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	<title>Arquivos Gilbert Chaudanne &#8902; Estação Capixaba</title>
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	<title>Arquivos Gilbert Chaudanne &#8902; Estação Capixaba</title>
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		<title>Pavana para um macaco pré-socrático</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:05:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Pavana para um macaco pré-socrático&#8221;. Desenho de Gilbert Chaudanne. &#160;Santa Teresa de todas as Rosas. Seu bosque — Arca de Noé — o chamado Museu, com sua parafernália de bichos presos e soltos e a majestade monárquica das suas vegetações. E o homem a flanar pelo labirinto da natureza levemente humanizada, demorando na contemplação de [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_5.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" width="197" height="250" alt="&quot;Pavana para um macaco pré-socrático&quot;. Desenho de Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_5.gif" class="wp-image-5972" title="&quot;Pavana para um macaco pré-socrático&quot;. Desenho de Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;Pavana para um macaco pré-socrático&#8221;. <br />Desenho de Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;Santa Teresa de todas as Rosas.</p>
<p>Seu bosque — Arca de Noé — o chamado Museu, com sua parafernália de bichos presos e soltos e a majestade monárquica das suas vegetações.</p>
<p>E o homem a flanar pelo labirinto da natureza levemente humanizada, demorando na contemplação de um gato do mato com seu olhar imenso e assim como noturno e imensamente cósmico imensamente. Flutuação de outros olhares de outros bichos: cavalos na feira de Carapina, olhares dessa vez femininos, como os das marro- quinas por cima do véu islâmico, uma tristeza junto com uma delicadeza que faz olhar para dentro do homem como uma consciência cheia de brandura, uma consciência de mel, pode ser, que não é mais aquela espada do olhar da pedra cortada — não — olhar consciência da colmeia, mel-néctar de que pulo por cima do conhecimento?</p>
<p>Entretanto, na surpresa de uma senda à meia-luz, o estremecer de um olhar debaixo das folhas mas por cima de uma árvore, um olhar inquieto, raciocinante, bisbilhoteiro, curioso que só uma criancinha, redondo como o botão de um casaco, um olhar moleque e meio amigo, meio safadinho: o macaco, funcionário eficiente da mata com suas suíças, vigia de primeira e filósofo dessa mata toda, o único a olhar o homem com um olhar de homem — de igual para igual — surgindo dessa mata, não como o leão, como o rei pela majestade e a força, não, o macaco surge da mata como o homem surge do macaco — quer dizer com um não-sei-o-quê no olhar que diz que ali pára o afresco monumental dos Grandes Carnívoros e dos paquidermes hiperbólicos; é o fim da ópera cósmica, com as girafas fatais: Carmen, com as traviatas asmáticas: hienas, os otelos desvairados: leão, as Butterfly de São Nunca: antílopes e todas as beldades transmundanas do palco da mata, meu Deus, não.</p>
<p>Com o macaco, o homem entra na roda, (e) exatamente o homem-Voltaire. Com o macaco há de mandar para as favas a parafernália operística e olhar na sua frente aquela mata barroca — e resolver ou não, mas pelo menos tentar resolver esse problema sério do espaço primato: &#8220;il faut cultiver notre jardin&#8221; (há que cultivar nosso jardim). Esse olhar do macaco é o de Voltaire olhando para o jardim do espaço humano e cortando, talhando os galhos da mata doída, da ópera da mata. Esse olhar redondo como a crítica da Razão Pura chama a razão prática — aquele espírito dos limites que nos cercam e a volta ao lar, renunciando definitivamente às aventuras, dentro da mata divina e feroz. Descartar a loucura, mesmo sendo inspirada pelos deuses — descartar a encenação dos Bichos Divinos e recolher-se por cima do bom senso de um Descartes não descartável e da pequena razão prática sobre esse galho que é meu porque eu o plantei e que dá as costas para os galhos cósmicos da mata, mesmo se esta, grande, salada que ela é, me apunhala por trás — traiçoeira como os felinos do último suspiro.</p>
<p>Porém, havia também, e isto simultaneamente com a presença voltairiana no olhar do macaco, algo que não tinha nada a ver com a crítica da Razão Pura e prática. Era como uma coluna de pedra preta — parecida com os lingás da Índia — que erguia-se dentro da menina dos olhos, que era como uma árvore de pedra parecendo sustentar a mata — ou então parecia que a mata toda se refletia dentro dessa pedra preta barrando a pupila — era como uma noite aberta, e nesse &#8220;pas de deux&#8221; entre o aberto e a noite, não havia mais lugar para qualquer tipo de razão, ou pura ou pratica — se havia lugar, era para uma espécie de espinha dorsal se espinhando todinha e que era como o eco plástico dos vagidos, dos gritos que enchiam a mata. O macaco não era mais o primo do homem, ele era então o antiesboço do humano, era uma gaiola torácica cheia do canto rouco da mata, um sopro que não respirava ao ritmo nosso, mas que ria nas nossas costas como a conclusão mal educada do nosso macaco, baixando as calças que ele nem tinha, mostrando para mim, humano, — o buraco do seu cu — e cagando magnificamente sobre minha humanidade.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_7.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img decoding="async" width="188" height="250" alt="&quot;O macaco cagando em cima da minha humanidade&quot;. Desenho de Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_7.gif" class="wp-image-5973" title="&quot;O macaco cagando em cima da minha humanidade&quot;. Desenho de Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;O macaco cagando em cima da minha humanidade&#8221;. <br />Desenho de Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. Pavana para um macaco pré-socrático. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.17, II, nov. 1993. Terceiro texto da segunda trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Pedra, dragão, bailarina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Pedra Azul&#8221;. Desenho: Gilbert Chaudanne. &#160;Você sabe — há aquelas viagens de ônibus-do-Brasil, flutuando na fofura dos seus assentos e no asfalto-fita da estrada. O viajar profundo das estradas, e que mais? Sonolento o passageiro &#8220;dentro da noite veloz&#8221; sonolento e como magnífico analgésico de todas as dores do pobre espaço humano, aquele acordar que [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_1.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="210" height="250" alt="&quot;Pedra Azul&quot;. Desenho: Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_1.gif" class="wp-image-5984" title="&quot;Pedra Azul&quot;. Desenho: Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;Pedra Azul&#8221;. Desenho: Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;Você sabe — há aquelas viagens de ônibus-do-Brasil, flutuando na fofura dos seus assentos e no asfalto-fita da estrada.<br />
O viajar profundo das estradas, e que mais?<br />
Sonolento o passageiro &#8220;dentro da noite veloz&#8221;<br />
sonolento e como magnífico analgésico de todas as dores do pobre espaço humano,<br />
aquele acordar que não sabe se acordou realmente que flutua como o ônibus na fita-estrada entre o consciente e o reino dos peixes dourados dentro da abóbada de nossos crânios ocos, meu deus!<br />
Há a estrada-fita do Brasil e o cenário montado na beira dessas estradas e que o homem chama de paisagem.<br />
Porém não há nenhuma certeza que essa paisagem exista e pode ser que isso tudo, essa paisagem pode ser apenas uma encenação grandiosa de um artista oculto que mora e trabalha na beira da estrada, meu deus!<br />
Sonolento então eu, e a pedra se levantou diante do meu olhar semi-fechado e meu olho via o mundo-paisagem através da grade dos meus cílios<br />
e a pedra se levantou diante dos meus cílios<br />
e ela foi logo dona do meu olhar que se tornou oco,<br />
e ela enchia o espaço do meu olhar oco,<br />
e meu olhar se tornara então um olhar de pedra como<br />
o dos deuses de mármore e granito das civilizações mortas<br />
a pedra enorme, exaustiva era azul<br />
e meu olhar pois, azul também era,<br />
azul, a cor do absoluto<br />
a cor doce de um absoluto que faz gritar<br />
e se erguer definitivamente no derradeiro espasmo<br />
antes de toda morte<br />
O corpo duro e o olhar fixo da pedra<br />
o homem duro e morto como a pedra morta<br />
o amigo-homem morto! oh cristãos-vivos, uma perda dura!</p>
<p>Entretanto isto era apenas uma face dos mil rostos de pedra, era a face da pedra dura;<br />
mas havia também a face da pedra azul, naquela hora, no meio da noite oca, era um azul escuro mas trespassado por uma luz-transparência e difusa que fazia o olhar se perder na ausência de um centro<br />
dentro desse azul de ópera<br />
e naturalmente<br />
logicamente<br />
o olhar ia deslizando como um trenó dentro da neve até vir bater na cristalização desse azul do céu na pedra azul de todos os céus.<br />
A pedra erguida era o dedo indicador, a última manifestação da terra morena já angelizada pelo azul absoluto e oco, era o sexo da terra erguida com sua epiderme de anapiê e de capim santo querendo penetrar o imponderável do céu diáfano e assexuado como os Anjos-de-Nosso-Senhor<br />
e por cima da pedra, havia o holofote da morte veloz: a lua,<br />
toda cheinha de ginga, de meiguice enfeitada, arrumadinha como para uma festa junina, falsa matuta e ao mesmo tempo imensamente rainha, pálida<br />
porém radiante<br />
Salomé<br />
marcando seu próprio ponto<br />
na frase hieroglífica da paisagem;<br />
enfim uma nuvem de extrema delicadeza, algo como uma musselina, uma gaze não usada dos hospitais, flutuando dentro da sua própria leveza e na leveza de uma bailarina e seu &#8220;tutu&#8221;<br />
gaseosa e vapor / a bailarina debaixo da lua, dançando, voando por cima da pedra imensa- erguida,<br />
