<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Arquivos Ceciliano Abel de Almeida &#8902; Estação Capixaba</title>
	<atom:link href="https://estacaocapixaba.com.br/category/ceciliano-abel-de-almeida/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://estacaocapixaba.com.br/category/ceciliano-abel-de-almeida/</link>
	<description>Patrimônio Cultural Capixaba</description>
	<lastBuildDate>Mon, 22 Nov 2021 20:50:29 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	

<image>
	<url>https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2019/01/favEC-150x150.png</url>
	<title>Arquivos Ceciliano Abel de Almeida &#8902; Estação Capixaba</title>
	<link>https://estacaocapixaba.com.br/category/ceciliano-abel-de-almeida/</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
	<item>
		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias)</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 13 Feb 2016 19:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[Estrada de Ferro Vitória a Minas]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[História / Sociologia]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Rio Doce]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (terceiro sentado da direita para a esquerda), em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas. SUMÁRIO Prefácio Reminiscências Rio Doce ______________________ Capítulo I — O Rio Doce no tempo de Cabral. Lendas. Entradas. Ouro. Comunicações. Estrada geral. Embarcação a vapor. Liberta-se do vento a navegação. [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
</div>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://2.bp.blogspot.com/-0IMN6mEptW4/Vrz2XvugriI/AAAAAAAABLs/hHMoZ1_2XD8/s1600/Ceciliano-EFVM-p.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" alt="O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (terceiro sentado da direita para a esquerda), em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas." border="0" height="470" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Ceciliano-EFVM-p.jpg" class="wp-image-5379" title="O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (terceiro sentado da direita para a esquerda), em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: left;">O engenheiro Ceciliano Abel de Almeida (terceiro sentado da direita para a esquerda), em 1907, durante a construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas.</p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h4>
SUMÁRIO</h4>
<p>
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_78/" target="_blank" rel="noopener">Prefácio</a></b><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_38/" target="_blank" rel="noopener">Reminiscências</a></b></p>
<p><b>Rio Doce</b><br />
______________________</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo I</a></b> — O Rio Doce no tempo de Cabral. Lendas. Entradas. Ouro. Comunicações. Estrada geral. Embarcação a vapor. Liberta-se do vento a navegação. Farol. Regência Augusta. Padre Anchieta. Navegação fluvial. A barra do Rio Doce. Flora e fauna. A madrugada. Retiram as pranchas. Rio acima. Suínos. A benzedeira. Lenha. Ilha das Frecheiras. Grupo das Carapuças. Energia do brasileiro. Cabas-tatu. Fechava o corpo.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_98/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo II</a></b> — Linhares em 1905. Decadência. Reerguimento. Terra maravilhosa. Progresso delirante. O Rio Pequeno. A Lagoa Juparanã. Visita de D. Pedro II. Ilha do Imperador. Rio de São José e suas matas. Pescarias e caçadas. O caboclo indispensável. Apólogo. &#8220;Rodas ponteadas&#8221;. Versos soltos. Histórias fantásticas. Paisagens. Borboletas amarelas.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo III</a></b> — Confronto das florestas. Rio Juparanã-mirim. Encalhou: o barqueiro. Satisfação a bordo. O homem da carabina. &#8220;Olhe a carniça&#8221;. &#8220;Na cabeça não entra bala&#8221;. Terra Alta. Colônias de caçaremas. Quadro bucólico. Respeitável poeta. Exuberância da floresta. Garças estudam? Gastão Cruls e as perspectivas do Rio Doce. Guaribas. A. Wallace e Humboldt. O orgulho do barbado e a arrogância do caracu. Um &#8220;mimo&#8221; das matas. É &#8220;desinfeliz&#8221; na caçada. O condenado da ninhada. Um &#8220;revés&#8221;. A terra adormece. O grito do quero-quero.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IV</a></b> — O nevoeiro. Colatina. O cometa. Vale de Canaã. Contraste. Conversa de rio-docenses. O rio de Santa Joana. O pavor da bicharada. Catita. Barrigudas e companheiras. Porto BElo. Ariranhas. O capitão Nazaré. Urubus e carniça. Divergências. O rio Mutum. Passarinhada. Esperam o milho. Desaparecem os indícios de chuvas.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_1/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo V</a></b> — Porto Final. Franqueada a navegação do Rio Doce? Problema não resolvido. Entrega de novas florestas. Cachoeira das Escadinhas. Saint-Hilaire esclarece. Registros e destacamentos. Rui Barbosa, patrono do Espírito Santo. A Constituição de 1937. &#8220;Lembrem-se de que sou mineiro.&#8221;</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_44/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VI</a></b> — Observações de C. F. Hartt. Casebres. Pedras do Lorena, dos Cágados, do Resplendor e da Vaca. Serra da Onça. Cachoeira de Santana. Vasto anfiteatro. Moradores e cabras. Cachoeirão. Matas e lendas. Afluentes do Rio Doce. Cachoeiras e ilhas. Figueira. Ibituruna. Distrito de Peçanha. Os três pioneiros. Suaçuí Pequeno. Baguari. Pedra Corrida. Escura. Cachoeira perigosa. Antônio Dias.</p>
<p><b>Bugres</b><br />
_______________________</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_2/" target="_blank" rel="noopener"><br />
</a><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_2/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo I</a></b> — Mata gigantesca. Índios. VIII Congresso de Geografia. General Rondon. Excursão à Cachoeira da Serra. Detidos por indígenas. Fazendeiro flechado.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_11/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo II</a></b> — Ligeiras informações. Capitão da Mão Branca. Fundação de Filadélfia. Companhia do Mucuri. Carro tirado a bestas. Liquidação da Companhia. Imprensa da Corte.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_68/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo III</a></b> — Sugestão dos índios. &#8220;Daquí não sairei.&#8221; O livro de Frei Jacinto. Ataques dos Pojichás. Flagelo do Mucuri. Dois mil e quinhentos indígenas. Sarampo e febres. &#8220;Você morrerá depois irei eu.&#8221; O bugre chorou. Flechados os missionários. O chefe Pojichá volta a ser cruel. Ataques repetidos. Remanescentes da terrível tribo. Presentes. Apertados abraços. Foi infeliz o Dr. Portela.<br />
<b><br /></b><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_26/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IV</a></b> — Correspondência trocada. Relatório. Origem tupi. Boas lavouras. Ascendência sobre os chefes, de algumas índias. O Vale do Etuete. A bebedeira do capitão. Crenaques gritadores. Giporocas taciturnos. Assistência médica. Crenaques recusam presentes e atacam. População escassa. Recrutamento de trabalhadores nos Estados do Norte.</p>
<p><span style="font-weight: bold;">A Estrada de Ferro Vitória a Minas</span><br />
_______________________</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_56/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo I </a></b>— Trocando a capital pela selva. Porto Velho, a estação inicial. O ferroviário perde o trem. Lenda da jaqueira. As esposas dos agentes, pioneiras do comércio. A malária em Alfredo Maia. As moças da estação e a pedra de Itapocu. Timbuí, seu progresso e seus arredores. O Rio Itapirá e as matas do Guaraná. Novamente a febre. Lotes coloniais. Pendanga. Enfim, Lauro Müller: a ponta dos trilhos.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_83/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo II</a></b> — A família do chefe. A hospitalidade praxista. A dedicação dos médicos. Justos elogios aos trabalhadores. Visita ao povoado de muitos nomes; a igreja. Exame de perfis e projetos. Preparo do leito da estrada. Fornecimentos difíceis. Mina encravada, trabalhador maneta. Rampa máxima, supressão de túneis e muros. Referência a engenheiros. O Dr. Schnoor , o auxiliar, o pagador e a variante de Cariacica. A construção além de Lauro Müller. Crítica. Caminho de serviço, um arremedo! Garganta do Guasti: o bombardeio, os cavouqueiros e os marreteiros. Minúcias a respeito dos trabalhos. Crianças radiam felicidade. A nobreza da profissão de engenheiro. Discursos de inauguração.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo III</a></b> — Moços da cidade. Conversas de família. O carneiro de Djalma e a inveja do autor. O Professor ou o Coronel Xandoca. Itinerário de viagem. &#8220;O mata a fome&#8221; ou &#8220;o mata à fome&#8221;. O almoxarifado. Aquisição de mantimentos. A amizade entre o coronel e o chefe. Pagamento atrasado. Dificuldades de trânsito. A família do coronel. Louvores ao Rio Doce. O pé-de-alferes do auxiliar à filha do coronel. Últimas recomendações.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_21/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IV</a></b> — Agitação matinal. Despedidas. A cavalo, rumo ao Rio Doce. Moças ítalo-brasileiras. Paisagens da viagem. Cafezais. Cães ameaçadores. Matrona enraivecida. A moeda tudo aplaina. Colchão de palha de milho. O Rio Baunilha. Rio Doce! &#8220;Patrão, como ele é bonito!&#8221; Recepção cordial. Viagem em canoa. A professora de Colatina. Canto e peleja dos canoeiros. Monotonia. &#8220;A criança quebra&#8221;, diz o engenheiro austríaco. Porto da Esperança. Família Buriche. Porto Final. Família Viana. Um mito, as maleitas do Rio Doce? Compra do Queimado, suas qualidades. Assistência religiosa. Dom Fernando de Souza Monteiro.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_35/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo V</a></b> — O emissário. O chefe da exploração. Viminas. Advertências e deveres. Início do trabalho. O sol descai. &#8220;Alto!&#8221; Vamos bem. Travessia do Manhuaçu. Dez quilômetros explorados. Pedra da Vaca. O abarracamento. O cuca, palmito e surubim. Coruja, macuco e curiango. Cobra na barraca. Correição de guaju-guajus. &#8220;Não é homem, é arsenal!&#8221; Ribeirão dos Quatis. Luz, muita luz. Trabalho leve. A gulodice da Morena. A foice do Lopinho. &#8220;Não quero brigas.&#8221; Tolerância do chefe. Lopinho mofino. Rezas e penitência. Galo músico. &#8220;Olhem! Que perigo!&#8221; O caburé. &#8220;Basta!&#8221; O velho Moisés. O avejão. &#8220;Ele sou eu.&#8221;</p>
<p><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_78/" target="_blank" rel="noopener"><b>Capítulo VI</b> </a>— O santa casa. A barriguda estourou. O capiau, a filha, o tordilho e a alazã. Cabras, borrachudos, carrapatos e mucuins. A cachoeira do M. Crenaques e Puris. &#8220;Pode aumentar, diminuir nunca!&#8221; Canecas aos doutores, cuités aos trabalhadores. A tempestade. Vi cair um &#8220;perigo&#8221;. O córrego embraveceu. Estômagos e &#8220;terradas&#8221; sem açúcar? A estanca do ribeirão da Lapa. Úlceras. &#8220;É homem bom.&#8221; &#8220;O alarido era enorme.&#8221; &#8220;Estão vivos por milagre!&#8221; As três barras. A venda indiscreta. Ainda o Lopinho. O Rio Doce impetuoso. A morte de um cunhado.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_50/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VII</a></b> — O Chefe despede-se. Revisão de projeto. Compressão de dispêndios. A construção da estrada empolga a todos. O café das quinze horas. Comentários. Críticas aos &#8220;bitolinhas&#8221; e à Diretoria. Diligências máximas. Obcecados pela profissão. A estação de Colatina. O Pinga-Fogo. A borrasca. &#8220;Baiano custa a ter medo.&#8221; Operários estrangeiros gungunam. Pagamento atrasado. A pescaria. &#8220;Estou muito preocupada.&#8221; Boatos. Pretendente nervoso. Cavalheiro de respeitável sociedade. A agourenta. Está solene. &#8220;Agora ou nunca.&#8221; &#8220;Que boa lembrança!&#8221; &#8220;Essa vale!&#8221; Deixam de ser amigos. Método impiedoso. Caçada interrompida. &#8220;Seu doutor, em bugres não se confia.&#8221; Vasto programa de trabalho.<br />
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/" target="_blank" rel="noopener"><br /></a><br />
<b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo VIII</a></b> — Missão cumprida em Colatina. Viagem incômoda. &#8220;Cala a boca Feróis!&#8221; Manta de suçuarana. Instalações. Aboletam-se as turmas. &#8220;Eia! vai mariquinha!&#8221; Boa impressão. Variante. Bugres famintos. Assustou-se o zabelê. Labuta intensíssima. Tarimba e serão. Bruxas endoidecidas. A jiquitiranabóia. A tagarelice do Carvão. Rio Guandu. Índios bravos. Curiosidade lusa. A cabocla intérprete. Canoa encalhada. O ataque. Saraivada de flechas. Grito selvático da Benedita. Alucinado de pavor. Festejam os Crenaques a fuga dos civilizados. Grupos de imprudentes.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_92/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo IX</a></b> — Casas de turmas de Quatis e Boa Vista. Trânsito difícil. Tolices de trabalhadores. Invernada. Ilhados. Mutuns. A mudança. Moradia aprazível. Elevado conceito técnico. Reconciliado o espalha-brasas. Novos planos. O engenheiro setuagenário. Aceleração no trabalho. Homem disciplinador. &#8220;Julguei-os hipócritas.&#8221; Gente enfezada. Admoestações. Feitores semi-embriagados. Impropérios do chefe. Linha telefônica. Exasperado. Babou-se de raiva. Frase indecorosa. Tocaia. Surrado e amarrado. &#8220;Seu Góis está aqui.&#8221; Condenação. Palavras respeitadas.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_28/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo X</a></b> — Notícias falsas. Tarefas e empreitadas. &#8220;Trabalhar a vida inteira, não.&#8221; A antítese do outro. O profissional não esmorecia. Sepultado em Figueira. Febre amarela? Visita do primeiro engenheiro. &#8220;Seu doutor está multado.&#8221; &#8220;Aquele homem não produz.&#8221; Compressão nos gastos. Promovido. Outra mudança. Legiões de soldados do trabalho. A bondade e o peso da senhora. &#8220;A doença é falta de pagamento.&#8221;</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_82/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo XI</a></b> — O cascatear do ribeirão. Um apelo inesperado. &#8220;Não seja imprudente.&#8221; A afirmação do Dr. Mayo. O Rio Cuieté. O paludismo alastra-se. O sexagenário da Serra do ltueta. &#8220;Não é corrupio, mas é birro grosso.&#8221; Transes comoventes. &#8220;Mosquito não transmite a malária.&#8221; A alegria desapareceu. Durante o dia ou a noite o drama é o mesmo. Para imigrantes, monumentos, para brasileiros, discursos. Perseguição dos insetos. Termo da tarefa. Proteção. Recordações. Justiça e generosidade. Caçadores. O mau-olhado.</p>
<p><b><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_27/" target="_blank" rel="noopener">Capítulo XII</a></b> — Na berlinda. Obrigações retomadas. Retirada de um profissional. Parabéns. Novo superintendente. Apanhado de surpresa. Reclamações. Não recebem. Promessas. Interferência conciliatória. Satisfação geral. &#8220;Não troquei palavras.&#8221; &#8220;A greve vai estourar.&#8221; &#8220;O dinheiro aparecerá.&#8221; Pagamentos sem atraso. Boa intenção. Despedidas. O trem parte. Explodiu a greve. Divergências. Engenheiros demitem-se. Vitória! região descampada. Caminho de cabrito ou de serviço.</p>
<p></p>
<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><span style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/DesbravamentoDaSelvaDoRioDoceMemorias#slideshow/6251696395810726082" target="_blank" rel="noopener"><img decoding="async" alt="Capa da primeira edição." border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/02/Desbravamento-capa.jpg" class="wp-image-5380" title="Capa da primeira edição." width="255" /></a></span></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;"><a href="https://picasaweb.google.com/113886180969444208463/DesbravamentoDaSelvaDoRioDoceMemorias#slideshow" target="_blank" rel="noopener"><b><span style="font-size: small;">Galeria de imagens desta postagem</span>.</b></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>
<span style="font-size: 80%;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span><br />
<span style="font-size: 80%;"><br /></span><br />
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1959&nbsp;</span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação <b>sem prévia autorização </b>dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.&nbsp;</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias)</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Discurso proferido pelo Prof. Ceciliano Abel de Almeida, Magnífico Reitor da Universidade do Espírito Santo</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[Criação e Instalação Ufes]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<category><![CDATA[Ufes]]></category>
		<category><![CDATA[Universidade Federal do Espírito Santo]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Aquiesci no convite do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado e aceitei profundamente reconhecido o cargo de Reitor da Universidade do Espírito Santo depois de muito pensar na recusa à convocação de Sua Excelência. E por que haveria de recusar o instante e honroso chamamento? Dois foram os motivos de minhas relutâncias. O temor de não [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/">Discurso proferido pelo Prof. Ceciliano Abel de Almeida, Magnífico Reitor da Universidade do Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>
Aquiesci no convite do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado e aceitei profundamente reconhecido o cargo de Reitor da Universidade do Espírito Santo depois de muito pensar na recusa à convocação de Sua Excelência. E por que haveria de recusar o instante e honroso chamamento?</p>
<p>Dois foram os motivos de minhas relutâncias. O temor de não desempenhar de modo plenamente satisfatório a incumbência que bem poderia ser confiada a outrem de maiores aptidões, e a maturidade de meus pobres conhecimentos, tão delongada já no tempo que se esvai, e tão somenos na esconsa obscuridade de minha vida humilde&#8230;</p>
<p>Ora, no dizer de Amoroso Lima, &#8220;uma Universidade é, antes de tudo, uma disciplinadora da Inteligência. O que o Estado faz com a ordem jurídica deve a Universidade fazer com a ordem intelectual, isto é, operar como tanto gostam de dizer os pensadores alemães, a passagem do Caos ao Cosmos&#8221;.</p>
<p>E, Seletíssimo Auditório, o varão que, de há muito, transpôs o solais da montanha da vida e está resvalando na ladeira que, dia a dia, se encurta, sente, como eu, que o esforço despendido para retardar a marcha penosa, no declive fatal, debilita-lhe o físico, e a parte intelectual também se vai enfraquecendo, e arriscando-se ele a reger uma Universidade revela-se homem de pouca circunspeção. E, por isso, quanto me custou atender os desejos do excelentíssimo senhor Governador, só Deus o sabe.</p>
<p>O excelentíssimo senhor Governador do Estado e eu somos terranteses. Muito mais moço do que eu, teve ele o seu berço num sobrado, sito na margem direita do rio de S. Mateus, na Fazenda do Palmito; e numa palhoça nasci, no Sítio da Liberdade, na banda esquerda do Santana, distante cerca de três milhas da Casa Grande do Palmito.</p>
<p>Os nossos genitores eram amigos, e tive a honra de ser amigo íntimo do Dr. Jones dos Santos Neves, cidadão probo e clínico humanitário que, quando partiu para a Mansão dos Justos, nos deixou saudades infindas e o exemplo de uma vida modelar. A amizade que tinha eu ao Dr. Jones dos Santos Neves transferiu-se integral ao seu filho, ao espírito-santense digno e incansável que dirige os destinos de nossa terra.</p>
<p>Estão justificadas, meus senhores, a temeridade ou a precipitação, a falta de prudência ou de madureza, que me alçaram em Reitor desta Universidade. Sirvo ao filho de meu Amigo. Sirvo ao meu Amigo, o excelentíssimo senhor Governador do Estado. E, mais uma vez, vou servir à Terra Querida do Espírito Santo, com a dedicação que permitirem minhas possibilidades.</p>
<p>Quando atentamos nas linhas de povoamento trilhadas pela Metrópole Portuguesa para intensificar a colonização do Brasil, desde logo nos depara destacadamente a atividade operante dos governadores gerais, alguns licenciados pela Universidade de Coimbra, e, à medida que o desbravamento se amplia, aqui aportam vultos ilustres despachados pelo Rei para os cargos de justiça e administração. Não tarda, e também seguem do Brasil para o reino, a fim de frequentarem a Universidade, brasileiros que voltam aptos para ocupar encargos de relevo e interferir nos negócios da colônia.</p>
<p>E se a história regista que o ensino primário no Brasil era escasso e apenas ministrado, por largo tempo, pelos jesuítas, não se deve obscurecer que os estadistas que chegavam de Lisboa eram, em geral, dotados de sólidos conhecimentos hauridos naquela Universidade que passou por odisseia notável.</p>
<p>Criada em Lisboa, em 1290, por D. Diniz, é por ele transferida para Coimbra. Mais tarde é removida por D. Fernando para Lisboa. E, ainda uma vez, voltou por ordem de D. João III, e agora, definitivamente, para Coimbra. O marquês de Pombal reformou-a. A República, em 1910, suprimiu-lhe a Faculdade de Teologia e fundou as Universidades do Porto e de Lisboa.</p>
<p>Desde o fim do século XIII que Portugal demonstrou pendor pelo ensino universitário. Instituídas antes da de Coimbra só foram as de Salamanca, de Oxford, de Bolonha e de Paris.</p>
<p>Segundo Fernando de Azevedo, na Grécia antiga ensinavam os filósofos passeando e conversando nos jardins com os seus discípulos, como Platão; ou sobre as margens do Ilissos, como Aristóteles. Nesses tempos recuados, Platão, como depois Ronsard, na renascença, &#8220;um jardim parecia ser o vestíbulo florido do pensamento puro e da especulação, para uma pequena elite de homens curiosos de poesia e de verdade e onde, ao abrigo dos prazeres e das paixões, sábios, sem ódios e sem desejos, consagravam toda sua existência à meditação&#8221;.</p>
<p>E na Idade Média, esclarece Álvaro Magalhães, foi nos conventos onde os estudos se desdobraram e aprofundaram-se, criticando e investigando &#8220;as ideias vindas da antiguidade&#8221;. A essas lucubrações outras se agregaram às matérias componentes do <i>trivium </i>que gozavam de primazia. E quando surgem as universidades são elas constituídas por quatro faculdades clássicas: teologia, artes, direito (civil e canônico) e medicina.</p>
<p>A Universidade clássica vai, pouco a pouco, se engrandecendo à medida que os conhecimentos humanos se ampliam, até que se alcançou, como diz Ortega y Gasset — o clima histórico, moral e político, em que elas floresceram e em que predominaram certos valores sociais, certas preferências e certos entusiasmos<span id="UFES_RP1V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#UFES_RP1" title="Fernando de Azevedo, A Universidade do Mundo de Amanhã, p. 119."><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a></p>
<p>Nessa quadra favorável em que a preferência e o entusiasmo pela inteligência atraíram os homens para viver de idéias e para idéias, a ciência e o pensamento atingiram o seu apogeu e é ainda Ortega y Gasset, que observa: &#8220;era natural que a Universidade prosperasse e chegasse à sua culminância nos séculos que representam o império quase indiviso da inteligência, na época moderna e sobretudo no século XIX&#8221;.</p>
<p>Essa época de clima histórico, &#8220;de entusiasmo pela inteligência, pelo pensamento e pela razão&#8221;, muda-se em outra &#8220;em que ao intelectualismo sucede o voluntarismo, à liberdade a uniformização e ao pensamento a ação<span id="UFES_RP2V">&#8220;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#UFES_RP2" title="Fernando de Azevedo, A Universidade no Mundo de Amanhã, p. 120."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a> e sobre a qual o professor Fernando de Azevedo salienta haver sucedido à discussão livre a época atual, em que o regime político vermelho ou reacionário tende sempre a decretar: &#8220;Senhores, acabou-se a discussão.&#8221;</p>
<p>O decreto que criou a Universidade do Espírito Santo deixa bem claro o pensamento do legislador espírito-santense quando estatui: — art. 2) São fins da Universidade:</p>
<p>a) promover condições propícias ao desenvolvimento da reflexão filosófica, da pesquisa científica e da produção literária e artística;<br />
b) assegurar pelo ensino, a comunicação dos conhecimentos que concorrem para o bem-estar generalizado e para a elevação dos padrões de vida, de atividade e de pensamento;<br />
c) formar especialistas nos diversos ramos da cultura e técnicos altamente habilitados ao exercício das atividades profissionais de base científica ou artística;<br />
d) incentivar e prover os meios de progresso da cooperação nas atividades intelectuais;<br />
e) realizar a obra social da vulgarização da cultura.</p>
<p>Da leitura dos itens b, c, d, e e verifica-se imediatamente que os verbos empregados — promover, assegurar, formar, incentivar, prover e realizar — todos transitivos, têm complementos que esclarecem os trabalhos e as atividades que cada qual explana e os quais só podem ser executados na base de auxílio mútuo. Se não houver colaboração ordenada, consciente por parte de todos os professores e alunos, não será realizada a finalidade da Universidade, a que se refere a lei. E, ainda, se houver a cooperação em cada faculdade ou escola componentes da Universidade, porém, insuladamente, também o dispositivo da lei não é cumprido e, portanto, a Universidade só existe abstratamente, mesmo que funcionem em um só edifício.</p>
<p>A Universidade que hoje se instala conta com a boa vontade de professores e alunos que se empenham em realizar pesquisas científicas e com o propósito inabalável de &#8220;colaboração entre os diversos especialistas e faculdades na base do auxílio mútuo e desinteressado na conquista de novas verdades&#8221;<span id="UFES_RP3V">.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#UFES_RP3" title="Álvaro Magalhães, Dicionário."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> Assim se terá chegado ao espírito universitário que Amoroso Lima define &#8220;como sendo uma modalidade desse espírito cooperativo, tão falado hoje em dia, e que corresponde a uma justa reação contra o individualismo por muito tempo reinante. É o espírito corporativo na ordem cultural e entre aqueles que preparam o seu curso superior de estudos&#8221;.</p>
<p>Nesse espírito universitário podem-se considerar duas partes: uma social e outra cultural. É um binômio em que a primeira parte faz da Universidade um grupo social autônomo. Daí se conclui que a Universidade é grupo social, voluntário e natural às sociedades humanas. Essa parte é a primeira condição para a existência de um espírito universitário.</p>
<p>A parte cultural distingue a Universidade dos outros grupos sociais. Ela forma um conjunto de estudos de caráter superior, destinado à pesquisa da verdade e ao alto preparo cultural das elites de uma nacionalidade.</p>
<p>O binômio, a que me refiro, trata da formação das elites dirigentes de um determinado povo. É o ideal da Universidade e, portanto, é a existência de um espírito universitário.</p>
<p>Estas ligeiras referências que acabo de fazer, arrimadas na autoridade de Amoroso Lima<span id="UFES_RP4V">,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#UFES_RP4" title="Amoroso Lima, Humanismo Pedagógico, p. 192, 193 e 194."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a> estão contidas nos artigos 18 e 19 da lei já citada:</p>
<p>Art. 18) Com o fim de prover ambiente propício à formação do espírito universitário, serão adotadas medidas susceptíveis de assegurarem as condições necessárias e suficientes ao trabalho, à iniciativa e à pesquisa bem como à união, solidariedade e cooperação de professores, assistentes, auxiliares de ensino, alunos e ex-alunos de todos os institutos universitários.<br />
Art. 19) A aproximação e o convívio dos professores, assistentes, auxiliares de ensino, alunos e ex-alunos e funcionários dos diversos institutos universitários serão, desde a instalação da universidade e na medida das possibilidades, assegurados: pela aproximação dos edifícios [&#8230;]; pela unidade de direção e administração da Universidade [&#8230;]; pela organização de grupos de disciplinas comuns [&#8230;]; pela instituição do regime de trabalho [&#8230;]; pela prática em comum de atividades sociais dos alunos dos diversos institutos; e pela organização de associações e grêmios universitários de estudo, recreação ou desportos.</p>
<p>Seletíssimo Auditório, Senhores Diretores e Professores dos institutos universitários, na lei da criação da Universidade do Espírito Santo, cuja sigla é U. E. S., está indicado que a sua direção e administração caberão a um Reitor, assistido por um Conselho Universitário, que é constituído dos diretores dos diversos institutos integrantes da Universidade, de um representante da Congregação de Professores de cada um dos institutos universitários, de um representante dos ex-alunos diplomados dos vários institutos e de um representante dos atuais alunos. Tenho a honra de conhecer todos os diretores e, no meu modo de julgar, tendo em conta os seus altos e inconfundíveis méritos, poderei vantajosamente ser amanhã substituído na Reitoria por qualquer desses luminares, pois não lhes faltam ilustração superior à minha, idoneidade profissional e atividade para desempenhar tão elevado cargo.</p>
<p>Neste instante, senhores Diretores e Professores, em que, com a maior sinceridade, vos transmito, no pórtico desta Universidade, esse juízo, acompanhado de meu preito de veneração à nobre classe de professores a que, como figura apagada, tenho a insigne honra de pertencer, permitam-me meus colegas e amigos, que lhes rogue me ajudem com suas luzes, a fim de que possa a U. E. S. ombrear galhardamente com as outras universidades do país.</p>
<p>Tenho fé no futuro radiante desta Universidade, sobretudo porque confio nos Diretores e Professores dos institutos. O que se vai realizar não será obra do Reitor que, para ela, pouco ou quase nada contribuirá, mas sim uma obra esplendorosa, um edifício rutilante, que será construído pelo colendo Conselho Universitário.</p>
<p>Excelentíssimo Senhor Secretário da Educação e Cultura, Professor Rafael Grisi, sei que a alma de Vossa Excelência transborda hoje de alegria. Cumpriu Vossa Excelência conscienciosamente o seu dever, correspondendo aos ardentes desejos do senhor Governador de, antes do término do seu governo, deixar instalada a Universidade do Espírito Santo. A U. E. S. já não é um projeto, é obra realizada e, como velho docente dos cursos secundários desta minha terra querida, peço vênia a Vossa Excelência para o cumprimentar respeitosamente.</p>
<p>Excelentíssimo Senhor Governador do Estado, Dr. Jones dos Santos Neves, o eminente professor Dr. Fernando Azevedo em seu livro intitulado A Universidade do Mundo de Amanhã, depois de uma série de considerações referentes à capital paulistana, requintou em elogio ao Chefe do Executivo e opinou: &#8220;o Governador de S. Paulo, criando a Universidade, foi o libertador desse destino encantado. Acordou as vocações; iluminou as sombras; as atividades desinteressadas do espírito multiplicaram-se, e houve festas nas almas&#8221;. O Governador do Espírito Santo, Doutor Jones dos Santos Neves, criando a Universidade do Espírito Santo, fez tudo isso, e não só houve festas nas almas, como também provou que o Espírito Santo pode, pelo seu elevado índice cultural, possuir uma Universidade. Excelentíssimo Senhor Governador, o Reitor da Universidade do Espírito Santo e os seus professores agradecem-lhe a magnífica dádiva que Vossa Excelência lhes deu. Esta dádiva, estou certo, produzirá frutos que exaltarão o Estado e o nome de Vossa Excelência.</p>
