatamentos mostraram logo seus efeitos na navegação fluvial. As estradas abertas a enxadão deixavam passar as tropas de burros e as tropas é que mantinham atuante a vida nas colônias. Somente em 27 de julho de 1906 era inaugurada oficialmente a estrada de ferro em Acióli. o lugar conheceu então grande prosperidade. Aos 27 de janeiro de 1915 Acióli passou a distrito e a vila em 11 de novembro de 1938. Sua história mais recente pede para ser contada.</p>
<p><b>2. Barra do Triunfo</b></p>
<p>Primeiramente o lugar com este nome pertenceu a Aurélio de Alvarenga Rosa que o requereu em compra aos 11 de março de 1882. Depois foi comprado por Giuseppe Battisti em 1887, ano do seu casamento e em que aí se estabeleceu. Não se pode fazer história da Barra do Triunfo sem falar da família Battisti.</p>
<p>No dia 5 de novembro de 1876 registrava-se em Vitória a chegada dos imigrantes tiroleses vindos do Rio de janeiro a bordo do paquete Bahia com destino à colônia de Santa Leopoldina. A família de nacionalidade austríaca era composta de oito membros: Glo Batta Battisti 38 anos, Anna Rossi, esposa, com 35 e os filhos Giuseppe de 12, Gio Batta de 9, Giovanni de 7, Anna de 4, Guglielmo (Guilherme) de dois e Enricheta de um mês. Depois de passarem pela hospedaria dos imigrantes, rotina obrigatória, foram encaminhados para o núcleo Timbuí fundado no ano anterior. Este núcleo é a atual Santa Teresa. O pai era cavouqueiro e tinha prática no trabalho em pedreiras, pelo que, tendo se empregado na abertura da estrada que ia do núcleo Timbuí ao Barracão de Petrópolis, acabou se acidentando, vindo a morrer em conseqüência da explosão de um último cartucho de dinamite que tentou desarmar. Foi enterrado no &#8220;25 de Julho&#8221;. Durante muitos anos o local foi assinalado com uma placa de metal que dizia o seguinte: &#8220;Alla memoria di Giovanni Batista Battisti morto da na mina li 2 maggio 1877 danni 39. Req ia in Pace&#8221;. A viúva foi morar no &#8220;25 de julho&#8221; onde recebeu indenização. Giuseppe além de trabalhar na agricultura começou a receber apoio do Antônio Ataíde de quem se tornou ajudante. Com isto pôde adquirir animais de carga e se dedicar ao transporte de mercadorias. Quando se casou, em 1887, Antônio Ataíde foi seu padrinho de casamento. Giuseppe prosperou no ramo de comercialização, vindo e indo ao Conde D&#8217;Eu e ao Córrego Fundo onde chegou a possuir casa. Ter um burro de carga, é bom que se lembre, naquele tempo, era como possuir um caminhão. Tudo se fazia a pé ou em lombo de burro pelas estradas estreitas e muitas vezes lamacentas. Giuseppe se casou no dia 12 de novembro de 1887 com Teresa Pissinatti, ele nascido e batizado na paróquia de Caliano, Diocese de Trento, Província do Tirol D&#8217;Áustria e morador no Timbuí de Santa Teresa, pertencente ao Porto de Cachoeiro; ela era filha de Giuseppe Pissinatti e Lucia Florot, nascida e batizada na paróquia de Santo Stefano, Província de Treviso, Itália e moradora do Conde D&#8217;Eu, da freguesia de Santa Cruz. O casamento foi realizado pelo vigário João André Cascila e teve corno testemunho João Schimitberger. No final do século Giuseppe Battisti deixou a fazenda da Barra do Triunfo ao encargo do seu irmão mais novo Guilherme. Guilherme havia se casado em 1894 com Maria Casotti. A partir de então todas as atividades e promoções do lugar correram por conta de Guilherme Battisti. (O nome foi abrasileirado passando a &#8220;Batista&#8221;). Em Ibiraçu Giuseppe foi prefeito municipal diversas vezes. Em Barra do Triunfo tudo corria por conta de Guilherme que foi até nomeado juiz distrital em 1908. Em 1907 fundou a &#8220;Lira Triunfense&#8221;, banda de música, onde também tocava. Em 1915 fundou o time de futebol &#8220;O Camponês&#8221;. Em 1917 Guilherme construiu a estrada de rodagem que liga Barra do Triunfo a Acióli! Guilherme faleceu a 27 de setembro de 1941.</p>
<p>Barra do Triunfo era uma fazenda com status de povoação. Aos 5 de dezembro de 1896 uma comissão encabeçada por Luigi Varnier, Giuseppe Mazzega, Modesto Zuccolotto, João Paulo Bezerra e José Francisco de Barros promoveu uma subscrição para a compra do terreno e construção de uma capela e cemitério naquela localidade. Os fabriqueiros compraram 2.500 metros quadrados para a igreja e 5.000 metros quadrados para o cemitério, pagando a quantia de 60 réis o metro. A primeira pessoa a ser enterrada foi Maria Marim, uma jovem de 16 anos, filha de Jacintho e Fiorenza Marim, chegados no navio <i>Birmânia </i>em dezembro de 1891. Maria morreu apenas chegada ao local. A comissão dos fabriqueiros se obrigava à construção da capela e a dá-la por acabada com o auxílio do povo até o mês de julho de 1897. Neste ano Giuseppe Battisti trouxera de uma viagem à Itália uma estampa de São José. Luigi Varnier a emoldurou e o quadro entronizado tomou-se o padroeiro do lugar.</p>
<p>Quando Dom João Néry, primeiro Bispo do Espírito Santo fez a primeira visita pastoral nos meados de 1900, ao lugar, assim descreveu Barra do Triunfo: &#8220;Geralmente se dá este nome às terras que formam e circundam a propriedade do Sr. Baptiste José. A residência deste senhor se acha pouco acima da confluência dos rios Triunfo e Ubás, sendo o segundo um dos principais afluentes do rio Pau Gigante que corre entre os rios Santa Maria e o Santo Antônio. Por enquanto só existem três ou quatro casas, modestas e um engenho de cana tocado a água com aparelhos também para beneficiar café. É esta uma das situações que mais se prestam a uma localidade, pela bondade de seu clima e considerável extensão de seu horizonte. Pouco adiante da casa de residência do Sr. Baptiste se acha a capelinha, consagrada a São José, com pequenas mas decentes acomodações. Tem a capela-mor 4,50m de comprimento sobre 5m de largura, o corpo da igreja 9,75m de comprido sobre 6,10m de largura, a sacristia 1,30, de comprido sobre 5m de largura. Tem de altura 7,50m. Ainda é nova só tendo por isso a capela-mor assoalhada. O altar ainda é provisório (de panos). Não tem sinos. No mesmo valão hora e meia abaixo se acha outra capela do antigo barracão de Pau Gigante que não visitamos. A colonização nesta região já não é puramente italiana, é mista, havendo muitos cearenses, alguns sergipanos e polacos. Calcularam a população em 2.000 habitantes.</p>
<p>É aqui um dos pontos de litígio sobre os limites entre Linhares e Pau Gigante; mas os povos parecem querer pertencera Pau Gigante&#8221;. Foi Luigi Varnier quem mais tarde construiu o altar da igreja, bem como os bancos. Quanto ao litígio entre os municípios de Pau Gigante e Linhares, Acióli endereçou um abaixo assinado ao presidente do estado, Muniz Freire, com 287 assinaturas, ponderando os motivos de querer continuar pertencendo ao Pau Gigante. A listagem dos 287 nomes dá conhecimento dos moradores do lugar em 1901. Ela foi publicada no jornal Trabalho nº 6 de Ibiraçu, mês de dezembro de 1959.</p>
<p>[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p>
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		<title>Capítulo I &#8211; Por uma identidade ítalo-capixaba</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:29:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Imigração Italiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1. Razões da emigração italiana — 2. Os insucessos da colonização alemã. — 3. O depoimento de Enrico Ferri. — 4. Núcleo Muniz Freire: centenário de um fracasso — 5. Breves notícias da província. — 6. Primeiro problema: a escravatura — 7. Segundo problema: a vocação agrícola do Brasil. — 8. O pioneirismo do Espírito [&#8230;]</p>
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<a href="https://4.bp.blogspot.com/-hpEVFfXmRHY/WFlxRIVbr-I/AAAAAAAALIo/oyyyKpITdUUp6Yl0rI4PO6lepO29nNp1QCLcB/s1600/Imigrante.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Imigrante-3.jpg" class="wp-image-5846" width="400" /></a></div>
<p>
<span style="font-size: 85%;">1. Razões da emigração italiana — 2. Os insucessos da colonização alemã. — 3. O depoimento de Enrico Ferri. — 4. Núcleo Muniz Freire: centenário de um fracasso — 5. Breves notícias da província. — 6. Primeiro problema: a escravatura — 7. Segundo problema: a vocação agrícola do Brasil. — 8. O pioneirismo do Espírito Santo. — 9. Cidadania e identidade. — 10. Bibliografia</span></p>
<p>Por que, hoje, se fala tanto, no Espírito Santo, sobre a questão da identidade ítalo-capixaba? Por que os descendentes dos imigrantes italianos buscam suas raízes e almejam a dupla cidadania?</p>
<p>Carlos Rodrigues Brandão em seu livro Identidade e Etnia diz muito bem que enquanto a noção de pessoa aparece como problema interno a uma cultura e aponta para o consenso, a noção de identidade tende a emergir como um problema de relações entre culturas e aponta para o conflito (p. 144).</p>
<p>O Espírito Santo vive o momento do apagar das luzes dos centenários da imigração, inclusive do centenário da proibição da emigração italiana para este Estado em 20 de julho de 1895, com alegação de graves motivos. A maioria dos municípios e vilas já comemoraram seus centenários. Muitas famílias continuam a preservar os encontros anuais de seus descendentes que atingem milhares de membros. Vão desaparecendo os últimos imigrantes italianos autênticos, os &#8220;nonnos&#8221; e as &#8220;nonnas&#8221;, suas conversas em dialeto, suas casas, suas propriedades, suas fotografias, suas cartas e seus documentos. Toda uma cultura importada por força de um acontecimento histórico — a imigração — teima em ficar ou tende a desaparecer.</p>
<p>Às portas do terceiro milênio as novas gerações vivem um momento de decisão. Vasculhar o próprio patrimônio histórico e cultural é tarefa gratificante para alguns e, ao mesmo tempo, dolorosa para outros. Trata-se de refletir que não se vive em vão no atual mundo tão conturbado de valores. O que, realmente, deve ser guardado e o que deve ser jogado fora? Está em questão aquele quadro velho pendurado na parede. Está em questão um princípio de vida da família como quando o velho camponês disse que &#8220;filho meu não muda lei que meu pai deixou&#8221;. A fotografia dos avós, na parede da sala, parece restaurar, em cada um de seus descendentes, a segurança perdida, a luta pela sobrevivência no campo e na cidade. É bonito ver parte da juventude capixaba se voltando para a história, documentos, lugares e línguas de seus antepassados.</p>
<p>Uma identidade existe ou se constrói na relação e conflito entre culturas. Os descendentes dos imigrantes italianos são brasileiros, falam português e se comportam como consumistas norte-americanos. A cultura italiana deixou traços e marcas muito fortes no comportamento social destes brasileiros e capixabas. Quem são estas novas pessoas com suas palavras, seus ritos, alianças, conflitos, memórias, objetos produzidos e trocados?</p>
<p>Para se responder a esta questão é preciso retornar no tempo e no espaço. Sem passado não há história. Sem história não há identidade por absoluta falta de traços da presença humana e de suas relações pessoais. E tudo começou com 20 anos apenas de aventura colonizadora na Província do Espírito Santo (1875 &#8211; 1895) no século passado.</p>
<p><b>1. Razões da emigração italiana</b></p>
<p>Nos últimos cinqüenta anos do século dezenove o Brasil foi um depósito de milhões de deserdados europeus de todas as nacionalidades, assim como o foram outras nações da América. Quem eram estes humilhados e abandonados? O que sobrou, historicamente, deste período, deste êxodo humano de proporções bíblicas?</p>
<p>Aqui, não se quer discutir propriamente as razões da emigração italiana mas as da imigração para o Brasil. Deve-se fazer um corte temporal e situar-se entre os anos de 1875 a 95 no pequeno estado brasileiro do Espírito Santo. Tal perspectiva deve ficar bem clara, como um divisor de águas, no continente geral do mesmo assunto. Talvez seja interessante aos italianos de hoje reconhecer traços de sua identidade numa Itália fora da Europa e pensar se vale à pena conhecê-la, manter com ela linhas de conduta e de contato.</p>
<p>Por parte da Itália, todos bem sabem, uma palavra resume as razões da emigração: a miséria. O primeiro e mais importante documento de identidade dos emigrados, o passaporte, quer em nome de sua majestade Vítor Emanuel II, quer em nome de Umberto I, testemunha esta condição. No lugar do selo, os passaportes trazem, com frequência, os seguintes dizeres: &#8220;Senza marca per comprovata miserabilità&#8221;. Ou &#8220;esente da bollo per comprovata povertà&#8221;. Noutros aparece simplesmente a palavra &#8220;gratis&#8221;. O passaporte de Luigi Zuccolotto, natural de Lentiai <span style="font-size: 13.6px;">&#8211;</span>&nbsp;Belluno, expedido em dezembro de 1888, traz selo e carimbo, mas uma carta, 25 anos depois, em 6 de outubro de 1913, assinada por Basilio Piccolotto, diz ao filho de Luigi: &#8220;Chiedete a vostro padre del viaggio che fece a Genova, il quale non se decideva di più montare in treno a Milano se non le davo io i biglietti ferroviari, perchè le mancava il denaro di prenderli (&#8230;) allora potevo, mentre oggi ho bisogno io&#8221;. Miséria de uma Itália que não existe mais, mas miséria declarada nos documentos pelos respectivos administradores, miséria nos corpos doentes, mal alimentados, cansados, forrados apenas de esperança.</p>
<p><b>2. Os insucessos da colonização alemã</b></p>
<p>O Brasil já havia iniciado, embora timidamente, o processo de aceitar imigrantes suíços em Nova Friburgo-RJ (1819), alemães em São Leopoldo &#8211; RS (1824) e em dezenas de outros lugares. O Espírito Santo teve duas colônias alemãs, a de Santa Isabel em 1847 e a maior, de Santa Leopoldina, em 1856. Os laços de parentesco com a família imperial austríaca, no entanto, não justificava a má condução e os repetidos fracassos dos inumeráveis empreendimentos colonizadores. Tome-se, por exemplo, o que aconteceu na fazenda Ibicaba, do senador Vergueiro, em São Paulo e a revolta dos colonos suíços liderados por Thomas Davatz.</p>
<p>Os acontecimentos se sucediam tão comprometedores que, em 1871, o império alemão unificado proibia a emigração dos seus co-nacionais para o Brasil. Promovia em toda a Europa uma enorme campanha de difamação contra o Brasil cuja situação o Brasil não conseguia reverter.</p>
<p>O alemão Handelmann, em sua <i>História do Brasil</i> de 1859, dedica especial atenção ao difícil problema da colonização. Tratava-se da questão mais vital da sociedade brasileira. Conhecendo in loco as dificuldades de seus compatriotas entre os anos de 56 e 57, Handelmann dirige esta estocada ao Brasil: &#8220;os primeiros esforços do governo imperial conseguiu seduzir milhares de emigrantes e enriqueceu de mais exemplos a história da miséria humana&#8221; (p. V). Ele foi um historiador honesto que via os dois lados do problema e sua complexidade. Havia miséria em quem expulsava sua população e havia miséria em quem a recebia. Sabedor da difamação do Brasil na Europa ele não desistiu dos interesses da emigração alemã e dizia que o Brasil precisava de uma radical mudança de administração no sistema imigratório. Em lugar do sistema de plantação em fazenda, deve-se, pouco a pouco, adotar o da pequena lavoura; em vez do fazendeiro, o lavrador; em vez do trabalho escravo, o do braço livre (p. 983). São Leopoldo no RS foi a única tentativa colonizadora que deu certo para os alemães.</p>
<p>Diz um ditado que &#8220;quem despreza compra&#8221;. É histórico o desprezo dos europeus para com o continente sul-americano a que chamam de subdesenvolvido. Handelmann apresenta uma solução de dividir o Brasil em três zonas conforme as raças tendo como exemplo os Estados Unidos. Lá, os brancos no norte, os negros no sul e uma zona mista intermediária. Só que no Brasil a posição era invertida. A Alemanha e os alemães sempre sonharam com uma grande colônia sua no cone sul da América, compreendendo, além de parte do Brasil, o Uruguai, Paraguai e Argentina.</p>
<p>Quando a Alemanha proibiu, de uma vez, a emigração para o Brasil, começaram a aparecer tratados e obras de conselheiros do Império Brasileiro tentando mostrar a realidade dos fatos. Uma circular endereçada aos cônsules do Brasil na Europa, de 20 de novembro de 1871, recomendava que os imigrantes a virem para o Império deviam ser indivíduos habituados a trabalhos rurais e se excluir os habitantes de cidades manufatureiras que não iriam se adaptar facilmente à agricultura (Carvalho, p. 256). É sabido que havia interesses e interessados em despejar no Brasil gente de toda espécie e mesmo criminosos e desocupados. A província do Espírito Santo recebeu, no início dos anos setenta, uma leva de polacos que criaram os maiores problemas na colônia de Santa Leopoldina. Tanto é verdade que o diretor da colônia escreveu ao Presidente da Província:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>A ociosidade, o descaramento, a ratonice, o gênio desordeiro são os caracteres distintivos do Polaco. Por conveniência e moralidade do serviço fui forçado a não deixar sequer um Polaco nas turmas em que trabalhavam os alemães (pomeranos) pois o seu contato era por demais sensível ao serviço. Essa gente foi como uma praga lançada sobre esta colônia: a passagem de um grupo deles é sempre perfeitamente traçada pela destruição e roubo ou furto de algum objeto. Tudo lhes serve; alguém pode ficar tranquilo diante desses talvez, fregueses das casas de correção de Possen? Alguém julga-se tranqüilo diante desses verdadeiros bandidos?</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A história da miséria humana de que fala Handelmann vinha enriquecida de lá, da Europa, e já havia começado com a descoberta do Brasil, quando o português Pedro Álvares Cabral abandonou dois degredados portugueses entre os índios nativos do Brasil afim de lhes ensinar os costumes da civilização européia e a religião cristã (Carta de Pero Vaz de Caminha).</p>
<p>Um Augusto de Carvalho editou na cidade do Porto, em 1876, uma obra de 500 páginas, tentando mostrar que o Brasil era injustiçado no grave problema de receber imigrantes europeus. Com <i>O Brasil colonização e emigração</i> não se dirigia somente a Portugal mas a toda a Europa, fazendo apologia do Brasil com longos parágrafos ufanistas.</p>
<p><b>3. O depoimento de Enrico Ferri</b></p>
<p>Sobre estes seres humanos abandonados disse Enrico Ferri na Câmara Italiana em sessão do dia 22 de junho de 1909: Deu-se comigo o caso que, indo à América, descobri a Itália. Sentimos que devemos amar a nossa pátria, nunca contra a pátria dos outros povos. É certíssimo que os italianos na América, embora completamente abandonados e esquecidos durante meio século pelos governos italianos — que um atrás do outro se têm sucedido, herdando quase como palavra de ordem, um do outro, a máxima indiferença para com os destinos deles (p. 12).</p>
<p>Passados cento e vinte anos de uma aventura colonizadora, retoma-se uma subtil verificação do senhor Enrico Ferri de que os italianos na América não queriam se naturalizar argentinos ou brasileiros. E por que? Porque não querem que se os considerem como renegados (p. 32). Em 1909 eles não queriam agente de emigração mas um adido consular. A exigência de um representante consular continha, em si, a ideia de cidadania e o vínculo de identidade com a pátria mãe. Emigração significava abandono. O que parecia um jogo de palavras era, no entanto, um problema fundamental para os imigrantes. Identidade não é coisa que se arranca de um povo tirando-o de um lugar e colocando-o num outro. Também não foi uma viagem de trinta ou quarenta e cinco dias de navio que apagou a sua especificidade, a sua diferença. Identidade é o reconhecimento social da diferença e ela aparece no conflito das culturas.</p>
<p>Não é o momento de teorizar a questão da identidade. É preciso historiar o sangue nas veias, alguns fatos, o tempo da ocupação do lugar chamado Espírito Santo, no Brasil, para que se possa avaliar a importância e dimensão deste acontecimento. O tempo desta aventura durou somente vinte anos, ressaltando-se que, no dia vinte de julho passado, completaram-se cem anos da proibição, por parte do governo italiano, da imigração para aquela então província. O que motivou tal proibição foi a instalação de imigrantes, na sua maioria lombardos, no núcleo Muniz Freire às margens do caudaloso Rio Doce. O representante consular caracterizou a iniciativa como um desastre. Foi o último.</p>
<p><b>4. Núcleo Muniz Freire: centenário de um fracasso</b></p>
<p>&#8220;No dia 15 do corrente mês chegaram a Vitória 14 famílias de colonos italianos, constituídas por 30 pessoas ao todo, entre as quais três senhoras gravemente doentes, (que mandei tratar gratuitamente no hospital) e as outras sofredoras febris pelas privações e fadigas sofridas.</p>
<p>Elas provinham do núcleo colonial Muniz Freire situado no Rio Doce, que foi criado no final do ano passado (1894) com aproximadamente 450 colonos italianos recrutados por conta deste Estado através da companhia de navegação &#8220;La Veloce&#8221; em várias províncias e especialmente na comune de Sannazzaro de&#8217;Burgondi, que contribuiu com 44 famílias.</p>
<p>Os sobreviventes me contam que a sua colônia (que lhes foi destinada depois que passaram dois meses num barracão esperando que fosse feita a medição dos lotes) estava num lugar tão próximo do rio e tão baixo que, com as primeiras chuvas, as águas a inundaram e invadiram as barracas, mesmo construídas sobre palafitas com a altura de um metro do chão.</p>
<p>De repente se desenvolveram as febres e outras doenças e a mortalidade foi tão grande que se calcula que pelo menos um quinto dos colonos morreu.</p>
<p>Nesta terrível situação faltavam socorros. Nenhum agente do governo visitou a colônia. O médico não ia até os doentes e somente distribuía os remédios permanecendo no barracão: naturalmente quando o doente não podia ir até o doutor, ninguém sabia pedir a este último os remédios necessários.</p>
<p>Era grande a dificuldade de procurar os mantimentos, porque, com a inundação, era preciso ir de canoa ao barracão de depósito: além disso, os preços dos gêneros de primeira necessidade eram absolutamente exagerados.</p>
<p>Os colonos resolveram pedir, como era de direito, para serem transferidos para outra colônia situada em melhor condição. Não satisfizeram a este pedido; ao invés, disseram que os colonos estavam desvinculados de qualquer contrato, mandaram o médico ir embora; e deixaram vazio o depósito de mantimentos: assim que, nos últimos dez dias os colonos sofreram fome e se sustentaram com um pouco de farinha e feijão estragados misturados com alguma erva colhida.</p>
<p>Começou então o êxodo dos pobres italianos: com seus poucos trastes se dirigiram às colônias de Alto Bérgamo, Santa Cruz, Pau Gigante, Conde d&#8217;Eu, procurando os meios de viagem, vendendo, pouco a pouco, a preço vil, os seus pertences.</p>
<p>O grupo de quatorze famílias aqui chegado preferiu vir procurar trabalho nesta cidade e eu já me dispus a procurar para todos um abrigo gratuito; e espero que os homens apenas recuperados da saúde sejam contratados como operários na construção do quartel de polícia.</p>
<p>Somente duas famílias ficaram em Muniz Freire, porque não conseguiram absolutamente arranjar meios para a viagem. Não deixei de recomendá-las ao Senhor Presidente do Estado que declarou que lhes oferecerá transporte para o lugar a que quiserem ir.</p>
<p>Por brevidade deixo de repetir os depoimentos que obtive dos retirantes no que diz respeito à desorganização dos serviços públicos na colônia, onde faltava completamente aquele serviço do estado civil, às durezas de alguns feitos empreiteiros dos produtos alimentícios e dos instrumentos de trabalho, aos abusos que se verificam pelo fato de que os trabalhos executados pelos colonos por conta do Governo são pagos com bônus que não podem ser resgatados senão perderem 50% do valor.</p>
<p>Possa o triste fim da colônia Muniz Freire, que custou tantas vidas de nossos conacionais, conduzir-nos a um severo e previdente sistema de colonização, por meio do qual seja sempre barrado o caminho de renovação de tão dolorosos desastres.&#8221;</p>
<p>Com estas palavras, o cônsul italiano em Vitória, Dall&#8217;Aste Brandolini fazia o seu relatório mostrando o abandono em que se encontravam os imigrantes, desta vez, pelo governo brasileiro. O governador do já então estado republicano reagiu respondendo às nove razões apresentadas pelo cônsul visitante Carlos Nagar: Devo reconhecer que há fundamento nas três primeiras acusações, mas todas as outras não resistem à mais ligeira análise (Torres Filho, p. 362). Acusações a mais ou acusações a menos, o fato era que &#8220;a vaca tinha ido para o brejo&#8221; segundo um ditado popular brasileiro. Em bom português dizia o decreto do rei italiano:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>O Real Ministério do Interior, informado de que no estado do Espírito Santo, quer pela maneira como está regulamentado o serviço de imigração, quer pelas condições econômicas, climatológicas e higiênicas da região, aqueles que para lá emigram vão de encontro a danos e prejuízos certos e gravíssimos, decreta: Fica proibido até nova ordem aos agentes e subagentes fazer operações de emigração pelo porto de Vitória e, em geral, pelo estado do Espírito Santo. (Rizzeto, p. 23)</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Consumado o ato, a imigração não estancou de repente. Ainda chegaram alguns navios derramando emigrantes pelos portos do Espírito Santo como se comprova nos livros da Hospedaria de Imigrantes.</p>
<p><b>5. Breves notícias da província</b></p>
<p>O Brasil era composto de vinte províncias e a do Espírito Santo era das menores. Só perdia em tamanho para Sergipe. A &#8220;Breve notícia descritiva sobre a Província do Espírito Santo &#8221; mandada imprimir em 1878 como propaganda para atrair emigrantes estrangeiros dizia que sua superfície total era calculada em 39 mil Km2 e sua população era de 96.475 habitantes, com a média de 2 habitantes por quilômetro quadrado. Vinte anos depois Élisée Reclus afirma na sua Géographie universelle, de 1895, que o agora estado republicano do Espírito Santo mede 44.839 Km2 e tem uma população provável de 200 mil habitantes. Alfredo Cusano apresenta outra versão destes dados: &#8220;Ho detto piccolo, ma avrei dovuto dire piccolíssimo, perchè misura appena 44.839 chilometri quadrati di superficie e, se non fosse lo staterello di Sergipe che ne ha 39.090, sarebbe il più piccolo del Brasile&#8221; (p. 317). E manifesta sua admiração que um estado tão modesto em comparação com o Paraná cinco vezes maior tivesse 50 mil italianos enquanto o outro contava apenas 25 mil. Não há dúvida que o Espírito Santo apresenta a maior concentração de descendência italiana no Brasil, entre 60 e 70%. Hoje deve-se acreditar que o Espírito Santo tenha 45.597 Km2 e uma população de 2.665.042 habitantes segundo o IBGE. Em superfície é pouco menor que o Vêneto e a Lombardia juntos. Em relação ao Brasil ocupa 1/186 avos do território nacional.</p>
<p>O que aconteceu nesta estreita faixa situada no sudeste brasileiro? Ela servia de barreira natural protetora das minas gerais de ouro e de minério. No início de 1700 um jesuíta italiano sob pseudônimo de André João Antonil escreveu um livro a que deu o nome de Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Este anônimo toscano era Giovanni Antonio Andreoni que, tendo publicado o livro em 1711, viu-o imediatamente recolhido por ordem de Dom João V de Portugal e proibido de circular porque, como se diz no Brasil, estava &#8220;entregando o ouro aos bandidos&#8221;. O livro ensinava como fazer açúcar de cana, plantar e beneficiar o tabaco, tirar ouro das minas e descobrir as de prata, cuidar de grandes fazendas de gado e utilizar a indústria do couro.</p>
<p>Era justo que os estrangeiros jamais devessem ter notícia disto, assim como hoje querem saber tudo que o Brasil tem no seu vasto território, sobretudo na Amazônia.</p>
<p>O Espírito Santo de 1870 possuía no seu litoral atlântico somente três cidades e dez vilas. O resto era uma barreira de matas virgens com índios e febres malignas para quem a quisesse enfrentar ou transpor. Sua agricultura era de subsistência. Com relação à indústria produzia cal, tijolos, telhas e peixe salgado para consumo interno. Dentro da política geral de imigração para o Brasil, o que a &#8220;Breve notícia&#8221; dizia da província era que:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>O desaparecimento gradual e constante que se vai operando na população escrava e a falta de braços livres que substituam os dos cativos, são por certo a causa principal do pouco desenvolvimento da lavoura, que se acha ali circunscrita aos vales dos grandes rios e às terras adjacentes à parte navegável daqueles cursos d&#8217;água.<br />
Tem contribuído igualmente para a marcha lenta da agricultura a extração de madeiras, e de outros produtos naturais, visto a lavoura exigir inteligência, trabalho e constância por parte do homem, enquanto que esses produtos se apresentam de modo espontâneo à extração e oferecem ao mercado um gênero de troca fácil, rendoso e independente de qualquer esforço ou empate de capital (p. 6).</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Os dois parágrafos anteriores resumem os dois grandes problemas que a província e o Brasil deviam enfrentar, isto é, o problema da abolição da escravatura com a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre; e a vocação agrícola do Brasil com a carência de qualidades nesta área, substituída pelo extrativismo dos bens naturais.</p>
<p>Isto calhava perfeitamente para o trentino Pedro Tabachi que se estabeleceu no Espírito Santo por volta de 1850 e prosperou rapidamente em seus negócios. De sua fazenda em Santa Cruz chamada &#8220;Morro das Palmas&#8221;, onde extraía jacarandá — a mais preciosa das madeiras de lei do Brasil — projetou a introdução de 56 famílias de compatriotas seus. Tencionava fundar uma Nova Trento em contratos de parceria. Foi um desastre e foi o primeiro com austríacos de cultura italiana em 1874 (Grosselli, p. 150). Tabachi era extrativista e sua fazenda não se destinava especificamente à agricultura. Talvez por isso tenha fracassado. No inventário deixado por sua morte em junho de 74 ainda não foram apontados seus 60 bois de canga, todos portadores de lindos e poéticos nomes próprios brasileiros, nem as 32 cangas respectivas que indicam uma atividade extrativista. Também no espólio do falecido, entre os muitos pertences, o escrivão apontou a propriedade de quatro escravos, seus nomes e respectivos valores em mil réis.</p>