meu deus! e dentro da menina dos meus olhos como uma homenagem à pedra e aos meus olhos<br />
uma homenagem absoluta da leveza para a potência turgescente e erguida na quase eternidade do granito:<br />
núpcias!<br />
núpcias da introversão do granito com o nunca-estar-aqui da bailarina e sua imponderabilidade infinita.</p>
<p>E agora surgindo dos anapiês e do capim santo,<br />
com sua face milenar e enrugada, boiando simbolicamente no sangue de 10.000 virgens, o Rei-lagarto celebrando sua realeza esfregano sua barriga de couro velho no couro cristalizado da pedra, tentando abraçá-la, essa pedra ou o quê? Que tipo de bodas desta vez tétricas, caduceu, e traumatizantes para o zé-humano vão florescer nessa noite sem fim por cima da montanha e debaixo da lua pré-histórica ou o que é? que antiga estória mal-assimilada está sendo contada aqui na base do granito, da escama e da musselina. Pedra, dragão, bailarina, o Dragão-Rei, o lagarto largado desvairado, lentamente se imobiliza, entra na fascinação da<br />
pedra<br />
e se torna pedra fascinada pela bailarina<br />
e assim o triângulo se fecha:<br />
no cume a bailarina<br />
na base a pedra e o lagarto<br />
e no centro do triângulo<br />
o olhar do meu olho que já não é mais o meu<br />
mas algo imensamente feroz como o Rei-lagarto<br />
algo imensamente terno e cheio de graça como a bailarina<br />
algo de imensamente azul como a pedra.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_2.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="177" height="250" alt="&quot;O rei lagarto&quot;. Desenho: Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_2.gif" class="wp-image-5985" title="&quot;O rei lagarto&quot;. Desenho: Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;O rei lagarto&#8221;. Desenho: Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
[CHAUDANNE, Gilbert. Pedra, dragão, bailarina. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.16, II, out. 1993. Segundo texto da segunda trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Mitologia do beija-flor: um beijo de princípios</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
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		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#8220;Um beijo de princípios&#8221; Desenho: Gilbert Chaudanne. A Bíblia conta a história desses anjos que acharam as filhas dos homens tão bonitas que acabaram se apaixonando por elas. Ora, temos na natureza alguma coisa que se parece bastante com essas bodas míticas — quero falar do beija-flor e da flor e do beijo que o [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_4.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="125" height="250" alt="&quot;Um beijo de princípios&quot; Desenho: Gilbert Chaudanne." border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_4.gif" class="wp-image-5989" title="&quot;Um beijo de princípios&quot; Desenho: Gilbert Chaudanne." /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">&#8220;Um beijo de princípios&#8221; Desenho: Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
A Bíblia conta a história desses anjos que acharam as filhas dos homens tão bonitas que acabaram se apaixonando por elas. Ora, temos na natureza alguma coisa que se parece bastante com essas bodas míticas — quero falar do beija-flor e da flor e do beijo que o beija-flor dá na flor.</p>
<p>A flor pode ser considerada como uma espécie de prima das filhas dos homens. Como ela, como a moça, ela é delicada, feita de uma carne que não sente o peso da sua própria gravidade e, como a moça, se abre para a vida toda, para a luz do dia, para o mundo aqui diante dela; ela não está sozinha na sua beleza — sua beleza é para todos, sem que isto seja uma prostituição, ela é gratuita, não cobra nada, é tão pura como a claridade do céu, do dia. Sua beleza irradia simplesmente com a majestade de uma rainha ou de uma rosa — menina-rosa e outras moças-flores — gentilmente oferecidas ao nosso desejo-borboleta e suas carícias reais ou sonhadas.</p>
<p>A flor como a moça, de tão bela e delicada que é, termina deixando a impressão de que é imaterial — quer dizer, que não é mais terrestre, mas que, nela, há um princípio angelical que foi ali depositado para trabalhar no sentido da beleza transparente. Mas tanto a flor como a moça não deixam de ser terrestres, bem nutridas pela Terra-mãe que generosamente dá seu suco, sua seiva, seu leite.</p>
<p>Mas então, a flor como a moça, a moça-flor como a flor-moça (formosa) contém em si uma parcela do princípio angelical e, para completar essa natureza angelical, tem que se juntar ao anjo em si, ao anjo puro. Ela chama o anjo para ser beijada por ele e, no caso da flor, o anjo é o pássaro: o beija-flor vai assumir este papel. O pássaro, ali, é o pendente natural e lógico do anjo: como ele, voa, não conhece o peso das coisas e dos corpos; como ele, o pássaro é provido de asas e havia de ser um ser que escapasse à gravidade para beijar a flor ou a moça — já que essas, como vimos anteriormente, conseguem, pela sua beleza e seu frescor, nos fazer esquecer a gravidade da Terra que as sustenta. A flor — como a moça — não podia ser beijada por seres comuns, feitos de carne pesada e de lábios sangüíneos. Para que a leveza absoluta pudesse sobreviver, havia que Ter seres que viessem do céu, que vivessem por cima da Terra e da sua gravidade e cujos beijos fossem tão leves como o vento.</p>
<p>E o que é que o anjo vem buscar na moça, e o pássaro na flor? Eles vêm buscar o suco, o leite, a seiva da Terra, a essência da Terra, a sua força sublimada no céu dos princípios. E tanto o anjo como o pássaro precisam, para manter uma forma, para não se evaporarem no céu dos princípios, desse líquido requintado, desse licor — uma verdadeira bebida para os deuses. (É bem conhecido que o colibri procura o néctar fabricado pela flor — quanto à moça, seu néctar pode ser sua virgindade, mas a própria palavra néctar é também sinônimo de essência — essência da flor junto com mais uma essência, que é a do seu perfume — essência de toda a virgindade, a moça.)</p>
<p>Pois é evidente agora a necessidade irreversível do beijo — sua fatalidade — entre o pássaro e a flor. Trata-se também de umas núpcias que não são totalmente consumidas, núpcias em afloramento na flor apenas esboçadas na beleza do gesto e na sua elegância — o beijo — e é também a conjunção da beleza-leveza celeste absoluta (anjo ou pássaro).</p>
<p>Porém, na Bíblia, os anjos consumam as bodas com as moças, com as filhas dos homens. Mas núpcias desse tipo não podem ser consumadas através do acasalamento carnal, elas têm que ficar no plano espiritual, onde o corpo participa pela sua dança para manter assim a leveza que é sua marca. Em caso contrário, caímos de novo no pesadume do instinto com seres que trasncendem a esse instinto — isto por causa de suas essências angelicais — e o acasalamento consumado torna-se monstruoso; resultado: nasce uma raça de gigantes altamente destruidores e anarquistas, pesados esmagando a leveza tão procurada.</p>
<p>Porque trata-se, aqui nessa aproximação do anjo-pássaro com a moça-flor, de uma aproximação dos princípios, amis exatamente da poesia dos princípios; não se trata de um simples ato curto e grosso — como o ato sexual —, mas de um gesto, quer dizer, um ritual, e, já que a leveza é a componente essencial dos dois parceiros, essas bodas, para conservar a leveza, devem realizar-se apenas como elegância e dança: um beijo leve e não guloso — não um beijo de carne, mas um beijo de princípios. Isto que é o beijo do beija-flor na flor.</p>
<p>E, finalmente, esse beijo-do-beija-flor-na-flor lembra mais os anjos mensageiros (como o Anjo Gabriel na Anunciação) que não têm contatos carnais com o humano, mas que apenas fazem o gesto de tocar o ombro dos homens com a ponta dos dedos para adverti-los de uma presença imponderável e meio assustadora, e esse gesto na sua leveza é o verdadeiro beijo do anjo, igual ao sopro do vento ou a afloração da flor, o gesto e a dança do beija-flor diante da boca da flor.</p>
<p>[NB. Esse texto continua a evocação poético-mítica do espaço &#8220;Espírito Santo&#8221;. As preserpadas eleganes e carinhosas do beija-flor capixaba são a ilustração de um certo angelismo dentro desse espaço real-mítico que vem se juntar ao dionisismo, ao apolinismo para reforçar o efeito mosaico.]<br />
[CHAUDANNE, Gilbert. Mitologia do beija-flor: um beijo de princípios. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.15, II, set. 1993. Primeiro texto da segunda trilogia.]</p>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. Mitologia do beija-flor: um beijo de princípios. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.15, II, set. 1993. Primeiro texto da segunda trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
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<a href="https://4.bp.blogspot.com/-cSP1d67i2oE/WFGkMm6tN-I/AAAAAAAALGA/IqH0TV1dMekkOLLdaSkGZ4tBB8PvUu7NQCEw/s1600/4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="43" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/4-1.jpg" class="wp-image-5990" width="200" /></a></div>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Identidade capixaba — O efeito mosaico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônicas]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Desenho: Gilbert Chaudanne. O Brasil é por excelência uma terra sincrética — quer dizer que ele justapõe vários elementos muito diferentes, por exemplo a cultura européia, a negra e a indígena. Mas, se não há sínteses dessas culturas, há um jogo de coabitação harmônica criadora de uma cultura própria: a cultura Brasileira, a cultura Morena. [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-9D7ijwAZ0Uo/WE2SJo-0cmI/AAAAAAAALDg/KmWzziD5lko8Ba3bI2FRCYYyWghGs-crgCLcB/s1600/chaudanne_3.gif" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Desenho: Gilbert Chaudanne." border="0" height="200" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/chaudanne_3.gif" class="wp-image-6001" title="Desenho: Gilbert Chaudanne." width="173" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Desenho: Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