<p>Seletíssimo Auditório, há precisamente 419 anos que Vasco Fernandes Coutinho deu início ao povoamento do solo do Espírito Santo, depois de haver pelas armas rechaçado os indígenas, os donos da terra. Lançou os fundamentos da civilização cristã e marcou-a de modo indelével, quando batizou a capitania com o nome de Espírito Santo.</p>
<p>Deixou ele aos seus pósteros o exemplo de sua tenacidade, de seus sofrimentos, de sua resignação e de seu valor. O Reitor e os professores da U. E. S. seguirão, por certo, esses tão nobres predicados e de grande fortaleza de ânimo. E no que tange particularmente ao Reitor, declaro que ele, humilde, pedirá a Deus que, por misericórdia, lhe indique o caminho do Senhor, tão magnificamente expresso naquela frase eterna: Eu Sou o Caminho e a Verdade e a Vida.</p>
<p>
_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="UFES_RP1">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#UFES_RP1V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 1 ]</b></sup></a>&nbsp;Fernando de Azevedo, <i>A Universidade do Mundo de Amanhã</i>, p. 119.</div>
<div id="UFES_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#UFES_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, p. 120.</div>
<div id="UFES_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#UFES_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;Álvaro Magalhães, <i>Dicionário</i>.</div>
<div id="UFES_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/#UFES_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Amoroso Lima, <i>Humanismo Pedagógico</i>, p. 192, 193 e 194.</div>
<p>
&#8212;&#8212;&#8212;<br />
<b><span style="color: #660000;">© 1954 </span></b>Texto com direitos autorais em vigor. A utilização / divulgação sem <b>prévia autorização</b> dos detentores configura violação à lei de direitos autorais e desrespeito aos serviços de preparação para publicação.<br />
&#8212;&#8212;&#8212;</p>
<p></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/">Discurso proferido pelo Prof. Ceciliano Abel de Almeida, Magnífico Reitor da Universidade do Espírito Santo</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/discurso-proferido-pelo-prof-ceciliano/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Ceciliano Abel de Almeida &#8211; Biobibliografia</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/ceciliano-abel-de-almeida-foi/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/ceciliano-abel-de-almeida-foi/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Jan 2016 18:17:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Biobibliografia]]></category>
		<category><![CDATA[biografia]]></category>
		<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Ceciliano Abel de Almeida&#160;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/ceciliano-abel-de-almeida-foi/">Ceciliano Abel de Almeida &#8211; Biobibliografia</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="separator" style="clear: both; text-align: center;">
<a href="https://2.bp.blogspot.com/-IPXz-5lJ6KU/Vrz65LnS7-I/AAAAAAAABL8/SBuA53N53TU54e1OgBwnBGXReMeQzrXFgCKgB/s1600/Ceciliano-p.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"><img decoding="async" border="0" height="400" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2016/01/Ceciliano-p.jpg" class="wp-image-5950" width="270" /></a></div>
<p><b><br /></b><br />
<br />
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p>
<div style="text-align: center;">
Acesse<a href="https://estacaocapixaba.com.br/Ceciliano%20Abel%20de%20Almeida" target="_blank" rel="noopener"> <b>textos do autor em nosso site</b></a>.</div>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/ceciliano-abel-de-almeida-foi/">Ceciliano Abel de Almeida &#8211; Biobibliografia</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/ceciliano-abel-de-almeida-foi/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM V</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_35/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_35/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 21:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Estrada de Ferro Vitória a Minas ___________________________________________ CAPÍTULO V O emissário. O chefe da exploração. Viminas. Advertências e deveres. Início do trabalho. O sol descai. &#8220;Alto!&#8221; Vamos bem. Travessia de Manhuaçu. Dez quilômetros explorados. Pedra da Vaca. O abarracamento. O cuca, palmito e surubim. Coruja, macuco e curiango. Cobra na barraca. Correição de guaju-guajus. &#8220;Não [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_35/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM V</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4>
Estrada de Ferro Vitória a Minas</h4>
<p>___________________________________________</p>
<h4>
CAPÍTULO V</h4>
<p></p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>O emissário. O chefe da exploração. Viminas. Advertências e deveres. Início do trabalho. O sol descai. &#8220;Alto!&#8221; Vamos bem. Travessia de Manhuaçu. Dez quilômetros explorados. Pedra da Vaca. O abarracamento. O cuca, palmito e surubim. Coruja, macuco e curiango. Cobra na barraca. Correição de guaju-guajus. &#8220;Não é homem, é arsenal.&#8221; Ribeirão dos Quatis. Luz, muita luz. Trabalho leve. A gulodice da Morena. A foice do Lopinho. &#8220;Não quero brigas.&#8221; Tolerância do chefe. Lopinho mofino. Rezas e penitência. Galo músico. &#8220;Olhem! Que perigo!&#8221; O caburé. &#8220;Basta!&#8221; O velho Moisés. O avejão. &#8220;Ele sou eu.&#8221;</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Somos avisados de que alguém nos procurava e acudindo ao chamado que se nos fazia achamo-nos diante de um elegante moço, calçando meias botas amarelas e pantalonas de riscado, vestindo paletó do mesmo tecido e camisa branca, e trazendo um lenço grande matizado de cores diversas, amarrado ao pescoço, Rosto cheio e varonil, corado, olhos azulados, espargia saúde de sua figura impressionante. E logo que falou despertou-nos simpatia.</p>
<p>— Deixei o Dr. Pedro Versiani em Colatina. Determinou-me encontrar-me com o senhor, onde estivesse, e participasse-lhe que ele vem amanhã e pretende começar a exploração no dia primeiro. Manda pedir-lhe o favor de estar pronto para acompanhá-lo até a Barra do Manhuaçu, onde será o abarracamento da turma.</p>
<p>Vou pernoitar lá e espero dar cumprimento às ordens do chefe alugando uma casa para evitar as barracas de lona. Alimento a fiúza de achar em Marra do Manhuaçu um casebre onde se possa ficar uma quinzena. Levo ao Sr. Antônio Bittencourt, o comerciante mais forte do lugar, uma carta de apresentação e confio no êxito da providência que me foi reservada.</p>
<p>Presente, o Sr. Buriche aparteia:</p>
<p>— Se o senhor me permite recomendo-o, também, ao Bittencourt. É quase certo que o senhor obterá o que deseja. Aquele meu freguês vai a Barra do Manhuaçu e lá pernoitará regressando amanhã. Por ele pode comunicar-nos se conseguiu a casa e isso se dirá ao chefe quando aqui chegar.</p>
<p>O emissário, que nos abalara, Sr. José Masserano, era um dos auxiliares da turma e deu-nos, ainda, outras informações. Em canoa chegariam naquele dia ou no outro, de manhã, a bagagem, instrumentos e ferramentas. Estava, também, incumbido de providenciar animais cargueiros para o transporte até Barra do Manhuaçu. Disso espontaneamente se encarregou o Sr. Buriche.</p>
<p>A xícara de café que, de praxe, se oferecia ao viajante, tomou-a o Sr. Masserano e continuou sua derrota.</p>
<p>Ao jantar, o nosso magnânimo hospedeiro, satisfeito, desabafa:</p>
<p>— A gente não pode mais duvidar, a estrada vai ser construída, e adeus dificuldades do Rio Doce!</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Percebe-se, ao longe, o tropear da cavalgata que, dentro de pouco tempo, embarafusta pelo terreiro situado na frente da casa. É o Dr .Pedro Versiani que chega, acompanhado dos auxiliares Laurindo Macedo e Cleto Nunes Filho. Acompanha-os Antônio Amorim, o tratador dos animais.</p>
<p>— Apeiem — diz-lhes o Sr. Buriche. — Apeiem. Apeiem todos. E cumprimentando-os passa pelos muares suarentos que o tropeiro vai amarrando às estacas.</p>
<p>— Entrem. Não façam cerimônias. — E, quando na sala, faz as apresentações e comunica ao chefe:</p>
<p>— A casa em Barra do Manhuaçu está alugada, a canoa trazendo a bagagem não abicou ainda, mas como já deram quatro horas não deve tardar a aproar para o porto, e a tropa está à espera da carga para transportá-la. Pernoitarão hoje, aqui, e amanhã seguirão depois do almoço que será servido cedo. Boa medida será que se verifique, depois da descarga da canoa, se há alguma falta do que a gente possa remediar.</p>
<p>O chefe afastou-se, acertou com o Amorim e deu-lhe ordens para a viagem do dia imediato.</p>
<p>Depois tocou a nossa vez de ter a necessária entrevista com o Dr .Pedro Versiani. Sabíamos um homem bom, um engenheiro competente, um profissional honesto. Antes de o conhecer já o acatávamos, não só pela sua posição hierárquica em relação à nossa, como, principalmente, pela sua fama de chefe leal, de bondade infinita e de respeitabilidade singular.</p>
<p>Dotado de singeleza atraente, cativava os que tinham a. felicidade de se aproximar dele. Não nos passou despercebida a deferência com que o tratavam os auxiliares e como lhes retribuía ele as delicadezas recebidas. Nessa primeira conversa senhoreou-se o Dr. Versiani de nossa amizade, de nossa veneração. Fomos seu ajudante e temos certeza de que jamais lhe causamos contrariedades. Ele não as merecia.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Oito horas marcava o nosso relógio. Já caminhamos cinco quilômetros, distância que medeia entre os Rios Natividade e Manhuaçu. Vamos estrear a realização de nossos sonhos.</p>
<p>Rodeamos uma estaca encimada por uma cruzeta, que estava sumida na capoeira fina, sita no sopé do espigão que olha o Natividade até as vizinhanças do seu desaguar no Rio Doce. Os foiceiros, rápido esfrançaram os arbustos e lemos a legenda &#8220;Viminas&#8221; escrita no braço da cruzeta. Esse marco era o ponto terminal da linha de exploração estudada até ali pelo engenheiro que nos precedeu.</p>
<p>&#8220;Viminas&#8221; era o endereço telegráfico da Companhia. Desrelvada a terra procuramos o piquete que, oculto no chão, deveria ter no topo uma tacha de cobre. Encontramo-lo.</p>
<p>— Esse aparelho -recomendou o Dr. Versiani -só pode ser retirado da caixa ou nela colocado pelo engenheiro. Nenhum trabalhador tem licença para pegá-lo e esta proibição abrange, também, o feitor. Mais tarde, se for cuidadoso, cumpridor de ordens e respeitado pela turma poderá, como prêmio, consentir-se a que faça esse trabalho delicado.</p>
<p>Depois caçou na algibeira a chave, abriu a caixa que acomodava o instrumento e assentou-o no tripé. Em seguida verificou se estava bem atarraxado e centrou-o, de maneira que a extremidade afunilada do prumo quase encostasse na brocha pregada na piqueta.</p>
<p>Ainda há de se retificar o trânsito antes de começar o serviço e enquanto ele, caprichosamente, fazia a retificação o feitor orientava os trabalhadores que aviventavam a linha até deparar outro piquete com prego.</p>
<p>Auxiliares e trabalhadores convergiram, à chamada do chefe, para junto do aparelho e ele fez-lhes oportuna advertência.</p>
<p>Esperava que todos se esforçassem para que no serviço houvesse ordem, respeito, obediência, porque só com boa organização poderia ele apresentar produção recomendável, que os trabalhadores não podiam carregar armas, porque na turma era indispensável cordialidade mútua e, também, para evitar acidente motivado por um disparo inesperado. Era proibido o uso de aguardente. Aquele que se embriagasse seria despedido. Deviam acatar as ordens dos superiores. Quem tivesse alguma reclamação a fazer devia levá-la ao engenheiro ajudante. A este competia providenciar sobre as queixas, sobre a alimentação para todos e tomar medidas para o bom andamento dos trabalhos.</p>
<p>Os auxiliares, também, cumpririam as ordens ou instruções emanadas do ajudante, que agiria de acordo com ele e que tinha a obrigação de lhe cientificar toda anormalidade que surgisse.</p>
<p>Depois desses esclarecimentos ordenou o Dr. Pedro Versiani ao imediato do feitor que fosse aprumar uma baliza no piquete de ré, visou-a, inverteu a. luneta, deu a deflexão adequada, fez o cálculo indispensável e, entregando-nos a caderneta de alinhamentos, declarou-nos:</p>
<p>— o senhor é o responsável por ela, e, portanto, pela parte técnica. Exija do nivelador as cotas. Farei os reconhecimentos parciais. Conduzirei a linha conforme as observações que me fornecer. — E, resoluto, anunciou: — O trabalho está iniciado. Vamos. Todos a postos. — E encarando um trabalhador de boa aparência:</p>
<p>— O senhor, que é o primeiro baliza, que está fazendo? Peça a direção ao doutor. Guie os outros. Vamos. Já perdemos muito tempo. Precisamos recuperá-lo.</p>
<p>Minutos após, a labuta estava ordenada. O feitor alinhava olhando para a baliza de ré de modo que ocultasse com a sua a luneta do trânsito. O foiceiro de guia apenas abria uma trilha que lhe desse passagem, e dois outros a alargavam e aperfeiçoavam-na.</p>
<p>O primeiro baliza fiscalizava-os e, depois de estimar a distância da picada aberta, estendia a trena de vinte metros, dávamos-lhe a direção exata e, então, ele procedia à medição. O estaqueiro retirava de um saco um piquete, enterrava-o, até rentear o terreno no lugar indicado pela ponta da baliza do feitor e a trinta centímetros à esquerda, afincava uma estaca chanfrada e numerada. Era a testemunha. Terminada a operação, gritava o feitor o número da estaca e prosseguia no mesmo ritmo.</p>
<p>Íamos anotando a caderneta e, na folha à direita figurávamos o esboço do relevo do solo que mais tarde, no escritório, facilitaria a construção do desenho topográfico, em que seria projetado o traçado da estrada de ferro.</p>
<p>A estaca chantada ao lado da de nome &#8220;Viminas&#8221;, ponto inicial de nosso alinhamento, foi marcada com um zero. A segunda testemunha recebeu o número um, a terceira o dois, a quarta o três e, assim, por diante. Medidos duzentos metros assinalados pela estaca dez foi cravada uma tacha de cobre na piqueta e para aí se fez a mudança do instrumento. Centrado e posto em plano horizontal o prato do aparelho, obramos como o chek na estaca zero, na primeira estação, e sem tardança continuamos o trabalho.</p>
<p>Enquanto assim procedíamos os auxiliares marcavam as normais ao alinhamento e com clinômetro mediam os ângulos de inclinação do solo abrangendo uma faixa de cento e sessenta metros. O nivelador já ao lado do trânsito havia nivelado e contranivelado as dez vintenas de metros da linha corrida.</p>
<p>Não havíamos reparado na pessoa do Dr. Pedro Versiani ao nosso lado. Estava satisfeito e recomendou-nos que mandássemos colocar um piquete de prego, acrescentando:</p>
<p>— As marmitas estão debaixo daquela árvore frondosa, em frente — e apontou-a. — Os caldeirões dos trabalhadores também estão, lá. Vamos almoçar. Tudo vai bem e o senhor está se impondo à turma sem estardalhaço.</p>
<p>O exercício havia estimulado o apetite. O almoço, sem ser de forno e fogão, agradava a todos. Saboreávamo-lo. O cardápio não era variado mas arraigado na tradição da terra: feijão, charque, arroz, farinha de mandioca e café. O dos trabalhadores não era inferior ao nosso e só se diferençava pelos utensílios. O deles em panelas, e o nosso em marmitas. Naquele tempo não falavam em vitaminas. Não eram ainda conjeturadas.</p>
<p>Finda nossa refeição, com fumaças de banquete pelo deleite de comer jabá com tutu, cigarramos, cavaqueamos entre bafarodas do petume e, depois de curta delonga, partimos para retomar nossas obrigações.</p>
<p>Instalado o trânsito, recomeçou a azáfama com alegria.</p>
<p>O chefe arredou-se da picada. Foi percorrer o alinhamento desde o ponto inicial. Encontrou os auxiliares labutando nas&#8217; instruções, que lhes havíamos transmitido. As cadernetas em ordem. Os camaradas que abriam as ordenadas puxaram pelas foices e não se desviavam da direção marcada, com o esquadro pelo seccionista. Assim nos participava o resultado de sua inspeção:</p>
<p>— A turma é diligente e se não houver dispersão de bons elementos exploraremos os sessenta quilômetros em três meses, conforme os desejos da Companhia.</p>
<p>Passaram horas e, agora, já o sol descai e seus raios dardejam na objetiva da luneta do aparelho, obrigando-nos a protegê-la com o quebra-luz apropriado, quando, de novo, o Dr. Versiani aparece e manifesta-nos a intenção de suspender os trabalhos com uma pergunta:</p>
<p>— Não acha o senhor que basta? Concordamos.</p>
<p>Colocado o piquete com a tacha de cobre fizemos ao primeiro baliza o sinal convencionado de &#8220;Alto!&#8221; E ele transmitiu-o a toda a turma.</p>
<p>Guardado por nós na caixa o trânsito, montamos a cavalo e rumamos para o abarracamento.</p>
<p>Em caminho indagou-nos o chefe o número da última estaca. &#8220;Quarenta&#8221;, dissemos-lhe.</p>
<p>Foi ótimo o serviço do primeiro dia e no quinto ou sexto deveremos atravessar o Manhuaçu e ganhar a mata.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Quando mandamos percutir o piquete e a última estaca, faltaria, talvez, uma hora para o sol pardar .O Manhuaçu estava a olhos visto e o Dr. Versiani preveniu-nos de que já havia escolhido a reta da travessia e que, aberta a picada e esfrançados os arbustos da beirada do rio, descortinaríamos a bandeirola que seria colocada na margem oposta.</p>
<p>— Este alinhamento — acrescentou — será o do projeto. Na caderneta o senhor observará o que lhe estou esclarecendo para que o projetador não mude o eixo da ponte. A rocha compacta nos barrancos está quase aflorada. O custo da construção dos pegões vai ser baratíssimo. Quanto ao vão exato da ponte, o senhor calculará amanhã.</p>
<p>Alcançamos o quinto dia de nossos trabalhos. Vamos bem.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Íamos transpor o Manhuaçu.</p>
<p>Medimos, rio acima, um segmento retilíneo. Era o cateto de um triângulo em que o outro era o prolongamento da linha de exploração, que passaria na bandeirola situada do outro lado do rio.</p>
<p>Esboçamos a topografia da faixa que nos interessava. Nela figuramos o triângulo com os elementos conhecidos e quando nos dispúnhamos a fazer a avaliação trigonométrica, utilizando-nos da caderneta do campo de Pereira Passos, o Dr. Versiani ponderou-nos:</p>
<p>— O senhor poderá fazer o cálculo na canoa durante o tempo da travessia.</p>
<p>— Achamos boa a sugestão e ele rematou:</p>
<p>— Dê-me a distância e eu me incumbirei de fiscalizar a numeração das estacas, sua chantadura e a dos marcos de referência do nivelamento em ambas as margens.</p>
<p>O porta-instrumento entra na canoa com o trânsito. Sentamo-nos no banco e lá fomos calculando e verificando cuidadosamente as operações, enquanto os canoeiros mupicavam obedecendo às reiteradas recomendações do chefe: — &#8220;vamos depressa&#8221;.</p>
<p>Saltamos. O Dr. Versiani instala, sem detença, o aparelho, visa à baliza apoiada no piquete da margem direita e mantida verticalmente e indaga que comprimento encontramos. Demos-lho e ele sentencia:</p>
<p>— A ponte deverá ter oitenta metros de vão. Será, até aqui, a de maiores dimensões da estrada. — Depois reflete, enfrenta-nos, serenamente, e interroga-nos:</p>
<p>— Está certo o cálculo?</p>
<p>— Está. Tiramos a prova. — E apresentamos-lhe a caderneta de alinhamentos.</p>
<p>— Empregou logaritmos? Mas no &#8220;Passos&#8221; não há logaritmos. — Usamos a tabela de senos, co-senos e tangentes naturais e verificamos tirando os logaritmos do Mémorial Téchnique de L. Mazzochi. Ei-lo.</p>
<p>— É um excelente aide-mémoire e o senhor é cauteloso. Muito bem.</p>
<p>Prolongamos em plena mataria a reta da travessia do rio até a fralda do espigão que separa o Manhuaçu do Rio Doce. Aí inclinamos para a direita e subimos suavemente a uma pequena garganta, na ponta do morro, onde a vegetação mirrada rodeava uma tapera. Divisamos, então, a temporizada Pedra do Lorena, sita à margem esquerda do Rio Doce, olhando imponente a foz do Manhuaçu.</p>
<p>Despedimo-nos, depois, do sítio abandonado, penetramos em cheio a mata virgem e fomos coleando entre o rio e a montanha, adstringindo-nos, entretanto, às condições técnicas da linha, que não podíamos relaxar.</p>
<p>As araras galreavam e a brisa da tarde cantava nas copas das árvores, quando deixamos o serviço. O Dr. Pedro estava alegre e, apesar dos magníficos óculos que usava. tropeçava nos tocos da picada com suas pesadas botas. Acompanhávamo-lo com solicitude, como era de nossa obrigação, enquanto os trabalhadores se safavam da floresta, bazofiando suas proezas ou taramelando impensadamente.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Dias límpidos sucediam-se. Não havia sinal de chuvas. Diarizávamos nossos trabalhos sem interrupção. Já estavam explorados quatro quilômetros, além do Manhuaçu. Notávamos que a turma não afracava a disposição de vingar as dificuldades, nem a entibiava a solidão do matagal. E, então, houve por bem o chefe levar avante a exploração mais um dia. Depois, os trabalhadores abririam as ordenadas, os auxiliares fariam o levantamento altimétrico. Nós e o nivelador copiaríamos as cadernetas que, com as dos seccionistas, seriam remetidas ao primeiro engenheiro em Vitória.</p>
<p>Dentro de três dias todas as cópias referentes aos dez primeiros quilômetros, inclusive a do perfil da linha com a indicação do grade, deveriam estar concluídas e mudaríamos para as vizinhanças do local da margem do Rio Doce denominado Pedra da Vaca.</p>
<p>A bagagem seria transportada em canoa.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Abarracamo-nos perto do rio, na mata virgem, cabrocada pelos foiceiros, que roçaram, também, lianas e cipós enrolados ou presos nos troncos grossos.</p>
<p>As árvores existentes no círculo em que estava o abarracamento e em seus arredores foram examinadas e abatidas as ocas, porque enfraquecidas poderiam cair.</p>
<p>O alinhamento progredia através da mata fechada. Os trabalhadores foiceavam e machadavam, o picadão ia sendo estaqueado e os técnicos colhiam os dados necessários, para desenhar a topografia da faixa do terreno, em que se projetaria a estrada.</p>
<p>Maravilhávamo-nos da faina daqueles jornaleiros. O destruir uma jaibara, o derrubar um pau-ferro ou o dominar qualquer outro obstáculo, que se lhes apresentasse, mais e mais os incitava à vitória. Quando crescia a peleja não se percebia nenhum vozear mas ouviam-se o tinir das ferramentas e o ruído da queda dos arbustos e das árvores decepadas.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Habituamo-nos àquele labor cotidiano, dentro do matagal, enlevavam-nos o gemido do zabelê e o grazinar dos periquitos em bando. À tarde, quando regressávamos, caminhando no trilho que beirava o rio, deparávamos, amiúde, com os mutuns ariscos, que se embrenhavam nas dicotomias das frondes e piavam medos. Chegando à barraca antes que o sol pardejasse íamos restaurar nas águas do caudal as energias diminuídas e, depois, distraíamo-nos com o coaxar das rãs e com o cantar dos pássaros anunciando as ave-marias.</p>
<p>Anoitecia. Era a hora do jantar e da cordialidade máxima. O chefe perguntava ao cozinheiro: — Há novidade? — A negativa importava na confirmação do conhecido cardápio: feijão, charque, arroz, farinha de mandioca e café. Se a resposta, porém, fosse positiva, havia um acréscimo, ao trivial, de palmito ou de peixe. E o cuca narrava a história, sempre muito enfeitada, da reboleira de palmitos casualmente descoberta, ou do surubim vasqueiro por ele pescado.</p>
<p>Depois da refeição a luz da lanterna de querosene ia amortecendo até que um dos auxiliares se decidisse a apagá-la, após autorização do chefe. Engolfávamo-nos em sono salutar, dormindo oito e nove horas seguidas. Noite havia, entretanto, que despertávamos com o farfalhar do vento, com o ranger das árvores umas de encontro às outras, ou com os baques dos paus velhos e das galhadas. Nessas ocasiões desapareciam o chirriar da coruja, o pio aflautado do macuco e a promessa — amanhã eu vou — sempre renovada, do curiango.</p>
<p>Certa noite deitado na rede, onde dormíamos, acendemos uma vela e colocamo-la no chão, enquanto nos dispúnhamos a levantar . De repente surgiu uma cobra, serpeou por baixo de nosso leito, renteou a estearina e desapareceu. Todos a viram e, à uma, puseram-se de pé. Queriam saber se o ofídio nos havia mordido. Tranqüilizamo-los. Agradecemos-lhes a cortesia e o interesse tão prontamente manifestados.</p>
<p>O chefe convidou-nos para procurar a cobra, que lhe pareceu venenosa.</p>
<p>Removemos, cautelosamente, canastras, sacos e calçados. Nossa vozearia acordou a turma. Compareceram o feitor e alguns trabalhadores, que nos ajudaram a esquadrinhar toda a barraca e não se achou o réptil.</p>
<p>Choveram os comentários e por fim acabamos por nos aquietar. Restabelecido o silêncio escutamos um sussurro longínquo, uma trisca indefinida ou, antes, tique-tiques, crepitações e estalidos estranhos que pareciam aproximar-se e, simultaneamente, chegavam à nossa barraca e atravessavam-na numerosos animalejos: ratos, baratas, grilos, rãs&#8230; e, de novo apareceu o feitor com um tição fazendo com ele cruzes no chão, dentro e fora da barraca, e disse-nos:</p>
<p>— Está explicado o aparecimento da bicha. Ela fugia das guaju-guajus, que já atingiram o nosso arranchamento. Lá deixei um homem riscando o solo com um pau aceso. Não saiam de suas camas. Vou buscar rescaldo e cerco a barraca de vosmecês e elas hão de procurar outro carreiro. Dizem os mais velhos que estas formigas guerreiras adivinham chuva, quando andam em correição. Mas isto nem sempre acontece. A noite está estrelada. Não acredito em mudança de tempo tão cedo.</p>
<p>O primeiro baliza voltou com cinza quente e brasas. Espalhou-as, conforme nos havia prevenido, e não fomos incomodados pelas guaju-guajus.</p>
<p>Conversamos sobre a correição, formiga do gênero Eciton. Esforçamo-nos por nos recordar do pouco que já havíamos sabido das corredeiras, que formam colunas de ataques a todos os animais, como acabamos de ter a confirmação.</p>
<p>A tertúlia alongava-se, além de nossos hábitos, e todos concordaram em finalizá-la com as boas-noites.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Já cogitávamos em mandar à casa comercial do Senhor Antônio Bittencourt, em Barra do Manhuaçu, uma canoa buscar mantimentos quando ecoaram na picada sons repetidos de um búzio. Os trabalhadores conjeturaram ser canoeiros que buzinavam descendo o rio e responderam-lhes gritando prolongadamente. No fim de poucos minutos nada mais escutamos. Só se percebiam o roçagar das foices e os golpes dos machados.</p>
<p>Assentado na caixa do trânsito, ao nosso lado, estava o Dr. Versiani, quando surgiu no alinhamento um curiboca de porte avantajado e veio, guiado pelo primeiro baliza, entender-se com ele.</p>
<p>Tirou da cabeça o chapéu de couro, saudou o Dr. Pedro e ofereceu-lhe carne de porco salgada, toucinho, rapadura, farinha de milho, feijão e arroz. O chefe observou o oferente demoradamente e passou a fazer-lhe perguntas. &#8220;Quem é o amigo?&#8221; &#8220;De onde vem e para onde vai?&#8221; &#8220;Por que nos procurou?&#8221;</p>
<p>E a esquisita personagem respondeu-lhe:</p>
<p>— Sou mineiro de Santa Maria de São Félix; venho de Figueira numa canoa carregada, que muito trabalho me deu para a transpor, vazia, nas cachoeiras, porque eu e os companheiros carregávamos os volumes passando na mata; e vou à venda do seu Bittencourt. Mas soube que a turma de engenheiros estava subindo o rio, acompanhando os morros, e vim indagar se os senhores querem ficar com os meus mantimentos, porque com o dinheiro na mão posso comprar a meu jeito em Barra do Manhuaçu.</p>
<p>Durante o tempo em que o homem falava o chefe fleumaticamente o analisava e, depois de seus informes, disse-lhe:</p>
<p>— Patrício, também sou mineiro. — E sentenciou: — O meu amigo não é um homem; é um arsenal. — O caboclo arregalou os olhos e não atinou. E o Dr. Versiani, mansamente, insistiu: — Não há dúvida, o meu patrício é um arsenal — e apontou-lhe o tronco enumerando: — Uma carabina a tiracolo, uma garrucha, uma espada, um facão, e uma faca à cintura e não sei se o amigo carrega ocultamente outras armas. É. Este homem é um arsenal!</p>
<p>— Seu doutô me perdoe. Eu devia ter deixado na canoa o arsená e vir falá com o doutô desarmado. Seu doutô me descurpe. A gente é obrigado a ser arsená, porque anda nestes ocos do mundo e não sabe o que se vai encontrá e nem quando há de se defendê. Me perdoe seu doutô.</p>
<p>— Gente de Santa Maria de São Félix é boa e ordeira. O meu amigo não faz exceção. Aproxime-se. Venha conversar comigo. Hoje vão ser nossos hóspedes o senhor e os seus companheiros. Um pouco abaixo de Pedra da Vaca é o nosso arranchamento. Esperem-nos lá. Esse moço que está perto do instrumento é quem vai comprar ao senhor e pagar-lhe imediatamente. Se as suas mercadorias não estiverem em perfeito estado e não forem de boa qualidade, ele não as adquirirá. Avise o cozinheiro da turma de que os senhores jantarão hoje com os camaradas. Está bem assim?</p>
<p>— Está, sim senhô. E o senhô me descurpe, seu doutô. Vou guardá o arsená.</p>
<p>A aquisição de mantimentos que fizemos, em ótimas condições, resolveu o problema de alimentação quase até o fim do serviço.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
— Temos mais de quatro quilômetros explorados além do abarracamento. Precisamos mudar-nos para um lugar em que haja pasto para os animais — diz-nos o chefe — Chega de pernoite em mata virgem. Amanhã é sexta-feira. Toda a turma vai abrir secções e levantá-las. Eu e o senhor vamos observar o que está na frente e escolher o local para a mudança. Estou informado de que no ribeirão dos Quatis há abundância de capim-gordura e creio que possamos armar lá as nossas tendas. No primeiro dia de trabalho caminharemos para trás oito quilômetros ou um pouco mais, entretanto nos dias subseqüentes nos iremos aproximando do pouso. Parece que o lugar é saudável e convém que o reconheçamos. No domingo de madrugada a bagagem será transportada em canoa e na segunda-feira prosseguiremos a exploração.</p>
<p>Achamos o sítio excelente e tudo foi providenciado de acordo com a orientação do Dr. Versiani.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
O desmatamento do terreno permitia-nos distinguir o leito do riacho até o seu desaguar no Rio Doce. De nossa barraca glorificávamos a natureza em seus belíssimos panoramas. Situava-se perto excelente piscina, cavada no álveo do ribeirão, na qual o banhista dificilmente se arriscava a perder a vida.</p>
<p>A noite ou o dia, banhados pela luz frouxa da lua ou pela reverberante do sol, causavam-nos um bem-estar infinito, que contrastava com a opressão, que sentíramos, quando cercados pela floresta secular em clareira limitadíssima.</p>
<p>Amávamos, exaltadamente, a terra com seus rios, serras, fauna e flora, mas reconhecíamos, talvez com amargor, não poder rivalizar com o botocudo na perfeita adaptação ao meio, vivendo feliz em seu quejeme.</p>
<p>Carecíamos de muita luz lânguida ou ardente, e no lugar do nosso arranchamento tínhamo-la sem restrição. Nela, nossa alma aprazia-se com a paisagem que nos rodeava.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
O mês de setembro havia findado.</p>
<p>Ao primeiro engenheiro já havia o Dr. Pedro Versiani encaminhado os perfis e as cadernetas da exploração até a estaca mil. Assim colhia os frutos de um trabalho organizado que aumentava suas credenciais perante a Companhia. Não se envaidecia por isso, mas considerava-se, por certo, compensado por ser querido e respeitado pelo pessoal técnico e pelos jornaleiros.</p>
<p>Alegramo-nos no dia em que concluímos os vinte quilômetros a partir do Manhuaçu, percorridos na floresta. Muitos trabalhadores, porém, preferiam abrir a trilha do alinhamento e as ordenadas em mata virgem. O trabalho é mais leve — é mais &#8220;manero&#8221; —,diziam, do que no capoeirão, no cerrado fechado e na capoeira, cheios de espinhos, urtigas, cobras e marimbondos. E quando deparavam com uma ponta de mata grossa consideravam-se afortunados.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Estamos no último piquete cravado na véspera diante da choupana do Senhor José Lopes ou Lopinho, como era conhecido, preto de ruim catadura, chefe de numerosa família.</p>
