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	<title>Arquivos Sérgio Blank &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<title>Arquivos Sérgio Blank &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>50 tons de azul em Safira</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Dec 2015 16:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Amélia Dalvi]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Blank]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Reler Safira, livro infantil de Sérgio Blank &#8211; com ilustrações de Mara Perpétua -, tem o gosto e o gesto de uma redescoberta: da literatura infantil feita no Espírito Santo, do lavor imprescindível de seu autor. Na tese de doutorado defendida por Ivana Esteves, em 2015, junto à Universidade Federal do Espírito Santo, há um [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-aBFg9SVQDyI/Wedw7lvpkfI/AAAAAAAASOw/vaOxRmPAEk0E8DyKSUEDAbvNgHfoZ0nFgCEwYBhgL/s1600/Safira-capa.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img fetchpriority="high" decoding="async" border="0" data-original-height="463" data-original-width="1298" height="228" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/Safira-capa.jpg" class="wp-image-6544" width="640" /></a></div>
<p>
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Reler <i>Safira</i>, livro infantil de Sérgio Blank &#8211; com ilustrações de Mara Perpétua -, tem o gosto e o gesto de uma redescoberta: da literatura infantil feita no Espírito Santo, do lavor imprescindível de seu autor.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Na tese de doutorado defendida por Ivana Esteves, em 2015, junto à Universidade Federal do Espírito Santo, há um delineamento do modus operandi da literatura para crianças em terras capixabas. A autora demonstra que, independentemente da natureza do financiamento destinado à publicação de seus livros (seja público, por meio de editais; misto, por meio de leis de incentivo; ou privado, por negociação direta dos detentores de direitos em escolas e empresas), os escritores de obras infantis, no contexto estudado, são aqueles que preponderantemente atuam na divulgação e distribuição dessa produção, muitas vezes desdobrando-se como contadores de histórias, oficineiros e gestores culturais e, na ausência de um sistema literário plenamente constituído, transmutando-se em agentes comerciais. Outro modo de funcionamento da dinâmica literária infantil detectado por Esteves (2015) em seu estudo é a relação interessada entre escola e literatura, com a produção sob encomenda de obras que atendam à demanda pedagógica por textos ficcionais com propósitos educativos, nem sempre estão a serviço da complexificação da visão de mundo dos sujeitos e da problematização dos valores sociais instituídos. Mas, na contramão da dinâmica mais recorrente no Estado, não é por nenhuma dessas vias que <i>Safira </i>chegou à 5ª edição.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Blank atuou, historicamente, em oficinas literárias com internos de hospitais psiquiátricos e unidades profissionais, no entanto, não foi por essa via – o trabalho como oficineiro – que chegou às mãos dos leitores pequenos e às escolas. Também atuou como gestor cultural, por exemplo, quando foi editor das obras literárias contempladas por aquela que talvez seja a mais importante política cultural no Espírito Santo (os editais da Secretaria de Cultura do Estado) –&nbsp;e nunca se locupletou desse lugar em favor de <i>Safira</i>. Tem sido um formador de leitores por meio de rodas de leitura, junto à Biblioteca Pública do Estado, mas também aí não se explica o sucesso de seu livro; já que, de Blank, podemos dizer mais ou menos o que Mário de Andrade disse do amigo Carlos Drummond de Andrade, nas primeiras décadas do século passado: contrariam-se, ali, com ferocidade, uma inteligência aguda, uma sensibilidade afiada e uma timidez inaferrável. E eu acrescentaria ao insólito mosaico um quase ceticismo em relação à própria obra.</p>
<p>Isso porque, desde a publicação de <i>Vírgula </i>em 1996, tivemos de esperar mais de quinze anos para ver o nome de Blank em nova capa. A reedição de sua obra completa &#8211; até o momento – está sendo realizada, em dois volumes, pela editora Cousa: <i>Os dias ímpares</i>, lançado em 2011, que reúne seus cinco livros anteriores; e a novela infantil sob lupa. Sobre o volume de poemas, o poeta declarou algumas reservas críticas, mas, aparentemente desprendido da vaidade narcísica, optou por manter integralmente o originalmente publicado, como um gesto de respeito à própria história à história das obras. Já a novela infantil, em fase de acabamento, será lançada no próximo dia 15.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Um dos mais importantes poetas de sua geração no contexto literário do Espírito Santo, Blank sempre desafiou os leitores. Se nos intrigam em <i>Estilo de Ser Assim, Tampouco</i>, <i>Pus</i>, <i>Um,</i>, <i>A Tabela Periódica</i> e <i>Vírgula </i>a ironia, os cortes inesperados, as aproximações insólitas, as imagens originais, o ritmo irregular e contundentemente marcado &#8211; também não encontraremos&nbsp; na obra infantil um autor ameno e edulcorado. Não mesmo. <i>Safira </i>não é só um bom livro para crianças: talvez esteja entre os melhores já escritos e publicados no Espírito Santo – e aí a chave, quem sabe, para sua boa acolhida de público e crítica, desde a primeira edição, em 1991.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
A obra não nega a inerente natureza formativa presente em toda obra para crianças – conforme já pontuado por estudiosos como Peter Hunt, na Inglaterra, ou Regina Zilberman, no Brasil –, contudo, não dá aos leitores, nem mesmo os pequenos, o trabalho pronto e acabado. Ensina, porque não moraliza – e saímos encantados com Safira porque ela pode ser tão ruim e tão boa quanto qualquer um de nós. É preciso que quem se disponha a ler disponha-se, igualmente, a participar da produção de sentidos que cooperem no processo formativo característico da literatura para crianças.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
O narrador em terceira pessoa, em movimento complementar com as imagens produzidas por Mara Perpétua, já na primeira página, nos apresenta a Caneta Safira, como &#8220;magra e bonita&#8221;; na situação inicial, ficamos sabendo que ela, um dia, rompeu com sua praxe e acordou tarde, restando pensativa e cheia de perguntas. Está dada ao leitor a pista para aquilo que talvez encontre paralelo em toda grande narrativa: quando se faz uma fissura – mesmo que mínima – no ordinário, no habitual, no cotidiano é que se apresenta uma situação que nos obriga à problematização de tudo quanto restava assente, apaziguado, tranquilo.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Nas páginas seguintes, a narrativa vai espargindo elementos que permitam a identificação do leitor infantil com a protagonista: ela também não sabe escrever, era nova e estava aprendendo e, tal como qualquer criança, ao tentar produzir seus primeiros traços, só encontra a si mesma refletida no espelho. Outro elemento que propicia a provável identificação do leitor infantil com Safira é seu egocentrismo, já que ela se julga superior aos demais e rechaça aqueles que não lhe dão a importância que ela supõe ter. O leitor infantil, se capturar algo das ações da caneta Safira algo daquilo queé próprio do processo de reinvenção de si mesmo (ou seja, a detecção de uma visão ingênua e sua superação, a partir do embate com o Outro), pode ir realizando, no processo de apropriação do texto literário, a dupla natureza da literatura. De um lado, um mergulho na dimensão eminentemente subjetiva, pessoal, individual da existência; de outro, uma opção pela compreensão ampliada do mundo e pela inserção na vida social, via reflexão crítica e via ações de transformação da realidade.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Quando Safira se dispõe a considerar aqueles que atravessam seu caminho (como fez com o papel, seu amigo), a ser generosa (como foi com a almofada, a quem doa a coroa), a aprender com o outro (como ocorre quando a formiga foge sem explicação) é aí que pode, enfim, crescer. E esse processo de crescimento permite que ela aprenda que pode escolher aqueles a quem quer perto de si – não porque é arrogante e não julga aos demais bons o suficiente, mas porque tem o direito de se preservar (como o faz quando o mosquito sinaliza que quer &#8220;sugar&#8221; o seu &#8220;sangue azul&#8221;).<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