O Brasil é por excelência uma terra sincrética — quer dizer que ele justapõe vários elementos muito diferentes, por exemplo a cultura européia, a negra e a indígena.</p>
<p>Mas, se não há sínteses dessas culturas, há um jogo de coabitação harmônica criadora de uma cultura própria: a cultura Brasileira, a cultura Morena. Tudo acontece como se esses vários aspectos, no lugar de se erguerem como focos de conflitos e de asperidade friccional entre as diferentes culturas, foram, no decorrer do tempo, amansando seus aspectos mais extremistas, misturando-se com o outro absoluto, que é a cultura do outro, e encontrando nessa outra cultura semelhanças que permitem uma convivência pacífica — assim pode ser visto o papel duplo dos santos do cristianismo e os orixás do candomblé, ou a introdução de um pensamento europeu (Kardec) nesse mesmo candomblé africano.</p>
<p>E em geral, as várias facetas do gênio brasileiro estão sendo polidas para — de mosaico que elas formam inicialmente — transformar-se em um verdadeiro espelho capaz de refletir o Ser Brasileiro, sua identidade. E assim acontece nos pontos mais evidentes dessa identidade: Nordeste, Minas, Rio Grande do Sul, assim como em outros cuja identidade é mais complexa mas não menos solidificada: Rio de Janeiro, Maranhão, etc&#8230;</p>
<p>Porém há uma região, um estado que não parece obedecer a essa &#8220;política&#8221; do espelho brasileiro: o Espírito Santo — E por quê? É que neste estado o efeito mosaico tem uma presença quase que ditatorial do Brasil mosaico de povos, de culturas — sim, já fizemos esta observação —; mas o mosaico pelo sincretismo conseguiu fazer desaparecer as pastilhas do mosaico e fundi-las num espelho geral. O que acontece pois no Espírito Santo?</p>
<p>O efeito mosaico é, de fato, o efeito &#8220;espelho quebrado&#8221;, porque, viajando pelo estado, além de uma paisagem montanhosa que é como uma reformulação de uma antiga criação da mãe-terra e que participa do isolamento (ou da colocação em ilha, &#8220;ilhação&#8221;, de cada município —, as montanhas funcionam como muralhas naturais), há o cintilar do mosaico de várias culturas, etnias, línguas: alemães, pomeranos, italianos, austríacos, poloneses, luxemburgueses, suíços, negros, índios (esses de várias tribos) usando sua própria língua (nem sempre, entretanto) e até a roupa típica do seu povo, e isto provoca um efeito altamente onírico ou efeito de irrealidade.</p>
<p>Presenciar a atuação ao vivo, no espaço reduzido de alguns quilômetros, de um índio, de um louro, de um negro, de um mestiço, cada um carregando seus mitos, seus deuses, seus filhotes, assim como se essa terra do Espírito Santo fosse um imenso congresso permanente de todas as raças ou um caldeirão de antes da divisão da terra em países e onde elas podem conviver — essas raças — sem se defrontarem diante de uma balcanização (que é o caso da Iugoslávia hoje ou do ex-império soviético).</p>
<p>O plurilinguismo do estado (alemão, italiano, pomerano, línguas indígenas, etc&#8230; ) obedece casualmente ou logicamente ao &#8220;selo do nome próprio&#8221; já que o estado é dedicado ao Espírito Santo que é o que dá o dom das línguas. Ou ao contrário esse plurilinguismo pode ser visto como um efeito &#8220;Torre de Babel&#8221; — confusão das línguas, que seria confirmado pela estrutura de torre de certas montanhas.</p>
<p>Mas também sem que houvesse uma tentativa para casar a concertina com o batuque, ficando assim numa justaposição de elementos divergentes que consagra justamente o efeito mosaico — ou o espelho quebrado.</p>
<p>Quanto à capital, Vitória — ela se torna nessa maneira de conceber a identidade capixaba uma capital lógica no plano simbólico, já que é o mosaico do mosaico. Vitória é uma ilha, melhor, um agrupamento de ilhas (ilha do Boi, do Frade, do Príncipe, etc&#8230;), na verdade a baía de Vitória é um mosaico de ilhas, uma verdadeira renda marítima e terrestre.</p>
<p>Vitória é uma ilha e assim ela lembra a pastilha que é o elemento pelo qual se constrói um mosaico. Mas ela é a pastilha por excelência já que é delimitada da maneira mais nítida, mais franca possível — geograficamente falando — delimitada por água enquanto que as outras pastilhas (municípios, microrregiões) têm fronteiras não tão nítidas já que são puramente terrestres.</p>
<p>Mas se Vitória pelo fato de ser ilha é a pastilha por excelência, a pastilha-mãe, ela se manifesta ainda de outra maneira em relação ao efeito mosaico: é que ela é, em si, também um mosaico, como lugar de confluência dos povos vindos do interior (italianos, alemães, etc&#8230;) como de outros chegando diretamente do exterior (libaneses, gregos, etc&#8230;), além do fato de que sua geografia de montanhas conturbadas e de pedaços de mar entrando na terra, junto com o jogo das ilhas como visto anteriormente, participa também dessa divisão extrema e extrema diversificação do espaço na sua morfologia e na sua cor que é o caráter do mosaico.</p>
<p>Povos do exterior: gregos, libaneses. Os gregos? Participando do mosaico capixaba, parece até redundância, porque os gregos como alicerces do Império Bizantino se identificaram durante essa fase da sua história com a arte do mosaico, além do mais a Grécia, como Vitória, é um mosaico de ilhas e montanhas e a Grécia da antiguidade clássica não era uma nação unida mas uma constelação de povos diferentes embora todos gregos como acontece aqui também no Espírito Santo, todos diferentes e todos capixabas.</p>
<p>E certamente não é por acaso se encontramos aqui um artista e artesão grego que espalha seus mosaicos pela cidade-capital: Yannis Zavoudakis, obedecendo ao velho antigo instinto do mosaico greco-capixaba.</p>
<p>Os libaneses, muito presentes, apresentam — se assim se pode dizer — características de mosaico: de etnia árabe, de religião cristã, falando várias línguas além da língua materna — com uma preferência tradicional pelo francês, vocação cultural de fineza e requinte —, com um talento nato pelo comércio (antiga herança fenícia provavelmente), com aquela antiquíssima tradição de emigração sem, entretanto, perder o contato com a pátria — aspectos muito diferentes que lembram o cintilar do nosso mosaico da identidade.</p>
<p>Assim Vitória, por causa da sua geografia física e humana, se torna no plano simbólico o mosaico do mosaico, o que a faz alcançar assim como naturalmente o estatuto de capital — ali temos um exemplo implacável de lógica dos símbolos.</p>
<p>Porém, além do efeito mosaico há outro efeito: é o efeito paraíso que é um fenômeno nacional no Brasil. Nesses povos, tão diversos, reunidos num espaço relativamente pequeno do Espírito Santo pelas vontades dos deuses ou os soluços da história, há uma antiga crença que está correndo debaixo das suas peles: é a busca do país perfeito, do país-maravilha, do Eldorado, o paraíso aqui e agora, nesta terra mesmo e não no céu do catecismo e da morte feliz do cristianismo.</p>
<p>Essa busca no estado do Espírito Santo apresenta um perfil perfeito: para os povos europeus e especialmente os louros germânicos, o Brasil sempre assumiu o papel de paraíso tropical, fartura e prazeres sobretudo.</p>
<p>E assim chegaram os louros e, no lugar da fartura tropical, depararam-se com a Via Crucis da subida na montanha, verdadeira epopéia mortífera, onde o paraíso não se concretizava e conseguiam, ao contrário do previsto, realizarem-se na paz de toda morte. Os sobreviventes entravam no inferno tropical até sair dele depois de uma longa luta de gerações contra a maldição da Terra. Mas essa busca do paraíso aqui e agora, se ela parece mais marcada pelo espírito europeu, não deixa de atuar também no índio, no próprio nativo.</p>
<p>Esses índios têm uma tradição que fala da &#8220;terra-sem-males&#8221; e por causa disso uma tribo saiu lá do Rio Grande do Sul à procura dessa terra e finalmente parou no Espírito Santo como os alemães, os italianos e outros, e concluindo como os louros que o paraíso não se encontrava nessa terra do Espírito Santo — apesar de todo o misticismo do seu nome — e o guia espiritual da tribo concluiu que pode ser do outro lado do mar&#8230; de lá onde os italianos, alemães e outros chegaram, pode ser que lá se encontrasse a &#8220;terra-sem-males&#8221;.</p>
<p>Trata-se de um verdadeiro vai-e-vem do efeito paraíso, nesse estado do Espírito Santo, que faz papel de verdadeira garagem desse paraíso. Neste aspecto o Espírito Santo encarna com força dupla esse efeito paraíso e nesse sentido ele é sintomaticamente brasileiro já que esse efeito paraíso é um dos mitos fundadores do Brasil e das Américas. Mas já que o paraíso não se concretizava todos, louros, índios, negros, ficaram ali mesmo, certamente cansados de tanta busca estéril, não tendo solução a não ser a de ilustrar mais uma vez a velha danação: &#8220;ganharás teu pão com teu suor&#8221;, em outros termos: &#8220;trabalha,e confia&#8221;.</p>
<p>E assim cada comunidade se organizou num espaço fechado (que a geografia proporcionava com abundância — efeito mosaico de geografia), pode ser para, depois do fracasso da busca paradisíaca, recentrar-se na saudade da terra-mãe, da pátria longínqua e rapidamente idealizada; mas esse fechamento provoca a fragmentação da identidade que é a do espelho quebrado, quer dizer, do mosaico. O paraíso aqui e agora, essa busca típica do imaginário brasileiro, desemboca, no Espírito Santo, no mosaico.</p>
<p>Esse espelho-quebrado-mosaico, se tem uma poesia que é a de uma pedagogia da surpresa, é também problemático. Olhar-se no espelho é o primeiro passo do reconhecimento da identidade: eu sei que sou eu quem está lá; aquela imagem, sou eu — bem — Mas se o espelho está quebrado eu vejo uns pedaços, pedaços de mim! E assim minha identidade está quebrada ou está para ser construída ou então no lugar de ver um só rosto eu vejo vários e isso me deixa perplexo no que se refere a mim — Quem sou eu, finalmente? é a pergunta que surge dessa multiplicidade e dessas rachaduras do eu regional.</p>
