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	<title>Arquivos D. Pedro Maria de Lacerda &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
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	<title>Arquivos D. Pedro Maria de Lacerda &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 May 2016 18:11:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[D. Pedro Maria de Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Viajantes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Introdução Os Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 ao Espírito Santo, de autoria do bispo D. Pedro Maria de Lacerda, aqui transcritos e ora publicados, originam-se de fontes manuscritas que fazem parte do acervo do Centro de Documentação e Informação da Arquidiocese de Vitória – CEDAVES –, compreendendo três cadernos ou volumes: o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://3.bp.blogspot.com/-x27rGk_O3GE/VztUWyGqs2I/AAAAAAAAH64/Fv5JrF9Nf6YL4dW2NCVtBazNxdlYnakmQCLcB/s1600/Capa-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img fetchpriority="high" decoding="async" border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/05/Capa-2.jpg" class="wp-image-5342" width="448" /></a></div>
<p></p>
<h3>
Introdução</h3>
<p>
Os Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 ao Espírito Santo, de autoria do bispo D. Pedro Maria de Lacerda, aqui transcritos e ora publicados, originam-se de fontes manuscritas que fazem parte do acervo do Centro de Documentação e Informação da Arquidiocese de Vitória – CEDAVES –, compreendendo três cadernos ou volumes: o primeiro, que abrange o período de 14 de julho a 11 de novembro de 1880, possui 278 páginas; o segundo, de 14 de fevereiro a 24 de julho de 1886, possui 398 páginas, incluindo versos da capa e contracapa do caderno; e o terceiro e último volume, de 24 de julho de 1886 a 28 de março do ano seguinte, possui 354 páginas, incluídas algumas páginas em branco.</p>
<p>As anotações do primeiro volume dos Diários foram feitas a posteriori, considerando-se as oito páginas de rascunhos encontradas: o bispo encerra o volume em 11 de novembro de 1880, e os rascunhos vão até 24 de março do ano seguinte.</p>
<p>A publicação desse documento representa a continuação de trabalho semelhante feito anteriormente e que deu origem ao livro intitulado O Espírito Santo em princípios do século XIX, baseado nos Apontamentos de outro bispo – D. José Caetano da Silva Coutinho –, que visitou o Espírito Santo em 1812 e 1819, também neste site [<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-espirito-santo-em-principios-do/" target="_blank" rel="noopener">O Espírito Santo em princípios do século XIX: apontamentos feitos pelo bispo do Rio de Janeiro quando de sua visita à capitania do Espírito Santo nos anos de 1812 e 1819</a>,&nbsp;Vitória: Estação Capixaba e Cultural-ES, 2002].</p>
<p>Ambas as narrativas compõem um conjunto de documentos que, além do marcante caráter religioso, contêm rico registro de vida e costumes de época sob pontos de vista de viajantes, mencionando personalidades e retratando o dia a dia das localidades visitadas. Constituem assim importante contribuição para a historiografia na qualidade de fontes primárias de pesquisa.</p>
<p>Em comparação com os apontamentos de D. José Caetano, os escritos do bispo Lacerda destacam-se por maior riqueza de informações e detalhes na descrição de suas impressões sobre locais, habitantes e paisagens com os quais teve contato. Como viajante ele dá notícias sobre os caminhos percorridos, os meios de transporte utilizados, os incômodos encontrados e o tempo despendido nos trajetos, especialmente na visita de 1886.</p>
<p>De maneira geral, os Diários do bispo D. Pedro Maria de Lacerda revelam um homem de curiosidade aguçada, o que o levou a realizar por conta própria várias pequenas incursões com o fito de deleite e para conferir cartografias da época. Além de sua natural curiosidade por tudo e todos que estavam a sua volta, encontramos nele um grande observador, e é a esses traços de sua personalidade que devemos tamanha riqueza de detalhes encontrada em seus relatos.</p>
<p>O bispo D. Pedro dirige um olhar atento aos habitantes locais. Menciona nomes e fala de suas preocupações com cada indivíduo, nunca deixando de assisti-los em suas necessidades, fossem eles livres, escravos ou índios. Aliás, não esconde sua admiração especial pelos índios, deixando claro o respeito que sente por sua cultura pelas exortações à preservação da língua e esforços que fez para aprendê-la, como se vê em várias passagens ao longo do texto.</p>
<p>As paisagens têm nele observador atento. Sempre que seu trabalho permitiu ele reservou momentos para suas caminhadas, galopes ou passeios de barco para explorar as redondezas e ter contato com a natureza, tomando nota de tudo quanto considerasse significativo. Assim descreveu exaustivamente paisagens locais com seus rios, córregos, montanhas e outros acidentes, abundância e beleza de matas, sempre comparando suas observações com mapas produzidos na época e apontando suas imperfeições.</p>
<p>Nosso trabalho de edição dos Diários tem como objetivo precípuo disponibilizar o documento ao público em geral. Acreditamos que a sua transcrição e publicação tanto na forma impressa como virtual democratizará o acesso ao documento, permitindo que pesquisadores como também o público leigo interessado em assuntos relacionados ao Espírito Santo conheçam seu conteúdo. Não foi nossa preocupação semear centenas de notas nos rodapés do livro, razão por que boa parte delas se restringe a complementar nomes próprios de pessoas citadas no texto ou a identificar corretamente as citações latinas do bispo, procedimentos adotados para facilitar consultas na internet. No mais, esperamos que os pesquisadores se sintam estimulados a realizar a necessária análise e produção de estudos a partir destes diários.</p>
<p>Restringimos a transcrição aos três volumes, deixando de fazê-lo em relação aos rascunhos, que aqui reproduzimos apenas na forma fac-similar (Anexo II), considerando que a linguagem telegráfica adotada pelo bispo não permite uma compreensão precisa das informações neles presentes. No entanto foram importante fonte para o estabelecimento do roteiro da primeira visita, fornecendo subsídios consistentes para esse capítulo como se poderá constatar adiante.</p>
<p>Além dos rascunhos, cuja passagem para o livro não foi completada pelo bispo, observa-se a ausência de parte de seus relatos no que diz respeito a Vitória e Vila Velha que, ao que tudo indica, foram registrados separadamente e sobre os quais ainda não se tem notícia. Concluímos que tais registros foram produzidos, considerando que o bispo não deixaria de fazê-lo tendo realizado a visita a esses lugares, o que deixa claro em algumas passagens como se vê a seguir: “Eu pretendia fazer hoje em Benevente Missa solene aniversária onde ele morreu, como em 1880 fiz na Vitória onde foi sua sepultura!” (p. 336) “Lembro-me bem que em 1880 do alto da Penha vi muito ao longe quase nos confins do horizonte as ilhas de Guarapari.” (p. 307)</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Quanto às características do documento, observamos o seguinte: em geral a caligrafia é bastante regular, com caracteres pequenos, abreviaturas, muitos pós-escritos em entrelinhas e frases em latim (vide Anexo I, p. 64 do original). Quanto ao estado de conservação, este é regular, observando-se perfurações por insetos (p. 195 a p. 201 dos originais) e alguns borrões. Essas características dificultaram medianamente a leitura, levando a poucas lacunas na transcrição.</p>
<p>No que se refere à edição do texto, excetuando-se a atualização da ortografia, procurou-se respeitar ao máximo a redação original. Isso significa que se manteve o padrão pessoal e variável do autor no uso de iniciais maiúsculas, números cardinais e ordinais (às vezes representados por algarismos, ora por extenso), e abreviaturas (de pronomes de tratamento; as demais foram geralmente desdobradas). A pontuação (sobretudo no caso de vírgulas) foi também respeitada, exceto quando se fez necessária uma intervenção em prol da clareza da frase; no entanto eliminaram-se os travessões aleatórios e os parágrafos, com o objetivo de se compactar cada verbete do diário. As tabelas estatísticas das diversas ações de cunho religioso executadas ao longo das visitas (missas, comunhões, bênçãos, casamentos etc.) foram sistematizadas para melhor entendimento dos leitores, incorporando também eventuais correções e retificações feitas pelo bispo. As paginações feitas nos originais, apesar de posteriores, são mantidas na publicação, aparecendo em negrito e entre colchetes, para facilitar a localização.</p>
<p>Os trechos truncados foram reproduzidos literalmente, evitando-se interpretações subjetivas. Os lapsos ocorridos durante a redação foram mantidos, intervindo-se, porém, quando o bispo duplicou palavras ou deixou de fechar parênteses. Mantiveram-se os erros de sintaxe em quase todas as ocorrências; e incorporaram-se à narrativa as notas de rodapé quando julgadas equivalentes aos acréscimos em entrelinha, não implicando, portanto, cortes na narrativa. Colchetes e uso de sic marcam (e esclarecem) a maior parte das intervenções.</p>
<p>Por fim, cabe lembrar que os originais digitalizados do manuscrito (assim como todo o conteúdo deste livro) estão disponíveis na íntegra no site da Arquidiocese de Vitória e no Estação Capixaba, onde os interessados poderão consultá-los.</p>
<div style="text-align: right;">
Maria Clara Medeiros Santos Neves</div>
<div style="text-align: right;">
Organizadora e coordenadora editorial</div>
<div style="text-align: right;">
Coordenadora de Projetos da Phoenix Cultura</div>
<h3>
Ficha Técnica</h3>
<p></p>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Organização e coordenação editorial:</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Maria Clara Medeiros Santos Neves</p>
<p>Estudo introdutório:<br />
Fernando Achiamé</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Transcrição:</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Vanessa Brasiliense</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Edição final do texto:</div>
<div style="font-size: normal; font-weight: normal;">
Reinaldo Santos Neves</div>
<p></p>
<h3>
Sumário</h3>
<p>
Introdução<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/roteiro-das-visitas/" target="_blank" rel="noopener">Roteiro das visitas</a><br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/" target="_blank" rel="noopener">Espero em tua palavra</a></p>
<p><b>Volume 1</b><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-livro_volume_1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Transcrição</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito</a></p>
<p><b>Volume 2</b><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-livro-volume_2.pdf" target="_blank" rel="noopener">Transcrição</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_2-1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito, Parte I</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_2-2.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito, Parte II</a></p>
<p><b>Volume 3</b><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-livro-volume_3.pdf" target="_blank" rel="noopener">Transcrição</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_3-1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito, Parte I</a><br />
&nbsp; &nbsp; <a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Bispo-manuscrito-vol_3-2.pdf" target="_blank" rel="noopener">Manuscrito, Parte II</a></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/bibliografia_2/" target="_blank" rel="noopener">Bibliografia</a><br />
<a href="https://dl.dropboxusercontent.com/u/38539432/11-ESTA%C3%87%C3%83O%20CAPIXABA_em%20vigor/Blogger/Textos/Hist%C3%B3ria/Bispo-D.Pedro/Rascunhos1.pdf" target="_blank" rel="noopener">Rascunhos do Bispo</a></p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p><span style="font-size: normal;">© 2016 Estação Capixaba &#8211; Todos os direitos de publicação impressa e online estão reservados exclusivamente para o site ESTAÇÃO CAPIXABA (www.estacaocapixaba.com.br). A reprodução da transcrição e textos que a acompanham sem prévia consulta e autorização configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.</span><br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<span style="font-size: x-small;"><br /></span><br />
</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>D. Pedro Maria de Lacerda</b> nasceu no Rio de Janeiro, paróquia da Candelária, a 31 de janeiro de 1830, filho legítimo de João Maria Pereira de Lacerda e Camila Leonor Pontes de Lacerda, portuguesa que vem para o Brasil com cinco anos de idade. Aos 11 anos, em 1841, foi enviado para o Colégio Nossa Senhora Mãe dos Homens na Serra do Caraça, seguindo daí para Congonhas do Campo, também em Minas Gerais, em 1842, e depois para Mariana, em 1844. Recebeu tonsura, ordens menores, subdiaconato, diaconato e presbiterato, todos em 1852. Em 1869 foi sagrado bispo e assumiu a diocese do Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1890, quando renunciou por motivo de doença, vindo a falecer em outubro daquele mesmo ano. (Para obter mais informações sobre o autor <a href="https://estacaocapixaba.com.br/d-pedro-maria-de-lacerda-biobibliografia/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/diario-das-visitas-pastorais-de-1880-e/">Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>Espero em tua palavra</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 20:02:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[D. Pedro Maria de Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Que os que temem a ti vejam-me com alegria, pois espero em tua palavra. Salmos 119, 74 Finalmente, temos em mãos os apontamentos das visitas pastorais do bispo D. Pedro Maria de Lacerda à província do Espírito Santo em 1880-1881 e em 1886-1887. E se dizemos assim é para enfatizar que, finalmente, cumpriu-se antigo desejo [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div style="text-align: right;">
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<p><span style="font-size: x-small;"><br /></span><br />
<span style="font-size: x-small;">Que os que temem a ti vejam-me com alegria,</span></div>
<div style="text-align: right;">
<span style="font-size: x-small;">pois espero em tua palavra.</span></div>
<div style="text-align: right;">
<span style="font-size: x-small;">Salmos 119, 74</span></div>
<p>
Finalmente, temos em mãos os apontamentos das visitas pastorais do bispo D. Pedro Maria de Lacerda à província do Espírito Santo em 1880-1881 e em 1886-1887. E se dizemos assim é para enfatizar que, finalmente, cumpriu-se antigo desejo de Guilherme Santos Neves, a justo título o mais celebrado folclorista capixaba. Ele é um dos primeiros dos nossos pesquisadores, senão o primeiro, a utilizar os documentos episcopais como fonte de pesquisa e clamar pela publicação dos que ainda estivessem inéditos. E principia essa campanha quando toma conhecimento, certamente por meio da obra de Nina Rodrigues e Artur Ramos, de notícias sobre a cabula registradas em carta pastoral impressa de D. João Batista Correia Nery, primeiro bispo do Espírito Santo. Utiliza tais notícias em artigo de 1963 e, em outro trabalho, apresenta e publica anotações originais do prelado sobre esse culto afro­-brasileiro, presente no norte capixaba.</p>
<p>Em princípios dos anos 1960, Guilherme Santos Neves, “graças principal­mente ao meu prezado amigo Renato Pacheco (sempre ele!)”, percorre página por página os manuscritos que registram as visitas pastorais de D. Pedro Maria de Lacerda para extrair informações pertinentes à cultura popular do Espírito Santo<span id="EETP_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP1" title="Guilherme Santos Neves, Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba 1944-1982, Vitória, Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo, 2008, v. 2, p. 256"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a> Com base nelas, o folclorista capixaba, possuidor de espírito investigativo para se informar e alma generosa ao informar sobre tudo o que se refere ao seu estado, escreve diversos artigos, a exemplo do relativo a bandas de música então existentes. A partir dessa época, chama a atenção reiteradamente para a importância dos relatos episcopais: “Como se está a ver, esses cadernos dos senhores bispos constituem documentário de alto e valioso teor informativo que – já o dissemos mil vezes – deveriam ser publicados pela Cúria, pelo Estado ou pela Universidade. Pois não? (Pois sim…)”<span id="EETP_RP2V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP2" title="Idem, v. 1, p. 120. Nos dois volumes da obra constam alguns daqueles artigos."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></p>
<p>Passado quase meio século desse apelo para valorizar os documentos que interessam à nossa história, com emoção constatamos que familiares do insigne folclorista, fiéis à sua memória, nos proporcionam acesso aos preciosos apontamentos das visitas de D. Lacerda à província do Espírito Santo. Devido ao empenho e competência da museóloga Maria Clara Medeiros Santos Neves, na qualidade de organizadora da edição; ao trabalho de transcrição dos originais, realizado pela historiadora Vanessa Brasiliense; e à revisão e edição final de texto feita pelo escritor Reinaldo Santos Neves, estão acessíveis à comunidade acadêmica e a todos,<i> urbi et orbi</i>, uma fonte primária da importância que possuem os relatórios das visitas ao Espírito Santo de D. Pedro Maria de Lacerda. Finalmente.</p>
<p>Também Maria Stella de Novaes consulta os apontamentos do senhor bispo D. Lacerda. Na sua obra mais conhecida<span id="EETP_RP3V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP3" title="Maria Stella de Novaes, História do Espírito Santo, Vitória, FEES, [197-]."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> registra a visita de 1880-1881 (mas para tanto se vale também de outras fontes, além do respectivo relatório, cf. op. cit. p. 279), a de 1886-1887 (p. 300), e até um retiro espiritual por ele promovido: “Nesse ano [1882], D. Pedro Maria de Lacerda reuniu o clero, para um retiro espiritual, a começar de 7 de maio. Foi o primeiro retiro promovido no Espírito Santo” (p. 286). Ao se referir à visita pastoral de 1886-1887, a ilustre historiadora menciona o bispo em Vitória e na Serra (p. 300) e, assim, faz confusão com aquela ocorrida em 1880-1881, quando o prelado esteve realmente nos mencionados locais. E atribui a esforços do monsenhor João Pires do Amorim, “membro de ilustre família espírito-santense […] e vigário-geral do Rio de Janeiro”, a segunda visita episcopal ao Espírito Santo (p. 324).</p>
<p>Da mesma forma Renato Pacheco estuda estes registros e divulga sua importância para os interessados em temas do universo capixaba. Em breve artigo, informa as circunstâncias da redescoberta, em 1963, dos manuscritos no Arquivo da Cúria Metropolitana de Vitória; traça ligeiro perfil biográfico do bispo; transcreve sua passagem por Piúma em 26 de abril de 1886; e reproduz o fac-símile de uma página dos “diários”<span id="EETP_RP4V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP4" title="Renato Pacheco, 'Os ‘diários’ de D. Pedro', in Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Vitória, n. 45, 1995, p. 93-98."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> Mais recentemente, padre Adwalter Antônio Carnielli faz largo uso dos apontamentos inéditos das duas visitas, ao elaborar prestante obra sobre a história do catolicismo no estado do Espírito Santo<span id="EETP_RP5V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP5" title="Adwalter Antônio Carnielli, História da Igreja Católica no Estado do Espírito Santo – 1535-2000, Vila Velha, Comunicação Impressa, 2000."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> E outros pesquisadores do passado capixaba já conheceram trechos dos relatórios de D. Lacerda e utilizaram informações neles contidas.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Como fazer a contextualização histórica destes textos raros? De início, lembrando o evidente – a realidade em que vive e trabalha seu autor é bem diversa da que existe em nossos dias. E uma das maiores diferenças, na esfera político-religiosa, consiste no regime do padroado, presente no reino português e que permanece, como uma sobrevivência, no Império brasileiro. Instituído em Portugal e nos seus domínios por meio de diversos acordos entre a monarquia e a Santa Sé, resulta em grande proveito para as duas instituições. A Igreja recebe amplo apoio régio em questões materiais e militares, acrescido da garantia de, no mundo português, o catolicismo permanecer a religião oficial e exclusiva, todas as outras consideradas seitas inferiores ou perigosas heresias e, portanto, combatidas. Por sua vez, o monarca vale-se da atuação religiosa dos clérigos católicos para manter e aumentar o controle sobre os povos existentes na metrópole e em suas possessões. O regime do padroado sujeita os padres e bispos ao rei, que tinha o direito de intervir em questões religiosas. Por isso, também é conhecido como regalismo.</p>