No entanto, como qualquer possível leitor, Safira tem seus altos e baixos &#8211; o que torna o livro e a personagem ainda mais &#8220;humanos&#8221;. Pouco adiante, na narrativa, resolve afastar-se de uma flor muito perfumada, porque, numa recaída de arrogância, continua supondo que seu sangue azul é melhor que a qualidade dos demais seres com os quais partilha a existência. E – por pura insegurança – desenha uma borracha, para apagar um gesto terno do lápis. No entanto, mais uma vez, o Outro (no caso, a borracha, que se recusa a participar do plano da caneta azul) ensina à Safira que, às vezes, a única atitude sensata é ficar &#8220;pálida de arrependimento&#8221;, e mudar de atitude.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Pouco a pouco, a caneta Safira vai aprendendo que as pessoas têm suas fraquezas e diferenças o sangue não é só azul, é também vermelho&#8230;), e que precisamos, sempre, do Outro, que nos signifique, que nos ajude a produzir sentidona existência &#8211; um tinteiro que reponha nossa carga, quando nos sentimos vazios por dentro. Vai aprendendo, também, quando o tinteiro tropeça e mancha tudo de azul, que não adianta a gente cruzar os braços diante do inesperado: o negócio é compreender que o acaso pode ser o pontapé de um céu estrelado.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Por fim, Safira aprende a lição mais bonita: a única coisa boa de ter sangue azul é poder grafar, em si mesmo, em tudo o que nos embala, enfim, no mundo, as palavras que dão sentido à nossa vida. No caso de Safira, em gesto de rebeldia, o que ela escreve escondido de sua mãe no lençol, para ter sempre consigo, foi a palavra &#8220;amigo&#8221;.<br />
<span style="white-space: pre;"> </span><br />
Todas essas ilações, da parte de quem lê, são um trabalho de mergulho no texto em busca daquilo que, para o leitor, é o sentido possível, já que a construção do texto reitera a marca do insólito, do inesperado e do alegórico que atravessa todo o restante da produção literária do autor. E é desse modo que o livro de Sérgio Blank nos emociona e nos convida ao pensamento – enfim, fazendo aquilo que de melhor um livro para crianças pode fazer: nos tornar mais humanos, no sentidomais azul (e agora sim: mais nobre) que a palavra pode ter.</p>
<p>
[Por Maria Amélia Dalvi in Caderno Pensar &#8211; <i>A Gazeta</i>, 12/12/15]</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2015&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
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		<title>Dois textos de Gilbert Chaudanne</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2015 18:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CAPS]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Blank]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>DIA DAS MÃES. DIA DA CRIAÇÃO Quando eu era pequeno via seu imenso rosto terno debruçado sobre o meu aberto como uma laranja. Era o firmamento de que universo? O de um aconchego metafísico onde as estrelas cantavam como na cosmogonia de Pitágoras. Eu não era nada, apenas um pedacinho de carne que queria leite [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>DIA DAS MÃES. DIA DA CRIAÇÃO</p>
<p>
Quando eu era pequeno<br />
via seu imenso rosto terno<br />
debruçado sobre o meu<br />
aberto como uma laranja.</p>
<p>Era o firmamento de que universo?<br />
O de um aconchego metafísico<br />
onde as estrelas cantavam<br />
como na cosmogonia de Pitágoras.</p>
<p>Eu não era nada, apenas<br />
um pedacinho de carne que queria leite<br />
e era todo para minha mãe<br />
e não sabia que era um pequeno rei.</p>
<p>Quando me lembro da senhora, mãe,<br />
vejo assim como uma imensa Nossa Senhora,<br />
o doce e protetor porto dos meus medos<br />
e que continua me dando aconchego.</p>
<p>Há mais mistério na mãe que em todo o universo<br />
porque a mãe é o próprio universo e mais que isso<br />
ela é o leite do universo<br />
e é por isso que existe a Via Láctea.</p>
<p>Mas disso a Senhora tira nenhum orgulho<br />
sua humildade transcendental pode se comparar<br />
à humildade da vaca diante do Bezerro<br />
e não é por acaso se no Presépio<br />
havia um boi e um burro.</p>
<p>A mãe não é a inteligência do Doutor.<br />
A mãe é a inteligência do coração e da carne<br />
e como um porvir aberto como uma Rosa aberta<br />
e com o perfume evanescente dessa Rosa.</p>
<p>Mãe, estou aqui numa casa especializada<br />
onde somos bem tratados, com amor,<br />
mas o amor que você me deu<br />
mas o amor que você me dá<br />
tem um cheiro de eternidade<br />
que, como tal, não acaba nunca.</p>
<p>O CAPS PARA VOCÊ REPRESENTA</p>
<p>
Primeiro, o CAPS não tem o aspecto de um Hospital — de um espaço fechado sobre a nossa própria loucura. Porque a loucura é talvez um fechamento do espírito sobre si.</p>
<p>A única coisa que lembra o fechamento são as grades, lá embaixo.</p>
<p>Senão se trata de uma casa igual a muitas e não uma caserna de órgãos — como o hospital.</p>
<p>O espaço mais aconchegante é o quintal,<br />
com as árvores<br />
e sua força de vida<br />
sua vontade de viver<br />
junto a presença ontológica dos rochedos um contato como se o homem fosse mais forte que ele<br />
o homem do quintal<br />
o outro inteiro com a forma de um falo<br />
antigas pedras de que sacrifício?<br />
O sacrifício da razão<br />
nos altares dos Deuses Naturais?<br />
Faltam alguns Bichos<br />
nossos velhos companheiros da Arca de Noé<br />
já que estamos numa outra Barca,<br />
companheiros — querendo ou não.<br />
Irmãos querendo ou não<br />
uma tripulação de Navelouca<br />
cercada por oficiais (médico, psiquiatra,<br />
psicólogo, psicanalista) que não mandam<br />
na gente mas tentam amenizar a nossa<br />
travessia<br />
no mar das trevas<br />
para encontrar, depois dessa odisséia,<br />
a feliz Cidade, a cidade da Vitória,<br />
o reencontro com a clarividência<br />
com um pouco de razão<br />
(o excesso de razão também é loucura)<br />
e sobretudo reencontrar a faculdade<br />
de poder se abrir<br />
como uma flor para o Espírito Santo do Mundo,<br />
se abrir para a alma do mundo<br />
como a orquídea capixaba se abre<br />
para o beija-flor.<br />
Nós estamos aqui para aprender<br />
a beijar as flores</p>
<p>[Textos escritos por Gilbert Chaudanne durante sua permanência no Centro de Ajuda Psicossocial da Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Vitória, como participante “honorário” da oficina dirigida por Sérgio Blank, no ano de 2001. Reproduzidos com permissão do autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Vírgula, de Sérgio Blank</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 22:41:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Rita de Cássia Maia e Silva Costa]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Blank]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria e Crítica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por que ler os clássicos, nos indaga Calvino com a genialidade e a simplicidade dos que sabem, dentre outras coisas, que toda releitura é uma leitura de descoberta como a primeira e que essa descoberta pelo leitor pressupõe amor. Pergunto-me, então, num tempo de adversidades e contrariedades, por que ler poesia e, mais particularmente, por [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Por que ler os clássicos, nos indaga Calvino com a genialidade e a simplicidade dos que sabem, dentre outras coisas, que toda releitura é uma leitura de descoberta como a primeira e que essa descoberta pelo leitor pressupõe amor. Pergunto-me, então, num tempo de adversidades e contrariedades, por que ler poesia e, mais particularmente, por que reler o livro de poemas intitulado Vírgula, de Sérgio Blank. Porque a sua poesia tem a graça e a força particularíssima de fazer-se renovar sempre como experiência de fruição e de reflexão sobre a condição humana.</p>