<p>Centramos o trânsito e começamos a alinhar. Depois mudamos o aparelho para cento e vinte metros além e o Dr. Pedro, que havia saído de Quatis conosco, não aparecia.</p>
<p>Resolvemos despachar um próprio ao seu encontro quando lobrigamos um vulto. Cedo reconhecemo-lo. Chegou, abeirou-se ao instrumento e esclareceu-nos sobre o seu retarde em fala que revelava sua bondade inimitável.</p>
<p>— A Morena viu, à margem da vereda, viçosa moita de capim-gordura. A gramínea estava orvalhada, os raios do sol atingindo-a produziam fugaz irisação. A besta estacou, o capim acendeu-lhe o apetite, comia-o apressadamente, mas o freio atrapalhava-a. Sabia que o meu atraso não prejudicava o serviço porque o senhor não se embaraça. Apeei-me, tirei o freio da mula e admirei a gulodice do bruto que não se fartava.</p>
<p>Labutamos nesse dia como nos outros e o Dr. Versiani prevenimos da transferência do arranchamento. Procederíamos como anteriormente. Iríamos reconhecer o terreno adiante e escolher o local para nova instalação de nossas tendas.</p>
<p>Era o momento do regresso, quando o Amorim acabrunhado se avizinha do chefe e participa-lhe:</p>
<p>— Dr. Pedro, a Morena foi cortada pelo Lopinho. Rastejei os três: o Queimado, a Belquis e a Morena. Enxerguei-os de longe caminhando no trilho que leva à roça do homem desalmado. De repente a Morena dá um salto, e volta em disparada, o Queimado e a Belquis acompanham-na e o demônio, empunhando uma foice, persegue-os para os golpear. Dei passagem à récua, vi, de relance, o golpe e o sangue escorrendo, e enfrentei o malvado.</p>
<p>&#8220;Por que o senhor feriu a mula de sela de meu amo?&#8221;</p>
<p>&#8220;Porque ia devastar minha lavoura&#8221;.</p>
<p>&#8220;E ela comeu alguma plantação?&#8221;</p>
<p>&#8220;Não, porque não deixei. Fiquei de tocaia esperando estes animais para os matar se me dessem prejuízos. Estou informado de que estrada de ferro não respeita a propriedade de ninguém. Arrasa tudo. Mas comigo não há de ser como estão pensando&#8221;.</p>
<p>&#8220;Mas a besta é do engenheiro, é do chefe. Sou o arrieiro. Sou o responsável&#8221;.</p>
<p>&#8220;Pois então fique sabendo. Meti a foice na mula. E mato a você ou a qualquer trabalhador que surrupie cana, banana ou outro produto de minha roça. E o engenheiro também será repelido e morto se quiser abusar&#8221;.</p>
<p>E o Amorim continuou:</p>
<p>— Seu doutor Pedro, quando ouvi estas barbaridades enraiveci-me tanto que o senhor não pode imaginar. Tive vontade de esganar o atrevido com as cordas que tinha nas mãos. Não tenho medo de valentão, e não o fiz, porque vossa senhoria proíbe que a gente faça certas coisas e por isso me obriga a ouvir desaforos de um tinhoso como esse Lopinho.</p>
<p>— Fez bem em não reagir. Você e todos estão proibidos de entrar na roça do homem. Não quero brigas. A turma é decente. Está estudando o traçado da estrada e tem o propósito de não questionar com o Senhor José Lopes ou com outro. O Masserano vai verificar se há estrago e, se houver, por menor que seja, é justo a indenização ao lavrador, perdido com sua família neste ermo. Você, Amorim, não deve zangar-se com o sucedido. E diga-me, pôde selar a Morena ou o corte impediu que você pusesse nela o selim?</p>
<p>— J á está arreada. O talho é grande mas é raso. Dentro de oito dias a ferida estará cicatrizada e o senhor poderá viajar nela diariamente.</p>
<p>— O Senhor Lopes é o primeiro morador depois do Manhuaçu. Está indisposto contra o pessoal da estrada. Se o tratarmos bem, com paciência e com justiça, ele ainda poderá transformar-se em amigo. E é o que nos cumpre fazer.</p>
<p>Admiramos a prudência do Dr. Pedro Versiani, Só a sua experiência podia dar-nos esse exemplo de tamanha tolerância. Jamais nos esquecemos dessa passagem e, freqüentemente, a temos recordado, inspirando-nos nela para resolver dificuldades. Suas palavras sensatas, sua mansidão invejável, sofreavam os ímpetos defensivos e, quiçá, agressivos do Amorim e, também, moderavam os exaltamentos momentâneos de quaisquer de seus auxiliares e dos trabalhadores.</p>
<p>À noite, depois do jantar, disse-nos ele pachorrenta e filosoficamente:</p>
<p>— Este foi o dia da Morena&nbsp;—&nbsp;pela gulodice asinina estimulada pelo gordura rociado, e pelo golpe na&nbsp;anca acertado pelo truculento ferrabrás. Esse Lopes, chamado Lopinho, é um lobinho mofino, que foiça a alimária por crueldade, não é lobo de nobreza que ataca, denta, mata e devora a presa para saciar a fome.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Tencionou o Dr. Pedro Versiani acampar a turma a jusante da cachoeira de Santana por ser em canoa mais conveniente o transporte da bagagem e das mercadorias.</p>
<p>Reconhecemos o terreno e depois de trotearem nossas cavalgaduras o caminho tortuoso pressagiamos a aproximação de uma itaipava porque percebêramos, embora indistintamente, o seu cachoar.</p>
<p>Na vereda estreita havia trechos em que os galhos se entrelaçavam, acima de nossas cabeças, e não lobrigávamos, sequer, a frente próxima, por isso nos surpreendemos, quando a poucos passos deparamos uma aglomeração de pessoas, homens, mulheres e crianças, talvez três dezenas, rodeando uma grande cruz de madeira fincada no chão no meio de um monte de pedras de tamanhos diversos.</p>
<p>Paramos e assuntamos a explicação que nos dera aquela gente de crença sublimada.</p>
<p>Distante daquela cruz e além do ribeirão de Santana havia uma capelinha e perto outro cruzeiro. Quando se prolongava a seca reuniam-se no oratório, rezavam a Maria Santíssima e a sua Mãe, Senhora Santana, e prometiam-lhes fazer penitência, carregando as pedras de um lugar para o outro. Atendida por Deus a intercessão das santas, caía a chuva desejada e necessária.</p>
<p>Acompanhamos o magote de fiéis, visitamos a modesta capela, relacionamo-nos com os presentes, cuja maioria morava afastada do rio, e contemplamos a cachoeira de Santana.</p>
<p>De volta, acercamo-nos de uma casa, sita na margem direita do ribeirão, na qual assistia uma viúva, a Dona Maria.</p>
<p>O Dr. Versiani conseguiu que ela lha alugasse. Marcou-lhe o dia da entrega que seria o da nossa mudança. Ela iria morar com um dos filhos. Levaria as galinhas e o papagaio falador.</p>
<p>Noticiamos, durante o jantar, aos auxiliares, essas combinações. Ficaríamos, por algum tempo, livres da barraca. Sorriram satisfeitos.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Dá ares de residir num palacete aquele que foi habitar um casebre, deixando a tenda de campanha.</p>
<p>Alojamo-nos na sala, que era extensa. Nela couberam as camas-de-vento do chefe, dos auxiliares e a nossa rede. Dois aposentos foram fechados pela proprietária, conforme a condição por ela estabelecida com o chefe. Além da sala nos servíamos, também, da cozinha.</p>
<p>Cada qual se sentia bem abrigado. A nossa residência era maravilhosa e o banho na cascata, deleitante.</p>
<p>Anoiteceu. Tínhamos a alma embrincada e antegozávamos o sono restaurador que dormiríamos. Isso, entretanto, fora ilusão, porque velamos, nervosamente, nessa noite de começo auspicioso.</p>
<p>No oitão da casa da banda de fora, próximo da cama do Dr. Pedro, estava o poleiro das aves que D. Maria não levara.</p>
<p>Antes de meia-noite um galo bem munido de esporões, garboso, reprodutor único daquele grupo de galinhas crioulas, emitiu a voz alta, longa, arrogante, da qual se evolavam modulações agradáveis, por certo, aos ouvidos de sua dona.</p>
<p>As horas escoavam, o galo amiudava e ninguém dormia. Ele espertar-nos-ia até ao amanhecer, se o Dr. Pedro não acertasse com a solução adequada. Gritou pelo Amorim, que acudiu ao chamado e dispôs-se a cumprir a ordem do Dr. Versiani:</p>
<p>— Retire esse galo e, ao romper do dia, leve-o com as galinhas à dona.</p>
<p>A noite está serena e estrelada. Da mata, do outro lado do rio, vinham pios espaçados, enquanto uma coruja chirriava ao longe. Poucos pirilampos luciluziam naquela hora.</p>
<p>E quando o Amorim, às tontas, se aproximava do poleiro, o galo iniciou um cocorocô. Quis pegá-lo mas não o conseguiu.</p>
<p>E o Amorim anuncia entusiasmado:</p>
<p>— Seu doutor, o galo caiu nos meus pés, continuou a cantar até encostar o bico no chão. É um animal de valor. É raro encontrar-se dessa espécie. É um galo músico.</p>
<p>Na picada, naquele dia, chefe e auxiliares bocejavam.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Diarizamos o perfil da linha explorada valendo-nos de uma vela esteárica para melhorar o aclaramento baço da lanterna de querosene, e da caixa do trânsito, como prancheta. Em seguida calculamos e traçamos o grade e submetemo-lo à apreciação do chefe.</p>
<p>Finda essa tarefa palestrávamos sobre assuntos variados, de preferência sobre as ocorrências do dia e, depois, dávamo-nos as boas-noites e repousávamos.</p>
<p>De uma feita, nessa hora de cavaco, o Dr. Versiani, deitado na cama, entretinha uma narração atraente e de repente a interrompe, aponta-nos as botas e exclama:</p>
<p>— Vejam! Olhem! Que perigo! Que horror! E todos observamos, estarrecidos, uma cobra que se enroscava em tomo de uma das botas, depois se desenroscou, insinuou-se por ela e escondeu-se às nossas vistas.</p>
<p>O nervosismo atingiu o auge. Ninguém se animou a levar a bota para fora de casa. E o chefe recorreu ao Amorim, que compareceu, à pressa, com o feitor, e outros trabalhadores, e inteiraram-se do ocorrido.</p>
<p>E, enquanto, o tropeiro vai, cautelosamente, transportar a bota, outros buscam varas, e preparam-se para varar o ofídio e tirar-lhe a vida.</p>
<p>O luar domina no terreiro, o que lhes vai permitir enxergar o réptil. Forma-se o círculo dos que se dispunham a dar varadas e a bicha foi despejada, açoitada e morta.</p>
<p>Era uma jararaca. Media pouco mais de metro.</p>
<p>Restabeleceu-se no acampamento a tranqüilidade e o Amorim foi premiado pelo chefe com uma obrigação a mais: à noite, tapar as botas para evitar a reprodução do acontecimento impressionante.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Diariamente progredia o trabalho. A turma diligenciava por adquirir boa recomendação. Na véspera já havíamos acompridado a linha de exploração, além do arranchamento, fraldejado um espigão, fronteado com a cachoeira de Santana e, cravado o último piquete, perto da margem direita do ribeirão do Barroso.</p>
<p>Na manhã do dia imediato atravessamo-lo e andamos por ampla encosta dando deflexões, à esquerda e à direita, medindo e estaqueando.</p>
<p>Em certa ocasião, quando centrávamos e nivelávamos o trânsito, um caburé imprudente veio, sutilmente, pousar num galho desfolhado de um arbusto. E tão manso se mostrava que parecia querer saudar-nos. Mirava-nos e remirava-nos, sem medo e, talvez, sem malícia. Os olhos perscrutadores, as penas bem ajustadas ao corpo e a sisudez própria davam-lhe um quê de boa linhagem e de elevada dignidade, que ainda mais se ressaltava por causa de sua quietude destemerosa.</p>
<p>Os trabalhadores descobriram-no, em seu desabrigado posto de observação, e lastimaram não haver uma espingarda para alvejá-lo e matá-lo.</p>
<p>Comentavam não a curiosidade, a imprevidência, ou a mansidão do desprevenido bubonídeo, mas o desafio, a ousadia ou o desaforo de tanto se avizinhar da turma. &#8220;Ele pensa, talvez, que somos besouro, camundongo ou pinto&#8221;, diziam, e constituíram um tribunal cruel, e condenaram-no.</p>
<p>E quando, preparado o aparelho, nos dispúnhamos a prosseguir, o primeiro baliza apresentou-nos o revólver, que guardávamos na caixa do instrumento, e disse-nos</p>
<p>— Por favor, seu doutor, atire-lhe.</p>
<p>— E que mal nos está fazendo ele?</p>
<p>— Atire-lhe, nós lhe pedimos. É um comedor de pinto.</p>
<p>— Aqui, neste ermo, não há pinto. Por que se há de matar o pobre?</p>
<p>— Atire-lhe, seu doutor. É um atrevido. Toda a turma lhe pede que atire ao sem-vergonha, que acerte um tiro nele.</p>
<p>— Não atiramos bem.</p>
<p>— Então atire-lhe para espantar.</p>
<p>— Pegamos do revólver. Atiramos ao caburé, que, morto, caiu.</p>
<p>— Muito bem! bonito tiro! — disseram.</p>
<p>Correram. Apanharam a ave. Examinaram-na.</p>
<p>— O doutor tem boa pontaria, ele não erra a cabeça de um homem e choveram os comentários, e fomos considerado como ótimo atirador.</p>
<p>Ficamos desapontado. Remoíamos de arrependimento. Resolutamente, ordenamos:</p>
<p>— Vamos, basta de caburé, basta!</p>
<p>E nunca mais disparamos o revólver diante da turma.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Era um domingo. Já estava espalhado que a turma, breve, mudar-se-ia para a Serra da Onça. Relacionamo-nos com os poucos moradores das redondezas e nesse dia recebemos visitas e os trabalhadores, também, e mais numerosas.</p>
<p>O velho Moisés, cafuzo de barbas compridas e grisalhas, compareceu ao nosso dormitório. Loquaz e cavaqueador foi ficando, sem falar no regresso. Anoiteceu e ele participou-nos:</p>
<p>— Vou esperar que a lua saia para ir para casa — e desandou a contar fatos de almas penadas e de assombrações. Eram histórias do nosso folclore, geralmente conhecidas.</p>
<p>Narrou-nos, porém, um episódio que vamos reproduzir.</p>
<p>Um conhecido costumava visitar um amigo e quase sempre se descuidava da volta; anoitecia e ele só retornava a desoras: Conhecia bem o trajeto. Não era medroso. Não acreditava em fantasmas.</p>
<p>Certa vez regressou quando já era alta noite. O noitão estava escuro como breu e, numa encosta escampa, lobrigou ele um vulto ainda mais preto. Foi andando. O caminho ia rente ar o bicho, que, visto de perto, parecia um porco negro, enorme, de pé, apoiando-se nas patas traseiras e balouçando o corpo de vez em quando.</p>
<p>Gritou, o espantalho não arredou. Trovejou ameaças e o estafermo está quieto. Bradou — &#8220;deixe-me livre o caminho!&#8221; — Nada. Não lhe dava passagem. E momentos havia em que o suíno crescia como se fosse um ouriço colossal.</p>
<p>Aquilo era um desafio. No lugar em que estava havia muitas pedras. Resolveu apedrejar o avejão.</p>
<p>Arremessou-lhe pedras e o bruto não se mexeu, mas ele teve a impressão de que a visonha ia reagir. E não se enganou. O monstro remexeu-se e frufulhou um rumor de folhas. Depois disso, o homem se arrepiou todo. Os cabelos eriçaram-se, abalou de onde estava e, tonto, abrigou-se numa casa abandonada, perto da do amigo. Velou o resto da noite angustiado, apavorado.</p>
<p>Apontavam as barras da madrugada, quando se afastou da choupana velha. Caminhava depressa, queria ver os rastros do lobisomem, o sangue do encantado, porque tantos foram os calhaus atirados que, por certo, ele fora ferido e lá estariam as manchas de sangue para atestar sua luta, sua valentia. De que foi uma aparição, estava convencido. E agora ele acreditava em visão, em visagem, em mula-sem-cabeça e em tudo.</p>
<p>Com o coração aos pulos, avizinhou-se do local do evento horripilante. Não achou pegadas, nem sangue, nem vestígios. Novamente se engolfava no pavor quando, observando melhor, descobriu que uma arvoreta, uma orelha-de-burro, nascida na beira do caminho, estava em parte desramada e tinha várias folhas furadas, dilaceradas.</p>
<p>Atinou, então, na sua ilusão, no seu medo infundado e voltou a descrer de fantasmas, de lobisomens.</p>
<p>Dissemos-lhe que muito gostaríamos de conhecer o protagonista da curiosa narrativa. E imediatamente nos esclarece o caburé respeitável:</p>
<p>— O senhor conhece-o muito, porque ele sou eu.</p>
<p>E o Dr. Versiani, com sua invejável finura adverte:</p>
<p>— Então o meu patrício teve ares de D. Quixote de la Mancha; apedrejou a inofensiva orelha-de-burro e não se confundiu, de todo, com ele, porque fugiu.</p>
<p>— Foi isso mesmo, seu doutor. Fugi em disparada.</p>
<p>
<span style="font-size: 12.8px;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p>
<div>
</div>
</blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_35/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM V</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_35/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; Rio Doce I</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 21:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Paisagem na margem do rio Doce, 1910. Acervo Arquivo Público do Espírito Santo. Rio Doce _______________________________________ Estendendo-se por detrás da zona marítima, numa distância variável a partir do litoral, o sertão oferece um aspecto físico bem diferente e bem distinto nas duas principais secções em que o país naturalmente se divide: a região Norte e [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; Rio Doce I</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-nj0nvlff49M/VsC6fEzGjsI/AAAAAAAABMo/ahTxtjElpmk/s1600/Paisagem%2Bna%2Bmargem%2Bdo%2Brio%2BDoce%252C%2B1910-APES.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Paisagem na margem do rio Doce, 1910. Acervo Arquivo Público do Espírito Santo." border="0" height="436" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/Paisagem2Bna2Bmargem2Bdo2Brio2BDoce252C2B1910-APES.jpg" class="wp-image-6586" title="Paisagem na margem do rio Doce, 1910. Acervo Arquivo Público do Espírito Santo." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Paisagem na margem do rio Doce, 1910. Acervo Arquivo Público do Espírito Santo.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<h4>
<br /><b>Rio Doce</b></h4>
<p>_______________________________________</p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>Estendendo-se por detrás da zona marítima, numa distância variável a partir do litoral, o sertão oferece um aspecto físico bem diferente e bem distinto nas duas principais secções em que o país naturalmente se divide: a região Norte e a região Sul, mais ou menos delimitadas pelo paralelo de 18 de latitude meridional. Em uma e outra região, o aspecto físico, a característica do sertão é um fenômeno em íntima dependência com o relevo e altitude das montanhas, a constituição do solo, e a grande umidade do clima continental. Para o Norte o relevo do país é muito menos acentuado; o solo menos variado na sua constituição geológica, se levanta sem grandes e bruscos desnivelamentos, assumindo as montanhas o aspecto das planícies elevadas, ou chapadas de margens íngremes, que as correntes fluviais, nem sempre perenes, rasgam e atravessam, deixando de permeio as lombadas largas que a erosão secular modelou. Aqui e ali, na planura que se desdobra a perder de vista, levantam-se serros curtos, pontiagudos, espelhando o sol nas encostas nuas, brancas da rocha&#8230; O país é, no geral, seco e monótono. A vegetação, por vastíssima zona, é sempre a mesma, raquítica, espinhenta, retorcida, caracteristicamente acentuada nas espécies que constituem o tipo da &#8216;catinga&#8217;, onde em solo pedregoso e quente sobressaem as acácias, os sísifos e os cereus variadíssimos&#8230;<br />
Bem diversa é a zona Sul. A mata do litoral vai aí se fazendo mais estreita. As montanhas abeiram-se do oceano, e em mais de um ponto mergulham em suas águas as encostas alcantiladas que avançam em promontório. O relevo do solo é aqui mais variado, e, por isso mesmo, mais <span id="DSRD_RP2V">belo.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP2" title="Teodoro Sampaio, in Rocha Pombo, História do Brasil, Vol. VI. p. 11."><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p></p>
<h4>
CAPÍTULO I</h4>
<p></p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>O Rio Doce no tempo de Cabral. Lendas. Entradas. Ouro. Comunicações. Estrada geral. Embarcação a vapor. Liberta-se do vento a navegação. Farol. Regência Augusta. Padre Anchieta. Navegação fluvial. A barra do Rio Doce. Flora e fauna. A madrugada. Retiram as pranchas. Rio acima. Suínos. A benzedeira. Lenha. Ilha das Frecheiras. Grupo das Carapuças. Energia do brasileiro. Cabas-tatu. Fechava o corpo.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Em maio de 1501 deixa Lisboa a esquadrilha despachada por D. Manuel&#8230; &#8220;o mais bem afortunado rei da <span id="DSRD_RP3V">Cristandade&#8221;&#8230;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP3" title="João de Barros, Ásia, apud José Teixeira de Oliveira, História do Estado do Espírito Santo, p. 9."><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a> para fazer o reconhecimento da terra de Vera Cruz, apossada para a Coroa Portuguesa, por Pedro Álvares Cabral. Comanda-a André Gonçalves que reconhece a embocadura do Rio Doce a 13 de dezembro do mesmo ano. Calcula sua latitude Américo Vespúcio que acha 19°, <span id="DSRD_RP4V">20&#8242;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP4" title="Ceciliano de Almeida, Revista do IHGES, n. 7, março de 1934, p. 64."><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a></p>
<p>Nessa época toda a bacia do Rio Doce é resguardada por mata virgem, prolongamentos daqueles&#8230; &#8220;arvoredos&#8221; que &#8220;são muitos e grandes e de infindas <span id="DSRD_RP5V">maneiras&#8221;&#8230;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP5" title="Rocha Pombo, Trasladação da carta de Pero Vaz de Caminha, Vol. 1, p. 171."><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a> assinaladas na carta de Pero Vaz de Caminha e é, ainda, durante esse primeiro século do descobrimento do Brasil que ela é, em parte, visitada, penetrada, devassada pela expedição Navarro-<span id="DSRD_RP6V">Espinosa,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP6" title="Salm de Miranda, Rio Doce (Impressões de uma época), p. 25."><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a> organizada por Tomé de Sousa e por outros que, de volta, despertaram ambições e produziram lendas de riquezas inexauríveis.</p>
<p>Essas entradas, essas penetrações na zona dessa bacia também noticiam e propalam a opulência de espessas <span id="DSRD_RP7V">florestas,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP7" title="Capistrano de Abreu, Capítulos da história colonial, p. 17."><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a> assim nas planícies como nos sopés, nas encostas, nos cumes das montanhas, só havendo exceções quando as rochas se exibem, superficialmente, descascadas, temporizadas. Os devassamentos da região prosseguem nos séculos dezessete e dezoito pelos paulistas que afoitos, audazes e resolutos vingam divisores de águas de outras bacias e surgem na do Rio Doce invadindo o matagal, derribando-o, queimando-o, coivarando-o, preparando, enfim, a terra para receber a semente que produzirá o sustento, o alimento para aquela plêiade de destemidos, de bravos, de aventureiros.</p>
<p>E no limiar do século dezoito que aparece, em profusão, nas cabeceiras do rio, o ouro, e o governo colonial acorda, alvoroça-se e toma medidas drásticas para impedir a fuga das pepitas ambicionadas.</p>
<p>O governo para impedir a sua evasão, proíbe a abertura de trilhos, picadas ou caminhos, e barra a navegação das canoas isolando assim a parte alta da bacia e circunscrevendo os reflexos exaustadores da faina da <span id="DSRD_RP8V">mineração.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP8" title="Esclarece Salm de Miranda."><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a></p>
<p>Da adoção de tais providências resultou o insulamento dos trechos baixo e médio do rio, do do <span id="DSRD_RP9V">alto,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP9" title="Adotamos a divisão indicada por Salm de Miranda, Rio Doce (Impressões de uma época), p. 18."><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a> insulação que se estendeu até ao princípio do século vinte. Em 1900, era, ainda, muito incipiente, muito precário o progresso do baixo Rio Doce e de uma grande parte do médio.</p>
<p>Emprestamos de 1905 a 1930, ao desbravamento do vale do Rio Doce, como engenheiro da Companhia Estrada de Ferro Vitória a Minas todo o esforço no cumprimento de nossos deveres de profissional e de brasileiro. Há neste livro páginas arrimadas em historiadores e publicistas de alto renome, outras por nós testemunhadas e por nós vividas.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Durante o governo colonial as comunicações do Norte do país com o Sul são feitas por navios de vela, e por terra, pela praia, ouvindo-se o bramido do mar, desviando-se das ondas espumejantes, porque o único empecilho sério que se encontra é a travessia dos rios. É a estrada real, segundo Thomé Couceiro de Abreu, e &#8220;comua desde a Bahia até o Rio de <span id="DSRD_RP10V">Janeiro&#8230;&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP10" title="Bernardes Sobrinho, Espírito Santo-Bahia, p. 64."><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a> dependendo, apenas, de moradores com canoas que aceitem o encargo de dar passagem mediante paga. Assim há, por parte dos ouvidores, a preocupação de povoar os rios nas vizinhanças do mar. Nem sempre, porém, permaneciam as famílias aí colocadas. Retiravam-se por causa dos ataques dos indígenas. Nessa situação precária, também a barra do Rio Doce teve os seus moradores pelo menos no meado do século dezoito. Antes, porém, em 1650, já se topa notícia de ser feito o percurso entre a capitania e Salvador, &#8220;por mar ou por terra&#8221;, muito embora não haja &#8220;uma indicação que fosse sobre construção de estrada entre Vitória e a cidade de Salvador durante o período <span id="DSRD_RP11V">colonial.&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP11" title="José Teixeira de Oliveira, História do Estado do Espírito Santo, p. 152."><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a> Em 1836 aparece referência ao mau estado da estrada geral que liga Vitória ao Rio e à Bahia o qual &#8220;entorpece a marcha dos viajantes e <span id="DSRD_RP12V">estafetas&#8221;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP12" title="Idem, ibidem, p. 324."><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a></p>
<p>No fim do século passado e princípio deste, percorremos a cavalo grande parte do caminho da beira-mar, entre S. Mateus e Regência e, muitas vezes, o de Vitória a Santa Cruz-Linhares-S. Mateus, denominado Estrada da <span id="DSRD_RP13V">Linha.</span><a 192.="" 7="" centen="" colatina="" de="" do="" href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP13" ihges="" in="" munic="" n.="" o="" p.="" pio="" revista="" rio="" title="Xenócrates Calmon, "><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a></p>
<p>Se a comunicação entre o Norte e Sul do país era penosa, por terra, oferecendo o transpor do Rio Doce a maior dificuldade, no Espírito Santo, também não era facilmente acessível a barra desse rio, fato registrado por diversos <span id="DSRD_RP14V">memorialistas.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP14" title="Saint-Hilaire e muitos outros."><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a> Todavia José Teixeira de Oliveira, baseando-se em depoimento de José Marcelino, afirma que &#8220;pela primeira vez, um vapor sulcou o celebrado Rio Doce [&#8230;] entre 1836 e 41&#8221; e recorda, ainda, &#8220;que a primeira embarcação a vapor que tocou em Vitória foi o Correio Brasileiro em 1826&#8221;. Por aqueles tempos não há, na terra de Maria Ortiz, navegação de longo curso, mas a máquina a vapor aplicada aos navios vai fazendo desaparecer a influência do &#8220;fresco vento&#8221; que tanto preocupava os capitães ousados e previdentes, e ressaltada pelo poeta:</p>
<p>Mas vendo o capitão que se detinha<br />
Já mais do que devia, e o fresco vento<br />
O convida que parta e tome asinha<br />
Os pilotos da terra e mantimento,<br />
Não se quer mais deter que ainda tinha<br />
Muito para cortar do salso <span id="DSRD_RP15V">argento.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP15" title="Camões, Lusíadas, Canto VI, 3."><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a></p>
<p>Desenvolve-se o país. Crescem suas forças econômicas. Avoluma-se o comércio. Impõe-se a intensidade da circulação das riquezas. Multiplicam-se os barcos a vapor, e a navegação costeira estabelece o intercâmbio entre os portos nacionais. Disseminam-se os faróis e o Ministério da Marinha resolve, também, mandar construir um na barra do Rio Doce, o qual é inaugurado em 1895, no pontal do Norte, sendo doze anos depois &#8220;transferido para o pontal do <span id="DSRD_RP16V">Sul</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP16" title="Norbertino Bahiense, O caboclo Bernardo, p. 531."><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a> e está situado na latitude de 19°, 37&#8242;, 5&#8243; e na longitude de 39°, 48&#8242;, <span id="DSRD_RP17V">5&#8243;.&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP17" title="Dados fornecidos pela Capitania de Portos do Espírito Santo em 22/01/1952."><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a></p>
<p>Em 1905 o primitivo farol é inspecionado e fotografado, pelo Capitão-de-Corveta Veríssimo Costa, a 24 de <span id="DSRD_RP18V">novembro</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP18" title="Viagens pelos rios navegáveis do Estado do Espírito Santo — Viagem ao Rio Doce, Revista do IHGES, n. 7, p. 213."><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a> que atribui a origem! do nome do Rio Doce ao fato de haverem &#8220;alguns navegantes portugueses encontrado no mar água doce defronte deste rio a seis milhas da <span id="DSRD_RP19V">barra&#8221;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP19" title="Veríssimo Costa, obra citada, Revista do IHGES, n.7, p. 214."><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a> Está a povoação de Regência <span id="DSRD_RP20V">Augusta</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP20" title="Nome adotado 'para perpetuar o do Príncipe Regente, depois D. João VI', Veríssimo Costa, obra cit., Revista do IHGES, n. 7, p. 212."><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a> à margem direita do rio, distante de sua foz seiscentos metros, trinta e três da do Rio Preto e três quilômetros do povoado de <span id="DSRD_RP21V">Cacimbas.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP21" title="Veríssimo Costa, obra cit., Revista do IHGES, n. 7, p. 212."><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a> É aqui, segundo a lenda, que o Padre Anchieta, em dia calmoso, caminhando no areal reverberante de calor e de luz, cujas cintilações quase o endoidam, cansado, exausto, sente que vai cair e rezando&#8230; rezando conturbado, perde os sentidos e quando os recupera, está à beira da Lagoa das <span id="DSRD_RP22V">Cacimbas,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP22" title="Beresford Moreira, O Rio Doce, obra inédita, p. 111."><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a> sucessão de &#8220;pequenos lagos contornados de brancos e graciosos <span id="DSRD_RP23V">areais&#8221;&#8230;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP23" title="Veríssimo Costa, obra cit., Revista do IHGES, n. 7, p. 213."><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a></p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Em Regência Augusta a largura do rio atinge mais de dois <span id="DSRD_RP24V">quilômetros.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP24" title="Idem, ibidem, p. 212."><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a> É, em 1905, a sede da navegação fluvial, cuja flotilha, vistoriada pelo Capitão-de-Corveta Veríssimo Costa, é constituída pelos vapores Muniz, de Viana e Cia., e Milagre e Santa Maria, subvencionados pelo governo do Espírito Santo, da firma Mascarenhas, Costa e Cia.</p>
<p>Transportou-se esse oficial de Marinha, que tão bem descreveu suas viagens pelos rios navegáveis do Espírito Santo, de Vitória a Regência Augusta, a bordo do pequeno vapor União, pertencente a Carlos Pinheiro Azevedo. Também vapores da Companhia de São João da Barra e Campos e da firma J. Zinzen e <span id="DSRD_RP25V">Cia.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP25" title="Idem, ibidem, n. 7, p. 212."><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a> faziam o serviço de cabotagem de Regência a outras praças e vice-versa. E, antes, o relatório apresentado à Assembléia, em 9 de julho de 1888, declara que Miranda Jordão e Cia. &#8220;mandaram ultimamente para os serviços de transporte do Rio Doce a esta Capital o Rio São João (a vapor) que tem servido <span id="DSRD_RP26V">regularmente&#8221;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP26" title="José Teixeira de Oliveira, História do Estado do Espírito Santo, p. 359.