<p>O Brasil independente manteve o sistema regalista, que prossegue sem maiores mudanças. A Constituição Política do Império de 1824 determina no seu artigo 5º: “A Religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras Religiões serão permitidas com seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de Templo”. Mas para contrabalançar esse privilégio, a mesma Carta, no artigo 102, especifica dentre as principais atribuições do imperador, na qualidade de chefe do poder executivo, as seguintes: “II – Nomear Bispos, e prover os Benefícios Eclesiásticos”; e “XIV – Conceder, ou negar o Beneplácito aos Decretos dos Concílios, e Letras Apostólicas, e quaisquer outras Constituições Eclesiásticas que se não opuserem à Constituição; e precedendo aprovação da Assembleia, se contiverem disposição geral”<span id="EETP_RP6V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP6" title="Disponível em www.planalto.gov.br, acesso em 2 dez. 2011."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> Assim, os prelados católicos e todos os sacerdotes que ocupam cargos com renda são nomeados pelo imperador e, em alguns casos, confirmados pelo Vaticano. E todas as principais determinações emanadas de Roma devem receber aprovação, mediante despacho favorável (o beneplácito) do poder civil, representado pelo imperador, para serem aplicadas no país. Do contrário, não têm qualquer validade legal, sejam de caráter doutrinário, burocrático ou mesmo disciplinar.</p>
<p>Devido ao regime do padroado, os bispos e padres também exercem funções de competência do governo, e para tanto recebem retribuição financeira – são empregados públicos. Entre tais atribuições estão aquelas hoje conhecidas como registro civil. Como vimos, no Brasil Império o catolicismo é a religião de Estado. Pelo menos em princípio, todas as pessoas devem ser batizadas, casar-se na igreja, e ter sua morte registrada por um sacerdote, além de serem enterradas em campo santo. Desta maneira, a vida dos ditos brasileiros, do berço ao túmulo, está submetida à religião católica. O governo imperial incentiva as irmandades, a catolicidade leiga de modo geral; dá preferência aos padres seculares, controláveis com maior facilidade pelo vínculo direto aos bispos; restringe, portanto, a atuação das ordens religiosas, masculinas ou femininas, chegando a proibir o noviciado; cerceia a criação e expansão de seminários… Essa união entre o Estado e a Igreja, se representa benefícios para ambos, sempre tem o predomínio do poder civil sobre o religioso. E também contribui para tensão permanente entre as duas esferas de autoridade, o que dá margem a contínuas polêmicas e disputas de mando; por vezes culmina em confronto sério, de que faz prova a conhecida Questão Religiosa de 1872-1875.</p>
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O ultramontanismo constitui outra característica que diferencia da atualidade o Brasil e a Igreja Católica de D. Lacerda. A expressão deriva de ultramontano, “que ou o que está além dos montes”, quer dizer Roma, situada além dos Alpes em relação à Europa, especialmente à França. Esse “conjunto de ideias e doutrinas que apoiam a autoridade e o poder absoluto do papa”, ou arcabouço teórico defendido pelos católicos tradicionalistas, também é conhecido como romanização, pois luta por uma Igreja extremamente centralizada em Roma e defende estrita observância de normas e práticas do catolicismo emanadas do Vaticano.<span id="EETP_RP7V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP7" title="Dicionário Eletrônico Houaiss, versão 1.0, Rio de Janeiro, Objetiva, 2001."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a></p>
<p>A doutrina ultramontana assume seus traços mais evidentes no pontificado de Pio IX (1846-1878), o papa que nomeia D. Pedro Maria de Lacerda bispo do Rio de Janeiro. Ela encontra-se sistematizada na encíclica <i>Quanta Cura</i>, de dezembro de 1864, que traz como anexo o famoso <i>Syllabus Errorum</i>. Segundo Eric Hobsbawm, “todas as igrejas oficiais eram <i>ipso facto</i> conservadoras, embora apenas a maior dela, a Católica Romana, tenha formulado sua posição de aberta hostilidade à crescente tendência liberal”. E enfatiza que o <i>Sílabo dos Erros</i> “condenou, de maneira igualmente implacável, oitenta erros, incluindo o ‘naturalismo’ (que negava a ação de Deus sobre os homens e o mundo), o ‘racionalismo’ (o uso da razão sem referência a Deus), o ‘racionalismo moderado’ (a recusa de supervisão eclesiástica por parte da ciência e da filosofia), o ‘indiferentismo’ (escolha livre de religião ou mesmo ausência dela), a educação laica, a separação da Igreja e do Estado e, em geral (erro nº 80), a ideia de que o ‘Pontífice Romano pode e deve reconciliar-se e chegar a bom termo com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna’”<span id="EETP_RP8V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP8" title="Eric Hobsbawm, A era do capital – 1848-1875, 15 ed., São Paulo, Paz e Terra, 2009, p. 172-3; e Roque Spencer M. de Barros, 'Vida Religiosa', in História geral da civilização brasileira, v. 6, São Paulo, Difel, 1974, p. 325-6."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a> O ultramontanismo se manifesta de forma concreta por meio do Concílio Vaticano I, que acontece de dezembro de 1869 a dezembro do ano seguinte e do qual D. Lacerda participa, e pela proclamação do dogma da infalibilidade papal, em março de 1870, na quarta sessão do conclave.</p>
<p>No Brasil, a reforma ultramontana ou, como também é conhecida, o Movimento Brasileiro de Reforma Católica do século XIX, tem como pioneiros D. Romualdo Antônio de Seixas, arcebispo da Bahia (1827-1860) e D. Antônio Ferreira Viçoso, bispo de Mariana (1844-1875), apoiados por D. Antônio Joaquim de Melo, bispo de São Paulo (1852-1861). D. Viçoso é o grande mentor espiritual de D. Pedro Maria de Lacerda, que a ele se refere com muito carinho e admiração em várias passagens destes relatórios.</p>
<p>À primeira vista, parece paradoxal que a reforma ultramontana, com os olhos voltados para as diretrizes emanadas de Roma, floresça em um país que subordina o clero ao imperador, por manter a união do Trono com o Altar. Ao analisar a institucionalização desse sistema regalista, Augustin Wernet cons­tata que “na fase final da organização do Estado brasileiro, a maioria dos políticos e, sobretudo, os principais conselheiros de D. Pedro II chegaram à convicção de que as ideias do conservadorismo e do catolicismo ultramonta­no serviriam de melhor fundamentação e justificação para a ordem vigente, do que os princípios liberais e as ideias do catolicismo” iluminista. Wernet faz uma correlação entre o pensamento conservador ultramontano e os inte­resses conservadores na política para explicar a supremacia da romanização no Brasil: “O princípio monárquico e a centralização seriam mais adequados do que as ideias republicanas e federalistas. O catolicismo ultramontano, portanto, não apenas correspondeu à orientação da Igreja Católica, oficialmen­te apresentada no centro da cristandade, mas também aos interessados na manutenção do <i>status quo</i> no país.”<span id="EETP_RP9V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP9" title="Augustin Wernet, A igreja paulista no século XIX – a reforma de D. Antônio Joaquim de Melo (1851-1861), São Paulo, Ática, 1987, p. 89 e passim."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> Há um encontro de dois interesses. Ao governo imperial importa reformar os costumes e ações do clero, que abriga parcela substancial de sacerdotes despreparados, dissolutos e, sobretudo, negligentes em relação às necessidades religiosas dos fiéis e às exigências da hierarquia e do culto católicos. E a Igreja vê-se favorecida com a manutenção do padroado, pois continua como a única religião oficial do Império e, ao mesmo tempo, dele recebe apoio material e institucional. No entanto, como se sabe, essa união cobra alto preço às duas instâncias de poder.</p>
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<p>No âmbito deste escrito, não cabe exame mais profundo da vida e da obra de D. Lacerda. Informações mais minuciosas existem em publicações específicas e nos processos de sua ordenação sacerdotal e sagração episcopal, que os arquivos eclesiásticos do Rio de Janeiro e de Mariana devem guardar. Pedro Maria de Lacerda nasce no Rio de Janeiro, paróquia da Candelária, a 31 de janeiro de 1830, filho legítimo de João Maria Pereira de Lacerda e Camila Leonor Pontes de Lacerda, portuguesa que vem para o Brasil com cinco anos de idade. João Maria de Lacerda, de pai português e mãe brasileira, segue carreira na Marinha, sendo reformado em 1861 no posto de capitão de mar e guerra. Ainda como guarda-marinha, faz parte da tripulação do brigue de guerra Pampeiro, que naufraga na barra da baía de Vitória em outubro de 1828, e precisa receber “ordem terminante” de modo que “não arriscasse a vida para salvar alguns objetos da fazenda nacional”. Católico fervoroso, empenha-se em obras de caridade, colabora com jornais fluminenses e publica obras ligadas à economia e matemática<span id="EETP_RP10V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP10" title="Inocêncio Francisco da Silva, Diccionario Bibliographico Portuguez, v. 10, Lisboa, Imprensa Nacional, 1883, p. 312-3."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> Dos 11 filhos do casal, além do primogênito Pedro Maria, também se distingue Joaquim Maria de Lacerda, advogado, professor, editor de livros e escritor de obras didáticas, que morre na capital francesa, onde mora há muitos anos, em dezembro de 1886, quando seu irmão encontra-se em visita pastoral no Espírito Santo.<span id="EETP_RP11V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP11" title="Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, Diccionario Bibliographico Brazileiro, v. 4, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1898, p. 193-5."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a></p>
<p>Pedro Maria de Lacerda faz seus estudos iniciais no Rio de Janeiro e frequenta as aulas de latim do padre Antônio Vieira Borges. Em 1841, com 11 anos de idade, seus pais o mandam, na companhia do sacerdote Luís Antônio dos Santos, recém-ordenado, para o famoso Colégio Nossa Senhora Mãe dos Homens na Serra do Caraça, que tem como reitor o padre lazarista português Antônio Ferreira Viçoso, depois bispo de Mariana. Por causa da repressão à Revolução Liberal em Minas Gerais, o estudante Pedro Maria transfere-se, em setembro de 1842, para Congonhas do Campo, onde os padres lazaristas já estavam instalados. O sacerdote Antônio Alves Ferreira dos Santos, o jovem capixaba “padre Alves” tão citado por D. Lacerda nos apontamentos da visita de 1886-1887, e que em 1914 publica um livro sobre a história da arquidiocese do Rio de Janeiro, assim descreve essa etapa da vida de quem seria titular do bispado fluminense: “Dotado de talento superior, terminou dentro de pouco tempo seus estudos preparatórios, inclusive filosofia racional e moral, e passou a cursar a filosofia e teologia e outras matérias eclesiásticas em Mariana, no Seminário Episcopal, para onde foi levado pelo seu antigo reitor D. Antônio Ferreira Viçoso, que passou por Congonhas [em 1844], de volta do Rio de Janeiro onde viera receber a sagração de bispo daquela cidade”<span id="EETP_RP12V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_R12P" title="Antônio Alves F. dos Santos, A Archidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Leuzinger, 1914, apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., D. Pedro Maria de Lacerda, último bispo do Rio de Janeiro no Império (1868-1890), Rio de Janeiro, Lumen Christi, 1987, p. 30."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a></p>
<p>Ainda bem moço, Pedro Maria acompanha o bispo de Mariana em visitas pastorais por Minas, passagens de sua vida que relembra nostálgico nestes apontamentos. Em 1848, D. Viçoso encaminha a Roma promissoras inteligências de Mariana, e futuros bispos: Pedro Maria de Lacerda, então com 18 anos, e os jovens padres João Antônio dos Santos, mais tarde bispo de Diamantina, e Luís Antônio dos Santos, depois bispo do Ceará e arcebispo da Bahia. Na Cidade Eterna, onde chega em julho de 1848 após passar por Paris, Pedro Maria estuda no Colégio Romano às expensas de seu pai e, em setembro do ano seguinte, obtém o grau de doutor em teologia. Informa-nos ainda Antônio Alves F. dos Santos que “de volta ao Brasil emprega-se no Seminário de Mariana, como professor de geografia e filosofia, e pouco depois é nomeado professor público de geografia e história do Liceu Marianense”. Com apenas 22 anos, “e vencendo todas as perplexidades de sua consciência timorata, é promovido a todas as ordens por D. Viçoso, que lhe confere em Mariana, na capela do seu palácio, tonsura e ordens menores em 18 de abril, subdiaconato em 16 de maio, diaconato em 5 de junho e presbiterato em 10 de agosto de 1852, com dispensa de idade. Celebra sua primeira missa no oratório do pequeno hospital das Irmãs de Caridade da mesma cidade”. No mês seguinte à sua ordenação, é efetivado como cônego da Sé de Mariana, “à qual serviu até junho de 1862, em que renunciou a sua cadeira por motivo de escrúpulos no desempenho de suas obrigações”<span id="EETP_RP13V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP13" title="Idem, p. 42."><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a> Por ter se formado e trabalhado com padres da Congregação das Missões de São Vicente de Paulo, também chamados de vicentinos ou lazaristas, alguns autores a ele se referem como membro dessa associação religiosa.</p>
<p>O mundo eclesiástico brasileiro logo toma conhecimento do cônego Lacerda, por dedicar-se com vigor às atividades da Sé de Mariana, nas quais empenha suas qualidades morais e intelectuais. O titular da diocese de São Paulo, D. Antônio Joaquim de Melo, o quer como bispo coadjutor com direito à sucessão, mas D. Viçoso é contra, pretextando não poder ficar sem seu principal auxiliar que, com trinta anos, se encontra novo ainda para ser elevado à dignidade episcopal. O cônego Lacerda, “de caráter tímido, modesto e despretensioso, embora firme e reto, dá graças a Deus, quando se vê dispensado de tanta distinção que o apavorava e livre de maiores responsabilidades. É entretanto decorado pela Nunciatura Apostólica com as honras de Protonotário a 31 de julho de 1861. Nessa ocasião foi também nomeado examinador pró-sinodal por D. Viçoso”, dignidades conferidas em reconhecimento ao seu trabalho<span id="EETP_RP14V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP14" title="Idem, p. 44."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> Vago o bispado do Rio de Janeiro desde 1863 com a morte de D. Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, conde de Irajá, o imperador Pedro II assina, em 1º fevereiro de 1868, decreto de nomeação do religioso Pedro Maria de Lacerda para ocupá-la. Na escolha imperial deve ter influenciado, além dos dotes pessoais do nomeado, a indicação do marianense José Joaquim Fernandes Torres, detentor no ministério Zacarias da pasta do Império, justamente a que trata das questões entre o governo e a Igreja. O cônego Lacerda solicita ao imperador um mês de prazo para decidir sobre a indicação, a ser confirmada pelo Vaticano. “Chove, então, uma série de cartas para Mariana, animando-o a que aceitasse, não só da família, mas também do clero e episcopado”. Sua mãe também lhe escreve, e apela para que assumisse a nova dignidade, mas um bilhete de D. Viçoso, de 29 de março, é decisivo para sua resolução<span id="EETP_RP15V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP15" title="D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 47."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a></p>
<p>Na catedral daquela cidade mineira, a 10 de janeiro de 1869, acontece sua sagração episcopal, presidida por D. Antônio Ferreira Viçoso. Toma posse a 31 do mesmo mês, por procuração, e faz a entrada solene na diocese do Rio de Janeiro no dia 8 de março<span id="EETP_RP16V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP16" title="Idem, p. 57-63."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> Na qualidade de prelado reformador, ultramontano, partidário da romanização, D. Pedro Maria de Lacerda atua de forma intensa e coerente, tanto no aspecto doutrinário, quanto nas atividades práticas. Suas palavras e atitudes sempre repercutem de maneira amplificada no país, pois é o titular da diocese que sedia a Corte brasileira, a capital do Império. No tocante à doutrina, trata vigorosa e publicamente de temas cujo enfrentamento julga imprescindível para a reforma da sociedade e do clero brasileiros. Temas no centro de polêmicas exacerbadas à época e que devem ser examinados com cuidado, pois aos olhos de hoje parecem de menor im­portância ou até risíveis. Algumas das posições que adota são percebidas pelo simples exame dos títulos de cartas pastorais e documentos por ele publicados.</p>
<p>O novo bispo começa por arrumar a casa: logo em 1869, passa provisão que divide a diocese do Rio de Janeiro em comarcas eclesiásticas e estabelece regimento para os vigários da vara e arciprestes; ou seja, disciplina a circunscrição territorial e o âmbito de ação dos sacerdotes seus assessores ou representantes. Entre suas primeiras medidas, consta a reforma do Seminário de São José, cuja administração entrega aos lazaristas. O jornal católico <i>O Apóstolo</i>, impresso no Rio de Janeiro de 1866 a 1901, publica textos dirigidos ao clero e à população católica, ordenamentos da Santa Sé e divulga posições doutrinárias ultramontanas e mesmo políticas. Por exemplo: em 1887, na etapa final da campanha abolicionista, reproduz cartas pastorais de bispos brasileiros, apelando aos fiéis para libertarem seus escravos. D. Lacerda utiliza esse periódico para divulgar documentos de interesse da diocese. Há pouco tempo nela empossado, participa em Roma, juntamente com outros bispos brasileiros, do Concílio Vaticano I (1869-1870), no qual se manifesta<span id="EETP_RP17V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP17" title="Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, Diccionario Bibliographico Brazileiro, v. 7, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1902, p. 54-6; D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 142-4."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a></p>
<p>Exerce D. Pedro Maria de Lacerda intensa atividade no vasto território sob sua administração eclesiástica, que compreende as províncias do Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte de Minas Gerais, o Município Neutro, e Lajes, em Santa Catarina. De acordo com seu biógrafo D. Jerônimo Lemos O.S.B.<span id="EETP_RP18V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP18" title="D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., passim."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a> e como se observa nos apontamentos ora publicados, prega constantemente nas igrejas, promove o ensino do catecismo nas paróquias e reúne o clero em exercícios espirituais dos quais também participa, além de enviar padres lazaristas em missões pela diocese<span id="EETP_RP19V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP19" title="Existe no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, segundo D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 583, um documento em bom estado com o título de Relatório das missões dadas pelos PP. da Congregação da Missão na Província do Espírito Santo. Ano 1875, dirigido a D. Lacerda e assinado pelo padre Sisson, diretor das Missões de São Vicente de Paulo. D. Lemos transcreve em sua obra trechos extensos dos relatórios do bispo do Rio de Janeiro nas visitas pastorais que fez na província fluminense em 1874-1875 e 1876."><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a> e empreender esforços, inclusive junto a D. Bosco, para o Brasil receber em 1883 os salesianos, que instalam sua primeira casa no país em Santa Rosa, Niterói.</p>
<p>Em 1871, D. Lacerda edita tratado canônico-moral acerca da residência dos párocos e curas sob sua administração, doutrinando-os e responsabilizando aqueles que deixam de cumprir seus deveres sacerdotais. Nesse mesmo ano, edita um protesto coletivo do episcopado brasileiro, dirigido ao imperador e à princesa imperial regente, “contra a sacrílega invasão de Roma em 1870” por tropas italianas, episódio que interrompe o Concílio Vaticano I que se realiza naquela cidade; e, em carta pastoral, anuncia a Lei do Ventre Livre, “sobre a libertação dos filhos de escravas e sua criação, recomendando a to­dos sua execução”. Representa ao ministro do Império, em 1872, “para que as eleições políticas se façam fora das igrejas”, considerando que tais espaços devem servir primordialmente ao culto. De 1873 a 1875, expede diversos documentos em que trata das relações entre a Igreja e o Estado e combate tenazmente a Maçonaria no auge da Questão Religiosa, bastando citar a <i>Representação que a S. M. o Imperador dirige sobre a prisão e processo do bispo de Olinda e aderindo à representação do arcebispo da Bahia, de 1874</i><span id="EETP_RP20V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP20" title="Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 55."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a></p>