<p><b>6. Primeiro problema: a escravatura</b></p>
<p>A escravatura não era o problema mais sério que o Espírito Santo devesse enfrentar porque quase não possuía fazendas e tinha uma reduzida população. Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo contam igualmente poucos cativos, dizia Tavares Bastos (p. 163). Não devia ter mais de 2% da população total. Enquanto em toda a América já se abolira a escravidão, no Brasil, ela vai continuar, oficialmente, até 13 de maio de 1888. Em 1850 a Inglaterra impôs sanções ao tráfico de escravos da África. Em 1871 é sancionada a lei do ventre livre que declara libertos todos os filhos nascidos de escrava a partir daquela data. Em 1885 aprovam a lei dos sexagenários. Rapidamente já se havia invertido uma situação: os fazendeiros dos estados do norte do Brasil vendiam os escravos para as grandes fazendas de café do RJ e SP. Atingida mortalmente a situação do trabalho escravo, corria perigo a vocação agrícola do país já que a indústria não existia. O que assustava também os donos do poder no Brasil era a vastidão do seu território deserto. Isto ficou patente quando o Paraguai invadiu a região brasileira vizinha e semi-deserta. Bem tardiamente o neto de Dom Pedro II reconheceu o erro de uma abolição progressiva. &#8220;O Brasil teria obrado com prudência se logo após a proclamação da independência (1822) houvesse decretado a abolição imediata desse regime como fizeram as repúblicas hispano-americanas (p. 15)&#8221; dizia Dom Luiz de Orléans e Bragança quando visitou o Rio de Janeiro em 1913 e não pode saltar do navio por estar ainda em vigor a lei do banimento.</p>
<p>A guerra do Paraguai de 1864 a 1870, mesmo vencida pelo Brasil, mostrou ainda mais as mazelas de sua estrutura social. No prefácio de seu livro dedicado ao imperador dizia o general Couto de Magalhães: &#8220;S. A. Real, comandando nosso exército na guerra do Paraguai, viu nos homens de cor, de que compunha a quase totalidade dos praças de pré, um transunto da população operária do Brasil&#8221; (p. 23). Em outras palavras, o Brasil venceu a guerra do Paraguai com um exército de negros e escravos aos quais prometia a liberdade. Quem saiu escravo voltou herói. O cumprimento das leis antiescravagistas, a guerra do Paraguai e todos os defeitos de um governo centralizador que pretendia dirigir do Rio de Janeiro as complexas operações de um serviço disseminado por tão vasto país (Bastos, p. 180) criou um certo pânico entre os grandes fazendeiros. Dom Pedro II e seus ministros recorriam aos notáveis do império fazendo consultas e questionamentos que eram respondidos em longos pareceres e mesmo em livros volumosos. Antônio Rodrigues Velloso d&#8217;Oliveira respondeu com a &#8220;Memória sobre a agricultura no Brasil&#8221;. João Cardoso de Menezes e Souza publicou <i>Teses sobre a colonização no Brasil</i>. O general Couto de Magalhães escreveu suas pesquisas linguísticas e experiências de pioneirismo em <i>O selvagem</i>. E assim outros mais que traçam um panorama da época.</p>
<p><b>7. Segundo problema: a vocação agrícola do Brasil</b></p>
<p>Velloso d&#8217;Oliveira começa dizendo ao Imperador: &#8220;No Brasil tudo se acha por fazer&#8221; (p. 94) e vai responder à questão da terra, dos colonos e do sistema de trabalho. &#8220;A primeira ideia que se oferece aos colonos de qualquer país, é sem dúvida a divisão de terras&#8221;(p. 91). Defende que cem geiras de terras bem cultivadas, com sua casa, forneceriam sem dúvida a uma destas famílias meios bastantes para a mais frugal e cômoda subsistência e ao mesmo tempo as devidas proporções para pagar a renda ao proprietário e os tributos ao Estado. Diz o conselheiro que, estabelecendo 10 mil casais para esta Corte, eles forneceriam aos habitantes da mesma Corte a maior fartura de legumes, hortaliças, batatas e frutas e tudo o mais. Quanto aos colonos, sugere sejam arrebanhados casais das capitanias do RJ, SP e MG. Diz que há também oportuno e conveniente remédio na Europa para este problema. &#8220;Os povos da Europa suspiram pelo momento de abandonar os seus antigos lares e de virem engrandecer a América&#8221;(p. 113). E dizia mais: &#8220;É fácil conceber que a povoação do Brasil receberia sucessivamente mui grande acrescentamento logo que a liberdade de consciência ou a tolerância dos cultos se ofertasse a todos os povos da Europa&#8221; (p. 114). Esta era uma das questões pela qual o Brasil era difamado na Europa, sobretudo na Alemanha. O conselheiro defende o trabalho do homem livre cuja origem reside no interesse particular e que dá melhores resultados. &#8220;Nunca desfrutaremos estes bens enquanto os nossos trabalhos agrários forem feitos pelas mãos de escravos desgraçados; porque, não tendo eles pátria, família, propriedade, nem mesmo interesses particulares, fazem consistir a sua felicidade na inércia, no ócio e, melhor ainda, no sono, que os torna indiferentes à sua triste condição&#8221; (p. 115). Que os fazendeiros de São Paulo queriam tratar os colonos de parceria como escravos não há a menor dúvida. Consulte-se a experiência descrita por Thomas Davatz. Como podia prosperar um país onde os seres humanos não tinham dignidade, isto é, cidadania e identidade? &#8220;É de absoluta e indispensável necessidade que Vossa Alteza Real faça os maiores esforços para o aumento da povoação e cultura deste grande país, porque de nada serviria o mundo inteiro, achando-se deserto e inculto. A sábia natureza dotou o Brasil de qualidades relevantes para a independência e prosperidade mais venturosa de uma nação grande, poderosa e rica&#8221; (p. 109). A utopia da grande nação e a inveja dos Estados Unidos da América esteve sempre e fortemente presente na cabeça dos governantes do Brasil.</p>
<p>Outro conselheiro do Imperador foi o general Couto de Magalhães. Possuindo o Brasil as duas maiores bacias hidrográficas do planeta o general recebeu o encargo de estabelecer a navegação livre entre as duas, integrando o Brasil e semeando colônias e postos militares às margens dos grandes rios. É o general autor do clássico <i>O selvagem</i>, obra que Dom Pedro II encomendou com o objetivo de ser apresentada na quarta Exposição Universal de Filadélfia de 1876, como de fato o foi pelo próprio Imperador. O general defendia a tese de que &#8220;povoar o Brasil não quer dizer somente importar colonos da Europa&#8221; (p. 22). Achava que os brasileiros resultantes do cruzamento das três raças, índio, negro e português, eram homens melhor aclimados ao solo e habituados à vida semibárbara dos sertões brasileiros. Foram, inclusive, diz ele, condições essenciais à vitória do Brasil na guerra do Paraguai. O livro O selvagem traz como ementa os seguintes dizeres:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Conseguir que o selvagem entenda o português, o que equivale a incorporá-lo à civilização, e o que é possível com um corpo de intérpretes formados das praças do exército e armada que falem ambas as línguas, e que se disseminariam pelas colônias militares, equivaleria a: 1º Conquistar duas terças partes do nosso território. 2º Adquirir mais de um milhão de braços aclimados e utilíssimos. 3º Assegurar nossas comunicações para as bacias do Prata e do Amazonas. 4º Evitar no futuro grande efusão de sangue humano e talvez despesas colossais, como as que estão fazendo outros países da América.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Sua preocupação com o índio era porque ele dominava todo o centro do Brasil e as regiões mais férteis. Podendo irromper para qualquer lado contra as populações cristãs, (o selvagem) é o embaraço para os progressos do povoamento do interior e é um perigo que crescerá na proporção em que eles forem ficando apertados (p. 25). Quando diz &#8220;incorporar o selvagem à civilização&#8221; o general traça o destino histórico desta etnia em dois únicos caminhos: o do intérprete e o do derramamento de sangue. Precisava de militares, missionários e intérpretes. O missionário capuchinho Savino da Rimini deixou o relato desta sua experiência com o general Couto de Magalhães no livro <i>Tra i selvaggi dell&#8217;Araguaya</i>. Quem estava derramando sangue humano com genocídio indígena eram a Argentina, o Chile e sobretudo Os Estados Unidos. Os norte-americanos caçavam com cães os índios Peles Vermelhas e trucidavam barbaramente os homens de cor como se tratasse de extinguir alcatéias de feras (Souza, p. 36). Veja-se, para tanto, a esquecida importância dos <i>squatters </i>na colonização norte-americana e também as cenas dos filmes de faroeste que povoam a imaginação dos espectadores ocidentais centrando o clímax da ação na matança dos índios.</p>
<p>Se o conselheiro Velloso d&#8217;Oliveira dizia que a indústria procede do aumento da povoação e daí o maior giro de moeda circulante e crédito, como conseqüência, haveria mais comércio com a Inglaterra e o Brasil levaria vantagem sobre os Estados Unidos e a Rússia, também o autor das teses sobre colonização vai desenvolver a ideia e a vocação de grandeza do Brasil. Há em todos os conselheiros uma escondida inveja dos Estados Unidos pelo sucesso de suas idéias liberais acompanhadas de notáveis realizações industriais. O livro Teses se abre com um jogo de estatística mostrando porque os Estados Unidos eram já uma grande potência. Primeiro por causa de maciça imigração promovida e o modo como era feita. &#8220;Graças ao movimento emigratório, a população dos Estados Unidos que dobra de 26 em 26 anos, formará dentro de 35 anos uma nação de 100 milhões de habitantes&#8221;. E o conselheiro Menezes e Souza acertou. Reclus afirma que em 1896 os Estados Unidos tinham 96 milhões de habitantes. Menezes e Souza chama os Estados Unidos e a Rússia de &#8220;esses dois colossos&#8221; e diz que o domínio universal tem de ser concentrado nas mãos de dois gigantes (p. 39). Daí a ideia de aumentar a população do Brasil por todos os meios. Velloso d&#8217;Oliveira sugere ao Imperador a promoção de casamentos e a proibição do celibato como um delito (p. 122). Sugere também proibir-se o celibato dos soldados nas colônias militares, bem como o dos padres. Que os padres, além da instrução religiosa, ministrassem a instrução civil e agrícola. O mesmo dizia dos magistrados. Sugeria a introdução de camelos nas regiões áridas do nordeste brasileiro, questão que foi tema da escola de samba campeã do carnaval do Rio de Janeiro neste ano de 1995.</p>
<p>Aos 13 de dezembro de 1873 o ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas encomendava ao conselheiro João Cardoso de Menezes e Souza um &#8220;plano para se promover no país a emigração e colonização que, aumentando a sua população válida e laboriosa, dê lugar a que se desenvolva pelo trabalho, maxime o da lavoura, a riqueza pública e particular e os muitos elementos de grandeza e prosperidade, que encerra o território nacional&#8221;. Depois de dois anos saiu o volume com mais de 450 páginas. Eram oito os obstáculos que desviavam do Brasil a corrente imigratória com uma reação em cadeia, de prejuízos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>I<br />
A falta da liberdade de consciência; a não existência do casamento civil como instituição, imperfeita educação, a ignorância e a imoralidade do clero; a ambição de mando temporal por parte do Episcopado Brasileiro, traduzindo-se na luta impropriamente chamada – questão religiosa.<br />
<span style="font-size: 90%;">II</span><br />
A insuficiência do ensino e principalmente a ausência de instrução agrícola e profissional.<br />
<span style="font-size: 90%;">III</span><br />
O diminuto número de instituições de crédito, especialmente de bancos destinados a auxiliar a pequena lavoura e indústria.<br />
<span style="font-size: 90%;">IV</span><br />
As restrições e estorvos, que a Legislação e a Pública Administração do Império põem à liberdade de indústria, peando, em vez de desenvolver, a iniciativa individual.<br />
<span style="font-size: 90%;">V</span><br />
Os defeitos da lei de locação de serviços e dos contratos de parceria com estrangeiros; as lacunas e a inexecução da lei de terras públicas e a não existência do imposto territorial sobre os terrenos baldios e sem edificação.<br />
<span style="font-size: 90%;">VI</span><br />
A falta de transportes e de vias de comunicação, que liguem o centro e o interior do Império aos mercados consumidores e exportadores.<br />
<span style="font-size: 90%;">VII</span><br />
A criação de colônias longe desses mercados e em terreno ingrato e não preparado, bem como a falta de providências para a recepção dos emigrantes e colonos nos portos do Império e para seu estabelecimento permanente nas colônias do Estado, ou nos lotes de terras, que compram.<br />
<span style="font-size: 90%;">VIII</span><br />
A incúria em fazer conhecido o Brasil nos Estados, donde procede a emigração, de que necessitamos, e em refutar, por todos os meios de bem entendida publicidade e por penas hábeis e desinteressadas os escritos, por meio dos quais naqueles Estados nos deprimem, exageram nossos erros em relação aos emigrantes e nos levantam odiosos aleives.</p>
<div style="text-align: right;">
(Menezes e Souza, p. 31 e 32)</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Depois de tecer longas considerações sobre cada um destes oito obstáculos o conselheiro conclui que, no Brasil, não há plena liberdade religiosa, industrial e civil. Por estes motivos é que os emigrantes preferiam os Estados Unidos e a Argentina. Então, que país pode fornecer melhores emigrantes e quais melhor se adaptariam ao Brasil? A resposta é: o alemão. A Alemanha deve ser o viveiro da imigração para o Brasil (p. 405). E dizia isto porque a colônia de São Leopoldo no RS foi uma das poucas, entre tantas, que prosperou. Tudo o mais eram dificuldades e obscurantismo que a proclamação da República em 1889 procurou sanar, legalmente, com uma nova constituição.</p>
<p>Como os espanhóis, dizia Menezes e Souza, são os genoveses notáveis na arte de ajardinar e os piemonteses excedem os outros seus compatriotas na indústria de construção de casas e estradas. No Brasil, se entregam a pequenas indústrias e, ultimamente, à mascateação, na qual, graças a uma perseverança fora do comum e extrema sobriedade nas despesas, conseguem acumular capitais, e às vezes regular fortuna. Vê-se claramente que não eram estes os trabalhadores de que o Brasil precisava. Segundo uma linguagem atual, não eram operários que se enquadrassem no perfil da grande empresa agrícola brasileira. Os italianos acima mencionados &#8220;não são auxiliares para a agricultura&#8221; (p. 409).<br />
<b><br /></b><br />
<b>8. O pioneirismo do Espírito Santo</b></p>
<p>Entre a proibição europeia alemã e o início da emigração italiana houve um pequeno interregno, suficiente para se fazer notar, com a presença de imigrantes austríacos (tiroleses) de cultura italiana. O Espírito Santo sediou o primeiro grupo pioneiro trazido por Pedro Tabachi em fevereiro de 1874 no navio <i>Sofia</i>, de 386 pessoas. Em maio de 1875 chegam no <i>Rivadavia </i>mais 315 trentinos. O <i>Fenelon </i>de bandeira francesa partido do Havre trouxe, em 27 de dezembro de 1875, 66 famílias com 412 pessoas. Em 24 de fevereiro de 1876 o <i>Mohely </i>chegou com 274 imigrantes. E cessaram os tiroleses trentinos em levas de aglomerado.</p>
<p>Em 26 de outubro de 1876 começam a chegar os verdadeiros italianos da Lombardia, 744 imigrantes; chegou o navio <i>Italia</i>, agora partido de Gênova com 873 imigrantes e não mais partido da França em navios com bandeira daquela nacionalidade. Depois vieram 280 provenientes do Rio de Janeiro no <i>Werneck</i>, 355 no <i>Isabella </i>de Gênova, 328 no <i>Columbia</i>, 221 no <i>Ester</i>. O navio <i>Columbia </i>trouxe 278 vênetos no dia 15 de agosto de 1877, o <i>Isabella </i>mais 473 vênetos, o <i>Clementina </i>879 italianos das várias regiões do norte. E as remessas não pararam até 1895-96.</p>
<p>Como na prática a teoria é diferente, tais fatos vieram desmentir a afirmação do conselheiro Menezes e Souza ao concluir que os italianos não eram auxiliares para a agricultura. Era exatamente o contrário do que afirmava. Tais imigrantes eram os que melhor se encaixavam no perfil empresarial de um país agrícola.</p>
<p>O estabelecimento por aglomeração que deu os melhores resultados nos Estados Unidos da América deu também ótimos resultados no Espírito Santo . Vinham todos em grupo de uma mesma região da Itália e mantinham fortes relações familiares de amizade, vizinhança e mútuo apoio. Às vezes eram vilas inteiras. Isto explica porque um trevisano com mulher e filha de dois anos se arranca sozinho de Cordignano, em 1880, e vem se estabelecer num pequeno pedaço de floresta no Espírito Santo . Dos 275 fundadores do núcleo Santa Cruz (Ibiraçu), 101 eram de Cordignano e os outros, dos arredores. Mais do que pelo processo de aglomeração, o que fez com que os núcleos prosperassem é que os vênetos, e pouco antes os tiroleses, eram ou tinham sido pequenos proprietários agrícolas, eram todos católicos e sem os embaraços que a legislação brasileira criava para os países protestantes. Os vênetos em maioria absoluta no Espírito Santo foram os que melhor realizaram o seu projeto existencial (Bernardi, p. 15). Com os seus valores de continuidade e de comunidade os vênetos souberam, mesmo com todas as adversidades do meio-ambiente, &#8220;ajuntar a fome com a vontade de comer&#8221; quer no Espírito Santo quer nas províncias do sul do Brasil.</p>
<p>Este grande contingente de imigrantes era constituído de parceiros nas pequenas fazendas do sul e os demais foram estabelecidos em pequenas propriedades a que davam o nome de prazo ou colônia. Quando se fala de imigração italiana, costuma-se tomar como exemplo o estado de São Paulo e se esquece a especificidade de outros lugares. Daí nascem muitos equívocos. Colônia em SP designa um aglomerado de casas próximas umas das outras ou enfileiradas, dentro de uma grande fazenda com a finalidade de abrigar os trabalhadores rurais (Truzzi, p. 61). No Espírito Santo, colônia é uma pequena propriedade delimitada no meio da floresta com um tamanho estipulado em lei de 1867. Havia três classes de lotes rústicos. A que predominou no Espírito Santo foi a de 62.500 braças quadradas ou 302.500 m². Media 275 metros de frente para um rio ou pequeno rio, de modo que todas tivessem aguada, e 1.100 metros de profundidade, limitando-se em geral, com terras montanhosas ou devolutas.</p>
<p>Possuir um pedaço de chão para plantar e tirar dele o próprio sustento era a mais profunda aspiração dos camponeses vênetos. Feita a derrubada no meio da floresta, o colono tinha seis meses para construir sua casa e iniciar as plantações. Só começava a pagar a terra depois de dois anos. Daí o nome de prazo. Nos três primeiros anos os imigrantes não podiam fazer comércio no sentido de criar estabelecimento comercial. Não podiam ir morar nas pequenas vilas ou cidades.</p>
<p>Houve, na década de setenta do século passado, cinco tentativas abortadas de imigração para fazendas pelo sistema de parceria. Não deram certo a de Pedro Tabachi, a do Sr. Milagres, a de Simão Rodrigues Soares, a de Narciso da Costa Pinto e a do coronel Manoel Ribeiro Coutinho Mascarenhas. As fazendas na parte sul do estado acabaram todas sendo divididas em lotes coloniais. O que instigava os camponeses italianos era a enormidade dos espaços vazios.</p>
<p>O projeto colonizador no Espírito Santo assinala a presença de açorianos na colônia de Santo Agostinho, hoje Viana, nas proximidades de Vitória em 1812. Em 1847, alemães da Prússia fundam Santa Isabel. Em 1854 se funda a colônia de Rio Novo. Em 1856 cria-se a colônia de Santa Leopoldina com holandeses, suíços e alemães pomeranos. Dentro desta última colônia vão ser fundados os núcleos de Timbuí (Santa Teresa) em 1875 por austríacos trentinos e, em 1877, o núcleo de Santa Cruz (Ibiraçu) este sim ocupado por italianos Vênetos.</p>
<p>A primeira fase de ocupação do território capixaba por italianos vai de 1874 até 1885. Dez anos após a chegada dos primeiros colonos também os filhos dos imigrantes maiores de dezoito anos tinham o direito de receber um lote de terra nas mesmas condições que os pais. Inicia-se uma retomada. Fundam os núcleos Acióli Vasconcelos 1887, Senador Prado 1887 e Santa Leocádia 1887. Criam-se os núcleos Costa Pereira 1889, Afonso Cláudio 1890, Demétrio Ribeiro 1891, Nova Venécia 1892, Muniz Freire 1894, todos no interior.</p>
<p>Na primeira fase o sistema central viário privilegiava os portos do mar e contava com, pelo menos, treze rios navegáveis. Tão logo começaram os sistemáticos desmatamentos também foram sendo notadas as dificuldades das estradas. Ocupados os espaços mais litorâneos com os núcleos pioneiros, os imigrantes recém chegados na segunda fase, sempre em maior número&nbsp;<span style="font-size: 13.6px;">—</span>&nbsp;tiveram que ir mais para o interior. Com isso passavam pelas localidades dos pioneiros e tomavam coragem pelo que viam. Já não eram mais levas unitárias ou aglomerados de duzentos ou trezentos colonos de uma só vez. Os navios <i>Adria </i>e <i>Birmânia</i>, verdadeiros transatlânticos, traziam 1.425, 1.530 pessoas atraídas do Vêneto, da Lombardia, do Piemonte, da Régio Emilia etc. Chegando ao Espírito Santo eram repartidos pelos os portos de Vitória, Santa Cruz, São Mateus, Guarapari, Benevente, Piúma, Itapemirim.</p>
<p>Na segunda fase de interiorização começam a surgir outros problemas. Já não são suficientes as vias navegáveis mas o tráfego terrestre por caminhos primitivos e com frequência intransitáveis. Para ficar em dois exemplos: Alto Bérgamo 1892, estava situada nas cabeceiras do rio Pau Gigante, isolada por uma sesmaria particular pertencente a um tal Coelho Rodrigues. Quando os imigrantes queriam vir a Demétrio Ribeiro ou Ibiraçu deviam atravessar uma estrada que era um verdadeiro túnel na floresta. Quando chovia levavam três horas a cavalo para chegar à vila de Pau Gigante (Ibiraçu). Arrigo Zettiry descreve magistralmente como se viajava de Santa Leopoldina, porto fluvial, até a Santa Teresa montanhosa. As estradas não mereciam este nome mas o nome brasileiro de picadas onde os viajantes são obrigados a ir um atrás do outro.</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Non di rado il viaggiatore che s&#8217;intoppa in una tropa che viaggia nella stessa direzione, per molto tempo è costreto a seguirla al suo passo lentissmo, perchè non há modo di oltrepassarla a causa della ristrettezza del sentiero, in tutta la sua larghezza occupato dalle mule che di qua e di là della soma trasportano ingombranti carichi. Appena da lungi si scorge una maggior larghezza del sentiero, che permetta al cavaliere di fiancheggiare le some, è necessário affrettarsi a raggiungere la testa della truppa, prima che la mula che apre la marcia imbocchi il sentiero, che poco di poi torna a diventare angusto, onde non essere condannati a una nuova ora di indugio (p. 31).</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Diz Zettiry que para percorrer a distância de 30 quilômetros levou dez horas a cavalo. Tempos heroicos!</p>
<p>O rio Doce, com quase um quilômetro de largura, divide o Espírito Santo ao meio. O projeto histórico de torná-lo útil à navegação jamais foi conseguido. Somente em 1928 foi construída uma ponte na região de Colatina e a partir daí iniciou-se a ocupação tardia de uma vasta região de floresta ao norte do Estado. Ainda nesta época foram localizados índios botocudos na região. Mas foram sobretudo os descendentes de italianos que a ocuparam. Em 1960 o governo brasileiro promoveu uma política de erradição dos cafezais. Colatina foi, em 56, o município maior produtor de café do país. Com a erradição, milhares de pequenas propriedades se tornaram pastagens. Vinte mil famílias capixabas emigraram, por sua vez, para os estados do Paraná, São Paulo e Rondônia. As consequências daqueles 20 anos de colonização fazem a atual história do Espírito Santo.</p>
<p>O pequeno estado não é mais província. Tornou-se o corredor de exportação do centro leste brasileiro sediando um vasto complexo portuário e um polo industrial relevante.<br />
<b><br /></b><br />
<b>9. Cidadania e identidade</b></p>
<p>Passados estes 120 anos, verifica-se no Espírito Santo uma tendência <i>sui-generis</i>: uma quantidade considerável, sobretudo de jovens, descendentes daquele camponeses italianos, na universidade, nas empresas e em todos os ramos da atividade pública, requer no vice-consulado honorário ou nas entidades de cultura italiana, que se multiplicam como cogumelos nas pequenas vilas e municípios, a dupla cidadania. Ser ou não ser cidadão é uma questão de auto-estima, é uma questão de identidade. Os jovens do Espírito Santo e do Brasil não têm uma perspectiva sombria a respeito do seu próximo futuro e do terceiro milênio. São mais pragmáticos que idealistas. Como se um fósforo riscado ateasse fogo num palheiro, alastrou-se a febre de procura pela cidadania italiana. Não são poucos. O Espírito Santo deve ter mais de um milhão e meio de cidadãos brasileiros que, virtualmente, pelo <i>ius sanguinis</i> têm direito à dupla cidadania. Calcula-se que o Brasil tenha mais de dez milhões nesta condição. O que não é um problema para o estado e para o país pode tornar-se um sério problema para a Itália.</p>
<p>Mas o problema da dupla cidadania deve ser discutido em nível político e diplomático. São, afinal, direitos e deveres consignados nas respectivas constituições dos dois países.</p>
<p>O fenômeno interessante que está por trás desta procura e demanda é a questão da identidade ítalo-capixaba. Quem nasce no Espírito Santo é espírito-santense. Capixaba é o patronímico dos nascidos na ilha de Vitória que é a capital do estado e que, por extensão, se aplica a todos os nascidos no Espírito Santo.</p>
<p>Há uma procura desenfreada em todas as localidades por saber quando e em que navio chegou o avô ou bisavô. Poucos distinguem o que é ser trentino, vêneto, lombardo, piemontês, siciliano etc. Corre-se ao Arquivo Público do Estado do Espírito Santo recentemente descoberto como patrimônio documental digno do maior apreço. Todas as tentativas são feitas por saber de que comuna provém o antepassado. Há contínuos sobressaltos e desilusão em não se ter mais o velho passaporte, uma carta, um documento sequer que restabeleça o cordão umbilical com a pátria mãe. Se os antepassados não foram náufragos da esperança de fazer do Brasil sua verdadeira pátria, os netos e bisnetos não desistem de procurar suas verdadeiras raízes. Mesmo quando verificam que o nome paterno, de origem, sofreu dez, doze alterações nos registros de cartório e certidões de nascimento, casamento e morte, alterações na grafia, recorrem a advogados para que procedam à retificação. Os nomes numa sociedade que começa inculta e agrária está mais para uma Babel que qualquer outra coisa.</p>
<p>Muito mais que a cidadania há, por trás desta procura incansável, uma das aspirações mais legítimas do ser humano, que transcende a razão e mexe com a emoção, o inconsciente e a vida. Há uma busca tenaz da identidade. Mantêm-se quase que inalterados os múltiplos traços de uma cultura que não morreu: a cultura italiana. O aglomerado de etnias num mesmo local não as apagou como podem pensar. Não as empobreceu. Tais culturas enriquecem as relações humanas.</p>
<p>Passou-se de uma vida rural para uma vida citadina. Mudou-se de uma economia doméstica de consumo próprio para uma economia monetária de grande consumo. Alterou-se a estrutura da numerosa família tradicional para a pequena família encaixotada nos prédios urbanos. Nada disto parece arrefecer a força do passado e a procura da identidade, da irmanação, da solidariedade no trabalho, tão forte nos jovens brasileiros. Entendem que não basta ser cidadão de um país mas cidadãos do mundo. O jovem do Espírito Santo sabe que não é a polenta, o vinho, a canção ou a saudade dos &#8220;nonnos&#8221; que o fará italiano ou brasileiro. É mais. É um patrimônio de vida e de cultura legado pelos antepassados que não vai perder-se através do tempo, mas vai firmar-se na História.<br />
<b><br /></b><br />
<b>10. Bibliografia</b></p>
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<p>[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Apresentado no Seminario internazionale DAL PIEMONTE ALLO STATO DI ESPIRITO SANTO, Torino, 22-23 settembre 1995. Fondazione Giovanni Agnelli. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1992&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p>
<div>
</div>
</blockquote>
<p></p>
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		<title>Capítulo VI &#8211; A imigração italiana e o I centenário de Ibiraçu (1877-1977)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 19:09:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Imigração Italiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ibiraçu comemora, no ano de 1977, o seu primeiro centenário. Aos 15 de agosto de 1877 desembarcavam no porto de Vitória, no navio Columbia, as 55 primeiras famílias que iriam fundar o novo núcleo de Santa Cruz. Tal fato é relevante na história da colonização italiana do Espírito Santo, por concentrar as atenções governamentais da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-hpEVFfXmRHY/WFlxRIVbr-I/AAAAAAAALI0/ix7uczIYcZA_ShZn0Ra0ZnouUVILT6u_ACPcB/s1600/Imigrante.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Imigrante-4.jpg" class="wp-image-5873" width="400" /></a></div>
<p>
Ibiraçu comemora, no ano de 1977, o seu primeiro centenário. Aos 15 de agosto de 1877 desembarcavam no porto de Vitória, no navio <i>Columbia</i>, as 55 primeiras famílias que iriam fundar o novo núcleo de Santa Cruz. Tal fato é relevante na história da colonização italiana do Espírito Santo, por concentrar as atenções governamentais da época e por ter envolvidas nele numerosas famílias capixabas de hoje.</p>