"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a></p>
<p>Salienta o Capitão-de-Corveta Veríssimo Costa que &#8220;fora do cordão tem 8 a 9 braças (a barra) e dentro até os pontais 6 braças&#8221;. E acrescenta: &#8220;como barra de rio já é bastante funda e com o prático que ela possui, não posso classificá-la de perigosa, quanto mais que, quando se acha ela impraticável, é logo pelo telégrafo avisado para Vitória.&#8221;</p>
<p>Regência Augusta &#8220;teve uma época de muita prosperidade&#8221; segundo informações obtidas pelo Capitão-de-Corveta Veríssimo Costa, que nota o repontar de sua <span id="DSRD_RP27V">decadência</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP27" title="Talvez esteja o leitor notando as múltiplas citações à obra do Capitão-de-Corveta Veríssimo Costa, fato que assim se explica: Chegamos ao Rio Doce, como engenheiro da Companhia Estrada de Ferro Vitória a Minas em agosto de 1905, e em novembro do mesmo ano, o Capitão-de-Corveta Veríssimo visitou o Rio Doce, viajando a bordo do Milagre, o que só fizemos em 1916, havendo a maioria de nossas observações coincidido com as do distinto oficial da Marinha."><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a> quando, referindo-se à capelinha, construída por ingentes esforços do Professor Pio Pedrinha, já falecido, e por todos os habitantes da localidade, escreve: &#8220;atualmente está ela bem decadente, necessitando de grandes obras e <span id="DSRD_RP28V">pinturas&#8221;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP28" title="D. José Casais, Um turista en el Brasil, 1940 [p. 217], 'Regencia es una aldeita insignificante, e [...] navio naufragado.'"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a></p>
<p>Não faz exceção a flora da beira-mar, próxima à foz do Rio Doce, em confronto com a dos outros rios da costa espírito-santense. Lá estão, sucessivamente, as salsas da praia, os guriris, o emaranhado de uma vegetação rasteira, castigada pelos ventos marítimos, depois, as castanheiras, as grumixameiras, as pitangueiras, as almesqueiras, as aroeiras, as ingás-mirins que sombreiam os gravatazais&#8230; E essa capoeira rala, que se parece com a caatinga, vai-se modificando para oeste até se apresentar de caules <span id="DSRD_RP29V">volumosos,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP29" title="Auguste de Saint-Hilaire, Segunda viagem ao interior do Brasil (Espírito Santo), tradução de Carlos Madeira, p. 183."><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a> de troncos seculares: são as afamadas, as decantadas matas virgens do Rio Doce. E como este não está sujeito às marés, há completa ausência de mangais.</p>
<p>Nessas praias, nesses matagais de árvores de portes retorcidos, de caules estirados de mistura com espinheiros, cardos e macambiras, nessas florestas de essências preciosas, aí, nesse recinto agreste reina uma fauna opulenta do beija-flor ao juruaçu barulhento, do tico-tico à arara espalhafatosa, do tié ao aracuão assustadiço, da jaçanã ao mutum sussurrante, do saí ao surucuá pacífico, do ananaí ao pato grasnador, do cancã à juriti plangente, da rola ao bem-te-vi rezingão, do sanhaço à garça-branca, da cambaxirra ao sabiá melodioso&#8230;</p>
<p>Nele erram o papa-mel, a raposa de astúcia requintada, o ouriço de pêlos agressivos, a jaguatirica de pele apreciada, o catingueiro, tímido e veloz, o jaguaritaca, &#8220;estranho e <span id="DSRD_RP30V">fedorento&#8221;,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP30" title="Na mata, Coelho Neto: '...Sagüis silvavam, trilavam passarinhos: essas vozes, porém, tornavam mais misterioso o silêncio -- eram como vaga-lumes, na sombra, vaga-lumes que cintilam, sem, todavia, iluminar...' [Crestomatia, Taborda, p. 140]."><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a> a paca encafuada, o cágado prudente e velhaco, o tatu cauteloso, o teiú rapinante e valentão, o sagüi-caratinga saltador e mimoso&#8230; o caititu, o queixada, a cutia, a capivara, a anta, a onça-vermelha e a pintada.</p>
<p>Nos lugares sombreados, nas beiradas de lagoas, nas galhadas de <span id="DSRD_RP31V">árvores,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP31" title="O ninho e a cobra, Alberto de Oliveira: A ave vê enroscado o repelente corpo no ninho e então:'Grita, inutilmente grita:/ voa, inutilmente aflita:/ Entrou a cobra em teu ninho,/ Passarinho.'"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a> lá demoram serpenteando em busca de presas, ou parados, enrodilhados, de bote preparado, à espera de ratos e preás, o jararacuçu, a ouricana, a surucucu, a caiçaca, a coral&#8230; Há dessas serpentes algumas que deslizam no chão e nas árvores como bem registrou Gabriel <span id="DSRD_RP32V">Soares.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP32" title="Citação de Rocha Pombo, História do Brasil, Vol. 1, p. 547."><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a> A surucucu-patioba tem esse nome porque, geralmente, é encontrada sobre a folha dessa <span id="DSRD_RP33V">palmeira.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP33" title="É de Wappoeus a seguinte observação: 'Grande número de cobras (ofídios), de lagartos (sáurios) e de rãs (ranídeos) vivem nas árvores.'"><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a> Também são abundantes as cobras-cipó, caninanas e muitas outras que não são venenosas.</p>
<p>Infestam a bacia do Rio Doce, miríades de rãs, sapos, aranhas, escorpiões, mosquitos e vespas. Borboletas e abelhas nela se desenvolvem, abundantemente, e, também, peixes e moluscos.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Há em Regência Augusta, na tarde daquele dia, um movimento desusado, uma animação incomum, e tudo porque, pela madrugada do dia subseqüente, há de partir, rio acima, o navio que se acha carregado com mercadorias, que abastecerão os povoados ribeirinhos até ao último porto da navegação fluvial.</p>
<p>A agitação generaliza-se. Impetuoso o vento nordeste encapela as ondas de preamar, na embocadura do rio, que não bastam, porém, para formar pororoca. Açoitados por ele arbustos e árvores obliquam-se, folhas são arrancadas e galhos se atritam, gemem e roçam, fortemente, uns de encontro aos outros. Balouçam as catenárias do fio telegráfico, e as andorinhas, aos milhares, pousam nele e nos telhados das casas e da velha capelinha, soltando <span id="DSRD_RP34V">grasnidos,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP34" title="Radagásio Taborda, Crestomatia, nota 9, p. 145. Rui Barbosa, As andorinhas de Campinas."><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a> trissos, na chilrada múltipla, confusa, nervosa e rápida. Depois anoitece e, brando, sopra o terral.</p>
<p>Amiúdam os galos. Os primeiros sinais da aurora apontam. O passaredo, talvez, num misto de medo e de alegria, pia, aqui, nos quintais, a corruíra, o canário, o sanhaço empoleirados na goiabeira, na laranjeira, no cajueiro; lá, na capoeira, o inamu, o tururim, a pariri, e, além, na mata, o macuco, a maitaca, o tucano. Galinhas, meio cegas pela escassez de claridade, perseguem às tontas, na grama orvalhada, insetos que não acertaram com o esconderijo e fogem para salvar-se. Outros animais domésticos: patos, gansos, perus, cavalos, asnos, bois, todos se movimentam e emitem, suas vozes. Aparece, agora, uma calota do sol, embora esteja ele, ainda, abaixo do horizonte. É hora da partida. Já o mestre do navio apitou, mais de uma vez, e quando der o terceiro apito manda, sem mais espera, desatracar.</p>
<p>Precipitam-se sobre a embarcação os passageiros. Ouve-se o último apito e a voz de comando: &#8220;retirem as pranchas!&#8221;</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Franca é a navegação do rio nas primeiras horas de viagem, e exuberantes são as florestas de suas margens. Chega-se, sem incidente, à Povoação, situada à margem esquerda. É nesse lugar que residia no primeiro quartel do século passado, segundo Francisco Alberto Rubim, Antônio José Martins, de cuja casa &#8220;segue pela costa do mar a estrada geral desta capitania para a Bahia&#8230;&#8221; Povoação que, agora, está decadente, foi, entretanto, o primeiro ponto do rio, nas cercanias do mar, em que o indígena travou relações com o europeu estabelecendo paz duradoura, graças ao trabalho de catequese dos missionários; e se dedicou, por fim, ao amanho da <span id="DSRD_RP35V">gleba.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP35" title="'Os primitivos habitantes destas povoações eram selvagens, que depois foram se domesticando e se entrelaçando com diversos europeus por aí trazidos pelos missionários encarregados da catequese, e hoje os seus descendentes são lavradores.' [Veríssimo Costa, Revista IHGES, n.7, p. 220]"><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a></p>
<p>Em Povoação a criação de suínos faz-se com facilidade e são eles vendidos em pequenas partidas para os portos de montante, conforme as encomendas feitas. Terminando o embarque de alguns desses animais grunhidores, que ato,:doam e ensurdecem os passageiros, está o navio prestes a partir, quando um rapazola dele se avizinha e grita: &#8220;Seu mestre! Por favor, espere um nadinha! A benzedeira já vem. A mulher que ela benzeu estava endoidecendo de dor de cabeça e ela rezou e disse &#8220;tenha fé que a dor passa&#8221;. &#8220;Lá vem a benzedeira, seu mestre.&#8221;</p>
<p>Que remédio senão esperar que ela embarque, para retirar as pranchas.</p>
<p>Ela faz muito benefício. Benze e cura. A gente não sabe explicar, mas que a reza dela faz milagre, <span id="DSRD_RP36V">faz.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP36" title="Beresford Moreira, O Rio Doce, obra inédita, p. 32: Reza para dores de cabeça: Jesus, espinho de rosa / Coração de Serafim / Ajuntai esses miolos / Que andam fora de mim."><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a></p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Deixadas atrás as ilhas que defrontavam com a Povoação abica o &#8220;caixa-de-fósforo&#8221; à Boa Vista para se prover de lenha. No Rio Doce, e em outros rios brasileiros, como o S. <span id="DSRD_RP37V">Francisco</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP37" title="D. José Casais, obra cit., p. 113: 'Llegamos al primer embarcadero 'puerto de lelia'. Durante Ia travesia encontraremos muchos. La caIdera del vapor consume gran cantidad de este combustible.'"><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a> e os da bacia <span id="DSRD_RP38V">amazônica,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP38" title="Angyone Costa, Indiologia, p. 260: '...De súbito o navio pára a tomar lenha, demora horas, meio dia, às vezes mais...'"><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a> o combustível, geralmente usado na fornalha é a madeira.</p>
<p>Feito o carregamento, larga as amarras o barco e não demora fronteia com a Ilha das Frecheiras. Na margem sul do rio ainda se percebe a entrada do canal para o Rio dos Comboios, cuja construção foi iniciada pelo norte-americano Mac-Irven, que não a prosseguiu, por causa dos embaraços que o assaltaram, muito embora contasse com o apoio do governo provincial, que o auxiliou com a quantia de dois contos de réis, em cumprimento da lei número dois de <span id="DSRD_RP39V">1860.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP39" title="Veríssimo Costa, obra citada, p. 221."><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a> No quadriênio (1920-1924) do governo do Coronel Nestor Gomes foi, novamente, tentada a realização dessa obra, sob a direção do Sr. Lastênio Calmon, que não poupou esforços para conseguir o êxito desejado.</p>
<p>Na Ilha das Frecheiras o aspecto da mata virgem destaca-se pela sua grandiosidade. Aí ela forma &#8220;uma densa muralha ao longo do rio&#8221;, na expressão feliz de Charles Hartt, e, além dessa muralha, desse véu espesso, que, só &#8220;armado de forte facão de mato&#8221;, se pode nela penetrar, estão os gigantes dessa floresta tropical — jequitibás, vinháticos, sapucaias, ipês, cedros, canelas&#8230;</p>
<p>Antes de se transpor a Ilha das Frecheiras, uma das maiores do rio, já se divisa, ao longe, um grupo de ilhotas retratando fortalezas, como sentinelas avançadas, que tentassem impedir a passagem de embarcações. Em se aproximando, porém, algumas delas parecem transformar-se em &#8220;igrejas com. as suas cúpulas e outras imitam <span id="DSRD_RP40V">carapuças&#8221;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP40" title="Idem, ibidem, p. 221."><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a> Por isto são assim nomeadas. Nas enchentes ficam as Carapuças imersas.</p>
<p>Além desses ilhéus, situa-se a Ilha do Jacarandá, espaçosa e de vegetação magnificente, seguindo-se-lhe o grupo das três ilhas em que se sobressai, por ser mais extensa, a de Coimbra.</p>
<p>Defrontando com esta, fica uma terra elevada, que não é submersa pelas cheias do rio, denominada Ilha de Domingos <span id="DSRD_RP41V">Sousa,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP41" title="Idem, ibidem, p. 222."><sup><b>[ 41 ]</b></sup></a> por ser esse agricultor o primeiro que a desmaninhou.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Atinge-se o princípio de um labirinto intricado que forma o canal através do qual a navegação se faz penosamente. As margens do rio continuam, sem! interrupção, cobertas de matas virgens <span id="DSRD_RP42V">inigualáveis.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP42" title="Saint-Hilaire, obra citada, p. 189, registrou: 'o rio corria majestosamente entre as sombrias florestas que o margeiam.'"><sup><b>[ 42 ]</b></sup></a> Nesse solo prodigioso, mais tarde surgirão as lavouras de cacau. Multiplicar-se-ão as fazendas, e o Espírito Santo passará a ser produtor e exportador da apreciada amêndoa. A fertilidade do Vale do Rio Doce, proclamada desde os tempos coloniais, tornar-se-á confirmada, e mais um produto agrícola encontrará nesse vale o seu ambiente natural.</p>
<p>O devassamento das florestas, o viço dos cacaueiros, as fazendas, as escolas, as estradas, o saneamento, a civilização enfim, atestarão a inteligência, a pujança do brasileiro, &#8220;do homo dinamicus, no conceito ratzeliano&#8221;, e provocarão admiração e registros elogiosos, assim de <span id="DSRD_RP43V">brasileiros</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP43" title="Beresford Moreira, obra citada, pp. 122-5."><sup><b>[ 43 ]</b></sup></a> como de <span id="DSRD_RP44V">estrangeiros.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP44" title="Dr. José Casais, obra citada, pp. 219-21."><sup><b>[ 44 ]</b></sup></a></p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Vingada a passagem do barco, nesse trecho de águas rasas, abica-se ao barranco da margem esquerda, no sítio de Gorgonha, para abastecer a lenha. Enquanto se enfileiram os tripulantes para embarcá-la passando as achas, os tocos, de mão em mão, para empilhá-los no vapor. Um dos passageiros, na esperança de encontrar alguns frutos, afasta-se em direção a uma cajazeira em cujo tronco há um semi-elipsóide pardo parecendo-se com o corpo de um tatu, espécie de cortiço, onde vivem associadas as cabastatu. Pressentem-no os vespídeos e atacam-no. Pira-se o incauto e a bordo apresenta-se ofegante, de rosto, lábios e mãos intumescidos, crivados de roséolas, sentindo dores lancinantes.</p>
<p>Vendo-o naquele estado lastimável, de orelhas esbraseantes, de olhos injetados, de chapéu à cabeça em que ainda está embaraçada uma vespa, alguém sugere chamem a benzedeira para rezar e as dores cessarão.</p>
<p>— Não rezo contra veneno de cobra nem de marimbondos. Há tempos esteve em Regência vindo dos sertões de Conceição da Barra ou de São Mateus um homem rezador, que fechava o corpo. Era um cearense de nome Raimundo Mergulhão. Sabia toda espécie de reza. Pedi-lhe que me ensinasse e ele, parece, não gostou de meu pedido, e disse enfadado: &#8220;Mulher não pode aprender benzimentos contra picadas dos bichos, pois que o doente piora quando ela se achega dele.&#8221; Ponham nas mordidas um dente de alho socado e se quiserem mezinhas de farmácia o óleo elétrico é muito bom, e o pronto alívio é um santo remédio.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="DSRD_RP2">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP2V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 2 ]</b></sup></a>&nbsp;Teodoro Sampaio, in Rocha Pombo, <i>História do Brasil</i>, Vol. VI. p. 11.</div>
<div id="DSRD_RP3">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP3V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 3 ]</b></sup></a>&nbsp;João de Barros, Ásia, apud José Teixeira de Oliveira, <i>História do Estado do Espírito Santo</i>, p. 9.</div>
<div id="DSRD_RP4">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP4V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 4 ]</b></sup></a>&nbsp;Ceciliano de Almeida, Revista do IHGES, n. 7, março de 1934, p. 64.</div>
<div id="DSRD_RP5">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP5V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 5 ]</b></sup></a>&nbsp;Rocha Pombo, Trasladação da carta de Pero Vaz de Caminha, Vol. 1, p. 171.</div>
<div id="DSRD_RP6">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP6V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 6 ]</b></sup></a>&nbsp;Salm de Miranda, <i>Rio Doce (Impressões de uma época)</i>, p. 25.</div>
<div id="DSRD_RP7">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP7V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 7 ]</b></sup></a>&nbsp;Capistrano de Abreu, <i>Capítulos da história colonial</i>, p. 17.</div>
<div id="DSRD_RP8">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP8V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 8 ]</b></sup></a>&nbsp;Esclarece Salm de Miranda.</div>
<div id="DSRD_RP9">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP9V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 9 ]</b></sup></a>&nbsp;Adotamos a divisão indicada por Salm de Miranda, <i>Rio Doce (Impressões de uma época)</i>, p. 18.</div>
<div id="DSRD_RP10">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP10V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 10 ]</b></sup></a>&nbsp;Bernardes Sobrinho,<i> Espírito Santo-Bahia</i>, p. 64.</div>
<div id="DSRD_RP11">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP11V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 11 ]</b></sup></a>&nbsp;José Teixeira de Oliveira, <i>História do Estado do Espírito Santo</i>, p. 152.</div>
<div id="DSRD_RP12">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP12V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 12 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, ibidem, p. 324.</div>
<div id="DSRD_RP13">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP13V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 13 ]</b></sup></a>&nbsp;Xenócrates Calmon, &#8220;O centenário do município de Colatina&#8221;, in <i>Revista do IHGES</i>, n. 7, p. 192.</div>
<div id="DSRD_RP14">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP14V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 14 ]</b></sup></a>&nbsp;Saint-Hilaire e muitos outros.</div>
<div id="DSRD_RP15">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP15V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 15 ]</b></sup></a>&nbsp;Camões, <i>Lusíadas</i>, Canto VI, 3.</div>
<div id="DSRD_RP16">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP16V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 16 ]</b></sup></a>&nbsp;Norbertino Bahiense, <i>O caboclo Bernardo</i>, p. 531.</div>
<div id="DSRD_RP17">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP17V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 17 ]</b></sup></a>&nbsp;Dados fornecidos pela Capitania de Portos do Espírito Santo em 22/01/1952.</div>
<div id="DSRD_RP18">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP18V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 18 ]</b></sup></a>&nbsp;Viagens pelos rios navegáveis do Estado do Espírito Santo — Viagem ao Rio Doce, <i>Revista do IHGES</i>, n. 7, p. 213.</div>
<div id="DSRD_RP19">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP19V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 19 ]</b></sup></a>&nbsp;Veríssimo Costa, obra citada,<i> Revista do IHGES</i>, n.7, p. 214.</div>
<div id="DSRD_RP20">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP20V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 20 ]</b></sup></a>&nbsp;Nome adotado &#8220;para perpetuar o do Príncipe Regente, depois D. João VI&#8221;, Veríssimo Costa, obra cit., <i>Revista do IHGES</i>, n. 7, p. 212.</div>
<div id="DSRD_RP21">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP21V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 21 ]</b></sup></a>&nbsp;Veríssimo Costa, obra cit., <i>Revista do IHGES</i>, n. 7, p. 212.</div>
<div id="DSRD_RP22">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP22V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 22 ]</b></sup></a>&nbsp;Beresford Moreira, <i>O Rio Doce</i>, obra inédita, p. 111.</div>
<div id="DSRD_RP23">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP23V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 23 ]</b></sup></a>&nbsp;Veríssimo Costa, obra cit., <i>Revista do IHGES</i>, n. 7, p. 213.</div>
<div id="DSRD_RP24">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP24V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 24 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, ibidem, p. 212.</div>
<div id="DSRD_RP25">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP25V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 25 ]</b></sup></a>&nbsp; Idem, ibidem, n. 7, p. 212.</div>
<div id="DSRD_RP26">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP26V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 26 ]</b></sup></a>&nbsp;José Teixeira de Oliveira, <i>História do Estado do Espírito Santo</i>, p. 359.</div>
<div id="DSRD_RP27">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP27V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 27 ]</b></sup></a>&nbsp;Talvez esteja o leitor notando as múltiplas citações à obra do Capitão-de-Corveta Veríssimo Costa, fato que assim se explica: Chegamos ao Rio Doce, como engenheiro da Companhia Estrada de Ferro Vitória a Minas em agosto de 1905, e em novembro do mesmo ano, o Capitão-de-Corveta Veríssimo visitou o Rio Doce, viajando a bordo do Milagre, o que só fizemos em 1916, havendo a maioria de nossas observações coincidido com as do distinto oficial da Marinha.</div>
<div id="DSRD_RP28">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP28V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 28 ]</b></sup></a>&nbsp;D. José Casais, <i>Um turista en el Brasil</i>, 1940 [p. 217], &#8220;Regencia es una aldeita insignificante, e [&#8230;] navio naufragado.&#8221;</div>
<div id="DSRD_RP29">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP29V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 29 ]</b></sup></a>&nbsp;Auguste de Saint-Hilaire, <i>Segunda viagem ao interior do Brasil (Espírito Santo)</i>, tradução de Carlos Madeira, p. 183.</div>
<div id="DSRD_RP30">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP30V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 30 ]</b></sup></a>&nbsp;Na mata, Coelho Neto: &#8220;&#8230;Sagüis silvavam, trilavam passarinhos: essas vozes, porém, tornavam mais misterioso o silêncio &#8212; eram como vaga-lumes, na sombra, vaga-lumes que cintilam, sem, todavia, iluminar&#8230;&#8221; [<i>Crestomatia</i>, Taborda, p. 140].</div>
<div id="DSRD_RP31">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP31V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 31 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>O ninho e a cobra</i>, Alberto de Oliveira: A ave vê enroscado o repelente corpo no ninho e então:<br />
&#8220;Grita, inutilmente grita:<br />
voa, inutilmente aflita:<br />
Entrou a cobra em teu ninho,<br />
Passarinho.&#8221;</div>
<div id="DSRD_RP32">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP32V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 32 ]</b></sup></a>&nbsp;Citação de Rocha Pombo, <i>História do Brasil</i>, Vol. 1, p. 547.</div>
<div id="DSRD_RP33">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP33V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 33 ]</b></sup></a>&nbsp;É de Wappoeus a seguinte observação: &#8220;Grande número de cobras (ofídios), de lagartos (sáurios) e de rãs (ranídeos) vivem nas árvores.&#8221;</div>
<div id="DSRD_RP34">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP34V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 34 ]</b></sup></a>&nbsp;Radagásio Taborda, <i>Crestomatia</i>, nota 9, p. 145. Rui Barbosa, <i>As andorinhas de Campinas</i>.</div>
<div id="DSRD_RP35">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP35V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 35 ]</b></sup></a>&nbsp;&#8220;Os primitivos habitantes destas povoações eram selvagens, que depois foram se domesticando e se entrelaçando com diversos europeus por aí trazidos pelos missionários encarregados da catequese, e hoje os seus descendentes são lavradores&#8221; [Veríssimo Costa, <i>Revista IHGES</i>, n.7, p. 220.</div>
<div id="DSRD_RP36">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP36V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 36 ]</b></sup></a>&nbsp;Beresford Moreira, <i>O Rio Doce</i>, obra inédita, p. 32: Reza para dores de cabeça:<br />
Jesus, espinho de rosa<br />
Coração de Serafim<br />
Ajuntai esses miolos<br />
Que andam fora de mim.</div>
<div id="DSRD_RP37">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP37V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 37 ]</b></sup></a>&nbsp;D. José Casais, obra cit., p. 113: &#8220;Llegamos al primer embarcadero &#8216;puerto de lelia&#8217;. Durante la travesia encontraremos muchos. La caldera del vapor consume gran cantidad de este combustible.&#8221;</div>
<div id="DSRD_RP38">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP38V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 38 ]</b></sup></a>&nbsp;Angyone Costa, <i>Indiologia</i>, p. 260: &#8220;&#8230;De súbito o navio pára a tomar lenha, demora horas, meio dia, às vezes mais&#8230;&#8221;</div>
<div id="DSRD_RP39">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP39V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 39 ]</b></sup></a>&nbsp;Veríssimo Costa, obra citada, p. 221.</div>
<div id="DSRD_RP40">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP40V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 40 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, ibidem, p. 221.</div>
<div id="DSRD_RP41">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP41V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 41 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, ibidem, p. 222.</div>
<div id="DSRD_RP42">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP42V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 42 ]</b></sup></a>&nbsp;Saint-Hilaire, obra citada, p. 189, registrou: &#8220;o rio corria majestosamente entre as sombrias florestas que o margeiam.&#8221;</div>
<div id="DSRD_RP43">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP43V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 43 ]</b></sup></a>&nbsp;Beresford Moreira, obra citada, pp. 122-5.</div>
<div id="DSRD_RP44">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/#DSRD_RP44V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 44 ]</b></sup></a>&nbsp;Dr. José Casais, obra citada, pp. 219-21.</div>
<p>
<span style="font-size: 12.8px;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; Rio Doce I</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_13/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM IV</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_21/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_21/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 21:47:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Estrada de Ferro Vitória a Minas ___________________________________________ CAPÍTULO IV Agitação matinal. Despedidas. A cavalo, rumo ao Rio Doce. Moças ítalo-brasileiras. Paisagens da viagem. Cafezais. Cães ameaçadores. Matrona enraivecida. A moeda tudo aplaina. Colchão de palha de milho. O Rio Baunilha. Rio Doce! &#8220;Patrão, como ele é bonito!&#8221; Recepção cordial. Viagem em canoa. A professora de [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_21/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM IV</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4>
Estrada de Ferro Vitória a Minas</h4>
<p>___________________________________________</p>
<h4>
CAPÍTULO IV</h4>
<p></p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>Agitação matinal. Despedidas. A cavalo, rumo ao Rio Doce. Moças ítalo-brasileiras. Paisagens da viagem. Cafezais. Cães ameaçadores. Matrona enraivecida. A moeda tudo aplaina. Colchão de palha de milho. O Rio Baunilha. Rio Doce! &#8220;Patrão, como ele é bonito!&#8221; Recepção cordial. Viagem em canoa. A professora de Colatina. Canto e peleja dos canoeiros. Monotonia. &#8220;A criança quebra&#8221;, diz o engenheiro austríaco. Porto da Esperança. Família Buriche. Porto Final. Família Viana. Um mito, as maleitas do Rio Doce? Compra do Queimado, suas qualidades. Assistência religiosa. Dom Fernando de Souza Monteiro.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Cantam, impacientes, os galos nos poleiros. Aparecem os primeiros albores da manhã. A locomotiva apita longamente e ouvem-se cinco badaladas do sino da plataforma da estação. Na ferraria, lá para a banda do rio, defrontando com a máquina, já com a pressão alta, o ajudante de ferreiro de musculatura rija percute o triângulo de vergalhão de aço, que tilinta no crepúsculo da madrugada.</p>
<p>Renasce a agitação cotidiana. Surge o movimento que a estrada de ferro sustenta. A tropa para transportar mercadorias está sendo arreada. Dentro em pouco, para puxarem por uma zorra serão os bois jungidos às cangas guiados pelos carreios, e os burros estarão atrelados entre os varais das carroças.</p>
<p>Acende-se o lampião do escritório da construção. É o sinal de estar a postos o chefe como os seus auxiliares.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
É o momento de despedidas. Com muitos votos de feliz viagem de nossos generosos hospedeiros e gratidão sincera de nossa parte separamo-nos daquela gente fidalga a quem dedicamos, daí para diante, grande amizade.</p>
<p>O Coronel, também, compareceu ao nosso bota-fora. Patenteando estima, demonstrando carinho, fez-nos as últimas recomendações e consultando o relógio anunciou, depois de abraçar-nos já montados a cavalo: — Perdeu o trem em Porto Velho mas hoje lavrou um tento. São seis horas. Muito bem.</p>
<p>— E diz-nos o Dr. Bosísio — deixa-nos saudades. — Espero tê-lo como meu ajudante daqui a três ou quatro meses, quando voltar da exploração. Vou falar ao Esquerdo. O senhor com família não pode permanecer em turmas de exploração e locação. Seu lugar é na construção.</p>
<p>Agradecemos-lhe sensibilizado, demos de rédea e partimos.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Meia hora depois, em ordem de marcha, seguia o camarada avante conduzindo o burro cargueiro que levava a bagagem, minha mulher, que assentava pela primeira vez em um silhão, acompanhava-o e nós carregávamos o menino a tiracolo.</p>
<p>Perlongávamos a vereda que serpenteava entre cafezais cultivados nos lotes coloniais. Bonitas moças ítalo-brasileiras, naquela hora matinal, entretinham-se em quefazeres domésticos ou, resolutas, de enxada capinavam despachadamente.</p>
<p>A nossa passagem olhavam-nos com simpatia e risonhas, vislumbravam, talvez, com malícia, a nossa desajeitada apresentação.</p>
<p>E, de quando em quando, um fato despertava nossa atenção, ora eram tucanos e araçaris, distantes, que devoravam mamões e frutos de jaracatiá, ora emitindo gorjeios dobrados, bandos de japus afastavam-se, celeremente, para as grimpas das árvores dos aceiros.</p>
<p>Deparávamos, aqui, vasto e magnificente panorama que nos arrebatava e, adiante, surgia, de uma curva do trilho, uma tropa com a madrinha chocalhando cincerros presos ao peitoral e isso nos preocupava, porque devíamos desempecer o caminho. Era nesses momentos de precaução que avaliávamos o cuidado, a prudência do camarada. Apeava, rápido, retirava o seu animal e o burro cargueiro da senda e acudia à cavaleira inexperiente, segurando a brida e ajeitando espaço para a caravana prosseguir.</p>
<p>E assim íamos dominando as dificuldades e os imprevistos e vencendo, galhardamente, a caminhada.</p>
<p>O sol aquece-nos e eleva a temperatura. A azêmola sua e, quando atravessamos um regato, forceja por beber; o camarada deixou-a matar a sede e ele, que pouco fala, despertou-se e, apontando córrego acima, disse-nos:</p>
<p>— Aqueles bichos que estão voando, querendo subir na correnteza, são lavadeiras. São muito limpas, gastam horas lavando as patas.</p>
<p>Rimos da inesperada observação. Estamos na hora de interromper a derrota. Felizmente já lobrigamos as casas de Demétrio Ribeiro que, pouco a pouco, se vão distinguindo, tomam vulto e aparecem, por fim, na plenitude de suas formas.</p>
<p>Chegamos a um arremedo de hotel. Vamos almoçar e sestear. Depois da sesta seguimos viagem. Mudam as paisagens mas não se altera a lavoura das colônias. Sucedem-se os talhões de cafezais de várias idades. Os antigos são de menor produção, que vai sempre diminuindo. Há os que produzem bem e os novos que ainda não são frutíferos. Vicejam nas quebradas e nos araxás das roças, laranjeiras, limoeiros e mamoeiros de mistura com os cafeeiros e nas baixadas, bananeiras, taiobais e pequenos canaviais. Não é ocasião do viço dos milharais e dos arrozais, entretanto, há muita terra desmaninhada à espera de chuva para receber as sementes dessas gramíneas, do feijão, do guando e da fava. Da precipitação dela, também, depende a floração da rubiácea.</p>
<p>Não há indícios de mudança do tempo, que se tem conservado seco. A quadra ainda é de roçados de capoeiras e de queimas de derribadas feitas em mata virgem. E, por isso, a gente da gleba, mulheres e homens, que deparamos levando aos ombros enxadas e foices, trabalhavam em capinar e desbastar o mato fino.</p>
<p>O sol, mais e mais, descaía e pensamos em nos aboletar. O camarada, porém, sugere-nos que a um quarto de légua adiante a pousada é a melhor daquelas paragens, que o caminho a percorrer é bom e que no dia imediato chegaremos mais cedo a Baunilha e, &#8220;seu doutor — a gente não vai gastar meia hora e convém fazer o sacrifício&#8221;. Concordamos.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
— o de casa! O de casa! — grita o camarada.</p>
<p>Cães de pêlos eriçados ladram e avançam tentando estracinhar cavalgaduras e cavaleiros. O tropeiro tranqüiliza-nos:</p>
<p>— Não tenham medo, segurem às selas que os burros podem espantar-se.</p>
<p>A tempo assoma à varanda uma senhora de cabelos grisalhos, reprime a canzoada, ralha aos rafeiros em português deturpado e com pronúncia italiana. Afastadas as ameaças caninas diz-nos a matrona, depois de haver conversado com ela o nosso guia, a meia voz:</p>
<p>— Desmontem. Entrem. Quarto não há. Podem ficar.</p>
<p>Não ficamos sabendo se a recepção foi boa. Sentimos, todavia, que não houve expansão à brasileira. A dona não nos desfeiteou e por amor de nós enxotou os cachorros. Não conhecíamos o tratamento que costumam dispensar aos viajantes os colonos daquela região e dessa ignorância provinha a perplexidade de discernir a situação em que nos achávamos.</p>
<p>O camarada desarreava os animais sem preocupações. A matrona deixou-nos na varanda e sumiu-se no interior da casa.</p>