<p>O bispo publica, em 1877, carta pastoral “lamentando o carnaval do corrente ano na Corte, e promovendo uma subscrição para se mandar um cálice de ouro a Nossa Senhora de Lourdes em desagravo”, sob alegação de ter havido excessos e brincadeiras momescas com uso de efígie da santa. Nesse mesmo ano, retorna à sede pontifícia em peregrinação organizada por sua diocese pelo jubileu de ouro episcopal de Pio IX e em <i>visita ad limina Apostolorum</i>, a que os bispos são obrigados periodicamente; vai também a Turim e Paris<span id="EETP_RP21V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP21" title="Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 54, 56; e D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 278 e 571."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a> De autoria de D. Lacerda existem ainda a <i>Cartilha católica</i> e “o <i>Cerimonial da Visita Pastoral</i> por ele publicado em 10 de maio de 1880”, pouco tempo antes de fazer sua primeira visita pastoral ao Espírito Santo, e que “serviu de modelo para muitos dos Srs. Bispos”. Outro documento do bispo a se destacar, devido à importância de que se reveste na época de sua edição, é o <i>Protesto apresentado a S. M. o Imperador pelo Bispo de S. Sebastião do Rio de Janeiro, por ocasião do decreto que manda converter em apólices intransferíveis os bens das Ordens religiosas</i>, datado de 24 de fevereiro de 1884. Por meio dele, o prelado firma posição contra o governo numa polêmica que se arrasta por algum tempo, inclusive com desdobramentos judiciais<span id="EETP_RP22V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP22" title="Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 126 e 415-36."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a></p>
<p>A historiografia brasileira registra o nome de D. Pedro Maria de Lacerda como iniciador da Questão Religiosa, ao punir o padre José Luís Almeida Martins. Este sacerdote, português e maçom, serve como orador oficial na sessão maçônica de 3 de março de 1872, que tem lugar na sede do Grande Oriente do Lavradio, Rio de Janeiro, em comemoração à Lei do Ventre Livre, editada no ano anterior. Referida sessão também homenageia José Maria da Silva Paranhos, visconde do Rio Branco, que ocupa o cargo de grão-mestre da Maçonaria brasileira, e preside o Conselho de Ministros, ou seja, é o chefe do governo. Publicado o discurso do padre maçom, e tendo em vista vasto ordenamento jurídico-canônico, não resta a D. Lacerda alternativa senão suspendê-lo de ordens, quer dizer, proibi-lo de exercer certas funções sacerdotais. Instalada a Questão Religiosa, o titular da diocese do Rio de Janeiro não recebe qualquer punição, por se manter nos estritos limites de sua autoridade eclesiástica, ao contrário dos bispos de Olinda, o jovem D. Vital de Oliveira, e de Belém, D. Antônio Macedo Costa, que interditam irmandades religiosas, instituições mistas subordinadas ao mesmo tempo aos poderes temporal e espiritual. Mas D. Pedro Maria de Lacerda não deixa de apoiar os bispos punidos, também ultramontanos como ele próprio, pois não costuma ser omisso, e se pronuncia ou age sempre que necessário.</p>
<p>Suas iniciativas reformistas adotadas por essa época no campo religioso são como tapas de luva no governo imperial, que contra elas nada pode fazer. No dia a dia mostra-se capaz de gestos dramáticos, alguns dos quais relata nestes apontamentos, e outros narrados por seu secretário particular, como o seguinte, relacionado com a Questão Religiosa: no dia imediato em que D. Vital de Oliveira desembarca, preso, no Rio de Janeiro, vai encontrá-lo, e “ao vê-lo sem as insígnias episcopais, prostrou-se aos seus pés, beijou-lhe as mãos comovido e tirando a própria cruz peitoral, colocou-a no pescoço daquele prelado, dizendo-lhe: ‘Tem V. Excia. Revma. toda jurisdição nesta Diocese’”<span id="EETP_RP23V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP23" title="Idem, p. 201."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a> Visita e ampara os bispos em suas prisões na capital do Império. No decorrer das sessões de instrução e julgamento no Supremo Tribunal de Justiça, que condena D. Vital à prisão, senta-se ao seu lado e ali permanece até o pronunciamento final. Distingue mais o titular da diocese de Olinda não somente por se identificar com suas ideias e atitudes, mas também por tê-lo sagrado bispo, poucos anos antes, em São Paulo. Revela-se cauteloso e discreto quando preciso, especialmente a partir do momento em que o governo brasileiro e a Santa Sé negociam os termos para superarem os entraves que originaram a Questão Religiosa<span id="EETP_RP24V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP24" title="D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 200-220 e passim."><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a> Mas deve ter guardado certo ressentimento do episódio. Na madrugada de 16 de novembro de 1889, ao saber que o imperador e sua família estão detidos no Paço da Cidade, à espera do embarque para o exílio, comenta, talvez pensando na transitoriedade da glória deste mundo: “Exatamente o que ele fez aos bispos…”<span id="EETP_RP25V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP25" title="D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464-5, informa que Pandiá Calógeras registra o episódio na obra Formação histórica do Brasil, com base em informação do historiador Capistrano de Abreu. A passagem é reproduzida de forma simplificada em Adriana Lopes e Carlos Guilherme Mota, História do Brasil, uma interpretação, São Paulo, Ed. SENAC, 2008, p. 528, a frase sendo dita por D. Lacerda ao saber a família imperial detida no Paço da Cidade. D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464-5, considera a passagem inverossímil, por à época o bispo estar acamado… No entanto, essa circunstância não o impedia de meditar e pronunciar tais palavras ao tomar conhecimento do fato."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a></p>
<p>D. Lacerda recebe distinções honoríficas, como a Cruz da Ordem de Cristo em 1876, relaciona-se com os grandes do Império e, na condição de integrante conselho de D. Pedro II e de bispo capelão-mor, presta assistência religiosa à família imperial. “Gozara sempre da confiança plena do monarca,” como demonstra nestes apontamentos; contudo, “não era um áulico, mas um servidor franco e leal”. Indicado para arcebispo da Bahia e primaz do Brasil, em 1887, numa manobra tentada pelo internúncio monsenhor Spolverini, representante da Santa Sé, para afastá-lo do Rio, recusa o cargo. Logo após a promulgação da Lei Áurea, a 17 de maio de 1888, é-lhe conferido o título de Conde de Santa Fé, com grandeza, pela princesa imperial regente, estando o titular do trono muito doente em Milão<span id="EETP_RP26V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP26" title="Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464."><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a> Esse gesto da princesa Isabel, que no mesmo ano recebe de Leão XIII a famosa distinção católica Rosa de Ouro, pode ter sido em reconhecimento ao empenho do bispo pelo fim da escravidão no país, e revela-se mais significativo do ponto de vista político-religioso quando se sabe que, naquela mesma data, outros prelados e membros da elite civil também foram nobilitados. Seria uma tentativa de preparar a sucessão monárquica? Para os clérigos que procuravam conciliar o regalismo com a corrente de pensamento calcada na romanização, o que melhor conviria ao país em termos políticos seria uma espécie de teocracia – o Terceiro Reinado com o cetro e a coroa enfeixados pela beatíssima Isabel, tutelada pela Igreja.</p>
<p>Sobre D. Lacerda, diz Sacramento Blake: “Dotado de certa ilustração, nunca fez gala de orador sacro; só procurava fazer-se compreender das classes mais igno­rantes. Se empregou às vezes linguagem mais áspera, ou menos conveniente, suas intenções eram puras; guiava-o a mais fervorosa fé católica”<span id="EETP_RP27V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP27" title="Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 54."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a> Por sinal, seus esforços para ser compreendido pelas “classes mais ignorantes”, e o uso que fez “de linguagem mais áspera” estão registrados em trechos destes relatórios. O padre Antônio Alves F. dos Santos, seu secretário particular nos últimos anos de vida, nos oferece um depoimento sobre a condição física e a personalidade de D. Lacerda: “Dotado de constituição robusta e boa saúde, guardou sempre os jejuns, as abstinências e penitências prescritas pela Igreja, até o último ano de sua vida, que foi amargurado pelas enfermidades e sofrimentos morais”. E prossegue no perfil do prelado: “As vigílias, os trabalhos excessivos, os dissabores contínuos, as decepções inevitáveis da vida, os escrúpulos que frequentemente o assaltavam, tornaram-no muitas vezes áspero e brusco no seu trato, mas nunca lhe diminuíram a caridade e zelo de pastor pelas suas ovelhas”. O padre Alves nos informa ainda: “Era de caráter naturalmente retraído e concentrado, grave e sério, acostumado desde moço ao silêncio e à meditação”<span id="EETP_RP28V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP28" title="Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 129."><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a></p>
<p>Por muitos anos, D. Pedro Maria de Lacerda passa temporadas nos colégios jesuítas de Itu e Nova Friburgo, no intuito de “buscar algum repouso para a sua vida bastante atribulada”. Sofre de “incômodos das pernas, classificados como beribéri”, talvez agravados por constantes jejuns e abstinências. Em 17 de outubro de 1889 tem um “insulto apoplético” e “apenas ficou com a língua embaraçada não sofrendo paralisia e nem sendo afetadas suas faculdades. Socorrido de pronto, acha-se melhorado.” Após guardar o leito por semanas, recupera-se aos poucos, mas no decorrer de 1890 sua saúde se deteriora rapidamente, agravada pela insistência daquele mesmo monsenhor Spolverini, representante papal no Brasil, agora para que renunciasse à diocese<span id="EETP_RP29V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP29" title="O Apóstolo de 14/7 e 20/10/1889; e Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 466-8."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a></p>
<p>A contar do encerramento da sua segunda visita pastoral ao Espírito Santo, em março de 1887, a realidade institucional brasileira transforma-se num prazo muito curto. Um ano e pouco depois, é extinta no país a escravidão, ao menos na sua forma legal. Passado mais um ano e pouco, acaba o regime monárquico. Amigo do imperador exilado, D. Lacerda sofre com a queda da monarquia. No apagar das luzes do Império, o registro civil tão execrado por ele, em especial no que se refere ao casamento, começa a ser exigido por lei. Por ser bem informado, não ignora que o chefe do governo provisório, Deodoro da Fonseca, também exerce o cargo de grão-mestre da Maçonaria brasileira, da qual são membros <i>todos </i>os componentes do primeiro ministério republicano. E, com certeza, tem notícia dos trabalhos da Constituinte, em que se desmonta o regime do padroado e se estabelecem as bases para efetiva institucionalização no país da liberdade de culto; os protestantes que tanto combatia podem agora praticar livremente sua religião. Já muito doente, renuncia ao bispado do Rio de Janeiro em 15 de outubro de 1890, em favor de D. João Esberard que, no entanto, não lhe sucede imediatamente.</p>
<p>Desaparecidas a escravidão, a monarquia e a união do Estado com a Igreja, acabam irremediavelmente os principais componentes do mundo em que o bispo viveu e exerceu o poder. E, nesse contexto hostil às suas convicções políticas e doutrinárias, se extingue também a vida de D. Pedro Maria de Lacerda. Recebe os últimos sacramentos, ocasião em que com voz débil reafirma sua fé católica e perdoa aos inimigos. Falece no Seminário de São José, Rio de Janeiro, “depois de muitos dias de ânsia e gemidos profundos, que se ouviam de longe”, às cinco horas da manhã de 12 de novembro de 1890, cercado de alguns sacerdotes e amigos dedicados; contava sessenta e um anos de idade incompletos. Após o embalsamamento, seu corpo é transladado com todas as honras de estilo para o Palácio da Conceição, residência dos titulares da diocese fluminense, em cuja capela baixa à sepultura no dia 14, após exéquias solenes. Seus restos mortais, assim como os de outros ecle­siásticos ali sepultados, são transferidos posteriormente para a nova Catedral Metropolitana, situada à Avenida Chile, Rio de Janeiro<span id="EETP_RP30V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP30" title="Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 466-7, 518-9, 526."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a></p>
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<p>Raros, muito raros os diários mantidos por membros das elites brasileiras no período imperial. Por isso que as anotações de D. Lacerda se revestem da maior importância, mesmo que algumas de suas passagens tenham sido escri­tas um bom tempo depois da ocorrência dos fatos a que se referem. O bispo, muito escrupuloso, ressalta com um “parece-me” quando não lembra com precisão do que aconteceu. De qualquer sorte, a manutenção de um diário proporciona aos pesquisadores em geral, particularmente aos historiadores, uma preciosa fonte para entrever parte do real. As críticas ao conteúdo, que também devem ser feitas a esse tipo de fonte historiográfica, não invalidam a rajada refrescante de vida que ele costuma proporcionar.</p>
<p>Ao realizar as visitas pastorais por sua diocese, D. Pedro Maria de Lacerda cumpre um dever a que está obrigado, na dupla condição de prelado católico e de alto servidor público, representante do governo imperial – o regime do padroado não nos deixa esquecer essa realidade. E o cumprimento de tal obrigação implica, também, a elaboração de um relatório. O bispo, ao fazer as anotações diárias, tem em vista duas razões pelo menos. Por um lado, sa­tisfaz aquele dever de ofício: assinalar datas, locais percorridos, o que realizou e em que circunstâncias por meio de uma caderneta de campo, de um diário de trabalho; e assim produz informações de interesse público. Por outro, o documento também possui uma característica privada, somente acessível aos seus sucessores ou a um círculo muito restrito de pessoas, o que poderia servir de estímulo para que o autor derramasse nas páginas seus sentimentos, impressões e angústias, numa espécie de diário “íntimo”.</p>
<p>Seja por uma razão, seja por outra, indissociáveis na prática, o bispo elabora as anotações para uso próprio e consulta eventual: fixar no papel nomes das pessoas e conjunturas que contribuíram, de forma positiva ou negativa, para as visitas; registrar os nomes das paróquias e localidades percorridas e os casos inusitados, além do número de fiéis que atendeu com os respectivos sacramentos ministrados; assinalar as disputas de variada ordem entre religiosos, pessoas das comunidades e autoridades; manter viva na memória as questões, de ordem doutrinária ou não, em que se envolveu e as providências tomadas; consignar as carências e problemas existentes na vida profana das regiões visitadas; e muitas outras situações. Uma delas talvez tenha peso sig­nificativo para D. Lacerda – as anotações servem de “espelho” para se mirar e reconhecer onde falhara, como homem e como bispo. Que os destinatários desses apontamentos eram pessoas privilegiadas provam-no as constantes citações em latim, língua oficial da Igreja Católica e de acesso restrito aos clérigos e a poucos indivíduos. Mas o bispo, que procura ser sincero nas ano­tações, também cogita de sua publicação futura, depois de algum interessado separar a “palha do trigo”. Para a pesquisa historiográfica, contudo, todas as informações possuem seu valor; muitas vezes aquelas julgadas como “palha” por quem as produz são mais esclarecedoras que as consideradas “trigo”. O cotidiano das visitas, cumprido por D. Lacerda e pequena comitiva, pode ser assim resumido: paramentar-se; fazer entrada solene em vilas e povoados que comportassem tal procedimento; promover cerimônias e encontros nos quais se beija o anel do bispo em sinal de respeito; catequizar; administrar as primeiras comunhões e as crismas; celebrar casamentos, com as prévias, complicadas e trabalhosas análises das justificações, dispensas dos impedimentos e redação das provisões; dizer missas, algumas delas cantadas, e distribuir a comunhão; conferir os livros de registro de batizados, casamentos e óbito, e os de tombo; pregar; ouvir confissões, batizar, dar a extrema-unção; observar a presença e o estado das instalações e construções religiosas e dos objetos de culto (alfaias, paramentos); conceder indulgências; benzer pessoas, objetos, cemitérios; rezar em público e em privado e encomendar os mortos; além de registrar tudo o que ocorreu, ou quase tudo, nos relatórios que adiante vão… D. Lacerda e equipe procuram observar, dentro das limitações de cada local, a ritualística prescrita pelo Vaticano. É uma verdadeira assistência espiritual em massa, que busca suprir a costumeira falta de padres.</p>
<p>São constantes as reclamações do bispo acerca dos trabalhos que a burocracia da Igreja e seu próprio zelo apostólico lhe impõem. E tem que cortar na própria carne, arrostando o concubinato de padres. Mas se os problemas que se lhe apresentavam ficassem somente nisso, seria o de menos. Sua verdadeira cruzada contra os protestantes, os maçons, a mancebia lhe valem permanentes dissabores. Em relação à Maçonaria nunca abre a guarda; um exemplo consta no relatório da visita pastoral de 1886-1887: “Soube que alguns Maçons (poucos) desta Vila [de Itapemirim], alguns aliás sisudos, tinham resolvido abster-se de ser Padrinhos, devido isto em parte a Monsenhor Amorim e em parte talvez à notícia que têm do que houve na Visita da Vitória em 1880”. Realmente, Christiano Woelffel Fraga reproduz ou cita longos pronunciamentos e representações de membros da Loja Maçônica União e Progresso de Vitória contra declarações e medidas hostis do prelado, durante sua visita pastoral de 1880-1881<span id="EETP_RP31V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP31" title="Christiano Woelffel Fraga, Maçonaria no Espírito Santo – Aug. Resp. Ben. e Benf. Loja União e Progresso, Vitória, [s. n.], [1995], p. 103-9."><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a></p>
<p>O bispo D. Lacerda pode ser definido como irritadiço, irascível, mas também era o primeiro a reconhecer isso. Os apontamentos das visitas mostram suas impaciências, intransigências, irritabilidades e até ataques de ira. E seus arrependimentos. Talvez para fugir a essa rotina massacrante, ou satisfazer anseio íntimo, intercala um “calendário pessoal” nos apontamentos. Mas com isso também sofre, pois assiste com temor o passar do tempo e o cemitério crescer à sua volta. Celebra missas e reza em intenção de parentes, amigos e colegas de sacerdócio e pela passagem de datas que dizem respeito à sua vida particular e sacerdotal: participações em ordenações, sagrações e conclaves.</p>
<p>Convive bem com os fazendeiros e donos da terra. Se não pode afrontar os poderosos, sempre lança seu olhar piedoso para escravos e libertos, mesmo agindo segundo os preconceitos da época. Respeita o povo, vê e assiste sua miséria, tenta atraí-lo – nesse contexto, uma barrica de roscas comprada e distribuída antes das confissões e das crismas pode fazer milagres. Procura conciliar suas convicções ultramontanas, algumas delas estranhas à cultura do país, com a crua realidade de um povo pobre, sofrido, analfabeto, mas devoto. De fato, D. Lacerda geralmente é compreensivo com os pobres do seu rebanho e procura facilitar sua vida – prega em italiano para os imigran­tes dessa origem; desconfia das alegações dos fiéis, quanto aos impedimentos para casamento (a maioria devia ignorar seus parentescos ancestrais), mas acaba por condescender. No entanto, em certas atitudes não nega ser um príncipe da Igreja, quase um aristocrata – admira-se quando lhe oferecem café numa xícara sem pires, ou macarrão e arroz em pequenas bacias de lavar o rosto; repara nos cômodos de telha vã, nas simples colchas e cortinas de chita que dividem os ambientes; anota com cuidado a qualidade e quantidade da comida, mas raramente menciona o que lhe é servido; ouve piano e sente saudade disso; com um relógio cronometra a cada passo a viagem; preocupa­se em mostrar que tem meios financeiros para custear as despesas com suas visitas, pois não quer ser pesado aos fiéis e sacerdotes que o recebem. Mas não nos enganemos: sua escrita, de letra miúda e regular, é feita com sangue. O sangue azul do eclesiástico de nomeada, e o sangue vermelho do homem, com todos os seus defeitos, temores, pecados, limitações. Em ambos os papéis se sai muito bem. Como bispo exerce sua autoridade com energia que beira à soberba; como homem procura ser humilde. Se procedesse de modo contrário, comprometeria para sempre sua obra de religioso e sua vida de pessoa temente a Deus.</p>