<p>Inserida dentro da política de imigração desenvolvida pelo Governo Imperial, a fundação de Ibiraçu foi ocasionada por, pelo menos, três motivos importantes depreendidos nos relatórios dos diretores da Colônia de Santa Leopoldina e nos relatórios dos presidentes da Província do Espírito Santo. 1º — Havia uma concentração de 6 a 7 mil imigrantes nos arredores do Porto de Cachoeiro de Santa Leopoldina e na direção do Timbuí, atual Santa Teresa. 2º — Os terrenos desbravados se mostravam pouco aptos à cultura, conforme relatório de 14/8/1876 de José de Nápoles Tales de Menezes. Falando do núcleo de Timbuí (Santa Teresa) diz o doutor Affonso Peixoto de Abreu Lima, presidente da Província, em seu relatório: &#8220;Ao entrar quase em seu 4º ano de fundação não oferece meios eficazes de subsistência com auxílio dos quais possa ele dispensar os favores do estado. Grandes e onerosos devem ser os dispêndios com a colonização neste ponto.&#8221; 3º — A distância dos centros de comercialização ia se tornando cada vez maior, o que exigia construção e conservação de estradas e encarecia os gêneros de primeira necessidade.</p>
<p>Diante de tais motivos, áreas ocupadas, pouco férteis e cada vez mais distantes, os responsáveis pelo grande empreendimento de progresso nacional escolheram uma nova área que obviasse os inconvenientes apontados. A responsabilidade da fundação de Ibiraçu coube ao presidente Affonso Peixoto de Abreu Lima que nomeou diretor da Colônia de Santa Leopoldina o senhor Aristides Armínio Guaraná. O novo diretor, sergipano, que fora ajudante de ordens do Conde D&#8217;Eu na guerra do Paraguai, estabeleceu residência no novo núcleo de Santa Cruz que em breve revelou prosperidade.</p>
<p>Sob a denominação de Colônia de Santa Leopoldina estavam integrados os núcleos de Santa Leopoldina, Timbuí (Santa Teresa) e o recém fundado Santa Cruz que passou a denominar-se Conde D&#8217;Eu (lbiraçu).</p>
<p>O navio <i>Columbia</i>, transportando 55 famílias e 275 pessoas gastou 35 dias de viagem entre Gênova e Vitória. A Agência de Colonização em Vitória registrou o fato, comunicando ao presidente da Província:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Damos ciência a V. Exa. que no dia 14 do corrente às 2 horas da tarde fundeou fora da barra desta cidade o vapor italiano <i>Columbia</i>, que conduzia 55 famílias italianas, imigrantes com destino à Colônia de Santa Leopoldina. Para poder dar desembarque aos imigrantes e suas bagagens, mandamos no dia 15 a nossa Sumaca <i>Áurea</i>, ao lugar em que se achava fundeado o vapor <i>Columbia</i>, para receber os imigrantes e bagagens, o que se realizou sem novidade alguma, chegando a esta agência às 3 horas da tarde desse mesmo dia. Aos imigrantes demos agasalho e sustento de conformidade com as ordens em vigor. Oportunamente remeteremos a V. Exa. a relação nominal dos referidos imigrantes. Deus guarde a V. Exa.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Relação dos 54 chefes de família que vieram no <i>Columbia</i>:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td><u>Amadio</u> Pietro, <u>Bit</u> Antonio, <u>Bit</u> Caterina, <u>Bit</u> Xatale, <u>Bresciani</u> Antônio, <u>Bazzo</u> Tiziano, <u>Cao</u> Domenico, <u>Cao</u> Giovanni Battista, <u>Chiaradia</u> Sebastiano, <u>Cozzuol</u> Liberale, <u>Cozzuol</u> Angelo, <u>Dal</u> Gobbo Gioacchino, <u>D&#8217;Ambros</u> Francesco, <u>Dell&#8217;Antonia</u> Giovanni, <u>Del Puppo</u> Teresa, <u>Fantin</u> Liberale, <u>Fantin</u> Matteo, <u>Fiorot</u> Giovanni, <u>Fullin</u> Antonio, <u>Furgeri</u> Marco, <u>Franco</u> Giuseppe, <u>De Lunardo</u> Antônio, <u>Levis</u> Francesco, <u>Marin</u> Cassiano, <u>Moro</u> Giovanni Maria, <u>Moro</u> G. Maria do Capo, <u>Mazzulo</u> Francesco, <u>Nardi</u> Vincenzo, <u>Nardi</u> Antônio, <u>Peruch</u> Giovanni Battista, <u>Peruch</u> Angelo, <u>Peruch</u> Antonio, <u>Pessot</u> Antonio, <u>Peruch</u> Angelo Luigi, <u>Pianca</u> Luigi, <u>Pignaton</u> Basilio, <u>Pizzinat</u> Giuseppe, <u>Redivo</u> Natale, <u>Rizzo</u> Antonio, <u>Rosalen</u> Andrea, <u>Rui</u> Andrea, <u>Sagrillo</u> Antonio, <u>Scarpat</u> Michele, <u>Scarpat</u> Celestino, <u>Soneghet</u> Giuseppe, <u>Spinazzé</u> Sante, <u>Spinazzé</u> Natale, <u>Susana</u> Francesco, <u>Venturini</u> Giovanni Maria, <u>Zandoná</u> Giovanni <u>Battista</u>.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Depois de aqui estabelecidos resolveram retirar-se do núcleo: <u>Cisana</u> Giovanni, <u>De Mattia</u> Luigi, <u>Garbelotto</u> Antonio, <u>Sarzi</u> Giovanni.</p>
<p>Um mapa estatístico apresenta 42 casados, 9 viúvos e 177 solteiros, incluindo as 42 esposas para perfazerem o total de 278 pessoas. Provinham do Veneto e os lugarejos e vilas eram: Cordignano, Caneva, Bonate, S. Fior, Tarzo, Seren, Revereto, Vittorio, Polcenigo, S. Benedetto, S. Nazario, Sarmede, Sacile, S. Lucia, Gajarine.</p>
<p>O jornal <i>O Espírito Santense</i>&nbsp;noticiou a chegada e acompanhou os fatos. Relata que Sua Excelência o presidente da Província visitou os alojamentos dos colonos, na hospedaria da Pedra D&#8217;Água, ficando satisfeito com a recepção e tratamento oferecido aos imigrantes pelo senhor comendador José Ribeiro Coelho, agente de colonização na capital.</p>
<p><i>O Espírito Santense,</i>&nbsp;21/8/1877:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Os colonos ultimamente chegados a esta capital no vapor italiano Columbia embarcam hoje, às 8 horas da manhã no vapor Presidente, que tem de conduzi-los à Santa Cruz, onde vão se estabelecer. Acompanha-os para dirigir o serviço de seu desembarque e estabelecimento naquele lugar o ativo e inteligente engenheiro doutor Cunha Pinto. S. Exa. o senhor presidente da província, doutor Abreu Lima, foi a bordo do vapor assistir a este embarque examinando nessa ocasião a diária de alimentação fornecida aos colonos e achando-a convenientemente ordenada devido ao zelo do senhor comendador José Ribeiro Coelho, digno agente da colonização nesta cidade. Por sua parte observou-se também grande contentamento entre os colonos que reconheciam as comodidades com que eram recebidos na terra para onde se imigraram. Para esse resultado lisonjeiro foram por S. Exa. o senhor presidente da província tomadas todas as possíveis providências, entre as quais a de comissionar um médico habilitado para com uma pequena farmácia ambulante, acompanhar os colonos até a chegada de outro médico já nomeado pelo Governo Imperial.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Os colonos chegaram a Santa Cruz às 4 horas da tarde do dia 21 de agosto. Aí foram agasalhados em casas alugadas para tal finalidade. A condução dos imigrantes que estava a cargo do engenheiro Cristiano Boaventura da Cunha Pinto, foi por ele narrada em dois documentos. Primeiro enviou um relatório ao Inspetor Geral de Terras e Colonização, datado de 3 de setembro de 1877; o segundo, datado de 8 de setembro é um ofício dirigido ao diretor da Colônia, Aristides Armínio Guaraná:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>No dia 24 foram transportados para o lugar denominado Morro das Palmas, em canoas, 126 colonos e no dia 26 o resto; aí foram agasalhados em um barracão, que existe do tempo do finado Podro Tabachi quando recebeu colonos, de conformidade com um contrato que fez com o Governo.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O Morro das Palmas, ou Fazenda das Palmas, de propriedade de Pedro Tabachi, com a morte deste, ocorrida em 21 de junho de 1874, passou à viúva, Ana Fontoura Tabachi e ao genro Eduardo Gabriolli. O mesmo barracão que servira, três anos antes, à malograda colônia Nova Trento, serviu aos fundadores de Ibiraçu. O local histórico, hoje abandonado e desabitado, pertence a funcionários da Aracruz Florestal.</p>
<p>Continua o mesmo engenheiro:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Por onde vê V. Exa. que em 7 dias foi feito todo o serviço de recepção e agasalho, recebendo eles no dia 28 trabalhos de estrada, conforme manda e regulamento e podem sustentar-se com o produto de seus trabalhos, tendo eu cortado a praxe seguida no Núcleo de Santa Teresa, de se dar por conta do Governo, aos colonos, durante os 6 primeiros meses de seu estabelecimento, os mantimentos necessários para seu sustento, além dos salários que percebem nas estradas.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Ibiraçu nasceu por economia e tática política. Os responsáveis pelo núcleo de Santa Cruz tinham ordens de evitar que os colonos deste núcleo mantivessem contato com os colonos do Timbuí, onde reinavam exigências e descontentamentos. A história de Santa Teresa está marcada com diversas manifestações de revolta como a dos que chegaram no navio <i>Italia </i>em 1876 e a revolta dos Lombardos em 1877. Com 108 machados, 109 foices, 160 enxadas e um pequeno auxílio em dinheiro os fundadores de Ibiraçu deixaram um patrimônio de sangue e de bens do qual hoje nos orgulhamos.</p>
<p>A ocupação e posse das terras eram programadas dentro das possibilidades da época. Primeiro se fazia uma exploração na mata virgem; depois, chegava a comissão de engenheiros e agrimensores que procedia às medições dos prazos. Feita a primeira derrubada, o colono tinha 6 meses para construir sua casa e fazer as primeiras plantações. Os colonos não podiam comercializar ou dedicar a outras atividades, mas deviam cultivar a terra, arrancar dela o seu sustento e o lucro para efetuar o pagamento da dívida contraída.</p>
<p>A região onde se localiza hoje o município de Ibiraçu era a mata virgem e os mapas anteriores assinalavam para ela medidas falsas no que diz respeito a cursos de água e topografia em geral. O engenheiro Cunha Pinto, no dia 13 de maio de 1877 se encontrava na foz do Rio Santa Maria do Rio Doce, onde, às 5 horas da manhã, conforme ele mesmo relata, plantou um marco de madeira de lei com as formalidades do estilo. Estava, pois, a 50 metros da margem do rio Doce, num local próximo ao atual hospital Silvio Avidos de Colatina. Lançava, desta forma, o marco de fundação das medições de Colatina e recebia logo a seguir instruções para que efetuasse uma urgente transferência para as terras devolutas de Ibiraçu.</p>
<p>Quatro meses antes da chegada dos colonos, o então diretor da colônia de Santa Leopoldina, José de Nápoles Tales de Menezes, encaminhava o ofício nº 445 datado de 19 de maio de 1877, ao engenheiro Cristiano Boaventura da Cunha Pinto, nos seguintes termos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Ilmo. Sr. A bem dos interesses da colonização e para maior economia dos dinheiros públicos, convém que a Comissão a seu cargo suspenda os trabalhos no Rio Santa Maria do Rio Doce e se dirija quanto antes para Santa Cruz, a fim de medir aí para o estabelecimento de 2.500 colonos próximos a chegar, conforme me comunicou a Inspetoria Geral de Terras e Colonização, devendo partir do lugar denominado Cachoeiro de Barro onde principiam as terras devolutas, procurando ligar as medições às já feitas por V. Sa. no Rio Santa Maria do Rio Doce. Para bom acolhimento dos colonos que têm de ser introduzidos por este ponto, por ser o mais próximo do litoral e por isso mesmo menos dispendioso, fará V. Sa. construir um barracão com capacidade para comportar 500 colonos, no mesmo lugar Cachoeiro de Barro, em terreno devoluto. Para que os mesmo tenham agasalho durante os trabalhos preliminares de seu estabelecimento nos seus respectivos prazos, fará V. Sa. construir novos barracões à proporção que se forem tornando precisos para cujo serviço lhe serão apresentadas turmas de colonos. Para que possam os colonos se estabeleceram, mandará V. Sa. alargar a picada de exploração que aí existe, de modo que não se dispenda por cada 2m² linear mais de 1.800 réis, preço máximo a que tem atingido as braças de caminho nesta Colônia; devendo ter o mesmo picadão 60 palmos mais ou menos de largura de derribadas das quais 10 palmos no meio, completamente limpos e os troncos cortados rente ao chão, de modo a poder ser transitado facilmente.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O engenheiro Cunha Pinto estabeleceu um acampamento de agrimensores na confluência do rio Sapateiro com o Taquarassu e acelerou os trabalhos. Pôde, desta forma, elaborar um mapa, o primeiro da região, datado de 26 de dezembro de 1877, onde apresenta os serviços de explorações e medições dos lotes coloniais nos rios Santa Maria do Rio Doce, Taquarassu e seus afluentes, Santa Cruz e Itapirá e seu afluente. Como era de praxe, o mesmo engenheiro não se esquecia de enviar os relatórios. O relatório dos seus trabalhos realizados no trimestre de abril a junho de 77 diz o seguinte:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Medição em Santa Cruz — Em vista do ofício 445A, de 1º de maio da Diretoria desta Colônia suspendi os trabalhos de medição do rio Santa Maria do Rio Doce e dei princípio às medições em Santa Cruz, a partir do lugar denominado Cachoeiro do Barro, onde principiam as terras devolutas em seguida aos terrenos que foram pela Câmara Municipal de Nova Almeida aforados a diversos particulares quando ainda era termo daquela Comarca, a atual Comarca de Santa Cruz em (1848). Considerando a grande necessidade exigida para pronta medição de prazos suficientes para o grande número de colonos que tem de chegar, procedi no dito lugar nas margens do Rio Taquarassu e seus afluentes medição de 52 prazos, dos quais 8 ficaram prontos com laterais de 1100,0m cada uma, e 44 foram medidos de frente com as laterais para os fundos de cumprimento suficiente para indicar a sua direção e os limites dos mesmos prazos.<br />
Fizeram-se em Santa Cruz derrubadas em 20 prazos e continua-se neste serviço a fim de que passa ir acompanhando as medições tanto quanto possível sem grande aumento de pessoal nas turmas. Tenho a honra de remeter a V. Sa. a cópia do ofício sob o nº 502 que me foi dirigido pelo senhor inspetor especial de Terras e Colonização da Província, e diretor interino desta Colônia, reiterando-me todas as recomendações feitas pelo senhor doutor Telles de Menezes no seu supracitado ofício sob nº 445A, de 1º de maio último em relação aos serviços, caminhos e modos de agasalho para os colonos que se devem estabelecer em Santa Cruz. Pelas explorações e medições que fiz em Santa Cruz cheguei a reconhecer a superioridade deste vasto terreno ainda completamente inculto, ocupando uma área superior a 36 léguas quadradas, limitando pelo norte com o rio Doce, pelo leste com o rio Santa Maria, atualmente já quase todos medidos e ocupados por colonos italianos, pelo sudoeste com as terras do Timbuí, pelo Sul digo pelo sudeste, leste e nordeste com terrenos particulares situados nos rios Fundão que deságua no mar depois de se unir com o Rio Timbuí meia légua aproximadamente da Vila de Nova Almeida, rios Taquarassu, Cachoeiro Comprido, os quais unindo-se no terreno foreiro a Alfredo de León seguem a desaguar no rio de Santa Cruz com a denominação de rio Cachoeiro do Barro em frente da fazenda do falecido Pedro Tabachi.<br />
Fizeram-se na frente de todos os prazos medidos caminhos provisórios para o trânsito dos colonos que aí se estabelecerem. Procedi ao levantamento de picada de caminho que aí existe a partir do nosso rancho situado no afluente do rio Taquarassu até o lugar denominado Santa Ana, que é o porto do rio de Santa Cruz, mais próprio para embarque e desembarque dos colonos e mercadorias que se importarem ou exportarem pela Vila de Santa Cruz. Estimo em quatro léguas a distância entre este porto e a mesma Vila, No corrente trimestre levantarei a planta do caminho que aí existe seguindo mais ou menos a margem esquerda do rio Santa Cruz, a fim de poder conhecer-se a posição e distância da mesma Vila em relação ao porto de Santa Ana, Cachoeiro do Barro e Rio Taquarassu, ponto de partida de nossas medições. De conformidade com os ofícios 445A, de 1º de maio a mim dirigido pelo senhor doutor Telles de Menezes e sob nº 502 de 17 de junho dirigido pelo senhor doutor João de Carvalho Borges Júnior, tenho a honra de remeter à V. Sa. a cópia do contrato que fiz com Alfredo Leon, de duas léguas de picadão para servir de futura estrada entre o Cachoeiro de Barro e o lugar denominado Mundo Novo para onde pretendo estender as medições e para daí explorando ligar as medições de Santa Cruz às medições do rio Santa Maria do Rio Doce. Mediu-se durante o próximo passado trimestre 136km 152,2 metros correntes conforme se vá dos memoriais descritivos e do mapa que juntos deste tenho a honra de remeter a V. Sa. Despendeu-se durante o mesmo trimestre com os trabalhos de explorações derrubadas e caminhos provisórios a quantia de quatorze contos seiscentos sessenta e nove mil duzentos e vinte cinco réis (14:669$225 réis). Tendo me sido apresentado por ordem da Diretoria desta Colônia uma turma de colonos alemães para fazer os barracões necessários ao recebimento dos colonos que têm de se estabelecer na zona de nossas medições dei já princípio a este serviço.<br />
Colônia de Santa Leopoldina, 6 de Julho de 1877. (Assinado) Cristiano Boaventura da Cunha Pinto. Encarregado da comissão de medição.</td>
</tr>
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A exatidão das informações prestadas e de outras mais, no que diz respeito às medições de prazos e aos gastos efetuados fez explodir no final do ano, uma querela entre o engenheiro e o diretor da colônia. Em ofício de nº 119 dirigido ao inspetor geral de Terras e Colonização, senhor José de Cupertino Coelho Cintra, o doutor Guaraná expõe o seu ponto de vista, o estudo da questão e da confusão. O engenheiro Cunha Pinto foi demitido. O doutor Aristides Armínio Guaraná assumiu a diretoria da Colônia Santa Leopoldina no início de setembro de 1877 e passou a residir no Cachoeiro de Barro para acompanhar de perto os trabalhos preparativos e de estabelecimentos dos colonos e pôde avaliar o que foi feito.</p>
<p>A segunda leva de imigrantes chegou no navio <i>Izabella </i>a 27 de setembro, tendo partido de Gênova no dia 25 de agosto. Eram 353 imigrantes (77 famílias) remetidos por Joaquim Caetano Pinto Júnior, em virtude de seu contrato celebrado com o Governo Imperial, contrato ente rescindido pelo Aviso de 27/6/1878. Os imigrantes nem chegaram a saltar na hospedaria da Pedra D&#8217;Água por causa de um surto de varíola em Vitória. Foram, pois, reembarcados no vapor Presidente e levados para a Vila de Santa Cruz de onde, em canoas, subiram até o porto de Santa Ana, na Fazenda das Palmas. Desta forma, no dia 15 de outubro de 1877 as estatísticas do Dr. Guaraná apontavam 160 famílias com 280 indivíduos aboletados no porto de Santa Ana, 120 no Cachoeiro de Barro e 351 no barracão do governo no núcleo Conde D&#8217;Eu. Este último barracão media 50 palmos por 200, estava situado no alto de uma chapada à margem direita do rio Taquarassu, era coberto de tabuinhas e fora construído por um grupo de colonos práticos vindos para este fim, de Santa Leopoldina.</p>
<p>Ora, um terço das famílias vindas no <i>Izabella </i>foram para Santa Cruz por engano, para não dizer displicência. O livro da colônia apontava 117 famílias e 457 pessoas. Começaram, pois, os enganados a apertar o doutor Guaraná com passaportes e recibos, afirmando terem pago suas passagens e ser outro o seu destino a que, portanto, não iriam trabalhar na construção de estradas como os demais.</p>
<p>Os agentes de colonização de Vitória enviaram um ofício ao doutor Abreu Lima, datado de 24 de setembro, nos seguintes termos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Comunicamos a V. Exa. que ontem entrou neste porto o vapor italiano <i>Izabella </i>conduzindo 353 imigrantes italianos que de Gênova foram remetidos por Joaquim Caetano Pinto Júnior, em virtude de seu contrato celebrado com o Governo Imperial.<br />
Aqueles imigrantes conservam-se a bordo do vapor <i>Izabella</i>, para amanhã às 7 horas da manhã, embarcarem no vapor nacional Presidente, para conduzi-los para a vila de Santa Cruz, de conformidade com as ordens verbais de V. Exa. Mandamos o fornecedor de víveres preparar as quantidades precisas dos mesmos para ali serem distribuídas pelos imigrantes para o que fizemos seguir para ali um nosso empregado.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Pode-se imaginar que os víveres destinados para 353 tiveram que servir para 475 e onde embarcaram uns, foram os outros até a fazenda das Palmas. A situação tornou-se melindrosa. Houve um princípio de tumulto em que o diretor, doutor Guaraná foi ameaçado de foice por um dos colonos. No ofício nº 101 de 21/11/1877, doutor Guaraná diz ao inspetor geral interino senhor José de Cupertino Coelho Cintra:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Outra questão, não menos momentosa e para a qual peço a V. Sa. providências urgentes é o fato de não querer grande parte dos colonos vindos no <i>Izabella </i>para Santa Cruz, trabalhar, afirmando ter pago suas passagens para outros pontos. Como conseqüência de tal procedimento a nenhum salário têm direito tais colonos, mas precisando de subsistência me atormentam noite e dia para que eu lhes dê abonos de mantimentos. Tenho recusado peremptoriamente, mas sem força nenhuma em Santa Cruz, principia a insubordinação a lavrar entre eles, tendo produzido já seus maus efeitos, porquanto, já fui ameaçado por um com uma foice. Não é a agressão pessoal que faz pedir providências a V. Sa. O único móvel que me leva a isto é o receio que tenho de que Santa Cruz, que tão bons elementos possui, para ser uma colônia modelo, venha a sofrer por causa de poucos transviados. Neste momento não quero perder a oportunidade de dizer a V. Sa. que é unânime a queixa contra a agência Caetano Pinto em Itália; afirmando todos os colonos que a imigração daquele país para o Brasil é espontânea, mas que a dita agência, aproveita o veemente desejo que todos manifestam de emigrar e fá-los pagar preços exorbitantes por suas passagens. Tal reclamação é aprovada com recibos e outros documentos.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Tal relato é um desfecho. O diretor da colônia havia prevenido ao presidente da província no ofício nº 8 de 5/10/1877:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>À exceção de algumas famílias que tendo pago suas passagens querem seguir para outras províncias, todos os mais estão nas melhores disposições e mostram-se muito satisfeitos. Em relação aos que querem retirar-se peço a V. Exa. providências e instruções pedindo eu licença a V. Exa. para dizer que é de grande inconveniência a continuação destes homens entre os outros.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
No dia seguinte escreve ao seu ajudante, Francisco Leite de Freitas Guimarães:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Tendo urgência de partir para o Timbuí e esperando resposta de sua Exa. o presidente da província e do senhor inspetor geral de Terras e Colonização sobre o destino que devem ter os colonos que para aqui vieram por engano, declaro-lhe que se no telegrama esperado vierem ordens, determinando que os mesmos colonos se devem retirar, parta imediatamente para a Fazenda Morro das Palmas onde eles se acham, e relacionando-os facilite-lhes passagem até a Vila de Santa Cruz, se não houver ordem contrária. Para que na relação não vá incluído alguém que não esteja nas condições daqueles de que telegrafei a sua Exa., deve V. Sa. inspecionar pelos documentos que existem na Secretaria, quais os que pagaram passagens com destino a outros pontos. Fica entendido outrossim que se dentre estes alguns quiserem aqui ficar devem ser atendidos precedendo declaração escrita, que é isto por sua livre e espontânea vontade.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Assim se retiraram umas 43 famílias e perto de 120 pessoas, depois de mais de dois meses de inatividade, uma quarentena que não existiu na Pedra D&#8217;Água. Os demais estavam trabalhando na construção de estradas. Como diz o diretor no ofício nº 679 de 15/10/1877 ao presidente da província:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Tem atualmente este núcleo 505 indivíduos em trabalhos diários de estradas, sendo 193 homens, 186 mulheres e 126 meninos e que sendo pagos os primeiros a 1.600 réis, os segundos a l.000, e os terceiros a 800 réis por dia perfazem a soma de 15:485$600 mensais. Não deve V. Exa. estranhar que mulheres e meninos tomem parte nestes trabalhos porquanto há famílias que especialmente, quase que só se compondo de indivíduos desta natureza, não deixam por isso de ter como todos os outros, as mesmas necessidades vitais. Rapidamente feito o cálculo dos jornais a despender mensalmente em caminhos, não quero perder a oportunidade de declarar a V. Exa. que a despesa que com tal verba tem sido feita, não tem sido improfícua; porquanto, do Porto de Santa Ana até o barracão em que se acham estabelecidos os imigrantes, já se encontra uma excelente estrada de rodagem com 6 quilômetros proximamente feitos, em um mês e meio apenas de trabalho.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
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Relação dos chefes de família vindos no vapor <i>Izabella </i>saído da Itália no dia 25 de agosto e chegado no dia 27 de setembro de 1877:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td><u>Artifoni</u> Giovanni Battista, <u>Basso</u> Andrea, <u>Barbarioli</u> Agostino, <u>Barbarioli</u> Alessandro, <u>Barbarioli</u> Anibale, <u>Bazzo</u> Pietro, <u>Brambilla</u> Bartolomeo, <u>Benicchio</u> Giacomo, <u>Bellini</u> Giovanni, <u>Bellini</u> Bonífacio, <u>Benicchio</u> Giovanni Battista, <u>Bolis</u> Giuseppe, <u>Carlesso</u> Giuseppe, <u>Cometti</u> Giovanni, <u>Cottini</u> Francesco, <u>Castellani</u> Carlo, <u>Da Ros</u> Sebastiano, <u>Cavalleri</u> Pietro, <u>Carni</u> Giovanni Battista, <u>Casati</u> Francesco, <u>Conti</u> Giovanni Battista, <u>Cavalleri</u> Giuseppe, <u>Conti</u> Giuseppe, <u>Conti</u> Benedetto, <u>Del Piero</u> Antonio, <u>Debarba</u> Giovanni, <u>Del Caro</u> Giuseppe, <u>Farina</u> Davide, <u>Foresti</u> Sante, <u>Guidolini</u> Giovanni, <u>Ghidetti</u> Pietro, <u>Garrusi</u> Alessandro, <u>Loser</u> Lorenzo, <u>Locatelli</u> Giuseppe, <u>Liberti</u> Leonardo, <u>Minchio</u> Pietro, <u>Marin</u> Sebastiano, <u>Morlacchi</u> Giovanni, <u>Musso</u> Antonio, <u>Maffeis</u> Antonio, <u>Mossa</u> Pietro, <u>Pusiol</u> Damiano, <u>Pozzato</u> Luigi, <u>Pontini</u> Giuseppe, <u>Pellizzari</u> Francesco, <u>Perut</u> Angelo, <u>Polesi</u> Francesco, <u>Poletto</u> Raimondo, <u>Piazzini</u> Giovanni, <u>Pagani</u> Antonio, <u>Pasquot</u> Antonio, <u>Pessoti</u> Giuseppe, <u>Pizzinat</u> Michelo, <u>Pizzinat</u> Lorenzo, <u>Piol</u> Agostino, <u>Pelucchi</u> Giovanni Battista, <u>Pissaballa</u> Angelo, <u>Paravisi</u> Francesco, <u>Prandi</u> Antonio, <u>Roni</u> Michele, <u>Rampinelli</u> Camillo, <u>Sfalcin</u> Giovanni, <u>Schiappati</u> Giovanni Battista, <u>Tulissi</u> Antonio, <u>Trazzi</u> Giuseppe, <u>Tonon</u> Giovanni, <u>Vazzoler</u> Giovanni, <u>Vescovi</u> Bartolomeo, <u>Zanchetta</u> Giovanni, <u>Zatt</u> Luigi, <u>Zandomenico</u> Giacomo.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Não se poderá escrever a história de cada família de imigrante embora tivessem essas mesmas famílias vidas e objetivos comuns. Existem, porém, alguns dados particulares que convém ressaltar, como os primeiros nascimentos e óbitos do núcleo, porque marcam as primeiras oscilações no novo grupo social e levantam problemas até o momento, sem resposta. Onde foram enterrados? Onde, para tantos mortos, existiu tal cemitério?</p>
<p>O primeiro filho de imigrante a nascer no Morro das Palmas foi Leopoldo Scarpat, no dia 2 de setembro de 1877, filho de Celestino Scarpat de 37 anos e de Catarina de 33 anos. Tinha como irmãos, Stefano, Giuseppe e Maria de 9, 6 e 3 anos respectivamente. No dia 9 do mesmo mês nasceu Leopoldina Peruch, filha de Luigi Angelo Peruch, de 27 e de Tereza, de 25 anos. O padre Domenico Martinelli, vindo do núcleo do Timbuí, os batizou no dia 16 e foram padrinhos do primeiro o doutor Guaraná e dona Doverlina Gabrielli. Foram padrinhos do segundo, o doutor Guaraná e a viúva de Pedro Tabachi, dona Ana Fontoura Tabachi. Seriam os nomes dos neonatos uma homenagem ao filho do doutor Guaraná, ou era referência à colônia de Santa Leopoldina?</p>
<p>Até o final do ano de 1877 nasceram mais 18 crianças de que se tem registro, no mesmo núcleo.</p>
<p>O primeiro a falecer foi o menino de 6 meses chamado Liberti Giovanni, no dia 6 de outubro, filho de Leonardo Liberti, recém-chegado no navio <i>Izabella</i>. O segundo foi Del Puppo Matteo de 45 anos, natural de Polcenigo na Itálía, que faleceu no dia 12 de outubro e deixou a viúva Tereza Del Puppo e os filhos Osvaldo, Giacomo e Marco. O senhor Matteo chegara no <i>Columbia </i>e pode ser considerado a primeira vítima dentre os pioneiros fundadores de Ibiraçu. Até o final daquele mesmo ano morreram 40 imigrantes dentre os quais 33 crianças menores de 8 anos e 7 adultos.</p>
<p>Estas listas altamente significativas para a história do atual município, foram registradas em um livro que tem a abertura do senhor Francisco Leite de Freitas Guimarães, auxiliar da Diretoria da mesma colônia, com os seguintes dizeres: &#8220;Servirá este livro para assentamento de Nascimento e Óbitos dos colonos deste Núcleo Colonial, atualmente sob a administração da Colônia Santa Leopoldina. Cachoeiro de Barro Núcleo Colonial de Santa Cruz 1º de setembro de 1877.&#8221; Tal livro, bastante danificado, se encontra, atualmente, preservado no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.</p>
<p>No dia 25 de outubro do ano de 1877 chegou a terceira turma de imigrantes em número sempre mais crescente. O jornal <i>O Espírito Santense</i> noticiou o fato em crônica local, baseado no ofício que a Agência de Colonização na Vitória enviou ao presidente da província, ofício que está nos seguintes termos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Damos ciência a V. Exa. que ontem às 5 horas da tarde fundeou neste porto o vapor italiano <i>Clementina</i>, procedente de Gênova, conduzindo 472 imigrantes italianos remetidos por Joaquim Caetano Pinto Júnior, de conformidade com o contrato celebrado com o Governo Imperial. De conformidade com as ordens de V. Exa. os referidos imigrantes embarcam hoje no vapor <i>Presidente </i>com destino a Santa Cruz. Oportunamente faremos remessa a V. Exa. da relação dos imigrantes.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