<p>Logo de início o poeta se apresenta. Desenhada em silêncio e sangue, sua letra indicia a consciência e a pose inalienável de seus versos, e, como marca, inscreve neles o seu canto e a sua alma.</p>
<p>A persona lírica se materializa como &#8220;redundância escrita a lápis&#8221; e vagueia sombriamente pelas ruas e morros e telhados da cidade, enquanto perscruta o coração. Solidão e melancolia sempre à espreita, grita com a voz do silêncio a sensibilidade do poeta e suas circunstâncias, enquanto segue mapeando a sua, a nossa condição.</p>
<p>Brincando com um universo aparentemente banal e trivial, o poeta tematiza e realça a singularidade da solidão. Mas o leitor, que faz coro às muitas vozes sob a égide de Saturno, compartilha, na polifonia de seus versos, a universalidade desta que é uma das mais humanas das manifestações da condição humana: a solidão. Define-a como palavra-sentença, cuja força comporta afirmativamente a multiplicidade de sentidos e a consciência lúdica do poeta de que a vida, como armadilha, é feita de &#8220;penas e perdões&#8221;.</p>
<p>Por entre rimas, aliterações e assonâncias, o leitor de rende à profusão e ao inusitado das imagens que, plenas de cor e movimento, metaforizam quão fugaz é a felicidade. O leitor se descobre cúmplice na paixão pela palavra. A pesquisa em dicionário, pretexto para a criação, mostra um poeta-arqueólogo da linguagem. E nessa arqueologia, marcada por fina ironia, o poeta sublinha a dor para expurgá-la, como nos versos em que, aproximando o humano do divino, transcende a dor ao identificar-nos &#8220;— com sagrado-coração-de-jesus sangrando flechado e escarlate&#8221;.</p>
<p>O resultado, então, é um estado de poesia. Nesse estado, melancolia e contemplação aguçam a nossa perplexidade diante da inexorabilidade da existência. Os &#8220;sonhos datados&#8221;, os &#8220;anos colecionados&#8221;, o &#8220;calendário fixo no prego&#8221; denotam a passagem do tempo, a vigência impiedosa de Cronos.</p>
<p>A despeito de tudo, inclusive da sutil ironia dos versos de Sérgio Blank, percebe-se, num jogo, entre presença e ausência, uma alternância dos temas: amor e solidão se entrelaçam &#8220;em qualquer dobra da vida&#8221; e guardam o inesperado feito &#8220;dobradura em canto de página&#8221;. A analogia entre a vida e literatura enreda o leitor pela opacidade dos limites entre realidade e ficção. Imerso nesse mundo fantasmático, aparece um poeta-leitor — &#8220;nevermore boulevard com casuarinas que choram ao vento à sobreposse contra a minha vontade a ventania põe cisco nos olhos que fitam os umbrais de edgar allan poe&#8221; — que ilude o sentido de realidade, logra a dor e finge fingir &#8220;que é dor a dor que deveras sente&#8221;. Com isso torna-se imprecisa e tênue a fronteira entre o real e o imaginário.</p>
<p>O poeta vagueia e perscruta. A cidade lhe responde, indiferente, com os ecos de sua própria voz. Nunca se sabe quem ou o que está à espreita. As sombras e as esquinas desta cidade solitária as vemos pelos olhos do poeta, ziguezagueando por suas vielas em horas noturnas a espreitar pensamentos e sonhos. Como o sonho no poema &#8220;nebeneinander — a palavra alemã em pronúncia fria&#8221;, que lança para perto mas ainda assim um pouco mais além o objeto do desejo, colocando na vida e no poema &#8220;ao lado um do outro [&#8230;] o município em que reside o amor&#8221;.</p>
<p>Ao se alternarem amor e solidão, prevalece ao final de alguns poemas, e como fim de toda a poesia, a imagem da busca, ou do plantio do &#8220;amor — perfeito&#8221;. Como a de quem, por seu olhar soberanamente humano, &#8220;espreita estrelas atrás das nuvens pesadas&#8221;. Porque, no movimento ininterrupto das ondas do mar que vêm e vão, o desejo &#8220;estala às escondidas&#8221; e revela a presença de Eros.</p>
<p>Vida e escritura se misturam e uma retira da outra a sua matéria. Papel e prantos são a própria matéria do poema e de sua fusão e metamorfose nasce sempre o traço delicado da vida. Do imaginário do poeta ao &#8220;risco exato&#8221; do poema ganhamos nós, leitores, a própria poesia, porque o que conta mesmo, a despeito da dor e da falta inerentes à condição humana, é que &#8220;a traça no ofício do osso faz a festa&#8221;.</p>
<p>
[In&nbsp;<i>A Gazeta</i>, Caderno Dois, 21 e 28 de setembro de 1997.]</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 1997&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
<div>
<b><br /></b></div>
<div>
<b>Rita de Cássia Maia e Silva Costa </b>é autora do texto.</div>
<p></p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/virgula-de-sergio-blank/">Vírgula, de Sérgio Blank</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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		<title>A poesia dark de Sérgio Blank</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 21:25:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Sérgio Luiz Blank, jovem autor de vinte e quatro anos, edita seu terceiro livro de poemas, Um, após o promissor Estilo de ser assim, tampouco, de 1986, e o contundente Pus, de 1987. Penso que ele seja, ao lado de Valdo Motta (cuja hibernação burocrática no DEC impediu-lhe a criação), os melhores nomes da jovem [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>
Sérgio Luiz Blank, jovem autor de vinte e quatro anos, edita seu terceiro livro de poemas, <i>Um</i>, após o promissor <i>Estilo de ser assim, tampouco</i>, de 1986, e o contundente <i>Pus</i>, de 1987. Penso que ele seja, ao lado de Valdo Motta (cuja hibernação burocrática no DEC impediu-lhe a criação), os melhores nomes da jovem poesia capixaba. Por quê? Talvez porque retratem com precisão o clima &#8220;dark&#8221;, estilhaçado e niilista do fim deste século, mais próximo de um pesadelo orwelliano que de um sonho de poeta pescador. É claro que não foram feitos para agradar à classe média, conservadora, consumista, dona de Monza e televiseira dos nossos dias globais, e muito menos à burguesia Odete Reytman, que passa as férias em Búzios ou, bem menos chique, Guarapari.</p>
<p>Hoje, atividade marginal, a poesia não é mais feita para as récitas de saraus, os chás acadêmicos ou festas de formatura do Colégio do Carmo. A poesia contemporânea realiza o que Manuel Bandeira propusera em sua &#8220;Poética&#8221;: &#8220;o lirismo dos loucos, dos bêbados, dos clowns de Shakespeare, um lirismo libertação&#8221;.</p>
<p>Mas quais são as marcas que constituem a lírica moderna de Sérgio Blank? Se os seus poemas falam dos chaplineanos tempos modernos, como o fazem? Que relações apresentam com a lírica tradicional? Em primeiro lugar, o subjetivismo sentimental e a musicalidade dos versos, características da arte lírica tradicional, são retomados numa postura pós-moderna. Os poemas de Sérgio refletem o homem atual: esquizoide, permeável a tudo, demasiadamente próximo da destruição, promíscuo a todas as experiências, transformando-se numa pura máquina desejante, num revolucionário esquizofrênico: &#8220;o meu estado é este / o interior do meu estado é este / [&#8230;] o meu estado não será o seu / o seu estado é o interior do seu espírito / e o seu santo é o século que não creio&#8221; (&#8220;O Estado&#8221;, p. 53).</p>
<p>Literatura fragmentária, repleta de citações, descontínua, polissêmica, a poesia de Sérgio Blank é alegórica, em contraste com a estética clássica, que é simbólica. Ela é muito mais metonímica e hiper-real que metafórica ou surreal: &#8220;me sinto / fora de foco / in loco / foto pose finale / no hotel del leito louco / outra lacraia sem apoio&#8221; (&#8220;Epitáfio Dark n° 1&#8221;, p. 19) ou: &#8220;tem por lucro &amp; calamidade o leviatã primo no caos / aquático e réptil aquele das febres quartã e octã / que se desdobram de dor qual camaleão de cor acre&#8221; (&#8220;Listras rosas no branco&#8221;, p. 23).</p>
<p>&#8220;Desde que sei o inferno em los outros todos / o belo e o sublime não fazem jus ao maniqueísmo tratado por moléstia&#8221; são versos de &#8220;A bela e a fera&#8221;, p. 27, talvez o seu melhor poema e que melhor retrate a condição pós-moderna. Citando Dante, Lobão e Cazuza, a Bíblia, Sartre, O. Wilde, Castro Alves, Gil Vicente, Foucault e inúmeros outros signos-estilhaços da realidade, Sérgio Blank reconstrói a nebulosa sociedade pós-moderna, os &#8220;jogos de linguagem&#8221;, citados por Lyotard, heteromórficos, sem regras que os disciplinem. &#8220;A bela e a fera&#8221; é um poema que faz uma alegoria ao ser social pós-moderno, um fervilhar incontrolável de multiplicidades e particularismos, &#8220;pouco importando se alguns vêem nisso um fenômeno negativo, produto de uma tecnociência que programa os homens para serem átomos, ou outros um fenômeno positivo, sintoma de uma sociedade rebelde a todas as totalizações — ou o terrorismo do conceito, ou o da polícia&#8221;, segundo Rouanet.</p>