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<p>Na década de 1880, o mundo transita da era do capital para a era dos impé­rios, como está muito bem explicado nos dois livros de Eric Hobsbawm que possuem esses títulos. Mais do que rainha dos mares, a Inglaterra era uma das senhoras da Terra. Sua influência predomina sobre a economia e a sociedade do Império brasileiro. Por ocasião das visitas de D. Lacerda à província capixaba, o regime monárquico no Brasil encontra-se decadente, pressionado por problemas políticos, por uma crise monetário-financeira – que aumenta com a libertação dos escravos –, e pelos ideais abolicionistas e republicanos. O Espírito Santo vê sua economia adquirir nova dinâmica, com sua reinserção nas linhas do comércio internacional. Justo nessa década, o porto de Vitória passa a enviar diretamente para o exterior o café produzido nas colônias de Santa Isabel, Santa Leopoldina, Santa Teresa e Alfredo Chaves. Ainda é exportada pelo Rio de Janeiro a produção cafeeira de fazendas e pequenas propriedades dos vales do Itapemirim e do Itabapoana. Nos anos 1880, mal­grado a grande depressão por que passa a economia mundial, o comércio da rubiácea traz certa prosperidade para o Brasil e para a província capixaba. Na visita de 1886-1887, D. Lacerda ouve em Cachoeiro de Itapemirim os primeiros apitos de trem em terras capixabas, e tem uma reação típica de ultramontano desconfiado, e até descrente, do progresso: “Nesta Freguesia [Cachoeiro de Itapemirim] trata-se de começar uma estrada de ferro, e já se inauguraram os trabalhos a 6 de Janeiro [de 1886] e veio o Presidente da Pro­víncia. Eu não fui ver. Dizem alguns que será a morte desta Vila, não porém de seus Fazendeiros. Não é comigo”.</p>
<p>Um balanço pormenorizado dessas visitas pastorais, que não cabe aqui neste estudo, implica consultar documentos eclesiásticos e oficiais, jornais da Corte e da província, tanto da oposição quanto da situação, e outras fontes histo­riográficas pertinentes. Mas convém adiantar que o presidente da província, Marcelino de Assis Tostes, destaca a visita de D. Lacerda no relatório de março de 1881, na parte denominada “Culto Público”, na qual faz também os registros usuais das carências religiosas, e enfatiza as qualidades do prelado como pastor de almas. Já o presidente da província Antônio Joaquim Rodrigues não cita a presença do bispo em visita pastoral pelo Espírito Santo no relatório que apresenta à Assembleia Provincial em 1886, também na parte que trata do “Culto Público”, em que ressalta as reiteradas lamentações sobre a precariedade dos objetos de culto, a falta de sacerdotes e de dinheiro para reparos e construções de matrizes etc<span id="EETP_RP32V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP32" title="Relatório apresentado à Assembleia Legislativa da Província do Espírito Santo em sua sessão ordinária de oito de março de 1881 pelo presidente da província exmo. sr. dr. Marcelino de Assis Tostes, Vitória, Tip. Gazeta da Vitória, 1881, p. 30-2; e Relatório apresentado à Assembleia Legislativa Provincial do Espírito Santo pelo presidente da província Antonio Joaquim Rodrigues em cinco de outubro de 1886, Vitória, Tip. Espírito-Santense, 1886, p. 19."><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a></p>
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<p>As duas visitas pastorais de D. Pedro Maria de Lacerda à província do Es­pírito Santo têm roteiros bem distintos. A primeira dura dez meses, como ele próprio declara no relatório de 1886-1887, e abrange a região contígua à capital capixaba e vasto território que lhe fica ao norte. Começa em junho de 1880<span id="EETP_RP33V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP33" title="Relatório apresentado à Assembleia Legislativa em março de 1881 pelo presidente da província Marcelino de Assis Tostes, op. cit., p. 30: 'Culto Público – Abro este capítulo dando-vos a grata notícia, de que se acha em viagem apostólica pela Província, desde Junho do ano passado, o nosso preclaro e virtuoso Prelado o Exmo. Sr. D. Pedro de Lacerda'."><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a> e compreende Vitória, Vila Velha, Serra, Nova Almeida, Fundão, Santa Cruz, Riacho, Linhares, com navegação Rio Doce acima até o povoado de Guandu e a divisa com Minas Gerais, e termina em março de 1881, após retorno pelas vilas litorâneas em que já estivera, para citar algumas freguesias e locais que assistem à passagem do bispo. O relatório respectivo principia com a expressão “Terceira Visita Geral (continuação)”, já que as duas primei­ras tiveram lugar na província do Rio de Janeiro em 1874-1875 e em 1876<span id="EETP_RP34V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP34" title="D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 321-83."><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a> Ele está incompleto, pois abrange somente o trecho da Serra até Barra do Saí, percorrido do dia 14 de julho a 11 de novembro de 1880, quando sabemos que ele chega ao Espírito Santo no mês de junho, certamente por Vitória e, a 3 de julho, está no Convento da Penha, em Vila Velha<span id="EETP_RP35V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP35" title="Cf. seu próprio comentário registrado no trecho correspondente ao dia 28 de setembro de 1880, quando está em Santa Cruz; e Norbertino Bahiense, O Convento da Penha, um templo histórico, tradicional e famoso – 1534 a 1951, Vitória, Escola Técnica de Vitória, 1951, p. 95."><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a> Talvez ainda exista a parte inicial do relatório, elaborada algum tempo depois dos fatos acontecidos, conforme declara o próprio D. Lacerda nos registros de sua passagem por Nova Almeida. Faltam os apontamentos relativos a meados de novembro de 1880 a março de 1881, correspondentes à porção final do rela­tório. Tudo indica que o bispo não os fez, conforme seu lamentoso registro logo no início do relatório da visita de 1886-1887: “Muito sinto que até hoje eu não tenha podido achar tempo, vagar e tempo para continuar as notícias da Visita [de 1880-1881], que ficaram suspensas nas Três Ilhas perto de Linhares”. Outros indícios concorrem para reforçar a constatação de que tais apontamentos nunca existiram. O primeiro consiste nas diversas referências que no relatório da visita de 1886-1887 D. Lacerda faz à região do Rio Doce, como forma de compensar o que não escrevera na estada anterior. Outro indício, de natureza mais objetiva, consta nos rascunhos elaborados por D. Lacerda no decorrer da visita de 1880-1881, com informações a serem transcritas para o relatório final<span id="EETP_RP36V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP36" title="Os originais desses rascunhos e dos relatórios das duas visitas pastorais de D. Lacerda ao Espírito Santo estão no Arquivo da Cúria Metropolitana de Vitória."><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a> O bispo, além de ter <i>guardado </i>tais rascunhos,<i> não riscou</i> (ou não anulou, como queiram) as informações neles existentes a partir do dia 19 de novembro de 1880 em que justamente chega às “Três Ilhas perto de Linhares”; ao contrário do que fez com as já utilizadas no relatório definitivo. E como o documento que registra a visita de 1880-1881 se interrompe no início do dia 11 de novembro, talvez ainda exista em algum arquivo o pequeno trecho desse relatório correspondente ao resto daquele dia até 18 de novembro de 1880, período em que o prelado está na freguesia do Riacho, segundo seus rascunhos.</p>
<p>Já a segunda visita pastoral ao Espírito Santo, que dura 13 meses e meio, percorre extensão de terras ao sul da província capixaba. Começa em 14 de fevereiro de 1886 quando o bispo parte da Corte e chega no dia seguinte a Itapemirim. Depois inclui Piúma, Benevente (atual Anchieta), Guarapari, Alfredo Chaves, Cachoeiro de Itapemirim, Castelo, Conceição do Castelo (que ele chama de Afonsino, do nome do extinto aldeamento imperial), Rio Pardo (atual Iúna), arraial do Espírito Santo (depois Espírito Santo do Rio Pardo, atual Muniz Freire), Alto Guandu (hoje Afonso Cláudio), Alegre, Vala do Souza (Jerônimo Monteiro dos nossos dias), e se encerra em Itapemirim em 27 de março de 1887, com chegada à Corte no dia seguinte. D. Lacerda procura manter atualizado seu diário, e menciona em seus apontamentos o envio a <i>O Apóstolo</i> de resumo da visita de 1886-1887: “Apenas vão lista dos lugares visitados, e número de crismados, confessados, casados etc.”.</p>
<p>A história comparada, já disseram, é a “vara de condão” dos historiadores que, de hoje em diante, terão duas fontes de consulta muito ricas para fazerem seus paralelos. A primeira, os apontamentos de D. José Caetano da Silva Coutinho referentes às visitas pastorais de 1812 e 1819-1820<span id="EETP_RP37V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP37" title="D. José Caetano da Silva Coutinho, O Espírito Santo em princípios do século XIX – apontamentos feitos pelo bispo do Rio de Janeiro quando de sua visita à capitania do espírito Santo nos anos de 1812 e 1819, transcrição do original e coordenação da edição por Maria Clara Medeiros Santos Neves e estudo introdutório de Luiz Guilherme Santos Neves, Vitória, Estação Capixaba e Cultural-ES, 2002."><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a> elaborados numa época em que a dominação portuguesa sobre sua colônia americana se encaminha para o final e a religião católica possui feição regalista e iluminista. A segunda fonte, estes relatórios de D. Pedro Maria de Lacerda, escritos no momento em que a nação brasileira assiste ao término do regime monárqui­co e o catolicismo assume características reformistas e ultramontanas. Neste sentido, convém assinalar somente uma circunstância que diferencia as visitas pastorais dos dois antístites. As visitas ao Espírito Santo realizadas por D. José Caetano da Silva Coutinho duram cerca de um mês e meio cada uma, ao contrário daquelas levadas a efeito em 1880-1881 (dez meses) e 1886-1887 (13 meses e meio) por D. Pedro Maria de Lacerda, que se deixa ficar por muito mais tempo na província. As comunicações já estão bem melhores do que no início do século XIX, devido à navegação a vapor, ao telégrafo, ao serviço regular de correios, às estradas de ferro e a outros fatores. D. Lacerda exerce o poder a partir de onde se encontra, ao receber e expedir informações e documentos de sua competência. No interior, mesmo bravio, mantém contato com a realidade exterior – no decorrer das visitas pastorais toma conhecimento e comenta questões ligadas à Igreja, à sua diocese. Sabe o que está acontecendo no país e no exterior – o Rio de Janeiro e Roma estão ao seu alcance, quase que imediato. E, com isso, prolonga suas visitas – permanece mais perto de seu rebanho e mais distante das intrigas da Corte. Um fator que pode ter contribuído para o bispo demorar-se em terras capixabas na visita de 1886-1887, até declarado explicitamente no relatório, é o receio da epidemia de febre amarela que grassava na província fluminense, doença que tinha ceifado a vida do seu querido padre Teles há poucos anos.</p>
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<p>Antigo professor de geografia em Mariana, D. Pedro Maria de Lacerda se esforça por estabelecer um “mapa” da presença católica na parte da diocese que visita. Descreve as vilas e povoados percorridos e a natureza circundante. E, para cumprir com uma obrigação sua, procura estabelecer divisas entre as freguesias. Não se esquece de observar os acidentes naturais e contemplar as belezas da terra, reiteradas vezes registradas com admiração. Preocupa-se com a destruição do ambiente natural e nisso sua postura é atualíssima. Tem o cuidado de registrar manifestações e costumes religiosos, civis e oficiais, desde as circunstâncias da sua despedida da Corte, quando inicia a segunda visita pastoral ao Espírito Santo, até as reações das pessoas ao recebê-lo e cumprimentá-lo nas vilas, arraiais e fazendas do interior capixaba. Cioso de sua autoridade, e para assinalar a religiosidade e a organização do povo, o bispo observa se as pessoas vêm saudá-lo ajoelhadas, em pé, ou montadas a cavalo, de chapéu na cabeça ou com ela descoberta, como estão vestidas, e quantos foguetes são atirados ao entrar ou passar por vilas, povoados, fazendas… Deus (ou o diabo?) está nos detalhes.</p>
<p>Seu texto está perpassado de angústia – debate-se entre o catolicismo que julga “ideal’ para o país, bem próximo das determinações emanadas de Roma, e o catolicismo “real” praticado pelos fiéis, exteriorizado e nominal. A distância entre um e outro é ocupada por grande abismo que os sofrimentos do bispo não bastam para preencher. Chega a registrar, em algumas passagens, problemas com os fiéis, advindos de incompreensões mútuas: “O pior é que depois houve quem se zangasse e dissesse que eu tinha chamado de porcas a todas as mulheres de Itapemirim!”. Em diversas passagens refere-se a rixas dele e dos padres com fiéis sobre questões de pagamento pela administração dos sacramentos.</p>
<p>Demonstra grande amor por José de Anchieta, de quem já menciona a existência de imagem. Em trechos destes diários, ressalta a figura do jesuíta e registra os esforços para reformar a cela junto à matriz de Assunção na então vila de Benevente, local em que se acredita ele tenha morrido. Em diversas oportunidades, pudemos contemplar uma placa em metal, afixada ao lado da porta de entrada desse cômodo, com dizeres em latim e em português, bem reveladores da passagem marcante de D. Lacerda pela localidade. Os termos em português, com a grafia atualizada, são os seguintes: “Quando aqui outrora, em santa morte, voava para o céu Anchieta, o herói máximo do Brasil, a gente brasílica chorou inconsolável a perda do grande pai, alegrou-se a corte celeste com o novo eleito. Tu, porém ó Reritiba, minúscula, embora, entre as terras tuas irmãs, exulta agora, porque resplendes com uma nova honra. Graças ao zelo e magnanimidade de Pedro, Bispo, levanta-se da longa escuridão dos tempos a humilde cela aonde exalou o último suspiro o amável Anchieta, que te amou sempre com dedicação extrema. Ano do Senhor 1886”<span id="EETP_RP38V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP38" title="Emiliana Gonçalves, Anchieta, cidade dos sonhos, Vitória, [s. n.], 1996, p. 24."><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a> Dizeres elaborados pelo Bispo Pedro? A placa não se encontra mais naquele local.</p>
<p>Essas iniciativas tinham o propósito de chamar a atenção dos fiéis e visitan­tes para a importância das ações evangelizadoras do Apóstolo do Brasil, e mesmo seu papel “civilizador”. O padre Adwalter Carnielli informa textu­almente: “Em 1887, um pedido do Bispo do Rio de Janeiro, Dom Pedro Maria de Lacerda, ao Imperador Dom Pedro II, fez com que fosse elevada à cidade com o nome de Anchieta” a antiga vila de Benevente<span id="EETP_RP39V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP39" title="Adwalter Antônio Carnielli, op. cit., p. 71."><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a> Referido religioso nos assegurou não se lembrar de que fonte documental obteve essa informação, mas a tem como certa. O que é de todo provável, pois logo em 1887, por meio de lei provincial, ocorreu a mudança do nome e da categoria daquele núcleo urbano<span id="EETP_RP40V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP40" title="Emiliana Gonçalves, op. cit., p. 37."><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a> Tal providência revela-se, com o passar dos anos, uma honrosa distinção para os capixabas.</p>
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<p>D. Lacerda considera que, nessas visitas, exerce uma missão, além de cate­quética, civilizadora. Cumpre com coerência sua missão de líder ultramontano e nos proporciona uma visão “por dentro” da Igreja. No seu modo de entender, encontra na província capixaba um rebanho decadente, por não observar práticas religiosas adequadas ao serviço de Deus. Combate livros e panfletos protestantes, dando seus ataques “educativos” – rasga-os, atira-­os ao chão, os pisoteia, cospe neles. E destrói imagens que, a seu julgar, os fiéis podem confundir com ídolos. Procura apoio dos potentados locais para as construções e reformas de templos que eram necessárias. Nesse aspecto, como em outros, não costuma transigir – prefere que uma edificação não seja terminada a vê-la fora dos padrões que julga convenientes à prática correta do culto. Do seu ponto de vista, depara-se com uma população cheia de crendices, de superstições, de relaxamento nas práticas religiosas pela falta de padres ou, o que mais teme, pela presença de sacerdotes não sujeitos à sua autoridade ou aos ideais que comunga. Com veemência semelhante à que emprega para atacar os maçons, investe contra certos missionários italianos, por considerá-los inadequados à missão da Igreja.</p>
<p>Exige o cumprimento da liturgia e se apega a detalhes ritualísticos que hoje em dia seriam considerados mero formalismo – por exemplo, no que diz respeito a batizados ou casamentos –, mas não mantém muitas ilusões a esse respeito por conhecer a pobreza e a ignorância das pessoas. Chegam a ser emocionantes os testemunhos que proporciona sobre a devoção do povo. Como não poderia deixar de ser, registra o antigo apego fervoroso dos capixabas a Nossa Senhora da Penha. Por saber seu rebanho iletrado, impressionável, devoto, usa a pregação, a oralidade, em lugar da palavra escrita. Tenta convencer pela palavra – registra às vezes a reação emotiva dos ouvintes. E, mesmo durante as visitas, prossegue com o trabalho doutrinário e difusor do catolicismo junto a seus fiéis, e não descura de preparar o calendário religioso da diocese e redigir pastorais. É rigoroso com todos e, sobretudo, consigo mesmo, e procura disciplinar o clero a ele subordinado. Em 24 de setembro de 1886, lança no papel o seguinte registro: “Faz hoje 18 anos que Pio IX me confirmou em Bispo deste Bispado! Há 18 anos sou Bispo, mas que Bispo? Bispo além de indigno, inepto e incapaz! Valha-me Jesus Cristo!”. Apesar desse autojulgamento pessimista, sua atividade episcopal rende frutos – boa parte da feição institucional e da ação catequética que o catolicismo brasileiro assume na Primeira República, e mesmo depois, resulta dessa po­lítica compartilhada por D. Lacerda. Morto bem no início do novo regime, ele não assiste à Igreja auferir grandes benefícios materiais e institucionais após separar-se do Estado. E essa não é outra história, mas a mesma que continua e já desperta o interesse da academia. Por vezes, o prelado utiliza a ironia – quando deixa o calorento Alegre e chega a uma fazenda com nome de Paraíso, situada em local mais alto e aprazível, escreve: “Enfim eis-me no Paraíso. […] A minha enxaqueca aqui me fez ver bem que este Paraíso aqui é só de nome”. E gosta de consumir um bom rapé, e não “amostrinha”, como informa no relatório da visita de 1880-1881.</p>
<p>Nosso bispo mostra-se regalista e, em especial, legalista, no sentido de se­guir com rigor as leis da Igreja e do Império. Nestes textos não é difícil inferir suas simpatias por posições ou aficionados do Partido Conservador, no que se mantém fiel às posturas religiosas e doutrinárias que adota; mas também neles se observa facilmente que procura manter-se equidistante ou bem acima das facções políticas, sobretudo locais, de modo a exercer com independência seu ministério episcopal. Por ser ultramontano, não admite a prevalência do poder civil sobre o religioso. Ao contrário, luta para que o poder da religião católica sempre predomine na sociedade. Guarda coerência com essa posição e, assim, reconhece somente o casamento religioso sem o qual, segundo pensa, o casal está em mancebia. Vive uma contradição – vincula-se ao poder temporal e, ao mesmo tempo, acha-se por ele manietado. Nem sequer pode preencher as vagas de pároco nas freguesias (ou seja, prover canonicamente aquelas criadas pela instância civil) por absoluta falta de religiosos, cuja formação o governo imperial dificulta. Suas observações a esse respeito revelam-se constantes na visita de 1886-1887 e mostram, além do surdo protesto do bispo, a inviabilidade da continuação do regime do padroado. No caso capixaba, a população aumenta muito com a imigração incentivada pelo governo, e o número de sacerdotes sempre fica aquém das necessidades.</p>