<p>Ele, como era de esperar, achou de maior acerto cuidar dos muares, reservando-nos para depois. Deles tratava escovando-os, raspando-os, caprichosamente. Percebemos que ia demorar o término dos cuidados pelos animais. Chamamo-lo e pedimos-lhe que fosse à procura da dona da casa e lhe dissesse que, por favor, viesse falar conosco.</p>
<p>Estando ela diante de nós, fizemos-lhe conhecer a necessidade que tínhamos de banhos, de jantar e da indicação do quarto em que ficaríamos. Os olhos da matrona fuzilaram de raiva e, prontamente, declarou-nos:</p>
<p>— Não há banho, nem jantar e o lugar é onde estão. E desapareceu.</p>
<p>O imprevisto aterrou-nos.</p>
<p>O camarada, porém, quando formulamos a hipótese de procurarmos outra pousada além, convenceu-nos de que foi a sua imprevidência que motivou o destempero. De início não lhe ocorreu comunicar à senhora que pagaríamos todas as despesas, inclusive o pernoite.</p>
<p>— Há muitos italianos — esclareceu-nos -que não têm ainda os costumes dos brasileiros. Não são hospitaleiros. Cobram café, almoço, jantar, dormida, tudo, enfim. Não se declarando, antes, que se indenizam os gastos, acontece, às vezes, isto. Não sabem conversar. Não se poliram ainda. As mulheres, principalmente, são nervosas. Praguejam de todos. Discutem negócios, preços, quantias. Intervêm na direção do lar e os maridos dão-lhes satisfações, temem-nas, obedecem-lhes. Vou dar jeito na má-criação da mulher e o seu doutor, com a patroa, vai acabar gostando dela. Faça favor, dê-me dez mil-réis.</p>
<p>Cruzando as sombras dos muares amarrados às estacas e espalhando-se por todo o terreiro cacarejavam as galinhas, quando a suposta megera aparece à varanda, bem próxima de nós, e amilha as aves. O nosso guia não perde a ocasião, rápido, pega uma bonita poedeira e, desembaraçado, entrega-lha, recomendando-lhe que fizesse o jantar e acrescenta:</p>
<p>— Aqui está uma nota de dez mil-réis para todas as despesas. Se for pouco o patrão dará mais. E faça o jantar depressa que estão com fome.</p>
<p>— Esta galinha é velha, custa muito cozinhá-la. Apanhe aquela franga que estará cozida em uma hora — redargúi a mulher, e encarando-nos risonha: — Vou buscar o banho para o menino e, depois, para os outros. O quarto é grande, minha filha vai arrumá-lo, entrem para a sala.</p>
<p>E falando ao camarada:</p>
<p>— Venha receber o milho, a ração para os animais. Quantos burros são? Quantos litros quer?</p>
<p>Desapareceram as dificuldades. A mulher insociável transformou-se em criatura civilizada. A visonha não impressiona mais a ninguém. É prazenteira, afável e, sobretudo, religiosa.</p>
<p>Ouvimo-la ordenar:</p>
<p>— Rezem.</p>
<p>É hora do toque das ave-marias. O marido e os filhos já estavam em casa. Haviam chegado do trabalho e todos contritos rezaram.</p>
<p>O camarada tinha razão. Não era gente má.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Os nossos hospedeiros madrugam e todos começam a lida. A família inteira agita-se. Compete-lhe executar o trabalho. A matrona dirige efetivamente aquela colméia e, por isso, averigua se todos cumprem as pequenas e variadas obrigações que lhes são destinadas: a ordenha das vacas, o recolhimento do fubá do moinho, a debulha do milho para as aves e outros animais e, ela própria, coze o leite, côa o café, faz a polenta e distribui o desjejum àqueles que vão arrotear a gleba.</p>
<p>Desempenhada essa tarefa cotidiana vem indagar de nós se passamos bem a noite, se já queremos café, se almoçamos e a que horas partimos.</p>
<p>— Prosseguiremos a viagem após o café que tomaremos agora. Mostramo-nos agradecido por suas atenções. Elogiamos o colchão de palha de milho que nos proporcionou um repouso salutar, restaurador de nossas energias e, também, o excelente jantar da véspera.</p>
<p>O camarada participa-nos, enfim, que os animais estão aparelhados. Aproxima-se o momento da partida. Dirigimo-nos à dona da casa e pedimos-lhe o importe das despesas.</p>
<p>— Catorze mil-réis — disse-nos — mas já recebi dez. Demos-lhe uma cédula de dez e recusamos o troco. Ficou satisfeitíssima.</p>
<p>Despedimo-nos amigavelmente.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Já estamos almoçando no pretenso hotel do lugarejo, que nos parece saudável e é muito pitoresco. O Rio Baunilha ondeava entre bananeiras e cafeeiros. Era grande a animação das pessoas que víamos por amor à construção da estrada de ferro.</p>
<p>Depois da refeição, por haver o guia nos cientificado de que a distância dali a Porto Alegre, fazenda do Senhor Virgínio Femandes, não excedia a dez quilômetros e que o caminho sombreado cobrejava por entre mata virgem acompanhando o rio, deliberamos perlongá-lo sem esperar que o dia declinasse muito.</p>
<p>Não conhecíamos o Rio Doce e queríamos, sem demora, extasiar-nos perante suas belezas descritas, enaltecidas pela Senhora Calmon com tamanho enlevo e entusiasmo.</p>
<p>Em certo trecho do caminho, já perto do afamado caudal, o camarada desperta nossa atenção mostrando árvores de troncos colossais.</p>
<p>— Daqui tiram canoas de dimensões enormes que competem, em capacidade, com as pranchas de Regência.</p>
<p>— &#8220;Também este&#8221;, pensamos, &#8220;é propagandista exagerado do Nilo Brasiliense&#8221;; e o homem calado, sisudo, tornou-se loquaz, falava das lindezas do rio, dos sítios inigualáveis de suas margens e da abundância de peixe e caça. Tinha saudades de Linhares, de onde era natural. Já havia prevenido o Coronel de que iria passar o Natal em sua terra, em companhia dos seus.</p>
<p>— Ser empregado de estrada de ferro é muito bom, mas a gente sabe que amanhece e não tem certeza se anoitece com vida. Garimpeiro mata, sem dizer por que dá cabo do canastro do outro. O camarada de confiança, então, é uma desgraça, porque tem que defender o patrão, não conhece o inimigo e nem sabe onde ele está. Às vezes se esconde na tocaia como tapuru na melancia mas, também, anda ao sol quente como lagarto e, quando menos se espera, zás! E lá vai o pobre cristão para o outro mundo!</p>
<p>— Rio Doce! Olhe, meu amo, o rio! Aquela mata verde-escura está no outro lado, na banda do Norte. Aqui este campo, é o de Santo Antônio. O sobrado da fazenda é aquele lá adiante, na beirada do rio. E, agora, para chegar a Porto Alegre, é só caminhar mais um pouco. Rio Doce! Patrão, como ele é bonito!</p>
<p>Já conhecíamos o Sr. Virgínio Fernandes e com ele acamaradamo-nos, facilmente, porque sua esposa era nossa terrantesa e o Sr. Vicente Lopes, seu irmão, comerciante em São Mateus, muito nos distinguia.</p>
<p>Depois de descansarmos e fazermos um lanche apetitoso, visitamos as dependências da fazenda em companhia de seu proprietário que, gentilmente, nos explicou trabalhos de cultivação e de pecuária. Levou-nos ao barranco do rio e explanou sobre a sua navegabilidade, salientando os seus estorvos por causa dos bancos de areia, dos canais caprichosos e mutáveis e dos reveses perigosos; indicou os tipos de embarcações usados, pequenos navios e canoas; e, finalmente, referiu-se aos riscos da navegação, quer nas secas quer nas enchentes.</p>
<p>Delineou a nossa viagem para o dia seguinte em canoa confortável e segura. Seria armado um toldo e três canoeiros morigerados, de confiança, levar-nos-iam a Colatina, onde pernoitaríamos. Daí, após o almoço, prosseguiríamos até à Catita e no terceiro dia chegaríamos a Porto da Esperança. O primeiro pernoite seria em casa da professora pública e o segundo na turma do chefe de locação da estrada de ferro.</p>
<p>Sentimos imensa satisfação como hóspede de tão amável família. Ao jantar cumulou-nos de delicadezas que muito nos envaideceram. A naturalidade, com que nos obsequiava, encantou-nos. Regalamo-nos com os guisados à mateense e tivemos a alma regalada.</p>
<p>Era um lar respeitável. Da mesa participavam o casal, os filhos e a professora. Essa gente civilizada vivia distante de centros culturais, procurava, por isso, bastar-se a si própria e cuidava, diligentemente, da prole ministrando-lhe a instrução primária.</p>
<p>A independência absoluta é, porém, irrealizável e certa vez foi o Sr. Virgínio vítima de um desastre que lhe causou fratura duma perna. Não perdeu tempo. Em canoa chegou a Linhares e de São Mateus, viajando quinze léguas, a cavalo, da acidentada estrada da linha, veio socorrê-lo o Dr. Jones dos Santos Neves. Esse fato ele no-lo recordou para salientar que naquele seu insulamento o que o preocupava era o não poder dar assistência clínica à família em casos de urgência. Não entrava, por certo, em suas reflexões, a morte de uma de suas filhas, por afogamento no Rio Doce como aconteceu cerca de um ano depois.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Só saímos de Porto Alegre depois de meio-dia. A derrota seria longa e o percurso diário seria, sempre, começado após o almoço, segundo o programa de viagem organizado pelo Sr. Virgínio, que na hora das despedidas manifestou o desejo de empreitar algum serviço com a Companhia. Em ocasião oportuna, quando estivéssemos na construção. ele procurar-nos-ia para o favorecermos com o que estivesse em nossa alçada.</p>
<p>Prometemos-lhe, sinceramente, ajudá-lo a obter sua pretensão. Os canoeiros eram esforçados. Diligenciavam por fazer a canoa subir o rio. Empurravam-na com varas contra a corrente ou remavam conforme a profundidade das águas. E assim iam vencendo, galhardamente, e distraindo-se cantavam suas trovas, seus queixumes e suas saudades.</p>
<p>O popeiro orientava, com perícia, a embarcação. Fazia que ela percorresse arcos de círculos e de elipse, que zigue-zagueasse e traçasse, também, retas e atalhos.</p>
<p>— De Colatina para cima vai melhorar — dizia ele —, a gente não tem que procurar canal porque dá passagem em qualquer lugar.</p>
<p>O sol ia baixando e a canseira dos remadores continuava quando avistamos Colatina. Aproamos ao porto da escola. Já crepusculava.</p>
<p>A professora aparece, investiga que passageiros são esses de consideração que viajam em canoa de toldo. Os canoeiros inteiram-na de nossa identidade. E antes de lhe apresentarmos nossas credenciais ela ordena-lhes que levem nossa bagagem para sua casa.</p>
<p>Era assim que brilhava a bondade de Dona Andrelina Pereira. Jamais nos esquecemos desse rasgo de generosidade da inesquecível educadora.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
No dia imediato a senhora prodigalizou-nos deliciosa refeição e antes das doze horas embarcamo-nos na canoa que, desencostada do barranco, foi impelida pelos possantes remadores, ao arrepio das águas, enquanto os adeuses, as reiterações dos votos de boa viagem eram manifestados, concretizados pelos acenos do lenço da professora, cujas gentilezas nos confundiram, nos embaraçaram e ainda nos continuavam enleando naquele momento.</p>
<p>E a medíocre embarcação bandeava, oscilava sem ritmo e em seus avanços intermitentes, causados pelos canoeiros que furavam o rio com os remos, que espadanavam a água; havia reflexos de luz que, por vezes, se irisava. E, então, reparamos que o descompasso dos balanços contrastava com a entoação das cantigas dos tripulantes.</p>
<p>A peleja daqueles três homens durante horas seguidas, contrapondo o pesado madeiro mal acepilhado e de torneio imperfeito à correnteza do rio, despertou-nos reflexões na grandeza da pátria, na resignação do povo e na necessidade inadiável de uma rede ferroviária cobrindo o país em todas as direções. Não era possível, pensávamos, que se retardasse a construção da estrada de ferro. Urgia que ela penetrasse em Minas Gerais e se estendesse até às minas de ferro e se ligasse à Central do Brasil. A navegação do Rio Doce era quimera. Só a estrada de ferro solucionaria o problema de transporte. Só ela era capaz de lograr a conquista para a civilização da vasta região ainda habitada pelos indígenas.</p>
<p>E, agora, compreendíamos os entusiasmos da Senhora Alexandre Calmon e os seus apelos ao marido para colaborar na construção da obra indispensável. Avaliávamos as preocupações do Sr. Virgínio Fernandes em não poder, prontamente, dar socorro clínico à família.</p>
<p>Da viagem confortável que nos foi tão gentilmente proporcionada estávamos farto. As belezas do rio que, na véspera, nos abalaram, dissiparam-se como se abacina o dia banhado por intensa luz, quando o atinge a borrasca. Dentro do pequeno espaço confinado com o toldo considerávamo-nos enclausurado e a nossa própria alma parecia haver perdido a liberdade. O rio e suas margens, as matas sarapintadas, os cerros próximos ou afastados, os pássaros fugindo silenciosos ou cantando e outros animais encontradiços, tudo se monotonizara. Só um fato detinha nossa simpatia: a peleja dos canoeiros cujo suor do trabalho estafante lhes transudava das faces afogueadas.</p>
<p>Desejávamos chegar. Comprimia-nos um misto de tédio e de fadiga e só aliviamo-nos quando acabamos de transpor o estirão do rio, que defronta com as matas do Santa Joana, por ter o popeiro anunciado que já estávamos no campo da Catita.</p>
<p>Breve aproou a canoa para terra e receberam-nos três personagens de maneiras distintas. Uma delas, muito elegante e quase loura, diz-nos em fala estrangeirada que havia tido, vaga notícia de nossa vinda.</p>
<p>— Saltem, não passarão bem a noite, mas lhes ofereceremos o que temos. É turma de campo, de locação. Somos judeus errantes. E estendendo-nos a mão: Roberto von Krompholz.</p>
<p>Correspondemos-lhe a apresentação e ao segundo convite para desembarcar rogamos-lhe, por favor, tomar o menino. De imediato, a imponente figura do Dr. Roberto contrafaz-se e ele grita pelo auxiliar:</p>
<p>— Bittencourt! Você tem jeito, pega! Eu não pego, porque a criança quebra!</p>
<p>Essa passagem causou hilaridade e acabou com as prováveis cerimônias que iríamos ter.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Antes do meio-dia e depois de haver o Dr. Roberto com os auxiliares nos crivado de atenções despedimo-nos daquele grupo seleto de pessoas obsequiadoras, que tanto nos penhorou, e a canoa desabalroada sobe, triunfando de maior correnteza do que na véspera, o rio, que corre por leito de inclinação crescente.</p>
<p>E encafurnado no toldo, suportando, resignado, calor que não se mitiga porque não havia, sequer, o refrigério de tênue aragem, íamos esperançado de cedo alcançar o desejado destino. E, talvez por isto não nos sentíamos tão enfadado como no dia anterior.</p>
<p>A embarcação renteando o barranco permite-nos ouvir o cascatear das águas do ribeirão dos Queixadas. Defronte, na outra margem, deságua o Rio Mutum.</p>
<p>Enfim enxergamos o Porto da Esperança e, para ele, abicaram a canoa os tripulantes.</p>
<p>E para maior satisfação nossa quem primeiro nos apareceu foi o meu cunhado Mileto de Carvalho. A surpresa pasmou-o. Abraços. Emoção de minha mulher. Lágrimas de alegria, Carícias do irmão ao sobrinho.</p>
<p>Rapidamente lhe íamos dizendo que contávamos com o seu auxílio para nos obter uma pensão em Mascarenhas, quando se aproximam o Sr. João Buriche e excelentíssima esposa, aos quais fomos apresentados, e que nos declararam de modo peremptório, que nos considerássemos seus hóspedes.</p>
<p>— Vamos para casa. E não para outra porque não consentiremos. A nossa preocupação máxima, quando saímos do Rio, era a dúvida em que estávamos de encontrar hotel ou casa em Mascarenhas para deixar a família com a possível assistência de meu cunhado, e a solução acabava de nos ser oferecida de modo singular e inesperado. Nunca deixamos de patentear a nossa ilimitada gratidão à família Buriche.</p>
<p>O nosso maior problema doméstico, naquela emergência, estava resolvido.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
O araçari em que estava edificada a casa de residência do Sr. Buriche estende-se rio acima, lindando com a margem direita, até cerca de vinte quilômetros.</p>
<p>O arraial de Mascarenhas carecia de importância. Encravado, perdido num recanto ia, pouco a pouco, progredindo por distar do Porto da Esperança apenas poucas centenas de metros, e, principalmente, porque nele pernoitavam as tropas da fazenda dos Milagres e de muitas outras. Não longe desse lugarejo, demorava a sede da propriedade agrícola do Coronel Mascarenhas.</p>
<p>Havia naquela época ainda outro empório comercial, além do do Sr. Buriche: era o do Sr. Viana, em Porto Final, término da navegação fluvial por navios gaiolas. Para aqui, também, vinham bater as tropas.</p>
<p>Desses dois portos do Rio Doce irradiavam as mercadorias que abasteciam a vasta zona percorrida por seus afluentes: Guandu, Natividade e Manhuaçu.</p>
<p>Inquietava-nos a insalubridade do caudal que íamos perlongar, todavia fomos informado, com segurança, de que de Colatina até à Serra da Onça, distante dez léguas de Natividade, a região era geralmente salubre; raros eram os casos de paludismo. Daí para cima, porém, ele canhoneava, sem piedade, quem por Já errasse, e só se aniilava na parte desflorestada ou de altitude elevada sem pauis ou tremembés.</p>
<p>Íamos, pois, estudar o traçado da estrada acompanhando o trecho do rio livre da malária e isto muito nos alegrou. E diante das boas notícias desejamos pregoar que a maleita do Rio Doce era um mito. Chegávamos a duvidar de sua existência nos lugares tidos como pestilentos, e tudo quanto se propalava contra o vale grandioso parecia-se com alguns contos da carochinha, em que fadas benfazejas proclamavam haver um mundo de malefícios, que nunca era alcançado, mas que as crianças temiam julgando residir nele o bicho-papão.</p>
<p>Como seria bom, pensávamos, nesses momentos de devaneios, que a má-fama do rio não passasse de intrigas, de mexericos, por toda parte, ali, representados por teias tecidas por aranhas — mexeriqueiras respeitáveis.</p>
<p>Mais tarde, infelizmente, testemunhamos que não era exagerada a triste celebridade do rio nos pontos indicados.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Primeiro de setembro é o dia fixado para continuarmos a exploração parada em Natividade. Devíamos estar à espera do chefe, Dr. Pedro Versiani, e aparelhado para cumprir nossas obrigações ajudando-o, com desvelo, ensejando-lhe a ocasião de prestar mais um serviço que o recomendasse à Companhia.</p>
<p>Compramos ao Sr. Buriche um cavalo e arreios.</p>
<p>— É um animal manso e de talento — disse-nos um nordestino, freqüentador da casa comercial, examinando-o. — É inteiro mas como não há eguada rio acima tem que ser sossegado à força. A compra parece que não foi má. O seu nome é Queimado e ele já está quase ruço. É velho de seis anos — e olhando os dentes do solípede confirmou: — sim, tem mais de seis anos. As mudas já se igualaram há muito tempo.</p>
<p>A essa altura um matutão interveio e observou:</p>
<p>— Este homem tem a mania de dar palpite no que não é chamado. Seu João, meu compadre, não venderia ao senhor, cunhado de seu Mileto, um animal rúim. E ele a dar-lhe! A querer botar defeito no cavalo que é de sustança, árdego e de bons sinais. O bicho não é estremecido, não é náfego, tem bons cascos, é de pêlo branco, porém, de couro preto, já montei nele e sei que não tem manha, não se pega, é marchador e certo, obedece bem: ao freio, não é empesteado, não sofre de dor de barriga, não tem calo de pisadura, nunca teve mormo, não é fraco e é bom nadador. Era o cavalo de estimação de minha comadre e só foi vendido porque ela quase não viaja e ele vivia sem trabalhar.</p>
<p>Ficamos conhecendo as boas qualidades do Queimado e a excelente compra que havíamos feito, graças às reticentes observações e aos rebates preciosos dos dois fregueses do Sr. João Buriche.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Diocesano Dom Femando de Sousa Monteiro chegaria ao Porto da Esperança no dia imediato, e ia dar-lhe a honra de ser seu hóspede.</p>
<p>Foi combinado um modesto programa de recepção ao querido prelado, e como dever-se-ia dar-lhe assistência de modo que lhe significasse a justa impressão do quanto era benquisto e respeitado pelos moradores daquelas paragens.</p>
<p>Satisfeito e desvanecido fizemos parte da pequena e improvisada comissão que devia homenagear o ilustre e venerando antístite da Igreja.</p>
<p>Quando lhe fomos apresentado, ele, com carinho paternal, disse-nos:</p>
<p>— Há muitos anos que não nos avistamos. Você foi um dos alunos espírito-santenses do Colégio de São Luís de Gonzaga de Petrópolis. Que prazer, que surpresa agradável de o encontrar aqui. Não era engenheiro da Central do Brasil? Que está fazendo no interior do nosso Espírito Santo?</p>
<p>Explicamos-lhe que havíamos deixado a Central e tomado compromisso com a Companhia Vitória a Minas.</p>
<p>— Oxalá que você acabe por ficar, definitivamente, em nossa terra. No Espírito Santo há muita cousa que fazer e seus filhos não devem abandoná-lo.</p>
<p>Longe estávamos de supor que seríamos, antes de três anos, auxiliar do Presidente Jerônimo Monteiro, o inesquecível realizador das obras que tornaram Vitória cidade confortável e deixou, ainda, em qualquer parte do Estado um vestígio, um marco de sua passagem pelo governo.</p>
<p>Depois de haver Dom Fernando conosco permanecido dois dias, em que cuidou das piedosas obrigações de seu sagrado ministério com simplicidade, com sublime espírito de evangelizador e com o amor pregado pelo Divino Mestre, partiu com destino a Boa Família.</p>
<p>Com o Senhor Buriche acompanhamo-lo à distância de uma légua. Regressamos, cumprindo esse dever de respeitosa cortesia, à margem do rio, sensibilizado por sua bondade incomparável.</p>
<p>
<span style="font-size: 12.8px;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_21/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM IV</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_21/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM III</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 21:43:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Estrada de Ferro Vitória a Minas ___________________________________________ CAPÍTULO III Moços de cidade. Conversas de família. O carneiro de Djalma e a inveja do autor. O Professor ou o Coronel Xandoca. Itinerário de viagem. &#8220;O mata a fome&#8221; ou &#8220;o mata à fome&#8221;. 0 almoxarifado. Aquisição de mantimentos. A amizade entre o coronel e o chefe. [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM III</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4>
Estrada de Ferro Vitória a Minas</h4>
<p>___________________________________________</p>
<h4>
CAPÍTULO III</h4>
<p></p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>Moços de cidade. Conversas de família. O carneiro de Djalma e a inveja do autor. O Professor ou o Coronel Xandoca. Itinerário de viagem. &#8220;O mata a fome&#8221; ou &#8220;o mata à fome&#8221;. 0 almoxarifado. Aquisição de mantimentos. A amizade entre o coronel e o chefe. Pagamento atrasado. Dificuldades de trânsito. A família do coronel. Louvores ao Rio Doce. O pé-de-alferes do auxiliar à filha do coronel. Ótimas recomendações.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Devagar a palestra, quando almoçávamos, ia-se animando e vieram à baila fatos ocorridos com os moços da cidade. Uns não conheciam o bicho-de-pé; outros queixavam-se de comichão por todo o corpo, e do mucuim de que nunca ouviram falar; alguns, espavoridos, fogem de sapos&#8230; A esta altura o nosso bondoso hospedeiro interveio:</p>
<p>— O senhor, com certeza, não teme ataques de bichos-de-pé, mordidas de mucuins, e sabe que os sapos não arremetem a ninguém&#8230; — E continuou: — Quem monta, a cavalo, com o seu desembaraço percebe-se, de pronto, que está familiarizado com a vida do Interior, embora venha das oficinas do Engenho de Dentro. O senhor é paulista do interior?</p>
<p>— Não senhor. Somos espírito-santense do Norte.</p>
<p>— Não pode avaliar como isto me agrada — e, dirigindo-se a todos: — é filho desta terra que é, a meu ver, uma das regiões mais interessantes do país. O Espírito Santo une o Norte com o Sul. Aqui se encontra a hospitalidade, o carinho do baiano, e a singeleza, a bondade do fluminense. A colonização estrangeira, às vezes, ilude a gente que pensa estar em São Paulo. Então o senhor é co-estaduano do Coronel Alexandre Calmon, do Xandoca, a quem muito considero e com quem penso haver tratado uma amizade que se não extinguirá facilmente. Terá o senhor a ventura de o conhecer?</p>
<p>— Sim. É amigo de meu pai e aos nove anos de idade quase que fomos matriculado na escola primária de que ele era o professor, só não o sendo, porque o Juiz de Direito de São Mateus resolveu admitir-nos, como aluno, num curso particular que mantinha. Nesse tempo o seu filho, o Djalma, montava em um carneiro que, impando, corria a Praça de São Benedito, onde era situada a casa de residência do Professor Xandoca. Guardamos essas reminiscências bem vivas, porque invejávamos a sorte do Djalma de ser o dono de animal tão manso que, embora constrangido, se associava às suas incríveis traquinadas.</p>
<p>— Pois fique o senhor sabendo que ele até hoje ainda traquina. É, porém, moço ativo, trabalhador, bravo e decidido. É possível que o senhor, também, conheça o Emílio Cunha. É um colega boníssimo e o serviço da sua secção está bem adiantado. É espírito-santense do Sul do Estado.</p>
<p>— Sabemos que é filho do Dr. Leopoldo Cunha, mas nunca nos avistamos com ele.</p>
<p>— Um outro espírito-santense é o Dr. Olyntho de Carvalho. Foi nosso médico e ainda não faz um ano que se retirou. É bom clínico. E, por certo, com esse não teve o senhor também o ensejo de se amistar.</p>
<p>— Pelo contrário, é meu cunhado. Repare minha mulher como está satisfeita com o elogio que o senhor acaba de fazer ao irmão. Agradecemos-lhes muito, eu e ela.</p>
<p>Riram-se todos de meu imprevisto cunhadio com o ex-médico da Companhia, e o dono da casa, prazenteiro, aproveitou o momento de euforia para sugerir que passássemos à varanda. Lá seria, dentro em pouco, servido o café.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Antes mesmo de se saborear o &#8220;capitania&#8221; providenciou o Dr. Bosísio no comparecimento do Coronel Alexandre Calmon ao escritório. Queria, sem tardança, surpreender o amigo com a nossa presença.</p>
<p>O Professor Xandoca não nos reconheceria, mas no ato da apresentação o nome declinado trouxe-lhe, à memória, o filho do amigo, o menino que se extasiava com as travessuras do Djalma, certamente, morrendo de inveja de não poder igualá-las.</p>
<p>Com muita alegria o coronel nos abraçou e augurou-nos felicidades na estrada e que podíamos contar com ele para servir-nos em tudo que lhe fosse possível. Quando terminamos nossos agradecimentos pela gentileza de sua oferta, o chefe disse-lhe que, quando o convidara para vir ao escritório, tivera em vista pedir-lhe que o auxiliasse nas providências para nossa ida até Mascarenhas, no Rio Doce.</p>
<p>— Vou organizar o itinerário da viagem menos fatigante que possa ele proporcionar à senhora e à criança que está iniciando a vida como filho de homem de cacaio, embora seja o pai engenheiro. A excelentíssima acompanha-o receando, talvez, que ele se desvie do bom caminho desses sítios desertos — e prosseguiu, gracejando ainda, — ou pela curiosidade de provar da vida de desconforto que passam as esposas dos outros profissionais ou, quem sabe, pela tara da família de tentar aventuras como o irmão, o médico que, agora, clinica no Rio e já pretende ir para São Paulo, ou como o outro que é auxiliar do empório comercial do Buriche, em Porto da Esperança. Dou um camarada para levá-los, conhecedor de todos os caminhos, trilhos e atalhos, de inteira e absoluta confiança. Emprestarei dois burros marcha dores muito mansos, sem manhas, sem nicas e sem haver notícia, até hoje, de se terem pegado. Ambos não refugam o silhão e minha mulher e minhas filhas não querem saber de outros para suas viagens. Cargueiros terá tantos quantos forem precisos para transportar a bagagem. O itinerário será o seguinte: partirão daqui às seis horas da manhã e almoçarão em Demétrio Ribeiro. Aí farão a sesta e seguirão, quando o sol já estiver bem descambado, até às cinco horas e meia, mais ou menos, para pernoitar na colônia que o camarada indicar. A região é toda colonizada não havendo por isso dificuldade em encontrar pousada. No dia seguinte a derrota será folgada. Troteando os animais, com regularidade, chegarão ao povoado de Baunilha dentro de duas a três horas. É o ponto do almoço e, depois do descanso, estão no Rio Doce, em Porto Alegre, fazenda de meu irmão Virgínio, antes das cinco horas. Ele os receberá com prazer e mandará aparelhar canoa segura para os transportar ao Porto da Esperança, distante de Mascarenhas cerca de um quilômetro.</p>
<p>— Vão fazer boa viagem -disse-nos o Professor Xandoca, que achou de nos declarar não ser mais mestre-escola e sim comerciante representante da firma comercial sob a razão social de Empresa Sá Carvalho e Companhia, cuja finalidade era fornecer de mercadorias os trabalhadores e todo o pessoal da construção da estrada de ferro. Com a palavra, o chefe esclareceu que o barracão da firma é &#8220;o mata a fome&#8221; de todos, mas acontece haver escassez e, não raro, faltas de gêneros de primeira necessidade e nestes casos passa a ser denominado &#8220;o mata à fome&#8221;. Pareceu-nos que os lábios do coronel mal desabrocharam um riso amarelo e procuramos mudar de assunto para socorrê-lo.</p>
<p>— Coronel, prometemos-lhe não o chamar de professor, com a condição de queimar o senhor o título de doutor, que nos tem dado.</p>
<p>— Está na hora de darmos um passeio pelos arredores sentencia o chefe.</p>
<p>E o coronel, de pronto:</p>
<p>— Também me associo a esta excursão e, à noite, trarei a família para visitar o engenheiro, o coestaduano, e sua excelentíssima senhora — e despede-se das donas.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Começamos visitando o almoxarifado da seção de construção. Na porta estava, de guarda, o maneta da mina encravada. Saudou-nos respeitosamente.</p>
<p>Não havia estoque apreciável. Enxadas, pás, picaretas, marretas, vergalhões de ferro, galeotas, fouces, machados, carrinhos, trilhos de Décauville, muito usados&#8230; tudo em pequena quantidade e bem arrumado. E o chefe ia explicando:</p>
<p>— Todo o material que está aqui foi trazido pelas turmas que acabaram suas tarefas. Estou providenciando para as picaretas serem calçadas, as fouces amoladas, as galeotas, carrinhos e carroças consertados. Mandei que se levasse parte da tropa, para um pasto melhor. As folhas de zinco recebidas das turmas, que se retiraram, foram separadas as inutilizadas das perfeitas. Desejo fazer instalação rápida para atacar, sem demora, a construção do trecho que me será dado no Rio Doce e para conseguir isso já se está inventariando o que se tem, a fim de ser pedida a remessa das faltas com urgência. Vou mostrar-lhe, agora, o depósito de explosivo. É um pequeno túnel na ponta daquele espigão.</p>
<p>Para lá encaminhamo-nos e, as medidas acauteladoras para evitar acidentes, ouvimos com atenção.</p>
<p>Nessa altura, manifestou o Coronel Alexandre Calmon desejo de nos receber no barracão ou armazém geral distribuidor de víveres e de utilidades a toda a estrada e com vislumbre de reabilitação convida o chefe para verificar a abundância e a boa qualidade das mercadorias.</p>
<p>— Com prazer aceito o convite. Vamos.</p>
<p>E conversando conosco, como se estivéssemos sós, declarou:</p>
<p>—O Coronel é o braço-direito da construção desta estrada.</p>
<p>Aqui na ponta dos trilhos, o fornecimento ao pessoal satisfaz plenamente. Gracejei quando apelidei o armazém de &#8220;o mata à fome&#8221;. Cometi uma indiscrição, mas ele, cavalheiro como é, escusar-me-á porque tem, ele próprio, a segurança de que o trabalhador 6 quem está certo quando afirma: &#8220;Vou ao mata a fome.&#8221;</p>
<p>Prontamente o coronel redargúi:</p>
<p>— Dr. Bosísio, você sabe que não me pico com seus gracejos. Não serão eles, por certo, que criarão embaraços à nossa amizade.</p>
<p>E já chegados à porta do barracão ele principiou vasta explanação sobre o abastecimento de mercadorias e sua distribuição.</p>
<p>— A aquisição de gêneros faz-se nas praças do Sul. Acontece, com freqüência, não haver embarcação para Vitória e ficam as cargas lá detidas. Procura-se remediar essa carência de transporte comprando em Vitória nas casas que vendem por atacado, as quais, nem sempre, têm estoque suficiente para atender pedidos avultados. A situação torna-se complicada e tem-se que recorrer às grandes firmas de Cachoeiro de Santa Leopoldina que, nem sempre, podem fazer o suprimento. Esgotam-se todas as providências locais e reforçam-se as que já haviam sido tomadas algures. Chovem os telegramas à Empresa, aos fornecedores e aos armadores da marinha mercante fazendo apelos instantes para remeterem os víveres encomendados a fim de não haver a paralisação dos trabalhos e prevenir a fome que ameaça todo o pessoal. E quando essas diligências, esses esforços, tardam a ser atendidos, despontam as faltas e as justas reclamações de trabalhadores, de operários, de administradores e de engenheiros. Não é prática a manutenção de grandes estoques para impedir as faltas porque há mercadorias que se deterioram, se não forem consumidas em certo tempo e, ainda, porque a Companhia atrasa, freqüentemente, o pagamento das importâncias mensais descontadas dos salários dos trabalhadores, e isso acarreta dificuldades e obriga a Empresa a retardar a satisfação de seus compromissos com as firmas abastecedoras. A remessa de mercadorias para as sucursais deste barracão é feita por tropa de muares andando maus caminhos que, em certas quadras do ano, se tornam, muitas vezes, intransitáveis porque as chuvas os escavam, as ferraduras das patas dos animais aumentam os estragos, produzem buracos, que, acabam transformando-se em atoleiros ou em caldeirões perigosos. E quando acontece haver a destruição de pontes fica, de todo, interrompido o trânsito, e surge o problema da construção de desvios, rodeios, estivas. Estas obras de emergcncia, possibilitam socorro àqueles que se acham a dez, vinte, trinta, quarenta e cinqüenta quilômetros, além da ponta dos trilhos. Quando há rios de águas volumosas só a canoa soluciona a travessia. Essas dificuldades somente se vencem porque os engenheiros mandam turmas restabelecer o trânsito de qualquer maneira. E os trabalhadores, em certos trechos, carregam os volumes até aos pontos em que a caravana só pode chegar escoteira. E, assim, alcançam os destinos víveres de primeira necessidade e a construção da estrada vai prosseguindo e os trilhos avançam. É de justiça assinalar que nessas situações angustiosas todos ajudam trabalhando de boa vontade. Percorramos, agora, rapidamente os depósitos de gêneros para o senhor avaliar de nossos estoques. Aquela ruma de fardos é de charque e ao lado há outras de sacos de feijão, de arroz e farinha de mandioca. O trigo fica do outro lado e perto dele estão os biscoitos e os doces. Avistam-se, lá, nos fundos, os décimos de vinho e os engradados de cerveja, arrumados cuidadosamente. A bebida de maior consumo é a cachaça. Adquirimo-la no Rio e em Cariacica. Os barris que a contém estão empilhados em seguimento aos de vinho.</p>
<p>E o Coronel ia guiando-nos para rimas de mercadorias, mostrando-nos e enunciando: banha, toucinho, queijo, manteiga, sabão, fazendas, roupas feitas, calçados, chapéus, armarinho, louça, ferragens finas&#8230;</p>
<p>A visita foi completa e a impressão que tivemos magnífica. Demos-lhe parabéns, no que fomos secundado pelo chefe de secção, visivelmente satisfeito.</p>
<p>— Escusem-me a caminhada por esses corredores que cheiram a vinagre, a cebolas e a fermentações diversas, indefiníveis. Convido-os a dar-me a honra de fazer um pequeno lanche servindo-se do que me é possível oferecer-lhes: cerveja e água mineral, biscoitos, queijo e café.</p>