<p>Se os versos de Sérgio Blank incomodam ao leitor, também o fizeram todos os que ousaram antecipar o seu tempo, com sua arte transgressora. Whitman, Baudelaire, Poe, Kafka, Oswald e Drummond são exemplos não muito distantes. Há vários outros, escritores de cabeceira de Sérgio Blank. Resta aos incomodados ler a ironia de &#8220;O condenado e o nada&#8221;, com epígrafe de Valdo Motta e tudo: &#8220;Há de enfrentar a nado o nada por enfim dar a lugar nenhum&#8221;. &#8220;Os incomodados que se mudem / que se meçam se matem / os condenados que se danem / danifiquem uns aos outros / que se dêem ao luxo de se lixarem / os condenados se destruam uns e outros / ao cubo ao quadrado de cabo a rabo / pois eu (meu bem, meus queridos, meus amores) / eu pois desisto do custo desta festa / o curso deste rio raso / discurso dorsal de dor e sombra / onde me jogo descalço com pedras no percurso / corsário ou cárcere? indaga a festa&#8221; (p. 43).</p>
<p>Ironia, deboche, desdém, agressividade são marcas da juventude. Feitas com arte, dão um novo conceito à poesia: &#8220;As melhores palavras em sua melhor ordem.&#8221; Nem sempre, Coleridge. As piores também. &#8220;A arte de excitar a alma.&#8221; Por que excluir o corpo, Novalis? &#8220;Toda verdadeira poesia é uma visão de mundo&#8221;, Eliot. Que mundo? O seu? O do poeta? O do leitor? Nenhum deles? Apenas Um, o da poesia, afirma Sérgio Blank.</p>
<p>
[In<i>&nbsp;Estudos críticos de literatura capixaba</i>, Vitória, 1990.]</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
<div>
<b><br /></b></div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Francisco Aurelio Ribeiro</b>, natural de Ibitirama, ES, nasceu em 1955. Possui longa experiência na área de Ensino e Pesquisa, professor em diversas Instituições de Ensino, públicas e privadas, em níveis fundamental, médio e superior (Graduação e Pós-Graduação). Autor de grande número de publicações de pesquisa na área de literatura, e nos gêneros infantil, crônica e conto. Foi Secretário de Cultura da UFES no período de 1992 a 1995 e responsável pela coordenação de cursos em nível de Especialização e Pós-Graduação. Pertence ao Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo e à Academia Espírito-santense de Letras, da qual foi presidente em três mandatos.</p></blockquote>
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		<title>Antes porém</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 21:17:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
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		<category><![CDATA[Reinaldo Santos Neves]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>ANTES PORÉM Reinaldo Santos Neves Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo/Ufes A princípio, cidadão romano era aquele que nascia em Roma e fim de papo. Lá uma vez que outra, algum corpo estranho era contemplado com o título e equiparado à tribo de eleitos. Foi o caso, sei lá por quê, [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
ANTES PORÉM</p>
<p>Reinaldo Santos Neves<br />
Núcleo de Estudos e Pesquisas da<br />
Literatura do Espírito Santo/Ufes</p>
<p>
A princípio, cidadão romano era aquele que nascia em Roma e fim de papo. Lá uma vez que outra, algum corpo estranho era contemplado com o título e equiparado à tribo de eleitos. Foi o caso, sei lá por quê, de um certo Paulo de Tarso, que passaria depois à História como São Paulo. Graças a isso, quando condenado à morte por escandalosas práticas subversivas, teve o privilégio de ser decentemente executado por decapitação, enquanto um tal de Simão Pedro (conhecido, mais tarde, como São Pedro) foi, pelo crime mesmíssimo, pregado numa cruz como mero judeu que era e nada mais.</p>
<p>Mas como o mundo dá muitas voltas, dia chegou em que, por motivos políticos ou quaisquer que fossem, estenderam-se título e direitos a todos os cidadãos do império vasto império. O que se viu então foi cidadão romano de tudo que é tipo, cultura, e cabelo, grande parte sem saber de latim uma só palavra basta.</p>
<p>Mutatis mais ou menos mutandis, é o que ocorre nos dias de hoje em dia no império romano da literatura — mais especialmente no da poesia. Qualquer gato pingado por aí pode ser cidadão desse império. Basta querer. Basta achar que é. Afinal, cada vate capenga (como diria o outro) hoje é seu próprio e principal crítico. Seu próprio e principal avalista.</p>
<p>Restrições, requisitos, peias — nada disso há mais. Rima e métrica, por exemplo, que só serviam para atrapalhar a vida dos poetas por natureza, há muito que foram para o vinagre. Não foi o bastante. Avançou-se mais nas conquistas. Já não é preciso nem, como até pouco tempo atrás, mesmo conhecer com profundidade a língua materna para subvertê-la. Pra que perder tempo? Língua é moeda corrente — todo mundo usa. Vamos logo ao que interessa, que poesia tem pressa — que nem diarréia.</p>
<p>E o conceito de qualidade literária? Já foi também pelo ralo, e já foi tarde. Quantos milhares de poetas inspirados, engajados, verdadeiros mártires da poesia-sem-grilhões, padeceram horrores, nas penas sádicas de críticos pervertidos, por conta dessa abstração, dessa falácia que é o conceito de qualidade literária? Que que é isso, afinal? Puro casuísmo literário engendrado pela classe dominante para condenar à vala comum verdadeiros gênios da poesia.</p>
<p>E agora? &#8220;Agora tudo é novo e ao longe nos conduz&#8221;, pra citar Fernão Ferreiro. Com a derrocada da qualidade literária, estamos em outra. Nada é bom, nada é ruim: tudo é poesia. Instaurou-se uma nova ordem, que veio para ficar, como a cocaína e o terrorismo: a valetudização da poesia.</p>
<p>Ocorre, no entanto, que até mesmo o que poderia ser visto como a negação da arte poética e o início do seu processo de extinção abre um largo horizonte para uma poesia vital e vitalícia. Mesmo abolidos rima, métrica, discurso articulado, forma fixa e até ritmo, mesmo mantendo-se como única norma o massacre das normas, mesmo levando-se a esculhambação do texto até às penúltimas conseqüências, tal é a capacidade de criação poética do ser humano que, ainda assim, a um passo ou dois do alerta vermelho, há quem produza poemas de se tirar o chapéu por sua evidente elaboração de linguagem (ou antilinguagem) e pela capacidade de renovação, por exemplo, imagética. O vale-tudo vale a pena, se a alma não é pequena.</p>
<p>É o que me parece ser o caso de Sérgio Blank: um caso de alma grande.</p>
<p>Pra começar, a relação de Blank com a poesia é umbilical. Ou, se essa metáfora é chinfrim, tentemos outra: Blank se agarrou à poesia como tábua de salvação do quotidiano naufrágio que é a vida humana. Blank fez e faz poesia como alternativa contra ir a pique.</p>
<p>A rigor, pelos padrões acadêmico-letristas tradicionais, nem estaria ele devidamente credenciado ao exercício da profissão. Não teria direito à carteirinha de sócio-proprietário do Clube da Poesia. O ninho em que nasceu e se criou não lhe legou o interesse pela poesia. Para sua família — toda ela, com muita honra, descendente de imigrantes —, poesia não é coisa que se plante, que se colha, que encha barriga de ninguém. No ambiente doméstico, Blank equivale a um mutante cultural. É um dissidente, como o filhote de Buddenbrook que ignora a tradição burguesa dos ancestrais hanseáticos para se dedicar de corpo e alma a algo tão sem importância como a música.</p>
<p>Seus (de Blank) estudos formais foram, como sóem ser os estudos oferecidos de uns tempos para cá pela escola brasileira, precários — do tipo pegar ou largar. Não teve, tampouco, um puto que lhe orientasse as leituras, que foram aquelas que ele próprio se prescreveu, quase a esmo, dentre os livros em que foi possível deitar olho e mão, sobretudo na condição de rato — rato de bibliotecas.</p>