<p>Em certo sentido, D. Lacerda é um viajante que passa pela província com olhar “estrangeiro”, considerada sua formação lazarista e romanizada. Mas sua alma é brasileira, evidentemente: sente-se à vontade na divisa Espírito Santo-Minas Gerais por estar perto da realidade que conhece tão bem. A partir das indicações dos seus textos, somente listamos alguns temas dos inúmeros possíveis de servirem para o conhecimento da realidade capixaba da década de 1880. Preciosas suas informações e pistas sobre nomes e condições das fazendas visitadas; os fazendeiros, escravos, libertos, imigrantes, sitiantes e suas famílias; os caminhos e percursos então existentes; a dinâmica de ocupação do solo capixaba; os costumes de moradores com quem teve contato; as diferenças entre pessoas pela condição social e as igualdades perante questões de saúde e de morte. Também D. Lacerda fornece indícios sobre a composição de grupos sociais, as funções das autoridades e até tendências políticas dos capixabas daquela época. Os usos e costumes que hoje são objeto de estudos de folclore, os nomes antigos dos locais (uns ainda se conservam, outros se perderam no tempo) constituem, do mesmo modo, fortes referências para os pesquisadores. Sem contar os acidentes naturais (rios ainda com nomes e cursos em discussão) que tenta localizar e comentar, sempre comparando com as cartas geográficas que tem à vista e nas quais aponta muitos erros. Fornece notícias sobre a proveniência de pessoas de Minas e do Rio; assim, estes relatórios servem tanto à história capixaba quanto à de outros lugares. Fala sobre os pioneiros de Piúma e de Alfredo Chaves, e descreve as casas dos colonos e sua situação financeira. Nos diversos territórios que pertenceram à grande Colônia do Rio Novo, já extinta então, indica as sessões coloniais com nomes femininos – Virgínia, Matilde, Carolina, Alexandrina (aliás, será mesmo que foram dados em homenagem às parentes de um engenheiro?). Enfim, percorre um Espírito Santo antigo, litorâneo (Vila Velha, Serra, Nova Almeida, Santa Cruz), e que em parte se renova (Itapemi­rim, Benevente, Guarapari, Vitória); assiste ao nascimento de um novo Espírito Santo, mais interiorano (Cachoeiro de Itapemirim e a primeira ferrovia em território capixaba, Alfredo Chaves e as colônias de imigrantes); e passa ao longo de um Espírito Santo que está quase todo no futuro (Linhares, a região do Rio Doce). Na questão dos limites com Minas Gerais, suas observações, favoráveis aos capixabas, documentam a expansão mineira rumo ao leste na região do antigo quartel e vila do Príncipe. E transcreve registros diversos (a maioria de dispensa de casamento) do século XVIII constantes em livros eclesiásticos de Guarapari, que provavelmente não mais existem, com informações que podem servir de pistas para pesquisas sobre temas variados.</p>
<p>No entanto, D. Lacerda gosta de confrontar costumes populares que julga indignos para um bom católico – em pleno Carnaval cachoeirense de 1886, menospreza a apresentação de alguns foliões e do zé-pereira, brincadeira carnavalesca de outrora, e pensa “que daí resultaria algum encontro com os atos da Visita, mas não”… E cultiva certa ingenuidade: considera que os maçons na província estão circunscritos a meia dúzia e que o protestantismo nunca fincará pé no Espírito Santo. Esse talvez o lado menos valioso do seu relato – quando se arvora em prever o futuro. Todavia, ao descrever e anotar o que ocorre naquele presente, dá um testemunho de primeira mão, muito valioso, e a partir de agora plenamente acessível ao público. Encerrando os registros da sua segunda visita pastoral ao Espírito Santo, o bispo escreve: “Domingo (da Paixão) 27 de Março 1887. Era este o último dia de minha Visita. […] Muito se fez, mas muito fica por fazer. […] Creio, porém que ainda tornarei a esta província”. Nunca mais voltou. Mas por meio da publicação destes apontamentos estará para sempre em “visita” ao Espírito Santo, ou me­lhor, presente na história capixaba na qual ingressa para não mais sair.</p>
<p>A Igreja Católica permanece fortemente marcada por tradições monár­quicas do Antigo Regime. Quando da sagração, um novo bispo recebe brasão de armas, que traz curta sentença, síntese da sua missão. O autor destes relatórios escolheu como divisa o final do salmo 119, 74: <i>in verba tua supersperavi</i>. Com vistas ao enriquecimento da historiografia capixa­ba, a frase do salmista, inscrita no brasão episcopal, também resume a confiança depositada nesta obra de D. Pedro Maria de Lacerda: <i>espero em tua palavra</i>.</p>
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Vitória, dia de Santa Luzia, 2011.</div>
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</div>
<div style="text-align: right;">
Fernando Antônio de Moraes Achiamé</div>
<div style="text-align: right;">
Do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo</div>
<div style="text-align: right;">
Pesquisador-associado do Neples/Ufes
</div>
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<h4>
NOTAS</h4>
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<div id="EETP_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Guilherme Santos Neves, <i>Coletânea de estudos e registros do folclore capixaba 1944-1982</i>, Vitória, Centro Cultural de Estudos e Pesquisas do Espírito Santo, 2008, v. 2, p. 256.</div>
<div id="EETP_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, v. 1, p. 120. Nos dois volumes da obra constam alguns daqueles artigos.</div>
<div id="EETP_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Maria Stella de Novaes, <i>História do Espírito Santo</i>, Vitória, FEES, [197-].</div>
<div id="EETP_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Renato Pacheco, “Os ‘diários’ de D. Pedro”, in <i>Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo</i>, Vitória, n. 45, 1995, p. 93-98.</div>
<div id="EETP_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Adwalter Antônio Carnielli, <i>História da Igreja Católica no Estado do Espírito Santo – 1535-2000</i>, Vila Velha, Comunicação Impressa, 2000.</div>
<div id="EETP_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Disponível em: &lt;www.planalto.gov.br&gt;, acesso em: 2 dez. 2011.</div>
<div id="EETP_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Dicionário Eletrônico Houaiss</i>, versão 1.0, Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.</div>
<div id="EETP_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;Eric Hobsbawm, <i>A era do capital – 1848-1875</i>, 15 ed., São Paulo, Paz e Terra, 2009, p. 172-3; e Roque Spencer M. de Barros, “Vida Religiosa”, in <i>História geral da civilização brasileira</i>, v. 6, São Paulo, Difel, 1974, p. 325-6.</div>
<div id="EETP_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Augustin Wernet, <i>A igreja paulista no século XIX – a reforma de D. Antônio Joaquim de Melo (1851-1861)</i>, São Paulo, Ática, 1987, p. 89 e passim.</div>
<div id="EETP_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Inocêncio Francisco da Silva, <i>Diccionario Bibliographico Portuguez</i>, v. 10, Lisboa, Imprensa Nacional, 1883, p. 312-3.</div>
<div id="EETP_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, <i>Diccionario Bibliographico Brazileiro</i>, v. 4, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1898, p. 193-5</div>
<div id="EETP_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;Antônio Alves F. dos Santos, <i>A Archidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro</i>, Rio de Janeiro, Leuzinger, 1914, apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., D. Pedro Maria de Lacerda, último bispo do Rio de Janeiro no Império (1868-1890), Rio de Janeiro, Lumen Christi, 1987, p. 30.</div>
<div id="EETP_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, p. 42.</div>
<div id="EETP_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, p. 44.</div>
<div id="EETP_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 47.</div>
<div id="EETP_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, p. 57-63.</div>
<div id="EETP_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, <i>Diccionario Bibliographico Brazileiro</i>, v. 7, Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1902, p. 54-6; D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 142-4.</div>
<div id="EETP_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., passim.</div>
<div id="EETP_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Existe no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, segundo D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 583, um documento em bom estado com o título de <i>Relatório das missões dadas pelos PP. da Congregação da Missão na Província do Espírito Santo</i>. Ano 1875, dirigido a D. Lacerda e assinado pelo padre Sisson, diretor das Missões de São Vicente de Paulo. D. Lemos transcreve em sua obra trechos extensos dos relató­rios do bispo do Rio de Janeiro nas visitas pastorais que fez na província fluminense em 1874-1875 e 1876.</div>
<div id="EETP_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 55.</div>
<div id="EETP_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 54, 56; e D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 278 e 571.</div>
<div id="EETP_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 126 e 415-36.</div>
<div id="EETP_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, p. 201.</div>
<div id="EETP_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 200-220 e passim.</div>
<div id="EETP_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp;D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464-5, informa que Pandiá Calógeras registra o episódio na obra <i>Formação histórica do Brasil</i>, com base em informação do historiador Capistrano de Abreu. A passagem é reproduzida de forma simplificada em Adriana Lopes e Carlos Guilherme Mota, <i>História do Brasil, uma interpretação</i>, São Paulo, Ed. SENAC, 2008, p. 528, a frase sendo dita por D. Lacerda ao saber a família imperial detida no Paço da Cidade. D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464-5, considera a passagem inverossímil, por à época o bispo estar acamado… No entanto, essa circunstância não o impedia de meditar e pronunciar tais palavras ao tomar conhecimento do fato.</div>
<div id="EETP_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 464.</div>
<div id="EETP_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Augusto Vitorino Alves Sacramento Blake, 1902, op. cit., p. 54.</div>
<div id="EETP_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 129.</div>
<div id="EETP_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>O Apóstolo</i> de 14/7 e 20/10/1889; e Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 466-8.</div>
<div id="EETP_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;Antônio Alves F. dos Santos, op. cit., apud D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 466-7, 518-9, 526.</div>
<div id="EETP_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP31V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a>&nbsp;Christiano Woelffel Fraga, <i>Maçonaria no Espírito Santo – Aug. Resp. Ben. e Benf. Loja União e Progresso</i>, Vitória, [s. n.], [1995], p. 103-9.</div>
<div id="EETP_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP32V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Relatório apresentado à Assembleia Legislativa da Província do Espírito Santo em sua sessão ordinária de oito de março de 1881 pelo presidente da província exmo. sr. dr. Marcelino de Assis Tostes</i>, Vitória, Tip. Gazeta da Vitória, 1881, p. 30-2; e <i>Relatório apresentado à Assembleia Legislativa Provincial do Espírito Santo pelo presidente da província Antonio Joaquim Rodrigues em cinco de outubro de 1886</i>, Vitória, Tip. Espírito-Santense, 1886, p. 19.</div>
<div id="EETP_RP33">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP33V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Relatório apresentado à Assembleia Legislativa em março de 1881 pelo presidente da província Marcelino de Assis Tostes</i>, op. cit., p. 30: “Culto Público – Abro este capítulo dando-vos a grata notícia, de que se acha em viagem apostólica pela Provín­cia, desde Junho do ano passado, o nosso preclaro e virtuoso Prelado o Exmo. Sr. D. Pedro de Lacerda”.</div>
<div id="EETP_RP34">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP34V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a>&nbsp;D. Jerônimo de Lemos, O.S.B., op. cit., p. 321-83.</div>
<div id="EETP_RP35">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP35V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a>&nbsp;Cf. seu próprio comentário registrado no trecho correspondente ao dia 28 de setembro de 1880, quando está em Santa Cruz; e Norbertino Bahiense, <i>O Convento da Penha, um templo histórico, tradicional e famoso – 1534 a 1951</i>, Vitória, Escola Técnica de Vitória, 1951, p. 95.</div>
<div id="EETP_RP36">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP36V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a>&nbsp;Os originais desses rascunhos e dos relatórios das duas visitas pastorais de D. La­cerda ao Espírito Santo estão no Arquivo da Cúria Metropolitana de Vitória.</div>
<div id="EETP_RP37">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP37V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a>&nbsp;D. José Caetano da Silva Coutinho, <i>O Espírito Santo em princípios do século XIX – apontamentos feitos pelo bispo do Rio de Janeiro quando de sua visita à capitania do espírito Santo nos anos de 1812 e 1819</i>, transcrição do original e coordenação da edição por Maria Clara Medeiros Santos Neves e estudo introdutório de Luiz Guilherme Santos Ne­ves, Vitória, Estação Capixaba e Cultural-ES, 2002.</div>
<div id="EETP_RP38">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP38V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a>&nbsp;Emiliana Gonçalves, <i>Anchieta, cidade dos sonhos</i>, Vitória, [s. n.], 1996, p. 24.</div>
<div id="EETP_RP39">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP39V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a>&nbsp;Adwalter Antônio Carnielli, op. cit., p. 71.</div>
<div id="EETP_RP40">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/espero-em-tua-palavra/#EETP_RP40V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a>&nbsp;Emiliana Gonçalves, op. cit., p. 37.</div>
<div>
</div>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Fernando Achiamé&nbsp;</b>nasceu em Colatina, ES, em 22/02/1950 e fixou-se em Vitória a partir de 1955. Formado em história pela Universidade Federal do Espírito Santo e em língua e literatura francesas pela Universidade de Nancy II (Pela Aliança Francesa do Brasil). Especialista em arquivos pela Ufes. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Fernando%20Achiam%C3%A9" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<div>
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		<title>Roteiro das visitas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 19:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[D. Pedro Maria de Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Com base nos registros dos Diários das duas visitas e também nos rascunhos do bispo (1880-1881), pudemos estabelecer os roteiros que aqui apresentamos. No entanto é importante frisar que, pelo fato de o bispo não ter procedido a todas as anotações, e também de se terem extraviado aquelas referentes a Vitória e Vila Velha, este [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Com base nos registros dos <i>Diários </i>das duas visitas e também nos rascunhos do bispo (1880-1881), pudemos estabelecer os roteiros que aqui apresentamos. No entanto é importante frisar que, pelo fato de o bispo não ter procedido a todas as anotações, e também de se terem extraviado aquelas referentes a Vitória e Vila Velha, este roteiro fica em parte comprometido. No caso de 1880-1881 constatamos, através dos rascunhos, que o bispo deixou de passar a limpo as anotações relativas ao período de 12 de novembro de 1880 a 24 de março de 1881.</p>
<p>Ao estabelecer os roteiros, adotamos como critério mencionar apenas aqueles locais em que o bispo efetivamente permaneceu, mesmo que por um dia, procedendo aos rituais de uma típica visita episcopal: celebração de missas, crismas, batizados etc.</p>
<p><b>1880</b></p>
<p>Em 20 de julho o bispo diz, quando ainda se encontrava na Serra, que “Todo aquele numeroso povo se ajoelhava para cantar o Bendito em bela solfa semelhante à da Vitória…” deixando clara sua passagem, em data anterior, por Vitória.</p>
<p><i>14 de julho</i> – Serra: “À 1 hora da tarde deste dia chegávamos à Cidade da Serra…”</p>
<p><i>17 de agosto</i> – São José do Queimado (Serra): “montamos a cavalo e seguimos para a próxima Freguesia de S. José do Queimado […] entramos pela povoação cujos poucos habitantes estavam à porta e janela por curiosidade…” “A chuva passou e pudemos sem ela montar a cavalo, e regressar para a Serra.”</p>
<p><i>18 de agosto</i> – Nova Almeida (Serra): “Já ficou dito quão alegre estava o espírito de todos no momento da chegada a esta Vila.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>14 de setembro</i> – Fundão: “Já quase no porto do Fundão fiz parar um pou­co minha canoa para esperar as outras, e daí a pouco abicávamos no desejado porto do Fundão.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>20 de setembro</i> – Nova Almeida (Serra): “Desembarcamos às 6h 35 da tar­de já com chuvisco que foi engrossando a pouco…”<br />
<i><br /></i><br />
<i>28 de setembro</i> – Santa Cruz (Aracruz): “Daqui a pouco estávamos em S. Cruz.”</p>
<p><i>15 de outubro</i> – Fazenda Santa Rosa (do Sr. Marins, no Cachoeirinho): “Apenas chegamos logo desceu à praia o Sr. Marins e filhos…”</p>
<p><i>23 de outubro </i>– Cachoeirinho: “Pelas 10 horas mais ou menos chegamos ao Cachoeirinho e nos apeamos à porta da Igreja.”</p>
<p><i>25 de outubro</i> – Santa Cruz (Aracruz): “No pouco tempo de 1 quarto de hora isto é às 3h e poucos minutos desembarcávamos…”<br />
<i><br /></i><br />
<i>11 de novembro</i> – Riacho (Aracruz): “Na margem esquerda estavam uns 20 cavaleiros da pequena Freguesia do Riacho, que me esperavam, havendo atirado no ar vários foguetes.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>15 de novembro</i> – Regência (Linhares): “Chegou-se (com b[om] grado) 11:30.” [Rascunho]</p>
<p><i>18 de novembro</i> – Povoação (Linhares): “Parada na Povoação.”; Três Ilhas e Linhares. [Rascunho]</p>
<p><i>30 de novembro</i> – Baixo Guandu: “Vim a Guandu por uma ótima estrada pelo mato.” [Rascunho]<br />
<i><br /></i><br />
<i>6 de dezembro</i> – Minas Gerais. [Rascunho]<br />
<i><br /></i><br />
<i>9 de dezembro</i> – Baixo Guandu. [Rascunho]<br />
<i><br /></i><br />
<i>17 de dezembro</i> – Linhares. [Rascunho]</p>
<p><b>1881</b></p>
<p><i>14 de janeiro</i> – Povoação (Linhares). [Rascunho]<br />
<i><br /></i><br />
<i>23 de janeiro</i> – Riacho (Aracruz). [Rascunho]</p>
<p><i>22 de fevereiro</i> – Lagoa do Aguiar (Linhares). [Rascunho]</p>
<p><i>5 de março</i> – Riacho (Aracruz). [Rascunho]</p>
<p><i>15 de março</i> – Santa Cruz (Aracruz). [Rascunho]<br />
<i><br /></i><br />
<i>18 de março</i> – Nova de Almeida (Serra): “Todos me acompanharam até Almeida.” [Rascunho]</p>
<p><i>19 de março</i> – Serra. [Rascunho]</p>
<p><b>1886</b></p>
<p><i>15 de fevereiro</i> – Itapemirim: “Enfim lá está Itapemirim!”</p>
<p><i>2 de março</i> – Cachoeiro de Itapemirim: “Enfim chegamos à Vila de S. Pedro dos Cachoeiros de Itapemirim; foi pena ser ao entrar da noite…”</p>
<p><i>17 de março</i> – Fazenda Monte Líbano (do Capitão Francisco de Souza Mon­teiro, em Cachoeiro de Itapemirim): “Junto aos arcos viam-se os escravos da Fazenda de joelhos e como em linhas de atiradores de um e outro lado. Pas­samos pelo meio e a todos eu ia lançando a bênção. Foi pena ser já entrada a noite.”</p>
<p><i>13 de abril</i> – Itapemirim: “Eram 11 horas da noite mais ou menos quando chegamos à Vila de Itapemirim.”</p>
<p><i>16 de abril</i> – Piúma: “Já de longe avistávamos a frente da Capela de Piúma […] Entramos (eram 11h e 50’ minutos) [e] tratamos de atracar no trapiche.”; Anchieta (antes Benevente): “Lá está Benevente, a antiga Reritiba!”; Anchie­ta: “Desembarquei e os Padres [em Benevente].”<br />
<i><br /></i><br />
<i>10 de maio</i> – Guarapari: “Nunca me hei de esquecer de minha chegada a Guarapari.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>10 de junho</i> – Anchieta: “Pelas dez horas do dia atracamos na praia de Be­nevente pertinho do cais do Imperador.”</p>
<p><i>17 de junho</i> – Alfredo Chaves: “às 5h da tarde abicávamos ao porto de de­sembarque no tão falado Alfredo Chaves…”</p>
<p><i>3 e 4 de julho</i> – Nova Mântua e São João (Alfredo Chaves).</p>
<p><i>8 de julho</i> – Fazenda de Feliciano Antunes (em Anchieta).</p>
<p><i>11 de julho</i> – Anchieta: “De terra soltaram 2 ou 3 dúzias de foguetes e atracou a canoa não no Cais do Imperador, mas defronte de um pequeno beco quase defronte da porta da casa de nossa residência, que é a mesma das outras vezes.”</p>
<p><i>24 de julho</i> – Itapemirim: “Eram pois 11h 15’ da manhã quando chegamos à barra do Rio Itapemirim”.</p>
<p><i>31 de julho</i> – Fazenda Monte Líbano: “Eis-nos outra vez na casa do bom Capitão Francisco de Souza Monteiro: Fazenda do Monte Líbano.”</p>
<p><i>10 de agosto</i> – Fazenda da Independência (do Sr. Mateus Vieira Machado, em Castelo): “quase às 4 horas chegamos à Fazenda chamada da Indepen­dência…”<br />
<i><br /></i><br />
<i>11 de agosto </i>– Fazenda dos Alpes (do Sr. Agostinho e D. Violante, em Cas­telo).</p>
<p><i>23 de agosto</i> – Iúna (antes São Pedro de Alcântara do Rio Pardo): “Apeamo­-nos e alguns senhores se mostravam muito contentes de verem aqui o Bis­po…”</p>
<p><i>7 de setembro</i> – Fazenda de Joaquim Antônio Dias (Iúna).</p>