É a seguinte a relação dos sobrenomes dos chefes de família vindos no vapor <i>Clementina </i>saído da Itália no dia 27 de setembro e chegado em Vitória no dia 25 de outubro de 1877. Dentre eles muitos se retiraram e um quarto morreu na epidemia de febre amarela que assolou o núcleo de Santa Cruz:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Ardenghi, Armond, Alchieri, Avvanzi, Bosi, Bazzoli, Michelin, Battistin, Barbi, Prandi, Boscardelli, Belloni, Biada, Bortolini, Bissolati, Bodolin, Bonesi, Bonaretti, Balanzini, Cottini, Cadallora, Colosp, Cometti, Ceresoli, Cozzuol, Cavicchini, Collevati, Coppelli, Campana, Colombo, Cattani, Caron, Centurelli, Cogol, Cristoforetti, Casa, De Micheli, Dal Piaz, Dadda, Dallosto, Ettori, Ferro, Fumani, Ferrari, Fretta, Frittoli, Facchinetti, Frigieni, Frassi, Grassi, Gervasi, Gorda, Guy, Gardoni, Guzzo, Gritti, Giroldini, Gadioli, Guasti, Guernieri, Gobbi, Lodi, Medici, Marinelli, Minotti, Marchet, Maneró, Mortumi, Manfredini, Nelli, Marchetti, Micheloni, Menegaz, Nossa, Negri, Piva, Poltronieri, Pezzenti, Paoli, Personelli, Paggi, Pauletti, Pellegrini, Portesani, Perencin, Puttini, Pegorari, Pedrini, Rossoni, Recla, Sartori, Saggio, Soprani, Sirtuli, Spidini, Spelta, Toller, Tirloni, Toso, Tabaglio, Valvassori.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Seguiram o mesmo trajeto das turmas anteriores sem cumprirem nenhuma quarentena. De Santa Cruz subiram até a Fazenda das Palmas e daí foram abrigados nos barracões que a esta altura já eram quatro. O senhor Alfredo de Leon, morador no Cachoeiro de Barro havia feito um contrato com o engenheiro Cunha Pinto para abrir um picadão que partia daquela localidade e ia terminar no <i>Mundo Novo</i>, proximidades da atual João Neiva.</p>
<p>O barracão do <i>Mundo Novo</i>&nbsp;era um ponto intermediário das explorações e mediações que deviam se estender ao 25 de Julho e ao rio Santa Maria do Rio Doce, ligando, desta forma uma região à outra.</p>
<p>As atividades do novo núcleo tinham à frente a firme e segura orientação do doutor Aristides Armínio Guaraná. No dia 5 de dezembro de 1877 escreve ao presidente da província o seu ofício nº 111, dizendo:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Efetuado o pagamento dos meses de setembro o outubro às duas primeiras turmas de colonos vindos nos vapores <i>Columbia </i>e <i>Izabella</i>, melhorou consideravelmente a disposição de respeito dos mesmos e, salvo exceções raras, estão eles animados dos melhores desejos. É, porém, de toda a necessidade e instantemente rogo a V. Exa. que no primeiro vapor se digne fazer vir o pagador com dinheiro suficiente para as despesas do mês de novembro. Não é simples desejo de que o pagamento esteja em dia que me faz pedir a V. Exa. tal concessão. Acresce à vantagem que da regularidade do mesmo pagamento provém, a circunstância de estar a turma de colonos vinda no <i>Clementina </i>incluída pela primeira vez na folha de novembro e ser de necessidade que tal turma veja imediatamente o resultado do seu trabalho. Tanto mais espero de V. Exa. um favorável acolhimento ao meu pedido, quanto será o único modo de fazer desaparecer dentre estes colonos a ideias que alguns outros do Timbuí lhes deram de seis meses de auxílio gratuito. Vendo o produto dos seus salários lhes aparecerá o desejo de viverem independentes e livres de abonos, causa principal da maior parte dos males que afligem todas as colônias.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A preocupação dos fundadores de Ibiraçu é pioneira nos métodos e visa corrigir erros graves cometidos em outros núcleos. Um dos acontecimentos mais sérios e graves havido na colônia Santa Leopoldina no ano de 77 foi a revolta dos Lombardos. A amotinação dos colonos de Nova Lombardia, no Timbuí foi sufocada com prisões e confinamento, episódio que merecerá maior atenção em outra oportunidade. Era nisto que se baseava o doutor Guaraná para tomar medidas tão acertadas quanto justas em relação aos colonos fundadores de Ibiraçu.</p>
<p>Com a turma chegada no <i>Clementina </i>cessaram as remessas de colonos que se tornaram esporádicas e em números reduzidos. Depois da lista dos imigrantes chegados no <i>Clementina </i>constam ainda os seguintes nomes:Alda Giuseppe, Zanotti Alessandro, Zabot Antonio.</p>
<p>Vieram no vapor <i>Izabella </i>saído da Itália no dia 25 de dezembro de 1877 e chegado aos 26 de janeiro de 1878 com 802 imigrantes. Foram para Santa Cruz apenas as famílias de: <u>Gatti</u> Giuseppe, <u>Giungo</u> Enrico, <u>Reali</u> Antonio, <u>Trazzi</u> Giovanni, <u>Rossi</u> Pietro, <u>Bassani</u> Pietro, <u>Bassetto</u> Carlo, <u>Rui</u> Ermenegildo, <u>Zaggo</u> Giuseppe, <u>Cavalli</u> Sante.</p>
<p>Chegaram no dia 10 de novembro de 1879: <u>Santuz</u> Girolamo, <u>De Favari</u> Giacomo, <u>De Favari</u> Samuela, <u>Tonon</u> Gio Batta, <u>Confalonieri</u> Francesco, <u>Vergna</u> Francesco, <u>Costa</u> Giuseppe, <u>De Biasi</u> Domenico.</p>
<p>Chegaram no dia 30 de dezembro de 1879: <u>Filipetto</u> Pasquale, <u>Baiocco</u> Bortolo, <u>Baiocco</u> Giacomo, <u>Gasparini</u> Francesco, <u>Baiocco</u> Giovanni, <u>Baiocco</u> Luigi, casado com Teresa Colli.</p>
<p>Chegou no dia 30 de janeiro de 1880: <u>Della Valentina</u> Matteo.</p>
<p>Chegaram no dia 20 de fevereiro de 1880: <u>Poli</u> Bortolo, <u>Costacurta</u> Giovanni, <u>Montaner</u> Francesco, <u>Susana</u> Giacomo, <u>Della Pasqua</u> Domenico, <u>Trichies</u> Luigi, <u>Modenesi</u> Giovanni, <u>Modenesi</u> Andrea, <u>Modenesi</u> Anselmo, <u>Modenesi</u> Francesco, <u>Vazzoler</u> Antonio, <u>Breda</u> Francesco, <u>Sarcinelli</u> Giuseppe, <u>Segatto</u> Pietro, <u>Mattiuzzi</u> Bortolo, <u>Bit</u> Giovanni.</p>
<p>No dia 26 de junho de 1880 chegou <u>Varnier</u> Luigi.</p>
<p>Em 1879 vieram do núcleo de Santa Teresa onde estavam estabelecidos: <u>Martinelli</u> Giocondo, <u>Martinelli</u> Luigi. E o livro encerra a lista das 327 famílias com o nome de <u>Fraccalossi</u> Giuditta.</p>
<p>Depois desta data, até o novo surto de 1891/92, entraram apenas famílias isoladas.</p>
<p>Quando o doutor Affonso Peixoto de Abreu Lima deixou a presidência da Província do Espírito Santo em março de 1878, depois de sete meses de governo, apresentou um relatório ao seu substituto o tenente coronel Alpheu Adelpho Monjardim de A. e Almeida, publicado integralmente na <i>Gazeta da Vitória</i>.</p>
<p>Aí expõe as metas do seu governo e os resultados obtidos durante sua administração. Saía da Província o homem sob cuja administração se criou o núcleo Santa Cruz (atual Ibiraçu) e que afirmava ser a colonização &#8220;um dos assuntos que mais mereceu a sua solicitude.&#8221;</p>
<p>A epidemia — Era o mês de março de 1878 e a febre amarela atingia o seu auge. Com a mudança de clima e sem defesa orgânica os colonos começaram a ter vítimas no mês de outubro de 1877 e o mal foi crescendo com índices assustadores de modo que no final de 1878 eram 200 os mortos. Do navio <i>Clementina </i>morreram 111 numa proporção de 1 sobre quatro. Não houve família poupada e ninguém na colônia ficou sem contrair a febre amarela. Mandou-se buscar no núcleo de Santa Leopoldina todo o sulfato de quinina disponível.</p>
<p>Ainda durante este mês chegaram as primeiras das 57 famílias de cearenses com objetivos determinados dentro da política de imigração. Apesar de sua presumível resistência a este tipo de epidemia, morreram 41 pessoas sendo 10 chefes de família. De 298, incluindo-se 14 famílias que se retiraram, logo estavam reduzidos a 202 (segundo relatório do doutor Guaraná: 209).</p>
<p>Entre os italianos, com a morte do chefe de família, a mulher voltava para a Itália com os filhos restantes e sobreviventes. Quando morria o casal, os órfãos eram distribuídos entre as outras famílias, de modo que a criação de orfanatos se tornou uma preocupação do governo. O que resta desta epidemia são dois cemitérios desaparecidos: um no Córrego Fundo, provavelmente ao lado da antiga usina do doutor Guaraná; outro no Cachoeiro de Barro, perto do Rio Comprido, onde ainda se vêm marcas de sepulturas.</p>
<p>Em 10 de janeiro de 1880 o diretor da Colônia, Aristides Armínio Guaraná, apresentava mais um relatório ao presidente da Província e dizia de Ibiraçu:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
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<tr>
<td>Com uma população de 2.000 almas, pouco mais ou menos, é habitado por 308 famílias italianas, 57 cearenses e 55 de índios naturais desta Província. Dividido em 7 distritos coloniais, estão todos eles ligados por boas estradas com a sede, estradas que têm as extensões seguintes: 1º Distrito de Pendanga 12 km; 2º Distrito de Perobas 6 km; 3º Distrito do Sapateiro 8km; 4º Distrito de Santa Maria 10 km; 5º Distrito de Mundo-Novo 13 km; 6º Distrito de Aracajú 11 km; 7º Distrito de Monte Seco 8 km. Convenientemente colocadas as famílias coloniais em seus prazos, entregam-se com verdadeiro entusiasmo aos trabalhos agrícolas, havendo colonos que na primeira colheita já terão café produzido em seus prazos.</td>
</tr>
</tbody>
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</div>
<p>
Consolidada a colonização, novas metas são procuradas por seus administradores. Nos meados de 1880 um novo diretor está ocupando o lugar de Aristides Armínio Guaraná, é o senhor Luiz Cavalcanti de Campos Mello. Em ofício que envia ao Inspetor Geral de Terras e Colonização, com data de 4 de dezembro de 1880, diz eufórico:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>mais um elemento de progresso para o núcleo de Santa Cruz acaba de ser posto em evidência com a inauguração que fiz no dia 2 do corrente mês, de uma escola mista, para cuja frequência se inscreveram naquele dia 11 meninas e 38 meninos. Fundei esta escola na casa pertencente ao Estado e existente no povoado do núcleo; mandei repará-la convenientemente, consegui alguns donativos de particulares de forma a possuir hoje este núcleo uma escola decente, frequentada por 49 crianças e com o material necessário. À testa dessa escola coloquei o colono Jerônimo Santuz, homem morigerado e que tem alguns conhecimentos.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O professor recebia o auxílio de 15$000 réis mensais.</p>
<p>O livro da Colônia registra o senhor Girolamo Santuz como imigrante que chegou no dia 10 de novembro de 1979. Tinha 50 anos e sua esposa, Augusta 44. Era pai de Pietro, Ermenegildo e Valentino de 14, 9 e 2 anos respectivamente. Recebera, como todos os outros as ferramentas discriminadas: 2 foices, 2 machados e 2 enxadas.</p>
<p>Em ofício de 26 de abril de 1880, nos últimos meses de sua gestão, o doutor Guaraná trata da emancipação do porto de Cachoeiro e do Timbuí. Diz que dentro de mais um ano também Santa Cruz poderá se emancipar. Os colonos estão estabelecidos e &#8220;cheios de prosperidade em suas lavouras.&#8221; Este prognóstico só veio a se realizar 11 anos mais tarde. O núcleo colonial Bocaiúva, como então se chamava pela Lei estadual nº 23 de 11 de setembro de 1891, tomou o nome de Vila Guaraná sendo esta instalada em 10 de outubro do mesmo ano o pelo disposto do Decreto estadual de março de 1892 o município de Guaraná passou a denominar-se Vila de Pau Gigante. Eduardo Gabrielli foi o primeiro presidente da Intendência da Vila.</p>
<p>No mês de setembro de 1891 o navio <i>Adria </i>desembarcava uma leva de imigrantes em Vitória, dentre os quais muitos vieram para os distritos de Ibiraçu. Mas um fato notável é a chegada do navio Birmânia com 1.425 passageiros, no dia 10 de dezembro de 1891 e dentre os imigrantes, 716 foram para Santa Cruz naquele ano.</p>
<p>O crescimento do antigo núcleo Conde D&#8217;Eu, dos seus distritos, o aumento dos imigrantes durou até a proibição do ministro italiano Prinetti, que encerrou uma fase na história da imigração pelo Espírito Santo.</p>
<p>[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Artigo publicado no Caderno Dois de <i>A Gazeta</i>, 07 de agosto de 1977. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<div id="CIIA_RP34">
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</div>
<blockquote class="tr_bq">
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
</blockquote>
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		<title>Estudo I: Informações sobre Narciso Araújo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 15:12:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Busatto]]></category>
		<category><![CDATA[Narciso Araújo]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A teoria da literatura costuma criar gavetas onde, dividindo o tempo, coloca as produções literárias e seus respectivos autores. O saber universitário segue este critério, justificando este procedimento como finalidade própria; afinal, o ensino superior deve organizar o saber desorganizado. Se há uma coisa desorganizada em arte literária é a obra de Narciso Araújo. Em [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A teoria da literatura costuma criar gavetas onde, dividindo o tempo, coloca as produções literárias e seus respectivos autores. O saber universitário segue este critério, justificando este procedimento como finalidade própria; afinal, o ensino superior deve organizar o saber desorganizado.</p>
<p>Se há uma coisa desorganizada em arte literária é a obra de Narciso Araújo. Em primeiro lugar porque a publicou esparsa e, em segundo lugar, seu único livro, compendiado por João Calazans e Eugênio Sette com o título <i>Poesias</i> (1ª. série), foi uma coletânea feita à revelia, por ocasião do concurso “Príncipe dos Poetas Capixabas”, promovido pelo jornal <i>A Tribuna</i> em 1941. Conforme atesta a professora Maria Madalena Pisa, procurado para as entregar, Narciso negou que as tivesse. Supõe-se que não as tivesse organizadas.</p>
<p>Todos atestam a sua natural modéstia e, embora o chamem de “solitário de Itapemirim”, ele nega. Sua vida é bem conhecida e também a sua carreira cultural desce criança até a formatura em Direito no Rio de Janeiro. O que aconteceu é que ele fez uma escolha pelo torrão natal e não pela buliçosa Capital Federal da Belle Époque. Seu círculo de amizades contava com todos os nomes brilhantes da época, a começar por Cruz e Sousa. Vamos encontra-lo no <i>Panorama da poesia brasileira</i>, de Fernando Góes, volume IV, O Simbolismo, 1959. Tanta vida e obra para duas páginas e dois sonetos! Os dois sonetos da antologia são “Saudade estéril” e “Sabor azul”. Realmente é engavetar o poeta nos dois ou mais sentidos. Nesta antologia Fernando Góes faz um apanhado do simbolismo em dezenove pequenos capítulos. Afirma que os simbolistas fizeram uma verdadeira revolução nos temas e na técnica, isto é, também na forma. Fizeram verso de dezessete e até de dezenove sílabas que prenunciam a liberdade métrica do modernismo. Mexeram na ortografia e na impressão tipográfica com largo abuso das letras maiúsculas.</p>
<p>Outra antologia dedica a Narciso Araújo seis páginas. Trata-se de <i>Panorama do movimento simbolista brasileiro</i>, de Andrade Muricy, volume 2, editado pelo Instituto Nacional do Livro, segunda edição, 1973. Entre os 131 autores contemplados, Narciso Araújo é o 61. A antologia traz oito sonetos dele. Além disto, não existe fortuna crítica sobre o príncipe dos poetas capixabas. Entenda-se, pois, que a consagração de um escritor reside na publicação de livros. Andrade Muricy em sua antologia resume a obra de Narciso a <i>Poesias</i> e acrescenta numa única linha: “Numerosa produção esparsa.”</p>
<p>O acervo da criação poética de Narciso vai muito, muito além dos 71 poemas de seu único livro. É um material precioso para uma tese de crítica genética e ecdótica.</p>
<p>1. Ele deixou um caderno de capa dura com apontamentos de Direito onde mistura sua incipiente produção literária com a lista de livros a serem encadernados e&#8230; rol de roupa para lavar.</p>
<p>2. É deste caderno todo manuscrito e a partir dele que Narciso organizou o 1º. Caderno de Poesias de Narciso da Costa Araújo (35 poemas) e o 2º. Caderno das Poesias de Narciso da Costa Araújo (com mais 42 poemas). Os cadernos estão bem danificados pelas traças e roídos de barata. Cada poema traz subscrito o local, a data em que foi escrito, a idade do autor – ele cometia sonetos já aos 17 anos –, o nome do jornal em que foi publicado e data. Com tais indicações é possível localizá-lo no tempo e no espaço e saber quando estava residindo nesta ou naquela rua do Rio de Janeiro, ou no seu querido Brejo dos Patos, em Itapemirim.</p>
<p>3. Ainda fazem parte do acervo manuscritos em folhas avulsas, originais de oitenta poemas dos quais apenas sete não são sonetos. Nestes manuscritos se delineiam as características próprias do poeta parnasiano-simbolista, a que os apressados organizadores do volume <i>Poesias</i> não foram inteiramente fiéis. A revisão ortográfica fez modificações indevidas, por exemplo, nas palavras com iniciais maiúsculas que, no simbolismo, tinham um sentido de absolutização do termo.</p>
<p>4. Sabe-se, outrossim, que Narciso elaborou umas páginas de correção à sua obra e que houve algum desrespeito aos originais.</p>
<p>5. Existe uma pasta só com recortes das suas publicações em jornais e revistas.</p>
<p>6. Também em dois jornais capixabas, <i>O Eco</i> e <i>O Cachoeirano</i>, foram publicados 29 e 35 poemas, respectivamente.</p>
<p>7. Finalmente há uma coletânea de 29 poemas manuscritos intitulada <i>Maria</i>. Nenhum tem título, mas foi possível identificar títulos em pelo menos metade deles, em publicações de jornal. Esta coletânea também manuscrita é toda composta de poemas de amor dedicados a uma mulher. Sabe-se, discretamente, que a grande paixão de sua vida foi a professora Maria Madalena Pisa. Pode-se inferir deste fato que Narciso leu Petrarca, cuja musa foi Laura. A obra <i>Petrarca – Poesia</i> aparece numa relação colada no verso da primeira capa do 2º. Caderno de Poesias, onde Narciso enumera mais de setenta livros.</p>
<p>Narciso Araújo privilegiava o soneto na sua criação poética. Esta forma da lírica é apenas uma das três dezenas e mais de formas existentes classificadas em formas fixas e formas livres. O modernismo o detestou, numa época de revolução literária, aquela da antropofagia. O Espírito Santo regurgitava de sonetistas, dos bons e dos maus. Narciso Araújo se manteve distante da polêmica que se travou em Vitória, em 1928. Quem vai proporcionar a Narciso a amostragem do seu talento literário é exatamente um iconoclasta antropofágico, o jornalista João Calazans, que, juntamente com Eugênio Sette, vai criar o concurso “Príncipe dos Poetas Capixabas”.</p>
<p>Sabe-se que um bom soneto pode imortalizar e projetar um autor no cenário das letras. Assim aconteceu com Jorge de Lima e o seu “O acendedor de lampiões”. Quem não conhece “As pombas”, de Raimundo Correia? Quem não se lembra de Olavo Bilac e do soneto “A língua portuguesa”?</p>
<p>Entre os inumeráveis sonetos de Narciso deve-se destacar um sobre o qual ele próprio chamou a atenção. É “Saudade estéril”:</p>
<p>
A saudade comum essa consiste<br />
Em nos rememorar cada momento<br />
Um quer que seja, cujo afastamento,<br />
Pungindo-nos o peito, o torna triste.</p>
<p>Outra saudade todavia existe<br />
Que nos agita. Vem do firmamento<br />
Nos clarões do luar. E o pensamento,<br />
Por mais firme e tenaz, lhe não resiste.</p>
<p>É a saudade de ignotas primaveras;<br />
É a saudade de quadros incriados;<br />
É a saudade de coisas nunca tidas;</p>
<p>É a saudade infecunda das esferas,<br />
Onde os astros rolaram, conglobados,<br />
Desde as fundas idades escondidas.</p>
<p>
Recomenda-se, a título de curiosidade, a leitura do “Soneto do maior amor”, de Vinícius de Moraes, e lá aparecerão as semelhanças.</p>
<p>Em toda transcrição cometem-se transgressões, algumas relevantes, outras irrelevantes. Neste soneto as diferenças são pequenas. Os editores imprimiram os sonetos já com o espírito modernista, com minúsculas onde deveriam aparecer maiúsculas.</p>
<p>Narciso metrificava desde cedo. Dominava o decassílabo heroico e também o sáfico. No verso alexandrino respeitava a cesura obrigatória nos poucos sonetos com esta métrica. As coisas, hoje, foram profundamente alteradas. Basta o signo, a palavra em liberdade. Nada de métrica, ritmo, rima no poema. Há tanta liberdade que a acredito igual à falta de talento para a poesia.<br />
Este soneto, dedicado a João Ribeiro, foi assim historiado pelo próprio Narciso:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Nota – Tinha eu de 21 para 22 anos, quando escrevi este soneto. Foi publicado na “Rua do Ouvidor”, semanário das <i>elegâncias</i>, no Rio, com dedicatória a João Ribeiro. Meu colega e amigo Dr. Figueiredo Lima entusiasmou-se (fácil entusiasmo) pelo soneto, e dizia-me: “nunca farás outro soneto igual a este.” Raul [Pederneiras] ilustrou o soneto, republicando-o numa revista de arte, no Rio. O trabalho de Raul era bonito, e dava valor ao soneto feio. Anos mais tarde, em Teresópolis, durante o verão, Figueiredo Lima encontrou-se com o Dr. Lúcio de Mendonça, Ministro do Supremo Tribunal. [Ilegível], poeta, figura literária valiosa, membro da Academia Brasileira de Letras. No salão do hotel, uma noite, em reunião de hóspedes, surgiu a ideia de recitação de poesias. Figueiredo só tinha de cor o soneto Saudade Estéril – e <i>impingiu-o</i> ao auditório. Lúcio de Mendonça pediu-lhe que repetisse a recitação, e Figueiredo <i>reimpingiu</i> o soneto. “De quem é isso?”, perguntou-lhe Lúcio, e Figueiredo <i>impingiu</i> o nome do autor dos versos. Lúcio louvou-os francamente. Contando-me isso, disse-me, em carta, o <i>impingidor</i>, mais ou menos isto: Você não dá valor aos seus versos, nem mesmo ao <i>Saudade Estéril</i>, que me entusiasma. Lúcio de Mendonça, entretanto, figura superior nas letras brasileiras, admirou o soneto. Jarbas Loreti levou o soneto a Martins Júnior, notável homem de letras e jurista, que, então, auxiliava Quintino Bocaiúva, presidente do E[stado] do Rio, numa das secretarias. Martins Júnior louvou os versos e concluiu: <i>Mas Narciso é um torturado</i>. Esse soneto é o que figura no livro de Laudelino Freire. Quando disse que conhecias o soneto, lembrava-me de ter sido ele publicado em <i>O Cachoeirano</i>, e de teres os números [do jornal em] que apareciam versos meus. Em tempos passados, eu não dava ao soneto o valor que outros davam. Mas, de alguns anos para cá, reputo esse soneto uma das raras produções poéticas, de que se orgulha a literatura deste mundo (e a do outro também). Ia-me esquecendo de uma coisa importante: Sei que Figueiredo e Lúcio e Martins Júnior recitam, no Além, o soneto, que é sempre saudado com fragorosas palmas.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A consagração poética pelo soneto foi um fenômeno interessante na literatura brasileira. Quando se diz: “Ora, direis, ouvir estrelas!”, todos, unânimes, correm para Olavo Bilac. Por um verso se identifica um poeta, de Camões a Vinícius de Moraes. Entre os poetas capixabas, Narciso, se fosse divulgado, seria conhecido pelos seus sonetos. Esta forma fixa perdeu prestígio com o advento do modernismo, mas ainda serve de teste para o ofício de escritor. O soneto tem segredos que o leitor vulgar, o leitor comum desconhece. A chave de ouro, por exemplo. O <i>enjambement</i>. A posição das rimas. As modalidades da acentuação. Tudo isto pode ser observado no primeiro e no segundo Cadernos de Poesias de Narciso e que constituem uma espécie de obra imatura. Ainda não se fez um estudo desta trajetória de sua aprendizagem, de sua aplicação, do progressivo burilar do gosto. Em Narciso, a qualidade poética decorreu também da convivência com outros poetas, declaradamente Cruz e Sousa, Nestor Vítor e Olavo Bilac. Andrade Muricy identificou dezesseis grupos dentro do simbolismo. Narciso Araújo aparece atuando no grupo Rosa-Cruz, onde pontificava um amigo seu, Félix Pacheco, que, de muitas formas, tentava promovê-lo. Inutilmente.</p>
<p>A título de exemplo de qualidade poética, vejam-se alguns primeiros versos dos 77 poemas que compõem o primeiro e o segundo Cadernos. Todos os poemas têm título:</p>
<p>
Ingratidão: Foste tu, mulher má, que despertaste<br />
Idílio: Canta o mar gemedora cavatina<br />
Um soneto: Vou ver, amigos, se um soneto faço.</p>
<p>
Citar o primeiro verso dos poemas seria uma forma de organizar a obra de Narciso. Fazendo isto em Maria resultou um fenômeno interessante. Alinhavando os 29 primeiros versos, ter-se-ia como resultado um novo poema.</p>
<p>Andrade Muricy organizou um glossário dos vocábulos constantes nos poetas simbolistas que caracterizam o simbolismo brasileiro. Narciso Araújo não fugiu à regra. Palavras raras, então chamadas “peregrinas”, entram em circulação como se fossem moedas de valor e também salvação para o caso de se necessitar de uma rima. Há um papel em que Narciso enumera uma série de palavras contendo as mesmas rimas para uso na composição do soneto.</p>
<p>De tudo o que se pode aprender e apreciar neste poeta, cuja virtude essencial foi a modéstia e o fato de ter preferido a sua terra natal à agitação cultural de um centro urbano, fica o soneto (sem nome em <i>Maria</i>) que tem o título de “Condor” em <i>O Cachoeirano</i> e o de “Transfiguração” no livro <i>Poesias</i>:</p>
<p>
Venho de tua casa e de ti trago<br />
Toda a fragrância. Calmo céu se anila<br />
Dentro de mim e lindo sonho mago<br />
Enche minh’alma e, todo azul, cintila.</p>
<p>Vou perturbado e volto como um lago,<br />
Depois de estar contigo. Uma tranquila<br />
Esperança me vem do teu afago<br />
E muda em bronze minha fraca argila.</p>
<p>Tu transformas em trigo o inútil joio,<br />
O paul morto em cristalino arroio<br />
E num gigante intrépido um pigmeu.</p>
<p>Vou ver-te em tua casa, mas, voltando,<br />
Em remígios possantes o ar cruzando,<br />
É um condor que volta, não sou eu.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>Bravos companheiros e fantasmas: Estudos críticos sobre o autor capixaba</i>. Vitória: Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Federal do Espírito Santo, 2006.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2006&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b> nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site, <a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Capítulo V &#8211; Notas sobre Santa Teresa</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-v-notas-sobre-santa-teresa/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 15:03:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração Italiana]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Busatto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1. O nome de Santa Teresa — 2. Os polacos no Timbuí — 3. Os passageiros do Rivadavia As cidades do Espírito Santo fundadas por imigrantes italianos ainda não têm a história escrita que merecem, porque a história vai se completando e corrigindo como um mosaico. Cem anos de colonização deveriam ter sedimentado hábitos, costumes [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-hpEVFfXmRHY/WFlxRIVbr-I/AAAAAAAALI0/ix7uczIYcZA_ShZn0Ra0ZnouUVILT6u_ACPcB/s1600/Imigrante.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Imigrante-5.jpg" class="wp-image-6302" width="400" /></a></div>
<p><span style="font-size: 85%;"><br /></span><br />
<span style="font-size: 85%;">1. O nome de Santa Teresa — 2. Os polacos no Timbuí — 3. Os passageiros do Rivadavia</span></p>
<p>
As cidades do Espírito Santo fundadas por imigrantes italianos ainda não têm a história escrita que merecem, porque a história vai se completando e corrigindo como um mosaico. Cem anos de colonização deveriam ter sedimentado hábitos, costumes e tradições familiares, o que , de fato, não se verificou. Um capixaba de quarta geração não sabe o nome dos bisavós e esta falta de memória cultural se justifica por diversas causas. O que se publicou e se publica em matéria de imigração italiana não teve base de pesquisa em fonte documental segura, mas preferiu a tradição oral, de modo que os fatos, muitas vezes, são interpretados na sua particularidade pitoresca. À falta de cultura letrada deve-se acrescentar que a segunda guerra mundial e a existência do integralismo como partido político provocaram a destruição de muitos documentos pessoais das famílias, que pudessem identificar a origem dos imigrantes. Houve colonos que trocaram de nome ou o abrasileiraram para evitar perseguição política e outros inconvenientes com o governo de Getúlio Vargas.</p>
<p>Santa Teresa é, atualmente, a mais comentada de nossas ex-colônias italianas. Alguns documentos do Arquivo Público Estadual do Espírito Santo trazem informações que divergem das versões pitorescas. A primeira delas diz respeito ao nome da atual cidade &#8220;Santa Teresa&#8221;. A segunda é a de que foram os &#8220;primeiros&#8221; colonos a chegarem ao núcleo Timbuí.</p>
<p>Este trabalho pretende mostrar que: 1. O nome de Santa Teresa é anterior à chegada dos tiroleses àquele local. 2. Os primeiros colonos que ocuparam a região do Timbuí foram polacos e algumas famílias da malograda fazenda &#8220;Nova Trento&#8221; de Pedro Tabachi. 3. Somente depois os tiroleses do navio Rivadavia ocuparam o lugar central do núcleo e tiveram a sensação de serem os primeiros e reais fundadores do local.</p>
<p>Basta a leitura do documento oficial escrito pelo então Diretor interino da colônia de Santa Leopoldina, Pedro de Sant&#8217;Anna Lopes, em 1875, na íntegra, para que se tenha uma noção das três afirmações mencionadas acima:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Colônia de Santa Leopoldina, Porto do Cachoeiro, 11 de julho de 1875.<br />
Ilmo. E Exmo. Sr.<br />
A conveniência da criação quanto antes de uma colônia nas fertilíssimas matas do Timbuí, torna-se cada vez mais urgente.<br />
A colônia de Santa Leopoldina acha-se já em tal estado de desenvolvimento, que já se pode ir cuidando de sua próxima emancipação; quase que todos os colonos já se acham em condições de poderem dispensar a tutela do Estado, e grande número deles já possuem fortuna relativamente sofrível.<br />
A continuar a remessa para ela de emigrantes em número avultado, ocasiona o acréscimo progressivo de sua despesa, e na sombra dos colonos novos os velhos continuam no usufruto dos favores do Estado, sem que seja possível evitar esse abuso.<br />