<p>Finalmente, agradecendo-lhe o ensejo que nos proporcionou de conhecer tão importante departamento da construção da estrada e as suas gentilezas, despedimo-nos com um cordial &#8220;até logo, Coronel&#8221;.</p>
<p>Encaminhando-nos ao escritório, o Dr. Bosísio observou:</p>
<p>— Esse homem é de esmerada educação, enérgico, ativo e bom administrador.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
— Vim com minhas filhas — diz-nos a Senhora Calmon fazer-lhes uma visita muito amiga. Sabia que estava na Estrada de Ferro Central do Brasil e jamais pensei que a deixasse para exercer a profissão em nossa terra. Não podem imaginar, o senhor e sua senhora, a auréola de alegria que me rodeou, quando Xandoca me disse que era engenheiro da Companhia e já se achava aqui de passagem para o Rio Doce. Vai gostar imenso de lá. Lugares bonitos, sítios encantadores, matas que não têm fim ao Norte, terrenos ubérrimos, peixes excelentes, e o rio? Ah! o rio é soberbo, é majestoso e o nosso velho monarca, D. Pedro II, quando o visitou, fez-lhe justiça e afirmou que com ele nenhum outro rivalizava. Dizem que no Rio Doce dá febre palustre. Não se nega isso, mas é acima, nas florestas brutas, em Minas Gerais. No Espírito Santo o paludismo das margens do rio foi corrido, escorraçado pelos Calmons e, principalmente, pelo tronco da família, João Felipe Calmon, que fundou fazenda em frente de Linhares, derribou matas, rechaçou bugres e venceu febres. Carneiradas há, também, em Itabapoana, em sua terra, São Mateus, em Itaúnas mas não se faz propaganda demolidora dessas regiões. Só o Rio Doce é visado, é apontado como insalubre. Somente ele é o avejão. Já disse a Xandoca que precisa ajudar os engenheiros a levarem os trilhos a Colatina. Isto é obrigação dos rio-docenses que estremecem sua terra. Foi João Calmon quem, de sua fazenda Bomjardim, obstou, por vezes, que o povoado de Linhares sucumbisse aos ataques dos botocudos e conseguiu chantar ali um marco civilizador, definitivo, e confio em Alexandre Calmon que há de sustentar e impulsionar o progresso de Colatina. Um defendeu Linhares, o outro, meu marido, há de fazer progredir o primitivo arraial de Santa Maria. E Xandoca vai fazer-me a vontade dando-me uma boa casa em Colatina. É lá que pretendo residir. O prazer de saber que se dirige ao Rio Doce e que vai ser um bom companheiro dos que se esforçam em levar avante a construção da estrada desviou minha conversa para assunto que não é de uma visita de cortesia e de amizade, mas está em tempo de emendar a mão. Já sei que fizeram boa viagem do Rio a Vitória e que ontem aqui chegaram em paz. A criança, vê-se, está passando bem e vai gozar saúde. No interior os meninos vivem melhor do que nas cidades. Esta minha filha é a mais velha. Acredito que se case breve e, possivelmente, com um engenheiro. Aquela é ainda muito moça e acho que é cedo para mudar de estado. Parece, entretanto, que um auxiliar de Xandoca tenta fazer-lhe o pé-de-alferes. Ele com o emprego atual não tem futuro assegurado. Sou de parecer que não devem pensar nisso.</p>
<p>— Mas, mamãe, o futuro é promissor.</p>
<p>— Qual nada, minha filha. Subgerente de armazéns não é colocação que o recomende a obrigações de família. Esqueça-se disso enquanto está em princípio.</p>
<p>— Sim, mamãe, mas não prometo.</p>
<p>— Estas moças de hoje são assim. Não atinam com as dificuldades do amanhã. São desprevenidas e não acatam os avisos, os conselhos das mães. Depois se arrependem da teimosia, quando não podem mais remediar o mal, porque já deram o nó. O pai, quando souber as inclinações da filha por esse rapaz, que justiça se lhe faça não é indivíduo mau, não aprovará o xodó que, por ora, não passa de um capricho desta menina. Ele diz sempre desejar que as filhas se casem com homens encaminhados na vida, que não andem de sacos às costas como os garimpeiros, que se sentem felizes carregando cacaios de teréns. Sérgio é ativo, trabalhador mas demasiado loquaz, fala pelos cotovelos e prima pela filáucia. Provém da região do cangaço e é Albuquerque, nome que lá na terra dele é sinônimo de mentiroso.</p>
<p>— Mamãe, a senhora acusa Sérgio mas não o alfineteou, ainda, argüindo-lhe defeitos que o desmereçam. Pelo contrário, justa como é, destaca suas qualidades. O fato de não ter ele uma situação estável não é motivo sério para tamanha oposição. Os engenheiros casados da estrada, também, não desfrutam estabilidade em suas colocações e, todavia, fundaram lares felizes. E, por certo, os sogros não objetaram a que eles maridassem com as filhas. Mamãe, peço-lhe que vá predispondo o ânimo de papai à hipótese de meu noivado com o tagarela, que é assim, porque é inteligente.</p>
<p>— Sim, minha filha, mas isso não é fácil.</p>
<p>E fitando a vista em nós a Senhora Calmon observou:</p>
<p>— Não sei como novamente divaguei. Mas devo ser franca. Conheci-o quando era criança. Meu Djalma é quase de sua idade. Dois irmãos de sua esposa amistaram-se conosco. Sou de índole expansiva. Detesto cerimônias, etiquetas, convenções sociais e, por isso, queiram permitir-me tratá-los com liberdade, com amizade, como é de meu feitio. Xandoca está entrando ao escritório e precisa comunicar-lhe as providências sobre sua viagem. Não se acanhe. Vá encontrar-se com ele. Ficarei com as senhoras expandindo-me.</p>
<p>— Muito me custou desvencilhar-me dos compromissos desta noite — esclareceu-nos o coronel — mas estou aqui com prazer, para ajudá-lo. E, agora, os últimos avisos e recomendações. As seis horas da manhã o camarada estará aqui à sua disposição, com os animais. Dei-lhe ordens precisas, claras, que ele cumprirá durante a derrota. Partam cedo. Não viajem com o sol quente e tudo correrá bem no itinerário que tracei. Nada mais tenho que lhe aconselhar.</p>
<p>O tema da construção da ferrovia predomina nas explanações do chefe, que ora ressalta imprevistos que motivam entraves, estorvos, ora destaca falta de previdência de sua parte ou, mesmo, da diretoria da Companhia. O zelo pelos interesses desta parecia-nos até exagerado.</p>
<p>Comove-nos ouvir relatos que não se poupam lídimos e esforçados defensores da estrada, somente porque não adotaram determinada resolução que é considerada, no presente, como se fosse, talvez, a mais acertada.</p>
<p>E cavaqueando aquele punhado de dependentes da Companhia assinala-se por entusiasmo, por extremos, aos vários serviços que lhe são confiados.</p>
<p>
<span style="font-size: 12.8px;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM III</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_40/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM II</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_83/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_83/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Estrada de Ferro Vitória a Minas ___________________________________________ CAPÍTULO II A família do chefe. A hospitalidade praxista. A dedicação dos médicos. Justos elogios aos trabalhadores. Visita ao povoado de muitos nomes; a igreja. Exame de perfis e projetos. Preparo do leito da estrada. Fornecimentos difíceis. Mina encravada, trabalhador maneta. Rampa máxima, supressão de túneis e muros. [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_83/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM II</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4>
Estrada de Ferro Vitória a Minas</h4>
<p>___________________________________________</p>
<h4>
CAPÍTULO II</h4>
<p></p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>A família do chefe. A hospitalidade praxista. A dedicação dos médicos. Justos elogios aos trabalhadores. Visita ao povoado de muitos nomes; a igreja. Exame de perfis e projetos. Preparo do leito da estrada. Fornecimentos difíceis. Mina encravada, trabalhador maneta. Rampa máxima, supressão de túneis e muros. Referências a engenheiros. O Dr. Schnoor, o auxiliar, o pagador e a variante de Cariacica. A construção além de Lauro Müller. Crítica. Caminho de serviço, um arremedo! Garganta do Guasti: o bombardeio, os cavouqueiros e os marreteiros. Minúcias a respeito dos trabalhos. Crianças radiam felicidade. A nobreza da profissão do engenheiro. Discursos de inauguração.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
O engenheiro Pedro Bosísio, chefe de seção da construção, acompanhava-se de um grupo de auxiliares e recebeu-nos com mostras de muita simpatia, que se dilatou quando lhe dissemos que havíamos sido colega de um de seus irmãos e disse-nos:</p>
<p>— Com a família vai o senhor ser nosso hóspede. O Esquerdo avisou-nos de sua vinda. Esperávamo-los. Não ficará bem instalado mas aqui na construção está introduzida a praxe de se dar hospedagem aos colegas em trânsito. De boa vontade todos assim procedem. Chegará a sua vez de, também, improvisar recepção e, assim, não se desmente a tradicional hospitalidade brasileira. Dê-me, por favor, o conhecimento de despacho de sua bagagem. Aqui está o camarada para recebê-la e vamos para o escritório, pois que a nossa residência lhe é contígua.</p>
<p>E, dirigindo-se à minha mulher acrescentou:</p>
<p>— Minha esposa não pôde vir à gare. Mandou nossa filha única, para fazer suas vezes e carregar o menino. Ambas ficarão satisfeitíssimas, porque vão ter ocasião de pegá-lo, de acariciá-lo. São loucas por crianças — e voltando-se para nós — o senhor não seguirá amanhã. Hoje mostrar-lhe-ei as plantas, os perfis, e os projetos das obras-de-arte do trecho da construção sob minha direção. Amanhã o senhor visitará em minha companhia os trabalhos de terraplenagem, de alvenaria de pontes e bueiros. Assim o senhor avaliará dos esforços aqui empregados no barateamento das obras, o que é a minha maior preocupação, pois desejo satisfazer, plenamente, à diretoria em suas reiteradas recomendações de economia e de produção máxima. O senhor verá como os orçamentos são escassos, como tudo se faz para diminuir o custo da construção. Isto é uma escola de economia em que, freqüentemente, se sacrifica a parte técnica. Enfim, devo dizer-lhe, aqui se despende dentro de rigorosa fiscalização, e prepare-se para proceder nessa norma e granjear a simpatia dos dirigentes da Companhia. Estamos chegando. Vamos ter tempo de praticar, ainda, esse assunto.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
A família Bosísio tratou-nos com gentileza inexcedível. Tudo providenciou para agradar aos hóspedes, que sentiam enleamento justificável.</p>
<p>Durante o almoço o acanhamento, que nos acabrunhava, foi pouco a pouco se dissipando. A conversa das senhoras animava-se. Eram donas de casa que se iam entendendo. Os temas domésticos empolgavam-nas. Enquanto o chefe relatava fatos ocorridos nos quais dois de seus auxiliares também participavam minudenciando-os, completando-os, esclarecendo-os.</p>
<p>Ouvíamo-los com muita atenção. Íamos tendo as nossas primeiras impressões para, em breve, concluirmos que o assunto preferido nas conversas, quase exclusivamente, era o da construção da estrada, ou o que se relacionasse com ela, embora remotamente. Logo que se apresentou ensejo perguntamos quais os pontos da linha, já construída, eram considerados insalubres. Foram todos enumerados, salientando-se Alfredo Maia e o Itapirá.</p>
<p>Tivemos a confirmação de que os brejos, os vargedos das proximidades do Rio de Santa Maria eram terríveis. A malária não poupou os trabalhadores e muitos faleceram de seus acessos. Também na mata do Guaraná a tremedeira campeou de bravo. O sulfato de quinina já não servia para evitar os acessos. Os auxiliares confirmavam de cabeça e um ajuntou: &#8220;Eu quase morri naquele Itapirá maldito; ainda hoje tenho o fígado avariado&#8221;.</p>
<p>E a palestra continuava rica em minúcias, narrando-se com toda a naturalidade as ocorrências com os seus imprevistos. Os médicos da estrada eram excelentes clínicos, diligentes, esforçados. Faziam o que podiam. Recebiam três mil réis por trabalhador, que figurasse em folha, quantia que lhe era descontada, e tinham a obrigação de fornecer-lhe, gratuitamente, os remédios que receitassem. O pessoal técnico e auxiliares não sofriam desconto e a todos, indistintamente, eles socorriam. Eram dignos de consideração e os garimpeiros, entretanto, ainda lhes faziam acusações injustas.</p>
<p>Houve elogios a administradores, a feitores, a trabalhadores, e também, restrições àqueles que eram atrevidos, insubordinados, cachaceiros.</p>
<p>É servida a sobremesa e depois o café pela Senhora Bosísio, dama de finíssima educação, de requintada bondade, e excelsas virtudes.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
No escritório fomos apresentado aos escriturários e ao administrador, homem de confiança, de atividade assombrosa, de energia temida. Veio receber notas de serviço para as turmas que deviam começar a trabalhar no dia imediato, pois que os abarracamentos já estavam feitos.</p>
<p>O chefe de seção ia atendê-lo e opinou: &#8220;O senhor, se quiser, pode aproveitar o tempo que vou deixar-lhe desembaraçado para conhecer a vila ou para descansar, enquanto vou providenciar para satisfazer o pedido deste homem&#8221;.</p>
<p>Minha mulher entretinha-se conversando cordialmente com a dona da casa. O trato lhano desta conseguira colocá-la à vontade. Parecia que eram amigas de longa data.</p>
<p>Aceitaram o nosso convite para visitar o povoado que já tivera o nome de Colônia de Santa Leopoldina, Guaraná, Conde d&#8217;Eu, Pau Gigante e Lauro Müller. Percorremos as ruas. As casas eram cobertas de tabuinhas ou de zinco. Cumprimentavam, alegremente, a senhora Bosísio, que, de passagem, ia apresentando-nos. Havia famílias brasileiras, e, também, italianas e ítalo-brasileiras. A percentagem de pardos era pequena. Dirigimo-nos à igreja sob a invocação de São Marcos. Mais tarde ela será reformada e o Dr. Nolasco far-lhe-á donativos e oferecerá os ladrilhos necessários para substituir o assoalho.</p>
<p>Apesar de certo movimento que se notava nas ruas percebiam-se, todavia, indícios de decadência prematura, sustada, agora, pela inauguração da estação da via férrea a 15 de março daquele ano, e pela presença do pessoal da construção da estrada que ia prosseguindo regularmente.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
— Já separei tudo o que pode interessar-lhe e que desejo mostrar-lhe e vamos passar em revista, os perfis, os projetos de algumas obras de arte e alguns planos cotados — disse-nos o Dr. Bosísio. — Daqui para diante o grade da estrada até o lugar marcado para as oficinas é constituído por um trecho de nível continuação do da estação, por uma rampa máxima, por um patamar, por uma contra-rampa e por outro patamar, onde será construída a estação e preparada a esplanada para as oficinas.</p>
<p>E o chefe, esclarecendo o traçado, pormenorizava:</p>
<p>— A primeira ponte é a do Taquaruçu, já está construída, depois vem um aterro grande, é este — e apontava o perfil. — Não houve empréstimo e o corte é volumoso. Na base deu rocha viva, compacta, e na crista boa terra amarelo-avermelhada. Olhe, repare, entre este espigão e estoutro há um grotão, construiu-se nele um bueiro. Que é da planta desta obra? Ei-la. Obra bem acabada e bem construída. Encontrou-se boa pedra. A calçada está solidamente assentada. A alvenaria dos muros é ótima. Bom cimento, boa areia e magnífica mão-de-obra, de acordo com as especificações, com o traço, rigorosamente fixado. O capeamento é de lajões. Pedras de grã-fina, resistente. Um primor. O segundo espigão é de material semelhante ao do primeiro. As sobras, os matacães extraídos foram atirados nas saias do aterro para protegê-lo. Todo este trecho está concluído e já se está assentando nele a linha. Mas que de dificuldades para se prolongarem os trilhos. Estes, primeiro, não vinham porque não haviam chegado a Vitória, depois já estavam descarregados do navio mas não sabiam o paradeiro das talas de junção, estas apareceram e iam providenciar as plataformas para o transporte. Depois de muito custo vão aparecendo aqui os trilhos e as talas, mas não vêm os pregos. E para que os estorvos fossem completos os empreiteiros de dormentes não faziam no prazo as entregas, conforme o combinado, verbalmente, porque contrato ninguém assina temendo não poder cumpri-lo. Felizmente, agora, há em Vitória, trilhos, talas, pregos e à medida que forem remetidos serão empilhados aqui. Os dormentes com as providências tomadas não faltarão mais. Fiz essa explanação afastando-me do objetivo principal que tenho em vista — o de orientá-lo nos trabalhos da construção desta estrada — porque também é bom que conheça os percalços do engenheiro construtor de uma estrada que parte e percorre uma região em que tudo é difícil. O fornecimento do material — cimento, dinamite, ferramentas&#8230; — bem como o abastecimento de gêneros alimentícios são problemas sem solução satisfatória. Estão sempre exigindo a máxima atenção. Por amor deles vive-se preocupado, angustiado. Aqui está o perfil do progresso. Por ele verifica-se o andamento do trabalho, mensalmente. Os dois cortes grandes que lhe mostrei no outro perfil foram terminados em seis meses. Aqui estão eles. O progresso está indicado por seis cores diferentes. Também as turmas, que nele trabalharam, são ótimas. O serviço foi atacado nas duas bocas dos cortes, além das janelas feitas na parte mais alta para desbastá-los da terra. Infelizmente neste primeiro corte houve um acidente motivado por uma mina encravada. O trabalhador, porém, não morreu, ficou maneta. Penalizei-me muito. Dei-lhe o lugar de vigia do nosso pequeno almoxarifado. Esta rampa forte é a do Monte Seco. A linha desenvolve-se na encosta da esquerda para transpor a Garganta do Guasti. É um corte contínuo na rocha dura. Como vê, o serviço está todo sendo executado e está bem adiantado. É um traçado que não se recomenda, reconheço. A linha podia ter outras condições técnicas mais favoráveis se na garganta se construísse um túnel. Aqui, porém, anote bem o que lhe vou dizer: não se admite que se fale ou que se cogite em projetar um túnel. O desenvolvimento, os aclives e declives limites e o raio mínimo ensejam ao engenheiro a possibilidade de suprimir túneis e muros-de-arrimo. O corte da garganta já está bem adiantado. Caminha-se, para a sua abertura, nas duas bocas. Examine o que está feito no perfil do progresso. Ei-lo.</p>
<p>E outros esclarecimentos eram-nos ministrados com minúcias admiráveis de precisão sobre a pedra solta, sobre a rocha em decomposição, sobre a natureza do gnaisse, sobre o moledo, sobre os matacães encontrados nas bocas dos cortes e em suas cristas. Estávamos empolgado pela exposição que ia fazendo o chefe de seção e tínhamos receio de não podermos adquirir um amor tão elevado pela profissão e um cumprimento de dever sublimado a tamanha perfeição. Assaltaram-nos essas reflexões quando tomávamos um café pequeno junto à prancheta em que estavam rolos de plantas, de projetos de toda natureza, de perfis e cadernetas convenientemente arrumados. Depois de pequena pausa e de acesos os cigarros, prosseguiu a exposição do distinto engenheiro, a quem já passamos a render o preito de nossa admiração e respeito.</p>
<p>— Examine o perfil além da Garganta do Guasti. Aí está o grade em contra-rampa. O material dos cortes não é tão sólido. Há mais pedras soltas, mais moledo, menos rocha compacta e o serviço está quase terminado. Este rio é o Piraqueaçu. O pegão de alvenaria da margem direita está concluído e o outro acabar-se-á dentro de um mês, aliás quero ultimar todo o trabalho no prazo de mês e meio, no máximo, pois a diretoria deseja que se inaugure a estação em dezembro, e para isto é necessário que se vá assentando os trilhos, à medida que se constrói o leito como estou fazendo. Todavia o assentamento da linha, o seu lastramento e a montagem da ponte do Piraqueaçu podem ser executados por outro engenheiro. Tenho pressa em retirar-me para dar início à construção de novo trecho. O Duque Estrada e o Emílio Cunha ainda demorarão em finalizar os serviços de suas secções. O Versiani, o seu chefe da exploração a partir de Natividade, está findando a locação de uma variante no trecho do Duque Estrada. O senhor teve sorte, ele é ótimo companheiro e colega muito distinto.</p>
<p>Ia-se acender o lampião belga do escritório, quando se anunciou que o jantar estava pronto. E o chefe, muito gentil, culpando-se, procura justificar-se:</p>
<p>— Muito o caceteei mas penso que o senhor apreendeu o método de nossos trabalhos de construção e estou certo de que isto só lhe trará benefícios. Vamos preparar-nos para o jantar. Está na hora e as donas-de-casa não gostam que se retarde.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Na mesa, o casal com simplicidade encantadora serve-nos de modo cativante, deixando-nos, entretanto, ampla liberdade na escolha dos pratos de nossa preferência.</p>
<p>A conversa avigora-se, pouco a pouco, e o chefe empenha-se em colori-la e amenizá-la. Fala sobre o Dr. Schnoor, que já havia deixado a Companhia e fora substituído pelo engenheiro Fernando Esquerdo. Elogia-o. — É um grande profissional, é um mestre na engenharia ferroviária e é um notável dirigente. É claro, sensível e emotivo. Deixou-nos instruções técnicas sobre a condução do serviço e o exemplo de um trabalhador incansável. Em atividade ninguém rivaliza com ele. Há passagens que, dificilmente, serão esquecidas. De uma feita necessitava, com urgência, do reconhecimento de uma garganta e determinou a um auxiliar de pouca experiência que o fizesse. Deu-lhe minuciosas explicações e indicou-lhe os aparelhos portáteis precisos. O moço com dois trabalhadores andou o dia inteiro na mata cerrada, atingiu, por fim, o divisor de águas, o selado dos morros, e assinalou cotas, e rascunhou esboços, e durante a noite resumiu, em caligrafia impecável, as observações realizadas e julgou, assim haver dado cabal desempenho às ordens do eminente chefe que tanto o havia distinguido. No dia imediato, cedo, vai ancho ao escritório onde já encontra o Dr. Schnoor, em mangas de camisa, na labuta cotidiana, às voltas com plantas e projetos e que, de supetão, lhe dirige uma torrente de perguntas, depois de haver examinado os esboços e lido o pequeno relatório. O rapaz responde o que sabe e como pode, perturba-se, atrapalha-se, desorienta-se, perde, por fim, a tramontana e emudece. E o Dr. Schnoor exaspera-se, enerva-se, exalta-se e repete as perguntas, e torna a repeti-las, quer esclarecimentos completos, quer a descrição exata do terreno, das vertentes, das contravertentes, da garganta, e o auxiliar, coitado, nada responde, conserva-se mudo&#8230; E o Dr. Schnoor, alterado, pede explicações, exige que ele fale, que esclareça, que informe, que elucide e o auxiliar escarmentado, abatido e infeliz, nada responde, zumbriu-se de todo e, apático, conserva-se mudo. Nesse transe avizinha-se o pagador, o Jorge, e afoitamente exclama: &#8220;Dr. Schnoor, mande este homem recolher-se à sua insignificância&#8221;, e o Dr. Schnoor, de repente: &#8220;recolha-se! recolha-se à sua insignificância!&#8221; Meia hora depois o ajudante revoltava-se contra o Jorge por haver sugerido ao chefe a frase deselegante com que o expulsara de sua presença, &#8220;Mas você está zangado comigo? Se não fora a minha providencial intervenção você ainda estaria naquela sabatina que sublimava a sua ignorância. Deixe-se disso: procedi como seu amigo e vou tentar ainda consertar a má situação em que você ficou&#8221;. Durante o almoço veio ao debate o incidente desagradável, na opinião do Jorge, e o Dr. Schnoor cientificou-se da contrariedade do subalterno. Mandou chamá-lo. Calmamente palestrou com ele sobre o reconhecimento que se tornou famoso. Abraçou-o. E o auxiliar aquilatou o bom coração do chefe e a amizade do pagador.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Levantamo-nos da mesa e enquanto o chefe foi atender o encarregado da tropa que vinha receber ordens de serviço para o dia seguinte, um dos auxiliares da secção dirige-nos a palavra para enaltecer o pagador da Companhia.</p>
<p>— O senhor, um dia, há de conhecê-lo. E será seu amigo. Todos o são. É prestimoso, cavalheiro, leal e inteligente. É delicado, em extremo, e por isso conquista a estima de todos — dos trabalhadores aos chefes. Vou narrar-lhe um fato que se passou entre ele e o Dr. Schnoor e só ele era capaz de tamanha ousadia tratando com um superior de tão alta respeitabilidade. O Dr. Schnoor foi assaltado por dores reumáticas e o médico receitou-lhe e, também, recomendou-lhe uso de massagens. O Jorge, sempre obsequiador, prontificou-se a fazê-las e quando, com a melhor boa vontade, assistia o Dr. Schnoor, gabava-lhe a musculatura, pilheriava, e, à medida que passavam os dias, peteava, patarateava de seus feitos, tomava liberdades, potocava sem constrangimento e contava patranhas assombrosas. O chefe acobilhava-o, indulgentemente, porque isso lhe desopilava o fígado e ria-se bem-humorado. E certa vez, quando Jorge lhe comprimia os músculos, ciciava:</p>
<p>&#8220;Quando pretende aumentar meu ordenado?&#8221; &#8220;Que diz você? Não entendo. Fale alto&#8221;. E ele continuava a ciciar. &#8220;Por que não fala alto?&#8221; &#8220;E posso fazê-lo?&#8221; &#8220;Por que não?&#8221;</p>
<p>&#8220;Então não se aborreça&#8221;.</p>
<p>E com todo cuidado prosseguiu na massagem e, ritmicamente, articulava de modo bem audível:</p>
<p>&#8220;Quando vai aumentar meu ordenado? Quando vem o aumento? Por que não quer aumentar?</p>
<p>&#8220;O que, Jorge?&#8221;</p>
<p>&#8220;Quando vai aumentar meu ordenado? Quando vem o aumento? Por que não quer aumentar?&#8221;</p>
<p>&#8220;Jorge, tome juízo. Você já tem idade para tê-lo&#8221;.</p>
<p>Mas a reclamação foi deferida. E naquele mês, ele figurou na folha de pagamento com maior salário.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
O chefe chegou a tempo de ouvir o diálogo rememorado pelo auxiliar, e a decisão humana adotada pelo primeiro engenheiro, que agraciou o pagador prestadio, e passou a julgá-lo por homem capaz.</p>
<p>— O Dr. Schnoor é considerado na classe como notável profissional. A Companhia fez magnífica escolha quando o convidou para chefiar os seus serviços, porque, não há dúvida, ele é de inteligência cintilante, de capacidade de trabalho invejável e bom administrador. Às vezes é impulsivo mas, sem tardança, a reflexão irrompe em seu espírito e é, nessas ocasiões, que mais brilham os seus excelsos predicados morais. O seu tino administrativo freqüentemente surpreende. Haja vista ao exemplo que ele proporcionou com a questão da jaqueira de Cariacica, que assim se pode condensar: A Companhia desejava inaugurar o primeiro trecho da estrada com a extensão de vinte e nove quilômetros a partir de Porto Velho. O Dr. Schnoor, com firmeza, atacou a construção e garantiu que em maio do ano passado seriam entregues ao tráfego a estação provisória de Porto Velho, e as de Cariacica e Alfredo Maia. Aconteceu, porém, que a tangente, em que se ia localizar a estação, passava por um terreno onde uma velha jaqueira ostentando louçanias de nova, seria derribada. O proprietário, como era natural, pretendeu obter indenização da faixa de terreno, que fosse ocupada pela estrada, e da fruteira centenária. Surgiu a pendência, que foi levada a juízo. A Companhia, o proprietário e o presidente do Estado empenharam-se por uma sentença judicial breve, para não ser adiada a inauguração das estações. O veredicto do juiz não tardou e todos ficaram harmonizados. O episódio, porém, despertou a atenção do primeiro engenheiro, que cogitou de engendrar uma providência para ressarcir o montante da indenização. Não hesitou, não titubeou. Mandou estudar uma variante. E organizaram-se plantas e novos projetos. Orçou-se a obra. Comparou-se o novo custo com o do trabalho que já se estava executando e ele concluiu, por essas diligências, que se devia abandonar o serviço, já feito, porque o novo orçamento era bem menor do que o primitivo. O traçado da variante foi aprovado e a Companhia compensada, ainda auferiu lucro na execução do novo projeto. A jaqueira foi respeitada, mas mudou de dono. Assim se revelavam o preparo do engenheiro e a clarividência do administrador. Foi pena ter-se retirado da Companhia. Felizmente teve como substituto o Dr. Fernando Esquerdo, colega moço, de grande talento. Considero-o como meu amigo íntimo, por isso, suspeitas são minhas informações sobre ele.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Às sete horas trouxeram-nos muares arreados e com o Dr. Bosísio partimos para visitar os trabalhos em execução. Ele tudo nos explicava com minúcias cuidadosas.</p>
<p>— Aqui está a ponte do Taquaruçu. A obra é sólida e bem acabada. As pedras em suas partes externas são apenas apicoadas e não cinzeladas. Não há obras de luxo, não se lavra com o escopro. Não tenho grande confiança neste trecho. Receio que nas grandes precipitações pluviais a várzea se inunde e que o aterro fique submerso embora por pouco tempo. O grade, porém, está acima da máxima enchente, mas esta região é sujeita às mangas-d&#8217;água e não se pode assegurar que um dia a linha não fique imersa. Eis um dos cortes sobre o qual lhe chamei a atenção quando examinamos o perfil. Repare a parte que é rocha aberta em caixão. O gabarito é bem escasso. Olhe para cima as rampas, no material menos denso, não são alisadas. Preocupou-me a diminuição do custo da abertura do corte. Observe daqui as valetas de proteção como são simples e com a secção, apenas, suficiente para dar escoamento às águas. Pode haver surpresas, mas cumpro as instruções recebidas. Não há gastos supérfluos.</p>
<p>E assim ia o chefe de secção descrevendo o serviço executado, ressaltando as dificuldades vencidas e salientando suas apreensões, deixando transparecer críticas discretíssimas, que nem sequer eram formuladas. E nossas montarias com passos alentecidos percorriam a vereda que colubrejava pela encosta escabrosa inçada de pedregulho.</p>
<p>E o chefe discreteava ainda.</p>
<p>— Podíamos ter vindo pela estrada dos colonos que percorre o vale por onde serpeia o córrego, mas preferi trazê-lo por este trilho escorregadio, cheio de tropeços e perigos para que ajuíze da diminuta quantia destinada ao que se denomina caminho de serviço. Além disso há outra razão que reputo mais importante. Passando por aqui o senhor aprecia melhor o corte contínuo na escarpa, e como a pedra extraída é projetada na quebrada. Assim não há transporte, o que barateia o preparo do leito que já está, quase, em condições de receber os trilhos.</p>
<p>E sempre discorrendo sobre a construção ele parou e apeou. Imitamo-lo.</p>
<p>— Não o convido para dessedentar-se neste pequenino açude porque, decerto, não está com sede. A manhã está fresca e agradável. Faz mais de uma hora que viajamos e ainda não apareceram, não transudaram as bagas de suor do calor. Mas assunte para o filete de água que se desprende, de cima, resvalando sobre a pedra lisa, e da represa, para baixo, como cascateia parecendo entoar hinos ao Criador e à nossa Terra, e, lá, no fundo, está a colônia do Guasti, do homem que deu o nome à garganta. A montanha, em cuja vertente estamos, apelidaram-na de Monte Seco. O quembembe, ali, onde estão aquelas barracas cobertas de zinco, apresenta uma lombada de declive suave. No lugar delas serão construídas as casas da turma da via permanente. A água está próxima e pode ser transportada para junto das casas, provisoriamente, em calhas de madeira. O clima é magnífico, e o terreno elevado e enxuto resguardará de moléstias os trabalhadores. Montemos os nossos machos e prossigamos a trilha visitando o corte da garganta, a ponte sobre o Rio Piraqueaçu e a estação, obras quase concluídas.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Acercávamo-nos do local de nosso primeiro objetivo quando escutamos o aviso: &#8220;fogo!&#8221;</p>
<p>— Paremos — disse-nos o chefe. — Aqui não seremos alcançados pelos estilhaços de pedra e teremos ocasião de verificar, depois, se o desmonte foi proveitoso. Duas turmas trabalham ali — uma em cada boca. Vai ser um bombardeio grande.</p>
<p>Novamente ouvimos o anúncio: &#8220;fogo!&#8221; Os trabalhadores dispersavam-se correndo. Alguns vinham para o nosso lado. E mais uma vez: fogo! Fogo! Arde!&#8230; arde!&#8230; arde!&#8230;&#8221;</p>
<p>E, agora, a sucessão de estampidos: um, dois&#8230; três, quatro, cinco, seis&#8230; até vinte e nove, contamos. Acabou! cheguem! E o chefe, dirigindo-se a um dos feitores:</p>
<p>— Vinte e nove tiros.</p>
<p>— Não senhor, seu doutor. Foram trinta. — Mas contei vinte e nove.</p>
<p>— Foram trinta, seu doutor. Dois saíram juntos. Tenho certeza, sim senhor.</p>
<p>E o outro feitor acudiu em seu auxílio confirmando:</p>
<p>— Foram trinta. Ele está certo. Dois saíram juntos.</p>
<p>— Está bem, mas vejam se há mina encravada.</p>
<p>— Não há não senhor. Todas explodiram.</p>
<p>— Atenção! Não quero acidentes.</p>
<p>— Não haverá acidentes, não senhor. A dinamite, a espoleta e o pavio são de boa qualidade. Todas explodiram.</p>
<p>Naquele tempo não era, ainda, corrente o uso de detonadora elétrica nem de perfuradora mecânica. Os cavoucos eram feitos pelos cavouqueiros e marreteiros com brocas e marretas.</p>
<p>O chefe convida-nos. Vamos examinar o material extraído. O corte, quer de um lado, quer do outro, estava atulhado de pedras e ele observa:</p>
<p>— O serviço foi bem executado. O transporte é que vai ser penoso, como acontece com todo carrego e descarrego dessa natureza.</p>
<p>Antes de se despedir ele manifesta ao pessoal satisfação, elogia-o, anima-o e aos feitores pergunta:</p>
<p>— Estará terminado este serviço até o fim do mês?</p>
<p>—Vamos fazer força para acabar.</p>
<p>— E o seu doutor nos leva para o serviço novo? É no Rio Doce, não é seu doutor?</p>
<p>— É possível que seja. Se quiserem eu os levarei para onde for, se concluírem a abertura deste corte até o dia trinta e um.</p>
<p>— Então é quase certo que iremos, porque vamos fazer força para vencer esta pedra dura.</p>
<p>Despedimo-nos daqueles diligentes anônimos e em caminho o chefe os enaltece.</p>
<p>— São dois feitores ótimos que conseguiram ajustar essas duas turmas de cavouqueiros e marreteiros ao serviço rude de preparo do leito da estrada em rocha densa. Admiro-os e comigo, felizmente, trabalham de boa vontade. Não deixarei de lhes dar outros serviços.</p>
<p>Marchavam, então, os nossos burros com regularidade e de quando em quando o chefe refreava o seu mulo para considerar o trabalho acabado e minuciava:</p>
<p>— Estes cortes, conforme lhe chamei a atenção quando lhe mostrei os perfis, foram abertos sem muita demora, porque o material a escavar-se era maneiro. A piçarra desagregava-se da massa com a picareta e foi relativamente pequena a extensão das rochas brocadas. Os volumes dos cortes compensaram com os dos aterros. O custo das valetas de contorno e das pequenas obras de arte foi moderado. Tudo neste trecho correu bem.</p>
<p>Distraíamo-nos com os esclarecimentos do chefe e não percebemos a aproximação da ponte senão quando ele nos advertiu do término da viagem com voz disfarçada de comando:</p>
<p>— Descavalguemos.</p>
<p>E sem perda de tempo foi dizendo:</p>
<p>— Veja aquele pegão: deu-me muita canseira na fundação, por isso ainda não se terminou; este edifiquei-o depressa e em base firme, com pouca escavação. A pedra empregada é boa e de pequeno transporte. A areia foi tirada do fundo do rio e é excelente. Apressemo-nos porque são dez horas; senão almoçaremos muito tarde. Vamos à estação. deixemos aqui os animais.</p>