<p>Em contraposição a essas aparentes desvantagens, porém, Blank tinha os olhos sempre abertos para o mundo em algaravia à sua volta — algaravia que é o tema central de sua poesia —, a comichão do poema em suas mãos e uma sensibilidade que vale por um sétimo sentido.</p>
<p>De onde lhe terá vindo isso? Sabe Deus. Dons como esse caem do céu e batem no coco de um cristão e — plonk! — vai ser gauche na vida, Sérgio.</p>
<p>Fez-se poeta sozinho; por seu próprio esforço; quebrando a cabeça e a cara. Contra todas as probabilidades, inventou-se orfeu. Está aí, poeta feito: self-feito.</p>
<p>A leitura de um poema de Sérgio Blank sempre me deixa uma impressão específica acima de tudo: a de que se trata de um poeta obcecado pela palavra. Ora, direis, não o são todos os poetas de boa vontade? Não nesse nível de furor, de preocupação, de mania: Sérgio Blank é um logomaníaco.</p>
<p>Qualquer poema de Sérgio Blank é um <i>thesaurus </i>léxico. Salta aos olhos a sua opulência vocabular, em contraposição a uma indigência sintática que chega, às vezes, via indiferença do autor, às raias do telegráfico, e até do inarticulado.</p>
<p>O poeta vota à sintaxe, talvez, mais do que uma indiferença: vota-lhe um preconceito. Trata a sintaxe, na melhor das hipóteses, como um mal necessário, um líquido amniótico em que as palavras respiram e vivem. Por isso reduz a sintaxe à expressão mais simples — um fiozinho condutor. A pontuação — esse feijão-com-arroz de qualquer texto — é quase totalmente abolida. Sobra uma vírgula aqui, outra ali — pudera não, num livro com o nome que tem — e travessões pra diabo, num emprego quase desvairado, o que contribui não exatamente pra prejudicar mas pra multiplicar as possibilidades de leitura do texto. Ponto — como também esse hibridismo que é o ponto-e-vírgula — é sinal que sofre uma segregação tenaz: aqui não entra. Os versos de Sérgio Blank, assim, não começam onde começam nem terminam onde terminam.</p>
<p>É tudo flutuante. Tudo sargaço. E nesse mar de sargaços o leitor que navegue como puder. Se vire. Pois se pra bom entendedor meia palavra basta, o que se pode pretender mais? Palavra é o que não falta nos textos de Sérgio Blank.</p>
<p>Sim # 1. Ouso dizer que um poema de Sérgio Blank é uma colcha de retalhos, em que cada retalho — cada palavra — vale tanto, ou mais, que a colcha como um todo; o que autoriza imediatamente, é claro, a chamar essa poesia de gestáltica.</p>
<p>Sim # 2. Com relação ao vasto corpus vocabular da obra de Sérgio Blank, a impressão que me dá é que este poeta se avocou a missão de reescrever o dicionário à guisa de poesia. Repare bem que as palavras-chave dificilmente se repetem de um poema pra outro: só servem, como chaves que se prezam, pra abrir — ou fechar — a porta daquele poema.</p>
<p>Sim # 3. É quase como se só pudessem ser usadas ali e então, e em nenhum outro lugar ou tempo. Seu destino — está escrito — é aquele. Daí o cuidado na escolha da palavra e do contexto. É ali ou nunca.</p>
<p>E por falar em contexto, não há, nos poemas de Sérgio Blank, nada aleatório nem inconseqüente. Esse poeta não faz poema pelo processo de shuffle. Há sempre uma irmandade entre as palavras, revelada pela livre-mas-nem-tanto associação, pela etimologia, pela aliteração.</p>
<p>Este é um livro pequeno. A rigor, pela convenção da Unesco, nem teria Sérgio direito a chamar este livro de livro porque não atende à exigência numerológica das famosas favas contadas: 49 páginas. Mas, pra quem não dá a mínima pra esse tipo de regra, até um só zinho poema de Sérgio Blank, desde que devidamente impresso em separado, pode ser visualizado e recebido como livro, assim como — segundo autoridades mais antigas e abalizadas que a Unesco — pingo também pode ser letra.</p>
<p>Importa é a importância do trabalho. A seriedade com que Sérgio Blank o desenvolve — seriedade que o leva exatamente a publicar um livro com apenas 48 páginas e não 49 nem 1.049, como fazem outros poetas menos talentosos e menos respeitadores do saco alheio. Importa, ainda, a opulência vocabular de cada texto. O inimitável sérgioblankismo do verso. Isso. Esteja certa, leitora, certo, leitor, que poema de Sérgio Blank é coisa tão inconfundível quanto — se me permitem a símile jazzística — o piano de Thelonious Monk ou o clarinete de Pee Wee Russell. Tem a impressão indelével de sua digitália. Tem o selo de suas idéias em ziguezague (pra usar a expressão de Mendes Fradique). Tem o cheiro e a mancha de seu suor. É uma espécie de sudário em que transparece, em marca d&#8217;água, o rosto do poeta com seus louros de solidão e azia.</p>
<p>Que são, aliás, seus temas de estimação. A solidão humana e o aziago desespero por ela gerado, o vazio, a falta de valores, ideais, perspectivas — e de fraternidade. Somos todos filhos de Eva — levamos conosco a marca de Caim. Matamos o outro e, matando o outro, matamo-nos persistentemente a nós mesmos.</p>
<p>A obra de Sérgio Blank, portanto, é uma visão koyaanisqátsica do mundo, um tratado de desesperança em que a poesia é a última que morre.</p>
<p>Curiosamente, a expressão dessa desesperança se faz mais contundente pelo vasto manancial analógico dos poemas. Estes poemas formam um diretório de referências extraídas do imenso legado espiritual do homem — cultural e artístico — desde as cavernas de Altamira até as cavernas de hoje.</p>
<p>Uma pergunta subliminar parece pulsar nas entrelinhas dos poemas: como pode o homem, criador de tanta riqueza espiritual, ser a bosta que é e que tende a ser cada vez mais a cada passo que dê pra amanhã?</p>
<p>Esse é o problema. Sua solução se desdobra numa infinita múltipla escolha, em que nenhuma das respostas está certa, e nenhuma está errada.</p>
<p>Não é à toa que uma das palavras-chave destes poemas seja ponto de interrogação.</p>
<p>Sim # 4. Eliot que me perdoe, mas é assim que há de terminar o mundo: nem num sussurro, nem numa explosão; mas simplesmente num — ? —.</p>
<p>Post Scriptum</p>
<p>Mas é uma poesia difícil, esta de Sérgio Blank — alguns direis. Difícil? Como não e por que não? Todo discurso é, por natureza, enigma. Toda comunicação, fadada ao desconcerto. Eu digo alô, você entende adeus. Ele escreve te amo, ela lê me dá. Clamamos inocência; somos condenados.</p>
<p>E a poesia então — a poesia, cuja missão é fazer-se difícil or die, fazer-se charada ou nada — e a poesia então? A poesia existe pra ser decifrada. E decifrada, sim, não pela cartilha do autor, que, mero criador que é, nem conta muito, mas pela cartilha do leitor, que é recriador, e é legião. Que, porque lê, porque se dá o trabalho e o prazer de ler o poema, tem legitimada a sua leitura, a sua interpretação, que, por mais imbecil, nunca será imbecil, mas uma visão a mais, uma versão a mais, dentre tantas ad infinitum possíveis.</p>
<p>E digo mais: nem creio, aliás, que a poesia deva necessariamente ser decifrada pelo modus faciendi acadêmico, lógico, formal, na base do isto é, do ergo, do como dizia Paracelso. Pode-se ler um poema como quem bebe absinto; como quem ouve Pee Wee Russell supramencionado; como quem dedilha os amados cabelos da Outra Pessoa; como quem aspira, lá em cima daquele morro, o aroma de um pé de manacá. Sensoriamente, enfim; e não censoriamente, não.</p>
<p>Taí. Simples. Poesia é comestível, digerível e biodegradável. Elevemos o nível. Poesia é hóstia. Tomai e comei, tomai e bebei, este é o corpo e o sangue — e outras coisas mais — do poeta Sérgio Blank. Lede com fé. Estareis salvos, ainda que por um segundo diminuto, da mesmice que assola Europa, França e Vitória.</p>
<p>[In <i>Vírgula</i>, Cultural-ES, Vitória, 1996.]</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
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</div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Reinaldo Santos Neves</b>&nbsp;é escritor com vários livros publicados e foi responsável pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas da Literatura do Espírito Santo, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Espírito Santo. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/reinaldo-santos-neves-bio-bibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)&nbsp;</p></blockquote>