<p><i>8 de setembro</i> – Afonso Cláudio (antes São Sebastião do Alto Guandu): “às 5h 25 começamos a entrar na povoação de S. Sebastião do Guandu…”<br />
<i><br /></i><br />
<i>21 de setembro</i> – Fazenda da Boa Vista (do Sr. Manoel Fernandes Moura, em Afonso Cláudio): “Às 6 horas e 10 minutos da tarde apeávamo-nos na Fazenda da Boa Vista…”<br />
<i><br /></i><br />
<i>22 de setembro</i> – Afonsino (hoje Conceição do Castelo): “Antes de chegar­mos subiram ao ar alguns foguetes, repicaram os sinos…”<br />
<i><br /></i><br />
<i>27 de setembro</i> – Fazenda dos Alpes: “Enfim chegamos tendo feito em 2h ¾ as três léguas que há do Afonsinho aos Alpes…”</p>
<p><i>1º de outubro</i> – Fazenda da Povoação (de D. Lina Laudegária Vieira de Souza, no Castelo): “Fazenda da Povoação de D. Lina, e aqui chegamos em pouco tempo, porque distará apenas uma meia légua.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>2 de outubro</i> – Fazenda do Pensamento (do Sr. João Vieira, no Castelo): “Era pois já noite quando chegamos. O bom Sr. João Vieira desceu abaixo para receber-me.”</p>
<p><i>4 de outubro</i> – Muniz Freire (antes Arraial do Espírito Santo): “Chegamos às 6 h 40’. Poucos foram os foguetes soltados; bastantes os repiques…”</p>
<p><i>16 de outubro</i> – Iúna: “À 1h 55’ tínhamos à frente no alto de um monte o cemitério do Rio Pardo…”</p>
<p><i>5 de novembro</i> – Arraial de N. Sra. da Penha de S. Cruz do Rio Pardo (Iúna): “pelas 3h 40’ chegávamos ao pequeno Arraial de S. Cruz do Rio Pardo.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>12 de novembro</i> – Fazenda do Espírito Santo (de Joaquina Inácia): “À 1h 45 atravessamos o córrego da Fazenda do Espírito Santo, e às 2h justas em meu relógio eu de um pequeno alto avistei o famoso Rio José Pedro, e logo a Fazenda…”<br />
<i><br /></i><br />
<i>13 de novembro</i> – Quartel do Príncipe (Iúna): “Não havia dúvida, estáva­mos no antigo Quartel da Vila do Príncipe…”</p>
<p><i>17 de novembro </i>– Fazenda do Espírito Santo: “Às 2h 50’ da tarde chega­mos…”</p>
<p><i>18 de novembro</i> – Fazenda de Santo Antônio ou dos Cláudios.</p>
<p><i>26 de novembro</i> – Fazenda de São Domingos (do Comendador Francisco Tomás Leite Ribeiro , em Lajinha, MG): “Saí do cemitério às 2h 33 e às 2h 40 apeamo-nos no sobrado da Fazenda…”</p>
<p><i>28 de novembro</i> – Fazenda de São João (do Sr. Gabriel Norberto da Silva, localizada provavelmente em Iúna).<br />
<i><br /></i><br />
<i>3 de dezembro</i> – Fazenda Santa Clara (de D. Clara, viúva de Francisco Ber­nardo dos Santos): “apeamo-nos à porta da Fazenda S. Clara, termo de nossa viagem de hoje …”</p>
<p><i>4 de dezembro</i> – Iúna: “À 1h 54’ passamos o sítio do Machado, mais adiante umas casas onde o Pe. Figueiredo havia levado o Viático em Procissão, e eis­-nos no Arraial.”</p>
<p><i>10 de dezembro</i> – Muniz Freire: “Apeamo-nos à porta do Sr. Marcílio, onde já estivéramos, e meu relógio marcava 3h 45.”</p>
<p><i>13 de dezembro</i> – Fazenda do Tabuleiro (do Sr. Manoel Ribeiro Ramos, provavelmente localizada em Muniz Freire): “às 5h 30 apeamo-nos na Fazenda do Sr. Manoel Ramos, no sítio chamado Tabuleiro banhado pelo S. Domingos.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>14 de dezembro</i> – Fazenda Boa Vista (de D. Francisca Amélia Correia Braga Teixeira, provavelmente localizada em Muniz Freire).</p>
<p><i>16 de dezembro</i> – Fazenda da Fortaleza (do Sr. Alferes Mateus Xavier Monteiro Nogueira da Gama): “enfim às 5h 30’ apeamo-nos na bela casa do Sr. Alferes – na sua Fazenda chamada Fortaleza.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>18 de dezembro</i> – Alegre (antes Nossa Senhora da Penha do Alegre): “Estávamos com o arraial à vista. Repicaram os sinos e muitos e repetidos foguetes estouraram nos ares. Eram 12h 30’.”</p>
<p><b>1887</b></p>
<p><i>15 de janeiro</i> – Fazenda do Paraíso (do Sr. Vicente Ferreira de Paiva, em Alegre): “Estávamos pelas 7 horas da tarde na Fazenda do Paraíso, onde nos apeamos ao som do sino da Fazenda.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>1º de fevereiro</i> – Fazenda do Oriente (do Sr. Misael Eugênio, em Mimoso do Sul): “Às 4h 15’chegamos à Fazenda do Oriente.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>4 de fevereiro</i> – Fazenda Boa Esperança (do Sr. Geraldo Pires de Amorim): “e logo chegamos à porteira onde havia um arco de folhagem e além deste no terreiro mais 3 defronte e perto da frente da casa e outro à porta.”</p>
<p><i>21 de fevereiro</i> – Fazenda Monte Líbano: “Eram 9h 20’ da manhã quando pela terceira vez entramos pela casa hospitaleira do Bom Capitão Souza.”<br />
<i><br /></i><br />
<i>2 de março</i> – Itapemirim: “Com todas as demoras, gastamos do Cachoeiro até aqui perto de 7 horas de marcha. Fomos recebidos com alguns foguetes, pela banda de música…”<br />
<i><br /></i><br />
<i>27 de março</i> – Volta para a Corte (Rio de Janeiro): “Chegamos ao Vapor, que é o mesmo Mayrink que em Fevereiro de 1886 nos trouxera da Corte a esta Barra, e ainda comandado pelo mesmo bom Costa.”</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Maria Clara Medeiros Santos Neves</b>, coordenadora do site ESTAÇÃO CAPIXABA, é museóloga formada pela Universidade do Rio de Janeiro e pós-graduada em Biblioteconomia pela UFMG, autora do projeto do Museu Vale e de diversas publicações. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Maria%20Clara%20Medeiros%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Introdução</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/introducao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Feb 2016 19:19:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[D. Pedro Maria de Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo, de autoria do bis­po D. Pedro Maria de Lacerda, aqui transcritos e ora publicados, originam-se de fontes manuscritas que fazem parte do acervo do Centro de Documen­tação e Informação da Arquidiocese de Vitória – CEDAVES –, compreen­dendo três cadernos ou volumes: [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>Os <i>Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</i>, de autoria do bis­po D. Pedro Maria de Lacerda, aqui transcritos e ora publicados, originam-se de fontes manuscritas que fazem parte do acervo do Centro de Documen­tação e Informação da Arquidiocese de Vitória – CEDAVES –, compreen­dendo três cadernos ou volumes: o primeiro, que abrange o período de 14 de julho a 11 de novembro de 1880, possui 278 páginas; o segundo, de 14 de fevereiro a 24 de julho de 1886, possui 398 páginas, incluindo versos da capa e contracapa do caderno; e o terceiro e último volume, de 24 de julho de 1886 a 28 de março do ano seguinte, possui 354 páginas, incluídas algumas páginas em branco.</p>
<p>As anotações do primeiro volume dos <i>Diários </i>foram feitas a posteriori, con­siderando-se as oito páginas de rascunhos encontradas: o bispo encerra o volume em 11 de novembro de 1880, e os rascunhos vão até 24 de março do ano seguinte.</p>
<p>A publicação desse documento representa a continuação de trabalho seme­lhante feito anteriormente e que deu origem ao livro intitulado <i>O Espírito Santo em princípios do século XIX</i>, também publicado neste site, baseado nos Apontamentos de outro bispo – D. José Caetano da Silva Coutinho –, que visitou o Espírito Santo em 1812 e 1819.</p>
<p>Ambas as narrativas compõem um conjunto de documentos que, além do marcante caráter religioso, contêm rico registro de vida e costumes de época sob pontos de vista de viajantes, mencionando personalidades e retratando o dia a dia das localidades visitadas. Constituem assim importante contribuição para a historiografia na qualidade de fontes primárias de pesquisa.</p>
<p>Em comparação com os apontamentos de D. José Caetano, os escritos do bispo Lacerda destacam-se por maior riqueza de informações e detalhes na descrição de suas impressões sobre locais, habitantes e paisagens com os quais teve contato. Como viajante ele dá notícias sobre os caminhos percorridos, os meios de transporte utilizados, os incômodos encontrados e o tempo despendido nos trajetos, especialmente na visita de 1886.</p>
<p>De maneira geral, os <i>Diários </i>do bispo D. Pedro Maria de Lacerda revelam um homem de curiosidade aguçada, o que o levou a realizar por conta própria várias pequenas incursões com o fito de deleite e para conferir cartografias da época. Além de sua natural curiosidade por tudo e todos que estavam a sua volta, encontramos nele um grande observador, e é a esses traços de sua personalidade que devemos tamanha riqueza de detalhes encontrada em seus relatos.</p>
<p>O bispo D. Pedro dirige um olhar atento aos habitantes locais. Menciona nomes e fala de suas preocupações com cada indivíduo, nunca deixando de assisti-los em suas necessidades, fossem eles livres, escravos ou índios. Aliás, não esconde sua admiração especial pelos índios, deixando claro o respeito que sente por sua cultura pelas exortações à preservação da língua e esforços que fez para aprendê-la, como se vê em várias passagens ao longo do texto.</p>
<p>As paisagens têm nele observador atento. Sempre que seu trabalho permitiu ele reservou momentos para suas caminhadas, galopes ou passeios de barco para explorar as redondezas e ter contato com a natureza, tomando nota de tudo quanto considerasse significativo. Assim descreveu exaustivamente paisagens locais com seus rios, córregos, montanhas e outros acidentes, abundância e beleza de matas, sempre comparando suas observações com mapas produzidos na época e apontando suas imperfeições.</p>
<p>Nosso trabalho de edição dos <i>Diários </i>tem como objetivo precípuo disponibilizar o documento ao público em geral. Acreditamos que a sua transcrição e publicação tanto na forma impressa como virtual democratizará o acesso ao documento, permitindo que pesquisadores como também o público leigo interessado em assuntos relacionados ao Espírito Santo conheçam seu conteúdo. Não foi nossa preocupação semear centenas de notas nos rodapés do livro, razão por que boa parte delas se restringe a complementar nomes próprios de pessoas citadas no texto ou a identificar corretamente as citações latinas do bispo, procedimentos adotados para facilitar consultas na internet. No mais, esperamos que os pesquisadores se sintam estimulados a realizar a necessária análise e produção de estudos a partir destes diários.</p>
<p>Restringimos a transcrição aos três volumes, deixando de fazê-lo em relação aos rascunhos, que aqui reproduzimos apenas na forma fac-similar, considerando que a linguagem telegráfica adotada pelo bispo não permi­te uma compreensão precisa das informações neles presentes. No entanto foram importante fonte para o estabelecimento do roteiro da primeira visita, fornecendo subsídios consistentes para esse capítulo como se poderá cons­tatar adiante.</p>
<p>Além dos rascunhos, cuja passagem para o livro não foi completada pelo bispo, observa-se a ausência de parte de seus relatos no que diz respeito a Vi­tória e Vila Velha que, ao que tudo indica, foram registrados separadamente e sobre os quais ainda não se tem notícia. Concluímos que tais registros foram produzidos, considerando que o bispo não deixaria de fazê-lo tendo realiza­do a visita a esses lugares, o que deixa claro em algumas passagens como se vê a seguir: “Eu pretendia fazer hoje em Benevente Missa solene aniversária onde ele morreu, como em 1880 fiz na Vitória onde foi sua sepultura!” (p. 336) “Lembro-me bem que em 1880 do alto da Penha vi muito ao longe quase nos confins do horizonte as ilhas de Guarapari.” (p. 307)</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Quanto às características do documento, observamos o seguinte: em geral a caligrafia é bastante regular, com caracteres pequenos, abreviaturas, mui­tos pós-escritos em entrelinhas e frases em latim (vide Anexo I, p. 64 do original). Quanto ao estado de conservação, este é regular, observando-se perfurações por insetos (p. 195 a p. 201 dos originais) e alguns borrões. Essas características dificultaram medianamente a leitura, levando a poucas lacunas na transcrição.</p>
<p>No que se refere à edição do texto, excetuando-se a atualização da ortografia, procurou-se respeitar ao máximo a redação original. Isso significa que se manteve o padrão pessoal e variável do autor no uso de iniciais maiúscu­las, números cardinais e ordinais (às vezes representados por algarismos, ora por extenso), e abreviaturas (de pronomes de tratamento; as demais foram geralmente desdobradas). A pontuação (sobretudo no caso de vírgulas) foi também respeitada, exceto quando se fez necessária uma intervenção em prol da clareza da frase; no entanto eliminaram-se os travessões aleatórios e os parágrafos, com o objetivo de se compactar cada verbete do diário. As tabelas estatísticas das diversas ações de cunho religioso executadas ao longo das visitas (missas, comunhões, bênçãos, casamentos etc.) foram sistematiza­das para melhor entendimento dos leitores, incorporando também eventuais correções e retificações feitas pelo bispo. As paginações feitas nos originais, apesar de posteriores, são mantidas na publicação, aparecendo em negrito e entre colchetes, para facilitar a localização.</p>
<p>Os trechos truncados foram reproduzidos literalmente, evitando-se interpretações subjetivas. Os lapsos ocorridos durante a redação foram mantidos, intervindo-se, porém, quando o bispo duplicou palavras ou deixou de fechar parênteses. Mantiveram-se os erros de sintaxe em quase todas as ocorrências; e incorporaram-se à narrativa as notas de rodapé quando julgadas equivalentes aos acréscimos em entrelinha, não implicando, portanto, cortes na narrativa. Colchetes e uso de <i>sic </i>marcam (e esclarecem) a maior parte das intervenções.</p>
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<div style="text-align: right;">
Maria Clara Medeiros Santos Neves</div>
<div style="text-align: right;">
Organizadora e coordenadora editorial</div>
<div style="text-align: right;">
Coordenadora de Projetos da Phoenix Cultura</div>
<div style="text-align: right;">
e do site Estação Capixaba</div>
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</div>
<blockquote class="tr_bq" style="text-align: left;"><p>
<b>Maria Clara Medeiros Santos Neves</b>, coordenadora do site ESTAÇÃO CAPIXABA, é museóloga formada pela Universidade do Rio de Janeiro e pós-graduada em Biblioteconomia pela UFMG, autora do projeto do Museu Vale e de diversas publicações. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Maria%20Clara%20Medeiros%20Santos%20Neves">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Anotações sobre os Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo, do bispo Dom Pedro Maria de Lacerda</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/anotacoes-sobre-os-diarios-das-visitas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 16:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[D. Pedro Maria de Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Geografia]]></category>
		<category><![CDATA[Ricardo Brunow Costa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Mapa do Rio Doce, de Carlos Krauss, Rio de Janeiro, 1866. Acervo Arquivo Histórico do Exército. Foi-nos proposto fazer um comentário enfocando sob ótica geográfica o livro Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à província do Espírito Santo, escritos por D. Pedro Maria de Lacerda, na época bispo dos Estados do Rio e [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-3Mi6hYac-JA/VwP7javTW0I/AAAAAAAAHx8/RBWKElFYitENYcCP1l9CKt9yP-kBI6Z5w/s1600/Mapa%2BES.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="Mapa do Rio Doce, de Carlos Krauss, Rio de Janeiro, 1866. Acervo Arquivo Histórico do Exército." border="0" height="510" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Mapa2BES.jpg" class="wp-image-6183" title="Mapa do Rio Doce, de Carlos Krauss, Rio de Janeiro, 1866. Acervo Arquivo Histórico do Exército." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Mapa do Rio Doce, de Carlos Krauss, Rio de Janeiro, 1866. Acervo Arquivo Histórico do Exército.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Foi-nos proposto fazer um comentário enfocando sob ótica geográfica o livro <i>Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à província do Espírito Santo</i>, escritos por D. Pedro Maria de Lacerda, na época bispo dos Estados do Rio e do Espírito Santo, uma vez que não tínhamos aqui ainda constituído um bispado.</p>
<p>Posso imaginar o trabalho árduo e paciente que foi necessário para a realização dessa empreitada (a produção desse livro), que constitui um documento de alto valor literário e cultural para os pesquisadores do nosso passado. Merecem os melhores elogios todos os participantes da consecução dessa obra, desde a organização e coordenação editorial, a transcrição do original, o estudo introdutório, a edição final do texto, o apoio administrativo e o projeto gráfico. Dito isso vamos, sem mais delongas, aos nossos comentários, que muito longe estão de esgotar o assunto.</p>
<p>O bispo Lacerda não se ateve em seus diários apenas ao que lhe cabia escrever como pastor. Foi muito além. Sendo uma pessoa extremamente curiosa, observadora, bem dotada intelectualmente, não deixou de olhar com atenção, por vezes minuciosamente, tudo o que se passava em sua volta. Constatamos que num curto lapso de tempo ele descrevia aspectos os mais variados nos seus escritos diários. Assim, é muito comum nas suas descrições o registro do número de pessoas presentes nas celebrações; o tipo de pessoas ali presentes, se pardas, negras, índios, se pessoas representativas do local, políticos ou de certa liderança etc. Também não deixava de observar atentamente as inúmeras residências onde se hospedava nas suas constantes e intermináveis viagens, descrevendo tudo o que nelas se encontrava, desde móveis e utensílios os mais diversos, as áreas por elas ocupadas, o terreno onde se situavam, etc.</p>
<p>Nas peregrinações pelos caminhos mais diversos não deixava de observar e procurar aprender, com as pessoas que lhe serviam de guias, o nome dos rios, córregos, lagoas, espécies da flora e da fauna, o que lhe agradava muito saber devido a seu espírito de grande apreciador da natureza, exprimindo pesar pela destruição do meio ambiente pelo excesso de desmatamento em certos locais por onde transitava.</p>
<p>Fez muitas bonitas descrições do meio físico e aqui me permito apresentar apenas três exemplos. Em registro de 17 de agosto de 1880, estando no hoje município de Serra, na freguesia de São José do Queimado, escreve o bispo: “Logo que saí do cemitério fui para a frente da Matriz e dali a olhos nus e a binóculo pus-me a gozar da belíssima e dilatada vista que ali se desfruta. O panorama é arrebatador, e o vigário me disse que outro tão belo não há em toda a Província. Vê-se mui bem ao longe o mar, o monte Moreno, o monte da Penha coroado pelo seu célebre santuário que lhe alveja o cume, as serras que cercam o porto de Vitória, a Ponta do Jucutuquara […] e mais perto o Mestre Alves”. (Ver <i>A propósito do Mestre Álvaro</i>, Coleção Cadernos de História, vol. 6, de nossa autoria, IHGES, 1995).</p>
<p>Em 7 de setembro de 1886, na freguesia do Rio Pardo (Iúna), o bispo descreve com entusiasmo o que aprecia: “…subimos sem cessar por entre esplendíssimo mato virgem, e altíssimos cedros, perobas, jequitibás, etc, e chegamos ao alto. Que beleza! que vasto horizonte! E que lindo céu azulado! Depois de tanto caminhar por mato, sempre com a vista apertada entre frondoso arvoredo, e à sombra, que encanto dilatar a vista por tão amplo espaço, iluminado pelo sol em todo o seu esplendor. Dali se avistam vários montes e serras, mas o que chama a atenção é a serra do Forno Grande que mais se levanta e aproxima do céu.”</p>
<p>Em 1° de dezembro de 1886 o bispo encontrava-se no arraial de São Sebastião, próximo aos rios São Manoel e São João, e então escreve: “Quanto mete dó ver tantas árvores altas corpulentas, deveras gigantescas e tanto arvoredo, tudo derrubado pelo machado e devorado pelo fogo! Que sistema de destruição mas dizem os donos, como fazer, se é mister plantar, e criar gado? Como fazê-lo no mato? Têm razão; mas ao menos não derrubassem tudo e deixassem alguns espaços ocupados por essas florestas belíssimas, que só em séculos se formaram e não se podem renovar senão passados séculos; Quantos anos e anos são precisos para haver outros jequitibás, outras perobas, outros cedros, outros paus d’alhos e outros gigantes do reino vegetal!”</p>
<p>Por esses três exemplos dentre muitos outros se pode constatar como ainda havia naquela época uma verdejante e exuberante mata atlântica cobrindo o território espírito-santense (ver nosso livro: <i>Espírito Santo. Aspectos físicos, anotações, comentários e mapas temáticos</i>, Col. Cadernos de História, n° 44, IHGES 2002). Além das matas é evidente também por conseqüência a presença de cursos d’ água com mais perenidade e maior volume d’ água. Disso decorre ipso facto uma maior quantidade e variedade da própria fauna.</p>