<p>E o perigo é que dentro dessas rachaduras se infiltrem elementos que não vão participar do mosaico mas que vão passar a orquestrá-lo segundo outra identidade, uma identidade que já se firmou na fase do espelho e que, próxima do Espírito Santo, pode investir nele no plano da identidade: geograficamente Minas Gerais e Rio de Janeiro com uma influência mais nítida do Rio porque assumindo ainda simbolicamente o papel de capital orgânica do país e porque o jogo de cintura, o samba carioca, em tudo se insinuam, reptilianos que eles são, achando sem dificuldade o caminho das rachaduras, enquanto que o mineiro monolítico, olhando para dentro, nas minas da sua identidade e do seu queijo (Guimarães Rosa: &#8220;O sertão está dentro da gente&#8221;) não tem essa vocação de insinuar-se quase que femininamente como o carioca.</p>
<p>Então o efeito mosaico do Espírito Santo tem como conseqüência essa onipresença do Rio de Janeiro que faz correr o risco de bloquear a construção da identidade capixaba. Porque essa identidade está em construção e ela consiste, essa construção, em juntar as pastilhas do mosaico capixaba e fundi-Ia num espelho que vai refletir um rosto único e imensamente rico e diverso dentro dessa unicidade e que será o do Estado Capixaba de conceber o mundo e as coisas.</p>
<p>O batuque e a concertina aqui e agora.</p>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. Identidade capixaba — O efeito mosaico. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.9, I, mar. 1993. Terceiro texto da primeira trilogia.]</p>
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<a href="https://4.bp.blogspot.com/-cSP1d67i2oE/WFGkMm6tN-I/AAAAAAAALGA/IqH0TV1dMekkOLLdaSkGZ4tBB8PvUu7NQCEw/s1600/4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="43" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/4-2.jpg" class="wp-image-6002" width="200" /></a></div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Maestro do jardim</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:42:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Subindo na montanha. Deixar para trás o caldeirão da Grande Vitória, a estufa tropicalista já com toque de babilônia moderna. Subir — corpo mais leve — Chegar no chamado lugar Vista Linda: um hotel. Deparar-se — neste hotel — com uma montagem de brinquedos e miniaturas mecanizadas; e já: essa sensação germânica tomando conta da [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://1.bp.blogspot.com/-ZTyEO9CsRzQ/WFGlKuOQf9I/AAAAAAAALGI/MY1y0svgj_0_tciLCZE5C3MZ_xjnmp95gCLcB/s1600/33.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="331" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/33.jpg" class="wp-image-6015" width="400" /></a></div>
<p>
Subindo na montanha.</p>
<p>Deixar para trás o caldeirão da Grande Vitória, a estufa tropicalista já com toque de babilônia moderna.</p>
<p>Subir — corpo mais leve —</p>
<p>Chegar no chamado lugar Vista Linda: um hotel. Deparar-se — neste hotel — com uma montagem de brinquedos e miniaturas mecanizadas; e já: essa sensação germânica tomando conta da percepção: arrumação, ordem, montanhas, brinquedos, lourice, calmaria.</p>
<p>Porém há mais: Campinho: Hotel Imperador, salas imensas, jardins labirínticos — mas labirinto sem minotauro, onde há como a expectativa de algo que pode surgir, mas não algo monstruoso — ao contrário — um senhor de meia-idade, daquela idade ingrata onde a pessoa não é mais jovem e ainda não se encaixa na categoria mítica dos velhos sábios — um senhor de meia-idade, muito elegante, de terno branco e chapéu Borsalino branco, uma bengala de ébano com botão de prata trabalhada, rugas discretas ao redor dos olhos azuis — imensamente — olhar de quem já viu muita coisa e que veio aqui para esquecer o mundo, para reencontrar o jardim — não o da sua juventude porque ele não tem no olhar aquele saudosismo lusitano — não. Ele veio a Hotel Imperador / pode ser / para se tornar imperador de si.</p>
<p>Porque estes jardins, com mil jogos de esconderijos com surpresas quase que femininas (fru-fru de grandes saias fantasmáticas), ali, imitam a mata mas censuram o lado desumano dessa mata, tirando da natureza somente o que adquire um sentido para o humano e assim essa estadia no Hotel Imperador é como uma romaria mas sem nenhuma conotação igrejeira — há ali uma romaria bem humana em toda sua delicadeza-fragilidade de verdadeira rosa do humano — crescendo talvez no jardim do Hotel Imperador.</p>
<p>E se o olhar é logo seduzido pelo jogo em quincunce do jardim e das suas diferentes partes, há nesse jardim assim como uma música implícita, ou um coro de vozes abafadas que, na verdade, parece cantar por dentro e cujo maestro é nosso homem de meia-idade, de terno branco, com o olhar azul dos desmaios vividos: o Maestro do Jardim.</p>
<p>E há uma piscina que parece ser como o coração flutuante do jardim — folhas mortas nos azulejos, algumas cadeiras de ferro branco, um ar meio bizantino, neo-romano, algo como um classicismo que teria caído na mão de um maquiador, a solidão — folha morta, a solidão povoada pelo grande silêncio do jardim/natureza que enfim homenageia a presença do homem, de um homem inteiro como o compositor ali presente, de terno branco com o olhar azul-flutuante.</p>
<p>Imperador de si — e não dos outros — e como?</p>
<p>O senhor de terno branco, compositor de meia-idade, com aquela elegância de quem já bebeu demoradamente de todas (ou quase) as taças, inclusive a do amor e da glória, e que lentamente foi enjoando daquilo tudo, como se essa bebedeira elegante não fosse o fino do prazer mas a sua negação — já que o prazer sempre desembocava num buraco no meio do seu próprio peito — um buraco onde o vento da montanha pura soprava e que, assim, confeccionava o que os homens, os cristãos-vivos, chamam de música. Ele se tornou músico por ausência porque nunca conseguiu estar realmente presente nas festas dos homens e nas igrejas dos cristãos-vivos.</p>
<p>Ele sempre foi um adepto da &#8220;Montanha Mágica&#8221; e isto apesar de um verdadeiro tomar-conta-de-mim que era o efeito do mar nele — um adepto das alturas sem cair nas acrobacias circenses dos alpinistas, nunca teve vocação para circo, a não ser / às vezes / diante do seu espelho — do espelho do armário, no quarto 12 do Hotel Imperador: mímicas privadas, como o fazer-cocô da manhã, o cigarro turco, achatado e perfumado, do almoço, sentado / de terno branco / na beira da piscina onde nunca ninguém tomava banho, a se lembrar dos seus amigos Gustav Mahler e Egon Schiele — outras épocas — outros impérios já falecidos como todos, e a conclusão estava escrita em letras de ouro na madeira lisa e envernizada do hotel: &#8220;Vós é que sois o Imperador&#8221; ou teria sido simples alucinação visual, essa frase escrita, porque ninguém conseguiu confirmar sua presença — Frase soprada no vento da montanha pura. — Talvez.</p>
<p>O que deixava o observador meio aturdido neste hotel era isso: essa presença-não-presença.</p>
<p>Ao mesmo tempo havia algo como um abandono, uma presença levemente sorridente — que podia ser ou não o rosto de uma moça loura e encolhida no seu corpo e sua saia frufrutando entre os galhos, uma pálpebra feminina abaixando-se lentamente, o olho ocupando repentinamente o espaço todo do jardim e fazendo-o flutuar dentro do seu azul absoluto, para desaparecer da maneira mais doce possível — esvanecimento quase que imperceptível e que deixava dúvidas a respeito do princípio de toda realidade e especialmente a, incontornável, da dor; essa presença-não-presença do hotel e do jardim do hotel confirmada na presença dos casais, no restaurante em nível inferior comprido e bem aberto sobre o jardim e que parecia com uma estufa (sem dar a essa palavra aquele sentido de calor estonteante) dando-lhe o sentido de &#8220;casa-dentro-do-jardim&#8221;, casa completamente filha do jardim e assim servindo de ponte. Esse restaurante orientado perpendicularmente ao resto do hotel parecia ser uma ponte entre o jardim que o cercava e o hotel &#8220;a casa dura&#8221; solidificada nos quartos fechados sobre si, e essa &#8220;casa dura&#8221; olhava o resto da cidade que então assumia o papel de casa-das-casas. Restaurante embaixador entre a Mãe-Natureza (já um pouco humanizada pelo jardim) meio maluca lá nos arredores da cidade e a casa dos homens por excelência: a cidade. E os casais ali presentes comiam, em silêncio ou deixando apenas escapar sussurros, como se o espaço do restaurante fosse algo parecido com uma capela (pode ser porque ali o fato de comer era um ato quase que sagrado: o da deglutição pelo humano da Mãe-Natureza sob a forma dos alimentos, uma comunhão que criava o espaço humano do restaurante e a partir dali do hotel e da cidade).</p>
<p>Entretanto essa semelhança com uma capela era apenas superficial. Espaço místico com todos os arrebatamentos que isso supõe? Não — nada de arrebatamento — calmaria, analgesia, fantasmáticos ou quase — os casais — mas nada de morte rodeando, ou então uma morte lógica e doce que contradiz as mortes naturais que apesar de serem naturais nunca deixam de ser idiotas. E esses casais jovens ou velhos ou maduros não tinham o aspecto de casais legítimos no sentido da lei. Eram casais tranquilamente fora de toda lei e que se amavam perfeitamente, compartilhando seu jantar como uma ceia, mas uma ceia que é apenas uma ceia de frutos da terra e não o prelúdio a mil arrebatamentos celestiais por cima deste hotel, dessa montanha pura e borbulhando de tanta pureza. Os seus corpos, à noite, se encontravam como sempre se encontram os corpos dos amantes, com aquela infinita aproximação e estremecimento dos dedos formigando, com aquele suspender do fôlego e de toda visão do mundo, até que a mão se deita sobre uma anca e nesse momento — nos quartos do hotel — a madeira canta para se lembrar também do tempo em que ela era amada, lá na montanha, para se lembrar do tempo em que ela cantava, essa madeira, no vento puro da montanha, junto aos pássaros-reis e aos macacos pré-socráticos.</p>