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		<title>Orelha do livro Vírgula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 20:49:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Roberto Sodré]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>ORELHA DO LIVRO VÍRGULA Paulo Roberto Sodré Ao rol dos glosadores da ausência, dos de Safo, deitada sob as plêiades, Sérgio Blank se junta, dono de seus versos, senhor da persona lírica que vivencia, escruta e define a solidão, &#8220;sentença com sete letras e um til&#8221;, o tema-rei que impetra para si os acordes dos [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
ORELHA DO LIVRO VÍRGULA</p>
<p>Paulo Roberto Sodré</p>
<p>
Ao rol dos glosadores da ausência, dos de Safo, deitada sob as plêiades, Sérgio Blank se junta, dono de seus versos, senhor da persona lírica que vivencia, escruta e define a solidão, &#8220;sentença com sete letras e um til&#8221;, o tema-rei que impetra para si os acordes dos dezesseis poemas que se apresentam neste livro, <i>Vírgula</i>.</p>
<p>Fruir da poesia de Blank — Estilo de ser assim, tampouco, de 1984; <i>Pus</i>, de 1987; <i>Um</i>, de 1988; e <i>A tabela periódica</i>, de 1993 — requer lições de sobreaviso: ouvido para seus traços imagísticos e ritmos livres; ouvido para os trocadilhos; ouvido para as ironias e alusões; coração sagaz para compreender as vírgulas da emoção assentada entre a eficácia dos versos e o desespero de uma mundividência encurralada pela falta, no caso desses poemas, do dedo de Eros.</p>
<p>As dezesseis estrofes únicas, que compõem cada poema, sovam o tema do indivíduo travado pela agonia de ser só: &#8220;a solidão é meu título/ o que eu faço?&#8221; Diante disso, o poeta vocifera, mas delicada e ironicamente, sua &#8220;sentença&#8221;. Remexida, revirada, espremida, a palavra solidão é a senha com que o poeta tenta atravessar o inferno da condição humana: a catarse aguarda o leitor em cada ponto (implícito) do último verso.</p>
<p>Nessa famigerada demanda de sublinhar a ausência, Blank firma a sua maneira de escrever, aduzindo uma estrutura poética que, sem dificuldades, se reconhece como blankiana.</p>
<p>Tal maneira se efetiva, sobretudo, por meio das palavras retiradas da poeira dos dicionários e da estranheza das falas esquecidas: &#8220;no fim blefe — noite — vou e avisto em bolandas rir o roto do esfarrapado / de rojo e roldões sigo e penso que não quero mais o amor bleso / o meu quinhão nesta vida beirã&#8221;. A essas palavras e expressões desacostumadas do ouvido, juntem-se os estrangeirismos, as frases re-feitas (&#8220;a traça do ofício do osso faz a festa&#8221;), as aliterações e assonâncias (&#8220;luto com lustre lupa lume luvas / luto sem velas vestes véus vultos&#8221;), os versos-apostos (você &#8220;pedrada no fim falso e fosco brilhante / paralelepípedo ignaro e ignavo&#8221;) e a, parece, inevitável intertextualização. Esses recursos da arquitetura poética de Sérgio Blank, pinçados aqui e ali apenas para uma breve noção, fundamentam seu texto musical, espesso no arranjo de idéias, texturizado no achado das palavras.</p>
<p>Com esse repertório estilístico, o poeta de <i>Vírgula</i> afasta de seu cancioneiro solitário a amargura óbvia e o estado meramente depressivo. Seus poemas se erguem num discurso que concilia a dor experienciada e a experiência da montagem de seus versos. A voz que se revela, lobo da estepe ou fantasma da ópera, ressoa tristeza e canto, abarcando os olhos, o afeto e os passos desacompanhados comuns aos urbanóides atarantados entre a azáfama do dia e as esquinas ilhadas da noite.</p>
<p>Blank apresenta <i>Vírgula</i>. Safo não está só.</p>
<p>
[Cultural-ES, Vitória, 1996.]</p>
<p>
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><br /></b><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Paulo Roberto Sodré</b>, nascido em Vitória em 1962, é poeta, escritor, pesquisador e professor universitário de Literatura na Ufes, com vários livros e artigos publicados. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/paulo-roberto-sodre-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener"><b>clique aqui</b></a>.)</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>Memorabilia</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/memorabilia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 20:42:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Blank]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ao ler O meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, que peguei emprestado na biblioteca da escola, a minha idade oscilava entre um picolé de jaboticaba e um filme de Mazzaropi na sessão da tarde na tv, não tenho certeza. Nunca tive certezas, por sinal. Ao ler o livro citado me dediquei [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Ao ler <i>O meu pé de laranja lima</i>, de José Mauro de Vasconcelos, que peguei emprestado na biblioteca da escola, a minha idade oscilava entre um picolé de jaboticaba e um filme de Mazzaropi na sessão da tarde na tv, não tenho certeza. Nunca tive certezas, por sinal. Ao ler o livro citado me dediquei ao meu primeiro amor platônico — um pé de goiaba de porte médio, inquilino no quintal da casa. Goiabas vermelhas, e não brancas ou araçás.</p>
<p>Nos galhos da árvore, lia, devorava, amava as estórias do <i>Sítio do Picapau Amarelo</i>. Monteiro Lobato me sentenciou a pena, prisão, cruz e delícia, vida afora: o mundo da literatura. País, município, bairro, rua onde ainda moro. Na tarde em que caí do &#8220;Meu pé de goiabas vermelhas&#8221;, quebrei, quebranto, o braço direito — o mesmo que equilibrava <i>A chave do tamanho</i>. Junto ao gesso no punho, ficou na pele talvez a minha única certeza: os livros, a poesia.</p>
<p>Sempre fui na escola o moleque magrelo, tímido, alemão-da-água-doce-deu-um-pum-e-se-borrou-se, que tinha medo da mulher-de-algodão que morava no banheiro. E se refugiava na biblioteca, fuçando as lombadas à procura de títulos e sonhos. Em uma dessas buscas, li e suspirei: <i>Perto do coração selvagem</i> — Clarice Lispector!</p>
<p>Levei pra casa e: páginas lidas noite adentro. Entendia, não entendia, entendia, não entendia, malmequer, bem-me-quer. O bem-me-quer venceu. A epígrafe do livro de Clarice Lispector retirada de <i>Retrato do artista quando jovem</i>, de James Joyce, virou meu epitáfio: &#8220;Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida.&#8221; A minha criança acabara de ser sepultada sob a goiabeira.</p>
<p>Clarice Lispector me levou a James Joyce, Joyce a Virginia Woolf, as estantes da biblioteca escolar eram muito desarrumadas, e eu, desorientado, cheguei ao <i>Crime e castigo</i> de Dostoievski, passando pelo Rio de Janeiro de Machado de Assis, a França de Flaubert e Stendhal, ao sul de Érico Veríssimo, voltando à misteriosa Clarice.</p>
<p>E Cecília Meireles?</p>
<p>Os trocados para a merenda não saíram do bolso da calça de tergal que compunha o horrível uniforme colegial, durante semanas. Foram vários picolés, fantas uvas, pão com salame, economizados.</p>
<p>E Cecília Meireles com isto ou aquilo?</p>
<p>Entrei, depois de muitos olhares enamorados, em uma livraria, suando, comprei meu primeiro livro: <i>Mar absoluto, Vaga música</i>. Dois títulos em um só. O livro de Cecília só sobreviveu, por alguns anos, devido à providência de uma de minhas irmãs ao encadernar a capa com papel aveludado cor vinho. Meus dedos quase que eram páginas diárias das poesias de Cecília. Cecília Meireles me apresentou cordialmente a Emily Dickinson. A partir daí fui colecionando estes amigos, estas amigas, esses ou estes, onde ou aonde, nunca vou saber, não acumulo certezas (como afirmei no início).</p>
<p>Não sei das minhas influências. Quando li os poemas do americano E. E. Cummings quase desisti. Alguém já fazia, há muito, com perfeição o que eu pretensiosamente, adolescente, intencionava.</p>
<p>Prefiro parar por aqui com estas confidências literárias, que começam a doer. Antes de recolher-me à minha insignificância, peço permissão, peço perdão a você, para, cabotino, citar trecho de um poema meu. Acredito que vá complementar este pequeno e incompleto relato de livros, de literatura, de vida, vida &#8220;que lateja como meu coração craquelê / a suavidade que me resta se faz estilizada / é a parte da memorabilia do meu coração resguardado&#8221;.</p>