Além disto acresce que a colônia abrange uma grande extensão de território coberto com uma grande rede de estradas e caminhos e muitas pontes, cuja conservação e prolongamento deles à proporção do seu desenvolvimento para o centro acarreta grande dispêndio. Os últimos emigrantes acham-se estabelecidos a 8 e 9 léguas do Porto do Cachoeiro.<br />
Acresce mais que os terrenos devolutos em rumo de sul já escasseiam e a cada passo se encontram terrenos ocupados por particulares residentes no Galo, Chapéu e Pedra Branca.<br />
Assim, pois, julgo conveniente que esses terrenos fiquem reservados não só para o futuro desenvolvimento da cultura dos colonos atuais, como também para o estabelecimento dos filhos destes, logo que atinjam idade legal.<br />
Deste modo o Governo poderá daqui a quatro anos decretar a emancipação desta colônia, fazendo-a entrar na massa comum da população.<br />
Para poder-se chegar a este fim convém desde já encaminhar a emigração para o Timbuí onde já existem emigrantes polacos estabelecidos há dois anos, e onde acabo de estabelecer os italianos recém chegados.<br />
Este novo núcleo desenvolve-se à margem da antiga estrada de Santa Teresa, acompanhando no princípio o rio do Norte e depois o rio Timbuí; comunicando-se com o Porto do Cachoeiro pela estrada do Timbuí e com a colônia de Santa Leopoldina pelo centro.<br />
Prevendo o futuro desenvolvimento da colônia do Timbuí escolhi quatro prazos em lugar conveniente para o estabelecimento da futura povoação na estrada de Santa Teresa, margem do Timbuí, onde mandei derribar o mato e construir um grande barracão.<br />
Deste ponto ao Porto do Cachoeiro, no estado atual dos caminhos gastam-se seis horas.<br />
Se o Governo quiser criar a nova colônia o poderá fazer desde já, visto já estar satisfeita a condição de medição e demarcação recomendada pelo regulamento de 1867, para a criação de novos núcleos coloniais.<br />
Se for criada a nova colônia posso assegurar o seu próspero futuro, pois há mais de mil e quinhentos italianos austríacos que, a convite de seus parentes e amigos daqui se preparam para emigrar para cá.<br />
Ao Governo compete resolver como julgar mais conveniente.<br />
Deus Guarde a V.Exa.<br />
Ilmo. e Exmo. Sr. Dr. Domingos Monteiro Peixoto: D. Presidente desta Província.<br />
O Diretor interino Pedro de Sant&#8221;Anna Lopes.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p><b>1. O nome de Santa Teresa</b></p>
<p>Uma questão clara neste documento é o nome de Santa Teresa. &#8220;Este novo núcleo (Timbuí) desenvolve-se à margem da antiga estrada de Santa Teresa&#8221; diz Pedro de Sant&#8217;Anna Lopes. E repete logo a seguir: &#8220;escolhi quatro prazos em lugar conveniente para o estabelecimento da futura povoação de Santa Teresa, margem do Timbuí&#8230;&#8221;. A estrada de Santa Teresa foi iniciada em 4 de setembro de 1848 sob a Presidência de Antônio Pereira Pinto e está presente em quase todos os relatórios dos presidentes da Província, além de aparecer em centena de documentos do Arquivo Público Estadual. Quem fala dos erros desta estrada e do seu traçado é o engenheiro Gabriel Emílio da Costa no seu relatório de 8 de janeiro de 1873, dois anos antes do estabelecimento dos tiroleses no núcleo do Timbuí, época da chegada dos polacos à colônia de Santa Leopoldina. Assim escreve o engenheiro sobre a referida estrada:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Falando rigorosamente o Rio Doce não possui vias de comunicação que se possam chamar regulares. A estrada para Minas não passa de uma picada tortuosa e mal feita por onde os mineiros rompem até a Natividade. Da Natividade em diante existe estrada a de Santa Teresa, até a vila da Serra e Vitória. A estrada de Santa Teresa que na opinião de muitos só tem servido para sobrecarregar os cofres públicos, não tem atraído como era de esperar os gêneros da produção mineira para o comércio da Vitória; passam-se meses sem que ela seja transitada por uma viva alma. A causa disto é fácil de explicar: a estrada de Santa Teresa a cuja construção não presidiram os estudos indispensáveis quanto à direção, terminando na Natividade estabeleceu uma comunicação não com a Província de Minas e sim com um ponto insignificante de Minas. Para que houvesse comunicação entre as duas Províncias era necessário ou que a estrada de Santa Teresa fosse adiante ou então que a Província de Minas entroncasse algumas das suas estradas na de Santa Teresa. Se a estrada de Santa Teresa tivesse para ponto terminal a florescente freguesia de Caratinga, por exemplo, podia-se com razão esperar que os mineiros procurassem o mercado da Vitória pois além de outros pontos haveria estrada para a cidade de Ponte Nova, Freguesia de Abre Campos e Vermelho, Arraial das Antas, Caratinga e em outra direção com a cidade de Itabira Joanésia por que de todos estes pontos existem estradas regulares até a freguesia do Caratinga. Não falo nas comunicações com o Norte da Província de Minas as quais por serem as mais importantes são também as mais dispendiosas. O Serro, o Peçanha e outros povoados ao Norte de Minas não comerciam com o Rio Doce porque não podem chegar até ele. Enquanto a Província de Minas não atender para esta deficiência todo o passo dado para a desejada comunicação de Minas com a Vitória pela estrada de Santa Teresa é baldado. Com efeito, do Timbuí até o Crubixá poucas situações existem ao longo da estrada de Santa Teresa e daqui em diante, até a Lage mais de quinze léguas não se encontra um único habitante. Da Lage até o Guandu existem alguns moradores intrusos, mas estes têm mais facilidade e menos dispêndios em mandar e receber gêneros pelo Rio doce. Se a Província de Minas julgar de interesse oferecer aos seus centros produtores uma comunicação franca para o litoral da Província do Espírito Santo e se esta atender à necessidade de modificar o trânsito pela estrada de Santa Teresa de modo a aproximá-la de um mercado livre com o da vila de Santa Cruz que sem contestação alguma é preferível ao da Serra e mesmo ao de Vitória por faltas de pastagens, não deve causar espanto aos pessimistas que a estrada de Santa Teresa se torne um poderoso contribuinte para o aumento das rendas da Província.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A estrada de Santa Teresa era uma das quatro vias de comunicação, na época, que ligava esta Província com a Província de Minas. Se bem que precária, sua história e seu traçado são inconfundíveis. O famoso e colorido mapa impresso em 1878 que acompanhava a Breve notícia descritiva sobre a província do Espírito Santo, organizado pela Inspetoria Geral de Terras e Colonização, mostrava o traçado de &#8220;inclusive a via férrea projetada desde a cidade de Vitória até as proximidades da povoação denominada &#8220;Porto do Souza&#8221;, a qual está situada a pequena distância da margem direita do Rio Doce&#8221;. Esta via férrea passava por Santa Teresa e os engenheiros se utilizaram do primeiro mapa do núcleo Timbuí onde estão marcados os quatro prazos mencionados por Sant&#8217;Anna Lopes.</p>
<p>O primeiro mapa do núcleo Timbuí continua inédito. Datado de 1876, apresenta a estrada de Santa Teresa cortando o rio Timbuí no exato local da medição dos quatro prazos demarcados por Sant&#8217;Anna Lopes.</p>
<p>A origem do nome de Santa Teresa é, pois, anterior à chegada dos imigrantes tiroleses. Se se perguntar porque esta estrada iniciada em 1848 tinha no nome de Santa Teres não parece difícil a resposta. Basta lembrar que a estrada que ficava mais ao sul e se dirigia para Minas chamava-se São Pedro de Alcântara. Ambas homenageavam o Imperador Dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina.</p>
<p>Querem alguns, com toda a devoção, que o nome ao lugar foi dado por uma imigrante muito religiosa de nome Teresa Roat, avó do cientista Augusto Ruschi, que possuía uma imagem da tal santa e a colocava no oco de uma grande árvore e onde proferiam suas orações. Com todo o respeito ao famoso cientista e aos demais católicos de Santa Teresa — a religiosidade dos italianos é um traço fundamental da sua identidade — deve-se dizer que não eram os imigrantes que davam nome aos núcleos. O Regulamento para as colônias do Estado, de 19 de janeiro de 1867 dizia logo no Artigo 1o. &#8220;As colônias do Estado serão criadas por Decreto do Governo Imperial, com a designação do respectivo nome e distrito colonial previamente escolhido, medido e demarcado por engenheiro do Governo.&#8221; Ora tal se dera com o nome da colônia de Santa Leopoldina, nome da esposa de Dom Pedro I. Os núcleos recém criados nesta colônia em 1875 e 1877 receberam os nomes de Timbuí e Santa Cruz, respectivamente. E os demais seguiram a regra, o artigo 1o.: Alfredo Chaves, Antônio Prado, Acioli Vasconcelos etc. e continuaram após a proclamação da República com Moniz Freire, Afonso Cláudio, Colatina, etc. Como se dissesse &#8220;Timbuí, na estrada de Santa Teresa&#8230;&#8221; por força da religiosidade e bem mais tarde, prevaleceu o nome de Santa Teresa, enquanto que a mesma religiosidade não prevaleceu no núcleo Santa Cruz que já está no seu oitavo nome e hoje conhecemos como Ibiraçu.</p>
<p><b>2. Os polacos no Timbuí</b></p>
<p>A segunda questão a se considerar no documento de Sant&#8217;Anna Lopes diz respeito aos primeiros habitantes do Timbuí. Diz ele: &#8220;convém desde já encaminhar a emigração para o Timbuí onde já existem emigrantes polacos estabelecidos há dois anos.&#8221; Isto é confirmado por um longo relatório do Diretor da Colônia de Santa Leopoldina, Bernardino B. da Cunha Bastos, datado de 27 de janeiro de 1873 e enviado ao Presidente da Província, João Tomé da Silva.</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Tendo chegado nos primeiros dias do mês corrente os imigrantes vindos nos barcos Zorida e Herlig Oscar Frederick fiz o quanto me era possível para hospedá-los convenientemente. Assim, não só por falta de casa própria no porto do Cachoeiro, para receber tão grande número (500 pessoas) como também por não ser conveniente deixá-los aglomerados em estação tão imprópria, tratei de dispersá-los pela colônia, o que não pude conseguir por eles não se quererem separar. Com muito custo consegui dividi-los em quatro porções, ficando uma no barracão do porto do Cachoeiro, outra na casa junto da Igreja Católica, outra nas quatro casas que o Sr. Gonçalo Pinto de Amorim Machado me fez o favor de emprestar para este fim e outra, finalmente seguiu para os trabalhos do Engenheiro Dr. Pedro de Albuquerque Rodrigues que os tem acomodado convenientemente.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A presença dos polacos gerou uma série de problemas para as autoridades e também para os outros imigrantes e, neste mesmo sentido, continua escrevendo o Diretor:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Cumpre-me declarar que os antigos colonos aqui estabelecidos e mesmo os Pomeranos que vieram nos barcos Zorida e H. O Frederick não fazem liga com os demais que são por eles denominados Polacos, pedem para que os estabeleça em separado, e alegam serem os tais Polacos muito revolucionários e ladrões. Estou convicto da conveniência de atender-se a tão justo pedido e tenciono estabelecer os Polacos nos lotes que forem sendo medidos pela Comissão a cargo do Dr. Pedro de Albuquerque Rodrigues que ficam bastante separados, isto se V. Exa. Não determinar o contrário.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O Regulamento de 19 de janeiro de 1867 dizia que os imigrantes tinham o direito a subvenção e comida durante os seis primeiros meses e os Polacos, instigados e instruídos por um tal Sr. Tesch, que pleiteava um cargo de agente consular, não quiseram mudar-se para as colônias no tempo estabelecido. Alegavam três motivos: falta de colônias medidas para todos, falta de assistência médica e, finalmente, salários diminutos. O que realmente pretendiam os polacos era dar o golpe no governo e se retirarem para outra colônia onde, depois de seis meses, procederiam da mesma maneira. Por esta altura dos acontecimentos, 7 de junho de 1873, o Dr. Pedro de Albuquerque Rodrigues era nomeado Diretor da Colônia de Santa Leopoldina e é ele que, vendo os polacos das casas do Sr. Gonçalo se retirarem dizendo querer voltar para a Europa, pede 15 a 20 homens da Guarda Nacional para forçá-los a se mudarem par aos prazos medidos e impedir a seguida dos mesmos para Vitória. No dia 17 de julho o Diretor não pôde comparecer a uma reunião com o Presidente da Província em Vitória, e se desculpa porque teve que &#8220;procurar ver se consigo dissuadir um grande número de Polacos que existem nos mesmo trabalhos e segundo sou informado, estão mudando-se daqui para o Porto do Cachoeiro.&#8221; Primeiro foi à mata e logo no dia 19 chama o Presidente da Província para combinar a ação dele com o oficial da Guarda Nacional. Passados mais dois dias:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Todos os Polacos, com exceção talvez de 15 a 20 famílias se tanto estão reunidos aqui no Porto e convenientemente armados, perfazendo um número de mais ou menos cem homens. Não obstante a rivalidade que existe entre Alemães e Polacos nem um recurso posso esperar daqueles no caso de um conflito pois dizem eles são também Prussianos, e pelo contrário entre os últimos chegados talvez encontremos alguns inimigos.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Estabelecido o impasse, o Diretor escreveu no ofício no. 36 de 28 de julho de 1873:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>&#8230;remeto a V. Exa. o mapa incluso em o qual se declara o nome de todos os chefes de família Polacos existentes nesta Colônia, data de sua estada na mesma, quais deles receberam prazos e o seu local, e os que ou recusaram-se definitivamente ou se acham duvidosos. Quanto aos motivos que levaram essas famílias a não aceitarem prazos e resolverem retirar-se nem um há que mereça sérias atenções.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O mapa estatístico tem os seguintes dados: 48 colonos aceitaram prazos sendo que dentre eles 31 na Colônia de Santa Leopoldina e 17 colonos polacos no Timbuí; 27 recém chegados duvidavam; 59 colonos recusaram os prazos; estes 59 se retiraram para Vitória em duas turmas, 30 em 25 de julho e 29 em 29 de julho do mesmo ano; um ficou hospitalizado em Vitória; o total somava 135 famílias e o número médio de membros por família era de 5 pessoas.</p>
<p>O Diretor não deixou de escrever ao Presidente da Província com pesadas considerações quanto ao comportamento dos colonos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>As concessões que eles obtiveram foram por demais nocivas à regularidade dos serviços da colônia: para calmar o seu gênio turbulento permitiu o meu antecessor que trabalhassem até meninos de 8 a 9 anos de idade (&#8230;) e forçoso é confessá-lo que quase tanto merece o menino como o homem pois o trabalho de um deles não vale em consciência mais de 400 réis diários. A ociosidade, o descaramento, a ratonice, o gênio desordeiro são os caracteres distintivos do Polaco. Por conveniência e moralidade do serviço fui forçado a não deixar sequer um Polaco nas turmas em que trabalham os Alemães (Pomeranos) pois o seu contato era por demais sensível ao serviço. Essa gente foi como uma praga lançada sobre esta Colônia: a passagem de um grupo deles é sempre perfeitamente traçada pela destruição e roubo ou furto de algum objeto. Tudo lhes serve; alguém pode ficar tranqüilo diante desses, talvez, antigos fregueses das casas de correção de Possen? Alguém julga-se tranqüilo diante desses verdadeiros bandidos?</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Os restantes que permaneceram, demonstrando serem de boa paz, foram colocados nos confins da Colônia de Santa Leopoldina, no Baixo Timbuí, numa medida discriminatória. São os fundadores de Santo Antônio dos Polacos. Foram eles:</p>
<div align="center">
<table border="1" style="width: 90%;">
<tbody>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="center">
<b><span style="font-size: 85%;">Nome</span></b></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<b><span style="font-size: 85%;">Esposa</span></b></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<b><span style="font-size: 85%;">Lote</span></b></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<b><span style="font-size: 85%;">Navio</span></b></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<b><span style="font-size: 85%;">Membros<br />
familiares</span></b></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">1. Franz Okonski</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Mariana</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">9</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">Zorida</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">7</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">2. Joseph Ziemanoski</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Eva</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">21</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">5</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">3. João Hasse</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Johane</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">19</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">5</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">4. Johan Hasse<br />
(filho do anterior)</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">–</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">7</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">–</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">5. Valentin Gdanitz</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Veronica</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">8</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">6</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">6. Joseph Eiclolz</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Maria</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">25</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">H.O. Frederick</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">3</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">7. Johan Selenski</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Rosalie</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">17</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">3</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">8. Johan Latozewski</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Mariana</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">15</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">6</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">9. Johan Fiertalski</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Francisca</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">23</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">4</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">10. Joseph Grabowski</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Maria</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">A</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">5</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">11. Franz Pszecka</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Cecilia</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">13</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">5</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">12. Johan Dobrowoski</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Veronica</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">16</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">5</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">13. Franz Grabowski</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Catharina</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">A</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">6</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">14. Thomaz Grabowski<br />
(filho do anterior)</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">–</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">A</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">–</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">15. Augusto Quanta</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Mariana</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">31</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">5</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">16. Joseph Shilitz</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Francisca</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">27</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">Marie Heydon</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">5</span></div>
</td>
</tr>
<tr>
<td valign="middle">
<div align="justify">
<span style="font-size: 85%;">17. Thomaz Shilitz</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">Mina</span></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">29</span></div>
</td>
<td valign="middle">
<div align="center">
<i><span style="font-size: 85%;">&#8220;</span></i></div>
</td>
<td>
<div align="center">
<span style="font-size: 85%;">3</span></div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Foram estes, oficialmente, os primeiros habitantes do Timbuí, antes mesmo da sua criação como núcleo. Estes polacos não devem ser confundidos com os imigrantes poloneses que mais tarde vieram ao Espírito Santo, já que a experiência com os polacos ficou encerrada com o acontecimento de sua retirada. O lugar, mais tarde, chamou-se Santo Antônio dos Polacos.</p>
<p>Com a ampliação da área das medições de colônias em Santa Leopoldina, uma nova frente se estabeleceu na direção do rio Timbuí passando pelo rio do Norte. Para esta região se dirigiram numerosos remanescentes da extinta colônia Nova Trento de Pedro Tabachi, em Santa Cruz. Estes italianos enviaram um requerimento ao Presidente da Província pedindo um professor na pessoa de Paoli Giuseppe. Sant&#8217;Anna Lopes escreve aos 9 de junho de 1874:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>No incluso requerimento os Colonos Italianos ultimamente chegados a esta colônia, vindos da Colônia de Pedro Tabachi, pedem um professor para lecionar seus filhos; e dentre eles Paoli Giuseppe, pretendendo este encargo, apresenta os documentos juntos como prova de sua habilitação para o magistério&#8230;</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
No dia 24 de setembro do mesmo ano, Pedro de Albuquerque Rodrigues escrevendo sobre a área a adicionar-se à colônia de Santa Leopoldina, informou:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Para NE estendem-se até o Rio Doce, creio que uma distância provável de 4 a 5 léguas, contadas da parte já colonizada da estrada de Santa Teresa e onde atualmente estão agrupando-se os italianos: é evidente que prolongar a colônia nessa direção a ganhar o Rio Doce seria de vantagens reais. E pondera: Para que misturar Saxônios e Italianos que preferem o Timbuí com Pomeranos e Renanos que preferem o Oeste (Califórnia)?</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Nesta ocasião já existiam 4 barracões na região do Timbuí. Eram construídos de madeira roliça e cobertos de palha. No dia 5 de janeiro de 1875 registra-se o recebimento de 130 imigrantes tiroleses em Santa Leopoldina. São os de Nova Trento que foram transferidos. Toda uma vasta movimentação de pessoal imigrante se registra nesta ocasião e tal fato chega a assustar os administradores. Em maio de 1875 Sant&#8217;Anna Lopes diz:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Neste momento acabo de receber o ofício de V. Exa. datado de 24 do corrente sob no. 89, comunicando-me a próxima chegada de 350 imigrantes Tiroleses com destino a esta Colônia. Ficam dadas as providências precisas para o alojamento dos mesmos. Cumpre-me porém, ponderar a V. Exa. que me parece inconveniente a vinda de imigrantes em número tão crescido na quadra atual, em que esta Colônia está lutando com a epidemia de varíola e febres intermitentes, moléstia esta que não tem excetuado nem aos naturais desta localidade; mesmo eu acho-me há 3 dias de cama sofrendo febres.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Entre estes 350 estão os fundadores da cidade de Santa Teresa.</p>
<p><b>3. Os passageiros do <i>Rivadavia</i></b></p>
<p>A referência anterior a 350 imigrantes tiroleses diz respeito aos que chegaram no navio <i>Rivadavia</i>, ao Rio de janeiro. Depois da quarentena, que nunca era de 40 dias, vieram para Vitória em dois grupos, nos navios nacionais <i>Ceres </i>e <i>Bahia</i>. A primeira lista do primeiro grupo foi feita pelo curador dos imigrantes Frederico Meyer, na Agência Oficial de Colonização, em 28 de maio de 1875 e se intitula: Relação dos imigrantes que no dia 29 do corrente seguem para Vitória com destino à colônia de Santa Leopoldina no vapor <i>CERES</i>. Estão enumerados 154 imigrantes. A segunda lista do segundo grupo foi feita por Kurt K.F. Vincent, na Agência Oficial de Colonização com data de 31 de maio de 1875, com o título: Relação dos imigrantes que no dia 1 de junho de 1875 seguem para Vitória com destino à colônia de Santa Leopoldina no vapor <i>BAHIA</i>. Estão enumerados 163 imigrantes.</p>
<p>Esta listas apresentam sinais de chave marcando o grupo de cada família, nomes que foram cortados e que se supõe não viajaram, número do lote sorteado quando da sua distribuição no já então núcleo Timbuí, etc.</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Em cumprimento às ordens de V. Exa. de 10 do corrente sob no. 100 [escreve Sant&#8217;Anna Lopes ao Presidente da Província] tenho a honra de passar às mãos de V. Exa. cópia das listas dos imigrantes que vieram nos vapores <i>BAHIA </i>e <i>CERES</i>, procedentes do Rio de Janeiro.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Um mês antes, o mesmo diretor da Colônia de Santa Leopoldina achava inconveniente a vinda de um número tão grande de imigrantes no período em que a colônia era assolada pela varíola e por febres. Recebeu, pois, ordem terminante para fazer pernoitar os imigrantes na fazenda Nova Coimbra no penúltimo dia de viagem. Tal medida visava a impedir o contato dos recém-chegados com os colonos do Porto do Cachoeiro e não deixar ninguém atravessar o rio. Para isso ficou calculado que os tiroleses deviam chegar a Nova Coimbra pela noitinha, às 5 horas da tarde quando já começa a escurecer. Estas medidas &#8220;isolacionistas&#8221; deram aos fundadores de Santa Teresa a sensação de pioneiros, pois não viram ninguém no seu trajeto. Saindo de Nova Coimbra foram direto para os barracões e depois para os lotes no meio da mata. Sabe-se disto porque o Diretor da colônia escreveu no dia 5 de julho de 1875: &#8220;Por ocasião da entrega dos lotes de terras aos imigrantes recém-chegados seis de entre eles se internaram tanto nas matas do Timbuí que extraviaram-se; 24 horas depois apareceram 4, faltando 2&#8221;. Um mateiro de nome Benedito de Oliveira Lemos encontrou os dois bastante extenuados de fome e de fadiga e os conduziu ao barracão.</p>
<p>Estes e outros dados sobre os primeiros colonizadores de Santa Teresa podem ser estudados no volume G 71 do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.</p>
<div id="CIIA_RP34">
[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
</div>
<blockquote class="tr_bq">
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p>
<div>
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</blockquote>
</blockquote>
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<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-v-notas-sobre-santa-teresa/">Capítulo V &#8211; Notas sobre Santa Teresa</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Capítulo IV &#8211; A revolta de Nova Lombardia</title>
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		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 14:32:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Imigração Italiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Há um século houve uma revolta entre os imigrantes da região do Timbuí, mais propriamente de Nova Lombardia, a que os historiadores não deram importância. No entanto, ela fez ver a situação dos imigrantes italianos no Espírito Santo e abriu os olhos aos governos subsequentes para determinados erros e abusos que eram cometidos, obrigando-os à [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-hpEVFfXmRHY/WFlxRIVbr-I/AAAAAAAALI0/ix7uczIYcZA_ShZn0Ra0ZnouUVILT6u_ACPcB/s1600/Imigrante.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Imigrante-6.jpg" class="wp-image-6349" width="400" /></a></div>
<p>
Há um século houve uma revolta entre os imigrantes da região do Timbuí, mais propriamente de Nova Lombardia, a que os historiadores não deram importância. No entanto, ela fez ver a situação dos imigrantes italianos no Espírito Santo e abriu os olhos aos governos subsequentes para determinados erros e abusos que eram cometidos, obrigando-os à correção. A revolta dos Lombardos, como a apelidou um funcionário da época — porque os imigrantes provinham da Lombardia — não é um fato isolado. Está inserido na epopéia da imigração italiana para o Espírito Santo, na ocupação do solo e até mesmo na realidade social de hoje.</p>
<p>Desde o início, a imigração italiana foi cheia de sobressaltos, a começar pela vinda do primeiro grupo sediado na fazenda Nova Trento de Pedro Tabachi. O insucesso daquele empreendimento exigiu a presença da força policial e as atenções governamentais para a garantia de vidas. Neste mesmo lugar, três anos depois, uma nova tentativa de colonização bem sucedida resultou no que hoje é Ibiraçu e Aracruz.</p>
<p>A versão aqui apresentada da Revolta dos Lombardos se fundamenta em documentos escritos pela autoridade maior da colônia de Santa Leopoldina, na pessoa do seu Diretor Aristides Armínio Guaraná. Essa é apenas uma versão, a oficial. A versão dos imigrantes, quase toda oral, parece bastante diferente.</p>