<p>[Este texto faz parte de uma série que tem como objetivo uma tentativa de evocação, no plano mítico-poético e no plano conceitual, da identidade capixaba. Este texto, ao contrário do anterior, &#8220;O barco ébrio&#8221;, que mostrava o lado dionisíaco dessa identidade, quer apontar agora seu lado apolínico.]</p>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. Maestro do jardim. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.8, I, fev. 1993. Segundo texto da primeira trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
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</div>
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<a href="https://1.bp.blogspot.com/-UwcRt-gzN9c/WFGl2Rnf2eI/AAAAAAAALGQ/eqobNQyapaA8QlYTu-Hd5SH6Qs_5FI_ZQCLcB/s1600/vectorstock_207-b.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="161" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/vectorstock_207-b.jpg" class="wp-image-6016" width="200" /></a></div>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia&nbsp;autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>O barco ébrio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:37:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Identidade Capixaba]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016. Fundão: janeiro. Calor-caldeirão. O fundo do caldeirão. Uma bacia — com a cidade no fundo é uma festa, o Santo Negro e o Santo Branco. O Deus Negro e o Deus Branco. Barracas, cerveja, pinga, música, álcool no ar, música no álcool — sinfonia azul-bala [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<p></p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-Ze1xQsJqKwU/WFGmoDmgbSI/AAAAAAAALGg/Nltg4GyPj64NvmXZ48inBzoPK8DNPpH-wCLcB/s1600/Barco%2B%25C3%25A9brio.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016." border="0" height="320" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Barco2B25C325A9brio.jpg" class="wp-image-6023" title="Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016." width="227" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Foto e intervenção de Maria Clara Medeiros Santos Neves, 2016.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
Fundão: janeiro. Calor-caldeirão. O fundo do caldeirão. Uma bacia — com a cidade no fundo é uma festa, o Santo Negro e o Santo Branco. O Deus Negro e o Deus Branco. Barracas, cerveja, pinga, música, álcool no ar, música no álcool — sinfonia azul-bala outras verde-chiclete — grupos de músicos surgindo — ritmos — &#8220;o barco está chegando! O barco está chegando!&#8221; Sim, o barco está chegando, é só entrar na multidão — mar de homens — sim e nadar contra a corrente, rio de homens —, a multidão cada vez mais densa — nadar no corpo da rua e ver enfim o mastro do barco oscilando por cima dos ombros assim como fazendo sinais para o rebanho humano aglutinado aos seus flancos, no meio de gestos grandiloquentas que parecem procurar a materialização de algo encolhido no espaço de ouro por cima ou por dentro do espaço humano, e se aproximar com relevante dificuldade do barco e ver a multidão curvada sobre uma corda grossa, maciça, como cordão umbilical do mar ou da terra, e assim puxar o barco oscilando, feito bebo-bebaço por cima do mar de ombros-ondas, como se essa massa compacta de corpos estivesse extraindo o barco do mar, e realizando esse milagre de fazê-lo mover-se sobre a terra como ele se movia sobre o mar.</p>
<p>Barco adorado pelos homens-estivadores de que deus?</p>
<p>O barco divindade oscilando por cima dos ombros — ou parecendo oscilar por cima dos ombros — mas de qualquer maneira: este barco na terra dos homens.</p>
<p>O barco de que deus bêbado?</p>
<p>Já que não há só a homenagem ali prestada pelos homens ao barco, é a homenagem da embriaguez feliz, que faz a terra girar, os homens rir e as mulheres abrir religiosamente as pernas, que faz os meninos se tornarem homens e as moças deixarem o vestido de noiva. São as núpcias anônimas e erguidas como um carvalho por cima da terra mãe, como o mastro erguido do barco, no arroto da terra.</p>
<p>E a multidão ficando cada vez mais densa, selva de corpos virgens de toda divindade, homenageando seu barco-deus, titubeando e subindo a coluna da Igreja, fazendo um S comprido como a serpente cósmica que abraça a terra com seus anéis de mil bodas, meu Deus!</p>
<p>E foi nessa altura, quer dizer, na primeira curva do caminho em S subindo para a Igreja que um homem jovem, todo dourado e nu como a serpente de nosso senhor, apareceu junto ao mastro de nosso barco — formas perfeitas e neogregas com coroa de louros na cabeça, rindo às gargalhadas, lançando sementes ao ar e dançando uma dança de arabescos femininos, lânguida como uma carioca na praia, tornando-se quase serpente de ouro velho ou de ouro preto mas sem que a serpente e a mulher potencial fossem ligadas uma à outra, porque ali nesse rapaz belo: &#8220;a mulher era a serpente e a serpente era a mulher&#8221;, os dois reunidos no ouro maciço, reluzente como o carvão. E a serpente longe de ter aquela auréola diabólica e humana demais que os cristãos-vivos lhe dão — ao contrário tinha um ar de professor que sabe das coisas — essas coisas que o homem morre de não saber.</p>
<p>E o mar-multidão dos homens, com os olhos arregalados como discos voadores e reluzentes de que luz de desrazão, bebia o espetáculo do deus-mancebo de ouro — do grande Deus macho e fêmea e serpente e que fazia girar lentamente a máscara de ouro de seu rosto — boca larga aberta ao vento — como um farol por cima dos seus — doravante — adeptos.</p>
<p>Atuando as membranas na música, atuando o nervo erguido como mastro por cima da terra-cachorro, atuando o músculo tetanizado, jogado contra o rochedo próximo contra o granito ou o asfalto, atuando também outra música vinda de cima da colina oca, música de mil evanescências, vinda da igreja rapidamente engolida pela música da serpente que dança no barco fazendo a terra terremotar como a tempestade do mar fazendo a Igreja aberta imensamente se abrir sobre o nada ou sobre a plenitude da serpente.</p>
<p>[CHAUDANNE, Gilbert. O barco ébrio. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.7, I, jan. 1993. Primeiro texto da primeira trilogia. Reprodução autorizada pelo autor.]</p>
<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://4.bp.blogspot.com/-cSP1d67i2oE/WFGkMm6tN-I/AAAAAAAALGA/IqH0TV1dMekkOLLdaSkGZ4tBB8PvUu7NQCEw/s1600/4.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img loading="lazy" decoding="async" border="0" height="43" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/4-3.jpg" class="wp-image-6024" width="200" /></a></div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1993&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b>&nbsp;sem prévia autorização&nbsp;</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
<p></p>
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		<title>&#8220;Madras, 1970 (a ponte)&#8221;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 17:16:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Ilustração de Gilbert Chaudanne. É. Você queria um belo caleidoscópio: o mundo, com suas cintilações de civilizações, você queria ser uma espécie de colecionador de paisagens, de cidades, de vivências. Mas tudo isso desmoronava diante de uma ponte de Madras, Tamil Nadu, Índia. Homens pretinhos, com traços ocidentais, um pouco como os etíopes. Ninguém sabe [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://1.bp.blogspot.com/-IBSB1wl0bTI/V3wQRbdHE4I/AAAAAAAAKIs/SlOSDZc5W-ECuPCqVrvrDjpUIhvJd6kvwCLcB/s1600/Madras%252C%2B1970.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Ilustração de Gilbert Chaudanne." border="0" height="640" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Madras252C2B1970.jpg" class="wp-image-6077" title="Ilustração de Gilbert Chaudanne." width="412" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Ilustração de Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
É. Você queria um belo caleidoscópio: o mundo, com suas cintilações de civilizações, você queria ser uma espécie de colecionador de paisagens, de cidades, de vivências. Mas tudo isso desmoronava diante de uma ponte de Madras, Tamil Nadu, Índia. Homens pretinhos, com traços ocidentais, um pouco como os etíopes. Ninguém sabe sua origem — o cheiro de vários milênios —, e os templos hindus, com amontoados de corpos rolando uns em cima dos outros, numa orgia divina, à qual o homem era convidado, na rotação das rodas cósmicas, e convidado a ser esmagado também na incrível economia divina.</p>
<p>O caleidoscópio? O Terrível! Diante dessa ponte esmagada, escamada, de velho cimento outrora armado, quase despencando — pedaços inteiros chamados pela espécie de rio de lodo preto, notavelmente fedorento —, essa mesma impressão, como em outras cidades indianas, de estar diante de um império comido pelos cupins e os micróbios, pelos trópicos, um desgaste pela passagem não dos séculos, mas dos milênios.</p>
<p>A ponte. A ponte sobre a qual agora estou andando. A ponte, dando uma vista panorâmica sobre a cidade roída, escamada — o cheiro forte, onipresente, do esgoto, de folhas apodrecidas, de merdas humanas (saudade de um bom cheiro de estrume de vaca) —, e assim acendo um biddie, marca Ganesha, meu preferido, bem à vontade, em minha roupa indiana, estava, na verdade, me filmando mentalmente, me vendo como uma espécie de aventureiro — aquele cara vivido, que conhece um monte de países, uma verdadeira agência de viagem ambulante, meu Deus!, o cara. Isso. O cheiro do vivido no contato com a pele do asfalto, das mulheres, dos bichos. Assim, o rosto um pouco esmaecido, algumas rugas elegantemente distribuídas, daquelas rugas que as adolescentes apreciam no homem maduro, que as fazem lembrar o papai e que lhes dão a impressão de estar diante de uma fatia de vida bem vivida.</p>