<p>[In revista <i>Você</i>, UFES/SPDC]</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><br /></b><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Sérgio [Luiz] Blank</b>&nbsp;é poeta natural de Vitória, ES, e nasceu em 1964. Publicou diversos livros de poesia, alguns reeditados recentemente.&nbsp;(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/sergio-luiz-blank-nasceu-em-vitoria-es/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>Poemas do livro Vírgula</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 20:41:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>APÓSTROFO SEGUIDO DE S a minha letra — risco em silêncio não é a de enxofre nem consoante fricativa alveolar surda não é santa ou santo ou são-salavá a décima-oitava letra do alfabeto a minha inicial — cronograma em sangue dois segundos de poema espírito escrito na cidade que neon algum ilumina — ofusca em [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
APÓSTROFO SEGUIDO DE S</p>
<p>
a minha letra — risco em silêncio<br />
não é a de enxofre<br />
nem consoante fricativa alveolar surda<br />
não é santa ou santo ou são-salavá<br />
a décima-oitava letra do alfabeto<br />
a minha inicial — cronograma em sangue<br />
dois segundos de poema<br />
espírito escrito na cidade<br />
que neon algum ilumina — ofusca em sono<br />
a letra muda desta planta genealógica: cáspite<br />
o esse — cascavel em catacrese<br />
o nome em que me inscrevo no juízo de salomão<br />
minha voz rubricada nestes versos — quatorze no todo</p>
<p>ANGUSTIPENE</p>
<p>
à outrance percorro bueiros com bornal vazio<br />
sem frege e aos baldões remo contra o mar destro<br />
vejo o fiapo de lua-boca-e-meia que graceja junto à noite<br />
no fim de blefe — noite — vou e avisto em bolandas rir o roto do esfarrapado<br />
de rojo e roldões sigo e penso que não quero mais o amor bleso<br />
o meu quinhão nesta vida beirã<br />
o dia cáften chega para que eu — Aoristo — aquele que escreve versos no tempo<br />
adormeça e arraste minha sombra bêbeda como um cacho<br />
sob as nuvens cor de cravo na manhã de estopa e cinzas<br />
e a trégua temporã do sono me abasteça de versos banais<br />
mas antes da bonança uma cãibra no órgão-codiforme<br />
indica você — sopro de temporais<br />
você e seu voo estreito que me tranca em nova arapuca<br />
e eu comum-de-dois me deixo no dia-iscariotes ficar e consentir<br />
com o pouso estreito no meu coeur traste galho seco — uva em caixa<br />
eu cisco e caça fico no beiral com aplausos ao seu voo — béguin<br />
pardal no fio — entre postes — que conduz luz<br />
fecha-se em copas nos quintais a serem varridos<br />
solta uma onomatopéia inconveniente em poemas e vai e voa<br />
a todos tombos escolho entre um blues de clapton ao trecho de chopin<br />
indicas a ausência de regras da debandada e — par de asas — passas<br />
passas e eu no dia — blefe e chuva — cato poemas e perdões<br />
e sei que este jogo não é rúgbi e sim passion — i. e. — o famoso love donaire<br />
na volta a casa sequer encontrei atalanta a colher maçãs d&#8217;ouro pelo caminho</p>
<p>INTEMPÉRIE</p>
<p>
corre à boca pequena certo boato<br />
um zunzunzum um sopro um vento<br />
que escondo um sentimento canhoto — natimorto<br />
diz que estou às boas com mais uma paixão carcomida<br />
e este sentimento cheio de nós pelas costas<br />
escondo no silêncio escandaloso — pote de poemas<br />
e que a finada razão ria às minhas custas<br />
como resposta abotôo meu sobretudo<br />
e me encosto num dos oitões da casa<br />
endereço do frio porta sem número — nevermore<br />
boulevard com casuarinas que choram ao vento à sobreposse<br />
contra a minha vontade a ventania põe ciscos<br />
nos olhos que fitam os umbrais de edgar allan poe</p>
<p>RISQUE O MEU NOME DO MAPA</p>
<div style="text-align: right;">
<span style="font-size: x-small;">&#8230;entre a dor e o nada, eu escolho a dor.</span></div>
<div style="text-align: right;">
<span style="font-size: x-small;">[William Faulkner]</span></div>
<p>
uma cidade com morros e telhados de eternit<br />
longe do mar e próxima às montanhas<br />
claro que não falo do Condado de Yoknapatawpha<br />
a cidade que me fez e se acha no direito de ter meus pés<br />
mais de duas dúzias de ruas me oferece a cada manhã<br />
e eu — négligé — abdico com uma mesura<br />
ter-se-ia dito que o book do destino<br />
quis e escreveu assim — o deus deles não é poeta<br />
eles que preenchem os cômodos de telhas cobertas de chuva<br />
recuso medir as esquinas ao sol<br />
só quando a noite cai ao tropeçar nos degraus de minha casa<br />
aí sim — mapeio minha condição por calçadas de pedras portuguesas<br />
a condição humana — solidão<br />
isto já foi dito em outros versos<br />
talvez melhores que estes um tanto quanto discursivos<br />
mas — me permitam — passam a ser uma metábole<br />
uma cidade distante do mar — idem<br />
e eu dentro mas longe da cidade — ibidem<br />
redundância escrita a lápis tem os seus conformes<br />
e minhas circunstâncias permitem de tudo um pouco<br />
até neres de pitibiriba e neca<br />
a cidade insiste com seus morros à parte<br />
eu visto um fato e busco o sereno</p>
<p>O MAR NA PONTE QUE ESTALA ÀS ESCONDIDAS</p>
<p>
sonhei que um barco<br />
um Drakkar com vários Vikings<br />
passeava sob as cinco-pontes<br />
mas agora — desperto — vejo um guindaste que pesca containers<br />
o que há nos containers que caem no cais?<br />
uma esperança a mais ou a menos<br />
dúzias de marinheiros ou peixes de bom tamanho<br />
um certo estrangeiro com boas falas e outra língua<br />
ou seriam feixes mais feixes de pontos de interrogação<br />
da ponte que são cinco avisto a cidade de bruços<br />
na noite que me resta e basta<br />
eu luthier para novos instrumentos-acordes e rumos<br />
admiro a cidade — ilha sem Crusoé<br />
porto de dreams e minhas âncoras</p>
<p>[Vitória: Cultural-ES, 1996.]</p>
<p>
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><br /></b><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Sérgio [Luiz] Blank</b>&nbsp;é poeta natural de Vitória, ES, e nasceu em 1964. Publicou diversos livros de poesia, alguns reeditados recentemente.&nbsp;(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/sergio-luiz-blank-nasceu-em-vitoria-es/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>Poemas do livro A tabela periódica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 20:31:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Blank]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O LOBO DA ESPÉCIE potentado ostentar estandarte nunca dantes adotado toda bandeira toda eu poderia e posso soletrar NO FUTURE no ouvido sua orelha para brincos a química não permite a do amor a das paixões dos olhos seus tristes afetos das pausas suas olheiras lobos na voz alquimista que soa poção definitiva nessa ciência [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
O LOBO DA ESPÉCIE</p>
<p>
potentado<br />
ostentar estandarte nunca dantes adotado<br />
toda bandeira toda<br />
eu poderia e posso<br />
soletrar NO FUTURE<br />
no ouvido sua orelha para brincos<br />
a química não permite<br />
a do amor<br />
a das paixões<br />
dos olhos seus tristes afetos<br />
das pausas suas olheiras<br />
lobos na voz alquimista que soa<br />
poção definitiva nessa ciência<br />
a química acridoce e suave lã<br />
a fórmula dos nêutrons das esferas<br />
feridas da caça sem laço<br />
eu poderia e posso<br />
subir ao penhasco de nossos íons e prótons<br />
e lá deixar cair o arco e a flecha<br />
o corno culpado aro corneta do cupido<br />
não mas não e não &amp; sim eu uivo e uivo<br />
pontífice parco e pardo eminência e iminência<br />
alheio ao aço nos olhos da alcateia</p>
<p>O KNOW-HOW DO KITSCH</p>
<div>
</div>
<p>
os olhos que me restam<br />
tatalam na masmorra em signo de ostra<br />
o trampolim para o fim o in o sim<br />
se um deus quiser ou não<br />
eu não tenho não<br />
não é de bom tom<br />
isto não é bossa-nova e nada natural<br />
o natural não amadureceu mas já apodrece<br />
como as cáries sem colgate nos dentes<br />
a natureza fica na bandeja de alumínio<br />
gourmet vegetativo e suburbano de restaurantes<br />
eu não tenho marketing nem merchandising<br />
uni-duni-dê salamê mingüê<br />
as crianças brincam de passar anel<br />