<p>Se o bispo teve oportunidade de deleitar-se nessa visão, imaginemos como ficaram célebres viajantes europeus como Auguste de Saint-Hilaire, o príncipe de Wied-Neuwied, Charles Frederick Hartt e A. F. Biard, dentre outros que por aqui estiveram e que palmilharam por regiões que ainda estavam bem mais conservadas da natureza capixaba!</p>
<p>Saint-Hilaire deve-se ter extasiado ao ver a nossa selva tropical, que era bem mais densa e com uma infinidade de espécies, suplantando em muito a floresta temperada da Europa. Em seu livro <i>Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce</i>, descreve muito minuciosamente o que viu no nosso estado, como neste trecho: “As matas do Brasil por vezes são tão obstruídas de espinhos e cipós que não se poderia penetrar nelas sem abrir caminho a machado… desta ordem são as de Mestre Alvo” (in Costa, R. Brunow, op. cit.). Em “Viagem ao Brasil” o príncipe Wied-Neuwied por sua vez não deixa de encantar-se também quando, próximo a Guarapari, escreve entre outras observações: “…próximo à praia litorânea, alternando com pequenas moitas, ao lado das quais, às vezes se juntam, para deleitar o viajante, trechos de mata virgem. As ramarias tapavam o caminho escuro, ornavam-no árvores majestosas e seculares que tinham os troncos cobertos de um mundo de plantas, e os galhos, de fungos e liquens” ( in Costa, R. Brunow, op. cit.). A mesma ênfase se encontra na magnífica <i>Geologia e geografia física do Brasil</i>, do geólogo canadense Charles F. Hartt, que assim escreveu sobre a floresta de Santa Leopoldina: “As florestas com que as montanhas de Santa Leopoldina são cobertas não apresentam a mesma majestosa aparência das do norte e sul da província …” (in Costa, R. Brunow, op. cit.).</p>
<p>Acrescento só mais um exemplo similar, citando A. F. Biard, que, em sua obra <i>Deux années au Brésil</i>, na parte referente ao Espírito Santo, assim se expressa: “Eu estava chegando finalmente às florestas virgens tão desejadas. Ia ver a natureza quase desconhecida onde nunca passou o machado. Pés humanos nunca pisaram essa terra […] plantas aquáticas escondem as margens, e depois vêm árvores imensas, inteiramente cobertas de parasitas em flor… do alto dessas árvores como cordames de um navio, outros cipós… e a esses cipós se penduravam famílias de sagüis” (in Costa, R. Brunow, op. cit.).</p>
<p>O bispo Lacerda teve oportunidade de apreciar o meio ambiente físico do nosso estado, ainda que não de modo tão espetacular quanto os viajantes europeus acima citados.</p>
<p>Vamos então, agora, adentrar mais sobre o que importa que são as preocupações, as adversidades e as observações deixadas pelo prelado em seus diários.</p>
<p>No registro de 12 de novembro de 1886 há queixas do bispo sobre erros do mapa de C. Cintra e do de Cândido Mendes. Assim é que se expressa ele quando visitava a capela Nossa Senhora da Penha de Santa Cruz, na freguesia do Rio Pardo: “Santa Cruz está à direita do Ribeirão de seu nome que é das cabeceiras do Rio Norte Esquerdo, pelo que se vê quanto está erradíssimo o mapa de Cintra e ainda mais o de Cândido Mendes”.</p>
<p>Vê-se que o bispo se exaspera com o que chama de inexatidão dos mapas por ele manuseados de autoria dos engenheiros C. Cintra e C. Rivière. Também critica o mapa de Carlos Krauss baseado nos trabalhos realizados por A. Pires da Silva Ponte.</p>
<p>Aqui observamos, não para defender nem para desaprovar os trabalhos dos citados engenheiros, mas, apenas, para fazer algumas explicitações que nos parecem de relevância sobre a confecção das cartas naquela época, meados do século XIX. Os mais conhecidos trabalhos cartográficos da época eram principalmente os de Carlos Krauss, <i>Mapa Geral da Província do Estado do Espírito Santo relativo às colônias e vias de comunicação</i>, e o <i>Mapa Geral das Colônias de Santa Leopoldina, Santa Isabel e Rio Novo na província do Espírito Santo</i>; o <i>Mapa do Rio Doce</i>, realizado por Krauss porém baseado no trabalho de Silva Pontes, Arlincourt e outros; e a <i>Carta Geográfica da Província do Espírito Santo</i>, de C. Cintra e C. Rivière.</p>
<p>Como eram realizados naquela época os trabalhos topográficos? O teodolito, a bússola e as correntes de medição eram os instrumentos principais. O teodolito foi inventado na Itália em 1835. Hoje há teodolitos bem mais precisos e inclusive automáticos. Uma vez realizados os levantamentos topográficos, estes eram então submetidos aos que realizariam os trabalhos cartográficos, hoje muito mais elaborados e precisos que na época do bispo Lacerda.</p>
<p>Aqui seria o ponto de apresentar algumas interrogações sobre os trabalhos dos engenheiros que elaboraram os mapas criticados pelo bispo, devido às imprecisões encontradas nesses documentos cartográficos. Entretanto, penso ser mais conveniente apresentá-las no final deste artigo, em forma de questionários; daí terá o leitor oportunidade de fazer um melhor julgamento sobre a confecção dos mapas de que tanto o bispo reclama.</p>
<p>Entre os grandes destaques nos diários de D. Pedro Maria de Lacerda está a questão de limites de sua diocese. Havia muitas dúvidas até onde iria o território de sua jurisdição em relação ao da diocese de Mariana, em Minas Gerais. O bispo recorre assiduamente ao <i>Mapa da Província do Espírito Santo</i>, organizado na Inspetoria Geral de Terras e Colonização e mandado imprimir pelo Conselheiro Tomás José Coelho de Almeida. A execução coube aos engenheiros C. Cintra e C. Rivière, impressa no Rio de Janeiro em 1878 (in Costa, R. Brunow, revista IHGES nº 61). O bispo Dom Pedro acusa muitas vezes nos seus diários erros no aludido mapa. Escreve em 24 de agosto de 1886: “Neste dia andei a tomar informações destas regiões. Quantos erros no tal mapa da província por Cintra e Rivière! E que erros grandes!”</p>
<p>Na p.141 do livro o bispo critica novamente o mapa elaborado por Cintra e Rivière: “Direi de passagem que as muitas ilhas que nesta barra [do Rio Reis Magos] põe o erradíssimo mapa de Cintra e Rivière não são ilhas mas sim parcéis ou pedras de que falei. Daqui é que saíam as pedras para edificação da Igreja e Colégio…” (Igreja dos Reis Magos, acrescentamos nós).</p>
<p>A carta geográfica de Cintra e Rivière foi trabalhada numa escala pequena, em que um centímetro de representação no papel significa uma distância de cinco quilômetros no terreno. Sendo de dimensões muito pequenas as supostas ilhas nem deveriam aparecer representadas no mapa. Ao que nos parece devem ser parcéis ou recifes, conforme aduz o bispo.</p>
<p>Comentando sobre elevações topográficas da região próxima de Nova Almeida, comenta que avistou o Mestre Alves, topônimo naturalmente que lhe informaram. Mas, como dissemos linhas atrás, os topônimos muitas vezes com o passar dos anos podem sofrer modificações. Hoje só é conhecido como Mestre Álvaro (mais detalhes no meu livro <i>A propósito do Mestre Álvaro</i>, Coleção Cadernos de História, vol. 6, IHGES, 1995).</p>
<p>O próprio mapa publicado pelo IBGE [folha SF-24-V-B-1-1-Serra, Esc. 1:50.000 de 1978] denomina o Mestre Álvaro de Mestre Alvo. Vê-se, assim, que a informação recebida pelo religioso não corresponde mais ao que usamos na toponímia atual.</p>
<p>Mapas antigos publicavam, por vezes, assuntos não cartográficos como estatísticas de população em geral, por exemplo: faixa etária do grupo social local; condições sociais da população; número de analfabetos; escolas existentes; notícias históricas de cada freguesia eclesiástica; a lista dos papas desde São Pedro e outros assuntos mais.</p>
<p>Vila de São Pedro do Cachoeiro do Itapemirim (folha SF-24-V-A-V-4)</p>
<p>Quando o bispo estava na fazenda do barão de Itapemirim avistou o pico do Itabira. Não faz menção a que sistema orográfico pertence o Itabira, que o mapa oficial do IBGE de 1978 aponta como pertencente à serra da Cobiça.</p>
<p>O prelado contesta o termo usado, Cachoeiros (do rio São Pedro de Itapemirim), declarando que se devia usar Cachoeiras. Mas, na verdade, não é bem assim. Na nossa modesta concepção Cachoeira designa o conceito de queda d’água volumosa e com desnível apreciável do curso d’água, provocando muitas vezes um som ensurdecedor, dependendo da altura da queda e do volume d’água, enquanto Cachoeiro representa um volume d’água por vezes pouco ou medianamente volumoso, mas com sucessivos pequenos desníveis do leito do rio, correndo suas águas por entre inumeráveis rochas dispersas num determinado trecho da torrente. Aí não há o conhecido estrondo que se ouve numa queda d’água que cai de um declive acentuado como numa cachoeira. Para exemplificar como cachoeiros cito o que ocorre no rio Itapemirim quando corta a cidade de Cachoeiro do Itapemirim. Outro exemplo acontece na cidade de Santa Leopoldina, onde o fenômeno era mais visível antes de serem construídas as barragens a montante do rio Santa Maria.</p>
<p>Estando o bispo na fazenda <i>Monte Líbano</i>, do capitão Francisco de Souza Monteiro, diz o prelado que a propriedade ficava muito próxima do rio Itapemirim, mas como declara que o curso d’água fazia “longo rodeio defronte da casa”, pensamos que não seja o próprio rio Itapemirim e sim um dos vários córregos que vão engrossar as águas daquele rio. Essa declaração de “longo rodeio defronte da casa” dá-nos essa impressão, uma vez que o próprio rio é de extensa largura e seria difícil ter espaço para ali tornar-se meândrico. Daí que pelo mapa do IBGE de 1978, esc 1:50.000, somos mais tendentes a admitir a possibilidade de o referido curso d’água ser um dos córregos que cortam a área de <i>Monte Líbano</i>, como o córrego Monte Líbano, o córrego Lameiro, o córrego Cobiça, etc.</p>
<p>No diário de 12 de novembro de 1887, estando na região do rio José Pedro, o bispo escreve: “O Rio José Pedro e que certos mineiros querem que este seja a divisa das províncias, mas a província do Espírito Santo quer (e tem provas) que a divisa seja pelo próprio veio do Rio José Pedro que não fica muito longe […] o certo talvez e o justo seja dizer que parte do curso superior do José Pedro divida as províncias e que o Quartel do Príncipe (como se chamava antigamente) é do Espírito Santo”.</p>
<p>Mais adiante ainda declara Dom Pedro: “Havia dois Quartéis, como chamavam o posto de algumas praças: um de Minas, outro do Espírito Santo, que é este do Príncipe; e de um outro menos de meia légua. Cada uma destas províncias mandava suas praças. […] Esta parte onde estamos era e sempre fora da província do Espírito Santo sem nenhuma contestação nem pretensão de MINAS…”.</p>
<p>O lamentável velho problema da falta de documentação cartográfica, gerando conflitos de jurisdição, arrastou-se longo tempo entre Minas versus Espírito Santo, até o acerto final de limites, na região chamada Contestado em 1963, através de acordo entre os governadores Francisco Lacerda de Aguiar (pelo Espírito Santo) e José de Magalhães Pinto (Minas Gerais).</p>
<p>Batalhou muito no problema da questão do estabelecimento das divisas do nosso Estado com Minas Gerais, e, ainda, com a Bahia o professor, geógrafo, advogado e engenheiro Cícero Moraes que se destacou sempre nos meios técnico-culturais do Espírito Santo.</p>
<p>Ontem, dia 8 de abril de 2013, data em que se comemora a festa da padroeira do Espírito Santo, Nossa Senhora da Penha, observo coincidentemente que o bispo em 15 de janeiro de 1887 escreve que, saindo do arraial de Nossa Senhora da Penha do Alegre, ouviu de várias pessoas, além do conteúdo publicado pelos jornais da Corte e da Província, que teriam publicado uma graça alcançada na capela do Convento da Penha, em Vitória. Escreve o Bispo: “É o caso de uma mulher há dez anos tolhida, que a muito custo andava arrimada a seu bastão foi orar na Capelinha da Penha e de repente sentiu escorregar-lhe o bastão e o foi apanhar e saiu contentíssima por ser curada e a andar desembaraçada” .</p>
<p>Para finalizar, desejamos acrescentar apenas mais algumas observações. Convenhamos que os diários do Bispo, que hoje constituem um livro, não frisaram propriamente sobre geografia no seu sentido estrito e, sim, sobre o problema encontrado pelo prelado concernente à questão cartográfica. O bispo apenas descreve as paisagens naturais, a topografia, a presença de rios, simples córregos, lagoas, montes, florestas, etc. Não há nenhuma tentativa ou intenção de explicação científica do que ele presenciou. Isso é natural, pois ele não era um profissional para fazer tal tipo de explicitação, nem era esse o seu desejo como percebemos. Apenas permaneceu sempre na exaltação da natureza. Aliás, no seu tempo a Geografia Moderna não havia sido ainda assentada como ciência, o que só aconteceu em meados do século XIX, pelo mérito de “três figuras alemãs do mais alto relevo: Friedrich Ratzel (1844-1904), Karl Ritter (1779-1859) e Alexander Von Humboldt (1769-1859), considerados os fundadores desta ciência. A estes geógrafos atribui-se a fundamentação da Geografia Moderna. “A Ratzel atribui-se a definição do princípio da extensão […] a Ritter coube o melhor entendimento do chamado princípio da analogia ou da Geografia Geral […] o outro princípio, o da causalidade […] foi inserido por Humboldt.” (Cf. Costa, R. Brunow, 2010). Deste modo a Geografia como ciência (e não apenas como conhecimento descritivo) só chegou ao Brasil no século XX. Descrições como encontramos nos diários do bispo não constituem ciência geográfica, mas descrições puras e simples da paisagem física. Mapas ou cartas geográficas não são confeccionadas pelos geógrafos e sim pelos cartógrafos e são usadas como auxiliares nos trabalhos geográficos. Os geógrafos com suas pesquisas fornecem dados científicos em seus trabalhos para que sejam muitas vezes elaborados os mapas. A descrição, repetimos, é um dos elementos que compõem um trabalho geográfico, mas não estaciona ai, tem que ser completada, conforme mostramos linhas atrás.</p>
<p></p>
<h3>
Em anexo dois questionários</h3>
<p>
<b>Quanto às cartas geográficas de C. Cintra e C. Rivière</b></p>
<p>Há que se levar em conta nesse trabalho relativamente aos erros que o prelado aponta nas cartas geográficas publicadas pelos engenheiros C. Cintra e C. Rivière e outros, quanto à região Sul do Espírito Santo:</p>
<p>a) O que foi levantado pelos engenheiros concernente à toponímia e posição geográfica dos rios, córregos, lagoas, morros, vilas, etc., foi baseado em quais documentos: outros mapas ou esboços mais antigos?</p>
<p>b) As informações sobre toponímia de vilas, povoados, vegetação, etc., foram coligidas in loco ou em cartas anteriores ao levantamento de Cintra e Rivière?</p>
<p>c) Até onde as informações obtidas pelos ditos engenheiros foram coligidas junto aos habitantes dos locais consignados nas suas cartas geográficas?</p>
<p>d) Que instrumentos de medição foram utilizados para medir distâncias, altitudes, etc.?</p>
<p>e) Quanto à confecção dos mapas, a impressão das folhas é correta, assim como a plotação dos dados impressos?</p>
<p>f) Os engenheiros percorreram de maneira mais ou menos razoável o território representado nos seus trabalhos?</p>
<p>g) Houve tempo necessário ou ajuda material e de pessoal necessários para que os engenheiros pudessem realizar suas tarefas (recursos financeiros do patrocinador, o governo imperial)?</p>
<p>Enfim, muitas dúvidas existem para que tenhamos o quadro real do que transcorreu na época em que foram realizados os trabalhos de campo dos citados engenheiros. Dependendo das respostas aos quesitos acima os levantamentos para a consecução das cartas geográficas poderiam estar sujeitas a erros.</p>
<p><b>Quanto ao Exmo. Sr. Bispo, pode-se deduzir, pela leitura dos diários, o seguinte:</b></p>
<p>a) Sua fonte de informação foi não só de mapas de Cintra e Rivière mas, sobretudo, dos habitantes mais esclarecidos e conhecedores dos locais percorridos, daí chegando às informações pormenorizadas da toponímia dos acidentes geográficos como montes, rios, aldeias, etc.</p>
<p>b) Mas há que ser levado em conta que a toponímia dada pelo povo pode ter sido alterada ou desfigurada pelos habitantes locais e, então, pode-se ter uma denominação que anteriormente não era mais a dos residentes atuais (ou do tempo da passagem do bispo). O bispo levou isso em conta?</p>
<p>c) Outro aspecto que devemos levar em conta são as denominações que Cintra e Rivière devem ter consignado em suas cartas geográficas (nomes de cursos d’água já assentados em cartas anteriores às suas), que podem ter sido cambiadas pelos habitantes da região. Para os riachos ou pequenos cursos d’água só a população local na prática tem a faculdade de nomeá-los.</p>
<p>d) O bispo teve a vantagem, por sua representatividade como era no tempo do padroado – assim pensamos – de palmilhar por mais de um ano as localidades, vilas, povoados, aldeias, permanecendo até por vários dias em fazendas, sempre muito bem recebido, viajando em canoas, cavalgando por longos caminhos, atravessando rios e florestas. Tudo arranjado pelos habitantes locais e pelas autoridades administrativas. Teve tempo suficiente para não só cumprir com suas obrigações eclesiásticas, mas, também, admirar todo o ambiente natural por onde passava decorrente do seu espírito curioso e observador. Não sabemos se Cintra e Rivière puderam ter toda essa oportunidade e ajuda para realizar o seu trabalho.</p>
<p><b><br /></b><br />
<b>Referências bibliográficas</b></p>
<p>BIARD, A. F. <i>Viagem à Província do Espírito Santo</i>. Cultural do Espírito Santo, IHGES.</p>
<p>COSTA, R. BRUNOW. <i>A propósito do Mestre Álvaro</i>. Coleção Cadernos de História, vol. 6, IHGES, 1995.</p>
<p>___. <i>Espírito Santo: Aspectos Físicos, anotações, comentários e mapas temáticos</i>. Coleção Cadernos de História, n° 44, IHGES, 2001.</p>
<p>___. Trajetória da Geografia, <i>Cadernos de Geografia</i>, n° 1, IHGES, 2010.</p>
<p><i>Folha Topográfica do IBGE</i> SF -24 -V – B- 1 -1 – Serra, Esc 1:50000, 1978.</p>
<p><i>Folha Topográfica do IBGE</i> SF -24 -H -1 -1 Esc 1:50000, Itapemirim, 1979.</p>
<p><i>Folha Topográfica do IBGE</i> SF -24 -V -B -1 -1, 1:50000, Guarapari – 1979.<br />
<i><br /></i><br />
<i>Folha Topográfica do IBGE</i> SF -24 -V -A -V1 -2, 1:50000, Castelo – 1979.<br />
<i><br /></i><br />
<i>Folha Topográfica do IBGE</i> – SF-24-V-A-VI-4 1:50.000, Piúma e Anchieta – 1979.</p>
<p>HARTT, Charles Frederick. <i>Geografia e Geologia do Brasil</i>. Cia. Ed. Nacional, 1941.</p>
<p>SAINT-HILAIRE, Auguste de. <i>Viagem ao Espírito Santo e Rio Doce</i>. Itatiaia, USP, 1974.</p>
<p>Wied-Neuwied (Príncipe de). <i>Viagem ao Brasil</i>. Itatiaia, USP, 1989.</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ricardo Brunow Costa</b>&nbsp;é geógrafo formado pela UFRJ, tendo vários livros e artigos publicados. Para outras informações, consulte a listagem de pesquisadores. (Para obter mais informações sobre o autor e outras de suas publicações,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Ricardo%20Brunow%20Costa" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Bibliografia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 16:08:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[D. Pedro Maria de Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>BRUNOW, Ricardo Costa. Anotações sobre a Cartografia Antiga em geral e em especial a de Vitória e do Espírito Santo. In Revista do IHGES, Vitória, n. 61. Vitória: IHGES, 2007. CÓPIA fiel dos autos de sequestro, avaliação, arrematação e transpasse dos bens que pertenceram aos Padres Jesuítas da cidade de Vitória. 66 p., IHGB, lata [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
BRUNOW, Ricardo Costa. Anotações sobre a Cartografia Antiga em geral e em especial a de Vitória e do Espírito Santo. In <i>Revista do IHGES</i>, Vitória, n. 61. Vitória: IHGES, 2007.</p>
<p><i>CÓPIA fiel dos autos de sequestro, avaliação, arrematação e transpasse dos bens que pertenceram aos Padres Jesuítas da cidade de Vitória</i>. 66 p., IHGB, lata 124, D. 3. [www.estacaocapixaba.com.br]</p>
<p>COUTINHO, José Caetano da Silva. <i>O Espírito Santo em princípios do século XIX: apontamentos feitos pelo Bispo do Rio de Janeiro quando de sua viagem à capitania do Espírito Santo nos anos de 1812 e 1819</i> (coordenação e transcrição do original por Maria Clara Medeiros Santos Neves). Vitória: Estação Capixaba e Cultural-ES, 2002. [Disponível também em &nbsp;www.estacaocapixaba.com.br]</p>
<p>KRAUSS, Carlos. <i>Mapa geral das colônias de Santa Leopoldina, Santa Isabel e Rio Novo na Província do Espírito Santo</i>. 1866. Arquivo Histórico do Exército, loc. 06.02.1193]</p>
<p>KRAUSS, Carlos. <i>Mapa geral da Província do Espírito Santo relativo às colônias e vias de comunicação</i>. 1866. [Arquivo Histórico do Exército, loc. 15.03.3653]</p>
<p>SIQUEIRA, Francisco Antunes de. <i>Memórias do passado: a Vitória através de meio século</i> (estudo e notas de Fernando Achiamé). Vitória: Florecultura / Cultural-ES, 1999.</p>
<p></p>