<p>O problema é que não tinha ruga nenhuma, que era frágil como uma moça de colégio, que, então, estava fadado a não poder brincar de cara vivido. Este, em geral, é um cafajeste que confunde o fato de viver com o fato de foder — em todos os sentidos. É uma espécie de instinto de caçador, de predador. E o meu instinto era mixuruca, porque simplesmente sensível demais, até a candura absoluta. Alguém falava: &#8220;Me dá seu dinheiro, vou trocar na esquina&#8221;, e eu aceitava. Para mim, era palavra dada, e à palavra dada não se abre a boca. Assim, várias vezes, fiquei sem o troco&#8230;</p>
<p>Então, era isso, esse índio-francês-coração-sensível andava na ponte de Madras e se sentia até satisfeito em ter chegado até ali. Um velho sonho realizado: as Índias e o espírito das Índias Gerais. Agora, ele estava se convertendo em aventureiro do Espírito. Viu os templos hinduístas, budistas, as vacas sagradas&#8230; Ele se dizia que estava vivendo no Espírito e que podia ser um quase puro espírito, sem a rotina do cotidiano, sem as obrigações de comer, foder, dormir, trabalhar. Assim = os jejuns na estrada, forçados ou não, as noites não dormidas, voluntariamente, nas estações de trem, horas sentado no mesmo lugar, segurando um galho, tudo isso era como espécies de exercícios espirituais entre Inácio de Loiola e Buda, que deviam me levar, com a ajuda da vaca sagrada e do elefante branco e voador até o Âmago do Divino.</p>
<p>Por enquanto, de divino só tinha a marca do meu cigarro: Ganesha — e seu gosto de folha vegetal que queima os lábios.</p>
<p>Nos dois casos: o aventureiro exterior e o aventureiro interior (espiritual) eram uma doce masturbação, que excluía a realidade abrupta do mundo.</p>
<p>Porque, chegando no final da ponte, meu olhar foi atraído por algo preto, à esquerda, embaixo da ponte, esse algo com bastante extensão. Parecia pedaços de plástico preto, misturados com lama também preta, pedaços de caixote com pedaços de papelão, cordas, arames, e isso parecia que era oco, parecia que tinha uma abertura, um buraco-abertura, e isso parecia respirar, no lodo com o cheiro acre do esgoto, de merda, de mijo. Era assim como uma caverna caleidoscópia de arame, de plástico preto, de papelão, de madeira, algo como um covil, onde o lodo era rei.</p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-utHfC0qL5MA/V3wQ6IjP_HI/AAAAAAAAKI0/45Y1topQwSM3kzHst0wlGC1N8EVdxatzwCLcB/s1600/Madras%2B-%2BA%2Bmulher%2Bda%2Bponte.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Ilustração de Gilbert Chaudanne." border="0" height="320" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Madras2B-2BA2Bmulher2Bda2Bponte.jpg" class="wp-image-6078" title="Ilustração de Gilbert Chaudanne." width="228" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Ilustração de Gilbert Chaudanne.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Pensei: um depósito de lixo, onde, certamente, o acaso pensou interessante fazer essa espécie de caverna — uma caverna no lixo.</p>
<p>Mas, lentamente, naquele buraco de caverna de lixo, vi algo preto se movendo, uma forma alongada que toma rapidamente a forma de um braço — e era um braço humano, sim, e, dessa vez, lentamente, o resto do corpo de uma mulher preta, seminua, se oferecia à luz do dia quente de Madras, com um neném pendurado numa mama ressecada, raquítica.</p>
<p>Baixei os olhos para não encontrar os da mulher, da mãe. Senti uma vergonha, mais que isso, uma desonra, de estar vivo e de ter o luxo de me achar um aventureiro material e espiritual. O que estava em mim era um desejo forte de pedir perdão àquela mulher, como se eu fosse responsável pela desgraça dela, mas não conseguia fazer nada, a não ser andar covardemente, pedindo perdão à ponte, à cidade, à Índia, e, de repente, ficando com uma imensa raiva de que o mundo não era mais o palco das minhas proezas ou dos meus devaneios — mas algo tétrico, terrível, onde há pouco espaço para a transparência do amor do próximo. E havia nenhum espaço, aliás, para qualquer tipo de espiritualidade. O que vale o chamado do Espírito, diante daquela mulher? É simplesmente uma piada.</p>
<p>E eu também, com meus pobres devaneios de estudante secundarista, era uma piada ambulante — mas que tinha, pelo menos, consciência de ser uma piada, o que me transformava numa piada trágica. Chora por ti, meu filho, você é notavelmente ridículo!</p>
<p>Assim, talvez, conheci pessoas que estavam já longe do pequeno cinema pessoal, mas acho que não as reconheci — ou melhor, achei-as insignificantes. Não percebia a bondade, lá onde estava, no gesto materno de uma mulher, na generosidade aberta de um velho bon vivant — não — me amarrava em caras que, como eu, mas de uma maneira mais primária e grosseira, brincavam de ser o Tal, o aventureiro, o cara vivido, o garanhão, etc. Assim, tive um monte de amigos errados, daquela turma do eu, eu, eu. Para mim, esses caras eram os fortes e tinha de me educar a ser como eles, uma espécie de biruta feliz.</p>
<p>Tentei, não consegui. No fundo do poço, das farras, das trepadas, havia uma fenda luminosa, que brilhava como uma espada: Excalibur!</p>
<p>Essa fenda era a minha consciência — que não consegui destruir e que carrego até hoje, como minha mochila, naquela época.</p>
<p>A consciência é uma mochila e eu sou o jegue da minha consciência.</p>
<p>[Da série &#8220;Memórias de um maluco de estrada&#8221;, transcrito da revista <i>Você</i>, da Universidade Federal do Espírito Santo, n. 60, outubro de 1998.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1998&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação<b> sem prévia autorização </b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Gilbert Chaudanne &#8211; Repertório Literário</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/gilbert-chaudanne/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2015 18:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Biobibliografia]]></category>
		<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Fortuna Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Repertório literário]]></category>
		<category><![CDATA[Vitrine de Textos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Gilbert Chaudanne BIOBIBLIOGRAFIA VITRINE DE TEXTOS Dois textos de Gilbert Chaudanne&#160;&#8211; Textos escritos por Gilbert Chaudanne durante sua permanência no Centro de Ajuda Psicossocial da Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Vitória, como participante “honorário” da oficina dirigida por Sérgio Blank, no ano de 2001. Reproduzidos com permissão do autor. Madras, 1970 (a ponte), [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="http://2.bp.blogspot.com/-7hrwvWiapgA/VlNHek2PRLI/AAAAAAAAAJI/7Gul6A2VrVE/s1600/artista_gilbert_chaudanne__foto__divulga.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" width="320" height="229" border="0" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/11/artista_gilbert_chaudanne__foto__divulga.jpg" class="wp-image-6811"></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Gilbert Chaudanne</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">BIOBIBLIOGRAFIA</a></b></p>
<p><b><br />
VITRINE DE TEXTOS</b></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/dois-textos-de-gilbert-chaudanne/" target="_blank" rel="noopener">Dois textos de Gilbert Chaudanne</a>&nbsp;&#8211; Textos escritos por Gilbert Chaudanne durante sua permanência no Centro de Ajuda Psicossocial da Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Vitória, como participante “honorário” da oficina dirigida por Sérgio Blank, no ano de 2001. Reproduzidos com permissão do autor.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/madras-1970-ponte/" target="_blank" rel="noopener">Madras, 1970 (a ponte)</a>, da série &#8220;Memórias de um maluco de estrada&#8221;, transcrito da revista&nbsp;<i>Você</i>, da Universidade Federal do Espírito Santo, n. 60, outubro de 1998.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/istambul-1970/" target="_blank" rel="noopener">Istambul, 1970</a>, da série &#8220;Memórias de um maluco de estrada&#8221;, transcrito da revista&nbsp;<i>Você</i>, da Universidade Federal do Espírito Santo, n. 59, outubro de 1998.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/machu-picchu-1972/" target="_blank" rel="noopener">Machu-Picchu, 1972</a>, da série Memórias de um maluco de estrada, transcrito da revista&nbsp;<i>Você</i>, da Universidade Federal do Espírito Santo, n. 55, março de 1998.</p>
<div>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/excerto-do-livro-passagem-de-marina/" target="_blank" rel="noopener">Excerto do livro <i>A passagem de Marina</i></a>, 1996, p. 42-53.</div>
<div>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/poema-eternidade-jardim-ou-o-poema/" target="_blank" rel="noopener">Poema “Eternidade-jardim ou o poema-Moscoso”</a>, in&nbsp;<i>Escritos de Vitória: Parque Moscoso</i>, volume 6, Prefeitura Municipal de Vitória, 1994.</div>
<div>
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pavana-para-um-macaco-pre-socratico/" target="_blank" rel="noopener">Pavana para um macaco pré-socrático.</a>&nbsp;Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.17, II, nov. 1993. [Terceiro texto da segunda trilogia.]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/pedra-dragao-bailarina/" target="_blank" rel="noopener">Pedra, dragão, bailarina.</a>&nbsp;Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.16, II, out. 1993. [Segundo texto da segunda trilogia.]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/mitologia-do-beija-flor-um-beijo-de/" target="_blank" rel="noopener">Mitologia do beija-flor: um beijo de princípios</a>. Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.15, II, set. 1993. [Primeiro texto da segunda trilogia.]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/identidade-capixaba-o-efeito-mosaico/" target="_blank" rel="noopener">Identidade capixaba — O efeito mosaico.</a>&nbsp;Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.9, I, mar. 1993. [Terceiro texto da primeira trilogia.]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/maestro-do-jardim/" target="_blank" rel="noopener">Maestro do jardim.</a>&nbsp;Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.8, I, fev. 1993. [Segundo texto da primeira trilogia.]<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-barco-ebrio/" target="_blank" rel="noopener">O barco ébrio.</a>&nbsp;Revista&nbsp;<i>Você</i>, Vitória: Ufes, n.7, I, jan. 1993. [Primeiro texto da primeira trilogia.]</p>