<p>Lá chegados, fez ele sucinta exposição da edificação do modesto prédio e apontou o sítio em que seriam localizadas as oficinas. Regressamos à ponte onde haviam ficado os mus e montados neles percorremos, novamente, o leito da estrada até à Garganta do Guasti. Daí para Lauro Müller preferimos, ao incômodo caminho de serviço, a estrada de tropa ou das colônias. De espaço a espaço deparavam-se-nos casas caiadas de branco abrigadas das intempéries por tabuinhas toscas arrumadas convenientemente. Todas obedeciam a um mesmo tipo. Eram moradias de famílias italianas. Muito aprazíveis, naquela hora, banhadas de luz intensa enquanto que, pela manhã, estiveram rebuçadas de névoa espessa. Crianças alouradas acercavam-se da estrada correndo e pulando satisfeitas, alegres, radiando felicidade. O ar era calmo sem o menor farfalho de folhas. Rolas e juritis arrolando e o regato cachoando, somente, quebravam a quietude. Era quase meio-dia e a natureza, ferida pelas vibrações na atmosfera morria, parecia arquejar. Os nossos machos cobriam-se de espumas de suor mas não enfrouxeciam, não esmoreciam, aceleravam, ao invés, a marcha para, por certo, se livrarem da carga.</p>
<p>Os nossos grandes chapelões de palha não nos proporcionavam refrigério e sentíamo-nos afogueados, fatigados, exaustos. O chefe gordanchudo afigurou-se-nos muito alterado com o sangue a rosar-lhe o rosto másculo e suarento. Não perdeu, porém, a ocasião para salientar a oiriçada vida do engenheiro e pendido na sela, para nos ter em seu campo de visão, proclamou que, apesar de sua aspereza, de seus percalços, ele não deixaria de predicar a nobreza da profissão.</p>
<p>— O engenheiro brasileiro de estradas é um desbravador, é um invasor de selvas, é um patriota e é um anônimo. Para ele não há agradecimentos, nem clangores para propalarem suas obras meritórias. Ele dá-se pouco desses justos estímulos, basta-se a si próprio porque tem a alma retemperada, dia a dia, na forja sagrada do cumprimento de seus deveres. Aqui vai encontrar um grêmio de colegas que se sacrificam e o senhor já está recrutado para esse grupo que orgulhoso vive assim como nós agora, com sobranceria e cônscios da ação civilizadora que estamos realizando. Quando se inaugura um trecho de estrada abrilhantam a solenidade os altos representantes das autoridades. Os bonitos discursos enfileiram-se. Um, embevecido, atenta à locomotiva e explode a bela frase, já por demais surrada, aqui está: &#8220;a alavanca do progresso&#8221;; outro compara a secção entregue ao tráfego com as estradas romanas que serpenteavam os caudais de suas conquistas; e, ainda, há o sonhador de olhar perdido, que pensa lobrigar, na direção do prosseguimento do leito, as matas e os campos, as montanhas e as planícies, as minas e os cascalhos que ocultam as gemas ambicionadas.</p>
<p>Já se avistam casas de Lauro Müller. Fronteamos com a estação. Doze horas e meia marcam os nossos relógios.</p>
<p>— Enfim chegamos — diz-nos o respeitável chefe. — Apeemo-nos. Um banho restaurar-nos-á do cansaço e o almoço, em breve, há de nos restituir a boa disposição para algum outro serviço.</p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td></td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p></p>
<div>
<br />
<span style="font-size: 12.8px;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p></blockquote>
<p></div>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_83/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM II</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_83/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM I</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_56/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_56/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas, começo do século XX. A Estrada de Ferro Vitória a Minas _______________________________________ Remontam aos primórdios do regime republicano as origens da Estrada de Ferro Vitória a Minas. O Governo da nova República, baseado aliás na legislação que herdou do Império, concedeu privilégios a várias empresas particulares para [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_56/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM I</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<table align="center" cellpadding="0" cellspacing="0" class="tr-caption-container" style="margin-left: auto; margin-right: auto; text-align: center;">
<tbody>
<tr>
<td style="text-align: center;"><a href="https://4.bp.blogspot.com/-ps90TT7etF8/VsTi2xod9oI/AAAAAAAACrI/gktADAof8Dg/s1600/Constru%25C3%25A7%25C3%25A3o.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: auto; margin-right: auto;"><img loading="lazy" decoding="async" alt="Construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas, começo do século XX." border="0" height="480" src="https://estacaocapixaba.com.br/wp-content/uploads/2015/12/Constru25C325A725C325A3o.jpg" class="wp-image-6594" title="Construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas, começo do século XX." width="640" /></a></td>
</tr>
<tr>
<td class="tr-caption" style="text-align: center;">Construção da Estrada de Ferro Vitória a Minas, começo do século XX.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p></p>
<h4>
<b>A Estrada de Ferro Vitória a Minas</b></h4>
<p>_______________________________________</p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>Remontam aos primórdios do regime republicano as origens da Estrada de Ferro Vitória a Minas. O Governo da nova República, baseado aliás na legislação que herdou do Império, concedeu privilégios a várias empresas particulares para construção e exploração do tráfego ferroviário das estradas por elas construídas, assegurando-lhes ainda a garantia de 6% ouro, até o limite de Cr$ 30.000,00 por quilômetro de linha construída.<br />
Duas dessas concessões referem-se às de Vitória a Peçanha e de Araxá à linha de Itabira-Jatobá, cuja fusão, posteriormente autorizada pelo congresso, permitiu, em 1902, a constituição da empresa que construiu a Estrada de Ferro Vitória a Minas.<br />
De início e por um período de mais de 30 anos, foi a empresa dirigida por dois grandes vultos da engenharia nacional: João Teixeira Soares e Pedro Nolasco Pereira da Cunha, a que serviram até a morte. Foi notável o incremento dado às obras, pois já em 1908 era de 234 quilômetros a extensão da linha em tráfego, atingindo a ponta dos trilhos o quilômetro 313 e os serviços de terraplenagem o km 345.<br />
O limite da garantia de juros, bem como as dificuldades dos meios de construção da época, resultaram rio lançamento de uma linha férrea em precárias condições técnicas, mal que se verificou igualmente em várias outras ferrovias construídas naquele período.<br />
Inicialmente, os interesses econômicos do empreendimento não poderiam ter levado em conta a exportação do minério de ferro, fato novo que começou a ser discutido a partir de 1908, desde quando prendeu a atenção o valor das fabulosas jazidas localizadas justamente na zona de influência da ferrovia em construção.<br />
Marca essa época o início de uma nova orientação para o destino da Estrada&#8230;</p>
<div style="text-align: right;">
Coronel Wolmar Carneiro da Cunha</div>
<div style="text-align: right;">
Superintendente da Estrada de Ferro Vitória a Minas</div>
<div style="text-align: right;">
[<i>Relatório</i> apresentado em setembro de 1954, pp. 1 e 2]</div>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p></p>
<h4>
CAPÍTULO I</h4>
<p></p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>Trocando a capital pela selva. Porto Velho, a estação inicial. O ferroviário perde o trem. Lenda da jaqueira. As esposas dos agentes, pioneiras do comércio. A malária em Alfredo Maia. As moças da estação e a pedra de ltapocu. Timbuí, seu progresso e seus arredores. O Rio ltapirá e as matas do Guaraná. Novamente a febre. Lotes coloniais. Pendanga. Enfim, Lauro Muller: a ponta dos trilhos.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Em certo dia do mês de agosto de 1905 o autor atravessa o salão dos engenheiros praticantes das Oficinas do Engenho de Dentro, quando um colega, o Theophilo, de reconhecida bondade, chama-o:</p>
<p>— Olá! Ceciliano! Abel! Quer você ir para sua terra? A Companhia Vitória a Minas, em carta dirigida ao Subdiretor, ao Dr. Silva Freire, está interessada em contratar alguns engenheiros que queiram trabalhar na exploração, locação e construção da estrada. Nenhum colega quer abandonar a nossa Locomoção. Você, apesar de ser o chefe do Depósito, quer ir? Pode dar a resposta até amanhã. E será que você vai ter a coragem de nos deixar? — Voltaremos já. Por favor, espere-nos um instante. Vamos estar com o Dr. Silva Freire. Mandou chamar-nos.</p>
<p>Minutos depois, inteirando-nos dos termos em que a Companhia fazia o convite, e dando-os, ainda, novos esclarecimentos, não só o Dr. Theophilo, como outro não menos distinto, o Dr. Gil Pinto Guedes, prometemos-lhes dar solução definitiva, para ser levada ao conhecimento do Dr. Silva Freire, no dia imediato.</p>
<p>A deliberação adotada aceitando o convite causou admiração. Deixar o Rio, o convívio dos colegas, a chefia do Depósito de maior importância da Central, para engajar-se com a Vitória a Minas, companhia pobre, com o fito de explorar, locar e construir trechos de uma ferrovia nas matas do Espírito Santo, nas brenhas do Rio Doce — não se encontra, por certo, explicação justificável que acaricie tal resolução — diziam os companheiros de trabalho.</p>
<p>A maior estranheza, porém, foi a do Dr. Silva Freire:</p>
<p>— O Senhor não deve largar a Locomoção, a Central. Foi aqui admitido como engenheiro praticante, sem entrar em folha, gratuitamente. Por princípio de justiça, fui obrigado a propor ao Diretor uma diária para o senhor, tendo em consideração a sua assiduidade, os seus esforços, a sua boa disposição para o trabalho. Consegui autorização para fazer constar o seu nome na folha de limadores e, meses depois, propus ao Diretor sua nomeação interina para chefia do Depósito. Tem o senhor correspondido, inteiramente, à confiança que lhe dispensamos, eu e o Diretor. Não concordo com sua retirada. O senhor vá entender-se com o Dr. Osório. Ele é o Diretor da estrada e foi o seu diretor na Politécnica. Ele que lhe aconselhe e resolva o seu caso.</p>
<p>Apresentamo-nos ao Dr. Osório de Almeida. Recebeu-nos, amavelmente.</p>
<p>$mdash; Já sei, quer deixar-nos. O Dr. Silva Freire comunicou-me, e não concorda que você se afaste da chefia do Depósito. Mas ele não sabe do que se passou entre mim e você.</p>
<p>Prometi-lhe, espontaneamente, dar-lhe um lugar na construção do prolongamento da estrada. Quis mandá-lo para Cordisburgo. Não me foi possível. Houve recomendações do Presidente e do Ministro para colocar engenheiros indicados, amparados por políticos. Os meus candidatos vão ficando à margem. Você deseja reconhecer, explorar, locar e construir. Quer tarimbar enquanto é moço. Faz bem. Vá, menino, para a Vitória a Minas. O Teixeira Soares e o Nolasco são brasileiros ilustres, profissionais distintos, homens empreendedores e incapazes de faltar à palavra empenhada. O Schnoor parece andar por lá e você muito lucrará se ele for seu chefe. Concedo-lhe seis meses de licença. Não se esqueça, entretanto, que enquanto eu for Diretor desta estrada haverá nela ocupação para você; seja feliz. Se não se der bem volte que será recebido com alegria.</p>
<p>Livramo-nos assim dos compromissos que tínhamos com a alta administração da Central.</p>
<p>Saudoso e agradecido apartamo-nos dos chefes amigos e respeitáveis e dos colegas leais e estimados, e a 15 de agosto embarcávamos em um paquete do Lóide Brasileiro, que rumava para os portos do Norte tocando em Vitória. Hospedamo-nos com a esposa e um filho de dois meses no Hotel de Europa.</p>
<p>Estávamos em nossa terra espírito-santense. Realizamos um so: nho, uma aspiração.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
No escritório da Companhia, em Porto Velho, recebemos instruções do primeiro engenheiro Fernando Esquerdo. Devíamos seguir para o Rio Doce, e em Mascarenhas esperar o chefe da exploração, engenheiro Pedro José Versiani. Seríamos o ajudante da turma substituindo-o em seus eventuais impedimentos. Perceberíamos seiscentos mil-réis (600$000), mensais sem direito a diárias. A cavalgadura arreada como as despesas do rancho correriam por nossa conta.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Munido de passe para a estação de Lauro Müller, onde se achava a ponta dos trilhos, e de carta de apresentação para o engenheiro Pedro Bosísio, que aí mantinha o seu escritório de chefe de uma seção da construção, devíamos partir com destino ao Rio Doce, mas perdemos o trem, o que muito nos desapontou. Consideramos ridícula e infeliz a nossa estréia na estrada. Não fomos bastante previdente. Não contamos com a maré de vazante e com a distância do cais, fronteiro ao Hotel de Europa, a Porto Velho. Quando o catraieiro dobrou a Ilha do Príncipe, com remadas rápidas e vigorosas, o sino da estação provisória deu a partida do comboio, a locomotiva um longo apito e começou a arfar em ritmo que se foi mais e mais acelerando para vencer, com menor dificuldade, a rampa de Itacibá.</p>
<p>Prosseguimos, entretanto, até à estação donde comunicamos o ocorrido ao primeiro engenheiro.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Eis-nos apreciando na linda manhã de 19 de agosto, repetenado num banco de um carro de passageiros de construção belga, a sucessão dos panoramas, cada qual mais empolgante, dos sítios de Itacibá, Itanguá, do Quilômetro Dez, do Bubu&#8230; Ocasiões há em que, suavemente, reboca a locomotiva a composição. Isso acontece nos trechos de nível. Ela, porém, fraqueja para vencer as rampas, expele o cilindro, ruidosamente, o vapor superaquecido. As rodas quase resvalam, descendo. Os trilhos estão orvalhados. O maquinista evita a patinação fazendo funcionar o aparelho distribuidor de areia, o que consegue, com grande perícia, e alcança o patamar. Agora a velocidade vai aumentando e ele, repetidamente, pede que manobrem os freios. Está no início do declive. Acelera-se, ainda, a marcha. O retinir das correntes, dos engates e das ferragens, o ranger dos frisos das rodas de encontro aos trilhos, dos freios-de-mão acionados pelos manobreiros e das sapatas apertadas multiplicando o atrito e, mais, o badalar, em descompasso, do sino da locomotiva, todo esse conjunto de ruídos de choques e de estrondos produz intensa agitação, e um barulho ensurdecedor e pavoroso. Nessa disparada louca e reboante serpenteia o trem, no quilômetro onze, o lado esquerdo de um grotão, e a cavaleiro deste, à direita, um bosque verde-escuro alarga-se, encosta acima, protegendo com o seu sombreado de rede de malhas curvas magnífica lavoura do afamado café Capitania.</p>
<p>No fundo do vale, já perto da planície, avista-se uma poça, e na beirada piaçocas esguias, esvoaçam umas e fogem outras para o emaranhado da vegetação rasteira que a circunda. Coleiros, rolas. saís e outras aves espantam-se, safam-se à medida que ouvem o fragor, o estrépito que se propaga em rebôos crescentes.</p>
<p>Da banda do Oeste ergue-se majestoso o Monte Mochuá. Distinguem-se do quilômetro doze ao dezessete vestígios das fazendas aí existentes e prósperas no século XIX.</p>
<p>Um apito curto da máquina saúda os habitantes dos casebres de uma turma de conserva da linha. O de melhor aparência é residência do feitor. No portal está presa uma gaiola, tosca, e nela um canário-da-terra. Possivelmente seria o talismã, o amuleto, daquele grupo de trabalhadores. Todos se interessariam pelo passarinho canoro.</p>
<p>Veloz transpõe o comboio o pontilhão sobre o ribeirão Bubu ou de Duas Bocas, cujas águas serão utilizadas quatro anos mais tarde, para o abastecimento de Vitória.</p>
<p>Atinge-se o princípio de um aclive. A composição segue a encosta de uma ravina e percebem-se, na vertente oposta, cortes iniciados e pequenos trechos da estrada inaproveitados.</p>
<p>A linha, primitivamente locada, passava naquela quebrada e a reta, em que ia ser edificada a estação, obrigava a derribar uma velha jaqueira, a que se opôs o seu proprietário. Para evitar constrangimentos preferiu o Dr. Schnoor abandonar os serviços que estavam sendo executados, empreender novos estudos e solucionar a construção da estação sem tocar na bela morácea de sombra abrigadora.</p>
<p>Esse fato, na ocasião, foi largamente comentado. Cada qual opinou, deu a sua interpretação, emitiu o seu juízo.</p>
<p>Criou-se, depois, a lenda assim resumida: &#8220;O Dr. Pedro Nolasco tanto amor tinha às árvores que mudou o traçado da estrada, em Cariacica, para não lançar por terra uma jaqueira.&#8221;</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
A plataforma da estação regurgitava de povo. Havia gente que, habitualmente, dava o seu passeio matinal até ali, pessoas que regressavam de Vitória, outras que iam para o interior e as que estavam em trânsito.</p>
<p>Os carros esvaziaram-se. Os passageiros apressam-se em tomar café com biscoitos ou sonhos fabricados pela esposa do agente. Alguns preferem pacovas cozidas.</p>
<p>Retiram-se volumes dos vagões e faz-se a respectiva conferência. Carregam-se bagagens. Terminada essa lufa-lufa, o agente exclama: — &#8220;O trem vai partir. Está na hora. Embarquem!&#8221; — E repete e torna a repetir esse aviso, e perscruta, e esquadrinha se alguém ainda rodeia a bandeja de café; depois, entrega a licença ao maquinista e caminha para o ponto em que está o sino, apitando. Ouve-se, então, forte badalada, seguida do silvo da máquina que parte e, nesse momento, passageiros retardatários aparecem e precipitam-se para os carros. E, por fim, o condutor, com um salto elegante e arriscado, atira-se sobre o soalho, numa das extremidades de um vagão de primeira classe.</p>
<p>A locomotiva, a princípio, avança com movimento de velocidade moderada, que se vai acelerando para vencer a rampa de percentagem limite que está adiante.</p>
<p>Em quase todas as estações notamos naquela inesquecível manhã, não só o método nos serviços do tráfego, nos quais se destacavam ordem, disciplina e dedicação do pessoal, como o louvável auxílio que as senhoras dos agentes davam aos seus maridos com o pequeno comércio de comestíveis rústicos muito apreciados pelos viajantes.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
E a locomotiva, cujo poder de aderência, nos aclives, não vai além de cem toneladas, desloca-se arfando, com dificuldade, para chegar ao quilômetro vinte, onde cai no Vale do Crubixá, afluente do Rio Santa Maria. Ao patamar segue a contra-rampa para se chegar, novamente, a um trecho em nível, sucedendo-lhe mais um aclive, a este um plano horizontal, seguido de outro em declive e, nessas sucessões infindáveis, bem se revela um traçado através de vales secundários, atravessando alguns rios e transpondo uma série de gargantas.</p>
<p>Após uma hora de viagem anuncia o condutor: &#8220;Alfredo Maia&#8221;. Fica situada a estação no quilômetro trinta na margem direita do Rio Santa Maria. Na oposta, sobre uma colina, lobriga-se a igreja de São José do Queimado, levantada no meado do século passado pelo Frade Gregório José Maria Bene. A construção desse templo, que não foi, de todo, concluída, tem fama histórica porque se prende à revolta dos escravos chamada &#8220;Insurreição do Queimado&#8221;.</p>
<p>Há passageiros que não prosseguem a viagem. Dirigem-se para Santa Leopoldina. Camaradas esperam-nos com animais aparelhados.</p>
<p>Anos depois, quando se inaugurar a rodovia de Vitória-Santa Leopoldina-Santa Teresa-Colatina, perderá Alfredo Maia a afluência de viajantes, e Cachoeiro de Santa Leopoldina deixará de ser o célebre empório comercial do tempo de Graça Aranha. Desaparecerá um dos portos fluviais mais afamados do Espírito Santo — e quiçá do Brasil.</p>
<p>Não saltamos em Alfredo Maia. Atento olhávamos para a paisagem. O Santa Maria corria suave, sem borbulhas. Antes parecia um lago exalando frescura que se evolava em derredor. No campo, rio abaixo, reses pastavam, e bezerros pulavam de caudas levantadas. Já havia desencurralado o gado o único negociante morador naquela paragem, e a liberdade provocava a agitação das crias.</p>
<p>Dois indivíduos ocupavam o banco posterior ao nosso e palestravam, animadamente. De supetão um diz:</p>
<p>— O amarelo lá vai fazer a chave. Está cada vez pior. Já virou lobisomem.</p>
<p>E o outro acrescenta:</p>
<p>— Se a administração da estrada não o retirar daqui, breve ele seguirá, de pés juntos, o caminho do seu antecessor que o Doutor Duquinha não pôde dar jeito. A tremedeira destes brejos mata de verdade.</p>
<p>Despertamos de nosso enlevo e observamos o pobre guarda, o agente, sua esposa, que vendia café, e uma criancinha de meses. Todos pálidos e com os conhecidos sintomas da malária. Próximo à janela do banco que ocupávamos, estava, na plataforma, o condutor, e o agente rapidamente lhe pede: — &#8220;Sr. Catarino, por favor, diga ao chefe do tráfego, Dr. Carpenter, que me dê substituto e mande-me para outra estação. Veja minha filhinha, coitadinha! Acabará morrendo. Esperava hoje o Dr. Duquinha. Durante a noite todos tivemos o maldito acesso. Não sei que será de nós. Fale ao Dr. Carpenter sobre a minha triste situação. Já lhe escrevi. Hoje vou reiterar-lhe o meu pedido. O senhor também é chefe de família. Ajude-me, por favor, a sair daqui&#8221;.</p>
<p>Ficamos apavorado com o que testemunhamos e escutamos. Os nossos pensamentos, em revoada, atropelaram-se. Vimo-nos cercado pelos colegas das Oficinas de Engenho de Dentro que, afetuosamente, procuraram demover-nos da insensatez de deixarmos a burocracia do Depósito para aventurar nas florestas e nos pântanos do traçado da Vitória a Minas. Recordamos a tenaz oposição de nosso chefe, Dr. Silva Freire, à nossa resolução adotada — sem amadurecimento — dizia ele. Ouvíamos, ainda, as palavras amigas de Dr. Osório de Almeida — &#8220;se não se der bem volte&#8230;&#8221; — Mas retroceder, no início da jornada, acabrunhava-nos, feria o nosso amor-próprio. Não devíamos regressar e, sim, ir para frente, persistir, realizar o nosso ideal. Era uma aventura mas devíamos caminhar ao encontro dela. E para quê? Para perder a nossa saúde, e a da esposa e a do filho? Assistia-nos o direito de fazê-lo? Justificar-se-ia o nosso proceder? Não havia dúvida, tínhamos sido imprudente, temerário.</p>
<p>Nessa altura de nossas tão íntimas inquietações a máquina, já com o tênder abastecido, recua até à plataforma e engata a composição.</p>
<p>Que Deus nos proteja. Nele confiamos. Foi, em tal emergência, o derradeiro pensamento, a nossa irrevogável decisão.</p>
<p>Retomam os passageiros aos seus lugares nos carros. Soam os trinos agudos do apito, as vibrações do sino e o silvar da locomotiva e, depois, partiu o comboio serpeando a encosta do rio para, enfim, cruzá-lo sobre uma ponte, abandonando-o.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Imponente ergue-se à direita o Monte Álvaro, o marco principal da navegação marítima, ao sul da foz do Rio Doce. Visitado por Saint-Hilaire e por outros cientistas, olha para o Norte acariciando a cidade da Serra que, ciosamente, guarda muitas das tradições espírito-santenses.</p>
<p>Estende-se a estrada em sucessão de alinhamentos que contornam brejos empanturrados, uns cobertos de juncos, de tábuas, de piripiris que constituem uma intricada moradia de rãs, de cobras, de mosquitos e de insetos de várias espécies, outros ostentando bosques de tabebuias guarnecidas, ornadas de orquídeas belíssimas, visitadas por beija-flores gulosos, insaciáveis, que voejam besoirando. Nesses alagadiços pululam ingazeiras, umbaúbas ou árvores-da-preguiça, araticuns, tucunzeiros, jacareúbas&#8230;</p>
<p>O trem atinge o fim dessa região dos pântanos. Aparecem agora, pelas encostas e pelos araxás, os camarás, que cobrem a faixa do terciário vizinho do oceano, e penetram na decomposição arqueana à medida que se vão devastando, pelas derrubadas e pelas queimas, as matas virgens.</p>
<p>Chega-se ao término do patamar. Inicia-se uma rampa. E passageiros conhecedores do trajeto anunciam: &#8220;Estamos na curva do violão&#8221; e a locomotiva, onomatopaicamente, confessa: &#8220;estou cansada, estou cansada, estou cansada&#8230;&#8221; até que transpõe, vitoriosa, o desfiladeiro e corre para frontear com uma pedra pontuda de nome Itapocu, Itapicu ou Itapecu.</p>
<p>Aí, mais tarde, será construída uma parada que, depois, será a estação de Itapocu, denominação que muito escandalizará um simpático e bondoso cidadão luso, que não hesitou em solicitar, ao superintendente da Vitória a Minas, a mudança do nome, &#8220;porque esse&#8221;, dizia ele, &#8220;envergonhava as moças que lá iam para tomar o comboio&#8221;. É a atual Calogi.</p>
<p>Percorre-se por entre colinas um estirão em que despontam, aqui e além, vivendas de lavradores que mourejam, da aurora ao crepúsculo, em busca da subsistência para a família, que se associa, alegremente, à sua lida. Os mais prósperos mantêm em pequenos campos, crivados de buris ou cocos-de-macaco, reduzidas manchas de bovinos.</p>
<p>Um breve apitar da locomotiva cumprimenta, como de praxe, casas da turma dos trabalhadores, e ela transpõe de relance, a ponte, que liga as margens do Rio Timbuí, e, subindo pela banda direita de uma grota, vai rebocando os carros e aproximando-se do povoado. No vale e na tombada da esquerda viça um pacoval de folhas bem lançadas, longas e lustrosas. Ostentam-se nele cachos escorados, de tamanho não comum, que atestam a fertilidade prodigiosa do solo.</p>
<p>Mais de meia centena de quilômetros foi vencida. O trem parou, na hora, em Timbuí. O horário rigorosamente cumprido não enseja reclamações. A azáfama nessa estação não difere do que já foi explanado nas outras.</p>
<p>No dia imediato fará oito meses que foi inaugurado o tráfego da estrada. A localidade parecia exalar, ainda, a euforia daquela data memorável, em que foi concretizada a velha e justa aspiração daquele núcleo colonial.</p>
<p>Surgem novas edificações no povoado. Estabelecem-se comerciantes esperançados em transações de pingues lucros. A aldeia apática mergulha-se, naquele momento, no progresso. A via férrea modifica os meios de transportes, estimula o desenvolvimento cultural.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
A graciosa povoação, cercada de lavouras, fica entregue ao seu labor cotidiano, enquanto o trem se despede, afastando-se lentamente, da plataforma de passageiros e deixando, à esquerda, o cafezal promissor, ainda não frutífero, entremeado de mururus que lhe darão sombra protetora. Lá embaixo, no vale, cresce o bananal na terra levemente umedecida e pompeia, no charco, o taiobal sequioso.</p>
<p>Serpeia o comboio por terrenos de cultura. Aparecem as roçadas de capoeiras e as derribadas de matas virgens. Depois das queimas e dos amanhos imprescindíveis serão as sementeiras alternadas e os proprietários da gleba bendirão a terra acolhedora que, de mansinho, vai fazendo-os esquecer a pátria distante, em além-mar.</p>
<p>Num trecho de patamar de um e outro lado da linha uma derribada sacrificou jequitibás-linheiros, ipês gigantescos, gonçalos-alves, baraúnas, perobas, jacarandás&#8230;</p>
<p>As folhas das galhadas de uns já estão perdendo o verde por não circular a seiva, murcham, esmaiam-se; de outros se vão enlourecendo; e de muitos se acinzentam. Breve, quando as lamberem as línguas de fogo, as labaredas penetrarão no emaranhado dos gravetos, dominarão a derrubada, comburirão as jaribaras secas, as palhagens esparsas, originando zoada terrificante — misto de sibilos, de estalos, de estrondos, de ruídos indefinidos — e tudo se transformará em cinzas, exceto os troncos seculares, que como tochas estendidas, numa combustão lenta, desprenderão fumo. E dias depois reviverão as chamas, quando a aragem soprar, e aparecerão fagulhas agitadas que,rodopiando, se elevarão velozes. Serão as lágrimas da floresta abatida que, então, manifestam a angústia dos caules em aniquilamento.</p>
<p>Avizinha-se o trem do Rio Fundão. Um longo apito anuncia a parada. Findo o movimento de embarque e desembarque de passageiros, e o de mercadorias, a viagem prossegue.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Acompanha-se a margem direita do Rio Itapirá que corre através de denso matagal. Constitui este &#8220;as matas do Guaraná&#8221;. Observávamos as águas correndo quase sempre em borbotões, as samambaias, as árvores, enfim, cada qual com o seu porte característico, quando, de supetão, vimos um homem defendendo cães atrelados que forcejavam para vir ladrar aos carros, que passavam puxados pela máquina. Não distante estava o caçador com a espingarda a tiracolo, com a buzina curva de metal amarelo, com a patrona sortida circundando-lhe a cintura e com o braço direito estirado sustentando, garbosamente, o fruto de sua caçada — uma paca. De relance avaliamos o prazer venatório daquele homem e recordamos, com saudade, as nossas magníficas excursões ao Rio Cricaré, opulento em caças e peixes.</p>
<p>Havíamos esquecido, naquele momento, as nossas apreensões relativas à possibilidade de contrairmos a febre palustre. Passando através daquela região, tão cheia de belezas naturais, jamais podia ocorrer-nos que naquelas paragens em que foram abarracados os garimpeiros da construção da estrada, o paludismo grassou impressionantemente. Soubemos naquele dia, mesmo, que trabalhadores foram retirados das barracas em estado gravíssimo, outros abandonaram o serviço, fugindo da tremedeira, e muitos perderam a vida. O Itapirá ganhou, enfim, uma triste fama.</p>
<p>Ultrapassada a mata temida pela pestilência, pela malária, é o rio transposto. Sucedem-se os lotes coloniais habitados por italianos, até a locomotiva parar na caixa-d&#8217;água pouco antes da estação de Pendanga.</p>
<p>Passageiros apressados saltam e correm. Vão saborear o café.</p>
<p>Um povoado de igual nome dista da via férrea cerca de um quilômetro.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Com as formalidades regulamentares é concedida a licença ao maquinista que, mais uma vez, retempera toda a habilidade para evitar a patinação na rampa, longa e forte, a ser vingada.</p>
<p>Através de cafezais, vagarosamente, vai o trem. De quando em quando se encostam pessoas às paredes dos cortes, ou retiram-se para as beiradas dos aterros. São colonos italianos ou ítalo-brasileiros. Revelam-se com saúde, corados e sorridentes.</p>
<p>Divisam-se no vale casas cobertas de tabuinhas e animais domésticos que se deslocam garbosos no campo que confina com a cerca de achas de baraúna.</p>
<p>Em nível penetra o comboio um trato de mata cerrada que se prolonga, até quando ele alcança a declividade. Não tardará, porém, que a foice e o machado empreenderão a obra de devastação ensejando à terra a produção de cereais, de mandioca e, principalmente, de café.</p>
<p>No término da floresta a composição avança ligeira contornando um vargedo. Um grupo de trabalhadores — homens, mulheres e crianças — desmaninha a terra tornando-a propícia à plantação de arroz.</p>
<p>Os passageiros de segunda classe cantam, algazarram e os de primeira, irrequietos, pererecam. Notam-se casas de agricultores cuidadosamente edificadas. Nenhuma, porém, coberta com telha e sim com madeira.</p>
<p>Aproxima-se o trem da ponta dos trilhos, da estação de Lauro Milller.</p>
<p>Quando fronteia com a igreja, à esquerda, apita longamente e a chave entra devagar. Na plataforma comprime-se a multidão.</p>
<p>
<span style="font-size: 12.8px;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_56/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; EFVM I</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_56/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; Rio Doce III</title>
		<link>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/</link>
					<comments>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[Estação Capixaba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2015 21:01:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ceciliano Abel de Almeida]]></category>
		<category><![CDATA[EC]]></category>
		<guid isPermaLink="false"></guid>

					<description><![CDATA[<p>Rio Doce ______________________________________ CAPÍTULO III Confronto das florestas. Rio Juparanã-Mirim. Encalhou: o barqueiro. Satisfação a bordo. O homem da carabina. &#8220;Olhe a carniça&#8221;. &#8220;Na cabeça não entra bala&#8221;. Terra Alta. Colônias de caçaremas. Quadro bucólico. Respeitável poeta. Exuberância da floresta. Garças estudam? Gastão Cruls e as perspectivas do Rio Doce. Guaribas. A. Wallace e Humboldt. [&#8230;]</p>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; Rio Doce III</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4>
Rio Doce</h4>
<p>______________________________________</p>
<h4>
CAPÍTULO III</h4>
<p></p>
<div align="center">
<table style="font-size: 80%; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td>Confronto das florestas. Rio Juparanã-Mirim. Encalhou: o barqueiro. Satisfação a bordo. O homem da carabina. &#8220;Olhe a carniça&#8221;. &#8220;Na cabeça não entra bala&#8221;. Terra Alta. Colônias de caçaremas. Quadro bucólico. Respeitável poeta. Exuberância da floresta. Garças estudam? Gastão Cruls e as perspectivas do Rio Doce. Guaribas. A. Wallace e Humboldt. O orgulho do barbado e a arrogância do caracu. Um &#8220;mimo&#8221; das matas. É &#8220;desinfeliz&#8221; na caçada. O condenado da ninhada. Um &#8220;revés&#8221;. A terra adormece. O grito do quero-quero.</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>
Salientou-se que a flora do Rio Doce se modificava engrossando os caules à medida que se afastava do mar para oeste. Nota-se, a partir do Rio São Francisco para o sul, que a mata rivaliza com a do Amazonas e até a excede sob certos <span id="DSRD_RP72V">aspectos.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP72" title="Rocha Pombo, Vol. I, p. 502; Rocha Pombo, Vol. I, p. 50. Por Wappoeus, citação de Rocha Pombo, Vol. I, p. 502."><sup><b>[ 72 ]</b></sup></a></p>
<p>No Rio Doce, cuja bacia em sua parte ocidental chega a abranger uma região proximamente limitada pelos paralelos 18° e 21°, suas florestas se patenteiam com opulência singular .Troncos eretos de espécies várias servem de suportes a epífitos de flores belíssimas.</p>
<p>Não só as do litoral como todas as matas do Brasil são de &#8220;uma riqueza fenomenal&#8221;. São &#8220;comparáveis em vigor e beleza às do Amazonas&#8221;.</p>
<p>Sente-se na Hiléia Amazônica, o cansaço, a insipidez, a monofonia, quando se observa a uniformidade irritante das selvas equatoriais, em planícies ilimitadas em que, segundo Angyone Costa, a paisagem é aquela mesma descrita por tantas penas. Águas escuras, rolantes, massa pesada, amedrontadora, limitada por uma terra coberta de mata, de cor igualmente escura aparada, como se imensa tesoura houvesse podado com um só golpe a floresta. Não há festa de cores, não há policromias, nem efeito de luz criando quadros de beleza. Tudo triste, despertando no homem um vago sentimento de temor diante das forças estranhas da <span id="DSRD_RP73V">natureza.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP73" title="Angyone Costa, 'lndiologia', p. 255."><sup><b>[ 73 ]</b></sup></a></p>
<p>Entretanto, no Rio Doce as matas tumultuárias, desordenadas, na diversidade de seus gêneros, de suas famílias, em que se encontram troncos gigantescos, de portes variados, de copas floridas, erguidos em solo prodigioso de topografia movimentada, revelam contrastes inesperados que agradam, enlevam e dominam.</p>
<p>É o que assunta o excursionista quando, embarcado, parte de Linhares, e segue o álveo do rio, ao arrepio das águas. Então a cada instante, a cada momento, surgem cenários admiráveis: aqui, em pequeno cotovelo da margem do rio, descobre ele o caule esbranquiçado de um jenipapeiro e, bem ao lado, altaneiro, o fuste elegante de um jequitibá e, junto ao barranco, uma, imbaubeira retorcida, em busca de luz, já com raízes descobertas, sem apoio. Breve, mais um bloco de terra se desprenderá e, depois, mais outro. E a cecrópia, a umbaúba, cairá, levando a colônia numerosa das astecas guerreiras e vitoriosas, e deslocar-se-á, rio abaixo, ou se afundará, quando o tronco oco, dividido em diafragmas transversais, estiver invadido pelas águas.</p>