<p>O historiador do cinqüentenário de Santa Teresa, Frederico Müller, diz no seu opúsculo, omitindo nomes e datas, apenas o fato: &#8220;Quanto ao trabalho, ordenou o governo que os colonos trabalhassem quinze dias nas estradas e quinze nos seus terrenos. Tais condições desgostaram-nos, pois, por essa forma, não podiam viver, porquanto os gêneros de primeira necessidade eram relativamente caros, e eles precisavam de mais trabalho assalariado. Realmente, as colônias nada produziam ainda. Resolveram, por isso, reclamar as suas pretensões ao vice-diretor, para o que reuniram-se todos na povoação, inclusive os de Santo Antônio. Diante dessa grande aglomeração, que foi tomada como sendo uma revolta contra as autoridades, foi ordenado que a foça pública dispersasse o grupo, saindo do encontro diversos manifestantes feridos e um morto.&#8221;</p>
<p>Os documentos no Arquivo Público Estadual do Espírito Santo são mais eloqüentes. Era diretor da colônia de Santa Leopoldina, que compreendia três núcleos, o de Porto do Cachoeiro (Santa Leopoldina), o de Timbuí (Santa Teresa) e o de Santa Cruz (Ibiraçu), o Dr. Aristides Armínio Guaraná, ajudante de ordens do Conde D&#8217;Eu na guerra do Paraguai. Havia assumido o posto no dia 7 de setembro de 1877. A sede da colônia fora transferida de Santa Leopoldina para Santa Cruz, ou mais propriamente, para a Fazenda das Palmas, a antiga propriedade de Pedro Tabachi. Vivia o diretor em contínuo vai-e-vem. Sua administração pode ser estudada em 485 ofícios expedidos que refletem seus atos e atitudes em relação aos imigrantes. O Presidente da Província que o empossara havia tomado medidas drásticas na contenção de despesas. Parece que viera da Corte para o Espírito Santo com esta finalidade. Por este motivo, os fundadores de Ibiraçu iniciaram um regime de colonização sem os privilégios concedidos aos fundadores de Santa Teresa, isto é, não recebiam pagamento para alimentação durante os seis primeiros meses. Quem acabou com estes gastos, abusos e malandragens praticados por imigrantes e nacionais que manipulavam o dinheiro, foi o Dr. Affonso Peixoto de Abreu Lima.</p>
<p>Aos 22 de outubro de 1877, no ofício no. 70 o Dr. Guaraná registra inquietações e desagrados, bem como anúncios de deserção em massa dos colonos do Timbuí. Diz ele ao Dr. Abreu Lima: &#8220;Peço a V. Ex.a. que não suponha que pinto com cores demasiadamente carregadas os sucessos que prevejo. Conhecedor como estou, do mau caráter, exigência e insubordinação dos colonos do Timbuí, julgo do meu dever prevenir a V. Ex.a. de tudo quanto possa ocorrer; e pedindo com toda a instância a V. Ex.a. força suficiente, espero, deste modo tirar de mim a responsabilidade de atos que a todo transe buscarei reprimir.&#8221; No ofício no. 79 tem-se o relato, por parte da autoridade, da verdadeira batalha campal acontecida em Santa Teresa:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Timbuí, 3 de novembro de 1877.<br />
Il.mo e Ex.mo. Sr.<br />
Com a retirada das forças que sob as ordens do Capitão Piragibe aqui garantiam a ordem, animaram-se os colonos deste núcleo a por em execução o plano que já tinha eu comunicado a V. Ex.a. de retirarem-se para a Vitória. Sendo disto informado o Engenheiro Franz von Lippe, que na minha ausência administra este ponto, mandou ele chamar ao feitor Giugni Ferdinando chefe e cabeça dos amotinados, a fim de exprobrando-lhe o seu procedimento, aconselhá-lo que desistisse de tal intento. Não quis o dito feitor dar-se por intimado, e pelas praças que lá foram, mandou prevenir ao mesmo engenheiro Lippe que o esperasse no dia imediato que ele viria. No dia marcado, 31 de outubro, de fato apresentou-se na Diretoria acompanhado por todos os habitantes da Nova Lombardia, e exigindo abonos gratuitos ou trabalho nos caminhos para todos. A nenhuma destas exigências podia satisfazer o Engenheiro Lippe em virtude das ordens que de mim tinha recebido, ordens que iam de acordo com o que me tinha determinado V. Ex.a.. Em conseqüência da recusa que lhes foi feita, alterando-se o feitor Giugni além do que devia e tendo sido o cabeça do motim, convidando todos os outros para desertarem em massa e seguirem para a Vitória, resolveu o Engenheiro Lippe mandá-lo prender, e deste modo, por falta de chefe, ficar dissolvida a reunião. Ao sair da Diretoria para a prisão, quiseram os colonos tomar o preso da mão da força e com cacetes e pedras agrediram violentamente a casa da Diretoria e as praças que conduziam o dito Giugni. Os soldados incumbidos de levar o preso defenderam-se, e com alguns particulares conseguiram dispersar os assaltantes, prendendo em flagrante mais quatro dos mais exaltados. Comunicou-me toda a ocorrência o Engenheiro Lippe, fazendo seguir um próprio para Santa Cruz onde eu me achava, e pedindo-me além disto, auxílio com urgência. Reuni alguns habitantes do país e segui para aqui onde a esta hora tudo está tranqüilo, salvo pequenos rumores de que no Domingo próximo voltarão os colonos em massa impor-me suas vontades. Nenhum motivo razoável podem ter os colonos para procederem de tal modo, porquanto, deixando-me V. Exa. o arbítrio de dar trabalho aos mais necessitados, organizei tabelas de famílias, de modo a terem todos, se não muito, ao menos algum salário.<br />
Peço permissão a V. Ex.a, entretanto, para dizer que, a origem do mal está sobretudo na falta de pagamentos regulares, colocando deste modo o colono à mercê dos negociantes, que fazem-se pagar a demora com um grande juro no preço dos gêneros.<br />
Fazendo seguir nesta data os colonos Giugni Ferdinando, Pretti Luigi, Pedroni Eugenio, Rondelli Giuseppe e Carichini Anselmo, a fim de serem apresentados a V. Exa., tenho a honra de solicitar providências de modo a não voltarem mais para este núcleo tais colonos, servindo isto de exemplo para os que para o futuro possam pensar em ter igual procedimento. Deus Guarde a V. Exa. Il.mo. e Ex.mo. Sr. Dr. Affonso Peixoto de Abreu Lima M.D. Presidente da Província. Aristides Armínio Guaraná — Diretor.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Pelo que se sabe, parece que o Presidente não seguiu o conselho de punir o imigrantes com a sua exclusão. Mas não se pense que o incidente foi apenas um fato isolado e extemporâneo. As coisas vinham se arrastando desde o estabelecimento dos colonos. Um ano antes, quando a direção da colônia estava sob outra responsabilidade, os Lombardos haviam dado demonstração de união e solidariedade na consecução dos seus objetivos. Oitenta homens armados foram a Santa Leopoldina exigir os seus direitos, pois, ninguém briga por causas perdidas. Eis, na íntegra, o ofício enviado pelo encarregado Sr. Francisco Leite de Freitas Guimarães ao então diretor da colônia, o Dr. José de Nápoles Talles de Menezes:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Urgente. Colônia de Santa Leopoldina, 22 de janeiro de 1877.<br />
Il.mo Sr.<br />
Passo às mãos de V. Exa. a inclusa cópia de ofício que esta Diretoria dirigiu a José Augusto Peixoto Guedes encarregado do núcleo do Timbuí, a fim de que V. S.a sem perda de tempo se digne providenciar a respeito. Os Lombardos insistem reclamando a este posto, a fim de verem se por este meio tornam-se mais profícuas as sua reclamações. O Guedes pessoalmente aqui veio relatar-me o fato e voltou para o Timbuí a meu pedido, a fim de tomar as medidas constantes do citado ofício, declarando serem as mais prudentes. Apresentaram-se poucas horas depois ao fazer este, cerca de 80 imigrantes armados pedindo ainda abonos no porto do Cacheiro, neguei tenazmente e nenhum só teve abono meu e foi isto bastante para exigirem os sonhados seis meses de sustento e serviços públicos à custa do Governo, exaltando-se como declarou o Inspetor Carlos Tabachi quando se retirou desta povoação. Continuando ainda o motim e desaparecendo o dito Tabachi, chamei o empregado adido à Diretoria Manoel Bernardino Pereira de Souza a fim de acalmá-los até a última hora. Permita-me V. S.a que sobre assunto tão grave emita minha humilde opinião. Ou o Governo satisfaça essas reclamações nascidas talvez de promessas que lhes foram feitas na Europa muito contrárias ao Regulamento de 19 de janeiro de 1877 (digo) o Regulamento da criação das colônias do Estado de 19 de janeiro de 1867 ou então contê-los por meio da força.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Foi o que fez, no final do ano, o Dr. Guaraná, depois de dar uma aula prática de economia ao Presidente da Província e de defender a causa dos imigrantes que se estabeleciam nesta e na frente pioneira de Ibiraçu. Prendeu os mais exaltados e os remeteu ao Presidente da Província, em Vitória.</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Sem colheitas de que possam manter-se — diz o Dr. Guaraná — e sem outro meio qualquer de que lancem mão para subsistirem, receio conseqüências funestas e que irão pesar ainda sobre o Tesouro, se lhes faltar o recurso que até hoje tem sido proporcionado pelo Governo, nos trabalhos de estradas e caminhos. Em regra geral, turbulentos, instigados pela fome e pela miséria, muito naturalmente correrão a mim, que nada posso fazer, visto as ordens terminantes que de V. Exa. tenho. Daí barulhos e a deserção em massa, como já se principia a propalar.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Impossibilitados de reagir pelas armas, defrontados com uma realidade que era o oposto das promessas e sonhos de uma prosperidade fácil, os imigrantes estabelecidos na Nova Lombardia utilizaram-se do estratagema da fuga. Saíam de noite, abandonavam as colônias e partiam pelas estradas em busca da capital do Estado. Na retirada eram acolhidos e escondidos nas colônias dos compatriotas. O fato chegou a ser comentado no jornal O Espírito-Santense de 13 de novembro de 1877. No dia 1o. de dezembro escrevia o Dr. Guaraná:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Tendo notado depois das cenas que ultimamente se deram no Timbuí, que os colonos buscaram abandonar os seus prazos, acabo de ter a confirmação deste meu juízo pela denúncia que tenho a honra de transmitir a V. Exa. e que foi dada por um dos feitores de mais confiança que ali existe. O movimento de deserção já principiou e nenhuma medida posso tomar para impedi-lo, porque seria preciso ter força suficiente para guardar todas as avenidas e caminhos por onde podem os colonos retirar-se. Aproveito a oportunidade para dizer a V. Exa. que, resumida como está a concessão do trabalho em caminhos do Governo, receio muito pelo presente do Timbuí, parecendo-me que só depois que os colonos tiverem alguma colheita, se lhes poderá restringir o recurso fornecido pela Tesouraria.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Anexou o bilhete escrito em italiano ao ofício no. 107 e o enviou ao Presidente da Província, bilhete assinado pelo feitor Pietro Zampieri, com letra caprichada. Este mesmo senhor foi nomeado professor na escola de Nova Lombardia três anos depois. Dizia o bilhete que o colono Raimondo Moretti havia abandonado sua colônia no dia 25 de novembro e tinha partido com toda a família para Vitória e fazia isto porque o trabalho concedido nos caminhos não era suficiente para poder viver. Prevenia o referido feitor à autoridade que se não desse um jeito ao caso a maior parte dos colonos da valada Nova Lombardia iria abandonar também as colônias e sairiam à procura do que viver.</p>
<p>Nesse meio tempo o incidente chegou aos ouvidos do Ministro da Agricultura do Império que passou um telegrama ao Presidente da Província Abreu Lima, solicitando informações. A burocracia dos papéis exigiu uma explicação do Dr. Guaraná que resumiu no ofício 121 o que já dissera antes e termina dizendo que:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Não houve morte alguma produzida por arma branca, e de nenhum modo por arma de fogo. Compreende V. Exa. que na posição em que estamos em presença de homens rudes e sem amor ao país nem às instituições do mesmo, é impossível quando ameaçados e mesmo tornada efetiva tal ameaça, mandar sujeitar homens que se revoltam, por outro meio que não seja à força. Nestas condições é ainda absolutamente impossível privar que um ou outro sofra alguma contusão.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
E o morto de que fala o historiador Frederico Müller? Ninguém lhe cita o nome? Como é que morreu? O imigrante chamava-se Pietro Dalmaschio. Segundo a versão oral dos companheiros, morreu a cacetadas.</p>
<p>Depois do acontecido vieram as averiguações de responsabilidade, denúncias falsas e enérgicos e reiterado esclarecimentos do Dr. Guaraná. Diz ele ao Inspetor Geral de Terras e Colonização no ofício 134 de 29 de janeiro de 1878, Sr. Alfredo Rodrigues Fernandes Chaves:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Dando conta a V. Ex.a do resultado das indagações a que procedi em relação ao telegrama que a meu respeito e contra mim foi dirigido à S. Exa. o Sr. Ministro da Agricultura, e falsamente assinado por Scano Maximo, Luso Antônio, Angelo Pietro e Martinelli, tenho a dizer que tais indivíduos não existem em o núcleo de Santa Cruz, donde se dizem colonos. Para maior prova do que afirmo, com a máxima brevidade possível remeterei a V. Ex.a a relação de todos os chefes de família daquele ponto. Tenho íntima convicção por indagações minuciosas e por informações fidedignas que me deram, que não só o telegrama de que trato, como outro assinado falsamente pelos mesmos nomes e dirigido ao Jornal da Tarde, e bem assim um terceiro dirigido a V. Ex.a e assinado por Delabernardina Francisco, são produzidos unicamente pelo Dr. Eloy Martins de Souza para produzir senão a falta de confiança por parte de V. Exa. ao menos o desgosto que é natural que de mim se apodere, vendo-me atacado de um modo tão difícil de classificar em minha reputação. Estou intimamente convencido também que só do Dr. Eloy têm partido tais telegramas. Se pudesse V. Ex.a obter da Diretoria Geral dos Telégrafos os originais dos telegramas em questão, sou levado a crer que ficaria evidentemente provado não serem os mesmos dirigidos e assinados por colonos. (&#8230;) Entretanto, permita-me V. Ex.a que diga, que no estado em que me acho em relação ao Dr. Eloy é impossível que por mais tempo permaneça ele aqui sem grande quebra da força moral que me é tão necessária.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
No dia 14 de março o Dr. Guaraná oficia ao Vice-Presidente da Província Alpheo Adelpho Monjardim a dispensa do Dr. Eloy Martins de Souza fazendo questão de salientar &#8220;por não ter cumprido com as obrigações do seu cargo.&#8221; O Dr. Guaraná conseguiu declarações dos colonos envolvidos no telegrama de denúncia e as remeteu ao Inspetor Geral de Terras e Colonização &#8220;a fim de que não houvesse apógrafo e despacho telegráfico dirigido a S.Ex.a. de Luso Antônio e Pietro Angelo, não vão declarações pelo fato de nunca ter havido nesta colônia indivíduos com tais nomes.&#8221;</p>
<p>Em outro ofício dirigido ao Inspetor Geral, o de no. 133 de 27 de janeiro de 1878, defende-se o mesmo Dr. Guaraná:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>&#8230;sobre os fatos ocorridos a 31 de outubro do ano passado em o Núcleo Colonial do Timbuí tenho a dizer que foram sobremodo exageradas as notícias que à Legação Italiana chegaram de tais acontecimentos. Tendo recebido esta Diretoria ordens positivas e terminantes para proceder de modo a serem feitos os trabalhos daquela Colônia. Como economia resolveu diminuir o número de indivíduos que se empregaram nos trabalhos de estradas. Esta medida era tanto mais reclamada, quanto famílias inteiras de imigrantes fugiam de cultivar seus prazos para fazerem vida absolutamente dos benefícios ganhos naqueles trabalhos. Empregando-os proporcionalmente ao número de indivíduos que cada família tinha, atendia assim a Diretoria não à manutenção dos colonos como também a justa economia recomendada pelo Governo. Com tal ordem julgaram-se os colonos daquele núcleo ofendidos em seus direitos e em massa resolveram impor à Diretoria o contrário do que fora determinado.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O ofício conta de novo o motim e termina:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Garanto a V. Ex.a. completamente que nem houve fogo nem ordem para atirar e bem assim que o fato da morte a que alude a nota da Legação Italiana foi dada doze dias depois do conflito, falecendo o colono em conseqüência de um violento ataque de febre perniciosa. O que afirmo sobre tal assunto provarei a V. Ex.a. com atestações do médico que cuidou daquele indivíduo.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O médico que atestou a morte de Pietro Dalmaschio foi o Dr. Aristides Serpa. Cessado o primeiro impacto na apuração da veracidade ainda teve o Dr. Guaraná que dar explicações aos sucessores da Presidência da Província como a que aparece muito bem elaborada no ofício no. 262 de 15 de setembro de 1878 dirigido ao Dr. Manoel da Silva Mafra e que, na íntegra, é a seguinte:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Informando a V. Ex.a. sobre veracidade dos fatos e procedência das queixas exaradas nos documentos que acompanhavam o Aviso do Ministério da Agricultura Comércio e Obras Públicas de 31 de agosto último, tenho a dizer que: não sei a que promessas se referem os 36 colonos que se dirigiram a Domenico Giffoni, porque na coleção de Leis de 1867 não encontro o Decreto citado. Se querem referir-se aos seis meses de mantimentos gratuitos tantas vezes reclamados, poderá V. Ex.a. verificar pela relação junta, se os 36 signatários da carta, receberam do meu antecessor tal auxílio.<br />
Em relação à falta de boa distribuição nos trabalhos do Governo e salário insuficiente para o sustento de suas famílias, informo que além de tal queixa ser completamente infundada não poderia eu aumentar dias de trabalho e salários a colonos estabelecidos a mais de seis meses, sem que imediatamente a Tesouraria da Fazenda achasse motivo para representar contra tal alvitre. Além do que deixo dito, parece-me claro que concedendo trabalho durante todo mês a todas as famílias, ficaria transformada a Colônia em um núcleo de jornaleiros e nunca chegaria a ser uma colônia agrícola.<br />
Os maus tratos, injustiças e abuso de autoridade de que acusam o agrimensor Franz von Lippe encarregado pela Diretoria de dirigir os trabalhos do Timbuí, são pura e simplesmente a conseqüência de não sujeitar-se ele às imposições, exigências e insubordinações praticadas por aqueles colonos. Tenho tido por várias vezes ocasião de referir-me ao merecimento desse empregado e ainda neste momento garanto a V. Ex.a. que os serviços que constantemente presta ele naquele ponto, fazem com que não seja muito fácil a sua substituição.<br />
Os fatos ocorridos a 31 de outubro do ano passado, já por diversas vezes por mim relatados e explicados não só à Presidência desta Província em ofícios sob nos. 79 de 3 de novembro e 121 de 21 de dezembro, como também à Inspetoria Geral de Terras em ofícios sob nos. 80 e 133 de 3 de novembro do ano passado e 27 de janeiro do corrente ano, mostram que somente dos colonos partiu a agressão no conflito havido, não fazendo mais do que defender-se a força que no Timbuí existia para manutenção da ordem. Os ferimentos que de parte a parte resultaram naquela ocasião, foram todos considerados pelo médico sem importância alguma e a acusação do assassinato do colono Dalmaschio Pietro, também deixou de ter fundamento com a atestação médica que remeti à Inspetoria Geral de Terras com o ofício sob no. 140 de 1o. de fevereiro do corrente ano. Por aquele atestado via-se que em conseqüência de um violento ataque de febre perniciosa tinha o mesmo Dalmaschio falecido doze dias depois do conflito, e não c cacetadas, com falsamente afirmam os imigrantes do Colúmbia.<br />
Nada posso dizer sobre o bom ou mau sistema porque foi dirigido o 5o território da Colônia do Rio Novo, porquanto nunca ali estive. Acredito, entretanto, que o Dr. Deolindo José Vieira Maciel tivesse sido um administrador inteligente, zeloso e esforçado, como costuma ser em todas as Comissões que exerce. O que não posso porém acreditar é que Domenico Giffoni seja capaz de poder apreciar o que sejam trabalhos de qualquer ordem desde o momento em que para eles for necessário ter-se qualquer ilustração e mesmo bom senso.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Desta briga ficou evidente o equívoco por parte de imigrantes que desejavam enriquecer rapidamente ou serem jornaleiros no serviço do Estado. Por parte do Governo o erro é confessado pelo Dr. Guaraná quando se dirigiu ao novo Presidente da Província, Dr. Eliseu de Souza Martins, dizendo:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Tem o Estado 22 animais que busco empregar no transporte de bagagens de colonos que se mudam de uns para outros prazos. Tais mudanças, como já tive a honra de dizer a V. Ex.a., foram autorizadas por S. Ex.a. o Dr. Mafra, a fim de que cessassem as causas que produziam constantemente os pedidos de trabalho por parte dos colonos, pedidos que eram apoiados no fato, infelizmente verdadeiro, de não serem bons os terrenos de Santa Teresa.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p>
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</blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iv-revolta-de-nova-lombardia/">Capítulo IV &#8211; A revolta de Nova Lombardia</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>Capítulo III &#8211; Dilemas do imigrante italiano no Espírito Santo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 13:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração]]></category>
		<category><![CDATA[Imigração Italiana]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>1. Uma falsa história &#8220;oficial&#8221; — 2. A mata virgem ou o mito da floresta tropical — 3. As febres malignas e o atraso da medicina — 4.Centralização do Governo Imperial e sua desorganização. 1. Uma falsa história oficial A história oficial é sempre contada sob a ótica do vencedor e dos órgãos do poder. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-hpEVFfXmRHY/WFlxRIVbr-I/AAAAAAAALI0/ix7uczIYcZA_ShZn0Ra0ZnouUVILT6u_ACPcB/s1600/Imigrante.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="272" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Imigrante-7.jpg" class="wp-image-6414" width="400" /></a></div>
<p><span style="font-size: 85%;"><br /></span><br />
<span style="font-size: 85%;">1. Uma falsa história &#8220;oficial&#8221; — 2. A mata virgem ou o mito da floresta tropical — 3. As febres malignas e o atraso da medicina — 4.Centralização do Governo Imperial e sua desorganização.</span></p>
<p>
<b>1. Uma falsa história oficial</b></p>
<p>A história oficial é sempre contada sob a ótica do vencedor e dos órgãos do poder. Nem poderia se de outra maneira, uma vez que os vencidos e os mortos não têm voz. Mas a história dita &#8220;oficial&#8221; é um sofisma sob o qual o homem, agrupado em sociedade, esconde o dilema dos que mandam e dos que são mandados, ela é sempre a história dos chefes, dos reis, dos presidentes e dos seus feitos, com o beneplácito do escritor &#8220;oficial&#8221; que a redige. Em geral não se dá voz às minorias e aos derrotados. Se numa sociedade todos os membros desempenham uma função, todos, logicamente, são importantes. A história deve ser contada sob todos os ângulos possíveis.</p>
<p>A imigração italiana para o Espírito Santo, num primeiro momento, foi um acontecimento irrelevante, mas logo tomou tanto vulto que, ignorar qualquer um dos seus aspectos, é ignorar o destino coletivo do Estado. A presença do imigrante no Espírito Santo mudou a sua trajetória e a sua história nos últimos cem anos.</p>
<p>Diz-se isto, de início, para se acentuar o fato de que, quando se estuda a imigração italiana no Brasil, menciona-se São Paulo, Rio Grande do Sul e outros estados, em virtude da sua grandeza territorial e liderança política, ignorando-se o fato de ser este pequeno estado o berço da imigração italiana no Brasil. Em segundo lugar, nenhum outro estado teve seu território tão densamente ocupado por colonos de origem italiana como o Espírito Santo.</p>
<p>A expedição de Pedro Tabachi aqui chegada em fevereiro de 1874, embora fosse um empreendimento particular, inicia o processo imigratório italiano em grande escala no Brasil. Bastava isto para justificar este 2° Simpósio Nacional — A Presença Italiana no Brasil, que ora, aqui, se realiza. Já não se leva em conta o seu tamanho geográfico e sim a sua importância estratégica de corredor de exportação da região Sudeste em via de se tornar metrópole.</p>
<p>Italianos sempre os houve no Brasil desde a sua descoberta, mas não desta forma de sucessivas levas de pobres expatriados, hesitando entre o dilema do sobreviver ou do morrer de fome. As massas populares abandonam a pátria quando não têm esperança e não descortinam um futuro próximo promissor. Quem deixa a pátria onde nasceu por causa da pobreza, da fome, das guerras e da miséria coletiva é porque foge do inferno, e procura encontrar o paraíso ou o eldorado noutro lugar. Não é preciso apelar para os relatos míticos e transcendentes da religião que colocam um inferno e um paraíso no além. Os italianos viviam uma realidade histórica crucial em que o inferno era a Itália, o paraíso era a América, e este sonho tinha que ser realizado ainda durante a vida terrena.</p>
<p>Pedro Tabachi chegou ao Espírito Santo por volta de 1850 e se tornou logo um próspero fazendeiro na região de Santa Cruz, às margens do rio Piraqueaçu. Seu projeto idealista de trazer dezenas de famílias de compatriotas trentinos para a sua fazenda não se sustentou por um mês. Foi um fracasso completo. O que se passava pela cabeça do Sr. Tabachi, não se sabe. Sabe-se que não era mal intencionado mas apenas um presunçoso que queria fazer ver aos compatriotas que também eles poderiam se tornar importantes fazendeiros no Brasil. Tabachi morreu de desgosto quatro meses após a chegada da expedição, em junho de 1874. Como era de se esperar, a história silenciou de tal forma este insucesso de contrato de parceria que até parece um fracasso do próprio governo. Somente cento e quatorze anos depois é que se publicou na íntegra o contrato de parceria que Tabachi fez com seus conterrâneos trentinos, mas continua inédito em bibliografia de língua portuguesa<span id="CIII_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP1" title="GROSSELLI, Renzo M. Colonie imperiali nella terra del café. Trento, Litografia Effe e Erre, 1987, p.159."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></p>
<p>Se uma elementar lei de psicologia recomenda não se dever insistir em fatos desagradáveis da vida, a história faz a mesma coisa. Tabachi, inicialmente vitorioso como fazendeiro, fracassou como empresário no seu intento colonizador bem como demonstrou, mais uma vez, a inviabilidade dos sistemas contratuais de parceria. Se ele tivesse conhecimento dos que havia acontecido com Thomas Davatz e o seu grupo na fazenda Ibicaba do Senador Vergueiro, em São Paulo, certamente pensaria duas vezes. Tabachi era também uma peça do sistema imperial e oligárquico da época. Thomas Davatz com perspicácia de águia disse: &#8220;Desta vez estou perdido!&#8221; O mais triste é quando se chega a descobrir isso, quando percebemos que uma nova escravidão nos submergiu e que dessa escravidão é mais difícil escapar-se do que à tradicional, que de há longa data jungiu os negros africanos.<span id="CIII_RP2V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP2" title="DAVATZ, Thomas. Memórias de um colono no Brasil. São Paulo, Martins, Ed. da Universidade de São Paulo, 1972, p.2."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>Apenas aqui chegados, os imigrantes percebiam que haviam sido enganados, que o inferno estava aqui e não na sua terra natal.</p>
<p>Dentro da ótica da história &#8220;oficial&#8221;, o relatório apresentado à Assembléia Legislativa Provincial do Espírito Santo pelo seu vice-presidente, o coronel Manoel Ribeiro Coitinho Mascarenhas, dedica apenas 30 linhas à expedição de Pedro Tabachi, e pronto! Foi tudo o que tinha a dizer sobre a &#8220;tranqüilidade e segurança pública&#8221;. Dizia nele:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Julgo, entretanto, conveniente relatar-vos com fidelidade os fatos, há meses, ocorridos em Santa Cruz, por ocasião do estabelecimento de emigrantes na colônia particular Nova Trento, instituída por Pedro Tabachi. Para não cansar, porém, a vossa atenção, limito-me a repetir-vos o que disse o digno Presidente desta província, Dr. Luiz Eugênio Horta Barbosa, ao passar-me a sua administração. &#8220;A 14 de março próximo passado algum colonos, em número não pequeno, manifestaram animosidade contra o empresário Pedro Tabachi, e externaram queixas contra o modo, porque era executado o contrato, que haviam celebrado na Europa, alegando como principal recriminação a má qualidade das terras distribuídas em lotes, e distância, a que ficavam do ponto, em que com suas famílias haviam sido hospedados. Pouco a pouco as queixas e recriminações tomaram incremento; exacerbaram-se as paixões de forma tal, que a propriedade e a vida de Pedro Tabachi, sua família e empregados, foram postas em risco. Logo que pelas autoridades locais foram trazidos ao meu conhecimento estes fatos, tomei, de acordo com o Dr. Chefe de Polícia, todas as providências legais, que as circunstâncias exigiam, a fim de que ali não perigassem a segurança e tranqüilidade pública. Fiz marchar para o termo de Santa Cruz, às ordens do respectivo Delegado de Polícia, um destacamento de 15 praças de infantaria de linha sob o comando do Alferes honorário do exército Antônio Joaquim da Silva. À presença desta força e à atitude enérgica das autoridade, que conseguiram apreender avultado número de armas, de que dispunham os colonos insubordinados, provavelmente se deve atribuir a manutenção da ordem e a não perpetração de graves crimes. Dos inquéritos, a que procederam tanto o Dr. Chefe de Polícia da província, como o Juiz Municipal de Santa Cruz, evidencia-se, que são em sua máxima parte destituídas de fundamento as queixas e recriminações dos colonos, aos quais o empresário Tabachi proporciona excelente tratamento.&#8221; Hoje, porém, acha-se nessa localidade restabelecida a ordem pública, tendo Pedro Tabachi rescindido o contrato com os insubordinados, que em número não pequeno, emigraram para a Colônia de Santa Leopoldina, aonde não têm manifestado nenhum movimento hostil. Tornando assim a Colônia de Nova Trento ao seu estado normal, foi de Santa Cruz retirado aquele destacamento, que fiz seguir para Santa Leopoldina, aonde se tem conservado para prevenir qualquer eventualidade.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Esta façanha pioneira de Pedro Tabachi foi posta em evidência só recentemente<span id="CIII_RP3V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP3" title="BUSATTO, Luiz. A insurreição branca. In UFES. Revista de Cultura, n. 8, ag./set. 1978, p.5-10."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> Tudo foi abafado pela história dita &#8220;oficial&#8221; e segundo ela tudo foi resolvido a contento, a ordem foi restabelecida e a segurança pública, mantida. São cretinices históricas deste tipo, sustentadas pelos governos então vigentes através de suas versões que demonstram como a história da imigração italiana no Espírito Santo faz parte de um processo histórico que não é nem mais nem menos que a história milenar dos opressores e dos oprimidos, dos exploradores e dos explorados. Cinco breves comentários ao relatório do coronel Coitinho Mascarenhas evidenciam, no particular, o que se afirma no geral: 1. Falar do insucesso da expedição Tabachi, na Assembléia, era &#8220;cansar&#8221; a atenção dos deputados provinciais; 2. O avultado número de armas apreendidas entre os colonos de Nova Trento consistia em 56 espingardas, 13 pistolas, duas terçadas e duas espadas. As espingardas correspondiam a uma por família — eram 56 as famílias vindas no Sofia — porque, como era sabido, nenhum brasileiro ou estrangeiro se aventurava pela floresta tropical sem esta arma indispensável à sobrevivência. O próprio Tabachi os deve ter aconselhado a se aparelharem destas espingardas de caçar; 3. Se as queixas e recriminações dos colonos aos quais Tabachi dispensava excelente tratamento fossem destituídas de fundamento, como explicá-las então? O ponto de discórdia gerador do conflito centralizou-se no artigo 4° do contrato. Os trentinos estavam promiscuamente amontoados num barracão e deviam andar até 6 horas a pé sob sol e chuva para o local de trabalho. Basta ver o texto do inquérito policial; 4. Ao se dizer que foi restabelecida a ordem pública, os governantes queriam exatamente dizer que fossem para o inferno os colonos mortos de febre, de fome, as viúvas com 11 filhos a mendigarem em Santa Cruz e depois em Santa Leopoldina!; 5. O &#8220;estado normal&#8221; da colônia Nova Trento significava a rescisão do contrato de Pedro Tabachi com os colonos, a retirada meio desordenada dos mesmos e a morte do próprio Tabachi.</p>