<p><b>DEPOIMENTOS</b></p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/depoimento-de-gilbert-chaudanne-ao/" target="_blank" rel="noopener">Depoimento de Gilbert Chaudanne ao Neples</a>, 1996.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-campones-da-arte-entrevista-feita-por/" target="_blank" rel="noopener">O camponês da arte.</a>&nbsp;[Entrevista realizada por Oscar Gama Filho e publicada na revista&nbsp;<i>Você</i>, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, n. 47, julho de 1997.]</p>
</div>
<div>
<ul></ul>
<div>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2004&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação&nbsp;<b>sem prévia autorização</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
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		<title>Depoimento de Gilbert Chaudanne ao Neples</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2015 18:44:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Depoimentos]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Neples]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>UNIVERSO PESSOAL E INÍCIO DE CARREIRA 1. Descreva sua infância e vida escolar Nasci e me criei em Besançon (França) — na região chamada Franco-Condado, cidade de pensadores e escritores (Victor Hugo, Proudhon, Fourier) — Besançon é antiquíssima, já existia no império romano (Vesutio). Meu bairro era o bairro popular tipo Vila Rubim, com imigrantes [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3>
UNIVERSO PESSOAL E INÍCIO DE CARREIRA</h3>
<p></p>
<h4>
1. Descreva sua infância e vida escolar</h4>
<p>Nasci e me criei em Besançon (França) — na região chamada Franco-Condado, cidade de pensadores e escritores (Victor Hugo, Proudhon, Fourier) — Besançon é antiquíssima, já existia no império romano (Vesutio). Meu bairro era o bairro popular tipo Vila Rubim, com imigrantes (italianos, espanhóis, portugueses, árabes), muitos botequins e uma prostituição moderada. O bairro é medieval, barroco, renascentista e há até as antigas arenas do circo romano onde eu ia jogar futebol. Há também, onipresentes, as fortificações de Vauban (séc. XVII) que marcam o bairro com seu espírito de geometria estrelada. Bairro labirinto com os atalhos debaixo das casas como túneis quase esotéricos, tem o nome regional de “Trage”.</p>
<p>Meu prédio é uma antiga sinagoga e sempre achei que o corredor de entrada tinha algo “oriental”; o bairro era dedicado a Baco-Dioniso; ainda tem a praça “Bacchus” com um chafariz que infelizmente só verte água. — Uma das ruas que cerca meu prédio se chama de “Rue de Vignier”, essa última palavra certamente vindo de “vigne”, porque até o século passado [XIX] eram cultivadas muitas vinhas nesse bairro e em Besançon em geral.</p>
<p>Minha infância foi assim ninada por este doce labirinto, de uma certa maneira “haut en couleur” e cosmopolita. Eu me deslocava no meio de várias culturas (árabe, latina, francesa) sem problema, sendo aceito por todos como criança fácil de conviver.</p>
<p>O contraponto era uma casinha, perto de Besançon, que meus pais tinham numa colina. Lá os jogos continuavam = uma guerra de meninos nos murgers (amontoados de pedras retiradas do solo para cultivar a vinha). Esses murgers continham antigas casas talvez gaulesas e com meu irmão nós tentamos resgatá-las brincando de arqueólogos. Construíamos também “camps”, espécie de casinhas de pedras e folhagem. Tinha um lugar chamado “Bout du monde”, fim do mundo — e eu imaginava uma parede imensa debaixo dos meus pés (como as muralhas de Vauban) — e além nada: o azul do céu em cima, em frente, em baixo. Tudo isso era talvez meu imaginário.</p>
<p>Mas havia a escola. E eu era o aluno modelo, sempre no primeiro ou segundo lugar, muito disciplinado, e a disciplina na França não é mole não. No liceu (até 18 anos) continuei meu caminho glorioso (4 vezes prêmio de excelência em 7 anos) — disciplinado e apaixonado pelas ciências e matemáticas, mas praticando a pintura e o desenho desde os 13 anos de idade e a escrita a partir dos 17. — Uma infância feliz, onírica — sim — uma adolescência desesperada: o surgimento da consciência e a ausência de um apoio adulto — apesar de uma admiração generosa para certos professores.</p>
<p>Aos 12-13 anos eu tinha o que eu chamava de “crises filosóficas”. De repente o mundo cotidiano parecia se abrir, como uma fenda, e me colocava em contato com uma espécie de outro mundo sem que esse fosse um mundo sobrenatural. Era algo como Sartre o descreveu na Nausée. E os adultos viam isto como anormalidade — o que me magoava muito e me levou à revolta.</p>
<p>A universidade foi traumática porque eu estava perdido num rebanho imenso, enquanto no liceu eram turmas pequenas onde tinha um certo aconchego e uma certa crueldade também. Minha revolta foi crescendo, passou por 68 e foi na direção da Índia. Abandonei os estudos e viajei. Fim das escolas —</p>
<p></p>
<h4>
2. Que lembranças guarda da sua cidade natal e ou das outras cidades onde viveu?</h4>
<p>Acho que já respondi à primeira parte da pergunta.</p>
<p>As cidades onde eu vivi: Marselha, Berlim, Vientiane (Laos), Natal, São Luís, Teresina, Lisboa.</p>
<p>Berlim me marcou bastante: em 1971, era a época do Muro da Vergonha e a situação ilhada de Berlim ocidental, essa situação excepcional me agradava justamente porque era excepcional. — Berlim também simbolizava a capital das Brumas metafísicas e germano-nórdicas em oposição ao sul mediterrâneo luminoso. — Cor: cinza e azul da Prússia.</p>
<p>Vientiane: na época da guerra do Vietnam, com suas polícias múltiplas, o Rei, o Triângulo de Ouro ao alcance da mão. A queda da monarquia e uma cidade-jardim, doce, estendida ao lado do Rio Mekong. — Cor verde e mel.</p>
<p>Lisboa: capital da Europa para mim / — um filme de Alain Tanner: “La ville blanche” (a cidade branca) retrata bem Lisboa. Talvez essa presença do labirinto (como o do meu bairro) e sempre fui mais atraído pelos povos do sul da Europa ou da Ásia, América latina, e África que pelos germanos-nórdicos anglo-saxônicos. (Austrália e América do Norte não me interessam): Cor azul e branco.</p>
<p>Natal: uma cidade que era uma etapa da minha busca da cidade absoluta e absolutamente aconchegante. Cor: azul.</p>
<p>São Luís: magnífico poema sujo. Cor marrom e creme.</p>
<p>Teresina: uma aparente ausência de elegância, comparando com São Luís e Natal — porém convivendo mais uma presença de quintal, um rosto escondido. Cor: Teresina é chamada cidade verde, mas para mim ela é bege.</p>
<p></p>
<h4>
3. Como começou sua atividade literária? Recebeu orientação ou incentivo de professores ou ainda de outras pessoas?</h4>
<p>Comecei a escrever aos 17 anos, no verão, depois de ter lido Assim falava Zaratustra. Nunca mostrei para ninguém até minha primeira publicação em 1973, oito anos depois.</p>
<p>Trabalho só, não peço opinião, somente depois que o texto é publicado. No fundo, não duvido do valor do que escrevo.</p>
<h4>
4. Quais foram suas primeiras leituras e primeiras produções literárias?</h4>
<p>Primeiras leituras: Edgar Allan Poe, Nietzsche, Dostoievsky, Conan Doyle, Anatole France.</p>
<p>Primeiras produções literárias: um texto poético-filosófico aos 17 anos lembrando Nietzsche, e depois poemas que podem lembrar Verlaine, Hugo, Mallarmé, apesar denão gostar desses autores e de conhecê-los muito pouco.</p>
<h3>
O ESCRITOR E SEU OFÍCIO</h3>
<h4>
5. Quais os temas principais abordados em sua obra? Que função predominante atribui à sua literatura?</h4>
<p>Os temas: a revolta (hoje desapareceu), a viagem, o Amor, o espírito do lugar, a história. Acho que a literatura não tem função nenhuma, ela é gratuita e está ali como uma pedra ou uma flor. Ela está e isto basta.</p>
<h4>
6. Quando começa a escrever, o enredo já está definido ou se desenvolve e se altera à medida que vai escrevendo? Delineia os capítulos e planeja toda a estrutura antecipadamente?</h4>
<p>Minha maneira de escrever é pulsional: obedece ao meu “inconsciente”, melhor: confio nele e não na minha razão porque essa tem suas razões que não são as da escrita. A obra é sempre epifânica e não é uma construção, um projeto. Às vezes posso ter um projeto mas em geral ele termina sendo traído. Talvez existam outros tipos de temperamentos literários: os machadianos, o escriba, os que relatam e ordenam, o meu temperamento literário é dionisíaco: acredito no delírio. No delírio autêntico.</p>
<h4>
7. Até que ponto seus personagens se baseiam em pessoas reais, inclusive em você mesmo? Como você escolhe o nome dos personagens?</h4>
<p>Eu não crio muitos personagens mas quando há alguns acho que como em Proust eles são a síntese de várias pessoas reais porém com algo a mais que faz que o personagem se torne arquétipo. Ex.: Dom Quixote. O meu eu narrador é um outro eu que talvez nem me pertence.</p>
<p>Os nomes dos personagens (quando tem) são escolhidos instintivamente, o nome surge um dia com uma nitidez incontornável.</p>
<h4>
8. Do ponto de vista da técnica, quais os escritores que mais admira e de quem sofreu influência?</h4>
<p>Artaud, Lautréamont, Augusto dos Anjos, Audífax de Amorim, Marguerite Duras, Amylton de Almeida, Dostoievsky, Camus, Nietzsche, T. S. Eliot, Auden, Wallace Stevens, Hopkins, Rimbaud, Ferlinghetti, Kerouac, Laforgue, Rabelais, Céline.</p>