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		<title>D. Pedro Maria de Lacerda &#8211; Biobibliografia</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/d-pedro-maria-de-lacerda-biobibliografia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 12:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Biobibliografia]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[D. Pedro Maria de Lacerda]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro. Pedro Maria de Lacerda nasce no Rio de Janeiro, paróquia da Candelária, a 31 de janeiro de 1830, filho legítimo de João Maria Pereira de Lacerda e Camila Leonor Pontes de Lacerda, portuguesa que vem para o Brasil com cinco anos de idade. João Maria [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://3.bp.blogspot.com/-uUlwyJoamgE/VzeFPnNKGPI/AAAAAAAAH6Q/kdGnbeV4HhoLTnkOjZaZMMNWeEzaqxnqwCKgB/s1600/Retrato%2Bdo%2BBispo.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" alt="D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro." border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Retrato2Bdo2BBispo.jpg" class="wp-image-6460" title="D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro." width="412" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">D. Pedro Maria de Lacerda, bispo do Rio de Janeiro.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Pedro Maria de Lacerda nasce no Rio de Janeiro, paróquia da Candelária, a 31 de janeiro de 1830, filho legítimo de João Maria Pereira de Lacerda e Camila Leonor Pontes de Lacerda, portuguesa que vem para o Brasil com cinco anos de idade. João Maria de Lacerda, de pai português e mãe brasileira, segue carreira na Marinha, sendo reformado em 1861 no posto de capitão de mar e guerra. Ainda como guarda-marinha, faz parte da tripulação do brigue de guerra Pampeiro, que naufraga na barra da baía de Vitória em outubro de 1828, e precisa receber “ordem terminante” de modo que “não arriscasse a vida para salvar alguns objetos da fazenda nacional”. Católico fervoroso, empenha-se em obras de caridade, colabora com jornais fluminenses e publica obras ligadas à economia e matemática. Dos 11 filhos do casal, além do primogênito Pedro Maria, também se distingue Joaquim Maria de Lacerda, advogado, professor, editor de livros e escritor de obras didáticas, que morre na capital francesa, onde mora há muitos anos, em dezembro de 1886, quando seu irmão encontra-se em visita pastoral no Espírito Santo.</p>
<p>Pedro Maria de Lacerda faz seus estudos iniciais no Rio de Janeiro e frequenta as aulas de latim do padre Antônio Vieira Borges. Em 1841, com 11 anos de idade, seus pais o mandam, na companhia do sacerdote Luís Antônio dos Santos, recém-ordenado, para o famoso Colégio Nossa Senhora Mãe dos Homens na Serra do Caraça, que tem como reitor o padre lazarista português Antônio Ferreira Viçoso, depois bispo de Mariana. Por causa da repressão à Revolução Liberal em Minas Gerais, o estudante Pedro Maria transfere-se, em setembro de 1842, para Congonhas do Campo, onde os padres lazaristas já estavam instalados. O sacerdote Antônio Alves Ferreira dos Santos, o jovem capixaba “padre Alves” tão citado por D. Lacerda nos apontamentos da visita de 1886-1887, e que em 1914 publica um livro sobre a história da arquidiocese do Rio de Janeiro, assim descreve essa etapa da vida de quem seria titular do bispado fluminense: “Dotado de talento superior, terminou dentro de pouco tempo seus estudos preparatórios, inclusive filosofia racional e moral, e passou a cursar a filosofia e teologia e outras matérias eclesiásticas em Mariana, no Seminário Episcopal, para onde foi levado pelo seu antigo reitor D. Antônio Ferreira Viçoso, que passou por Congonhas [em 1844], de volta do Rio de Janeiro onde viera receber a sagração de bispo daquela cidade”.</p>
<p>Ainda bem moço, Pedro Maria acompanha o bispo de Mariana em visitas pastorais por Minas, passagens de sua vida que relembra nostálgico nestes apontamentos. Em 1848, D. Viçoso encaminha a Roma promissoras inteligências de Mariana, e futuros bispos: Pedro Maria de Lacerda, então com 18 anos, e os jovens padres João Antônio dos Santos, mais tarde bispo de Diamantina, e Luís Antônio dos Santos, depois bispo do Ceará e arcebispo da Bahia. Na Cidade Eterna, onde chega em julho de 1848 após passar por Paris, Pedro Maria estuda no Colégio Romano às expensas de seu pai e, em setembro do ano seguinte, obtém o grau de doutor em teologia. Informa-nos ainda Antônio Alves F. dos Santos que “de volta ao Brasil emprega-se no Seminário de Mariana, como professor de geografia e filosofia, e pouco depois é nomeado professor público de geografia e história do Liceu Marianense”. Com apenas 22 anos, “e vencendo todas as perplexidades de sua consciência timorata, é promovido a todas as ordens por D. Viçoso, que lhe confere em Mariana, na capela do seu palácio, tonsura e ordens menores em 18 de abril, subdiaconato em 16 de maio, diaconato em 5 de junho e presbiterato em 10 de agosto de 1852, com dispensa de idade. Celebra sua primeira missa no oratório do pequeno hospital das Irmãs de Caridade da mesma cidade”. No mês seguinte à sua ordenação, é efetivado como cônego da Sé de Mariana, “à qual serviu até junho de 1862, em que renunciou a sua cadeira por motivo de escrúpulos no desempenho de suas obrigações”. Por ter se formado e trabalhado com padres da Congregação das Missões de São Vicente de Paulo, também chamados de vicentinos ou lazaristas, alguns autores a ele se referem como membro dessa associação religiosa.</p>
<p>O mundo eclesiástico brasileiro logo toma conhecimento do cônego Lacerda, por dedicar-se com vigor às atividades da Sé de Mariana, nas quais empenha suas qualidades morais e intelectuais. O titular da diocese de São Paulo, D. Antônio Joaquim de Melo, o quer como bispo coadjutor com direito à sucessão, mas D. Viçoso é contra, pretextando não poder ficar sem seu principal auxiliar que, com trinta anos, se encontra novo ainda para ser elevado à dignidade episcopal. O cônego Lacerda, “de caráter tímido, modesto e despretensioso, embora firme e reto, dá graças a Deus, quando se vê dispensado de tanta distinção que o apavorava e livre de maiores responsabilidades. É entretanto decorado pela Nunciatura Apostólica com as honras de Protonotário a 31 de julho de 1861. Nessa ocasião foi também nomeado examinador pró-sinodal por D. Viçoso”, dignidades conferidas em reconhecimento ao seu trabalho. Vago o bispado do Rio de Janeiro desde 1863 com a morte de D. Manoel do Monte Rodrigues de Araújo, conde de Irajá, o imperador Pedro II assina, em 1º fevereiro de 1868, decreto de nomeação do religioso Pedro Maria de Lacerda para ocupá-la. Na escolha imperial deve ter influenciado, além dos dotes pessoais do nomeado, a indicação do marianense José Joaquim Fernandes Torres, detentor no ministério Zacarias da pasta do Império, justamente a que trata das questões entre o governo e a Igreja. O cônego Lacerda solicita ao imperador um mês de prazo para decidir sobre a indicação, a ser confirmada pelo Vaticano. “Chove, então, uma série de cartas para Mariana, animando-o a que aceitasse, não só da família, mas também do clero e episcopado”. Sua mãe também lhe escreve, e apela para que assumisse a nova dignidade, mas um bilhete de D. Viçoso, de 29 de março, é decisivo para sua resolução.</p>
<p>Na catedral daquela cidade mineira, a 10 de janeiro de 1869, acontece sua sagração episcopal, presidida por D. Antônio Ferreira Viçoso. Toma posse a 31 do mesmo mês, por procuração, e faz a entrada solene na diocese do Rio de Janeiro no dia 8 de março. Na qualidade de prelado reformador, ultramontano, partidário da romanização, D. Pedro Maria de Lacerda atua de forma intensa e coerente, tanto no aspecto doutrinário, quanto nas atividades práticas. Suas palavras e atitudes sempre repercutem de maneira amplificada no país, pois é o titular da diocese que sedia a Corte brasileira, a capital do Império. No tocante à doutrina, trata vigorosa e publicamente de temas cujo enfrentamento julga imprescindível para a reforma da sociedade e do clero brasileiros. Temas no centro de polêmicas exacerbadas à época e que devem ser examinados com cuidado, pois aos olhos de hoje parecem de menor importância ou até risíveis. Algumas das posições que adota são percebidas pelo simples exame dos títulos de cartas pastorais e documentos por ele publicados.</p>
<p>O novo bispo começa por arrumar a casa: logo em 1869, passa provisão que divide a diocese do Rio de Janeiro em comarcas eclesiásticas e estabelece regimento para os vigários da vara e arciprestes; ou seja, disciplina a circunscrição&nbsp;territorial e o âmbito de ação dos sacerdotes seus assessores ou representantes. Entre&nbsp;suas primeiras medidas, consta a reforma do Seminário de São José, cuja administração entrega aos lazaristas. O jornal católico <i>O Apóstolo</i>, impresso no Rio de Janeiro de 1866 a 1901, publica textos dirigidos ao clero e à população católica, ordenamentos da Santa Sé e divulga posições doutrinárias ultramontanas e mesmo políticas. Por exemplo: em 1887, na etapa final da campanha abolicionista, reproduz cartas pastorais de bispos brasileiros, apelando aos fiéis para libertarem seus escravos. D. Lacerda utiliza esse periódico para divulgar documentos de interesse da diocese. Há pouco tempo nela empossado, participa em Roma, juntamente com outros bispos brasileiros, do Concílio Vaticano I (1869-1870), no qual se manifesta.</p>
<p>Exerce D. Pedro Maria de Lacerda intensa atividade no vasto território sob sua administração eclesiástica, que compreende as províncias do Rio de Janeiro, Espírito Santo e parte de Minas Gerais, o Município Neutro, e Lajes, em Santa Catarina. De acordo com seu biógrafo D. Jerônimo Lemos O.S.B., e como se observa nos apontamentos ora publicados, prega constantemente nas igrejas, promove o ensino do catecismo nas paróquias e reúne o clero em exercícios espirituais dos quais também participa, além de enviar padres lazaristas em missões pela diocese, e empreender esforços, inclusive junto a D. Bosco, para o Brasil receber em 1883 os salesianos, que instalam sua primeira casa no país em Santa Rosa, Niterói.</p>
<p>Em 1871, D. Lacerda edita tratado canônico-moral acerca da residência dos párocos e curas sob sua administração, doutrinando-os e responsabilizando aqueles que deixam de cumprir seus deveres sacerdotais. Nesse mesmo ano, edita um protesto coletivo do episcopado brasileiro, dirigido ao imperador e à princesa imperial regente, “contra a sacrílega invasão de Roma em 1870” por tropas italianas, episódio que interrompe o Concílio Vaticano I que se realiza naquela cidade; e, em carta pastoral, anuncia a Lei do Ventre Livre, “sobre a libertação dos filhos de escravas e sua criação, recomendando a todos sua execução”. Representa ao ministro do Império, em 1872, “para que as eleições políticas se façam fora das igrejas”, considerando que tais espaços devem servir primordialmente ao culto. De 1873 a 1875, expede diversos documentos em que trata das relações entre a Igreja e o Estado e combate tenazmente a Maçonaria no auge da Questão Religiosa, bastando citar a <i>Representação que a S. M. o Imperador dirige sobre a prisão e processo do bispo de Olinda</i> e aderindo à representação do arcebispo da Bahia, de 1874.</p>
<p>O bispo publica, em 1877, carta pastoral “lamentando o carnaval do corrente ano na Corte, e promovendo uma subscrição para se mandar um cálice de ouro a Nossa Senhora de Lourdes em desagravo”, sob alegação de ter havido excessos e brincadeiras momescas com uso de efígie da santa. Nesse mesmo ano, retorna à sede pontifícia em peregrinação organizada por sua diocese pelo jubileu de ouro episcopal de Pio IX e em <i>visita ad limina Apostolorum</i>, a que os bispos são obrigados periodicamente; vai também a Turim e Paris. De autoria de D. Lacerda existem ainda a <i>Cartilha católica</i> e “o Cerimonial da Visita Pastoral por ele publicado em 10 de maio de 1880”, pouco tempo antes de fazer sua primeira visita pastoral ao Espírito Santo, e que “serviu de modelo para muitos dos Srs. Bispos”. Outro documento do bispo a se destacar, devido à importância de que se reveste na época de sua edição, é o <i>Protesto apresentado a S. M. o Imperador pelo Bispo de S. Sebastião do Rio de Janeiro</i>, por ocasião do decreto que manda converter em apólices intransferíveis os bens das Ordens religiosas, datado de 24 de fevereiro de 1884. Por meio dele, o prelado firma posição contra o governo numa polêmica que se arrasta por algum tempo, inclusive com desdobramentos judiciais.</p>
<p>A historiografia brasileira registra o nome de D. Pedro Maria de Lacerda como iniciador da Questão Religiosa, ao punir o padre José Luís Almeida Martins. Este sacerdote, português e maçom, serve como orador oficial na sessão maçônica de 3 de março de 1872, que tem lugar na sede do Grande Oriente do Lavradio, Rio de Janeiro, em comemoração à Lei do Ventre Livre, editada no ano anterior. Referida sessão também homenageia José Maria da Silva Paranhos, visconde do Rio Branco, que ocupa o cargo de grão-mestre da Maçonaria brasileira, e preside o Conselho de Ministros, ou seja, é o chefe do governo. Publicado o discurso do padre maçom, e tendo em vista vasto ordenamento jurídico-canônico, não resta a D. Lacerda alternativa senão suspendê-lo de ordens, quer dizer, proibi-lo de exercer certas funções sacerdotais. Instalada a Questão Religiosa, o titular da diocese do Rio de Janeiro não recebe qualquer punição, por se manter nos estritos limites de sua autoridade eclesiástica, ao contrário dos bispos de Olinda, o jovem D. Vital de Oliveira, e de Belém, D. Antônio Macedo Costa, que interditam irmandades religiosas, instituições mistas subordinadas ao mesmo tempo aos poderes temporal e espiritual. Mas D. Pedro Maria de Lacerda não deixa de apoiar os bispos punidos, também ultramontanos como ele próprio, pois não costuma ser omisso, e se pronuncia ou age sempre que necessário.</p>
<p>Suas iniciativas reformistas adotadas por essa época no campo religioso são como tapas de luva no governo imperial, que contra elas nada pode fazer. No dia a dia mostra-se capaz de gestos dramáticos, alguns dos quais relata nestes apontamentos, e outros narrados por seu secretário particular, como o seguinte, relacionado com a Questão Religiosa: no dia imediato em que D. Vital de Oliveira desembarca, preso, no Rio de Janeiro, vai encontrá-lo, e “ao vê-lo sem as insígnias episcopais, prostrou-se aos seus pés, beijou-lhe as mãos comovido e tirando a própria cruz peitoral, colocou-a no pescoço daquele prelado, dizendo-lhe: ‘Tem V. Excia. Revma. toda jurisdição nesta Diocese’”. Visita e ampara os bispos em suas prisões na capital do Império. No decorrer das sessões de instrução e julgamento no Supremo Tribunal de Justiça, que condena D. Vital à prisão, senta-se ao seu lado e ali permanece até o pronunciamento final. Distingue mais o titular da diocese de Olinda não somente por se identificar com suas ideias e atitudes, mas também por tê-lo sagrado bispo, poucos anos antes, em São Paulo. Revela-se cauteloso e discreto quando preciso, especialmente a partir do momento em que o governo brasileiro e a Santa Sé negociam os termos para superarem os entraves que originaram a Questão Religiosa. Mas deve ter guardado certo ressentimento do episódio. Na madrugada de 16 de novembro de 1889, ao saber que o imperador e sua família estão detidos no Paço da Cidade, à espera do embarque para o exílio, comenta, talvez pensando na transitoriedade da glória deste mundo: “Exatamente o que ele fez aos bispos…”.</p>
<p>D. Lacerda recebe distinções honoríficas, como a Cruz da Ordem de Cristo em 1876, relaciona-se com os grandes do Império e, na condição de integrante do conselho de D. Pedro II e de bispo capelão-mor, presta assistência religiosa à família imperial. “Gozara sempre da confiança plena do monarca,” como demonstra nestes apontamentos; contudo, “não era um áulico, mas um servidor franco e leal”. Indicado para arcebispo da Bahia e primaz do Brasil, em 1887, numa manobra tentada pelo internúncio monsenhor Spol­verini, representante da Santa Sé, para afastá-lo do Rio, recusa o cargo. Logo após a promulgação da Lei Áurea, a 17 de maio de 1888, é-lhe conferido o título de Conde de Santa Fé, com grandeza, pela princesa imperial regente, estando o titular do trono muito doente em Milão. Esse gesto da princesa Isabel, que no mesmo ano recebe de Leão XIII a famosa distinção católica Rosa de Ouro, pode ter sido em reconhecimento ao empenho do bispo pelo fim da escravidão no país, e revela-se mais significativo do ponto de vista político-religioso quando se sabe que, naquela mesma data, outros prelados e membros da elite civil também foram nobilitados. Seria uma tentativa de preparar a sucessão monárquica? Para os clérigos que procuravam conciliar o regalismo com a corrente de pensamento calcada na romanização, o que melhor conviria ao país em termos políticos seria uma espécie de teocracia – o Terceiro Reinado com o cetro e a coroa enfeixados pela beatíssima Isabel, tutelada pela Igreja.</p>
<p>Sobre D. Lacerda, diz Sacramento Blake: “Dotado de certa ilustração, nunca fez gala de orador sacro; só procurava fazer-se compreender das classes mais ignorantes. Se empregou às vezes linguagem mais áspera, ou menos conveniente, suas intenções eram puras; guiava-o a mais fervorosa fé católica”. Por sinal, seus esforços para ser compreendido pelas “classes mais ignorantes”, e o uso que fez “de linguagem mais áspera” estão registrados em trechos destes relatórios. O padre Antônio Alves F. dos Santos, seu secretário particular nos últimos anos de vida, nos oferece um depoimento sobre a condição física e a personalidade de D. Lacerda: “Dotado de constituição robusta e boa saúde, guardou sempre os jejuns, as abstinências e penitências prescritas pela Igreja, até o último ano de sua vida, que foi amargurado pelas enfermidades e sofrimentos morais”. E prossegue no perfil do prelado: “As vigílias, os trabalhos excessivos, os dissabores contínuos, as decepções inevitáveis da vida, os escrúpulos que frequentemente o assaltavam, tornaram-no muitas vezes áspero e brusco no seu trato, mas nunca lhe diminuíram a caridade e zelo de pastor pelas suas ovelhas”. O padre Alves nos informa ainda: “Era de caráter naturalmente retraído e concentrado, grave e sério, acostumado desde moço ao silêncio e à meditação”.</p>
<p>Por muitos anos, D. Pedro Maria de Lacerda passa temporadas nos colégios jesuítas de Itu e Nova Friburgo, no intuito de “buscar algum repouso para a sua vida bastante atribulada”. Sofre de “incômodos das pernas, classificados como beribéri”, talvez agravados por constantes jejuns e abstinências. Em 17 de outubro de 1889 tem um “insulto apoplético” e “apenas ficou com a língua embaraçada não sofrendo paralisia e nem sendo afetadas suas faculdades. Socorrido de pronto, acha-se melhorado.” Após guardar o leito por semanas, recupera-se aos poucos, mas no decorrer de 1890 sua saúde se deteriora rapidamente, agravada pela insistência daquele mesmo monsenhor Spolverini, representante papal no Brasil, agora para que renunciasse à diocese.</p>
<p>A contar do encerramento da sua segunda visita pastoral ao Espírito Santo, em março de 1887, a realidade institucional brasileira transforma-se num prazo muito curto. Um ano e pouco depois, é extinta no país a escravidão, ao menos na sua forma legal. Passado mais um ano e pouco, acaba o regime monárquico. Amigo do imperador exilado, D. Lacerda sofre com a queda da monarquia. No apagar das luzes do Império, o registro civil tão execrado por ele, em especial no que se refere ao casamento, começa a ser exigido por lei. Por ser bem informado, não ignora que o chefe do governo provisório, Deodoro da Fonseca, também exerce o cargo de grão-mestre da Maçonaria brasileira, da qual são membros todos os componentes do primeiro ministério republicano. E, com certeza, tem notícia dos trabalhos da Constituinte, em que se desmonta o regime do padroado e se estabelecem as bases para efetiva institucionalização no país da liberdade de culto; os protestantes que tanto combatia podem agora praticar livremente sua religião. Já muito doente, renuncia ao bispado do Rio de Janeiro em 15 de outubro de 1890, em favor de D. João Esberard que, no entanto, não lhe sucede imediatamente.</p>
<p>Desaparecidas a escravidão, a monarquia e a união do Estado com a Igreja, acabam irremediavelmente os principais componentes do mundo em que o bispo viveu e exerceu o poder. E, nesse contexto hostil às suas convicções políticas e doutrinárias, se extingue também a vida de D. Pedro Maria de Lacerda. Recebe os últimos sacramentos, ocasião em que com voz débil reafirma sua fé católica e perdoa aos inimigos. Falece no Seminário de São José, Rio de Janeiro, “depois de muitos dias de ânsia e gemidos profundos, que se ouviam de longe”, às cinco horas da manhã de 12 de novembro de 1890, cercado de alguns sacerdotes e amigos dedicados; contava sessenta e um anos de idade incompletos. Após o embalsamamento, seu corpo é transladado com todas as honras de estilo para o Palácio da Conceição, residência dos titulares da diocese fluminense, em cuja capela baixa à sepultura no dia 14, após exéquias solenes. Seus restos mortais, assim como os de outros eclesiásticos ali sepultados, são transferidos posteriormente para a nova Catedral Metropolitana, situada à Avenida Chile, Rio de Janeiro.</p>
<p>[Citação de trecho relativo à biografia do bispo do texto ACHIAMÉ, Fernando, Espero em tua palavra. In LACERDA, D. Pedro Maria de. <i>Diários das visitas pastorais de 1880 e 1886 à Província do Espírito Santo</i>. Vitória: Phoenix Cultura, 2012.]</p>
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