<p>Hoje se sabe, através das cartas enviadas pelos trentinos aos parentes da Itália e publicadas em jornais locais, que a versão deles a respeito da rescisão contratual é bem diferente<span id="CIII_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP4" title="GROSSELLI, Renzo M. (1987) p. 174."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> A confrontação das versões oficial e não oficial fornece preciosas lições de história e, sobretudo, é uma premonição do que virá a ocorrer nos anos subsequentes.</p>
<p>Não é somente Thomas Davatz, na fazenda <i>Ibicaba</i>, do senador Vergueiro, em São Paulo, quem fala de escravidão do imigrante estrangeiro. Vinte anos após aquele episódio, a 15 de maio de 1878, o próprio Diretor da Colônia de Santa Leopoldina, no Espírito Santo, Aristides Armínio Guaraná diz a mesma coisa. Ele envia um longo ofício ao Presidente da Província, Manoel da Silva Mafra, argumentando contra a malversação do dinheiro público e dos efeitos negativos advindos do seu emprego. Chama a atenção para o seguinte fato que concorria para o mal resultado da colonização italiana no Espírito Santo:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Embarcam-se espontaneamente na Itália, pagando suas passagens, indivíduos que pretendem reunir-se a sua famílias em diferentes pontos do Brasil. A agência naquele país recebendo-os em seus navios, toma-lhes os passaportes nos quais, sem ciência dos interessados, lança o seguinte dístico: Bom para Vitória. Ignorando completamente o caminho que devem seguir para chegar aos seus destinos, com facilidade deixam-se mudar os colonos de um para outro navio, e deste modo são transportados até o ponto de desembarque de qualquer colônia desta província. Ali chegados, não encontrando aqueles em busca de quem vieram, muito naturalmente querem a todo transe retirar-se. Não permite isto a Inspetoria Geral de Terras e Colonização, e nem por outro lado faz reunir os membros dispersos de qualquer família.. Não é difícil concluir-se, que depois de tal contrariedade sucede-se imediatamente o desgosto, e que indivíduos que vinham animado da melhor boa vontade possível, transformam-se em verdadeiros parasitas do Estado, não podendo criar amor a um país que lhes rouba as suas mais doces afeições, como sejam as da família. Reconhecerá V. Ex.a. Comigo, que sem poder retirar-se nem chamar para si os seus, está o colono colocado em um cativeiro disfarçado [grifo do autor] com o nome de Colonização, e que só a força física podê-lo-á fazer permanecer em tal lugar.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Milhares de documentos confirmam a condição escravagista da imigração italiana para o Brasil. O artigo 40 do regulamento de 19 de janeiro de 1867 proibia claramente a presença de escravos na colônia. Proibia-se a presença de uns, mas instalavam outros. Os governantes brasileiros e seus próceres mudavam os peões no tabuleiro, mas não mudavam as regras do jogo nem a maneira de pensar, uma vez que seus interesses econômicos e pecuniários tinham que ser preservados, custasse o que custasse. Conforme assinala Júlio Posenato, a classe dominante da sociedade brasileira se apoiava no tríptico de sustentação formado pelo latifundiário, pela monocultura e pelo trabalho escravo. Uma coisa para a qual nunca é suficiente chamar-se a atenção e pôr-se em evidência é que, a concessão de uma propriedade agrícola ao imigrante o obrigava a se fixar nela, a praticar a agricultura de auto-sustentação e da produção do escravo negro. A fase republicana mantinha o vício da legislação do Império. O imigrante de via ser fixado não nos centros urbanos mas nas suas proximidades onde houvesse facilidade de escoamento dos produtos agrícolas. O fracasso posterior da pequena propriedade, que era a colônia do imigrante italiano, passada a primeira euforia, é um caso típico na história da agricultura do Espírito Santo.</p>
<p>Na Breve notícia descritiva sobre a província do Espírito Santo, de 1878, fica evidente a substituição do escravo pelo imigrante ao discorrer sobre agricultura, comércio e indústria:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>O desaparecimento gradual e constante que se vai operando na população escrava, e a falta de braços livres que substituam os dos cativos, são por certo a causa principal do pouco desenvolvimento da lavoura, que se acha ali circunscrita aos vales dos grandes rios, e às terras adjacentes à parte navegável daqueles cursos d&#8217;águas.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Há uma subtileza na Breve notícia ao mencionar o fato de que o cultivo da cana de açúcar tendia a desaparecer. O abandono acontecia não por causa da esterilidade dos terrenos mas por falta de braços nos pontos onde a cultura melhor se desenvolvia, como Linhares, Nova Almeida, Santa Cruz e Benevente. Este objetivo governamental de 1878 é perseguido tenazmente de modo que, em 1895, funcionava em Santa Cruz uma grande usina de açúcar, propriedade do Dr. Guaraná que, num segundo tempo se transferiu para Jabaquara, em Benevente, e depois, definitivamente, para Campos, até os dias de hoje.</p>
<p>Diante deste estado de coisas, isto é, diante das condições perduráveis de cativeiro disfarçado, não cabia aos imigrantes outra solução que não fosse a revolta. No sul do Estado, no centro, nos núcleos recém-fundados, a história registra uma série de sublevações que se seguem à revolta de Nova Trento contra Pedro Tabachi.</p>
<p>Aristides Armínio Guaraná fazia a ponderação há pouco referida do cativeiro disfarçado, referindo-se à segunda leva de 475 imigrantes vindos no navio <i>Izabella </i>para fundar Ibiraçu, quando 43 famílias e, aproximadamente umas 120 pessoas, foram parar em Santa Cruz por engano. Os enganados começaram a apertar o Dr. Guaraná com passaportes e recibos, afirmando terem pago suas passagens e ser outro o seu destino, e que não iriam trabalhar na construção de estradas como os demais. Escrevendo ao Inspetor Geral da Colonização dizia o Dr. Guaraná:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Como consequência de tal procedimento a nenhum salário têm direito tais colonos, mas precisando de subsistência me atormentam noite e dia para que eu lhes dê abonos de mantimento. Tenho recusado peremptoriamente, mas em força nenhuma em Santa Cruz, principia a insubordinação a lavrar entre eles, tendo produzido já seus maus efeitos, porquanto, já fui ameaçado por um com uma foice. Não é a agressão pessoal que faz pedir providências a V. S.a . O único móvel que me leva a isto é o receio que tenho de que Santa Cruz, que tão bons elementos possui para se uma colônia modelo, venha a sofrer por causa de poucos transviados. Neste momento não quero perder a oportunidade de Dizer a V. S.a que é unânime a queixa contra a agência Caetano Pinto em Itália; afirmando todos os colonos que a imigração daquele país para o Brasil é espontânea, mas que a dita agência aproveita o veemente desejo que todos manifestam de emigrar e fá-los pagar preços exorbitantes por suas passagens. Tal reclamação é provada com recibos e outros documentos.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A situação de escravidão disfarçada a que eram destinados os imigrantes começava a ser praticada pelas companhias de navegação e depois se solidificava pela legislação vigente, como confessa o agente consular em Vitória, Rizzardo Rizzetto ao comentar o sistema de parceria.</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>É preciso lembrar que os colonos foram chamados para substituir os escravos e eles são freqüentemente tratados como escravos; não que o fazendeiro falte com o respeito à sua pessoa, mas porque os considera como instrumentos de trabalho e nada mais, e especula sobre eles o quanto pode<span id="CIII_RP5V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP5" title="RIZZETTO, Rizzardo. L'Immigrazione italiana nello Stato di Espírito Santo. Ottobre 1901, p.23."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O capítulo das seguidas revoltas e badernas promovidas pelos imigrantes no início do seu estabelecimento no Espírito Santo ainda não está bem documentado, exatamente porque há interesse em não trazer à luz o podre dos fatos. Em &#8220;Os primeiros anos (conflito nas colônias agrícolas espírito-santenses. 1847-1882)&#8221; o professor Renato Pacheco faz apenas a indicação de um caminho a ser trilhado no estudo da aculturação dos novos elementos integrantes da sociedade brasileira, sobretudo porque a imigração italiana continuou intensa e crescente até o ano de 1895. Esta aculturação, diz o professor Renato, não se fez sem choques. Não era propriamente aculturação mas escravização.</p>
<p>Antes de comentar alguns destes choques, deve-se observar que, cem anos depois, quando se comemoram os centenários da fundação dos núcleos coloniais, a situação tem mudado pouco. O preço da vida e do trabalho pago pelos avós e bisavós não está servindo para resgatar os descendentes de uma situação de vida capitalista selvagem e vergonhosa. Netos e bisnetos de imigrantes vivem uma vida numa sociedade onde lei e justiça são práticas amortecidas, o país dá impressão de ir à deriva. Mas se sabe de onde vêm estas forças brutais e desumanas.</p>
<p>Os sintomas de descontentamento e as revoltas dos imigrantes se manifestam tão logo chegam ou nem bem chegam ao território de destino. Aos 16 de junho de 1875 saltaram em Benevente 565 tiroleses que foram levados ao núcleo colonial São José do Tirol, no 2º território da Colônia do Rio Novo. Logo se retiraram dois terços deles, cerca de 443, com base em um inquérito policial que dizem existir no arquivo da vila de Itapemirim. No final de 1877, os restantes tiroleses que viviam do trabalho de abrir estradas não quiseram se dirigir a São Joaquim. Desobedecendo às ordens do ajudante do diretor, empunharam uma bandeira vermelha e foram melhorar um trecho de estrada próximo do seu núcleo. No dia do pagamento promoveram um tumulto. O diretor mandou prender cinco deles, os mais exaltados, ameaçando-os com o artigo 37 do regulamento de 19 de janeiro de 1867 que tratava da expulsão da colônia. Além disso, as mulheres vieram `casa do diretor reclamar e dirigir-lhe algumas injúrias, mas o diretor deixou-os presos mais quatro dias para não intimidar-se diante de tais atos. Depois, acalmados os ânimos, soltou-os.</p>
<p>No início deste mesmo ano de 1877, em janeiro, na colônia de Santa Leopoldina, perto de mil imigrantes italianos seguiram, revoltados, para Vitória. Aí o vice-presidente do Estado passou um telegrama urgente ao Ministro da Agricultura nos seguintes termos:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Na colônia de Santa Leopoldina os colonos estão revoltados e não é possível contê-los, apesar das providências tomadas. A pretexto de terem vindo para Santa Catarina não querem ficar, sem seguir para seus prazos e armado ameaçam a diretoria. Não tendo força para contê-los, faço vir para esta capita alguns cabeças do motim enquanto aguardo decisão de V.Ex.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A 24 de janeiro, o Bacharel Coelho Cintra relatava aos coronel Manoel Ferreira de Paiva, vice-presidente da Província do Espírito Santo:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Tendo chegado a esta Capital [Vitória] hoje pelas 10 horas da manhã no transporte nacional <i>Purus</i> para aqui vindo à minha disposição, por ordem de S. Exa. o Sr. Ministro da Agricultura, fiz desembarcar parte da força que havia a seu bordo e com ela tendo feito segui-lo tenente Thompson incumbido de intimar aos colonos que se achavam nesta capital em atitude ameaçadora que embarcassem imediatamente, o que sendo executado deu em resultado a imediata obediência de todos os colonos os quais foram em seguida embarcados no referido transporte, de onde parte passou para o <i>Madeira</i><span id="CIII_RP6V">.</span><a arquivo="" blico="" do="" estadual-e.s.="" governadoria="" href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP6" p="" title="Livro 22 da segunda série da "><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Os referidos transportes nacionais eram dois navios de guerra e a guarnição era composta de mais de 120 praças. Apenas uns 20 foram enviados para Santa Leopoldina. Os imigrantes amotinados são os que foram fundar Caxias do Sul. Este episódio merece uma pesquisa mais acurada pelos desdobramentos que teve.</p>
<p>Nesse meio tempo, como estivesse para chegar uma leva de imigrantes, provavelmente no vapor Itália, umas 1.176 pessoas, o Inspetor Especial dá ordens para que eles sejam desembarcados em Benevente e não em Vitória com destino a Santa Leopoldina, a fim de não entrarem em contato com os revoltosos. Mas no dia 4 de fevereiro quem esta revoltada é a leva desembarcada em Benevente e foram precisos 15 praças da força militar para acalmar os turbulentos e restabelecer a ordem pública. Dá para imaginar-se o governo querendo segurar água com a peneira. Em outubro deste mesmo ano estoura, de novo, em Santa Teresa, a revolta dos lombardos da qual resultou a morte de um imigrante. Trata-se da Revolta de Nova Lombardia, um pequeno capítulo da história de Santa Teresa, e assunto já publicado.</p>
<p>As revoltas eram tentativas para a resolução dos dilemas e impasses criados com a nova ordem das coisas, mas resolvia apenas a permanência no país, procurando minorar o desconforto e o sofrimento. Para a maioria não havia retorno à pátria, nem esperança. Conforme disse Charles Ribeyrolles no seu livro Brasil pitoresco, os imigrantes eram náufragos sem esperança. Tudo concorria, desde as leis até a vastidão do território brasileiro, para que a saída de quem se aventurasse por estas terras e florestas se tornasse impossível. O sistema imigratório funcionava como um jequi, uma cesta ou funil de pegar peixe, no qual se entra ao sabor da corrente mas não se consegue retornar e fugir. O artigo 73 da legislação de 1892, da fase republicana e bem mais liberal, apresenta nove atraentes favores a que o imigrante tinha direito. Mas logo no artigo 76 dizia que só tinham direito a eles os que declarassem expressamente na sua chegada que queriam se estabelecer no Estado e se obrigavam a não se retirar do mesmo dentro de três anos. Este dilema de pegar ou largar se tornava um jogo de sorte que já havia, em parte, sido lançado no abando no da própria pátria. O que levava os imigrantes a se revoltar? Os maiores obstáculos e riscos que o imigrante encontrava em sua aculturação ao chegar ao Brasil podem ser resumidos em três itens: a mata virgem ou floresta tropical, as doenças e febres malignas com o difícil atendimento à saúde e a centralização do governo imperial com sua desorganização. É sobre isto que se vai falar.</p>
<p><b>2. A mata virgem ou o mito da floresta tropical</b></p>
<p>Uma das coisas que mais impressionava o imigrante italiano recém-chegado era a floresta tropical, um pano de fundo, verde, primeiro cenário que se descortinava ao longe quando o navio se aproximava da costa. A descrição que dela fazia o Conselheiro João Cardoso de Meneses e Souza é bem o sintoma de um eldorado que, por sua, resultava de uma carência humana que elabora nos meandros do inconsciente o espaço da utopia. Assim aparece a floresta, pomposamente, no seu livro Teses sobre a colonização no Brasil:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>&#8230;o quadro sedutor das regiões do novo mundo, donde o sol, semelhante a lampadário enorme e eviterno suspenso de incomensurável dossel de azul derrama em torrentes de calor, que faz abrolhar luxuriante e cheia de assombrosa pujança a colossal vegetação dos trópicos, e a luz que inunda de jubilosa vida a natureza; onde rios caudalosos, que disputam o cetro ao oceano, fertilizam e fecundam um solo abençoado, que se expande em espontâneas campinas e searas e m opulentas jazidas de metais e pedras preciosas; onde as magnificências da criação, todos os prodígios da natureza parece que se reuniram para fazerem do mundo uma esplêndida miniatura do paraíso, que sirva de teatro e felicidade do homem, o estrangeiro contempla em êxtase esta arrebatadora miragem<span id="CIII_RP7V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP7" title="MENEZES SOUZA, João Cardoso de. Teses sobre colonização do Brasil. Tipografia Nacional,1875, p.316-7."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A natureza no continente europeu, espaço do emigrante, é uma natureza domada e conhecida e não uma natureza selvagem e virgem. Este contraste impressionava, de fato, a todos.</p>
<p>O Pe. Luigi Marzano é um exemplo incontestável do que se vem afirmando, sobretudo quando se lê o capítulo III da III parte do seu livro <i>Colonos e missionários italianos nas florestas do Brasil</i>. A visão do Pe. Marzano é uma visão de poeta que se encanta, às vezes, puramente como a de uma criança. A atração da floresta virgem e o seu &#8220;prodigioso encanto&#8221; é o primeiro ponto por ele ressaltado. A uma floresta vegetal o autor faz corresponder uma floresta de adjetivos. Não se cansa de se referir à &#8220;magnifica floresta&#8221; e acrescenta: &#8220;Para quem nunca pôs os pés em tais florestas, torna-se impossível fazer-se uma ideia do grandioso conjunto e severo espetáculo que elas oferecem à vista do visitante<span id="CIII_RP8V">&#8220;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP8" title="MARZANO, Pe. Luigi. Colonos e missionários italianos nas florestas do Brasil. Florianópolis, Ed. da UFSC/Prefeitura Municipal de Urussanga, l985,p.118."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> A descrição do Pe. Luigi Marzano é, sem o saber, a versão do mito da floresta e, este mito é exatamente o monstro belo e horrendo que precisa ser vencido e domado. Pode-se dizer que a floresta virgem brasileira ocupa no panorama da imigração o papel de um verdadeiro personagem. A floresta é animizada em todos os aspectos. &#8220;O estranho zunir do pássaro mosca ou beija-flor, ouvido de perto, parece o rugir de uma fera no fundo do bosque e o viajante quase instintivamente leva a mão ao gatilho da arma&#8221; dizia o Pe. Marzano. Nunca é bastante ressaltar o aspecto de inimigo, de adversário, de perigo que representa a floresta. Daí o ter-se criado na mente dos colonos ocupantes de lotes na floresta a vontade de dizimá-la. A eliminação da floresta sempre foi vista como uma vitória e uma conquista humana, um sinal de progresso e de prosperidade. Hoje, esta perspectiva está invertida, no Espírito Santo, mas não na Amazônia onde ela perdura. Não havendo mais floresta, é preciso reflorestar. O solo espírito-santense tende a se tornar um grande deserto, sobretudo a partir da plantação sistemática de eucaliptos, conforme profecia do cientista Augusto Ruschi.</p>
<p>Por ter o Pe. Marzano e o companheiro perseguido um bando de macacos e terem morto um macaquinho, perderam a orientação e o caminho. Salvaram-se pelo cantar de um galo, &#8220;Estávamos tão embarrados e rasgados que parecíamos dois bandidos. Já eram duas horas de noite quando reentramos em casa com mil impressões da floresta virgem.<span id="CIII_RP9V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP9" title="Idem, ibidem p. 119."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a></p>
<p>Já o brasileiro Antônio Francisco de Athayde, fundador dos núcleos &#8220;Acióli Vasconcelos&#8221; e &#8220;Antônio Prado&#8221;, enquanto encarregado da medição de lotes coloniais, apresenta uma descrição completa de cada lote, não deixando de enumerar as madeiras de lei nele constantes. Dizia por exemplo: &#8220;Tem águas excelentes. Possui uma coleção de madeiras de lei, tais como Guarabu-mirim, Sucupira, Itapinhoã, Peroba, Vinhático, Sapucaia, Inhuíba-do-rego, Jacarandá-tã e outras&#8221;. Desta forma evidencia-se um conhecedor minucioso do meio explorado. É um técnico e não um sonhador, falando da floresta como um engenheiro, visão bem diversa daquela dos imigrantes estrangeiros.</p>
<p>Diferente e outra é a visão de Carlos Nagar, vice-cônsul italiano em Vitória, para quem a floresta virgem tinha uma função meramente econômica, ao dizer:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>As imensas florestas que cobrem este território, são ricas de madeira de construção, entre as quais o Vinhático, o Pau-d&#8217;Arco, o Jacarandá, O Maçaranduba, o Sapucaia, canela, etc. e de plantas medicinais, como a Copaíba, o Quebra-pedra, a Ipecacuanha, a Andiroba etc.. Mas estas riquezas não são desfrutadas por falta de vias de comunicação, de braços e de capital; e no entanto, a madeira para construção e as aptas aos trabalhos do marceneiro, são adquiridas nos Estados Unidos e, de segunda mão, pela praça do Rio de Janeiro<span id="CIII_RP10V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP10" title="NAGAR, Carlo. Lo Stato di Espírito Santo e l'immigrazione italiana. Bolletino del Ministero degli Affari Esteri, 1895, p.11."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Os homens de governo parece que só enxergam lucros e bens exploráveis do ponto de vista comercial. O meio ambiente é encarado como uma matriz original da qual é preciso extrair tudo o que é possível, à exaustão. Quando a floresta devia dar espaço para o plantio com objetivos agrícolas, então era impiedosamente destruída à base do machado e de um vigoroso serviço braçal. &#8220;Depois de ter começado o corte da floresta, os colonos devem esperar a estação favorável para colocar fogo nos troncos cortados, constituídos em grande parte por árvores seculares, conseguindo assim, pouco a pouco, terreno sobre a floresta<span id="CIII_RP11V">&#8220;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP11" title="Idem, ibidem, p. 21."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> As hecatombes das queimadas foram diversas vezes descritas por romancistas brasileiros. Graça Aranha foi um deles, no seu famoso livro Canaã.</p>
<p>O índio tem uma relação com a floresta diferente da do homem branco e do invasor. Ele está integrado ao ambiente. Vive sem prejuízo do equilíbrio ecológico, exatamente por lhe faltar a visão econômico-capitalista do homem branco. O índio está na floresta como em seu habitat a ali desenvolve seu sistema sem prejuízo próprio e alheio. O homem europeu recebe este esquema sempre de forma utópica. Jean Jacques Rousseau polarizou na sua obra o dilema cultura/natureza, privilegiando no segundo elemento uma coisa que ele não sabia bem definir o que era. A identificação com a natureza era uma aspiração tão forte que se cristalizou no método pedagógico desenvolvido no Emílio. E a Revolução Francesa que teve como lema &#8220;Liberdade, Igualdade, Fraternidade&#8221; deve muito a Rousseau. Afonso Arinos de Melo Franco, historiando as idéias de uma utopia indígena que desaguaram na Revolução Francesa, no seu livro O índio brasileiro e a Revolução Francesa, aponta para aquele lema como sendo uma grande mentira. Idéias políticas e práticas sociais são coisas bem distintas.</p>
<p>Pois bem, os imigrantes chegavam não somente enganados pela própria aspiração de se redimirem da miséria, mas também por uma propaganda que falseava o seu futuro habitat. Eles não vinham para o Brasil para viverem como índios integrados à natureza, à floresta, dependentes da caça e da pesca. Eles vinham com o objetivo específico de praticar uma agricultura de subsistência, uma agricultura produtiva que visasse a fazer frente a outros mercados. Vinham, mas sempre pensando em retornar uma dia à pátria. O sistema capitalista implanta um esquema de produção, de exploração de bens e de riqueza sempre a curto prazo, mecanizado, impossível de ser assimilado rapidamente pela natureza. Ao derrubar a primeira quadra na floresta, o imigrante não estava sequer pensando em negociar os enormes troncos de madeira de lei aos quais botava fogo como um estorvo do qual devia se livrar. Ele queria apenas seu espaço para morar à maneira européia, pensando na vila ou cidade que sonhava ver funcionando semelhante à da pátria abandonada.</p>
<p>É preciso ficar bem claro que, para o imigrante italiano no Espírito Santo, sobretudo na colônia de Santa Leopoldina, em toda a região do vale do rio Doce — Ibiraçu e Santa Teresa são os casos mais específicos — a floresta era um obstáculo, o primeiro grande obstáculo que precisava ser vencido. Havia qualquer coisa de lúdico e aprazível na tarefa de derrubar enormes árvores, de construir uma casa, de realizar queimadas. A coisa ficava mais séria quando, feitas as primeiras plantações e iniciadas as primeiras criações domésticas, era preciso prevenir-se contra todos os tipos de ataque que vinham da floresta. Ela não era um monstro? Por terra, o principal inimigo esteve encarnado no enorme felídeo chamado onça. Ele encabeça a lista dos predadores que a mata virgem abriga. Não há região, núcleo colonial ou família que não tenha uma história de onça para contar. Ela sempre levava um cachorro do porão da casa, um porco do chiqueiro, uma novilha do curral, até um cavalo do pasto, como conta o Pe. Luigi Marzano no seu livro. À noite, a onça era imbatível. Seus urros e miados foram sempre o terror não só das crianças mas também dos adultos.</p>
<p>A criação doméstica também não se livrava dos gatos do mato, das raposas, dos gambás e de tantos outros predadores. O ataque vinha dos bandos de macacos que comiam as plantações, dos papagaios, periquitos e toda sorte de psitacídeos que não perdoavam as roças de milho. De dia e de noite, no ar e na terra, sempre havia a freqüência do perigo. Só os cafezais pareciam imunes ao ataque da floresta.</p>
<p>Que dizer das nossas serpentes? Sua variedade e quantidade, farta os livros especializados. Hermínio Busatto, filho de imigrantes, pioneiro e derrubador de floresta ao norte do rio Doce na região de Novo Brasil, ainda em 1941, morreu pela simples picada de uma jararaca preguiçosa, aos 36 anos de idade. Colatina ficava muito longe, a floresta se interpunha como um obstáculo ao tráfego, de modo que, ir àquele centro, na época, era uma façanha. A medicina há cinqüenta anos atrás era uma atividade incipiente e não existia soro com facilidade. Que dizer dos recursos da medicina no século passado?</p>
<p>A epidemia de febre amarela que grassou no vale do Piraqueaçu foi provocada pela presença dos mosquitos. Os imigrantes que morreram em grande proporção não imaginavam que a fatalidade da doença lhes adviria exatamente das primeiras derrubadas da floresta primitiva. Era a primeira vingança do monstro contra o europeu invasor, pois a floresta, enquanto existiu no Espírito Santo, foi um mito.</p>
<p>3. As febres malignas e o atraso da medicina</p>
<p>Na adaptação do homem ao meio, no seu encontro com um ambiente natural, está em jogo a sua saúde. Um organismo adaptado ao clima europeu que tem um tempo bem marcado pela distinção das quatro estações, de repente se vê diante de um clima tropical bastante diferente, com apenas duas estações, a da estiagem e a das águas. Do Dr. Guaraná, Diretor da Colônia de Santa Leopoldina, pondera a má ocasião do embarque pelas companhias de navegação e acrescenta:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>É necessário que a diferença de clima a que se vão sujeitar os imigrantes não seja muito sensível. Facilmente se obteria tal resultado, fazendo-se embarcar no princípio da primavera, que na Itália é a 21 de março, para aqui chegando em abril, encontrarem a estação agradável, e que o rigor do sol não se faz tanto sentir. Deste modo, creio que o tributo pago à aclimação não seria tão extenso e não produziria o desânimo que produz. Em assunto de tal ordem como é o da colonização, onde é preciso o homem ter toda a sua energia e força para lutar e vencer as dificuldades que a natureza em seu selvagem vigor apresenta, as moléstias continuadas e as mortes sucessivas são coisa mais que muito fortes de desânimo e mau êxito. Se isto é verdade, fica também demonstrado haver necessidade de regularizar inteligentemente as épocas das expedições.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O Dr. Guaraná, estando em contato direto com os imigrantes e com os problemas concretos que todos tinham de enfrentar, falava de cadeira. Não se tratava apenas de vencer a natureza selvagem, mas também de pensar na saúde física e mental dos imigrantes, na fragilidade humana que começava a ser minada com a ruptura e abandono da terra natal e numa travessia longa, cansativa e desconfortável. O tributo pago à aclimação não consistia apenas na contração de moléstias, mas também na mortandade em grande escala.</p>