pêra uva ou maçã?<br />
não se vê a cor do fruto desse dia<br />
ele não sobreviverá<br />
mas quem há de?<br />
aos olhos que tatalam</p>
<p>POR MINHA SINA</p>
<p></p>
<div style="text-align: right;">
aos meus dias</div>
<p>(prefácio)</p>
<p>yin: — Chegue mais para o canto, você está com a perna sobre mim.<br />
yang: — Só se você parar de puxar o cobertor para o seu lado.<br />
yin: — Vou dormir na poltrona da sala.</p>
<p>
(capítulo um e único)</p>
<p>é constrangedora a insônia<br />
que me abate nas altas horas<br />
a catalepsia sem covas nem mármores<br />
a eutanásia que faço dos meus sonhos<br />
é constante o contraste da noite<br />
com o sono e os soníferos farmacêuticos<br />
é constrangedora a insônia<br />
aos meus travesseiros e lençóis<br />
que ficam solitários me aguardando<br />
como amantes platônicos<br />
só a eles e a mais ninguém<br />
posso somar vodkas vinhos ruas festas<br />
pausas pragas brigas bares x y z<br />
poço em que afundo as baixas horas<br />
afogo o tempo lento e largo<br />
não adiantaria nada e a nenhum<br />
subtrair dividir multiplicar fugas<br />
a tabuada só leva a um comum<br />
a prova dos noves não é agora a alegria<br />
e sim o sal que se seca no rosto<br />
após o escorrer de lágrimas e ao sair do sol<br />
a falta de açúcar e tempero<br />
nesta vida inválida vigarista sem graça<br />
um vazio no estômago e uma nau na garganta<br />
o navio a nave o novelo de constrangimento e solicitude</p>
<p>
(posfácio)</p>
<p>eros: — &#8230;passe o bule de chá, por favor.<br />
psiquê: — Quer mais um pouco de geleia?<br />
eros: — Não, obrigado.</p>
<p><i>a pena ao lado do tinteiro em cima</i><br />
<i>de um móvel de cerejeira em verniz</i></p>
<p>a solidão esferográfica<br />
aquela que a gente sente<br />
frente a um verso<br />
na hora em que o poema insiste e se impõe<br />
a gente não&#8230; eu<br />
se sente frente a um papel<br />
se sente em qualquer sentido<br />
em todo e algum trono<br />
ou cadeira de balanço<br />
na varanda ou no foyer<br />
de um espetáculo enfim<br />
qualquer um sim senhor<br />
a solidão junto à tinta/à borracha/ao lápis<br />
qualquer papel ou fibra ou pergaminho<br />
pano também serve<br />
a preencher esse céu o meu sem estrelas e de nuvens acinzentadas<br />
há pena<br />
caneta sem tampa e estojo<br />
entre dois dedos<br />
citando e a fitar um fato<br />
a solidão esferográfica<br />
redonda qual a terra vista em satélite<br />
redondamente enganada</p>
<p>ARTIGO DEFINIDO MASCULINO SINGULAR</p>
<p>
o coração metropolitano<br />
catedral de vitrais quebradiços<br />
e mosaicos de cacos assassinados<br />
o amor cosmopolita<br />
onde polaroid fica sendo grafite<br />
metal ou gesso ou giz ou óleo<br />
sente-se a falta de uma moldura<br />
no atelier no vernissage na vitrine<br />
diz-se assim então que é o menosprezo<br />
acompanhado de um asterisco<br />
amor em metrópole mas sem neon<br />
no país de tic-tacs e fisgadas cardíacas<br />
diz-se assim por conseguinte da paixão<br />
onde estetoscópios avaliam os blues<br />
as badaladas os tum-tum-tuns as canções aceleradas<br />
em instantes de suspiros e baladas de amor<br />
amor com coração metropolitano e cosmopolita<br />
bairrista e saneado e asfaltado<br />
conseqüentemente platônico e sem semáforo<br />
no globo que gira indiferente às espécies</p>
<p>
[Vitória: SPDC/Ufes, 1993.]</p>
<p>
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><br /></b><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Sérgio [Luiz] Blank</b>&nbsp;é poeta natural de Vitória, ES, e nasceu em 1964. Publicou diversos livros de poesia, alguns reeditados recentemente.&nbsp;(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/sergio-luiz-blank-nasceu-em-vitoria-es/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<item>
		<title>Poemas do livro Um</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/poemas-do-livro-um/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Mar 2001 20:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Blank]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>EPITÁFIO DARK N° 1 Existem coisas conhecidas e coisas desconhecidas, entre elas estão as portas. [Jim Morrison, The Doors] Se as portas da percepção fossem abertas, tudo pareceria aos homens como realmente é, infinito. [William Blake] me sinto fora de foco in loco foto pose finale no hotel del leito louco outra lacraia sem apoio [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
EPITÁFIO DARK N° 1</p>
<div align="right">
<table style="font-size: 80%; width: 40%;">
<tbody>
<tr>
<td><i>Existem coisas conhecidas e coisas<br />
desconhecidas, entre elas estão as portas.</i><br />
[Jim Morrison, The Doors]</p>
<p><i>Se as portas da percepção fossem abertas,<br />
tudo pareceria aos homens como realmente é,<br />
infinito. </i>[William Blake]</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
me sinto<br />
fora de foco<br />
in loco<br />
foto pose finale<br />
no hotel del leito louco<br />
outra lacraia sem apoio<br />
mas me sinto<br />
o sentido nato de escroto<br />
leite de porco &amp; corvo<br />
aborto nesta ilustração de tinteiro absorto<br />
absurdo espanto &amp; destôo<br />
gota e gota</p>
<p>ÉTER E FEBRE</p>
<p>
bem devagar<br />
devagar com a dor<br />
que o santo é de barro e oco<br />
e deus não soprou o eco<br />
não se arvore<br />
os galhos genealógicos não se quebram<br />
pois raiz não passa por hera de ira<br />
de leve o arfar divino na nuca<br />
a notícia da morte nas folhas<br />
que o vento manso espalha<br />
espalha&#8230;</p>
<p>BARROCO NO BAR</p>
<p>
sentado a bordo desta basílica alcoólica<br />
faço baralho com todos à vista<br />
ás a rei ao boreal ou ao sul<br />
bebo a todos sem as hierarquias<br />
se sou barão e ele é mais pois é visconde<br />
ou o tal ali possa ser arquiduque<br />
vão todos à merda e duque foi nome de cachorro<br />
barbitúrico à mão de cor tão bordô<br />
faça-me instrumento de sua paz<br />
que a noite é feto e esperança é a última que falece</p>
<p>BEGE &amp; CINZA UM FILME EM PRETO E BRANCO</p>
<p>
a câmara se distancia<br />
e o fim próximo toma toda a tela<br />
o cinema imita e delimita a platéia<br />
o mito pleiteia um colóquio harmonioso<br />
entre o real fato com o ilusório fruto<br />
este que apodrece com a emoção<br />
esta foto fatídica que é o acender de luzes<br />
a fadiga de saber o que é óbvio espera-nos à rua<br />
o enredo fraco desta tragédia dia e noite e dia<br />
de trajes incolores e gastos<br />
os gritos após cada olhar nunca correspondido<br />
a cruz: arrotar rotina<br />
o corpo do espírito do porco<br />
o porco espinho desta alma<br />
o pouco<br />
o prego<br />
na marra fura a goela e o hurt<br />
estrangeiro de dialetos irreconhecíveis</p>
<p>INVICTO IN VICTORIA</p>
<p>
in articule mortis/in anima vili<br />
soube do tema num só tomo<br />
uma espécie de sutra ou bestiário<br />
volume um e único e último:<br />
o amar entre/em branco &amp; preto.<br />
fórmula de como sair inane<br />
réu conscrito da persuasão dia/a/dia<br />
convicto ao capítulo &#8220;Discordâncias&#8221;<br />
ódio-paixão/noite-day/solidão-par<br />
doses de duas vezes entre seis horas ao dia<br />
orar frente ao poente de costas à ponte:<br />
&#8220;um clic de cloro ao clero<br />
as piscinas em close para os altos<br />
as hóstias e o hostil craque no campo<br />
cópula da cúpula que reza o riso em palmas<br />
copas com troféus ou sacras esculturas<br />
o declínio do clorofórmio transferido a cultos eruditos&#8221;<br />
funciona sem alhos nem trailers com mostarda e bacon<br />
facilita este cântico de um refrão<br />
in anima vili/in articule mortis</p>
<p>[In <i>Um</i>, Vitória: Cultural-ES, 1988.]</p>
<p><b>&#8212;&#8212;&#8212;</b><br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
<b>&#8212;&#8212;&#8212;</b></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Sérgio [Luiz] Blank</b>&nbsp;é poeta natural de Vitória, ES, e nasceu em 1964. Publicou diversos livros de poesia, alguns reeditados recentemente.&nbsp;(Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/sergio-luiz-blank-nasceu-em-vitoria-es/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
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