<p>Quem me reconciliou com a literatura (que eu odiava apesar de escrever) — foi Artaud e Lautréamont porque seus estilos fogem das artimanhas, do coquetismo, do preciosismo e da ausência de generosidade que esteriliza a literatura francesa.</p>
<h4>
9. De que modo descreveria seu estilo?</h4>
<p>Atualmente um estilo neobarroco e às vezes meio cubista, barroco porque não tem medo do chamado mau gosto, das repetições e das cacofonias, cubista porque justapõe frases ou elementos de frases que aparentemente não têm uma relação lógica mas apenas espacial.</p>
<h4>
10. Faz uso de intertextos, analogias, referências, citações?</h4>
<p>Sim, às vezes até inconsciente e às vezes eu reutilizo uma frase, o refrão, ou personagem de um outro livro meu.</p>
<h4>
11. Faz uso do diálogo interior?</h4>
<p>Sim, mas raramente.</p>
<h4>
12. Faz uso da linguagem popular?</h4>
<p>Sim, mas não de uma maneira contínua, ela convive com outros tipos de linguagem como a linguagem erudita, ou línguas estrangeiras.</p>
<h4>
13. Sente-se mais à vontade numa narrativa na primeira ou na terceira pessoa?</h4>
<p>Em geral, na primeira, mas eu admiro os escritores que criam um personagem que termina existindo mais que o autor, como Don Juan ou Dom Quixote; Le Grande Meaulnes.</p>
<h4>
14. Com que regularidade escreve?</h4>
<p>Todo mês, escrevo um ensaio para a revista Você e participo de outras revistas mineiras, piauienses e francesas. Eu posso ter uma periodicidade no tipo ensaio não na poesia ou escrita a caráter poético como A passagem de Marina. — Gosto de escrever cartas: é um bom exercício como a barra para a bailarina.</p>
<h4>
15. Reescreve seus textos, cortando, acrescentando, alterando?</h4>
<p>Em geral não. Há o primeiro “jato”, no máximo depois passo a limpo corrigindo apenas detalhes. Mas às vezes escrevo uns dois ou três textos que não me satisfazem, até chegar no que eu gosto. Mas a maioria das vezes é o primeiro “jato”.</p>
<h4>
16. Qual é sua relação, como escritor, com a língua portuguesa?</h4>
<p>Sendo de língua francesa minha relação talvez é mais complicada. Tenho a impressão de ser um eterno Cabral lingüístico já que eu nunca termino de redescobrir a língua brasileira. Isto é uma espécie de nova inocência que acho fecunda para a escrita já que há de ter essa relação lúdica com a linguagem para poder escrever.</p>
<h3>
O LEITOR E A LITERATURA</h3>
<h4>
17. Faz concessões ao leitor nos seus textos?</h4>
<p>Não.</p>
<h4>
18. Que acha da função da crítica literária?</h4>
<p>Condená-la é um romantismo adolescente.</p>
<p>Fazer sua apologia é uma mumificação perigosa do saber.</p>
<p>Acredito numa crítica que é ao mesmo tempo pensamento e criação. O tipo é Roland Barthes. Cuidado com a superinterpretação que é o delírio das críticas sociológicas ou psicanalíticas ou ideológicas.</p>
<h4>
19. Qual sua opinião sobre o futuro do romance, da poesia, do teatro?</h4>
<p>Para ter futuro teria talvez que ter presente, e a literatura boa é tão pouco lida hoje que não me preocupo com o futuro mas com a situação meio catastrófica que é a de hoje.</p>
<h4>
20. Que tem a dizer sobre os autores do Espírito Santo?</h4>
<p>Eu descobri aqui talentos que vão se projetar nacionalmente e internacionalmente: como Amylton de Almeida, Audífax de Amorim, Reinaldo Santos Neves, Renato Pacheco. Ao que me parece há duas tendências, uma escrita erudita ou neoerudita que é a dos autores citados e outra mais descompromissada com o passado como Flavio Sarlo ou Wilson Coêlho (“a palavra criatura”).</p>
<p>É possível estabelecer uma identidade literária capixaba? Escrevi na revista Você um texto sobre a identidade capixaba. [Vide na seção Textos/Identidade da ESTAÇÃO CAPIXABA] É de fato um estudo sobre um possível imaginário capixaba e era destacado um certo “efeito mosaico”, uma fragmentação devido às várias culturas encontradas no estado. Na literatura parece que a fragmentação é apenas literatura erudita-trabalhada / literatura coloquial-espontânea. O tema da Terra Natal (Canaã, romance das imigrações etc.) existe mas não é isto que cria uma identidade no plano da escrita e do espírito do lugar. Neste último caso me parece que o desencanto de Amylton de Almeida, o ceticismo irônico de Reinaldo Santos Neves, uma certa distanciação apurada nos poemas de Renato Pacheco, poderiam ser uma vertente de sensibilidade literária capixaba atual: distanciação. De uma outra maneira, um certo telurismo de José Irmo Gonring, a busca da casa “habitável” aqui e agora de Roberto Almada, o espontaneísmo de Flavio Sarlo, compõem uma outra vertente da aceitação do aqui e agora. Um sim que se opõe à distanciação dos autores citados no primeiro caso.</p>
<p>Acho que a cidade de Vitória (Carmélia M. de Souza, Amylton de Almeida, Reinaldo Santos Neves) tem um papel talvez à parte e que ela não aparece como cidade neotropicalista ou machadiana mas como cidade existencialista.</p>
<h4>
21. O que teria a dizer aos escritores iniciantes?</h4>
<p>Escreve.</p>
<p>[1996]</p>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001 </span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia <b>autorização expressa</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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		<title>Dois textos de Gilbert Chaudanne</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 23 Nov 2015 18:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[CAPS]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Gilbert Chaudanne]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Blank]]></category>
		<category><![CDATA[Vitrine de Textos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>DIA DAS MÃES. DIA DA CRIAÇÃO Quando eu era pequeno via seu imenso rosto terno debruçado sobre o meu aberto como uma laranja. Era o firmamento de que universo? O de um aconchego metafísico onde as estrelas cantavam como na cosmogonia de Pitágoras. Eu não era nada, apenas um pedacinho de carne que queria leite [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>DIA DAS MÃES. DIA DA CRIAÇÃO</p>
<p>
Quando eu era pequeno<br />
via seu imenso rosto terno<br />
debruçado sobre o meu<br />
aberto como uma laranja.</p>
<p>Era o firmamento de que universo?<br />
O de um aconchego metafísico<br />
onde as estrelas cantavam<br />
como na cosmogonia de Pitágoras.</p>
<p>Eu não era nada, apenas<br />
um pedacinho de carne que queria leite<br />
e era todo para minha mãe<br />
e não sabia que era um pequeno rei.</p>
<p>Quando me lembro da senhora, mãe,<br />
vejo assim como uma imensa Nossa Senhora,<br />
o doce e protetor porto dos meus medos<br />
e que continua me dando aconchego.</p>
<p>Há mais mistério na mãe que em todo o universo<br />
porque a mãe é o próprio universo e mais que isso<br />
ela é o leite do universo<br />
e é por isso que existe a Via Láctea.</p>
<p>Mas disso a Senhora tira nenhum orgulho<br />
sua humildade transcendental pode se comparar<br />
à humildade da vaca diante do Bezerro<br />
e não é por acaso se no Presépio<br />
havia um boi e um burro.</p>
<p>A mãe não é a inteligência do Doutor.<br />
A mãe é a inteligência do coração e da carne<br />
e como um porvir aberto como uma Rosa aberta<br />
e com o perfume evanescente dessa Rosa.</p>
<p>Mãe, estou aqui numa casa especializada<br />
onde somos bem tratados, com amor,<br />
mas o amor que você me deu<br />
mas o amor que você me dá<br />
tem um cheiro de eternidade<br />
que, como tal, não acaba nunca.</p>
<p>O CAPS PARA VOCÊ REPRESENTA</p>
<p>
Primeiro, o CAPS não tem o aspecto de um Hospital — de um espaço fechado sobre a nossa própria loucura. Porque a loucura é talvez um fechamento do espírito sobre si.</p>
<p>A única coisa que lembra o fechamento são as grades, lá embaixo.</p>
<p>Senão se trata de uma casa igual a muitas e não uma caserna de órgãos — como o hospital.</p>
<p>O espaço mais aconchegante é o quintal,<br />
com as árvores<br />
e sua força de vida<br />
sua vontade de viver<br />
junto a presença ontológica dos rochedos um contato como se o homem fosse mais forte que ele<br />
o homem do quintal<br />
o outro inteiro com a forma de um falo<br />
antigas pedras de que sacrifício?<br />
O sacrifício da razão<br />
nos altares dos Deuses Naturais?<br />
Faltam alguns Bichos<br />
nossos velhos companheiros da Arca de Noé<br />
já que estamos numa outra Barca,<br />
companheiros — querendo ou não.<br />
Irmãos querendo ou não<br />
uma tripulação de Navelouca<br />
cercada por oficiais (médico, psiquiatra,<br />
psicólogo, psicanalista) que não mandam<br />
na gente mas tentam amenizar a nossa<br />
travessia<br />
no mar das trevas<br />
para encontrar, depois dessa odisséia,<br />
a feliz Cidade, a cidade da Vitória,<br />
o reencontro com a clarividência<br />
com um pouco de razão<br />
(o excesso de razão também é loucura)<br />
e sobretudo reencontrar a faculdade<br />
de poder se abrir<br />
como uma flor para o Espírito Santo do Mundo,<br />
se abrir para a alma do mundo<br />
como a orquídea capixaba se abre<br />
para o beija-flor.<br />
Nós estamos aqui para aprender<br />
a beijar as flores</p>
<p>[Textos escritos por Gilbert Chaudanne durante sua permanência no Centro de Ajuda Psicossocial da Secretaria de Saúde da Prefeitura Municipal de Vitória, como participante “honorário” da oficina dirigida por Sérgio Blank, no ano de 2001. Reproduzidos com permissão do autor.]</p>
<p>&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 2001&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem prévia&nbsp;<b>autorização expressa</b>&nbsp;dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Gilbert Chaudanne&nbsp;</b>é artista plástico e escritor. (Para obter mais informações sobre o autor e outros textos de sua autoria publicados neste site,&nbsp;<a href="https://estacaocapixaba.com.br/noticia-bio-bibliografica-de-gilbert/" target="_blank" rel="noopener">clique aqui</a>)</p></blockquote>
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