<p>As expedições de imigrantes vinham, em geral, acompanhadas de médico. A questão relevante, porém, consistia na precariedade dos recursos da própria medicina e do seu estado. Com Pedro Tabachi veio médico italiano Pio Limana. Com a primeira turma fundadora de Ibiraçu não se tem notícia de médico acompanhante, mas uma vez aqui chegados lhe foi designado o Dr. Domingos Gomes Barroso. Ele ficou apenas 52 dias em Santa Cruz e depois passou o cargo ao seu substituto. Aos 26 de outubro de 1877 ele apresentou um relatório com uma estatística patológica dos imigrantes medicados, um balanço das drogas e medicamentos e demais objetos em seu poder, com uma carta ao Presidente da Província do Espírito Santo:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Conforme V, Ex.a. Verá da mesma estatística, as moléstias mais predominantes foram as do aparelho digestivo, devido às mudanças de alimentação e clima em concorrência com a viagem de mar. Ultimamente principiaram a aparecer alguns casos de febres de diferentes caracteres, na minha opinião endêmicas, os quais na maior parte cederão facilmente ao tratamento apropriado.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Durante o tempo em que deu assistência ao núcleo, de aproximadamente dois meses, 266 imigrantes foram medicados. Houve 51 casos de febres de diversos tipos, 43 atendimentos diarreia, 28 por colite, 24 por cólica, 22 por embaraço gástrico. Seguiam-se outros casos de menor incidência como disenteria, erisipela, angina, oftalmia, indigestão, reumatismo, dentição, abcessos, bronquite, aftas, sarnas, gastrite, congestão cerebral, verminose, dartros (nome genérico de dermatoses), aborto, escorbuto, úlcera, anemia, escrófula, lesão cardíaca, marasmo, splenite aguda, hemorragia pós-parto, parto laborioso e prematuro, contusão e alguns outros. Tal estatística de 266 atendimentos representa 35,8% sobre o total de imigrantes presentes no núcleo. O estado sanitário geral ofereceu uma variedade de doenças que, por um lado requeria um verdadeiro hospital para o atendimento, por outro, demonstrou que a população italiana — mesmo sabendo-se em parte que as doenças eram provocadas pela travessia oceânica — era pobre e doente, pois, pobreza e doença andam sempre de braços dados.</p>
<p>A penas derrubadas as primeira árvores a fim de abrir espaço para a construção da primeira casa e para fazer as primeiras plantações, começo a verificar-se uma epidemia de febres que atingiu proporções assustadoras. Os mosquitos transmissores da febre amarela baixavam da copa das árvores para o solo e atacavam as pessoas. O mosquito que tem o nome científico de <i>Stegomyia fasciata</i>, gosta de lugares quentes e prolifera com temperaturas acima de 26º. O mosquito infectado, picando uma pessoa proveniente de um lugar onde não exista a febre amarela, a torna mais sensível e a faz correr um risco maior. Chernoviz define a febre amarela como uma doença infecciosa, específica, existindo quer no estado endêmico, quer no estado epidêmico e caracterizada essencialmente por icterícia, hemorragias das mucosas (vômito negro), albuminúria e febre, tudo isto durando 2 a 7 dias. O processo se inicia com uma incubação que dura de dois a seis dias depois da picada. O primeiro período, vermelho ou inflamatório, manifesta-se logo a seguir como se fosse um surgimento brusco, com calafrios e elevação da temperatura. Vêm as dores lombares, rosto congestionado com olhos brilhantes e a pupila dilatada, tez amarela; vem intensa dor de cabeça, vômitos alimentares e depois biliosos. Ainda se apontam a prisão de ventre, erupções da pele, mudanças no odor geral e na coloração da urina. Ao terceiro ou quarto dia cessam as dores e a febre, dando a impressão ao doente de estar curado de todo. É um período de remissão enganoso, continua explicando Chernoviz, que dura poucas horas. O segundo período manifesta-se com a icterícia, hemorragias de todos os tipos e sobretudo em vômito negro assemelhando-se à borra do café, daí este outro nome pelo qual esta febre é conhecida. Na forma normal a doença dura nove a dez dias mas nas formas fulminantes a morte sobrevém dentro de dois a quatro dias.</p>
<p>Ibiraçu foi o palco da maior epidemia de febre amarela já presenciada no Espírito Santo, no primeiro momento da imigração. Ficaram também conhecidos os núcleos Santa Leocádia, em São Mateus e o núcleo Muniz Freire, no vale do rio Doce, com tal gravidade que provocaram a suspensão da imigração para o Estado no ano de 1895. Estes dois últimos núcleos aliás estão desaparecidos do mapa.</p>
<p>No final de outubro de 1877 chegou a terceira leva de imigrantes que fundou Ibiraçu, no navio Clementina e foi ela que sofreu o maior golpe de febre epidêmica que tivera início naquele mês. Eram 113 famílias e aproximadamente 476 pessoas. Morreram mais de 111 pessoas de febre amarela cujo auge ocorreu no mês de março de 1878. No final do ano já haviam morrido uns duzentos imigrantes. Enterravam-se os mortos por toda a parte, de modo que a impressão de quem chegava após o ocorrido era das mais tétricas. Dez anos mais tarde, num relatório de um engenheiro chefe da Comissão de Terras e Colonização da ex-colônia de Santa Leopoldina, lia-se: &#8220;Os enterramentos, muitas vezes, são feitos onde entendem os parentes e amigos do falecido, havendo até quem, no pasto do próprio lote, haja enterrado já duas esposas!<span id="CIII_RP12V">&#8220;.</span><a agricultura="" arquivo="" blico="" estadual-es.="" href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP12" p="" title="Livro 47 da 2a. série da "><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a> O que terá ocorrido com os cemitérios entre o porto de Sant&#8217;Ana e o barracão do Conde D&#8217;Eu, uma vez que não se vê mais nenhum? A região é, na verdade, um grande campo santo cujas sepulturas desapareceram mas não o nome dos mortos cuja data de falecimento está assentada no livro da colônia. Do navio <i>Colúmbia </i>morreram 30, do <i>Izabella </i>morreram 100 e do <i>Clementina</i>, 111 pessoas.</p>
<p>Em março de 1878 vieram do Ceará, fugindo de uma das piores secas registradas durante o Império, 134 cearenses que foram destinados a Ibiraçu. O objetivo deste gesto humanitário era a miscigenação. Eram famílias que tinham a função de, em contato com os estrangeiros, ensinar-lhes a &#8220;malícia&#8221; da vida nos trópicos. O fundador de Ibiraçu, Presidente da Província Afonso Peixoto de Abreu Lima, passou o cargo de sua curta gestão a Alfeu Adelfo Monjardim de A. e Almeida dizendo no seu relatório:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>O verdadeiro sistema de colonização é o misto, isto é, o nacional aprendendo do colono laborioso e inteligente tudo quanto lhe for aproveitável da cultura européia; o colono europeu aprendendo também por sua vez do nacional a não deixar-se tomar de surpresa e receio ante a majestade de nossas matas virgens e seculares, compreendendo o modo de proceder às derrubadas, queimas e plantio. Este auxílio mútuo, a par do cruzamento das raças, há de produzir grandes benefícios.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Em 11 de setembro de 1878, por sua vez, dizia o Dr. Guaraná em relatório a Abreu Lima:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Em meados do corrente ano chegaram a este núcleo 134 cearenses. Encontrando em seu auge a epidemias reinante, essa gente debilitada pelas privações que havia passado, e trazendo em si germens de enfermidades adquiridas em outras partes, foi em parte vítima do flagelo epidêmico.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Também os cearenses não foram poupados da epidemia se é que não foram os portadores. Morreram 41 pessoas dos 209 aqui chegados. Dez mortos eram chefes de família. Quatorze famílias se retiraram do núcleo. Somando-se a eles mais 10 mortos de um quarto pequeno grupo de uma segunda viagem do navio <i>Izabella</i>, chega-se a um total de 292 mortos, o que equivalia a 25% da população do núcleo. Dante Alighieri devia estar satisfeito de ver que o inferno da sua <i>Comédia</i> não era fantasia, nem privilégio dos italianos recém-chegados. Houve casos de morrer toda a família. Com a morte do chefe de família a viúva ou voltava para a Itália ou casava-se com um viúvo, nas mesmas condições. Quando morria o casal, os órfãos eram distribuídos entre as outras famílias que os quisessem adotar. Muitas vezes os parentes da Itália requeriam, através do representante consular, o repatriamento dos menores.</p>
<p>Naqueles tempos e naquelas condições, pode-se imaginar como seriam as enfermarias, uma vez que só existiam barracões onde os imigrantes viviam empilhados. A farmácia do médico era coisa irrisória. No balanço das drogas da ambulância a cargo do médico Domingos Gomes Barroso constavam 87 medicamentos: sulfato de magnésia, de soda e de quinina; perclorureto de ferro; subnitrato de bismuto; extrato gomoso de opis; extrato mole de quina; extrato de genciana; cato em pó; óleo de rícino; óleo de amêndoa; cremor de tártaro solúvel; ácido sulfúrico e hidroclórico; nitrato de prata fundido e cristalizado; banha preparada; basilicão; certo simples; glicerina; quina contusa; amônia líquida; acetato de amônia; Fahnestok; santonina pura; água de flor de laranjeira; flor de sabugueiro e de tília; tintura de acônito, de beladona, de digitalis, de castóreo, de almíscar, de camomila, de ipecacuanha, de tolu, de scilla, de arnica, de assafética; raiz de ipecacuanha; macela galega; água de louro cereja; éter sulfúrico; Opropeldoc; óleo de cajeput; essência de terebintina; Wermis mineral; tártaro emético; vericatoris Abbespeyres; esparadrapo; pílulas Le Roy, de Allan, de Bristol e de Dehant; láudano de Sydenhã; raiz de alteia; semente de linhaça; cevada; xarope de Vanquelim; acetato de chumbo; sulfato de zinco; losna; extrato de alcaçuz; fenol; ácido fênico; ruibarbo em pó; calomelanos; goma guta em pó; diaquilão; flor de enxofre; mercúrio doce; ergotina; mostarda inglesa; centeio espigado; goma arábica em pó; cânfora; elixir paregórico; mel rosado; bálsamo tranqüilo; bicarbonato de soda; magnésia francesa; nitro puro; bálsamo católico; fios de linho curtos e longos; açúcar refinado; linhaça em pó. Havia ainda uma variedade de uns quinze objetos e instrumento cirúrgicos e era tudo.</p>
<p>Toda a população do núcleo, pois, dependia desta farmácia e os recursos medicinais estavam compilados no conhecido <i>Formulário</i> de Chernoviz. O atraso da medicina se constituía numa fatalidade histórica.</p>
<p>As epidemias de varíola nos navios faziam grandes estragos. Imigrantes italianos do Espírito Santo e do Rio Grande do Sul atestavam que, no caso de surtos de varíola nos navios, não se duvidava em jogar ao mar. &#8220;Os contaminados quando estavam quase no fim da vida, para abreviar-lhes os sofrimentos e para poupar maiores incômodos a seus familiares e prevenir os passageiros da contaminação, eram embrulhados em lençóis e jogados vivos ao mar.<span id="CIII_RP13V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP13" title="BATTISTEL, A I. e COSTA, R. Assim vivem os italianos. vol. 1 , Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes e Editora da Universidade de Caxias, 1982, p.24."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> A quarentena na hospedaria dos imigrantes, em cada porto, era obrigatória para prevenir as epidemias, mas acontecia que, com frequência, as levas de imigrantes eram desviadas para Benevente quando grassava uma epidemia de varíola e infestava Vitória. Os fundadores de Santa Teresa diziam que não encontraram ninguém pela frente quando foram retirados da cidade e se dirigiram por caminhos solitários no núcleo Timbuí e sediados no meio da floresta circunjacente. É claro, o diretor da colônia recebeu ordem terminante para os fazer pernoitar na fazenda &#8220;Nova Coimbra&#8221; no penúltimo dia de viagem. Tal medida visava a impedir o contato dos recém-chegados com os colonos infetados do Porto do Cachoeira, não lhes permitindo atravessar o rio. Para isso ficou calculado que os tiroleses deviam chegar a &#8220;Nova Coimbra&#8221; pela noitinha, às cinco horas da tarde.</p>
<p>Outras vezes, soldados eram postados nas estradas, impedindo o trânsito das pessoas e avisando-lhes do perigo que corriam de pegar e de transmitir uma epidemia.</p>
<p>As doenças tropicais eram um sério adversário dos imigrantes e muita vida foi perdida inutilmente no dilema da aclimação.</p>
<p><b>4.Centralização do Governo Imperial e sua desorganização</b></p>
<p>O terceiro problema a ser enfrentado pelo imigrante era o Governo brasileiro. O governo se constitui de um corpo burocrático que trabalha em função de objetivos constitucionais. O governo imperial enviava periodicamente da cidade do Rio de Janeiro um Presidente para governar a Província do Espírito Santo, mas sem nenhum vínculo com ela. Os Presidentes vinham e saíam numa rotatividade que impedia a realização de qualquer obra importante. O Espírito Santo exportava apenas cal, telhas, tijolos e peixe salgado. Sabe-se que todos instrumento fabricado com ferro tinha que vir do estrangeiro, como enxadas, machados, foices e facões. De 1870 até 1895 o Estado teve 48 Presidentes e Vice-Presidentes, em sua maioria figuras opacas e decorativas que nunca fizeram nada. Era evidente que os reais interesses do povo pobre e atrasado foram sempre postergados em favor dos interesses do Governo Imperial. Em 1870, Aureliano Cândido Tavares Bastos dizia corajosamente no prefácio do seu livro A Província que uma grande questão que agitava o Brasil era a luta da liberdade contra a força, do indivíduo contra o Estado. Ao tratar do capítulo da imigração atribuías o naufrágio de tantas tentativas de imigração `louca pretensão de se dirigir do Rio de Janeiro as complexas operações de um serviço disseminado por tão vasto país. Os fracassos se explicavam pela centralização administrativa. Tudo devia passar pelas mãos do ministro na Corte. Exemplificava:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>A menor questão assume logo o caráter de gravidade. As distâncias, a falta de comunicação regulares, aumentam os inconvenientes de pequenos negócios tratados por via de correspondência. É mister construir uma capela ou abrir um caminho? Começa a papelada, repetem-se informações, vão e vêm os documentos, enchem-se as pastas, passam os anos, e os colonos desesperam, e o núcleo, criado sob os melhores auspícios, pára, ou definha, ou dissolve-se. Quantas vezes foi retardado por meses, por anos, o pagamento de contas insignificantes, até de salários de trabalhadores, ou a autorização de despesa urgente!<span id="CIII_RP14V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP14" title="BASTOS, Aureliano Cândido Tavares. A Província: estudo sobre a descentralização no Brasil. 3. ed., São Paulo, Ed. Nacional, 1975, p.18"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
A imigração italiana ficava subordinada, neste contexto, a uma Inspetoria Geral para todo o Brasil, a uma Inspetoria Especial em cada Província, a uma Diretoria para cada Colônia Oficial. A figura do Diretor de Colônia era também rotativa e o sucesso da instalação de um núcleo dependia concretamente de seu tino administrativo. O sucesso da instalação do núcleo Conde D&#8217;Eu, atual Ibiraçu, ES, numa região insalubre, propícia a febres, se deve à energia do seu primeiro Diretor, o senhor Aristides Armínio Guaraná. A figura de Guaraná se delineia nos 482 ofícios por ele emitidos durante sua gestão. Demonstrava sempre patriotismo e nobreza de caráter. Isto não impediu que, depois da sua gestão, transcorrida de setembro de 1877 a meados de 1880, o seu sucessor, Luís Cavalcanti de Campos Mello abrisse contra ele um processo administrativo no que dizia respeito à posse e compra de uma grande quantidade de terras. A figura do Dr. Guaraná não foi historicamente estudada e, por este motivo, apresenta aspectos polêmicos. Nos primeiros meses de sua administração, em 1877, demitiu o engenheiro Cristiano Boaventura da Cunha Pinto por julgá-lo incompetente. Ao tentar sediar os colonos nos seus prazos assim se queixa Guaraná ao Presidente da Província, Manoel da Silva Mafra:</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 90%; width: 95%;">
<tbody>
<tr>
<td>Reduzido ultimamente a só ter o engenheiro Afonso Coimbra, este mesmo não trabalha muitas vezes por falta absoluta de trabalhadores que completamente se recusam a acompanhá-lo. Tal recusa é motivada pelo atraso em que constantemente ficam os pagamentos. Jornaleiros, vivendo dos seus trabalhos, realmente não podem esperar dois ou três meses pela paga que lhes é devida. (&#8230;) Posso afirmar a V. Ex.a que não tenho conseguido até hoje ter um agrimensor que saiba à risca cumprir com os seus deveres. Há quatro meses que solicito tal favor, e dos poucos que têm vindo, tenho sido bastante feliz por vê-los voltar. Com tais elementos de desorganização como os que acabo de apresentar a V. Ex.a, creio que só com um esforço supremo e quase sobrenatural, poderá quem dirige uma Colônia alcançar, não o limite do bem, mas apenas um progresso relativo.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Dez anos mais tarde, no Conde D&#8217;Eu, os imigrantes tiveram o maior problema com a regularização dos seus lotes coloniais cuja questão de limites apresentava disputas e conflitos. O que havia acontecido? O engenheiro Cristiano Boaventura, deslocado à pressas, do vale do rio Doce, veio para Santa Cruz e mediu somente a frente dos lotes, abrindo-lhes os limites na floresta, deixando a medição das linhas em profundidade para depois. E isto ele o confessa em 1877. É que as circunstâncias e a presença de centenas de imigrantes nos barracões urgia aquele tipo de procedimento. Coube ao engenheiro Antônio Francisco de Athayde, em 1887, o trabalho de refazer os mapas do núcleo Conde D&#8217;Eu e regularizar as indefinições dos lotes.</p>
<p>Aristides Armínio Guaraná teve também de demitir médicos mais de uma vez. No ano em que se fundou Ibiraçu, teve de se defender das intrigas contra ele insufladas pelo médico do núcleo Timbuí, por ocasião da revolta de Nova Lombardia. Desavenças e intrigas entre governantes e funcionários do Governo refletiam no mau atendimento proporcionado aos imigrantes.</p>
<p>Com referência à legislação para ordenar a imigração, as coisas não andavam diferentemente. O decreto no. 3784, de 19 de janeiro de 1867, que aprova o regulamento para as Colônias do Estado, foi a cartilha da imigração para todo o Brasil. Ele era constantemente alterado por ofícios, portarias, avisos, pareceres, etc. de modo que, se por uma lado tinha força, por outro, era gerador de conflitos insanáveis. A obrigatoriedade de sustentar e dar trabalho aos colonos nos primeiros seis meses após sua chegada, por exemplo, vigorou para os fundadores de Santa Teresa em 1875, mas foi logo cortada, em 1877, para os fundadores de Ibiraçu. Joaquim Adolfo Pinto Pacca, que trabalhou no serviço de imigração por mais de 25 anos, figura notável de administrador, chamava o regulamento de 19 de janeiro de 1867 de &#8220;montanha de ruínas&#8221;, criticava-o duramente e dizia que era preciso fazer algo melhor em termos de legislação. Mas o decreto republicano de 4 de junho de 1892, com validade para o Espírito Santo, decreto amplo e pormenorizado — continha 99 artigos — não surtiu melhores resultados. O vice-cônsul em Vitória, Rizzardo Rizzetto no seu trabalho de 1901 sobre o Espírito Santo, citava o artigo 73 deste decreto, com nove vantagens oferecidas aos imigrantes, para concluir dizendo que &#8220;o Estado não tinha condições de cumprir obrigações assumidas no artigo 73, por causa do mau funcionamento das Comissões distritais.&#8221; Vindo do Governo central, a desorganização se ramificava até os seus capilares.</p>
<p>Nos primeiros anos a lei não permitia que os colonos se dedicassem ao comércio. Tal atividade era praticada pelos nacionais que tinham, juntamente com o Governo, o controle dos gêneros de primeira necessidade. Quando esses gêneros não faltavam, eram comercializados por preço muito altos e extorsivos. Rizzetto em seu livro de 1905 sobre o Espírito Santo dizia que, no interior, não existiam senão duas classes sociais: os fazendeiros e comerciantes de uma parte; os colonos, os meeiros e pequenos proprietários da outra. E conta o caso de uma velha colona que depois de 22 anos de Brasil, com 13 familiares e duas colônias, não conseguiu saldar a dívida contraída na &#8220;venda&#8221; do lugar, mesmo tendo repassado ao dono da casa comercial todo o café colhido em cada ano. &#8220;Abrindo ao acaso uma destas cadernetas em qualquer página, em qualquer ano, mês e dia, tem-se sempre a impressão da espoliação sistemática de que foi vítima aquela família.<span id="CIII_RP15V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP15" title="RIZZETTO, Rizzardo. Colonizzazione italiana nello Stato de Espírito Santo. Bollettino del Ministero degli Affari Esteri, 1905, cap. IV."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a> A narração do caso da velha senhora arrancaria de quem a ouvisse um grito de imprecação contra a terra brasileira, conclui o senhor Rizzetto. Pensou em recorrer à justiça mas verificou que seria pior para o caso.</p>
<p>O assassinato de Lorenzo Tamanini, descrito no romance <i>Karina</i>, de Virgínia Tamanini, é histórico e exemplifica o preconceito dos nacionais contra os estrangeiros e a falta de justiça reinante no Brasil. Este imigrante, quando mascateava pelas bandas do rio Doce em direção a Baixo Guandu, foi morto e teve o corpo desaparecido. O jornal <i>O Horizonte</i> de 1° de fevereiro de 1884 noticiava: &#8220;Pelas diligências a que procedeu o Subdelegado de Polícia do Limoeiro, só obteve encontrar o animal que montava Tamanini, com os arreios estragados e uma camisa e mais alguns outros pequenos vestígios&#8221;. Matteo Pomarolli, do núcleo Timbuí, escrevia para a Itália em agosto de 1884, dizendo a respeito do fato: &#8220;Aqui não existe nem lei, nem fé.<span id="CIII_RP16V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP16" title="GROSSELLI, Renzo M. Op. Cit. P. 411."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a></p>
<p>Quando em 1890 o Dr. Gabriel Emílio da Costa assumiu a direção da ex-colônia de Santa Leopoldina e que incluía os novos núcleos recém-criados de &#8220;Antônio Prado&#8221;, &#8220;Acióli Vasconcelos&#8221; e &#8220;Santa Leocádia&#8221;, a primeira medida que tomou foi a de mudar a sede da colônia para Linhares, por conveniências pessoais. A isto se opôs o engenheiro Antônio Francisco de Athayde, mostrando a inconveniência das distâncias e os riscos de febre na região paludosa do rio Doce. Athayde conhecia bem a região, medira lotes, fundara aqueles dois primeiros núcleos, vendo a epidemia que presidiu à fundação de &#8220;Acióli Vasconcelos&#8221;, vendo os alemães destinados àquele lugar fugirem espantados. Sem visão do problema ou por interesse Gabriel Emílio manteve-se irredutível. A polêmica entre ambos resultou na demissão de Athayde do seu cargo mas continuou através do jornal O Comércio do Espírito Santo do número 212 ao 237. Em 1889, Joaquim Adolfo Ponto Pacca também desaconselhara aquela mudança de sede para Linhares, argumentando com a distância e a insalubridade dos terrenos. De nada adiantou, pois o Governo se tornara ambicioso e queria vencer, de uma só vez, a luta contra a floresta bravia e as febres endêmicas. O resultado é de todos conhecido. Pela desorganização governamental das Comissões distritais, o núcleo &#8220;Muniz Freire&#8221; tornou-se a sepultura de um grupo de imigrantes que para lá se dirigiu e também da imigração italiana para o Espírito Santo no ano de 1895.</p>
<p>Se não era verdade que os índios brasileiros, quando da descoberta do Brasil, não tinham nem Lei, nem Rei, nem Fé, isto, em parte, se verificou com a imigração italiana. Aqui vale o testemunho do imigrante Luigi Varnier, náufrago da esperança, que tendo chegado com a mulher e a filha de dois anos de idade, em 1880, voltou para a Itália em 1908, depois da grande quebra no preço do café de 1906. Apercebeu-se de que jamais ficaria rico no Brasil, porque aqui, como dizia, &#8220;não há lei nem justiça&#8221;. Se era para morrer pobre, iria morrer na sua pátria. Luigi Varnier, durante 28 anos, sentiu na pele os efeitos do sistema de escravidão econômica que funcionava e funciona no Brasil, com relação ao trabalhador.</p>
<p>Em cem anos de história, o dilema da floresta e das febres parece ter sido superado mas não o dilema principal apontado por Tavares Bastos que é o da luta do indivíduo contra o Estado. A contar com ele andam em risco permanente todos os direitos de cidadania.</p>
<p>Hoje é preciso reflorestar o solo espírito-santense, se não quisermos ser os herdeiros de uma terra gasta e cultivada sem inteligência. O solo em que pisamos continua apenas como pano de fundo e cenário pois não sabemos ainda o que é assumir uma identidade de patriotas, conscientes do significado de território estadual e nacional. Somos arrastados por mecanismos cegos e fatalistas do capital. Não nos damos o direito de viver uma utopia a curto prazo. O Éden, onde está o Éden? Onde está o paraíso e a casa com sonharam nossos antepassados e sonham milhões de brasileiros? Onde a vida feliz com a qual nós também sonhamos?</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<div id="CIII_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;GROSSELLI, Renzo M. <i>Colonie imperiali nella terra del café</i>. Trento, Litografia Effe e Erre, 1987, p.159.</div>
<div id="CIII_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;DAVATZ, Thomas. <i>Memórias de um colono no Brasil</i>. São Paulo, Martins, Ed. da Universidade de São Paulo, 1972, p.2.</div>
<div id="CIII_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;BUSATTO, Luiz. A insurreição branca. In UFES. <i>Revista de Cultura</i>, n. 8, ag./set. 1978, p.5-10.</div>
<div id="CIII_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;GROSSELLI, Renzo M. (1987) p. 174.</div>
<div id="CIII_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;RIZZETTO, Rizzardo. <i>L&#8217;Immigrazione italiana nello Stato di Espírito Santo</i>. Ottobre 1901, p.23.</div>
<div id="CIII_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 22 da segunda série da &#8220;Governadoria&#8221; do Arquivo Público Estadual-E.S.</div>
<div id="CIII_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;MENEZES SOUZA, João Cardoso de. <i>Teses sobre colonização do Brasil</i>. Tipografia Nacional,1875, p.316-7.</div>
<div id="CIII_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;MARZANO, Pe. Luigi. <i>Colonos e missionários italianos nas florestas do Brasil</i>. Florianópolis, Ed. da UFSC/Prefeitura Municipal de Urussanga, l985,p.118.</div>
<div id="CIII_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, ibidem p. 119.</div>
<div id="CIII_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;NAGAR, Carlo. Lo Stato di Espírito Santo e l&#8217;immigrazione italiana. <i>Bolletino del Ministero degli Affari Esteri</i>, 1895, p.11.</div>
<div id="CIII_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, ibidem, p. 21.</div>
<div id="CIII_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;Livro 47 da 2a. série da &#8220;Agricultura&#8221; Arquivo Público Estadual-ES.</div>
<div id="CIII_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;BATTISTEL, A I. e COSTA, R. <i>Assim vivem os italianos</i>. vol. 1 , Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes e Editora da Universidade de Caxias, 1982, p.24.</div>
<div id="CIII_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;BASTOS, Aureliano Cândido Tavares. <i>A Província: estudo sobre a descentralização no Brasil</i>. 3. ed., São Paulo, Ed. Nacional, 1975, p.18.</div>
<div id="CIII_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;RIZZETTO, Rizzardo. Colonizzazione italiana nello Stato de Espírito Santo. <i>Bollettino del Ministero degli Affari Esteri</i>, 1905, cap. IV.</div>
<div id="CIII_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/#CIII_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;GROSSELLI, Renzo M. Op. Cit. P. 411.</p>
<p>
[BUSATTO, Luiz.&nbsp;<i>Estudos sobre imigração italiana no Espírito Santo</i>. Vitória, 2002. Reunião de artigos relacionados com imigração italiana, publicados em diversos periódicos. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2002&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Luiz Busatto</b>&nbsp;nasceu em Ibiraçu-ES, em 1937. Graduado em Letras, com cursos de especialização em Portugal (Teoria da Literatura e História da Literatura Portuguesa), na Itália (Filosofia), mestrado em Letras pela PUC/RJ e doutorado na mesma área pela UFRJ. Professor da Ufes e da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Colatina (1969-1983). É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e da Academia Espírito-santense de Letras. Foi presidente do Conselho Estadual de Cultura (1993/4) e vice-presidente (1986/7). Tem várias obras publicadas, sendo um estudioso da imigração italiana. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-luiz/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p>
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</blockquote>
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<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/capitulo-iii-dilemas-do-imigrante/">Capítulo III &#8211; Dilemas do imigrante italiano no Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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