<p>Adiante, oculta por uma cortina verde formada de capins-açus, urtigas, cipós, canas-bravas, está a ribanceira, seguindo-se-lhe a várzea, o altiplano, em que os arbustos e as grandes árvores linheiras são os arrimos dos gravatás, das barbas-de-velho, das três-marias&#8230;</p>
<p>Desviando-se de ilhas pitorescas que mais parecem sedes de encantamentos, pelas belezas que ostentam, do que recentes formações geológicas, revestidas de vegetação deslumbrante, navega a embarcação graças à perícia do mestre que, a cada passo, revela a sua prática em perlustrar aqueles meandros. E, além de atrafegar-se ele com as obrigações de bordo, ainda lhe compete providenciar o abastecimento de combustível para a fornalha. Atraca. A lenha está empilhada no sopé de um araxá em tudo semelhante ao terciário do barranco de Linhares, na vizinhança da foz do Rio Juparanã-Mirim, que deságua no Rio Doce em forma de paralelepípedo retângulo sendo o metro cúbico ou o estere a unidade adotada. Ela é transportada para o convés e arrumada.</p>
<p>Continua o navio a derrota evitando as praias, contornando os baixios. Respeitam-nos os barqueiros. Mas de repente aparece a dificuldade: é o banco de areia. Procura-se evitá-lo e retrocede-se em busca de &#8220;águas fundas&#8221;.</p>
<p>Desculpa-se, justifica-se o mestre, o homem prático, daquela navegação de súbito estorvada. Adverte-lhe, todavia, ressaltando-lhe a imprevidência, sem azedume e quase paternal, o contramestre, compadre e amigo: &#8220;Vancê não arreparou prá riba nas água crespa. Quis avisá mas vancê é o mestre&#8230;&#8221;</p>
<p>Recua o gaiola e cerca de um quarto de quilômetro toma nova direção e, assim, vai ziguezagueando.</p>
<p>Discutem os passageiros o recuo da embarcação. Uns conhecem as águas do rio desde crianças, não podem admitir a imperícia do mestre e arriscam: é possível que esteja doente ou talvez&#8230;. ainda tão cedo, já terá bebido!? Outros exculpam-no com os sequeiros, que, nessa quadra, torturam a navegação e com a luz, pela manhã, que não a favorece.</p>
<p>As opiniões sucedem os receios de ficar o navio retido, durante horas, no travessão. É ali o canal pouco profundo. E ficar no meio do rio, no &#8220;caixa-de-fósforo&#8221; o resto do dia e, possivelmente, toda a noite é uma hipótese aflitiva. Inteiram-se as senhoras dessas apreensões e impacientes, agitadas, vão falar ao mestre, ouvir-lhe esclarecimentos, que lhes são dados desfazendo-lhes os desassossegos:</p>
<p>Quá donas que o rio tá munto seco, tá, que a sequidão é grande, é; mais nóis passa. Os marinheiros são bom; nóis truvemos pá e enxada. Eles trabaiam bem, e nóis passa, cum <span id="DSRD_RP74V">Deus.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP74" title="Gladstone Chaves de Meio, A Língua do Brasil, p. 89. Depois de se referir a Florival Sereine, respiga: 'Assim, não haverá no rigor do termo, um dialeto gaúcho, um dialeto fluminense, paraense etc., mas tão-só alguns fatos isolados peculiares a esta ou àquela região e ausentes em outras.'"><sup><b>[ 74 ]</b></sup></a></p>
<p>De fato com uma rota sinuosa atinge-se o Travessão. A curiosidade é grande, a preocupação ainda maior. Navega o barco no canal caprichoso e raso, tangenciando bancos, evitando baixios, afastando-se de coroas e, apesar de todas as precauções, sente-se um estremeção. Em seguida ouvem-se muitas vozes: &#8220;encalhou!&#8221;</p>
<p>Não há tempo para rebuliço. Na água, de pronto estão aqueles homens acaboclados que antes, descuidosamente, cochilavam. Um, por certo, interpretando o sentir dos outros, dirige-se ao mestre e diz-lhe: não se esqueça de lhes dar a branquinha e atira-se ao trabalho, mergulhado até aos joelhos.</p>
<p>A faina generaliza-se a bordo e dentro do rio. Escora-se o barco do convés com varas de pindaíba, reforçadas, apoiadas em fundo resistente, além das camadas movediças de areia. Pás e enxadas empunhadas por mãos calejadas removem o lodo que a corrente arrasta. Impulsiona o motor as palhetas da roda, e o gaiola lentamente vai deslizando e pára adiante. Novos esforços redobrados empregam os batalhadores e outros avanços são conseguidos. Embora não se queira, tem que se parodiar o famoso autor de Os sertões — o caboclo, o barqueiro do Rio Doce é, antes de tudo, um <span id="DSRD_RP75V">forte.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP75" title="Euclides da Cunha, Os sertões."><sup><b>[ 75 ]</b></sup></a> Esse trabalho de escavar, de arredar detritos estratificados no fundo da água é rude, é árduo, é estafante. Triunfa-se depois de muito batalhar e alcança-se o fim do sequeiro. E, então, avança, livre, em canal franco, o navio que, pouco a pouco, toma a direção paralela à margem esquerda do rio. Que alívio! Espera-se pernoitar em Colatina. Serve-se o almoço. São onze horas. Quatro de viagem a partir de Linhares.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
É completa a satisfação a bordo. Cardápio variado e guisados suculentos. Conversa-se animadamente quando alguém anuncia, atinge-se, agora, o rabo da Ilha das <span id="DSRD_RP76V">Palmas.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP76" title="A Ilha das Palmas é uma das mais notáveis do Rio Doce."><sup><b>[ 76 ]</b></sup></a> E logo após, um viajante aflito, indaga: — &#8220;Minha carabina, onde terei deixado minha carabina? Vou atirar aos jacarés.&#8221;</p>
<p>Abre nas águas a proa da embarcação vasto bigode, o eixo da roda com movimento acelerado impele as palhetas, que produzem no líquido ruído característico. Não mede mais de oitenta metros a distância da ribanceira do rio à ilha. Aquém e além desse intervalo, arvoredos altos, aprumados, gigantescos, vitoriosos em seu heliotropismo, formam, com as lianas, cipós e arbustos, um emaranhamento indevassável, intransponível. Nessa floresta exuberante desenvolvida em solo aluvial, coberto por espessa camada de humo, há um admirável contraste entre o verde de tonalidades múltiplas e as flores das cássias, das trepadeiras, das orquídeas, das bromeliáceas ou das folhas de belíssimos matizes como as das sapucaieiras ou das primaveras.</p>
<p>De repente muda o barco de direção, corta de esguelha a correnteza. Desvia-se da árvore submersa, atravessada de esconso, que constitui perigo para a navegação. Elogia-se a destreza do mestre. E retoma o navio o rumo, costeando o barranco da ilha.</p>
<p>Espanta-se a <span id="DSRD_RP77V">ariramba</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP77" title="Gastão Cruls, A Amazônia que eu vi, 1931."><sup><b>[ 77 ]</b></sup></a> pousada no ramo do arbusto, e com vôo ligeiro, rio acima, desaparece. Ouve-se a gralhada de araras de plumagem vermelha dominante, de mistura com a verde e amarela, de tucanos de papos de ouro, de araçaris, rajados de branco e de esverdeado escuro, de papagaios em que bem se destacam! as cores <span id="DSRD_RP78V">primitivas.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP78" title="Verde, Alaranjado e Roxo, F.T.D., 3.a série colegial, p. 198."><sup><b>[ 78 ]</b></sup></a> Há fruteiras na ilha. Isso explica à aglomeração de tantos pássaros.</p>
<p>Está vigilante o homem da carabina. Observa, nervosamente, as araras, os papagaios, os tucanos, os araçaris, leva a arma ao ombro, mas não encontra alvo. Os bandos dispersam-se, retiram-se. Resta-lhe, ainda, a esperança de atirar aos jacarés e narra:</p>
<p>Quis o patrão que fizesse eu a praça de São Mateus. Numa lancha lá cheguei. Poucos negócios fiz. Temendo a viagem por mar resolvi voltar por Linhares e ir a Colatina e, daí, alugando, novamente, animais, transportar-me a Vitória, passando por São João de Petrópolis, e fazendo as praças, de Santa Teresa, e de Santa Leopoldina. Amigos de São Mateus aconselharam-me — &#8216;vá em companhia do estafeta e teve boa arma de fogo. O caminho é ruim, um trilho por debaixo da linha telegráfica que passa através de matas virgens. Há animais ferozes&#8217;.</p>
<p>De fato em certa altura daquele ermo o estafeta gritou: &#8220;uma onça-pintada! Olhe a carniça!&#8221; Apenas de relance pude vê-la. Um veado mateiro, já quase devorado, era a presDSRD Apeei ontem, à tarde, em Linhares, depois de haver passado por não pequenos sustos.</p>
<p>E, hoje, ao partir, um marinheiro avisou-me: &#8220;moço, prepare a carabina para matar jacaré na Ilha das Palmas, e até agora&#8230;&#8221; Nesse momento, de mansinho, aproxima-se do narrador o embarcadiço e cicia: &#8220;Venha comigo, na proa já si inxerga u bichu nu barrero, atire nu meio dele na cabeça não entra bala.&#8221; Para a proa parte, à pressa, o improvisado caçador e, na mesma direção, algazarrando correm outros passageiros: &#8220;moço é aquele bichu escuro cumpridu, ele tá quentandu sol, na cabeça da ia, ele tá dromindu. Vancê atire depressa ante que ele sacordi e vá simbóra.&#8221; Rápido, o cometa engatilha a arma, mas não há o disparo. Esquecera-se de colocar o pente. Gargalhadas espalhafatosas. A algazarra culmina. Tresvariam. Descarregam revólveres. E o caimão escamuge-se.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Avizinha-se o barco da Terra Alta. Da popa enxergam-se, ainda, as cabeças das Ilhas das Palmas, do Travessão, e de outras. As formações ou associações hidrófilas perdem, pouco a pouco, suas principais características e as matas da Terra Alta são <span id="DSRD_RP79V">&#8220;firmes&#8221;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP79" title="João Siegfried Decker, Aspectos biológicos da flora brasileira, p. 602."><sup><b>[ 79 ]</b></sup></a> Não se alagam, periodicamente, como as das ilhas ou das cercanias das margens do rio, a jusante, assemelhando-se, assim, aos igapós do Norte. Filiam-se ao sistema de &#8220;províncias <span id="DSRD_RP80V">florísticas&#8221;,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP80" title="Sistema criado pelo Professor Engler, ampliado pelo Professor Sampaio referido por J. Siegfried, obra citada, p. 612."><sup><b>[ 80 ]</b></sup></a> zona das matas costeiras — opulentas em troncos seculares, lianas, orquídeas, bromélias, pteridófitos, palmeiras, musgos e himenofiláceas.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Desenvolve o &#8220;caixa-de-fósforo&#8221; boa marcha, embora ainda esteja a navegação sujeita a mudanças sucessivas do canal. Renovam-se as paisagens de beleza indescritível. Aqui, bem próximo do barranco, se ostenta um bonito guarabu, ao lado, uma farinha-seca de altura respeitável; distante, dentro da mata, mal revela a ramagem um vinhático de porte elegantíssimo e, a montante, arredada, destaca-se uma ingazeira em flor. E adiante, ainda outra igualmente florida carregada de ninhos de japira. O navio afastando-se do barranco do rio vai rentear um banco de areia. É que o mestre abarruntou, nas forquilhas do ingá, colônias de caçaremas, formigas que vivem segundo afirmam, em simbiose com as vespas ou marimbondos-tapiucabas, cujas picadas causam dores lancinantes e inchação imediata.</p>
<p>Vai-se atracar em um porto de lenha. Dirige-se o barco para ele. Há um desflorestado, uma clareira na mata secular. Canta um galo garboso, atrevido e armado de longos esporões. Rodeiam-no galinhas de cristas coradas. Uma, porém, foge espavorida, resguardando a ninhada de supostos perigos e desaparece no enredado de plantas rasteiras.</p>
<p>Num plano que não é, por certo, atingido pelas águas assoberbadas de enchentes periódicas há um mocambo, uma choupana de paredes de taipa. Apoiada no portal tosco, uma cabrocha, muito moça, amamenta uma criança, enquanto o marido se esfalfa empilhando lenha na embarcação.</p>
<p>Surde no tombadilho uma jovem alourada e bela, de olhos esmeraldinos, empolga-se pelo quadro bucólico, de realidade singular. Esguarda-o.</p>
<p>Vagueia o pensamento, cisma e observa: não é a casinha branca da serra, mas a casinha barrenta do rio. Como são felizes! E aquele galo triunfante, e aquelas galinhas cacarejantes, e o cachorro malhado que rosna de pêlo eriçado! Mas quanta poesia! E quanta ventura que faria inveja a muita gente da cidade!&#8230;</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
— Olá! Peixe, caça! da lagoa da Terra Alta. — Assim oferecem dois mestiços ladinos, robustos e decididos, popeiro e proeiro de uma canoinha que acostam ao navio — traíras, pacas, capivara e um mutum. Entabulam negócio a tripulação e alguns passageiros.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Prossegue a viagem. Estamos agora costeando o núcleo de Moniz <span id="DSRD_RP81V">Freire,</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP81" title="Artur E. M. Torres Filho, O Espírito Santo e seu desenvolvimento econômico, p. 358."><sup><b>[ 81 ]</b></sup></a> distante 27 km de Linhares. Já não há ali vestígios do barracão que abrigou colonos italianos. Toda a área em que foi derribada a mata virgem se transformou em capoeira. Retiraram-se os imigrantes e isso acarretou ao presidente do Estado preocupações, <span id="DSRD_RP82V">aborrecimentos.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP82" title="Idem, ibidem, p. 362."><sup><b>[ 82 ]</b></sup></a></p>
<p>Aceirando a capoeira demoram as grandes árvores que sobrepujam o mato de caboroca. Naquela, piam os inambus, e ouvem-se, neste, os jaós que gemem de contínuo. Lembra esse concerto enternecedor a linda poesia de saudoso e respeitável poeta em que o jaó clama incessante: &#8220;vem cá perdiz!&#8221; e esta responde: &#8220;não! nunca <span id="DSRD_RP83V">mais!&#8221;</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP83" title="D. Aquino Correia."><sup><b>[ 83 ]</b></sup></a></p>
<p>Focalizam-se no barranco do rio os arrulhos das juritis que ameigam, quiçá, os borrachos gulosos, insaciáveis.</p>
<p>No ar trissam as andorinhas em volteios velozes, caprichosos. E, em terra, cricrilam grilos vagabundos, saltitantes, ou aglomerados, em ramos, como se fossem soldados em formatura.</p>
<p>Acerca-se o gaiola do sangradouro da Lagoa do Limão. Depara-se ao observador nos arredores desse riacho de curso intermitente, floresta opulenta, altaneira, frondosa e de viço espantoso que lhe é infiltrado por solo fertilíssimo, de umidade sobejante, e por temperatura adequada que lhe estimula crescimento assombroso, gigantesco.</p>
<p>Foi, por certo, diante de quadros como esse, que C. F. Hartt proclamou jamais ter visto, nem mesmo no Pará, floresta mais exuberante do que a do Rio <span id="DSRD_RP84V">Doce.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP84" title="Charles Frederico Hartt, Geologia e Geografia física do Brasil, p. 120."><sup><b>[ 84 ]</b></sup></a></p>
<p>Distingue-se na ribanceira um manacá em flor, cujo perfume, à noite, excede o das cássias que o rodeiam e o das orquídeas acavaladas nas dicotomias daqueles troncos verticais.</p>
<p>Extenuados os passageiros dormiam, enquanto não lhes servem o café. Assusta-se um socó-boi, esvoaça e lá se vai, rio acima, emitindo sua voz berrante.</p>
<p>Vislumbra-se, à direita, numa praia de forma curva, um bando de garças-brancas. Algumas mariscam na água rasa e andam ou passeiam garbosas, elegantes. Outras mantêm-se imóveis, repousam ou, talvez, estudem como os quartaus nordestinos no linguajar do matuto.</p>
<p>Está perto a foz do Rio Pau Gigante. Ouvindo o ruído do motor da embarcação mutuns alvoroçados esgarabulham através da ramagem dando a seu modo, pios roufenhos, abafados, e amoitam-se. Atento o caçador panema de jacarés aparece empunhando a carabina reluzente, mas não lhe foi, ainda, possível estreá-la. Os vultosos galináceos já se haviam embrenhado.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Transposto o Rio Pau Gigante ficam, atrás, as lagoas vizinhas das margens do Rio Doce e, à esquerda, situa-se o Morro do Feijoal, de constituição arqueana. Morre ele no rio, começando a vegetação xerófila, que o reveste, pouco acima da marca da máxima enchente, e à medida que se vence o clivo rochoso e enrugado do elipsóide, beijado pelas águas em borbotões, encontram-se tipos vegetais que bem caracterizam as famílias das bromeliáceas, cactáceas e outras. Aqui são caules reduzidos dos caraguatás conchegados, protegendo-se, de folhas lanceoladas com acúleos recurvos nos bordos, adiante moitas de xiquexiques, de pêlos eriçados, hirsutos, além, e por toda parte, arbustos tortuosos de galhaça enfezada entrelaçada por sarmentos espinhentos de folhas urticáceas.</p>
<p>Transforma-se a topografia da região percorrida pelo rio e este apresenta, de quando em quando, estirões francamente navegáveis. Vão-se rareando as ilhas, embora ele continue largo, e apareçam ainda bonitas coroas freqüentadas por aves aquáticas e crivadas de rastros de capivaras, de veados, de onças&#8230;</p>
<p>Perdem as ilhas sua portentosa vegetação, que arranca de Gastão Cruls, na A Amazônia que eu vi, descrevendo um trecho do Cuminá os períodos abaixo:</p>
<p>O rio, logo à saída dos Porcos, é bastante largo e alegram-no ilhas de vegetação possante. Lembro-me de um trecho do Rio Doce que percorri em 1925, e cujas belas perspectivas jamais se apagaram de meus olhos.<br />
Como a manhã está muito clara, as massas de vegetação destacam-se em vários planos e há um quê de cenário teatral nesses amplos panos de verdura e bambolinas muito verdes recortadas sobre o azul do céu.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Adentrando-se no Morro do Feijoal para leste, para o norte ou para oeste — sucedem-se, coroadas por matagal vigoroso, colinas, por entre as quais há grotas que terminam em córregos humildes.</p>
<p>Suas águas murmurejam ruídos que se casam com o leve ciciar das folhas de palmeiras movidas por aragem que se escapa devagarinho, mansamente.</p>
<p>Aí nessas ravinas, nesses vales apertados, nessas rugas da terra, a condensação cresce, a umidade revela-se intensa e a floresta alteia-se ensoberbecida. Viçam as perobas, as sapucaias, os jequitibás, os vinháticos, os guarabus, as copaíbas, os cedros, os ipês, os jacarandás, as braúnas, as canelas, as maçarandubas, as imbaúbas&#8230; Saracoteiam pelas galhaças dessas árvores, micos, sagüis, e guaribas, além de caxinguelês e quatis. De viveza extraordinária, de movimentos rapidíssimos, trepando, correndo, dando saltos admiráveis, os primeiros guincham, assoviam, associam-se nos pulos, vencendo distâncias entre as ramagens dos arvoredos. Mais pesados, fazem os guaribas suas piruetas com menos precipitação, tornando-se notáveis, mormente, pelos seus roncos em que há requebros de voz. Andam em bandos e reúnem-se no momento da orquestração interessante e triunfal. A. Wallace, contrapondo-se à opinião de Humboldt, que explica ser o barulho causado por eles devido à reunião de muitos, afirma:</p>
<p>O ronco que é certamente profundo, volumoso e esquisitamente modulado, é produzido por um só indivíduo; pois, prestando-se muita atenção à rapidez com que pára e começa outra vez, evidencia-se que o ronco é produzido por um só animal que é quase sempre um macho <span id="DSRD_RP85V">idoso.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP85" title="Os Símios da Amazônia, citação de Rocha Pombo, Vol. 1, p. 527."><sup><b>[ 85 ]</b></sup></a></p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Nas matas do Rio Doce o bugio, o guariba, ou o barbado estadeia o seu ronco com orgulho, com ritmo inigualável, com o mesmo e soberano desembaraço que o touro curraleiro, caracu, ou pé-duro solta o seu berro com garbo e com arrogância desmedida, no Pico da Bandeira, como testemunhamos em 1911. Um blasona da copa da árvore mais alta do Brasil, o outro brame do cume da serra mais elevada.</p>
<p>O caxinguelê é um mimo das matas. É um roedor da família dos ciurídeos, também chamado caxixe, caiteté, cutia-de-pau, papacoco ou quati-coco. No meio das florestas passa ele das arvoretas para os cipós, e sobe por estes ou pelos caules volumosos até às grimpas.</p>
<p>O quati é um procionídeo. Domestica-se, facilmente, tornando-se buliçoso e até daninho, se ficar solto. É carnívoro e, por isso, não há dificuldade em alimentá-lo.</p>
<p>O caçador inexperiente quando depara com um bando de quatis experimenta, geralmente, surpresas e desapontamentos. Na galhada, nas forquilhas das árvores gigantescas, aí se escondem. Alvejado um, ao disparo da arma caem todos e, após a queda brusca, safam-se. A fuga é desabalada. O imprevisto desaponta. O caçador é chasqueado pelos veteranos. É &#8220;desinfeliz&#8221; na <span id="DSRD_RP86V">caçada.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP86" title="No Espírito Santo é corrente ouvir-se da gente inculta 'desinfeliz' substituindo 'infeliz'."><sup><b>[ 86 ]</b></sup></a> Nessas famosas selvas habitam: queixadas, caititus, veados, cutias, pacas, capivaras, tatus, felinos, tapires, tamanduás, preguiças&#8230; macucos, zabelês, capoeiras, jacus, tucanos, pica-paus, papagaios, araras, periquitos, lagartos, cameleões, jabutis&#8230; cobras várias, destacando-se entre as venenosas, a jararaca, o jararacuçu, o surucucu pico-de-jaca&#8230;</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
denominado Boa <span id="DSRD_RP87V">Vista.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP87" title="Em 1912 o autor ocupou a casa quando explorou a Estrada de Ferro Santa Cruz. Depois fundou o Cel. Pego uma fazenda. Nas imediações está edificada a estação de Maria Ortiz."><sup><b>[ 87 ]</b></sup></a> Por detrás, pouco além da choupana, jaz, aflorada, a rocha gnáissica em forma de laje, atestando o trabalho dos processos naturais dependentes do tempo para produzir o desgaste na superfície.</p>
<p>A bela senhorinha da comparação da casinha branca da serra com a barrenta do rio está fatigada. Olha sem observar o novo quadro quiçá mais realístico. Além do galo vitorioso, das galinhas amorosas, do cão mosqueado, há a porca deitada grunhindo feliz, dando de mamar aos bacorinhos, que gulosos se fartam, pouco a pouco. Só um não acerta com uma teta túrgida que o farte. Para este a luta pela vida é desesperante. Ele é o fraco, o perrengue, o doente, o languento, o condenado enfim.</p>
<p>O navio demora em retomar à rota. O empilhamento da lenha a bordo está custando. A tripulação esbofa-se nesse trabalho, mas a pilha, em terra, está retirada. Ilumina o sol os cabeços ou os torreões das nuvens no poente e dele se vai aproximando. O mestre inquieta-se, gunguna de zanga e, finalmente, desabafa contra o empreiteiro, o tirador de lenha:</p>
<p>— Deixa a famía, muié e fios, aqui nesta bera do riu i vai pra lagoa du Pau Gigante pescá, caçá&#8230; Lá apanha tremedera e tá agora na tarimba istiradu gemendu, quenti cumo boca di chalera&#8230; i a viagi qui satrasi pru fartá ele na fila da axas&#8230; Aqueli, demonhu daquele marinheru, o Antônhu, tõbem tá duenti ou fíngi&#8230;</p>
<p>No fim do inverno o Rio Doce é salubre, ficando as vizinhanças de suas margens cobertas de matas espessas, escuras. Nas lagoas, cercadas pelo matagal, de beiradas pantanosas, porém, os anófeles não desaparecem de todo, e nos ranchos de pescadores lá estão eles sequiosos nas palhas da coberta. Anseiam pela chegada fortuita do incauto, para dar-lhe as boas-vindas ferretoando-o e deixando-lhe incubada a infecção palustre.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Fartamente abastecido de combustível, continua o barco o seu roteiro. Alcança o Rio Baunilha e em seguida a fazenda de Santo Antônio. A essa hora o sobrado, sede da fazenda, projeta uma sombra alongada. Os raios solares nele incidem obliquamente. Começa a avermelhar-se o ocidente.</p>
<p>No campo de grama baixa, muito tosquiada pelos animais, em bandos, rolinhas ciscam. Revolvem excreções à cata de resíduos não digeridos que as alimentam. Na orla da capoeira fina, existente na ribanceira do rio, anus-brancos, ariscos, assustados, fogem gritando, lamentam-se soltando ais, enquanto os pretos encarapitados nas vacas de úberes cheios as acariciam. Quieto, encolhido no topo de uma braúna seca, um gavião-pega-pinto espreita o esgaravatar de uma galinha com a ninhada, e aguarda o retarde ou a perdida de um pintinho descuidado para acertar o bote.</p>
<p>É pequena a detença do navio em Santo Antônio e ele prossegue desviando a direção para evitar um <span id="DSRD_RP88V">&#8220;revés&#8221;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP88" title="No Rio Doce o 'revés' é o trecho do rio em que as águas correm com celeridade. É a corredeira, a carreira, o rápido, a corrida."><sup><b>[ 88 ]</b></sup></a> Livre desse escolho, cai no canal em que a navegação é desembaraçada até abicar em Porto Alegre, fazenda próspera do Sr. Virgínio Fernandes. Olhando, rio acima, depara-se o sol, grande esfera rubra, que então, fracamente cintila. Já se aproxima do ocaso mergulhado num longo esbatido em que o vermelho se vem desmaiando, quase, até ao zênite. A viração encrespa, ligeiro, às águas, e reflete nelas um quadro amplo e magnífico. Parece o rio com uma colossal sucuri que expele do seu dorso ondulações coloridas em cambiantes de rubi, estacando em faixas escurentadas pelo crepúsculo iminente, nas proximidades dos barrancos.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Saltou a maioria dos passageiros para visitar o estabelecimento comercial do Sr. Virgínio.</p>
<p>Depois da descarga e do carregamento feitos à pressa, está pronto o navio para partir. O mestre apita. O lusco-fusco está chegando. Fretine uma cigarra pousada no limoeiro da ribanceira perto da proa da embarcação. Cantam os galos despedindo-se do dia. Correm os carneiros balando e refugiam-se no telheiro. Berram as vacas porque se separam das crias e, até o jumento orneja, espetacularmente. Ladra a canzoada aos viajantes que embarcam e, do outro lado, na margem esquerda do rio, dentro da mataria o macuco vozeia seu pio longo e aflautado, o bando de capoeiras guizalha, abafadamente; o mutum e o guariba roncam, cada qual a seu jeito. Vai-se fazendo ao largo o navio, e &#8220;apresentam despedidas&#8221; gansos nervosos e audazes, e, bem junto da água, estridulam grilos e coaxam rãs. No morro, os casais de saracura desmandam-se em cantarolar: &#8220;três potes, três potes, três potes&#8230; um coco, um coco, um coco&#8230;&#8221;</p>
<p>No dizer do poeta &#8220;já toda a terra <span id="DSRD_RP89V">adormece&#8221;.</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP89" title="Olavo Bilac."><sup><b>[ 89 ]</b></sup></a> É a hora de brilharem as estrelas, no céu, as quais ele ouvia e, também, a dos luze-luzes nômades, na terra, a que ele se referiu na expressiva quadra:</p>
<p>&#8220;A flor da noite abre o cálice&#8230;<br />
E, soltos, os pirilampos<br />
Cobrem a face dos campos<br />
Enchem o seio dos vales.&#8221;</p>
<p>A lua esparge seus raios enfraquecidos sobre o leito do rio. As florestas seculares vão entrar na calada da noite, no quiriri misterioso de seu domínio indevassável. No alto, no firmamento, apenas lucilam alguns astros. E o mestre com perícia extraordinária governa o barco acautelando-se contra os reveses. Na mudança do roteiro aproxima-se ora de uma, ora de outra margem. Afugentam-se bramando veados, capivaras&#8230; Nas coroas, nas praias, lobriga-se, raramente, o tremeluzir do fogo do rancho de um caçador ou pescador.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
Um bando de quero-queros grita em uma praia, desesperada, estridentemente. Ao ouvirmos, naquela hora em que a mata do rio parece povoada de duendes, o alarido da ave importuna, recordamo-nos de nossa infância, quando nos campos de Santo Antônio, no Rio de São Mateus, íamos com o vaqueiro campear, e éramos assediados nas malhadas pelos seus protetores — os quero-queros. Eram ameaçadores e temíamo-los receando suas bicadas de tão perto que passavam sobre nós em vôos rápidos e arrojados.</p>
<p>Olivério Pinto, o grande comentador da Viagem ao Brasil, de Maximiliano, Príncipe de Wied-Neuwied, escreveu de modo especial na Revista do Museu Paulista sobre essas aves, que se revelam nas estâncias do Rio Grande do Sul vigilantes e angustiadas — verdadeiros gansos do <span id="DSRD_RP90V">Capitólio</span><a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP90" title="Wolfgang Hoffmann Harnisch, O Rio Grande do Sul, p. 271."><sup><b>[ 90 ]</b></sup></a> — e que têm o seu grito realçado no belo soneto de Vargas Neto:</p>
<p>&#8220;QUERO-QUERO&#8221;</p>
<p>Que é que tu queres, quero-quero. Implico<br />
Com teu grito, que aos tímidos maneia,<br />
Pois vêem fantasmas, de que o pampa é rico,<br />
Quando tu gritas numa noite feia.</p>
<p>Aborrecido quando te ouço, fico,<br />
E uma grande saudade me esporeia,<br />
Porque dizem que gemem em teu bico<br />
Os gaúchos que morrem na peleia.</p>
<p>És a ronda do pampa com teu bando&#8230;<br />
A noite toda passas denunciando<br />
Cruzada de viajante ou de índio vago.</p>
<p>E os mistérios das lendas entropilhas<br />
Quando gritas nas dobras das cochilhas<br />
Sentinela perdida do meu pago.</p>
<div style="text-align: center;">
* * *</div>
<p>
&#8220;Barbados! Ilha dos Barbados!&#8221; Exclamam. Os passageiros querem distingui-la, ao tempo em que o navio passa em canal estreito coleando entre a ilha, que é um penedo revestido de rala vegetação, e o barranco direito do rio de rocha compacta e de forte aclive. Mais um estirão de boa navegabilidade e o gaiola atinge a foz do Rio Pancas. O mestre apita uma e mais vezes e aproa para Colatina. Fez-se a viagem em treze horas e meia.</p>
<p>Muita gente aguarda o atracar do vapor; e de terra vem a pergunta: — Qual o motivo de tamanho atraso?</p>
<p>— Atrasaram-na os sequeiros, as demoras nas tomadas de lenha e, depois, anoiteceu e o mestre veio com muito cuidado. Treze e meia horas de lutas, mas tudo correu bem. Viagem boa, divertida.</p>
<p>Desembarcam os passageiros: cumprimentos, abraços, apresentações e oferecimentos de hospedagem. A hospitalidade, espírito-santense culmina. D. Andrélina Pereira, a professora, de bondade extrema recebe, fidalgamente, famílias amigas e as que lhe são apresentadas. Imitam-na outros moradores de Colatina.</p>
<p>_____________________________</p>
<h4>
NOTAS</h4>
<p></p>
<div id="DSRD_RP72">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP72V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 72 ]</b></sup></a>&nbsp;Rocha Pombo, Vol. I, p. 502; Rocha Pombo, Vol. I, p. 50. Por Wappoeus, citação de Rocha Pombo, Vol. I, p. 502.</div>
<div id="DSRD_RP73">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP73V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 73 ]</b></sup></a>&nbsp;Angyone Costa, <i>lndiologia</i>, p. 255.</div>
<div id="DSRD_RP74">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP74V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 74 ]</b></sup></a>&nbsp;Gladstone Chaves de Meio, <i>A Língua do Brasil</i>, p. 89. Depois de se referir a Florival Sereine, respiga: &#8220;Assim, não haverá no rigor do termo, um dialeto gaúcho, um dialeto fluminense, paraense etc., mas tão-só alguns fatos isolados peculiares a esta ou àquela região e ausentes em outras.&#8221;</div>
<div id="DSRD_RP75">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP75V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 75 ]</b></sup></a>&nbsp;Euclides da Cunha, <i>Os sertões</i>.</div>
<div id="DSRD_RP76">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP76V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 76 ]</b></sup></a>&nbsp;A Ilha das Palmas é uma das mais notáveis do Rio Doce.</div>
<div id="DSRD_RP77">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP77V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 77 ]</b></sup></a>&nbsp;Gastão Cruls, <i>A Amazônia que eu vi</i>, 1931.</div>
<div id="DSRD_RP78">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP78V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 78 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Verde, Alaranjado e Roxo</i>, F.T.D., 3.a série colegial, p. 198.</div>
<div id="DSRD_RP79">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP79V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 79 ]</b></sup></a>&nbsp;João Siegfried Decker, <i>Aspectos biológicos da flora brasileira</i>, p. 602.</div>
<div id="DSRD_RP80">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP80V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 80 ]</b></sup></a>&nbsp;Sistema criado pelo Professor Engler, ampliado pelo Professor Sampaio referido por J. Siegfried, obra citada, p. 612.</div>
<div id="DSRD_RP81">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP81V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 81 ]</b></sup></a>&nbsp;Artur E. M. Torres Filho, <i>O Espírito Santo e seu desenvolvimento econômico</i>, p. 358.</div>
<div id="DSRD_RP82">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP82V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 82 ]</b></sup></a>&nbsp;Idem, ibidem, p. 362.</div>
<div id="DSRD_RP83">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP83V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 83 ]</b></sup></a>&nbsp;D. Aquino Correia.</div>
<div id="DSRD_RP84">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP84V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 84 ]</b></sup></a>&nbsp;Charles Frederico Hartt, <i>Geologia e Geografia física do Brasil</i>, p. 120.</div>
<div id="DSRD_RP85">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP85V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 85 ]</b></sup></a>&nbsp;<i>Os Símios da Amazônia</i>, citação de Rocha Pombo, Vol. 1, p. 527.</div>
<div id="DSRD_RP86">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP86V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 86 ]</b></sup></a>&nbsp;No Espírito Santo é corrente ouvir-se da gente inculta &#8220;desinfeliz&#8221; substituindo &#8220;infeliz&#8221;.</div>
<div id="DSRD_RP87">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP87V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 87 ]</b></sup></a>&nbsp;Em 1912 o autor ocupou a casa quando explorou a Estrada de Ferro Santa Cruz. Depois fundou o Cel. Pego uma fazenda. Nas imediações está edificada a estação de Maria Ortiz.</div>
<div id="DSRD_RP88">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP88V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 88 ]</b></sup></a>&nbsp;No Rio Doce o &#8220;revés&#8221; é o trecho do rio em que as águas correm com celeridade. É a corredeira, a carreira, o rápido, a corrida.</div>
<div id="DSRD_RP89">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP89V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 89 ]</b></sup></a>&nbsp;Olavo Bilac.</div>
<div id="DSES_RP90">
<a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/#DSRD_RP90V" title="Clique aqui para voltar"><sup><b>[ 90 ]</b></sup></a>&nbsp;Wolfgang Hoffmann Harnisch, <i>O Rio Grande do Sul</i>, p. 271.</div>
<p>
<span style="font-size: 12.8px;">[Reprodução da primeira edição publicada pela Livraria e Editora José Olympio, Rio de Janeiro, em 1959, como parte da Coleção Documentos Brasileiros. Publicado originalmente no site em 2004.]</span></p>
<blockquote class="tr_bq"><p>
<b>Ceciliano Abel de Almeida</b>&nbsp;(autor) foi engenheiro da Estrada de Ferro Vitória a Minas, tendo trabalhado nos primórdios de sua construção, sendo também responsável por importantes obras de infraestrutura no Estado. Foi o primeiro prefeito de Vitória, ES, professor de ensino secundário no Ginásio Espírito Santo e primeiro reitor da Universidade do Espírito Santo, quando de sua fundação como instituição estadual.</p></blockquote>
<p>O post <a href="https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/">O desbravamento das selvas do Rio Doce (Memórias) &#8211; Rio Doce III</a> apareceu primeiro em <a href="https://estacaocapixaba.com.br">Estação Capixaba</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
					<wfw:commentRss>https://estacaocapixaba.com.br/o-desbravamento-das-selvas-do-rio-doce_14/feed/</wfw:commentRss>
			<slash:comments>0</slash:comments>
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>
